Cartilha Mova - Movimento de Educação de Adultos

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Cartilha Mova - Movimento de Educação de Adultos

  1. 1. " Não nasci marcado para ser um professor assim (como sou). Vim me tornando desta forma no corpo das tramas e na reflexão sobre a ação, na observação atenta a outras práticas, na leitura persistente e crítica. Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte." Paulo Freire Acompanhe as lutas e realizações do mandato do vereador Chico Macena Acesse: www.chicomacena.com.br Expediente Publicação do mandato do vereador Chico Macena. Texto: Marilu André e Diane Costa Fotos: Henrique Boney Arte e diagramação: All Win Gráfica: LWC Tiragem: 2.000 "Se não posso de um lado, desestimular os Entre em contato: Escritório Político Parque São Lucas sonhos impossíveis, não devo, de outro, Câmara Municipal de São Paulo Rua Domingos Pires Brito, 20 - Altura do n°1800 da Av Oratório Viaduto Jacareí, 100 - Sala 418 - 4º andar - CEP 01319-900 Parque São Lucas - CEP 03262-030 negar a quem sonha o direito de sonhar." Fone: (011) 3396-4236 Fone: (011) 2154-1863 Paulo Freire E-mail: faleconosco@chicomacena.com.br E-mail: escritoriopolitico@chicomacena.com.br
  2. 2. Chico Macena Esta semana eu senti a presença do Paulo Freire em duas situações. Uma delas foi durante uma visita que fiz a Escola Campos Sales, em Heliópolis. Lá participei do ato de derrubada do muro que separava a favela da escola e os professores de lá diziam: “Há algum tempo nos derrubamos a barreira imaginária desta escola e agora o que a gente esta fazendo neste ato é derrubar o muro, a barreira física, porque nós percebemos que só a barreira imaginária não foi suficiente para aproximar a escola da comunidade”, e o diretor da escola completou “os princípios que o Paulo Freire sempre pregou foi: a educação próxima da realidade, a educação feita pela comunidade”. Outra ocasião que também me fez sentir Paulo Freire foi durante uma visita que fiz a Cohab Raposo Tavares, onde será inaugurada uma Escola Técnica Estadual. Neste local aconteceu um ato durante a audiência pública, em que os moradores daquele bairro que conquistaram a escola por meio da luta do movimento apresentaram duas reivindicações: que a comunidade participasse da gestão da escola discutindo os cursos, o programa curricular e que os moradores da Raposo Tavares tivessem direito a estudar na escola que lutaram para conquistar. Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido Durante a sessão solene o vereador Chico Macena selecionou um vídeo com o depoimento do educador Paulo Freire sobre os 21 anos da pedagogia do oprimido. Veja alguns trechos do discurso: "A educação para mim é tudo, uma ótica de liberdade a minha amorosidade, meu gosto e necessidade da liberdade. Não da licenciosidade, porque quando eu me perco contra o autoritarismo, eu não faço concessões à licenciosidade, por isso, mesmo eu sendo contra o autoritarismo, no fundo o que eu quero é a tensão entre a autoridade e a liberdade, não a autoridade ou a só liberdade. O que eu vivo é a tensão entre as duas, que me faz livre, faz com que eu brigue pela liberdade. É a liberdade do estar sendo com os outros, de mudar, recriar e fazer o mundo. (...) O ser da educação (educador) tem que ver com conhecimento, "Se é verdade que a educação, política, ética e estética. Vale dizer em outras palavras que não há sozinha não tem possibilidade prática educativa sem a ideologia do que fazer para que o educador e de construir uma cidadania os educandos se envolvam em diálogos pelo conteúdo, se envolvam ativa e uma democracia na busca da decifração. O que é ensinar, ensinar não é fazer discurso participativa, também é verdade sobre o perfil do conteúdo, mas é propor ao educando uma que sem ela não se constrói aproximação gnosiológica, ao conteúdo em relação ao objeto do conhecimento". uma cidadania ativa e uma democracia participativa". 15
