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Revista Científica - Capital Científico - v7n1

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  • 1. R evista C apital C ientífico
  • 2. Rua Salvatore Renna, 875, Santa Cruz Cep 85015-430 Guarapuava, Paraná Fone: (0xx42) 3621-1019 Fax: (0xx42) 3621-1090 editora@unicentro.br www.unicentro.br/editora Revista Capital Científico - RCCi Fone: (55+) 042 3621-1072 Fax: (55+) 042 3623-8644http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico
  • 3. R evista C apital C ientífico Volume 7 Número 1 2009 Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Guarapuava/Irati - Paraná- Brasil htttp://www.unicentro.br
  • 4. Revista Capital Científico - RCCi Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Reitor: Vitor Hugo Zanette Vice-reitor: Aldo Nelson Bona Editora UNICENTRO Comissão Científica Beatriz Anselmo Olinto Dra. Lucia Cortes da Costa – Universidade Estadual de Ponta Assessoria Técnica: Bruna Silva, Luiz Gilberto Bertotti, Luciano Grossa (UEPG) Farinha Watzlawick, Waldemar Feller Dr. Eduardo Fernando Appio – Centro Universitário Filadélfia Divisão de Editoração: Renata Daletese (UNIFIL) Dra. Márcia Maria Dos Santos Bortolocci Espejo – Universidade Seção de Revisão de Inglês: Raquel Cristina Mendes de Federal do Paraná (UFPR) Carvalho. Dra. Patrícia Morilha Muritiba – Universidade Nove de Julho Estagiários: André Justus Czovny; Fernanda Gongra; Marcio (UNINOVE) Fraga de Oliveira; Lucas Casarini Dra. Rúbia Nara Rinaldi – Universidade Estadual do Oeste do Revisão: Dalila Oliva Lima de Oliveira Paraná (UNIOESTE) Diagramação: Lucas Casarini Dr. Weimar Freire da Rocha Júnior – Universidade Estadual do Capa: Lucas Gomes Thimoteo Oeste do Paraná (UNIOESTE) Impressão: Gráfica UNICENTRO Setor de Ciências Sociais Aplicadas Santa Cruz: Luiz Fernando de Lima Irati: Edelcio José Stroparo Comissão EditorialDr. Ivan de Souza Dutra (presidente-editor); Ms. Ana Léa Macohon Klosowski; Dr. Carlos Alberto Marçal Gonzaga; Ms. CarlosAlberto Ferreira Gomes; Ms. Diogo Lüders Fernandes; Ms. Ivonaldo Brandani Gusmão; Ms. Juliane Sachser Angnes; Ms. Rosangela Bujokas de Siqueira Publicação do Setor de Ciências Sociais Aplicadas capitalcientifico@unicentro.br Para submissões: http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Edição aprovada pelo Conselho Editorial da UNICENTRO Catalogação na publicação Biblioteca da UNICENTRO Capital Científico / Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual do Centro-Oeste. – v.1, n.1 (2003) – Guarapuava: UNICENTRO, 2009 - Anual. ISSN 1679-1991 1. Ciências Sociais – Periódicos. Versão online, ISSN 2177-4153 em http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Copyright © 2009 Editora UNICENTRO Nota: Os conteúdos dos artigos desta revista são de inteira responsabilidade de seus autores.
  • 5. Editorial A Revista Capital Científico - RCCi encerrou o ano de 2009 com várias novidades de volume,comunicação eletrônica e impressa, design gráfico, bem como na especialização e balanceamentotemático dos artigos, marcando uma fase de crescimento, decorrente de mudanças significativas que estãosendo implementadas desde 2008. A Comissão Editorial ensejou a procura incessante em conteúdos com melhor qualidade científicae contribuição para a sociedade, tendo sempre em vista a missão do periódico, um desafio que foi econtinua árduo, o que pode ser observado nas considerações que seguem. Diante da conjuntura recente, verificaram-se obstáculos comuns como em vários periódicosacadêmicos de instituição pública que não têm receita por assinaturas ou fomento institucional externo,a exemplo do trabalho com equipe reduzida. Além disso, existiu a dificuldade de recebimento de artigosrelevantes, que pudessem ser aprovados dentro das exigências e condições necessárias, atendendo àqualidade e contribuição almejadas, dentro do prazo estabelecido para encerramento da edição. Issotambém é explicado pela fase atual do periódico, que ainda é relativamente pouco conhecido para opúblico de estudiosos externos e não tem alto fator de impacto, ao verificar-se o baixo volume de artigosrecebidos para dar giro de publicação das edições. Por causa dessas circunstâncias, a comissão consideroupublicar artigos recebidos e aprovados após o ano de 2009 dentro dos critérios exigidos, sem perda daqualidade exigida, como pode ser verificado nesta edição. Por outro lado, as contribuições dos autores desta publicação, e o recebimento mensal de novassubmissões especialmente a partir de 2010, por autores de diversas origens institucionais, serviram deestímulo para superar as dificuldades de manutenção, e as crescentes exigências do sistema de avaliaçãoQualis, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/MEC. É importanteressaltar que várias manifestações de sugestões ou críticas dos pesquisadores, discentes e leitores recebidasao longo do ano, contribuíram em boa parte para as modificações de melhoria do formato e consolidaçãodo conteúdo. Sendo assim, apresentamos essa edição com novo design gráfico para abarcar as temáticascontemporâneas do campo de Sociais Aplicadas. Na nova capa, buscou-se uma síntese dessa proposta,pela representação do globo terrestre estilizado, dando a idéia da característica interdisciplinar dessecampo, em face de estudos que alcançam dimensão mundial, na perspectiva de que não é possíveldistinguir as fronteiras entre novas e diferentes realidades sócio-econômicas, bem como nas várias ciênciasdo escopo das Ciências Sociais Aplicadas. A formatação interna de fonte e conteúdo acompanhou essafilosofia, também adaptada às novas tendências. Para as ações de gestão e editoração periódica, foi implantado o Sistema Eletrônico de Editoraçãode Revistas – SEER, uma ferramenta desenvolvida pelo Public Knowledge Project (Open Journal Systems) daUniversidade British Columbia e customizada no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência eTecnologia – IBICT. Com isso, iniciou-se um novo ciclo de edições com publicações eletrônicas em portalda revista via Internet, por meio do endereço http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico. Emconsequência, foi requerido e registrado um segundo número de ISSN, o 2177-4153, que é designadopara a versão on line da revista. Com esse sistema, que é visto com aprovação pelo Qualis/CAPES/MEC,ganha-se em segurança, aumenta-se o controle, melhora a qualidade e cresce o nível de compartilhamentoe socialização do conhecimento publicado. Uma Comissão Científica foi criada para a constante melhoria das diretrizes, normas e conteúdosdo periódico, constituída por doutores de instituições externas, representados em cada uma das seis áreas
  • 6. de Sociais Aplicadas aceitas no periódico. Nessa edição, a RCCi tem um privilégio de contar com essacomissão composta por professores e pesquisadores que se destacam nas suas áreas de trabalho e naacademia nacional, cujos nomes dão reconhecimento à missão e aos propósitos científicos do periódico. Os artigos publicados nesta edição são de autores vinculados a instituições de ensino e organizaçõesde pesquisa de renome, com a participação em mais de 70% de autores externos, que não possuemqualquer vínculo formal com a UNICENTRO, conferindo legitimidade e seriedade à revista aos seusobjetivos editoriais. Esses autores também contribuíram significativamente com seus estudos em qualidadee relevância do conteúdo. Esta edição contempla estudos, discussões e aspectos sobre a mudança social, organizacional e asustentabilidade. Assim, apresentam-se artigos que trazem pesquisas e reflexões sobre as transformaçõesorganizacionais diante da vida no mundo, em termos macroambientais e microambientais, de sistemas emque vivem pessoas e organizações sócio-econômicas. O leitor encontrará estudos do processo produtivosobre o trabalho e o capitalismo, e outros, das desigualdades sociais, das alternativas de desenvolvimentosustentável e a crise ambiental, dos sistemas de gestão ambiental e de responsabilidade social, bemcomo do perfil daqueles que dirigem organizações com esses processos. Em perspectiva adjacente, sãoapresentados artigos tais como: o da hierarquização de atrativos turísticos da cidade de Irati-PR; o daanálise dos objetivos do balanço social, da análise das metodologias de intervenção de consultores emONG no Recife-PE; da qualidade de serviços em uma IES, utilizando-se o modelo metodológico 5 GAP´s;recursos de tecnologia e informação para o apoio ao ensino, pesquisa e extensão, além de trabalhosdas narrativas (storytellings) contadas pelos anúncios e vídeos institucionais da organizações, de casos deações em Customer Relationship Management (CRM) e sobre os processos de seleção de empregados porcompetência. Um ensaio que discute e traz metáfora para a mudança organizacional encerra o periódico. Diante disso, a Revista Capital Científico traz conteúdos pela busca e auxílio do conhecimentocontemporâneo nas Ciências Sociais Aplicadas, em suas diversas áreas, com a contribuição dos autores,sempre seremos agradecidos. Desejamos uma excelente leitura! Dr. Ivan de Souza Dutra Editor da revista Capital Científico
  • 7. SumárioCapitalismo e as Transformações no Processo de Trabalho.................... 11Caroline GoerckCrise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia comouma das soluções de longo prazo........................................................... 21Marcia Regina Gabardo da CamaraRafael Borim de SouzaA Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil.......................... 35Francieli do Rocio de CamposPatrícia EstanislauA Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório deCamarões Marinhos................................................................................. 47Antonio Costa Gomes FilhoFernando Antonio ForcelliniMarilene BronoskiRafael Feyh JappurProjetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo de DesenvolvimentoLimpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade...................... 57Miriam Tiemi Oliveira TakimuraValdir Machado Valadão JúniorAvaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de Irati-PR............ 73Diogo Lüders FernandesVanessa de Oliveira MenezesGestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos Gestores: análise dasorganizações de Blumenau - SC..............................................................85Danielle Regina UllrichMarialva Tomio DreherBalanço Social: uma análise comparativa entre objetivos propostos naliteratura e a realidade empírica............................................................ 99Diocesar Costa de SouzaMarcos Roberto KuhlVicente Pacheco
  • 8. Metodologias de Intervenção Utilizadas pelos Consultores no TrabalhoRealizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife-PE..................................................................................................... 115Marcos Gilson Gomes FeitosaNaldeir dos Santos VieiraAvaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição de EnsinoSuperior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos5 GAP’s................................................................................................... 129Rodrigo Navarro XavierBRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisae extensão..............................................................................................139Carlos César Garcia FreitasDados de Clientes no Customer Relationship Management (CRM): estudode casos múltiplos no desenvolvimento de software............................151Flávio Régio BrambillaStorytellings Organizacionais: narrativas contadas pelos anúncios evídeos institucionais............................................................................... 163Cintia Rodrigues de Oliveira MedeirosMudando para Seleção por Competência: um caso paranaense..........175Keyla Cristina Pereira PradoSérgio BulgacovEnsaio: O Princípio da Bicicleta: revisitando a mudança organizacional....187Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  • 9. SummaryCapitalism and the Changes in the Working Process.............................. 11Caroline GoerckEnvironmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnologyas one of the long run solutions.............................................................. 21Marcia Regina Gabardo da CamaraRafael Borim de SouzaThe Polarization of Regional Inequalities in the Brazil........................... 35Francieli do Rocio de CamposPatrícia EstanislauEnvironment Management System Evolution: the case of Marine ShrimpsLaboratory................................................................................................ 47Antonio Costa Gomes FilhoFernando Antonio ForcelliniMarilene BronoskiRafael Feyh JappurBrazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzingthe indicators of sustainability................................................................. 57Miriam Tiemi Oliveira TakimuraValdir Machado Valadão JúniorEvaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR...................... 73Diogo Lüders FernandesVanessa de Oliveira MenezesSocial Responsibility Management and the Managers Profile: an analysisof Blumenau-SC organizations................................................................85Danielle Regina UllrichMarialva Tomio DreherSocial Balance: comparative analysis between goals proposed in theliterature and empirical reality............................................................... 99Diocesar Costa de SouzaMarcos Roberto KuhlVicente Pacheco
  • 10. Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultantswith NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PE.............. 115Marcos Gilson Gomes FeitosaNaldeir dos Santos VieiraEvaluation of Higher Education Service Quality through the AdaptedMeasure Model of 5 GAPs...................................................................... 129Rodrigo Navarro XavierClients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiplecases study for software development...................................................139Flávio Régio BrambillaOrganizationals Storytellings: the narratives told in the videos and adsinstitutional............................................................................................ 151Cintia Rodrigues de Oliveira MedeirosMoving to Competency-Based Selection: a Parana case...............................163Keyla Cristina Pereira PradoSérgio BulgacovThe Bicycle Principle: revisiting an organizational change...........................175Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  • 11. Capitalismo e as Transformações no Processo de Trabalho Capitalism and the Changes in the Working ProcessCaroline Goerck1ResumoNo capitalismo, os proprietários dos meios de produção exercem a hegemonia absoluta sobre as forçasprodutivas, apropriando-se com exclusividade dos excedentes gerados no processo de trabalho. Os capitalistasalmejam intensificar a acumulação de capital, por meio da mais-valia absoluta e relativa, reduzindo os custosde produção e aumentando a sua produtividade. O processo de produção realizado pelo maquinário avapor, durante a I Revolução Industrial, pelo petróleo e pela eletricidade, na II Revolução Industrial, e pelodesenvolvimento da automação, robótica e microeletrônica, elaborado por meio da III Revolução Industrial,foram submetendo os trabalhadores à máquina. Entretanto, faz-se necessário enfatizar que o desempregoé permanente no sistema capitalista, sendo que o investimento em mais-valia relativa, só o acentua. Esteestudo está relacionado com uma revisão bibliográfica sobre o assunto apresentado e propõe-se também adesencadear alguns questionamentos junto a estudantes e/ou profissionais que trabalham com a questão sociale suas manifestações, para serem objeto de prospecções sobre a realidade social e econômica. Nesse sentido,este artigo propõe-se a desencadear reflexões sobre as transformações que estão ocorrendo no processo detrabalho, visando prospectar alternativas à conjuntura macro social e econômica vigente.Palavras-chave: Capitalismo; Processos de Trabalho; Revoluções Industriais; Desigualdade SocialAbstractThe owners of means of production in the capitalist system exert an absolute hegemony over the productiveforces, suiting themselves exclusively from the surplus generated through the work processes. The capitalistsintend to intensify the cumulative capital by relative and absolute surplus value, reducing the production costsand increasing their productivity. Production achieved by steam engines, during the First Industrial Revolution, bypetroleum and electricity, during the Second Industrial Revolution, and by the development of automation, robotsand micro-electronics, originated during the Third Industrial Revolution, were substituting machine operators.However, it becomes necessary to emphasize that unemployment is permanent in the capitalist system, consideringthat the investment in relative surplus accentuates this unemployment. In this sense, the present article proposesto elicit some reflections with students and/or professionals who carry about social manifestation issues, aimingto prospect alternatives to the social macro and economical conjuncture being viewed.Key words: Capitalism; Work Processes; Industrial Revolutions; Social inequality1 Possui doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.Contato: goerck@yahoo.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 04/10/2009 - Aprovado em 04/06/2010
  • 12. Introdução de alienação. Na manufatura, entretanto, o trabalhador ainda possuía certa autonomia, em As questões referentes ao trabalho e relação às atividades que estava desempenhando,seus processos produtivos, exercem influência pois a ferramenta era utilizada para auxiliá-lo nafundamental na forma de organização da sociedade, produção, e não substituí-lo. “Na manufatura, ocom suas respectivas relações sociais e econômicas, trabalho é desenvolvido pelo esforço humano, aspolíticas e culturais. Para a existência de alternativas operações são manuais e dependem da habilidade,e proposições em relação ao capitalismo, rapidez, segurança e destreza individual dosprimeiramente se faz necessário, um conhecimento trabalhadores” (PIRES, 1998, p. 31). Assim, nomais elaborado desse sistema. trabalho desenvolvido pela manufatura, o capital Esse artigo tem como finalidade, introduzir e ainda dependia da habilidade manual do operário.elucidar conceitos do modo de produção capitalista Durante o século XVIII, na Inglaterra, emergiue sobre o processo de trabalho, por meio de uma um intenso processo de transformação nos processosretrospectiva histórica de forma que a questão produtivos, intitulado de 1ª Revolução Industrial.social seja evidenciada. Primeiramente, serão “A Revolução Industrial assinala a mais radicalapresentadas as primeiras formas de sistematização transformação da vida humana já registrada emdo trabalho coletivo e os procedimentos adotados documentos escritos” (HOBSBAWM, 1983, p. 13).pelo capital, para a obtenção da mais-valia. Num Nesse momento histórico, acentuou-se a divisãosegundo momento, serão abordadas a II Revolução entre a classe trabalhadora e os proprietários dosIndustrial e as transformações que estão ocorrendo meios de produção.no final do século XX e limiar do século XXI, com O período da 1ª Revolução Industrialsuas respectivas implicações sociais e econômicas. corresponde ao momento de consolidação doPor fim, serão tecidas as considerações finais. capitalismo industrial, principalmente na Inglaterra. O trabalho manufatureiro fora substituído pela1. O Processo de Trabalho e o Sistema criação da máquina a vapor, pelo tear mecânico,Capitalista pelas estradas de ferro e pelo surgimento das fábricas. Antes de introduzir a I Revolução Industrial, faz- “Ainda que a indústria seja a forma através da qual ase necessário abordar um dos primeiros processos sociedade apropria-se da natureza e transforma-a,de trabalho existentes no sistema capitalista, como a industrialização é um processo mais amplo, quepor exemplo, o trabalho manufaturado artesanal. marca a chamada Idade Contemporânea, e que seOs processos de trabalho manufaturados artesanais caracteriza pelo predomínio da atividade industrialforam caracterizados pela fragmentação das sobre as outras atividades econômicas” (SPOSITO,atividades produtivas, pelo acirramento da divisão 2000, p. 43). A I Revolução Industrial foi mais dodo trabalho, pela redução dos custos de produção que uma simples causa dessas invenções, do teare pela culminação do trabalho assalariado. Essa mecânico, da estrada de ferro etc. Contrapondo-dissociação entre o produtor e os meios de produção se a isso, essas inovações são consequências dasé nomeada de acumulação primitiva (MARX, 1988). mutações que estavam ocorrendo nos processos de No trabalho manufatureiro artesanal, produção industrial, desde o trabalho manufaturado,cada trabalhador se tornou especialista de uma visando a realização do capital.determinada função, auxiliado pela ferramenta. “A máquina, por meio de uma força externa,Pelo intermédio do parcelamento das atividades faz com suas próprias ferramentas, o que o homemlaborais, realizadas na manufatura, ocorreu um fazia com suas ferramentas manuais” (PIRES, 1998,processo de estranhamento, entre os trabalhadores p. 31). Assim, a industrialização e as inovações dee as mercadorias por eles produzidas (MARX, maquinarias, reduziram os custos de produção,1988). Esse processo de estranhamento é nomeado aumentaram a produtividade e substituíram a mão- 12
  • 13. de-obra, ocasionando um crescente desemprego como o conflito suscitado entre o capital (proprietáriose uma exacerbada exploração dos trabalhadores, dos meios de produção) e o trabalho (trabalhadoresentre eles, o trabalho feminino e o infantil. que vendem suas forças de trabalho em troca de Por intermédio da perspectiva social e um salário), bem como, as desigualdades geradaseconômica liberal, os processos de produção através dessa relação social, de compra e venda dacontinuaram sendo modificados. A produção força de trabalho (BULLA, 1992).realizada pelo maquinário a vapor – na 1ª Revolução Os trabalhadores, ao disponibilizarem aIndustrial, e pelo petróleo e pela eletricidade - sua mão-de-obra aos capitalistas, são exploradosdurante a II Revolução Industrial, foram submetendo gerando a mais-valia, que perpetua a acumulaçãoos trabalhadores à máquina. A II Revolução Industrial capitalista. A força de trabalho pode ser caracterizadateve como características, o desenvolvimento dos como o conjunto das faculdades físicas e intelectuaissetores de transportes, comunicação, produção em do trabalhador que as vende à burguesia (SALAMA,série e, principalmente, a utilização do aço e de novas 1975). Os proprietários dos meios de produçãoformas de energia (petróleo e eletricidade), gerando compram a força de trabalho do proletariado,a concentração de capital e favorecendo a transição em troca de salários. “[...] o que distingue o piordo capitalismo concorrencial ao monopolista. arquiteto da melhor abelha é que ele figura naEsses novos protótipos de produções industriais, mente da sua construção antes de transformá-laocasionados pela I e II Revoluções Industriais, em realidade” (MARX, 1968, p. 202). A mão-de-desencadearam o acirramento da divisão social do obra é vendida como mercadoria pelos própriostrabalho. Nessa época, a classe trabalhadora era trabalhadores. “Ao firmar o contrato salarial [...] osdestituída de direitos trabalhistas e as condições de trabalhadores submetem-se ao empregador, quetrabalho eram precárias. disporá da força de trabalho alienada” (CATTANI, No modo de produção capitalista, os 1996, p. 93). O valor desse salário é definido peladetentores dos meios de produção exerciam quantidade de horas trabalhadas pelos operários(exercem) a hegemonia absoluta sobre as forças (jornada de trabalho).produtivas (meios de produção e força de trabalho), Para os capitalistas, o processo produtivoapropriando-se com exclusividade dos excedentes possui um valor, pois lhes são úteis, gerando agerados (mais-valia) na atividade econômica. Os mais-valia. Esta realiza-se, quando os trabalhadoresproprietários dos meios de produção exploram os consomem mercadorias adquiridas, por intermédiotrabalhadores pela obtenção da mais-valia, gerando de seus valores de troca, com os seus salários.a concentração de riquezas. Essa concentração de Ou seja, o salário dos operários que foi gastocapital e do trabalho socialmente produzido resultou em mercadorias, retorna aos capitalistas, que porem tensões e lutas sociais, especialmente a luta de sua vez, acumulam mais capitais, perpetuando oclasses, processo analisado no livro “O Capital” sistema (MARX, 1988). A mais-valia produzida pela(MARX, 1988). classe operária é apropriada pelos capitalistas que O trabalho produzido pela classe trabalhadora sempre tentam aumentar os seus lucros, através daera (é) apropriado pelos capitalistas e, na medida em intensificação da produção que não é paga - atravésque a força de trabalho é algo passível de compra, ela dos salários, aos trabalhadores. Para o aumentopassa também a ser considerada uma mercadoria. da mais-valia, da produtividade, os capitalistasNesse processo, o valor da força de trabalho é usufruem de duas possibilidades. A primeira ocorredeterminado pelo tempo de duração destinado à com a mais-valia absoluta, que se subdivide emprodução e à reprodução das mercadorias. Essa outras duas alternativas: ampliação da duraçãorelação entre a compra e venda da mão-de-obra da jornada de trabalho (horas trabalhadas); e aé considerada uma relação social e desencadeia a segunda pelo aumento da intensidade do trabalho,questão social. A questão social pode ser apreendida, visando à produção máxima dos trabalhadores 13
  • 14. junto às máquinas (quase robóticos) durante a pura e simples do progresso técnico é, na realidade,execução do trabalho (MARX, 1988). Entretanto, um fenômeno inerente ao sistema capitalista e dasambas sofrem limitações, a primeira se contrapõe à suas próprias contradições (MARX, 1988). Nesseresistência física dos trabalhadores, que não teriam trabalho, ressalta-se o significado econômico dacondições de trabalhar muitas horas consecutivas; mais-valia, pois essa acirra a desigualdade social.na segunda, os operários não possuem condições Conforme Karl Marx (1818–1883) e Friedrichde acompanhar o ritmo dos maquinários, quando Engels (1820–1895), pensadores do Socialismomuito acelerados. Científico, somente existiriam sociedades mais justas e A outra possibilidade de ampliação do igualitárias, quando o sistema capitalista se esgotasseacúmulo de capital é obtido pela mais-valia relativa, e fosse substituído por outro modo de produção, queque é responsável por uma grande exacerbação superasse a contradição capitalista. Esse outro sistemada produtividade no trabalho. A mais-valia relativa produtivo, segundo esses autores, seria o socialismo.é realizada a partir do uso intensivo de capital Neste, a propriedade privada e as classes sociaisconstante (maior investimento em compra de deveriam ser eliminadas, gerando a propriedademaquinários, do que em contratação da força de social dos meios de produção. Na sequência dessastrabalho), ocasionando uma redução nos custos de transformações, entre os modos de produção, em seuprodução e no tempo socialmente necessário para último estágio, pregavam Marx e Engels, haveria aa fabricação de uma mercadoria, sem alterar o passagem do socialismo ao comunismo, eliminandotempo de duração na jornada de trabalho (MARX, assim, as classes sociais e o Estado Burguês.1988). É nesse processo de intensificação da mais- Para Marx, a práxis “está presente comovalia relativa, que se reduz o tempo socialmente elemento fundamental de transformação da sociedadenecessário à produção de mercadorias, que e da natureza pela ação dos homens” (GOHN, 2002,geram acumulação de capital. Assim, as máquinas P 176). A transformação do social por intermédio de .aumentam a produção reduzindo a quantidade de atividades teóricas, conjuntamente com atividadestrabalhadores contratados. políticas e/ou produtivas, constituem a práxis, que tem A redução da contratação de mão-de- como base fundante o mundo do trabalho. Entretanto,obra suscita o desemprego. O desemprego pode para que ocorra a transformação por meio da práxis,ser para os proprietários dos meios de produção, é necessário que exista a consciência de classe. Essauma vantagem, pois se cria um exército de reserva consciência de classe, que Marx se refere, foi uma das(muita oferta de força de trabalho) a disposição dos condições necessárias à emergência dos movimentoscapitalistas, que podem escolher a mão-de-obra, sociais existentes no século XIX. As Internacionaisde acordo com as suas necessidades de produção. Socialistas, organizadas pelo próprio Marx e Engels,Portanto, o progresso técnico reduziu a contratação se constituíram em movimentos de organização dada mão-de-obra. Mas se faz necessário o classe operária. A Primeira Internacional, realizadaesclarecimento de que o desemprego é permanente em Londres (1824) e a Segunda Internacional emno capitalismo, sendo que o investimento na Paris (1889), fixou a data de 1º de maio como omais-valia relativa só o acentua. O objetivo dos Dia Internacional do Trabalho, em homenagem àproprietários dos meios de produção é intensificar mobilização realizada pelos grevistas em Chicago,a acumulação de capital, permitindo-lhe competir no ano de 1886. Outros movimentos sociaiscom os demais capitalistas, mantendo-se no sistema emergiram no século XIX frente ao capitalismo, comoe evitando a sua eliminação ou incorporação a outro forma de resistência dos trabalhadores diante docapitalista e/ou grupo de maior porte. A lógica do capital. No próximo subitem, serão problematizadascapitalismo se sobrepõe ao processo técnico, esse as transformações que ocorreram e estão ocorrendoúltimo só complementa-o. O desemprego, longe no processo de produção e gestão que envolvem ode ser um fenômeno natural ou uma decorrência sistema. 14
  • 15. 2. As Transformações no Processo de trabalho de concepção e de execução; utilizaçãoTrabalho desenvolvidas nos Cenários do conhecimento, para controlar cada fase dados Séculos XX e XXI produção e o seu modo de execução (HARVEY, 1999). Através da cisão entre o trabalho intelectual Os Séculos XX e XXI são cenários de acentuadas e o operacional, a gerência científica racionalizavatransformações no mundo do trabalho, com suas a produção, estabelecendo rigidamente os modosrespectivas implicações sociais e econômicas. Para e tempos de produção, bem como os rendimentosapresentar as novas transformações que estão da força de trabalho, colocando os trabalhadoresocorrendo nos processos de trabalho - que têm sobre uma estrutura hierárquica de produção, emcomo finalidade a intensificação da acumulação que eles eram vigiados e controlados.capitalista, é necessário que se introduza, o contexto O Taylorismo caracterizou-se pelo controlesocial e econômico existente no Século XX - cenário do capital (com o objetivo de elevar a produtividadeoriginário e que permeou essas transformações. do trabalho) sobre processos de produção, nosO sistema capitalista, com a finalidade de quais o capital dependia ainda da habilidade doexpandir a acumulação de capital, promoveu trabalhador. Esse controle era efetivado atravésa Segunda Revolução Industrial, manifestada, dos tempos e movimentos do trabalhador. Apósprincipalmente, pelo binômio Taylorismo/Fordismo. as inovações dos processos produtivos de Taylor,Esses dois modelos predominaram no processo de em 1913 Henry Ford, utilizando essas inovações,industrialização, tendo sua ascensão na segunda criou a linha de montagem (automobilismo) e odécada do século XX. Suas caracterizações estão método de produção em massa (esteira), obtendorelacionadas à hierarquização das relações de produtos padronizados (FLEURY; VARGAS, 1983). Otrabalho, a homogeneização das mercadorias, a Fordismo, que teve seu desenvolvimento hegemônicoprodução em massa e em série (ANTUNES, 2003). no período pós-guerra, pôde ser desenvolvido ao Na indústria automobilística Taylorista e fundir-se com o Taylorismo.Fordista, foram considerados elementos centraisà produção, a racionalização das operações, o O Fordismo caracteriza o que poderíamos chamar decombate ao desperdício na produção (redução socialização da proposta de Taylor, pois, enquanto este procurava administrar a forma de execução de cada tra-de tempo), o aumento do ritmo do trabalho e da balho individual, o Fordismo realiza isso de forma cole-intensificação das formas de exploração pelos tiva, ou seja, a administração pelo capital da forma decapitalistas (ANTUNES, 2003). Taylor, fundador execução das tarefas individuais se dá de uma formada gerência científica, começou sua carreira como coletiva, pela via da esteira (NETO, 1991, p. 36).operário numa fábrica. A partir de suas experiências,enquanto sujeito trabalhador, dedicou-se em Ao contrário do Taylorismo, que se baseavaobservar e em estudar os tempos e movimentos no rendimento individual de cada trabalhador, norealizados em cada tarefa e atividade da produção. Fordismo, o controle dos tempos e dos movimentos“O ‘Taylorismo’ ou ‘administração científica do era determinado pelo ritmo do funcionamento dastrabalho’ surge como uma nova cultura do trabalho maquinarias. Nesse modelo, eram as máquinasna passagem do século XIX para o século XX, nos (esteiras) que levavam o trabalho até os operários,Estados Unidos, nação que começava a despontar eliminando assim, os tempos mortos de produção.como potência mundial” (DRUCK, 1999, p. 41). Com esse protótipo, que desenvolveu a mecanização Para o enfrentamento do capital em relação associada e parcialmente automatizada, o controleà dependência da habilidade manual da força de sobre o trabalho não precisava mais ser realizadotrabalho, Taylor estabeleceu os seguintes princípios: diretamente pelo gerente, mas sim, pelos maquináriosdissociação dos processos de produção das (PIRES, 1998). O Fordismo constituiu-se no processoespecialidades dos trabalhadores; separação do contínuo da produção que agregou a produtividade 15
  • 16. ao consumo, ou seja, sempre dispondo de estoque de vigência do Welfare State e com os modelosmínimo às mercadorias (Just-In-Case). Também de produção Fordistas e Tayloristas, ocorreu apode ser considerado, o modelo de produtividade massificação da classe operária, conjuntamenteque separou rispidamente o trabalho de concepção com a precarização das condições e relações dee o de execução. Esse tipo de produção ocasionou trabalho, fazendo com que eclodissem movimentosa “expansão das unidades fabris concentradas e reivindicatórios e questionadores desses métodos deverticalizadas e pela constituição/consolidação do produção. Essas manifestações foram concebidasoperário-massa, do trabalhador coletivo fabril” por meio de greves, boicotes e resistência ao trabalho(ANTUNES, 1995, p. 17). despótico e verticalizado, oriundo do Taylorismo/ O Fordismo criou as linhas de montagem, Fordismo (ANTUNES, 2003).desqualificando, parcelando e desenvolvendo Outros elementos, além das manifestaçõesatividades laborais repetitivas, prejudiciais à saúde operárias, que constituíram a crise dessesdos trabalhadores. Tanto o Taylorismo como o modelos produtivos foram: a queda dos ganhosFordismo, foram modelos produtivos degradantes de produtividade pelo capital; a abertura àdas condições e relações de trabalho. A ruptura concorrência internacional, caracterizada peloentre o trabalho de concepção e o de execução processo de globalização; a flexibilização do capital;foram elementos preponderantes para a alienação a desterritorialização e a crise do Welfare Statedos operários diante do trabalho. Porém, não se (COCCO, 2001). A crise do Welfare State, modelodeve confundir o Taylorismo com o Fordismo. O de Estado que regulava o capital e reproduziaTaylorismo se caracterizou pela racionalização a força de trabalho, efetivou-se pela retirada dascientífica do trabalho, eliminando os tempos mortos coberturas sociais públicas e pelo corte nos direitosde produção e pôde ser viabilizado em pequenas sociais, num processo de ajuste do Estado que visa àe médias empresas; enquanto que o Fordismo diminuição dos ônus do capital e do déficit público,envolveu uma nova organização dos processos na esquematização da reprodução da força dede trabalho, através de máquinas-ferramentas trabalho e das condições para a perpetuação daespecializadas, mecanização e intensa divisão de acumulação capitalista (NETTO, 1996). O Estadoatividades laborativas, sendo que foi desenvolvido mínimo proposto pelas políticas neoliberais propõeem grandes empresas com produtos padronizados a retirada do Estado, junto aos bens e serviços(CATTANI, 2000). Esses modelos contribuíram para sociais públicos e não em relação ao financiamentoa exploração da classe trabalhadora no século XX. do capital. Paralelamente ao modelo de produção Nesses contextos sociais e econômicos, osTaylorista/Fordista, também no período Pós- governos dos Estados de capitalismo avançado,Guerra, emergiu o modelo de Estado designado liderados por Margaret Tatcher na Inglaterra, emcomo Welfare State nos países liberais. “O Estado 1979, e Ronald Reagan nos Estados Unidos, emé chamado para arbitrar o conflito entre o capital e 1980, implementaram uma política econômica eo trabalho” (SCHONS, 1999, p. 119). Esse modelo social embasados no aporte teórico neoliberal. Essade Estado contribuiu para o Boom Econômico até política econômica e social tem como medidas: oo final da década de 1960 e “é entendido como a enxugamento e a redução das responsabilidades dosmobilização em larga escala do aparelho do Estado Estados diante das sociedades; o fortalecimento daem uma sociedade capitalista, a fim de executar liberdade de mercado; as privatizações de instituições emedidas orientadas diretamente ao bem-estar organismos estatais; a redução e a extinção do capitalde sua população” (MEDEIROS, 2001, p. 6). O produtivo estatal; o desenvolvimento de uma legislaçãoWelfare State interviu no planejamento econômico, “desregulamentadora” das relações de trabalho emontando esquemas de transferências sociais e “flexibilizadora” dos direitos sociais; o enfraquecimentode distribuição de bens e serviços. Nesse período dos movimentos sindicais etc (ANTUNES, 2003). 16
  • 17. Outro elemento preponderante que constituiu Terceira Revolução Industrial, intensificam-se asa crise do Taylorismo e Fordismo foi o processo mais-valias relativas, que são responsáveis por umde globalização do capitalismo. A globalização, grande aumento da produtividade nos processos deintensificada durante a década de 1990, é trabalho. Com a revolução tecnológica, “o homemconstituída pela: mundialização dos mercados; deve exercer na automação funções mais abstratasdinamização do mercado mundial; acumulação e intelectuais” (IANNI, 1999, p. 19), fazendoflexível; liderança econômica dos grandes bancos com que o mercado requisite constantemente ume empresas oligopólicas; revolução tecnológica; profissional mais qualificado e polivalente. Comimplementação do referencial teórico neoliberal os novos processos tecnológicos - mecanização,nas políticas econômicas e sociais; subordinação automação e robótica -, o capital não gera maisdos países periféricos aos de capitalismo avançado uma significativa quantidade de emprego, a ponto(ANTUNES, 2003). Na mundialização do capital, os de absorver a força de trabalho disponível, pois aspaíses periféricos são subordinados às instituições inovações tecnológicas intensificam a produção efinanceiras dos países de economia avançada, não racionalizam os processos produtivos.possuindo condições de competir em condições de O processo de reestruturação do capital,igualdade nos mercados internacionais. juntamente com o neoliberalismo, vem apresentando Juntamente com a globalização, outro no aspecto econômico, porém, limitações, que estãofenômeno emergiu no término do século XX, o sendo materializadas pelas crises que ocorreramprocesso de desterritorialização. Este é caracterizado nos Tigres Asiáticos (1997-1999), no Méxicopela mobilidade do capital e consequentemente dos (1994-1995), na Argentina (2001-2002), e, maistrabalhadores, em escala mundial (IANNI, 1999). recentemente, nos Estados Unidos da América,O trabalhador migra conforme os movimentos desencadeando a crise mundial em 2008 e 2009.do capital, e este, por meio das transnacionais e/ A recessão norte-americana que está ocasionandoou multinacionais, direciona-se conforme os seus a crise mundial possui sua origem vinculada àinteresses de aumento na reprodução e acumulação crise das hipotecas dos EUA, desde agosto dede capital. 2007, alastrou-se rapidamente por todo o setor A crise dos modelos de produção que financeiro da economia norte-americana e dovigoraram no Século XX e do Welfare State, o advento mundo - mundialização do capital. Esse mecanismodo neoliberalismo, a infiltração do capital nos países permitiu a expansão do consumo nos EUA e notidos como socialistas, a expansão da globalização, desenvolvimento da economia chinesa, entre outrosjuntamente com o processo de desterritorialização, aspectos.são elementos que integraram o cenário do Século XX. Ainda não se tem conhecimento de quaisDiante dessas circunstâncias, iniciou-se um processo serão as consequências futuras dessa crise, porém,de reorganização do próprio capital, com seu sistema sabe-se que ela não é equivalente a de 1929, queideológico e político de dominação, resultando num desencadeou a depressão econômica generalizadaacentuado processo de reestruturação da produção (FACHIN, 2008). O que está ocorrendo constitui-see do trabalho (ANTUNES, 2003). O término do numa recessão materializada pela redução na taxaséculo XX e o limiar do século XXI são marcados por de crescimento econômico, que gera desempregos,uma profunda transformação do mundo do trabalho entre outros elementos. O que se sabe, entretanto,e seus processos produtivos. com a atual recessão mundial - advinda da crise norte- Essa transição do Taylorismo/Fordismo ao americana -, é que o protótipo neoliberal respaldadoToyotismo também é expressa pela passagem da na autorregulação do mercado, na liberalizaçãomáquina-ferramenta, ao sistema de máquinas e expansão da economia em escala mundial e naauto-reguladas, em que “a máquina se vigia e se não intervenção estatal nas relações comerciais,regula a si mesma” (IANNI, 1999, p. 18). Com a vem demonstrando sinais sérios de esgotamento, 17
  • 18. principalmente nos EUA, no Japão e na Europa de 20,4% (outubro de 2008) (ATLAS..., 2009). JáOcidental - que possui como moeda o Euro. em relação à taxa de crescimento econômico no Na América Latina, diante desse cenário Brasil, ocorreu uma redução maior do que 3%mundial, o trabalho informal constitui-se num dos entre os anos de 2007 e 2008. Em 2007, houveelementos que contribui para a sobrevivência dos um crescimento de 7,0%, e, em 2008, com a crisesujeitos que estão exclusos do mercado formal mundial, o crescimento no Brasil reduziu para 3,8%.de trabalho (CATTANI, 2003). Já no Brasil 32,6% Outra característica fundamental que se atribuidos municípios possuem mais da metade de sua ao trabalho feminino é que, para a inserção da mulherpopulação vivendo na pobreza, e a Região Nordeste no mercado formal de trabalho, faz-se necessáriopossui a realidade mais alarmante, totalizando um nível de qualificação, que comumente é superior77,1% dos municípios nessas condições. ao masculino, devido à desigualdade de gênero Salienta-se ainda que, além das velhas nas relações de (re) produção social e econômica.formas estocadas de exclusão social nos países Mesmo com o fato das mulheres brasileiras teremperiféricos - entre eles os países latino-americanos -, em média um ano a mais de escolaridade que osdesignada de “velha pobreza”, representada pelos homens, as mesmas recebem salários inferiores apobres, miseráveis, mendigos, pedintes, indigentes eles mesmos (CAMPUS, 2008). Uma trabalhadorasubnutridos e minorias sociais (idosos, deficientes, que possui escolaridade entre 8 e 10 anos, recebemulheres, negros, índios), com a Reestruturação valor semelhante ao de um trabalhador que estudoudo Capital ou III Revolução Industrial, surge tanto no máximo 3. Além do aspecto cultural, outro motivonos países centrais, como também nos periféricos que possivelmente desencadeie essa diferença salarial- emergentes -, outra forma de exclusão social, pode ser explicado pelo fato de os homens possuíremnomeada de “nova pobreza” (REIS, 2002). Essas uma maior taxa de abandono e defasagem escolarnovas exclusões sociais, que atingem tanto os maior do que as mulheres, e por entrarem em médiapaíses periféricos como os centrais, são originárias com menos idade do que as mulheres no mercadodo desemprego estrutural e de suas manifestações, de trabalho (CAMPUS, 2008).compreendidas como exclusão de bens e serviços, Frente a essa realidade de desemprego tantodo mercado formal de trabalho, da terra, da feminino como também o masculino, constata-sesegurança, dos direitos humanos (REIS, 2002). que estão sendo prospectadas novas formas ou Segundo os dados coletados pela PED-IBGE possibilidades de geração de trabalho e renda,(Pesquisa de emprego e desemprego) entre os anos com vistas a incluir os sujeitos – especialmente osde 2002 e 2008, houve uma redução na taxa de menos qualificados - no sistema, possibilitandodesemprego total em todas as capitais pesquisadas, uma melhoria nas suas condições de vida ee em Belo Horizonte, chegou a diminuir 11%. Em consequentemente de seus familiares. Para isso,Porto Alegre, teve uma redução de 4,7%, pois a estão sendo pensados novos protótipos deregião metropolitana de Porto Alegre, em outubro desenvolvimento (DE PAULA, 2001) que podem serde 2008, possuía 10,6% de sua população observados sob o aspecto de que o desenvolvimentoeconomicamente ativa desempregada (dados para social significa desenvolvimento não-desigual e queoutubro de 2008). Na região metropolitana de São visa à inclusão social de todos os sujeitos.Paulo, os índices de desemprego correspondiam a12,5% (outubro de 2008); na região metropolitana Considerações Finaisde Belo Horizonte, a 9,0% (outubro de 2008); naregião metropolitana de Recife, a 18,9% (outubro Neste artigo pretendeu-se esclarecer o modode 2008); no Distrito Federal, a 16,0% (outubro de produção capitalista e seus processos de trabalho,de 2008) e, na região metropolitana de Salvador durante as três Revoluções Industriais. No sistemaainda há o maior índice de desemprego, em torno capitalista, os proprietários dos meios de produção, 18
  • 19. sempre visam intensificar a acumulação de capital, trabalhadores sobrantes - desnecessários ao capital,seja através da mais-valia absoluta, ou por meio da que não conseguirão mais serem absorvidos pelomais-valia relativa, reduzindo os custos de produção sistema? Será que emergirá alguma alternativae aumentando a sua produtividade. O processo de viável ao crescente desemprego? Será que não estáacumulação e centralização de capital é inerente a no momento da sociedade como um todo, bemesse sistema, pois deles dependem, a permanência como, profissionais, refletirem seriamente sobre asde qualquer empreendimento no mercado, evitando “novas armadilhas” do capital? Ou será que, aosua eliminação e/ou incorporação a outro capitalista criar alternativas para atenuar as manifestações dade maior porte. questão social, não se está novamente deixando de Nesse sentido, este estudo propõe-se a prospectar mudanças, que realmente transformemdesencadear algumas reflexões, a estudantes a realidade, reduzindo a desigualdade social eou profissionais que trabalham com a questão econômica, assim como a exploração capitalista?social e suas manifestações, para serem objeto de E por último, será que a criação de alternativas deprospecções sobre a realidade social e econômica. geração de trabalho e renda, além de serem fruto dasDiante das transformações que estão ocorrendo próprias contradições do capital, não se constituemno processo de trabalho, o que será proposto aos também, como uma forma de alienação?ReferênciasANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo dotrabalho. 3. ed., São Paulo: Cortez, 1995._______. Os Sentidos do Trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6. ed., SãoPaulo: Boitempo Editorial, 2003.ATLAS na alimentação e moradia respondem pela inflação. Disponível em: <http:/www.dieese.org.br>. Acesso em: 06 fev. 2009.BULLA, L. C. Serviço Social, Educação e Práxis: Tendências Teóricas e Metodológicas (Tese de Doutorado).Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Curso de Pós-Gradualção emEducação. Porto Alegre, 1992.CAMPOS; O. S. Pobreza é menor se há equidade de gênero. Programa das Nações Unidas para odesenvolvimento. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index.php?id01=2955&lay=pde>. Acesso em: 13 ago. 2008.CATTANI, A. D. Trabalho & Autonomia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes Ltda, 1996.______ (org.). Trabalho e Tecnologia: dicionário crítico (org.). 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.______ (org.). A Outra Economia. Porto Alegre: Veraz, 2003.COCCO, G. Trabalho e Cidadania: produção e direitos na era da globalização. 2. ed. São Paulo:Cortez, 2001.DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS. Pesquisa deEmprego e Desemprego das Regiões Metropolitanas (ano de 2005). http:/www.dieese.org.br.Acesso em 21 de maio de 2005.DE PAULA, J. Desenvolvimento e gestão compartilhada. In: SILVEIRA, C. M. ; REIS, L. C. DesenvolvimentoLocal: dinâmicas e estratégias. Rio de Janeiro: Comunidade Solidária / Governo Federal / Ritz, 2001.DRUCK, M. G. Terceirização: (des) fordizando a fábrica. Um estudo do complexo petroquímico. SãoPaulo: Boitempo Editorial, 1999.FACHIN, P Brasil será atingido pela crise mundial. In.: IHU ON-LINE. Revista do Instituto Humanistas . 19
  • 20. Unisinos. São Leopoldo, ano VIII, ed. 274, 22 set. 2008.FLEURY, A. C. C.; VARGAS, N. (org.). Organização do trabalho: Uma abordagem interdisciplinar. Setecasos brasileiros para estudo. São Paulo: Atlas, 1983.GOHN, M. G. M. Teorias dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 3. ed.São Paulo: Loyola, 2002.HARVEY, D. Condição pós-moderna. Trad. SOBRAL, A. U.; GONÇALVES, M. S. 12. ed. São Paulo:Loyola, 2003.HOBSBAWM, E. J. Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1983.IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. SãoPaulo: Cortez, 2000.IANNI, O. O mundo do trabalho. In: FREITAS, M. C. (Org.). A reinvenção do futuro: trabalho, educação,política na globalização do capitalismo. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999.MARX, K. O Capital. Crítica da Economia Política- volume I. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R.Kothe. 3. ed. São Paulo: Nova Cultura, 1988.______. O Capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. Livro 1, v.1-2.MARX, K; ENGELS, F. A Ideologia Alemã. Feuerbach. Tradução de José Carlos Bruni e Marco AurélioNogueira. São Pulo: Editorial Grijalbo, 1977.MATTOSO, J. E. L. A Desordem no Trabalho. São Paulo: Scritta, p. 69 – 109, 1995.MORAES NETO, B. R. Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão. 2. ed. São Paulo: EditoraBrasiliense, 1991.NETTO, J. P Transformações Societárias e Serviço Social. Notas para uma análise prospectiva da .profissão no Brasil. Serviço Social & Sociedade. São Paulo: Cortez, nº 50, p. 87 – 132, 1996.PIRES, D. Reestruturação Produtiva e Trabalho em Saúde no Brasil. São Paulo: Conferência Nacionaldos Trabalhadores em Seguridade Social – CUT; Annablume, 1998.REIS, C. N. Exclusão Social: a multidimensionalidade de uma definição. In: DESAULNIERS, J.; MENDES,J. M. (orgs). Textos & Contextos: perspectivas da produção do conhecimento em Serviço Social.EDIPUCRS, Porto Alegre, 2002, p. 123-140.SALAMA, P VALIER, J. Uma introdução à economia políptica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, .,1975.SCHONS, S. M. Assistência Social entre a Ordem e a “Des-Ordem”: mistificação dos direitos sociaise da cidadania. São Paulo: Cortez, 1999.IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?sigla=rs&tema=mapapobreza2003>. Acesso em: 06 fev. 2009. SITE: www.Ibge.gov.br(acessado em 21 de maio de 2005).SPOSITO, M. E. B. Capitalismo e Urbanização. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2000. 20
  • 21. Crise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia como uma das soluções de longo prazo Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology as one of the long run solutionsMarcia Regina Gabardo da Camara1Rafael Borim de Souza2ResumoO artigo discute os determinantes da crise ambiental e possíveis soluções, a partir da emergência de uma novarealidade internacional e organizacional, amparada por um paradigma de sustentabilidade ambiental e social.O objetivo do artigo é o de analisar o comportamento organizacional que desencadeou a crise ambiental e areflexão sobre as soluções não imediatistas que permitiriam uma produção sustentável e suas consequências.A pesquisa é de natureza qualitativa, exploratória, bibliográfica e documental. Foi realizado um levantamentoteórico-metodológico a partir do paradigma de sustentabilidade e convergências tecnológicas. Apresentou-se, também, como exemplificação, o movimento nanotecnológico do continente europeu, possibilitado pelaanálise do documento: European activities in the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) and governanceof nanotechnology, cuja primeira versão foi disponibilizada em outubro de 2008, pela European Comission,DG Research, Unit “Nano and Converging Sciences and Technologies”. A disseminação das nanotecnologias,coordenadas por uma governança multilateral global responsável por institucionalizar e legitimar valores sociaise ambientais necessários em tais convergências tecnológicas, é apresentada como uma das possíveis soluçõespara a problemática ambiental.Palavras-chave: Nanotecnologia; Sustentabilidade e Governança Multilateral.AbstractThis article discusses the determinants of environmental crisis and its possible solutions which come from theemergence of a new international and organizational reality structured in a sustainable paradigm. The objectiveof this qualitative, exploratory, bibliographic and documental research was to analyze the organizational behaviorthat resulted in the environmental crisis and its consequences. A survey on theories and methodologies that dealswith sustainable paradigm and technologic convergences was carried out. It was presented, for instance, theEuropean movement on nanotechnology, through the following document: European activities in the field ofethical, legal, and social aspects (ELSA) and governance of nanotechnology, which first version was publishedin October 2008, by the European Commission, DG Research, Unit ‘Nano and Converging Sciences andTechnologies’. One of the solutions for the environmental problem is the dissemination of the nanotechnologies,1 Professora Associada da Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Desenvolve estudos e tem experiência em Economia, com ênfaseem Organização Industrial e Estudos Industriais.Possui doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo - USP Brasil, mestrado em ,Economia pela mesma instituição, e graduação em em Economia pela Universidade de Brasília - UnB, Brasil. Contato: mgabardo@uel.com.br2 Discente do curso de Administração pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Estadual de Londrina eUniversidade Estadual de Maringá, consorciadas - PPA/UEM-UEL, Brasil.Possui especialização em Controladoria e Finanças pela PontifíciaUniversidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil, e especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro -FGV-RJ, Brasil, ambas nível latu sensu. Bacharelado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil. Contato:rafaelborim@yahoo.comRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 27/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  • 22. coordinated by a global governance, which is responsible for institutionalize social and environmental valuesneeded in these technologic convergence.Key words: Nanotechnology; Sustainability and Multilateral GovernanceIntrodução O artigo levanta o problema que alimenta o debate sobre produção sustentável nos meios A solução da crise ambiental passa por um acadêmicos e empresariais: a crise ambientalamplo debate internacional. Pesquisadores das derivada da ação humana e empresarial. A questão demais diversas áreas têm destacado a importância da pesquisa que o estudo busca responder é: há soluçõescriação de um órgão internacional multidisciplinar, para a crise ambiental? O objetivo do trabalho éatravés de um grupo consultivo constituído por analisar os comportamentos organizacionais quemembros de diversos países, que possua a desencadearam a crise ambiental e refletir sobrecapacidade e a legitimidade para estabelecer em as soluções não imediatistas que permitiriam umanível global, um sistema de governança multilateral produção sustentável.como resposta institucional à crise ambiental. É nesse O trabalho está estruturado em cincocontexto também que surgem propostas focando capítulos: introdução, metodologia, a crise doàs convergências tecnológicas e à necessidade de meio ambiente e o contexto de ascensão de umavaliação dos impactos transformativos oriundos paradigma pautado por valores de sustentabilidadedas novas tecnologias. O estabelecimento de um social e ambiental, a convergência tecnológicaconceito avançado de desenvolvimento responsável como fenômeno exigente de uma governançadeve abranger critérios como: avaliação de multilateral e global sobre os anseios do paradigmasaúde, segurança e ética, engajamento de atores de sustentabilidade: a nanotecnologia na Europa, einternacionais quanto a parcerias, e instigação considerações finais.de um comprometimento social, pautado porplanejamentos e investimentos interessados em 1. Metodologiafatores de longo prazo. As convergências da nanotecnologia, A abordagem do problema aconteceu debiologia, revolução digital e ciências cognitivas, por maneira qualitativa, por ser uma forma adequadaexemplo, promovem o desenvolvimento de inovações de entender a natureza de um fenômeno social.construtivas e transformadoras à concepção de novos O objetivo foi analisado pelo ponto de vistaprodutos e serviços, oportunidades de melhores exploratório, uma vez que se orienta por conhecercondições de desenvolvimento ao potencial humano as características de um fenômeno, para procurar,e conquistas sociais necessárias, que, com o tempo, em um momento posterior, explicações de suasremodelarão os relacionamentos estruturais e causas e consequências. Em relação às estratégiasinstitucionais até então vivenciados. Para tanto, a de pesquisas abordadas, o estudo classifica-se comoparticipação de todos os sujeitos sociais influenciados bibliográfico, uma vez que busca conhecer, analisarpor essas novas tecnologias, a transparência das e explicar contribuições sobre o tema abordado, eestratégias dessa governança, e a responsabilidade documental, por utilizar documentos como fonte deespecífica de cada stakeholder precisam efetivar-se dados, informações e evidências (RICHARDSON,plenamente. A nova realidade é promotora de uma 2008; MARTINS; THEÓPHILO, 2007).emancipação social, caracterizada, principalmente, Três possíveis soluções de longo prazo àpela legitimação urgente do paradigma de problemática ambiental são apresentadas: ossustentabilidade, o qual retira os ferramentais programas de responsabilidade social adotados pordecisórios de uma unilateralidade e os insere em organizações com poder de atuação local, regional,um multilateralismo interdisciplinar. nacional e internacional (CLAPP 2005); a reforma , 22
  • 23. mediante determinadas atitudes mercadológicas,ecológica (BORINELLI, 2007); e o desenvolvimentooriundo do movimento de convergências tomadas no intuito único de incrementarem seus lucros, sem estarem preocupadas com as respectivastecnológicas exemplificado pelas nanotecnologias consequências sociais e ambientais de tais decisões.(MARTINS, 2005). O artigo aborda as diferentes A legitimação dos lucros empresariais por umasoluções e concentra-se na última proposição. aceitação social e comunitária, portanto, passa a O levantamento teórico-metodológico é ser imprescindível.realizado a partir do paradigma de sustentabilidade e A ação de tais agentes sociais incorre emconvergências tecnológicas. Apresenta-se, também, consequências ambientais, estas nem semprecomo exemplificação, o movimento nanotecnológico agradáveis. A análise da problemática ambiental sedo continente europeu, possibilitado pela análise do dá por uma diversidade de abordagens, as quais sedocumento: European activities in the field of ethical, mostram distintas em alguns pontos e convergenteslegal and social aspects (ELSA) and governance em outros. Nesse sentido, adota-se a via interpretativaof nanotechnology, elaborado pela Dra. Angela das ciências sociais.Huffman, cuja primeira versão foi disponibilizadaem outubro de 2008 pela European Comission, DG Zioni (2005, p.39) destaca que “para discutir a relação entre as ciências sociais e o meio ambiente,Research, Unit “Nano and Converging Sciences andTechnologies”. é fundamental uma reflexão sobre o cenário em que essas questões emergiram: a modernidade”. A análise do documento permite verificar O ambiente tem sofrido os impactos das açõesque o financiamento das atividades de pesquisas capitalistas; no caso específico das revoluçõesacontece através de programas sistêmicos (framework industriais, caracterizaram-se pela exploração doprogramme - FP) com períodos de duração pré- solo e da mão-de-obra, gerando inúmeros resíduosdeterminados. No documento mencionado, são sólidos, líquidos e gasosos que se intensificaram noapresentados 2 projetos referentes ao 5º FP (1998- século XX.2002); 20 projetos referentes ao 6º FP (2002- A modernidade trouxe gradativamente uma2006), e 5 projetos referentes ao 7º FP (2007-2008) exigência de sociabilidade do homem para com o(HULLMANN, 2008). meio e vice-e-versa. Os mecanismos de produção A essência dos programas são as pesquisas desenvolvidos, ao serem analisados de maneiratecnológicas e científicas, mas há a presença de isolada, pouco emancipam a sociedade atualprojetos interessados em evidenciar os aspectos das comunidades antigas, porém se aliados aoséticos, legais e sociais dessas atividades européias, acontecimentos ambientais, permitirão constatar atais como os: Science and Society, The New Emerging emergência de uma nova representação simbólicaScience and Technology e Citizens and Governance, do mundo por inéditas relações de poder.os quais pertencem ao 6º FP e serão apresentados As ocorrências históricas, os acontecimentoscom maiores detalhes no capítulo quatro, deste sociais e o desenvolvimento econômico permitemtrabalho. a construção na modernidade de uma nova representatividade da vida social. A sequência de2. A crise do meio ambiente e o contexto movimentações econômicas é caracterizada comode ascensão de um paradigma pautado o próprio desenvolvimento, que, segundo Coimbrapor valores de sustentabilidade social (2002, p.51), é:e ambiental um progresso contínuo e progressivo, gerado na co- Em um momento de questionamento sobre munidade e por ela assumido, que leva as populaçõesas estruturas mundiais, as relações de poder estão a um crescimento global e harmonizado de todos osameaçadas e as empresas líderes nos mercados setores da sociedade, através do aproveitamento dosglobais podem ter seu posicionamento questionado, seus diferentes valores e potencialidades, em modo a 23
