Futuro do homem e dominio da natureza
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Uma reflexao historica sobre o pensamento humano e sua relacao com a natureza

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Futuro do homem e dominio da natureza Futuro do homem e dominio da natureza Document Transcript

  • O FUTURO DO HOMEM E O DOMÍNIO DA NATUREZA: UMA REFLEXÃO HISTÓRICA SOBRE O PENSAMENTO HUMANO E SUA RELAÇÃO COM O MEIO AMBIENTE. Carlo Romani∗ Antes de tudo, comecemos pelo nome que faz uma referência direta ao trabalhodesenvolvido por Laymert Garcia dos Santos sobre o futuro do humano. Laymert vemdedicando sua pesquisa dos últimos anos no acompanhamento das transformaçõesocorridas na matriz dominante do pensamento humano, em suas dimensões científicas eéticas (novos padrões morais de conduta). Citemos como exemplo, a teoria do capitalhumano desenvolvida pela Escola de Chicago, segundo a qual o homo oeconomicus docapitalismo contemporâneo vale pelo capital humano de que dispõe. Esse capital reúneo conjunto de habilidades e competências inatas e adquiridas durante sua vida,diretamente relacionadas com as demandas jogadas pelo mercado, e serve para que seuproprietário possa se mover dentro desse jogo e transformá-lo em riqueza material. Do ponto de vista histórico podemos situar essa última clivagem na formadominante do pensamento humano a partir da segunda metade do século passado, anos1950, domínio resultante da expansão e afirmação da dinâmica econômica docapitalismo por todo o planeta, hoje conhecida como globalização. A aceleração dastransformações no campo produtivo, com a apropriação mais intensiva dos recursosexistentes no globo terrestre, trouxe um tipo de produtividade humana que é resultadodireto da ampliação da capacidade de processamento e armazenamento do quegenericamente chamamos de informação (inclusive aquelas de ordem genética). Umfenômeno que se constitui em decorrência de uma forma de se pensar a vida humana nomundo que, no tocante à produção do conhecimento, torna quase indistinguível o limiteonde acaba o campo da ciência e onde se inicia aquele da tecnologia. Essa associação entre ciência e tecnologia, que se faz evidente nas grandesuniversidades produtoras de pesquisa e nos laboratórios geridos pelas grandescorporações privadas, coloca um fim no paradigma racionalista clássico do nascimentodas ciências modernas, herdeiro de Descartes e Bacon, paradigma constituído pelabusca de autonomia de pensamento e ação – naquele momento em relação ao poderEste artigo é a versão escrita da conferência proferida na XXI Semana de Biologia do Departamento deBiologia da Universidade Federal do Ceará, em março de 2009.
  • dominante da Igreja – e nos lança numa nova era de produção de conhecimento quepodemos chamar de era tecnocientífica. Os centros atuais de desenvolvimento científicoseguem uma lógica que subordina a produção do conhecimento ao imperativo dasdemandas de novas tecnologias por parte do mercado. Por outro lado, nos níveis mais elementares do senso comum e do envolvimentodos homens na rotina diária da sobrevivência (isso vale tanto para os mais ricos quantopara os mais pobres), salvo algumas exceções motivadas por questões ainda de ordemreligiosa ou pessoal, propaga-se a idéia, uma idéia bem que se diga difundida atravésdos recursos da propaganda midiática, de que o progresso científico e tecnológicoencontra-se a serviço da melhoria da qualidade de vida do homem e da humanidade. Emgeral, não há contrapartida crítica disponível à pergunta: a quem serve a ciência? – nemnas universidades muito menos fora dos castelos do saber. Pelo contrário, a população ébombardeada e invadida diariamente por inúmeras demandas de consumo municiadaspor uma propaganda intensa dessas inovações tecnológicas. Podemos listar alguns exemplos da ação da propaganda na mudança de hábitosde vida na família brasileira. No caso da saúde alimentar, durante a década de 1970 