  3. 3. Um pouco da vida e do pensamento de Paulo Editorial Freire Este material foi elaborado para registrar os relatos das importantes Lutgardes Costa Freire - Filho de Paulo Freire personalidades que compareceram na sessão solene em Comemoração ao 20º aniversário do Mova-SP (Movimento de Alfabetização de Jovens e Antes de 1964, quando o meu pai criou o método de alfabetização de adultos, junto Adultos), que aconteceu em outubro de 2009, na Câmara Municipal de com a minha mãe e um grupo de educadores, o Brasil tinha em mãos a São Paulo. Dentre os objetivos do material estão: possibilidade de diminuir, não de erradicar completamente, mas de diminuir drasticamente o número de analfabetos. Registrar o aniversário de 20 anos do Mova focando personagens e seus diversos momentos, além de valorizar o tempo que viveram e suas Naquela época, existia no Brasil uma capacidade, um método, vontade política contribuições, bem como fortalecer as pessoas que estão, ainda hoje, no e uma vontade doida de trabalhar para que isso acontecesse. O próprio processo deste programa, nos diversos segmentos; presidente João Goulart escreveu uma carta, fez um decreto regularizando o método de alfabetização Paulo Freire no País. O Brasil tinha, naquela época, em Divulgar a história deste projeto, suas memórias, mudanças e caminhos, mãos uma oportunidade fantástica de reduzir o número de pessoas que não sabiam durante esses 20 anos; ler nem escrever, mas a vinda do golpe de Estado fez com que meu pai fosse preso, então por isso, que eu digo que a Educação é política. (...) Valorizar a coragem dos participantes do Mova, que muitas vezes tem que vencer as barreiras do preconceito; Mas veja só a ironia, meu pai preso em 64, no Recife, depois do golpe de Estado, e de repente chega o tenente na cela dele e diz: -Professor Paulo Freire, o senhor alfabetiza os Por fim homenagear Pedro Pontual atual secretário de Participação de camponeses. Ele respondeu sim. -Sabe o que é professor, tem um monte de recruta que esta entrando Embu das Artes, designado por Paulo Freire, junto com as organizações para a polícia que é analfabeto, será que o senhor não poderia dar umas aulas para eles, alfabetizá-los? E o meu pai sociais atuantes na educação de adultos, na discussão e construção deste abismado respondeu: -Mas meu filho, eu estou aqui justamente por isso. projeto no ponto inicial em 1989. Paulo Freire sempre foi muito sensível as pessoas e se preocupava com a maneira que se referia a elas, tanto que ele as chamava de educandas e educandos, não de analfabetos. Compuseram a mesa da solenidade: Marina Inácia Bernardo - Educadora Instituto Paulo Freire: Moacir Gadotti Secretário de Participação de Embu das Artes: A preocupação de Paulo Freire com os direitos das pessoas, sempre esteve Pedro Pontual presente. A educadora Marina lembra uma visita feita por ele em sua região. Filho de Paulo Freire: Lutgardes Costa Freire Uma vez eu acompanhei a visita de Paulo Freire a uma escola localizada em Representante do Fórum Municipal do MOVA-SP: São Mateus, Zona Leste, em que os alunos eram tratados como marginais. Ele Iraci Ferreira Leite chegou até o local e disse para a diretora: - Eu quero uma biblioteca, uma Educadora: Ivanir Nogueira Barros geladeira de qualidade (porque não tinha freezer) e também uma quadra para esses alunos, e a primeira providência que vocês terão que adotar, é tirar Educanda: Maria Vanda dos Santos imediatamente essas janelas e colocar janelas dignas, para que amanhã esses Vereador Alfredinho alunos não precisem ir para o Mova. Vereador Chico Macena Vereador Eliseu Gabriel 14 03