  • 24. produzir e distribuir os bens e serviços necessários a na engenharia econômica das organizações que satisfação das necessidades individuais e coletivas do buscam a minimização de seus custos privados. ser humano, por meio de um aprimoramento técnico e A insuficiência dos instrumentos estatais de cultural, e com menor impacto ambiental possível. combate e a busca incessante de lucros pelo setor privado oneram a sociedade e agravam as questões Ao longo da historicidade econômica, não ambientais. É necessário, portanto, discutir novosforam promovidas metodologias de desenvolvimento modelos, normas e valores, que vislumbrem a melhoriaaplicáveis a todas as sociedades e ao meio ambiente, na qualidade de vida das populações.pois pequeno foi o interesse em preservar os recursos O modelo capitalista é o “representante legítimoe energias não renováveis para as futuras gerações, e universal da racionalidade, cuja proposta era libertaratravés de seu uso racional. Surgiram inúmeras o homem do reino das necessidades pelo uso científicoexplicações para justificar a escassez de atitudes dos recursos naturais e econômicos do planeta, pelafavoráveis ao ambiente nos meios governamentais adaptação do conhecimento científico à produção,e organizacionais; mas o debate contribuiu para o processos que criariam riquezas incessantemente”desenvolvimento científico, econômico e social. (ZIONI, 2005, p.41). Segundo Montibeller (2007, p.57), as teorias O desenvolvimento capitalista contribuido desenvolvimento são “o conjunto de formulações para o incremento da inovação e do desempenhoque visam compreender e modificar a realidade tecnológico, entretanto, os índices de desenvolvimentopelo exame dos mecanismos, segundo os quais, os humano e de qualidade de vida não acompanhamfenômenos sociais inter-relacionam-se, dos elementos o fator econômico. Segundo Montibeller (2007),principais que respondem pela evolução da economia o crescimento capitalista instiga a degradação, ae das tendências seculares”. Mas o desenvolvimento poluição e o esgotamento de bens ambientais e,econômico pode ocorrer em diferentes ambientes quando da retração das atividades econômicas, asinstitucionais, por meio de atividades produtivas,negociações virtuais, redes de relacionamento, cadeias questões ambientais são desprezadas por implicaremde suprimento, entre outros. custos adicionais. Nesse contexto, a instituição se apresenta De acordo com Brunacci e Philip Jr. (2005), acomo protetora da propriedade privada ao incentivar era de conquistar o desenvolvimento econômico seminvestimentos que apreciem decisões democráticas qualquer restrição e às custas de prejuízos ambientaiscapazes de disponibilizar socialmente os benefícios já não permanece, entretanto, persistem em algumasoriundos de tais negociações. Para Montibeller ideologias empresariais. Há de se compreender a(2007), o desenvolvimento adequado e a qualificação insuficiência de fatores naturais, dos quais, dependeinstitucional são condições necessárias, mas insuficientes a sobrevivência social do planeta. É, ainda maispara sanar os problemas sociais e ambientais em toda importante, necessário reconhecer que, após asua contingência. geração presente, outras virão e também habitarão Muitos são os fatores inerentes a uma neste mesmo território.concepção solucionadora de inúmeras patologias Segundo Diaz (2002) é iminente a precisão desociais e ambientais provenientes de mecanismos de romper definitivamente com a filosofia do crescimentodesenvolvimento econômico. Através da concepção ilimitado, uma vez que, o desenvolvimento insustentávelcapitalista da economia, a sociedade e o meio apresentará seu limite de esgotamento em temposambiente estão imersos em uma rede entrelaçada breves caso as tendências sociais e econômicasde custos privados e sociais; os custos ambientais em não sejam transformadas em prol do bem estar daparticular, pelas situações de poluição, e incremento população mundial.da produção diferenciam os custos privados dos custos Logo, mediante os “impasses gerados por essasociais. Todavia a importância dos últimos, em grande conjuntura social, faz-se extremamente urgente umamaioria dos estudos, é relegada a um segundo plano rediscussão sobre normas, valores, orientações culturais 24
  • 25. e formas de conhecimento em todas as sociedades. A diferentes tempos. A iminência de tais transformaçõescrise ambiental é, com certeza, a maior razão para que faz notória a insustentabilidade do antigo paradigmaisso ocorra com amplitude e profundidade” (ZIONI, desenvolvimentista. Por essa evolução da importância2005, p.56). da questão ambiental através da economia, Uma nova interpretação sobre o funcionamento vislumbram-se as decisões políticas e econômicaseconômico no mundo é necessária. Mesmo que sendo alinhadas a preceitos sustentáveis.algumas ações voluntárias ocorram por empresas Os interesses econômicos coincidem come governantes, ainda sim são insatisfatórias, pois é os ecológicos em um quadro de desenvolvimentoreconhecida a capacidade econômica das nações sustentável que foca o longo prazo, pois os recursosde apresentarem, conforme Montibeller (2007), um são limitados e esgotáveis. Entretanto, no paradigmacomportamento menos agressivo à natureza somente anterior os cálculos eram fundamentados naquando pressionadas por externalidades com poder minimização dos custos privados e na ótica neoclássicade regulação. da economia que até recentemente não inseriam os Meio ambiente e economia entrelaçam- custos e benefícios sociais nas contas capitalistas.se no campo teórico e econômico. Há uma série Os institucionalistas integram as discussõesde denominações tais como economia ambiental, econômicas e ambientais, ao adicionarem custoseconomia ecológica, economia humana, em que e benefícios sociais à análise econômica dascada uma representa uma abordagem explicativa do organizações (EHLERS, 2007; NORTH, 1990).problema. Todavia, o que mais interessa é a dimensão Porém, a essência da sustentabilidade tem deeconômica associada às questões ambientais, por ser ser compreendida, no intuito de evitar falsassituação fundamental na formulação de diretrizes de interpretações a ações não condizentes comatuação do governo, das empresas e dos cidadãos valores éticos, ambientais e representativos de umapara a própria compreensão dos fatos e das relações responsabilidade social corporativa.sociais, culturais e políticas (CALDERONI, 2004). Segundo Brunacci e Philip Jr.(2005, p.268), O paradigma da sustentabilidade, então, há “a possibilidade de um entendimento pragmáticoemerge entendido como aquele que e imediatista que conduz ao risco de se implantar um programa de sustentabilidade do desenvolvimento expressa hoje o desejo de quase todas as sociedades, como sutil desdobramento de uma política moldada em qualquer parte do mundo, por uma situação em que por um sistema capitalista ainda conservador e o econômico, o social e o ambiental sejam tomados de predatório”. Assim, iniciativas que envolvam políticas, maneira equânime. Então, não basta apenas haver cres- cimento econômico, avanço tecnológico e as instituições; instituições, tratados ou acordos internacionais, e, sim, pensar na revolução tecnológica e no arcabouço interessados na problemática ambiental e abordagem institucional objetivando o bem-estar social com a ampli- sustentável, devem ser capazes de transpor as barreiras tude a este inerente (MONTIBELLER, 2007, p.59). físicas no intuito de se obter uma maior eficácia na resolução de calamidades. Observa-se a ocorrência de um crescimento Flora, fauna, microorganismos, atmosfera, solo,econômico pautado por características de água e formas geológicas formam os ecossistemas. Ossustentabilidade, logo, o vocábulo ‘sustentável’, em componentes se ligam mediante cadeias alimentares,palavras de Brunacci e Philip Jr. (2005, p.274), ao ciclos minerais e hidrológicos e pela circulação dequalificar o tipo de desenvolvimento que se deseja energia. Há um equilíbrio dinâmico que pode ser“deve ser aplicado à realidade ambiental do presente”. alterado com o uso intensivo e desordenado dos Dentro desse aparato interpretativo, as elementos e a deposição de resíduos. A intervençãomudanças institucionais tornam-se necessárias, humana e a produção capitalista, em particular,uma vez que as instituições precisam ser eficientes modificaram os sistemas produtivos, os conhecimentosno atendimento pleno dos anseios originados em científicos e tecnológicos (BORINELLI, 2007). 25
  • 26. A resposta ao uso desordenado dos recursos organizações com poder de atuação local, regional,naturais e a crescente demanda por energia tem de nacional e internacional (CLAPP 2005). E uma terceira ,ocorrer por uma ótica capaz de abranger as diferenças vertente solucionadora pode advir das transformaçõese especificidades entre as nações, de maneira geradas pelas nanociências, nanobiotecnologias eque, uma intervenção em favor da humanidade e nanotecnologias, em geral (MARTINS, 2005).do meio ambiente seja aceita como verdade, e,conseqüentemente, como um apoio ao acontecimento 3. A convergência tecnológica comodo desenvolvimento sustentável. Os vieses ambientais fenômeno exigente de uma governançanão são de responsabilidade exclusiva das nações, multilateral e global sobre os anseiosdas empresas e da humanidade, mas de todos os que do paradigma de sustentabilidade: ahabitam e agem intensivamente sobre o planeta Terra. nanotecnologia na Europa Como afirmou MacNeill e outros autores (1992,p.16) “o mundo avançou agora da interdependência Convergência tecnológica caracteriza, segundoeconômica para a interdependência ecológica – e Sáenz e Souza-Paula (2008), o moderno processo deaté, para além desta, para um entrelaçamento entre avanço do conhecimento e inovação já estabelecidoambas”. em um elevado nível de complexidade, o qual, não Tanto é verdade que, “o sistema climático permite a separação entre o teor científico e técnicoglobal possui um alto grau de inércia e cria uma pela prerrogativa intensa de inserir nas discussõesgrande defasagem entre as alterações nas emissões as relações dialéticas entre ciência, tecnologia ee as consequências sobre os sistemas naturais, o que sociedade.significa que, quando se descobre que uma catástrofe A interação temática é imprescindível, pois avai acontecer, talvez seja tarde demais para evitá-la” (LA partir das novas tecnologias surgem implicações sociaisTORRE; FAJNZYLBER; NASH, 2009, p.20). Questões a serem analisadas por um processo criterioso, atravésambientais, tal como a mudança climática, incorporarão de metas estabelecidas, ao vislumbrar os benefícioscustos significativos à humanidade e aos ecossistemas. sociais, e as possíveis consequências inesperadas,A amenização desses efeitos pode ocorrer através de por meio de uma combinação dos possíveis riscospossíveis ações globais solucionadoras, pois iniciativas prospectados em diferentes cenários. Para Roco (2008)individuais serão muito limitadas, implementadas com tais adversidades apresentam-se como influentes emgrande atraso, e realizadas por países e organizações diversas áreas, tais como economia, ambiente, saúde,inadequadas. Nesse sentido, quais seriam as possíveis educação, ética, moral e filosofia.soluções à crise ambiental? Por esse entrelaçamento de ideologias e Zioni (2005) aponta o novo paradigma de ciências, constata-se a busca por um mecanismosustentabilidade para a solução dos problemas organizador, tal como uma governança global ee desequilíbrios evidenciados, o qual deve partir multilateral capaz de abranger, compreender eda crítica do conhecimento existente, e evoluir do institucionalizar convergências tecnológicas livres demonoculturalismo ao multiculturalismo de tal forma atuações prejudiciais a qualquer ordem ambientalque o domínio global da ciência moderna não possa e social. Para tanto, um sistema politicamentesilenciar os outros saberes, e assim, emancipe-se um democrático, consenso social e conhecimento daconhecimento que consiga discernir a objetividade da engenharia econômica do sistema promovem umneutralidade. quadro agradável à implantação de uma eficaz Por esse contexto, a reforma ecológica torna-se governança.uma solução viável e equacionadora do problema da Caberá a esse sistema de governança, dedegradação ambiental (GIDDENS apud BORINELLI, acordo com Roco (2008), a adaptação das instituições2007, p.7). Uma segunda solução está nos e organizações já existentes; o estabelecimento deprogramas de responsabilidade social adotados por novos programas, regulamentações e organizações 26
  • 27. interessadas em propagar inovações não promotoras e comercialização dos produtos. Através dade prejuízos ao meio; a promoção de mecanismos figura, é possível verificar que cada ciclo gerade legitimação de tais mudanças por vias políticas e novas classes de produtos, os quais determinaminstitucionais; e, a realização de parcerias e acordos diferentes implicações sociais e exigem diversosinternacionais. patamares de decisões. Pelo fato de transformações Conforme Sáenz e Souza-Paula (2008), os fundamentais ocorrerem sobre os conhecimentosprocessos que envolvem tal anseio são essencialmente implícitos em cada ciclo, estabelece-se um sistemadinâmicos e cumulativos e, para acompanhar a aberto em termos tecnológicos e socioeconômicosevolução de tais convergências tecnológicas é de (ROCO, 2008).extrema importância que as ações ocorram de forma As questões éticas devem constar comocontínua, rápida e flexível. A governança multilateral objetos de monitoramento e discussões, desdee global deve preparar-se para antever os riscos o início de um projeto até as avaliações ex-post.complexos e de elevado impacto negativo dos tipos As avaliações dessas tecnologias, por meio desocial e ambiental. A figura 1 mostra a representação um mecanismo regulador de governança, devemde um sistema de governança baseado nos critérios ocorrer no entorno de tais inovações e considerarinseridos na realidade das convergências tecnológicas todos os respectivos ciclos, ao levar em conta(ROCO, 2008). sua disposição futura e confluentes efeitos ao Os processos de decisões sobre as questões meio, oriundos de suas manufaturas e operaçõesde convergências tecnológicas seguem um ciclo de (ROCO, 2008).interferências aberto, constituído por etapas que Em todo esse processo, é imprescindívellevam desde a pesquisa até a efetiva fabricação a análise da presença dos fatores envolvidosFigura 1 – Sistemas abertos em uma governança de convergências tecnológicasFonte: adaptado de ROCO, 2008. 27
  • 28. em uma governança de risco, para amparar Dentre as novas tecnologias, destaca-se aas decisões e as ações tomadas no intuito de importância da nanotecnologia. Nano é um prefixoamenização das patologias sociais e ambientais. usado nas ciências para designar uma parte em umTal sistemática é de extrema importância nos casos bilhão e, assim, um nanômetro (1nm) correspondeconstatados com altos riscos, cuja redução dos a um bilionésimo de um metro. Dado o seu carátermesmos exige a coordenação e colaboração de integrador, convergente e por caracterizar-se porinúmeros stakeholders. As decisões unilaterais se inovações concentradas no tempo, poderá gerarapresentam como ineficazes e inaplicáveis, pois, a um processo de destruição criadora atenuando osdisseminação de novas tecnologias promove uma impactos do uso intensivo dos fatores produtivos,interferência dos possíveis riscos nas esferas social, gerando redução do consumo energético e,ambiental, tecnológica, e, com maior evidência possivelmente, uma revolução produtiva (SÁENZ;na dinâmica evolutiva e interativa de todo o SOUZA-PAULA, 2008).sistema social. As convergências tecnológicas, Para Martins (2005), as nanotecnologiaspor exemplo, focam suas prioridades sobre os validam a necessidade de uma governança globalpossíveis benefícios a serem gerados nos âmbitos e multilateral, pois, somente por um mecanismoindividuais e sociais. Os parâmetros de sucesso como esse, será possível gerenciar os benefíciospara essas redes de empresas e instituições são econômicos, sociais e ambientais oriundos de taisos indicadores de qualidade de vida, saúde, inovações. Suas aplicabilidades implicam diminuirsegurança, e, principalmente, a análise de como os problemas ambientais nos processos produtivos,se dá a distribuição desses resultados sociais a ou seja, responsabilizam-se por eliminar os conflitostodos os seres humanos inseridos em um modelo sociais fundamentados em questões de prejuízos àdemocrático. Roco (2008) apresenta, através natureza.da figura 2, quais são os atores afetados pelas Entretanto Schnaiberg (2005) assume queconvergências tecnológicas. tudo o que for apresentado e produzido pelo setorFigura 2 – Visão geral de uma governança de convergência tecnológicaFonte: adaptado de ROCO, 2008. 28
  • 29. privado é passível de suspeita pela possibilidade responderiam e melhores seriam os resultados parade interesses na alocação de capital. Ele o meio ambiente”.evidencia que a própria história confirma muitas Sandler (2009) observa que a eficiência decontradições em torno de novas tecnologias um fenômeno tecnológico, como a nanotecnologia,sempre demonstradas como algo beneficiário ao está em sua contribuição à prosperidade humana,público em geral. através da oferta de um cenário estruturado Por apresentar uma nova aplicabilidade por uma sociedade justa e preceitos ambientaisde fatores científicos, sociais e ambientais a de sustentabilidade. O autor apresenta, ainda,nanotecnologia não pode ser tratada unicamente que as funções sociais a serem observadaspela ótica das organizações. Lerma (2005) admite em um desenvolvimento sustentável advindoque a humanidade exige um novo paradigma das nanotecnologias são: o esclarecimentoecológico, portanto sustentável, por compreender de constituição de uma sociedade justa e aque sua existência está inserida em uma continuidade prosperidade da raça humana; identificação dede processos sociais mutantes, alteradores das oportunidades socioambientais às nanotecnologias;estruturas vigentes e promotores de inúmeros desenvolvimento de padrões de avaliação sobreconflitos transnacionais. os prospectos nanotecnológicos; provisão de Não se pode esperar, segundo Martins ferramentais éticos que possibilitem a sociedade uma(2005), que o ambiente seletivo supra a questão efetiva adaptação às emergentes nanotecnologias;ambiental em sua totalidade, pois, tal expectativa e, a identificação dos limites ambientais para oé incompatível para com o modo de produção alcance das plenitudes nanotecnológicas.capitalista. Logo, a admissão dessa nova tecnologia Porém, em referência à nanotecnologia e adeve ser pautada por discussões interessadas em outras inúmeras problemáticas de ordem ambiental,entender plenamente suas aplicabilidades e objetivos não há qualquer instituição com estrutura capazpara com a sociedade. de impor e dirigir uma intervenção política global. Schnaiberg (2005) acredita que a Todavia, a construção dessa instituição global,nanotecnologia irá promover uma distribuição mais representativa de uma governança multilateral énegativa ao transferir a renda dos trabalhadores importante fator que está por trás da emergênciapara um lucro adicional dos investidores. Ao longo do movimento transnacional antiglobalizaçãodos prejuízos, o autor cita o incremento do problema corporativa (MARTINS, 2005).ou crise ambiental, cuja maior causa é a extrema Roco (2008) também aborda a questãoliquidez do sistema econômico mundial. supranacional deste tema, ao admitir que as Lerma (2005) analisa a crise ambiental inovações tecnológicas provenientes desse movimentocomo um conflito oriundo de relações de produção de convergência, tal como as nanotecnologias,e não como algo adicional aos conflitos sociais. rompem com as barreiras geográficas existentes aoPor essa percepção, ele entende a interferência da transporem os limites das jurisdições nacionais. Logo,nanotecnologia nas relações sociais e econômicas a concepção de uma governança multilateral e globalao promover a intervenção nos diversos sistemas de como resposta institucional a crise do meio ambienteprodução e controles de exploração. e consequente do paradigma de sustentabilidade, Segundo Cramer e Zegveld (1991), as alcançará sua plenitude através da separação clarademandas de soluções estruturais para problemas das opiniões fundamentadas em pilares científicosambientais requerem a participação ativa e daquelas oriundas de julgamentos políticos,representativa dos públicos a serem atingidos. Pois, para que assim, sejam adotadas, em definitivo,em palavras de Romero e Salles Filho (1995, p.17) institucionalizações e regulamentações eficientes“quanto maior a pressão [...], mais os agentes para com a realidade do problema abordado. 29
  • 30. Toda essa realidade é envolta por uma Para Sandler (2009), ainda não há umsérie de fatores. Estes se unem e promovem uma consenso entre os cientistas quanto aos possíveisgovernança contínua e avaliativa. A nanotecnologia riscos da nanotecnologia, pois, assim como podeapresenta um modelo de governança proposto por contribuir para uma revolução tecnológica eRoco (2008), possivelmente capaz de ser aplicado ambiental ao consumir menos energia e promoverem nível global. E, bem por isso, esse autor propõe a o uso mais eficiente dos novos fatores produtivos,nanotecnologia como uma das respostas essenciais também é possível um cenário composto porà crise do meio ambiente. A estruturação do modelo inúmeras reações adversas nos seres humanos e noé apresentada na figura 3. meio ambiente.Figura 3 – Passos para a definição de uma governança multilateral na análise de riscos derivados dasnanotecnologias que podem ser aplicadas à mitigação da crise ambientalFonte: Renn; Roco apud ROCO, 2008, p.16. Sáenz e Souza-Paula (2008), no entanto, A aplicabilidade da nanotecnologia ficaapresentam os seguintes riscos da nanotecnologia, os questionada mediante tantas dúvidas discursivas.quais se traduzem nos desafios a serem enfrentados por Nesse sentido, para se validar a efetiva contribuiçãouma governança multilateral: criação descontrolada social deste fenômeno advindo de uma convergênciade formas de vida; redução da biodiversidade; tecnológica, apresenta-se em sequência a realidadedesestabilização da engenharia ambiental; desse tema no continente europeu. Através daconcorrência trans-humana, biológica e cibernética; análise minuciosa do relatório European activities inmaiores desigualdades sociais; desenvolvimento de the field of ethical, legal and social aspects (ELSA)armas de poder letal; entre outros. and governance of nanotechnology, elaborado pela 30
  • 31. Quadro 1 – Projetos de pesquisa com aplicabilidades sociais O programa Science and Society Objetivo: Desenvolver conexões estruturais entre instituições e atividades sociais interessadas em um diálogo a ser estabelecido entre a comunidade científica e o público em geral, de maneira que, as pesquisas fossem aproximadas da sociedade. Contexto: As ações inseridas neste programa promoveram conversações contextuais em nível global; a emancipação de uma consciência social; treinamentos; pesquisa sobre a relação dos valores éticos relacionados à ciência e tecnologia; a aplicação dos princípios de risco; reconhecimento público em relação às comunicações científicas; prêmios para conquistas científicas referenciadas à colaborações e comunicações sociais; e a promoção das mulheres no meio científico. Recursos: Foram investidos 3,814,402€ neste programa. O programa Citizens and Governance Objetivo: Prover um embasamento científico para o gerenciamento de transições voltado ao conhecimento social europeu, para tanto, condicionou seus estudos em duas vertentes: as políticas locais, regionais e nacionais; e, o comportamento decisório dos cidadãos, famílias e demais unidades sociais. Contexto: Constam, neste projeto, ações tomadas no intuito de melhorar a geração, distribuição e utilização de conhecimentos em um processo de desenvolvimento de novas formas de governança. Recursos: Foram investidos 1,163,100€ neste programa. O programa New Emerging Science and Technology Objetivo: Apoiar pesquisas visionárias e não convencionais, mas potencialmente capazes de abrir novos campos às ciências e tecnologias européias. Contexto: Sustentou projetos interessados em problemas ainda não pesquisados, mas que se relacionassem diretamente aos aspectos éticos, legais e sociais da nanotecnologia. Recursos: Foram investidos 222,265€ neste programa.Fonte: adaptado de HULLMANN, 2008.Dra. Angela Hullman, em 2008, observa-se uma destaque, pois representam a possibilidade deconcepção construtiva sobre a nanotecnologia. apresentar esse fenômeno a um público maior,Sendo assim, a seguir, é disponibilizada uma breve o qual estabelece uma discussão sobre asanálise da contribuição européia baseada em expectativas sociais geradas, que são informadasfatos, números e programas extraídos do relatório aos poderes políticos nacionais e internacionais.supramencionado. O intuito destes projetos está em facilitar A União Européia junto a demais nações tem a cooperação entre stakeholders, localizados empromovido debates sobre a questão principal de que diferentes partes da Europa, e promover uma massaesses desenvolvimentos científicos e tecnológicos crítica sobre o desenvolvimento sustentável, pelanão ocorrem separados da movimentação social dos identificação de diferenças nacionais e culturaisseres humanos. Muitos atores sociais, com visões percebidas entre as diversas regiões do continente, e,diferentes sobre o tema têm modelado os processos assim, providenciar mecanismos sociais que agreguemenvoltos à nanotecnologia, situação promotora de desenvolvimento social e econômico a essas áreas.aplicabilidades fundamentadas em critérios éticos, Os financiamentos deles se dão pelolegais, e sociais. EC Framework Programmes for Research and Os critérios éticos, legais e sociais da Technological Development (FP). Os FPs acontecemnanotecnologia compreendem uma diversidade de há anos e incentivam áreas de pesquisa quecampos de pesquisas, produções e aplicabilidades amparam interesses europeus. A nanotecnologiade nanoprodutos. Estes aspectos, então, abrangem tornou-se um tema em evidência a partir de 1998,questões de privacidade, aceitação social, saúde mas apenas no 6º FP alcançou uma escala maiorhumana, acesso comunitário, responsabilidade de reconhecimento e investimentos.cívica, regulamentações normativas e controles O 6º FP (2002 a 2006) dedicou prioridadeinstitucionais. máxima a nanotecnologia. De 17,5€ bilhões As atividades européias sobre os aspectos revertidos aos projetos integrantes desse Frameworkéticos, legais e sociais de uma governança Program, 1,3€ bilhão foram destinados a pesquisas,referenciada à nanotecnologia abrangem cujo problema de investigação estava em analisarnumerosas iniciativas, das quais algumas merecem a interação entre nanotecnologia, conhecimento 31
  • 32. social, recursos naturais, e desenvolvimento sustentáveis. Cada nação interessada em estabelecerde novos procedimentos industriais. Por uma uma iniciativa nanotecnológica, assim como asabordagem articuladora, projetos de longo prazo européias, permitir-se à uma oportunidade única detêm sido financiados, pois intentam introduzir as fomentar um campo crítico e construtivo sobre asnanotecnologias nos setores industriais já existentes, relações interativas entre tecnologia, governo, ambientee, também, originar novos caminhos operacionais e sociedade. As emergentes nanotecnologias, portanto,que confluam na concepção de materiais inovadores, oferecem possibilidades efetivas de progressos sociaisnovos aparelhos, produtos diferenciados, e indústrias e tecnológicos, através de um desenvolvimentosustentáveis. compreensivo, inovador e sustentável. Embora o 6º FP estivesse focado empesquisas científicas e tecnológicas, houve a Considerações Finaisinclusão de tópicos essenciais relacionados aosaspectos éticos, legais e sociais da nanotecnologia. O artigo analisou os determinantes daEstes foram tratados pela instigação de uma crise ambiental e as soluções propostas pelacomunicação entre os diversos atores e redes academia, tendo em vista a emergência de umasociais. Dentro dessa abordagem aplicativa de uma nova realidade internacional e organizacionalgovernança global da nanotecnologia, os aspectos ,amparada pelo paradigma da sustentabilidadesupramencionados passaram a alicerçar projetos ambiental e social. Discorreu-se sobre a ascensãode pesquisa com aplicabilidade social, tais como de uma nova compreensão social pautadaos: Science and Society, The New Emerging Science por premissas sustentáveis, amparada pelaand Technology e Citizens and Governance. Vale necessidade de novas tecnologias – nanociências,ressaltar que todos esses programas orientaram- nanobiotecnologia e nanotecnologias e seus riscosse em interligar o movimento social aos aspectos – e a imprescindibilidade de uma governançaéticos, sociais e legais da nanotecnologia. Para multilateral global como resposta institucional àmelhor compreensão o detalhamento deles é crise do meio ambiente.exposto na página seguinte: Verificou-se que a teoria econômica Mediante a exposição da realidade européia neoclássica tradicional – base do paradigma dequanto aos aspectos sociais da nanotecnologia, produção capitalista anterior – discutia custosverifica-se que o desenvolvimento de seus preceitos e benefícios privados. No século XX, a teoriaapenas ocorre com respectivas alocações de institucionalista incorpora à análise os custos ecapitais. Entretanto, a destinação de tais valores benefícios sociais, dando origem à economia doapenas incrementa a legitimação sustentável desse meio ambiente, ao propor soluções possíveis parafenômeno, responsável pela propagação de uma a questão ambiental. A complexidade dos sistemasgovernança multilateral e global, possível de ser dinâmicos, a criação de novas ferramentas deutilizada como mecanismos de resposta institucional trabalho, a oferta de uma ampla plataformaà crise do meio ambiente. tecnológica, a ampliação das capacidades Sandler (2009) admoesta que, quando as produtivas e a conversão da educação, engenhariadúvidas são esclarecidas e as expectativas controladas, e tecnologia nos principais fatores contributivosconcebe-se um ambiente articulador e integrador às inovações industriais, conferem ao meio umaentre os fatores éticos e sociais e as emergentes riqueza jamais vista.nanotecnologias. Os aspectos éticos, legais, e sociais Já o meio ambiente, com seus recursos limitados,da nanotecnologia são essenciais para a articulação não consegue acompanhar o desenvolvimentode respostas proativas a possíveis cenários negativos. intelectual do homem quanto aos seus anseiosBem por isso, as nanotecnologias precisam promover tecnológicos. Através desta incompatibilidade dea prosperidade dos seres humanos, por vias justas e recursos, estabelece-se a crise do meio ambiente, 32
  • 33. por meio da qual, inúmeras nações e organizações ambiental vivenciada. É extremamente necessáriooptam por operacionalizar suas metodologias este mecanismo regulador internacional, porque amercadológicas em práticas alinhadas aos conceitos economia, aqui representante dos governos, naçõesde desenvolvimento insustentável. e organizações, somente se atenta ao quesito Daí emerge a concepção de um novo paradigma ambiental e social se drasticamente pressionadainteressado em valores sustentáveis e preocupado em por órgãos externos, cujos poderes de regulaçãooferecer às gerações presentes e futuras condições de sejam devidamente reconhecidos e comprovados.habitação e sobrevivência neste planeta. Por essa nova Um exemplo, a nanotecnologia, representantecompreensão da realidade, as ciências sociais se fazem do movimento de convergência tecnológica observadopresentes com uma miscelânea dialética de ideologias há tempos. Suas benfeitorias e lucros sociais sãoe interpretações, as quais, em conjunto, reafirmam inquestionáveis, entretanto os possíveis riscosa necessidade de um novo agir das organizações e incalculáveis. Além de prescindir um enorme valor emnações para com as questões ambientais. alocação de capitais representa, na ótica de muitos Logo, a sociedade passa de um colóquio estudiosos, uma ameaça a já desqualificada divisão depassivo para um ator emancipado no intuito renda mundial, além dos inúmeros questionamentosde prover-se de munições e regulamentações ambientais ainda não respondidos. Em casos comoimprescindíveis à continuidade de sua existência esses, as decisões sobre a continuidade em pesquisasna Terra. Por conseguinte, fatores de discussão e aplicabilidades referenciadas a nanotecnologia,anteriormente unilaterais passam a ser vislumbrados por exemplo, não podem ser pautadas por umapor uma ótica multilateral exigente de um sistema unilateralidade. Torna-se imprescindível, portanto,de governança que ampare, fiscalize, determine uma multilateralidade de informações que abasteçame institucionalize meios de proteção, coerção e um sistema de governança global oriundo de umalegitimação no intuito único de sanar questões que resposta institucional, em nível internacional, comoalarmem a já existente crise ambiental. uma consequência ao paradigma de sustentabilidade, Entretanto, todo esse esforço somente este, emergente, no intuito de amenizar a constatadaserá válido se aplicado em sua ordem global, crise ambiental.pois, se uma governança responsável por toda O intangível a ser alcançado em um longoa organização e aplicabilidade dos vieses e prazo passa a ser mais valorizado do que o tangívelsoluções ambientais ocorrer através de uma conquistável em curto prazo, pois, aquele representainstitucionalização supranacional legitimada, a concepção moral e ética de uma sociedade imersaserão verificadas respostas mercadológicas e na compreensão do paradigma defensor de umaeconômicas condizentes para com a realidade sustentabilidade social, ambiental e econômica.ReferênciasBORINELLI, B. Instituições e crise ambiental: contribuições da sociologia em debate. Serviço Socialem Revista. v.9, n.2, 2007, s/p. Disponível em <http://www.ssrevista.uel.br/c-v9n2_benilson.htm>.Capturado 16 fev. 2009.BRUNACCI, A.; PHILIP J. A. Dimensão Humana do Desenvolvimento Sustentável. In: PHILIP J., A.;PELICIONI, M.C.F. Educação ambiental e sustentabilidade. Barueri: Manole, 2005, p.257-283.CALDERONI, S. Economia Ambiental. In: PHILIP Jr, A.; ROMÉRO, M.A.; BRUNA, G.C. Curso de gestãoambiental. Barueri: Manole, 2004, p. 571-617.CLAPP J. Global environmental governance for corporate responsibility and accountability. Global ,Environmental Politics. v.5, n.3, 2005, p. 23-34.COIMBRA J.A. O outro lado do meio ambiente. Campinas: Millenium, 2002. 33
  • 34. CRAMER, J.; ZEGVELD, W.C.L. The future of technology in environment management. Futures, v. 23, n.5, p.465, jun. 1991.DIAZ, A.P A educação ambiental como projeto. 2 ed. Trad. de F. Murad. Porto Alegre: Artmed, 2002. .EHLERS, E. Empreendedorismo e conservação ambiental no interior de São Paulo. Rev. Econ. Sociol.Rural. v.45 n.1 p.185-203, Jan./Mar. 2007.HULLMANN, A. European activities in the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) andgovernance of nanotechnology. European Comission, DG Research. Disponível em: <http://cordis.europa.eu./nanotechnology>. Capturado em 10 fev. 2009.LERMA, I. Meio ambiente, relações de trabalho e os desafios da nanotecnologia. In: MARTINS, P.R.(Org.). Nanotecnologia, sociedade e meio ambiente. São Paulo: Xamã, 2006, p.110-113.MacNEIL J.; WINSEMIUS P YAKUSHIJI T. Para além da interdependência. Trad. De Á. Cabral. Rio de .;Janeiro: Jorge Zahar, 1992.MARTINS, P Nanotecnologia e meio ambiente para uma sociedade sustentável. In: MARTINS, P .R. .R.(Org.). Nanotecnologia, sociedade e meio ambiente. São Paulo: Xamã, 2006, p.114-132.MARTINS, G.A.; THEÓPHILO, C.R. Metodologia da investigação científica para ciências sociaisaplicadas. São Paulo: Atlas, 2007.MONTIBELLER F., G. Empresas, desenvolvimento e ambiente: diagnóstico e diretrizes desustentabilidade. Barueri: Manole, 2007.NORTH, D. Institutions, institucional change and economic performance. Cambridge: PressSyndycate of the University of Cambridge, 1990. RICHARDSON, R.J. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008.ROCO, M.C. Possibilities for global governance of converging technologies. Journal of NanoparticleResearch. v.10, n.1, 2008, p.11-29.______. Progress in governance of converging Technologies integrated from nanoscale. In: BainbridgeW.S. & M.C. Rocco (eds.) Progress in convergence. Technologies for the human wellbeing. Annals of theNew York Academy Sciences, v.1093. Blackwell Publishing: Bosto Massachussetts, 2008.ROMERO, A.; SALLES FILHO, S. Dinâmica de inovações sob restrições ambientais. Trabalhoapresentado no Primeiro Seminário de Economia do Meio Ambiente do Instituto de Economia daUnicamp. Campinas, nov. 1995.SÁENZ, T.W.; SOUZA-PAULA, M.C. Convergência tecnológica: 2008. Brasília: Centro de Gestão eEstudos Estratégicos, 2008.SANDLER, R. Nanotechnology: the ethical and social issues. Woodrow Wilson International center forScholars .The Pew Charitable Trust , 2009.SCHNAIBERG, A. Contradições nos futuros impactos socioambientais oriundos da nanotecnologia. In:MARTINS, P (Org.). Nanotecnologia, sociedade e meio ambiente. São Paulo: Xamã, 2006, p.79- .R.86.ZIONI, F. Ciências Sociais e Meio Ambiente. In: PHILIP JR A.; PELICIONI M. C. F. Educação ambientale sustentabilidade. Barueri: Manole, 2005, p.39-58. 34
  • 35. A Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil The Polarization of Regional Inequalities in the BrazilFrancieli do Rocio de Campos1Patrícia Estanislau2Resumo O artigo tem como objetivo evidenciar as desigualdades regionais das Unidades FederativasBrasileiras no período de 1985 a 2006. O método utilizado é embasado em análise estatística descritiva,e o coeficiente de Williamson capaz de captar os efeitos da desigualdade regional. Entre as diferençasapresentadas pelos Estados brasileiros, os efeitos das desigualdades alcançam o ápice em 1995, seguindoo processo de declínio até se estabilizarem entre período de 2000 e 2006. Por meio do Produto InternoBruto de cada Estado, os resultados do estudo apontam para concentração industrial e populacional noEstado de São Paulo. Dessa forma, constatou-se no período estudado, que o processo de polarização edespolarização no Brasil decorre das desigualdades econômicas regionais.Palavras-chave: Economia Regional; Indústria e Aglomeração de Negócios; Pólos de Crescimento.AbstractThe article aims to highlight the regional differences of Brazilian states from 1985 to 2006. The method isgrounded in statistical analysis, and coefficient of Williamson which is able to capture the effects of regionalinequality. Among the differences presented by the Brazilian states, the effects of inequality reached its top level in1995, following the process of decline until stabilizing period between 2000 and 2006. By means of the GrossDomestic Product of each state the study findings point to industrial and population concentration in São PauloState. Thus it was found out during the study period, the process of polarization and depolarization in Brazilfollows regional economic inequalities.Key words: Regional Economics; Industry; Growth Poles, Agglomeration.Introdução adota-se o Coeficiente de Williason (1977), cujo procedimento utilizado por Souza (1993) capaz de O objetivo do artigo é evidenciar as captar os efeitos da desigualdade regional.desigualdades regionais nas Unidades Federativas O processo de polarização decorre do efeitoBrasileiras partindo do processo de polarização causado pela instalação de uma indústria motriz,ascendente no período de 1985 a 2006. Nessa ou um conjunto de indústrias (complexo industrial),ocasião, acredita-se que houve um movimento cuja função é interagir de forma independente comde polarização e despolarização desencadeando os espaços produtivos das diversas empresas. Aoa desigualdade no processo de crescimento do atrair mais indústrias, o modelo passa a funcionarpaís. Para verificar a existência desse movimento do seguinte modo: quando há oferta de empregos1 Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, CampusToledo, Brasil, nível mestrado. Bacharel em Economia Doméstica pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Brasil. Contato:frandecampos@yahoo.com.br2 Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, CampusToledo, Brasil, nível mestrado. Contato: patiestanislau@yahoo.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 26/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  • 36. aumenta a população de uma região e eleva o concentrando a população em uma dada localidadeconsumo de bens/serviços. Sob esse efeito se encadeia e tornando-a principal em seu entroncamentouma força atrativa (força motriz) de indústrias e/ou regional (SCOTT, 2003). Assim procurar-se-á verificarempresas para localidade, assumindo condições a participação do PIB dos Estados brasileiros parade crescimento ou desenvolvimento à economia da elucidar as desigualdades regionais, a fim de relacionarregião (pólo de crescimento) (SOUZA, 1993). com a distribuição da população e a quantidade de A desigualdade regional concebida pela empresas em cada unidade federativa.deterioração do nível de vida advém da maior Visto a possível existência concentraçãoconcentração industrial em algumas regiões, em populacional e de empresas nos Estados, paradetrimento a outras sem tais atributos econômicos. evidenciar as disparidades regionais no Brasil, utilizar-De tal modo, Perroux (1977) relaciona essas se-á o Coeficiente de Williamson (1977) para o PIBquestões de desigualdades procedentes da per capita, na tentativa de mensurar as desigualdadesinovação intensificada pela vontade de acumular regionais. Pressupondo-se que com o aumento docapital, conquistar o poder e desestimular o crescimento econômico, essas desigualdades atinjamsubdesenvolvimento. um máximo e depois declinam gradativamente, O enredo do trabalho está segmentado em formando um “U” invertido. Esse fenômeno variacinco seções, partindo desta breve introdução, entre proximidades de 1 (maior polarização) ena seção dois, aborda-se os procedimentos proximidades de 0 (menor polarização). O cálculo émetodológicos. Na seção três, apresenta-se os dado como:conceitos de polarização e despolarização, assimcomo os fatores de desenvolvimento e as possíveiscausas das disparidades regionais. Na quartaseção, têm-se os resultados da pesquisa, com Em que:a apresentação de dados sobre as disparidades Fj = é a população da iésima regiãoregionais entre os Estados brasileiros e, na quinta n = população nacional yj = PIB per capita da iésima regiãoseção, as conclusões que sumarizam este trabalho. yNac = PIB per capita Nacional N = Número de regiões1. Procedimentos metodológicos De acordo com Williamson (1977), o “coeficiente ponderado de avaliação que mede a A princípio buscar-se-á o método estatísticodescritivo que procura descrever e avaliar certo dispersão dos níveis da renda regional per capita,objeto, conforme menciona Peternelli (2005). Os relativamente à média nacional, enquanto cadadados utilizados são oriundos do Instituto Brasileiro desvio regional é ponderado por sua participação nade Geografia e Estatística (IBGE) compilados pelo população nacional” (WILLIAMSON, 1977, p. 64).Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Souza (1993) observa que o Coeficiente defim de averiguar a participação do Produto Interno Williamson (1977) mostra a possível reversão doBruto (PIB) dos Estados e macrorregiões do Brasil. processo de polarização de um país, constituindo-O período a ser analisado corresponde ao ano se de um índice de desigualdade regional. Azzoni1985 até o ano de 2006, partindo da premissa de (1997) complementa o fato do coeficiente deexistência de polos estaduais e de que há regiões Willianson ser tradicional visto pela vertente de sermais desenvolvidas do que outras. “unidimensional da desigualdade de renda, relativa Na teoria dos polos de crescimento e a uma distribuição regional igualitária da rendadesenvolvimento de Perroux (1977), os efeitos positivos média nacional” (AZZONI, 1997 p.5). Outrosno PIB per capita de região propiciam rendimentos autores também fizeram o uso desse coeficientemaiores na cidade pluriativadas (que tendem a atrair como Souza (1993), Azzoni (1997), Gomes (1997),investimentos, diversas atividades e demais fatores a si) Cavalcante (2003) e Chiarini (2006). 36
  • 37. Conforme Cavalcante (2003), a medida da região independente de sua localização tendede desconcentração fornecida pelo Coeficiente de intensificar o poder na estrutura da economia noWilliamson depende de um componente arbitrário, âmbito nacional (PERROUX, 1977).associado à forma como o país em análise foi Cabe ressaltar que a formação de polossubdividido em regiões. Se o país corresponder à industriais, diz respeito a um fenômeno essencial,apenas uma região ou estado, i i Y / P será igual ao modo provisório do processo de crescimentoa Y / P e Vw tenderá a zero, involuntariamente das econômico. Desse pressuposto, a polarizaçãodesigualdades que se poderiam efetivamente observar. tem princípios calcados na aglomeração de indústrias em pleno advento tecnológico e,2. Aspectos conceituais sobre a oriundo da concentração espacial de um complexopolarização e despolarização industrial acessível as atividades de produção (WILTGEN, 1991). De acordo Tellier (2004), Segundo Perroux (1977), o processo de o processo de polarização ocorre com a complexapolarização favorece um crescimento destinado interação entre forças de atração e de repulsãoa raras regiões, as quais são obra da associação de ativos, as quais intervêm na decisão dade conjuntos ativos (indústrias motrizes e atividades localização industrial, além de reforçar o seu grauaglomeradas em territórios) e conjuntos passivos de dependência.(indústrias movidas, regiões periféricas dependentes Em um território com regiões marcadas pordas aglomerações industriais), que sofrem influência um desenvolvimento industrial insignificante, oude fornecedores e compradores de insumos. até mesmo inexistente, configura-se numa situaçãoAssim, Souza (2005) complementa que a essência de poucas perspectivas de crescimento econômicodo processo de polarização está interligada às significativo. Ao contrario, quando se observaeconomias externas geradas pela infraestrutura crescimento aglomerado no mercado econômico,produtiva, possíveis de ser encontrada em regiões tem-se a dimensão das funcionalidades dascom disponibilidade de consumidores, mão-de-obra atividades produtivas em mesmo território. Por isso,especializada e serviços destinados às indústrias dos a ideologia do polo aglomerado é contrária emdiversos setores econômicos. promover um crescimento distribuído em uma única O objetivo central da polarização é fomentar região (PERROUX, 1977). O contraste se encontraincentivos às regiões com caráter secundário, em regiões, que o progresso econômico alcançoupossibilitando a propulsão de empresas pusilânimes elevados patamares se tornando um gerador dese tornarem canais de difusão e, não apenas impacto negativo constituído na moderna situaçãocontribuir com concentração de uma ou duas de produção (SCOTT, 2003).regiões principais (SOUZA, 2005). A idéia que 2.1 Fatores propulsores do crescimento eprocede na atração de polos decorre de uma do desenvolvimento regionalpolítica fundamentada na redução da concentraçãode crescimento dos polos, e desconcentração Para ilustrar teoricamente as desigualdades edeles em grandes centros. E tende a um equilíbrio contrabalançar com desenvolvimento das regiões,econômico proveniente da oportunidade dada as remete-se ao crescimento econômico medianteregiões subdesenvolvidas atrair novos investimentos uso da distribuição de renda. Em que, Scott (2003)produtivos (AZZONI, 1986). correlaciona o termo desenvolvimento com um Nessa conjuntura, um polo industrial processo construtivo, no qual as emissões dosapresenta características acessíveis de crescimento e recursos econômicos se tornam necessárias pararepresentatividade aglomerativa, além de conceber melhoria da produtividade. Ao sintetizar o termointensificação das atividades econômicas. Seu crescimento faz menção das linhas de melhorias,contingente remodela toda a estrutura geográfica seguindo os aumentos do produto bruto das regiões. 37
  • 38. O crescimento e o desenvolvimento adentrando no chamado declínio econômicoestão associados à aglomeração territorial, e a (SCOTT, 2003).densidade dos investimentos nas trocas ou nas Dessa forma, o processo de crescimento deinformações aplicadas em pontos determinados uma região se explica mediante um desenvolvimentopelos indivíduos. Suas implicações por causa da em ascensão, que ao atingir seu ponto máximomedida formalizada pelo crescimento econômico dá inicio ao processo de despolarização e a partirda região se fundamentam pela espacionalidade desse, descresse o crescimento estável da região. Aterritorial da aglomeração geográfica, das representação curvilínea inicia com aumentos dosatividades econômicas, e por conta dos aumentos indicadores e depois um declínio deles.da produtividade nacional (SCOTT, 2003). As atividades produtivas industriais se 2.2 Detalhamento teórico sobre desigual-concentram em poucos locais de um território fazendo dades regionaisparte do processo, cuja conjuntura econômica se As desigualdades regionais são evidentesabasta da acumulação dos recursos naturais, bem em regiões com amplos avanços no contingentecomo tem sido considerado nos últimos tempos, os econômico, dando margem para mesmaantecedentes históricos econômicos, formalizando a continuarem evoluindo, por receber maior númeroatual estrutura econômica, moldando seus padrões de investimentos industriais. Em casos de regiõesprodutivos de acordo com industrialização (AZZONI, que permanecerem pobres significa ausência em1985). quantidade de intervenções estatais, falta de aspectos O auge do crescimento regional deriva do de rentabilidade econômica, seguindo em condiçõesefeito da aglomeração alcançado pela indústria, de pobreza e subdesenvolvimento (AZZONI, 1986).ou conjunto de indústrias medido pelos índices Por isso, a solução encontrada para esseeconômicos e aguçado pela estrutura de produção. problema está no investimento da industrialização,A ponto de ser registrado como fenômeno que assume como precedente o desenvolvimentodesequilibrado, devido um progresso econômico com regional. A indústria tende angariar grande númeroausência de crescimento homogêneo, equilibrado e populacional e consumir mais mão-de-obra, poisigualmente distribuído entre populações e territórios ocorre expansão do setor terciário, alcança-se um(SILVA et al, 2000). mercado de amplas oportunidades de inserção de O crescimento econômico regional funciona novas indústrias, sobretudo se concentra o setorcomo mediador do estágio de desenvolvimento, ao de subsistência incorporando- no mercado internoperceber sua influência na maioria das empresas, (SINGER, 1986).fragmentado no controle de seus investimentos, Kuznets (1955) propõe o desenho da curvaalém de emergir, conforme o andamento dos saldos em U-invertido para representar a oscilação dopositivos dos negócios. Outro fator propulsor é a contingente de desenvolvimento e enfatizar asespecialização de um setor econômico, visível a disparidades regionais. O aumento do índice dapartir do desenvolvimento instantâneo do próprio desigualdade regional pode ser representado pela(LIMA, 2006). forma como é conduzida a distribuição de mão- De tal forma, para contribuir com o de-obra nos polos industriais. Muito comum de sedesenvolvimento e crescimento de uma região encontrar fenômenos como êxodo rural, devido àa ferramenta essencial é delimitar as suas movimentação em busca de empregos e políticaspotencialidades de mercado. Para tentar superar sociais, resultando num desenvolvimento regionalas etapas do seu desenvolvimento, uma região desordenado. Sendo que, a diminuição da pobrezasubdesenvolvida ao tentar alcançar todas as etapas e das desigualdades em regiões de desenvolvimentopara sua industrialização percorre um caminho pode ser atingida a partir de um tempo e contandobloqueado por crises ou forças insípidas do mercado com a tendência natural. 38
  • 39. No seguimento da mesma proposta, os contra- que não foi necessário haver alguma interferênciasensos dos indicadores propiciam as desigualdades para eliminar as disparidades regionais, já que elasregionais a aumentarem e depois declinarem, dando seriam eliminadas naturalmente no longo prazo.margem a um processo chamado de despolarização. Portanto, houve a necessidade de fazer uma análiseEm gráfico isso significa uma curva com um formato entre diferentes regiões para verificar a proporçãode “U” invertido (∩) que representa as desigualdades do desenvolvimento regional do país.regionais (AZZONI, 1997). 3. Desigualdades regionais dos estados2.3 A situação das disparidades intra-re-gionais do Brasil brasileiros O Brasil assumiu formato de industrialização A desigualdade regional representada noinstituído para todos os países colonizados no Brasil perdura com o modelo implantado no cercoperíodo de 1500, um processo que perpetua com das atividades produtivas, o qual tem beneficiadocaracterísticas de uma rápida expansão do comércio uma ou outra região específica. Essa dinâmica em suaexterior, com forte apoio do governo e com alta dimensão se apresenta em maior proporcionalidadeproteção tarifária. Desde então, ocorre a sucessão nas Regiões Sudeste e Nordeste.de atividades econômicas desenvolvidas numa série A análise sobre o Produto Interno Brutode estágios, estabelecidas numa proposta de causas fundamenta-se em dados extraídos do Ipeadata.com natureza do crescimento industrial descontínuo, Para melhor apresentar as participações do PIBe impacto na estrutura de funcionamento da dos Estados brasileiros, agrupa em regiões. Entreeconomia no país (BAER, 2003). as regiões, a Região Sudeste é a que mais se Nos anos de 1970, pode ser visto uma destaca na participação do PIB nacional. Em 1985,oscilação na quantidade de indústrias instaladas era responsável por 60,15% do PIB nacional, noe várias formulações de polos de crescimento no entremeio do período, teve algumas oscilações,Brasil. A partir da década de 1980, houve crises sua percentagem decaiu (56,78%) em 2006, maseconômicas, decorrentes da problemática gerada continua sendo a Região que mais contribui compelo declínio econômico de diversas regiões o PIB nacional. Conforme Perroux (1987) salienta-brasileiras, em que os polos industriais passaram se que as regiões com maior concentração deexercer frequência negativa, ao invés de apresentar indústrias intensificam seu desenvolvimento dascontinuidade positiva no crescimento do país. Com demais regiões.a extensiva falência de firmas em todo o território, A Região Sul responde pela segunda colocaçãoocorre transformação nas áreas polarizadas - na composição do PIB no ano de 1985, a qualconhecido por fenômeno de transferências de colaborava com 17,10% no PIB nacional declinandoatividades produtivas. Essas mudanças foram de para 16,32% em 2006. A Região Norte apresentoualta escala para todos os envolvidos, tanto em menor resultado junto ao PIB nacional, no entanto,nível regional, como na condensação de serviços visto pela grande extensão territorial composta pororiundos e mais submissos das indústrias (LIMA, matas e florestas, e dada à região amazônica situar-2006). se nesse território, justifica-se o aumento de sua taxa Seguindo a linha de raciocínio das de participação no período exposto.disparidades regionais encontradas no Brasil, A Região Nordeste se sobressaiu pelao constante crescimento de algumas atividades influente receita advinda de bens não inclusos naeconômicas, a distribuição desigual do produto economia nacional, bens característicos da culturanacional e a emergente concentração industrial local do território (BAER, 2003). Essa Região obteverefletiram numa situação de redistribuição espacial 14,10% na composição do PIB nacional, no ano deem determinadas regiões. Kuznets (1955) mostra 1985, durante o período sua taxa de participação 39
  • 40. sofreu leves oscilações e fechou em 2006 com porcentagens oscilaram, mas manteve-se em queda13,13% no PIB nacional. A região Centro-Oeste na participação do PIB nacional, alcançando umainiciou o período com 5,66% de participação no média de 11,72%. O terceiro Estado com maiorPIB nacional e chegou ao ano de 2006 com 8,71 % índice no PIB nacional é o Estado de Minas Geraisde participação no PIB nacional. com uma média de 9,23%. A tabela a seguir apresenta os valores de Os Estados de Roraima e Acre são os queparticipação do Produto Interno Bruto dos Estados menos contribuíram para o PIB nacional, entretanto,Brasileiros: seus índices de crescimento se elevaram, visto pelas Na tabela 1, nota-se a participação dos atividades econômicas como extrativista e auto-Estados na composição do PIB Nacional, no consumo desenvolvidas por tais Estados.período analisado, destaca-se a redução da O elo entre o processo de industrializaçãocontribuição do Estado de São Paulo, sendo numa e a elevada disparidade econômica das Regiõesmédia de 34,53%. O Estado do Rio de Janeiro brasileiras está representado pelas mudançasocupa-se da segunda colocação, porém suas de distribuição de renda nos setores industriais,Tabela 1 - Participação do Produto Interno Bruto, com preços constantes dos Estados no ProdutoInterno Bruto do Brasil entre 1985 e 2006 em (%) ESTADOS 1985 1990 1995 2000 2006 Média São Paulo 36,12 37,02 35,47 33,67 33,87 34,53 Rio de Janeiro 12,70 10,86 11,52 12,52 11,62 11,72 Minas Gerais 9,61 9,29 9,74 9,64 9,06 9,23 Rio Grande do Sul 7,88 8,13 8,30 7,73 6,62 7,48 Paraná 5,92 6,35 5,94 5,99 5,77 6,07 Bahia 5,35 4,49 4,14 4,38 4,07 4,32 Santa Catarina 3,30 3,73 3,65 3,85 3,93 3,80 Distrito Federal 1,37 1,61 2,05 2,69 3,78 2,92 Pernambuco 2,62 2,66 2,70 2,64 2,34 2,49 Goiás 1,80 1,75 1,84 1,97 2,41 2,17 Espírito Santo 1,72 1,66 1,99 1,96 2,23 1,93 Ceará 1,72 1,62 1,93 1,89 1,95 1,86 Pará 1,52 2,06 1,87 1,72 1,87 1,80 Amazonas 1,52 1,82 1,70 1,71 1,65 1,62 Mato Grosso 0,69 0,83 1,01 1,22 1,49 1,31 Mato Grosso do Sul 0,95 0,96 1,08 1,08 1,03 1,05 Maranhão 0,74 0,80 0,78 0,84 1,21 0,97 Paraíba 0,72 0,85 0,82 0,84 0,84 0,82 Rio Grande do Norte 0,78 0,72 0,73 0,84 0,87 0,80 Alagoas 0,86 0,71 0,62 0,64 0,66 0,68 Sergipe 0,92 0,57 0,55 0,54 0,64 0,64 Rondônia 0,48 0,49 0,46 0,51 0,55 0,53 Piauí 0,39 0,45 0,49 0,48 0,54 0,49 Tocantins 0,00 0,16 0,19 0,22 0,41 0,29 Amapá 0,12 0,16 0,19 0,18 0,22 0,19 Acre 0,13 0,14 0,15 0,15 0,20 0,17 Roraima 0,07 0,11 0,07 0,10 0,15 0,12 Brasil 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00Fonte: Ipeadata, 2009. 40
  • 41. agrícolas e serviços (BAER, 2003). Ao relacionar a A tabela 2 mostra o Estado de São Pauloparticipação do PIB estadual com o PIB nacional, em 1985 com 48,53% de PIB atrelado à indústria,aborda-se a composição do valor adicionado enquanto em 2006, esse valor diminuiu parados Estados Brasileiros, composto pelos setores 34,76%. No entanto, quando se analisa o setor deagropecuário, industrial e de serviços. serviços, obteve um crescimento de 33,35% em 1985 Os dados mostram que a Região Sudeste para 34,14% em 2006. Já o setor agropecuáriopossui valores mais elevados no segmento assentiu uma queda de 18% para 12,78%. Asindustrial, e acredita-se que devido a isso, haja diversas participações desses setores em diferentesmaior concentração urbana, dada a localização das anos mostram mudanças no padrão de produção,indústrias. A Região Centro-Oeste atribui valores consumo e fatores de trabalho que implicam naatrelados ao segmento agropecuário, justificando diversa evolução econômica dos Estados.sua participação ativa no agronegócio brasileiro. A O Estado do Rio de Janeiro apresenta osRegião Sul possui valores correlativos à agricultura, resultados do setor de serviços (16,48%) em 1985,aos serviços presentes e à crescente ativação do sendo que tal decaiu no ano de 2006 (11,66%)segmento industrial. Os dados referentes às Regiões admitindo que esse setor se tornou o maiorNorte e Nordeste mostram que seus aspectos contribuinte na formação de seu PIB estadual. Oeconômicos têm incrementado gradativamente as Estado de Minas Gerais tem na agricultura o fatorparticipações da indústria, serviços e agricultura. de maior contribuição para o PIB estadual noConforme apresenta a tabela 2: decorrer dos anos de 1985 e 2006. Os EstadosTabela 2 – PIB Estadual a preços básicos em R$ de 2000, no valor adicionado da Indústria, Agropecuáriae Serviços, nos anos selecionados de 1985 e 2006 1985 2006 Estados Indústria Agropecuária Serviços Indústria Agropecuária Serviços São Paulo 43,58 18,00 33,35 34,76 12,78 34,14 Rio de Janeiro 13,21 1,41 16,48 13,09 1,04 11,66 Minas Gerais 9,25 14,71 7,93 10,21 14,12 8,38 Rio Grande do Sul 7,00 11,25 6,99 6,52 11,30 6,34 Paraná 4,82 12,66 5,39 5,94 8,87 5,60 Santa Catarina 3,32 5,23 2,50 4,80 5,07 3,57 Bahia 4,90 8,46 4,40 4,32 5,84 3,79 Amazonas 1,94 1,13 0,95 2,57 1,48 1,22 Espírito Santo 1,41 3,03 1,50 2,48 3,64 1,80 Goiás 1,08 3,11 2,13 2,28 4,65 2,38 Pará 1,01 3,51 1,34 2,27 3,29 1,71 Pernambuco 1,95 3,00 2,72 1,76 2,22 2,61 Ceará 1,39 2,44 2,02 1,63 2,65 2,10 Mato Grosso 0,30 1,21 0,89 0,96 7,04 1,31 Distrito Federal 0,35 0,10 5,54 0,87 0,15 5,59 Maranhão 0,31 1,80 0,90 0,86 3,85 1,23Rio Grande do Norte 0,88 0,63 0,69 0,79 1,03 0,92 Sergipe 1,37 0,65 0,47 0,72 0,59 0,64 Paraíba 0,43 1,28 0,78 0,67 1,16 0,95Mato Grosso do Sul 0,36 3,09 0,88 0,65 2,70 1,04 Alagoas 0,48 1,49 0,70 0,63 1,03 0,70 Tocantins 0 0 0 0,36 1,44 0,37 Piauí 0,17 0,61 0,51 0,33 0,97 0,63 (continua) 41
  • 42. (continuação) 1985 2006 Estados Indústria Agropecuária Serviços Indústria Agropecuária Serviços Rondônia 0,33 0,74 0,50 0,28 2,02 0,57 Acre 0,05 0,27 0,17 0,10 0,66 0,23 Amapá 0,06 0,09 0,19 0,08 0,17 0,32 Roraima 0,02 0,07 0,11 0,06 0,23 0,21 BRASIL 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00Fonte: Ipeadata, 2009com maior contribuição no PIB nacional (São Paulo, da Região. A partir do exposto, destacam-se asRio de Janeiro e Minas Gerais) têm composições disparidades entre regiões, pelos valores restringidosdiferenciadas de valor adicionado (para a produção de habitantes e empresas em ambos os Estados.da indústria, agricultura e serviços). Com base no registro populacional, o gráfico 2 De acordo com Andrade e Serra (1998), mostra a distinção populacional entre os Estados doo período de 1985 a 2006 possui concentração Brasil.industrial em grandes centros brasileiros, como Segundo a representação do gráfico 2,mostra o gráfico 1: as unidades federativas brasileiras com maiorGráfico 1 – Número de Empresas por Estados Brasileiros no ano de 2006Fonte: IBGE, 2009. No gráfico 1 e no gráfico 2, observa-se que número de empresas se assemelham aos Estadoso Estado de São Paulo concentra o maior número que possuem maior adensamento populacional.de empresas (30,45%) e, por conseguinte, é o Portanto, existe atração populacional nessas regiõesEstado mais populoso (21,95%) do Brasil. O Estado que tendem investir nas empresas já existentes,de Roraima é o menos populoso com 0,21% da possibilitando manutenção/formação de novospopulação total do país e possui número reduzido empregos e empreendimentos. Com isso, essasde empresas, no ano de 2006. regiões mantêm um crescimento continuo em Em contrapartida, o Estado do Amapá ocupa o termos de PIB que lhes permite a possibilidade domenor índice de empresas devido as potencialidades desenvolvimento econômico. 42
  • 43. Gráfico 2 – População Total por Estados Brasileiros no ano de 2006Fonte: Estimativa Populacional, 2009. Outras regiões com ausências de Gráfico 3 – Medida de Desigualdade Regional dodesenvolvimento não viabiliza em níveis de PIB per capita a preços constantes em R$ de 2000 do Brasil, para os Estados Brasileiros, no períodocrescimento econômico contínuos, e por diversos de 1985 á 2006.fatores acabam não tendo a mesma possibilidadegerir desenvolvimento. E ainda o crescimentodesigual entre as regiões brasileiras se atribui aalgumas diferenças regionais, considerando oenfoque populacional e número de empresas emcada Estado. O gráfico 3 apresenta a disparidaderegional do PIB per capita dos Estados Brasileiros,mediante a representatividade dos dados extraídos Fonte: Resultados da Pesquisa, 2009.do IBGE para as anos de 1985 á 2006. De Como mostra o gráfico 3, ocorre aumento dasacordo com Williamson (1977), as disparidades disparidades entre os Estados Brasileiros até 1995.regionais crescem por um determinado período Esse fato se explica por meio do declínio caracterizadode tempo, após declinam mostrando o movimento pela despolarização entre 1996 á 2002, o qualde polarização ou movimento de despolarização. permite destacar a redução das disparidades entre osEntre a amostra das desigualdades averiguadas Estados brasileiros. Esse período é caracterizado pelanos Estados brasileiros, o valor máximo atingido implantação do Plano Real na economia brasileira echegou a torno (0.0866) no ano de 1995, sua desvalorização a partir de 1998/99, atingindo,representando o maior diferencial de PIB per capita no ano 2000, o menor índice de disparidade entreentre os Estados Brasileiros, seguindo no decorrer os Estados brasileiros. Após 2002 até 2006, asdos anos um declínio gradativo formando a figura disparidades estaduais se mantiveram a níveis estáveis,de um “U” invertido. Como está representado no porém não nulas, as quais indicam a existência dasgráfico a seguir: disparidades estaduais a níveis menores. 43