amídia foi tomada por propagandas favoráveis ao consumo de gorduras vegetais emsubstituição às velhas gorduras animais. As imagens mostravam famílias saudáveis,esbeltas e sorridentes, vestidas de branco no café da manhã se deliciando com umamarca de margarina. Hoje em dia, a esmagadora maioria da população brasileiraabandonou o consumo tradicional de manteiga passando ao consumo de margarinas eóleo de soja. Neste último caso, a soja substituiu os tradicionais óleos de milho e dealgodão. Resultado disso: a historiografia econômica brasileira herdeira de Caio Prado eCelso Furtado, terá de incorporar aos já consagrados ciclos da cana-de-açúcar, do ouro edo café, o mais recente ciclo da soja. Mais de um terço do território brasileiro arávelestá imerso no ciclo da monocultura da soja. A maior parte das terras aráveis da regiãosul, da região centro-oeste, de Rondônia e partes da Bahia, do Pará e do Maranhão, setornaram imensos “sojerais”. Fazendas produzindo para um oligopólio de corporaçõestransnacionais que controla a industrialização, circulação, distribuição e exportação dosalimentos. Se escrevesse sua obra em nossa época, a casa grande de Gilberto Freyre nãoguardaria mais os doces sabores de José Lins do Rego, o menino do engenho, domelado, da rapadura e da cachaça. Pergunta-se: a margarina faz menos mal aoindivíduo, à economia do país, e à sobrevivência do planeta do que fazia a manteiga?Tenho lá enormes dúvidas.
  • Até porque, para a indústria da alimentação, a mudança de hábitos alimentaresnão foi motivada por uma questão relacionada à saúde pública, mas por um rearranjoprodutivo da agricultura extensiva voltada para o mercado externo. A produção dederivados de leite é pouco rentável e as usinas de beneficiamento continuam sendo emsua maioria, de dimensão local ou regional, geridas por cooperativas, logo o gadoleiteiro brasileiro não se faz atrativo para o grande comércio internacional. Já, a criaçãode animais para consumo alimentar é a segunda fonte de renda do agro-negócio. Amaior parte da produção, por ora, ainda está sob domínio das grandes corporaçõessediadas no sul do país, algumas delas já se associando com corporações transnacionaisainda maiores para ampliar a logística de distribuição no mercado internacional. Oresultado desse rearranjo na boca do consumo popular trouxe, por exemplo, o famosofrango congelado ao preço de um real o quilo (propaganda que promovia o governo deFernando Henrique Cardoso), mas em detrimento da qualidade da proteína ingerida. E acusto, também, de uma diminuição da cobertura vegetal do solo brasileiro proporcionalao aumento das áreas de pastagem que migraram ainda mais para o norte do país,avançando significativamente sobre os domínios do bioma amazônico. Vamos deixar de lado a exposição de exemplos do rearranjo produtivo do agro-negócio trazido pelas novas tecnologias de produção de alimentos para avaliarmos umexemplo do avanço científico incontestável ocorrido na área da genética. Odesenvolvimento do projeto Genoma trouxe inúmeras possibilidades, ainda abertas, paraa reprodução assistida e para a cura de doenças hereditárias, entre outras demandasenvolvidas. Mas, no limite de suas aplicações futuras, a engenharia genética associada àbiotecnologia, enseja a real possibilidade da invenção de uma nova tipologia dehumanos que seria dotada de uma herança genética mutante. Em outras palavras, alémda transmissão hereditária poder vir a ser fornecida por um blend de genes dos maisvariados tipos humanos, ela poderá, também, provir de genes transmutados de outrosseres vivos. A fantasia científica da criação do Dr. Frankestein no início do século XX,poderá finalmente ser realizada com base em modelos mais ou menos apolíneos, mastambém poderá descambar na criação de novos ciclopes e centauros, ou, ainda,lobisomens. Os seres imaginários, meio homens meio bichos, que povoaram as mentesde gregos e troianos e imortalizaram as páginas soberbas de um Borges, podem deixarde serem imaginários e tornarem-se invenções reais. E como então distinguiremos o real do irreal, ou haverá um real mais real do queo outro? Isso parece estar muito além de nossa imaginação; é evidente que estou aqui