  4. 4. A sessão Solene O significado do logo do Mova Difícil foi encontrar quem não se emocionou na sessão Danilo Claudino - Criador do logo solene em homenagem aos 20 anos da história do Mova (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), que Ainda não sou educador, mas sou uma das pessoas que construiu aconteceu dia 22 de outubro de 2009, às 19 horas, na o logotipo do Mova, que foi elaborado por meio da união de toda Câmara Municipal de São Paulo. O evento teve como comunidade. Ele é a idealização de 20 anos de história e proponente os vereadores Chico Macena e Eliseu Gabriel. memórias que construíram o que realmente o projeto representa na sociedade. O grande homenageado da noite foi o educador Paulo Freire, responsável pela criação do Mova, que acreditou Eu tentei criá-lo e padronizá-lo de uma forma nacionalista, com no potencial dos movimentos sociais e na possibilidade de as principais cores da bandeira do Brasil. Foram utilizadas as parceria e co-responsabilidade do poder público, na época cores azul, amarelo, verde e branco, pois para mim é uma honra em que assumiu o cargo de secretário de Educação em fazer parte da nação brasileira. Os dois indivíduos que criei, não 1989, no governo da prefeita Luiza Erundina. são apenas bonequinhos: o verde representa o adulto e o amarelo o jovem. Quando os dois indivíduos batem a mão, simbolizam a Outra grande personalidade homenageada no evento foi luz que surge na escuridão, o conhecimento. Pedro Pontual, um dos precursores do Mova, o qual foi destacado pela sua influência na formação política do O logo foi inspirado na música da apresentação do Mova, que se vereador Chico Macena. O parlamentar ressaltou ainda, a refere com muita clareza que o conhecimento é a luz iluminando importância da comemoração dos 20 anos do Mova e a escuridão como uma estrela. elogiou por meio da educanda Maria a coragem, das educandas e dos educandos que, na maioria das vezes, precisam romper a barreira do preconceito e as dificuldades para ir atrás do seu direito, não só de ler e Hino do Mova escrever, mas também de ter acesso ao conhecimento e com isso abrir uma porta muito grande, numa perspectiva diferente. Macena parabenizou as educadoras e os educadores pela militância em manter os princípios e os direitos Hino do Mova Brasil de seus alunos, e em manter vivo aquele que sempre os iluminou nesta tarefa: o mestre Paulo Freire. “(...) Quero cumprimentar vocês educadores e educadoras Vamos ler o mundo que nestes 20 anos resistiram, porque acreditam na E escrever o mundo causa, e muitas vezes não são reconhecidos, nem valorizados, situação que permanece neste governo. E juntos fazer O que movem vocês neste trabalho é crença em suas A nossa história acontecer! tarefas, é ter isto como a concepção de vida. Parabéns a todos educadores do Mova que mantém este processo vivo”, disse o vereador Chico Macena. Acontece que o movimento cresce, É um ato plural e coletivo, A sessão foi marcada por reivindicações e depoimentos de luta, construção e história do Mova- É a luta de homens e mulheres, SP, por meio dos integrantes da mesa e dos Paulo Freire pra sempre estará vivo! depoimentos de Marina Inácia Bernardo (região Leste I), Maria Muniz (região Sul) e Francisco de Assis Ferreira, Chico (região Leste II). Danilo Conquistar o direito da escrita, Claudino (região Sul) explicou a criação do logo do Da leitura é tornar-se cidadão movimento. O evento contou também com a execução do Hino do Mova Brasil – autoria de Que transforma, que fala de política, Almino Henrique, com as intervenções artísticas de Que critica e que faz revolução! Mauro Queiroz (região Sul) e do cantor e poeta Costa Senna. No final do evento, houve a apresentação de Autor: Almino Henrique um vídeo com trechos da fala do Paulo Freire, gravado em 1990 sobre 21 anos da Pedagogia do Oprimido. 04 13
  5. 5. Reivindicações e desafios Um pouco da história do Mova-SP Francisco de Assis Francisco de Assis Ferreira – Presidente fundador do Centro de Educação da Zona Leste É triste saber que a verba financeira de um núcleo de alfabetização aqui na cidade é muito abaixo do necessário. O valor do núcleo de Desde 1987, já existiam em São Paulo, práticas de movimentos sociais alfabetização é de R$ 852 e ainda tem o desconto de 5% do ISS, com educação de jovens e adultos. Quando cheguei na zona leste, com um esse é o investimento de uma sala de aula do Mova. Neste valor grupo de pessoas organizamos o