Gambare

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O trabalho é composto por diversas reportagens sobre as influências culturais da colônia japonesa em Santos e São Vicente. Foi escolhida a colônia japonesa por ser uma das maiores da região e pela sua …

O trabalho é composto por diversas reportagens sobre as influências culturais da colônia japonesa em Santos e São Vicente. Foi escolhida a colônia japonesa por ser uma das maiores da região e pela sua importante influência em diversas áreas da cidade como artes, esportes, culinária, religião e política. Muitas das manifestações culturais e tradições permanecem vivas no nosso cotidiano. Algumas estão registradas em 18 matérias no encarte especial. A intenção é criar uma publicação, em volume único, para registrar a experiência dos nipônicos aqui e mostrar a troca cultural.

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  • 1. GambareTrabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo - Centro de Ciências da Comunicação e Artes - Universidade Católica de Santos (UniSantos) - ANO I - nº 01A vida através dos olhos rasgadosCOMO ELES CONSEGUIRAM SE ADAPTAR EFINCAR RAIZES TÃO PROFUNDAS EM UMA CULTURA COMPLETAMENTE DIFERENTE
  • 2. Força! Hora da foto Gambare é uma palavra japonesa paraincentivar alguém a conseguir seus objetivos.Gambare nos foi desejado no início do projeto epassamos cada minuto lembrando dela. Nenhuma outra palavra poderia nomear me-lhor este projeto. Força, coragem, garra. É o que foinecessário ao longo deste nosso ano de trabalho. O projeto experimental que você ira ler éresultado de diversas vivências ao longo desteano. É resultado de um esforço em conjunto comapenas um foco: entender o desenvolvimento daregião de outra forma. O Brasil é um país conhecido por ser multicultural.Aqui, os imigrantes formaram uma cultura única. ESantos foi peça chave nessa formação cultural e socialdo país. Foi por meio do maior porto da AméricaLatina que os imigrantes adentraram no país. E foipor aqui que muitos se xaram. A paciência, sabedoria e respeito pelopróximo nos aproximaram cada vez mais dosseus descendentes e tornaram o trabalho algode relevância não só acadêmica, mas também deenriquecimento pessoal. Para entendermos melhor suas raízes e certascaracterísticas, vivemos lado a lado. Fomos afestas típicas, adentramos seus lares, trabalhose comemorações. Entramos em suas vidas e nosforçamos a pensar como eles. Ao longo destas 40 páginas, está registradacada uma das mais de 60 entrevistas. Escolhemoselaborar a Gambare com textos mais leves paraque o entendimento da cultura nipônica seja algosimples e de acesso a todos. Esperamos que a leitura seja prazerosa a vocês,tanto quanto foi prazeroso para nós escrevermos.Não podemos encerrar sem agradecer as nossasfontes, por nos deixarem entrar e bisbilhotarsuas vidas; nosso orientador, por seus conselhose por sempre nos encaminhar para o local certo.E claro, as nossas famílias e amigos, por todo oapoio de sempre. Boa leitura! Gambare Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo Centro de Ciências da Comunicação e Artes Universidade Católica de Santos (UniSantos) Categoria: Projeto Experimental. Modalidade: Impresso. Orientador: Prof° Me. Marcus Vinicius Batista. Diagramação, reportagens e fotos: Barbara Bueno, Carolina Gutierrez Prado e Robertha Infante. Ilustrações: Jorge A. R. Gutierrez
  • 3. Índice O carnaval Cada Crença ao 100 anos de das cerejeiras som, uma pé da letra história história 09 11 05 06 A colônia no poder 13 A terra do sol caiçara 19 O caminho do guerreiro Pelos olhos puxados 15 O sushi fala português 29 20 Juntos e bem A missão de manter as acompanhados Religião tradições 25 27 30 De hospedaria a casa de repouso 24 Trabalhando Banzai longe de casa Caldeirão Pop Japão! 32 36 Oamor pelamatemática 33 37 como funciona este índice: 1.) Cada círculo representa uma matéria. A orquestra 2.) O tamanho do círculo é proporcional ao tamanho da reportagem. vazia Ou seja, quanto maior o círculo, mais páginas tem a matéria. 38 3.) As cores representam a quantidade de assuntos abordados na maté- ria. Azul = 1 assunto. Roxo = 2 assuntos. Verde = 3 assuntos. Vermelho = 4 assuntos ou mais.
  • 4. Crença ao pé da letraAs superstições variam de cultura para cultura. Só que no Japão, elassão, realmente, levadas a sério. D aruma - É um boneco que representa Bodhidharma, um monge da Índia. Ele atingiu a iluminação após meditar durante 9 anos sem fechar os olhos ou se mover. Há a crença de que o daruma realiza desejos. O boneco vem com os olhos em branco. O costume é pintar uma das pupilas quando zer um desejo e a outra, quando ele se realizar.M aneki - Neko - Quem frequenta comércios e restaurantes japoneses já deve ter visto um desses gatos em cima de alguma prateleira. O gato com a pata esquerda levantada atrai dinheiro e bens materiais, o da direita, atrai a pessoa amada. K aeru - A palavra Kaeru signi ca sapo em japonês e possui a mesma sonoridade do verbo voltar. É costume guardar um sapinho de cerâmica na carteira para que o dinheiro “volte”. Os orientais também acreditam que sapos dão sorte e trazem felicidade, fazendo com que coisas boas “voltem” para as pessoas.T suru - É um pássaro feito em origami que passou a ser símbolo de paz e prosperidade depois da bomba de Hiroshima, quando uma das sobreviventes fez mil Tsurus e sobreviveu à leucemia que a radiação havia provocado. I shi-gan-tuu - As pedras com essa inscrição são colocadas no nal das estradas da provincia de Okinawa que terminam em T, para afastar os maus espiritos.S hii-Saa - A gura do leão “Shii-Saa” situa-se na entrada das casas, templos shintoístas ou nos telhados das construções. Isso signi ca proteção para as pessoas da casa contra maus espíritos. Números do azar 4 - A pronúncia do “4” (kanji à direita) é shi, a mesma pronúncia para a palavra morte. 9 - É pronunciado como ku, mesma pronúncia da palavra dor. Também pode signi car agonia ou tortura. 42 - Signi ca morrer se for pronunciado separadamente (shi-ni). Portanto, hospitais e hotéis geralmente não têm o quarto e o nono andar, esse encarte não possui o número nas páginas 4 e 9. Não se deve presentear nada ligado a esses números ou composto por 4 ou 9 itens. 5
  • 5. 100 anos de históriaAntes do embarque O embarqueA base econômica do Brasil estava em crise. Os produtores de café estavam enfrentando grande instabilidade dos imigrantes F oram esses os fatores mais importantes que fizeram com que, no dia 18 de junho de 1908, 165 famílias japonesas chegassem ao Porto de Santos. A bordo do Kasato Maru, aoeuropeus, que se recusavam a trabalhar pelo pouco que recebiam todo, eram 781 imigrantes.aliado as péssimas condições de trabalho. Mas já na hora do embarque no Japão ocorreram problemas. Isso fez com que o país fosse procurar novos mercados e mão- As agências brasileiras tinham interesse em japoneses quede-obra. Mesmo com estilos de vida nada parecidos, os japones eram trabalhavam. Não em seus lhos pequenos ou parentes idosos.perfeitos para a função. E assim, assinaram um acordo em 1895. Para emigrar, os nipônicos tiveram que organizar outro tipo Na época, o Japão atravessava um período de grande de família. Casais sem lhos ou com bebês se associavam a jovenscrescimento populacional. A economia japonesa não conseguia para poder embarcar. E quando chegaram aqui, conseguiram aosatender às necessidades da população e gerar os empregos poucos se reorganizar.necessários para todos. A instabilidade nanceira de um lado e a necessidade de Imagem de dominio públicomão-de-obra do outro zeram com que os japoneses tomassem adecisão de deixar sua terra natal. Os dois países faziam propagandas. Propagandas falsasque prometiam uma vida mais promissora e terras, tudo oque os japoneses desejavam no momento. A grande explosãodemográ ca japonesa fez com que o governo incentivasse aspropagandas enganosas. Eles precisavam de mais espaço e oBrasil, de mais trabalho. Museu Histórico da Imigração Japonesa KASSATO MARU - Primeiro navio de imigrantes japone- ses a chegar no Brasil. A chegada D epois de um longo mês de viagem, desembarcam no porto, sujos e doentes. O choque cultural foi quase que imediato. Assim que provaram a primeira refeição típica brasileira, muitos tiveram diarréias e não conseguiram engolir mais que duas colheres. Imagem de dominio público Cartaz de uma companhia japonesa de imi- gração. Entre os dizeres, a seguinte frase: Agora vamos, levando a família, para a América do Sul”. KASSATO Maru atrracado nas Docas, em Santos.6
  • 6. Nos primeiros anos, a maior preocupação era manter as Os primeiros tempos tradições japonesas. As escolas eram longe das colônias, o que motivou a construção de diversos colégios que tinham como base O feijão era salgado, e não mais adocicado. As refeições a base de saladas e peixes defumados deram lugar a comidas fritas e gordurosas. a língua e cultura japonesa para os menores. Isso tudo foi uma tentativa de reatar, continuar com a cultura de origem e representar a sociedade japonesa no território estrangeiro. Justamente em 1908, a safra de café foi péssima, o que causou grande desânimo aos colonos japoneses. Por mais que trabalhassem, não conseguiam juntar dinheiro para retornar ao Livro “Banzai Brasil! Banzai Japão!” país. Mas isso não foi motivo para que aqueles que continuavam no Japão não viessem em busca de vantagens. Apesar de todos os problemas, os navios japoneses continuaram desembarcando imigrantes no porto de Santos. Nos primeiros sete anos do acordo entre os dois países, o Japão despachou para o Brasil mais 3.434 famílias ou 14.983 pessoas. Em 28 de dezembro de 1917, foi a vez do navio Wasaka Maru ancorar no porto. Os novos habitantes, sem terem para onde ir, cavam na 1ª Hospedaria dos Imigrantes, em Santos. Outros saíam do porto no trem Maria Fumaça e iam parar na Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, e de lá, decidiam seu destino. Museu Histórico da Imigração Japonesa Monumento em homenagem aos Imigrantes Japone- ses. Hoje, o monumento fica no Emissário Submarino. Segunda Guerra A tentativa de preservação cultural foi freada quando, em 20 de agosto de 1938, surgiu o decreto que proibia a circulação de qualquer publicação estrangeira dos súditos do Eixo, ou seja, as nações que apoiavam a Alemanha. Na época, existiam aproximadamente 20 publicações apenas em língua japonesa. Todas foram proibidas de circular assim que o Japão entrou na guerra ao lado dos alemães e italianos. Em 15 de janeiro de 1942, o Brasil entrou na guerra ao lado dosChegada à Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca Aliados (grupo formado por Inglaterra, França, Estados Unidos, entre outras). Japão e Brasil tornavam-se inimigos declarados. E quem sofria as consequências eram os colonos. Foi proibido falar japonês em público ou ensinar a língua para Primeira Guerra qualquer pessoa, inclusive crianças. O então presidente da época, Getúlio Vargas, também proibiu de cantarem ou tocarem os hinos C om a explosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o uxo migratório atingiu seu ápice. Entre 1917 a 1940, mais de 164 mil japoneses mudaram para o Brasil. Sendo que apenas 25% das potências inimigas, as concentrações de “súditos do eixo” em lugares públicos, a exibição de retratos de membros do governo dessas potências, a mudança de residência sem comunicação foram para o Paraná, Mato Grosso e outros estados. prévia, entre outras restrições. O resto se dirigiu rumo à São Paulo, principalmente no interior. De todas as medidas tomadas, a que mais revoltou os Cidades como Tupã e Bastos tinham sua população quase que absoluta imigrantes japoneses foi a ordem de fechamento das escolas de composta por colonos japoneses. Mas boa parte dos imigrantes dessa seus lhos. A nal, isso proibia a disseminação da cultura. Então, época acabou cando no litoral, em Santos e São Vicente. indignados com a decisão do governo, passaram a dar aulas Quando chegaram ao Brasil, a ideia inicial não era xar- clandestinas nas colônias. se aqui, e sim retornar ao Japão assim que conseguissem se A decisão que afetou diretamente Santos foi o decreto do estabelecer economicamente. governo de internar, a pelo menos 100 km da costa, os súditos Apesar de deixarem sua terra natal, os japoneses buscavam do eixo. A proximidade com o mar fazia com que todo o litoral trazer seus valores para o Brasil. Porém, tiveram de agregar do país fosse considerado área de segurança. costumes para conseguirem uma melhor adaptação. Dos 10 mil imigrantes que vivam na Baixada Santista, 9 mil A colônia nipônica construiu um campo de relação e co- eram japoneses. Eles não tiveram tempo de se despedir, arrumar as municação muito forte. Essa era uma referência, que orientava e malas, deixar alguém cuidando dos negócios. Nada. incentivava os imigrantes japoneses e seus descendentes a preser- Para que a população não atacasse as propriedades “aban- varem sua cultura. donadas”, foi feito um comunicado pela polícia pedindo para que os 7
  • 7. brasileiros zelassem pelos bens deixados para trás pelos nipônicos. Quando a guerra acabou, com vitória dos Aliados, alguns dosmais de 200 mil imigrantes japoneses não aceitavam a derrota do As influênciasJapão. Eles eram chamados de kachigumi. A história de alguns desteshomens foi relatada no livro Corações Sujos, de Fernado Morais. Essa decisão afetou diretamente a colônia local. A Associação N ão foram somente benefícios econômicos que a colônia trouxe para a região. Culinária, esportes, lutas, música, religião, política e em diversas outras atividades culturais é possível verJaponesa de Santos foi tomada pelos militares. O prédio que características orientais nas cidades.pertencia a colônia e ao governo japonês foi retirado a força de seus Outro marco são os monumentos espalhados pelas duasdonos e toda a documentação e registros acabaram se perdendo. O cidades. Em Santos, no Emissário Submarino, há vários deles emque não foi levado pelos japoneses foi completamente destruído. homenagem a comunidade nipônica. O prédio só voltou às mãos dos imigrantes em 2007. Após No centenário da imigração, em 21 de junho de 2008, oanos de brigas na justiça, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, príncipe japonês Naruhito veio ao Brasil para participar deefetuou a devolução aos seus donos. diversas comemorações, inclusive da inauguração do monumento Divulgação da artista japonesa Tommie Ohtake, de 94 anos. Foi a própria artista que escolheu o local de instalação, na extremidade da plataforma do Emissário Submarino. Ela também orientou que a obra deveria apontar para o mar, para permitir a visibilidade de todas as pessoas situadas na orla de Santos e de São Vicente. O trabalho não tem nome. A artista prefere que cada pessoa busque a sua interpretação. Outro monumento em Santos é o que retrata uma família japonesa vestindo roupas do início do século passado. Antes do centenário, cava na praia do Boqueirão. Agora, o monumento ca também no Emissário Submarino. A estátua ca ao lado de uma cerejeira e comemora os 90 anos da imigração japonesa no Brasil. No Cais 14 do porto, há mais um deles, o monumento ‘18 de Junho’. Nele, estão inscritos os nomes das pessoas que vieram para o Brasil a bordo do Kasato Maru. Em São Vicente, na entrada da Rua Japão, há o Shurei-mon, Capa do livro Corações Sujos, de Fernando Morais o “portal da cortesia”, que é uma réplica do portal erguido do lado de fora do castelo de Shuzi em 1550, no Japão. O grande arco vermelho foi inaugurado em agosto de 1998, junto com a Praça Os Okinawanos Kotoku Iha, em homenagem aos 90 anos da imigração japonesa. Dos 250 mil japoneses que chegaram aqui, restaram por volta de 80 mil e, ao incluir os descendentes, o número sobe paraO clima e as atividades da província lembravam muito o da região. Okinawa também é uma cidade portuária comatividades pesqueiras. 1,4 milhão. Os imigrantes japoneses são os responsáveis por grandeparte do crescimento das cidades de Santos e São Vicente. Elestambém foram os pioneiros das gerações de agricultores quedesenvolveram diversas técnicas modernas. As atividades em quemais se destacaram eram pesca e bananicultura. Muitas dessas atividades deram características a certoslugares. Como na Ponta da Praia, em Santos, conhecida pela fortepresença da colônia nipônica. E também na Rua Japão, em SãoVicente, que mudou de nome após o grande número de japonesese descendentes no local. Cerejeira plantada em comemo- ração aos 90 anos da imigração Monumento da artista Tommie Ohtake8
  • 8. o carnaval das cerejeirasTODO PRIMEIRO DE MAIO, A COLÔNIA JAPONESA SE REÚNE PARAPRATICAR ESPORTES E DIVERSAS ATIVIDADES RECREATIVAS, COMO OBJETIVO DE PRESERVAR A CULTURA MILENAR DO PAÍS.S emelhante ao carnaval. Uma edição termina e, no dia seguinte, começa apreparação para a próxima. O Undokai, um lanches, bebidas e bentôs - marmitas japonesas que, normalmente, possuem arroz, peixe e legumes. data é o feriado do Dia do Trabalho. “Assim não é necessário combinar uma data nova a cada ano, o feriado do Dia do Trabalho,dos eventos mais tradicionais do Japão, é Na data do evento, chegam cedo e garante que seja um dia xo”.realizado durante a primavera. ajudam na arrumação. Independente de A média de público costuma ser de duas O m do frio, da neve, o surgimento idade, todos são incorporados ao grande mil famílias ao longo do dia, fato que deixadas cores e, principalmente, o tão time que ergue barracas, separa prendas, os membros mais atuantes da comunidadeesperado orescimento das sakuras – monta pequenos bazares e prepara as japonesa otimistas. Pois, manter a tradição écerejeiras – é o pretexto para que milhares gincanas e atividades esportivas. uma tarefa difícil, nos dias de hoje.de famílias reúnam-se em escolas para Para que a tradição não fosse esque- A última edição do Undokai foiessa festividade esportiva que costuma cida pelos imigrantes que vieram para o realizada na Associação Atlética Portuá-durar um domingo inteiro. Brasil, os japoneses realizaram o primeiro rios de Santos. Além das tradicionais O termo Undokai é a junção de duas Undokai brasileiro ainda a bordo do Kasato atividades esportivas, compostas porpalavras da língua japonesa: undô, que Maru, em 1908. diversos tipos de corridas e algumas ca-signi ca esporte, e kai, que tem o sentido A festa, que em 2011 teve sua ças ao tesouro, havia tendas com váriosde reunião, associação. 59° edição no Brasil, busca divulgar a produtos a venda, churrascos, bentôs e Levando ao pé da letra, undokai seria cultura nipônica e reunir integrantes da papéis com texto escrito em shodô – tipoapenas uma reunião de esportes. Mas, o colônia japonesa na Baixada Santista, de caligrafia japonesa.objetivo é bem maior que isso. como a rma o presidente da Associação Além disso, há alguns anos, todas O evento busca preservar a cultura, Japonesa de Santos, Sergio Norifumi Dói. as atividades são narradas em japonês epromover a união familiar e utilizar com- A reunião só foi suspensa no país durante português. Durante o horário de almoço sãopetições esportivas como suporte para ensinar o período da Segunda Guerra. feitas apresentações relacionadas à culturavalores sociais e éticos aos mais jovens. O Undokai é realizado em Santos, todo nipônica. Neste ano, durante a pausa para No dia anterior a festa, cada família 1° de maio. Sérgio acredita que, além do degustar os bentos, todos assistiram a mostrassepara muda de roupas, cadeiras dobráveis, clima estar agradável, outro motivo para a de taikô, odori, aiki dô, karate dô e kendô.