  • provocando vocês. Mas, o fato de parecer algo absurdo não invalida a hipótese de queestejamos no limiar da possibilidade tecnológica real da criação de seres viventes. Ora,se entendermos a concepção de homem que temos a partir de Lamarck/Darwin, comoherdeiro de uma longínqua evolução biológica que resultou nos primatas até se afirmara forma atual classificada como homo sapiens, a possibilidade de geração de uma novaclasse de humanos, cuja ascendência genética se produz sob controle absoluto daprópria espécie, levaria a um corte biológico de ordem não somente epistemológicocomo traria uma inevitável reordenação de toda nossa compreensão ética da existência. A compreensão histórica da vida humana na Terra desde tempos antigos delimitaseus inícios para um tempo mítico, impreciso cronologicamente, seja, por exemplo,quando nos referimos à tradição grega com seus deuses titânicos evocando as forças danatureza e outros deuses assemelhando-se a caracteres humanos, ou seja, numa outratradição, a das culturas dos orixás surgidas na África Equatorial, em que ambos,fenômenos da natureza e características humanas, se inter-relacionam. De qualquermodo, ao fazermos a leitura das gêneses de civilizações num tempo histórico maisremoto, não se percebe uma clara individuação do homem em relação à natureza. Pelocontrário, o homem de tal modo pertencia à natureza que as formas utilizadas paraclassificá-lo eram ligadas a arquétipos cuja origem situavam-se no mundo natural. Essacosmogonia antiga gerou como legado, por exemplo, a Astrologia, que estabeleceintrínseca relação entre as posições de astros no Universo com as características deelementos da natureza, herdadas pelo homem no momento de seu nascimento. Mesmonas expressões comuns da fala popular, ainda percebe-se essa relação. Quando dizemos“é da natureza de Fulano”, ou, “Sicrano tem cabeça de vento”, encontra-se presente omesmo vínculo ancestral das características do homem com relação a algum fenômenode ordem física ou natural. O exemplo das culturas de origem Tupi é ainda mais esclarecedor. A concepçãoameríndia de mundo, em linhas gerais, pressupõe uma unidade de espírito e umadiversidade de corpos. O que o pensamento ocidental compreende como cultura,civilização, homem ou sujeito, os índios americanos entenderam como espírito, formauniversal e as coisas da natureza e os objetos materiais constituem a forma particularque toma esse espírito. Não existiu nas culturas indígenas da América uma separaçãonítida entre natureza e cultura, coisas relativas à natureza e coisas criadas pela cultura,ou humanas. Há uma diferenciação, como nos mostra Eduardo Viveiros de Castro, masela não é estreita, rígida, como se constituiu no pensamento ocidental, particularmente
  • no moderno, ela implica numa perspectiva da ação em curso. Por exemplo, um índio ematividade de caça se colocaria como um ser caçador, o que seria também a percepçãotida pelo animal caçado. O índio, em outra situação, fugindo de uma onça, estaria nacondição de caça e perceberia a si mesmo como tal e à onça como caçadora. Daí aorigem da lenda de Curupira que circunscreve a cultura indígena numa reciprocidade derelações com a natureza, nesse caso com a mata, e entre a caça e o caçador. Trata-se deuma cosmogonia bastante particular, pois implica em um mundo habitado por diferentesespécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não humanas, as quais o apreendem segundopontos de vista distintos. Não se pode estabelecer nessas culturas uma diferenciaçãoessencial, de substância inata, que separe claramente o homem de um lado e a naturezado outro. Vamos transpor o oceano e o tempo em direção ao mundo europeu antigo. Noapogeu da civilização grega