movimento de alfabetização, com apoio está incluso o salário do educador, o custo do material da Fundação EDUCAR. O grupo passou por uma série de dificuldades pedagógico, da água, da luz daquele núcleo entre outras questões. principalmente financeira e a falta de empenho governamental. É preciso que se faça o investimento na educação, principalmente em projetos como este. O motivo de se manter naquela organização era exatamente o fato de que as pessoas envolvidas naquele trabalho, por parte dos alunos, não Pedro Pontual queriam apenas aprender a ler e escrever, elas também queriam participar efetivamente das questões sociais, se envolverem, ter acesso à cidadania. A Em primeiro lugar, a sociedade passou por uma profunda mudança nesses últimos 20 anos: a realidade do mercado busca de um núcleo de alfabetização era exatamente para viabilizar essa de trabalho, o desemprego, a precarização do serviço, o surgimento de novas formas de geração de trabalho e renda. possibilidade. Os educadores e educadoras sentindo essa energia se Eu penso que estas situações nos colocam sob desafio de, cada vez mais, associar os programas de alfabetização e mantiveram no programa durante um período como voluntários. pós-alfabetização a um programa de qualificação profissional para essa nova realidade do mercado. A conjuntura política que a cidade de São Paulo vivia, na época da prefeita Luiza O programa de qualificação profissional precisa preparar o aluno para enfrentar esta nova complexidade do Erundina, era favorável aos trabalhos desenvolvidos pelos movimentos sociais, uma vez mercado de trabalho que incorpora as novas formas de geração de trabalho e renda, economia solidária, agricultura que o compromisso assumido pela prefeitura era de um governo educador, que procurava romper o muro e a familiar e todas essas práticas. distância que havia do cidadão com o governo e trazer a população para efetivamente participar. O segundo desafio é implantar a ideia que o Paulo Freire sempre insistia, de que para ocorrer à alfabetização Do grupo de alfabetização da Zona Leste foi formada uma comissão que foi até a Secretaria de Educação. Por meio verdadeiramente é preciso criar um ambiente alfabetizador, e nós vivemos ao longo desses 20 anos com profundas desta comissão tive a oportunidade de conhecer Moacir Gadotti, Pedro Pontual e Paulo Freire, uma pessoa mudanças no campo da tecnologia da informação e da difusão do conhecimento, que nos obrigam a repensar o extraordinária dentro da sua profunda humildade. Mova nessa conjuntura, indissociável de uma proposta de inclusão digital: de acesso às redes e as pontes múltiplas de conhecimento, que nós temos hoje e, sobretudo de associar este movimento a um conjunto de ações e de Eu lembro como se fosse hoje. Paulo Freire chama Pedro Pontual: - Por favor, venha aqui, venha conhecer esses programas culturais que permitam fazer do Mova este espaço também de constituição e reconstituição permanente meninos. Eu gostaria que você conhecesse o trabalho desses meninos lá na Zona Leste. A partir deste momento, da identidade dos setores populares. senti que estávamos começando a participar de um projeto maior do que aquele Movimento da Zona Leste. Pedro Pontual e o Paulo Freire foram por diversas vezes visitar o movimento. Maria Muniz (Mara) O que eu sei é que havia muitas experiências na Cidade de São Paulo Nós vamos aprendendo com a caminhada, também aprendemos a lutar por essa educação que merece destaque e ser semelhante aquela que realizávamos na Zona Leste e a Secretaria da cada vez mais pungente dentro de uma política pública. Nós estamos diante de uma situação nova, como a que Pedro Educação se envolveu neste trabalho que resultou o Mova. Pontual cita, é uma realidade que exige dos Governos políticas públicas para que isso aconteça de maneira mais apropriada. Eu me lembro de um primeiro encontro no Colégio Madre Cabrine, que durou um dia inteiro. A Secretaria de Educação ajudou a trazer para um mesmo espaço diversas