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Metodologia e processo da alfabetizacão das séries iniciais

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Transcript

  • 1. METODOLOGIA E PROCESSO DA ALFABETIZAÇÃO NAS SÉRIES INICIAIS Ivani Fassbinder Paulina Fassbinder Roberta Cerqueira Leite Claucimera Cumerlatto LovisonRESUMOEste estudo revela como deve acontecer o processo de alfabetização nas séries iniciais doEnsino Fundamental e também durante toda a vida do ser humano. Por meio de questionáriorespondido por professores das séries iniciais e coordenadores pedagógicos, entendemos queas dificuldades na leitura e interpretação de textos acontecem principalmente porque aindapersiste a falta de educação com qualidade que explore a linguagem oral e escrita desde aEducação Infantil. Além disso, falta incentivo por parte dos pais e professores à leituradiversificada, falta de interesse de autoridades, de pais e até de professores em disponibilizarmateriais e adequar condições para a pesquisa e construção de novos conhecimentos e ascondições sócio-econômicas e psicológicas presentes na realidade de muitas crianças fazemgerar problemas físicos, emocionais, familiares e sociais. A metodologia da alfabetizaçãoprecisa estar adequada à realidade na qual o aluno convive e relacionada aos conhecimentosque ele traz da vida familiar e social, pois uma criança aprende por meio das relações queestabelece com seu ambiente. As atividades de fala, escrita e leitura são muito importantespara adquirirmos mais conhecimentos. Portanto, analisando a literatura de pesquisadoresconhecidos por suas experiências com a alfabetização de crianças e também com a formaçãode professores, compreendemos melhor o processo de alfabetizar. Eles verificaram na práticacomo a criança age na sociedade quando ela é alfabetizada com a utilização de tudo o que elajá conhece, e como isso se reflete na vida familiar e social na qual ela convive.Palavras-chave: Alfabetização. Processo Educacional. Metodologia. Conhecimento. PráticaPedagógica. Séries Iniciais.
  • 2. 1. INTRODUÇÃO O processo de alfabetização tem sido um grande desafio a ser enfrentado peloprofessor-alfabetizador e pela sociedade que almeja uma educação de qualidade em nossasescolas. Uma grande quantidade de nossos alunos tem demonstrado muita deficiência naleitura, interpretação e redação de textos. Apesar da importância dos movimentos de renovação da educação, as avaliaçõesnacionais e regionais noticiadas para todos nós evidenciam um quadro não muito diferente doque já existia nas décadas passadas. Se antes a grande preocupação era a evasão escolar, hojesão as imensas dificuldades de leitura e o baixo índice de competências nas séries iniciais eaté mesmo no ensino fundamental e médio. As crianças necessitam do professor-alfabetizador experiente e competente, que venhacontribuir para a prática de um ensino interativo, contextualizado e muito bem planejado.Assim, de posse dos conhecimentos e conteúdos necessários, ele incentiva a compreensão eprodução de novos conhecimentos, contribuindo na formação de seres humanos capazes degerar a construção dos saberes, a partir de suas reflexões e ações e da realidade que os cerca. Diante dos problemas que se enfrenta no processo educacional, especialmente naalfabetização das séries iniciais, depara-se com a urgência de soluções que contribuam naconstrução do saber. Competir e estar aberto a todas as possibilidades que fazem parte doaprendizado para a vida é um direito de todos e dever dos educadores na escola e