houve o estabelecimento de uma diferenciação entre vidanatural e vida política, entre o que os gregos chamavam de zoe e de bios. O homemenquanto animal vivente, em sua relação com as coisas do mundo natural, ou no espaçoprivado da existência junto aos de sua família, compunha o universo animal do zoe.Esse mesmo homem, porém, comprometia-se com o espaço público da existência, ouseja, com a gestão coletiva da vida na comunidade da polis, e quanto maiscomprometido ele fosse, mais alta reputação dispunha. Essa vida vivida pelo homemgrego no espaço público era denominada de bios, a vida ativa da existência conquantoadministração, não de sua relação com a natureza (o que hoje seria tido como o espaçoprivado da existência), mas da gestão política (entendida como a participação doindivíduo em sociedade). Contudo, mesmo nessas experiências antigas mais autônomas empreendidas pelohomem, seja na polis grega como na res pública romana, não se caracterizava umentendimento ontológico do ser humano como fenômeno ausente, separado ou,digamos, elevado acima do mundo natural. Até porque, havia uma naturalização daexistência no âmbito da sociedade que implicava no entendimento de que as diferençassociais existentes entre os humanos dentro de um mesmo grupo, não eram fruto de umadivisão social incrustada na cultura que hierarquizava homens e mulheres, velhos ejovens, senhores e escravos, nobres e plebeus. A posição de gênero, de etnia, decondição econômica, de distinção social, já era dada desde o nascimento, por sorte ouazar de nascença, ou qualquer coisa parecida, mas sempre inserida numa hierarquia de
  • valores que fazia parte da ordem natural das coisas, por isso de castas ou estamentos,praticamente impossível de ser modificada. A passagem desse tempo mítico para um tempo histórico, cronologicamentemensurável, deu-se na medida em que as diversas civilizações, à semelhança de seusdeuses, desenvolveram um legado material e imaterial que se perpetuou através dasformas e dos lugares da memória, dentre as quais a documentação escrita logrou ocuparespaço privilegiado no mundo ocidental da tradição judaico-cristã, ou seja, aquela queviria a se tornar a civilização protagonista do advento da futura ciência moderna a partirdo século XVII. Foi somente com o fim da antiguidade clássica e a difusão emassificação do cristianismo no mundo ocidental, herdeiro direto do testamento míticojudaico, que o ser humano ascendeu por desrespeito à obra do Criador (o pecadooriginal) ao topo da hierarquia na Terra, cabendo ao homem, mas não ainda à mulher, odomínio sobre todas as coisas da natureza. Deus criou o mundo natural em seis dias e ohomem por último, Adão, à sua imagem e semelhança, como nos mostra a obra deMichelangelo na Capela Sistina. No zoológico mitológico do Jardim do Éden não haviadiferenciação qualitativa entre os seres viventes. Porém, com a queda na terra oshomens tornaram-se senhores da natureza por serem os únicos cônscios da obra do Pai.Depois, por ocasião do dilúvio, Noé, o salvador da pátria indicado por Deus, seincumbiu da missão de primeiro biólogo, ao coletar todas as espécies da criação para asobrevivência do mesmo universo natural em outro lugar. Ao contrário da Grécia antiga, na qual o homem exercia seu controle sobre anatureza a partir de sua vida política, a bios, portanto, um domínio em função dointeresse comum da cidade-estado, no mundo judaico cristão o homem deve exercer seudomínio sobre o mundo natural, não como resultado de uma atividade política(humana), mas como destino de comando inscrito numa ordem transcendente. E essecomando, na concepção cristã de mundo, poderia ser executado segundo os princípiosde Deus e do bem, como pregava São Francisco de Assis, ou do mal, do Diabo, como oatribuíram aos hunos de Átila, saqueadores dos campos e das recém convertidas cidadescristãs. Evidentemente que tudo isto trata de uma tese idealizada propagada comopensamento dominante sobre um conjunto de pessoas que se disseminou com o passardos séculos. Na prática de vida mundana, a vida realmente vivida, a coisa se tornavamuito diferente. A ação do homem sobre a natureza, durante todo o período medieval europeu,deu-se de forma a atender as necessidades de uma civilização que se desenvolveu