experiências envolvidas com a educação de Iraci Ferreira Leite adultos. A partir dessas conversas foi marcado outros encontros de onde nasceu o Fórum Municipal de Alfabetização de Adultos, um espaço dos Talvez daqui há 20 anos, nós nos reunamos não só para discutir sobre a educação de adultos, mas para discutir movimentos sociais que ali se fazia presente e a administração também. qualquer direito relacionado a educação que for negado, pois este é nosso papel enquanto movimento. Então o Mova nasceu desta conversa, desta construção, deste processo. A Câmara Municipal de São Paulo tem certa cumplicidade com a história do MOVA. O lançamento do programa aconteceu no dia 29 de outubro de Mauro Queiroz - Integrante da coordenação do Mova 1989, porém também foi na Câmara por meio de um decreto em 1993, que o projeto foi extinto para entrar no seu lugar um programa que já nasceu Precisamos protestar e fazer que a memória de Paulo Freire cresça, cada vez falido, o PROALFA (Programa de Alfabetização). Projeto que depois de mais, em nosso país, pois ela é um patrimônio do Brasil, que não esta sendo oito anos, apresentou-se com 47 núcleos de alfabetização, um número valorizada como deveria e é internacionalmente. O nosso país tem muito abaixo do necessário. O Mova tinha no mínimo 200 núcleos na responsabilidade de fazer com que ele seja conhecido. cidade, no entanto permaneceu sem apoio financeiro, paralelo ao PROALFA. Também foi na Câmara Municipal, no Salão Nobre que o Movimento de Alfabetização de Adultos retomou oficialmente no governo da Marta Suplicy, depois das gestões municipais do Maluf, Pitta. 12 05
  6. 6. Um pouco da história do Mova-SP Pedro Pontual - Secretário de Participação de Embu das Artes Vereador Chico Macena Em 89, era uma conjuntura em que setores do movimento popular e Eu tive a oportunidade de acompanhar o governo da prefeita social, que lutaram durante todo período de Ditadura Militar dos Luiza Erundina e posso dizer que ele era realmente educador, anos 70, 80; chegavam ao Governo da Cidade de São Paulo e o não só nos assuntos referentes à educação, como também, na assumiam, liderados pela prefeita Luiza Erundina, e por Paulo saúde, pavimentação de vias e na relação do orçamento da Freire como secretário Municipal de Educação, além de todo cidade. outro corpo de secretários e secretárias, que constituíram naquele momento a prefeitura. A prefeitura daquela época envolvia a população na discussão e procurava romper o muro e a distância que havia do Cidadão Quando Paulo Freire assumiu a Campanha Nacional de com o Governo, a fim de trazer a população para efetivamente Alfabetização no Ministério da Educação no Governo João participar. Goulart, ele afirmou que aquela experiência deveria ser conhecida, mas nunca ser levada como modelo, porque como o próprio Paulo Freire dizia as condições históricas de 64 para 89 eram outras, a época era de Ditadura Militar. Vereador Alfredinho Houve diversas mudanças: tivemos um início de um processo de democratização, alterações no plano econômico social, Eu quero parabenizar todos vocês por este trabalho, que aliás se espalhou cultural. Já a conjuntura em que nós assumíamos o Governo da pelo Brasil inteiro. Existem muitos movimentos educacionais com outros Cidade de São Paulo em 1989 era outra e por isso, o Mova tinha que nomes, mas que trabalham com os mesmos métodos. ser pensado com originalidade, tinha que ser pensado “inventivamente” como gostava de dizer Paulo Freire, de acordo com a O Brasil e o mundo não seria o mesmo se não tivesse pessoas como vocês, leitura da realidade daquele momento e das necessidades que justificavam a que trabalham pelas comunidades, se preocupam e brigam para que cada existência do Mova. educando tenha seu direto. Desse modo, veio o primeiro elemento importante na Cidade de São Paulo, não sabiam ler e escrever por para explicar o surgimento do Mova. Uma gestão completo, esse número por si só elucida o porque da municipal que tinha Luiza Erundina à frente, alguém