  • 9. click 1 undokai 1. Famíla aproveita a tarde de sol no domingo, 1º de maio, no Clube dos Portuários 2 3 2. Meninas participam de uma das atividades recreativas realizadas no Undokai 3. O som do tambor guia as crianças na “Corrida de Cegos”, uma das atividades do dia10
  • 10. Cada som, uma história N a mitologia japonesa, Amaterasu Omikami é a deusa da ordem, dignidade e bondade. Representada pelo Sol, Amaterasu era invejada pelo seu irmão Susanowo, deus do Tufão. Ele tinha o objetivo de destruir tudo que ela havia construído. Susanowo foi o responsável pela destruição de vilarejos, lavouras de arroz, templos e pela morte de muitas mulheres. Amaterasu cou tão inconsolável com os desastres, que se trancou em uma caverna, recusando-se a sair dali. De repente, os vilarejos e vales começaram a sofrer com a falta de comida, com o frio e a escuridão que permaneciam na Terra. Então, os deuses tentaram encontrar uma forma para trazer Amaterasu de volta. Eles se reuniram em frente à caverna e começaram a fazer muito barulho, com seus tambores, o taikô e iniciaram uma dança, seguida de palmas e muita música, o Odori. Curiosa com o motivo de tanta folia, a Deusa saiu para ver o que estava acontecendo. Ao se deparar com todas as pessoas e pedidos para que ela voltasse, Amaterasu retornou ao seu palácio e de lá continuou protegendo e atendendo aos pedidos de seus seguidores.Grande tambor P resente no mito da religião xintoísta, existem registros que indicam que o taikô está na cultura “Sempre gostei muito da cultura e me envolvi mais ainda quando comecei a praticar o taikô”. Como tudo na cultura japonesa, o taikô é mais do que nipônica há cerca de 1.500 anos. simples música. A arte de tocar o grande tambor representa uma Antigamente, no Japão, o tambor loso a de vida a ser seguida. Por isso, assim como nas artes era ligado à comunidade feudal e marciais, existem exames de graduação, roupas especiais e todas às guerras. Nessa época, os taikôs as músicas precisam de motivos para serem tocadas. eram utilizados para motivar as O lema é a importância da criação. As músicas tocadas tropas, para marcar o passo na são tradicionais e cada batida deve passar uma mensagem para marcha e para anunciar comandos, quem escuta. Para iago, fazer batidas legais e bonitas é apenas geralmente com o grito “Ei! Ei! consequência. A música for- O! Ei! Ei! O!”. Mais tarde, o taikô mada conta uma história e passou a ser usado também em nela, é possível viajar no tempo. festividades religiosas xintoístas. Durante os ensaios, a A palavra taikô signi ca “grande tambor”. O Japão tradição é seguida rigorosa-desenvolveu uma técnica para ser aplicada à partir da arte tocada e mente. Antes do longo aqueci-coreografada. Nas últimas décadas, o som do taikô ganhou espaço mento de vinte minutos, todosem muitos países ocidentais, tornando-se responsável pela criação os intergrantes sentam no chãode diversos grupos e também começou a ser utilizado como meio em volta do sensei e agradecemde composição para algumas pessoas. O taikô exige do músico mais um encontro. Só depois dadisciplina, concentração e excelente preparo físico. ordem do líder é que começam O único grupo de taikô da Baixada Santista é o São Vicente a se preparar.Kyowa Daiko. O grupo possui 11 integrantes e existe há 6 Os tocadores não usamanos. Todos tem idades entre 15 e 24 anos e muitos praticam o Hapi, seus trajes típicos, nos ensaios. A roupa tradicionaldesde pequenos. No início, um grupo de pais reunia seus lhos é guardada apenas para as apresentações. O Hapi antigo separa realizarem atividades infantis, e isso era conhecido como assemelhava às roupas usadas na prática do sumô. hoje em dia,Kodomokai. O Kyowa Daiko foi fundado em São Paulo pela são parecidos com kimonos japoneses.Associação Nipo Brasileira de São Vicente. O integrante que está há mais tempo no grupo se chamaTarcísio Akira Tamashiro e tem 19 anos. Já Cristiane AkemiXavier de Castro é a mais recente. Ela entrou em 2010. O motivoprincipal dela ter começado a praticar o taikô foi para conhecernovas pessoas. “Além de preservar a cultura, queria fazer novosamigos e isso me favoreceu muito”. O mais velho do grupo tem 24 anos. iago Rolim RosaLopes é o coordenador do Kyowa Daiko e vice-presidenteda Federação Paulista de Taikô. iago não é descendentede japoneses, mas tem um envolvimento muito grande coma cultura nipônica desde pequeno. Foi in uenciado porum vizinho que era japonês e que fazia questão de passarexperiências e hitórias sobre a cultura oriental para iago. 11
  • 11. Cada som, uma históriaEQUILÍBRIO DO MOVIMENTOA palavra odori quer dizer dança. Uma dança tradicional japonesa, cujas origens são relacionadas ao teatro Kabuki, quecomeçou há mais de 400 anos. É uma combinação de movimentos e esquecer todos os problemas, ela se diverte só de se reunir com as amigas do grupo para bater umdelicados que, junto com a respiração equilibrada, visam canalizar papo, sempre no nal dos ensaios.energia durante a prática. “Aqui é um lugar muito agradável, z Cada música é uma história e para dar vida às mensagens muitas amigas. Uma acaba ajudandoque desejam passar, os integrantes dos grupos utilizam diversos a outra, tem muita cooperação”.objetos para compor o gurino. Leques, bastões, sombrinhas, Ryutomo é a sensei do grupotenuguis e narukos são alguns dos muitos utensílios usados. e tem 75 anos. Recebeu esse nomeDurante os ensaios, utilizam os kimonos para dar mais de bastismo no odori quando foimobilidade e veracidade ao conjunto. Em apresentações, é a nomeada, pela sua superiora, comovez do kimono de gala entrar em ação, mas a arrumação não professora pro ssional. Ryutomopara por aí. Maquiagens, cabelos penteados e os sapatos típicos signi ca dragão da sabedoria. Seutambém estão presentes na composição. No caso dos homens, nome verdadeiro é Miy Waragai. Elapodem optar pelo kimono ou o Hakama. está à frente do grupo há 12 anos e O odori é composto de diversos estilos. Cada região tem a sua explica que durante as danças, todasdança típica e cada uma é praticada de um jeito. Atualmente, em as regras ditadas pelos responsáveisSantos, a apresentação da dança ca por conta do Hanayagui-ryu têm de ser respeitadas. “Você nãoSantos Odori No Kai. O Hanayagui-ryu começou há 200 anos e pode dançar em qualquer lugarfoi feito para ser dançado pelas gueixas em lugares pequenos. As sem a permissão do sensei, é algo coreogra as são pensadas de tal forma muito sagrado”. para que todos os integrantes quem O único homem do grupo, o perto um do outro o tempo todo. samurai Jorge Ajifu, dança há 12 anos. Ele tem 69 anos e possui Usam e abusam de rodas e leiras e uma habilidade incrível com as espadas. Participa de muitas têm a mobilidade de dançarem em coreogra as juntos com as outras mulheres, mas tem uma salas de todos os tamanhos, já que especial só pra ele. Usufrui da sabedoria da sensei para mostrar nunca ocupam um palco inteiro. seus dotes e possui um número sozinho com ela. O grupo Hanayagui-ryu Santos Odori No Kai existe em Santos há 25 anos. Hoje, é composto por dez pessoas, todos com idades entre 58 e 80 anos. Os ensaios acontecem na casa de reabilitação social Kosei Home. Tamiko Tani e Matilde Mitsuzak têm 74 anos e fazem parte do grupodesde que foi criado. Possuem uma agilidade que deixa qualquerum de queixo caído. Os pés acompanham todos os movimentosrealizados e os braços têm uma rmeza espantosa. Com uma certa di culdade para falar as palavras corretasem português, Dona Tamiko conta que pratica o odori porque sesente mais jovem. “É bom pra saúde, pro corpo e pra mente. Es-sa dança faz com que tudo seja desenvolvido ao mesmo tempo e,assim, me sinto mais nova”. Já Dona Matilde gosta é mesmo de uma prosa. Além de dançar glossário Curiosidades Tenugui - Em tradução literal signi ca “para Okinawa - Por sua localização estratégica, ao secar as mãos”. É um tipo de lenço ou toalha de longo dos séculos, Okinawa recebeu in uências mão japonês feito de algodão. Diferencia-se por não de diversas culturas, entre elas da China. Algo possuir bainhas. interessante é que Okinawa fazia parte de um reino independente, o reino Ryukyu. Por isso, Okinawa Naruko - É um chocalho japonês que tem desenvolveu uma cultura própria, e parte de sua várias hastes em 45 graus. Antigamente, era um história signi cativamente diferenciada do resto instrumento agrícola usado para espantar os do Japão. E até hoje há preconceito dos japoneses pássaros que vinham às plantações. okinawanos com os do continente.12
  • 12. A colônia no poderELEGER ALGUÉM QUE OS REPRESENTE E LUTE A FAVOR DE SUAS CAUSAS.ESSE MOTIVO LEVOU MUITOS JAPONESES E DESCENDENTES A ENTRAREMNA POLÍTICA BRASILEIRA.matsutaro Uehara por 1 voto. Tarô obteve 5.836 votos. ocupou até 1974. Nascido em Santos, foi um dos Em 1970, Uehara tentou candidatura Sua carreira não parou por ai. Foi eleitoprimeiros nisseis na política na região. Seu a deputado estadual pelo ARENA, mas deputado estadual em 1975 cou no cargopai, Naomatsu Uehara, veio na primeira apenas conseguiu a suplência. Após isso, até 1977 na Assembléia Legislativa. Assim,imigração o cial para o Brasil, a bordo do permaneceu na Câmara de Santos até 1992, se tornou o primeiro deputado estadualKasato Maru, em 1908. Sua família se ins- quando encerrou suas atividades políticas. vicentino. Abandonou o mandato, paratalou na cidade, ao contrário de centenas Antes disso, o candidato a prefeito, Vicente se candidatar a prefeitura de São Vicente.de outros japoneses que se xaram nas Cascione, o convidou para sair como Vice. Em 1977 foi eleito. Em 1983, foi eleitofazendas de café no interior do estado. Seu Tarô aceitou, mas como não foi eleito, deputado estadual e em 1987, entrou napai veio a falecer quando tinha apenas 4 acabou se aposentando. esfera federal pelo PSDB. Na qual cou atémeses. Deixou desde cedo uma grande Nesses 29 anos de trabalho, atuou com 1999, ano que decidiu se aposentar da vidaresponsabilidade para ele. diversas categorias. “Ele não lutava apenas pública. Antes disso, atuou como diretor- Tarô, apelido pelo qual cou pelos direitos da colônia, também lutava pelos executivo da Agência Metropolitana daconhecido na comunidade nipônica, se direitos dos feirantes, pescadores e vários Baixada Santista (Agem).formou no colégio Canadá e depois cursou outros”, a rma dona Tina Uehara, sua viúva. Koyu Iha nasceu em 1940, era lho decontabilidade. Sempre muito ligado ao Uehara também atuou no fortalecimento Kotoku Iha e Setsu Iha. Ambos de Okinawaesporte, participou de diversos times, da agricultura na região, especialmente, dos e vieram juntos no Kasato Maru. Quandocomo basquete, futebol de salão, futebol de bananicultores. Realizou vários projetos, tinha 3 anos, seus pais foram expulsos dacampo, tamboréu e tênis. um deles foi tornar utilidade pública a Casa cidade junto com mais de 9 mil imigrantes Quando sua carreira esportiva estava de Reabilitação para Idosos, o Kosei Home. japoneses. Perderam tudo o que tinham e sóchegando ao m, Tarô seguiu outros Apoiou a construção de escolas, creches, anos mais tarde, quando a Segunda Guerracaminhos. A colônia japonesa não tinha entre outras atividades sociais. chegava ao m, puderam voltar a Santos.local para se reunir, o que di cultava a Morreu após sua saída da política, em Sua infância não foi fácil, e sua juven-preservação de alguns costumes. Então, 1994, aos 69 anos, depois de complicações tude tampouco. Koyu entrou na política emem 1949, junto com alguns amigos, Uehara com a diabetes. Seu ótimo relacionamento um dos períodos mais críticos da históriafundava a Associação Atlética Atlanta. com a colônia e com a população santista do Brasil, a ditadura militar. Como sempreTarô se tornou o primeiro presidente e em geral, fazem Tarô ser lembrado até hoje foi contra, acabou preso inúmeras vezes.permaneceu no cargo por mais de 15 anos. com respeito e admiração. Para Koyu, entrar na política não era apenas “Foi o primeiro contato que ele teve “Ele era daquele tipo de pessoa que representar a colônia japonesa. “O motivocom a vida pública e ali nascia sua liderança”, não dava o peixe, mas ensinava a pescar. Foi principal que me levou a seguir carreira naexplica Mauricio Uehara, lho de Tarô. No assim que ele nos educou e era assim que política era o de todo jovem, mudar o mundo.ano seguinte, em 1950, Tarô casou-se com ele agia na política. Ele sempre foi muito Não creio que mudei o mundo, mas me sintoIsaltina Uehara, depois de três anos de respeitado pela sua seriedade”, a rma satisfeito com as mudanças que consegui”.namoro. Os dois caram mais de quarenta Mauricio Uehara, lho do ex-vereador. Antes de entrar na política, Koyu Ihaanos juntos, tiveram 7 lhos e 15 netos. Um ano depois da sua morte, em 1995, trabalhava na antiga Cosipa, e permaneceu Mas foi na presidência do clube Atlanta a Prefeitura de Santos homenageou Tarô com muitos anos lá. “Eu tinha que ter outroque o interesse pela política e pelos pro- uma praça, no Boqueirão. E em 2008, no emprego. Vereador não era remuneradoblemas enfrentados pela colônia começou centenário da imigração japonesa no Brasil, na época que entrei. A pessoa entrava naa surgir. Então, em 1963, Silvio Fernandes Uehara recebeu homenagem da “Ordem do política por vocação, não para car rico”.Lopes, prefeito da cidade, o convidou para mérito Kasato Maru”, do governo japonês. Koyu Iha sempre teve bom relacio-sair como candidato a vereador. Seus amigos Koyu iha namento com a colônia japonesa nana colônia o apoiaram, e Tarô foi eleito com Santista de nascimento, Koyu Iha rmou região. Quando jovem, frequentava osmais de mil votos pelo PSP (Partido Social sua carreira política em São Vicente. Lá foi clubes nipônicos, como o Atlanta e oProgressista). Aos 39 anos, Tarô assumia eleito vereador em 1969, e assim, se tornou Estrela de Ouro. Porém, nunca se consi-o mandato de vereador de Santos, posição o primeiro nissei na Câmara da cidade. Na derou candidato da colônia.que ocuparia pelos próximos 29 anos. faculdade, Koyu se mostrava interessado por “Eu tentava fazer o melhor para todos. Ali iniciava de fato sua carreira isso. Participava do movimento acadêmico Não apenas para a colônia. Mas semprepolítica. Em sua terceira eleição, em 1972, foi da Faculdade de Direito de Santos e por lá soube que a minha responsabilidade erao segundo vereador mais votado da Cidade. lançou sua candidatura. Conquistou o cargo maior quando você representa algo. Se euSó perdendo para o primeiro, José Gonçalves, na primeira eleição da qual participou e zesse algo errado, isso traria consequên- 13
  • 13. cias ruins para todos os japoneses. Eu não “Nós sempre nos respeitamos muito. Éra- sa e Associação Japonesa de Santos passoulidava apenas com a minha imagem”. mos de partidos opostos, só que tínhamos a se fortalecer novamente. Ao longo de sua participação na os mesmos ideais”, conta o ex-deputado. Em 2008, se envolveu de perto compolítica, Koyu Iha integrou quase 30 Por todos seus trabalhos prestados, as comemorações do centenário e acreditacomissões e criou 68 projetos de lei, além Koyu Iha recebeu diversas condecorações, que esse também foi um dos motivos dede ter muitos deles aprovados, como o entre elas: Cidadão Emérito da Cidade ter sido eleito. “Não posso a rmar que fuitransporte público gratuito para idosos. de Naha, Câmara Municipal, Japão, 1979; eleito por descendentes, mas acredito queLutou pela diminuição do impacto Comenda Tesouro Sagrado do Governo a maioria dos meus votos tenha vindoambiental e fez projetos em prol dos Japonês, Segundo Grau, 1996; e o mais desse segmento, cerca de 50% a 60%, queportadores do vírus HIV na década de 80. recente, em 2008, de Cidadão Vicentino. acompanhavam de perto meu trabalho”. Quando prefeito em São Vicente, Sadao nakai Sadao acredita que a cultura deve ser rmou convênio com a cidade de Naha, Depois da saída de Uehara, em preservada, já que faz parte da estrutura-no Japão, tornando-as cidades irmãs. O 1992, não havia representação da colônia ção do país. “Sempre estive envolvido cominteresse por Naha, segundo Koyu, foi por japonesa em Santos. Foi então, que em a colônia, desde pequeno por in uênciacausa de seus pais. “Eles nasceram e se 2008, Sadao Nakai se candidatou. Neto de dos meus pais e acho importante repassarcriaram lá. A cidade não é muito grande, japoneses, sempre participou ativamente isso, sei que os tempos são outros, mas ca na província de Okinawa, foi uma ho- da colônia. Natural de Santos, viveu na precisamos nos adaptar”.menagem que trouxe benefícios locais”. Ponta da Praia com seus pais toda a vida. Sadao Nakai trabalhou como Seus pais tiveram 11 lhos, e 4 Estreante na vida pública, Sadao ingressou encarregado de pesca durante seis anosdeles entraram na política. Koyu, Koken, no PSDB em junho de 2007. E se elegeu no até ingressar, no início da década de 90,Kohen e Kosey representaram a colônia ano seguinte, como vereador mais votado no Clube Estrela de Ouro, onde come-aqui na região. Koyu Iha é casado com do partido, com mais de quatro mil votos. çou como auxiliar administrativo. Emdona Yoshico, professora aposentada, Além de ocupar o cargo de vereador, é 1997, aos 35 anos, assumiu a gerência domas não tiveram lhos. presidente do Estrela de Ouro Futebol Clube clube. E, desde 2001, é presidente. Sadao Uma das características que mais desde 2001 e vice-presidente da Associação também é professor de artes marciais.diferencia Koyu dos demais políticos é sem- Japonesa de Santos. Apesar de ser seu primei- Pratica Judô desde pequeno e já ganhoupre respeitar as tradições. Quando foi se ro cargo público, Sadao tem experiência no diversos campeonatos. E há alguns anos,candidatar a deputado, seus pais mandaram ramo da política. Desde 2005, lutava a frente se tornou também faixa preta de Jiu jitsu.que fosse pedir permissão à mãe de Uehara. da Associação para recuperar a antiga sede, Sadao é casado e tem dois lhos. “HojeComo era a pessoa mais idosa da colônia e localizada na Rua Paraná, em Santos. sei que tenho uma responsabilidade maior.seu lho já era candidato, por educação e Em 2007, pouco antes do centenário Não sou apenas pai de família, e represen-respeito a eles, Koyu foi até a casa e pediu da imigração japonesa veio a resposta tante do povo. Represento uma comuni-permissão para concorrer contra Uehara. positiva. Lula autorizou a devolução da ca- dade, sempre com respeito e dignidade”. Matsutaro Uehara Koyu iha Sadao nakai nissei nissei fartido: SANsei MDB/PMDB/PSDB fartido: ocupação: fartido: Arena Bacharel em Direito PSDB mandatos: ocupação: Vereador, São Vicente (MDB) de ocupação: Contador 1969 a 1975 (2 mandatos); Deputado Administrador Estadual, SP (MDB) de 1975 a 1977; mandatos: Prefeito, São Vicente (MDB) de 1977 a mandatos: Vereador da Câmara Municipal de 1981; Deputado Estadual, SP (PMDB) Vereador da Câmara Municipal de Santos de 1964 a 1992 (6 mandatos); de 1983 a 1987; Deputado Federal Santos de 2008 até a presente data. Vice-presidente da Câmara Municipal (Constituinte), SP (PMDB) de 1987 a de Santos de 1991 a 1992. 1991; Deputado Federal, SP (PSDB) de 1991 a 1999 (2 mandatos).14