  • 44. Conclusões Verificou-se através das tabelas 1 e 2 e dos gráficos 1 e 2, que o Estado de São Paulo é o O período de 1985 á 2006 proposto para representante motriz brasileiro. Pois maior parte daestudo foi um momento de transformações na população e empresas situa-se nesse Estado, issoeconomia Brasileira. Com taxas exorbitantes de gera atração de investimentos e mão-de-obra eminflação em um primeiro momento, assumindo intensa escala. Em contraste os Estados de Roraimaum equilíbrio com o controle inflacionário sob (menos populoso) e Amapá (menor número deintensa mudança econômica em vários setores da empresas) possuem maiores dificuldades emeconomia, tendo que se adaptarem às mudanças relação a atração de investimentos. Desse modo,da abertura econômica, proposta em 1990. Visto no período analisado, as desigualdades regionaisisso, como influencia nas disparidades regionais e entre os Estados reduziram relativamente comdesenvolvimento econômico desigual no conjunto a abertura econômica, principalmente após ade Estados brasileiros. desvalorização cambial de 1999, e estabilizaram a O movimento de crescimento das partir do ano 2002.desigualdades no início nos anos 1990 e a Nas disparidades econômicas entre osconcomitante ascensão em 1995, remota a Estados Brasileiros, o papel do investimento públicocaracterística da teoria da polarização na impactante em infraestrutura é essencial, pois consideramatração de empresas e pessoas em relação aos polos. a caracterização e a adequabilidade comoAs quais transmitem o movimento de regiões mais instrumentos de desenvolvimento regional pararicas à frente de regiões mais empobrecidas. Esse as áreas menos favorecidas. Sendo assim, asmovimento, depois de 1995 até 2002, manteve-se disparidades regionais devem ser analisadas comem queda, comprovando a hipótese de “U” invertido, mais atenção e cuidado pelas autoridades públicas,mostrando que o crescimento elevado aumenta as no sentido de melhor qualificar a mão de obra,desigualdades regionais, depois declinarem dando incentivando políticas internas de crescimento nosmargem a um processo chamado de despolarização, Estados subdesenvolvidos, a fim de equiparar aoque ocorre sem qualquer tipo de interferência. crescimento dos demais Estados.ReferênciasANDRADE, T. A.; SERRA, R. V. O recente desempenho das cidades médias no crescimentopopulacional urbano Brasileiro. Rio de Janeiro: IPEA, 1998.AZZONI, C. R. Distribuição Pessoal de Renda nos Estados e Desigualdade de Renda entre os Estados doBrasil - 1960, 1970, 1980 e 1991. Revista Pesquisa e Planejamento Econômico. Rio de Janeiro, v.27, n. 2, p.251-278, ago. 1997.______. Indústria e reversão da polarização no Brasil. São Paulo: IPE-USP 1986. ,______. Aspectos da evolução industrial de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com destaque parao caso Paulista. In: Carlos Roberto Azzoni (org.) Onde produzir? Aplicações da Teoria da localizaçãono Brasil. São Paulo: IPE-USP 1985, Cap.4, p.230-262. ,BAER, W. A Economia Brasileira. São Paulo: Nobel, 2003.CAVALCANTE, L. R. M. T. Desigualdades regionais no Brasil: uma análise do período 1985-1999. RevistaEconômica do Nordeste. Fortaleza, v. 34, n. 3, p.466-481, 2003.CHIARINI, T . Coeficiente de Williamson e as disparidades regionais de rendimento e educação noBrasil. Revista Econômica do Nordeste. Fortaleza, v. 37, s/n, p.493-511, 2006.Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. SIDRA. Disponível em: < www.sidra.ibge.gov.br>. Acessoem 1 maio 2009. 44
  • 45. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativas Populacionais. Disponível em: <www.ibge.gov.br>. Acesso em 1 maio 2009.BRASIL. Secretaria de Assuntos Estratégicos. IPEADATA. Disponível em: <www.ipeadata.gov.br> Acessoem: 9 abr. 2009.FACHIN, O. Fundamentos de metodologia. São Paulo. Saraiva. 2003.GOMES, G. M. Desenvolvimento e Política Regional na União Européia. TD n º 483, Brasília/Riode Janeiro, IPEA, 1997.KUZNETS, S. Economic growth and income inequality. The American Economic Review, v. 45, n. 1,p.1-28, mar. 1955.LIMA, A. A teoria do desenvolvimento regional e o papel do Estado. Revista Análise Econômica. PortoAlegre, v. 24, n. 45, p.65-90, 2006.PERROUX, F. Conceito de pólos de crescimento. In: SCHWARTZMAN, J. (org.) Economia regional: textosescolhidos. Belo Horizonte: CEDEPLAR, 1977. p. 145-156. ______. Ensaio sobre a Filosofia do Novo Desenvolvimento. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian,1987.PETERNELLI, L. A. INF 162 - Estatistica I. 2005. (Desenvolvimento de material didático ou instrucional -Apostila). Disponível em: http://www.each.usp.br/rvicente/Paternelli_Cap2.pdf. Acesso: 20 nov. 2010.SCOTT, A. J. La poussée régionale: vers une géographie de la croissance dans les pays en développement.Géographie, Économie et Sociéte. Paris, v. 05, n. 1, p.31-57, 2003.SILVA, J. R.; LIMA, J. F.; RIPPEL, R. A Teoria dos Pólos de Crescimento de François Perroux. Cadernos deEconomia, Chapecó, v. 4, n. 7, p.77- p.95, Dez.2000.SINGER, Paul. Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana. São Paulo: Companhia Nacional,1986.SOUZA, N. J. Desenvolvimento polarizado e desequilíbrios regionais no Brasil. Revista AnaliseEconômica, Porto Alegre, v. 11, n.19, p.29-59, 1993.______. Teoria de pólos, regiões inteligentes e sistemas regionais de inovação. Revista AnaliseEconômica, Porto Alegre, v.16, n.1, p.87-112, jan./jun. 2005.TELLIER, L. N. Et si les economies d’agglomeration n’existainet pas, notre monde serat’il different? RevueOrganisations et Territoires, v. 13, n. 03, p.76-80, 2004.WILLIAMSON, J. G. Desigualdade regional e o processo de desenvolvimento nacional: descrição dospadrões. In: SCHWARTZMAN, J. (Org.) Economia regional: textos escolhidos. Belo Horizonte:CEDEPLAR, 1977. p.53-116.WILTGEN, R. S. Notas sobre Polarização e Desigualdades Regionais. Ensaios FEE, Porto Alegre, v. 12,n. 2, p.532-539, 1991. 45
  • 46. A Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório de Camarões Marinhos Environment Management System Evolution: the case of Marine Shrimps LaboratoryRafael Feyh Jappur1Antonio Costa Gomes Filho2Marilene Bronoski3Fernando Antonio Forcellini4ResumoO estado da arte em um Sistema de Gestão Ambiental se dá quando ele consegue a certificação NBR ISO 14001.Isso significa que as práticas e procedimentos de gestão de aspectos e impactos ambientais estão adequados,por proporcionarem à organização os elementos para o atendimento à legislação e para o cumprimento dosrequisitos de melhoria contínua e prevenção da poluição, além de proporcionarem a obtenção de vantagensinterna e externa. Este artigo tem por objetivo mostrar a necessidade de evolução dos sistemas de gestãoambiental, de forma que a garantia da qualidade ambiental seja para toda a cadeia produtiva. A análise éfeita a partir de um estudo de caso. A evolução de um único subsistema da Cadeia de Produção de CamarõesMarinhos rumo à padronização de processos e obtenção de certificação ISO 14001 não foi o suficiente paragarantir a sustentabilidade do sistema. Conclui-se que qualquer empresa, organização ou cadeia de produçãoprecisa evoluir de forma integrada e na opção pela certificação ISO 14.001 há que se pensar em certificaçãoda cadeia produtiva como um todo.Palavras-chave: Sistemas de Gestão Ambiental; Cadeia Produtiva; Sustentabilidade.AbstractThe state of the art in an Environmental Management System is when it gets the certification ISO 14001. Thismeans that the practices and procedures for managing environmental aspects and impacts are appropriatefor the organization providing the information for compliance and to meet the requirements of continuousimprovement and pollution prevention, and provide benefits to obtain internal and external advantaged. Thisarticle aims at showing the need for environmental management systems development, so that environmentalquality is guaranteed for the whole production chain. The analysis was carried out from a case study. Theevolution of a single subsystem of Marine Shrimps production chain toward standardization of processes andobtaining ISO 14001 was not enough to ensure the sustainability of the system. It was concluded that any1 Professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de Santa Catarina - SENAC/SC, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação emEngenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato:rjappur@gmail.com2 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Discente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia eGestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato: acgfilho@unicentro.br3 Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui doutorado em Engenharia Florestal pela UniversidadeFederal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marilene.bronoski@gmail.com4 Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil. Possui doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federalde Santa Catarina - UFSC, Brasil, e Pós-doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo - USP Brasil. Pesquisador Nível 2 ,do CNPQ. Contato: forcellini@gmail.comRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 13/05/2010 - Aprovado em 26/11/2010
  • 47. company, organization or production chain needs to evolve in an integrated way, and in choosing ISO 14001certification it is to consider the certification of the production chain as a whole.Key words: Environmental Management Systems; Supply Chain; Sustentability.Introdução sendo mais tarde substituído por Desenvolvimento Sustentável (LEIS, 1999). As cinco dimensões da As organizações são sistemas sociais abertos sustentabilidade - social, econômica, ecológica,em constante interação com o ambiente no qual estão espacial e cultural - foram fundamentadasinseridas. As funções administrativas e operacionais conceitualmente por Sachs (1993).devem ser estruturadas e gerenciadas de forma a No macroambiente empresarial os estudosmanter o equilíbrio entre os ambientes geral externo focam o Desenvolvimento Sustentável; no contextoe o ambiente de tarefas internas de maneira a evitar do microambiente empresarial, o conceito maiso conflito entre a organização e a sociedade à qual utilizado é o do triple bottom line – TBL e se referepertence (PRESTES; BULGACOV, 1999). à prosperidade econômica, qualidade ambiental Por influência da Teoria Geral de Sistemas e progresso social e à construção de métricas queproposta por Bertalanfy, na década de 1950, permitem mensurar a atuação da empresa nas(Bertalanfy, 1977), a Ciência das Organizações esferas econômica, social e ambiental.incorporou o conceito de sistema aberto; isso Este artigo discorre sobre a evolução dostrouxe à tona a forma de se pensar a empresa a Sistemas de Gestão Ambiental, enfocando apartir de processos e uma visão de interação com necessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva.as necessidades dos stakeholders internos e externos A pesquisa foi caracterizada como descritiva,ao sistema empresarial. tomando-se como fonte primária um estudo de caso Logo após a Segunda Guerra Mundial, desenvolvido e sua certificação em um laboratórioesse conceito de processos foi incorporado ao de larvicultura de camarões marinhos, situado emambiente empresarial, inicialmente pelas empresas Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.orientais, em especial pela indústria automotivajaponesa e, posteriormente, na década de 1980, 1. Os subsistemas da cadeia produtivano mundo ocidental, com a proposta denominada de camarões marinhosde Reengenharia de Processos (HAMMER; CHAMPY,2003). A idéia de sistema induz à idéia de ordem, No entanto, até a década de 1980, o arranjo, plano, método e busca da racionalidade,cliente, notadamente, o stakeholder principal do mesmo que parcial. A ausência de organizaçãocenário organizacional, não era tão valorizado poderia se chamar de “caos”, de forma que umem função das poucas empresas atuantes e, sistema organizacional é um conceito, uma visãoconsequentemente, de poucos produtos existentes. funcional e estática da organização (PRESTES;A década de 1980 inaugurou a necessidade de BULGACOV, 1999).maior integração da empresa com o seu ambiente A empresa, tipo especial de organização,externo, colocando o cliente como sujeito das enquadra-se no modelo de sistemas abertos,decisões empresariais. considerando sua contínua interação com o ambiente, A evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental recebendo e transformando insumos em produtostambém tem seu marco inicial a partir daquele acabados, de acordo com Montana e Charnov (1998).período, pois a preocupação com a preservação O conceito de sistema aberto é tambémdo meio ambiente, conjugada com a melhoria aplicado na cadeia de produção do cultivo de camarãodas condições sociais e econômicas da população marinho, que apresenta três elementos principais: omundial, trouxe o conceito de ecodesenvolvimento, laboratório de reprodução e larvicultura, a fazenda 48
  • 48. de engorda e o centro de processamento para o no entanto, isso nem sempre ocorre de formamercado. O Laboratório de Camarões Marinhos - simultânea. Tomando como exemplo o sistemaLCM é um subsistema do sistema de reprodução e de qualidade, que envolve processos, recursos,larvicultura de pós-larvas de camarão marinho. atitudes e responsabilidades de forma que a sua sobrevivência depende do nível de atendimento aoFigura 1 – Fluxograma da Cadeia Produtiva do mercado e acompanhamento de suas evoluções porCamarão Marinho todos os subsistemas do sistema empresa. Para Juran (1995), o Gerenciamento da Qualidade por Toda a Empresa (GQTE) é uma abordagem sistemática para se estabelecer e atingir metas da qualidade na empresa como um todo; no planejamento por departamentos, ele deve identificar e concentrar-se nas poucas atividades mais vitais; os clientes podem constituir todo um elenco de personagens, sendo que o planejamentoFonte: Os autores. departamental da qualidade deve identificar e O fluxo de informações permeia toda a cadeia concentrar-se nos poucos clientes mais importantesprodutiva, entre os seus diversos componentes. (Classe A, dentro da Classificação ABC). NesseBuscam-se informações no fornecedor (capacidade sistema, a metodologia aplicada é a mesma quede fornecimento, tecnologias utilizadas, logística a aplicação em toda a empresa, somente restrita àde ressuprimento) que, ao mesmo tempo, avalia divisão em que se pretende planejar a qualidade,o poder de compra e demanda do cliente e isoladamente.assim sucessivamente. O fluxo de informações é, Dentro desse contexto, na evolução dosportanto, nos dois sentidos (bidirecional), desde o sistemas empresariais, a gestão de processos tornou-produtor primário, até o consumidor final (usuário). se ferramenta substancial para a melhoria contínuaJá o de mercadorias/produtos é unidirecional, em dos processos críticos de uma organização. Cada vezse tratando de logística direta, visto que é o fluxo mais a exigência da sociedade para que as empresasfísico que segue do produto primário (origem da assumam sua responsabilidade socioambiental temcadeia), até o consumidor final. Salvo, é claro, forçado as empresas a evoluírem, especialmente emem caso de devolução, reutilização num processo seus sistemas de gestão ambiental. O movimentoanterior, situações contempladas na da logística ambientalista chegou para ficar e cabe às empresasreversa. adequarem-se a essa realidade. Considerando esse cenário, de crescente2. A evolução dos sistemas preocupação com a variável ambiental, é que muitas organizações padronizaram seus processos O conceito de “evolução dos sistemas de gestão voltados a esse enfoque. O conceitotécnicos” defende a idéia de que todo sistema evolui. de gestão ambiental para organizações pode serEssa evolução pode ser a partir de uma idéia inicial definido como um sistema administrativo integradopara a qual o sistema técnico ainda não existe de aos demais processos gerenciais que busca aforma organizada, como também para sistemas já excelência da performance ambiental (ALMEIDA,existentes. Tal consideração foi utilizada como base 2002).para a Teoria da Resolução de Problemas Inventivos A evolução dos Sistemas de Gestão– TRIZ - desenvolvida por Genrich Altshuler (1926- Ambiental encontra sua maior dificuldade no jogo1998) conforme relembra Demarque (2005). de forças existente entre os diversos stakeholders. Se o sistema evoluiu como um todo, infere- Antes da década de 1980, por exemplo, os clientesse que seus subsistemas também evoluíram, e o movimento ambientalista não tinham força e 49
  • 49. os sistemas de Marketing e os Sistemas de Gestão engessamento das atividades organizacionais e simAmbiental não evoluíram, predominando o lucro a um mecanismo de suporte à gestão, incluindo ostodo custo, em atendimento ao acionista que tinha limites de flexibilidade possíveis.maior influência no sistema empresa. Sob a ótica da gestão, um processo é Um método inovador que considera a definido como um ou mais procedimentos/atividadessustentabilidade como consequência das ações relacionados, os quais coletivamente realizam ode inovação e responsabilidade social empresarial objetivo de um negócio dentro de um contextoincorporada à visão de longo prazo do modelo organizacional definido em papéis e relacionamentosde negócios foi desenvolvido por Gomes Filho et (WFMC, 1999).al (2009). Segundo esses autores, o Método para Muitas organizações gerenciam suasConcepção de Negócios Sustentáveis baseado em operações através da aplicação de sistema deTRIZ (MCNS-TRIZ) possibilita evoluir o modelo de processos e suas interações, que podem sernegócios incluindo a dimensão social e a dimensão referenciados como “abordagem de processos”. Aambiental. ABNT ISO 9001 promove a utilização da abordagem de processo. Como o PDCA pode ser aplicado a3. Abordagem de processos e evolução todos os processos, ela também pode ser compatívelvia padronização com os processos de gestão ambiental (ABNT ISO 14001, 2004). A aplicação de um sistema de gerenciamento A implementação de sistemas de gestãopor processos em uma organização, junto com a ambiental - SGAs - é um movimento organizacionalidentificação, interações desses processos e sua recente e que ganhou velocidade a partir dagestão, pode ser considerada como “abordagem década de 1990, com a disseminação da normade processo”. Uma vantagem da abordagem de ISO 14001. De acordo com ISO (2003), o númeroprocesso é o controle contínuo que ela permite sobre de certificações de sistemas de gestão no mundoa ligação entre os processos individuais dentro do tem crescido significativamente, o que comprovasistema de processos, bem como sua combinação e a credibilidade dessas certificações num mercadointeração. cada vez mais competitivo e globalizado. O estabelecimento de processos Existem várias metodologias para adocumentados dá suporte, para que nada implementação e manutenção de sistemas de gestãoimportante seja esquecido e também serve para ambiental, sendo estas baseadas no método do cicloque todos tenham o conhecimento do que fazer, do “PDCA”, já mencionado anteriormente. A própriaquando fazer, como fazer, por que fazer, onde fazer ISO 14001 foi concebida com essa base conceituale dependendo da situação, o quanto custa fazer. (HARRINGTON; KNIGHT, 2001). O ciclo “PDCA”Daí a importância da necessidade da existência de foi proposto por Shewhart na década de 1930 eprocessos devidamente formalizados, instruções, disseminado por Deming na reconstrução do Japãoregistros, para assegurar que os executores da tarefa pós-guerra. Ele é considerado por Moura (2008) eo façam dentro de um padrão pré-estabelecido do Moreira (2006) como a ferramenta mais importantemelhor jeito possível e não cada um com o seu do gerenciamento do SGA, a qual poderá resumirpróprio jeito (MELLO et al., 2002). todo processo de gestão. Compõe-se pelo “P” de Conforme Harrington (1993), a padronização plan (planejar), “D” de do (realizar), “C” de checké um norte para a operacionalização eficiente e (verificar) e “A” act (atuar para corrigir).eficaz das atividades organizacionais. Ressalta- De acordo com a ABNT ISO 14001 (2002), ose ainda, que esses documentos padronizados, processo de operacionalização de um SGA eficientepodem, de acordo com a necessidade, ser revistos e eficaz com base no “PDCA” deve ser alcançadoe melhorados. A padronização não significa o por meio da seguinte forma: 50
  • 50. • Planejar: estabelecer os objetivos e propostos pela NBR ISO 14001. O entendimento processos necessários, para atingir os dos autores deste artigo é que o estado da arte resultados em conformidade com a política é atingido pela certificação, isso em termos ambiental da organização. de práticas e procedimentos de gestão de • Executar: implementar os processos. aspectos e impactos ambientais, e também por proporcionarem à organização os elementos para • Verificar: monitorar e medir os processos o atendimento à legislação e para o cumprimento em conformidade com a política ambiental, dos requisitos de melhoria contínua e prevenção objetivos, metas, requisitos legais e outros, da poluição. relatando seus resultados. Além de possibilitarem a obtenção de • Agir: agir para continuamente melhorar o vantagens diferenciais internas e externas, a desempenho do SGA. padronização dos processos dos Sistemas de Gestão O conceito de gestão ambiental para Ambiental caracteriza sua evolução e visa apoiar aempresas pode ser definido como um sistema sustentabilidade competitiva das organizações.administrativo integrado aos demais sistemas quesuportam os processos gerenciais e que buscam a 4.A evolução do laboratório de camarõesexcelência da performance ambiental. Para Almeida marinhos (lcm) à padronização e(2000), gestão ambiental é a forma de como a certificação pela iso 14001empresa se mobiliza, internamente e externamente,para a conquista da qualidade ambiental desejada. A criação de camarões em cativeiroViterbo Junior (1998) enfatiza que a gestão ambiental (carcinicultura) é uma atividade que nos últimosé como a organização administra as relações entre anos tem apresentado grande expansão mundial,suas atividades e o meio ambiente, observando as assumindo considerável importância socioeconômicapartes interessadas (consumidores, empregados, em diversos países (ANDREATTA, 2002).ONG’s, comunidade, entre outros). A cadeia produtiva do cultivo de camarão De uma maneira geral, a gestão ambiental é marinho no caso em estudo apresenta três elementos:um meio administrativo que liga as atividades de uma o laboratório de reprodução/larvicultura, a fazendaorganização ao meio ambiente, com a finalidade de engorda e o centro de processamento para ode prevenir e minimizar os impactos ou efeitos mercado. O Laboratório de Camarões Marinhosambientais causados direta e/ou indiretamente por (LCM) está posicionado no segmento de reprodução/ela. A aplicação de um sistema de gestão ambiental larcicultura de pós-larvas de camarão marinho.(SGA) é a melhor estratégia de gestão ambiental, Idealizado para promover o desenvolvimentocom menor custo e de forma permanente, segundo do cultivo de camarões marinhos na região sul doAlmeida (2000). Brasil, a construção do LCM iniciou-se em novembro A norma ambiental ISO 14001 é o método de 1983, tendo sido inaugurado em 5 de janeiromais aceito e difundido internacionalmente de de 1985. Em 1984, a Universidade Federal deSGA, segundo Harrington e Knight (2001). Ela é a Santa Catarina - UFSC - iniciou as pesquisas comtentativa de homogeneizar e padronizar conceitos, reprodução e cultivo das espécies nativas. Duranteordenar atividades e criar procedimentos que sejam dezessete anos, dedicou-se ao desenvolvimento dereconhecidos por aqueles que estejam envolvidos tecnologia para reprodução e cultivo das espéciescom alguma atividade produtiva que possam gerar nativas P paulensis e P schmitti, que, apesar dos . .impactos ambientais. ótimos resultados na reprodução, em escala Nesse contexto, no caso do Laboratório de comercial não foram competitivos nas fazendas deCamarões Marinhos, local de estudo, buscou- produção. Durante esse período, grande parte dose a fundamentação nos requisitos normativos potencial do laboratório foi usada para programas 51
  • 51. sociais, através do repovoamento de Lagoas produto que tenha impactos ambientais negativosCosteiras (entre os anos de 1991 a 1997). ao longo de sua cadeia produtiva, até a disposição Com o intuito de viabilizar a atividade de de pagar mais por um produto com efeitos sócio-carcinicultura em Santa Catarina, no segundo ambientais relativamente benignos (BOYD et al.,semestre de 1998, a UFSC e a Empresa de Pesquisa 2002).Agropecuária e Extensão Rural do Estado de Considerando a perspectiva de abertura deSanta Catarina (EPAGRI) foram responsáveis pela novos mercados e as pressões das partes interessadasintrodução da espécie Litopenaeus vannamei nas em relação às questões ambientais (comunidade,fazendas existentes no Estado. ONG´s, órgãos ambientais, entre outros), que O LCM possui capacidade instalada para o LCM-UFSC decidiu implementar um SGA, emproduzir 60 milhões de pós-larvas (filhotes de conformidade com a ISO 14001. A finalidade dessacamarão) por mês, além de atuar nas áreas de implementação foi a possibilidade de obtençãoensino, pesquisa, planejamento e transferência de de uma certificação ambiental, concedida por umtecnologia, atua no povoamento das fazendas de organismo auditor independente e o mapeamentocultivo de camarão marinho existentes em toda a dos processos.Região Sul do Brasil. Antes do início da implementação do SGA, Em suas primeiras etapas, o cultivo de o LCM não possuía processos documentados.camarões se baseava nos recursos naturais, como, As atividades eram executadas de acordo compor exemplo, a captura de pós-larvas silvestres, os o conhecimento tácito de seus colaboradores.viveiros semi-naturais, os alimentos naturais e o Contudo, para essa finalidade, foi necessário ouso de grandes ecossistemas para recepção dos mapeamento e a documentação dos processosefluentes. Essa grande confiança nos recursos naturais operacionais e gerenciais, a fim de identificá-losconduziu a problemas de impacto ambiental. No e validá-los junto aos colaboradores responsáveis.entanto, à medida que a indústria foi avançando, Após essas etapas, foi possível incluir a esseso uso de recursos naturais foi diminuindo a favor processos os controles ambientais concernentes.de um melhor controle, eficiência e sustentabilidade O LCM recebeu a certificação de seu SGA(CHAMBERLAIN, 2001). em acordo com os requisitos da NBR ISO 14001. O Os aspectos ambientais da carcinicultura são SGA uma vez implantado forneceu os mecanismosrelativamente claros, sendo os impactos negativos gerenciais para que o LCM, além de obter ada indústria extensivamente relatados na literatura conformidade com as normas e leis ambientais,como a destruição de mangues, captura de pós- pudesse proporcionar aos colaboradores uma sérielarvas na natureza, poluição das águas, salinização de vantagens sócio-econômicas.de solos e mananciais de água potável, além dos 4.1. Os resultadosconflitos sociais (GESAMP 1991; MACINTOSH et ,al. 1992; PILLAY, 1992; PHILLIPS, 1993; BARG, Como resultados positivos, segundo Richard1994; FAO/NACA, 1995; PRIMAVERA, 1998; AYPA, (2003), verificou-se que o LCM passou de um processo1999; NURDJANA; 1999; CNA, 1999; RAHMANN, de trabalho informal, anteriormente calcado em1999). conhecimento empírico e sem padronização, para Na maioria dos países importadores de um processo totalmente formal, com procedimentoscamarão, o público está geralmente atento para organizados, padronizados e, também, evoluído.a necessidade de proteger o meio ambiente e os Isso considerando o entendimento de que a ISOrecursos naturais para as futuras gerações. Um 14000 é o que há de mais moderno em termos denúmero crescente de consumidores leva em conta garantia da qualidade ambiental.as consequências ambientais quando compra certos Entre os benefícios proporcionados pelo SGAprodutos, o que vai desde a recusa em adquirir um no LCM, podem ser citados 52
  • 52. • o estabelecimento de uma política ambiental de Produção de Camarões Marinhos rumo para o Laboratório; à padronização de processos e obtenção de • o mapeamento e padronização de todos certificação ISO 14001 não foi o suficiente para os procedimentos operacionais, para garantir a sustentabilidade do sistema por meio da a produção de pós-larvas da espécie garantia de qualidade em todos os subsistemas da Litopenaeus vannamei; cadeia produtiva. Com efeito, após a certificação do LCM • o levantamento e identificação dos aspectos apareceram alguns problemas na manutenção de sua e impactos ambientais reais e potenciais certificação. Esses problemas foram tanto internos das atividades realizadas no Laboratório; quanto externos ao LCM, ou seja, impactando e • o estabelecimento de objetivos e metas sendo impactado por todos os elementos da cadeia ambientais e dos programas de gestão produtiva. ambiental (planos de ação que visam à Sendo o LCM um subsistema do sistema de eliminação ou mitigação dos impactos ou reprodução/larcicultura de pós-larvas de camarão potenciais impactos ambientais significativos marinho, manter a certificação ISO 14001 tanto em identificados); termos de dependência na integração de processos • o atendimento a toda legislação ambiental quanto em termos de sustentação financeira da aplicável ao setor; certificação, a vinculação direta e a vinculação indireta ao restante da cadeia produtiva (figura 1) • a redução no consumo de energia elétrica era uma realidade a ser considerada ao adotar- e água doce; se a estratégia da certificação, de forma que a • a diminuição no uso e/ou a substituição manutenção da certificação tornou-se inviável de produtos químicos por outros menos financeiramente, devido ao problema ocorrido no impactantes; o atendimento às situações de subsistema da cadeia. emergência; A idéia inicial era de aprender com o SGA e • a eliminação do escape de organismos disseminar os conhecimentos para os produtores. exóticos, para o meio ambiente e a Várias atividades para esta disseminação foram ampliação e aprimoramento do sistema desenvolvidas, tais como: palestras, seminários, de tratamento dos efluentes sanitários e apoio técnico e científico para as associações dos do processo produtivo, culminando com o fazendeiros, legalização das áreas de manejo, monitoramento semanal de 12 parâmetros entre outras. Porém, surgiram algumas barreiras físico-químicos da água, coletados em mais ao longo desse processo. Aspectos relacionados de dez pontos diferentes, incluindo a Lagoa à liderança, cultura e estrutura, aqui abordadas, da Conceição. foram muito intensos, dificultando a captura e o Em todas as unidades do Laboratório, as entendimento do aprendizado por boa parte doslâmpadas fluorescentes, baterias e rejeitos químicos fazendeiros.passaram a ter uma destinação adequada e estão Essas barreiras levaram ao que Levinthalsendo enviados para empresas especializadas na e March (1993) apontaram sobre a analogiareciclagem desses materiais. Também foi instituído da cegueira e o compartilhar de percepção. Osum programa de coleta seletiva de lixo, que segrega líderes desse processo de compartilhamento nãomensalmente dezenas de quilos de materiais conseguiram persuadir as lideranças locais pararecicláveis que são doados para empresas de uma mudança cultural sustentável. O aumentoreciclagem. da produção, a preocupação com maiores lucros Como resultado negativo, verificou-se que e a falta de percepção com qualidade ambiental,a evolução de um único subsistema da Cadeia culminou com aparição do vírus da mancha branca, 53
  • 53. gerando grandes perdas econômicas e quebrando resolve imitar, e por fim, os custos com manutençãoboa parte da cadeia produtiva. As 110 fazendas de da certificação, que incluem, principalmente, custosprodução no Estado, 90% delas em Laguna, Sul do com consultorias independentes.Estado, que antes produziam 4,5 mil toneladas do O que se precisa ter em mente é que a evoluçãocrustáceo por ano e que rendiam R$ 40 milhões, hoje de apenas um subsistema de uma organizaçãoestão desativadas ou são utilizadas em atividades causa um desequilíbrio do ponto de vista sistêmico;econômicas alternativas. é evidente que a abordagem por processos que defende a melhoria contínua diz que se deve melhorarConsiderações finais em “processos críticos” ao negócio num primeiro momento, no entanto, num segundo momento, Este artigo discorreu sobre a evolução isso deve ser estendido a toda a organização. Ados sistemas de gestão ambiental, enfocando a certificação da qualidade não pode-se dar apenasnecessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva. no setor produtivo, mas em toda a empresa, e isso é A profissionalização de qualquer visão holística de processo de gestão.empreendimento se dá pela evolução, e essa Os problemas acima são comuns a empresasevolução deve sempre levar em conta seu caráter já constituídas, levando-se a pensar, que, ou sesistêmico, sob pena de haver retrocessos. evolui o sistema empresarial e seus subsistemas Igualmente aos outros sistemas como um todo, ou a sua sustentabilidade, aquiorganizacionais, os sistemas de Gestão Ambiental entendida como perenidade no tempo, estarábuscam atingir a sua evolução junto ao que foi comprometida. Na década de 1980, a solução foichamado aqui de “estado da arte”. O estado da a Reengenharia.arte é entendido nesse contexto, como sendo aquele Conforme foi visto no caso do Laboratóriomais atual da evolução de um determinado sistema, de Camarões Marinhos, o problema já conhecidoe no caso dos SGAs, foi aceito como sendo a pelas empresas aplica-se também a uma cadeiacertificação ISO 14.001. produtiva; a certificação ISO 14001, conseguida a No entanto, o que se observa é que em alguns muito trabalho, mostrou-se insustentável pelo nãocasos, as organizações adotam a certificação da acompanhamento da evolução da cadeia produtiva,qualidade, e num momento seguinte voltam atrás, comprometendo a sustentabilidade na manutençãoabrindo mão da certificação, demonstrando que o da certificação e obrigando o laboratório a abrirseu próprio sistema de gestão estratégica não está mão de uma conquista já consolidada naqueleevoluído. Esse lapso, ou não discernimento dos subsistema da cadeia produtiva.reais motivos que levariam uma empresa a optar Conclui-se que qualquer empresa,pela certificação normalmente passa pelo contexto organização ou cadeia de produção precisa evoluirem que ela está inserida; a exigência do cliente, a de forma integrada e na opção pela certificaçãoadoção da certificação como um modismo, ou seja, ISO 14.001 há que se pensar em certificação daporque a concorrente também fez a empresa também cadeia produtiva como um todo.ReferênciasABNT - NBR ISO 14001 – Sistema de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. 2004.ALMEIDA, F. O bom negócio da sustentabilidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.ALMEIDA, J. R.; MELLO, C.; CAVALCANTI, Y. Gestão ambiental: planejamento, avaliação, implantação,operação e verificação. Rio de Janeiro: Thex, 2000.ANDREATTA, E. R.; BELTRAME, E.; WINCKLER, S. Pacific white shrimp culture in southern Brazil. In.:Global Aquaculture Advocate. v. 5, n. 6, p. 76-77. dez. 2002 54
  • 54. AYPA, S. M. Philippine experience on shrimp culture. FAO Fisheries Report. n. 572 (Suplement) p.87-98.BARG, V.C. Orientaciones para la promoción de la ordenación medioambiental del desarrollo de laacuicultura costera. FAO Documento Técnico de Pesca, Relatório n. 328. 138 p.BERTALANFFY, L.V. Teoria geral dos sistemas. Petrópolis: Vozes, 3. ed., 1977.BOU, J. C.; SEGARRA, M. Strategic knowledge transfer and its implications for competitive advantage:an integrative conceptual framework. Journal of Knowledge Management; v. 10, n. 4, p. 100-112,2006.BOYD, C.E.; HARGREAVES, J.A.; CLAY, J.W. 2001. Codes of Conduct for Marine Shrimp Aquaculture. In:The new Wave Proceedings of the Special Session on Sustainable Shrimp Culture. Aquaculture. 2001.World Aquaculture Society, Baton Rouge, LA. p. 302-321, 2001.CARRION, G. C.; GONZALEZ, J. L. G.; LEAL, A. Identifying key knowledge area in the professionalservices industry: a case study. Journal of Knowledge Management; v. 8, n. 6, p. 131-150, 2004.Disponível em: <http://www.elsevier.com> Acesso em: 08 ago. 2007.CHAMBERLAIN, G. Cultivo sostenible de camarón: mitos y realidades. Infopesca Internacional. n. 13.enero-marzo 2003. p. 31-36, 2001.CMMAD – Comissão Mundial Sobre Ambiente e Desenvolvimento. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro:FGV, 1988.CNA. Caracterización de la atividad camaronera ecuatoriana. FAO Fisheries Report. n. 572 (Suplement)p. 57-76, 1999.DEMARQUE, E. TRIZ: Teoria para a Resolução de Problemas Inventivos aplicada ao Planejamento deProcessos na indústria automotiva. 2005. 160 f. Trabalho de curso (Mestrado Profissionalizante emEngenharia Automotiva) Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.FAO/NACA. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION. Regional study an workshop on theenvironmental assessment and management of aquaculture development. NACA Environmentand Aquaculture Development Series, n. 1. Bangkok, Thailand, 491p, 1995.GESAMP The Joint Group of Experts on the Scientific Aspects of the Marine Environmental Protection. .Reducing environmental impacts of aquaculture. FAO. Rep. Stud. GESAMP n. 47, 35 p, 1991. .GOMES FILHO, A.C.; BARROS, J.A.A.; JAPPUR, R.F.; LERIPIO, A.A.; SELIG, P TBL, Ecoeficiência e TRIZ na .M.sustentabilidade do setor bancário: teste do Método para Concepção de Negócios Sustentáveis MCNS-TRIZ. In: VIII Congresso Brasileiro de Gestão do Conhecimento - KM BRASIL 2009, 2009, Salvador.Anais. São Paulo: Mobdesign, 2009. v. 1. p. 01-15.HAMMER M., CHAMPY, J., Reengineering the corporation. New York: Harper Business, 1993.HARRINGTON, H. Aperfeiçoando processos empresariais. São Paulo: Makron Books, 1993.HARRINGTON, H. J.; KNIGHT, A. A Implementação da ISO 14000: como atualizar o Sistema deGestão Ambiental com eficácia. São Paulo: Atlas, 2001.ISO - INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. The ISO survey ISO 9000 and ISO14001 certificates. Disponível em: http://www.iso.ch> Acesso em: 30 ago.2003.JURAN, J. M. Juran planejando para a Qualidade. São Paulo: Pioneira, 1995.LEIS, H. A modernidade insustentável: as críticas do ambientalismo à sociedade contemporânea.Petrópolis: UFSC, 1999.LEVINTHAL, D. A.; MARCH, J. G. The Myopia of Learning. Strategic Management Journal, 14 (Winterspecial issue): 95-112, 1993. 55
  • 55. MACINTOSH, D. J.; PHILLIPS, M. J. Environmental Issues in Shrimp Farming. IN: Proceedings ofGlobal Conference on the Shrimp Industry. 3 (eds. H. Saram; T. Singh) p. 146-157. Infofish. Hong Kong,1992MONTANA P J.; CHARNOV, B. H. Administração. Trad. De Robert Brian Taylos. São Paulo: Saraiva, .1998.MOREIRA, M. S. Estratégia e implantação do sistema de gestão ambiental: modelo ISO 1400. 3.ed. Nova Lima: INDG Tecnologia e Serviços, 2006.MOURA, L. A. A. Qualidade e gestão ambiental. 5. ed. rev. atual. São Paulo: Juarez de Oliveira,2008.NURDJANA, M. L. 1999. Development of Shrimp Culture in Indonésia. FAO Fisheries Report. n. 572.(Supplement) p. 68-76.PHILLIPS, M.J.; LIN, C.K.; BEVERIDGE, M.C.M. 1993. Shrimp Culture and Environment: Lessons from theWorlds Most Rapidly Warm Water Aquaculture Sector. In: Environment and aquaculture in developingcountries. (Eds. R. S. V. Pullin, H. Rosenthal, J.L. Maclean) p. 171-179. ICLARM, Manila Philippines.PILLAY, T.V.R. 1992. Aquaculture and the Environment. Fish New Books. 187p.PRESTES, J. M.; BULGACOV, S. Sistemas e Processos Organizacionais. In: Manual de Gestão Empresarial,BULGACOV, S. (ORG.). São Paulo: Atlas, 1999. p. 18-46.PRIMAVERA, J. H. Tropical Shrimp Farming and its Sustainability. In: Tropical Mariculture (S.S. deSilva ed.). p. 257-289. Academic Press, 1998.RAHMAN, M. Policies for Sustainable Shrimp Culture in Bangladesh. FAO Fisheries Report. n. 572,Supplement. p. 41-50, 1999.RICHARD, L. et al. The Implementation of an Environment Management System (EMS) NBR ISO 14001at Marine Shrimp Laboratory – LCM/UFSC. World Aquaculture 2003 – Congresso Internacional deAqüicultura. Salvador, Brasil, 2003.SACHS, I. Estratégias de transição para o século XXI. São Paulo: Nobel, 1993.VITERBO JUNIOR, E. Sistema Integrado de Gestão Ambiental: como implementar um Sistema deGestão que Atenda à Norma ISO 14001, a partir de um sistema baseado na Norma ISO 9000. SãoPaulo: Aquariana, 1998.WFMC. Workflow Management Coalition, Interface 1: Process Definition Interchange Process Model,Version 1.1, 1999. 56
  • 56. Projetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade Brazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzing the indicators of sustainabilityMiriam Tiemi Oliveira Takimura1Valdir Machado Valadão Júnior2ResumoDiscussões relacionadas ao aquecimento global desencadearam, entre outras iniciativas, o Protocolo de Quioto,cuja participação brasileira se dá por meio dos projetos MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O objetivodeste estudo foi verificar se os projetos brasileiros de aterro sanitário, poderiam ser caracterizados como sustentáveisna divulgação de seus dados, analisando os indicadores ambientais, sociais e econômicos neles previstos. Oestudo é dito descritivo qualitativo sendo o método de procedimento a análise de conteúdo clássica. Partiu-se pelolevantamento de indicadores nacionais e internacionais que atendiam ao tripé de sustentabilidade proposto porElkington (1997), obtendo-se a combinação entre Dashboard of Sustainability e Indicadores de Sustentabilidadedo IBGE. Ao confrontarem-se os dados dos projetos com as categorias selecionadas, não foi possivel comprovara sustentabilidade. Uma segunda apreciação ponderou os critérios descritos na Resolução n.1, de 11 set.2003, da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, quanto à contribuição dos projetos para odesenvolvimento sustentável. Mesmo com a crítica adicional não se consegue comprovar a sustentabilidade.Chega-se à consideração de que a abordagem econômica prevalece em detrimento das abordagens ambientale social, ficando claro que os projetos só existem por causa de suas respectivas viabilidades econômicas.Palavras-chave: Sustentabilidade; Protocolo de Quioto; Aterro Sanitário.AbstractDiscussions about global warming led, among others initiatives, to Kyoto Protocol where Brazilian participation isrepresented by CDM’s projects (Clean Development Mechanism). The general objective of this paper was to verifyif Brazilian landfill site could be defined as sustainable according to their data, analyzing the environmental, socialand economic indicators forecasted. The study is defined as qualitative descriptive and the method of procedure isthe analysis of classical content. It started from the national and international searching indicators, that agrees withthe tripod of sustainability proposed by Elkington (1997), getting the combination of Dashboard of Sustainabilityand IBGE (Brazilian Institute for Geography and Statistics) Indicators of Sustainability. Comparing projects data withcategories selected, it was not possible to prove the sustainability. One second assessment was done consideringthe criteria from Resolution nr.1 dated September 11, 2003 of Climate Global Changing Committee, in order to1 Professora da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil.Possui Mestrado em Administração pela Programa de Pós-Graduação emAdministração da Universidade Federal de Uberlândia - FAGEN/UFU, Brasil. Graduada em Administração e Engenharia Civil pela UniversidadeFederal de Uberlândia - UFU, Brasil. Contato: mtakimura@terra.com.br2 Professor Adjunto da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil. Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração daUniversidade Federal de Uberlandia - FAGEN/UFU, Brasil.Possui doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de SantaCatarina - UFSC, Brasil, e Mestrado em Administração pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: valdirjr@ufu.berRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 22/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  • 57. verify the contribution of projects for sustainable development. Even with additional criticism it cannot prove thesustainability. It was concluded that economic approach prevails on environmental and social approach, beingclear that projects only exist because of economic viability.Key words: Sustainability; Kyoto Protocol; Landfill site.Introdução que o aumento da poluição decorrente da emissão de CO2 possa gerar no efeito estufa. Não é possível Aquecimento global significa o aumento, esperar por séculos para confirmar se a degradaçãoalém do normal, da capacidade de a atmosfera do meio ambiente, juntamente com o aumentoreter calor. Não se sabe ao certo as consequências populacional, vai dispor para as gerações futurasdecorrentes do aquecimento da Terra. Sabe-se os mesmo recursos atuais.que certos lugares ficam mais quentes, outros mais Neste cenário, a ONU (Organizaçãofrios, assim como ocorrem alterações de umidade das Nações Unidas) teve a iniciativa de reunir,tornando certos lugares mais secos, outros mais os países para debater o tema, chegando aoúmidos (HAWKEN et al, 1999). chamado Protocolo de Quioto, no qual as nações Do mesmo modo que existem cientistas industrializadas que aderiram à convençãoempenhados em provar a interferência antropogênica se obrigaram a reduzir emissões. Isso se fazdo aquecimento global, existem aqueles que não modernizando fábricas, exigindo maior controle naconcordam com os estudos realizados. A grande emissão de CO2, e, com muita informação paracrítica se dá ao analisar as variações naturais toda a sociedade. Um dos elementos discutidosde temperatura. Através de estudos geológicos nos projetos voltados ao Protocolo de Quioto é aprovou-se que as variações sempre ocorreram, sustentabilidade. Para ser sustentável, cada projetofazendo parte da história e da evolução das deve conter, em si, indicadores que o apontemespécies (EEROLA, 2003). Os dados de medições como viável, não apenas economicamente, masmeteorológicas de temperatura são recentes, datam também social e ambientalmente, noutras palavras,de aproximadamente 100 anos. Porém, cem anos é a ideia do triple-botton-line proposto por Elkingtonum período de significado desprezível do ponto de deve estar presente (ELKINGTON, 2001). Além dovista geológico, por isso as críticas. fato de melhorar a qualidade do ar atmosférico, o O IPCC (Painel Intergovernamental sobre MDL (Mecanismo de Desenvolivimento Limpo) e osMudanças Climáticas) utiliza essas medições recentes certificados de redução de carbono, são vistos comopara provar o aquecimento, mas não deixa claro que um mercado de grandes perspectivas para o Brasil.no, período entre 1925 a 1946, o planeta Terra se Na primeira etapa do acordo, de 2008 a 2012,aqueceu mais rapidamente quando a quantidade de o país não tem cotas a cumprir e pode participarCO2 lançada na atmosfera era inferior a 10% da atual. apresentando projetos de redução ou captura deE que, entre 1947 e 1976, ocorreu um resfriamento, carbono. Os projetos movimentam grandes valoresmesmo quando os países passavam por um grande monetários e a mídia oferece destaque. Os créditosprocesso de desenvolvimento econômico decorrente de carbono gerados pelos projetos podem serdo fim da Segunda Guerra (MOLION, 2008). Outro negociados diretamente entre a empresa responsávelponto levantado pelo autor é que a atividade solar pelo desenvolvimento e acompanhamento doainda pouco conhecida também é variável ao longo projeto e a empresa compradora, ou em Bolsas dedo tempo e influencia diretamente o clima da Terra. Valores. A BM&F (Bolsa de Mercadorias de Futuros) Mesmo que não se possa culpar o homem e realizou seu primeiro leilão global pela internet paraseu processo de desenvolvimento pelas mudanças venda de créditos gerados em fevereiro de 2008.climáticas, muitos estudiosos concordam que é Foram negociados aproximadamente R$33 milhõesnecessário se posicionar frente às consequencias através do projeto Bandeirantes de Gás e Geração 58
  • 58. de Energia da Prefeitura de São Paulo (ACIONISTA, sólido gerado tem aumentado significativamente2008). (IBAM, 2007), preocupação que contribuiu para Porém, além da questão econômica, o a seleção. Não se pode generalizar, entretanto, étermo sustentabilidade vem acompanhando essa natural imaginar que demais projetos que partemênfase. Saber o que significa sustentabilidade e da iniciativa privada busquem o retorno financeirosua abrangência torna-se imprescindível, já que com a negociação de créditos de carbono,o termo é amplamente utilizado. O problema de redução na emissão de poluentes e exploraçãopesquisa levou à busca de referencial sobre o da imagem decorrente da participação em açõesassunto. Essa investigação revelou que o conceito ambientais e sociais.de sustentabilidade é amplo, geral e relativamentenovo, pois as primeiras referências surgem a partir 2.Revisão bibliográficada década de 1970. É preciso conhecer melhorsuas características e limitações, para tornar mais A questão socioambiental tem origem emsignificativo o emprego do termo para a sociedade duas frentes distintas, a gestão social e a gestãoem geral. Para que seja possível tornar aplicáveis ambiental. A questão da atuação dos órgãos públicosos conceitos, é necessário conhecer e utilizar na resolução de problemas sociais é discutidaferramentas que permitam uma mensuração conjuntamente com a atuação e responsabilidadee para tal utilizam-se indicadores e índices de das empresas privadas em geração de bens esustentabilidade. riqueza e benefício da sociedade. Schroeder e Schroeder (2004), em seu artigo, discutem o poder1. Problema de pesquisa e objetivo das organizações ao assumirem as causas sociais e questionam até onde essa atuação é benéfica sem Partindo-se do pressuposto de que um gerar dependência. Quando as empresas assumemprojeto aprovado é sustentável, esta pesquisa a responsabilidade social, podem desenvolveré fundamentada no seguinte problema: quais “programas de relação com empregados, serviçoindicadores de sustentabilidade em nível ambiental, público e à comunidade, assistência médica esocial e econômico, conforme indicadores educacional, desenvolvimento e renovação urbana,previamente selecionados e critérios presentes na cultural, arte ou recreação”, ou seja, “a empresaResolução n.1 de 11/set/2003 estão presentes além de prover a sociedade de bens e serviços,nos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento terá sob seus domínios o bem-estar do cidadão”Limpo, inseridos no Protocolo de Quioto, para (SCHROEDER; SCHROEDER, 2004, p.5-6).aterros sanitários no Brasil? O objetivo é verificar Já Schommer e Rocha (2007, p.14) debatemse os projetos brasileiros de aterro sanitário no a questão, enfatizando que “pelo poder que elasMDL podem ser caracterizados como sustentáveis concentram, empresas não podem estar de forana divulgação de seus dados, analisando os do debate público e da renegociação do pactoindicadores ambientais, sociais e econômicos. social”, a elas não cabe a neutralidade, perante os Quando delimitada a pesquisa, fez-se a desafios sociais e ambientais, visando somente àeleição pela análise dos projetos de aterro sanitário lucratividade. Muito há de ser estudado e realizadopor ser um ramo de negócio voltado à gestão para se chegar ao ponto de equilíbrio na busca dopública, por isso, em tese, comprometida com o desenvolvimento sustentável, tanto em nível públicobem comum. Normalmente, a gestão pública tem quanto privado.participação associada à gestão privada, seja na Já a questão ambiental antes era vista comoexecução de parte do processo de descarte do uma bandeira levantada por ambientalistas extremoslixo ou na fiscalização do serviço executado. O e organizações não governamentais que traçavamesforço despendido para melhor disposição do panoramas pessimistas quanto à continuidade delixo urbano é grande e a quantidade de resíduo vida no planeta Terra. Esses grupos não aceitavam a 59
  • 59. sociedade de consumo e seus hábitos e realizavam outros em desenvolvimento, projetos que reduzammanifestações e piquetes nas empresas e indústrias as emissões de poluentes atmosféricos e descontarque ofereciam produtos considerados não-corretos. de sua cota o que tiver sido reduzido pelos paísesAs organizações empresariais, com seu poderio por eles financiados. Cada tonelada de carbono,de fabricação e distribuição de produtos, eram que deixa de ser emitida pela adoção de novasconsideradas as vilãs, pois elas poderiam ser a tecnologias, poderá ser negociada com outrosferramenta de mudança para a melhoria social e países e usada como uma maneira de cumpriremambiental do planeta (SOUZA, 2005). suas metas de redução de emissões. Assim, o A partir de 1968, quando foi fundado Brasil pode alterar e aperfeiçoar a tecnologiao Clube de Roma, tornou-se evidente que a empregada visando à redução de emissão de CO2preocupação com o meio ambiente era mundial. em seu processo produtivo e ainda gerar créditosO grupo composto por especialistas de várias áreas de carbono que serão vendidos no exterior, isto éde conhecimento e de vários países, reuniram-se como obter patrocínio pela boa performance.com o objetivo de analisar as questões ambientais Esse mecanismo estabelece que cada governoe sociais da época e as suas consequências futuras. é responsável pelo critério de desenvolvimentoEm 1972, publicou-se o Relatório de Limites do sustentável em seu país e, portanto, os projetosCrescimento, que condenava a busca incessante devem passar pela aprovação dos governosdo crescimento da economia sem considerar as nacionais segundo suas necessidades e prioridades.implicações decorrentes (HOFF; PRETTO, 2008). A A AND (Autoridade Nacional Designada), comissãogrande contribuição do relatório foi mostrar que os brasileira destacada para análise das conformidades,recursos naturais eram extinguíveis. E que, em nossa visa atender os requisitos de desenvolvimentocivilização, não se cria valor econômico sem haver, sustentável, delineada na “Resolução n. 1”, decomo contrapartida, degradação do ambiente. 11 de setembro de 2003, segundo cinco critérios Novos grupos surgiram baseados na básicos: “distribuição de renda, sustentabilidadecooperação de todos os países na busca de soluções ambiental local, desenvolvimento das condiçõesa respeito das relações humanas e meio ambiente. de trabalho e geração líquida de emprego,O Protocolo de Quioto foi firmado em dezembro de capacitação e desenvolvimento tecnológico, e1997, durante a COP 3 (Conferência das Partes), integração regional e articulação com outrosem Quioto, Japão. É um tratado internacional com setores” (MCT, 2008, p.2).o compromisso de redução de gases responsáveis O termo desenvolvimento sustentável epelo efeito estufa que gera o aquecimento global. sustentabilidade auxiliou na difusão da gestãoO acordo foi firmado por 175 países sendo que 36 socioambiental. Em concordância com Almeidapaíses desenvolvidos se comprometeram a reduzir (2000) e Van Bellen (2002), ao procurar esuas emissões de GEE no período de 2008 a 2012 estudar os termos desenvolvimento sustentável e(MCT, 2007). sustentabilidade, encontrou-se uma profusão de O Brasil também é um emissor de conceitos e definições que se confundem com asGEE, principalmente pelas elevadas taxas de diversas abordagens dadas ao tema, dos diversosdesmatamento e queimadas, especialmente na campos de estudo e das ideologias e dimensõesregião amazônica, porém não possui cotas de que cada organização adota. Foi utilizado o termoredução neste primeiro período. O país, juntamente desenvolvimento sustentável como aquele que secom outras nações em desenvolvimento, não preocupa em atender às necessidades da geraçãolistadas no Anexo I, podem contribuir com a atual, sem esquecer as gerações futuras. Esse conceitoredução das emissões por meio de projetos do foi definido pela Comissão Brundtland em 1987 eMDL. Este, descrito no artigo 12 (MCT, 2007), é o mais conhecido e difundido mundialmente, depermite a um país industrializado financiar, em acordo com Elkington (2001). 60
  • 60. Elkington, em 1997, dividiu o termo nem sempre o é, depende da metodologia utilizadasustentabilidade em três dimensões, isto é, para e o critério de análise realizado.que a busca pela sustentabilidade seja possível énecessário atender à prosperidade econômica, 3.Metodologiaà qualidade ambiental e à igualdade social, ochamado triple-bottom-line. Essa decomposição A base de pesquisa se dá nos textos dospermite a mensuração e tomada de decisão em projetos de MDL já aprovados, até 05/junho/2008,diferentes frentes que ao final irão compor a gestão disponíveis na página eletrônica do Ministério dasocioambiental. Ciência e Tecnologia. Cabe aos aterros sanitários Ainda assim, é dificil medir a sustentabilidade 27 projetos em atividade, sendo 26 aprovados.de uma nação, localidade, negócio ou empresa. Nesta análise, a totalidade da amostra foi analisada,Quando se faz referência a ferramentas de medição, conforme Quadro 1.precisa-se utilizar indicadores para tal. Na busca Quanto aos objetivos, neste estudo empor indicadores de sustentabilidade em vigência, particular, a pesquisa é classificada como descritiva,encontrou-se em abundância várias metodologias, pois os fatos serão observados, registrados,utilizadas nacionalmente ou internacionalmente. analisados, classificados e interpretados, sem queO levantamento trouxe autores que buscaram o pesquisador interfira sobre eles. Quanto aosconhecer os indicadores da sustentabilidade como procedimentos, isto é, a maneira pela qual seVan Bellen (2002), Coral, Strobel e Selig (2004), obtem os dados necessários para a elaboraçãoGamboa, Mattos e Silva (2005), Benetti (2006), da pesquisa, é categorizada como análise deSoares, Strauch e Ajara (2006), Bufoni, Ferreira e documentos (ANDRADE, 2004).Legey (2007), Barddal e Alberton (2008), dentre Fez-se então a escolha pela análise deoutros. A quantidade de abordagens, metodologias conteúdo clássica - abordagem qualitativa -e critérios adotados são decorrentes da finalidade em que trechos dos documentos são utilizadosda mensuração da sustentabilidade, do campo de para comprovação da sustentabilidade ou nãoestudo e da organização ou instituição ligada. Cada dos projetos aprovados. De acordo com Bauerqual utiliza a mais conveniente ou faz adaptação (2002), um texto pode apresentar uma riquezade alguma existente para os moldes necessários de informações pois “do mesmo modo que asà situação. Acredita-se que o problema dessa falas, referem-se aos pensamentos, sentimentos,miscelânea seja em decorrência do conceito de memórias, planos e discussões das pessoas, esustentabilidade não ser único e ter abordagens algumas vezes nos dizem mais do que seus autoresdiversas. Então o que é informado como sustentável, imaginam” (BAUER, 2002, p.189). Seguindo oQuadro 1 - Relação de projetos MDL de aterros sanitários Projeto Título Local 0001/2004 Projeto NovaGerar - Projeto de Energia a partir de Gases de Aterro Sanitário Nova Iguaçu - RJ P1 0002/2004 Projeto Vega Bahia - Projeto de Gás de Aterro de Salvador da Bahia Salvador - BA P2 0004/2004 Projeto de Energia de Gases de Aterro Sanitário da Empresa MARCA Cariacica - ES P3 0005/2005 Projeto de Conversão de Gás de Aterro em Energia no Aterro Lara – Mauá – Brasil Mauá - SP P4 0006/2005 Projeto ONYX de Recuperação de Gás de Aterro Tremembé - Brasil Tremembé - SP P5 0010/2005 Projeto de Recuperação de Gás de Aterro ESTRE - Paulínia (PROGAE) Paulínia - SP P6 0011/2005 Projeto de Redução de Emissões de Biogás, Caieiras - Brasil Caieiras - SP P7 0013/2005 Projeto Bandeirantes de Gás de Aterro e Geração de Energia em São Paulo, Brasil São Paulo-SP P8 0016/2005 Projeto de Gás do Aterro Sanitário Anaconda Santa Isabel - SP P9 0021/2005 Projeto São João de Gás de Aterro e Geração de Energia no Brasil São Paulo-SP P10 0076/2006 Projeto de Gás de Aterro Sanitário Canabrava - Salvador-BA, Brasil Salvador - BA P11 (continua) 61
  • 61. (continuação) Projeto Título Local 0089/2006 Projeto de Gás do Aterro de Bragança - EMBRALIXO/ARAÚNA Bragança - SP P13 0093/2006 Projeto de Gás de Aterro SIL (PROGAS) Minas do Leão - RS P14 0105/2006 Projeto de Gás de Aterro Sanitário de Manaus Manaus - AM P15 0109/2006 Projeto de captura de gás de aterro sanitário Alto-Tietê Itaquaquecetuba - SP P16 0114/2006 Projeto de Gás de Aterro Terrestre Ambiental (PROGATA) Santos SP P17 0115/2006 Projeto de Gás de Aterro ESTRE Itapevi - (PROGAEI) Itapevi - SP P18 0116/2006 Projeto de Gás de Aterro Quitaúna (PROGAQ) Guarulhos - SP P19 0138/2006 Projeto de Gás de Aterro CDR Pedreira (PROGAEP) Tremembé - SP P20 0158/2007 Atividade de projeto de redução de emissão de gás de aterro no Aterro Sanitário SANTECH Resíduos Içara - SC P21 0162/2007 Probiogas – JP João Pessoa - PB P22 Tijuquinhas, Biguaçu - 0180/2007 Projeto de Captura e Queima de Gás de Aterro Sanitário de Tijuquinhas da Proactiva P23 SC 0182/2007 URBAM/ARAUNA – Projeto de Gás de Aterro Sanitário (UAPGAS) São José Campos - SP P24 0198/2007 Projeto de redução de emissão do aterro CTRVV Vila Velha - ES P25 0202/2007 Projeto de gás de aterro sanitário de Feira de Santana Feira de Santana - BA P26Fonte: baseado em MCT, 2008raciocínio do autor “a validade da AC (análise institucional, referente às ações públicas em prol dode conteúdo) deve ser julgada, não contra uma desenvolvimento sustentável. Essa vertente não foi‘leitura verdadeira’ do texto, mas em termos de levada em consideração na apreciação proposta,sua fundamentação nos materiais pesquisados e uma vez que o presente estudo tem a análise focadasua congruência com a teoria do pesquisador, e em projetos brasileiros de aterros sanitários queà luz de seu objetivo de pesquisa” (BAUER, 2002, partem da iniciativa privada, operados por terceiros,p.191). e não se leva em conta a localidade, a região de Na busca por indicadores, Van Bellen implementação ou a orientação política.(2002) apontou 18 diferentes métodos utilizados A partir das duas metodologias, houve ainternacionalmente para medição de sustentabilidade seleção de critérios de análise pertinentes a aterroe, destes, o autor considera três ferramentas como sanitário, descritos no Quadro 2.mais relevantes: Ecological Footprint, Barometer ofSustainability e o Dashboard of Sustainability. No Quadro 2 - Indicadores unificados para análiseâmbito nacional, oito foram os modelos tomados Dimensão Indicadorescomo referência, baseados em estudos realizados Emissão de gases estufa; Concentração de poluentes atmosféricos;por Coral, Strobel e Selig (2004), Gamboa, Mattos Porcentagem de área protegida. Dimensão Ambientale Silva (2005), Soares, Strauch e Ajara (2006), Acesso a serviço de coleta de lixo doméstico; Destinação final do lixo;Bufoni, Ferreira e Legey (2007) e Barddal e Alberton Tratamento adequado de esgoto;(2008), para citar alguns. Dimensão Social Doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado Foram selecionados o Dashboard of Investimento;Sustainability e o critério do IBGE, por se Consumo comercial de energia; Fontes renováveis de energia;enquadrarem dentro das perspectivas de análise Dimensão Disposição adequada de resíduos sólidos; Econômicaambiental, social e econômica, segundo o tripé da Coleta seletiva de lixo Reciclagem;sustentabilidade proposto por Elkington (1997) e Geração de resíduos perigosos;o artigo 3 parágrafo 14 do Protocolo de Quioto, Fonte: elaborado pela autora a partir de Dashboard of Sustainability e IBGE (2004).que menciona a necessidade de implementaçãode medidas que minimizem os efeitos sociais, Após esta análise, foi realizada uma segundaambientais e econômicos. Ambos possuem a vertente apreciação. No caso do Brasil, os projetos são 62
  • 62. analisados pelos integrantes da AND, que avaliam o critério de análise em relação aos parâmetrosrelatório de validação e a contribuição da atividade definidos pela AND, comissão nacional que julga sedo projeto para o desenvolvimento sustentável do um projeto irá beneficiar o país.país, atendendo à Resolução n. 1, de 11 de setembrode 2003. Os projetos serão ponderados segundo 4.1. Análise da abordagem ambientalcinco critérios: distribuição de renda, sustentabilidade Nos documentos se privilegiam as informaçõesambiental local, desenvolvimento das condições de referentes a aspectos ambientais, como o cálculotrabalho e geração líquida de emprego, capacitação da metodologia da linha de base e descrição doe desenvolvimento tecnológico, integração regional monitoramento, chegando a um valor de reduçãoe articulação com outros setores. Como se tratam de emissão de gases do efeito estufa, além dade pontos adicionais ao levantado pelos métodos duração do projeto e a descrição dos impactosde indicadores selecionados, são considerados ambientais. Portanto, grande parte do documentocomo adicionais na análise dos dados. analisado refere-se à abordagem ambiental, sendo possível levantar seis indicadores: emissão de gases4.Análise dos resultados estufa; concentração de poluentes atmosféricos; porcentagem de área protegida; acesso a serviço O primeiro passo para a realização deste de coleta de lixo doméstico; destinação final do lixotrabalho foi conhecer detalhadamente os projetos e tratamento adequado de esgoto.do MDL do Protocolo de Quioto, relativos ao setorde resíduos, mais especificamente aos aterros 4.1.1. Quanto à emissão de gases de estufasanitários. Estes correspondem a somente 9%do volume total dos projetos brasileiros, porém Foi feito um levantamento baseado narepresentam 24% de reduções anuais propostas. ocorrência de termos similares e que remetem aoAssim, apesar da pequena participação, trata-se mesmo fim (levantado pelo referencial teórico),de um setor de grande relevância, sendo que cada como efeito estufa, gás de aterro, biogás e metano,projeto individualmente é responsável pela redução sendo verificadas as palavras que fazem limite e ode grande volume de emissão de GEE (MCT, 2008). conteúdo específico do texto. As maiores ocorrências Ao estudar os dados, foi percebida a se deram destacando a descrição do objetivo e asemelhança existente entre a maioria dos discursos. razão de ser do projeto, e, em outros momentos,Esta similaridade não se dá somente em decorrência referem-se principalmente a aspectos técnicos dade utilização de formulário padrão (Documento descrição de metodologia de cálculo utilizada, fatode Concepção do Projeto) ou orientações sobre o não considerado neste estudo.preenchimento dos documentos que levam em conta Grande parte dos projetos (73%) preveema utilização de metodologia de cálculo já aprovadas somente a queima dos gases gerados, o chamadoanteriormente. O que pode explicar esse fato é a biogás. Somente sete (27%) utilizam o biogás paradivulgação pública desses projetos, o que facilita a geração de energia. A utilização secundária doconsulta e cópia, além da presença de empresas biogás é possível devido ao seu alto poder caloríficode consultoria como autores. Essas semelhanças (BANCOR, 2003), mas se torna viável somenteem projetos podem gerar a ideia de um modelo quando o volume de metano gerado é significativoque garanta a aprovação, sem a preocupação de e quando existe um usuário ou comprador potencialapresentar propostas de melhoria, com o intuito de dessa energia. Seja a destinação do biogás qualtorná-los mais sustentáveis. for, queima ou aproveitamento, já representa uma A seguir, parte-se para a análise individualizada melhoria na qualidade do meio ambiente.quanto às abordagens ambiental, social e Foi citado que os gases gerados peloeconômica, acompanhado pelo desdobramento aterro são prejudiciais e podem ocasionarem indicadores específicos. Seguido pelo segundo poluição, doenças e até acidentes como 63