nasociedade, pois uma criança aprende por meio das relações que estabelece com seu ambiente.Assim acontece no processo de alfabetização e aquisição de novos conhecimentos. É tarefa primordial do professor como mediador do conhecimento refletir sobre ametodologia ideal que leva as crianças a compreenderem o funcionamento da língua e saberutilizá-la cada vez melhor. Para quem pretende assumir os riscos dessa permanente revisãosobre o processo de alfabetização, é fundamental que não deixe de ser sensível, e tambémcriativo e crítico, pois há muitos aspectos específicos a considerar e não se deve supor quetodas as informações necessárias à prática docente já estejam catalogadas e analisadas. Éessencial que se continue a pesquisar e experimentar novos caminhos. O interesse despertado pelo tema da alfabetização vem produzindo um aumentosignificativo de pesquisas, seminários, livros, artigos e teses. Isso mostra que é precisorenunciar à idéia de que já sabemos tudo e podemos fazer tudo, ou não sabemos nada e nadapodemos fazer. De acordo com as valiosas experiências de educadores que fizeram diferença
  • 3. em nossa sociedade, entende-se que se faz necessário aceitar a frustração e deve-se perder omedo do fracasso e do desconhecido. Conhecendo de perto os métodos de alfabetização e suas respectivas características,comparando e avaliando o desempenho dos alunos alfabetizados com métodos diferentes, etambém analisando a maneira que se processa a alfabetização nas séries iniciais, pode-sedefinir com mais clareza porque acontece a defasagem na leitura, na escrita e na interpretaçãotextual que estão presentes em muitos alunos.2. ALFABETIZAÇÃO EM PROCESSO Muito se tem falado a respeito do fracasso da alfabetização em grande parte das nossasescolas. Verificando o resultado das avaliações nacionais podemos comprovar os sériosproblemas de aprendizagem existentes em grande parte das escolas de nosso país. Segundoalguns pesquisadores, muitas publicações importantes sobre esse assunto não conseguiramuma entrada mais efetiva nas ações escolares, mas tiveram algumas de suas versões tomadascomo referências fundamentais na elaboração de programas nacionais e regionais, como oPrograma Nacional do Livro Didático e os Parâmetros Curriculares Nacionais. Necessitamos compreender o que está acontecendo com o processo de alfabetizaçãode nossos alunos das séries iniciais. Sabe-se que eles necessitam de mediadores doconhecimento que venham contribuir para a prática de um ensino interativo, contextualizado emuito bem planejado. Por isso, precisamos conhecer os métodos de alfabetização e suasrespectivas características, comparar e avaliar o desempenho dos alunos alfabetizados commétodos diferentes e analisar a maneira que se processa a alfabetização no processo ensino-aprendizagem. Para Emilia Ferreiro (2001), “os saberes que o aluno traz para a escola e como elesdevem ser trabalhados pelos professores, fazem parte da linguagem no processo dealfabetização”. Diante disso, podemos observar que os processos de aquisição da leitura e dalíngua escrita no contexto escolar devem considerar o desenvolvimento das crianças, pois estecomeça muito antes da escolarização. É útil se perguntar através de que tipo de práticas a criança é introduzida na língua escrita, e como se apresenta este objeto no contexto escolar. Há práticas que levam a criança à convicção de que o conhecimento é algo que os outros possuem e que só se pode obter da boca dos outros, sem nunca ser participante na construção do conhecimento. (EMÍLIA FERREIRO, 2001, p. 30).