  • 14. o caminho do guerreiroNÃO SÃO APENAS LUTAS, O BU-SHI-DO, MAIS CONHECIDO COMOARTES MARCIAIS, É UM CAMINHO EDUCACIONAL E FILOSÓFICO uando se fala do Oriente, mais precisamente o Japão, vários indiano que era especialista em Kalaripayattu. No oriente, existemQ temas vem a cabeça como tecnologia e gastronomia, masquase como unanimidade, a disciplina e as artes marciais são outros termos mais adequados para a de nição destas artes, como wu shu, na China e Bu-Shi-Do, no Japão, que também signi cam artes deas primeiras lembranças desse povo tão guerra ou “Caminho do Guerreiro”.organizado e sábio. Nas modalidades de cunho mais es- Não há como de nir onde e como portivo, (esporte de combate) o objetivosurgiram as artes marciais. O termo “arte principal são as competições.marcial” remete ao povo Greco-romano. Por outro lado, as modalidades que têmO deus da guerra Ares/Marte seria quem uma origem mais marcial têm como objetivoensinou aos homens como guerrear. Hoje, a defesa pessoal em uma situação de riscoo termo se refere a todos os sistemas de sem regras, muitas vezes com enfoque nacombates de origem orientais e ocidentais, formação do caráter do ser humano.com ou sem uso de armas. No Japão, estas artes são chamadas A origem das artes orientais é de Bu-Dô ou “Um caminho educacionalmilenar e, apesar de mais conhecido, não por meio das lutas” e ai começa a grandefoi invenção japonesa. diferença na hora de encarar o que parece Nos campos de batalhas da Índia, ser a mesma coisa. Hoje em dia, as artessurgiu o Kalaripayattu, algo como “pra- marciais são praticadas em todo o mundo. Eticando as artes do campo de batalha” na região, a situação não é diferente.no dialeto Malayalam, falado no estado Praticamente, todos os tipos de lu-indiano de Kerala. tas nipônicas podem ser praticados nas Esta arte ancestral é a mãe de todas as academias da Baixada Santista. Das famosasartes marciais – até mesmo a chinesa Shaolin chuan, do famoso tem- como Judô, Karate e Jiu-Jitsu, até as menos conhecidas comoplo Shaolin, tem sua origem no BodhiDharma, um monge budista Aikido, Kendô e Kobudô. Todas têm espaço garantido por aqui.A arte das mãos vazias já que havia um grande preconceito por daí o nome, arte das mãos vazias (tradução “O oponente mais poderoso está conta de sua origem chinesa. literal de karatê).dentro de nós mesmos”. Talvez a frase de Muitos alunos dos primeiros sen- A academia foi um sucesso e foramHidetaka Nishiyama, um dos fundadores seis zeram modi cações técnicas na montadas diversas liais. Ao todo, mais deda Japan Karate Association (JKA), seja modalidade na tentativa de torná-la mais 12 mil atletas já treinaram lá. Atualmente,a que melhor de ne o espírito desta arte aceitável e, por isso, existem mais de 15 conta com 250 alunos em Santos.marcial que virou esporte. estilos diferentes hoje em dia. No Brasil, está presente em 18 esta- Não há uma data especi ca para o Porém, a aceitação do karatê na terra dos. E também em mais de 15 países dosurgimento do Karatê. O que se sabe é que do sol nascente só ocorreu de fato após uma mundo. Pois o mestre difundiu a técnicaseu início foi em Okinawa e que o primeiro visita do imperador Hiroíto a Okinawa, em diversos lugares. Após a morte do pai,mestre a organizá-la dentro de um conjunto durante a qual foi feita uma demonstração Masahiro Shinzato, o lho mais velho,formal de técnicas foi o sensei Matsu Higa, das técnicas de karatê e kobudo. assumiu os negócios e diz que aindaalém de ser considerada como uma das Após essa apresentação, a modalidade mantém um alto nível de atletas.artes marciais mais antigas do mundo. foi inserida como disciplina física/es- “A procura é grande porque as Inicialmente, seguia um rígido sistema portiva no sistema público de ensino e pessoas quando vem aqui sabem que vãode ensino pautado na relação mestre/aluno, se difundiu pelo mundo com ar mais encontrar um treinamento excelente parao que só mudou graças à anexação de esportivo do que de luta. o corpo e a mente”.Okinawa ao território japonês. Baixada Santista - O karatê chegou O treino, que era baseado em katas aqui por meio do mestre Yoshide Shinzato.complexos repetidos até a exaustão, tomou Ele imigrou para o Brasil, em 1954, aban- o caminho das antigasares mais esportivos, por volta de 1870, donando o trabalho como funcionário artes marciaiscom o sensei Anko Itosu e começou a ser público que conseguiu após servir como O kobudo, em tradução literal,difundido entre a população do Japão. rádio-telegra sta durante a 2ª Guerra. caminho das antigas artes marciais, tem Ao sensei Itosu, se atribui a autoria do Quando o mestre Shinzato chegou origem nos campos. Não nos de batalha,nome Karate-do. Itosu deu mais ênfase ao no porto de Santos, sabia que sua missão mas nos de agricultura.ensino de técnicas de postura, exibilidade era difundir a arte. O kobudo é um conjunto de antigase respiração dentro das lições do karatê. E em 1962, fundou a Associação artes marciais, que agrega o uso de dife- Apesar de ter se tornado um esporte Okinawa Shorin-ryu Karate-Do do Brasil. rentes armas e técnicas. Foi desenvolvidoo cial em 1902, o karatê só passou a ser A primeira academia do país a ensinar a em Okinawa, no sul do Japão, E recebeuconhecido em todo o Japão 20 anos depois, técnica de combate que não utiliza armas, in uências da China e Índia. 15
  • 15. A história do Kobudo está intima- montou sua academia de karatê, passou a bastão que possui um tamanho de 1,8 m mente ligada à história de Okinawa. A ministrar aulas de kobudo. de comprimento. Deriva da ferramenta província é o berço do karate dô e do kobu- A arte não se popularizou tanto quanto agrícola tenbin, usada para carregar baldes do como são conhecidos hoje. Até o século o karatê. Um dos motivos é que o karatê presos em cada ponta. É feito de madeira. XIX, Okinawa não fazia parte o cialmente adquiriu um cunho mais esportivo. Após Eku - é o remo que era utilizado em do território japonês. a morte do mestre, Masahiro Shinzato, Okinawa. Passou a ser usado como Ao longo dos séculos, o local sofreu di- seu lho mais velho, assumiu os negócios arma de defesa. versas proibições e sanções de vários gover- e continua ministrando aulas de kobudo, Kama - tem nítida origem agrícola. É nos. Com isso, os ensinamentos dessas artes aos sábados, na Avenida Senador Feijó, em uma foice com cabo comprido utilizada marciais eram passados clandestinamente Santos. São cerca de 50 alunos que partici- na ceifa de grãos e cereais. É utilizada aos entre seus praticantes. Ficando fora do al- pam de competições e também seguem a pares ou sozinha. cance público. Da mesma forma, há poucos loso a. São algumas das armas tradicionais: documentos que registram a história de sua Sai - é uma adaga de três pontas, parecido com um pequeno tridente. Era utilizada a arte suave A difusão do Mixed Martial Arts para fazer sulcos nas terras. É também, (MMA) no Ultimate Fighting Championship entre as armas de kobudo, a mais difícil (UFC), no Brasil e no mundo, é um dos de se manusear. O sai deve ter no máxi- motivos da procura por esta arte ter mo o tamanho do antebraço de quem crescido nos dias de hoje. A “arte suave” - o empunha, nunca ultrapassando esse tradução literal de jiu (suave) e jitsu (arte) - tamanho para não se perfurar. é uma das mais antigas do mundo. E, apesar Nunchaku - proveniente de um fer- de ter se desenvolvido e se difundido no ramenta que servia para o preparo de Japão, sua origem é indiana. Nos templos cereais. É a arma que mais se popularizou budistas, os monges desenvolveram no ocidente por causa dos lmes de ação. É uma técnica baseada nos princípios do formada por duas barras de madeira unidas equilíbrio, do sistema de articulação do por uma corda ou corrente. corpo e de alavancas. Evitando assim o uso karatê Tonfa – Era uma ferramenta usada para da força e de armas. Nascia o Jiu-Jitsu. tradução: Arte das mãos vazias separar arroz da casca. É feita com um cabo Porém, só quando a arte chegou ao Traje: Kimono branco de pedra que se encaixa em uma pedra Japão, em meados do século XVII é que Armas: Não há redonda móvel. Lembra um cacetete e é ganhou força. A arte tinha sido esquecida Data de criação: Século XVI utilizada aos pares. durante algum tempo, pois adquiriu uma Local origem: Okinawa Bo - o Bo ou kun é basicamente um má reputação por ter sido adotada por Graduação (shorin ryu): muitos malfeitores. No nal do século Faixa Branca XIX, ela ganhou nova cara. O japonês Faixa Vermelha (para os alunos meno- Jiguro Kano adaptou as técnicas do jiu- res de 12 anos) jítsu para formar uma das mais populares Faixa Amarela artes marciais do mundo: o judô. Nesse Faixa Laranja mesmo período, alguns mestres de jiu-jítsu Faixa Azul migraram do Japão para outros continentes, Faixa Verde vivendo do ensino da arte marcial e das Faixa Roxa lutas que realizavam. E Esai Maeda Koma, Faixa Marrom o Conde Koma, foi um deles. 1° ao 6° Dan – Faixa Preta Conde Koma chegou ao Brasil 7° e 8° Dan – Faixa Coral (vermelha e no começo do século XX, no Pará. Lá, branca) conheceu Gastão Gracie. Gastão tornou-se 9° e 10° Dan – Faixa Vermelha kobudo um entusiasta do jiu-jítsu e levou seu lho tradução: Caminho das antigas ar- mais velho, Carlos Gracie, para aprender criação e desenvolvimento. tes marciais a luta. Carlos era um menino franzino Uma das sanções mais marcantes, Traje: Kimono branco de apenas 15 anos na época. E apesar da decisiva para a criação da arte, foi a Armas: Sai, nunchaku, tonfa, bo, eku, aparência física esguia, começou a ganhar proibição de portar espadas. Por isso, os kama notoriedade no mundo da luta. agricultores passaram a usar suas próprias Data de criação: Século XVI A família, então, se mudou para o ferramentas de trabalhos como armas de Local origem: Okinawa Rio de Janeiro, e lá fundaram a primeira defesa pessoal. Graduação (Feita por Maki- academia de jiu-jítsu do Brasil: a Gracie Foi somente no início do século monos - pergaminhos): Academia de Jiu-Jitsu. Além de difundir a XX que mestres como Shinko Matayoshi Shoden (quem domina o Tachi Seiho arte, a família Gracie também aprimorou a e Shinken Taira deram início a um ou katas com a espada longa) luta com as nalizações. trabalho de pesquisa sistemática, visando Chuden (quem domina o Kodachi Os preconceitos com essa luta foram à continuidade da prática do Kobudo, Seiho com a espada curta) rompidos. A partir daí, o jiu-jitsu tomava disponível a toda a sociedade. Okuden (quem domina o Nito Seiho nova forma e ganhava notoriedade ja-mais O mestre Shinzato, responsável pela com duas espadas) vista. Nascia o Jiu-Jitsu Brasileiro, sendo divulgação do Karatê na Baixada Santista e Menkyo (quem domina os katas de exportado para diversos países. em mais de 15 países, foi quem trouxe a arte Bojutsu) Basicamente, no Jiu-Jitsu, usa-se para o Brasil. No Japão, aprendeu o kobudo Menkyo Kaiden (Nível mais alto, dado a força (própria e, quando possível, do com o mestre Katsuya Miyahira. E, quando aos mestres) adversário) em alavancas. Isso possibilita16
  • 16. que um lutador, mesmo sendo menor que consideradas perigosas. Kano eliminou oso oponente, consiga vencer. No chão, com movimentos mais rudes e enfatizou quedas,as técnicas de estrangulamento e pressão mobilização e postura rígida.sobre as articulações, é possível submeter Judô signi ca, literalmente, caminhoo adversário fazendo-o desistir da luta suave, e preza pela disciplina acima de tudo.(competitivamente), ou (em luta real) Por isso, a arte cou popular em poucofazendo-o desmaiar ou quebrando-lhe tempo no Japão e, na década de 20, tornou-uma articulação. se disciplina de ensino obrigatório dasBaixada Santista - o Jiu-Jitsu chegou escolas. Em 1889, Kano levou o Judô paraaqui há quase 15 anos. Anderson Xavier a Europa, e depois da Segunda Guerra, oSarruço, da Academia Allianz, foi o pioneiro. Judô estava popular em todo o mundo. NoSarruço ensinou vários professores que nal do século XIX, o Judô foi consideradopraticam a modalidade hoje em dia. o esporte o cial do Japão. judô Entre eles, o campeão mundial Rodrigo As técnicas se baseiam no uso da força tradução: Caminho SuaveCavaca. Cavaca começou na Academia e do equilíbrio do oponente contra ele pró- Traje: Kimono branco ou azulAllianz, mas hoje é atleta da Chekmatt. prio, além de ter o objetivo de fortalecer o Armas: Não há Só a Academia Chekmatt tem mais físico, a mente e o espírito de forma integrada. Data de criação: 1882de 200 alunos aqui. E a procura é cada vez As pessoas aprendem judô como exercício, Local origem: Japãomaior, inclusive por mulheres. relaxamento e auto-proteção. Graduação: “Hoje a procura é grande por causa do Com milhares de judocas e federações Faixa BrancaUFC. Todos querem praticar o esporte que espalhados pelo mundo, se tornou um dos Faixa Cinza (para menores de 18 anos)deu origem ao MMA”. esportes mais praticados. Sem restrição de Faixa Azul-Clara (para menores de 18 sexo ou idade. anos) Em 1964, o judô se tornava mais Faixa Amarelao Caminho suave popular, virou esporte olímpico, o que au- Faixa Laranja Com um pouco mais de cem anos mentou ainda mais o número de adeptos. Faixa Verdede criação, o Judô passou de arte marcial Apesar do caráter esportivo, o Faixa Roxajaponesa de combate para esporte olímpico judô mantem muitas tradições, como as Faixa Marrompraticado no mundo inteiro. saudações e seus fundamentos básicos. Ao 1 a 5° Dan – Faixa Preta Desenvolvido em 1882, pelo japonês entrar no dojô (local de treino) e quando 6° a 8 Dan – Faixa Coral (vermelha eJiguro Kano, o judô era a adaptação do sair, o atleta deve cumprimentar o professor branca)milenar Jiu-Jitsu, aliado à disciplina mental ou seu ajudante. E ao iniciar um treino com 9° e 10° Dan – Faixa Vermelhae educativa. O antigo jiu-jitsu era uma arte um companheiro, assim como ao terminá-lo.praticada por samurais e incluíam técnicas Os fundamentos do Judô também são não era favorito, e ninguém esperava que prezados, como a postura, movimentação, o judoca trouxesse o tão esperado ouro deslocamento de corpo, pegadas, amor- olímpico. Mas com disciplina e sempre tecimento de quedas e os rolamentos, que são sonhando, conseguiu atingir seu objetivo. fundamentais para a segurança do praticante. Outro exemplo mais recente é o No Brasil, o judô chegou com os judoca Leandro Marques Guilheiro. Ele primeiros imigrantes japoneses, no nasceu em Suzano, mas foi radicado em Kasato Maru, em 1908. Mas só passou a Santos, onde vive até hoje. Treinado por ser organizado e largamente difundido a Sampaio, conquistou duas medalhas de partir de agosto de 1933, com a fundação bronze nos Jogos Olímpicos, uma em da Hakkoku Jûkendô Renmei, a Federação Atenas, 2004 e outra em Pequim, em 2008. de Judô e Kendô do Brasil. E, em 1969, era Em 2010, Guilheiro ganhou a prata no fundada a Confederação Brasileira de Judô, Mundial de Tóquio. jiu-jitsu sendo reconhecida por decreto em 1972. tradução: Arte Suave Hoje em dia, o judô é ensinado Traje: Kimono branco, preto ou azul em academias, clubes e até escolas. E é o caminho da Armas: Não há reconhecido como um esporte saudável espada que educa Data da difusão: Século XVII que não está relacionado à violência. O kendo é uma arte marcial surgida Local origem: Templos budistas na Baixada Santista – a região sempre no século XVI e ao pé da letra, signi ca o Índia/ Difusão no Japão teve forte envolvimento com vários tipos de caminho da espada que educa. Sua história Graduação: esporte. E com o judô isso não é diferente. no Brasil, assim como a maioria das artes Faixa Branca (qualquer idade) Santos abriga uma das maiores academias marciais, teve início com a chegada dos Faixa Cinza (4 a 6 anos) do país, fundada pelo ex-atleta e campeão imigrantes japoneses em 1908. Por volta Faixa Amarela (7 a 15 anos) olímpico, Rogério Sampaio. de 1933, na comemoração dos 25 anos Faixa Laranja (10 a 15 anos) Rogério começou a treinar com apenas do início da imigração, alguns praticantes Faixa Verde (13 a 15 anos) quatro anos, in uenciado pelo irmão mais de judô e kendo fundaram a primeira Faixa Azul (a partir de 16 anos) velho. Com o tempo, foi se aprofundando associação brasileira de judô e kendo, a Faixa Roxa (a partir de 16 anos) e adotando aquilo como estilo de vida. “O “Hakoku Ju-Ken Do Ren-Mei”. Faixa Marrom (a partir de 18 anos) judô me ensinou a ter muita disciplina, A modalidade foi desenvolvida a partir Faixa Preta (A partir de 19 anos) perseverança e nunca desistir dos sonhos”, do Kenjutsu, que é composto por técnicas Faixa Coral (Vermelho e preto - Mestre) explica Rogério. Em 1992, o santista foi para tradicionais de combate com espadas dos Vermelha (Grande Mestre) Barcelona disputar as Olimpíadas. Rogério samurais da época do Japão feudal. Os luta- 17
