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Introdução ao pensamento de baktin
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Introdução ao pensamento de baktin

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  • 1. PEDAGOGIA DA AUTONOMIA: SaberesNecessários à Prática DocentePaulo FreireCapítulo l - NÃO HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIAEnsinar não é transferir conhecimentos e conteúdos, nem formar é a ação pela qual um sujeitocriador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência,as duas se explicam, e seus sujeitos, apesar das diferenças, não se reduzem à condição de objeto umdo outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.Ensinar exige rigorosidade metodológicaEnsinar não se esgota no tratamento do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas sealonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. E estas condiçõesexigem a presença de educadores e de educandos criadores, investigadores, inquietos, curiosos,humildes e persistentes. Faz parte das condições em que aprender criticamente é possível apressuposição, por parte dos educandos, de que o educador já teve ou continua tendo experiência daprodução de saberes, e que estes, não podem ser simplesmente transferidos a eles. Pelo contrário,nas condições de verdadeira aprendizagem, tanto educandos quanto educadores transformam-se emsujeitos do processo de aprendizagem. Só assim podemos falar realmente de saber ensinado, em queo objeto ensinado é aprendido na sua razão de ser.Percebe-se, assim, a importância do papel do educador, com a certeza de que faz parte de sua tarefadocente não apenas ensinar os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo - um professordesafiador, crítico.Ensinar exige pesquisaNão há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Hoje se fala muito no professor pesquisador,mas isto não é uma qualidade, pois faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, apesquisa. Precisamos que o professor se perceba e se assuma como pesquisador. Pensar certo é umaexigência que os momentos do ciclo gnosiológico impõem à curiosidade que, tornando-se mais emais metodologicamente rigorosa, transforma-se no que Paulo Freire chama de "curiosidadeepistemológica".Ensinar exige respeito aos saberes dos educandosA escola deve respeitar os saberes dos educandos – socialmente construídos na prática comunitária -discutindo, também, com os alunos, a razão de ser de alguns deles em relação ao ensino dosconteúdos. Por que não aproveitar a experiência dos alunos que vivem em áreas descuidadas pelo
  • 2. poder público para discutir a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estardas populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde?Por que não associar as disciplinas estudadas à realidade concreta, em que a violência é a constantee a convivência das pessoas com a morte é muito maior do que com a vida?Ensinar exige criticidadeA superação, ao invés da ruptura, se dá na medida em que a curiosidade ingênua, associada ao sabercomum, se criticiza, aproximando-se de forma cada vez mais metodologicamente rigorosa do objetocognoscível, tornando-se curiosidade epistemológica. Muda de qualidade, mas não de essência, eessa mudança não se dá automaticamente. Essa é uma das principais tarefas do educadorprogressista - o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil.Ensinar exige estética e éticaA necessária promoção da ingenuidade à criticidade não pode ser feita sem uma rigorosa formaçãoética e estética. Decência e boniteza andam de mãos dadas. Mulheres e homens, seres histórico-sociais, tornamo-nos capazes de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de decidir, de romper.Por tudo isso nos fizemos seres éticos. Só somos porque estamos sendo. Estar sendo é a condição,entre nós, para ser. Não é possível pensar os seres humanos longe da ética. Quanto mais fora dela,maior a transgressão.Ensinar exige a corporificação das palavras pelo exemploQuem pensa certo está cansado de saber que palavras sem exemplo pouco ou nada valem. Pensarcerto é fazer certo (agir de acordo com o que pensa). Não há pensar certo fora de uma práticatestemunhal, que o re-diz em lugar de desdizê-lo. Não é possível ao professor pensar que pensacerto (de forma progressista), e, ao mesmo tempo, perguntar ao aluno se "sabe com quem estáfalando".Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação.É próprio do pensar certo a disponibilidade ao risco, a aceitação do novo que não pode ser negadoou acolhido só porque é novo, assim como critério de recusa ao velho não é o cronológico. O velhoque preserva sua validade encarna uma tradição ou marca uma presença no tempo continua novo.Faz parte igualmente do pensar certo a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. Aprática preconceituosa de raças, de classes, de gênero ofende a substantividade do ser humano enega radicalmente a democracia.Ensinar exige reflexão crítica sobre a práticaA prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético,entre o fazer e o pensar sobre o fazer. É fundamental que, na prática da formação docente, oaprendiz de educador assuma que o indispensável pensar certo não é presente dos deuses nem seacha nos guias de professores que, iluminados intelectuais, escrevem desde o centro do poder. Pelocontrário, o pensar certo que supera o ingênuo tem de ser produzido pelo próprio aprendiz, emcomunhão com o professor formador. É preciso possibilitar que a curiosidade ingênua, através da