  • 63. explosões. Em decorrência da própria natureza do 4.1.3. Quanto à porcentagem de área protegidaempreendimento ter como matéria prima o lixo, a A legislação relativa ao funcionamento delegislação brasileira (NBR 8419/1984) já prevê a aterros sanitários, NBR 8419/1984, exige que estejamdiminuição de riscos, como impermeabilização do localizados em áreas geologicamente apropriadassolo, tratamento dos líquidos residuais mas não e que não corram o risco de contaminar o lençolimpõe a queima do metano gerado, somente a freático, não sendo determinada a necessidadeimplantação de dutos coletores visando dispersão de reserva de área para preservação ambiental.dos gases. Os aterros se localizam em áreascontroladas e poucos são os casos de desastres Somente quatro projetos fazem referência a áreasrelativos a explosões que tenham ocorrido nesses de proteção, os demais não se caracterizam nestalocais. Trata-se então de um exagero por parte categoria de análise. O projeto P1 faz referênciados autores dos projetos, a inserção de vários à área que tem a obrigação de recuperar, por sepontos negativos. Ponderando o empreendimento tratar de um lixão a céu aberto, a fim de minimizarcomercial, não seria viável correr o risco de os danos gerados. Destacam-se os projetos P6, P7desastres e explosões que colocariam em risco e P20, por apresentarem cuidados ambientais alémfuncionários, equipamentos e a longevidade da dos decretados por lei, ainda que não se possainiciativa privada. afirmar que tal referência seja cláusula do contrato da O P25 indica que “a legislação brasileira não empresa prestadora de serviço. Entretanto, a citaçãoexige que o gás de aterro seja queimado, a única de trechos em P1, P6, P7 e P20 que fazem mençãoexigência é a ventilação dos aterros para fins de à preocupação ambiental, foi levado em contasegurança, isto é para evitar incêndios e explosões” como atendimento ao critério de sustentabilidade(CTRVV, 2007, p.14). Para complementar e justificar analisado.o pedido de aprovação do projeto cita-se que “é 4.1.4. Quanto ao acesso a serviços de coleta debastante improvável que esta situação mude durante lixo domésticoo curso do período de obtenção de créditos, umavez que nenhum regulamento exigindo a queima ou Nada foi citado explicitamente noso uso do gás de aterro está em desenvolvimento” documentos quanto ao serviço de coleta de lixo(CTRVV, 2007, p.14). Fica claro que não haverá doméstico, porém tratando-se de projetos de aterrorevisão de regulamentação, mesmo sabendo que é sanitário, deduz-se que haja serviço de recolhimentouma atividade que gera gases prejudiciais, enfim, de resíduos urbanos, principalmente por se trataruma brecha da legislação brasileira proporciona a de áreas metropolitanas e densamente povoadas.inserção de projetos de MDL. Normalmente, a concessão de atividade de lixo urbano prevê a prestação desse serviço. Portanto os4.1.2. Quanto à concentração de poluentes projetos preveem a melhoria ambiental e qualidadeatmsféricos de vida da população. Não é objeto deste trabalho Nesta categoria de análise, a totalidade dos a verificação do percentual de coleta de lixo dasprojetos podem ser classificadas como sustentáveis, cidades ou busca de informações secundárias, bastapois apresentam os valores resultantes dos cálculos analisar a sustentabilidade do projeto.realizados da transformação dos gases de aterro 4.1.5. Quanto à destinação final do lixocoletados em gás carbônico equivalente (CO2e),isto é, o quanto se deixou de emitir em termos de Foi observado através da pesquisa do IBAMconcentração de poluentes atmosféricos. Não (2008) que poucas cidades brasileiras fazem uso denos interessa a metodologia de cálculo utilizada, aterros sanitários controlados, somente os grandespois esta é legitimada pelas comissões de análise municípios e as regiões metropolitanas. Levando-see verificadas pelas empresas responsáveis pela em conta que o lixo coletado atual seja direcionadovalidação. ao aterro e que esse resíduo é a matéria prima de 64
  • 64. fornecimento dos gases, razão do projeto de MDL, Projetos como P1, P5, P11, P12, P15 e P16parece natural que haja interesse em manter e citam a minimização da contaminação da águaampliar esse serviço, pode-se considerar então que como fator relevante de redução de doenças. Pelaatendem ao critério de análise. NBR 8419/1984, há obrigatoriedade de disposição de resíduos em locais distantes de cursos d’água e5.1.6. Quanto ao tratamento adequado deesgoto de preparo do solo para impermeabilização, com posterior drenagem para tratamento do líquido Considera-se como esgoto o resíduo líquido decorrente da decomposição, o que dificulta adenominado chorume que a disposição do lixo contaminação da água. Incêndios e explosõesgera, sendo a toxidade variável, de acordo com os são citados em P1, P5, P11 e P15. Elas ocorremmateriais em decomposição. Ele deve ser recolhido quando a concentração de metano não é drenada ee sofrer tratamento neutralizador, pois corre-se o liberada na atmosfera, porém a legislação obriga arisco de contaminação das águas subterrâneas presença de dutos, que pode inclusive ser integradoe rios próximos quando existe infiltração, seja ao sistema de drenagem de líquidos. Desse modo,pela impermeabilização inadequada, seja por os principais aspectos levantados pelos projetosvazamentos existentes (BRAGA et al, 2005; MILLER, como benefício à população já são atendidos no2007). Esse tratamento é obrigatório por força cotidiano e no funcionamento regular da atividade.da lei de normalização das atividades de aterro e Alguns projetos citam o retorno do dinheironormas ambientais locais. Deduz-se, então, que para obras sociais, educacionais, não relacionadastodos os empreendimentos já atendam a essa a tratamento de doenças. Já o P12 prevê organizar osdisposição, portanto, atendendo ao indicador de catadores em uma cooperativa formal, o que poderásustentabilidade analisado. contribuir de maneira significativa para a vida das pessoas que necessitam do lixo para sobrevivência,4.2. Análise da abordagem social diminuindo o aparecimento de doenças relativas à Os projetos não oferecem muitas informações baixa qualidade de vida.quanto à abordagem social. Os objetivos sociais de Portanto nos projetos não se constata amelhora da qualidade do ar, diminuição do risco contribuição para a sustentabilidade, no que sede explosões, criação de empregos e capacitação refere à abordagem social e a presença de indicadorda mão-de-obra são válidos, porém pelo critério relativo a doenças relacionadas ao saneamentoescolhido não são levados em consideração. Portanto ambiental inadequado.quanto aos indicadores selecionados pelo método, 4.3. Análise da abordagem econômicafoi possível somente a apreciação das doençasrelacionadas. Para tal, fez-se levantamento através Quanto à abordagem econômica, foi possívelda presença de palavras como doença(s), saúde, selecionar sete indicadores: investimento, consumopopulação e comunidade, buscando ocorrências comercial de energia, fontes renováveis de energia,que pudessem ser relacionadas com a preocupação disposição adequada do lixo, coleta seletiva,social. reciclagem e geração de resíduos perigosos. A Não foi associada nenhuma doença análise do descarte de resíduos influi na abordagemdecorrente das atividades de aterro sanitário, econômica quanto aos padrões de produção e deapenas foram citadas as possibilidades de odores consumo e se referem à preocupação com o temadesagradáveis, asfixia, contaminação da água e aos valores monetários destinados a este fim. Dee incêndios. Odores e asfixia decorrentes da acordo com IBAM (2008), sabe-se que a quantidadeproximidade do empreendimento não causam de lixo gerada tem proporção direta com o númerograves problemas de saúde à população, somente de habitantes da localidade, porém a apreciaçãogeram desconforto. realizada neste trabalho não busca essa relação. 65
  • 65. Optou-se então, por verificar referências às palavras essa informação mostra a preocupação em relaçãoescolhidas dentro de cada indicador e sua possível a sustentabilidade.relação com o conceito de sustentabilidade, portanto 4.3.3.Quanto às fontes renováveis de energiasem ligação direta com padrão de consumo. Somente 27% dos projetos preveem a4.3.1. Quanto ao investimento utilização do gás resultante da decomposição Buscou-se informações relativas ao do material depositado para geração de energiainvestimento necessário para adequação do adicional. A maioria (73%) propõe somente aempreendimento. O que se obteve foram poucas queima de gases. Segundo BANCOR (2003),referências, destacadas em P1, P2, P4 e P5, sendo o poder calorífico do biogás só é menor que oque reforçam a ideia de que a legislação atual fornecido pelos combustíveis fósseis, sendo práticanão impõe a queima dos gases e deixam claro comum a sua utilização em muitos aterros sanitáriosque, caso o projeto não venha a ser aprovado, do mundo. No Brasil a quantidade de materialnão se fará nenhum aporte adicional em busca da orgânico depositado facilita a decomposiçãosustentabilidade, já que em termos financeiros a e formação do metano (EPA, 1996), porém asatividade não gera recursos para retorno esperado. empresas responsáveis pelos aterros não fazem uso. Existem três possíveis explicações para isto: a4.3.2.Quanto ao consumo comercial de energia implementação requer investimentos financeiros, A adequação do empreendimento requer a tecnologia ainda não está disponível no país e,a instalação de equipamentos e maquinários que como citado anteriormente, as leis brasileiras nãoutilizam energia elétrica para funcionamento, sofrerão alterações que imponha a obrigatoriedadeportanto buscou-se referências quanto a esse de queima eficiente ou utilização para geração deemprego de energia. Nessa categoria de análise os energia.projetos P7, P9 e P13 são considerados sustentáveis. Nos projetos que partem para a utilização do Os projetos P9 e P13 apresentam calculos de biogás nota-se um esforço adicional, logicamentegastos decorrentes da utilização de energia elétrica baseado em cálculo de retorno de investimento, jáda rede pública no emprego de equipamentos a que os custos de instalação de bombas conversorasserem instalados e informam que os valores foram são altos e o metano gerado depende da quantidaderetirados dos cálculos finais de ganho na redução e qualidade do material depositado, da umidadede emissão de CO2e. Portanto, os resultados local e do tempo de atividade do aterro. Essesencontrados representam valores mais próximos da projetos que fazem uso secundário do biogásrealidade, já que descontam os aspectos negativos atendem a categoria analisada (P1, P3, P4, P8,da intervenção. Já o projeto P7 revela que haverá P10, P15 e P26).gastos adicionais, mas por se tratar de energia da 4.3.4.Quanto à disposição adequada de resíduosrede pública e principalmente pela base energética sólidosdo Brasil se dar por meio de hidroelétricas(consideradas menos poluidoras e prejudiciais), Faz parte da atividade comercial daspode-se pensar que os autores não o considerem operadoras de aterro sanitário a correta disposição detão danoso. resíduos sólidos, desse modo, compreende-se que a A preocupação em apresentar esses cálculos empresa prestadora do serviço o faça corretamente.é uma iniciativa interessante, porém não consta Não foram encontradas informações adicionais quena maioria dos projetos analisados, somente em 2 demonstrassem uma preocupação maior quantodeles (P9 e P13). Mesmo se tratando de um pequeno à sustentabilidade, somente descrição de aspectospercentual de gasto de energia, e, talvez considerado técnicos, mesmo assim os projetos foram consideradosirrelevante pela maior parte dos autores dos projetos, sustentáveis no atendimento na categoria. 66
  • 66. Para análise desse indicador, os textos foram Dessa forma, foi considerado que P4, P6 eestudados a partir das palavras aterro, lixo e resíduo. P12 atendem ao crítério de aprovação quanto àEncontrou-se referências como área destinada, reciclagem.em termos de metragem (hectares), população 4.3.7. Quanto à geração de resíduos perigososatendida, cidades favorecidas, local, capacidadetotal de utilização da área em toneladas, dentre O empreendimento não gera resíduosoutros dados a respeito do funcionamento do perigosos, a não ser os decorrentes daaterro e atendimento a normas. Foi salientada decomposição de materiais. Para recebimento dea idoneidade das operadoras de aterro e sua materiais provenientes de indústrias e hospitaiscapacidade de trabalho, por se tratar de empresas há regulamentação própria que classifica essesdo ramo que atuam em diversas localidades do resíduos e os encaminha para neutralização antesBrasil e do mundo. do descarte. Nos projetos não foi indicada a geração de resíduos perigosos ou o recolhimento de4.3.5. Quanto à coleta seletiva de lixo materiais que podem contaminar o meio ambiente. Não foi analisado se as localidades onde Somente o projeto P26 prevê a utilização do biogásestão instalados os projetos possuem diretrizes para queima de resíduos hospitalares. Não havendode plano de coleta seletiva de lixo como prática, portanto nenhum projeto que atenda ao critério.ou se as ações partem das empresas operadoras 4.4. Considerações a respeito das catego-dos aterros. Observou-se que, dentre os projetos rias selecionadasanalisados, somente P4 e P6 contam com a coletaseletiva ou separação dos resíduos antes de serem Após análise de conteúdo dos documentos,depositados no aterro e cobertos por camada de tendo como base a metodologia dos sistemasterra. Dashboard of Sustainability e IBGE (2004), pode- se considerar que não refletem a intenção do4.3.6. Quanto à reciclagem Protocolo de Quioto quanto à sustentabilidade. Nos De maneira semelhante à análise do projetos não se consegue comprovar a existênciaindicador de coleta seletiva, a reciclagem do lixo de informações que legitimem os indicadoresnão foi citada na maioria dos projetos, somente estudados quanto às abordagens ambiental,P4 e P6 deixam claro as atividades realizadas. Já social e econômica. Em nenhum deles, ocorreu oP12 demonstra a intenção de tratar a questão de atendimento integral das categorias de análise e,maneira diferenciada, oferecendo assistência aos portanto, a sustentabilidade dos projetos é parcial.catadores. É necessário ressaltar uma controvérsia. O quadro 3 sintetiza o atendimento às categoriasAs atividades de aterro sanitário são realizadas em de análise:áreas fechadas, onde a entrada deve ser restrita, 4.5. Parâmetros definidos pelo Protocoloos caminhões que fazem o descarte são pesados, de Quiotomateriais perigosos devem passar por tratamento A fim de averiguar a comprovaçãoprévio, enfim, a atividade requer todo um cuidado da sustentabilidade por parâmetros traçadose controle, portanto a população não teria acesso nacionalmente pela AND, estes são verificados pelapermitido. Em P12, o conteúdo selecionado deixa mesma técnica de análise de conteúdo clássica.transparecer que o aterro funciona como um lixão 4.5.1.Quanto à distribuição de rendaa céu aberto e que as pessoas retiram deste localmateriais que significam o modo de sobrevivência. As condições de vida das pessoas queO que pode parecer uma boa iniciativa para sobrevivem das atividades relacionadas a catação dea sustentabilidade mostra a irregularidade da materiais recicláveis presentes no lixo e da populaçãoatividade. residente no entorno dos locais destinados a aterro 67
  • 67. Quadro 3 - Atendimento categorias de análise Dimensão Dimensão Ambiental Dimensão Econômica Social Acesso a serviço de coleta Doenças relacionadas ao   Emissão de gases estufa Tratamento adequado de Disposição adequada de Destinação final do lixo Consumo comercial de saneamento ambiental poluentes atmosféricos Porcentagem de área Coleta seletiva de lixo Geração de resíduos Fontes renováveis de de lixo doméstico Concentração de resíduos sólidos Projetos Investimento inadequado Reciclagem protegida perigosos energia energia esgoto P1 ü ü ü ü ü ü ü ü ü P2 ü ü ü ü ü ü ü P3 ü ü ü ü ü ü ü P4 ü ü ü ü ü ü ü ü ü ü P5 ü ü ü ü ü ü ü P6 ü ü ü ü ü ü ü ü ü P7 ü ü ü ü ü ü ü ü P8 ü ü ü ü ü ü ü P9 ü ü ü ü ü ü ü P10 ü ü ü ü ü ü ü P11 ü ü ü ü ü ü P12 ü ü ü ü ü ü ü P13 ü ü ü ü ü ü ü P14 ü ü ü ü ü ü P15 ü ü ü ü ü ü ü P16 ü ü ü ü ü ü P17 ü ü ü ü ü ü P18 ü ü ü ü ü ü P19 ü ü ü ü ü ü P20 ü ü ü ü ü ü ü P21 ü ü ü ü ü ü P22 ü ü ü ü ü ü P23 ü ü ü ü ü ü P24 ü ü ü ü ü ü P25 ü ü ü ü ü ü P26 ü ü ü ü ü ü üFonte: elaborado pela autoradeve ser revista pelo empreendimento. Somente P1 Convém destacar que a maioria dos projetos (62%)e P3 mencionam a criação de novos empregos e nem fazem referência a este ponto de análise, sendoaumento da renda da população. Projetos como que P1, P3, P4, P8, P11, P12, P15 e P21 atendemP8, P11, P12, P15 e P21 indicam que parte da ao critério.receita gerada pelo crédito carbono será distribuída 4.5.2.Quanto à sustentabilidade ambientalcom a prefeitura local, mas não deixa claro como localesta irá trabalhar a fim de melhorar a renda dapopulação. O projeto P4 não visa distribuição de Foram estudados os impactos ambientaisrenda em curto prazo pois aplicará em programas locais do projeto, em comparação com a situaçãode alfabetização e treinamento para jovens carentes. existente antes da sua implementação. Os projetos 68
  • 68. de aterros sanitários estudados já estão em não foi encontrada nenhuma citação nos projetosfuncionamento, portanto, na análise de ganhos P5, P13, P24, P25 e P26.ambientais tem-se que verificar aspectos além dos 4.5.4.Quanto à capacitação e desenvolvimentocobrados pela legislação de funcionamento do tecnológicoempreendimento. A queima dos gases decorrentesda decomposição de material é um ganho a ser O MDL incentiva a troca de tecnologia entredestacado, visto que não ocorreria se o projeto não nações. No caso dos aterros sanitários, haveráexistisse, conforme P1, P3, P4, P8, P9 e P13. Além essa possibilidade, visto que não é prática comumda diminuição de odores e riscos de explosões, no Brasil a utilização de flares e condutos paraP9 destaca que o ganho ambiental influenciará direcionamento dos gases gerados e posteriorna valorização imobiliária da região circunvizinha. queima ou aproveitamento energético. A trocaRessalta-se que 77% deles não fazem nenhuma de conhecimento envolvendo várias organizaçõesreferência a esse parâmetro de análise. também é incentivada para fomentar o mercado nacional no desenvolvimento de empresas4.5.3.Quanto ao desenvolvimento das condições prestadoras de serviço e desenvolvedoras de mesmade trabalho e geração líquida de emprego tecnologia. A geração de empregos imediatos, seja para Por se tratar de uma atividade não usualconstrução, execução e manutenção das alterações no Brasil, a queima dos gases decorrentes dano funcionamento do aterro sanitário, é fator positivo decomposição dos materiais depositados no aterroquanto ao desenvolvimento sustentável, sendo ou a utilização do biogás para geração de energia,necessário atestar a quantidade de cargos gerados e requerem adaptação de tecnologia e equipamentosnível de instrução requerido. Verifica-se que poucos vindos de outros países, com os quais serãopostos de trabalho serão gerados pelas atividades firmadas parcerias de fornecimento e treinamento.diárias do aterro após implantação do projeto, Dessa maneira, os projetos conseguem justificarsendo criados cargos na função de monitoramento, o parâmetro de capacitação e desenvolvimentoque requerem a capacitação de profissionais. Como tecnológico. Os projetos P7 e P13 não fazemse trata de tecnologia estrangeira, inicialmente nenhuma referência a este critério de análise.haverá treinamento, porém poucos empregos 4.5.5.Quanto à integração regional eindiretos serão criados. É citada a contratação de articulação com outros setorespessoas no período de construção e adaptação doempreendimento, porém no dia-a-dia da atividade, Este parâmetro preza o estabelecimentoque pode se estender por até 21 anos, não há de parcerias entre municípios para viabilizar anecessidade de muita mão de obra. implantação de aterros sanitários, além de parcerias Também cabe nesta análise a criação de entre municípios e empresas privadas e organizaçõesprogramas de coleta seletiva ou reciclagem, nos não-governamentais, para desenvolver atividadesquais a mão de obra local seja aproveitada e que se sociais e produtivas. Dos projetos analisados 50%crie condições de inserção no mercado de trabalho. não indicam quais benefícios serão alcançados.Somente 3 projetos preveem programas de seleção Já outros 50% fazem alusão à articulação, sejae reciclagem de materiais indicando a possibilidade incentivando projetos sociais e ambientais, oude inserção de catadores de recicláveis que vivem através de repasse de royalties às prefeituras locais.na dependência de descarte de resíduos sólidos. São destacados aspectos do interrelacionamento em Apesar de serem destacadas poucas que uma boa gestão de resíduos possa favorecer aalteraçoes após a implantação dos projetos, pode- população, beneficiando o meio ambiente. Portanto,se considerar que confirmam a sustentabilidade. em relação à análise desse parâmetro, pode-seMesmo sabendo que o projeto possa gerar empregos, considerar que a maioria dos projetos justificam os 69
  • 69. requisitos de aprovação, conforme P1, P3, P4, P8, de destacar P24 e P26 que não fazem qualquerP9, P10, P11, P12, P13, P15, P16, P21 e P25. referência. Considerando que a apresentação desses parâmetros fosse primordial para a aprovação,4.6. Considerações a respeito dos parâme- poderia-se pensar que a maioria deles não seriatros selecionados aprovada, pela falta de dados evidenciando a Após a análise, segue quadro 4 com sustentabilidade.compilação dos projetos quanto ao atendimento Fica a impressão de que a busca por soluçõesaos requisitos de avaliação. para diminuição das emissões de poluentes e alteração dos prognósticos pessimistas sobre o aquecimentoQuadro 4 - Atendimento critérios da Resolução 1 global é tratada como uma oportunidade comercial,de 11 set. 2003. em que as empresas (e também governos) valorizam Desenvolvi- Inte- as transações financeiras. Lembrando que já há um gração mento das Sustenta- Capacitação regional mercado estabelecido para esses créditos de carbono Distribui- condições Proje- bilidade e desenvol- e arti- vimento tec- culação e que a regulamentação atual de aterros sanitários ção de de trabalho tos ambiental renda e geração local líquida de nológico com não exige a queima dos gases, pode-se considerar outros emprego setores que a abordagem econômica é a propulsora dos P1 ü ü ü ü ü P2 ü ü projeto e dos avaliadores credenciados. Assim os P3 ü ü ü ü ü objetivos maiores dos projetos de MDL que buscam P4 ü ü ü ü ü P5 ü a transferência de tecnologia, utilização de energia P6 ü ü limpa, redução da pobreza e benefícios ambientais P7 ü P8 ü ü ü ü ü são consequencia do novo mercado. P9 ü ü ü P10 ü ü ü P11 ü ü ü ü Conclusão P12 ü ü ü ü P13 ü A proposta geral do trabalho foi analisar P14 ü ü P15 ü ü ü ü os indicadores econômicos, sociais e ambientais P16 ü ü presentes nos projetos brasileiros de aterros sanitários P17 ü ü P18 ü ü do MDL do Protocolo de Quioto. As evidências não P19 ü ü comprovam a sustentabilidade, ao confrontar os P20 ü ü P21 ü ü ü dados dos projetos com as categorias selecionadas P22 ü ü no método, tão pouco pelas análises adicionais P23 ü ü P24 quanto aos parâmetros definidos pela AND. P25 ü Acredita-se que a falta de dados a respeito da P26 sustentabilidade pode ser afetada pelo desequilíbrioFonte: elaborado pela autora entre informações técnicas e aspectos das abordagens Nota-se que poucos são os projetos que se estudadas do formulário padrão oferecido. Ospreocupam em apresentar os benefícios gerados, projetos são escritos de maneira a convencer sobrefrente aos critérios que são solicitados pela a viabilidade da proposta, e visam passar imagemcomissão brasileira de avaliação. Somente P1, P3, positiva do empreendimento, sem dar muitasP4 e P8 apresentam trechos com justificativas para explicações de como isso vai acontecer. Porématendimento de todos os critérios de análise. Isto não destacam que, caso não consigam a aprovação esignifica que conter as informações seja garantia de consequente negociação no mercado de créditoaprovação, mas a omissão deveria ser, no mínimo, carbono, provavelmente nenhuma iniciativa seráfato que levasse a maiores explicações. Pode- tomada, mesmo sabendo que mudanças na atividadese notar que vários deles (80%) não apresentam atual diminuiriam os efeitos negativos na camada deinformações completas sobre os parâmetros, além ozônio, riscos de asfixia e explosões, tanto citados. 70
  • 70. A conscientização de que a atividade agride o meio são grandes geradores de gases de efeito estufa,ambiente e a qualidade de vida das pessoas dos portanto passível de alteração de processo. Àarredores, não serve de motivo para a empresa academia uma contribuição aos estudos de gestãotomar iniciativa particularmente. Então a existência socioambiental. Caberia como sugestão parade trechos de discurso enfatizando a preocupação trabalhos futuros a verificação da sustentabilidade nasocial e ambiental contradiz o enfoque econômico. prática do empreendimento já que se encontram em Outro ponto é a atuação das empresas atividade. Também como proposta, a verificação daem projetos sociais que permitam às pessoas que sustentabilidade de outras atividades brasileiras desobrevivem de catação de materiais recicláveis MDL a fim de detectar um padrão de concordânciaa criação de cooperativas e centros de triagem. e aprovação. A análise de projetos aprovados deSurgem, então, questionamentos a respeito da aterro em outros países seria interessante para buscarelação público/privado quanto à responsabilidade dos critérios representativos nas diversas nações ede cada uma das partes no desenvolvimento comparação com os critérios brasileiros.sustentável do país. Acredita-se que a gestão Por fim, faz-se uma ressalva sobre a importânciasocioambiental é responsabilidade de cada um, de mais estudos sobre o tema sustentabilidade.não cabendo somente ao poder público o bem Verificou-se que é uma questão abrangente, por issoestar da população e nem às empresas privadas a utilizada de maneira indiscriminada, caracterizando-filantropia ou intencional utilização da imagem de se até mesmo como um “modismo” de administração.cidadania. Organizações buscam uma imagem positiva tendo Este trabalho pode auxiliar a política pública, como alicerce um termo que não possui basepois tem a intenção de alertar sobre a semelhança sólida, em que cada um faz e adota um modelo ouentre os documentos e a verificação do cumprimento padrão mais conveniente. O tema ainda encontra-das metas sociais descritas nos textos apresentados. se em desenvolvimento e os estudos na área deAos responsáveis pela legislação de disposição de gestão socioambiental irão enriquecer e elucidarresíduos sólidos no Brasil cabe modificação das as empresas de todos os setores e a sociedade anormas de funcionamento já que foi comprovado, firmar esses conceitos e sua aplicação em busca doe as empresas cientes, que os aterros sanitários desenvolvimento sustentável.ReferênciasACIONISTA.COM.BR. Liquidação financeira do 1º leilão de créditos de carbono organizado nopaís. Disponível em: http://www.acionista.com.br/bmf/290208_liquidacao_financeira.htm. Acesso em:17 jun. 2008.ALMEIDA, S.T.; LEITE FILHO, C.A.P ALMEIDA, H.T. A gestão socialmente responsável como diferencial de .;estratégia organizacional. In: Encontro de Estudos Organizacionais, IV EnEO, 2006, Anais...Porto Alegre, 2006, CDROM.ANDRADE, M.M. Como preparar trabalhos para cursos de pós-graduação. São Paulo: Atlas, 2004.BANCOR. Bancor Internacional, Consultoria e Implementação do Meio Ambiente. Consulta PúblicaSobre Proinfa, 15 de Agosto de 2003. Disponível em: <www.bancor.com.br> Acesso em: 30 jun. 2007.BARDDAL, R.; ALBERTON, A. Uma análise comparativa de métodos de mensuração da sustentabilidade:aplicabilidade no setor turístico. In: SIMPOI, 2008, XI, São Paulo. Anais... São Paulo: 2008. CDROM.BAUER, M.W. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In BAUER, M.W.; GASKELL, G.(org). Pesquisaqualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002.BUFONI, A.L.; FERREIRA, A.C.S.; LEGEY, L.F.L. Os investimentos ambientais divulgados no balançosocial IBASE pelas empresas brasileiras. In: Encontro Nacional de Gestão Empresarial e MeioAmbiente, IX, 2007, Curitiba. Anais... Curitiba: 2007. CDROM. 71
  • 71. Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (CIMGC). Resolução nº 1 de 11 de setembrode 2003. Diponível em: http://www.mct.gov.br/upd_blob/0008/8694.pdf. Acesso em: 17 dez. 2008.EEROLA, T.T. Mudanças Climáticas Globais: passado, presente e futuro. In: Fórum de Ecologia, 2003,Instituto de Ecologia Política, Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC. Disponível em: www.helsinki.fi. Acesso em: 20/01/2008.ELKINGTON, J. Canibais com garfo e faca. Trad.Patrícia Martins Ramalho. São Paulo: Makron Books, 2001.GAMBOA, C.M.; MATTOS, U.A.O.; SILVA, E.R. Desempenho nas organizações – considerações sobre osindicadores propostos por instituições/entidades nacionais e estrangeiras. In: Encontro Nacionalde ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, XXV, 2005, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: 2005. CDROM.HAWKEN, P LOVINS, A.; LOVINS, L.H. Capitalismo Natural, Criando a Próxima Revolução .;Industrial. 3. ed. Pensamento - Cultrix. 1999.HOFF, D.N.; PRETTO, F.N. O mercado de crédito carbono em biocombustíveis. In: RATHMANN, R.;SANTOS, O.I.B.; PADULA, A.D. O negócio do álcool e do biodiesel: promessas, realidade e futuro daagroenergia no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2008.IBAM. Instituto Brasileiro de Administração Municipal. O Cenário dos Resíduos Sólidos no Brasil,Disponível em: <http://www.ibam.org.br/publique/media/Boletim1a.pdf> Acesso em 30 jun. 2007.______. Biogás em Aterros Sanitários e Créditos de Carbono, Disponível em: <www.ibam.org.br/publique/media/Boletim2a.pdf> Acesso em: 30 jun. 2007.IBGE. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, 2000. Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/pnsb/pnsb.pdf> Acesso em: 3. jul. 2008.______. IDS – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável – Brasil 2004. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/recursosnaturais/ids/defaulttab.shtm> Acesso em: 25. maio 2008.MCT. Ministério de Ciência e Tecnologia. Ciência ambiental. Disponível em <http://www.mct.gov.br/.> Acesso em 30 jun. 2007.MOLION, L.C.B. Aquecimento Global: uma visão crítica. Disponível em: <http://www.geografia.fflchusp.br/graduacao/apoio/Apoio/Apoio_Elisa/AQUECE_GLOBO.doc.> Acesso em: 20. jan. 2008.SCHOMMER, P ROCHA, F.C.C. As três ondas da gestão socialmente responsável no Brasil: dilemas, .C;oportunidades e limites. In: ENCONTRO ANPAD, XXXI, 2007, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro:2007. CDROM.SCHROEDER, J.T.; SCHROEDER, I. Responsabilidade social corporativa: limites e possibilidades. RAE-eletronica, v.3, n.1, Art.1, jan./jun. 2004. Disponível em: <http://www.rae.com.br/eletronica/index.cfm?FuseAction=Artigo&ID=1573&Secao=COMPTO>. Acesso em: 25 jul. 2008.SOARES, S.; STRAUCH, J.C.M.; AJARA, C. Comparação de metodologias utilizadas para análise dodesenvolvimento sustentável. Disponível em: <http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_524.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2009.SOUZA, P .F.M. Metodologias de Monitoramento de Projetos de MDL: uma análise estrutural efuncional, 2005. 116f. Dissertação (Mestrado em Ciências de Planejamento Estratégico). UniversidadeFederal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.VAN BELLEN, H. M. Indicadores de sustentabilidade: uma análise comparativa. 2002. 250f. Tese(Doutorado em Engenharia de Produção). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002. 72
  • 72. Avaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de Irati-PR Evaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PRDiogo Lüders Fernandes1Vanessa de Oliveira Menezes2ResumoO presente estudo tem como objetivo hierarquizar os atrativos da área urbana da cidade de Irati/PR, mostrandosua potencialidade para o uso do turismo utilizando a técnica de avaliação e hierarquização de atrativos daSecretaria de Turismo do Estado do Paraná - SETU. Esta pesquisa se caracteriza por ser descritiva, ocorrendoum estudo de gabinete em bibliografias específicas, uma pesquisa em documentos da Secretaria de Turismo doEstado do Paraná e do Departamento de turismo de Irati e a pesquisa de campo em visitas in loco dos atrativose equipamentos para avaliação e hierarquização dos atrativos da cidade de Irati. Por meio das pesquisas, foipossível verificar que os atrativos da cidade necessitam de melhor estruturação.Palavras-chave: Hierarquização; Atrativos Turísticos; Cidade de Irati-PR.AbstractThe present study has as prime goal to categorize the urban attraction areas into an hierarchy in Irati, a city inthe South Brazil, in order to show its potentiality for Tourism using the technical support of attraction evaluatione hierarchy of Tourism Secretariat of Paraná State - SETU. This research characterizes as descriptive, carried outby means of document study in specific bibliographies, a research in Tourism Secretariat of Paraná State andIrati Tourism Department documents, as well as a field research through visits to attractions and the equipmentfor evaluation and hierarchy of the attractions in Irati. Through the research, it was possible to verify that the cityattractions need better structure.Key words: Hierarchy; Turistic Attraction; Irati-Brazil./1 introdução de territórios; e ainda possui uma característica A atividade turística organizada como única, o turismo é uma atividade que consomeconhecemos hoje, surge em meados do século XIX, elementarmente o espaço.e desde então vem crescendo de maneira bastante Essa apropriação do espaço pelo turismosignificativa. é realizada por meio das políticas públicas de O turismo, assim como qualquer outra turismo, que são responsáveis segundo Cruzatividade, causa uma série de relações na localidade (2002, p. 44) pelo:onde se desenvolve, podendo ser positivas ounegativas. De acordo com Cruz (2002), o turismo [...] estabelecimento de metas e diretrizes que orientamé ainda um grande agente transformador e o desenvolvimento socioespacial da atividade, tantoorganizador de sociedades e de (re) ordenamento no que tange à esfera pública como no que se refere1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil. Possui mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade doVale do Itajaí – UNIVALI, Brasil. Contato: diggtur@yahoo.com.br2 Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil Possui mestrado em Administração de Empresas Turísticaspela Universidad de Extremadura – UEX, Espanha. Contato: vanessamenezes@hotmail.comRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 22/12/2009 - Aprovado em 04/06/2010
  • 73. à iniciativa privada. Na ausência da política pública, o turísticos concede “[...] pouca atenção aos aspectos turismo dá à revelia, ou seja, ao sabor de iniciativas e voltados para a valorização, em termos turísticos, interesses particulares. da importância individual, ou mesmo coletiva dos atrativos”. E dessa falta de planejamento se dão diversos O enfoque analítico de cada atrativo permiteproblemas relacionados à realização da atividade fixar o valor intrínseco do próprio recurso com baseturística desordenada. Ruschmann (1997) afirma em suas principais características, das quais se obtémque no caso do turismo, cabe ao governo a tarefa um índice de qualidade que pode ser comparávelde planejar a atividade de forma a proporcionar o ao calculado para outras áreas ou recursos debem-estar da população local e do turista, aliado características similares.à conservação dos recursos naturais e culturais da Tal análise possibilita atribuir valorcomunidade e a normatização da atividade turística. quantitativo ao atrativo, de modo a classificá-loSendo assim a autora compreende que a finalidade em uma escala de hierarquização, demonstrandodo planejamento turístico “consiste em ordenar em números o valor de potencialidade de cadaas ações do homem sobre o território e ocupa-se atrativo e do município. Esse instrumento de análiseem direcionar a construção de equipamentos e é de fundamental importância para o processo defacilidades de forma adequada, evitando assim os planejamento turístico, pois auxilia na tomada deefeitos negativos nos recursos, como sua destruição decisão dos planejadores.e a redução de sua atratividade”. (RUSCHMANN, De posse das informações apresentadas1997, p.84) acima, a problemática deste trabalho é: Qual O planejamento turístico por sua vez é a hierarquia dos atrativos turísticos presentes nocompreendido, segundo Bissoli (1999), como sendo perímetro urbano da cidade de Irati/PR?um processo que avalia a atividade turística de um Este artigo tem como objetivo hierarquizardeterminado espaço geográfico, verificando seu os atrativos da área urbana da cidade de Irati/desenvolvimento e fixando um modelo de atuação PR, mostrando sua potencialidade para o uso domediante o estabelecimento de metas, objetivos, turismo.estratégias, e diretrizes com os quais se pretende Este trabalho é de extrema importância, poisfomentar, coordenar e integrar o turismo ao ambiente propicia um debate sobre o assunto e levanta dadosem que está inserido. que poderão ser usados pelos órgãos competentes Para tanto, é necessário analisar os atrativos como instrumento para estruturar os atrativosturísticos do local para avaliá-los de modo a turísticos locais.estabelecer o seu valor. Nesse contexto, é importante Durante o texto, serão descritos os métodostambém hierarquizá-lo, para determinar a sua científicos utilizados para obter os dados referentesimportância turística dentro do contexto municipal, à temática da pesquisa, a apresentação e discussãoregional e nacional. dos dados e de posse dessas informações, as O objetivo dos processos de avaliação e considerações e conclusão.hierarquização, segundo Magalhães (2001), éempreender uma análise do patrimônio turístico 2 Fundamentação teóricamunicipal de modo a determinar o coeficiente deatratividade de cada atrativo e de cada município. O turismo, os atrativos turísticos e suasMuitos documentos ditos inventários turísticos tipologias, a potencialidade e também a avaliação econsistem em uma lista de recursos turísticos hierarquização dos atrativos, são temáticas trabalhadasnaturais e culturais assim como o levantamento neste artigo, bem como, a abordagem dos autoresda infraestrutura municipal e os empreendimentos que por meio de livros ou artigos expuseram seuse serviços turísticos. Porém, Magalhães (2001, pensamentos adquiridos durante a carreira, ou atravésp. 57) afirma que a inventariação dos atrativos de ciências empíricas para formulação de suas teses. 74
  • 74. Ao definir turismo, Barretto (1995), faz muitos atrativos naturais ou artificiais são únicos emum apanhado de diversos conceitos do que é nosso planeta, com exemplo as pirâmides no Egito,a atividade em si. De acordo com a autora, a apesar de existirem, contemporaneamente outrasprimeira definição de turismo remonta do ano de construções “imitando” pirâmides egípcias, apenas1911, quando o economista austríaco Hermann as originais conservam toda a cultura antiga do seuVon Schullern Schattenhofen descreve a atividade povo.como um processo econômico que se manifesta A Secretaria de Estado do Turismo - SETUna chegada, permanência e saída de um turista tem sua fundamentação muito paralela com a doem uma determinada localidade. As definições de Ministério do Turismo, caracterizando o atrativoturismo passaram por diversas transformações, como lugar, objeto ou acontecimento que motive osendo incorporadas nelas diferentes realidades, turista a conhecê-lo. (PARANÁ, 2005) Dessa forma,deixando de ser exclusivamente vista do ponto da o atrativo faz parte significativa da oferta turística,economia, para uma visão mais sistêmica. Para esse que sua ausência torna-se por dificultar aBoullón (2002), o turismo é um fator social, não consolidação da atividade turística, pois o atrativofoi criado, mas sim surgiu de um fenômeno social é a matéria prima do turismo, diz Boullón (2002). Eda existência do tempo livre, impulsionado pela sem a matéria prima toda vontade de trabalho nãotecnologia dos sistemas de transportes. se torna ação, consequentemente sem ação não há Para De La Torre apud Barretto (1995, p. 13) turismo. Alguns lugares são potenciais turísticos O turismo é um fenômeno social que consiste no des- e podem vir a se tornar um atrativo, em que locamento voluntário e temporário de indivíduos ou um potencial turístico é um elemento com dois grupos de pessoas que, fundamentalmente por moti- adjetivos: aptidão e disponibilidade. Não adianta vos de recreação, descanso, cultura, ou saúde, saem este elemento ter aptidão e por motivos outros não do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remu- poder ser explorado. nerada, gerando múltiplas inter-relações de importân- O conceito de atrativo tem como cia social, econômica e cultural. prerrogativa a existência de condições mínimas para haver visitação. Essas condições conhecidas Portanto, para que haja turismo, é necessário o como infraestruturas devem suprir as necessidadesdeslocamento temporário de pessoas por motivação básicas das pessoas que a este lugar buscam; casodiversas, em busca de atrativos, como explica o local não ofereça tais facilidades, o produtoRuschmann (1997); o atrativo é caracterizado por possui apenas potencial e não pode ser consideradoaquilo que atrai o turista. Ruschmann (1997, p.71) um atrativo. Infelizmente é comum o equívocosegue explicando que os atrativos: conceitual por muitos profissionais atuantes na área. Segundo Ignarra (1998), conceitualizar [...] são fundamentais, pois podem proporcionar maio- res fontes de renda à comunidade, também ajudar no o atrativo turístico é uma tarefa complexa, pois crescimento de maior conscientização ambiental, pro- a atratividade varia de turista para turista, ou porcionar o bem estar do turista e com conseqüência seja, o valor de um atrativo para alguns pode ser da população. insignificante para outros. O autor segue explicando que o atrativo tem maior valor à medida que for Para o Brasil (2006), o atrativo é um elemento, maior seu diferencial, sua singularidade.seja natural ou artificial, que intrinsecamente motiva Ainda, segundo a metodologia do Centroo ser humano, individualmente ou em grupos, a Interamericano de Capacitação Turística - CICATUR,conhecê-lo. A singularidade do atrativo muitas citado por Ignarra (1998), os atrativos sãovezes é fundamental para motivar o visitante; classificados em naturais e culturais, e são divididos 75
  • 75. em tipos e subtipos, todavia não cabe especificá-los Identificando o valor quantitativo da potencialidadeaqui. do atrativo por meio de estudos de avaliação, após Estudar o atrativo é fundamental para a hierarquizando-o, de modo a levantar e seu grau deprimeira fase do processo de planejamento, como influência no fluxo turístico no cenário municipal eexplica Molina (2005, p. 54), pois nesta primeira regional, esses estudos permitem aos planejadoresfase, o “Diagnóstico, compreende a análise e do turismo levantar as prioridades e os elementosavaliação da situação histórica e atual do objeto que do espaço a ser estudado que realmente interessamvai ser planejado.” Ou seja, ao avaliar e hierarquizar ao desenvolvimento turístico local.um atrativo, está se fazendo um levantamento de A avaliação é o processo que pode definirdados para o planejamento. Este por sua vez é a importância atual ou futura de um atrativo emconceitualizado por Petrocchi (2002, p.19) como relação a outros de características homogêneas.“[...] a definição de um futuro desejado e de todas Para avaliar, é necessário reunir um conjunto deas providências necessárias à sua materialização”, fatores que permitam captar as qualidades e valoresentão, a providência inicial que ele descreve passa específicos que possuem cada atrativo, em funçãopelo levantamento de dados sobre o objeto a ser de sua natureza e dos elementos que exercem ouplanejado e consequentemente, o atrativo está podem influenciar o seu aproveitamento turístico.inserido nele. (PARANÁ, 2005) A análise desses fatores deverá O planejamento turístico é compreendido, ser efetuada sob o ângulo estritamente turístico,segundo Bissoli (1999, p. 66) com sendo portanto para Ruschmann (2004, p. 142): [...] um processo que avalia a atividade turística de um a avaliação dos atrativos determina seu potencial turís- determinado espaço geográfico, diagnosticando seu tico e constitui elemento fundamental para a tomada desenvolvimento e fixando um modelo de atuação me- de decisões estratégicas para uma localidade e forne- diante o estabelecimento de metas, objetivos, estraté- ce subsídios para determinar a abrangência dos proje- gias, e diretrizes com os quais se pretende impulsionar, tos e a quantidade e a qualidade dos equipamentos e coordenar e integrar o turismo ao conjunto macroeco- da infra-estrutura por instalar. nômico em que está inserido. A Hieraquização, por sua vez é o processo Para tanto, é necessário analisar os que permite ordenar os atrativos de acordo comatrativos turísticos do local de modo a avaliá-los, a sua importância turística. Esta análise contribuiestabelecendo assim seu valor de atratividade e para a formação de roteiros (de modo a selecionardeterminando a sua importância turística dentro do atrativos que devem fazer parte ou excluidos), nacontexto municipal, regional e nacional, por meio identificação dos pontos fortes ou a melhorar, nada sua hierarquização. identificação do público alvo do atrativo avaliado, Segundo Petrocchi (1998), o sistema do na priorização de ações, e em outros subsídiosplanejamento está composto por três passos; que devem pautar a tomada de decisões dosdecisão, informação e ação, formando assim um planejadores. (PARANÁ, 2005)ciclo. Compreende que, para agir é necessário a Desse modo, esses dois estudos nosinformação, e inserido na informação a avaliação e permitem a adquirir informações sobre os atrativoshierarquização de atrativos é fundamental. de forma cinetífica, que se tornam fundametais Compreender o atrativo e seu potencial para o planejamento turístico de uma localidade,turístico se faz essencial para trabalhar o turismo possibilitando elaborar um ranking com osem uma localidade. Avaliar e hierarquizar um atrativos com maior potencial para uso, alématrativo é um passo importante, na tomada de de informar aos gestores, os pontos fortes e osdecisão de qualquer ambiente, com o intuito de pontos fracos de cada atrativo da localidade,conhecer a realidade turística de cada espaço. possibilitando, assim, uma tomada de decisão 76
  • 76. baseada em conhecimentos que adquiridos por atrativo, se este é rodoviário, ferroviário,meio de técnicas que favorecem o planjemanto e marítimo ou aéreo, pontuado da seguintea gestão do turismo nos municípios. forma:3 Metodologia Quadro 1 - Pontuação referente ao acesso aos atrativos A pesquisa foi realizada em dois momentos RODOVIÁRIO AÉREO, MARÍTIMO/FLU- VIAL, FERROVIÁRIOdistintos: 3 pontos 2 pontos 1 ponto 3 pontos 0 ponto O primeiro deles consistiu em um levantamento Bom Regular Precário Existência Inexistênciabibliográfico sobre a temática em questão para Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.embasar teoricamente o trabalho. Para tal pesquisa • Transporte (peso 3): avaliar o transporteforam levantados temas como; planejamento existente e mais utilizado para o atrativo.turístico, inventário e hierarquização dos atrativos Conforme segue abaixo:turísticos. Nessa etapa, também foi realizada umapesquisa documental na Secretaria de Turismo do Quadro 2 - Transporte mais utilizado para oEstado do Paraná e no Departamento de Turismo de atrativoIrati/PR onde foi pesquisado o Inventário Turístico 3 pontos 2 pontos 1 ponto 0 ponto Bom Regular Precário Não existemunicipal de Irati, elaborado em 2002. O mesmo Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.serviu de base para levantar quais os atrativosturísticos presentes na área urbana da cidade. Por • Equipamentos e Serviços (peso 3): consistem nameio desta pesquisa, foram averiguados 6 (seis) análise dos equipamentos e serviços instaladosatrativos, sendo eles: Colina Nossa Senhora das no atrativo que a valorizarem e agregaremGraças, Casa da Cultura, Igreja Nossa Senhora da valor ao atrativo visitado. Esse fator por suaLuz, Igreja São Miguel, Igreja Imaculado Coração vez foi analisado da seguinte forma:de Maria e o Parque Aquático. Após a etapa de pesquisa de gabinete, Quadro 3 -Valores a serem atribuídos aos atrativosfoi realizada a pesquisa de campo. Os atrativos Valores a serem atribuídos aos atrativos que possuírem: 3 pontos 2 pontos 1 ponto 0 pontolevantados na pesquisa documental foram avaliados - sinalização;e hierarquizados de acordo com a metodologia de - monitor - sinalização; especializado; - monitorinventariação da SETU (2005). Para tal, utilizou-se - local de especializado; - sinalização; - atrativo que não alimentação; - local de possuir nenhumde uma matriz de avaliação do atrativo, no qual - serviços de alimentação; - serviços de dos serviços limpeza.foram analisadas as características citadas abaixo limpeza; - serviços de utilizados. - sanitários; limpeza;de cada atrativo: - integrar roteiros - sanitários. comercializados. 1. Intrínsecas (variáveis internas); Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. 2. Extrínsecas que compõem o atrativo (natural • Valor Intrínseco do Atrativo (peso 10): é o ou histórico); valor próprio do atrativo mediante à análise 3. Estrutura (do local), que podem influenciar e avaliação do de suas características na possibilidade de uso turístico do espaço. relevantes, tais características estão Vale ressaltar que cada fator de avaliação previamente selecionadas por tipo e subtipopossui um peso e características específicas, sendo de atrativos. Este valor varia de 1 a 4 pontos,atribuídos uma nota de 0 a 3 pontos para cada conforme a comparação dos elementosfator, sendo este: relevantes do atrativo com outro da mesma • Acesso (peso 4): avaliar o acesso mais categoria. utilizado pelos visitantes para se chegar ao 77
  • 77. Quadro 4 - Valor intrínseco do atrativo • HIERARQUIA IV: Índice de atratividade de 4 PONTOS 3 PONTOS 2 PONTOS 1 PONTO 3,26 a 4,00 Muito Interessante Pouco Atrativo de grande significado para o mercado Interessante Interessante Relativo interessante turístico internacional, capaz por si só de motivarFonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. expressivas correntes de visitantes, tanto nacionais O Valor Intrínseco do Atrativo foi obtido por quanto internacionais.meio do somatório do valor médio de cada uma das Desse modo, cada um dos 06 (seis) atrativoscaracterísticas relevantes, divido pela quantidade de encontrados na área urbana de Irati, segundo ocaracterística que integra o atrativo. Inventário de Oferta Turística do Município, foram Após a avaliação de cada elemento e feito a avaliados e hierarquizados. Vale ressaltar quemédia dos pontos de cada fator pelos avaliadores, além desses atrativos, o documento aponta maismultiplica-se cada fator por seu peso para se ter o um atrativo na cidade, mas atualmente tal pontoPonto do Fator (PF). encontra-se em uma propriedade particular e está Utiliza-se então a fórmula seguinte para se fechado para visitação. Por essa razão, o atrativochegar ao Índice de Atratividade do Atrativo (IA): não foi apresentado neste trabalho. Para a realização desta pesquisa, foiQuadro 5 - Fórmula do índice de atratividade do organizada uma equipe com 5 profissionaisatrativo responsáveis pela avaliação dos patrimônios IA = PF Acesso + PF Transporte + PF Equipamentos e Serviços + PF Valor Intrínseco 20 culturais e naturais do município, utilizandoFonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. as variáveis representativas das características que devem possuir cada atrativo turístico, tais Após a identificação do Índice de Atratividade variáveis previamente estipuladas por uma fichado atrativo, dá início a segundo etapa, da sua desenvolvida pela SETU - PR.hierarquização. Conforme o valor do Índice de Após a pesquisa de campo e os dadosAtratividade, o atrativo poderá ser classificado nas coletados, começou o momento de tabular eseguintes hierarquias, conforme o intervalo de seu analisar os resultados obtidos, para assim redigir ovalor de atratividade: relatório final de pesquisa. • HIERARQUIA I: Índice de atratividade de 1,00 a 1,75 4 Apresentação dos dados Atrativo complementar a outro de maiorinteresse, tem capacidade de estimular correntes O município de Irati está localizado na regiãoturísticas locais. Centro Sul, segundo planalto do Estado do Paraná, • HIERARQUIA II: Índice de atratividade de precisamente no Paralelo 25º 27’ 56” de latitude Sul 1,76 a 2,50 com intercessão com o meridiano 50º 37’ 51” de longitude Oeste a uma altitude de 812,00 metros. Atrativo capaz de estimular correntes Possui uma área de 998,30 km2 segundo os dadosturísticas locais e regionais, atual ou potencial, gerais da Prefeitura Municipal de Irati (2005).podendo motivar a visitação de turistas nacionais A sede encontra-se excentricamente ae internacionais que visitam a localidade ou região nordeste do município com uma área de 33,52por outras motivações. Km2, que está localizado a uma distância de 155 • HIERARQUIA III: Índice de atratividade de km da capital do estado, Curitiba, pela rodovia BR 2,51 a 3,25 277 que liga o litoral do estado ao município de Foz Atrativo turístico muito interessante, em do Iguaçu, sendo essa a principal via de acesso. Asnível nacional e internacional, capaz de motivar a outras vias de acesso ao município são a BR - 153visitação por si só ou por um conjunto de atrativos. e a BR - 364, além da ferrovia. 78
  • 78. Segundo a Prefeitura Municipal de Irati e italiana, a área urbana de Irati, segundo o(2004, p.56), o município de Irati apresenta uma inventário turístico do município, possui alguns“função microrregional, de caráter complementar, atrativos que serão avaliados e hierarquizados aabrigando atividades agropecuárias e industriais que seguir, será descrito cada atrativo, apresentandosão essencialmente, salvo poucas exceções, uma suas principais características e particularidades.extensão do que é mais significativo no centro-sul Nesse mesmo texto, será demonstrado o valor dedo Estado, na qualidade de economia provedora de Índice de Atratividade destes atrativos e seu valorinsumos básicos, com baixo valor agregado.” Não de hierarquia. Os valores foram obtidos a partir dasó como pólo econômico regional, mas também metodologia da SETU, descrita no capítulo anterior.dos sub-setores bancário, de transporte rodoviário 4.1 Colina Nossa Senhora das Graçasde passageiros e a área cultural e de lazer (esportes,cinema e eventos). A colina Nossa Senhora das Graças é um A cidade está localizada em um vale, a sede dos logradouros de maior importância da cidade.do município segundo a Prefeitura Municipal de Irati Quanto à sua visitação, este espaço é passagem(2004, p.71) obrigatória para os turistas que visitam Irati. Lá se encontra uma imagem de 22 metros de altura de apresentando uma “parte baixa” — mais antiga — e Nossa Senhora das Graças, um marco do município. uma “parte alta”, circundante — mais recente, e onde Construída no ano de 1957, em comemoração se localizam alguns ícones da paisagem urbana local, aos 50 anos de Irati, a imagem é esculpida em 70 como as igrejas católicas de Nossa Senhora da Luz e peças pelo artista Ottaviano Papaiz, de Campinas. a de São Miguel, bem como os Colégios São Vicente de Paula e de Nossa Senhora das Graças, além da A imagem não representa a padroeira da cidade, grande imagem de Nossa Senhora das Graças, com Nossa Senhora da Luz, pois sua construção se 22 metros de altura, inaugurada em 1957, por oca- tornou inviável devido à imagem do menino Jesus sião do cinqüentenário da cidade, ícone estes passíveis que carrega no colo. Feita uma eleição, a imagem de avistamento a partir de quase todos os pontos da de Nossa Senhora das Graças surge em função da cidade. grande devoção popular (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009). Irati é um município que não se utilizou das O acesso se dá através de uma escada queriquezas formadas pela agricultura para desenvolver acompanha o declive da colina para os pedestres,sua indústria, e hoje permanece como uma cidade ou por duas vias secundárias que permitem aocom uma morfologia singular. O município visitante um acesso por trás da colina. Todos osdesenvolve-se em um vale acidentado, cortado na caminhos estão em estado regular de conservaçãodireção norte-sul pela linha da Estrada de Ferro São sendo necessários alguns ajustes, principalmentePaulo- Rio Grande, esta ativa até hoje, cruzando ao acesso de pedestres o qual não é sinalizado. Jálargos espaços urbanos tornando-se um elemento as escadarias não possuem corrimões nem bancosforte que estruturou a malha urbana do município, para descansos em meio à subida.reforçada mais tarde pelas rodovias. Nos bairros A colina está equipada com playground,do município, não existe uma grande infraestrutura sanitários, uma capela e um mirante com vista paracomercial e de serviços, além dos serviços públicos, cidade, equipados com bancos defronte à imagem.como transporte coletivo, pavimentação, passeios, Infelizmente atualmente o espaço passou por umailuminação pública e arborização, e as vias não reforma, foram retirados do local a lanchonete e ospossuem uma hierarquização adequada. estacionamentos. O município vem há vários anos procurando Observou-se também que a colina possuidesenvolver a atividade turística, com influência alguns problemas estruturais, que acabamda colonização polonesa, ucraniana, alemão dificultando ou prejudicando sua visitação: a 79
  • 79. falta de sinalização, e o estado de conservação Uma paisagem singular no centro da cidade,de seu acesso são deficientes. Entretanto as um casarão de arquitetura eclética preservado, comcondições das instalações foram melhoradas jardins laterais, onde ao seu entorno encontra-sequando comparada aos dados coletados por residências, que na maioria não possuem harmoniaesta pesquisa em abril de 2005; os bancos de com a edificação em questão. À sua frente, encontra-madeiras do mirante foram trocados, foi feito um se o Clube do Comércio - o primeiro da cidade -novo mirante no local, houve uma reforma no hoje com uma nova forma. A rua até pouco tempointerior da capela, foi aparada a vegetação de era de paralelepípedo e hoje está asfaltada.entorno e foram feitos novos banheiros. A edificação atualmente é denominada Devido às condições descritas anteriormente, de Casa da Cultura, onde se encontra alojada aa Colina Nossa Senhora das Graças obteve um Coordenadora de Cultura do município e é umíndice de atratividade IA = 2,00, ficando, portanto espaço também destinado a exposições e mostrascom Hierarquia II. de artistas regionais. O pequeno museu no interior Sendo um dos principais atrativos da da casa apresenta alguns artefatos da culturacidade, é importante ressaltar a importância de ucraniana predominante na região, além de objetosbenfeitorias nesse atrativo para que ele tenha seu da família Gomes, e quadros e gravuras de artistasvalor de atratividade aumentado, principalmente iratienses que relatam a história do município, ano que diz respeito ao acesso para o atrativo, além vida e a cultura de Irati em suas épocas. A Casada instalação de lanchonete e de monitores que da Cultura ainda é um centro de ensino de línguas,informarem ao turista sobre a imagem que lá se artes, música e atividades culturais promovidas porencontra. entidades diversas. A colina Nossa Senhora das Graças é hoje Sua visão destaca na Rua XV de Julho devidoo espaço mais visitado pelos turistas no município à singularidade da construção com os demaisde Irati, portanto uma paisagem que merece maior edifícios do entorno. Portanto um marco urbanoatenção dos responsáveis pela gestão no município, iratiense, que merece destaque devido ao seu usopois é a imagem que o turista mais vê e a que o como centro cultural onde se encontra um pequenovisitante realmente vai levar com ele do município. A museu que conta parte da história da família Gomesconstante manutenção e conservação da paisagem e da cidade de Irati.da colina da Santa são de suma importância para a A área possui um grande potencial para usoqualidade dessa área turística do município. turístico, não só por sua preservada forma como também pela sua função urbana. Esse é um espaço4.2 Casa da Cultura de cultura que se melhor utilizado, proporcionaria Localizada na rua XV de Julho no. 329, ao turista um resgate da história e da identidadecompreende num antigo casarão de madeira que data de Irati. A visita orientada poderia proporcionar aodas primeiras décadas do século XX e que mantém turista, informações significativas sobre a história econservados todas as características impostas pela sobre o desenvolvimento da cidade.cultura urbana então vigente. Residência da família O acesso até ao atrativo encontra-se emGomes, foi construída em 1919 por Arcélio Batista bom estado de conservação e bem sinalizado, masTeixeira. O imóvel foi cedido à Prefeitura em 1987, não há transporte regular. Outras dificuldades sãoem comodato pela família proprietária e doada ao a falta de estacionamento próprio, a ausência demunicípio em 2004. Hoje a antiga residência da monitores ou guias especializados no local e defamília Gomes é utilizada como centro de cultura, serviços de alimentação.onde ocorrem cursos e exposições periódicas de Portanto o Índice de Atratividade da Casa dadiversas áreas (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, Cultura (IA) é 1,25, ficando dessa forma classificada2009). com Hierarquia I. Deve-se salientar que esses valores 80