  • 17. dores de Kendô podem ser chamados de O sensei a rma que o propósito de A arte começou a car famosa naskendoka ou kenshi. se praticar o kendo é para moldar a mente mãos do ator Steven Seagal. Seagal é mestre A faixa, no Kendo, diferentemente das e o corpo, cultivar um espírito vigoroso em diversas artes marciais e, atualmente, 7ºoutras artes marciais, é mais larga. Ela serve e obter respeito à cortesia e à honra. Dan de aikidô. Na década de 80, seus lmespara guardar a espada na hora da luta. “Não são apenas golpes, quando alcança de ação se popularizaram e as academias de Os alunos e praticantes em geral um patamar espiritual, você encontra o aikidô começaram a encher.utilizam a vestimenta preta. Apenas os caminho e aprende uma loso a”. O início do aikidô no Brasil foi nasenseis e as mulheres podem utilizar a Roberto Vinícius Ferreira treina há 9 década de 60, introduzido no país porcor branca. O sensei é por ter chegado ao anos e conta que seu lugar é praticando o Shihan Reishin Kawai, sob orientação do jápatamar máximo de graduação. A mulher é kendo. “Não me vejo longe disso. Aprendi falecido mestre Arimoto Murashige que, napor já nascer pronta para dar a vida. a focar nos meus objetivos, a ter mais época, era o representante no Ocidente. Em Santos, o Kendô é praticado pelo disciplina e quei mais centrado”. O termo aikidô, quando separado, Aigrupo Shintô Ryu Tsukimoto-ha-Tan Ren Os integrantes do grupo podem representa harmonia; Ki; energia vital eSui Nen Kan - Honbu Dojô. Esse estilo, o acompanhar de perto a confecção das Do; caminho. Em tradução livre, o nomeShintô Ryu, existe, no Japão, há mais de armas utlizadas nas aulas. Eles contam signi ca “caminho da harmonização das1.500 anos. No Brasil, está há 100. com a experiência e habilidade de Renato energias”. Este é um esporte que consiste O responsável por trazer o Kendo Figueiredo, que também é praticante. em um exercício espiritual aliado a técni-para a Baixada Santista foi o sensei Ele lixa, corta e enverga cada objeto cas de derrubar e agarrar com o intuito deAdriano Pereira Silva que, atualmente, é o no galpão da Associação. Dentre as ar- se proteger de ataques.responsável pelas aulas do grupo. mas feitas por ele estão o arco e a echa, A modalidade tem a característica Ele é o mestre, no Brasil, da 4ª geração e o bokuto, que é a espada de madeira, e o bem particular de não possuir técnicaspratica o kendo há 35 anos. Adriano explica boken, que é um pedaço de madeira. ofensivas. Não serve para competições, jáque esse estilo, atualmente, no Brasil é mais A prática do kendo não se limita que não há lutadores e nem o objetivo deoriginal do que no próprio Japão. apenas ao uso de armas. Os objetivos de sua vencer o oponente. Eles treinam três vezes por semana prática são, principalmente, não golpear A arte baseia-se, principalmente, emna Associação Japonesa. O grupo tem em pontos incorretos, assim não se desperdiça movimentos uidos e circulares. Alémtorno de 30 alunos e conta com homens e nenhum golpe, além de golpear atacando e das técnicas de mãos vazias, os treinosmulheres com idades variadas. quebrando a postura do adversário. podem incluir armas: boken ou bokutô Eles não levam a arte marcial pelo (espada de madeira), jô (bastão curto)cunho esportivo, tanto que não fazem o caminho da harmoni- e tantô (faca de madeira). Na sua teoriaparte de nenhuma federação e nem espiritual, parte fundamental da técnica,participam de nenhuma competição. zação das energias o aikidô busca harmonia dos seres com O aikidô, dentre todas as artes uma energia universal. marciais, é a mais recente. Em Santos, isso também não é diferente. Hoje, existem diversos grupos que oferecem a prática da modalidade. Entre eles, o Shugyô Dojo e o Tenshin Dojo. O responsável por trazer o aikidô para a baixada santista é o sensei Nelson Wagner dos Santos. Nelson é amigo do sensei Adriano Pereira Silva. Adriano e Nelson trouxeram juntos o kendô e o aikidô, respectivamente. Cada um cou responsável por cada arte marcial e por sua propagação. No caso do KENDO aikidô, o sensei Nelson, atualmente, divide AIKIDO tradução: Caminho da espada que as aulas com Carlos. tradução: Caminho da harmoni- educa Carlos treina há 15 anos e explica que o zaçã das energias Traje: Kimono/Dogi, Obi (faixa) e objetivo de ensinar o akidô é principalmen- Traje: Kimono branco, Obi (faixa) e Hakama branco ou preto te, ajudar, apoiar e compartilhar. Hakama. Para os mestres, doji na parte Armas: Bokuto, Boken, arco e echa, “A ideia que nós temos é fazer com que de cima. espada de aço mestres e praticantes desenvolvam a arte Armas: Bokutô, Boken, jô e tantô Data de criação: Século XVI da forma correta, a qual foi proposta pelo Data de criação: 1883 Local origem: Japão fundador. Permitindo assim, um vínculo Local origem: Wakayama, Japão Graduação: maior com a família Ueshiba”. Graduação: Ikkyu (14 anos no mínimo) Morihei Ueshiba foi o criador dessa Faixa Cinza 1º dan (seis meses depois) modalidade e, para muitos, ele é conhecido Faixa Azul clara 2º dan (um ano depois do 1º) como Osensei, que signi ca grande mestre. Faixa Azul escura 3º dan (dois anos depois e maior de 18) O aikidô surgiu em 1883 na cidade de Faixa Amarela 4º dan (três anos depois do 3º) Wakayama, no Japão. Faixa Laranja 5º dan (quatro anos depois do 4º) Essa arte marcial foi criada a partir Faixa Verde 6º dan (cinco anos depois do 5º) da experiência de Ueshiba e da mistura de Faixa Roxa 7º dan (seis anos depois do 6º) dezenas de outras modalidades, dentre elas Faixa Marrom 8º dan (10 anos depois e com mais de o kenjutsu (técnica da espada) e o jojutsu Faixa Preta 45 anos) (técnica do bastão curto).18
  • 18. Fotos: Márcio Pinheiro A terra do Sol caiçaraPORTAL da praça Kotoku Iha, no início da rua JapãoL ocalizada no Parque Bitaru, em São Vicente, a cerca de 2 Km do Centro, caa Rua Japão. Como diz o nome, a rua foi famosa por seu portal e pedra da sorte. Mas nem tudo são flores. Não há mais tantos japoneses. Perto da de 70. O senhor Yukito Youmoto, dono de uma das marinas, diz que não aprovou a mudança. “Eles zeram isso sem nosum recanto de japoneses e pescadores anos da peixaria do seu Gilberto Martins de consultar”, reclama.atrás. Hoje, apenas algumas casas e famílias Almeida, no começo da rua, moram dona O local se desenvolveu por causanipônicas se encontram por lá. Neusa e dona Lia Domako, ambas Nisseis. das atividades da família. E agora abriga, O Shurei-mon (portal da cortesia), logo “São poucos japoneses que tem aqui, mui- além das seis marinas, um restaurante eno início da rua, tos já morreram”, duas peixarias.chama a atenção conta Dona Lia, Yukito lembra que, há 40 anos, nãode qualquer mo- hoje com 80 anos. havia nada, nem mesmo uma rua. “Nãorador ou visitante Filha de ja- tinha calçada, luz e nem água”. Tudoque passe por ali.É poneses, morava foi feito pelos moradores. “O pior é queuma réplica do em São Roque, muita coisa continua igual. Já pedi para osportal erguido do no interior do políticos da região fazerem alguma coisa,lado de fora do Estado e veio mas eles dizem que o número de eleitorescastelo de Shuzi viver ali depois daqui é pequeno e que não ganhariamem 1550, no Japão. que se casou em votos com os turistas que seriam atraídos O grande 1960. O local foi com as melhorias no local”.arco vermelho escolhido porfoi inaugura- conta da pro-do em agosto de 1998, junto com a ssão do marido. “Ele era pescador, então, CuriosidadesPraça Kotoku Iha. O nome da praça é era o lugar ideal para viver”. Hoje, moraem homenagem ao pai do ex-prefeito com uma de suas lhas e uma neta, bem Cidade-irmã - São Vicentevicentino Koyu Iha. em frente à praça. é a segunda cidade da Baixada A construção foi feita em celebração Mais à frente, depois do maior res- Santista que possui uma cidade-aos 30 anos do convênio de Cidades- taurante local, vivem outros japoneses. irmã japonesa. O convênio comIrmãs, assinado entre São Vicente e a Cinco das seis marinas da rua pertencem a cidade de Naha foi rmadocidade japonesa Naha, na Província de à família Yumoto, que ocupa o local desde em 1978, pelo ex-prefeito KoyuOkinawa. O convênio foi rmado em que o patriarca da família chegou a bor-1978, também por Koyu. do do Kasatu Maru. Na época, o local era Iha, cuja a descendência é de A área, antes ocupada por uma chamado de “Guamiú”. lá. Até hoje há intercâmbiogrande quantidade de pescadores de O nome Rua Japão veio mais tarde, cultural das cidades.origem ou descendência japonesa, é no governo de Koyu Iha, no nal da déca- 19
  • 19. pelos olhos puxadosFORAM INÚMEROS MOTIVOS QUE FIZERAM COM QUE VÁRIOSJAPONESES E DESCENDENTES SE DESTACASSEM DOS DEMAIS NACOLÔNIA LOCAL D esde o início de sua carreira, o objetivo era um só: trabalhar em prol daqueles que necessitavam de maioria das mortes infantis são causadas pela falta de amamentação”. Com o objetivo de levar essa iniciativa no interior de São Paulo. Até os 18 anos, Keiko foi criada por sua avó. Formou-se em 1966, na Uni- olhares clínicos e expandir a importância para todo o Brasil, Keiko iniciou sua luta. versidade Federal do Paraná e veio do aleitamento materno. Viajou o país de Norte a Sul e também para para Santos em 1968, logo após seu Durante todo o tempo, sua vida os Estados Unidos, México, Tailândia e casamento. Seu marido, também foi envolvida pelo aconselhamento em África dando palestras e cursos. formado em medicina, e descendente amamentação e sua prática. Ela é Keiko Ela ministrou essas palestras em de japoneses, conseguiu, na época, Miyasaki Teruya, médica pediatra. Manaus, na região Norte e em todo o sul um estágio no Hospital Santa Casa de Atualmente, com 70 anos, Keiko do Brasil, em faculdades de medicina. Misericórdia de Santos. o cialmente está aposentada. Faz parte “Não z nada disso sozinha. Sem-pre A partir disso, começou a da Associação Brasileira de Pediatria, contei com uma equipe maravilhosa e o estabilizar sua vida na cidade. É mãe de atende seus pacientes em seu consul- apoio da minha família que quatro lhos e avó de dois meninos tório e ministra palestras em diversos e uma menina. lugares do país. Ela nunca foi para o Japão, Anteriormente, trabalhou mas garante que a criação dos por muitos anos na área hos- filhos foi baseada em alguns pitalar, na Prefeitura Muni- costumes japoneses. cipal de Santos e na Secretaria “Eu procurei passar pra eles de Saúde do Governo do Estado o que foi passado pra mim, mas, de São Paulo. Também lecionou inevitavelmente, a cultura vai por 33 anos na Universidade Me- se distanciando. Perdemos no tropolitana de Santos (Unimes). tempo o aprendizado da língua Foi no período em que tra- japonesa. Embora eu fale, meus balhou como enfermeira, que filhos já não falam. Mas eu Keiko percebeu o maior motivo e meu marido passamos os pela mortalidade infantil: a falta de valores e as tradições”. amamentação. Apesar de não viverem Então juntamente com uma à risca a cultura, em sua casa equipe, Keiko deu início ao traba- não entram de sapato nos lho de acompanhamento materno. quartos. Ela explica que os Concorreu a uma bolsa de estudo na problemas de fora devem ser Califórnia, nos Estados Unidos, no resolvidos na rua e os de dentro, valor de US$ 50 mil. resolvidos em casa. Lá, ela e um grupo de quatro incentivou o trabalho”. Sua família também tem o costume pessoas caram por um mês para Na comemoração dos 100 anos de fazer festa quando os homens uma especialização na área. Quando da Imigração Japonesa, Keiko foi uma completam 42 anos. retornaram ao Brasil, resolveram criar das personalidades escolhidas para ser De acordo com as superstições ja- em Santos o Centro de Aleitamento, que homenageada. Ela, o pescador Tetsuno ponesas, o homem deve comemorar seu hoje funciona no Hospital Guilherme Okida e o ex-vereador Matsutaro Uehara aniversário de 42 anos para espantar Álvaro. Com o início do banco de foram escolhidos porque tiveram uma qualquer uído negativo que o esteja leite e sua e cácia, o trabalho pioneiro participação bastante e caz para o rondando. Em japonês, 42 pronunciado começou a ser reconhecido e divulgado crescimento da cidade. separadamente, signi ca morte. no Brasil e no mundo. “Fiquei muito emocionada com o Ela naliza dizendo que não fez Keiko conta que a amamentação em prêmio. Tenho certeza que se meus pais nada pensando em sucesso no futuro, sua vida foi um presente de Deus. “Du- estivessem vivos, eles estariam muito que fez pensando no presente e no que rante minha vida inteira trabalhei com orgulhosos. Tudo o que sou eu devo a eles. seu trabalho iria proporcionar para as o objetivo de conscientizar a população Isso me fez lembrar meus antepassados”. pessoas. “Tem que fazer as coisas bem fei- da importância do aleitamento, já que a Keiko nasceu na cidade de Pompéia, to. O reconhecimento é consequência”.20
  • 20. Fazendo cabeçaFazendo a cabeça dos santistas e a santistas a Divulg ação ualquer santista que ouça oQ sobrenome Arikawa pensa emcabelo. Dos oito irmãos, cinco seguiram Mas, como tinham que se manter, todos zeram curso e começaram a trabalhar parano mesmo ramo pro ssional. E jun- se sustentar. Aprenderam atos montaram uma das escolas mais cortar, pentear e logo Roberto,in uentes da Baixada Santista. Clóvis, Fernando, Olga e Milks Filhos de um imigrante japonês com juntaram dinheiro e abriramuma brasileira, os irmãos nasceram em um salão em conjunto naSanta Cruz do Rio Pardo, no interior de Rua Carvalho de Mendonça,São Paulo. Moraram lá até completar 18 próximo ao Canal 2.anos e só depois vieram morar em Santos. O o cio que antes era apenas um A família perdeu o pai cedo. Olga meio para ganhar dinheiro, acabou virandoArikawa, a única dos irmãos que ainda um negócio lucrativo.está viva, tinha apenas seis anos. A mãe Algum tempo depois, com o sucesso Alexandre e Elaine assumiram o local.não tinha condições de criar todos, do negócio, os irmãos decidiram passar o Ocorreu também com a família deentão foram morar em um internato. conhecimento adiante e fundaram uma das Roberto. Nenhum deles se casou comQuando todos estavam completando 18 primeiras escolas de cabeleireiro de Santos, japoneses ou descendentes e apenas Olgaanos ou perto, vieram morar em Santos localizada ao lado do Salão. Lá, formaram manteve contato com a colônia em si. Olgacom Yoshie. Yoshie Arikawa era a irmã diversos cabeleireiros por quase 40 anos. explica que foram criados do jeito bra-mais velha, e apenas por parte de pai. Aos poucos, alguns deles abriram suas sileiro, mas que sempre procurou ir a fes- Yoshie tinha um pequeno salão próprias liais em várias partes da cidade. tas e eventos organizados pela Associaçãono centro de Santos, o Tókio Salão. Clóvis montou o seu no Canal 3, Roberto Japonesa de Santos.Nenhum deles tinha algum curso escolheu a Rua da Paz. Hoje, o Salão dos Arikawas não existetécnico ou perspectiva de emprego. Olga foi a única que se manteve, até al- mais. Olga, agora com 65 anos, não seNem se passava por suas cabeças seguir guns anos atrás, na Rua Carvalho de Men- aposentou. Continua cortando cabelos,a pro ssão de cabeleireiro. donça. Após a morte de Clóvis, os lhos agora no salão de sua única lha, Louise. ção Divulga Da Da guerra ao Karatê o Karatê aportavam em Santos. Fixou residência em O principal objetivo do karatê é Praia Grande e passou a trabalhar na lavoura. atingir o fortalecimento físico e mental Logo depois, tornou-se feirante em Santos. do praticante e a construir uma ética de Nesta mesma época, Shinzato começou conduta moral. Apesar de muito ligado a praticar karatê nos fundos de sua casa, onde ao espírito marcial, Shinzato também ensinava ao lho mais velho e aos lhos de dava importância ao aspecto esportivo alguns membros da colônia okinawana local. da luta. Sempre incentivando a prática Quase dez anos mais tarde, em 1962, do karatê de competição. Shinzato realizava um grande sonho. Para seu lho, Masahiro Shinzato, o Fundava a Academia Santista de Karate- pai sempre foi um líder para a colônia. “Ele Y oshide Shinzato sempre disse que tinha umpropósito em vida: divulgar o karatê Do, no Centro de Santos. Logo depois, na avenida Senador Feijó, fundava a Associação Okinawa Shorin-ryu Karate- tinha um vasto conhecimento e se dedicou a passar isso adiante. Ele foi importante não apenas para difusão do karatê, masno mundo. E fez isso com excelência. Do do Brasil. E em apenas cinco anos, para a colônia em si”. Shinzato sempre seNascido em março de 1927, no Japão, fundou uma organização nacional, a União preocupou em sempre seguir a loso a dona província de Okinawa, aos doze já Shorin-ryu Karate-Do do Brasil, com karatê, como disciplina, responsabilidade,praticava a arte. Discípulo do Grão- centenas de academias e clubes liados. harmonia, humildade e dignidade.Mestre Anko Itosu, aprendeu karatê Seu dojo foi e ainda é freqüentado Shinzato teve oito lhos, dois noainda na escola e após completar por karatecas de todas as faixas e graus, e Japão e mais seis aqui. Os três homensos estudos, Shinzato entrou para a muitos atletas famosos. E não só do Brasil seguiram os passos do pai e praticam aacademia do mestre Choshin Chibana. como também do exterior. Inclusive é arte. Após sua morte, em 2008, a academiaDurante a Segunda Guerra Mundial, considerado a sede da União Shorin-ryu continuou, nas mãos de seu lho maisShinzato serviu no exército japonês Karate-Do do Brasil. Há registros que já velho, Masahiro e ainda ca na Avenidacomo rádio-telegra sta, em Tóquio. Ao passaram pela escola mais de 12 mil atletas. Senador Feijó, sempre em Santos. m da Guerra, retomou os treinamentos No Brasil, está presente em 18 estados com Ele recebeu diversos prêmios e ho-com Chibana, em Okinawa. mais de 150 associações. menagens. Entre elas, o título de Cidadão O Japão pós-guerra passava por inúme- Além de ter praticantes no Uruguai, Ar- Santista, em 1983. Em Okinawa seu tra-ras di culdades. E criar seus dois lhos não gentina e Bolívia, Estados Unidos e Austrália, balho foi reconhecido também e recebeu,estava fácil. Então, aceitou um convite de todos se iniciaram com o Mestre Shinzato. em 1986, o título de 9° Dan Hanshi. Na Con-seu tio para vir trabalhar no Brasil. Em 15 Juntos, em 1991, fundaram a International federação Brasileira de Karatê, Shinzatode janeiro de 1954, Shinzato e sua família Union Shorin-ryu Karate-Do Federation. chegou ao nível mais elevado, o 10°. 2 21
  • 21. uma vida no mar vida Mas em 1942, as coisas se complica- de tudo aqui, tinha muito peixe, muito ram. O Brasil tomava uma posição na caranguejo. Às vezes, era tanto peixe Segunda Guerra, cava ao lado dos que não tínhamos o que fazer com tudo Aliados. O Japão virava inimigo. Seu avô e acabava indo para o lixo”. foi expulso e suas terras foram destruídas. Ele casou em 1966 com a ca- Os lhos nascidos aqui puderam car, tarinense Elin e foram morar mais perto eram, em partes, brasileiros. do centro, no bairro Catiapoã. Juntos Seu Yu comenta a passagem com tiveram quatro lhos, dois homens e muito pesar. “A gente não precisava duas mulheres. Todos são formados comprar nada, tinha tudo na chácara. Mas em faculdade e apenas o mais novo, aí eles vieram e cortaram tudo, soltaram Ricardo, seguiu a pro ssão do pai. todos os porcos, as galinhas, perdemos “Ricardo se formou em con- todas as criações”. tabilidade, mas trabalha na marina Com tudo perdido, seu pai comigo. Ele que vai tocar em frente Y ukito Yumoto, mais conhecido como Seu Yu, tem 72 anos e começou a trabalhar com pesca para quando eu morrer”, explica Yu. Seu uma grande vitalidade. Sua pele sustentar a família. E Yu k i t o Yukito já tem oito netos, dois de cada bronzeada dá sinais da vida que teve passou a viver no mar lho. Apesar de não morarem sempre trabalhando embaixo do sol. E desde pequeno. mais tão perto, a seus olhos rasgados não escondem sua Ele não gostava ape- marina “Cortamar” origem. Seu Yu é vicentino e passou nas de pescar, gostava ainda reú-ne toda a a vida toda ali. Das seis marinas de saber de tudo, de en- família. presentes na Rua Japão, cinco são de tender do peixe e de “É bom criar família sua família. como fazer. Aprendeu o unida, porque todos dão Yukito faz parte da terceira geração ofício apenas olhando o apoio quando preciso”. de japoneses que vivem no Brasil, os pai. “Passei a vida toda Yukito conta que antes sanseis. Seu avô veio de Tóquio, na na água. Tudo que con- tinha muito con-tato com a primeira leva de imigrantes, em 1908, segui foi por causa da colônia. E ajudou a fundar a bordo do Kasato Maru. Não era seu pesca. Gosto do mar, diversos clubes nipônicos, intuito morar na Ilha de São Vicente. uma vez passei quase como o Estrela de Ouro e o Como o restante da família, seu destino um mês boiando”, Nissei Vicentino. “Hoje não eram as lavouras de café no interior do lembra Seu Yu. sou mais tão ligado. Os clubes estado. Por um desvio de rota, acabou Quando a família de seu Yu se se acabaram muito”, lamenta. cando com a mulher e seus dois lhos acomodou ali, não havia nada. “Fi- Nos seus mais de 60 anos de- na rua que, na época, ainda se chamava zemos uma ligação de calçada com o dicados ao mar, Yukito entende que Guamiú, em São Vicente. resto da cidade. O acesso antes só era não sabe de tudo, mas diz que sempre Seu avô transformou o terreno de barco. Também ajudamos a colocar tenta se aperfeiçoar mais. “Eu sempre em uma chácara. Ali, a família Yumoto luz e água encanada”. gostei de entender o que eu fazia. plantava e criava animais. Nasceram mais Yukito ainda lembra que o mar Nunca pesquei só por pescar. Para lhos, um deles, o pai do senhor Yu. antigamente vivia rico de peixe. “Dava mim, sempre foi coisa séria”. seu fukuma não usa elevador u fukum u usa elevador v O senhor Akira Fukuma tem por volta de um metro e meio. Um metro e meio de bom humor que não esquece leve trote de quem acaba de completar uns 20 anos de idade. O brilho infantil dos olhos mente e torna impossível supor levantou e sentou dezenas de vezes durante a entrevista. Fez imitações, reclamações acaloradas sobre aulas por completo as tradições. Fukuma gosta todos os vales que teve que atravessar até “molengas” de ginástica e mostrou de se apresentar formalmente, faz uma hoje. Pelo menos, os vales que nos foram os principais movimentos do tênis de reverência. Estava de camisa e calça descritos numa entrevista feita por meio mesa. Sim, ele joga, mas só quando sociais, mas com meias e chinelos. A de intérprete, pois, mesmo morando há dá sorte de encontrar um adversário. pele é bem marcada pelo sol, os vincos, 55 anos no Brasil, Fukuma não aprendeu a E como não poderia deixar de nas rugas da testa, são alguns tons mais falar português. Pelo que deu pra entender, ser, a presença de estranhos naquela claros que o resto do rosto, efeito da ele adora usar metáforas. tarde, antes tão calma, trouxe algumas época de lavoura. Sentado, num canto Apesar de não ouvir mais tão expectadoras à entrevista. Por algum da biblioteca, parece apenas mais um dos bem quanto antes, o senhorzinho motivo, não completamente absorvido velhos da casa de repouso. adora uma prosa. E assunto é algo pelos presentes que não falavam japo- A impressão se desfaz quando desce que realmente não lhe falta. Fukuma nês, elas riram e cochicharam durante as escadas para ser entrevistado, num também conversa por meio dos gestos, todo o bate-papo. Pareciam rir do Akira.22