  • 3. reflexão sobre a prática, vá tornando-se crítica. Na formação permanente dos professores, omomento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática dehoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O discurso teórico, necessário à reflexãocrítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática.Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade culturalA questão da identidade cultural, com sua dimensão individual e da classe dos educandos, cujorespeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista, é problema que não podeser desprezado. Tem a ver diretamente com a assunção de nós por nós mesmos. É isto que o purotreinamento do professor não faz, perdendo-se na estreita e pragmática visão do processo.Capítulo 2 - ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTOEnsinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria construção.Quando o educador entra em uma sala de aula, deve estar aberto a indagações, curiosidade einibições dos alunos: um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tem - a de ensinar enão a de transferir conhecimento.Pensar certo é uma postura exigente, difícil, às vezes penosa, que temos de assumir diante dosoutros e com os outros, em face do mundo e dos fatos, ante nós mesmos. É difícil, entre outrascoisas, pela vigilância constante que temos de exercer sobre nós mesmos para evitar os simplismos,as facilidades, as incoerências grosseiras. É difícil porque nem sempre temos o valor indispensávelpara não permitir que a raiva que podemos ter de alguém vire raivosidade, gerando um pensarerrado e falso. É cansativo, por exemplo, viver a humildade, condição sine qua non do pensar certo,que nos faz proclamar o nosso próprio equívoco, que nos faz reconhecer e anunciar a superação quesofremos. Sem rigorosidade metódica não há pensar certo. Ensinar exige consciência doinacabamento.Na verdade, a inconclusão do ser é própria de sua experiência vital. Onde há vida, há inconclusão,embora esta só seja consciente entre homens e mulheres. A invenção da existência envolvenecessariamente a linguagem, a cultura, a comunicação em níveis mais profundos e complexos doque ocorria e ocorre no domínio da vida, a espiritualização do mundo, a possibilidade não só deembelezar, mas também de enfear o mundo; tudo isso inscreveria mulheres e homens como sereséticos. Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. É necessário insistir naproblematização do futuro e recusar sua inexorabilidade.Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado "Gosto de ser gente, inacabado, sei que souum ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é adiferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado... Afinal, minha presença nomundo não é a de quem se adapta, mas a de quem nele se insere". E a posição de quem luta paranão ser apenas objeto, mas também sujeito da história.Histórico-sócio-culturais, tornamo-nos seres em quem a curiosidade, ultrapassando os limites quelhe são peculiares no domínio vital, torna-se fundante da produção do conhecimento. Mais ainda, acuriosidade é já o conhecimento. Como a linguagem que anima a curiosidade e com ela se anima, étambém conhecimento e não só expressão dele. Na verdade, seria uma contradição se, inacabado econsciente do inacabamento, o ser humano não se inserisse em tal movimento. É neste sentido que,para mulheres e homens, estar no mundo necessariamente significa estar com o mundo e com os
  • 4. outros. É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processopermanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceraminacabados. O ideal é que, na experiência educativa, educandos e educadores, juntos, transformemeste e outros saberes em sabedoria. Algo que não é estranho a nós, educadores.Ensinar exige respeito à autonomia do ser educandoO professor, ao desrespeitar a curiosidade do educando, o seu gosto estético, a sua inquietude, a sualinguagem, ao ironizar o aluno, minimizá-lo, mandar que "ele se ponha em seu lugar" ao mais tênuesinal de sua rebeldia legítima, ao se eximir do cumprimento de seu dever de propor limites àliberdade do aluno, ao se furtar do dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiênciaformadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência. Éneste sentido que o professor autoritário afoga a liberdade do educando, amesquinhando o seudireito de ser curioso e inquieto. Qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever, pormais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar. A beleza de ser gente se acha,entre outras coisas, nessa possibilidade e nesse dever de brigar. Saber que devo respeito àautonomia e à identidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber.Ensinar exige bom sensoO exercício do bom senso, com o qual só temos a ganhar, se faz no corpo da curiosidade. Nestesentido, quanto mais colocamos em prática, de forma metódica, a nossa capacidade de indagar, decomparar, de duvidar, de aferir, tanto mais eficazmente curiosos nos podemos tornar e mais críticose torna o nosso bom senso.O exercício do bom senso vai superando o que há nele de instintivo na avaliação que fazemos dosfatos e dos acontecimentos em que nos envolvemos. O meu bom senso não me diz o que é, masdeixa claro que há algo que precisa ser sabido. É ele que, em primeiro lugar, me diz não ser possívelo respeito aos educandos, se não se levar em consideração as condições em que eles vêm existindo,e os conhecimentos experienciais com que chegam à escola. Isto exige de mim uma reflexão críticapermanente sobre minha prática. O ideal é que se invente uma forma pela qual os educandospossam participar da avaliação. E que o trabalho do professor deve ser com os alunos e não consigomesmo.O professor tem o dever de realizar sua tarefa docente. Para isso, precisa de condições favoráveis,sem as quais se move menos eficazmente no espaço pedagógico. O desrespeito a este espaço é umaofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica.Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadoresComo ser educador sem aprender a conviver com os diferentes? Como posso respeitar a curiosidadedo educando se, carente de humildade e da real compreensão do papel da ignorância na busca dosaber, temo revelar o meu desconhecimento?A luta dos professores em defesa de seus direitos e de sua dignidade deve ser entendida como ummomento importante de sua prática docente, enquanto prática ética. Ainda que a prática pedagógica
  • 5. seja tratada com desprezo, não tenho por que desamá-la e aos educandos.Não tenho por que exercê-la mal. Minha resposta à ofensa à educação é a luta política consciente,crítica e organizada dos professores. Os órgãos de classe deveriam priorizar o empenho de formaçãopermanente dos quadros do magistério como tarefa altamente política, e reinventar a forma de lutar.Ensinar exige apreensão da realidadeComo professor, preciso conhecer as diferentes dimensões que caracterizam a essência da minhaprática. O melhor ponto de partida para estas reflexões é a inconclusão do ser humano. Aí radica anossa educabilidade, bem como a nossa inserção num permanente movimento de busca.A nossa capacidade de aprender, de que decorre a de ensinar, implica a nossa habilidade deapreender a substantividade de um objeto. Somos os únicos seres que, social e historicamente, nostornamos capazes de aprender. Por isso aprender é uma aventura criadora, muito mais rica do quemeramente repetir a lição dada. Aprender é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não sefaz sem abertura ao risco e à aventura do espírito. Toda prática educativa demanda:- a existência de sujeitos - um que, ensinando, aprende, e outro que, aprendendo, ensina (daí seucunho gnosiológico);- a existência de objetos, conteúdos a serem ensinados e aprendidos;- o uso de métodos, de técnicas, de materiais.Esta prática também implica, em função de seu caráter diretivo, objetivos, sonhos, utopias, ideais.Daí sua politicidade, daí não ser neutra, ser artística e moral. Exige uma competência geral, umsaber de sua natureza e saberes especiais, ligados à atividade docente. Como professor, se a minhaopção é progressista e sou coerente com ela, meu papel é contribuir para que o educando seja oartífice de sua formação. Devo estar atento à difícil caminhada da heteronomia para a autonomia."É assim que venho tentando ser professor, assumindo minhas convicções, disponível ao saber,sensível à boniteza da prática educativa, instigado por seus desafios..."Ensinar exige alegria e esperançaO meu envolvimento com a prática educativa jamais deixou de ser feito com alegria, o que nãosignifica dizer que tenha podido criá-la nos educandos. Parece-me uma contradição que uma pessoaque não teme a novidade, que se sente mal com as injustiças, que se ofende com as discriminações,que luta contra a impunidade, que recusa o fatalismo cínico e imobilizante não seja criticamenteesperançosa. Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível A realidade não éinexoravelmente esta. E esta agora, e para que seja outra, precisamos lutar, viver a história comotempo de possibilidade, e não de determinação. O amanhã não é algo pré-dado, mas um desafio.Não posso, por isso, cruzar os braços. Esse é, aliás, um dos saberes primeiros, indispensáveis aquem pretende que sua presença se torne convivência. O mundo não é. O mundo está sendo. O meupapel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém comosujeito de ocorrências. Constato, não para me adaptar, mas para mudar.No fundo, as resistências orgânicas e culturais são manhas necessárias à sobrevivência física ecultural dos oprimidos. É preciso, porém, que tenhamos na resistência fundamentos para a nossarebeldia e não para a nossa resignação em face das ofensas. Não é na resignação que nosafirmamos, mas na rebeldia em face das injustiças. A rebeldia é ponto de partida, é deflagração da
  • 6. justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia, enquanto denúncia, precisa se alongar até uma posiçãomais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. Mudar é difícil, mas épossível.Ensinar exige curiosidadeComo professor, devo saber que, sem a curiosidade que me move, não aprendo nem ensino. Aconstrução do conhecimento implica o exercício da curiosidade, o estímulo à pergunta, a reflexãocrítica sobre a própria pergunta. O fundamental é que professor e alunos saibam que a postura delesé dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada. A dialogicidade, no entanto, não nega avalidade de momentos explicativos, narrativos. O bom professor faz da aula um desafio. Seusalunos cansam, não dormem.Um dos saberes fundamentais à prática educativo-crítica é o que me adverte da necessáriapromoção da curiosidade espontânea para a curiosidade epistemológica. Resultado do equilíbrioentre autoridade e liberdade, a disciplina implica o respeito de uma pela outra, expresso na assunçãoque ambas fazem de limites que não podem ser transgredidos.Capítulo 3 - ENSINAR É UMA ESPECIFICIDADE HUMANACreio que uma das qualidades essenciais que a autoridade docente democrática deve revelar emsuas relações com as liberdades dos alunos é a segurança em si mesma. É a segurança que seexpressa na firmeza com que atua, com que decide, com que respeita as liberdades, com que discutesuas próprias posições, com que aceita rever-se.Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade - A segurança com que aautoridade docente se move implica uma outra, fundada na sua competência profissional. Nenhumaautoridade docente se exerce ausente desta competência. O professor que não leva a sério suaformação, que não estuda, que não se esforça para estar à altura de sua tarefa não tem força moralpara coordenar as atividades de sua classe. A incompetência profissional desqualifica a autoridadedo professor.Outra qualidade indispensável à autoridade, em suas relações com a liberdade, é a generosidade.Não há nada que inferiorize mais a tarefa formadora da autoridade do que a mesquinhez, aarrogância ao julgar os outros e a indulgência ao se julgar, ou aos seus. A arrogância que nega agenerosidade nega também a humildade. O clima de respeito que nasce de relações justas, sérias,humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades dos alunos se assumemeticamente, autentica o caráter formador do espaço pedagógico. A autoridade, coerentementedemocrática, está convicta de que a disciplina verdadeira não existe na estagnação, no silêncio dossilenciados, mas no alvoroço dos inquietos, na dúvida que instiga, na esperança que desperta.Um esforço sempre presente à prática da autoridade coerentemente democrática é o que a tornaquase escrava de um sonho fundamental - o de persuadir ou convencer a liberdade para a construçãoda própria autonomia, ainda que reelaborando materiais vindos de fora de si. É com a autonomia,penosamente construída e fundada na responsabilidade, que a liberdade vai preenchendo o espaçoantes habitado pela dependência.O fundamental no aprendizado do conteúdo é a construção da responsabilidade da liberdade que seassume. O essencial nas relações entre autoridade e liberdade é a reinvenção do ser humano no
  • 7. aprendizado de sua autonomia.Nunca me foi possível separar dois momentos - o ensino dos conteúdos da formação ética doseducandos. O saber desta impossibilidade é fundamental à prática docente. Quanto mais pensosobre a prática educativa, reconhecendo a responsabilidade que ela exige de nós, mais me convençodo nosso dever de lutar para que ela seja realmente respeitada:Ensinar exige comprometimentoNão posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutânciaminha maneira de ser, de pensar politicamente. Não posso escapar à apreciação dos alunos. E amaneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho. Daí, então, queuma de minhas preocupações centrais deva ser a de procurar a aproximação cada vez maior entre oque digo e o que faço, entre o que pareço ser e o que realmente estou sendo. Isto aumenta em mimos cuidados com o meu desempenho. Se a minha opção é democrática, progressista, não posso teruma prática reacionária, autoritária, elitista. Minha presença de professor é, em si, política.Enquanto presença, não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunosa minha capacidade de analisar, de decidir, de optar e de romper, minha capacidade de fazer justiça,de não falhar à verdade. Ético, por isso mesmo, tem que ser o meu testemunho.Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundoOutro saber de que não posso duvidar na minha prática educativo-crítica é que, como experiênciaespecificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção esta que,além do conhecimento dos conteúdos, bem ou mal ensinados e/ou aprendidos, implica tanto oesforço da reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento.Nem somos seres simplesmente determinados nem tampouco livres de condicionamentos genéticos,culturais, sociais, históricos, de classe, de gênero, que nos marcam e a que nos achamos referidos.Continuo aberto à advertência de Marx, a da necessária radicalidade, que me faz sempre desperto atudo o que diz respeito à defesa dos interesses humanos. Interesses superiores aos de grupos ou declasses de pessoas.Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minhaprática exige de mim uma definição, uma tomada de posição, uma ruptura. Exige que eu escolhaentre isto e aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não importao quê. Não posso ser professor a favor simplesmente da Humanidade, frase de uma vaguidadedemasiado contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor da decênciacontra o despudor, a favor da liberdade contra o autoritarismo, da autoridade contra alicenciosidade, da democracia contra a ditadura.Sou professor a favor da luta constante contra qualquer forma de discriminação, contra a dominaçãoeconômica dos indivíduos ou das classes sociais, contra a ordem vigente que inventou a aberraçãoda miséria na fartura. Sou professor a favor da esperança que me anima, apesar de tudo. Contra odesengano que consome e imobiliza e a favor da boniteza de minha própria prática. Tão importantequanto o ensino dos conteúdos é a minha coerência na classe. A coerência entre o que digo, o queescrevo e o que faço.
