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Momografia 2012 sobre alcoolismo (história), e a mudança de paradigma a partir da Irmandade mundialmente conhecida como Alcoólicos Anônimos - para pesquisadores do tema e sociedade, além dos familiares de alcoólicos e adctos, mostrando um pouco do que é alcoolismo/ adcção e a recuperação através dos grupos de mutua ajuda: Alcoólicos Anônimos.

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  • 1. 1ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PARADIGMA NA HISTÓRIA DO ALCOOLISMO Carmen Lígia Vila Nova Santos Orientador: Prof. Luís Eduardo Pina LimaCentro de Educação e Ciências Humanas - Departamento de História Universidade Federal de Sergipe Avenida Marechal Rondon s/n – Jardim Rosa Elze – Cidade Universitária Professor José Aloísio de Campos – São Cristóvão SE Telefone: (79) 2105-6408 Fax: (79) 2105-6474 e-mail: reitor@ufs.br ARACAJU 2012
  • 2. 2ALCOÓLICOS ANÔNIMOS: A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO PARADIGMA NA HISTÓRIA DO ALCOOLISMORESUMONeste trabalho apresentamos uma parcela significativa da história do alcoolismo, sendo aIrmandade dos Alcoólicos Anônimos nosso objeto de estudo. Ao contarmos a históriasingular desta Irmandade, perspectivamos mostrar a revolução empreendida por àqueles quecomeçaram esse movimento, ou seja, Bill Wilson, Drº. Bob, e os bons veteranos a partir de1935. Bill apresentou de forma sistematizada como obter um despertar espiritual, idéiadefendida pelo psicólogo William James, sendo que Bill Wilson criou um Método paraconseguir esse despertar, independentemente do credo religioso, até mesmo na ausência dacrença em um Deus. Atualmente é utilizado por outras Irmandades conhecidas como gruposde ajuda mútua, e por diversos segmentos profissionais, ou seja, psicólogos, religiosos, etc.,buscando a recuperação de diversas doenças com características compulsivas. Portanto, umrico objeto de estudo para ser pesquisado e compreendido nas universidades, porque se aindanão existe uma cura para a doença do alcoolismo temos uma “terapia” nas salas de AlcoólicosAnônimos. Eis Alcoólicos Anônimos, um objeto que quantitativamente comprova suaeficácia, que deverá ser objeto de maiores pesquisas muito em breve dentro das academias.Aqui fica uma singela contribuição neste sentido, acreditando na Extensão desta monografia asociedade, agradecendo à mesma pela oportunidade de ter estudado em uma universidadepública de qualidade.Palavras-chave: Alcoólicos Anônimos; Recuperação; Ajuda Mútua; Método; Terapia.
  • 3. 3 ALCOHOLICS ANONYMOUS: THE CONSTRUCTION OF A NEW PARADIGM IN THE HISTORY OF ALCOHOLISMABSTRACTThis work presents a significant history of alcoholism, and the Fellowship of AlcoholicsAnonymous our object of study. In telling the story of this unique fellowship, perspectivesshow the revolution brought about by those who started this movement, in other words, BillWilson, Drº. No. Bob, and good veterans in 1935. Bill presented in a systematic way how toget a spiritual awakening, an idea championed by psychologist William James, and BillWilson has created a method to achieve this awakening, regardless of religious belief, even inthe absence of belief in one God. It is currently used by other brotherhoods known as self-helpgroups, and various professional segments, in other words, psychologists, religious, etc..,Seeking the recovery of several diseases with compulsive features. Therefore, a rich subjectmatter to be researched and understood in universities, because if there is still no cure for thedisease of alcoholism have a "therapy" in the rooms of Alcoholics Anonymous. Here isAlcoholics Anonymous, an object that quantitatively demonstrates its effectiveness, whichshould be the subject of further research very soon within the academies. Here is a simplecontribution in this direction, believing in the extension of this monograph society, thankingthe same for the opportunity to have studied at a public university quality.Keywords: Alcoholics Anonymous, Recovery, Mutual Aid, Method, Therapy.