  • 22. Eis então a história do seu Fukama, ou Uma das imposições dos “Aliados” era Fukuma chegou no país aos 36pelo menos o que foi traduzido. que o imperador negasse o caráter divino anos de idade. Em pouco tempo, não Akira Fukuma nasceu em Hi- de seu cargo. Ou seja, a rmasse que os estava mais tão apto para o trabalho naroshima, capital da província de laços que uniram sua família aos súditos lavoura. Depois de todas as desilusõesmesmo nome. A cidade fica sobre nunca foram resultado de mitos ou que enfrentou, se meteu com a bebida.o Rio Ota, que forma seis canais, lendas, nenhum deles jamais passou de Após alguns anos, começou a apresentardividindo-a em ilhas. Fukuma nas- humano. Foi a primeira decepção na vida problemas no fígado. E foi assim queceu no período imperial (que durou do ex-o cial. veio parar em Santos.até a rendição do Japão na Segunda Como falava inglês, começou a ajudar Seu Fukuma já não tinha mais famíliaGuerra Mundial, em 1945), em que o pai com as encomendas dos o ciais ou alguém que pudesse se responsabilizara cidade teve uma grande expansão, americanos, que caram até 1950 no país. caso algo acontecesse. Foi transferido aoganhou um porto, uma escola de Segundo Fukuma, “eles não eram tão maus Kosei Home por meio da Bene cênciainglês e indústrias. assim como todos dizem. Davam comidas Nipo-Brasileira. Vive na casa há 5 anos. O pai dele era dono de como presente para Lá se recuperou. E tem uma rotina queuma agência de entrega de não é exatamente a que gostaria, a-encomendas, algo parecido cha que falta o quecom o nosso Sedex. Fukuma fazer. Sempre gos-ajudava, mas vendo todo o tou de esportes, par-crescimento da cidade, ele ticipou até de cam-queria pelo menos um pouco peonatos de esqui, a-mais que entregar caixas o gora só joga gateball,dia todo. Foi quando entrou de vez em quando.para a Marinha japonesa e, Todos os dias,em seguida, para a Força o ritual se repete.Aérea, motivo de orgulho Levanta cedo, ajuda apara a mãe. varrer o pátio, cuida Quando Fukuma com- do cachorro. Arruma-pletava 19 anos (1939), co- se, ajuda a descascarmeçava a Segunda Guerra e picar os legumes doMundial, e o sonho de pi- almoço. Almoça, achalotar um avião se tornava que o horário é cedocada vez mais próximo. Fez demais. Sai para umatreinamento para kami- caminhada, vai do asilokaze, estava disposto a (Rua Campos Sales, Vi-morrer pela pátria. Pátria la Nova) até a praiagovernada pelo impera- (na altura da Avenidador Hirohito que, até Conselheiro Nébias), qua-então, era descendente se 10 quilômetros, ida ede Amaterasu, deusa volta. Reclama se alguémdo sol, responsável por tenta dizer para que nãovelar pelos homens e vá. Volta, ca na biblioteca,enchê-los de benefícios. lendo. Desce, janta e espera Hoje, Fukuma a- a hora de dormir.gradece por só ter Fukuma também sesido chamado para incomoda com a falta dedecolar com seu avião disposição dos internos doem 1945 e por essa Kosei e de esportes. “Todosdecolagem nunca ter são muito preguiçosos, fa-sido feita. zem a ginástica de corpo O chamado che-gou na manhã do minha família, minha mole, isso não é certo,dia 6 de agosto, e o então oficial da Força mãe gostava quando fazia as entregas, melhor nem fazer. O trabalho éAérea Japonesa já estava pronto para sempre voltava com carne”. No período que faz a gente viver bastante, nãodecolar quando a ordem de suspensão pós-guerra, o país passou por uma grave gostam nem de jogar ping-pong”.de voo chegou, por voltar das 8h20. crise e era difícil conseguir qualquer tipo A entrevista se encerrou, ele agra-Cerca de 5 minutos após a “little boy”, de alimento que não fosse arroz. deceu, e saiu da sala. As senhoras dacomo foi apelidada a bomba atômica Deste período até a época em que platéia se dispersaram. E em menos deamericana, ter atingido a cidade natal trabalhou na lavoura de café e deu aulas 3 minutos, Akira descia as escada car-de Fukuma. de japonês, na cidade de Dois Irmãos regando uma sacola, cheia de fotos. Em 14 de agosto de 1945, Fukuma (MS), pouco se sabe sobre a história de Queria mostrar o que contou. Nãoouviria pela primeira vez a voz do Seu Fukuma. Ele não fala muito da época usou o elevador nem para subir, nemimperador pelo qual estava disposto a em que perdeu a esposa e, meses depois, para descer. “Essa máquina só servedar a vida. Era o anúncio de rendição, o lho, de leucemia. Diz que lhe “dói a pra deixar as pernas moles”. O Senhortransmitido para todo o país via rádio. alma tocar no assunto”. Akira Fukuma tem 91 anos. 23
  • 23. De hospedaria a casa de repousoO KOSEI HOME FUNCIONA COMO ABRIGO E MEIO DE PRESERVAÇÃOCULTURAL PARA JAPONESES E DESCENDENTESC orredores escuros, enfermeiras mal encaradas. Velhos tristes e solitáriospelos cantos. Com certeza esperando Nobuko Ohya tem 82 anos e mora no Kosei Home há oito. Ela é lha de imigrantes, os quais vieram para o Brasil em 1933 para ceira dos gestores do Kosei. Para ajudar na manutenção do local, o governo brasileiro e a administração munici-alguém que não virá visitá-los. O cenário trabalhar. Não tem lhos e seus irmãos já pal de Santos oferecem descontos no IPTU,que se aplica tão bem a maioria dos asilos, estão idosos e, por esse motivo, escolheu a na conta de água e nos encargos trabalhistas.não cabe, nem lembra, o Kosei Home. casa de reabilitação como lar. “Gosto de mo- O Kosei também recebe auxílio do governo O prédio cor de cerâmica da Casa de rar aqui, me sinto bem. Fiz muitos amigos e japonês e da iniciativa privada do país.Reabilitação Social em Santos – Kosei Home me distraio. Hoje, já não me vejo fora daqui”. Contudo, o Kosei Home não consegue– possui arquitetura antiga. É um tanto Porém, todas as regalias, cuidados e se diferenciar dos asilos brasileiros emquadrado e lembra o estilo dos anos 60/70. mimos que existem na Casa não saem de dois aspectos que, conforme Maezano, sãoA placa indicativa do local é discreta, talvez graça. Os internos que tiverem condições essenciais para o bem estar dos internos:até demais. Praticamente imperceptível pa- nanceiras devem arcar com a mensalidade apenas 60% dos moradores do Koseira quem passa com alguma pressa. de R$ 2.000. Quem, comprovadamente, não possuem família e, dessas famílias, apenas Os corredores e quartos do Kosei estão possui condições paga uma parte e o resto é 15% visitam os internos pelo menos umaquase sempre vazios. Os moradores cos- bancado pela Bene cência Nipo-Brasileira. vez por mês ou participam das atividadestumam passar bastante tempo juntos, nas O que não garante a tranquilidade nan- de integração promovidas.áreas de convivência. Até 1974, o local onde ca hoje o“asilo” era uma espécie de casa de passagempara os imigrantes japoneses. Era lá que Viagem através das páginas m através páginas aeles cavam até saberem para qual cidadesua família seria encaminhada e em que Controle médico, atividades físicas distraírem e de resgatarem lembrançasfunções cada membro iria trabalhar. regulares, alimentação balanceada e da terra natal. “A partir dos romances,Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra atividades lúdicas. São as principais muitos viajam de volta para o Japão semMundial, a imigração de japoneses, ou exigências que os responsáveis pela sair do lugar e é importante para manter ade quaisquer outros estrangeiros que saúde dos internos prezam na Casa de mente em exercício. A leitura é um ótimoviessem das chamadas nações do Eixo, foi Reabilitação Social Kosei Home. Ali, o remédio contra o Alzheimer”.interrompida e o prédio, desativado. bem-estar físico é sempre importante, Os livros do acervo tratam dos mais Algumas décadas depois do m da guer- mas não é só o que basta preservar. A variados assuntos. A maioria é literaturara, a Bene cência Nipo-Brasileira junto com a saúde mental é de extrema importância japonesa, e não livros de pesquisa. Acolônia, levantou recursos para a reforma do também. Para isso, a casa possui uma biblioteca ca aberta para consulta doslocal e implantação do Kosei Home. A obra, mini biblioteca, com um acervo de mais internos e suas famílias. Boa parte dosconcluída em 1991, transformou a antiga de mil livros, todos em japonês. livros que o Kosei Home possui foramhospedaria de imigrantes no prédio de cinco Nem todos os moradores da casa têm doados pelas famílias dos internos ou porandares onde hoje funciona a Casa. o hábito de utilizar o espaço, porém os que outras pessoas da comunidade nipônica Os moradores contam com enfermei- são mais apegados à leitura não deixam que possuíam coleções.ras à disposição 24 horas por dia, médico de de visitar o local nem um dia. De acordo O espaço da biblioteca é versátil.plantão, quatro refeições diárias, sioterapia com o gerente da Casa de Reabilitação, É usado não só para a leitura, masduas vezes por semana, além de diversas Marcelino Maezano, os internos que também para atividades de pintura,atividades como aulas de alongamento diá- procuram os livros têm o intuito de se musicoterapia e desenho.rias, campeonatos de karaokê e festas paracomemorar os aniversários do mês. A casa de repouso funciona aos moldesjaponeses e, atualmente, apenas uma das inter-nas não possui algum tipo de ligação com omundo nipônico. O restante das pessoas queestão lá são japoneses ou nisseis, a primeira ge-ração de descendentes nascidos no Brasil. Para morar no Kosei, é necessário queo candidato não possua nenhum tipo dedependência. “Esse requisito visa garantiruma boa adaptação ao local e uma maiorsocialização com as pessoas que já estãoKosei”, como explica o gerente da casa derepouso, Marcelino Maezano.24
  • 24. juntos e bem acompanhadosU m grupo de indivíduos com gostos em comum ou alguma relação social. É a de nição mais básica para o termo clube. Quando os diversos imigrantes chegaram à região, não demoroumuito para esse tipo de associação ser criada por eles. No caso dos japoneses, não foi diferente. A colônia, no começo do século, era quase quefechada. As diferenças culturais gritantes e claro, o idioma, zeram com que os japonesesvivessem ainda mais juntos. E isso com que fez vários deles montasse diversas associaçõese clubes em Santos e São Vicente. Algumas entidades ainda sobrevivem, outras são apenasfantasmas do que já foram um dia. Japoneses eram mal vistos por causa Estrela de ouro futebol clube da aliança com a Alemanha. Hoje, os clubes não são mais tão úteis. As pessoas A história dos amigos Yutaka Okumura, Antonio Koide, Katutoshi Ono, Tokuji Ono, Tsuneo Okida e Carlos Depois de certo tempo, sob a liderança de Jorge Nakai, o clube passou a realizar as atividades sociais no barracão interagem de outra maneira. Isso explica sua decadência”. Um dos motivos do sucesso do Alberto do Nascimento começou com do Onishi, com mesa de ping pong, Estrela, segundo Sadao, foi a abertura a vontade de ter um lugar onde praticar bailinhos e o time de futebol. do restaurante de comida japonesa para o esporte que tanto gostavam: o futebol. Assim nasceu o Estrela de Ouro todos da região em 1991. No ano de 1947, surgiam os primeiros Futebol Clube, informalmente em 1952 Além das atividades que se indícios do Estrela de Ouro Futebol Clube. com o time de futebol e o cialmente em adaptaram ao longo dos anos como Os amigos da Ponta da Praia mon- 1957 com a construção da sede social. cursos de língua japonesa, ginásticas, taram um time de várzea com ajuda da É um dos poucos clubes que resiste até musculação, Yoga, Jiu Jitsu e Gate Ball. colônia japonesa local. os dias de hoje. Com poucas alterações na O restaurante típico japonês é o que atrai Anos mais tarde, em 1951, formou- estrutura inicial, porém com menos sócios. mais os nipônicos e os brasileiros ao local. se de vez o time, com diretoria, sócios e O atual presidente, o vereador Sadao Nakai, Dados como o número de sócios, até cobranças de recibos. Surgia também explica o que: “o objetivo social nasceu frequentadores do restaurante e renda do o primeiro presidente, Akira Onishi. num período que era muito necessário. clube não foram divulgados pela diretoria. Nissei Vicentino e Associação Atlética Atlanta O fato de terem um público diferenciado não os impediu de sofrerem com a crise que atingiu todos ponto. Porém, é visível que o clube precisa de apoio. A renda do clube não foi informada. os outros clubes da região. O Nissei Atualmente, é composta pelo Vicentino (São Vicente) e o Atlanta que é arrecadado nos jantares de (Santos) lutam para permanecerem comida japonesa. vivos. Os prédios, de ambos, estão se Promovidos todas às deteriorando a cada dia. sextas-feiras, a partir das 19h30, A tinta das paredes descascando, a na sede do clube, os jantares são grama crescendo em torno da constru- organizados pelas famílias que ção, os portões enferrujados. Não houve ainda participam das ativida- qualquer cuidado de manutenção para des do Nissei. deixar os sinais do tempo menos visíveis. Para reforçar a verba, O Atlanta cou aproximadamente o clube também conta com seis meses sem presidente. Desde que o aluguel de um campo de Mauro Sueyoshi morreu em um acidente futebol society, que faz parte da de moto, em janeiro, até julho, quando estrutura da agremiação. Yukimoi Tamashiro assumiu o cargo. O senhor YukitoYumoto, Não há qualquer tipo de documentação um dos fundadores do clube, ou controle sobre o número de sócios ou a rma que já houve a tentativa situação nanceira do clube. de alugar todo o espaço do O clube tem sobrevivido, nos últimos clube há cerca de 10 anos. “Iam anos, do aluguel de suas dependências para ganhar 40 mil (reais) por mês, Nos dois clubes, o principal motivo festas, treinos de futsal e ensaios de equipes mas eu não gostei não. O lugar foi feito pra para se manterem de pé, é o empenho dos de taiko, shamisen e odori da região. reunir as famílias, não pra ser usado pra japoneses e descendentes dos primeiros No nissei, a situação não chega a tal outras coisas”. sócios dessas agremiações. 25
  • 25. Associação Japonesa de Santos Japonesa retornou com suas atividades. Os responsáveis e associados da época bata- C ursos, aulas, reuniões, comemorações e eventos. É assim que a Associação Japonesa trabalha e procura manter a Instrutiva Vila Mathias, pois era uma tentariva de não prejudicar seus trabalhos. Com o anúncio da participação do lharam para reconstruir sua história e con- taram com a ajuda dos lhos brasileiros. “Foi assim que pudemos mostrar que os imi- colônia unida, além de ter como principal Brasil na Segunda Guerra Mundial, foi grantes japoneses nunca se posicionaram objetivo, a preservação da cultura nipônica. proibida toda e qualquer atividade da colônia contra o país e que pelo contrário, quería- Atualmente, a antiga Sociedade Ja- japonesa, obrigando assim, os japoneses e mos fazer parte dele”, diz Sérgio Dói. ponesa, hoje denominada Associação descendentes a deixarem a cidade de Santos. Ao formar agrupamentos de Japonesa de Santos, reativou sua repre- As famílias perderam imóveis e negócios imigrantes em determinados locais, sentatividade junto à colônia e ao Con- e, com isso, muitos optaram por não retorna- uma das primeiras preocupações era sulado Japonês e conta com cerca de 400 rem para a Cidade. A Sociedade Japonesa constituir uma associação. Ela teria associados pagantes. Sérgio Norifumi Dói entrou em decadência e cou completamen- como função o desenvolvimento de é presidente desde 2009 e ele tem a te desestruturada. A lei, de autoria do então trabalhos de caráter social, além de responsabilidade de monitorar e cuidar presidente General Eurico Gaspar Dutra, um formar escolas de língua japonesa. De de toda a região. ano após o término da guerra, dissolveu as acordo com Sérgio, a ação era para Ele conta que o papel principal da Sociedades Civis de imigrantes das nações do dar suporte na formação cultural das associação é difundir a cultura japonesa na eixo, tendo sido incorporados ao Patrimônio crianças. “Eles estavam no Brasil, mas Baixada Santista de uma forma organizada. Nacional. A Associação, que antes serviu a preservação da cultura de origem “Depois da interrupção na Segunda Guera, para desenvolver trabalhos de caráter social, também era fundamental”. as atividades da associação foram paradas. foi tomada pelos militares. Mesmo com o Além da Associação abranger toda Agora estamos retomando aos poucos, e término da Segunda Guerra, o prédio não foi a região, assim que surgiram em Santos tudo graças ao apoio da colônia”. devolvido, apenas alguns anos depois houve a os clubes nipo-brasileiros, pôde ser A Sociedade Japonesa foi fundada retomada das funções. promovido uma maior integração através o cialmente no dia 14 de junho de 1939 Em 2005, os responsáveis pela As- de atividades sócio-culturais, que também e teve como seu primeiro presidente sociação, começaram a luta pela devolução atingem a sociedade brasileira. Fumito Myoshi e Manhiti Dói como vice- do prédio, mas o processo foi parar em esfera Desde a posse do prédio, a Associa- presidente. Ainda em 1939, quando teve nacional. Já em 2007, o presidente da época, ção vem aumentando as atividades, além incío a Segunda Guerra Mundial, a Socidade Luiz Inácio Lula da Silva, devolveu o imóvel. de representar a colônia japonesa nos Japonesa alterou seu nome para Sociedade Em 1º de maio de 1952, a Sociedade diversos Órgãos do Governo do Japão.26