  • 80. não são fixos, pois podem sofrer alterações, conforme arquitetura contemporânea, porém com poucao atrativo vá recebendo benfeitorias e melhorias para expressividade. A Rua XV de Novembro, em quemelhor atender ao turista. Nesse caso, a contratação está localizada, apresenta uma pavimentação emde monitores que possam oferecer o serviço de paralelepípedo, característica da cidade, comorientação a visitantes, melhoria na exposição do poucas árvores de pequeno porte, com exceção daacervo existente e melhor utilização dos espaços Praça Madalena Anciutti. Esta está bem arborizadado atrativo poderiam melhorar a classificação do e ainda possui o monumento, a Bíblia, inauguradoatrativo. em 18 de fevereiro de 2001, e é considerado um monumento ecumênico que visa à integração entre4.3 Igreja Nossa Senhora da Luz todas as crenças cristãs. Essa edificação encontra-se inscrita numa Localizada na Rua Cel. Pires nº994, a paisagem bem preservada que proporciona umaIgreja Matriz Nossa Senhora da Luz, segundo qualidade paisagística, devido à harmonia dodados do Inventário Turístico de Irati (2002), teve conjunto edificado.sua construção iniciada em 1931. Portanto essa Ao contrário da Igreja Nossa Senhora daedificação religiosa foi a primeira do município, que Luz, a paisagem da Igreja São Miguel possuipossui como padroeira Nossa Senhora da Luz. atratividade turística, isto porque seu entorno No seu entorno, encontra-se residências agrega maior valor ao atrativo, onde o conjuntocom jardins frontais, o antigo edifício da Faculdade paisagístico do atrativo em questão encontra-see a Praça Etelvina Gomes, que apresenta sinais em harmonia, qualificando a paisagem dessade descaso e abandono. A rua em frente à igreja área urbana para o uso turístico.apresenta pavimentação em calçamento articulado Esse atrativo da cidade de Irati obteveem paralelepípedo, valorizando assim o estilo antigo como avaliação 1,5 pontos. Isto devido ao fato deda localidade. que o atrativo encontra-se em local privilegiado A arborização é caracterizada por árvores de do ponto de vista de seu entorno e apresentagrande porte, localizadas principalmente na praça também elementos intrínsecos componentes queem frente à igreja. A Praça Etelvina Gomes faz parte chamam a atenção para seu interior, ficando comda paisagem do conjunto desse atrativo, passou Hierarquia I.recentemente por reforma o que melhorou muitoo entorno do atrativo, principalmente no que diz 4.5 Igreja Imaculado Coração de Mariarespeito à iluminação. Em 24 de junho de 1950, foi inaugurada A Igreja Matriz Nossa Senhora da Luz, a primeira Igreja Ucraniana no município. Com oapresenta um Índice de Atratividade (IA) = 1,05, crescimento da cidade de Irati, novas famílias dosficando assim com Hierarquia I. Essa situação é municípios vizinhos vieram morar nessa cidade e,devido a falta de recursos para a visitação de turistas. com elas muitas famílias ucranianas. Assim a igreja4.4 Igreja São Miguel ficou pequena, sendo necessário ampliar o espaço em virtude do aumento de seus fiéis. Foi adquirido Localizada na Praça Madalena Anciutti, então, o terreno na Rua Barão do Rio Branco nº156anteriormente construída em madeira e hoje em e, em 1970, construída uma igreja maior, hoje aalvenaria, a igreja encontra-se em um dos pontos sede de todas as igrejas ucranianas do municípiomais altos da cidade podendo ser vista de vários (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009).locais. Na sua frente encontra-se uma praça e aos A Igreja tem capacidade para atenderfundos o Cemitério Municipal. Ao lado, o Colégio a 400 pessoas sendo que, as celebrações sãoNossa Senhora das Graças, um edifício antigo que feitas em ucraniano, com exceção da missa dosem seu entorno encontram-se construções em sua Sábados celebrada em português, pois muitos dosmaioria comerciais com um e dois pavimentos de descendentes não entendem a língua de origem. 81
  • 81. Essa edificação religiosa chama atenção por denominado como Parque Aquático e de Exposiçãosua forma e construção que apresenta algumas Santa Terezinha (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI,particularidades como: uma coroa prateada na 2009).parte superior e gravuras na fachada do prédio em Antes da revitalização da área, o terreno emformato cúbico. que hoje se encontra o parque era uma área sem A igreja está localizada em uma área atratividade, um grande banhado que desqualificavaresidencial, com casas que em sua maioria possuem o bairro e sua área de entorno. Hoje o que vemos éjardins frontais, em uma rua pavimentada com uma área urbana qualificada da cidade, um espaçoparalelepípedo e arborização quase que inexistente. verde propício para realização de atividades de A Igreja Imaculado Coração de Maria lazer e de eventos.tem destaque como um atrativo, devido à sua O parque é caracterizado em seus 79000singularidade. A forma da edificação é um tanto m² por ser uma área extensa composta por lagodiferente das demais e esse marco urbano destaca- e um grande gramado. Possui playground, pontes,se na paisagem por sua arquitetura singular, que churrasqueiras, uma mini estrada de ferro de 870aguça no turista uma curiosidade quanto à imagem metros. Sua estação e uma réplica de Maria Fumaçaque transmite e quanto ao rito religioso da Igreja que faz passeios em torno do parque, postosCatólica Ortodoxa. Essa imagem transmite os médico e odontológico, canchas cobertas, pista desímbolos da cultura ucraniana ao turista e está cooper/ciclismo, estrutura para prática de exercíciosfortemente atrelada às características socioculturais físicos e o Pavilhão de Exposições João Wasilewskide uma grande parte da população de Irati, ou seja, (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009).os descendentes dos imigrantes ucranianos. No seu entorno, encontram-se edifícios Devido à sua singularidade de construção comerciais e habitações de um ou dois andares,e seu rito, a igreja Ucraniana como é conhecida, com jardins frontais, com estilo arquitetônicoobteve IA = 1,8 pontos, pois é reconhecida como um contemporâneo, mas de pouca expressividade.atrativo de destaque devido às suas peculiaridades. A topografia do local é de solo plano, com ruasAinda são necessárias algumas melhorias para de mão dupla com estacionamento nos dois ladosque ela tenha plenas condições de atender aos da via, com árvores médias e pavimentação deturistas como guias, placa indicando os horários paralelepípedo.de visitação, estacionamento, etc. Desse modo, o O parque aquático é um espaço interessante,atrativo atingiu Hierarquia II. pois apresenta algumas características singulares como seu portal de entrada. Esse marco do parque encontra-Parque Aquático se em um acesso secundário, e não na principal rua Localizado no Bairro Rio Bonito, na Rua de acesso ao logradouro. Nessa entrada encontra-seAdão Panka s/n, este logradouro tem uma grande um estacionamento pouco utilizado, já que o acessoimportância enquanto paisagem turística e para o principal ao atrativo se dá pelo outro lado, onde existelazer da comunidade de Irati, isto devido ao seu uso uma grande área sem edificações ou ajardinamento,atual e a seu histórico, um espaço que deixou de que a população usa como estacionamento. Outroser um ambiente degradante da área urbana para detalhe que o Parque apresenta é uma gruta comse transformar em uma área de lazer e visitação da algumas imagens, como a de Santa Terezinha emcidade de Irati. homenagem ao nome do parque. Essa área pertencia a Olaria Santa Therezinha O Parque Aquático e de Exposições de Iratiaté o ano de 1987, quando foi adquirida pelo é um espaço de uso público, onde a populaçãopoder municipal entre maio e junho do mesmo ano, iratiense e os municípios vizinhos utilizam para osendo então transformado em parque pela Lei no. lazer nos finais de semana. O local ainda é muito834, de 12 de dezembro de 1988, passando a ser utilizado para realização de eventos tendo como as 82
  • 82. principais festas do município, a Festa do Pêssego e e de hierarquização, representados pelas hierarquiasa Festa do Kiwi. I e II, que correspondem a atrativos complementares Os problemas estruturais para visitação com potencialidades de atração local e regionalque foram identificados podem ser classificados ou de fluxos de turistas nacionais que se dirigem ada seguinte forma; primeiramente há deficiência região por outro atrativo de maior potencialidade.de sinalização para orientar os visitantes, outro Portanto hoje a realidade do turismo na cidadeempecilho é o mal estado de conservação dos de Irati consiste em atender, se bem trabalhado, aossanitários e lixeiras existentes, mas o principal turistas que visitam a região por outras motivações,problema encontrado é a falta de segurança o que ou que trafegam pela BR-277, buscando inicialmenteresulta em uma má utilização do espaço. um desenvolvimento como centro de excursão, onde Essas deficiências produzem uma estes fluxos de turistas provavelmente se concentredesqualificação na paisagem do parque, uma vez nos seguintes atrativos: Colina Nossa Senhora dasque esse espaço possui atratividade de abrangência Graças, Parque Aquático e Igreja Imaculado Coraçãoregional e que é, portanto, significativo logradouro de Maria. Proporcionando a esses turistas opçõesda cidade, uma área verde que destoa na paisagem para permanecerem algumas horas no município.urbana de Irati, um espaço de intenso uso pela É importante destacar que os valores obtidoscomunidade local principalmente durante os finais nesta avaliação não são definitivos, podendo serde semana de verão. Essa área poderia ser mais alterado ao longo do tempo por intervençõesbem aproveitada, uma paisagem que hoje, devido planejadas para melhorar os índices de atratividadea problemas já citados anteriormente, encontra-se dos atrativos avaliados, podendo assim aumentardegradada, mas que com um bom plano de uso, seu potencial. Outra constatação a ser feita é o fatoessa imagem poderia ser revertida. de que se há interesse de Irati desenvolver a prática Devido ao exposto anteriormente, o Parque do turismo em sua cidade, deve se valer de umaAquático de Irati recebeu IA = 1,8 pontos. Mesmo organização regional, buscando em conjunto com ossendo um dos atrativos mais visitados do município, municípios vizinhos atrativos que aumentarem o fluxoseu mau uso e estado de conservação prejudicam a turístico regional, para que assim possa favorecersua avaliação. Mesmo assim sua Hierarquia atinge de uma demanda que conheça os atrativos que seo valor II. encontram em seu centro urbano. Dessa forma, pode-se ver que os atrativos dacidade de Irati precisam de algumas melhorias, para 5 conclusãoque possa aumentar sua pontuação na avaliação eem sua hierarquização. O quadro a seguir mostra O artigo ora apresentado teve como objetivoos atrativos da cidade de Irati e suas respectivas hierarquizar os atrativos da área urbana dapontuações. cidade de Irati/PR, mostrando sua potencialidade para o uso do turismo. Para tal, foram analisadosQuadro 6 - Relação dos atrativos avaliados em 05 (cinco) atrativos, conforme apresentado naIrati/PR metodologia. Atrativo Nota Avaliação Hierarquização A Matriz de Avaliação e Hierarquização Colina Nossa Senhora da Luz 2,0 II Parque Aquático 1,8 II de Atrativos utilizada neste estudo foi a da SETU Igreja Imaculado Coração de Maria 1,8 II – Secretaria de Estado do Turismo (2005) que se Igreja São Miguel 1,5 I Casa da Cultura 1,25 I baseia em variáveis estritamente intrínsecas do Igreja Nossa Senhora da Luz 1,05 I atrativo. De acordo com os dados apresentadas,Fonte: FERNANDES, 2009. é possível verificar que os atrativos possuem Conforme pode ser observado pelo quadro potencial turístico, mas necessitam de melhoranterior os atrativos que se encontram na área estruturação. Para tal, é imprescindível que hajaurbana de Irati possuem baixo índice de atratividade comprometimento e interesse do poder público 83
  • 83. e maior participação da iniciativa privada. Com explorarem a temática e desenvolverem diferentesatrativos bem estruturados, a cidade poderá atrair pesquisas relacionadas ao planejamento turísticouma demanda mais significativa, gerando maior no município. Estudos que valorizem elementosrenda, postos de trabalho e desenvolvimento a como visitação, número de visitantes e como essaregião. visitação ocorre, assim como se este atrativo faz Fica claro com a pesquisa que a capacidade parte de um roteiro turístico ou não seriam de igualde atração de fluxo de turistas dos atrativos importância para a atividade. São elementos queestudados na cidade de Irati possui sua influencia devem ser sim, observados e levados em conta noem abrangência local e regional, podendo ser planejamento turístico, uma vez que o atrativo éutilizado como um atrativo complementar em um dos componentes de um roteiro. As pesquisasroteiros nacionais se estes interessarem aos turistas turísticas são ferramentas para o conhecimentoque passam pela BR – 277 ou visitam outros da realidade e auxiliam na tomada das decisões.atrativos na região. Elas dão suporte a um planejamento adequado Este trabalho não teve o intuito de cessar às destinações turísticas. Planejamento necessárioo assunto e sim fomentar outros autores a para o desenvolvimento ordenado da atividade.ReferênciasBARRETTO, M. Iniciação ao estudo do turismo. Campinas: Papirus, 1995.BISSOLI, M. Planejamento turístico municipal com suporte em sistemas de informação. SãoPaulo: Futura, 1999.BOULLÓN, R. C. Planejamento do espaço turístico. São Paulo: EDUSC, 2002.BRASIL, Ministério do Turismo. Projeto de inventário da oferta turística – Manual do pesquisador:Módulo C. Brasília, 2006.CRUZ, R. Políticas de turismo e território. São Paulo: Contexto, 2002IGNARRA, L.R. Fundamentos do turismo. São Paulo: Cengage Learning, 1998.MAGALHÃES, C. F. Diretrizes para o turismo sustentável em municípios. São Paulo: Roca, 2002.MOLINA, S. Turismo: metodologia e planejamento. Bauru: EDUSC, 2005.PARANÁ. Orientações para gestão do turismo municipal. Secretaria de Estado do Turismo, 2005.PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI. Dados sobre os atrativos turísticos do município. Disponível em: http://www.irati.pr.gov.br. Acesso em: 30 de outubro de 2009.PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI. Inventário turístico de Irati, 2002.PETROCCHI, M. Turismo: planejamento e gestão. São Paulo: Futura, 2002.RUSHMANN, D. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas:Papirus, 2004.________. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas: Papirus,1997. 84
  • 84. Gestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos Gestores: análise das organizações de Blumenau - SC Social Responsibility Management and the Managers Profile: an analysis of Blumenau-SC organizationsMarialva Tomio Dreher1Danielle Regina Ullrich2ResumoOs processos de Responsabilidade Social (RS) preconizam ações para a sustentabilidade das organizações,porém fundamentadas em estratégias que privilegiam a ética e as demandas socioambientais, que permeiam oprocesso produtivo e os relacionamentos entre os stakeholders. Pela complexidade desta temática, os gestoresque conduzem a RS necessitam de capacitação e de poder de decisão contribuam com a efetivação dassuas propostas. Assim, o objetivo deste artigo foi analisar o perfil dos gestores de RS das organizações deBlumenau (SC). Para tanto, utilizou-se o método da pesquisa qualitativa amparada pela técnica da metodologiaexploratória, envolvendo uma população de dezesseis gestores de RS, que atuam em organizações de váriosportes em diferentes setores da economia. Os resultados evidenciam que os atuais gestores são maioria mulherescom formação acadêmica na área humana, mas não específica em RS; não conduzem setor exclusivo de RS.Somente duas organizações têm certificações na área, demonstrando que, embora haja intenção, este processoé embrionário. Diante disso, como na maioria das organizações a RS ainda não é formalmente instituída, sejampelas estratégias ou pelos instrumentos como as certificações, a legitimidade das ações de seus gestores ficacomprometida pela falta de poder de decisão.Palavras-chave: Responsabilidade Social; Gestão Organizacional; Perfil Dos Gestores.AbstractThe processes of Social Responsibility (RS) emphasize actions for the organization sustainability, however basedon strategies that grant privilege to ethics and social-environmental demands that permeate the productiveprocess and the relationships among the stakeholders. For the complexity of this theme, the managers that leadthe RS process need training and decision-making that can contribute to their proposals effect. The objectiveof this article was to analyze the RS managers profile in Blumenau (Brazil) organizations. Thus, the qualitativeresearch method supported by the technique of exploratory methodology, involving a population of sixteen RSmanagers that act in organizations of several loads in different economy sections. The results evidence that thecurrent managers are majority women with academic formation in the human area, but no specific in RS; theydon’t drive exclusive section of RS. Only two organizations have certifications in this area demonstrating that,1 Professora titular da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, do Programa de Pós-Graudação em Ciências Contábeis eAdministração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, nível doutorado. Professora dos Programas de Pós-Graduação Em CiênciasContábeis e Pós-Graduação em Administração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil.Possui Doutorado em Engenharia deProdução pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí- UNIVALI, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS,Brasil, nível pós-doutorado. Contato: marialva@furb.br2 Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS, Brasil, nível doutorado.Possui o mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil. Contato: danielle@ullrich.yahoo.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 08/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  • 85. although there is intention, this process is embryonic. Before that, as in most of the organizations RS still isn’tinstituted formally, be for the strategies or for the instruments as the certifications, the legitimacy of their managers’actions is committed for the lack of power of decision.Key words: Social Responsibility; Management; Profile Managers.Introdução provavelmente o processo não se consolidará prejudicando sua legitimidade. Para compreender A temática da Responsabilidade Social (RS) melhor essa problemática, este estudo pretendeganhou destaque principalmente no final do século atender ao objetivo de analisar o perfil dosXX, cenário no qual as organizações passaram a gestores de RS de dezesseis organizações deenfatizar com muito mais afinco as preocupações Blumenau (SC).sócio-ambientais. Começaram promover gestão A relevância deste estudo se dá no momentomais transparente e responsável, numa tentativa de em que apresenta uma reflexão que elucida aminimizar os impactos da atividade produtiva sobre preocupação em se pensar com muito cuidado nao ambiente e a sociedade. Todavia, a incorporação preparação das pessoas que atuam na RS. Esseda RS, quando adotada estrategicamente fato poderá contribuir com o sucesso da RS naspelas organizações, exige mudança da cultura organizações e ainda minimizar problemas queorganizacional, reestruturação da estrutura e gestores possam complicarem ainda mais o bem estar dascapacitados. Essas exigências devem-se ao fato de pessoas que são assistidas pelos projetos de RS.que a RS, por ser complexa, abrange um processo Teoricamente, essa reflexão poderá servir comoque precisa envolver várias atitudes, pessoas e outros um exemplo do atual cenário da gestão da RS nasrecursos da organização. Essa transformação requer organizações, uma vez que tradicionalmente a visãoum perfil de gestor que consiga conciliar a função dos gestores é focada somente na sua função. Caprade produção com questões sociais e ambientais (2002, p. 123) afirma que “A correspondente mudançaimplícitas nos processos organizacionais. do estilo de administração exige uma mudança de Esse período de adaptação compreende, percepção que é tudo, menos fácil. Porém, quandoao mesmo tempo, reorganização da estrutura acontece traz consigo grandes recompensas.”de cargos e funções legitimarem a RS comoestratégia e ainda dão conta desse novo desafio, Responsabilidade socialespecialmente com a criação de espaços abertosa participação e envolvimento dos stakeholders. A No século XX, as organizações enfrentaramRS movimenta adaptações no modo de administrar desafios, ligados a alguns fatores como existênciaos relacionamentos interpessoais, uma vez que, de uma demanda crescente, num mercado menosé fundamentada em decisões éticas. No entanto, competitivo; necessidade de melhorias e ajustesem muitas organizações, essa movimentação nos processos produtivos; maior orientação paralimita-se, especialmente, no seu estágio de o mercado, entre outros. Esses desafios tornam-concepção e consolidação, na aceitação e na se uma motivação na busca pela sobrevivência daadesão das pessoas que atuam na organização. organização, entretanto, em muitos casos, ainda seIsto no seu estágio embrionário, por exemplo, apresentam desarticulados de considerações sobretorna-se um processo lento e com resultados nem outros agentes e recursos que devem continuarsempre mensuráveis. Por isso, em alguns casos, existindo para que essa sobrevivência seja possível.essa falta de visualização de resultados dificulta Competentes em responder às ameaças intrínsecaso desenvolvimento desse processo. Desse modo, ao seu ambiente operacional, no que diz respeito àse o gestor de RS e sua equipe, não estiverem produção e à comercialização de bens e serviços,capacitados para lidar com esse contexto, as empresas têm-se mostrado negligentes quanto 86
  • 86. aos fatores que dão sustentação a esse mesmo Analisando as correntes de discussão teóricaambiente. Historicamente, isto é percebido pelas sobre o termo, percebe-se a sua abrangência, einexpressivas conquistas em termos de qualidade por isso, esse pode ter diversas interpretações. Parade vida da maioria dos trabalhadores, pela alguns, remete a idéia de responsabilidade legal ouexploração irresponsável dos recursos naturais, pelo responsabilidade civil, enquanto que, para outros,descompromisso com qualquer grupo de interesse significa o comportamento socialmente responsável,que não seja o dos acionistas (VERGARA; BRANCO, num sentido ético. E ainda, pode remeter a idéia de2001). que é a “responsabilidade para”, em seu modo causal. É então, que a RS passa a ser destaque nas Pode-se equiparar a esse conceito com contribuiçõesdiscussões empresariais. Já na década de 50, Bowen filantrópicas; comparar com algum significado de(1957) relacionava as ações de responsabilidade consciência social. Para muitas pessoas, que adotamsocial, com imposições da Igreja Protestante, segundo esse conceito, este é sinônimo de legitimidade, noa qual, a igreja e os cristãos, individualmente, têm contexto de “pertencentes”; poucos veem comoo dever de trabalhar por uma ordem social melhor. uma espécie de dever fiduciário, que impõe padrõesIsso abrange a obrigação de manter-se a par mais elevados de comportamento ao empresário,dos assuntos sociais, e de participar e trabalhar, do que sobre os cidadãos em geral. Inclusive osativamente, em organizações, partidos e movimentos antônimos, irresponsável ou não-responsável, sãoque estejam tentando aperfeiçoar as instituições sujeitos de múltiplas interpretações (VOTAW, 1973sociais. Os pensadores protestantes afirmavam que, apud PRESTON, 1975).a propriedade não é um direito absoluto ou inerente Pode-se considerar que a responsabilidadee, só pode ser justificada, enquanto o bem-estar da social, em seu amplo sentido, abrange os atos doscomunidade estiver sendo atendido pela posse e indivíduos e suas formas de organização, porqueadministração dos bens materiais, por particulares. tem em sua concepção intrínseca, um dever éticoOs que possuíam propriedade deveriam usá-las e dos sujeitos. Porém, quando essa concepção deadministrá-las, visando às necessidades de toda a responsabilidade social passa a ser incorporadasociedade. Sob o ponto de vista moral, o dono de pelas organizações privadas ou empresas, surge adeterminada propriedade é responsável perante responsabilidade social empresarial (RSE) ou, tambémDeus e a sociedade. denominada, responsabilidade social corporativa A partir desses postulados, determinados (RSC). Conforme Kraemer (2005), a concepçãopela Igreja Protestante, nos Estados Unidos, novos de responsabilidade social pelas empresas vemquestionamentos e inquietações surgiram. Ressalta- sendo bastante difundida, principalmente, porquese, segundo Preston (1975), que a partir dos trabalhos as empresas passam a enfrentar desafios impostosdesenvolvidos por Bowen, surgiram três correntes pelas exigências dos consumidores, pela pressão deque fundamentaram o papel das organizações de grupos da sociedade organizada e por legislaçõesinteresse privado, na sociedade: a institucionalista, a e regras comerciais, que demandam proteçãoorganizacional e a filosófica. Para os institucionalistas, ambiental, produtos mais seguros e menos nocivosas organizações privadas se relacionavam com à natureza, e o cumprimento de normas éticas eo universo social mais amplo. Para os teóricos trabalhistas em todos os locais de produção e emorganizacionais, as estratégias organizacionais toda a cadeia produtiva.são como ferramentas que permitem a adaptação Félix (2003) afirma que, a mudança deda organização às mudanças ambientais. E os comportamento, por parte das organizações defilosóficos, baseiam-se em concepções teóricas da interesse privado, se deu por um conjunto deresponsabilidade social, que defendem posições fatores históricos, que correlacionados e paralelos,de cunho neoliberal, filantrópicas, e de maior contribuíram para atitudes de responsabilidadecomprometimento com as questões sociais. social dessas organizações. Em primeiro lugar, a 87
  • 87. globalização, caracterizada por um processo de prudência gerencial). O princípio da legitimidadeencurtamento das distâncias, imprimiu um aumento refere-se ao poder e legitimidade que a sociedadedo fluxo do comércio internacional e das atividades confere à organização e seus negócios; o princípio dafinanceiras, o que fortaleceu as organizações não- responsabilidade pública expõe que as organizaçõesestatais. Essa mudança fez com que o Estado perdesse são responsáveis pelos resultados gerados na suao controle dos processos e, passasse a se concentrar relação com a sociedade; o princípio da prudênciana garantia da estabilidade econômica interna, em gerencial expõe que os gestores são agentes morais,detrimento das políticas públicas de caráter social. obrigados a serem prudentes nos negócios, a fimSe por um lado, o Estado deixa sua posição de de obter resultados responsáveis. Baseado nessespropiciador do bem-estar e realizador de políticas princípios, é possível avaliar a RS nos processosde cunho social, por outro lado, as organizações organizacionais como: diagnóstico ambiental, ade interesse privado percebem que são, em parte, gestão da relação com os stakeholders e a gestãoresponsáveis pela situação de exclusão e injustiça de questões sociais (WOOD, 1991).social. A globalização, portanto, na medida em Sethi (1975), já tinha observado, náque influencia na evolução das tecnologias de década de 70, que as ações empresariais podeminformação, influi na conduta dessas organizações, ser consideradas socialmente responsáveis, sobjá que seus atos passam a ser cada vez mais públicos, um conjunto de circunstâncias em uma cultura, eo que demanda um cuidado maior com a imagem socialmente irresponsável, em outro tempo, sobtransmitida para a sociedade. diferentes circunstâncias. Por isso, a legitimidade é Nesse sentido, o Instituto Ethos (2008) em o melhor indicador de avaliação de desempenhouma conceituação contemporânea, afirma que, a social das organizações. Assim, o comportamentoRSE está relacionada com a ética e a transparência de qualquer organização pode ser classificado comona gestão dos negócios, e deve refletir-se nas imbuído de obrigação social, responsabilidade socialdecisões cotidianas, que podem causar impactos ou responsividade social. A obrigação social refere-na sociedade, no meio ambiente, e no futuro dos se ao comportamento organizacional, em respostapróprios negócios. Dizem respeito à maneira como à pressão do mercado ou às restrições legais; aas empresas realizam seus negócios, os critérios que responsabilidade social é definida como a atitude dautilizam na tomada de decisões, e suas prioridades organização, não vinculada às obrigações legais,e relacionamento com os públicos que interagem. que a obriga a ser flexível nas atuações sociais; e A idéia básica da RSE é que a empresa por último, a responsividade social é o papel que ae a sociedade estão entrelaçadas, ao invés de organização deve desempenhar, no longo prazo, numestarem separadas, portanto, a sociedade possui contexto social dinâmico. Ou seja, as organizaçõesexpectativas sobre o comportamento empresarial devem iniciar políticas e programas que minimizeme seus resultados. Entretanto, existem alguns os efeitos adversos de suas atividades presentesprincípios específicos nessa relação gerados em e futuras. Destarte, Wood (1991) afirma que, arelação às expectativas: a expectativa depositada responsividade, num posicionamento proativo,em todas as organizações, devido ao seu papel está no fato de ouvir e integrar os stakeholders noenquanto instituições econômicas; a expectativa processo de tomada de decisão das organizações.depositada nas organizações sobre o que elas são Assim, as organizações são também desafiadase o que elas fazem; e as expectativas depositadas a se engajarem em uma ampla interação e diálogonos gestores como atores morais das empresas. com os stakeholders externos, atentando para asEssas expectativas geram três níveis de análises ofertas atuais (responsabilidade por produto), bemdistintas em relação a RSE: institucional (princípio como para o modo como poderiam desenvolverda legitimidade), organizacional (princípio da soluções economicamente interessantes para osresponsabilidade pública) e individual (princípio da problemas sociais e ambientais do futuro (visão de 88
  • 88. sustentabilidade). A maioria foca seu tempo e sua constante com os outros, a fim de construir umatenção apenas nas soluções presas aos produtos espaço que lhes permita afirmar seus projetos.existentes e em grupos de stakeholders. As empresas Eis a dificuldade para a organização: manter seueuropéias, por exemplo, vêm sendo particularmente próprio projeto (ou pelo menos o essencial deste)proativas a esse respeito, buscando ativamente e ser capaz, ao mesmo tempo, de estabelecerestratégias que permitam o diálogo com os laços de cumplicidade e de conivência comstakeholders. Uma inclusão criativa desses interesses organizações com as quais não está forçosamentepode estimular uma posição diferenciada para a de acordo, ou ainda relações de competitividadeorganização, levando a um aumento de reputação e concorrência com outras, sem com isso angariare a uma legitimidade cruciais para a preservação inimigos empenhados em destruí-la. Em todoe o crescimento do valor ao acionista e relação caso, é necessário que o projeto específico quecom a sociedade. Ao engajar construtivamente a organização defende possa se inserir (ou peloos stakeholders, as empresas elevam a confiança menos participar) num projeto coletivo que tenhaexterna em suas intenções e atividades, ajudando os mesmos objetivos gerais e o ultrapasse, sem,a otimizar a reputação corporativa e a catalisar a contudo, desnaturá-lo (ENRIQUEZ, 1996).disseminação de novas outras práticas dentro do Desse modo, Carroll (1991) ressaltasistema de negócios como um todo (HART; MILSTEIN, que, as responsabilidades éticas abrangem os2004). padrões, as normas, as expectativas ou, refletem Para alguns gestores, a responsabilidade social uma preocupação daquilo que os consumidores,é uma missão moral; para outros, uma exigência empregados, acionistas e a comunidade consideramlegal. Ainda para alguns outros, é entendida como justo, de acordo com o respeito e defesa dosum custo inerente ao fato de se fazer negócios – um direitos morais. Elas podem ser vistas como osmal necessário para se manter a legitimidade e o valores e normas que a sociedade espera que asdireito da organização funcionar. Friedman (1988), empresas reúnam, apesar de, tais valores e normascrítico da responsabilidade social, argumenta refletirem um maior nível de desempenho, do queque os assuntos sociais não competem ao setor o atualmente exigido por lei. Por isso, muitas vezes,privado, e esse problema pode ser resolvido com o as responsabilidades éticas são mal definidas efuncionamento do sistema de livre comércio. Desse não se entende sua legitimidade, o que dificulta amodo, administrar é lucrar tanto quanto possível de compreensão por parte das empresas. Entretanto,acordo com as regras básicas da sociedade, em há outras dimensões que compreendem a RS:que a lei e o costume ético já estão incorporados. econômica, jurídica, e filantrópica. No entanto, as empresas consideradas éticas Essas dimensões constituem o cenáriosão geralmente aquelas cuja conduta é socialmente organizacional da RS, assim sendo, o exercíciovalorizada e cujas políticas se reconhecem da gestão requer uma orientação ética e umsintonizadas com a moral vigente, subordinando comportamento orientado em valores, por parteas suas atividades e estratégias a uma reflexão dos seus gestoresa observância mínima da éticaética prévia e agindo posteriormente de forma é indispensável para segurança e integridade dossocialmente responsável (ALMEIDA, 2007). Uma indivíduos nos momentos de situações conflitantes.organização nunca está sozinha num lugar. Ela Conforme Ramos (1983, p.44), “A ética daestabelece, necessariamente, relações com outras responsabilidade é ingrediente de toda açãoorganizações e pessoas, quer em redes de aliança, administrativa. É o seu conteúdo subjetivo porquer em redes de rejeição. Essas relações são às excelência, os que adotam em todos os níveis devezes extremamente complexas e evoluem com o autoridade, chefe e subordinados, por definiçãotempo. De toda forma, um elemento central estrutura tácita ou explicitamente, se acham sob o vínculo dea vida dessas organizações, que é a negociação um compromisso.” 89
  • 89. Gestores da responsabilidade social efetivamente constituir, ainda que parcialmente, um reflexo da maturidade moral dos seus dirigentes. A administração é palavra que se aplica a Todavia, o gestor ou dirigente depende damuitos aspectos, coisas, assuntos tão diversos, dinamicidade da organização. Enriquez (1996),tão heterogêneos, que é impossível evitar certa afirma que as organizações mais dinâmicas sãoambiguidade e imprecisão em seu emprego. É aquelas que, como, sabem conciliar eficáciapertinente, portanto, iniciar a sua elaboração e prazer, trabalho assíduo e convivência,e esperar que, não se interrompa o esforço de racionalidade e imaginário, ética e estética. Umacompreensão, cujo êxito, obviamente, depende organização dinâmica é um agente de mudançada contribuição de muitos (RAMOS, 1983). Neste da cultura local, um ator que dá como exemplo aestudo, fez um recorte teórico com alguns autores, sua própria solidariedade interna, que promove osmas entende-se que vários outros olhares podem valores democráticos e que cria em seu seio umaser valorizados na definição do termo “administrar”, cultura viva. E uma cultura só é viva se permite ainclusive utilizando a expressão “gerenciar” no seus membros realizar seu potencial (ou pelo menosmesmo sentido, desconsiderando-se posições parte deste), desenvolver seu imaginário motorhierárquicas, mas sim, centralizando-se na ação da e sua atividade simbólica, e não ser esmagadoprática de administrar ou gerenciar. pelo projeto coletivo, mesmo que sua adesão Diante dessa complexidade, entende- seja profunda. Ramos (1983) salienta que o fatose que os gestores necessitam de habilidades administrativo está em permanente atualização,intelectuais, humanas e técnicas nas suas ações por força do desempenho consciente e ininterruptoe decisões que impactam diretamente nos seus dos agentes que constituem dele elemento capital.desempenhos e nas suas orientações. Administrar, Sem a atividade dos agentes, só restam do fatosegundo Drucker (2002, p. 96) “[...] significa a administrativo elementos materiais e estatutossubstituição da obediência hierárquica pelo senso mortos.de responsabilidade, e da autoridade de poder pela Nesse contexto, a decisão ética de umautoridade de desempenho.” Independentemente mesmo indivíduo pode ser diferente, consoantedo nível do cargo, os gestores assumem o contexto específico que envolva essa decisãoresponsabilidades que estarão sujeitas à cooperação variando, por exemplo, de acordo com a posiçãoe à aceitação dos demais envolvidos nas tarefas, que o indivíduo ocupa na empresa ou com adecorre disso a necessidade de confiança, que antecipação subjetiva que ele faça da reação públicageralmente é materializada pelas decisões éticas à sua decisão (ALMEIDA, 2007). Corroborando,(DREHER, 2004). Ramos (1983) afirma que as atividades humanas Por isso, a elevação de expectativas em relação “limitadas e orientadas”, tendo em vista objetivosao desempenho social das organizações exige uma sistematicamente estabelecidos, toca no âmagonova postura quanto ao modo de gerenciar uma da natureza do fato administrativo e da ação deorganização. Para Almeida (2007), a visão moral que resulta. Administração é a “ação social comdo mundo de um dirigente é referencial importante relação a fins”, com limites e orientação, visto quepara compreender algumas das suas decisões e seleciona e combina meios para atingir objetivos.das suas escolhas entre opções alternativas. Dessa Desse modo, o desempenho administrativo refere-forma, assumindo a ligação entre valores morais se a atividades humanas associadas. Naturalmente,e comportamento, pode estabelecer-se uma é preciso advertir que o caráter associado de taisrelação entre o nível de desenvolvimento moral atividades necessariamente precisa ser explícito.de um dirigente e a orientação social das práticas A associação confere a devida importância aosorganizacionais que ele define e influencia. A gestão elementos estruturais, aos fatores que suscitam aética e o desempenho social das organizações pode formação de grupos informais e de critérios tácitos 90
  • 90. ou não estatutários entre os indivíduos que integram nível de realidade que não pode ser quantificado,a organização. pois trabalha com um universo de significados, Muitas das tarefas do gestor envolvem motivos, aspirações, valores.condutas diferenciadas, entre elas a gestão da Na parte técnica metodológica, utilizar-se-á:responsabilidade social (RS), foco deste estudo. pesquisa exploratória. A pesquisa exploratóriaEsse gestor precisa considerar não só a estrutura permite ao pesquisador aumentar sua experiênciainterna da administração, mas também as relações em torno de determinado problema. O pesquisador,da organização com as outras esferas da vida normalmente, parte de uma hipótese e aprofundasocial. Isso porque, segundo Capra (2002), as seu estudo em uma realidade específica, buscandoorganizações são um sistema que interagem com um maior conhecimento acerca da temáticaoutros sistemas do ambiente social e seus fenômenos, (TRIVINÕS, 1987).como regras de comportamento, valores, intenções, A população pesquisada compreende osobjetivos, estratégias, projetos, relações de poder. atores e organizações que atuam no Núcleo RS/Por um lado são instituições sociais criadas com ACIB, sendo que participaram desta pesquisa 16objetivos específicos, como gerar lucro para os gestores. Para tanto, utilizou-se como instrumentoacionistas, administrar a distribuição do poder de coleta de dados o formulário de entrevista semi-político, transmitir conhecimento ou dissiminar uma estruturada. Segundo Minayo (1994), a entrevista éfé religiosa. Ao mesmo tempo, as organizações são o procedimento mais usual na pesquisa de campo,comunidades de pessoas que interagem umas com e não significa uma conversa despretensiosa. É umas outras para construir relacionamentos, ajudar-se meio de coleta de dados dos fatos relatados pelosmutuamente e tornar significativas suas atividades atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa quenum plano pessoal. Para conseguir administrar uma vivenciam a realidade que está sendo analisada.organização, os gestores precisam saber de modo Ressalta-se que, através das técnicas ou instrumentossuficientemente detalhado como a organização de coletas de dados, seja possível responder aosfunciona, posto que os processos e padrões podem questionamentos desta pesquisa.ser muito complexos. Para tanto, os administradores Após o levantamento dos dados, eles foramprecisam lidar com algumas metáforas: a organizados de maneira coerente, de forma queorganização como uma máquina (voltada para fosse possível responder o problema de pesquisa.o controle e para a eficiência), como organismo Posteriormente foi realizada uma análise qualitativa(desenvolvimento, adaptação), como cérebro em torno deles, indicando os resultados mais(aprendizagem organizativa), como cultura (valores, significativos, que foram apresentados aos gestorescrenças) e como sistema de governo (conflitos de do Núcleo RS/ACIB em uma das reuniões.interesse, poder). Análise dos resultadosMetodologia Os resultados evidenciam os dados das Como método de pesquisa, optou-se pelo entrevistas aplicadas aos atuais gestores de RS de 16Qualitativo, visto que se refere a aspectos da realidade organizações, que foram escolhidas intencionalmentesocial, num recorte sobre o perfil dos gestores da pelo fato de desenvolverem algumas açõesresponsabilidade social, envolvendo os atores, reconhecidas como de responsabilidade socialsuas motivações e percepções sobre a atuação das (RS) no município de Blumenau em Santa Catarinaorganizações às quais pertencem. Muitas respostas (SC). Esse reconhecimento deu-se por meio daforam baseadas no sentimento desses, trazendo participação no Núcleo de Responsabilidade Socialcerta subjetividade aos dados coletados. Segundo da Associação Comercial e Industrial de BlumenauMinayo (1994), a pesquisa qualitativa responde a (Núcleo RS/ACIB) único movimento coletivo quequestões muito particulares, e se preocupa com um fomenta a RS no município. Com relação ao perfil das 91
  • 91. organizações nucleadas, os portes variam de grande que poucas organizações buscam adequar-se às(12 organizações), médio porte (1 organização), normas de RS. Na maioria delas, as ações realizadaspequeno porte (1 organização) e micro empresa (2 não passam por nenhum tipo de acompanhamento,organizações). Salienta-se que destas, 1 é pública, de critérios, ou normas. Implantar uma certificação10 são privadas e 5 são do terceiro setor. Os setores exige mudanças que afetam a estruturade atuação são diversos entre eles: 05 na área de organizacional como um todo. A maioria (93,75%)serviços, 02 na de saúde, 06 na área têxtil, 01 na dos entrevistados afirmou que a RS não é assumidaalimentícia, 01 metal-mecânica e 01 na área gráfica. formalmente como um setor sendo distribuída em Com relação ao desenvolvimento da RS por ações em vários departamentos, somente umaessas organizações, evidenciam-se os projetos de (6,25%) assumem a RS em sua estrutura, através daresponsabilidade social que contemplam o público criação de um departamento específico. A justificativainterno e externo. Dentre os programas sociais e dos entrevistados, quanto a esse quadro alarmante,ambientais, encontram-se: iniciativas voltadas para deve-se ao fato das organizações acreditarem queprevenção e diagnóstico de doenças; ambulatório todos os setores precisam envolver-se com a RS.universitário; atendimento jurídico para a Esse fato, mesmo sendo relativo à abrangência dacomunidade; festas comemorativas (Natal, Páscoa, RS, não justifica a falta de compromisso formal comJunina, etc.); projetos que estimulam o voluntariado este processo.nos colaboradores; programas de treinamento e Outro fator complicador é o baixodesenvolvimento para os colaboradores; segurança envolvimento de colaboradores que atuam nados colaboradores; ginástica laboral; festas e bailes RS, dos entrevistados 43,75% afirmaram que abeneficentes; sistemas de captação de dejetos; condução dos projetos de RS envolve de 1 a 5sistema de separação do lixo; sistema de tratamento colaboradores. Apenas 18,75% ressaltam que háda água utilizada no processo industrial; projetos envolvimento de mais de 10 colaboradores e osvoltados para educação (Aluno Nota 10, Formare, demais (37,5%) não souberam informar o númeroJunior Achievement); projetos voltados aos idosos específico de colaboradores envolvidos com a RS.(cuidadores de idosos, cursos, palestras, viagens); Essa falta de conhecimento comprova novamentecursos de desenvolvimento profissional para a a falta de compromisso da organização para comcomunidade; pacto contra a corrupção; pacto em a RS.defesa dos direitos humanos; apoio para atletas; Quanto ao perfil dos gestores entrevistadoscampanha contra o câncer de mama; ações (Quadro 1), a maioria são mulheres (93,75%)ambientais em geral (limpeza de rios); dentre apenas um (6,25%) são homens, a idade é bastanteoutros. As áreas de atuação são diversas, referem- variada numa concentração (81,25%) de 25 a 40se ao desenvolvimento de projetos e programas de anos, mas com gestores (18,75%) acima de 40 anos.responsabilidade social, contemplando aspectos Com relação ao setor de atuação, observa-se queeconômicos, sociais e ambientais. Todavia, ainda na organização esses se encontram em proporçãopercebe-se um maior direcionamento dos projetos similar de 25% na área de Recursos Humanos,e programas para o público interno, característica Marketing e Administração. Além desses, em menorde organizações que estão em fase inicial do número, mas também em proporção similar (6,25%)processo de RS. Geralmente no início a intenção atuam na área financeira e de projetos, e 6,25%é disseminar junto aos colaboradores as propostas atuam com consultoria prestando serviços externosdessa estratégia, para, posteriormente, atingir o de RS. Verifica-se que os gestores estão distribuídospúblico externo. em áreas distintas. Apenas um (6,25%) dos Destaca-se ainda que dessas organizações entrevistados afirma atuar na área específica de RS.apenas duas possuem certificações de RS, seguindo E ainda um (6,25%) não possuem setor específico deas normas SA 8000 e NBR 16001. Isso demonstra atuação na organização. Este resultado demonstra 92
  • 92. Quadro 1 - Perfil dos Gestores de RS Tempo que atua Motivação para Organizações Sexo Formação Setor Cargo na RS participar da RS Interesse da organização A Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos RS Coordenadora RS implantar e regularizar a RS Interesse da organização B Feminino Comunicação Social De 1 a 7 anos Marketing Assessora implantar e regularizar a RS Criação de grupos C Feminino Administração Mais de 7 anos Marketing Não informou de ações sociais Preenchendo D Feminino Administração De 1 a 7 anos questionário sobre Recursos Humanos Gerente RS Interesse da organização E Feminino Administração De 1 a 7 anos Recursos Humanos Assessora implantar e regularizar a RS Interesse da organização Não possui setor F Feminino Ciências Sociais De 1 a 7 anos Não informou implantar e específico regularizar a RS Criação de grupos G Feminino Comunicação Social De 1 a 7 anos Marketing Assessora de ações sociais Iniciou numa H Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos organização do setor Recursos Humanos Assistente Social privado Práticas individuais e I Masculino Contabilidade De 1 a 7 anos Administração Proprietário doações Criação de J Feminino Serviço Social Mais de 7 anos projetos sociais nas Marketing Gerente organizações Criação de K Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos projetos sociais nas Consultoria Consultor organizações Por indicação da Financeira e de L Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos Assessora organização projetos Interesse da organização M Feminino Pedagogia Mais de 7 anos Recursos Humanos Gerente implantar e regularizar a RS Criação de N Feminino Não informou De 1 a 7 anos projetos sociais nas Administração Gerente organizações Práticas individuais e O Feminino Ciências Sociais Mais de 7 anos Administração Proprietário doações Criação de P Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos projetos sociais nas Administração Proprietário organizaçõesFonte: da pesquisa.que as organizações ainda não incorporaram a Já, com referência aos cargos ocupadosRS como uma estratégia organizacional, visto que pelos entrevistados, os assessores representamnão existem setores específicos de RS e, na maioria 25%; 18,75% são proprietários; 25% são gerentes;das organizações, os gestores estão alocados em em igual quantidade (6,25%) estão os consultores,setores que acumulam funções de RS a outras assistente social e coordenador de RS (único comfunções administrativas da organização, dentre elas cargo específico de RS) e 12,5% não responderamRecursos Humanos e Marketing. essa questão. De tal modo, somente uma das 93
  • 93. organizações tem um cargo de RS, a maioria ao pouco tempo em que desempenham atividadesdas organizações ainda não apresenta essa ligadas a esse processo. Constata-se que em menorpreocupação evidenciando que os gestores da RS proporção (25%) os entrevistados atuam há mais deacumulam funções, não tendo tempo suficiente para 7 anos com RS. Neste caso, os gestores já estãopriorizar as ações e os projetos de RS. Observa-se mais capacitados para o desenvolvimento da RSque, não havendo setor e nem gerência específica, nas organizações em que atuam, bem como estãoa RS fica comprometida pela ausência de comando familiarizados com o tema da RS e suas propostas.e, portanto, organização. Encontraram-se apenas Diante desse quadro, é fundamental que asgestores que assumiram a RS como mais uma organizações revejam a gestão da RS, iniciandoatividade no seu escopo de atuação. A ação dessas pela capacitação e treinamento dos seus gestores.pessoas pode ser um resultado das iniciativas O maior desafio é que, não há uma cultura naspessoais, especialmente devido ao fato de que a organizações em que a responsabilidade social sejamaioria (68,75%) possui formação na área humana e prioritária, como dito, está nas mãos dos gestoressocial, demonstrando conhecimento e envolvimento de RS, que muitas vezes estão iniciando sua atuaçãocom o tema da questão social. Dos entrevistados nessa área, ao mesmo tempo em que iniciam a25% não possuem formação específica na área implantação da RS na organização. Significa que osocial. Um deles (6,25%) não informou. Acredita- processo de implantação ainda é muito novo, cheiose que a concentração de formação na área social de desafios e dúvidas.pode ser um aspecto que motivou o início do Salienta-se que os gestores precisam saberdesenvolvimento da RS nas organizações. detalhadamente como uma organização funciona O início da atuação dos gestores entrevistados para conseguir geri-la (CAPRA, 2002). Da mesmano processo de RS, em sua maioria (31,25%) está forma, os gestores precisam compreender osrelacionado com a necessidade da organização em processos e ações que envolvem a responsabilidadeque trabalham implantar e regularizar o processo social e sua influência na gestão da organização,de RS; mais especificamente, 25% iniciaram sua posto a complexidade de tal processo. A adoçãoatuação com a criação de projetos sociais nas da RS como um processo pelas organizações,organizações; 12,5% quando começaram a implica uma mudança cultural e gerencial.trabalhar em uma organização do setor privado, que Destaca-se a importância de todos na organizaçãodesenvolvia a RS; 6,25% quando responderam um estarem envolvidos com a RS. Por isso, umaquestionário sobre RS e se interessaram pelo tema; reformulação da estrutura organizacional, através12,5% através da criação de grupos que atuam em da criação de setores e de cargos específicosações sociais; e, 12,5% com práticas individuais de RS, pode auxiliar no desenvolvimento dessee doações, indicando, portanto, que não havia processo, principalmente em seu estágio inicial.envolvimento entre estas práticas e sua atuação na Trata-se de uma questão de “organização”, ouorganização. Percebe-se, portanto, que na maioria seja, de estruturar e preparar a organização parados casos, o início da atuação dos gestores na área o desenvolvimento e gestão da RS. Entende-de RS esteve envolvido, de alguma forma, com as se que a falta de uma estrutura adequada paraatividades da organização em que esses trabalham. o desenvolvimento da RS dificulta a atuação ePoucos, entretanto, tiveram motivações pessoais demonstra a falta de poder dos próprios gestores.para iniciar o trabalho nessa área. Isso porque, a RS ainda não é considerada Todavia, o tempo de atuação na área de RS, questão primordial nas organizações. Privilegia-sepor parte dos gestores, ainda é recente. A maioria dos ainda o desenvolvimento de estruturas enxutas eentrevistados (75%) atua com RS de 1 à 7 anos. Desse que maximizem o lucro organizacional. A criaçãomodo, compreende-se que a atuação dos gestores de um departamento de RS, muitas vezes, não écom RS ainda encontra-se em estágio inicial, devido interessante, pois não é um departamento que 94
  • 94. irá agregar diretamente no lucro da organização, Conclusãovisto que não está envolvido com seu objetivoinicial. Como em qualquer processo de mudança As mudanças só irão ocorrer quando os gestores organizacional, a RS também necessita de gestoresdessa área tiverem poder suficiente para alterar as capacitados para tal, uma vez que pela suaestruturas organizacionais. Entretanto, conforme os complexidade exige a participação e controle dedados expostos, a maioria dos gestores entrevistados, muitas pessoas que se envolvem nesse processo.não possui poder de decisão, pois não ocupam A RS promove a participação social numa tentativacargos estratégicos nas organizações. Poucos são os de humanizar a organização, por isso, está fundamentada em comportamentos éticos e moraisproprietários e diretores que se envolvem com esse tipo que exigem postura da gestão. Um fator de risco éde questão. Por isso, entende-se que o caminho ainda sua legitimidade que decorre de um processo deé longo, visto que a RS precisa ser compreendida como gestão garantam a confiança dos envolvidos.uma estratégia, articulada e suportada pelas decisões Com relação ao objeto deste estudo,dos gestores do nível estratégico das organizações. pode-se afirmar que o perfil dos entrevistadosEnquanto for tratada a nível tático e operacional, as é propício para encarar esse desafio, commudanças culturais não ocorrerão, justamente pela destaque para a formação na área humana dafalta de poder nas decisões. maioria, entretanto, esses mesmos gestores ainda Além da reestruturação da organização, não são capacitados, especificamente, na áreaoutro aspecto é a capacitação dos gestores. Por de responsabilidade social, isso pode afetar oser uma área relativamente nova, no contexto desempenho da gestão. A RS é um processo deorganizacional, ainda faltam profissionais gestão que indica investimentos em todas as áreascapacitados em RS. Especialmente, ainda falta de uma organização e já existem na sociedade e noformação nessa área, sendo que muitos cursos mercado experiências em modelos consolidadosde graduação ainda não preconizam esse tipo que podem favorecer sua gestão. Adverte-se quede discussão no currículo. Para tanto, torna- os modelos, certificações, entre outros servem dese necessário o desenvolvimento de cursos de apoio, para evitar riscos, contudo precisam sercapacitação para gestores, que discutam a temática adaptados a cada realidade e exigem discussãoda RS e sua aplicação nas organizações. Além da coletiva para serem ajustados. Outro fatorformação, o tempo de atuação dos gestores na fundamental na formação e atuação específicaárea de RS, ainda é muito recente, denotando falta deve-se ao fator comprometimento e foco dede maturidade e conhecimento do processo. trabalho, fortalecendo o engajamento da equipe Ressalta-se que as organizações possuem limites e dos assistidos. Esse é um empecilho no atualem sua atuação na área social, e o principal deles é o estágio embrionário em que se encontra a RS naseconômico; nos investimentos, ainda preconizam sua organizações estudadas. Os gestores, atualmente,cultura de geração de lucro econômico. No entanto, não contam com um sistema de gestão, compostoas práticas socialmente responsáveis iniciam com a por dados do desempenho social da organização,intenção de contribuir com o bem-estar dos sujeitos, diminuindo dessa maneira seu poder de decisão.e isso pode partir de simples atitudes como, por Além disso, a maioria dos gestoresexemplo, respeito, oferecer um adequado ambiente entrevistados não são os proprietários, diretores dasde trabalho, boa relação entre as pessoas, segurança, organizações, normalmente são colaboradores quedignidade, aceitação das diferenças, participação, acumulam a função de gerir a RS e também outrasentre outros. O amadurecimento dessas práticas funções na organização, como marketing ou recursospelas organizações pode gerar uma nova cultura humanos. Aliado a isso, a maioria são gestoras doorganizacional, em que a RS seja conduzida de forma sexo feminino, demonstrando que a atuação socialestratégica. continua na visão tradicional em que as mulheres 95
  • 95. eram as responsáveis pelas preocupações relativas uma visão aliada as responsabilidades social eao bem-estar. Este não é um fator negativo, mas ambiental podem aproximar ao que preconizaevidencia a falta de envolvimento dos gestores a gestão social. Isto é um desafio ao gestor damasculinos que ainda são a maioria nos cargos RS que necessita conduzir a função social comoestratégicos (presidência e direção) nas organizações incorporada às práticas sociais. Desse modo, devidoestudadas. à complexidade do tema, são necessárias outras Por fim, entende-se que a responsabilidade leituras que possam complementar esta discussão,social conduz a discussão na definição de estratégias por exemplo, novas pesquisas que investiguemorganizacionais. Por isso, a união da gestão adequada o desempenho da responsabilidade social e sua(manutenção mercadológica e econômica) com contribuição nas organizações e na sociedade.ReferênciasALMEIDA, F. J. R. Ética e Desempenho Social das organizações: um Modelo Teórico de Análise dosFatores Culturais e Contextuais. RAC. V. 11, n. 3, p. 105-125, Jul./Set. 2007.BOWEN, H. R. Responsabilidades sociais do homem de negócios com um comentário por F.Ernest Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira SA, 1957.CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002.CARROLL, A. B. The pyramid of corporate social responsibility: toward the moral management oforganizacional stakeholders. Business Horizons. V. 34, n. 4, p. 39-46, Jul./Aug. 1991.DREHER, M. T. Empreendedorismo e responsabilidade ambiental: uma abordagem emempreendimentos turísticos. 2004. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Departamento deEngenharia de Produção e Sistemas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004.DRUCKER, P F. O Melhor de Peter Drucker: o homem, a administração e a sociedade. São Paulo: .Nobel, 2002.ENRIQUEZ, E. Como estudar as organizações locais. In: FISCHER, T. Gestão contemporânea: cidadesestratégicas e organizações locais. Rio de Janeiro: FGV, 1996.FÉLIX, L. F. F. O ciclo virtuoso do desenvolvimento responsável. IN: Responsabilidade social dasempresas: a contribuição das universidades. São Paulo: Peirópolis, Instituto Ethos, 2003.FRIEDMAN, M. Capitalismo e liberdade. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988.HART, S. L.; MILSTEIN, M. B. Criando valor sustentável. RAE Executivo. V. 3, n. 2, p. 65-79, maio/julho2004.INSTITUTO ETHOS. Sobre o Instituto Ethos. Disponível em: <http://www.ethos.org.br>. Acesso em:20 fev. 2008.KRAEMER, M. E. P Responsabilidade social corporativa: uma contribuição das empresas para o .desenvolvimento sustentável. Gestão Ambiental, Itajaí, out. 2005. Disponível em: <http://www.gestaoambiental.com.br/articles.php?id=66>. Acesso em: 19 abr. 2007.MINAYO, M. C. (org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.PRESTON, L. Corporation and society: the search for a paradigm. Journal of Economic Literature, p.435-453, 1975.RAMOS, A. G. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2.ed.Rio de Janeiro: FVG, 1983. 96
  • 96. SETHI, P S. Dimensions of corporate social performance: an analytical framework. California .Management Review. V. 13, n. 3, p. 58-64, 1975.TRIVINÕS, A. N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação.São Paulo: Atlas, 1987.VERGARA, S. C.; BRANCO, P D. Empresa humanizada: a organização necessária e possível. RAE. V.41, .n.2, p.20-30, abr./jun 2001.WOOD, D. J. Corporate social performance revisited. Academy of Management Rewiew. V. 16, n. 4,p. 691-718, 1991. 97
  • 97. Balanço Social: uma análise comparativa entre objetivos propostos na literatura e a realidade empírica Social Balance: comparative analysis between goals proposed in the literature and empirical realityDiocesar Costa de Souza1Marcos Roberto Kuhl2Vicente Pacheco3ResumoO relacionamento das empresas com o meio em que está inserida é cada vez mais discutido, em funçãoprincipalmente da livre concorrência, do efeito globalização e do avanço tecnológico. A sociedade temexigido cada vez mais informações sobre esse relacionamento, e a Contabilidade pode fornecer informaçõesrelevantes por meio do Balanço Social (BS). Os anos 60 e a Guerra do Vietnã foram marcos para ahistória do BS, que no Brasil passou a ser divulgado de forma mais consistente apenas a partir do final dosanos 90, com incentivo do sociólogo Betinho e, segundo o modelo do IBASE. O objetivo deste estudo éverificar quais informações relevantes podem ser extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE, divulgadopelas empresas brasileiras e, principalmente, se a partir dessas informações o BS está conseguindo atingiros principais objetivos propostos na literatura. Os objetivos levantados na literatura, segundo os conceitosdo BS, são demonstrar o resultado da interação da empresa com o meio, refletir o comprometimentocom as necessidades básicas da população e suprir as necessidades de informações de caráter social eecológico. Foram pesquisadas 69 empresas que apresentaram o BS, representando 21% das empresasque divulgam o BS segundo o modelo IBASE, no período selecionado. As informações extraídas dos BSpodem ser consideradas interessantes, mas são pouco relevantes para cumprir os objetivos propostos pelaliteratura. Conclui-se que o modelo IBASE de BS necessita evoluir, contemplando mais informações paraque seja possível atingir aos objetivos que a literatura determina para o BS.Palavras-chave: Balanço Social; Contabilidade Social; Informação Social.AbstractThe relationship of companies with the environment in which it is inserted is increasingly discussed, primarily on thebasis of free competition, the effect of globalization and the technological advancement. Society has demandedmore and more information about this relationship, and Accounting can provide relevant information throughthe Social Balance (BS). The 1960s and the Vietnam War were landmarks in the history of Social Balance, whichin Brazil was reported more consistently only from the middle of 1990, with encouragement from the sociologistBetinho and following the IBASE (Brazilian Institute of Social and Economic Analyses) model. The objective of this1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federaldo Paraná - UFPR, Brasil. Contato: diocesarsouza@yahoo.com.br2 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federaldo Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marcosrobertokuhl@yahoo.com.br3 Professor da Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil.Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de SantaCatarina - UFSC, Brasil. Contato: vpacheco@ufpr.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 12/01/2010 - Aprovado em 07/05/2010