  • 4. Nos dias de hoje, em que a sociedade do mundo inteiro está cada vez mais centrada naescrita, ser alfabetizado, isto é, saber ler e escrever tem se revelado condição insuficiente pararesponder adequadamente às demandas da sociedade contemporânea. É preciso ir além dasimples aquisição do código escrito e fazer uso da leitura e da escrita no cotidianoapropriando-se da função social dessas duas práticas. Enfim, é preciso letrar-se, isto é, buscarpor meio de pesquisas e cursos de formação, as ações pedagógicas de reorganização do ensinoe reformulação dos modos de ensinar e fazê-las acontecer na prática em sala de aula. Segundo a professora Magda Becker Soares (Jornal do Brasil novembro/2000), “letraré mais que alfabetizar”. Portanto, competir e estar aberto a todas as possibilidades que fazemparte do aprendizado para a vida são quesitos essenciais na formação escolar, pois umacriança aprende por meio das relações que estabelece com seu ambiente. Assim acontece noprocesso de alfabetização e aquisição de novos conhecimentos. A cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de leitura e de escrita, não só no papel, mas também através dos meios eletrônicos. Se uma criança sabe ler, mas não é capaz de ler um livro, uma revista ou um jornal e se sabe escrever palavras e frases, mas não é capaz de escrever uma carta, ela é alfabetizada, mas não é letrada. (MAGDA SOARES, Jornal do Brasil nov/2000). Desde os tempos do Brasil Colônia, e até muito recentemente, o problema queenfrentávamos em relação à cultura escrita era o analfabetismo. Esse problema foirelativamente superado nas últimas décadas, ou seja, foi vencido de forma pelo menosrazoável. É necessário, portanto, não desmerecer a importância de ensinar a ler e a escrever,reconhecendo que isso não basta. Mas isso não quer dizer que os dois processos, alfabetizaçãoe letramento sejam processos distintos; na verdade, não se distinguem, deve-se alfabetizarletrando. Alfabetização e letramento se somam. Ou melhor, a alfabetização é um componentedo letramento. Analisando as experiências de Eglê Pontes Franchi, professora e pesquisadora, autorarecomendada pelo Professor Paulo Freire, conhecida por sua experiência com a alfabetizaçãode crianças e também com a formação de professores, compreendemos melhor o processo dealfabetizar. Como muitos educadores, ela verificou na prática, como age na sociedade acriança que é alfabetizada com a utilização de tudo o que ela já conhece e como isso se refletena vida familiar e social na qual ela convive.
  • 5. Os alfabetizandos, enquanto operam sobre a descoberta das letras, das sílabas e das palavras iniciais de seu vocabulário escrito, já dominam amplamente a linguagem rica e variada de que se servem na conversação e no diálogo. Por isso é que a alfabetização deve ancorar-se na linguagem que as crianças dominam e nascer com fortes marcas da oralidade. “Trata-se de considerar a prática oral das crianças como o contexto em que as primeiras palavras e as primeiras frases escritas ganham naturalidade”. (EGLÊ PONTES FRANCHI, 2001, p. 144)3. MÉTODOS E TÉCNICAS DE ALFABETIZAÇÃO Nas últimas décadas assistiu-se a um abandono na discussão sobre a eficácia deprocessos e métodos de alfabetização, que passaram a ser identificados como propostastradicionais, e passou-se a discutir e analisar uma abordagem construtivista de grande impactoconceitual nessa área. Assim, valorizar o diagnóstico dos conhecimentos prévios dos alunos ea análise de seus erros como indicadores construtivos do processo de aprendizagem, comotambém inserir a criança em práticas sociais que envolvem a escrita e a leitura, é a realizaçãoefetiva de práticas docentes que defendem uma educação de qualidade e que preparam o serhumano para a vida. Para Sanz (2003, p. 38) “método é a palavra grega para perseguição e prosseguimento,com o sentido de esforço para alcançar um fim, investigação. O que nos permite compreendê-lo como caminho para atingir um resultado”. Ele ainda diz que (2003, p. 39) “o método,como estratégia, e a técnica, como tática, formam um par nobre”. Desta forma, é essencial que se conheça um pouco mais sobre os métodos utilizadospelos alfabetizadores, como também as pesquisas e experiências de quem já têm uma largatrajetória nessa área, a fim de analisar com cuidado o que se deve buscar para alfabetizarnossas crianças. O Método Fônico enfatiza as relações símbolo-som, sendo que na linha sintética oaluno conhece os sons representados pelas letras e combina esses sons para pronunciarpalavras e, na linha analítica o aluno antes aprende uma série de palavras e depois parte para aassociação entre o som e as partes das palavras. O Método da Linguagem Total defende queos sistemas linguísticos estão interligados e que a relação entre imagens e sons deve serevitada. Neste, são apresentados textos inteiros, porque acredita-se que se aprende lendo. Oprofessor lê textos para os alunos que o acompanham, assim se familiarizando com alinguagem escrita, para posteriormente aprender palavras, em seguida as sílabas e depois asletras.