  • 4. 4 AGRADECIMENTOSAgradeço a Deus e aos meus pais o dom da vida: Minha mãe Ligia Vila Nova e ao RooseveltSantos, meu pai que tanto amo, conhecido carinhosamente por Bolinha, que reside emItabaianinha.Ao meu avô paterno (in memorian) que não conheci em vida e minha avó paterna Maria (inmemorian) que deu a luz ao ser mais iluminado em minha vida, meu pai. Àquele último queno meio de avassalador temporal, olhou por mim e tinha muita fé que eu reagiria. Meu paiBolinha, sobrevivi, estou aqui, formando-me em uma Universidade Federal e acreditando navida!Ao homem que criou meu pai, conhecido carinhosamente por Zeca Casquinha (in memorian),que também faz parte da história da minha vida. Infelizmente não o conheci, pois não havianascido ainda...Minhas avós Gertrudes (in memorian) que criou o meu pai e Maria Vila Nova (in memorian),essa avó materna.Ao meu avô materno, que mesmo estando vivo não conheci na vida. Ainda assim agradeçopela vida da minha mãe, esta que me deu o dom de estar neste plano.E a minha mãe, que posso dizer? Àquela que me fez quando criança, cedo acordar, ensinandoa amarrar cadarços de tênis e ir para a escolinha. Graças ao ABC e ao teu esforço em me verestudando, estou aqui, e até sei fazer singelas poesias. Obrigada mãe. Ser letrada passou porseu esforço, sua garra.Aos Meus irmãos, Ruy, Juliana e Eduardo, por cada qual me ensinar algo. E a irmã Carla VilaNova, dez anos mais nova, que com seu exemplo de maturidade, esforço e amor ao saber,mostrou-me que podemos vencer dificuldades e ir além. Podemos enfim, nos vencer!Irmãos nos fazem, ainda que “forçosamente” ver além do próprio umbigo, e podem vir a sernossos melhores amigos. O Tempo há de nos convencer...Aos familiares, obrigada pelo ombro amigo, como o da minha querida tia (e Mãe) Zefinha.Minha tia Guil, Marisa e ao meu tio Lairton, este que está aqui para ver minha colação degrau, “ainda em vida”.Aos familiares maternos estendo minha gratidão. Lembrando da minha prima Anete por quemtenho grande estima. E minha pequena e graciosa priminha Letícia que adora desenhar,rabiscar, e com aqueles olhinhos me fez ver tantas vezes a esperança que eu não conseguia
  • 5. 5reencontrar por conta dos percalços da vida. Olhinhos da Ana Letícia... Boas lembranças deItabaianinha!Obrigada à minha madrinha (dinda) Karen V. A Tia Anilza e seus filhos Lilythe e Mykael, etodos que integram o lado paterno da família: Tia Guizo, Tia Zete e companhia. Meu sinceroagradecimento pela acolhida.Aos amigos, eterna gratidão pelos incentivos: João Teles, Regiane, Mábia, e a Claúdia (UFS)tão querida. Sérgio Lopes, também meu amigo-irmão, Antônio Everton, Maércio, Gerson,Ivan, amigos que de perto ou de longe, sempre estão presentes.Também ao Carlos Alberto por hoje fazer parte de minha vida. Tantos que por questão deespaço aqui não vou citar, mas em meu coração sempre vão estar.Todos àqueles com que estudei ainda na Unit como meu inesquecível amigo Cruz (Estância-Unit), e àqueles do curso aqui na UFS. Compartilhamos incertezas, provas e conquistas. Osexemplos compartilhados serão sempre uma estrela guia.Aos Mestres da UFS, obrigada por estarem lá orquestrando o processo, ofertando-nos, acimade tudo, perspectivas. Em especial, Prof. Marcos Silva, Prof. Claudefranklin M., Prof.Lindivaldo, Prof.ª(a). Célia, e Prof. Bruno, Que no ano de 2011 muito me ensinaram, cheiosde disposição e alegria!Aos vizinhos Marluce e Joãozinho (empresário forte de Itabaianinha. E ao amigo Sordeco eVanete (que é parte essencial da minha “família”) porque meus amigos também são minhafamília!Obrigada. Todos vocês trouxeram força aos meus dias.E ao vizinho Zé, continue estudando. Quero ver você se formar. Será que em teatro?Aos amigos da “escola da vida”, sem exceção, agradeço a todos vocês, verdadeira companhiailuminada.Aos que oferecem a mão amiga, como comprovo na Irmandade dos Alcoólicos, serenidade,coragem, sabedoria. Aqui agradeço pela acolhida.Agradecimento especial ao Professor que amo fraternalmente e toda vida, meu orientador semigual: Eduardo Pina.E minha professorinha da 2ª série do primário Eli. Nunca a esqueci.Também agradeço àquela que me fez sentir vontade em cursar História, ainda na oitava sériedo fundamental no Colégio Gonçalo Rolemberg. Estou falando da Professora Jeane, exemplosem igual.E o meu agradecimento especial para uma grande amiga, parte especial em meus dias: DonaValdelice, obrigada pelas palavras tão bem direcionadas, orientação abençoada nos novos dias