  • 8. Ensinar exige liberdade e autoridadeO problema que se coloca para o educador democrático é como trabalhar no sentido de fazerpossível que a necessidade do limite seja assumida eticamente pela liberdade. Sem os limites, aliberdade se perverte em licença e a autoridade em autoritarismo.Por outro lado, faz parte do aprendizado a assunção das conseqüências do ato de decidir. Não hádecisão que não seja seguida de efeitos esperados, pouco esperados ou inesperados. Por isso adecisão é um processo responsável. É decidindo que se aprende a decidir. Não posso aprender a sereu mesmo se não decido nunca, porque há sempre a sabedoria e a sensatez de meu pai e de minhamãe a decidir por mim. Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai seconstruindo na experiência. Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguémamadurece de repente. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia é um processo, nãoocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centradaem experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, ou seja, que respeitam a liberdade.Ensinar exige tomada consciente de decisõesVoltemos à questão central desta parte do texto - a educação, especificidade humana, como um atode intervenção no mundo. Quando falo em educação como intervenção me refiro tanto a que aspiraa mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações humanas, da propriedade,do direito ao trabalho, à terra, à educação, à saúde, quanto a que, reacionariamente, pretendeimobilizar a História e manter a ordem injusta.E que dizer de educadores que se dizem progressistas, mas de prática pedagógica-políticaeminentemente autoritária?A raiz mais profunda da politicidade da educação se acha na educabilidade do ser humano, que sefunda em sua natureza inacabada e da qual se tornou consciente. Inacabado e conscientedisso,necessariamente o ser humano se faria um ser ético, um ser de opção, de decisão. Um serligado a interesses e em relação aos quais tanto pode manter-se fiel à ética quanto pode transgredi-la.Se a educação não pode tudo, pode alguma coisa fundamental. Se a educação não é a chave dasmudanças, não é também simplesmente reprodutora da ideologia dominante. O que quero dizer éque a educação nem é uma força imbatível a serviço da transformação da sociedade nem tampoucoé a perpetuação do status quo.Ensinar exige saber escutarSe, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando aos outros, de cimapara baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores da Verdade a ser transmitida aos demais,que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos & falar com eles.Os sistemas de avaliação pedagógica de alunos e de professores vêm se assumindo cada vez maiscomo discursos verticais, de cima para baixo, mas insistindo em passar por democráticos. A questãoque se coloca a nós é lutar em favor da compreensão e da prática da avaliação, enquanto
  • 9. instrumento de apreciação do que fazer, de sujeitos críticos a serviço, por isso mesmo, da libertaçãoe não da domesticação. Avaliação em que se estimule o falar a como caminho para o falar com.Quem tem o que dizer, tem igualmente o direito e o dever de dizê-lo. É preciso, porém, que osujeito saiba não ser o único a ter algo a dizer. Mais ainda, que esse algo, por mais importante queseja, não é a verdade alvissareira por todos esperada.Por isso é que acrescento, quem tem o que dizer deve assumir o dever de motivar, de desafiar quemescuta, para que este diga, fale, responda. É preciso enfatizar - ensinar não é transferir a inteligênciado objeto ao educando, mas instigá-lo no sentido de que, como sujeito cognoscente, torne-se capazde inteligir e comunicar o inteligido. É neste sentido que se impõe a mim escutar o educando emsuas dúvidas, em seus receios, em sua incompetência provisória. E ao escutá-lo, aprendo a falarcom ele. Aceitar e respeitar a diferença é uma das virtudes sem a qual a escuta não pode acontecer.Tarefa essencial da escola, como centro de produção sistemática de conhecimento, é trabalharcriticamente a i das coisas e dos fatos e a sua comunicabilidade.Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica Saber igualmente fundamental à práticaeducativa do professor é o que diz respeito à força, às vezes, maior do que pensamos da ideologia. Éo que nos adverte de suas manhas, das armadilhas em que nos faz cair. A ideologia tem a verdiretamente com a ocultação da verdade dos fatos, com o uso da linguagem para penumbrar ouopacizar a realidade, ao mesmo tempo em que nos torna míopes.No exercício crítico de minha resistência ao poder da ideologia, vou gerando certas qualidades quevão virando sabedoria indispensável à minha prática docente. A necessidade desta resistênciacrítica, por exemplo, me predispõe, de um lado, a uma atitude sempre aberta aos demais, aos dadosda realidade; de outro, a uma desconfiança metódica que me defende de tornar-me absolutamentecerto das certezas. Para me resguardar das artimanhas da ideologia não posso nem devo me fecharaos outros, nem tampouco me enclausurar no ciclo de minha verdade. Pelo contrário, o melhorcaminho para guardar viva e desperta a minha capacidade de pensar certo, de ver com acuidade, deouvir com respeito, por isso de forma exigente, é me deixar exposto às diferenças, é recusarposições dogmáticas, em que me admita como dono da verdade.Ensinar exige disponibilidade para o diálogo Nas minhas relações com os outros, que não fizeramnecessariamente as mesmas opções que fiz, no nível da política, da ética, da estética, da pedagogia,nem posso partir do pressuposto que devo conquistá-los, não importa a que custo, nem tampoucotemer que pretendam conquistar-me. É no respeito às diferenças entre mim e eles, na coerênciaentre o que faço e o que digo, que me encontro com eles.O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura, com seu gesto, a relação dialógica em que seconfirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história.Como ensinar, como formar sem estar aberto ao contorno geográfico, social, dos educandos?Com relação a meus alunos, diminuo a distância que me separa de suas condições negativas de vidana medida em que os ajudo a aprender não importa que saber, o do torneio ou do cirurgião, comvistas à mudança do mundo, à superação das estruturas injustas, jamais com vistas à suaimobilização.
  • 10. Debater o que se diz e o que se mostra e como se mostra na televisão me parece algo cada vez maisimportante. Como educadores progressistas não apenas não podemos desconhecer a televisão, masdevemos usá-la, sobretudo, discuti-la. Não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisãoentregues ou disponíveis ao que vier.Ensinar exige querer bem aos educandosO que dizer e o que esperar de mim, se, como professor, não me acho tomado por este outro saber, ode que preciso estar aberto ao gosto de querer bem, às vezes, à coragem de querer bem aoseducandos e à própria prática educativa de que participo.Na verdade, preciso descartar como falsa a separação radical entre seriedade docente e afetividade.A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. O que não posso, obviamente, permitir éque minha afetividade interfira no cumprimento ético de meu dever de professor no exercício deminha autoridade. Não posso condicionar a avaliação do trabalho escolar de um aluno ao maior oumenor bem querer que tenha por ele.É preciso, por outro lado, reinsistir em que não se pense que a prática educativa vivida comafetividade e alegria prescinda da formação científica séria e da clareza política dos educadores.Nunca idealizei a prática educativa. Em tempo algum a vi como algo que, pelo menos, parecessecom um que-fazer de anjos. Jamais foi fraca em mim a certeza de que vale a pena lutar contra osdescaminhos que nos obstaculizam de ser mais.Como prática estritamente humana, jamais pude entender a educação como uma experiência fria,sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos e os sonhos devessem ser reprimidos poruma espécie de ditadura reacionalista. Jamais compreendi a prática educativa como umaexperiência a que faltasse o rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual. Estouconvencido de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidadeepistemológica não me fazem necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de mim mesmo.Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Certosarrogantes, pela simplicidade, se fariam gente melhor. Síntese elaborada por Carlos R. Paiva – publicada na Revista de Educação nº 15

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