  • 6. O Método Alfabético faz com que os alunos primeiro identifiquem as letras pelosnomes, depois soletrem as sílabas e, em seguida, as palavras antes de lerem sentenças curtas e,finalmente, histórias. Quando os alunos encontram palavras desconhecidas, as soletram atédecodificá-las. O Analítico parte de uma visão global para depois deter-se nos detalhes, e o Sintéticocomeça a ensinar por partes ou elementos das palavras, tais como letras, sons ou sílabas, paradepois combiná-los em palavras. A ênfase é a correspondência som-símbolo. A orientação dos Parâmetros Curriculares Nacionais enfatiza que é necessário se fazerum diagnóstico prévio do aluno antes de optar por qualquer método. Algumas crianças entramna primeira série sabendo ler. O professor lê textos em voz alta e é acompanhado pela classe.Os alunos são estimulados a copiar textos com base em uma situação social pré-existente. Aleitura em voz alta por parte dos estudantes é substituída por encenações de situações queforam lidas ou desenhos que ilustram os trechos lidos. As crianças aprendem a escrever emletra de forma e a consciência fônica é uma consequência. Com base nas pesquisas e experiências de Emília Ferreiro, podemos discutir e analisarque a prática alfabetizadora tem se centrado na polêmica sobre os métodos utilizados. Porém,nenhuma dessas discussões levou em conta o conhecimento que as crianças já apresentamantes mesmo do início da escolarização. Se aceitarmos que a criança não é uma tábua rasa onde se inscrevem as letras e as palavras segundo determinado método; se aceitarmos que o “fácil” e o “difícil” não podem ser definidos a partir da perspectiva do adulto, mas da de quem aprende; se aceitarmos que qualquer informação deve ser assimilada, e portanto transformada, para ser operante, então deveríamos também aceitar que os métodos (como conseqüência de passos ordenados para chegar a um fim) não oferecem mais do que sugestões, incitações, quando não práticas rituais ou conjunto de proibições. O método não pode criar conhecimento. (EMILIA FERREIRO, 2001, p. 29 e 30) Tendo em conta a complexidade da realidade brasileira, pode-se observar que jáaconteceram muitas coisas para viabilizar melhorias em todos os setores do processo ensino-aprendizagem, principalmente nas escolas públicas, que necessitam de maior atenção naalfabetização das séries iniciais. Muitas mudanças em relação à escolarização vêm ocorrendo e mais crianças em idadeescolar estão nas salas de aula. Esse é o primeiro passo. Em seguida vem o desafio daqualidade da aprendizagem. As mudanças têm se revelado muito lentas, pois convivemos
  • 7. principalmente com sistemas educativos municipais e estaduais que tornam ainda mais difícila ocorrência de evoluções e transformações no processo educacional. Dentre as várias mudanças que ocorreram estão o incentivo à formação continuada dosprofissionais da educação e a implantação do Ensino Fundamental de nove anos. Este,aprovado em fevereiro de 2006, com base na Lei 11.274/2006, que incentiva nove anos deescolaridade obrigatória, com a inclusão das crianças de seis anos. Ressalte-se que o ingresso da criança de seis anos no ensino fundamental não pode constituir uma medida meramente administrativa. É preciso atenção ao processo de desenvolvimento e aprendizagem das crianças, o que implica conhecimento e respeito às suas características etárias, sociais, psicológicas e cognitivas. (HADDAD; FERNANDES, 2006, p. 4) Não foi de um momento para outro que essas transformações ocorreram, e nem foipela vontade de um único legislador ou de um determinado governo que as mudanças seprocessaram. Todo esse processo vem acontecendo com base em muita pesquisa e dedicaçãode profissionais que convivem nessa sociedade tão carente de educação. Tanto as crianças das camadas favorecidas