  • 6. 6que tento abraçar, deixando morrer o velho ser, pedindo a Deus um coração pleno de amor,perdão e fé no sol que se anuncia.Ao seu filho Carlos André (Cacá): seremos amigos para sempre onde estivermos, podeacreditar!Gratidão: Ao dom da vida, de existir, persistir e nunca desistir, e contar ao mundo um poucoda minha História.Meu Diploma para coroar longa espera, para me profissionalizar, enfeitar a sala de estar, equiçá, ser feliz sem mais espera.Enfim, que esta monografia chegue aos que sofrem pelo uso abusivo do álcool, mesmo comoutras drogas, ou àqueles que sofrem qualquer tipo de compulsão e suas famílias, servindonão apenas como Extensão Universitária, mas sendo mais um testemunho que a históriatransforma-se, e existem chances reais de se viver longe das dependências mortais que sealastram cada vez mais, como epidemia.A Irmandade dos Alcoólicos Anônimos mostra que é possível viver sem o álcool: venha aacreditar, também, e divulguem esta práxis efetiva.
  • 7. 7 SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................82 MATERIAL E MÉTODOS.................................................................................................11 2.1 Os Alcoólicos como objeto da História...................................................................11 2.2 A construção da História desses Anônimos e o tempo presente.............................20 2.3 Alcoolismo: reflexos na sociedade..........................................................................233 ALCOOLISMO: AVERIGUAÇÕES PARA UM POSSÍVEL “DIAGNÓSTICO”......27 3.1 Alcoólicos Anônimos: uma saída do isolamento....................................................294 ALCOOLISMO E SUAS VARIANTES.........................................................................32 4.1 Viemos a creditar: um modo de vida para recuperação do doentealcoolista.........................................................................................................................33 4.2 Alcoolismo e sua “evolução” na história: o alcoólatra como insano.....................38 4.3 A revolução discursiva de Bill Wilson: uma possível síntese para a história doalcoolismo........................................................................................................................445 RESULTADOS E DISCUSSÕES.................................................................................536 CONCLUSÕES....................................................................................................................56REFERÊNCIAS......................................................................................................................63
  • 8. 81 INTRODUÇÃO Alcoólicos, tidos como “vagabundos e errantes” desde tempos imemoriáveis. Apartir de 1935 esta visão para os alcoolistas não será mais a mesma, por causa de ummovimento que começou com um indivíduo leigo buscando respostas: estamos falando deBill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955). Verdade é que não faltam elogios à suainiciativa; falta a validação científica do “Método” inaugurado por ele juntamente com oDoutor Bob Smith, e os primeiros membros, a partir do ano de 1935 (ALCOÓLICOSANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE, 1994), movimento que se transformou naIrmandade que ficou mundialmente conhecida como Alcoólicos Anônimos (A.A.), baseadaem grupos de mútua ajuda, que poderia ser sintetizada como uma “terapia” entre iguais(alcoólicos em recuperação), que utilizam essencialmente Os Doze Passos. Com a História dos Annales, também com o uso da História das mentalidades,podemos observar as singularidades surgidas no século XX para recuperação dos mesmos:uma verdadeira revolução. Faltam maiores estudos acadêmicos que se debrucem sobre esta Irmandadesingular, que deveria estar sendo discutido nas Academias, principalmente nas áreas daMedicina e Psicologia, pela experiência transformadora no indivíduo alcoolista. A validaçãodeste “Método”, por exemplo, poderia abrir um novo campo de conhecimento, provavelmentemostrando uma nova via de recuperação para os problemas relacionados a diversascompulsões, quiçá transtornos mentais. Os grupos de Alcoólicos Anônimos apresentam uma mudança de paradigma nahistória do alcoolismo, porque até o surgimento desta Irmandade, a perspectiva, via de regra,era que uma pessoa que tivesse problemas relacionados ao uso abusivo de álcool, nãoconseguiria estacionar o seu distúrbio compulsivo. A medicina dos dias atuais não traz uma melhora significativa para quem sofrecom o uso abusivo do álcool, apenas um paliativo em caso de intoxicação pelo mesmo,objetivando o restabelecimento da degeneração física, quando os alcoolistas chegam emhospitais. Porém, assim que recebe alta, a maioria destes pacientes voltam a ingerir a bebidaalcoólica. A religião mostra casos de recuperação assim como a psicologia, que são de fatomais expressivos quando ambos fazem um liame com “Os Doze Passos”; tanto as diversas
  • 9. 9religiões quanto a psicologia, ao adaptarem o “Método” desta Irmandade, mostram asociedade resultados mais animadores. Para analisar essa história, e a mudança paradigmática ocorrida com o surgimentode Alcoólicos Anônimos, utilizamos as concepções propostas pelos Annales, com algumasdas ferramentas sugeridas pelas diversas gerações desta escola, especialmente a História dasMentalidades. A base investigativa nesse trabalho será a partir da literatura deixada por umdos seus co-fundadores, Bill Wilson. (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE AMAIORIDADE, 1994), que continua a ser reproduzida nos espaços desta Irmandade. Também utilizaremos dados de especialistas da medicina e sociologia sobre oalcoolismo no presente e passado. Além disso, fizemos pesquisa de campo, frequentando assalas de Alcoólicos Anônimos de nosso estado (Sergipe). Percebendo que a base para a recuperação do doente alcoolista está relacionadacom a premissa do despertar espiritual verificado nas salas de A.A. dos dias atuais,constatamos que esta teoria foi percebida e propagada pelos pioneiros, tornando-se o alicercedo inconsciente coletivo da mesma. Mostraremos alguns aspectos que permeiam este ideário,que foi imensamente influenciado pelas teorias do psicólogo William James, no livro “AsVariedades da Experiência Religiosa” (JAMES, 1991). Assim, essa obra foi a maiorinspiração para o novo “Método” inaugurado por esta Irmandade, ainda na década de 30 doséculo XX. Possivelmente, a revolucionária contribuição de Bill Wilson, Drº Bob (co-fundadores) e dos membros veteranos desta Irmandade (AAs), foi apresentar um Método paraconseguir-se um despertar espiritual, esse contido nos Doze Passos, de forma sistematizada,independentemente do credo religioso, até mesmo na ausência da crença em um Deus.Atualmente é utilizado por outras Irmandades conhecidas como grupos de ajuda mútua, e pordiversos segmentos profissionais, ou seja, psicólogos, religiosos, etc., buscando a recuperaçãode diversas doenças com características compulsivas. Buscaremos relatar alguns fatos sobre o alcoolismo no decorrer da história,culminando com a criação dos Alcoólicos Anônimos, evidenciando um dos co-fundadoresdessa Irmandade, Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955), que foi o responsávelpelo registro daquela experiência que aconteceu no inconsciente coletivo do movimento.Provavelmente, por causa da descrição dessas vivências, que continuam contidas na Literaturada Irmandade, esta conseguiu manter até nossos dias a essência da recuperação para aquelesque sofrem do alcoolismo. Assim, a Literatura não é simplesmente um documento histórico,mas um recurso imprescindível para a perpetuação deste modo de vida, principalmente para