  • basicamente no campo, portanto, fora da organização daquela vida política grega, degestão dos recursos para a cidade, de que falávamos antes. Somente a partir do fim doséculo XIV com o ressurgimento de uma vida urbana intensa nas cidades marítimas ecomerciais da Itália e do norte da Europa, que o problema da exploração dos recursosnaturais passa a ser pensado em termos de uma demanda de suprimento para a vida nascidades. É por volta dessa época e nos dois séculos seguintes que se iniciou a ocupaçãoextensiva de terras no leste europeu e no mundo mediterrâneo, com a produção decereais para abastecer os mercados urbanos da Europa ocidental. No caso da França, daItália e da Espanha, como nos mostrou Fernand Braudel, houve uma profundatransformação na paisagem terrestre com a eliminação da maior parte da coberturaflorestal nas cotas baixas mediterrâneas, particularmente sobre aqueles bosques que jáhaviam se regenerado dos estragos causados pela ocupação anterior das mesmas terrasdurante a antiguidade. No campo das idéias, as formas de apreensão da vida humana no mundo e deconstrução dos saberes também estavam inseridas numa ordem hierárquica temporal.Se, por um lado dava ao homem, por direito divino, lugar privilegiado no mundonatural, por outro subordinava suas ações a uma relação espiritual cuja mediação, atransmissão da palavra de Deus desde os tempos históricos da Tábua dos Mandamentosde Moisés, ainda se fazia por meio de um seleto grupo de iniciados. No caso da religiãocatólica, a partir da palavra dos apóstolos sacramentada nos evangelhos, a Igrejaconstruiu uma hierarquia de transmissão do conhecimento passando pelo sacerdócio depadres, bispos, cardeais até sua eminência, o Papa. Essa organização das atribuiçõeshumanas impediu, ou retardou, o desenvolvimento de uma ciência sobre a naturezaresultante de uma ação humana secular, independente daquela hierarquia temporal. De certa forma, o salto para a concepção de uma ciência feita pelos homens podeser atribuído à libertação da relação de dependência mantida pelos leigos junto aossacerdotes da Igreja. A reforma protestante, essencialmente, liberou o ser humano,enquanto indivíduo, para fazer contato direto com Deus, através da palavra do Senhor,sem a necessidade da existência de um mediador na Terra. Por outro lado, como nosmostrou Max Weber, a prática de vida da sociedade protestante permitiu o surgimentode uma nova concepção da ação política e econômica, o liberalismo. Para Locke,escrevendo em fins do século XVII, o homem tem o direito, inscrito na lei divina, deacumular tantas propriedades quantas lhe for possível conseguir com o fruto de seutrabalho. E assim, o progresso individual, tornou-se resultado da correta administração
  • dos bens privados, ou seja, da economia, pois é ela que traz a riqueza individual. Asoma das economias dos indivíduos de uma mesma nação leva ao progresso também doEstado. Portanto, no decorrer do século XVIII afirma-se um tipo de compreensão darelação humana com os recursos naturais, denominado economia política, no qual, avida privada e a vida pública se fundem no início da fase adulta da aventura daacumulação capitalista. A riqueza das nações de que falava Adam Smith se fará atravésda exploração racional dos recursos naturais existentes na superfície da Terra. A idéiade razão que se expressa aqui não é a de uma racionalidade aplicada aodesenvolvimento do corpo social como um todo. A racionalidade moderna é a doindividualismo possessivo, na qual é a soma das riquezas individuais que cria a riquezacoletiva. As reformas de Estado posteriores, decorrentes dessa visão seminal doindivíduo