quanto as das camadas populares convivemdiariamente com práticas de leitura e escrita, ou seja, vivem em ambientes de letramento. Adiferença é que as crianças das classes mais favorecidas têm um convívio frequente e maisintenso com material escrito e com práticas de leitura e de escrita. Diante dessa realidade énecessário propiciar igualmente, a todas elas, o acesso ao letramento num processo queprossiga por toda a vida. A formação continuada do professor vai muito além dos saberes teóricos em sala deaula. O conhecimento das questões históricas, sociais e culturais que envolvem a práticaeducacional, o desenvolvimento dos alunos nos aspectos afetivo, cognitivo e social, bemcomo a reflexão crítica sobre o seu papel diante dos alunos e da sociedade, são elementosindispensáveis no processo de alfabetização.4. A LINGUAGEM ESCRITA NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO Por tudo o que foi analisado e refletido até aqui deve ter ficado claro que o trabalho doprofessor-alfabetizador no primeiro ano de escolaridade obrigatória não deve significar aantecipação da aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças, e muito menos aaceleração desse processo. Mesmo sabendo que elas estão construindo a linguagem da escrita
  • 8. entre as suas múltiplas linguagens, essa não é a única maneira de a criança partilharsignificados e se inserir na cultura e deve ser ensinada no contexto das demais linguagens. Muito antes de serem capazes de ler, no sentido convencional do termo, as crianças tentam interpretar os diversos textos que encontram ao seu redor (livros, embalagens comerciais, cartazes de rua), títulos (anúncios de televisão, estórias em quadrinhos, etc.). (EMÍLIA FERREIRO, 1992, p. 69) Letramento seria é o estado ou a condição de quem não apenas sabe ler e escrever, mascultiva as práticas sociais que usam a escrita. Seria, portanto, o uso competente da tecnologiada escrita nas situações de leitura e produção de textos reais, com sentido e significado paraquem lê e escreve. As crianças descobrem sobre a língua escrita antes de aprender a ler. Essa afirmativase baseia em estudos nos quais estabelece comparação entre a aquisição da linguagem oral eda linguagem escrita. Assim como as crianças adquirem a linguagem oral quando envolvidasem contextos comunicativos em que essa linguagem é significativa para elas, da mesma formao uso constante e significativo da linguagem escrita possibilita e enriquece o seu processo dealfabetização.5. A LINGUAGEM ORAL NO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO A linguagem oral que abrange a fala, a escuta e a compreensão acompanha todas asinterações estabelecidas pelas crianças em suas práticas sociais. É assim que meninos emeninas se apropriam da cultura escolar, desde o ingresso na instituição. É também por meioda fala que as crianças adentram na escola, levando consigo as marcas de sua classe social, desua origem e identidade cultural, constituída por conhecimentos, crenças e valores. Trazem,portanto, a variedade lingüística do grupo social a que pertencem. Nesse sentido, é importante lembrar que a população brasileira fala de diferentesformas, em função dos espaços geográficos que ocupa, da classe social, da idade e do gêneroa que pertence. Analisadas do ponto de vista lingüístico, todas essas variedades são legítimase corretas, já que não temos uma gramática normativa da linguagem oral como a que existepara a linguagem escrita. A escola, incorporando esse comportamento preconceituoso da sociedade em geral, também rotula seus alunos pelos modos diferentes de falar. (...) Em outras palavras, um se torna o aluno “certinho” porque é falante do dialeto de prestígio, o outro é um aluno carente (“burro”) porque é falante de um dialeto estigmatizado pela sociedade. (CAGLIARI, 1993, p. 82).