  • 98. study is to ascertain what relevant information can be extracted from the Social Balance, according to the IBASEmodel, issued by Brazilian companies, and especially if based on this information the Social Balance is gettingto achieve the key objectives proposed in the literature. The objectives lifted in the literature, according to theconcepts of the Social Balance, are to demonstrate the result of the company interaction with the environment, toreflect the commitment to the needs of the population and meet the information needs of social and ecologicalcharacter. We searched 69 companies that presented the BS, representing 21% of the companies that reportingthe Social Balance modeled IBASE the selected period. The information obtained from the Social Balance canbe considered interesting, but is little relevant to meet the objectives proposed in the literature. It was concludedthat the IBASE model Social Balance needs to evolve, addressing more information so that you can achieve thegoals that the literature determines for the Social Balance.Key words: Social Balance; Social Accounting; Social Information.1 introdução A responsabilidade social da empresa pode ser resumida como sendo a responsabilidade que O desenvolvimento tecnológico e a abertura ela tem para com o meio em que está inserida,do mercado têm contribuído substancialmente tanto social, como ambiental, ou seja, compreendepara o acirramento da concorrência. Em função a integração entre a empresa e os elementosdisso a população tem se conscientizado, unido e importantes para sua subsistência, sociedadepassou a ter influência na condução da política e da e meio ambiente. Essa responsabilidade advémeconomia, não somente do governo, mas também do fato de que a empresa, enquanto sistemanas empresas que auferem lucros à custa de prejuízos aberto e dinâmico interage com o ambientesociais e ambientais (RIBEIRO, 2005, p. 2). sendo influenciado por ele, mas principalmente Ultimamente é comum ver e ouvir nos meios de influenciando esse meio.comunicação fatos relacionados à responsabilidade A influência que a empresa exerce sobredas empresas com relação ao meio em que estão o meio pode apresentar caráter benéfico, comoinseridas, principalmente quando relacionados aos a geração de emprego, renda, entre outros, masaspectos sociais e ambientais. Segundo Oliveira também pode apresentar caráter maléfico, tal como(2005, p. 3), “Responsabilidade Social ou Sócio - a poluição, desmatamento, bolsões de pobreza,Ambiental de Empresas (RSE) é um tema recente, discriminação de gênero, raça e de idade, saláriosmas de crescente interesse na mídia, empresariado, baixos, dentre outros.academia, governo, e sociedade civil no Brasil”. A grande dificuldade é dimensionar a O indivíduo enquanto pessoa jurídica, é que responsabilidade social das empresas e identificarrealmente pode ser responsabilizado, já que são as o que elas têm feito para retribuir ao meio pelosempresas que mais interagem com o meio em que recursos que esse lhes fornece, ou seja, “[...],estão inseridas, e também são as que mais podem necessário se faz demonstrar o que está sendo feito”fazer frente a essas responsabilidades. (RIBEIRO, 2005, p. 3). Mesmo que se considere que a É na Contabilidade, principalmente aresponsabilidade social das empresas se limita Contabilidade Social, por meio do demonstrativoa gerar empregos e a pagar seus empregados, contábil chamado Balanço Social (BS), que se podemimpostos e remunerar os investidores, conforme fornecer informações relevantes sobre a formadestacado por Tinoco (2002, p. 70), quando diz como as empresas estão retribuindo ao meio. “Asque “Ao nosso juízo, a grande responsabilidade demonstrações contábeis representam o principalsocial das organizações consiste em gerar renda e canal de comunicação entre a sociedade e a empresaemprego, [...]”, a idéia da responsabilidade social das que presta contas à comunidade, sobre sua condutaempresas vai além dessas meras obrigações formais. e estado patrimonial” (RIBEIRO, 2005, p. 3). 100
  • 99. Não existe um padrão formal de apresentação segundo trata da revisão da literatura, a terceira tratadas informações do BS, mas existe um modelo dos aspectos metodológicos, a quarta trata do estudoamplamente reconhecido no Brasil, o modelo do exploratório e a quinta traz as considerações finais.Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas(IBASE). Um número considerável de empresas 2 Revisão da literaturabrasileiras divulga seu BS, segundo este modelo, emuitas outras em outros modelos. 2.1 Contabilidade Social Diante do exposto, a questão que surge ése as informações do BS, modelo IBASE, atingem Segundo a teoria dos sistemas, a empresaos objetivos propostos na literatura para o BS. está inserida dentro do contexto social e ambientalPortanto, o objetivo deste estudo é verificar quais e interage com esse meio. Neste processo deinformações relevantes podem ser extraídas do interação (inter-relação), as empresas causam eBS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas recebem impactos do meio (empregados, sociedade,empresas brasileiras e, principalmente, se a partir ambiente, etc.). Os impactos da empresa sobre odessas informações esse modelo está conseguindo meio, e vice-versa, podem ser tanto de forma positiva,atingir os principais objetivos propostos na literatura. quanto de forma negativa. Mais especificamente, O estudo se justifica pela crescente importância os impactos que a empresa causa sobre o meio,dada à responsabilidade social corporativa (CSR) e principalmente os impactos negativos, são muitopela literatura (McWILLIAMS; SIEGEL; WRIGHT, questionados nos últimos anos, conforme Marques2006; DOH; GUAY, 2006; WADDOCK, 2008; (2004, p. 308) “Os frequentes problemas sociais eentre outros) e, principalmente, pela necessidade ambientais que vêm ocupando a mídia de quasede evidenciação dessa responsabilidade, como todos os países acabaram por atrair a atençãodestacado por Stöström e Welford (2009, p. 281 dos pesquisadores de diversas áreas para o novo– tradução livre): “uma parte crucial da CSR é a contexto”.transparência e a responsabilidade na qual implica A grande dificuldade é dimensionar auma maior ênfase na evidenciação.” responsabilidade social das empresas e identificar Não se pretende com isso diminuir a o que elas têm feito para retribuir ao meio pelosimportância do modelo e da iniciativa do IBASE, mas recursos que ele lhes fornece, ou seja, “[...],contribuir para o debate com vistas ao aprimoramento necessário se faz demonstrar o que está sendo feito”da Ciência Contábil, ao aperfeiçoamento dos meios (RIBEIRO, 2005, p. 3).de evidenciação da contrapartida empresarial A Contabilidade Social surge como umpara a sociedade e ao incentivo às empresas para instrumento capaz de medir esses impactos,divulgarem o BS. Entende-se que a divulgação, gerando, demonstrando e analisando o perfil dasegundo um modelo, pode prejudicar a evidenciação responsabilidade social e ecológica das entidades.de informações ímpares, mas sem um modelo cada Para Lisboa Neto (2003, p. 46), “A contabilidadeempresa fará de uma forma diferente, conforme social é um produto da conscientização, por parte dasapontado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32 – nosso empresas, de sua responsabilidade social”, e paragrifo)em seu estudo: As entidades adotam modelos Marques (2004, p. 308) “a Contabilidade absorveudiferentes e publicam os dados das mais variadas também essas preocupações e vem desenvolvendoformas. Um mesmo indicador é expresso em valores instrumentos para medir os níveis de envolvimentopor algumas organizações, em quantidades físicas e contribuição das organizações à comunidade”.ou percentuais por outras. Isso impossibilita ao Os principais instrumentos que a Contabilidadeusuário fazer comparações entre empresas”. vem desenvolvendo atualmente são: Balanço Social Este estudo está dividido, além desta (BS) e Demonstração do Valor Adicionado (DVA),introdução, em mais quatro partes, sendo que a sendo está última já objeto de regulamentação dos 101
  • 100. critérios de elaboração por meio de Pronunciamento Kroetz (2000, p. 55) afirma que ao final daContábil emitido pelo Comitê de Pronunciamentos década de 70 foram desenvolvidos modelos de BSContábeis (CPC) em outubro de 2008. por americanos, europeus e latino-americanos, Na sequência será dada ênfase apenas ao “seguindo os interesses, particularidades e culturasBS que é o foco principal deste estudo. próprias”. Conceitualmente o “Balanço Social é um2.2 Balanço Social (BS) instrumento de gestão e de informação que visa Em Contabilidade, a denominação Balanço evidenciar, da forma mais transparente possível,dá a noção de equilíbrio, como acontece no Balanço informações econômicas e sociais, do desempenhoPatrimonial, mas que não ocorre no BS. Sendo das entidades, aos mais diferenciados usuários, entreassim, a denominação BS não é a mais precisa para esses os funcionários” (TINOCO, 2001, p. 14).representar o demonstrativo que fornece informações Segundo Lisboa Neto (2003, p. 53):de caráter social, entretanto, a ela já foi incorporadaem nível mundial e, portanto, é adotada também O balanço social é um instrumento de demonstração das atividades das empresas, com ênfase no social,neste estudo. Segundo Kroetz (2000, p. 78), alguns que tem por finalidade transmitir maior transparência eautores entendem “que a expressão utilizada deveria visibilidade às informações que interessam não apenasser relatório de informações sociais, que é mais aos sócios e acionistas das companhias, mas tambémpreciso [...]”. a um número maior de atores: empregados, fornece- Segundo Sá (apud KROETZ, 2000, p. 55), dores, parceiros, consumidores e comunidade.em 1939, a empresa alemã AEG já publicava oBS. Entretanto o período considerado como marco Para Iudícibus et al. (2003, p. 34), “o Balançoinicial do BS no mundo são os anos 60, nos Estados Social busca demonstrar o grau de responsabilidadeUnidos da América, onde a sociedade criticava o social assumido pela empresa e assim prestar contas àgoverno Nixon e as entidades que o apoiavam, sociedade pelo uso do patrimônio público, constituídoem função da Guerra do Vietnã. Nessa época, a dos recursos naturais, humanos e o direito de conviversociedade exigia das empresas uma postura moral e e usufruir dos benefícios da sociedade em que atua”.ética perante os cidadãos por meio do fornecimento Nesses dois conceitos, é possível perceberde informações relativas às relações sociais, dentro dois enfoques distintos. No primeiro, sobressai oe fora das empresas. enfoque de instrumento de gestão e, no segundo, O surgimento e a evolução do BS ao redor destaca-se o enfoque de prestação de contas àdo mundo acompanham a tendência americana, sociedade. Mesmo assim, os dois conceitos não seou seja, a exigência da sociedade por informações contradizem, mas sim se complementam.das empresas com foco nas relações sociais. Na Ainda com relação aos dois conceitos, omaioria dos países a iniciativa da sociedade, ou das primeiro afirma que o BS deve informar aos maispróprias empresas, é que deu origem a divulgação diferentes usuários, enquanto que o segundode informações sociais. No entanto, em alguns destaca a sociedade como principal usuário dessaspaíses ainda impera a determinação legal para que informações. Nesses dois casos, a determinação deessas informações sejam fornecidas à sociedade. usuário é bastante ampla. A primeira abordagem a investigar a Para reduzir essa amplitude Tinoco (2001, p.responsabilidade social de um empreendimento se 34) relaciona alguns usuários que, segundo ele sedeu em 1962, quando o professor Raymond Bauer destacam na utilização do BS:foi encarregado pela Nasa para fazer investigações • Grupos cujos membros de uma formasobre as conseqüências sócio-culturais do programa pessoal e direta trabalham para a empresaespacial (Amorin apud KROETZ, 2000, p. 54). – os trabalhadores; 102
  • 101. • Grupos que se relacionam com a empresa • Abranger o universo das interações sociais – os clientes, pois de sua confiança vive a entre: clientes, fornecedores, associações, empresa; governo, acionistas, investidores, universi- • Acionistas que aportam recursos a empresas; dade e outros; • Sindicatos dos trabalhadores; • Apresentar os investimentos no desenvolvi- mento de pesquisas e tecnologias; • Instituições financeiras, fornecedores e credores; • Formar um banco de dados confiáveis para análise e tomada de decisão dos mais di- • Autoridades fiscais, monetárias e versos usuários; trabalhistas, o Estado; • Ampliar o grau de confiança da sociedade • Comunidade local; na entidade; • Pesquisadores, professores, todos os • Contribuir para a implementação e manu- formadores de opinião. tenção de processos de qualidade, sendo Por fim, os conceitos destacados acima definem a própria demonstração do Balanço Socialcomo objetivo do BS a prestação de informações um parâmetro para tal;sociais à sociedade. Também neste caso, a amplitudeé um fator restritivo. Segundo Kroetz (2000, p. 79), o • Medir os impactos das informações apre-BS tem como objetivo genérico suprir as necessidades sentadas no Balanço Social perante a co-de apresentação de informações de caráter social e munidade dos negócios; no amanha daecológico. Na sequência, esse objetivo genérico é entidade; na marca/godwill, na imagemtratado de forma mais especifica. do negócio; Para Iudícibus et al. (2005, p. 33) e Pinto • Verificar a participação do quadro funcio-e Ribeiro (2004, p. 24), independente da sua nal no processo de gestão (fase da gestãoformatação, o BS deve ter por objetivo demonstrar participativa);o resultado da interação da empresa com o meio • Servir de instrumento para negociações la-em que está inserida, ressaltando-se os aspectos borais entre a direção da entidade e sindi-de recursos humanos, contribuição para o catos ou representantes dos funcionários;desenvolvimento econômico e social, ambientais econtribuições para a cidadania. Para Lisboa Neto • Melhorar o sistema de controle interno,(2003, p. 63), “o balanço social tem como objetivo permitindo qualificar o ambiente organi-geral suprir as necessidades de apresentação de zacional, numa perspectiva de confirmar ainformações de caráter social e ecológico”. regularidade da gestão identificada com o Sob o aspecto de benefícios e contribuições gerenciamento social;à sociedade, o BS pode refletir o comprometimento • Clarificar os objetivos e as políticas admi-da empresa com as necessidades básicas da nistrativas, julgando a administração nãopopulação, mediante investimentos voluntários nas apenas em função do resultado econômi-diferentes áreas (PINTO; RIBEIRO, 2004, p. 27). co, mas também dos resultados sociais. Para Kroetz (2000, p. 79) o BS, tem como objetivos: Esses objetivos podem ser chamados de • Revelar, conjuntamente com as demais de- objetivos específicos, que têm por finalidade monstrações contábeis, a solidez da estraté- auxiliar no sentido de que os objetivos gerais sejam gia de sobrevivência e crescimento da enti- atingidos. dade; A partir das considerações apresentadas, é • Evidenciar, com indicadores, as contribui- possível determinar quais são os principais objetivos ções à qualidade de vida da população; do BS: demonstrar o resultado da interação da 103
  • 102. empresa com o meio; refletir o comprometimento No tocante ao método de tratamento ecom as necessidades básicas da população e; análise dos dados, será usada apenas estatísticasuprir as necessidades de informações de caráter descritiva.social e ecológico. Dentro do BS, é comum observar valores 3.3 Seleção da amostrarelativos ao total de valor adicionado pela empresa A amostra selecionada corresponde aose a distribuição desse valor adicionado. Esses Balanços Sociais divulgados em 2004 e 2005,valores são encontrados na Demonstração do respectiva e concomitantemente, por empresasValor Adicionado (DVA), que é um demonstrativo brasileiras, disponíveis no banco de dados donão obrigatório, segundo a legislação brasileira, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicasvigente em 2007, mas com critérios de elaboração (IBASE), disponível em www.ibase.org.br ou www.regulamentos pelo CPC a partir de 2008. balancosocial.org.br. Optou-se por utilizar dois anos, para se poder evidenciar a evolução das3 Aspectos metodológico informações, mesmo que superficialmente, ao menos em termos monetários, já que em termos3.1 Caracterização do Estudo qualitativos apenas o último já seria suficiente. A escolha dos anos de 2004 e 2005, e não Segundo Collis e Hussey (2005, p. 23), 2007 e 2008 (os mais recentemente divulgados),os tipos de pesquisa podem ser classificados de não prejudica os resultados obtidos porque aacordo com: sistemática utilizada e as informações obtidas • O objetivo da pesquisa - os motivos pelos atualmente seriam praticamente as mesmas, com quais você a está realizando; exceção dos resultados econômico-financeiros, no • O processo da pesquisa - a maneira pela entanto, isso provavelmente será objeto de estudo qual você coletará e analisará seus dados; futuro com caráter comparativo. Comparando os modelos do BS do IBASE em 2004/2005, e em • A lógica da pesquisa - se você está se 2007/2008, não se visualiza qualquer diferença movendo do geral para o específico ou em termos de estrutura. vice-versa; Das aproximadamente 330 empresas • O resultado da pesquisa - se você está que disponibilizavam seus balanços sociais, tentando resolver um determinado no final de 2006, no banco de dados do problema ou fazer uma contribuição geral IBASE, apenas 116 divulgaram os mesmos nos para o conhecimento. dois anos selecionados para estudo, o que Então, quanto ao objetivo, trata-se de corresponde a aproximadamente 35% do totalpesquisa exploratória; quanto ao processo da de empresas com BS disponível no site do IBASE.pesquisa: qualitativa; quanto ao resultado da Depois dessa seleção inicial, foram excluídaspesquisa: aplicada; quanto à lógica da pesquisa: da amostra 3 empresas, sendo uma por nãoindutiva. apresentar os valores de receita líquida e outras 2 por não apresentar indicadores externos.3.2 Métodos Também foi excluído o BS da Petrobras, já que Quanto aos métodos, a pesquisa pode ser ela apresentava valores que correspondiam, naclassificada como bibliográfica e documental. maioria dos casos, a mais de 30% do total deQuanto ao horizonte de tempo tem-se um estudo todas as empresas, fato que poderia distorcer aslongitudinal. Quanto ao método da coleta de análises. Nesse momento a amostra totalizavadados, tratam-se de dados secundários. 112 empresas, ou seja, 33,94% do universo. 104
  • 103. A receita líquida das 112 empresas de 4,94%. Como os dados serão comparadoscorrespondia a aproximadamente 15,3% do Produto em relações percentuais pequenas diferençasInterno Bruto (PIB) no ano 2004 e aproximadamente apresentadas pelas taxas não apresentarão15,9% do PIB de 2005. Um parâmetro melhor discrepâncias relevantes nas análises.para demonstrar a importância da amostra é opercentual do valor adicionado em relação ao PIB, 4 Estudo exploratóriomas apenas 69 empresas divulgaram esse valor esua distribuição nos dois anos, concomitantemente. 4.1 Demonstração dos dados preliminaresNesse caso, a proporção foi aproximadamente 6,7%em 2004 e 7,3% em 2005. A proporção da receita O modelo de BS divulgado pelo IBASElíquida em relação ao PIB, apenas das 69 empresas pode ser observado no sitio eletrônico do instituto.que restaram na amostra, foi de 11,7% em 2004, Ele possui algumas divisões. Em uma delas estãoe 12,1% em 2005. A amostra final corresponde a os dados que servirão como base de cálculo dosaproximadamente 21% do universo de empresas percentuais. Os percentuais auxiliam a comparaçãoque divulgavam o BS pelo modelo IBASE. de ano para ano e até de empresa para empresa, Para o presente estudo será considerado que mas sempre mantidas as precauções necessáriasa inflação no período foi de 5%, já que segundo quando se fazem comparações.a FGV (IPC-DI), o DIEESE (ICV), a FIPE (IPC e o Num primeiro momento, foram extraídasIPCA) e o IBGE (INPC) a inflação foi de 4,93%, algumas informações da comparação entre os4,53%, 4,52%, 5,05% e 5,69, respectivamente, dados informados em 2004 e em 2005, conformeo que resulta em uma média aritmética simples Quadros 1 e 2.Quadro 1 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2004. 2004 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. % da RL % do VA % do RO % da FPB Receita Líquida (RL) 270.254.530 226,9% 574,1% 801,4% Valor adicionado (VA) 119.090.596 44,1% 253,0% 353,1% Resultado Operacional (RO) 47.072.971 17,4% 39,5% 139,6% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 33.722.818 12,5% 28,3% 71,6% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.236.593 0,8% 1,9% 4,8% 6,6% Encargos sociais compulsórios 7.292.570 2,7% 6,1% 15,5% 21,6% Previdência privada 1.659.303 0,6% 1,4% 3,5% 4,9% Saúde 1.453.112 0,5% 1,2% 3,1% 4,3% Segurança e medicina no trabalho 179.309 0,1% 0,2% 0,4% 0,5% Educação 66.390 0,0% 0,1% 0,1% 0,2% Cultura 26.842 0,0% 0,0% 0,1% 0,1%Capacitação e desenvolvimento profissional 341.887 0,1% 0,3% 0,7% 1,0% Creches ou auxílio-creche 118.746 0,0% 0,1% 0,3% 0,4% Participações nos lucros ou resultados 2.527.668 0,9% 2,1% 5,4% 7,5% Outros 581.657 0,2% 0,5% 1,2% 1,7% Total – Ind. Sociais Internos 16.484.077 6,1% 13,8% 35,0% 48,9% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 254.258 0,1% 0,2% 0,5% 0,8% Cultura 238.371 0,1% 0,2% 0,5% 0,7% Saúde e saneamento 184.693 0,1% 0,2% 0,4% 0,5% Habitação 34 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Esporte 77.177 0,0% 0,1% 0,2% 0,2% Lazer e diversão 230 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Creches 40 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Alimentação 1.296 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Combate à fome e seg. alimentar 89.902 0,0% 0,1% 0,2% 0,3% Outros 511.995 0,2% 0,4% 1,1% 1,5% Total das contribuições para a 1.357.996 0,5% 1,1% 2,9% 4,0% Sociedade (continua) 105
  • 104. (continuação) 3. Indicadores Sociais Externos Tributos (excluídos enc. sociais) 51.394.044 19,0% 43,2% 109,2% 152,4% Total – Ind. Sociais Externos 52.752.040 19,5% 44,3% 112,1% 156,4% Governo 45.671.655 16,9% 38,4% 97,0% 135,4% Colaboradores 29.309.389 10,8% 24,6% 62,3% 86,9% Acionistas 13.553.756 5,0% 11,4% 28,8% 40,2% Terceiros 12.593.447 4,7% 10,6% 26,8% 37,3% Retido 17.962.349 6,6% 15,1% 38,2% 53,3% Total - Valor Adicionado 119.090.596 44,1% 100,0% 253,0% 353,1%Quadro 2 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2005. 2005 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. % da RL % do VA % do RO % do FPB Receita Líquida (RL) 308.796.391 220,1% 563,5% 822,1% Valor adicionado (VA) 140.281.359 45,4% 256,0% 373,5% Resultado Operacional (RO) 54.804.369 17,7% 39,1% 145,9% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 37.560.001 12,2% 26,8% 68,5% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.499.648 0,8% 1,8% 4,6% 6,7% Encargos sociais compulsórios 8.201.937 2,7% 5,8% 15,0% 21,8% Previdência privada 1.780.088 0,6% 1,3% 3,2% 4,7% Saúde 1.748.144 0,6% 1,2% 3,2% 4,7% Segurança e medicina no trabalho 188.631 0,1% 0,1% 0,3% 0,5% Educação 69.824 0,0% 0,0% 0,1% 0,2% Cultura 23.272 0,0% 0,0% 0,0% 0,1%Capacitação e desenvolvimento profissional 474.958 0,2% 0,3% 0,9% 1,3% Creches ou auxílio-creche 137.129 0,0% 0,1% 0,3% 0,4% Participação nos lucros ou resultados 3.582.123 1,2% 2,6% 6,5% 9,5% Outros 606.636 0,2% 0,4% 1,1% 1,6% Total – Ind. Sociais Internos 19.312.390 6,3% 13,8% 35,2% 51,4% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 207.062 0,1% 0,1% 0,4% 0,6% Cultura 303.349 0,1% 0,2% 0,6% 0,8% Saúde e saneamento 318.989 0,1% 0,2% 0,6% 0,8% Habitação 0 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Esporte 77.103 0,0% 0,1% 0,1% 0,2% Lazer e diversão 1.379 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Creches 5 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Alimentação 31 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Combate à fome e seg. alimentar 275.155 0,1% 0,2% 0,5% 0,7% Outros 1.081.277 0,4% 0,8% 2,0% 2,9%Total das contribuições para a Sociedade 2.264.350 0,7% 1,6% 4,1% 6,0% Tributos (excluídos enc. sociais) 65.191.916 21,1% 46,5% 119,0% 173,6% Total – Ind. Sociais Externos 67.456.266 21,8% 48,1% 123,1% 179,6% 4. Destinação do valor adicionado Governo 56.758.181 18,4% 40,5% 103,6% 151,1% Colaboradores 33.174.087 10,7% 23,6% 60,5% 88,3% Acionistas 15.625.726 5,1% 11,1% 28,5% 41,6% Terceiros 13.662.911 4,4% 9,7% 24,9% 36,4% Retido 21.060.454 6,8% 15,0% 38,4% 56,1% Total - Valor Adicionado 140.281.359 45,4% 100,0% 256,0% 373,5% A partir dos quadros 1 e 2, é possível • Nos indicadores de investimento socialidentificar, dentre outros pontos, que: externo existe um aumento significativo • Nos dados econômicos e financeiros, na proporção com os dados econômicos com exceção da folha de pagamento, os e financeiros, principalmente nos valores demais valores mantêm uma proporção referentes a tributos. praticamente estável de um ano para outro; • Na destinação do valor adicionado ocorreu • As empresas mantêm um padrão de um aumento na parcela do governo investimento social interno em relação aos em comparação com todos os dados dados econômicos e financeiros; econômicos e financeiros. 106
  • 105. No Quadro 3, é possível identificar, dentre • Os valores econômicos e financeirosoutros pontos, que: aumentaram de 2004 para 2005, mesmoQuadro 3 – Variação do investimento social interno e externo. 2004 2005 VARIAÇÃO 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. Em mil R$. Normal Corrigido Receita Líquida (RL) 270.254.530 308.796.391 14,26% 8,82% Valor adicionado (VA) 119.090.596 140.281.359 17,79% 12,18% Resultado Operacional (RO) 47.072.971 54.804.369 16,42% 10,88% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 33.722.818 37.560.001 11,38% 6,07% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.236.593 2.499.648 11,76% 6,44% Encargos sociais compulsórios 7.292.570 8.201.937 12,47% 7,11% Previdência privada 1.659.303 1.780.088 7,28% 2,17% Saúde 1.453.112 1.748.144 20,30% 14,57% Segurança e medicina no trabalho 179.309 188.631 5,20% 0,19% Educação 66.390 69.824 5,17% 0,16% Cultura 26.842 23.272 -13,30% -17,43% Capacitação e desenvolvimento profissional 341.887 474.958 38,92% 32,31% Creches ou auxílio-creche 118.746 137.129 15,48% 9,98% Participações nos lucros ou resultados 2.527.668 3.582.123 41,72% 34,97% Outros 581.657 606.636 4,29% -0,67% Total – Ind. Sociais Internos 16.484.077 19.312.390 17,16% 11,58% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 254.258 207.062 -18,56% -22,44% Cultura 238.371 303.349 27,26% 21,20% Saúde e saneamento 184.693 318.989 72,71% 64,49% Habitação 34 0 -100,00% -100,00% Esporte 77.177 77.103 -0,10% -4,85% Lazer e diversão 230 1.379 499,57% 471,01% Creches 40 5 -87,50% -88,10% Alimentação 1.296 31 -97,61% -97,72% Combate à fome e seg. alimentar 89.902 275.155 206,06% 191,49% Outros 511.995 1.081.277 111,19% 101,13% Total das contribuições para Sociedade 1.357.996 2.264.350 66,74% 58,80% Tributos (excluídos enc. sociais) 51.394.044 65.191.916 26,85% 20,81% Total – Ind. Sociais Externos 52.752.040 67.456.266 27,87% 21,78%4. Destinação do valor adicionado Governo 45.671.655 56.758.181 24,27% 18,36% Colaboradores 29.309.389 33.174.087 13,19% 7,80% Acionistas 13.553.756 15.625.726 15,29% 9,80% Terceiros 12.593.447 13.662.911 8,49% 3,33% Retido 17.962.349 21.060.454 17,25% 11,66% Total - Valor Adicionado 119.090.596 140.281.359 17,79% 12,18% quando desconsiderados os efeitos a um investimento baixo em 2004 para um inflacionários; investimento maior em 2005, mas que não • Os investimentos em indicadores representa nada em relação aos dados sociais internos também aumentaram, econômicos e financeiros; principalmente na capacitação profissional • O aumento representativo no item outros e na participação nos lucros e resultados, dos indicadores sociais externos deriva mas os investimentos em cultura caíram do fato de que algumas empresas não significativamente; subdividiram seus valores nos demais itens, • Os investimentos em indicadores sociais ficando sobrecarregado esse item; externos aumentaram mais que os internos, • A destinação do valor adicionado deixa principalmente no combate à fome e claro que houve um aumento na parcela segurança alimentar. O aumento exagerado destinada ao governo, superior aos demais, do investimento em lazer e diversão se deve e, conjuntamente com o aumento da 107
  • 106. parcela retida do valor adicionado reduziu Nos Quadros 2, 3 e 4 estão demonstrados os as parcelas dos colaboradores, acionistas dados acumulados extraídos do BS publicado pelas e terceiros. 69 empresas da amostra. Alguns desses dados foram O quadro 4 destaca os indicadores do corpo simplesmente somados, outros foram incorporadosfuncional. aos dados pré-existentes. Diante desses, dados éQuadro 4 – Variação dos indicadores do corpo funcional. 2004 2005 5. Indicadores do Corpo Funcional VARIAÇÃO Unidades % Unidades % Nº de empregados(as) ao final do período 477.123 499.963 4,79% Nº de admissões durante o período 82.927 17% 101.882 20% 22,86% Nº de empregados(as) terceirizados(as) 139.835 29% 156.686 31% 12,05% Nº de estagiários(as) 24.235 5% 23.716 5% -2,14% Nº de empregados(as) acima de 45 anos 93.101 20% 98.328 20% 5,61% Nº de mulheres que trabalham na empresa 166.361 35% 179.780 36% 8,07% Nº de mulheres em cargos de chefia 49.464 10% 54.824 11% 10,84% Nº de negros(as) que trabalham na empresa 57.299 12% 67.313 13% 17,48% Nº de negros em cargos de chefia 6.398 1% 8.013 2% 25,24% Nº portadores de defic. ou necessidades especiais 8.795 2% 9.240 2% 5,06% % de cargos de chefia ocupados por mulheres 29,73% 30,50% % de cargos de chefia ocupados por negros(as) 11,17% 11,90%Relação maior / menor remuneração da empresa 30,49 7,60 23,32% Número total de acidentes de trabalho  101,65 120,98 19,02% RL p/empregado 566,43 617,64 9,04% VA p/empregado 249,60 280,58 12,41% RO p/empregado 98,66 109,62 11,11% FPB p/empregado 70,68 75,13 6,29% VA destinado aos colaboradores p/empregado 61,43 66,35 8,02% No Quadro 4, é possível identificar, dentre possível visualizar algumas das informações que o BSoutros pontos, que: divulgado segundo o Modelo IBASE pode fornecer • Houve um aumento no número de pessoas aos usuários, primordialmente à sociedade em que empregadas, haja vista o aumento de está inserida. Os dados crus normalmente não têm pessoas empregadas no final do período e muito a dizer, mas quando analisados em conjunto, o número de contratações; comparados com outras empresas, acumulados com • Houve um aumento significativo de negros os de outras empresas ou conjugados com outros em relação ao total de pessoas empregadas dados podem fornecer informações pertinentes a e principalmente um aumento de negros quem analisa este demonstrativo contábil. em cargos de chefia; 4.2 Análise complementar dos dados • O número de mulheres empregadas em relação ao total também aumentou, bem Um dos objetivos do presente estudo era como sua participação em cargos de verificar quais informações relevantes podem ser chefia; extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas empresas brasileiras. Esse objetivo • A relação homens/mulheres manteve-se foi atingido em grande parte, conforme visto no pouco acima de 1/3 nos dois anos e a item 4.1 deste estudo. Alguns pontos não foram relação de mulheres em cargos de chefia analisados, tais como os indicadores ambientais, ficou pouco abaixo de 1/3 nos dois anos; que em muitas empresas não foram informados • A relação entre o maior e o menor salário e que não leva o leitor a conclusões relevantes, aumentou significativamente nos dois anos, da forma como está estruturado. Outro ponto demonstrando o distanciamento entre as que foi demonstrado e analisado apenas em uma classes sociais. pequena parte são as informações relevantes 108
  • 107. quanto ao exercício da cidadania empresarial, em facilmente identificáveis, como por exemplo, osque são relatados apenas dados não qualitativos recursos naturais, o direito de exploração de umae muito restritos, contribuindo apenas para um atividade poluidora, a dependência local pelaposicionamento superficial quanto às políticas de empresa, entre muitos outros.cidadania da empresa. O BS segundo o modelo IBASE não chega O outro, e principal objetivo, era verificar se o da demonstrar a interação da empresa com o meio,modelo IBASE consegue atingir os objetivos propostos mas apenas destaca alguns pontos dessa interação.na literatura. Em função disso, foram definidos que Existe a necessidade de outras informaçõesos objetivos que serão utilizados no presente estudo quantitativas e qualitativas, para que seja possívelsão aqueles objetivos gerais evidenciados nas estabelecer se existe um relacionamento dedefinições do BS, ou seja, demonstrar o resultado interação entre a empresa e o meio.da interação da empresa com o meio, refletir o Para que o BS demonstrasse toda a interaçãocomprometimento com as necessidades básicas da entre a empresa e o meio, seriam necessários muitopopulação e suprir as necessidades de informações mais dados dos que hoje são apresentados e muitosde caráter social e ecológico. Justifica-se esta escolha além daqueles dos que hoje estão disponíveis nasporque os objetivos específicos são originados dos empresas. Não se pretende que o BS evidencieobjetivos gerais e, portanto, para que os objetivos todas as informações que os usuários por venturagerais estejam sendo alcançados, é necessário que venham a necessitar, mas que o atual volumealguns dos objetivos específicos à eles pertinentes de informações seja implementado, fornecendotambém estejam sendo alcançados. subsídios mais consistentes para que se possa Na sequência, são analisadas as informações demonstrar a interação da empresa com o meio.obtidas dos Balanços Sociais segundo o modelo Nesse ponto, além de muitas outras sugestõesIBASE à luz de cada um dos três objetivos, tentando que cada usuário do BS poderia ter, sugere-se que aoidentificar se o BS realmente fornece informações menos ficasse evidenciado os patrocínios a equipessuficientes para atender aos objetivos. Não se esportivas e a eventos culturais, as contribuiçõespretende esgotar o assunto, mas apenas levantar para implementação e/ou manutenção de escolasalguns pontos considerados pertinentes para o e hospitais, indicação de pessoas beneficiadasdesenvolvimento da ciência contábil. Para iniciar esta por programas implementados ou apoiados peladiscussão, seria extremamente importante conhecer empresa, etc. Por exemplo, a implantação de umas necessidades de informações dos usuários do BS, centro cultural pode gerar lazer e cultura para amas como isso não é possível e não é o objetivo sociedade.desse estudo, assumiremos que o conhecimento b) Refletir o comprometimento com asdestas necessidades é no mínimo aquilo que os necessidades básicas da populaçãoautores deste estudo percebem. Supondo que as necessidades básicas daa) Demonstrar o resultado da interação da população sejam no mínimo, conforme relaciona aempresa com o meio Constituição Brasileira, ou seja, moradia, vestuário, Por interação da empresa com o meio alimentação, saúde, higiene, educação, lazer, etc.,entende-se como a ação recíproca entre ambos, é possível destacar que alguns pontos são maisou seja, o meio fornece para a empresa os recursos privilegiados pelas empresas que outros, comonecessários para sua subsistência e esta devolve é o caso do investimento interno em capacitaçãoao meio os recursos necessários para compensá- profissional e na participação nos lucros oulo. Os salários pagos aos funcionários, os tributos resultados.pagos e os lucros distribuídos são formas de O modelo do IBASE não contempla todos osretribuir ao meio pelos recursos disponibilizados. itens que a Constituição chama de ‘necessidadesMas existem outros recursos que não são básicas da população’. Com relação apenas aos 109
  • 108. dados destacados no modelo IBASE, em sua maioria, c) Suprir as necessidades de informações demanteve os mesmos patamares nos dois períodos caráter social e ecológicoanalisados, em relação à receita líquida ou ao Como não se conhece as informações queresultado operacional, refletindo que não houve um os usuários necessitam, é difícil saber como supri-comprometimento adicional com as necessidades la, mas, imaginando que também somos usuáriosbásicas da população, mas apenas um incremento dessas informações, então é possível inferir queem pontos específicos, como é o caso dos tributos. o BS não supre as necessidades de informações A carência de investimentos foi destacada no de caráter social, fornecendo apenas algumasestudo de Pinto e Ribeiro (2004, p. 29) “Investimentos informações incipientes. Quanto às informaçõescom vistas a atender às necessidades básicas ecológicas, é possível afirmar que praticamentedos trabalhadores, tais como: educação, saúde, inexistem, já que dos poucos dados relativos a essetransporte, lazer etc.; políticas voltadas à valorização, tema no modelo estes não são informados pelaao desenvolvimento profissional e reconhecimento maioria das empresas. Entende-se que suprir nãodo trabalho dos empregados, foram informados seja em caráter totalitário, mas sim em um nível quepela minoria das empresas examinadas”. possa ser considerado no mínimo satisfatório. Uma dificuldade que surge nesse ponto é Seria extremamente relevante que asdefinir qual o nível que os indicadores precisam empresas divulgassem informações sobre o total deatingir para refletir o comprometimento da empresa. investimentos em projetos sociais e de recuperaçãoApenas destinar algum numerário para rubricas ambiental segregados, dando condições de suprirque fazem parte das necessidades básicas da algumas necessidades de informações. Para Graypopulação não representa o comprometimento da (2001, p. 14), “Nós devemos urgentemente mudarempresa com estas. Mas o que pode refletir o nível nossa atenção para os problemas de como reportarde comprometimento? Talvez o nível de informações a sustentabilidade, e especialmente para assunto deque as empresas podem fornecer atualmente ainda justiça social. Neste caso, eu temo, o passado temnão chegue a refletir esse comprometimento, mas pouco a nos ensinar” (tradução livre).com certeza, apenas os dados que constam doBS, segundo o modelo IBASE, estão muito aquém d) Considerações sobre os objetivosdaquilo que se torna necessário para esbarrar de As informações disponíveis no BS, queleve na reflexão do comprometimento. na maioria dos casos é informada em valores Nesse ponto, muitas ações que não geram monetários (absolutos ou relativos) deixam a desejardesembolsos diretos podem ser incluídas para pela falta de outras informações não monetárias,demonstrar o comprometimento da empresa para que forneçam dados adicionais para umacom as necessidades básicas da população. análise mais efetiva. Mazzioni, Oliveira e TinocoA demonstração da evolução do nível de (2006, p. 9) identificaram as informações queescolaridade dos colaboradores, enquanto devem ser priorizadas na divulgação do BS. Osfuncionários da empresa, pode dar indícios do mesmos autores (2006, p. 11) indicam que o BS écomprometimento com a educação. O incentivo, um instrumento voltado a evidenciar as ações que ase talvez até a destinação de parte da carga horária empresas tomam, com destaque para os seguintesdos colaboradores, para a realização de trabalho grupos, prioritariamente:voluntário pode dar sinais do comprometimento a) Responsabilidade social: não seda empresa com o lazer, saúde, etc. A promoção trata de fazer filantropia apenas, ouou o incentivo de programas assistenciais podem doações caritativas, mas assumir umdemonstrar o comprometimento da empresa com posicionamento social responsável ea moradia, a alimentação, etc. de elevada cidadania; 110
  • 109. b) Recursos humanos: o modo pelo em detrimento de dados qualitativos, e a carência qual a organização se relaciona de mais informações concretas necessárias para com os empregados da instituição; a atender aos anseios da sociedade. preservação de direitos individuais e Não se pretende, em hipótese alguma, coletivos; remuneração e benefícios desmerecer o trabalho realizado pelo IBASE e nem concedidos; pessoas ocupadas no tampouco o modelo por ele utilizado, até porque fim de cada exercício: por categoria, sexo, instrução, idade, estado civil alguma informação ainda é melhor que nenhuma e raça; formação profissional e e trata-se de uma iniciativa louvável. No entanto, desenvolvimento contínuo; o que se pretende é retomar o debate em relação c) Valor agregado: evidenciar a riqueza às informações que as empresas geram para o gerada e de que maneira é distribuída; meio em que estão inseridas e se essas informações d) Meio ambiente: projetos e ações de podem atender aos objetivos propostos na literatura, proteção, recuperação e melhoria buscando sempre a evolução da ciência contábil. do meio; indicadores ambientais e Os autores do modelo IBASE idealizaram o socioeconômicos do desempenho BS e seus objetivos a partir de informações que lhes sustentável; eram pertinentes à época. Passados vários anos, e) Outros: informações para suporte ao desde que o sociólogo Betinho iniciou seu trabalho processo decisorial, dados sobre a em prol da implantação do BS no Brasil e que os satisfação e insatisfação social dos Balanços Sociais são evidenciados pelo modelo diferentes agentes econômicos em proposto, com as alterações que já se sucederam, relação ao desempenho da entidade, torna-se necessário um novo upgrade do modelo, a participação dos empregados no com vistas ao fornecimento de informações mais processo decisório. consistentes. Segundo Oliveira (2005, p. 15), “O Freire, Botelho e Nunes (2001, p. 28) e aprimoramento contínuo do Modelo IBASE de BSKroetz (2001, p. 60-61) já identificavam modelos (já foram feitas algumas revisões ao longo dospara o BS tentando suprir algumas das falhas do anos) tem permitido a introdução de mais variáveismodelo IBASE. Nesses modelos as informações que quantitativas e qualitativas. Espera-se que no futurohoje constam do modelo IBASE eram previstas, além as comparações possam ser feitas com melhoresde informações adicionais, chegando os primeiros parâmetros e informações mais confiáveis”.a sugerir uma ponderação dos indicadores pelas Mesmo quando o BS é divulgado em outroopiniões dos usuários. padrão, as empresas não conseguem abranger um número satisfatório de informações, conforme6 Considerações finais destacado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32), “À luz dos conceitos estudados, considera-se que O BS é uma ferramenta importante para a o conteúdo dos Balanços Sociais é bastanteevidenciação do comprometimento das empresas insatisfatório. Nenhum dos indicadores foicom a sociedade, além do compromisso legal. Para informado pela unanimidade das empresas. MuitasOliveira (2005, p.3), “O Balanço Social, [...], surge informações relevantes não foram evidenciadas emcomo uma das principais ferramentas para sintetizar e nenhum balanço”. Os mesmos autores sugeremdisponibilizar as informações sobre como a empresa que o modelo IBASE contenha ainda uma série devem trabalhando as questões sócio-ambientais”. outras informações.No entanto, Ainda é incipiente para atingir aos Portanto, é possível considerar que asobjetivos propostos na literatura, se apresentado informações fornecidas atualmente pelas empresaspelas empresas, conforme o modelo do IBASE, não atingem o nível desejado, de acordo com osexistindo a supremacia de dados quantitativos, objetivos encontrados na literatura. Muitas coisas 111
  • 110. precisam ser implementadas, mas esbarram em atingimento pleno dos objetivos apenas indicadiversas dificuldades. Por outro lado coisas simples que existe a necessidade de uma melhoria napodem ser implementadas e evidenciadas, como, qualidade das informações nele disponibilizadaspor exemplo, o nível de escolaridade, que poderia ser e que os objetivos propostos podem ser atingidosevidenciado simplesmente informando o percentual com melhorias incrementais nos modelos atuais.de funcionários analfabetos, com o primeiro grau Este estudo apresenta algumas limitações,incompleto, o primeiro grau completo, e assim por dentre as quais a adoção apenas do modelo IBASEdiante. Além disso, qual o percentual de funcionários para análise, a limitação dos objetivos apenasque melhoraram seu grau de escolaridade durante nos três propostos na definição do BS, o númeroo tempo em que esteve empregado na empresa e de empresas, o número de períodos, a utilizaçãocomo a empresa participou dessa evolução. de períodos não recentes e o número limitado de Um fato que parece consenso para maioria sugestões para aprimoramento do modelo de BS.dos autores pesquisados, com pequenas variações Por outro lado, confirmou-se que o BS, segundoentre eles, é que a divisão do BS usada no modelo o modelo IBASE, precisa evoluir, conforme já vemIBASE deveria ser diferente, usando ao invés de ocorrendo, e que cabe aos pesquisadores da ciênciaindicadores sociais internos e externos, indicadores contábil contribuir nesse processo.ambientais e indicadores de quadro funcional, Como sugestões para futuros estudos,para indicadores laborais, sociais, ambientais e do indicam-se:corpo funcional, além de informações adicionais • Ampliar o estudo para outros modelos detais como lucro líquido e faturamento bruto, entre evidenciação do BS;outras (VASCONCELOS, 2001; PEROTTONI, • Verificar a evolução histórica nos modelos2001; KROETZ, 2001; MAZZIONI; GALANTE; de BS, principalmente do IBASE;KROETS, 2006). Estes ainda podem ser divididosem monetário e não-monetários, internos e • Discutir detalhadamente cada uma dasexternos, ou qualquer outra subdivisão que se informações constantes do modelo atual,achar pertinente. em confronto com os objetivos propostos Mesmo que o BS divulgado segundo o pela literatura;modelo IBASE, ou qualquer outro, não consiga • Comparar modelos utilizados em outrosatingir plenamente os objetivos propostos na países com o modelo brasileiro, buscandoliteratura, isso não significa que ele é inútil. Alguma naqueles pontos relevantes que possaminformação ainda é melhor que nenhuma. O não aprimorar este.ReferenciasCOLLIS, J.; HUSSEY, R. Pesquisa em Administração: um guia prático para alunos de graduação e pós-graduação. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.CONSENZA, J. P A eficácia informativa da Demonstração do Valor Adicionado. Revista Contabilidade .& Finanças. São Paulo: USP Ed. Comemorativa, Out, 2003, p. 7 – 29. ,DOH, J. P GUAY,T. R. (2006). Corporate social responsibility, public policy, and NGO activism in Europe .and the United States: an institutional-stakeholder perspective. Journal of Management Studies. v.43, n. 1, Jan, 2006, p. 47-73.FREIRE, F. S.; BOTELHO, D. R.; NUNES, F. M. Balanço social abrangente: ferramenta contábil eficaz paramensuração do papel social das empresas. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília, n. 130, Jul/Ago, 2001, p. 23-33.GRAY, R. Thirty years of social accounting, reporting and auditing: what (if anything) have we learnt?Business Ethics: A Europian Rewiew. v. 10, n. 1, Jan, 2001, p. 9 – 15. 112
  • 111. IUDÍCIBUS, S.; MARTINS, E., GELBCKE, E. R. Manual de contabilidade das sociedades por ações. 6ed. São Paulo: Atlas, 2003. P 32 – 34. .KROETZ, C. E. S. Balanço social: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2000.______. Balanço social: uma proposta de normatização. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília,n. 129, p. 53-63, Mai/Jun, 2001.LISBOA NETO, H. Organização das informações do balanço social em instituição financeira comoinstrumento de gestão de sua responsabilidade social. (Dissertação de Mestrado). Florianópolis,2003. 145 P.MAZZIONI, S.; OLIVEIRA, A. B. S.; TINOCO, J. E. P Informações evidenciadas no Balanço Social: as .percepções dos gestores de forma comparativa com a literatura. In. XXX Encontro Nacional de Programasde Pós-Graduação em Administração (ENANPAD). Anais eletrônicos... Salvador, 2006. 1 CD-ROM.MAZIZIONI, S,; GALANTE, C.; KROETS, C. E. S. Delineamento de um modelo de Balanço Social paraprefeituras municipais. In. 6º Congresso USP Controladoria e Contabilidade. Anais eletrônicos... SãoPaulo, 2006. 1 CD-ROM.McWILLIAMS, A.; SIEGEL, D. S.; WRIGHT, P M. Corporate social responsibility: strategic implications. .Journal of Management Studies. v. 43, n. 1, Jan, 2006, p. 1 – 18.OLIVEIRA, J. A. P Uma avaliação dos balanços sociais das 500 maiores. RAE - Eletrônica, v. 4, nº 1, art. .2, Jan/Jul, 2005. Disponível em <http//www.rae.com.br/eletronica>.PEROTTONI, M. A. Balanço social: responsabilidade, padronização e obrigatoriedade. Revista Brasileirade Contabilidade. Brasília, n. 134, Mar/Abr, 2002, p. 51-59.PINTO, A. L.; RIBEIRO, M. S. Balanço social: avaliação de informações fornecidas por empresas industriaissituadas no estado de Santa Catarina. Revista Contabilidade & Finanças – USP. São Paulo, n. 36,Set/Dez, 2004, p. 21 – 34.RIBEIRO, M. S. Contabilidade ambiental. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 01 – 25.SANTOS, A. Demonstração do valor adicionado – Como elaborar e analisar a DVA. São Paulo:Atlas, 2003.SJÖSTRÖM, E.; WELFORD, R. Facilitators and impediments for socially responsible investment: a studyof Hong Kong. Corporate Social Responsibility and Environmental Management. v. 16, 2009, p.278-288.TINOCO, J. E. P Balanço social: uma abordagem da transparência e da responsabilidade pública das .organizações. São Paulo: Atlas, 2001._______. Balanço social: balanço da transparência corporativa e da concertação social. Revista Brasileirade Contabilidade. Brasília, n. 135, p. 57-73, maio/jun. 2002.VASCONCELOS, Y. L. Melhorando a qualidade da informação no Balanço Social. Revista Brasileira deContabilidade. Brasília, n. 132, p. 83-95, nov./dez. 2001.WADDOCK, S. Building a new institutional framework for corporate responsibility. Academy ofManagement Perspectives. v. 22, n. 3, Aug, 2008, p. 87-108. 113
  • 112. Metodologias de Intervenção Utilizadas pelos Consultores no Trabalho Realizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife-PE Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultants with NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PENaldeir dos Santos Vieira1Marcos Gilson Gomes Feitosa2ResumoO presente estudo tem como objetivo identificar e analisar as metodologias de intervenção utilizadas pelosconsultores no trabalho realizado com Organizações Não Governamentais (ONGs). Com este fim, além dapesquisa bibliográfica (ARGYRIS, 1970; FERNANDES, 1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO,2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008), foram realizados estudos qualitativos com consultores deONGs que atuam na região metropolitana de Recife-PE, sendo a coleta de dados dividida em três etapas:entrevistas exploratórias, entrevistas em profundidade e entrevistas de acompanhamento. Em seguida, os dadosforam analisados utilizando-se como método principal a análise da pragmática da linguagem (MATTOS,2006). Quanto aos resultados, podemos destacar que no trabalho de consultoria com ONGs os consultoresenfatizaram que, pela natureza multifacetada dessas organizações, não existem metodologias pré-determinadaspara a consultoria nesse campo, com exceção para as consultorias especializadas. Grande parte do trabalhodo consultor está relacionada à realização de planejamentos estratégicos que têm como ponto de partida arealização de diagnósticos organizacionais. Pela escassez de recursos, muitas vezes, o acompanhamento dasatividades planejadas pela consultoria fica a cargo dos próprios integrantes das ONGs.Palavras-chave: Organizações do Terceiro Setor; Consultoria Organizacional; Aprendizagem.AbstractThis study aims at identifying and analyzing intervention methods used by the consultants who work with Non-Governmental Organizations (NGOs). For this purpose, in addition to the literature (ARGYRIS, 1970; FERNANDES,1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO, 2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008),qualitative studies were conducted with consultants from NGOs that work in the metropolitan area of Recife-PE, and the collection of data divided into three phases: exploratory interviews, in-depth interviews and follow-up interviews. Then, the data were analyzed using as the main method the pragmatic analysis of language(MATTOS, 2006). Regarding the results, it is possible to highlight that the consulting work with NGOs, due tothe multifaceted nature of these organizations, there are no pre-determined methodologies for advising them,except for specialized consultancy. Much of the consultant work is related to the implementation of strategic plans1 Professor Assistente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM, Brasil.Possui mestrado em Administração pelaUniversidade Federal de Pernambuco - UFPE, Brasil. Contato: naldeir@yahoo.com.br2 Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco - PROPAD/UFPE, Brasil. Possui doutorado em Educação pela UniversidadeFederal de São Carlos - UFSCAR, Brasil. Contato: feitosam@terra.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 06/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
  • 113. that have, as a starting point, the realization of organizational diagnosis. Because of resource scarcity, often themonitoring of planned activities is carried out by the members of NGOs.Key words: Organizations of the Third Sector; Organizational Consulting; Learning.1 Introdução determinada causa em nível universal, agindo Desde que algumas Organizações politicamente, de maneira profissional com aNão Governamentais (ONGs) passaram a se finalidade de realizar transformações sociais emprofissionalizarem com maior intensidade – década todo o planeta”.de 1990 – tornou-se comum a contratação dosserviços de especialistas e consultores para este fim. 2.As Organizações Não GovernamentaisMuitos desses profissionais tinham especialidadeapenas em empresas e indústrias, mas trabalhando As Organizações Não Governamentaisnas ONGs, começaram a deparar com uma “caracterizam-se por serem organizações semrealidade diferente da que estavam acostumados, fins lucrativos, autônomas, isto é, sem vínculovista que a lógica empresarial é voltada para com o governo, voltadas para o atendimento dasatividades utilitaristas e pautadas em uma necessidades de organizações de base popular,racionalidade instrumental. complementando a ação do Estado” (TENÓRIO, Consequentemente, esses consultores que 2004, p. 11).trabalharam em ONGs precisaram aprender com Essas instituições, na visão de alguns autores,as singularidades dessas organizações, adotando as fazem parte do terceiro setor, que, para Mota,posturas apropriadas, para responder às exigências Ckagnaroff e Amaral (2007, p. 6), é visto comoambientais enfrentadas por estas. Diante desta um termo guarda-chuva, pela falta de consensoproblemática, a questão de pesquisa central desse quanto a uma definição stricto sensu “abarcandoartigo é: quais as principais metodologias utilizadas organizações com diferentes objetivos, tamanhospelos consultores durante a prática de consultoria e escopos”. Na visão de Tude e Rodrigues (2007),em ONGs? Em decorrência desta questão principal, esse termo foi concebido na década de 70, sendoeste estudo, de caráter exploratório, teve como primeiramente utilizado nos Estados Unidos daobjetivo identificar e analisar as metodologias América e, depois, foi difundido para outros países no final da década de 80, com os estudosutilizadas pelos consultores na atividade de coordenados por Salamon.consultoria em ONGs, sendo realizados estudosqualitativos com 10 (dez) consultores de ONGsnacionais e internacionais que atuam na região A idéia de um “terceiro setor” supõe um “primeiro” e um “segundo” e nesta medida faz referência ao Esta-metropolitana de Recife-PE. do e ao mercado. A referência, no entanto, é indireta, De acordo com Oliveira (2004), considera-se obtida pela negação – “nem governamental, nem lu-consultor o profissional externo a ONG que assume crativo”. Em termos explícitos e positivos, o conceitoa responsabilidade de auxiliar os integrantes da designa simplesmente um conjunto de iniciativas par-organização nas tomadas de decisões, não tendo, ticulares com um sentido público (FERNANDES, 1994, p. 127, grifos do autor).entretanto, o controle direto da situação. Nesteestudo, consideramos os consultores individuais enão as empresas de consultoria. Para Tude e Rodrigues (2007) a visão A expressão ONG é polissêmica e ainda implícita sobre as organizações do terceiroinexiste o consenso por uma definição mais precisa. setor parece limitada, ao compreendê-las comoAdotamos operacionalmente a visão de Tude e uma alternativa para a solução dos problemasRodrigues (2007, p. 14), que as classificam como do Estado, escondendo algumas verdadeiras“organizações da sociedade civil que lutam por motivações do movimento associativo moderno, 116
  • 114. resultantes das relações da sociedade civil. Os No entanto, nem toda associação civil ou fundação éautores consideram mais apropriado denominar uma ONG. Entre clubes recreativos, hospitais e uni- versidades privadas, asilos, associações de bairro, cre-esse conjunto de organizações como Organizações ches, fundações e institutos empresariais, associaçõesda Sociedade Civil (OSCs) que, no sentido utilizado de produtores rurais, associações comerciais, clubespor Antônio Gramsci, transfere o eixo explicativo “da de futebol, associações civis de benefício mútuo, etc. enecessidade de preenchimento de lacunas deixadas ONGs, temos objetivos e atuações bastante distintos,pelo Estado e pelo Mercado, no caso das teorias do às vezes, até opostos (ABONG, 2008).terceiro setor, para o aumento da complexidade dofenômeno estatal e da intensificação dos processos Como as características que definemde socialização política, para a sociedade civil” essas organizações não esclarecem totalmente as(TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 13). diferenças entre as ONGs e as demais OSCs, para De acordo com a Associação Brasileira de Tude e Rodrigues (2007), podemos entendê-lasOrganizações Não Governamentais (ABONG, melhor ao descrevermos o que as primeiras não são.2008) a expressão terceiro setor traz-nos uma Desse modo, as ONGs se diferem das demais OSCsideia de igualdade, unidade, convergência e ou terceiro setor por não representarem o interesseconsenso. Contudo, na realidade, a sociedade civil particular de um grupo específico ao trabalharemorganizada no Brasil é extremamente diversa, plural por causas tratadas universalmente; por não agireme heterogênea, construída ao longo de séculos somente através da filantropia e da caridade,e marcada por processos brutais de exclusão, buscando a justiça social e valores nos quais elasconcentração de renda e violação de direitos, sendo acreditam e pretendem disseminar e por seremque suas organizações expressam os conflitos e organizações mais politizadas, não tendo finalidadecontradições existentes. comercial, mas buscarem agir profissionalmente Em decorrência, a inclusão das ONGs para realizar transformações sociais.no terceiro setor implica problemas de ordemconceitual, política e de identidade. Essa expressão Sabemos que ONG - Organização Não Governamen-é constantemente utilizada para referir-se às tal - não é termo definido em lei, mas sim uma cate-organizações da sociedade civil sem fins lucrativos goria que vem sendo socialmente construída e usadade uma forma geral, abrigando segmentos com para designar um conjunto de entidades com carac-características diversas, como entidades filantrópicas, terísticas peculiares, reconhecidas pelos seus agentes,institutos empresariais e até ONGs. É importante pelo senso comum ou pela opinião pública (ABONG,afirmar a identidade de cada grupo e campo político 2008).de organizações da sociedade civil brasileira. Issosignifica marcar as diferenças e os pontos em que Desse modo, mesmo sem o respaldo legal,convergem (ABONG, 2008). consideramos neste trabalho que as ONGs são Para a ABONG (2008), “do ponto de vista ”organizações da sociedade civil que lutam porformal, uma ONG é constituída pela vontade determinada causa em nível universal, agindoautônoma de mulheres e homens, que se reúnem politicamente, de maneira profissional com a finalidadecom a finalidade de promover objetivos comuns de de realizar transformações sociais em todo o planeta”forma não lucrativa”. A legislação brasileira prevê (TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 14). Em decorrência,quatro formatos institucionais para a constituição objetivamos estudar somente consultorias realizadasde uma organização sem fins lucrativos, com essas para organizações que além de se consideraremcaracterísticas – associação, fundação, organização como ONGs, de serem de natureza privada e dereligiosa e partido político. Juridicamente, toda terem interesses públicos, são também autônomas eONG é uma associação civil ou uma fundação prestam serviços para a coletividade com o objetivoprivada. de desencadear transformações sociais. 117
  • 115. 3 A consultoria organizacional em ONGs A adoção do management pelas ONGs foi provocada por dois fatores principais: a necessidade Consultoria organizacional é uma expressão das ONGs conseguirem uma maior eficiência de suasutilizada para definir uma relação de interação, que atividades e a de se tornarem mais “competitivas”envolve uma atividade de ajuda para a solução de na obtenção de recursos financeiros, uma vez que aproblemas (MANCIA, 1997). Para Argyris (1970), partir da década de 90, estes se tornaram escassos.trata-se de um processo de intervenção, sendoesse realizado em uma organização denominada As pressões dos financiadores para que as ONG’s sesistema-cliente. Intervir, na concepção do autor profissionalizassem se deu a partir do momento em que(1970, p. 15), “é entrar num sistema de relações em estes passaram a estipular determinados critérios paraandamento, aproximar-se de pessoas, grupos ou a liberação dos financiamentos. Dependentes destas Agências as ONG’s para obter créditos das mesmasobjetos com o propósito de ajudá-los”. Esta ajuda passam a cumprir os critérios e procedimentos estabe-pode ser oferecida a diferentes tipos de pessoas lecidos. Dentre estes critérios está a descrição de proje-e/ou instituições, sendo estas: órgãos do Estado, tos, planos e orçamentos, além da prestação de contasempresas, clubes esportivos, ONGs e outros. dos resultados (LYRA, 2005, p. 57). Nesse campo, podem atuar diversosprofissionais, sendo que a única exigência é Além das exigências dos financiadores, autoresque estes consigam clientes que contratem seus como Falconer (1999) e Drucker (2002) consideramserviços. Não existe uma regulamentação dessa que a profissionalização das organizações doatividade (VALENÇA; ASSOCIADOS, 1995) terceiro setor também foi resultado da necessidadee, consequentemente, não existem ações ou delas se tornarem mais eficientes. Para Druckermetodologias padronizadas. (2002), as instituições sem fins lucrativos entenderam Para Oliveira (2004), existem dois tipos de que precisam ser bem gerenciadas e que precisamconsultoria de acordo com o método de intervenção aprender a utilizar a gerência como uma ferramenta.adotado pelo consultor. A primeira é a consultoria “Elas sabem que necessitam de gerência para quede pacote, que “é realizada às empresas-clientes possam se concentrar em sua missão” (DRUCKER,por meio da transferência de fortes estruturas 2002, p. XIV. Na verdade, Drucker crê que estáde metodologias e técnicas administrativas, ocorrendo um “crescimento gerencial” nessassem a preocupação de otimizada adequação à instituições, sejam elas grandes ou pequenas.realidade atual ou esperada para a empresa- Com essa profissionalização da gestão,cliente” (OLIVEIRA, 2004, p. 63). O outro tipo é a técnicos especialistas passam a ser contratados paraconsultoria artesanal, que é “aquela que procura executar funções especializadas nas ONGs. “A visãoatender às necessidades da empresa-cliente por romântica da organização horizontal baseada nameio de um projeto baseado em metodologia e igualdade e na ausência de hierarquia e autoridade,técnicas administrativas especificamente estruturadas dá lugar, progressivamente, ao paradigma modernopara a referida empresa-cliente, tendo, entretanto, da competência, da produtividade e da eficiênciasustentação de outras abordagens e modelos no mundo do voluntariado e suas organizações”aplicados em outras empresas” (OLIVEIRA, 2004, (CARVALHO, 2000, p. 11).p. 65). Como exemplo de consultoria organizacional Tratando-se especificamente das atividades realizada em ONGs, temos a parceria Ashoka-de consultoria voltadas para ONGs, essa prática McKinsey, criada em 1996, estando presentese acentuou a partir do momento em que tais em mais de 10 países. Com esta parceria, queorganizações começaram a profissionalizar-se, resultou na criação do Centro de Competênciaadotando práticas gerenciais, antes, comuns apenas para Empreendedores Sociais Ashoka-McKinseyàs organizações mercantis. (CCES), consultores voluntários da Mckinsey and 118