moderno, buscaram, tão somente, dotar a nação de uma maior capacidadeinstitucional para o desenvolvimento das habilidades individuais da população atravésde políticas públicas dirigidas para a saúde, educação, segurança, assistência social, etc.Mas, sempre seguindo a lógica de que a riqueza geral se dá pela soma das riquezasparticulares. Essas novas concepções filosóficas permitiram, simultaneamente, odesenvolvimento da ciência moderna, uma vez que a ciência, entendida como ter osaber sobre, separou-se da tutela que a mantinha sob dependência da religião. Aprodução do conhecimento passou a ser conduzida dentro de uma concepção de razãocartesiana, ou seja, a da separação entre o homem, o sujeito que estuda, e os objetos aserem estudados, a ser provada através de métodos empíricos (Bacon). No decorrer doséculo XVIII as pesquisas científicas desenvolvidas nas Ciências Físicas ou Naturais,permitiram inovações tecnológicas diretamente aplicadas pelo nascente mundocapitalista através da invenção de máquinas, industrializando métodos e mecanizandotécnicas produtivas que modificaram radicalmente as relações de trabalho eintensificaram a demanda e a exploração dos recursos naturais existentes em todo oplaneta. As então denominadas Ciências Naturais, da Botânica até a História Natural,desde os tempos de Lineu e Buffon, tiveram papel importante na transformação dastécnicas, contribuindo para a seleção e introdução de novas variedades dedicadas àprodução agrícola, ampliada com os métodos de classificação dos espécimes, seja noVelho Mundo, como no Novo Mundo, através das viagens dos naturalistas, tão
  • freqüentes aqui no Brasil, de Martius a Saint-Hilaire. Em seguida, os estudos no campoda Genética permitiram auxiliar a agricultura no aumento da produtividade no campo,fator que praticamente erradicou a fome crônica que assolava a população européia atémeados do século XIX. O início efetivo de uma associação entre a ciência econômica,entendida como a administração dos recursos disponíveis, e a recém-nascida ciência dabiologia, responsável pelo estudo das espécies vivas, tem como exemplo paradigmáticoo trabalho desenvolvido por Malthus. O estudo da economia da população humana, ouseja, a relação entre a disponibilidade e a produção de recursos para manter e sustentar apopulação humana, que já começava a apresentar sérios desequilíbrios ecossistêmicosem relação à sua reprodução, marcou o início científico da atividade de gestãopopulacional, tema mais recente do trabalho sobre a biopolítica de Foucault. Daí para oconceito de Ecologia, usado primeiramente por Haeckel em 1863, como sendo a ciênciasobre as relações estabelecidas entre as espécies, ou entre os recursos vivos disponíveisno planeta, foi mera decorrência do caminho empreendido pela civilização moderna. O que diferencia radicalmente o pensamento humano no mundo moderno emrelação a todas as outras formas de pensamento é justamente a separação posta por eleentre o sujeito pensante e os objetos estudados. Uma separação que resulta de umentendimento filosófico da existência, do homem, como um ser destacado do resto danatureza. Nem mesmo as descobertas evolucionistas protagonizadas por Darwin eLamarck que, contrariando o mito da criação, na prática re-inseriram o homem nanatureza e no topo da longa cadeia evolutiva da vida na Terra, foram suficientes parauma transformação na ação do homem sobre o meio em que se vive. Pois, se noparadigma religioso o homem tinha o direito moral de dominar a natureza, noparadigma científico pós-evolucionista o homem o faz como resultado da competiçãoexistente entre as espécies e também da competição que se instala dentro de sua própriaespécie pela sobrevivência (a tese do darwinismo social de Spencer). No decorrer do século XX, a última fase do desenvolvimento da economiapolítica levou o planeta a uma intensa urbanização da vida que retirou o homem de sualigação histórica com o campo. A histórica ação antrópica pautada pelo domínio sobre anatureza e que significou a depredação dos recursos naturais existentes para o exercíciode atividades produtivas deixou, nesse último século, de manter os vínculos quetradicionalmente ligavam o homem à sua terra. Em seu lugar, para sustentar amanutenção da vida de uma população planetária que triplicou no decorrer desse século,a lógica de mercado que perpassa o globo terrestre transformou grande parte de sua