sua criação. que iniciou sua carreira como educadora de adultos e Maria Muniz (Mara) – Integrante da Coordenação do Mova que tinha Paulo Freire como secretário, gerava uma Assim que assumimos a Secretaria de Educação grande expectativa em torno de uma ação, de um tivemos contato com um programa que já existia na Com o Movimento de Alfabetização nós conseguimos desenvolver um projeto, de uma luta em torno da questão do prefeitura que era o EDA (Educação de Adultos), não trabalho gratificante de resgate e apropriação do conhecimento. analfabetismo na capital paulista. Por outro lado, os sei se continua sendo chamando assim, mas na época movimentos sociais, as organizações populares, o programa estava situado na Secretaria de aquilo que chamávamos de Centros de Educação Assistência Social, justamente porque a concepção Popular, vinha da herança, da época da ditadura. anterior que prevalecia era de que lutar contra o Época que o trabalho de alfabetização foi feito analfabetismo era uma questão de assistencialismo. praticamente como um trabalho de resistência. Paulo Freire para simbolizar a ideia de que “a luta Maria Vanda dos Santos - Educanda Os movimentos, no início dos anos 80, ensaiaram contra o analfabetismo é uma luta pelo direito à uma tentativa de estabelecer parcerias com o estado, educação, à vida”, de comum acordo com a Secretaria Sou moradora da Zona Leste, estudante do Mova há dois anos. É muito até a ocasião, representado no Plano Federal pela de Assistência Social e com a companheira, Marta gratificante para nós que temos dificuldades para ler e escrever ter esta Fundação Educar, e naquele momento essa parceria Campos, que na época ocupava o cargo de secretária, oportunidade. Hoje eu já escrevo e leio. se revelou pouco efetiva, devido os descumprimentos fez a transferência do programa de educação de permanentes das cláusulas que rezavam parceria e adultos da Secretaria de Assistência para a Secretaria Eu tenho uma vizinha, que ria muito da minha iniciativa de começar a carência de recursos. de Educação, de modo que pudéssemos articular um estudar por causa da minha idade, mas eu sempre falei bem do Movimento programa de institucional da rede, um programa do de Alfabetização. Hoje ela também estuda no Mova. É muito bom também Na ocasião em que criamos o Mova, havia uma Mova. conhecer a Câmara e se não fosse esse projeto, eu não estaria aqui, eu só estimativa que cerca de 2 milhões de jovens e adultos tenho a agradecer. 06 11
  7. 7. A importância do programa Os números do Mova e do analfabetismo Iraci Ferreira Leite – Coordenadora do Fórum Municipal do Mova Moacir Gadotti - Presidente do Instituto Paulo Freire É importante ressaltar que a coordenação exerce um papel fundamental na Dia 19 de Setembro de 2009, que por coincidência é a data que cidade de São Paulo para que o Mova não se acabe, desta forma apresento Paulo Freire completaria 88 anos, foi publicada a Pesquisa os que estão presentes na sessão solene representando o Mova nas diversas Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) divulgando a regiões da cidade: Radames Pereira e Sonia Pereira da Zona Norte; Edson existência em torno 600 mil analfabetos na Grande São Paulo. Pardim, Adelino Barreto, Ionilton Aragão, Marina Inácia e Ermelinda Neiva de Castro da Zona Leste; Adão Santos, Maria José Mendes - a Iva e Hoje o Brasil está na rabeira da América Latina. O número de Nado da Zona Oeste; Mauro de Queiroz, Terezinha Dias e Maria Muniz da analfabetismo no país diminuiu somente 0,01%, de 10% para Zona Sul. Estas pessoas e outras, que não puderam estar presentes, ajudam 9.9 %.O número de analfabetismo declarado, sem contar aquele a manter a essência do movimento. aluno que chega até a 5°, 6° série sem saber ler e escrever, se considerarmos estes casos o número é ainda maior. Sem resolver Uma vez me perguntaram, se o Mova não existisse o que seria da Educação este problema, o país não pode pensar em ser a 4° ou 5° maior de adultos? Eu acredito que