  • 9. Para que a escola possa efetivamente contribuir para a continuidade do processo deaprendizagem das crianças e, ao mesmo tempo, considerar alguns paradigmas da educaçãobrasileira, como a inclusão e o reconhecimento à diversidade, é necessário livrar-se depreconceitos relativos à fala das camadas populares e acolher as crianças com toda a bagagemcultural que trazem para a escola.6. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Os questionamentos elaborados para essa análise e interpretação de dados buscamrespostas para definir porque temos presente tantas dificuldades em leitura e interpretação detextos, numa grande quantidade das crianças de nosso país. Foram coletadas opiniões deprofessores das séries iniciais de três escolas municipais e de uma escola da rede estadual deensino. Além destes, os coordenadores pedagógicos destas instituições e da SecretariaMunicipal de Educação e Cultura também responderam o questionário e participaram dodebate com todos os envolvidos nesse estudo. Quando se perguntou sobre o alto nível de dificuldades na leitura e interpretaçãopresente nas crianças de grande parte das escolas de nosso país, os questionados foramunânimes em responder que concordavam com a existência desses problemas. De acordo comas opiniões levantadas, essa defasagem acontece principalmente porque ainda persiste a faltade educação com qualidade que trabalhe a realidade do aluno e que explore a linguagem oralna Educação Infantil, e ainda, porque falta incentivo por parte dos pais e professores à leituradiversificada e contagem de histórias, existem más condições sócio-econômicas e atépsicológicas numa grande parte de crianças brasileiras que geram problemas físicos e de máconvivência familiar e social, e também porque ainda há falta de interesse de autoridades, depais e até de professores em disponibilizar materiais e adequar condições para a pesquisa econstrução de novos conhecimentos. Percebe-se que as mudanças realmente são lentas e que deverão ocorrer avanços naeducação brasileira. Não basta saber quais os caminhos apontados. É preciso que as famíliassejam bem planejadas e dêem aos filhos o exemplo e incentivo à cultura desde cedo e que osprofessores nunca parem de ler e se formar, deixando para trás a educação tradicional eultrapassada. Quando se perguntou se a metodologia de alfabetização pode influenciar nadeficiência de aprendizagem e na defasagem de ensino que os alunos e muitas das escolas
  • 10. brasileiras ainda apresentam, ficou comprovada a convicção de grandes pesquisadores nessaárea quando defendem a valorização dos educandos em todo o processo educacional. Segundoos entrevistados esse problema existe porque o método utilizado ainda se distancia darealidade dos alunos, a escola e a família falham quando não assumem uma educação crítica,criativa e competente que os prepare para a vida, como também, porque há falta de interessede professores que não planejam adequadamente suas aulas e vivem desmotivados, pois nãoprocuram a formação continuada que é necessária numa época em que a tecnologia avançacada vez mais. Além disso, as más condições sócio-econômicas, a desumanização e a falta deuma alimentação equilibrada, baixam o nível de aprendizagem das nossas crianças, provocamevasão escolar e uso de práticas marginais. Para Paulo Freire (1996, p. 50) “como professor crítico, sou um aventureiroresponsável, predisposto à mudança, à aceitação do diferente”. Dessa forma, pode-se observarque somos capazes de intervir no mundo, decidir e escolher, realizar grandes ações, semprecom exemplos de dignidade e ética. As mudanças poderão ser lentas e as situações podem atépiorar, mas é essencial que estejamos sempre atentos e dispostos a melhorá-las. Outra questão analisada refere-se à forma como o professor-alfabetizador aplica ométodo de alfabetização em sala de aula. A entrevista revelou que essa é a causa principal dadeficiência de aprendizagem comprovada nos exames nacionais. Porém, todos comentaramque as pesquisas realizadas nessa área, bem como as experiências e novas técnicas de ensino eaprendizagem que os especialistas vêm realizando nas ultimas décadas, já estão