  • superfície em enormes indústrias de produção de suprimentos, que geraram o conceitode agro-negócio. E a relação entre os estudos científicos aplicados ao desenvolvimento detecnologias direcionadas ao biológico também se aprofundou. No campo da produçãode alimentos de origem vegetal assistimos a uma verdadeira guerra travada pelaindústria no combate a pragas e parasitas, organismos que, na maior parte das vezes, seproliferaram como resultado do desequilíbrio ecossistêmico causado pela funesta açãoantrópica sobre o meio. A engenharia estabelecida entre Biologia e Química naprodução de fertilizantes e agrotóxicos controlada por grandes corporações como aDow, Monsanto e Rodhia, foi saudada no campo como sendo a salvação da lavoura e doaumento da produtividade agrícola. Em contrapartida, a reação da natureza a essaagressão causou um fortalecimento daquelas mesmas pragas combatidas, demandandodoses ainda mais cavalares de venenos para o controle delas. A ineficiência prolongada dos agrotóxicos no combate às pragas foi causa diretapara os investimentos feitos pela Monsanto, durante a década de 1970, nos laboratóriosde pesquisa das universidades anglo-americanas no campo da biotecnologia e quelevaram à descoberta das técnicas de clonagem e à produção de sementes híbridasinoculadas com genes animais de alta resistência à toxidade. Os organismos vivosmodificados, vulgarmente denominados transgênicos, por extensão, trouxeram outroproblema para a agricultura. Os vegetais, grãos, legumes e frutas, desenvolvidas a partirdos OGMs geram poucas sementes e sementes que são demasiado fracas paraproduzirem outra safra. Resultado da inovação tecnológica, o produtor rural tornou-serefém da compra de sementes modificadas produzidas por grandes corporações quedetêm o monopólio da fabricação e da venda, e, portanto, encontram-se no topo dacadeia produtiva e controlam o agro-negócio global. No caso da reprodução de animais,a inoculação de ovelhas e bezerros, durante a década de 1990 na Inglaterra, estádiretamente relacionada à doença da vaca louca que dizimou rebanhos inteiros de gadona Europa, e o mesmo pode-se dizer em relação aos frangos e à gripe aviária surgida naÁsia oriental no início deste milênio e, muito provavelmente, em relação à atual gripesuína. A evolução da pesquisa científica durante o século XX, particularmente a partirda década de 1950, somente foi possível graças aos investimentos trazidos pelas grandescorporações da indústria para as universidades ou através da criação de laboratórios depesquisa próprios. Isso acarretou uma subordinação dos cérebros saídos das
  • universidades do mundo inteiro à concepção de progresso regulada pela lógica domercado, que é basicamente aquela de expandir e manter o próprio negócio. Poderíamosargumentar que os cientistas são independentes para recusarem pesquisas em objetosque não lhes interessam do ponto de vista ético. Contudo, as formas de pensamentodominantes, de produção econômica, e de subjetivação da vida não são processosestanques. Encontram-se interligadas e é evidente que, se grande parte da humanidadeestá sob o domínio de uma lógica de pensamento fundada no acúmulo de capitais,inclusive o de capital humano, como já vimos, então o sistema de competição dentro daprópria espécie impele o cientista, como qualquer outro ser humano, a participarativamente desse processo sob pena de se ver marginalizado e fadado a abandonar suapesquisa ou lecionar em escolas periféricas da produção do saber. Mas, acima