se este projeto não existisse, haveria menos potência do mundo. homens e mulheres com os seus direitos e deveres de cidadão adquiridos, uma quantidade menor de autônomos para pensar e agir nessa sociedade. Em 2005, o IBGE também colocou para nós dados alarmantes de que apenas 26 % dos adultos acima de 15 anos sabiam ler e Paulo Freire desejava que nos núcleos de alfabetização do Mova fosse interpretar um texto, ou seja, eram 70 milhões de pessoas que desenvolvida uma pedagogia progressista baseada no diálogo. É com esse precisavam ser alfabetizadas. espírito que continuamos no Movimento de Alfabetização. Apesar do Governo Maluf e Pitta ter acabado com o programa, mas não com o nosso trabalho, que permaneceu com ou sem ajuda financeira. Esta pedagogia é tão importante, que hoje recebemos em nossos núcleos de alfabetização alunos que passaram pela escola e não foram alfabetizados, eles freqüentam os nossos núcleos, mas não podem ser contabilizados. São Iraci Ferreira Leite - Representante do Fórum Municipal do alunos que tem um certificado confirmando o termino da oitava série, só Mova-SP que frequentam os nossos núcleos. Existiam 1000 núcleos de alfabetização, no governo da Erundina, Eu lembro que o Paulo Freire se preocupava tanto com a qualidade da com a Marta Suplicy o número de núcleos foi 1200. O governo Educação. Então nós perguntamos, que qualidade de educação nós temos atual disse que temos 750 núcleos, o que nós perguntamos é o aqui? Quando esses alunos passam na porta na escola e vem para nossos seguinte: Diminuiu tanto o analfabetismo em São Paulo que essa núcleos. Eu acredito que o nosso trabalho está dando frutos. cidade não precisa mais do Mova? Vereador Eliseu Gabriel O Mova é um instrumento eficaz da construção humana. Fica fácil entender porque os governos não têm interesse em fazer com que o Mova floresça, justamente porque ele forma cidadãos conscientes, que participam e sabem Ivanir Nogueira Barros - Educadora que têm direitos. O tempo que estou no Mova, junto com outros educadores, Acho que é por isso que eu fiquei muito feliz de participar junto com o consegui entender e passar para as pessoas que participam do Macena, ele merece mais do que eu fazer esse evento aqui. Eu também Mova, que elas não estão ali apenas para ler e escrever, mas quero que a gente realmente divulgue, trabalhe e exija das autoridades para também para que haja uma mudança em suas vidas. que elas não façam essa barbaridade de investir somente R$ 852 por classe e ainda fechar os núcleos que têm menos de vinte alunos, isso é uma afronta, Eu já vim na Câmara, participei de outras programações, mas é uma vergonha. muito gratificante saber e encontrar aqui, as pessoas que dão continuidade as ideias do mestre Paulo Freire, como o próprio filho dele. 10 07
  8. 8. A importância do programa Pedro Pontual As ideias fundamentais políticas e pedagógicas, que O Mova, não poderia ser alguma coisa orientavam a concepção do Mova naquele momento “periférica”, tinha que ser parte integrante eram: deste conjunto de política educacional. Depois de quatros anos da criação do Em primeiro lugar, uma concepção de parceria entre movimento, nós conquistamos êxitos Governo e Sociedade Civil, sobretudo dos movimentos importantes, quando começamos a construir sociais, organizações populares que escapava a lógica, uma proposta política pedagógica comum então prevalente, que se tornou predominante nos anos entre o Mova e o programa institucional da 90: a lógica neoliberal, e como é que se escapava daquela prefeitura; programa de Educação de Adultos lógica de parceria como o neoliberalismo, em que o - EDA. Estado transfere suas responsabilidades para as organizações da Sociedade Civil, para que elas cuidem Destaco a importância que teve a discussão que fizemos, ainda mais para nós que viemos dos movimentos sociais, dos problemas e dos direitos, nós pensávamos de no sentido de que o Mova, como uma ação de parceria, tinha que ser um projeto que respeitasse profundamente