ocorrendonessas escolas onde atuam. Assim, teremos muito trabalho pela frente, até efetivarmos asmelhorias que a nossa educação merece. No último questionamento pediu-se a opinião sobre quais outros fatores podem causaras dificuldades apresentadas nesse estudo. Em relação a essa questão afirmaram que a falta deplanejamento familiar, os desvalores morais e sociais, a falta de bons exemplos de pais eprofessores como leitores e incentivadores da leitura, pouco acompanhamento da família naescola, a desvalorização do professor por ele mesmo e pela sociedade, são pontos negativosque contribuem para que tenhamos médias baixas nas avaliações nacionais realizadas peloMinistério da Educação. Os educadores críticos não podem pensar que, a partir do curso que coordenam ou do seminário que lideram, podem transformar o país. Mas podem demonstrar que é possível mudar. E isto reforça nele ou nela a importância de sua tarefa político- pedagógica. (PAULO FREIRE, 1996, P. 112)
  • 11. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar da importância dos movimentos de renovação da educação, ainda persistem asimensas dificuldades de leitura e o baixo índice de competências nas séries iniciais do ensinofundamental. Compreendendo melhor o que está acontecendo na alfabetização de nossos alunos dasséries iniciais, identificamos vários fatores que influenciam o surgimento desses problemas.Percebe-se que a situação é real, porque há escolas que não oferecem formação contínua paraos seus professores, mas que também há docentes que não planejam adequadamente oprocesso de alfabetização. Suas metodologias utilizadas na prática pedagógica e a forma comosão conduzidas na sala de aula, não condizem com o contexto social onde os alunos estãoinseridos. As condições sócio-econômicas e psicológicas de nossos alunos e muitas decisõesadotadas na educação, também contribuíram para que houvesse índices tão altos dedificuldades na aprendizagem e defasagem no ensino. Diante dos problemas que enfrentamos no processo educacional, especialmente naalfabetização das séries iniciais, necessitamos de soluções que ajudem na construção doconhecimento com educação de qualidade que prepara o ser humano para a vida, pois asatividades de fala, escrita e leitura são muito importantes nesse processo. Para os educadores que pretendem assumir os riscos dessa revisão sobre o processo dealfabetização, é fundamental que não deixem de ser criativos e críticos, porque há muitospontos a considerar. Também não se deve pensar que todas as informações, pesquisas eexperiências necessárias à prática docente já estejam analisadas. É essencial que o tema da alfabetização esteja sempre presente nas reflexões sobre aprática pedagógica, nos questionamentos, nas pesquisas, nos seminários, livros e artigos, paraque a educação não seja só privilégio de poucos, mas tenha valor na vida de todas as pessoasde nossa sociedade.8. REFERÊNCIASBRASIL. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. EnsinoFundamental de Nove Anos. Orientações para a Inclusão da Criança de Seis Anos deIdade. Brasília, 2006.
  • 12. CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Lingüística. São Paulo: Scipione, 1993.CAVALCANTE, Meire. Alfabetização – Todos podem aprender. Revista Nova Escola, SãoPaulo, edição 190, mar/2006. Disponível em:FERREIRO, Emília. Reflexões sobre Alfabetização. São Paulo: Cortez, 2001.______. Alfabetização em Processo. 8ª ed. – São Paulo: Cortez, 1992.FRANCHI, Eglê Pontes. Pedagogia da Alfabetização: da oralidade à escrita. São Paulo:Cortez, 2001.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.http://revistaescola.abril.com.br. Acesso em: 20 out. 2007LUIZE, Andréa. Texto com sentido. Revista Vila XXI, São Paulo, Edição Especial doInformativo do Centro de Estudos da Escola da Vila, janeiro 2000. Disponível em:http://www.vila.org.br/revista_vila_21/alfabetizacao. Acesso em: 15 out. 2007.PELLEGRINI, Denise. O ato de ler evolui. Revista Nova Escola, São Paulo, edição 143,junho/2001. Disponível em: http://novaescola.abril.com.br. Acesso em: 12 set. 2007.SANZ, Luiz Alberto. Procedimentos Metodológicos: fazendo caminhos. Rio de Janeiro:Ed. Senac Nacional, 2003.