de tudocom a idéia difundida de acúmulo de capital humano, portanto da necessidade de sefazer investimento continuado em si mesmo, o homem, sob domínio das relações demercado, é impelido a legar também para sua prole um conjunto de capitais, inclusivegenéticos, para permitir a ela sobreviver na competição entre os indivíduos, que serácada vez mais acirrada no mercado futuro. O modo de organização do pensamento no mundo moderno herdeiro de umavisão filosófica e religiosa de separação do homem em relação à natureza produziu umaciência na qual o homem se empenha em racionalizar sua vida em função do domíniosobre o meio natural. Na atualidade estamos vendo os últimos passos dados por essavisão de mundo que, financiados por um acúmulo imenso de capitais, interliga esubordina a produção do conhecimento à lógica do mercado. E o mercado é o resultadoda soma de todas as individualidades possessivas que compartilham a vida sobre aTerra. A ciência aplicada à tecnologia dispõe hoje de conhecimento suficiente paraestabelecer, num futuro próximo, o domínio absoluto sobre as formas de vida, inclusivesobre a da própria espécie humana. Portanto, nos colocamos de fronte a uma faseinusitada do evolucionismo, na qual o homem, além de ser a resultante privilegiada doprocesso evolutivo participa, também, pela primeira vez na história, de uma civilizaçãoque dispõem de conhecimento suficiente para criar seus próprios homens e tambémcriar outras formas de vida, até então inusitadas. Por isso estamos no limiar do surgimento de uma nova revolução científica, se jánão estamos dentro dela, que implicará na completa re-elaboração da compreensão éticada existência humana. E isso não se dará de forma pacífica, pois as forças de diferentescivilizações em disputa, apesar de hegemonicamente dominadas pela economia de
  • mercado, e a repartição desigual do acesso à produção e manutenção de capitais naTerra, estão ainda muito longe de terem sido homogeneizadas. Quando falamos emhomem, esse homo sapiens universal a que a ciência se refere, esse homem é resultadode determinações culturais que variam no planeta e estão dispersas em modos decompreender o mundo que são bastante heterogêneos. E particularmente num assuntotão delicado aos povos como o do poder da criação, ou do sujeito criado querer setransformar no sujeito criador, então uma nova guerra pela concepção que se faz sobre avida poderá surgir. Bom, eu vou parar por aqui, pois acho que a partir de agoraentramos em outro terreno, o das forças políticas em luta no planeta, e isso é pauta paraoutra conversa.SUGESTÕES PARA LEITURABAHRO, Rudolf. The alternative: towards a critique of real, existing socialism.Londres: New Left, 1979.BECK, Ulrich. Risk society. Towards a new modernity. Londres:. SAGE. 1992.BOOKCHIN, Murray. Historia, civilización y progreso. Madrid: Nossa y Jara, 1997.BRANCO, Samuel M. Ecossistêmica. São Paulo: Edgard Blücher, 1989.BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Felipe II.São Paulo: Cia. das Letras, 2004CARVALHO, Marivaldo A. de. Introdução à práxis indígena: “gente humana” ou“gente natureza”. São Paulo: Imprensa Oficial, 2002.CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. Ensaios de antropologia política.Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.CROSBY, Alfred. Imperialismo ecológico. São Paulo: Companhia. das Letras, 1993.DEAN, Warren. A ferro e fogo. A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira.São Paulo: Cia. das Letras, 2004.ENGELS, Fredrich. A dialética da natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. Uma arqueologia das CiênciasHumanas. São Paulo: Martins Fontes, 1987.____________ Naissance de la biopolitique. Cours au Collège de France (1978-1979).Paris: Gallimard/Seuil, 2004.LAZZARATO, Maurizio. Del biopoder a la biopolitica. (2000) inhttp://multitudes.samizdat.net/article.ph3?id_article=298 (acesso em 22/05/2005)
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