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Exemplo 5 escrita criativa - No art is an island [processo(s)]

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Exemplo 5 escrita criativa - No art is an island [processo(s)]

  1. 1. NO ART IS AN ISLAND Esta arte - a que vemos, - não é a mesma. Não é a que eu vejo e você, aquiperto, consegue ver. Mas é a mesma estrutura, o mesmo espaço e o mesmo tempo.Então porque é que esta arte não é também una na forma como a integramos?Pois bem, porque sozinha não tem sentido, nem interpretação. Porque precisa decada um, e cada um dela, para ter de facto existência e semântica. Parecepretensioso? Lembra-se quando Magritte afirmou, perante a imagem convencional de umcachimbo, "ceci n´est pas une pipe" (1928-29)? Foi um pedido ao Homem-Artistapara parar de ambicionar representar a vida tal como ela é e as coisas tal como são,num realismo absurdo e inatingível. Foi um pedido ao Homem-Artista para admitirque é um Zé Ninguém quando fala, quando se move, quando executa; que só emconjunto com a obra e com a sua imaginação terá algum significado, significadoesse que nunca será o mesmo aqui, ali ou além; nunca será exactamente o mesmopara mim, para si e para o Homem-Artista. É disso que vive a magnitude dosignificado de arte: tê-lo de todas as formas, quantas aquelas em que existimos. Isto levanta uma celeuma assustadora, bem sei. Então não é possívelperceber a arte da mesma forma? Ficaremos destinados ao sulco inevitável, aindaque por vezes ténue, que existe entre a minha interpretação e a sua interpretação?Sim. Lamento. Mas não é isto que buscamos? Diga-me uma peça de arte que tenhaesgotado os seus significados e que tenha, num momento impávido, tido o mesmopara Fulano e Beltrano? Nenhuma, pelo menos a intemporal. Porque essa, vivepreparada para rearranjos e ajustamentos ao contexto e aos novos olhos; os quenascem. Porque "Guernica" (Picasso, 1937) do séc. XX não é a mesma do séc. XXI eé precisamente isso que a torna sempre nova e emocionante. Porque nós, as nossasemoções e as nossas narrativas não são as mesmas hoje, amanhã e depois; ainteracção é sempre diferente, entre obra-pessoa e pessoa-obra. Restamos assim,subjugados a este jogo de interacções que permite, aos mais audazes, tentarperceber o que o outro vê e acomodar-se à aventura de nunca o perceber. Parece confuso, obtuso, cruelmente epistemológico. Não creio. É tão simplescomo pintar uma fruteira e percebê-la com fruteira. É tão simples como ler apalavra cachimbo e daí, imageticamente, termos um. Dentro dessa simplicidade -
  2. 2. mágica - deve ser percebido que o significado que uma fruteira tem para mim, nãoterá para si, nem para os nossos filhos, daqui a dez anos. Se percebermos isto,podemos perceber tudo sem limites e sem barreiras interpretativas. Falo agora na obra "A Culpa não é Minha" (João Pedro Vale, 2003). Tambémirónica, retrata a forma como podemos ficar encalhados, amarrados, petrificados,se atracarmos a criação e o "mais-além" que é Nosso, de Todos e de Ninguém. Nãovou explicar a minha confusão, deixo-a assim, para a sua interpretação cuidada eingenuamente objectiva. Se a arte for para o autor, não haverá arte. Se a arte for para o público, nãohaverá arte. Se a arte for um momento, não haverá arte. Se a arte for intocável, nãohaverá arte. Se a arte tiver uma data, não haverá arte. A arte não quer ser um Eu.Não quer ser um Ninguém, um Alguém; não quer ser Dela própria.Só assim haverá arte. Se personificarmos a arte vemo-la como uma túlipa leve, crua, devastadora.Vemo-la como Pipilotti Rist a quis, em Ever is All Over( 1997), cheia de liberdade eimpacto, livre de tudo e de ela própria. Deixo-lhe um conselho: não queira perceber nada do que digo. É apenas aminha forma de ver arte, muito diferente da sua, certamente. Deixemo-la existir;assim. Ana Rita Caldeira (2012) PROCESSO(s)

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