  • 26. A missão de manter tradiçõesMANTER AS TRADIÇÕES NÃO É UMA TAREFA FÁCIL HOJE EM DIA. EFOI PENSANDO NISSO QUE A ASSOCIAÇÃO JAPONESA DE SANTOSORGANIZOU DIVERSOS CURSOS. ELES SÃO ABERTOS A TODOS E TÊMO OBJETVIO DE MANTER VIVA A MILENAR CULTURA JAPONESA.muito além do arigatô Takako veio com mais uma colega para passa de um alfabeto para outro. Takako Santos e leciona, além da língua japonesa, a a rma que é importante essa iniciativa da arte da caligra a, o Shodô. Associação. “É uma maneira da culturaP reservar o idioma natal em outro país é uma tarefa difícil. Com opassar das gerações, lhos, netos vão No Japão, ela morava na província de Aichi, a terceira maior do país. Takako ser preservada e divulgada. Gosto de ver o interesse dos brasileiros”. Takako tem 30aprendendo e praticando cada vez menos explica que sempre teve contato com anos e é voluntária da Jica há dois anos.o idioma trazido pelos patriarcas. Com os brasileiros e, antes de vir, recebeu um Jica – Em outubro de 2008, nasceu a Novajaponeses não foi diferente. No começo, curso intensivo de dois meses de língua JICA, a qual passou a ser responsável pe-conseguiam manter o ensino em escolas portuguesa. “Lá no Japão eu era professora la implementação, de forma uni cada,na colônia. Os nisseis se alfabetizavam em do governo e ensinava lhos de dekasseguis. das três formas de assistência até entãoportuguês e japonês, mantendo assim a Eu já estava familiarizada com o idioma”. prestadas por órgãos distintos do governocultura milenar nipônica. Takako a rma, que mesmo assim, enfrentou japonês: Cooperação Técnica, Emprés- Mas, com a Segunda Guerra e a derro- grandes di culdades: “Não é fácil para os timo ODA e Cooperação Financeira. Ata do Japão, esse tipo de ensino foi proibi- brasileiros aprenderem nosso idioma. A Agência de Cooperação Internacional dodo pelo governo brasileiro, provocando estrutura não se parece em nada, e com os Japão atua em 150 países e coopera comassim um desgaste cultural e fazendo com japoneses é igual”. a difusão da cultura e também luta paramilhares de nisseis não soubessem falar a erradicação da pobreza. A Jica atua nomais do que “obrigado” na Brasil desde 2008 e, a cada dois anos,língua de seus pais. vountários vem ao país para divulgar e Apenas em 2008, no difundir a cultura nipônica.aniversário de 100 anosda imigração, começou a caminho da escritaocorrer o resgate da cul-tura, não só do idiomaem si, mas de várias ou- A maioria das artes japonesas teve origem na China e foram aperfeiçoadas no Japão. Com o Shodo, não foi dife-rente. Otras artes esquecidas com caminho da caligra a – tradução literal – éo passar das gerações. uma das artes mais antigas. É datado de 202Assim, a língua japonesa a.C. Nessa época, poucos sabiam escrever,se tornou o curso mais então, a arte foi difundida pelo impérioprocurado na Associação apenas no século VI.Japonesa de Santos, e outros No início, eram usados apenas os Kanjis5 cursos foram criados para Diferentemente no Shodo, quando foi introduzido ao Japão,tentar preservar e difundir a da língua portuguesa que utiliza um alfabeto a arte passou a utilizar o Hiragana. Além decultura, não só na colônia local, mas para e com apenas 26 letras, a língua japonesa é ideogramas, o Shodo passou a ser feito comos brasileiros em geral. composta por três. Dois deles são silabários, o alfabeto silabário base do Japão. São mais de 14 turmas que fazem o são o Hiragana e o Katakana, e cada um Os materiais utilizados para a artecurso iniciante e básico. A duração do curso tem cerca de 100 sílabas. Além de também do Shodo são os mesmos nos dois países.para iniciantes é de seis meses e para o ser muito usado o Kanji, o alfabeto que é O pincel, feito de pêlo, é um instrumentobásico, de dois anos. Ao todo, são 38 alunos, composto por quase dois mil ideogramas. sensível que, junto com a tinta, geralmentesendo que cerca de 70% são brasileiros e Os três alfabetos são usados juntos. preta, traduz a arte da caligra a. É na le-sem nenhuma descendência japonesa. Os E cada um em um caso diferente. O veza, na velocidade em alguns trechos e naoutros 30% se dividem em japoneses que Hiragana é o alfabeto base, utilizado para parada em alguns pontos com o pincel, évieram para cá pequenos e nisseis. escrever as palavras nativas do japonês. O que se desenha a arte do Shodo. O curso teve início em novembro de Katakana é muito semelhante a ele, mas A arte da caligra a é considerada2008, com a chegada da professora Takako é usado para escrever apenas palavras uma metáfora para a própria vida, assim,Uchida, do Japão. Takako faz parte da estrangeiras e nomes próprios. alternam-se pinceladas fortes com outrasAgência de Cooperação Internacional do Já o Kanji é o mais diferente dos mais delicadas, variando o efeito conformeJapão (Jica, sigla em inglês) e junto com demais. Cada ideograma representa a velocidade, a cor da tinta, a pressão sobremais 41 mulheres japonesas vieram ao Brasil uma palavra, é o nível mais avançado da o papel, o intervalo entre traços e o própriopara difundir a cultura nipônica de maneira escrita japonesa. Porém essa variedade só material utilizado. Não há retoques, esboçoscorreta. A agência atua em diversos países é perceptível na escrita - não há qualquer ou correções em uma peça de Shodo, poisque tenham colônia japonesa e ajudam mudança na língua falada, conforme se cada detalhe da vida a arte.mais de 150 países na redução da pobreza. 27
  • 27. O Shodo é praticado na Associação natureza em harmonia com galhos saindo do vaso, o que signi cava Japonesa há um ano e meio, e atrai muitos a recriação da paisagem. japoneses e brasileiros de várias idades. Muitos anos depois, o formato shoka Segundo a nissei Julieta Aguena, a arte faz com que ela entre ainda mais em contato A rranjos bem posicionados, milimetri- camente medidos, galhos, caules, fo- lhas e ores com uma combinação de cores foi criado. O shoka valoriza a versatilidade dos elementos. Com o passar dos tempos, com sua cultura nativa. “Pratico há 1 harmoniosa. Assim é montado o arranjo outros elementos foram aparecendo e a arte ano Shodo e há 4 anos Ikebana e acho oral japonês. A estrutura do Ikebana é foi adaptada com a vida moderna. O material muito importante essa oportunidade de baseada em elementos que simbolizam a usado é simples. Os principais são os vasos, preservação. Sempre tive contato com a humanidade, a terra e o céu. ores, folhas, caules, tesouras e os suportes, cultura e espero que meus lhos e netos Existem outras exigências que variam que são cheios de pregos. Cada estilo usa algo também possam apreciar isso”. de estilo para estilo. Enquanto os brasileiros para ser o destaque no vaso. prezam pela quantidade e pelo colorido nos Tyoko Shimano tem 75 anos e éArte em três cordas vasos, os orientais buscam montar a partir do professora de Ikebana há 15. Desde pequena, equilíbrio, estado de espírito e enfatizam os sempre gostou de plantas e quando seA arte de tocar o shamisen nasceu em Okinawa. E, ao longo dos séculos, foi seespalhando por todo o Japão. No Japão, ele aspectos lineares do arranjo. Eles dão destaque para os caules trabalhados, ao invés de aposentou, resolveu dedicar seu tempo à elas. Ela explica que os japoneses acreditam que à partir do momento que o ser humano colocarem muitas ores. As folhas, queé chamado de Shamisen. Em Okinawa, ele já não são mais apreciadas na tem a capacidade de retirar ores e folhas daé conhecido como Sanshin (signi ca “três natureza, quando natureza, deve construir um novo habitatcordas”). Essa arte milenar começou a ser colocadas para elas. “O que não era bonito na naturezaaperfeiçoada no século XVI. Ali, surgiram pode se tornar lindo no vaso. A função daspartituras musicais e novos campos plantas é levar alegria, elevar o estado depara o instrumento, como o espírito e harmonizar o ambiente”. TyokoMinyo (canto folclórico também faz questão de mostrar em suas aulasjaponês), Enka (estilo como a natureza é bonita e a importância dede música tradicional), sua preservação. Ela conta que presentearShamidaiko (shamisen alguém com um arranjo estilo Ikebanatocado em conjunto com é vivenciar o amor. “Isso enobrece o elotaiko), Kabuki (teatro entre duas pessoas, é uma demonstraçãotradicional japonês) e Odori de gratidão”.(dança tradicional). Pode sobrar falta de paciência No Brasil, os lugares onde para muitas pessoas, já que o Ikebanao shamisen é tocado são poucos. é algo minuciosamente trabalhado.Normalmente, em festividades O que para muitas é algo trabalhoso eda colônia e acompanhando fes- em um ar- cansativo, para Tania Rocha é um espaçotivais de Karaokê. Além de em São ranjo do Ikebana, de meditação. “Eu co mais centrada, maisPaulo, ter concurso duas vezes por recebem uma nova vida. tranquila. Esqueço do mundo ao meu redorano. O instrumento musical japonês O Ikebana é uma arte, em que na e o resultado nal é muito grati cante”.é constituído por três cordas e uma composição de seus arranjos, é possível ma- É pensando na tranquilidade, nacaixa de ressonância. O tampo, antigamente, nifestar os sentimentos e a energia positiva e-levação espiritual através do contato comera feito de pele de cobra. E, para tocar em do ser humano por meio da natureza. o meio ambiente que o Ikebana é praticadoapresentações é necessário vestir o clássico Essa arte no Japão existe há mais de 550 por muitas pessoas. E não só japoneseskimono japonês. anos e é originária do Budismo. O Ikebana e descendentes que fazem artes com Para tocar o instrumento é necessário teve início com o ato de enfeitar os altares ores. O curso é aberto para brasileiros,fazer um curso. E para lecionar, é preciso budistas com ores e arranjos. O monge e por sempre gostar de ores e natureza,fazer três anos a mais e passar vários níveis. responsável pela montagem começou a Marizilda Pinho, se interessou e começouO curso que até alguns anos atrás só tinha ensinar outras pessoas e assim, o ato que, o curso há mais de 4 anos. “Eu não tinhaem São Paulo, também há em Santos. inicialmente, era religioso, se tornou algo a ser contato com nada na cultura, mas soube doOcorre toda segunda-feira, na Associação praticado diariamente por todos. curso por uma amiga e me apaixonei logoJaponesa de Santos e todos os sábados, Em Santos, as aulas na primeira aula”.no Clube Atlanta. A professora Haruko de Ikebana acontecem naTabata começou a praticar na década de 90 Associação Japonesa. Lá, ose há alguns anos leciona. “Comecei porque alunos aprendem o estilosempre gostei de ver tocarem o shamisen. Ikenobo, que é consideradoSó que como era mulher, meu pai não o mais antigo de todosdeixava que eu tocasse. Quando quei mais os estilos. Esse estilo foivelha aprendi e agora ensino também”. criado por Senkei Ikenobo Os instrumentos são comprados em e Senno Ikenobo e vemSão Paulo, atualmente. Antes, eram feitos passando de geração emartesanalmente em São Vicente pelo pai de geração. Inicialmente, foiKaneko, seu Ytokasio. “Eu toco há mais de 14 estabelecido pelos mestresanos, sempre gostei e comecei aprender por o formato rikka, que possuicausa da minha família. Meu pai é japonês e um arranjo assimétrico,sempre tocou para nós, além de ter fabricado que era feito com devoçãomuitos dos instrumentos”, conta Kaneko. aos deuses e antepassados28
  • 28. O sushi fala portuguêsM esmo com um sabor completamente diferente do que o paladar do brasileiro está acostumado, a cu-linária japonesa ganha espaço a cada dia. Em Santos, o restaurantes por conta dos festivais, mas nas temake-rias o preço é melhor e o atendimento é mais rápido. Além disso, tem muitas por ai, mais que restaurante”.número de estabelecimentos especializados na culinária da Mas, esse tipo de comida não agrada a todos e éterra do sol nascente praticamente dobrou em três anos. possível dividir as casas de comida japonesa da Baixada De 1991, quando foi aberto o primeiro restaurante, em basicamente dois tipos. Ambos são frequentados,até 2007 havia 14 casas. Hoje, existem 25. Em São segundo as gerências, por mais brasileiros dos que porVicente, apenas o centro da cidade abriga seis delas. japoneses ou descendentes. A maior parte dos donos dos estabelecimentos Restaurantesatribui o sucesso dos pratos a grande preocupação da Nos restaurantes, o cardápio é mais el aos reaisculinária japonesa com a sazonalidade dos alimentos costumes japoneses, porém há opções que fogeme a qualidade dos ingredientes, além do cuidado com do peixe cru e outros itens menos convencionais aoa apresentação dos pratos; que é sempre impecável público ocidental. A intenção é que, mesmo queme encantadora; em cada elemento, há uma posição e não gosta desse tipo de culinária, consiga encontrarum corte milimetricamente de nidos. algo que goste de comer nesses estabelecimentos. A base da maioria dos pratos é arroz e frutos do mar, Os ambientes costumam ser aconchegantes, ummas há uma explicação para isso. O Japão foi o primeiro lugar onde você pode jogar conversa fora e comerlugar a cultivar arroz no mundo, há cerca de sete mil anos, com calma, junto com a família, os amigos, o par.já que as condições climáticas e de relevo da região são Um exemplo é o Sushi Garden, em São Vicente, queextremamente propícias para a prática. Quanto aos frutos ca de frente para o mar e cuja iluminação é feita pordo mar, o país é um arquipélago composto por 6852 ilhas. chouchin, aquelas lanternas japonesas. Nos mesmosEsse tipo de comida os cerca por todos os lados. moldes, há o Gotissô, em Santos, com duas unidades Apesar do número de restaurantes aumentar a também de frente para o mar.cada dia em Santos e São Vicente, nem todas as pessoas Temakeriajá tiveram oportunidade de provar os pratos japoneses, Como o nome já diz, a estrela dessas casas é o temaki.ou, pelo menos, de repetir a dose, como Diego Mar- Esses estabelecimentos surgiram há cerca de três anos naques, 21 anos, que só provou comida japonesa uma vez. região. E, atualmente, apenas em Santos e São Vicente,“Experimentei niguiri e sashimi, achei uma delícia, só existem mais de 10 casas que preparam a iguaria.não tive oportunidade de comer de novo”. São oferecidos diversos sabores, mas todos eles Já o engenheiro de automação Danilo Capp, 23 tem alga (que forma o cone do temaki). O temakianos, não ca sem as iguarias nipônicas. Capp frequenta conhecido como tradicional é, na verdade, umarestaurantes japoneses há cerca de 3 anos e assume adaptação do original, já que possuem complementos,que, no início, achou a comida estranha. “Nunca tinha como cream cheese e cebolinha, para torná-lo maiscomido nada cru e o gosto era diferente de tudo que eu próximo do que estamos acostumados.já tinha comido na vida”. Agora, o peixe cru, ou sashimi, O ambiente da temakerias tem um estilo de fast foodé justamente o prato preferido de Capp. – coma logo e pare de ocupar a mesa. O atendimento Quanto ao ambiente, Capp prefere os restauran- costuma ser extremamente rápido, talvez por isso otes, mas frequenta mais as temakerias. “Pre ro os grande sucesso com os jovens. 29
  • 29. religiãoAS RELIGIÕES DIFEREM EM CADA CULTURA. ALGUMAS DELAS PREZAMPELA CRENÇA; OUTRAS, COMO AS JAPONESAS, ENFATIZAM A PRÁTICA o lar onde se diz muito obrigadoQ uando a professora de educação física Luciana Salmi acorda, a primeiracoisa que faz é praticar a meditação que logo sua palavra estava difundida em todo o Japão. E em pouco tempo, diversos países repassavam seus ensinamentos. Um e Dajiro Mtasuda chegaram aqui para trabalhar em plantações de café. Alguns anos depois, Miyoshi conheceu o senhorShinsokan (em tradução livre, “ver e deles foi o Brasil, que hoje tem mais de dois Ooshiro e pegou emprestado um doscontemplar a Deus”). O intuito é colocar milhões de seguidores. exemplares de “A Verdade da Vida”.informações positivas no subconsciente. Logo depois de sua fundação no Nenhum deles chegou a ter contatoApós a meditação, Luciana lê a sutra Japão, a Seicho-No-Ie chegou ao Brasil na com a Seicho-No-Ie no Japão, mas aosagrada e faz uma oração especial aos seus bagagem do imigrante Hisae Sakiyama, na chegarem aqui, Dajiro adquiriu uma do-antepassados. Antes de dormir, repete a Amazônia. Hisae trouxe alguns exemplares ença grave e a leitura do livro foi indicadameditação. Quando necessário, pratica a como cura milagrosa.Puri cação da Mente, normalmente, em Os irmãos leram todos os dias e logodias que disse palavras negativas ou cou Dajiro se curou. A morte que pareciamagoada. Luciana escreve tudo em um certa foi afastada. Os dois caram tão im-papel e coloca fogo. Enquanto queima, ela, pressionados que decidiram viajar pelo paíscomo adepta da loso a, ora. para difundir a palavra do mestre. Todos esses são rituais xintoístas, Assim, começou a Seicho-No-Ie aqui.uma das grandes in uências da Seicho- Hoje, existem mais de 80 sedes regionaisNo-Ie. Nenhum deles é obrigatório para e quase mil associações locais e mais trêsser freqüentador das reuniões. Mas são academias espirituais .aconselháveis para todos os adeptos. “Foi tudo bem aceito no Brasil. Tanto é Agradecer a todas as coisas do que 80% dos frequentadores são brasileirosUniverso é o principal fundamento sem descendência” explica Murakami.da Seicho-No-Ie. No Lar do Progredir A doutrina incorpora elementos doIn nito – tradução literal – as pessoas se cristianismo, budismo e xintoísmo, asreúnem em salas e reverenciam um altar. três maiores religiões no Japão. Para o serA primeira coisa a se dizer ao entrar em humano chegar em sua imagem verdadeira,qualquer ambiente, ao início de todas as existem diversas práticas adotadas. Entrereuniões ou ao nal é “Muito Obrigado”. elas, as três principais são: prática daO altar com dizeres em japonês e o estilo MESTRE MASAHARU TANIGUCHI EM meditação Shinsokan, leitura da Sutrados encontros não lembram em nada as POSIÇÃO DE AGRADECIMENTO Sagrada e palavras da Verdade, prática demissas e cultos no estilo ocidental. atos de amor e caridade. Jovens, casais e idosos têm reuniões do livro Seimei No Jisso (A Verdade da Atualmente, a Seicho-No-Ie conta comcom dias determinados e pertencem a Vida) e doou um exemplar a seu amigo, divulgação por meio de publicações como asgrupos diferentes, todos têm espaço ali. Kumejiro Ooshiro, também imigrante. As- revistas Fonte de Luz, Pomba Branca, Mundo “É um ensinamento de amor. O homem sim começava lentamente sua difusão. Ideal e Querubim, além do jornal Círculo deé lho de Deus perfeito. Essa é a nossa ima- Em 1932, os irmãos Miyoshi Matsuda Harmonia, programas de TV, rádio e website.gem verdadeira”, explica Marie Murakami,presidente da Seicho-No-Ie no Brasil. Quando o mestre Masaharu Taniguchilançou seu primeiro livro “A Verdade da glossárioVida” não tinha o intuito de criar uma nova Shinsokan - Para Masaharu Taniguchi, a Meditação Shinsokan é oreligião. “As pessoas começaram a ler e a se caminho que conduz a sabedoria divina através da prática meditativa. Nacurar. Ele falava da reconciliação, harmoniae gratidão”, explica Murakami. Meditação, é visualizado diretamente a Vida de Deus uindo no próprio corpo. Com o Japão caminhando em dire- Inicia-se entoando o Canto Evocativo de Deus, para chama-lo. O Shinsokan éção à Segunda Grande Guerra, encontros algo prazeroso, um momento terno, que proporciona alegria e felicidade comoe reuniões caram terminantemente proi-bidos. Então, para conseguir difundir sua se a pessoa estivesse nos braços de Deus-Pai. . loso a de vida, em 1° de março de 1930, a Sutra Sagrada - São escrituras que resumem os ensinamentos e doutrinasSeicho No Ie se tornou uma religião. da Seicho No Ie. Existem diversas, a principal é a Chuva de Néctar da Verdade, Taniguchi escreveu mais de 400obras e quase 200 foram traduzidas para o escrita pelo Mestre Masaharu Taniguchi.português. Seus livros zeram tanto sucesso30