  • 116. Company ficam à disposição de empreendedores com 4 (quatro) consultores com o objetivo de obtersociais e instituições, para contribuírem com sua dados gerais relativos ao campo de estudo. Estasprofissionalização e desenvolvimento (ASHOKA, entrevistas exploratórias propiciaram um maior2007). embasamento para a elaboração de um segundo De acordo com a Ashoka (2007), com essa roteiro, mais extenso e com questões mais específicas.parceria, os empreendedores sociais são fortalecidos Nessa segunda fase, foram entrevistados 7 (sete)com a adaptação e a transferência de conhecimentos consultores.e ferramentas vindas do setor privado. Os consultores, Além da realização das entrevistaspor sua vez, têm a oportunidade de desenvolver-se aprofundadas, foi feito o acompanhamento deprofissional e socialmente nesse novo campo. Este é algumas intervenções por meio dos relatos dosum processo, às vezes, demorado e que demanda consultores sobre uma intervenção específica. Antesaprendizagem da organização e do consultor. da intervenção, foi dado ao consultor um pequeno roteiro com nove pontos relacionados à consultoria4 Procedimentos metodológicos a serem refletidos por ele. Posteriormente, foi agendada uma entrevista com o consultor para uma Esta pesquisa teve um caráter qualitativo discussão sobre suas reflexões referentes àquelae procurou compreender nuances do processo intervenção específica.de consultoria nas ONGs, sem a intenção degerar dados quantificáveis e/ou generalizáveis a Quadro 1(4) – Entrevistas realizadas com osoutros contextos. Caracteriza-se como um estudo consultores de ONGs.exploratório e descritivo, captando informações Consultores Exploratória Aprofundada Acompanhamentosobre determinado problema ou questão. Consultor A Maio, 2007 - Outubro, 2007 Consultor B Maio, 2007 - - Para o alcance dos objetivos, a pesquisa foi Consultor C Maio, 2007 Novembro, 2007 Novembro, 2007realizada seguindo as seguintes etapas: Consultor D Maio, 2007 - - Consultor E - Outubro, 2007 - 1ª fase - Pesquisa bibliográfica: revisão Consultor F - Outubro, 2007 -bibliográfica em livros e publicações diversas sobre o Consultor G - Outubro, 2007 - Consultora H - Novembro 2007 -referido tema, que trouxeram informações relevantes Consultora I - Novembro, 2007 Dezembro, 2007 Consultora J - Novembro, 2007 -para o estudo da consultoria organizacional, das Fonte: elaboração própria, 2008.ONGs e do processo de aprendizagem do consultorpor meio de suas intervenções. 4ª fase – Análise dos dados: utilizamos como 2ª fase – Delimitação do campo empírico: base para o nosso método de análise das entrevistaso campo empírico foi formado por consultores a análise da pragmática da linguagem desenvolvidoque prestam consultoria a ONGs que atuam por Mattos (2006) e composto por seis fases quena região metropolitana de Recife-PE. Foram serão especificadas abaixo:entrevistados 10 (dez) consultores, sendo utilizada 1°: Recuperar os diálogos gravados e fazercomo técnica de seleção de amostra a “bola de a sua transcrição, enfatizando alguns momentosneve” (MERRIAM, 1998). Embasado nesta técnica, especiais que deverão ser registrados na memóriaapós a primeira entrevista (Consultor A), os ou anotados para o momento da análise final.entrevistados foram indicando outros, sendo estes 2°: Resgatar o contexto em que o diálogoconsiderados como fontes de dados relevantes aconteceu, a partir do levantamento das seguintespara o entendimento do processo da consultoria questões: o que aconteceu ali entre aquelas duasdesenvolvido nas ONGs. pessoas; ou o que foi acontecendo ao longo da 3ª fase – Coleta de dados: a coleta de dados entrevista? Como o assunto foi se desenvolvendo?foi realizada a partir da realização de entrevistas Onde parece terem ocorrido “pontos altos”semi-estruturadas com os consultores, sendo que, e momentos de “ausência”. Que respostasa princípio, foi realizada uma entrevista exploratória “transbordaram” para outras? 119
  • 117. 3°: Apresentar ao entrevistado o significado ao planejamento estratégicos, e, às consultoriasnuclear da resposta, para que haja uma validação. pontuais desenvolvidas.Devido às dificuldades antecipadas de horáriospara apresentação dos dados para a validação 5.1 A necessidade de adequação da meto-da resposta, tivemos o cuidado, após cada seção dologia de intervenção ao contexto das ONGsda entrevista, de repetir o que estava sendo ditopelo entrevistado e perguntar a ele se o nosso Pelo fato de o contexto das ONGs ser diferenteentendimento do que ele tinha exposto estava do contexto das organizações que compõem ocorreto, cumprindo assim o proposto nessa fase. “primeiro” e o “segundo setor”, para os consultores, 4°: Transcrever os dados colhidos, pelo há uma necessidade de adequação ou construçãomenos os da análise dos significados nucleares de novas metodologias de intervenção. Algumasdas respostas acima para uma matriz de dupla diferenças que, primeiramente, devem ser levadasentrada: em uma os entrevistados, aproximados em consideração estão relacionadas às atividadespor características de estratificação, em outra, as a serem desenvolvidas. A metodologia de cadaperguntas. intervenção deve ser elaborada como fruto do 5°: Analisar o conjunto, visualizando os contexto entre a organização e o que é solicitado.fatos de evidência relativos a cada entrevistado, no Como foi citado pelo Consultor C, metodologiasconjunto das suas respostas, quando se identificarão diferentes devem ser utilizadas quando a consultoria“respostas retardadas” ou “antecipadas”; segundo, está relacionada a um curso de capacitação, ou a umavisualizando os fatos de evidencia relativos, ou bem mobilização ou a uma intervenção organizacional.como aqueles que dizem respeito a cada uma das Cabe ressaltar que algumas atividades descritasperguntas; terceiro, “pairando meditativamente” como consultorias pelos consultores, para autoressobre todo o conjunto das entrevistas. Nessa etapa, como Oliveira (2004), trata-se, na verdade, dedemos início à redação parcial dos resultados, assessoria ou de treinamento.cuja elaboração, de forma sistemática, se seguiu àanálise. A questão da metodologia, a gente define em função 6°: Submeter aos pares certas observações do que vai ser feito. Então, conforme o que vai serconclusivas do pesquisador, antes que este se sinta feito, combinado em termo de trabalho. A intervenção financeira tem uma metodologia de trabalho própriaautorizado a redigir seu texto, funcionando a praxe e, aí a gente estabelece esse caminho a se cumprir. Secomo validação da interpretação. é uma intervenção organizacional, uma mobilização, Posterior à sistematização das entrevistas, um curso, então, cada um vai ter um processo dife-os dados foram analisados sob a luz do referencial rente. Dentre as existentes a gente seleciona algumasteórico aqui exposto e, finalmente, foram obtidas (Consultor C, entrevista em maio de 2007).algumas conclusões sobre o estudo. Outra diferença que deve ser considerada5 Principais metodologias utilizadas está relacionada ao ritmo que deve ser seguido nopelos consultores nas intervenções em trabalho com cada organização. Em algumas menosONGs estruturadas ou mais conflituosas, o processo de consultoria deve ser mais lento, o que não acontece Nesta seção foram descritos os resultados em ONGs onde as atividades e o envolvimento dosobtidos com os consultores referentes às integrantes estão bem articulados.metodologias utilizadas no trabalho com ONGs,aos aspectos relacionados à consultoria direcionada Cada organização tem seu tempo, não adianta imporpara a elaboração do planejamento estratégico tempo em uma organização e nem achar que o quedestas organizações, às atividades posteriores você fez com uma organização em um determinado 120
  • 118. tempo, vai dar para fazer com a outra. Eu acho que No entanto, posteriormente, alguns se eles têm muito a ensinar para a gente no que diz res- contradisseram, mostrando que isso seria o ideal, peito a processo de trabalho. Você entra nos proces- mas que nem sempre é o praticado. Podemos sos desenhados o que você acha que eles podem ser, como é que vai, como é que fica, mas a agenda nunca identificar esta contradição na fala do Consultor F: conseguirá ser cumprida. Pelo menos, eu nunca conse- gui cumprir exatamente aquilo que eu havia planejado Que você termina sendo solicitado para contribuir. (Consultora I, entrevista em novembro de 2007). Não assim, para fazer que a solução seja criada, mas para você próprio facilitar e dizer, é assim, assim, e assim. Eu resistia no começo. Eu achava que a pró- A terceira diferença diz respeito à complexidade pria metodologia do trabalho das ONGs é a buscada organização, sendo que a complexidade, para da construção dos sujeitos, que ele descubra o empo-o Consultor A, está relacionada ao tamanho da deramento. Que ele empodere daquelas coisas paraONG e às dificuldades enfrentadas pela mesma ser autônomo. Então, na minha atividade que é asses-para que suas atividades sejam concluídas. Desse soria, planejamento e consultoria, eu tentava e daqui a pouco eu mesmo dizia: “está perdendo muito tem-modo, organizações mais complexas demandam po e diz logo” [risos, demonstrando que é uma açãometodologias que dê conta dessa complexidade que ele faz, mas que não é a considerada como ideal]que são diferentes das utilizadas em organizações (Consultor F, entrevista em outubro de 2007).com um nível de complexidade menor. A justificativa para essa ação inadequada, Não adianta você achar que todas funcionam da mes- de acordo com o Consultor F, está no fato de que ma forma, que não é. Cada uma pode ter o mesmo número de funcionários, pode trabalhar com a mes- construir coletivamente demanda muito tempo e nem ma coisa, mas tem complexidades e dificuldades, sempre o consultor dispõe desse tempo demandado, problemas diferentes. (...) Depende de cada caso, do ou os contratos não levam em consideração a tamanho da instituição. É muito relativo, e depende necessidade deste tempo. do tamanho da instituição (Consultor A, entrevista de acompanhamento em outubro de 2007). 5.2 O planejamento estratégico nas ONGs Para os consultores entrevistados, na E, por fim, como afirmou a Consultora I, maioria das vezes, quando se trata de consultoriaa própria diferença na área de atuação dessas organizacional, as ONGs demandam dos consultoresorganizações e a falta de um padrão quanto à a realização de planejamento estratégico, sendosua estruturação as tornam diferentes entre si, este o ponto de partida das consultorias. É por esseo que dificulta a estruturação de metodologias motivo que daremos uma maior atenção para aspadronizadas por parte do consultor. etapas da realização do mesmo. Assim, torna-se necessário uma adaptação Para o Consultor F, o método de planejamentodas metodologias às diferenças das ONGs, o que para as ONGs é posterior aos anos 90. Antes existiatorna inviável tentar aplicar pacotes com etapas pouco material voltado para essas organizações.e propostas totalmente definidas. A experiência Pensava-se basicamente em projetos de maneirapermite a elaboração de algo sistematizado, isolada e não na organização como um todo.mas esta sistematização deve servir apenas como Poucas ONGs realizavam um planejamento comoorientação para o consultor. Além da necessidade instituição, e o embrião desse planejamento foi ode flexibilidade, com unanimidade, foi considerado chamado projeto institucional.pelos consultores que uma metodologia que ajuda oconsultor a direcionar suas atividades é necessária, Apareceu uma ou outra ONG falando de projeto insti-mas as propostas do que deve ser feito, quanto às tucional que já era um grau acima do que era projetotomadas de decisão, deve partir dos integrantes das específico de execução. O projeto institucional tinhaONGs e não dos consultores. que falar do objetivo da instituição e tinha que ter pro- 121
  • 119. gramas e dentro dos programas, terem projetos. En- vai utilizar em sua intervenção. “Aí tem diferentes tão, começam as agências, cobrando um pouco mais experiências, e você vai descobrindo que não tem de arrumação das ONGs (Consultor F, entrevista em um modelo, não existe. Eu duvido, eu desafio quem outubro de 2007). conseguir levar um modelo de planejamento para ONG, depois de muitas experiências” (Consultor F, Como uma evolução dos projetos entrevista em outubro de 2007).institucionais, a partir dos anos 90, os consultores de 5.3 O ponto de partida para o planejamentoONGs passam a ser demandados para dar subsídios estratégicoao desenvolvimento do planejamento dessas A partir das entrevistas com os consultoresinstituições e algumas passaram a elaborar seus foi possível a identificação de três metodologiaspróprios planejamentos. Como afirmou o Consultor de planejamento, sendo todas participativas. OF (entrevista em outubro de 2007): “aí começaram primeiro conjunto de metodologias tem como pontoa aparecer pequenos roteiros, pequenos manuais de partida o diagnóstico e definição de problemas,de planejamento. E aí, algumas ONGs começaram, para buscar suas possíveis soluções de acordoelas próprias, a fazer seus planejamentos com seus com a visão dos integrantes das ONGs. Nessemétodos”. grupo, destaca-se o Método Altadir de Planificação Com essa demanda por planejamento, Popular (MAAP) que é um método de planejamentocomeçam a aparecer diversos métodos de participativo pelo qual, a partir do diagnóstico daplanejamento e os caminhos propostos pelos organização, são planejadas as ações futuras.consultores, pelos financiadores e pelas ONGs, Podemos identificar a presença de atividades queque começaram a desenvolver suas próprias se aproximam dessa metodologia embasados nasmetodologias, passaram, muitas vezes, a serconflitantes. Assim, o consultor passa, muitas falas dos consultores E e F:vezes, a ter que aceitar seguir certas metodologiaspropostas pelos financiadores, ou pelas ONGs, e Tem gente que acha que deve partir do Método Altadirsomente quando tem abertura, seguem a sua própria e começa a construir daí. Tem sua validade também, porque no final você termina construindo uma visão demetodologia. O Consultor E expõe a existência futuro. Na verdade esse é diferente daquele [métododessas diferentes fontes de metodologias para o baseado na visão futura]. Você vai colocar o proble-planejamento: ma, combatendo o problema (Consultor F, entrevista em outubro de 2007). Que varia em função do trabalho. Mas basicamen- te, tem uma fase de discussão. (...) Você é chamado Tem um diagnóstico que diz respeito apenas à entida- para uma coisa e aí você reformula junto com o cliente de em si. Eventualmente a parceiros. (...) Depois do no caso, o pessoal da ONG, o conjunto das pessoas, diagnóstico, tem uma devolução para o grupo. En- pode ser a pessoa única que encomenda, dependen- tão o diagnóstico vê basicamente a documentação, do do trabalho. Há uma reformulação, isto é comum conversar com o cara individualmente, tem um rotei- em consultoria deste tipo. (...) Então, uma vez o foco ro também. Depois tem o processamento disso tudo. pré-definido, tem umas abordagens que podem ser A devolução para o grupo, e depois geralmente tem mais ou menos participativas, dependendo do traba- um tempo [risos, relacionados ao fato de depender da lho (Consultor E, entrevista em outubro de 2007). participação dos envolvidos] para eles se apropriarem, digerirem e tal. E, às vezes, tem, e, às vezes, não tem Desse modo, não existe um modelo para continuidade, depende da escolha do grupo (Consul- tor E, entrevista em outubro de 2007).a realização de planejamento em ONGs, existemmodelos, sendo estes próprios das ONGs, trazidospelos financiadores ou desenvolvidos pelos próprios O segundo conjunto de metodologias segueconsultores. Tendo em vista esses diferentes modelos os pressupostos da investigação apreciativa, em queo consultor, dependendo da situação, opta pelo que o trabalho não parte do diagnóstico dos problemas, 122
  • 120. mas sim das aspirações dos integrantes do sistema- de 2007) “não se consegue nada com no mínimocliente. Parte de onde se quer chegar e não dos dois, três encontros. A gente não consegue chegar aproblemas. lugar nenhum se não tiver no mínimo três encontros. Encontros de dois a três dias. De dois dias é mínimo. Se eu for trabalhar, eu gosto de trabalhar com visão de O ideal é de três dias”. futuro (Consultor F). 5.4 Atividades posteriores ao planejamen- to estratégico Expectativas?(Pesquisador) Para os consultores, após a realização É muito como eles gostariam de ser? (...) E eu fiz um do planejamento estratégico, muitas vezes, são esquema que é visão de futuro (...). Uma visão de futu- demandas outras atividades relacionadas ao ro, quais são os valores que eles têm. O trabalho é em acompanhamento do que foi planejado e a função destes valores, quais são os objetivos institucio- capacitações dos integrantes das ONGs. Apesar de nais, e daí pensar o contexto interno e externo, com relação a esta visão de futuro dos valores e objetivos, pontuais, essas atividades tornam as atividades de se ela está para peixe ou não? (Consultor F, entrevista consultoria mais perenes, o que permite a criação em outubro de 2007). de um vínculo mais forte entre consultores e ONGs. Com uma última proposta de metodologia, Depois, eu posso ficar acompanhando, treinando o pessoal e apresentando como os passos devem ser.destaca-se a Consultora I que não segue uma (...) Por exemplo, eu fiz uma intervenção, no mês demetodologia detalhada. Seu planejamento parte maio. Vou voltar lá agora, a partir de segunda-feira, eusomente do seu envolvimento no grupo, e embasada continuo a ver o que está acontecendo e dando con-em perguntas, vai identificando as necessidades tinuidade ao que eu sugeri. E, paralelo à consultoria,do grupo e proporcionando as discussões que tem a questão da capacitação. Sempre tem uma capa-resultarão em propostas futuras. Estas perguntas não citação, ou antes, ou depois (Consultora J, entrevista em novembro de 2007).têm como objetivo a elaboração de um diagnósticosistematizado, mas busca despertar no grupoquestionamentos e respostas que gerem ações para No entanto, muitas vezes, o que é consideradoo desenvolvimento da ONG. São utilizadas também como necessidade de planejamento por parte dosatividades lúdicas e dinâmicas de grupo, como no membros das ONGs trata-se de outra demandacaso do Consultor G. específica como organização e redução de conflitos. Desse modo, cabe ao consultor identificar qual Nós nos consideramos consultores perguntadores. Só papel ele deve assumir na instituição. Muitas vezes, ajuda as pessoas a fazerem as suas próprias pergun- como foi identificado na fala do consultor F, realizar tas. Não é que a gente elabora as perguntas para as um planejamento estratégico não é prioritário: pessoas não, a gente elabora perguntas que levam as pessoas a elaborarem suas próprias perguntas e suas Aí, pronto, na ASA [Articulação do Semi-Árido] nós próprias respostas. Ou não, a deixá-las até no ar para descobrimos, ali na hora, nós fizemos uma constru- que um dia elas sejam respondidas (...) A ferramenta ção. O que eles queriam? Eles queriam um plano de é a pergunta (Consultora I, entrevista em novembro de trabalho para o ano, aquele ano, onde todas as pesso- 2007). as da coordenação, aproximadamente trinta tivessem responsabilidade nele, porque o que estava existindo Independente do ponto de partida ou era: pela falta de planejamento, que não era estraté- gico, estava tendo poucas pessoas super atarefadas eda metodologia utilizada para a realização do muitas pessoas, sem nada para fazer. Um dos planeja-planejamento nas ONGs essa atividade não mentos em que senti o maior grau de felicidade foi estedemanda muito tempo, em média, menos de uma que aconteceu na ASA, ou seja, era exatamente aquilosemana. Para a Consultora I (entrevista em novembro que eles queriam, mas só descobri lá na hora. O que 123
  • 121. estavam me pedindo antes, na comissão encarrega- para estruturação organizacional, algumas que da de organizar, era um planejamento estratégico. Aí, trabalham focadas nos projetos ou que já têm eu queria a missão, eu queria os valores? Nada disso suas estruturas profissionalizadas, muitas vezes, (Consultor F, entrevista em outubro de 2007). demandam atividades bem específicas e pontuais. Nessas intervenções pontuais, a metodologia de Além da etapa da realização do planejamento intervenção dependerá do serviço demandado,estratégico, que é realizada em sua maioria em que pouco se diferencia das demandadas pelasconjunto com os integrantes das ONGs, as etapas empresas privadas. Dentre essas demandas,posteriores, implementação, controle e avaliação dos estão a aplicação de cursos de capacitações eresultados são realizadas com a ajuda dos membros treinamentos, e, a implementação de ferramentasdessas organizações. Apesar de o consultor, como gerenciais que o consultor tem no formato deafirmou o Consultor F muitas vezes, mesmo não , “pacotes” a serem implementados. Porém, mesmosendo adequado, aconselhar e fazer propostas, estas tendo um pacote, por serem ferramentas muitopropostas são apreciadas pelos membros das ONGs técnicas, torna-se necessário que se tenhamque participam de todas as etapas da intervenção. “Por algumas adaptações. Essa necessidade foiexemplo, uma ação na área financeira, muitas vezes destacada pelo Consultor B, que foi contratadoa gente intervém usando os próprios colaboradores por uma ONG, para realizar uma capacitaçãoda ONG” (Consultor C, entrevista em novembro de em desenvolvimento de competências para seus2007). funcionários. Em algumas intervenções, são os própriosmembros das ONGs que dão continuidade às Ele era muito técnico para um programa de compe-atividades propostas no planejamento estratégico e os tências. Era um instrumento de apoio à decisão, queconsultores se afastam da organização. De acordo com requereria, para ser aplicado melhor, mais tempo e oalguns consultores, o que dificulta a sua permanência apliquei em pouco tempo e parte do grupo entendeunas atividades pós-planejamento é o fato de nem e a outra parte não entendeu. Alguns questionaram, e não deu para corrigir. O que tive que fazer foi dizer:sempre as instituições terem recursos para mantê-los. olha este instrumento aqui é muito valioso, mas não foi Desse modo, nem sempre os consultores adequado. Então eu pedi desculpa e, hoje, não fareiacompanham todo o processo de estruturação de novo (Consultor B, entrevista em maio de 2007).organizacional. Quando acompanham todas as etapas,desde o planejamento até a avaliação, eles levam, Além das consultorias voltadas paraem média, de um a dois anos, o que é considerado treinamentos, capacitações e elaboração de projetos,como pouco por eles. No entanto, eles precisam se algumas são voltadas para a minimização dosadequar a estes prazos pelo fato de os financiamentos, conflitos, uma vez que estes são muito acentuadosmuitas vezes, cobrirem as atividades somente dentro nas ONGs. Esse é o caso do Consultor G, cujodos limites especificados. Então, como foi afirmado trabalho se pauta na geração da confiança e napelo Consultor E (entrevista em outubro de 2007): integração dos membros das ONGs clientes.“depende do dinheiro disponível. Vai depender muitada demanda e do tempo disponível, mas normalmente Todo o trabalho que o Libertas [empresa de consul-dura um ano. Um trabalho organizacional é cerca de, toria da qual é sócio] desenvolve, é um trabalho deno mínimo, um ano”. integração das pessoas dos grupos, nas equipes, nas organizações. (...) Trata-se de pessoas que estão lá,5.5 Metodologias utilizadas nos traba- reunidas em grupos e que o processo de integração,lhos de consultorias pontuais normalmente, tem se mostrado rico para Organiza- ções Não Governamentais. Porque, muitas vezes, as No entanto, nem todas as ONGs, como foi pessoas vêm de uma educação muito competitiva.exposto pelo Consultor C, contratam consultoria (...) A união, a cooperação é simbolizada pelas mãos 124
  • 122. dadas, só que as Organizações Não Governamen- Assim sendo, essa metodologia serve somente como tais muitas vezes não têm esta visão, até por causa norte para o consultor, mas é extremamente flexível e da formação das pessoas (Consultor G, entrevista em adaptável às realidades de cada organização. outubro de 2007). Se por um lado as metodologias de intervenção condizem com a proposta da consultoria artesanal (WOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), por outro,6 Discussão dos resultados e certas limitações como a realização das atividadesconsiderações finais em curto prazo levam os consultores, muitas vezes, a darem conselhos e a dizerem o que deve ser feito Quanto aos serviços de consultorias pelos integrantes das ONGs. Essa prática inviabilizademandados pelas ONGs, podemos afirmar, o cumprimento das três tarefas primárias propostasembasados na definição de Oliveira (2004), que por Argyris (1970) por não permitir o cumprimentosão demandadas tanto consultorias ”especializadas” da segunda – propiciar a escolha livre do sistema-quanto “totais”. No primeiro grupo, estão as cliente -, o que pode dificultar o desenvolvimentoatividades relacionadas a capacitações, treinamentos, do comprometimento interno dos integrantesimplantação de ferramentas gerenciais e elaboração com as decisões propostas. Além de não gerarde projetos e, no segundo, destacam-se a elaboração comprometimento, ela pode gerar dependênciade planejamentos estratégicos e atividades posteriores dos integrantes do sistema-cliente pelo consultor. Éou resultantes deles. Podemos observar que as para não ter essa dependência que os integrantesconsultorias especializadas são mais demandadas das ONGs estudadas por Correia e Vieira (2007)pelas ONGs mais estruturadas ou que se estruturam preferem consultores com postura de mediador e nãosomente em torno de projetos, e as consultorias totais de conselheiro.são demandas por ONGs menos profissionalizadas Quanto ao envolvimento dos integrantescom maior carência para a estruturação administrativa. nas etapas da intervenção do consultor, há uma Com relação às metodologias de intervenção adequação à proposta de Argyris (1970) de outilizadas pelos consultores nas ONGs, por consultor envolver todos os membros no processounanimidade, foi considerado como inadequada a de intervenção, mesmo que o contato inicial sejaadoção da consultoria de pacote (OLIVEIRA, 2004; somente com a diretoria da organização. NaWOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), sendo a consultoria presente pesquisa identificou-se uma tendência deartesanal (OLIVEIRA, 2004), que Wood Jr. e Paes de metodologias participativas, tanto na realização doPaula (1997) chamam de construtivista, considerada diagnóstico quanto nas etapas posteriores comocomo a mais adequada, uma vez que as realidades planejamento, execução e avaliação das atividades.entre as ONGs e as empresas são diferentes, assim No entanto, nas consultorias especializadas, essecomo, entre as próprias ONGs. Desse modo, não envolvimento das partes interessadas é bem menor.existe pacote pronto para se atuar em ONGs, com Além da implantação de pacotes vindos dasexceção para as consultorias “especializadas”. É por empresas privadas de forma acrítica (DINIZ, 2000),isso que Chapman (1998) alerta as Organizações foi destacado como um segundo erro praticado pelosSem Fins Lucrativos, para terem cuidado com receitas consultores no processo de consultoria a ONGs oprontas trazidas pelos consultores. excesso de academicismo. A ocorrência desse erro se No entanto, torna-se necessário que se configura como uma das críticas citadas por Wood Jr. edesenvolvam metodologias por meio das experiências Paes de Paula (2004) em que o consultor é acusado denesse contexto, mas como foi afirmado por Argyris ser arrogante e de utilizar uma linguagem hermética.(1970) estas metodologias devem atuar somente Como os consultores destacaram a necessidade decomo mapa cognitivo das ações do consultor evitar aconselhamentos e de elaborar propostas empermitindo que este, consciente de seu papel, tenha conjunto com os integrantes das ONGs, o excessoconsciência de suas ações prioritárias nesse sistema. de academicismo pode proporcionar aos consultores 125
  • 123. uma percepção de que são detentores do saber que culdades para pesquisas futuras, comodeve ser “transmitido” para o sistema-cliente, sendo a distinção entre ONGs, terceiro setoresta premissa considerada como equivocada pelos e organizações da sociedade civil; e oentrevistados. que vem a ser eficiência e eficácia nas Diante dos resultados desta pesquisa de organizações sem fins lucrativos.natureza exploratória, fica como propostas para • Analisar as metodologias utilizadas pe-futuras pesquisas: los consultores em cada subconjunto • Esclarecer de maneira mais aprofun- de ONGs (nacionais, internacionais, dada alguns conceitos que ainda não micro crédito, educacionais, e outras), estão amadurecidos e se constituíram fazendo as devidas comparações e dis- como dificuldades para esta pesquisa tinções entre os contextos de cada sub- e que podem se configurar como difi- conjunto.ReferênciasABONG. Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais. Disponível em: <http://www.abong.org.br/>. Acesso em: 03 de jan. 2008.ARGYRIS, C. Intervention, Theory and Method: a behavioral science view. San Francisco: Jossey-Bass,1970.ASHOKA. Parceria Ashoka-McKinsey. Disponível em: <http://www.ashoka.org.br/main.php?var1=left&var2=amk>. Acesso em 15 de out. 2007.CARVALHO, C. A. P Preservar a identidade e buscar padrões de eficiência: questões complementares .ou contraditórias na atualidade das organizações não governamentais? Revista Eletrônica deAdministração – REAd. 14 ed., v. 6, n. 2, mar-abr 2000.CHAPMAN, J. Do process consultants need different skills when working with nonprofits? In: Leadership& Organization Development Journal. 19/4 [1998] 211-215.CORREIA, F. B. C.; VIEIRA, N. S. A Consultoria como Oportunidade de Aprendizagem para as OrganizaçõesNão Governamentais: um estudo na cidade de Recife/PE. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONALDE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO – EnANPAD, 31., Rio de Janeiro-RJ, 2007.Anais Eletrônicos. Rio de Janeiro: ANPAD, 2007. CD.DINIZ, João H. A. S. O reflexo dos ajustes das Organizações Não-governamentais Internacionais –ONGIs, às modernas práticas administrativas, sobre o seu caráter institucional original. Recife:O Autor, 2000. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CCSA. Administração,2000.DRUCKER, P F. Administração de Organizações Sem Fins Lucrativos: princípios e práticas. Nivaldo .Montingelli (trad.). São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.FALCONER, A. P A promessa do terceiro setor: um estudo sobre a construção do papel das organizações .sem fins lucrativos e do seu campo de gestão. Centro de Estudos em Administração do Terceiro Setor.São Paulo: Universidade de São Paulo. 1999.FERNANDES, R. C.; Privado porém público: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.LYRA, C. Ação Política e autonomia: a cooperação não-governamental para o desenvolvimento. SãoPaulo: Annablume: Terre des Hommes Suisse, 2005.MANCIA, L. T. S. Os desafios do modelo de consultoria interna: uma experiência gaúcha. Dissertação(Mestrado) – Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul /EA/PPGA, 1997. 126
  • 124. MATTOS, P L. Análise de entrevistas não estruturadas: da formalização à pragmática da linguagem. .In: GODOI, C. K., BANDEIRA-DE-MELO, R.; SILVA, A. B. (Org.) Pesquisa Qualitativa em EstudosOrganizacionais: paradigmas, estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva, 2006.MERRIAM, S. Designing the study and selecting a sample. In: ______ Qualitative research and casestudy applications in education. San Francisco: Jossey-Bass, 1998.MOTA, Nomaston R.; CKAGNAZAROFF, Ivan B.; AMARAL, H. F. Governança Corporativa: estudo de casode uma Organização Não Governamental. In: VI CONFERENCIA REGIONAL DE ISTR PARA AMÉRICALATINA Y EL CARIBE. 4., Salvador - BA, 2007. Anais Eletrônicos. Salvador: ISTR y CIAGS/UFBA, 2007.CD.OLIVEIRA, D. P R., Manual de Consultoria empresarial: conceitos, metodologia, práticas. São Paulo: .Atlas, 5. ed., 2004.PAULA, A. P P Um estudo de caso da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais: . .construindo uma nova gestão pública em espaços públicos alternativos. In: Anais do XXI EncontroNacional dos Programas de Pós-graduação em Administração. Rio das Pedras, Angra dos Reis-RJ:ANPAD, 1997.TENÓRIO, F. G. (org.) Gestão de ONGs: principais funções gerenciais. Rio de Janeiro: Editora FGV, 8ed. 2004.TUDE, J. ; RODRIGUES, G. K. M. Organizações Não Governamentais: uma discussão sobre suaspeculiaridades organizacionais. In: In: VI Conferência Regional de ISTR para América Latina y el Caribe.Anais Eletrônicos. Salvador: ISTR y CIAGS/UFBA, 2007.WOOD Jr; PAULA, A. P P Pop-management: grandes empresas de consultoria no Brasil. Relatório de . .Pesquisa n. 8. EAESP/FGV – Núcleo de Pesquisas e Publicações. São Paulo, 2004.VALENÇA; ASSOCIADOS. Consultores em ação: uma pesquisa sobre aprendizagem organizacional.Recife: Bagaço, 1995. 127
  • 125. Avaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição de Ensino Superior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos 5 GAP’s Evaluation of Higher Education Service Quality through the Adapted Measure Model of 5 GAPsRodrigo Navarro Xavier1ResumoO desenvolvimento de instrumentos de avaliação institucional aptos a reconhecer a percepção dos clientesde instituições de ensino superior é de fundamental importância para a adequada prestação de serviçoseducacionais. Partindo-se dessa premissa, este artigo apresenta uma adaptação do modelo conceitual dequalidade em serviço ou modelo GAP à avaliação educacional em um curso de Pós-Graduação de umainstituição de ensino superior no município de Guarapuava-Pr. Seus objetivos específicos consistem em discutirsucintamente os modelos de escalas de avaliação da qualidade associados ao ensino de Pós-Graduação,detalhando as potencialidades e as limitações do emprego dessa técnica em reconhecer a percepção dequalidade dos estudantes do curso em estudo. Em seus resultados, o trabalho pôde identificar variáveis bemavaliadas e, também, estruturas, processos e condutas que devem ser aperfeiçoados na oferta dos próximoscursos. Puderam-se reconhecer, ainda, os grupos com julgamentos distintos e os atributos responsáveis pelosdissensos, que servirão de parâmetro para a priorização oportunidades de melhoria.Palavras-chave: Educação; Qualidade em Serviços; GAP5.AbstractThe development of institutional assessment tools able to recognize the clients’ perception of higher educationinstitutions is fundamentally important for the adequate provision of educational services. Starting from thispremise, this paper presents an adaptation of the conceptual model of service quality, GAP model or educationalevaluation in a graduate course of an institution of higher education in Guarapuava, Brazil. Specific objectivesconsist of discussing, briefly, the models of rating scales associated with the quality of graduate education,detailing the potential and limitations of this technique in recognizing the perceived quality of the students in thecourse studied. In its results, it was possible to identify well evaluated variables, as well as structure, processes andprocedures that must be improved for the provision of forthcoming courses. It was also possible to be recognized,the groups with different trials and the attributes responsible for dissent, which serve as a parameter for prioritizingimprovement opportunities.Key words: Educational; Service Quality; GAP5.1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui Mestrado Profissionalizante em Gestão Ambiental pelaUniversidade Positivo - UP Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Processos Biotecnológicos pela Universidade Federal do Paraná ,- UFPR, Brasil. Contato: baterlino@hotmail.comRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 09/06/2010 - Aprovado em 13/11/2010
  • 126. Introdução uma ferramenta adequada de avaliação do ensino superior deve também estar direcionada à Nos tempos atuais, o mercado tem exercido identificação das possíveis falhas daa instituiçãoforte influência no setor educacional, isto, devido em perceber as reais necessidades de seus alunos,à especialização e à divisão do trabalho dentro o que contribui para fortalecer o foco da avaliação,das organizações, o que originou o surgimento de evitando a ênfase em aspectos secundários donecessidades por profissionais mais qualificados processo educacional.para exercer funções mais específicas e de alta Contudo, o desafio da emancipação humanaespecialização. permanece presente nas políticas educacionais, Segundo Leitão et al. (2007), na última integrando as visões de “educação para a cidadania” edécada, a educação superior brasileira sofreu “educação para a competitividade”, que têm orientadointensas mudanças, especialmente no âmbito de a reforma do ensino em todos os seus níveis.Pós-Graduação. Hoje, a Pós-Graduação é um elo Tendo esses aspectos como ponto deimportante na constituição das diversas relações que partida, o artigo pretende apresentar umaexercem o desenvolvimento tecnológico e científico aplicação do modelo adaptado de mensuraçãodo país por meio da interação e parcerias com os dos 5 Gap’s à avaliação educacional de um cursosistemas econômico, social e cultural; assim, vem de Pós-Graduação. Seu emprego ocorreu juntocontribuindo para a formação de profissionais e aos discentes da pós-graduação lato sensu deprofessores para os diversos níveis da economia uma instituição paranaense, cuja estratégia parae educação, prestando serviços comunitários e de captação de alunos baseia-se na oferta de cursosdesenvolvimento estrutural em todas as regiões do de qualidade e que promovam a diferenciaçãopaís, criando parcerias interinstitucionais e, até, profissional de seus alunos.interagindo com empresas para a transferência de A relevância deste trabalho deve-se ao fatoconhecimento em setores estratégicos, como o de de que o aperfeiçoamento de qualquer sistematecnologia. educacional depende, necessariamente, de Nesse sentido, a pós-graduação tem sido avaliações, e estas carecem de modelos adequados eum esteio indispensável à formação de recursos abrangentes que forneçam parâmetros comparáveis,humanos de alta qualificação e à produção de confiáveis e relevantes para a tomada de decisõesconhecimentos necessários para o desenvolvimento gerenciais e pedagógicas.científico e tecnológico do país. Esse desenvolvimentopossibilita ao país a atualização de saberes e a 1. O novo contexto do ensinobusca sistemática e metódica do conhecimento de superiorponta (CURY, 2004). Os cursos de Pós-Graduação e educação Na década de 1990, a educação passousuperior crescentemente têm sido reconhecidos como a ser considerada, sobretudo, promotora deuma indústria de Prestação de serviços e, como um competitividade. O novo contexto mundial, marcadosetor da economia, deve canalizar seus esforços em pela globalização e por uma menor intervenção doidentificar as expectativas e as necessidades de seus Estado na economia, estimulou a competição entreprincipais clientes, que são os estudantes (Cheng & países e organizações. No sistema produtivo, umTam, 1997). novo padrão a ser seguido de métodos e valores Segundo Bandeira et al. (1999), a avaliação dentro das organizações, associado à indústriada qualidade do ensino superior pode ser utilizada eletroeletrônica, caracterizou-se pela maleabilidade,como ferramenta da reforma universitária, pela conjugação de tarefas e pelo tratamento holísticofortalecendo um padrão de política educacional dos problemas, valorizando o poder da criatividadee contribuindo para o desenvolvimento das (SOBRAL, 2000). Nesse contexto, educação einstituições de ensino superior. Desse modo, conhecimento associam-se ao desenvolvimento 130
  • 127. científico e tecnológico dentro das organizações, literatura, sendo uma das ferramentas relacionadasque, por sua vez, conduz à competitividade. Com à mensuração na qualidade de serviços de maiorisso, a formação de recursos humanos tornou-se importância. Pesquisas utilizando o SERVQUAL emimportante para o ingresso nesta nova era baseada sua forma direta ou com pequenas alterações têmno domínio do conhecimento. sido feitas por inúmeros pesquisadores De acordo com Lovelock (1983), o serviço Num segundo momento, o modeloeducacional é classificado como um serviço de SERVIQUAL passou por algumas modificaçõesações intangíveis, dirigido à mente das pessoas, de por meio da redefinição de alguns pontos e daentrega contínua, realizado através de uma parceria substituição de outros. As dimensões resultantesentre a organização de serviço e seu cliente, e, foram: tangibilidade, confiabilidade, presteza,apesar de proporcionar um alto contato pessoal, é segurança e empatia (PARASURAMAN et al., 1991).de baixa customização. Os autores sustentam que a qualidade em serviços A pós-graduação sistemática tem uma origem é resultado da percepção dos clientes sobre as cincorecente e, como promotora de graus acadêmicos, dimensões abaixo:usufrui de alto grau de flexibilidade organizacional, • Tangibilidade: refere-se aos aspectosarticulada com possibilidades interdisciplinares. tangíveis do serviço que podem servir deAlém disso, o rigoroso processo de reconhecimento pistas ou indicadores de sua qualidadede programas imprimiu um ritmo ordenado na como aparência física das instalações,expansão da pós-graduação (CURY, 2004). equipamentos, pessoal e material de comunicação;2. Algumas considerações sobre a • Confiabilidade: diz respeito à capacidadequalidade em serviços da empresa prestadora do serviço em O interesse pela otimização da qualidade executá-lo conforme contratado, de modoem serviços aumentou exponencialmente durante confiável e preciso;a década de 1980. A literatura tem analisado de • Presteza: disposição de ajudar os clientesforma significativa o importante papel da qualidade e de fornecer o serviço com prontidão.dos serviços e como as organizações devem se Relaciona-se também à rapidez de respostasposicionar para alcançá-lo. Segundo Parasuraman na correção de erros;et al. (1985), o estudo da qualidade em serviços • Segurança: refere-se à capacidade dossurgiu com a preocupação em melhorar a qualidade funcionários da prestadora de serviçodos produtos, sendo que o fato das empresas de em inspirar credibilidade e confiança nosbens de consumo experimentarem ganhos em clientes, além de conhecimento e cortesia;competitividade, fez com que as empresas de serviçosse interessassem pela temática. No entanto, as • Empatia: refere-se ao grau em que aespecificidades dos serviços são bastante diferentes prestadora do serviço é capaz de adequar-das características dos bens de consumo. se para atender as especificidades de cada Partindo de uma estrutura que compara cliente, ou seja, a atenção individualizada eexpectativas e percepções de desempenho cuidadosa que as empresas proporcionamParasuraman et al. (1985, 1988 e 1991) propuseram aos clientes.uma escala denominada SERVQUAL utilizada para Outro modelo de mensuração da qualidademensurar e avaliar a percepção da qualidade em em serviços amplamente utilizado na literatura éserviços em geral. o modelo conceitual de qualidade em serviço ou Desde a sua introdução, o SERVQUAL modelo GAP que originou-se a partir de estudos ,tem sido amplamente estudado e utilizado na realizados por ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY 131
  • 128. (1990) e se propunha a encontrar respostas para as Gap 4: discrepância entre o serviço prometidoseguintes questões: (muito influenciado pelas comunicações externas) e • Como exatamente os consumidores avaliam o serviço prestado. a qualidade de um serviço? No ano de 1985, os mesmos autores haviam concluído que a qualidade dos serviços poderia ser • Os serviços são avaliados pelos descrita baseada em dez dimensões da qualidade, consumidores de uma forma global ou porém, posteriormente, no ano de 1988, após parcial? tentativas de medir essas dez dimensões, eles • Quais as múltiplas facetas das dimensões revelaram que os clientes só são capazes de distinguir de um serviço? cinco delas. • Essas dimensões diferem de acordo com o A partir do modelo da Figura 1 e dessas segmento do serviço? cinco dimensões da qualidade estabelecidas como E neste estudo foram incluídos entrevistas principais, foram desenvolvidos questionários paracom clientes de quatro setores de serviços: banco determinação dos “gaps”, os quais se destinam aosde varejo, cartão de crédito, seguros e serviços de clientes externos (gap 5), gerentes (gaps 1 e 2) emanutenção. As questões utilizadas nas entrevistas clientes internos (gaps 3 e 4)abordavam quais eram as razões de satisfaçãoou insatisfação percebida pelos consumidores; 3. Indicador de impactodescrição de um serviço ideal; o significado daqualidade no serviço prestado; e o desempenho O cálculo de indicadores de satisfação é feitoda empresa prestadora em relação às expectativas. a partir de dados colhidos sobre as importânciasOs pontos comuns observados nas entrevistas e satisfações dos requisitos do cliente utilizando adeterminaram que o ponto chave da qualidade metodologia proposta por Kenny e Shike (1994). Essesde um serviço prestado é atender ou exceder a requisitos, após terem sido definidos como resultadosexpectativa do cliente. Em decorrência disso, a da pesquisa qualitativa foram submetidos a umaqualidade de um serviço pode ser definida como avaliação por meio da aplicação do questionárioo grau da discrepância entre as expectativas ou a uma amostra estatisticamente representativa dodesejos dos clientes em relação às suas percepções segmento de clientes. Tal procedimento permite a(PARASURAMAN et al., 1991). determinação da Importância e Satisfação Médias Esses autores alertam para a existência de um Relativas de cada um dos Requisitos do Cliente,afastamento entre as expectativas do cliente antes de assim definidas:receber um serviço e a percepção a respeito desse • Importância Média - Quantificação doserviço após ele ter sido prestado. Esse afastamento, grau de importância atribuído ao requisitodenominado de “gap 5”, é o resultado dos outros considerado pelo cliente;quatro “gaps”, como pode ser observado na Figura1. • Satisfação Média - Quantificação da Os demais “gaps” são definidos da seguinte percepção do cliente a respeito da maneiraforma: como o requisito está sendo atendido. Gap 1: discrepância entre o que o cliente Uma vez colhidos os dados, são calculadasquer (expectativas) e o que a gerência imagina as médias de importância e satisfação e osserem aquelas expectativas. resultados são empregados em cálculos que Gap 2: discrepância entre a percepção por buscam agrupar dados segundo critérios departe do gerente das expectativas do cliente e as produtos, serviços, ou dimensões da qualidade.especificações do serviço. Um exemplo é o da determinação da satisfação Gap 3: discrepância entre a especificação do cliente a respeito de uma particular dimensãodo serviço e o serviço prestado. representado na Equação 1. 132
  • 129. Figura 1 - Esquema do Modelo Conceitual de Qualidade em serviços (GAP5)Fonte: ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY, 1990.Equação 1. Onde: Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente.SDk= , i € k , k = 1,2… Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente.Onde: 4. O indicador gap ponderadoIi = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente,da dimensão k da qualidade; Observa-se que o Indicador de Impacto proposto por Kenny e Shike utiliza o hiato existenteSi = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente. entre a importância e a satisfação do cliente, mas não Kenny e Shike propuseram um Indicador leva em consideração a expectativa existente nessede Impacto dos requisitos do cliente, o produto cliente com respeito aos requisitos. A expectativada importância média pelo hiato existente entre a média pode ser definida como a quantificação daimportância e satisfação média para cada requisito percepção do cliente da intensidade com que eledo cliente representado na Equação 2. imagina que o requisito será atendido, ou seja, éEquação 2. uma pré-concepção do serviço, ou seja, a imagem gerada por meio das mais diversas influênciasIIi=Ii(Ii - Si) sofridas pelo cliente. 133
  • 130. Verificando-se o modelo para a qualidade de 83%, representados pelos questionários válidosnos serviços proposto por Parasuraman (1990), retornados.nota-se que o mais importante dos “Gaps” é Optou-se pela realização do censo em vezo de número cinco, o qual retrata exatamente de uma amostragem significativa, atendendo oa discrepância existente entre a expectativa e a que observa MATTAR (1996) de que se realizamsatisfação do cliente, o que não foi considerado censos ao invés de amostras quando a populaçãono modelo de Kenny (1994). É natural então que for pequena ou quando houver facilidade em obterse façam algumas perguntas: Seria a expectativa dados sobre a populaçãodesprezível ao tratar-se de impacto dos requisitos A coleta de dados foi realizada aodo cliente? Como poderia ela ser inserida em um final de oito módulos do programa do curso,modelo que viesse a traduzir melhor o impacto de obtida diretamente junto aos pesquisados. Osum determinado requisito? questionários foram baseados no modelo dos 5 Acredita-se que a resposta à primeira Gap’s adaptado ao serviço educacional, sendopergunta seja “não”. Afinal, parece ser razoável composto por 17 questões sobre as quais os alunosafirmar que uma grande expectativa acompanhada opinaram dentro de uma escala de concordânciade uma baixa satisfação também provoque alto do tipo Diferencial Semântica de cinco pontos.impacto, e ainda, esses dois parâmetros são de As sentenças foram divididas em três blocos demesma natureza e referem-se à “satisfação antes” perguntas relativas às generalidades do curso,e “satisfação após”, podendo ser subtraído um do dos módulos e dos docentes relatando suasoutro. Já a resposta à segunda pergunta requer expectativas e percepções sobre cada item. Nesteum pouco mais de cuidado. Assim, após alguns estudo, considera-se o bloco das variáveis detestes que empregaram dados coletados, chegou- percepção do desempenho como o conjunto dese à expressão denominada Gap Ponderado (GP) variáveis independentes diferenciada pelos seus(Equação 3), a qual permite o emprego do “Gap graus de importância.5” sem desprezar o peso da importância dos Para mensurar a discrepância entre arequisitos. expectativa dos clientes e a satisfação percebidaEquação 3: utilizou-se a metodologia do indicador GAP ponderado proposta por Parasuraman (1990).SP = Ii (Ei-Si) + 18 Como o desejo era o de se traduzir o afastamento do atendimento dos requisitos do clienteOnde: sem que a expressão assumisse valores negativos,Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente. foi necessária a soma do valor 17 (relativo aoEi = Expectativa Média do i-ésimo requisito do cliente. número de questões). Assim, no caso do empregoSi = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente. de uma escala de 1 a 5 (Likert,1932), a expressão não assumiria valores negativos, pois mesmo que a diferença entre as médias de expectativa e5. Metodologia importância assumisse seu valor mínimo (-4), o GP Para o desenvolvimento deste trabalho, seria igual a zero.realizou-se uma pesquisa descritiva de caráter Buscou-se assim, desenvolver uma expressãoquali-quantitativo com os alunos de pós- graduação que melhor representasse a oportunidade dedo curso de MBA Executivo em Administração de melhoria apresentada por alguns requisitos, fazendouma faculdade do município de Guarapuava - Pr. uso do “GAP 5” na forma como foi concebido porO universo pesquisado foi o conjunto de alunos Parasuraman, como um meio de fácil identificaçãoda 3ª e 4ª edição do curso, somando assim um do grau de afastamento do atendimento a cada umnúmero de 39 pesquisados. A taxa de retorno foi dos requisitos do cliente. 134
  • 131. 6. Resultados e discussão comentados, tarefa esta, facilitada pela verificação das duas últimas colunas da Tabela 1. Para o desenvolvimento deste trabalho, Após o cálculo do Gap Ponderado, pode-serealizou-se uma pesquisa descritiva de caráter quali- observar que os requisitos “Conteúdo das Aulas”quantitativo, cujos dados receberam um tratamento e “Aplicabilidade” destacam-se como possuidoresestatístico para análise dos resultados. dos maiores valores de Gap Ponderado (21,9606 A figura 2 mostra as médias de Importância, e 20,8326 respectivamente), aparecendo emExpectativa e Satisfação para os dezessete requisitos primeiro e segundo lugares na ordem dosque compõem as dimensões de qualidade do requisitos (última coluna da tabela), pois , tanto aserviço prestado, onde se pode notar a diferença importância como o Gap ponderado são elevados.entre alguns dos perfis apresentados por diferentes São os requisitos que merecem a maior atenção,requisitos. Levando-se em conta os três parâmetros ou o que apresentam as maiores oportunidades(Importância, Expectativa e Satisfação) ao mesmo de melhoria.tempo, torna-se possível inferir quais os requisitos do Os requisitos “Coffe-Break” e “Suporte On-cliente estão sendo os maiores responsáveis pela sua line” são os que apresentam os menores índices deinsatisfação e fornecendo uma maior oportunidade Gap Ponderado, pois, além de possuir uma baixade melhoria ao serviço. importância para o cliente, estão sendo prestadosFIGURA 2.*Gráfico das médias de Importância, Expectativa e Satisfação para os dezessete requisitos que compõem as dimensões de qualidade do serviçoprestado no curso de pós-graduação. É comum a afirmação de que a satisfação além das suas expectativas, logo merecem menordo cliente ocorre quando suas expectativas são atenção.superadas, porém, o GP (Gap Ponderado) não leva O requisito “Infraestrutura”, apesar de possuirem consideração apenas essa discrepância entre importância mediana e uma expectativa inferior àexpectativa e satisfação. No cálculo do Índice de maioria dos outros requisitos, o valor da satisfaçãoGap Ponderado é inserida a multiplicação pela do cliente atribuído a esse requisito encontra-seimportância média do requisito, o que requer maior próximo ao valor da expectativa, o que faz com quecuidado com as afirmações a serem feitas. Assim, esse requisito também tenha um valor baixo de Gapalguns perfis representados na Figura acima serão Ponderado, merecendo dessa forma pouca atenção. 135
  • 132. Tabela 1 - tabela representativa da mensuração da discrepância existente entre a expectativa e asatisfação para os requisitos verificados Importância - Expectativa - GAP Ponde- Ordem do Va- Requesitos Expectativa Satisfação Importante Satisfação Satisfação rado lor do GAP Material de Apoio 4,956521739 4,956521739 3 -0,685548293 1,270973446 20,81292030 3 Suporte On-Line 4,869565217 3,75136689 1 -2,751366893 1,118198324 18,11819832 16 Recursos Audio-Visuais 4,869565217 4,869565217 3 -1,102719798 0,766845419 19,30053626 10 Infra-Estrutura 4,681818182 4,00560897 3 -1,005608974 0,676209208 19,02862762 12Conhecimento (Docentes) 4,913043478 4,31440666 5 0,685593344 0,598636822 19,99318411 7 Atendimento 4,681818182 4,29299318 3 -1,292993183 0,388824999 18,166475 15 Coffe-Break 4,608695655 4,49878363 1 -3,498783633 0,109912023 17,10991202 17 Despertar do Interesse 4,869565217 3,93340595 4 0,066594045 0,936159262 20,74463705 4 Aplicabilidade 4,913043478 3,9548953 4 0,045107466 0,958150944 20,83260378 2 Conteúdo das Aulas 4,956521739 3,96440909 5 1,035590911 0,99211265 21,96056325 1 Adequação ao Prog. 4,859565217 4,23218022 5 0,767819783 0,637385 20,186925 6 Carga Horária 4,869565217 4,18291734 4 -0,182917336 0,686647881 19,74659153 8 Organização 5 4,20424403 3 -1,204244032 0,795755968 19,3872679 9 Didática 5 4,29019088 5 0,709809123 0,709809123 20,54904561 5 Relacionamento 5 4,43971845 3 -1,439718451 0,560281549 18,68084465 13 Cump. de Horário 5 4,69329589 4 -0,693295886 0,306704114 18,22681646 14 Domínio do Conteúdo 5 4,55618401 5 0,443815988 0,443815988 19,21907994 117. Considerações finais A avaliação contínua da qualidade é uma ferramenta fundamental não só para mensurar o Neste artigo, buscou-se investigar o emprego serviço como um todo, mas também traz outroso do modelo conceitual de qualidade em serviço benefícios a organização prestadora de serviços,ou modelo GAP na avaliação da Qualidade dos tais como: capturar idéias para a inovação, cultivarServiços prestados por um curso de pós-graduação e consolidar a predisposição à participação porde uma instituição de ensino no município de parte dos funcionários para seguirem as metasGuarapuava-Pr, segundo o ponto de vista de uma propostas pela direção e criar uma visão maisamostra de clientes (alunos). clara tendo melhores informações para a tomada Através do experimento foi possível extrair de decisões.informações relevantes em análises dessa natureza, Apesar da elevada contribuição que umatais como: a expectativa dos usuários quanto ao análise dessa natureza pode oferecer ao prestadorserviço prestado pelo curso à luz das Dimensões do serviço, é importante ressaltar que os resultadose itens da Qualidade; o desempenho do serviço apresentados retratam apenas a avaliação daprestado pela instituição, avaliada segundo a qualidade dos serviços prestados pelo curso em umpercepção de uma amostra de usuários; além de período específico, segundo o ponto de vista deobter os Gaps provenientes da diferença entre as uma amostra de clientes (alunos).percepções e expectativas dos usuários, Nesse sentido, uma análise mais conclusiva O curso de pós-graduação analisado, apesar pode ser obtida a partir da continuidade dasde apresentar posição de destaque e sinônimo de avaliações, realizadas periodicamente. Além disso,qualidade na cidade Guarapuava-Pr, ainda precisa, seria importante “ouvir a voz” dos clientes internosde acordo com o seu corpo discente (usuários), (funcionários) da instituição.melhorar em alguns aspectos considerados Portanto, o estabelecimento de instrumentosimportantes e fundamentais ao avaliar o seu de avaliação da qualidade mostra-se indispensáveldesempenho nos serviços educacionais promovidos. para qualquer instituição de ensino comprometida Ouvir o cliente não é um fim, é um meio para com a melhoria de processos e com a satisfação domelhorar os serviços e pode fornecer informações aluno, ou seja, seu consumidor. Entretanto, muitasde valor inestimável e imprescindível para tomada instituições não possuem métodos formais, legítimosde decisões futuras, que em alguns casos julga-se, e validados para identificar a percepção discenteerradamente, serem conhecidas. sobre os serviços prestados. 136
  • 133. ReferênciasBANDEIRA, M. L. et al. Avaliação da qualidade da pós-graduação: construção e validação de uminstrumento de pesquisa. BALAS - LATIN AMERICA’S NEW MILLENNIUM - PROCEEDINGS - 1999. p. 48-56.CHENG, Y.C. TAM M.M. Multi-models of quality in education. Quality Assurance In Education. Vol.5 . Dec. 1997 p. 22-31.CURY, C. R. J. Graduação/pós-graduação: a busca de uma relação virtuosa. Educ. Soc. [online]. 2004,vol.25, n.88, pp. 777-793. ISSN 0101-7330. doi: 10.1590/S0101-73302004000300007.DUTRA, H. F. O.; OLIVEIRA, P A. S.; GOUVEIA, T. B. Avaliando a qualidade de serviço numa instituição .de ensino superior. In: ENCONTRO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS GRADUAÇÃO EMADMINISTRAÇÃO, Anais... 26., Salvador, 2002.KENNY, A; SHIKE, J. Improving Improvement : How a Hospital CQI ProgramPractices what it Preaches, Competitive. SID/ASQC, vol4, nr2, october,1994.LEITÃO, R. A.; GIULIANI, A.C.; PIZZINATO, N.K.; PEREIRA, J.S. A Análise Dos Serviços RecebidosPelos Alunos De Pós-Graduação Da Faculdade De Odontologia De Piracicaba – Unicamp. RevistaContemporânea de Economia e Gestão. Vol.5 - 1 - jan/jun/2007. (59-68).LIKERT, R.A. Technique for the measurement of attitudes. Archives of Psychology. N. 140. 1932LOVELOCK, C. H. Classifying services to gain strategic marketing insights. Journal of Marketing,volume 47, summer, 1983. p. 9-20.MATTAR, F.N. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 1996. Pag 276.PARASURAMAN, A.; BERRY, L. L.; ZEITHAML, V. A. A conceptual model of service quality and itsimplications for future research. Journal of Marketing, v.49, p.41-50, fall, 1985.PARASURAMAN, A., V. A. SERVQUAL: a multiple-item scale for measuring consumer perceptions ofservice quality. Journal of Retailing, v.64, n.1, p.12-40, spring, 1988.PARASURAMAN, A., ZEITHAML, V.A.; BERRY, L. L. Delivering Quality Service:Balancing customerperceptions and Expectations. New York: The free Press 1990.PARASURAMAN, A.; BERRY, L. L.; ZEITHAML, V. A. Refinement and reassessment of the SERVQUAL Scale.Journal of Retailing, v. 67, n. 4, winter, 1991SOBRAL, F. A. F. Educação para a competitividade ou para a cidadania social? São Paulo emPerspectiva, v. 14, n. 1, p. 3-11, 2000. 137
  • 134. BRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisa e extensão BRT-ADM/I – Bank of Technological Resources: supporting education, research and extensionCarlos César Garcia Freitas1ResumoA presente pesquisa teve a finalidade de identificar recursos tecnológicos que pudessem servir de apoio aatividade acadêmica no âmbito da pesquisa, ensino e extensão. Para tanto, foi utilizado como procedimentosmetodológicos um estudo exploratório de caráter descritivo, dividido em duas etapas distintas, sendo estas: a)identificação e análise de alternativas de espaço, para alocação dos recursos tecnológicos e sua divulgação; eb) levantamento, catalogação e disponibilização de diversos recursos disponíveis que pudessem ser livrementeutilizados no âmbito da instituição de ensino. Como principal resultado da pesquisa, obteve-se a criaçãode um sistema de informação, de caráter universal, acessível, oficial, flexível, atualizável e tecnológico, emformato página da WEB, hospedada junto ao portal corporativo da UNICENTRO, acessado por meio do linkhttp://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/, no qual estão disponíveis tecnologias de apoioà atividade acadêmica, entre elas: softwares, links, documentos e procedimentos.Palavras-chave: Recursos Tecnológicos; Sistemas de Informação; Ensino, Pesquisa e Extensão.AbstractThe present researches, it had the purpose of identifying technological resources that could serve as supportthe academic activity in the ambit of the research, education and extension. For so much it was used asmethodological procedures an exploratory study of descriptive character, divided in two different stages, beingthese: the) identification and analysis of space alternatives for allocation of the technological resources andpopularization of the same ones; and b) rising, cataloguing and disposition of several available resources thatcould be used freely in the ambit of the teaching institution. As principal result of the research, was obtained thecreation of a system of information, of character universal, accessible, official, flexible, update and technological,in format page of the WEB, accommodated the corporate portal of UNICENTRO close to, accessed through thelink http://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos /, in which are available support technologiesthe academic activity, among these: softwares, links, documents and procedures.Key words: Technological Resources; Systems of Information; Teaching, Researches, Extension.1. Introdução Em uma era em que o conhecimento se torna a maior vantagem competitiva a ser conquistadapelas empresas e o capital intelectual torna-se um dos principais ativos das organizações, é de se esperarque os olhares se voltem para a gestão do conhecimento e para desenvolvimento de organizações de1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil. Possui graduação em Administração de Empresas e mestradoem Administração pela Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração daUniversidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil, nível doutorado. Contato: cesarfreitas@sercomtel.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 10/08/2010 - Aprovado em 26/11/2010
  • 135. aprendizagem, ou seja, instituições que saibam concorrência, fruto do avanço do modelo capitalistaconduzir seus integrantes a “aprender a aprender”, e da integração dos mercados regionais, nacionaisoferecendo-lhes oportunidades para o seu e internacionais, que expõem as suas fraquezas,desenvolvimento contínuo. frente ao desafio de se manterem competitivas. Por outro lado, estudos indicam que muitos Tais fraquezas dizem respeito à capacidade deconceitos modernos da gestão das empresas não criação, diversificação e inovação de seus produtospodem ser facilmente comunicados através dos e serviços, como meio de atender a consumidoresmétodos e técnicas tradicionais de ensino, o que cada vez mais exigentes e informados sobre asacaba resultando em um gap entre a formação diversas opções disponíveis.teórica e a prática do administrador, tão almejada Capacidade esta, que se apresenta comopelo mercado de trabalho (CARVALHO et al., 1995; um desafio para o acadêmico de Administração,ANDRADE et al., 1999; ANDRADE et al., 2004). requerendo esforços para a compreensão dos Muitos desses conceitos advêm do crescente conceitos teóricos, de uma realidade complexa que,e complexo processo de globalização econômica conforme destacado anteriormente, não pode sere social vivenciados nas últimas décadas, em facilmente ensinada através de métodos e técnicasque as fronteiras geográficas deixaram de de ensino tradicional (transmissão por via única dorepresentar uma limitação para os relacionamentos conhecimento).interorganizacionais. Como consequência, houve o Diante disso, o papel das instituições desurgimento de interações dinâmicas, advindas do ensino, entre outros, torna-se de suma importânciacrescimento quantitativo e qualitativo de variáveis como incentivadora de profissionais competentesambientais, tanto internas como externas as para o exercício da gestão, ensejando, dessaorganizações, cujo impacto pode ser comparado maneira, um postura metodológica de ensino queàs mudanças provocadas pela Revolução Industrial. supra as demandas de instrumentos pedagógicosTais mudanças denominadas Revolução Tecnológica que sirvam de meio à capacitação desses novose do Conhecimento têm provocado profundas profissionais, de forma a encontrar respostas paramodificações nas organizações, principalmente no as dificuldades de ensino-aprendizagem enfrentadasprocesso de sua gestão. por professores na formação de seus alunos, por Diante deste contexto, surge uma demanda meio do ensino, da extensão e da pesquisa.por profissionais que administrem a complexidade Em resposta a essa demanda, foi desenvolvida(LÊ BOTERF, 2003). Profissionais que sejam formados uma pesquisa com o intuito de identificar recursosnão apenas com foco na habilidade (técnica) ou no tecnológicos que apoiem as atividades de ensino,conhecimento, que já não são mais considerados pesquisa e extensão do Curso de Administração,suficientes para o exercício frente à complexidade. voltados à formação de futuros profissionais daTais demandas exigem dos atuais gestores a atitude complexidade, embasados pelos pressupostos deda pró-atividade frente aos problemas e desafios do confrontação experimental do contexto cultural domundo empresarial. É preciso que os profissionais ambiente profissional, e da promoção do ensinoda sociedade moderna possuam competência para deslinearizado.o propósito, que, segundo Brandão e Guimarães Resultado do esforço empreendido, houve a(2002), Lê Boterf (2003), Antonello (2005) e tantos identificação de recursos tecnológicos norteados pelosoutros, de conceituarem-na como o ato de agir princípios de aplicabilidade contextual, potencial depelo domínio de três dimensões: conhecimento, complementariedade e legalidade de utilização;habilidade e atitude. vinculados à promoção de atitudes estimuladoras ao Somado ao crescente avanço da complexidade processo de ensino-aprendizagem. Ainda destaca-das relações interorganizacionais, as empresas se a concepção de um “espaço” democráticoainda se deparam com o crescente aumento da informacional de tecnologias, direcionado a captar 140