a maneira absolutamente diferente. A parceria para nós era autonomia dos Movimentos. Por isso, era extremamente importante para nós a existência do Fórum dos Costa Senna - a união de vontade, responsabilidade e co- Movimentos Sociais, que era totalmente autônomo em relação à Secretaria de Educação, se reunia Poeta responsabilidade entre o Estado e as Organizações independentemente da presença dela, e se encontrava com a equipe da secretaria no Fórum Mova, que era a esfera Sociais, em que o Estado não podia abrir mão de seu pública de conversação, negociação e estabelecimento de parceria. dever de criar e de proporcionar recursos, apoios pedagógicos, diretrizes para desenvolver com melhor Paulo Freire insistia muito na ideia de que a Secretaria de Educação precisava superar uma profunda herança qualidade o programa de alfabetização e de pós- autoritária da sociedade brasileira, em que o estado podia tentar tutelar o movimento, e por isso ele insistia na alfabetização, e por outro lado o reconhecimento de que importância da autonomia dos movimentos em relação ao próprio projeto de alfabetização. essa qualidade só seria possível se ela bebesse da experiência, que vinha se desenvolvendo de longa data Hoje, eu considero que esta é uma das ideias e práticas políticas daquele período que foram mais fecundas, pois na no âmbito da sociedade civil. Essa parceria se realizou minha opinião, ela possibilitou efetivamente, que os movimentos e organizações não criassem uma dependência, em todos os níveis. quase fatal, do estado para dar continuidade ao seu trabalho, tanto é que depois do governo da Erundina, tivemos os governos Pitta e Maluf, que absolutamente cortaram qualquer possibilidade de convênio e de parceria. Mesmo, com Para ser um movimento social de luta pelo direito à bastante dificuldade, o movimento permaneceu em núcleos de resistência e está ai, de pé até hoje, para o nosso Educação, que assumia a tarefa da alfabetização e pós- orgulho e alegria. alfabetização como Paulo Freire chamava, no momento da criação do Mova, de uma arrancada inicial, para As razões e as motivações que fizeram criar o Mova naquele momento foi a grande quantidade de jovens e adultos garantir o direito à escolarização completa dos jovens e precisando ser alfabetizado. Estes dados continuam absolutamente presentes é o que mostra a pesquisa do PNAD e adultos na cidade de São Paulo, diferenciávamos da justifica a necessidade de levarmos este projeto adiante. Continuarmos assumindo a luta pelo direito à educação tradição, sobretudo, brasileira das campanhas de como uma luta que deve unir as vontades de governos democráticos e populares comprometidos com essa temática Irmã Nair alfabetização, como ações momentâneas episódicas, e organizações populares dos movimentos sociais. aligeiradas como, por exemplo, do MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) e de outras tantas campanhas, que na verdade não criavam, efetivamente, condições para a superação do analfabetismo e para se assegurar o direito à educação Francisco de Assis completa. Os educadores que desenvolvem o trabalho de O Mova foi criado com a ideia de que teríamos uma alfabetização do Mova mexem com a intimidade dos longa jornada pela frente para assegurar o direito à alunos, conhecem a fundo a família de cada estudante que educação ao longo de toda vida do educando. A outra está presente no seu núcleo de alfabetização, estão ideia é de que o Mova, dentro de nossa concepção na diretamente envolvidos com essas questões e trabalham Secretaria de Educação, tinha que ser parte integrante e na perspectiva de fazer com que os alunos se eduquem e articulada com um conjunto da política educacional, por superem a atual realidade. isso lançamos um plataforma pedagógica para todos os atores que compunham a política educacional na Cidade de São Paulo com o título “Construindo Uma Educação Ermelinda Neiva Pública Popular e Democrática“. Castro 08 09

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