  • 30. a energia vital do universoO principal objetivo daconstruir um mundo baseado na verdade, religião Messiânica é o de concretizar o ideal de o espiritual, perceber melhor a abundância e as oportunidades e fortalecer o sentimento de gratidão e o altruísmo. A Agricultura Natural é segunda prática na qual a religião se baseia. Ela tem o objetivo de eliminar as toxinas do corpono bem e isento de doença, pobreza e Massako explica que o Johrei atua físico. “Todos podem ajudar nesse processo,con ito. Ela foi criada no Japão em 1º de através de ondas de luz que irradiam reduzindo a quantidade de toxinas quejaneiro de 1935. Seu fundador foi Mokiti enquanto é ministrado. “Durante o entram no organismo e comendo alimentosOkada, cujo nome religioso é Meishu-Sama, processo, vai eliminando as impurezas naturais que contenham pouca ou nenhumaque nasceu no dia 23 de dezembro de 1882, impregnadas no ser humano, revitalizando toxina química”, diz Massako.em Tóquio. No Brasil, as atividades tiveram sua força na-tural de recuperação”. Uma Mokiti Okada acreditava que a Naturezainício na década de 50 com a chegada dos sessão de Johrei dura, geralmente, 15 se baseia em três elementos: fogo, água e aprimeiros ministros vindos do Japão. minutos e, dependendo da necessidade terra. O elemento fogo é seme-lhante à energia Meishu-Sama faleceu em 1955 e deixou da pessoa, pode ser prolongado. A pessoa do sol, que proporciona vitalidade. O elementopara a humanidade uma doutrina em que o que direciona a energia é chamada de água, em conjunto com o fogo, torna possívelJohrei, o método de Agricultura Natural e o a existência da temperatura adequada para aBelo são como as três práticas básicas para se manutenção da vida. E o elemento terra criaalcançar a verdadeira saúde, a prosperidade a base para a existência física de todo ser vivo.e a paz. De acordo com a loso a de A terceira prática é o Belo. Ele seMokiti Okada, as graves consequências baseia na importância da arte na vida dasdo desrespeito às Leis Naturais podem ser pessoas. De acordo com Massako, Mokitiveri cadas em vários segmentos, tais como Okada pregava que a arte e o belo sãona agricultura, na medicina, na educação, na extremamente importantes para o bem-estarsaúde, na arte, no meio ambiente, na política físico e espiritual do homem. “A arte e o Beloe em todos os campos da atividade humana. estabelecem o padrão e o real signi cado do O propósito dessa loso a é despertar a ser humano e pode ser algo muito próximo dehumanidade e alertar para seguir o caminho cada um. Começa no nosso interior, com osoposto do materialismo e do egoísmo. Além nossos pensamentos e ações”. Colocar oresde cultivar o espiritualismo e o altruísmo, em casa, no trabalho e no ambiente em geralela faz o homem crer no invisível e ensina pode criar harmonia e bem-estar. O Belo,que existem espírito e sentimento não só em conjunto com o Johrei, pode intensi carno ser humano, mas nos animais, vegetais algum processo de cura e a prática diáriae nos demais seres. Foi exatamente o que cultiva a sensibilidade e promove a belezaaconteceu com Massako Oshiro. que existe no interior de cada um. Massako Oshiro é ministra da Igreja MEISHU-SAMA É O NOME ESPIRITUAL A Igreja Messiânica possui 8 unidadesMessiânica da Unidade do Gonzaga em DO MESTRE MOKITI OKADA em Santos e 9 de São Vicente a Registro. AoSantos há 4 anos. É lha de japoneses e todo, no Brasil, há 540 unidades. Massakoconheceu a religião por meio de familiares ministrante, e a distância entre esta e a que Oshiro conta que todos os messiânicosque, muito preocupados com a sua saúde, lhe recebe é de trinta centímetros a um metro. são voluntários e além de realizarem suasorientaram a procurar a religião. Massako se Inicialmente, o Johrei é ministrado de atividades religiosas, como cultos aosencontrava em um estado espiritutal muito frente e depois, de costas. antepassados, orações diárias e cultos mensais,a-balado e começou a desenvolver a Síndrome Quem está apto a ministrar o Johrei têm na atividade voluntária centralizada nodo Pânico. “Não conseguia administrar as são aqueles que tenham o experimentado Johrei, uma grande força de ação social.emoções e quando comecei a frequentar a até sentir o efeito e após a conclusão de um “O objetivo fundamental do Johreiigreja, tudo isso foi se estabilizando. Aprendi curso para receber o Sagrado Ponto Focal - é para as pessoas e o seu estilo de vida sea ver as coisas de outra maneira”. Ohikari. Curso, o qual também é necessário tornarem belos porque a própria vida é sua Ela conta que passou a orientar os para a pessoa se tornar messiânica. maior obra de arte”, naliza Massako.seguidores a acreditar no equilíbrio. “Oobjetivo nal é reconduzir a humanidadea uma vida que se assemelhe com a Lei da glossárioNatureza, uma vida baseada na verdadeirasaúde, na prosperidade e na paz”. Dentre as três práticas básicas da Messiânica - Essa loso a tem o objetivo de despertar a humanidade ereligião Messiânica, o Johrei é uma das alertar para seguir o caminho oposto do materialismo e do egoísmo.principais atividades. É a transmissão Fundamentos - O fundador, Mokiti Okada, deixou para a humanidadede energia vital do universo, através daimposição das mãos, para puri cação e uma doutrina em que o Johrei, o método de Agricultura Natural e o Belo são aselevação do espírito do ser humano. O três práticas básicas para se alcançar a verdadeira saúde, a prosperidade e a paz.recebimento constante do Johrei gera algunsbenefícios tais como: despertar o homem Ohikari - Signi ca “Luz”. Conhecido como o “Sagrado Ponto Focal”, apara a existência do Criador, fortalecer o ser medalha é usada por baixo das roupas e pendurada no pescoço.humano para que ele possa ultrapassar osdesa os da vida, elevação da inteligência eda personalidade, tornar saudável o físico e 31 31
  • 31. Trabalhando longe de casaDESCENDENTES VOLTAM AO JAPÃO EM BUSCA DE MELHORES CONDIÇÕES N a década de 80, o Japão passava por uma fase contrária a do começo do século XX. Não havia mais altos índices de temporariamente em outra região ou país. São igualmente denominados os nipo- brasileiros e todos que emigram para o dos antepassados falecidos, registro de casamento, registro de óbito), traduções, declarações, autorizações, visto, etc. A desemprego, pelo contrário, faltava mão- Japão, tenham ou não ascendência japonesa. Inessan arranja visto, contrato de trabalho de-obra. Em diversos setores não havia A partir do m dos anos 80, ocorreu uma e moradia, evitando que o imigrante japoneses interessados em trabalhar. Para inversão do uxo migratório entre o Bra-sil e encontre surpresas desagradáveis. mudar isso, o Japão criou leis para facilitar o Japão. Os brasileiros descendentes ou côn- A Agência mantém contato com grandes a entrada de trabalhadores estrangeiros. juges de japoneses passaram a imigrar para o empresas japonesas. As vagas oferecidas são E em 1990 foi criada a “Lei de Japão à procura de melhores oportunidades nos setores automobilístico, eletro-eletrôni- Controle de Imigração”, permitindo que de trabalho. Surgiu então a comunidade dos cos, alimentação, metalúrgico, entre outros e japoneses e seus cônjuges ou descendentes dekasseguis brasileiros no Japão. cam em diversas regiões do Japão. até a 3ª geração (sanseis) pudessem exercer Em 2010, o Japão tinha registrado Até 2008, o número de descendentes qualquer atividade e com um período de 250 mil brasileiros. Nem tudo ocorre as que viajavam passava de 70 por ano. residência relativamente longo. O visto mil maravilhas. Muitos acabam indo sem Depois da crise, em 2010, o número caiu para descendentes de japoneses da quarta planejamento adequado e passam por pela metade. Segundo a proprietária Inês geração (yonseis) só é concedido se estes di culdades extremas no oriente. Maria de Melo, o per l de quem embarca imigraram na companhia dos pais (terceira Em Santos, há uma agência na aventura é bem parecido. “São, geração, os sanseis). autorizada, a Inessa, que providencia toda normalmente, casais, sem lhos e com Nascia uma nova classe, os dekasseguis. a documentação necessária, como Koseki idade entre 30 e 35 anos”. Dekassegui signi ca “trabalhando distante Tohon (documento da família registrado Para ir ao Japão, não é exigido nenhum de casa”. É designado a qualquer pessoa na Prefeitura de onde reside ou residiam nível de escolaridade. Apenas descendência que deixa sua terra natal para trabalhar a família e/ou antepassados, como nomes de uma das partes do casal. passaporte passaporte para o oriente p a orientet soube da oportunidade de trabalhar no Japão. Com os gastos relativamente pe- Animados com a idéia, procuraram quenos e os preços baixos encontrados uma agência especializada e em pouco no Japão, os dois tinham facilidade tempo, conseguiram a documentação em adquirir bens materiais, além de necessária para embarcar. Assim, em abril conseguirem economizar. “Levávamos de 2007, o casal se juntava a outros mi- uma vida de classe média alta e muito lhares brasileiros, que trabalham e residem confortável”, lembra Osana. no Japão, os dekasseguis. Mas a aventura ainda rendeu O Japão foi a primeira opção na hora de mais coisas. Em fevereiro de 2008, os escolher um local para melhorar de vida. dois descobriram que iriam ser pais O casal morou três anos na província pela primeira vez. Apesar de todas as de Mie Ken, localizada na região central do di culdades encontradas, receberam Japão. Foram bem recebidos pelos asiáticos. ótimo tratamento dos japoneses. Já chegaram ao país empregados e com “Eles deram bastante apoio e nos residência xa para os três anos seguintes. respeitavam muito. No começo, foram “No começo foi muito difícil. Apesar descon ados, mas depois tudo melhorou”, de termos toda a estrutura pronta, chorava conta Mario. Então, em novembro de toda noite”, conta Osana. “Você sente falta 2008, nasceu Felipe Arashiro Santos. da comida, dos seus costumes, da sua Felipe foi registrado como brasileiro OSANA, MÁRIO E FELIPE VOLTARAM família, dos amigos e do país em geral”. nascido em território japonês e viveu seus PARA O BRASIL EM 2010 Para o casal, as maiores di culdades primeiros anos de vida lá. Quando Mario dos Santos e Osana foram o idioma, a saudade de casa e a Com a crise econômica e o bebê Arashiro dos Santos se casaram em alimentação. “Começamos a cozinhar para cuidar, o casal decidiu voltar ao país 1996, jamais imaginavam que iriam se comidas brasileiras todo dia para tentar nos em dezembro de 2010. aventurar em terras estrangeiras. manter próximos de casa”, explica Mario. Quando chegaram aqui, conse- Mas quando a situação começou Os dois trabalharam em uma guiram comprar mais uma casa em a car apertada nanceiramente, indústria de eletrônicos. E ganhavam cerca Santos com o dinheiro economizado. procuraram uma maneira de conseguir de 170 mil yens cada um, o equivalente a Os dois guardam boas lembranças ganhar dinheiro. Filha de nissei, Osana quase R$ 4 mil por mês, praticamente o da estadia no país oriental, mas se dizem dobro do que recebiam aqui. felizes em estar aqui.32
  • 32. Caldeirão popP ersonagens com olhos grandes e expressivos, roupas colegiaistradicionais, com uma mistura de meio da televisão que essa transformação pôde ser acompanhada. Sem intenção premeditada, produçõessamurais, kimonos, cerejeiras, j-pop, ani- japonesas de animação foram exportadas esong, templos, deuses e até misticismos televisionadas em vários países a partir dasão elementos básicos que fazem parte década de 60. Os olhos grandes foram se tor-de diversos animes, mangás e games da nando familiares em todo o mundo, e passou acultura pop japonesa. ser sinônimo de estética japonesa, embora esse Nada disso é recente. Existem visual em nada corresponda aos orientais.registros de mangás do século XIX. Nova é Por meio da animação, difundiram-a maneira como a cultura é difundida em se internacionalmente aspectos de valoresvárias partes do mundo. e referências culturais exclusivamente Após a derrota do Japão na Segunda japoneses, assim como o cinema americanoGuerra Mundial, os americanos tentaram serviu para difundir o estilo de vida e daimpor o American Way como uma estratégia estética americanos.para deter o avanço do comunismo. Porém, Na década de 80, os primeiros animes diversos eventos para reunir pessoas com osdiferente do que ocorreu em outros países, os chegavam aos lares brasileiros e em pouco mesmos gostos e difundir a cultura pop.japoneses não só assimilaram como também tempo viraram febre. Isso se tornou tão forte que, na décadareinventaram muitos costumes. Praticamente A cultura pop japonesa foi tão bem de 2000, em São Paulo, surgia o maiora mesma coisa que ocorreu com sua cultura aceita pela população que, logo, grupos evento de cultura pop japonesa da Américatradicional, como a escrita, que é a mistura começaram a se formar para discutir, Latina, o Anime Friends. Os encontros quede caracteres criados no país (o hiragana e o apreciar e divulgar a cultura. antes estavam restritos a pequenas exibiçõeskatakana) com os ideogramas ‘importados’ Na década de 90, o fenômeno virava em salões na Liberdade, em São Paulo, agorada China (o kanji). Com a cultura pop não mania com a exibição de Cavaleiros do atingiam pessoas de diversas partes do país.foi diferente, em vez de apenas cultuar ídolos Zodíaco, pela extinta TV Manchete. E a partir Além de São Paulo, na Baixadaalheios, os japoneses criaram seus próprios daí, uma nova tribo se formava, os otakus. Santista também começaram a aparecerídolos. A fórmula poderia ser americana, mas Otakus sigini ca literalmente fanáticos; no grupos e eventos desse tipo. Alguns nãoo produto nal é japonês. Brasil, é uma gíria para os apreciadores da duraram muito tempo, mas outros, como O Japão pós-guerra foi aos poucos cultura pop japonesa. Vários otakus se uniram o Animelan, realizam encontros e eventosrevelando novas características. Foi por em todo o país e começaram a organizar até hoje. o maior evento de divergências se o primeiro evento foi em 1993 ou 1994), no santuário da cultura japonesa em São Paulo, o bairro da Liberdade. Uma das primeiras festas foi o Anime Com. J-pop da América Cabelos coloridos. Não de loiro ou ruivo, mas cor-de-rosa, azul, verde, amarelo, roxo e o que mais vier. Roupas diferentes, mas, Latina não, isso não descreve completamente. Fantasias, sim. Fantasias, inspiradas nos desenhos animados (animes) e nas revistas em quadrinhos (mangás) japonesas. Algumas vezes até iguais às dos personagens. Realizado uma vez por ano, também em São Paulo, o Anime Friends é o maior evento de cultura pop japonesa da América Latina. Aproximadamente, 2 mil pessoas visitaram o evento, por dia, neste ano. Destas, normalmente 500 são da Baixada Santista. Ao todo, 14 ônibus foram necessários pra levar os fãs ao local do evento. A programação é sempre dividida em dois nais de semanas e, neste ano, o evento foi realizado no inicio de julho, sempre das 10 às 21 horas. A festa reúne fãs e curiosos de praticamente todas as vertentes da cultura pop do Japão: anime, mangá, cosplay, karaokê, música “Festa estranha, com gente esquisita”. Os versos que compõe pop japonesa e anime songs (as canções que fazem parte da trilhaa música Eduardo e Mônica, de autoria de Renato Russo, sonora dos animes).conseguem descrever a impressão que um evento como o Anime O Anime Friends existe há cinco anos, porém, o local ondeFriends provoca em alguém que nunca teve contato com a cultura ocorre o evento não é xo. Na edição de 2011, o palco para ospop japonesa. concursos e apresentações foi o Mart Center, na Vila Guilherme, Os eventos desse tipo começaram por volta de 1993 (há com aproximadamente 12 mil m2. 33
  • 33. Camila, as mãos de palestras e workshops sobre o assunto. “Eu explico e dou dicas de como incorporar o personagem sem parecer forçado. Para fazer bem feito, é necessário pesquisar sobre o personagem e ver tesoura o anime para pegar as características físicas e mentais”. Representar os personagens e se vestir igual a eles é um Medidas, cores, tecidos, formas, maquiagens e perucas. hobby que ajuda Camila a pagar suas contas. “Eu me sinto Cada detalhe é visualizado e muito bem estudado para que os fãs realizada quando faço. Eu vivo dessa diversão.” possam dar a vida aos seus personagens favoritos. Esse hábito de A caracterização não começou no Japão. Ela teve início se fantasiar de personagens de desenho é algo que os ocidentais nos Estados Unidos. O primeiro cosplay foi criado por Forrest adaptaram na cultura. A responsável por ajudar diversos J. Ackerman e Myrtle R. Douglas em 1939 durante a primeira adolescentes da Baixada Santista a se vestirem é Camila Sibele Worldcon. Forrest criou uma roupa chamada “futurecostume”, Garcia Soares. Com 26 anos, a vida de Camila é cercada pelo enquanto Myrtle montou uma versão do vestido do lme de mundo do anime. Ela começou nesse universo quando tinha 17 1936 “ ings to Come”. Foi à partir daí que esse costume se anos e desde então, nunca mais parou. tornou uma prática anual nas Worldcon. As feiras começaram Cosplay é a abreviação de “costume play”, originário do a promover concursos e atrações próprias que envolviam inglês, que signigica “representação de personagem à caráter” e os fantasiados. Mais tarde, o hábito se estendeu aos fãs de Camila de ne sua pro ssão como cosplayer. Ela fabrica e vende quadrinhos durante as convenções de Star Wars. Nessa feira, a suas fantasias através da loja Ayamestore, que é cadastrada em pessoa que estivesse fantasiada entrava de graça. Então, os mais uma rede social. Por lá, ela recebe encomendas para os mais a ccionados pelo mundo do desenho oriental começaram a se diversos encontros que são organizados em Santos e São Paulo. vestir à caráter. Divulgação Ela conta que o anime é tão presente em sua vida, que conheceu seu noivo por meio de um site na internet sobre o assunto. “Ele também fazia cosplay, então camos trocando várias ideias sobre os personagens e quando vimos estávamos envolvidos. Decidimos nos conhecer e acabamos namorando”. Hoje, os dois se apresentam juntos em vários eventos. “Comecei a me fantasiar porque a minha ex-cunhada se fantasiava. Eu já gostava de anime e mangá, mas descobri o cosplay através dela”, diz Camila. Em 10 anos de confecções, Camila já guarda uma coleção de 51 cosplays. Ela garante que foi vestida com todos eles em diferentes eventos. “Para cada evento eu faço um diferente, gosto de inovar. Mesmo quando não tenho dinheiro procuro fazer algo legal. Vou em brechós e estilizo as roupas”. Tanta criatividade gerou vários prêmios para ela. Foi campeã de nove eventos e, atualmente, é coordenadora de cosplay do Animelan, grupo de anime da Baixada. Ela é a responsável pelos concursos, cosplays e regras. Ministrou também diversas Fusão de estilos A banda é formada por três vocalistas, iago, Dre e San. Um guitarrista, o Roger, um baixista, Sheep, um tecladista, o Maru e o mais novo integrante, o Gattai signi ca fusão. E é a palavra baterista Arino. perfeita para descrever os integrantes Todos têm idade entre 18 e 26 dessa banda. Não há um estereótipo anos e tocam pelos mesmos motivos. padrão. Cada um se veste como quer e A Banda não é uma fonte como der vontade de se vestir. renda. Alguns estão desempre- Eles tocam ritmos variados, gados, outros trabalham e fazem músicas para vários gostos; com faculdade. Eles não cobram para uma diferença: tudo em japonês. O tocar em eventos. É tudo por termo exato para esse estilo musical diversão. “A gente gosta de anime. é Ani Song. São músicas de seriados Tocamos por que gostamos, por japoneses e sem vertente comercial. prazer”, a rma iago. A banda começou em 2004. E, A Gattai se apresenta em desde então, sua formação passou diversos eventos de anime na por inúmeras mudanças. O único Baixada, em São Paulo e no ABC. dos sete integrantes que está desde Chegam a tocar em 14 eventos por o início é o vocalista iago Nunes. ano e o maior deles é o Anime Frieds. A mudança constante de pessoal se Eles tentam ensaiar pelo deve ao fato de não ganharem dinheiro menos uma vez por semana. algum com a banda. “A formação varia “Temos outras atividades, o que muito porque como não da para viver di culta um pouco ensaiar com disso, às vezes tem outras prioridades”, explica iago Nunes. freqüência, mas a nossa união é boa”, comenta Roger.34