  • 136. e institucionalizar novos conhecimentos, visando à A falta de clareza acerca do projeto-pedagógico reduzgestão do conhecimento, como arcabouço para a qualquer curso a uma grade curricular fragmentada, uma vez que até mesmo as ementas a as bibliográ-aprendizagem organizacional. ficas perdem a razão de ser. Assim, o que dá clare- za ao projeto-pedagógico é sua intencionalidade... o2. Fundamentação Teórica projeto pedagógico como instrumento de ação política deve estar sintonizado com uma nova visão de mundo, expressa no paradigma emergente de ciência e edu-2.1 O Ensino na Educação Superior cação, a fim de garantir uma formação global e críti- ca para os envolvidos neste processo, como forma de A crescente intensidade das relações capacitá-los para o exercício da cidadania, formaçãointernacionais e nacionais, que caracteriza o processo profissional e pleno desenvolvimento pessoal.de globalização, tem provocado modificaçõessignificativas no modo de vida das pessoas, assim Nesse contexto, as universidades e demaiscomo das organizações, em especial no sistema instituições de ensino superior “representam umeducacional que busca preparar os indivíduos segmento importante no contexto econômico epara o exercício da cidadania e para a atuação social e têm uma parcela de responsabilidadeprofissional. pelos profissionais que colocam no mercado de Apesar de todo o sistema educacional trabalho” (HANASHIRO; NASSIF, 2006, p. 45). Talreceber uma forte carga de responsabilidade frente responsabilidade justifica o constante questionamentoàs necessidades de equalização do status quo, sobre a necessidade de atualização das instituiçõesdiante das pressões de atualização e modernização, de ensino na busca de um constante ajustamentoo ensino superior sofre maior pressão por ter que tanto do processo como dos mecanismos utilizadosabsorver criticamente tamanha carga de conteúdos para a formação dos profissionais, de modo quee conhecimentos e possibilitar meios adequados possam não somente estar preparados para atuarde absorção desses aos seus indivíduos formativos. frente às mudanças, como estar à frente das mesmas.Essa responsabilidade enseja-se pela própria funçãodos cursos superiores em formar e diplomar pessoas 2.2 O Processo de Ensino-Aprendizagem enas diferentes áreas do conhecimento, tornando- a Formação do Administradoras aptas para a inserção em setores profissionais e De acordo com Mintzberg (1979), hápara participação no desenvolvimento da sociedade várias pedagogias disponíveis para pedagogosbrasileira (MEC, 2003; MEC, 2005). empresariais. Segundo o autor, a academia Ao curso superior é muitas vezes denominado influenciará a prática de administração, quandocomo a “última fronteira”, após o que o indivíduo for capaz de “ensinar um jogo” de habilidadesdeveria estar apto a exercer de modo crítico sua associadas com o trabalho de administrar.profissão, participando integralmente, não apenas Para Mintzberg (1979), da mesma maneirana manutenção, mas também no desenvolvimento que o estudante de medicina tem que aprenderda sociedade brasileira. Tal responsabilidade a realizar um diagnóstico e o estudante deadvém do fato deste ser “portador” de habilidades e engenharia tem que aprender design, o estudanteconhecimentos promovedores e ampliadores de sua de administração precisa aprender negociação,própria atuação profissional, o que se subentende liderança e outras habilidades administrativas.estar preparado a conhecer, a compreender e a O autor segue, afirmando que aprenderpromover novos conhecimentos à cerca do homem é muito efetivo quando o estudante, na verdade,e do meio em que vive. Para isso é preciso que o executa suas habilidades dentro de um ambientesistema esteja ajustado em seu processo de formar realístico, desse modo, o estudante deve ser imersoe capacitar as pessoas frente aos desafios atuais, no ambiente, de modo que ele possa praticar acomo destaca Veiga (2000, p. 186): habilidade (MINTZBERG, 1979). 141
  • 137. Ainda com relação à aprendizagem, Abreu Diante disso, trazer para o ambiente dee Masseto (1996) classificam a aprendizagem em aprendizado recursos tecnológicos que levem ostrês categorias: cognitiva ou de conhecimento, de alunos a aprimorarem seus conhecimentos, suasvalores e atitudes e de habilidades, indicando que habilidades e atitudes, mediante a confrontaçãoo professor lida o tempo todo não só com o que o experimental do contexto cultural de seu futuroaluno aprende cognitivamente, mas também com profissional, contribuir-se-á para o re-ligareatitudes e habilidades. destes com o universo da administração (campo Além desses aspectos, deve-se lembrar que um profissional), de modo a desenvolver pensadoresambiente de aprendizagem, como qualquer outro, autônomos, que ajam com consciência, autonomiadeve reconhecer a importância do papel da cultura e responsabilidade, frente às demandas de seu dia-e do contexto na construção do conhecimento. De a-dia.acordo com Moraes (2000), o responsável peloprocesso de aprendizagem deve “compreender que 2.3 Aprendizagem Organizacional e Com-a construção de conceitos ou o desenvolvimento petências – O novo Contexto das Organi- zaçõesde quaisquer outras habilidades intelectuais sãodiretamente relacionados com a riqueza ou pobreza Possibilitar ao indivíduo aprender dede materiais existentes na cultura e no contexto, e modo a agir conscientemente, com autonomiaque são dependentes de certos tipos de modelo e responsabilidade é um grande desafio que sefornecidos e reforçados pela cultura”. apresenta ao papel do professor, que deve buscar, Dessa forma, Moraes (2000, p. 223) destaca conforme destacado por Abreu e Masseto (1996),que, desenvolver uma aprendizagem significativa por meio das três categorias de aprendizagem: cognitiva Os novos ambientes e métodos de aprendizagem po- ou de conhecimento, habilidade e atitude. dem colaborar para o desenvolvimento de pensado- O desafio da aprendizagem significativa não res autônomos, de cooperação, de diálogo, median- se restringe apenas ao meio acadêmico, mas também te o desenvolvimento de operações de reciprocidade, se aplica às organizações, dentro do processo de complementaridade e correspondência, o que pode ser incentivado com vivencias de trabalhos em grupo desenvolvimento de seus elementos. Tal aplicação na busca de soluções para problemas propostos, que se dá pela necessidade dessas frente às demandas reconheçam a importância da experiência e do saber das constantes pressões de seu ambiente externo, de cada membro do grupo na construção do saber em virtude da ação dos concorrentes, exigências coletivo. dos consumidores, interferências internacionais, políticas governamentais e ambientais. Continuando suas reflexões, Moraes (2000) “Em um ambiente cada vez mais complexo,afirma que, ao criar ambientes de aprendizagem que demandante e instável, a competitividadefacilitem a vivência dos processos intuitivos e criativos, organizacional passa a ser determinada pelaque permitam o re-ligare do individuo com o universo, agilidade que uma empresa tem de mobilizaré que proporcionará mais autoconfiança, mais esforços e adaptar-se internamente para atendercapacidade de enfrentar problemas, mais condições de às demandas de clientes cada vez mais exigentes”preservar a integridade e o equilíbrio psico-emocional: (DUTRA, 2001, p. 72).“é essa capacidade de reflexão que leva o indivíduo a Essas pressões cada vez mais fortes eaprender a conhecer, a aprender a pensar, a aprender frequentes geram uma constante demandaa aprender, a aprender a fazer, a aprender a conviver por adaptação, inovação e criação dentro da[...] para que possa aprender e estar em condições de organização. A ênfase diante de tal contexto está naagir com consciência, autonomia e responsabilidade” busca pela competitividade, ou seja, manter-se em(MORAES, 2000, p. 224). condição de competir em seu mercado. 142
  • 138. “No contexto de constantes transformações possíveis entre blocos vinculados por remissões,em busca de maior competitividade, a aprendizagem sem estar preso a um encadeamento linear único”,organizacional surge como uma alternativa de ou seja, uma forma de apresentação de umresposta a essas alterações”, assim destaca Bitencourt conteúdo de forma não contínua, mas cambiável(2005, p. 15), o papel da aprendizagem para as em suas partes, através de vínculos ou nós ligadosorganizações que deve servir como instrumento por conexões, as quais o leitor pode acessar dede “desenvolver a capacidade de aprender forma autônoma o conteúdo, montando a sicontinuamente, tomando por base suas experiências próprio o conhecimento de acordo com o tempoe traduzindo esses conhecimentos em práticas desejado.que contribuam para seu melhor desempenho” Cabe destacar que tal recurso não é novidade(BITENCOURT, 2005, p. 15). no meio acadêmico, podendo ser encontrado nos Corroborando a definição acima, Antonello textos em forma de referências, citações, notas de(2005, p. 27) a partir de uma revisão crítica acerca rodapé, sumário e índices remissivos. O que existedos mais diversos enfoques (socialização, processo- de novo é a evolução da tecnologia pelos recursossistema, cultura, gerenciamento do conhecimento, computacionais que trouxeram uma verdadeiramelhoria contínua, inovação) sobre a aprendizagem revolução ao hipertexto, proporcionando uma maiororganizacional a conceitua da seguinte forma: aplicação desse ao ensino. Sobre esse aspecto, Valente (2006, p. 1) A aprendizagem organizacional é um processo contí- destaca que os computadores podem “enriquecer nuo de apropriação e geração de novos conhecimen- ambientes de aprendizagem onde o aluno, tos nos níveis individual, grupal e organizacional, en- interagindo com os objetos desse ambiente, tem volvendo todas as formas de aprendizagem – formais chance de construir o seu conhecimento [...]. O e informais – no contexto organizacional, alicerçando aluno não é mais instruído, ensinado, mas é o em dinâmica de reflexão e ação sobre as situações- -problema e voltado para o desenvolvimento de com- construtor do seu próprio conhecimento.” petências gerenciais. A liberdade de escolher caminhos e interagir de forma “autônoma” ao conhecimento caracteriza Pela definição dada por Bitencourt (2005), é a ação hipertextual e representa não só mais umpossível ressaltar a aprendizagem como o meio de método de ensino, mas um encontro à realidade dagerar uma ação por meio de um conhecimento, e sociedade moderna, ao que se pode destacar Silvaligando-a com a definição dada por Antonello (2005), (2002, p. 25):tal ação pode ser entendida como consequênciado atributo competência do indivíduo, ou seja, Há uma cultura da interatividade historicamente emer- gente. Pode-se dizer que a cena interativa, tomadacompetência para realizar a ação, concluindo- genericamente como interação da emissão e recep-se dessa forma que o papel da aprendizagem ção, é tão antiga quanto as primeiras manifestaçõesorganizacional é o de propiciar às pessoas a comunicacionais entre seres humanos. No entanto, emnecessária competência para o desenvolvimento de nosso tempo, é explícita a pregnância tanto do termoseu papel. interatividade quanto de práticas comunicacionais di- tas interativas. No campo das novas tecnologias da2.4 A Hipertextualidade e os Novos Recur- informação da infotecnologia, tal pregnância parecesos Tecnológicos na Educação ter chegado ao paroxismo, a ponto de o termo passar a ser visto como originário do funcionamento “amigá- Houaiss (2001, p. 1536) apresenta como vel” e “conversacional” do computador. Também nodefinição para hipertexto uma “apresentação de campo mercadológico, precisamente a partir da Inter- net, a perspectiva tomada necessariamente como uminformações escritas, organizadas de tal maneira mais comunicacional, torna-se explícita reescrevendoque o leitor tem liberdade de escolher vários o ambiente comunicacional que envolve a comunida-caminhos, a partir de seqüências associativas de de negócios. 143
  • 139. Tal contexto explicitado por Silva (2002) Diante disso Silva (2002, p. 70) destacarepresenta bem o “status quo societal”, configurado que “o professor está diante do desafio que sepor uma emergente cultura de interatividade, que constitui em conhecer e adotar a metodologiaenvolve não somente o campo das novas tecnologias comunicacional interativa e ao mesmo tempo nãode informação, mas o setor mercadológico, invalidar o paradigma clássico que predomina naassim como, a própria configuração social. No escola”, ou seja, não anular o que existe numa açãomeio de toda essa transformação interativa, de de troca, mas sim, complementar, numa ação deinformações e conhecimentos que se formam e soma. “O professor então se dará conta de que talinformam de modo livre através dos novos canais modificação significa a emergência de um novo leitorde comunicação (midias interativas), os indivíduos [...] Não mais que se submete às récitas da emissão,passam a criar um modo de ver, interpretar e mas aquele que, não se identificando apenas comointeragir com seu mundo e trazem consigo aos receptor, interfere, manipula, modifica e assimbancos acadêmicos essa herança comportamental reinventa a mensagem” (SILVA, 2002, p. 71).contrastando com as metodologias tradicionais No esforço de somar ao velho o novo, dede formação linear do conhecimento, gerando responder às demandas da sociedade pelo processohiatos educacionais, pelo distanciamento do setor de interatividade e incorporar a hipertextualidadeeducacional em relação à prática comunicacional ao processo educacional, apresenta-se diversosderivada da interatividade. recursos tecnológicos, como: jogos de empresa, Alencastro et al (2003, p. 57) destacam simuladores, plataformas, sites de comunicação,que “a grande diferença entre a cultura da softwares educativos e profissionais e diversasescrita linear e a linguagem hipertextual reside outras ferramentas; como metodologias adequadasna deslinearização da comunicação, em que a de auxílio ao processo de ensino-aprendizagem,linguagem é construída de forma estritamente seja pelo desenvolvimento específico do ensino,linear”, ou seja, uma linguagem não contínua, como pela pesquisa e extensão, para contribuir na superação das deficiências na formação dos futurosque procede por diversas direções, gerando um administradores.exercício do leitor e consequentemente um ensinomais interativo e envolvente. Alencastro et al(2003) destacam a importância dos “novos meios, 3. Análise e Descrição dos Dadostais como redes de computadores, linguagens A pesquisa foi realizada em duas etapasde consulta a banco de dados, comunicação distintas, de modo a atender ao seu objetivo omóvel e outros, ao operarem em suporte digital, de identificar recursos tecnológicos de apoiotornam possível saltar de um pensamento ao ao ensino, pesquisa e extensão do Curso deoutro estabelecer conexões por associação, Administração da UNICENTRO: a) etapa inicial, demovimentar-se num texto tal como em uma rede estudo exploratório, que consistiu na identificaçãomultidimensional e com isto, aproximar tempos e análise de alternativas de espaço para alocaçãodistintos”. dos recursos tecnológicos e sua divulgação; e b) Desenvolver a deslinearização da comunicação etapa final, de estudo exploratório, que consistiuapresenta-se como desafio à educação, na sua no levantamento de diversos recursos disponíveisfunção de fomento da sociedade; é buscar nivelar a que pudessem ser utilizados dentro do âmbito daescola com o espírito de sua época, é poder como instituição de ensino.destacado por Abreu e Masseto (1996), possibilitar Para o desenvolvimento da etapa inicial,ao aluno uma aprendizagem significativa, ou foram delineados alguns pressupostos básicosseja, relacionar o ato de aprender com as suas sobre o espaço de alocação dos recursos, que,experiências e vivências, é encontrar no aluno o seu propriamente dito, consisti num sistema depróprio caminho de aprender. 144
  • 140. informações, que doravante será denominado BRT- professor ou em sua prática do dia a dia,ADM/I (Banco de Recursos Tecnológicos do curso “inacessível” aos demais docentes oude Administração).. discentes que ora ou futuramente possam • O BRT-ADM/I foi concebido como uma necessitar deste. “porta de acesso” a diversos mecanismos O BRT-ADM/I foi concebido como um sejam eles softwares, documentos, “espaço” democrático no qual os professores informações, links, instruções e recursos, possam arquivar publicamente o conhecimento, de modo em geral, que possam servir de permitindo que este seja socializado, auxílio ao docente, no intuito de aperfeiçoar promovendo a sua institucionalização. Nesse o processo de ensino. Desse modo, os intuito o BRT-ADM/I está direcionado à gestão recursos disponíveis no BRT-ADM/I servem do conhecimento, por permitir a instituição como ferramentas para aprimoramento gerir conhecimentos e potencializar o processo das atividades docentes, assim como, de aprendizagem tanto dos docentes como instrumentos de auxílio aos discentes discentes; o foco está em prover um mecanismo dentro do seu processo de formação; de aprendizagem organizacional. • O BRT-ADM/I não foi criado com o intuito Destaca-se como elemento importantíssimo de servir de um repositório de materiais de a democratização do espaço, uma vez que a aula ou mesmo materiais particulares de participação, como contribuinte, ou usuário do BRT- docentes e discentes, mas sim de um local ADM/I é livre, ficando a critério de cada docente que pudesse armazenar conhecimentos a disponibilização ou não de seus conhecimentos. tecnológicos aplicáveis nas atividades Enfatiza-se, porém o exercício de cooperação destinadas ao ensino, pesquisa e extensão entre profissionais e estudantes, que ora estará do curso de administração; ajudando, e ora sendo ajudado, e, que além do mais, contribuirá para uma melhor formação de • Os mecanismos dispostos no BRT-ADM/I futuros profissionais. são dedicados tanto ao processo de Outra contribuição importante está na ensino-aprendizagem dos conteúdos vistos divulgação; o conhecimento em sua grande em sala, como de sua própria aplicação, maioria está vinculado a uma aplicação, e estando quando cabível, em situações profissionais ele à disposição pública dos demais professores e ou particulares. Exemplo disso, um estudantes, na hora conveniente, é possível utilizá- software estatístico disponibilizado, pode lo e reutilizá-lo. ser tanto utilizado pelo docente em sala Exposto os pressupostos básicos e de aula para elucidação de um conceito, benefícios da utilização do BRT-ADM/I, esclarece- como pode ser utilizado pelos discentes, se que a escolha desse espaço foi norteada pela para realizar uma análise apurada de uma preocupação de optar por um meio com as seguintes pesquisa; características: universal, acessível, oficial, flexível, • Outro pressuposto básico envolvido atualizável e tecnológico. no BRT-ADM/I é que este sirva como O caráter universal do BRT-ADM/I está mecanismo de captação e divulgação na condição de atender a todos os públicos da de conhecimento. O professor, sendo academia, sendo docentes, discentes e demais um estudioso e pesquisador de sua interessados, uma vez que os recursos disponíveis área, acaba se deparando com novos podem ser utilizados tanto em sala de aula como conhecimentos, quando, não raras vezes fora dela, em ambientes profissionais ou não. acaba ele mesmo criando. Por sua vez, O caráter acessível está na condição de esse rico conhecimento fica estanque no que BRT-ADM/I possa ser acessado em qualquer 145
  • 141. ambiente, desde que o usuário interessado tenha • A página WEB pessoal, implicaria umaacesso a uma conexão de Internet, uma vez que apropriação particular do conhecimento,este está disponibilizado no ambiente WEB. o que feriria o princípio da socialização O caráter oficial do BRT-ADM/I está em sua e da democratização do conhecimento,vinculação com a Instituição de Ensino UNCIENTRO, além de ser um mecanismo de customais especificamente com o Curso de Administração elevado, e que não permitiria a alocaçãodo campus Irati, disponibilizado por meio do portal de recursos públicos para sua manutenção;da universidade. • O sistema moodle por sua vez, apesar O caráter atualizável do BRT-ADM/I está na de ser uma ferramenta direcionado aoampla possibilidade da inclusão de novos recursos, e-learning, apresentava restrições quantoo que permite uma constante atualização do ao limite de espaço destinado dentroconhecimento, de modo a atender às demandas da Instituição, e quanto à exposiçãoque possam surgir, assim como o aperfeiçoamento do conhecimento uma vez que seudeste. acesso está vinculado a formalidades O caráter flexível do BRT-ADM/I encontra-se de cadastramento de acesso, o que nãona condição de atender as três áreas de atuação permitiria uma exposição direta dosda universidade, pesquisa, ensino e extensão, assim recursos tecnológicos.como, seus desdobramentos. Tal característica vai • Em última análise, a página WEBao encontro de um antigo ensejo de uma maior corporativa foi a alternativa consideradaaproximação e integração entre elas O caráter mais adequada, permitindo a apropriaçãotecnológico do BRT-ADM/I consiste na utilização coletiva do conhecimento, possibilitandoda mais moderna plataforma em Tecnologia a socialização deste, em um ambiente jáda Informação disponível no momento que é o financiado pela própria instituição, comambiente WEB, que possibilita a democratização do amplo espaço para alocação dos recursos,conhecimento. assim como exposição destes. Tomando os esclarecimentos destacados, foi A partir das considerações expostas optou-identificado três alternativas possíveis, sendo estas se pela criação do BRT-ADM/I no formato páginapágina WEB pessoal, sistema moodle e página da WEB, hospedada junto ao portal corporativo daWEB corporativa. A análise, realizada em conjunto UNICENTRO, acessado por meio do link http://www.com um especialista da área de Tecnologia da unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/,Informação, apontou os seguintes aspectos que tendo sua apresentação visual definida, conformenortearam a decisão: figura 2.Figura 1 – características básicas do BRT-ADM/I Universal Flexível Acessivel BRT-ADM/I Tecnológico Oficial Atualizável 146
  • 142. Figura 2: imagem do BRT-ADM/I Uma vez definido o formato do BRT-ADM/I, possam ser amplamente utilizados por todo o meiodeu-se a etapa de levantamento de recursos, acadêmico.catalogação e alocação, conforme as peculiaridades Em síntese a análise foi norteada pelade cada área e seus desdobramentos. A análise de aplicabilidade no contexto cultural do ambientecada recurso levou em conta o potencial deste, o profissional, pelo potencial de complementariedadede permitir aos usuários, condições de experimentar com ênfase na hipertextualidade e pela legalidadeo contexto cultural de seu futuro profissional, ou de utilização. Tais aspectos estão vinculados àseja, tornar o conhecimento passado por meio de necessidade de promover atitudes positivas deum recurso que faz parte do ambiente que em um interesse dos acadêmicos em relação aos conteúdosfuturo próximo será seu, desse modo, possibilitando ministrados, por permitir a eles vivenciarem nãoalém da compreensão cognitiva, o desenvolvimento somente o processo de ensino, mas sim ensino-de habilidades importantes ao exercício de sua aprendizagem.profissão Aplicado no levantamento e análise, os Além do mais o recurso foi analisado aspectos mencionados foram levantados diversossegundo seu potencial de complementariedade aos recursos, catalogados e atualmente disponíveismétodos tradicionais de ensino, que enfatizasse a no BRT-ADM/I. A seguir é apresentado algunshipertextualidade, contribuindo para o entendimento exemplares:maior de conceitos complexos em sala de aula. • Área de pesquisa: Links de sites direcionados Por fim um aspecto relevante, considerado à divulgação da produção científica. Essena etapa de levantamento, foi a atenção dada recurso é de extrema importância ao meiopara a obrigatoriedade legal do conhecimento acadêmico, pois serve como meio para umdisponibilizado, ou seja, ele deveria ser de acesso aprofundamento do conhecimento, assimlivre, consistindo assim em instrumentos lícitos que como um referencial para a pesquisa científica; 147
  • 143. • Programa Estatístico gratuito, • Software post-it disponibilizado pela 3M que desenvolvimento pelo Instituo Mamiraua, auxilia os acadêmicos no agendamento de em português, de fácil utilização. Apresenta compromissos diversos recursos de auxílio ao planejamento • Software BrOffice que oferece diversos da análise de dados em pesquisa. O mesmo programas livres de uso geral nas foi desenvolvido para aplicações nas áreas organizações, como: planilha eletrônica, das ciências biológicas e médicas, porém, editor de texto, apresentação de slides, por se tratar de um software estatístico, não entre outros. há limitações para aplicações em outras A lista de recursos descrita não é exaustiva, mas áreas do conhecimento. Ainda acompanha meramente exemplificativa destacando-se alguns dos um manual passo a passo para utilização principais recursos obtidos. A ampla possibilidade do software. do uso do BRT-ADM/I é vasta e a considerar suas • Mecanismo online para referências, características e a versatilidade de sua plataforma, mantido pela Universidade Federal de Santa pode-se dizer que seu uso é quase ilimitado. Ainda Catarina, que auxilia na elaboração de é importante esclarecer que BRT-ADM/I, fruto deste referências dos mais diversos documentos estudo, não é “algo” final e acabado, mas sim um que possam ser pesquisados por alunos e sistema em processo de desenvolvimento, dado pela professores. possibilidade de constante aprimoramento. Área de ensino, tendo a disciplina de 4. Conclusõesempreendedorismo e sistemas de informação, como A considerar o objetivo da pesquisa o deexemplo: identificar recursos tecnológicos que pudessem • Links de diversos sites de apoio ao apoiar as atividades de pesquisa, ensino e extensão, empreendedorismo e sistemas de do Curso de Administração, compreendendo os informação, nos quais, além de artigos passo de levantamento, análise, catalogação sobre o assunto, os acadêmicos poderão e divulgação, ela tornou-se possível pela encontrar vídeos e materiais de apoio. disponibilização de recursos tecnológicos, em um A título de exemplo: sebrae, endeavor, sistema de informação, denominado BRT-ADM/I geranegocio, olhar digital... (Banco de Recursos Tecnológicos de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão do Curso de Administração de • Software de elaboração de plano de Irati). negócio, desenvolvido e fornecido pelo Constituído com base nos pressupostos de: a) SEBRAE-MG, com o intuito de permitir armazenamento de conhecimentos tecnológicos; b) por meio de um software atraente e “portal de acesso” a tecnologias de apoio ao ensino, dinâmico, a compreensão do processo de pesquisa e extensão; e c) mecanismo de captação desenvolvimento de um plano de negócio. e divulgação de conhecimento. Desse modo o BRT- Área de extensão: ADM/I foi concebido como um “espaço” democrático • Roteiro analítico para levantamento de no qual os docentes podem arquivar livremente dados e diagnóstico organizacional, e publicamente o conhecimento, permitindo que desenvolvido e utilizado junto ao curso de este seja captado e institucionalizado, visando à administração da UNICENTRO; gestão do conhecimento, como arcabouço para a • Orientação para cópia de vídeos livres aprendizagem organizacional. disponibilizados na Internet Uma vez concebido o “espaço”, o resultado em essência do levantamento foi a identificação de recursos tecnológicos norteados pelos princípios de aplicabilidade contextual, 148
  • 144. potencial de complementariedade e legalidade de administração, o seu formato pode ser aplicadoutilização. Aspectos estes vinculados à promoção a qualquer curso de formação, sendo a grandede atitudes estimuladoras ao processo de ensino- contribuição do presente estudo a disponibilizaçãoaprendizagem. de um recurso modelo à comunidade acadêmica, Por fim, vale ressaltar que apesar do direcionado a apoiar atividades de ensino,BRT-ADM/I estar direcionado ao curso de pesquisa e a extensão.ReferênciasABREU, M.C.; MASSETO, M. T. O professor universitário em sala de aula: prática e princípios teóricos.São Paulo: MG Editora Associados, 1996.ALENCASTRO, M. S. C. ; et al. Hipertexto: a re-evolução da econologia cognitiva. Revista das FaculdadesSanta Cruz. V.3, n.1, Jan/Jun. 2003:55-64ANDRADE, R. O. B. ; et al. Perfil, Formação e Oportunidades de Trabalho do AdministradorProfissional. São Paulo: ESPM, 1999.______. et al Pesquisa Nacional sobre o perfil, formação, atuação e oportunidades de trabalhodo administrador. Brasília: Conselho Federal de Administração, 2004.ANTONELLO, C. S. A Metamorfose da Aprendizagem Organizacional: uma revisão crítica. In: RUAS, C.R.; ANTONELLO, C. S.; COLS, L. H. B. ; Os Novos Horizontes da Gestão: aprendizagem organizacionale competências. Porto Alegre-RS: Bookman, 2005.BITENCOURT, C. C. Gestão de Competências e Aprendizagem nas Organizações. São Leopoldo:Unisinos, 2005.BRANDÃO, H. P ; GUIMARÃES, T. A. ; Gestão de Competências e Gestão de Desempenho. In: WOOD .JR, T. ; Gestão Empresarial: o fator humano, São Paulo: Atlas, 2002.CARVALHO, I. C. A. et al. Perfil do Administrador e perspectivas no mercado de trabalho:pesquisa nacional. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Administração, 1995.DUTRA, J. S. ; Gestão por Competências: um modelo avançado para o gerenciamento de pessoas.São Paulo: Gente, 2001.HANASHIRO, D. M. M. ; NASSIF, V. M. J. ; Competências de Professores: um fator competitivo. RBGN,São Paulo, vol. 8, n. 20, p. 45-46, jan / abr. 2006.HOUAISS, A. ; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Lexicografia e Banco deDados da Língua Português S/C Ltda. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.LÊ BOTERF, G. ; Desenvolvendo a Competência dos Profissionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.MEC. Parecer CNE/CES 136/2003. Brasília. Ministério da Educação e Cultura: 2003MEC. Parecer CNE/CES 4/2005. Brasília. Ministério da Educação e Cultura: 2005.MINTZBERG, H. ; The Managers Role. In: MILES, R. H.; RANDOLPH, W. A. ; The organization Games:a simulation in organization behavior, design, change and development. Santa Monica, California – US:Goodyear Publish Co., 1979.MORAES, M. C. ; O Paradigma Educacional Emergente. Campinas, SP: Papirus Editoras, 2000.SILVA, M. Sala de Aula Interativa, 3.ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2002VALENTE, J. A. ; Por que o Computador na Educação. Campinas-SP: Edutec.Net. Disponível em<http:// edutec.net/Textos/Alia/PROINFO/prf_txtie09.htm>. Acesso 10 dez. 2006.VEIGA, I. P A. In: O Que Há de Novo na Educação Superior: do projeto pedagógico à prática .transformadora. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2000 149
  • 145. Dados de Clientes no Customer Relationship Management (CRM): estudo de casos múltiplos no desenvolvimento de software Clients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiple cases study for software developmentFlávio Régio Brambilla1ResumoPara que ações de Customer Relationship Management (CRM) sejam efetivas, não basta apenas o desenvolvimentode tecnologias inovadoras. É preciso que essas ferramentas sejam alimentadas com dados pertinentes. Ainda,que sejam corretos e os mais completos possíveis. A fidelidade dos dados de clientes é necessária, para que asações do Marketing de Relacionamento por meio das soluções de CRM sejam adequadas. Este artigo está divididoem duas etapas. Na primeira, foi desenvolvido o panorama teórico. Na etapa seguinte, foram feitas análisesempíricas, através de Estudo de Caso na relação entre empresas desenvolvedora e usuária de CRM. Através dacondução de entrevistas semi-estruturadas com gestores responsáveis nas respectivas empresas, foram obtidossubsídios que suportam a relevância do adequado uso dos dados de clientes, e também a importância doentendimento e comunicação entre empresas durante a elaboração de uma ferramenta de CRM. Mais que umareferência técnica, a elaboração dos perfis de clientes, com base em dados coletados pela firma, permitem açõesde relacionamento mais próximas dos desejos dos clientes e ações de marketing direcionadas adequadamenteao segmento de mercado almejado. Estudos específicos sobre variáveis técnicas ou operacionais do CRM aindasão requeridos ao entendimento mais completo desse tipo de solução empresarial. Portanto, além de investigaro papel dos dados de clientes, futuras pesquisas devem migrar da visão geral de CRM aos componentesespecíficos que o compõe, sejam indicadores tecnológicos, organizacionais ou financeiros.Palavras-chave: Gestão de Marketing; Marketing de Relacionamento.AbstractUnilateral development of new technologies is not enough to make Customer Relationship Management(CRM) actions effective. Alignment with adequate data from these tools is also necessary. Yet, correction andcompleteness are required in that set of data. Clients’ data fidelity are necessary to adequate the CRM next to theconceptual idea of Relationship Marketing. This academic research consists of two steps. Firstly, the developmentof theoretical assumptions was carried out. Secondly, empirical analysis based on Case Study research betweendeveloper and client firms which use CRM. Semi-structured interviews were conducted with managers in thoseenterprises, where evidence supports the relevance of clients’ data ideal use and the importance of inter-businesscommunications between firms during the CRM tool development. More than technical report, the consumers’identification made by the firm, allows relationship actions closely to clients’ desires and marketing actionsconduced to the adequate market segmentation. Specific new studies based on technical or organizational1 Professor da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) Curso de AdministraçãoPossui mestrado em Administração e Negócios: Marketingpela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração daUniversidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, Brasil, nível doutorado. Contato: flaviobrambilla@terra.com.brRevista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991Recebido em 20/11/2009 - Aprovado em 29/05/2010
  • 146. variables of CRM are needed to a more complete understanding of that kind of business solution. Throughoutthe identification of clients’ data, future research must comprise more than a general CRM vision, to investigatespecific components, technological, organizational or financial indicators.Key words: Marketing Management; Relationship Marketing.]1 introdução Marketing de Relacionamento, para Berry (2002), é relativo à atração, manutenção, e aumento Como mencionado no artigo clássico de Dwyer, dos relacionamentos com os clientes. O foco nosSchurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos de relacionamentos com os clientes se dá porque “atroca contribui na diferenciação de produtos e serviços elevação da orientação para o cliente resulta emda empresa, promovendo barreiras às substituições programas de marketing mais significativos” (IM,que em muitos casos pode culminar em vantagem WORKMAN Jr., 2004, p.126). Tem-se que somentecompetitiva. Nessa perspectiva, é encontrado em organizações que constroem fortes e positivosVeloutsou, Saren e Tzokas (2002), que o marketing, relacionamentos com os clientes, Rowe e Barnescomo um composto de conhecimento, é concebido (1998) têm potencial na geração de algum tipopelo entendimento dos pontos de relacionamento de vantagem competitiva sustentável, viabilizandoentre os prestadores de serviços e clientes. A retenção para a empresa um desempenho superior ao dade clientes então, Rowe e Barnes (1998), possui uma concorrência. Manter uma base de clientes rentáveissérie de vantagens, como os baixos custos de esforços e fiéis baseia o Marketing de Relacionamento epara os clientes que retornam e os efeitos positivos nos nada mais é do que um conjunto de práticas deresultados financeiros, além da criação dos conhecidos marketing, “para que os clientes continuem comoadvogados da organização, os quais positivamente a clientes” (BERRY, 2002, p.70). As ações de CRMdivulgam. Entende-se que o cliente já conquistado, e são suportadas pela filosofia do Marketing deque realmente gera valor para a organização, deve Relacionamento, e conforme Sheth e Parvatiyarser o foco da excelência nos serviços, porque manter (2002), tratam do entendimento dos clientes, emum cliente é reconhecidamente mais barato do que especial quanto aos seus comportamentos de compraprospectar novos clientes. Esforços de marketing e desejos. Rowe e Barnes (1998) afirmam que umaem retenção são significativamente mais efetivos do vantagem competitiva existe quando a organizaçãoque identificar novos segmentos de clientes a serem explora estratégias que gerem valor para os clientes,conquistados. não desenvolvidas pelas empresas concorrentes ou Para Verhoef (2003, p.30), “empresas podem potenciais concorrentes e, que o cliente entendautilizar as mesmas estratégias tanto para a retenção como uma relação de troca justa. Quando a empresade clientes quando para o desenvolvimento de sua trabalha para escutar e responder às demandas dossegmentação”, o que proporciona a adoção de clientes e para interagir de maneira mais próxima,um conceito que incorpore todos esses aspectos compartilhando informações, a tendência é queno trato com os clientes. Trata-se do propósito a empresa proporcione produtos e serviços maisdeste estudo, que traz o CRM, como uma extensão significativos por programas igualmente significantesdo Marketing de Relacionamento com suporte (IM, WORKMAN Jr., 2004). Esses preceitostecnológico. Diz Winer (2001, p.99), que “o serviço relacionais constituem a base formativa do CRM.ao cliente precisa receber o status de alta prioridade Customer Relationship Management (CRM)no ambiente organizacional”. Esta é a essência do é o ‘gerenciamento dos relacionamentos com osCRM, composto por uma complexa relação entre clientes’. É definido como uma abordagem gerencialmarketing e tecnologia, tendo em vista o adequado orientada à identificação, atração e retenção dostrato com os clientes, especialmente os que geram clientes. Objetiva-se maior rentabilidade paramaior valor à empresa. O primeiro conceito a ser a empresa mediante ações de identificação eexplorado é o do Marketing de Relacionamento. aumento nas transações com os clientes de maior 152
  • 147. valor (WILSON, DANIEL, McDONALD, 2002), em modelos de sequência de compras que permitem aque estes percebam que existe justiça interacional identificação de quais clientes serão os compradoresnas relações (AUH et al., 2007). CRM é focado na de quais produtos e quando”. Trata-se do temaautomação e melhorias dos processos de negócio central desenvolvido neste artigo.associados ao gerenciamento dos relacionamentos Como problema de pesquisa norteador dacom os clientes em vendas, serviços e suporte. Nesse investigação é proposto o questionamento: Qualsentido, Lin e Su (2003, p.716) definem CRM como a relevância da gestão de dados dos clientes na“a chave da competição estratégica necessária para relação de criação das soluções de software entremanter o foco nas necessidades dos clientes”. É uma uma empresa desenvolvedora e outra consumidoraferramenta relacional. do sistema de CRM? O objetivo do estudo consiste Wilson, Daniel e McDonald (2002), o em melhor entender como é desenvolvida umaapresentam como um conjunto de processos e solução de relacionamento com clientes na relaçãotecnologias que suportam o planejamento, execução Business-to-Business (B2B), através de implantaçãoe monitoramento dos consumidores. Para Dwyer, de um sistema de CRM, assim conduzida umaSchurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos análise empírica qualitativa que capture a relaçãocontribui na diferenciação de produtos e serviços. entre empresa de desenvolvimento de CRM e suaÉ relatado por Berry (2002) que bons serviços são cliente e usuária da solução.necessários para que a retenção dos clientes ocorra. Tem-se a seguir, uma discussão conceitualComo apresenta Winer (2001), a meta global dos acerca da utilização dos dados de clientes, seguidaprogramas de relacionamento consiste em entregar do método de pesquisa. Na etapa empírica, foramsatisfação ao cliente, superando a concorrência. analisadas duas empresas, a ‘Alpha’, vendedoraAinda, Winer (2001, p.99), diz que “o serviço ao das soluções de CRM, e ‘Beta’, usuária do softwarecliente precisa receber o status de alta prioridade desenvolvido pela primeira. Foram utilizadasno ambiente organizacional”. Croteau e Li (2003) evidências qualitativas na análise dessa situação derelatam que grande número de organizações negócio entre empresas.reconhece a importância de focar os negócios naestratégia de orientação ao cliente, o que requer 2 Caracterização dos dados de clientesa incorporação da base de conhecimento dosmesmos. O’Malley e Mitussis (2002) alertam que Como critério primário sobre os dados dena ausência da cultura focada em Marketing de clientes, a fidedignidade é um dos mais importantesRelacionamento, não são entendidos os processos requisitos, para que ações de relacionamentode CRM. A utilização do CRM não é uma solução sejam viáveis. Lembram Nogueira, Mazzon e Terrade cunho exclusivamente tecnológico, mas sim, (2004) que é muito importante a eliminação derelacional. O “CRM é uma estratégia de negócio; problemas que possam distorcer o perfil e hábitosnão apenas um aparato de software” (RAGINS, dos clientes, por exemplo, disfunções comoGRECO, 2003, P .29). redundância e duplicidades. Pedron (2001) lembra Verhoef (2003, p.41) comprova que “o que os dados armazenados sobre a clientelacompromisso afetivo é um antecedente da retenção de uma organização podem prover vantagens,de clientes e do desenvolvimento da segmentação”, como acessibilidade aos clientes, mensuraçãoilustrando o foco em clientes. Em termos estratégicos, das transações efetuadas, e, mais importante, aCRM pode ser vislumbrado como a pretensão de obter possibilidade de delimitar segmentos e clientesuma vantagem competitiva, através da conquista individuais para prover a solução de negóciosdo cliente (ROGERS, 2003). Para Rust et al. (2004, que melhor se adéque a suas necessidades,p.80), “uma base de dados de clientes pode ser desejos e aspirações. A captação e o registroutilizada pela empresa para o desenvolvimento de das respostas fornecidas pelos consumidores são 153
  • 148. críticas no processo de identificação e coleta de para uma comunicação efetiva com o cliente. CRMdados dos clientes, e também na prospecção de é uma iniciativa de marketing com vistas ao contatoclientes potenciais que ainda não interagem com com os clientes, desenvolvida por meio de suportea organização. tecnológico, o que permite mesmo para grandes Para que dados obtidos no contato com os corporações, com grandes carteiras de clientes,clientes sejam de valor, Pedron (2001, p.26) afirma a projeção de campanhas e ofertas condizentesque “o real valor do processo das comunicações a cada categoria ou segmento almejado. Paraintegradas de marketing reside no fato de ser Bretzke (2000), a estratégia de CRM possibilita quenaturalmente circular, em que dados dos clientes a empresa se torne orientada para clientes, atravéssão coletados, analisados, armazenados e a cada da utilização dos dados de clientes existentes nosinteração com o cliente, novamente atualizados”. sistemas de informação, possibilitando a obtençãoDevem-se relevar mais do que os pressupostos de uma sustentável vantagem competitiva. Existejá referidos, Nogueira, Mazzon e Terra (2004), a importância de capturar dados dos clientes emincorporando atenção a fatores igualmente todos os pontos de contato da empresa, como porcríticos, como segurança, garantia de integridade, exemplo, sistemas de call center, em orçamentos,e privacidade. A adequada combinação desses vendas diretas ou pela web, etc. Os múltiploselementos promove o CRM de qualidade. Aos pontos de relacionamento com o cliente favorecemrequisitos já mencionados, Churchill e Peter (2003) a construção de históricos e perfis de clientes maisadicionam a questão ética, que compõe o conjunto próximos da realidade de seus múltiplos contatosde princípios e valores morais que preconizam as com a empresa. Esses dados, depois de agrupadoscondutas, do indivíduo ou grupo de indivíduos, e em bancos de dados, devem ser analisados emorienta as atividades aos preceitos morais de uma sua totalidade, categorizados e direcionados aossociedade. Pedron (2001) ressalta a dificuldade vários pontos de contato com os clientes, onde ade manter a privacidade dos dados em virtude da informação será utilizada para uma melhor interaçãofacilidade com que as tecnologias de informação entre a empresa e o cliente. Hansotia (2002, p.121)proporcionam coletas, processamento, transmissão salienta que “CRM é essencialmente um esforçoe armazenagem de dados, principalmente quando intensivo com dados de clientes”.postas em pauta tecnologias de comunicação e No centro do CRM, está a habilidadea internet. Para o uso em marketing, por meio da organizacional de nivelar dados para projetar eutilização de sistemas de CRM, os dados de clientes implantar estratégias focadas em clientes. Missi,devem ser armazenados e restritos aos bancos de Alshawi e Irani (2003, p.1607) corroboram comdados, com o consentimento dos clientes, cientes essa afirmativa, porque para eles “a essência doda utilização restrita dos mesmos no provimento de sistema de CRM implica entender, controlar evantagens ou de ofertas específicas da firma com a otimizar os negócios e o gerenciamento dos dados”qual transacionam. Esse aspecto é potencializado, de clientes. Campbell (2003) diz que para osquando analisadas as práticas de vendas de bancos dados de clientes serem utilizados adequadamente,de dados que muitas organizações conduzem devem ser transformados em informações dede maneira não consentida, expondo clientes e clientes e integrados aos processos de marketing.delegando informações não permitidas a terceiros. Os processos da empresa geram e integram Segundo Bolton e Steffens (2004), a informações específicas dos clientes, que propiciamhabilidade da firma em entender a privacidade e as condições ao uso de CRM. Shoemaker (2001) dizpreferências dos clientes ao longo das transações que é nas interações com clientes o ponto de coletarealizadas, guia as campanhas e os processos de e utilização dos dados e informações, que devemmarketing. Sob tal ótica, diz McKim (2002), que os sistematicamente compor o conhecimento dedados ajudam na descoberta do que é necessário clientes. Os softwares de conhecimento de clientes 154
  • 149. oferecem ferramentas tecnológicas para segmentá- relação Business-to-Business (B2B). As questõeslos e interagir com base em contatos prévios, nos desenvolvidas foram orientadas pelos preceitosquais são estipulados comportamentos esperados e abaixo relevados sobre dados de clientes:predições de negócios futuros. • Obrigatoriedade da fidelidade dos dados A diferenciação de clientes é fundamental às de clientes em ações de CRM;estratégias de CRM. Conforme Ferreira e Sganzerlla • Operações de CRM efetivas são relacionais(2000), diferenciação e categorização dos clientes e informacionais;representam as oportunidades de maior faturamento • Privacidade e ética com os dados de clien-para empresa. A preferência imediata das ações de tes é compromisso indispensável;CRM é direcionada aos clientes de maior valor, porquesão eles que sustentam a atividade empresarial. • A qualidade nos dados de clientes deve Boon, Corbitt e Parker (2002), trazem outra proporcionar a tomada de decisão.implicação relativa aos dados de clientes. Os autores • Os dados, necessariamente, viabilizam de-argumentam da importância de classificar dados por cisões estratégicas no CRM;categorias, por exemplo, valor de clientes, e ainda • Diferenciação e categorização dos clientesrelevar outras características individuais, como são práticas essenciais.preferências, hábitos, renda, escolaridade, classe Os preceitos que guiaram a etapa empíricaou segmento social, constituição familiar, etc. Na deste estudo são os seis supracitados. Através dessesmesma linha, Papatla, Zahedi e Zekic-Susac (2002, postulados, foram analisadas as relações comerciaisp.456) dizem que “a modelagem do comportamento entre uma empresa de desenvolvimento e umae das escolhas do cliente são características comuns usuária de CRM. Outros conceitos importantes estãoem muitas aplicações de data mining (em geral), contemplados nessa caracterização da ferramenta/e em CRM (em particular)”. Trata-se da utilização filosofia de CRM, como as distintas faces deimprescindível dos dados de clientes, para que um aplicação. Basicamente, o CRM pode ser subdivididoCRM atinja os propósitos de maximizar transações, entre CRM Operacional e CRM Analítico.diferenciar clientes e obter deles melhores retornos Conforme delimitado em Bampi, Eberleem troca de serviços justos e que ampliem a e Barcellos (2008), o CRM Operacional é osatisfação dos contratantes. Wilson, Daniel e primeiro estágio na concepção de um sistema deMcDonald (2002) relatam que a segmentação pode relacionamento com clientes. Nessa etapa, o focoser vista como a simplificação da carteira de clientes está nos relacionamentos, mais precisamente naindividuais, separando-os por grupos com base em construção de relacionamentos com base emsimilaridades e comportamentos. Segundo Srivastava eficiência e eficácia operacional, etapa estaet al. (2002, p.18), a “segmentação de clientes é a condizente com os processos de implantação dedivisão da população total de clientes em grupos algumas ferramentas de contato, por exemplo,menores”, através de critérios que os agrupam em Call Center e Sales Force Automation. Com escopodiferentes perfis. Parvatiyar e Sheth (2001) advertem mais aprimorado, o CRM Analítico consiste naque a empresa precisa ser seletiva em correlacionar busca de conhecimento ampliado do cliente, tendoe integrar as informações de marketing, através de em vista análises mais aprimoradas e criaçãouma segmentação e seleção apropriada de clientes, de campanhas relacionais para atender aoscustomizando ofertas adequadamente. consumidores de maneira mais próxima de seus Tendo por base a construção teórica interesses (BAMPI, EBERLE, BARCELLOS, 2008).desenvolvida, foram definidos critérios relevantes Podem ser vistos como etapas complementares depara a investigação nas empresas. Desenvolveu- uma solução CRM.se o estudo na relação entre duas empresas, Dentre outras ferramentas de contato comcaracterizando o tipo de negócio como uma clientes, duas sobressaem diante dos objetivos do 155
  • 150. estudo, centrado em dados de clientes. A primeira uma maior familiaridade com o problema” deé o Call Center, definido como uma forma de pesquisa.contato dinâmico com os consumidores, através Basicamente foram adotadas três técnicasdo uso do telefone como ferramenta para a na condução da coleta de dados deste estudo.efetividade das práticas de marketing relacional, Entrevistas semi-estruturadas, com base nos seisem especial quando operacionalizadas com base indicadores já referenciados (fidelidade dos dados;em CRM (BRAMBILLA, SAMPAIO, PERIN, 2008). relacionamentos com base em informações;A segunda, Sales Force Automation (SFA), ou privacidade e ética com os dados de clientes;Automatização da Força de Vendas, que para tomada de decisão; postura estratégica e;Brambilla, Sampaio e Perin (2008) consiste em diferenciação e categorização de clientes). Paraferramentas tecnológicas empregadas para auxílio cada um desses elementos, foram elaboradas cincodo vendedor em algumas etapas do processo de questões, totalizando trinta questões de entrevista.vender, tendo como foco o relacionamento acima As entrevistas foram aplicadas para dois grupos deda simples prática comercial impessoal. Conforme interação entre as empresas, compostos por quatroidentificado em Brambilla (2009, p.8), uma colaboradores de cada empresa. O acesso aoiniciativa de SFA proporciona que a organização, ambiente organizacional foi obtido em função depor intermédio dos seus vendedores, possa “ter pesquisas anteriores, realizadas nessas empresasuma visão melhor do cliente, tomando conta desta que concordaram em ser novamente selecionadasrelação”. para pesquisa acadêmica. Por solicitação das Para o melhor entendimento dos organizações, seus nomes serão omitidos. Estãoprocedimentos de coleta e análise dos dados, a seguir tratadas como Alpha e Beta. Ambas são deé apresentado o capítulo acerca da metodologia grande porte, localizadas em diferentes partes doadotada no estudo. Tendo em vista os propósitos território nacional e podem ser classificadas comoexploratórios de pesquisa, optou-se pela condução organizações adequadas ao uso de tecnologiascentrada em casos, no B2B. de informação e comunicação. A desenvolvedora é uma empresa que comercializa produtos e3 Metodologia de condução da pesquisa serviços (multinacional), e Beta uma empresa tradicionalmente orientada para serviços (empresa Com base nos critérios de observação, a brasileira de grande porte).definição metodológica foi orientada ao emprego Além das entrevistas, foram utilizados dadosde técnicas qualitativas de investigação. O ponto de secundários, em especial contratos, manuais ecorte para análise foi na relação entre as empresas especificações internas das empresas, que apesarAlpha (vendedora) e Beta (cliente), numa situação de terem contribuído na análise dos dados coletadosde desenvolvimento do CRM entendida como a e na elaboração dos resultados, não constamvenda de um serviço co-produzido – ou criação menções explícitas sobre seu conteúdo. Documentoscompartilhada de valor com o cliente (PRAHALAD, com informações financeiras da parceria entre asRAMASWAMY, 2004; BENDAPUDI, LEONE, 2003). empresas foram vetados de inclusão neste artigo, eYin (2001) apresenta como válida a pesquisa que por isso, desconsiderados também na elaboraçãoobjetiva a investigação de uma realidade específica dos resultados, direcionados para a análise dee, conforme seus preceitos, um Estudo de Caso atributos técnicos, operacionais e relacionais.atende ao propósito deste trabalho. Classificada Terceira e última sistemática de intervenção,como uma pesquisa qualitativa (MALHOTRA, 2001), a observação do pesquisador foi relevada nano formato Estudo de Caso (YIN, 2001). Também é comparação entre documentos e entrevistas, masentendida como exploratória, que segundo Vieira não foram encontradas distorções entre o discurso,(2002, p.65), “visa a proporcionar ao pesquisador documentos e o que fora observado nas firmas. 156
  • 151. Para análise dos dados, foi adotada a dos entrevistados de Alpha relatou sobre o CRMcomparação por indicadores, relevando o discurso desenvolvido que “este produto é desenvolvido paraem ambas as empresas sobre questões relacionadas. não haver duplicidade”.Foram feitas perguntas com o objetivo de analisar Na empresa cliente Beta, um dos gestoresa consistência das versões das diferentes empresas entende que “a integridade do banco de dados épara mesmos fatos. Constatou-se que as pequenas excepcional”. Duplicidade de dados é um problemainconsistências entre falas dos entrevistados não descartado, mas problemas de preenchimento ecomprometem a credibilidade dos resultados da inclusão de dados de clientes, por depender doparceria B2B. O instrumento de coleta de dados foi elemento humano, pode ser o ponto gerador dedesenvolvido com suporte teórico do uso dos dados pequenas discrepâncias. Essa análise é baseada nade clientes nas operações de CRM. percepção das pessoas. Finalizando a etapa de elaboração dos Quanto aos critérios de relacionamentosresultados e conclusões, foram observados e informações, identificou-se que as transaçõespreceitos de Bardin (1977) e Yin (2001). correntes são lançadas em bancos de dadosBasicamente, foram agrupados os resultados de transacionais sem que sejam alteradascada empresa e comparados com o auxílio da informações históricas consolidadas. Informaçõesteoria. A base de análise consiste do entendimento já agrupadas são armazenadas na ferramentadas similaridades e diferenças entre empresas de Data Warehouse da Beta, o que é essenciale entre as fontes de evidência. Apresenta-se a ao CRM analítico. A atualização sistemática nosdiscussão dos resultados, e posteriormente, as dados transacionais, por exemplo, está alinhadaconsiderações finais do estudo. ao que apregoam as teorias de CRM. Os dados de cliente permitem a ilustração da realidade4 Resultados da análise entre de momento do cliente, o que favorece nosdesenvolvedora e usuária de crm relacionamentos entre a empresa e o cliente. Nesse sentido, a análise deixa claro que os dados Para melhor compreensão do cenário da e modo de coleta e conversão em informações,relação entre empresas, serão distribuídos os permitem a prática do CRM.resultados no primeiro momento integrados na Pouco foi identificado sobre a conduta ética narelação entre Alpha e Beta. As questões empregadas relação entre empresas e entre a usuária de CRM e oe a análise foram desenvolvidas de maneira cliente final. Porém, uma possibilidade importante foia agrupar os depoimentos dos entrevistados, referenciada. Todos os dados do cliente da empresadetalhando a relação interfirmas. No segundo Beta, referentes ao relacionamento transacional,momento, serão apresentadas as sínteses de Alpha, estão ao alcance do cliente, sejam históricas oude impressão da empresa quanto à relação com especificações de serviços.Beta, e posteriormente será relevada a impressão A qualidade de dados foi confirmada, ode Beta. A análise foi concebida com base nos seis que proporciona base à tomada de decisões.preceitos delineados. Como já referenciado, os dados históricos não são Quanto à fidedignidade nos dados de clientes, alterados em operações transacionais, atendendoas opiniões gerais dos entrevistados demonstraram aos critérios técnicos do CRM. A composiçãoem ambas as empresas, incerteza. Porém, todos de diferentes informações com base nos dadosos indícios e respostas ilustram que a margem disponíveis promove os caminhos relacionais ade erro possível não impacta negativamente no serem desempenhados. A prática de mineraçãoescopo das aplicações de CRM. Como vantagens nesses dados é outra evidência da efetividade nasdo sistema, agrupamento adequado dos dados e práticas de relacionamento utilizadas por Beta, ea capacidade de atualizações em tempo real. Um implantadas através de soluções da empresa Alpha. 157
  • 152. A tomada de decisões estratégicas também operação de práticas para a diferenciação dosfoi identificada nessa relação entre empresas e na clientes, o que serve para, por exemplo, definirutilização do sistema de CRM por Beta. Entende-se categorias e modalidades de relacionamentos.o CRM, nessas empresas, como o “coração” das A solução é entendida como uma aplicaçãopráticas relacionais com clientes. A configuração de CRM desenvolvida para evitar redundâncias ee análise dos dados já são, em essência, ações duplicações, como outros problemas associados àde características estratégicas. A geração das inserção de dados. Porém, relatam que, em muitasinformações necessárias para atender aos clientes empresas, são utilizadas tecnologias de diferentescom excelência é uma atribuição de CRM. Dados desenvolvedores e fornecedores de software ede clientes são revertidos em informações. Estas hardware, que não permite a garantia de que nasindicam as evidências comportamentais, por sua migrações e compartilhamentos de dados entrevez, convertidas no que pode ser classificado por tecnologias não venham a ocorrer os problemas deconhecimento de cliente. qualidade e fidedignidade dos dados, seja por erros Dos critérios mais relevantes na utilização ou perdas.de CRM são destacadas a diferenciação e a Alpha é uma empresa de tecnologia quecategorização de clientes. Os dados são utilizados fornece produtos e serviços prontos, mas tambémpara estes fins. As empresas entendem que a solução sob demanda, atendendo aos requisitos de seusdesenvolvida é ideal e que as práticas da empresa clientes. No caso dos negócios com Beta, o queque aplica o CRM também estão de acordo com a empresa fornece é feito a pedido, atendendoo que a teoria recomenda. Existe a diferenciação especificidades da empresa cliente. A aplicaçãopor categorias, ou segmentos, que é uma ação de de CRM em análise conta com instrumentos onlinemarketing. Chegam a ser feitas subcategorias de e integrados, permitindo que a alimentação doclientes em Beta, o que, segundo os entrevistados sistema seja conduzida em tempo real. Uma dasde empresa, é um requisito ao tipo de serviço que utilizações do sistema de CRM em investigação édesenvolvem. a identificação dos clientes potenciais, e análises preditivas.4.1 Resultados de alpha 4.2 Resultados de beta A desenvolvedora prima em suas soluções,para que as transações de negócio em realização Na empresa cliente Beta, quando se fala emsejam lançadas em base de dados diferente daquela controle de fidelidade e precisão dos dados, um dosem que se armazenam dados e informações entrevistados menciona uma pequena margem dehistóricas. No panorama técnico, são desenvolvidas erro no que a desenvolvedora fornece para utilizaçãosoluções de banco de dados transacionais e Data com os clientes finais, que não afeta na qualidadeWarehouse, uma espécie de armazém de dados das operações. Não foi identificada a razão para talconsolidados. Referenciaram os entrevistados situação, porém, os entrevistados reconhecem queque, sua solução é uma ferramenta de aplicação existe, embora dentro dos limites de tolerância.relacional. Confirmou-se a necessidade de categorizar O dado transacional, diferente de dados clientes no negócio da firma Beta, que reconhececomo endereço e outras características que devem ser uma prática possível com o uso das ferramentasser alteradas quando necessário em bancos de dados fornecidas por Alpha, e é realizada seguindo ode uso comercial, depois de inseridos no sistema que recomenda a literatura de CRM. Os critériostornam-se rígidos. Esses dados são configurados viáveis para categorizar clientes são diversos, comode diferentes maneiras para obtenção de diferentes por rentabilidade, volume, e periodicidade detipos de informações, conforme necessidades do compras. Entende-se que esse tipo de ranking demomento. Essa capacidade analítica permite a clientes é tradicional em CRM para estipular o perfil 158
  • 153. dos relacionamentos, transações e dos próprios que o ambiente pesquisado é propício à conduçãoclientes, seus gostos, desejos e possibilidades. A das práticas de Marketing de Relacionamento. Oinformação histórica construída na organização é alinhamento entre empresas permite que o CRMadequadamente estruturada. em pauta seja adequadamente construído. Tais Beta converte dados em informações, pressupostos baseiam-se em observação.diferencia e segmenta clientes e conduz práticas Diante do escopo, dados consultadosefetivas e analíticas de CRM. Resultados já discutidos, apresentaram aderência com os critérios teóricostanto na relação entre empresas quanto em suas selecionados para análise. Porém, foi detectada,individualidades, tecem-se as considerações finais e ainda que tênue, uma margem de erro hoje semsugestões para pesquisas futuras. impacto nas a&