  • 34. Grupos Animelan Yamato A geração atual com 20 e poucos anos lembra-se de ter A Yamato Corporation atua há mais de 15 anos em várioscrescido vendo Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e tanto outros segmentos; entre eles, na organização de eventos de culturadesenhos japoneses. E foi isso que levou Alexandre Shinji a pop japonesa. O maior deles é o Anime Friends, que ocorrecriar um grupo de cultura pop japonesa em 2004. Reunido com sempre em julho. Desde 2006, a Yamato tem um representantealguns amigos em uma Lan House, a idéia surgiu para que todos na Baixada Santista, Carlos Peter, e organiza um dos maiorespudessem assistir a animes diferentes e que não conheciam. eventos locais, o Anime Summer, no colégio São José. O evento O coordenador geral do Animelan, Alexandre Shinji, tem duas edições anuais, uma em janeiro e outra em outubro.explica que, no começo, faziam isso toda semana. “Na época não Chegam a ir de 1000 a 2000 pessoas por dia. O grupo tem doistinham como baixar pela internet e ver em casa, então a gente organizadores e cerca de 20 colaboradores. A Yamato também é acomeçou a compartilhar”. Shinji curte anime desde 1987 e conta única empresa que organiza caravanas no momento na Baixada.que o objetivo do Animelan é levar a cultura japonesa, reunir Foram mais de 14 ônibus só no Anime Friends e cerca de cincofãs, trocar acervo e fazer amigos. O grupo organiza eventos ônibus no Anime Dreams.desde 2009, mas apóiam desde 2005, em São Paulo, grande ABC Além dos dois principais, existem grupos menores quee na Baixada. também organizam eventos. O objetivo em comum é a realização O grupo tem cerca de 50 pessoas e é dividido em várias de diversas atividades, exibições, mostras culturais em diversoscoordenadorias, entre elas, geral e de eventos, desenhos, locais. E assim, difundir a cultura pop japonesa. Para os fãs, háexposição, cosplay, games e mídias. eventos em praticamente todos os meses do ano em Santos, além Shinji ainda a rma que para ser do grupo, não precisa ter de mostras e exibições. Recentemente, São Vicente recebeu suaconhecimento, apenas ser comprometido. E os convites estão primeira exibição. Em parceria com a All Net, o grupo Animelanabertos para quem se interessar. organizou o primeiro evento na cidade. Calendário de eventos curiosidadesJaneiroAnime Dreams – São Paulo Cidade Irmã – Santos tem diversas cidades-Anime Summer – Santos e São JoséMaio/junho irmãs pelo mundo. Entre elas, as cidades japone-Oriex – Santos sas Shimonoseki e Nagasaki. O convênio foi r-Julho mado no ano de 1971 e 1972, respectivamente,Anime FriendsAgosto e busca integrar municípios de diversos paísesAnime Ever – Santos – São José com intercâmbios culturais e sociais.Anime Fair – SantosOutubroAnime Summer – Santos – São José glossário musical conhecido como Pop, só que no Japão. Esse estilo de música é voltado para o públicoMangás - O mangá é a palavra usada para jovem. E utilizam instrumentos ocidentais,designar as histórias em quadrinhos feitas como bateria e guitarra.no estilo japonês. No Japão, o termo designa Ani Song - É um estilo musical japonês. Sãoquaisquer histórias em quadrinhos. Sua origem músicas de seriados (os animes) e sem vertenteestá Teatro das Sombras, na época feudal. Os comercial. Normalmente, tocadas no início e nalmangás atuais fora adaptados e são parte chave dos episódios.da cultura pop japonesa. Otaku - É um termo usado no Japão paraAnime - Anime é qualquer animação produzida designar pessoas a cionadas por diversosno Japão. E tem signi cados diferentes para hobbys.No ocidente, a palavra é utilizada comoos japoneses e para os ocidentais. Para os uma gíria para rotular fãs de animes e mangás.japoneses, anime é qualquer desenho animado. Cosplay - É abreviação de “costume play” (emE no caso dos ocidentais, a palavra é usada para inglês) que signi ca “representação de personagem”.designar apenas animações japonesas. Uma boa Apesar de fazer sucesso no meio da cultura popparte dos animes possui sua versão em mangá. japonesa, os cosplays são originários dos EstadosJ-pop - Japanese Pop ou Pop Japonês é um Unidos. A primeira aparição foi nas convenções degênero musical. Nada mais é do que o estilo Star Wars. 35
  • 35. Banzai japão! MARIA CECÍLIA É UMA PERSONAGEM PECULIAR NA REGIÃO. SUA FA- MÍLIA, YAMAUCHI, SEMPRE ATUOU EM PROL DA COLÔNIA. SEU LIVRO RELATA A HISTÓRIA DELES E A DE VÁRIOS IMIGRANTES JAPONESES. Foram, verdadeiros exemplos de coragem, bravura, trabalho e honestidade. Tudo que sobre a autora: sei hoje aprendi com eles. Ele era muito Maria Cecília Missako Ikeoka sábio e sempre gostou de passar seus é nissei e nasceu na cidade de São conhecimentos adiante. E eu sempre tive Vicente, em 1941. essa vontade. Deixar tudo sobre eles e a Formou-se em Direito pela Facul- nossa história de forma geral registrados. dade Católica de Direito de Santos, em Quando se aproximou do centenário, a 1978. Concluiu o curso de Pós-gradua- vontade foi aumentando e o livro começou ção lato sensu na mesma, em 1990. a sair. Não z com intenção de car rica Aposentada do TRT da 2ª região, ou ganhar dinheiro algum. Por isso, todo mora, atualmente, em Santos. o lucro tem sido revertido para a caridade. Primeiro ajudei o Centro de Educação e Vicente, e na época, não havia lugares para Recreação em São Vicente, o CER. E agora, nos reunirmos. Então, meu irmão fundou o pretendo ajudar o Kosei Home. O livro clube Nissei Vicentino. também serviu para outra coisa que nem Existiam alguns modelos parecidos em Revista Gambare: Qual a importância da pensei no começo, unir a minha família. Santos, mas em São Vicente foi o primeiro. cultura japonesa na região? Fiz algumas cópias em inglês e levei Durante muitos anos foi responsável por Maria Cecília Ikeoka: Vejo várias con- para vários tios e primos. Alguns que mo- unir o pessoal da colônia. Eram feitas fes- tribuições. Uma delas é a culinária. Hoje, ram nos Estados Unidos, Japão e que estão tas e havia muitas atividades. todo mundo adora sushi, sashimi temaki. espalhados pelo Brasil. Também reuni Hoje em dia, uma das únicas tradições Outra grande in uência são os esportes. muitas fotos e isso foi muito importante que resta é o restaurante, que funciona As artes marciais fazem muito sucesso para manter vivas nossas raízes aqui. todas às sextas-feiras. aqui. Também não dá para esquecer a Mas frequento outros lugares, como contribuição dos primeiros imigrantes RG: Como foi o processo de produção? o Kosei Home, o Estrela de Ouro e outros que vieram para cá. Foram colonos e MCI: Comecei escrevendo o que me clubes, além de sempre participar de desenvolveram muito a agricultura. Muitas lembrava das histórias do meu pai. Mas não festividades, como o Undokai. das nossas frutas, vegetais que comemos, queria fazer nada que fosse impreciso ou têm origem japonesa. Como o caqui, o fugisse da realidade. Então z uma pesquisa. RG: Qual a relação com o Brasil? ponkan, o pepino japonês. Li muitos livros sobre a cultura e vi- MCI: Hoje me sinto muito brasileira, e O cultivo de ores e plantas, como as da no Japão e também sobre sua história. tenho orgulho disso. Sei das minhas raízes, orquídeas, também é de origem japonesa. Consegui muito material no Museu da mas aprecio muito o país. Meu pai sempre Na vestimenta, há os chinelos de dedo. Até Imigração Japonesa em São Paulo e no me ensinou a honrar o lugar que vivo. nas dietas, o pessoal toma muito chá verde . Memorial do Imigrante. Acho importante esse entrosamento As coisas não são necessariamente iguais. Depois também fui procurar do- das gerações com a cultura brasileira. Por Muitos zeram adaptação de tudo quando cumentos dos meus pais. Achei até o primei- mais que sejamos japoneses, temos que vieram para o Brasil, mas a raiz é a mesma. ro passaporte deles. Meu lho me ajudou a servir e honrar o país em que vivemos. restaurar e colocamos na capa do livro. Levo isso tão a sério que, como fui re- RG: Como está a preservação da cultura gistrada aqui com nome japonês, lutei para nos dias de hoje? RG: Qual sua relação com a colônia? mudar. Minha mãe me chamou de Missako MCI: Hoje em dia, é difícil manter todas MCI: Sempre tive muita ligação com a Yamauchi. Mas sempre tive vontade de ter as tradições. Até porque estamos na quinta colônia e procuro mantê-la nos dias de um nome em português. Então, hoje me geração. A tendência é ir se misturando hoje. Minha família se instalou em São chamo Maria Cecília Missako Ikeoka. cada vez mais. Igual a minha lha, que é casada com um russo. Os meus netos têm sobre o livro: diversas in uências. Há tempos, a colônia deixou de ser fechada. Mas sempre fazemos festividades B anzai Brasil! Banzai Japão! é a história da família Yamauchi. O livro compor a família de seus tios e emigrar para o Brasil. O objetivo do menino de para manter as tradições. Relembramos começa contando sobre 14 anos era trabalhar três anos várias datas importantes no Japão e Tetsuo e Hide, em Okinawa. no Brasil, regressar rico para fazemos muitos encontros ao longo do ano, Correr na praia, ar- o Japão e se casar com Hide. principalmente em São Paulo. remessar pedrinhas no mar, Entretanto, nas lavouras de jogar conversa fora, eram café, a realidade era outra. RG: Como surgiu a vontade de escrever os divertimentos preferi- Então, em 1921, Hide veio o livro? dos deles. ao encontro do seu amado, MCI: Meu pai sempre foi um herói para No verão de 1917, e, no Brasil, deram origem a mim, e minha mãe, minha heroína. Tetsuo foi convidado para quatro gerações de brasileiros.36
  • 36. o menino nota 11 O amor pela Gabriel Armelin parece ser mais matemática um adolescente de 14 anos. Vai à escola, joga vôlei, e sai com os amigos. Está matriculado no 9º ano do Ensino Fundamental e, para o espanto de mui- tos amigos, nas aulas de matemática, Gabriel já sabe a matéria que está sen- do dada. Isso tudo graças às aulas deF azer com que toda pessoa passe a mais simples para as mais complexas. “Dessa gostar de matemática. Este é o objetivo forma, o aluno consegue estudar praticamen-fundamental do método Kumon. te sozinho, sem o auxílio do orientador”. Kumon, que faz desde os oito anos. Hoje, já é concluinte no curso de ma- A matemática, que é o tema central No Kumon, não existe apenas a mate- temática. Na escola, é um dos melhoresdo curso, foi tomada pelo fundador do mática para ser estudada. Após o sucesso do alunos e não se esforça em esconder amétodo como um instrumento para método, foi criado o curso de idiomas. Em facilidade que tem com os números. Noproporcionar à criança o prazer de todos os países, há o curso de inglês e da lín- último simulado, contando com todasestudar. Por meio da educação realizada gua pátria. No caso do Brasil, há o português. as matérias, teve 70% de acerto, além deno lar, no estudo diário, da correção dos Em 1981, foi criado o material de língua pátria ter tirado 11 no boletim no ano passado.próprios erros, ele procurou desenvolver a no Japão. Desde então, foram elaborados em Gabriel explica que o professor deu umcapacidade de estudo do aluno e promover inglês, chinês e português. ponto a mais para resolver uma lição.o autodidatismo. A evolução nos estudos O desenvolvimento da capacidade Juntando com os 10 nas provas, a médiaocorre de acordo com a capacidade e o de leitura e compreensão de textos foi, cou acima do limite.esforço da criança. igualmente, a meta colocada para o estudo Gabriel conquistou o título mais Atualmente, o método Kumon está de línguas estrangeiras. Sueli de Fátima importante: o ouro, que signi ca quedifundido em 41 países, com mais de 25 Justus Sakaguti é orientadora de português alcançou o nível avançado no estudomilhões de alunos. No Brasil, o Kumon na mesma unidade de Amélia e diz que a da matemática. Ele diz que, com oexiste há 30 anos, com cerca de 75 mil alunos prioridade, no ensino de língua pátria, é Kumon, começou a ter mais disciplinaem todo o país. O método Kumon está a ampliação do vocabulário do aluno e o e organização, tanto nos estudos comopresente na cidade de Santos desde 1984. desenvolvimento de sua capacidade de com os afazeres pessoais. Amélia Mitie Sumida Kato foi a primeira compreensão de textos. “Com o auxílio “Minha auto-con ança aumentou,professora de Kumon em Santos e orienta os desses materiais especí cos, o aluno pode quei mais independente. Estabeleci oalunos na Unidade da Pompéia. Ela explica que, desenvolver a capacidade de ler textos hábito diário de estudo”.a cada avanço, a criança pode aumentar a sua originais nesses idiomas”. Gabriel já pensou em desistir doauto-con ança e despertar sua força de vontade Amélia conta que a procura pelas curso. A pressão do método de avaliaçãonos estudos. “Através do “ aulas têm aumentado, e as di culdades encontradas foram as principais reclamações, mas o garoto “método e do material, O KUMON FAZ A principalmente pelo estudovisamos preparar o aluno da matemática. “As idades garante que conseguiu completar por PESSOA PENSAR MAIS causa do incentivo da mãe.para enfrentar não só os se misturam e os motivos RÁPIDO. O método Kumon foi tão e cienteestudos, mas os problemas pelo interesse são dosda própria vida”. mais diversos. Muitos pais na educação de Gabriel, que há 3 anos O aluno, ao ingressar no Kumon, faz procuram o Kumon por indicação de profes- resolveu entrar nas aulas de inglês.um teste para apontar qual deverá ser o pon- sores da escola, recomendação médica para Atualmente, está no último estágio eto de partida no estudo. Essa determinação crianças hiperativas e até para pessoas idosas, pretende se matricular no português.de nível é feita de acordo com a capacidade com o intuito de ativar a memória”. “Me identi quei com o método, meatual do aluno, sendo que a série escolar A pressão do vestibular e de concursos ajuda na escola e na vida pessoal”.praticamente não é considerada. também leva os candidatos a procurarem o O curso é dividido em 21 estágios, método. “O kumon faz a pessoa pensar maise cada um tem 200 folhas a serem rápido. Sendo assim, colabora na organizaçãotrabalhadas. Ao nal, o aluno passa para dos estudos e no fácil entendimento daso próximo estágio. Os assuntos estudados outras matérias”, explica Amélia.vão desde sequências numéricas e O autor, Toru Kumon, fez matemáticaoperações simples até nível universitário. na Universidade Imperial de Osaka. EmO aluno frequenta a unidade duas vezes 1954, iniciou a orientação de seu lho. Empor semana, no horário que lhe é mais 1956, abriu a primeira unidade do Kumon,conveniente, e tem 50 minutos de aula. na cidade de Moriguchi. Em 1958, fundou o “Em uma classe, há alunos de diversas Kumon Instituto de Educação e, através doidades e de estágios diferentes, já que cada um método de estudo desenvolveu um grandetrabalha com o seu material”, diz Amélia. O número de alunos. Em 1974, foi aberta amaterial é elaborado de modo a dosar o nível primeira unidade do Kumon fora do Japão.de di culdade da matemática. Essas di culda- Desde então, método vem se expandindo GABRIEL ESTUDA, PELO MENOS, 30 MINUTOS TODO DIAdes são colocadas em ordem crescente, da por todo o mundo. 37
  • 37. A orquestra vaziaA música sempre foi muito presente na cultura nipônica. Portanto, nada maiscomum que, desde 1908, quando o Kasato- edição. O evento sempre é realizado no clube AtlantaMaru aportou em Santos, a música já e, nesta edição,integrasse o cotidiano dos colonos. Como a contou com a par-maioria dos imigrantes veio de regiões rurais, ticipação de maiscomo Okinawa, muitas festividades típicas de 200 pessoas,japonesas também vieram na bagagem. tudo organizado Em praticamente todos os eventos; pela colônia comaniversários, casamentos, nascimentos, o intuito de reunirinaugurações; os japoneses reuniam-se e todas as famílias.começavam a improvisar canções enquanto O festival, quea “plateia” conversava, dançava e marcava o dura um dia inteiro,ritmo com palmas, único acompanhamento não funciona co-musical para o “cantor”. mo um concurso, Em Santos, a Associação Japonesa tenta é apenas uma mos-manter esse costume vivo ao reunir seus tra de talentos.membros e convidados todas as primeiras Os “artistas” sãoquartas-feiras de cada mês, na sede da apresentados aoassociação. Eles fazem o chamado montiori, público nas duasuma espécie de festa americana, em que línguas, portuguêscada um leva um doce, salgado ou bebida. e japonês, e cantam Segundo o professor de língua apenas em japonês.japonesa da Associação, Nobuaki Ka- As apresentaçõesnesaki, os principais objetivos do evento podem ser solo,são aproximar os membros da colônia e em grupo ou coral e também há mostras facilitando cantores menos preparados,resgatar as tradições. “Pretendemos or- de teatro, taikô, danças típicas e karaokê só surgiu em 1970.ganizar outros eventos assim. As pessoas acompanhado de shamisen. Para os membros da colônia e al-vem e acabamos criando laços mais fortes O karaokê, da maneira que conhe- guns curiosos, é uma atividade levadanesses eventos”. cemos, e que é usado nas reuniões da muito a sério, tanto que desde 1989, Além disso, a Associação Atlética de associação, com o acompanhamen- existe a União Paulista de Karaokê (UPK),Okinawa de Santos organiza um Festival to mecânico e gravações, geralmente, com o objetivo de unificar padrões dede Música, que es-te ano teve sua 29ª meio ou um tom abaixo do original, julgamento nas competições. Assim como em outras modalida- des, como as artes marciais, ikebana, shodô, há uma graduação para avaliar os cantores, de acordo com os progressos, os cantores são quali cados, em ordem crescente, nas categorias B, A, Especial, Extra e Superextra. O karaokê cou mais conhecido entre os brasileiros a partir da década de 80 por conta dos programas de televisão “Japan Pop Show” e “Imagens do Japão” que aliavam a exibição de programas musicais da rede japonesa NHK a shows de calouros da colônia. Karaokê é uma combinação de duas palavras abreviadas: “KARA”, que vem de karappo e signi ca “vazio” e “OKE”, que vem de okesutura e sig- ni ca “orquestra”.38