  • 10. 10àqueles que vierem a sofrer desta doença nas futuras gerações que nos sucederão. Se no futuronão for descoberta uma cura para o alcoolismo, ficará um “Método” de recuperação.Esperamos que esse modesto trabalho possa ter real utilidade, no sentido de divulgar cada vezmais essa Irmandade que vem salvando inúmeras vidas, e dos seus familiares por extensão.Enfim, que a mão amiga de Alcoólicos Anônimos, e dos demais grupos de mútua ajuda, possachegar aos que necessitam de recuperação. Em nossa pesquisa, observamos que no contexto da sociedade brasileira nãoexistem práticas educativas formais propagadas pelo Governo, com uma perspectivaeducacional, ou seja, medidas de esclarecimento dos males provocados pelo álcool emescolas, associações comunitárias, etc.; paulatinamente a verba pública destinada aosproblemas com alcoolismo vai diminuindo, havendo aumento considerável de investimentospara tratamento de usuários de drogas ilícitas, o que é preocupante, porque o número dealcoolistas é maior do que dependentes químicos em nosso país. Acreditamos na possibilidade de uma intervenção social formada por profissionaisque trabalham com esta doença, ou seja, médicos, psicólogos, assistentes sociais, fazendo umtrabalho conjuntamente com membros de Alcoólicos Anônimos, e com os familiares dealcoólicos que estão em recuperação na Irmandade conhecida como Al-Anon, e por extensão,com todos os indivíduos da sociedade que se interessem pela temática da prevenção sobre osmalefícios do álcool, e recuperação dos alcoolistas. Portanto, todos estes atores sociais poderão levar informação não apenas emhospitais, mas em escolas, associações, etc., apresentando as possíveis soluções quando adoença já é um fato, ou seja, evidenciando o Método sugerido pelos Alcoólicos Anônimos.Este trabalho dentro da Irmandade de A.A. é conhecido como CTO, que significa ComitêTrabalhando com os Outros, objetivando levar a mensagem dessa Irmandade aos bebedoresproblema que ainda sofrem, muitas vezes por falta de informação. Neste aspecto nossamonografia tem como objetivo maior a extensão dos conhecimentos aqui reunidos, e queesses possam auxiliar todos àqueles que estejam preocupados com esta temática.
  • 11. 112 MATERIAL E MÉTODOS2.1 Os Alcoólicos como objeto da História Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) é inovador, com referência aosdiversos estudos que fez e pelo novo “Método” que formulou. Inovou ao encontrar umcaminho, buscando organizar as realidades facetadas dos diversos conceitos já empreendidos,fazendo com que estes convergissem para uma solução no que tange a abandonar o bebercompulsivo. Assim, construiu uma nova práxis para encarar o alcoolismo, afirmado essecomo doença antes da ciência comprovar; através da análise e prática de diversas teorias,condensou em medidas para estacionar esta enfermidade, que ainda traz consigo o estigma daleviandade, da irresponsabilidade, também do menosprezo da família e da sociedade, mesmona atualidade. A solução, antes um conjunto coerente de idéias, mesmo que divergentes, ou seja,paradoxais, propõe trazer libertação do indivíduo no tocante ao beber compulsivo: umaresposta que parece apenas a ponta do iceberg. De fato uma porta entreaberta, que dápossibilidade ao alcoolista de se recuperar. Tudo o que precisamos é a chave e a decisão de abrir a porta. Existe apenas uma só chave e se chama boa vontade. Uma vez usada a chave da boa vontade, a porta se abre quase que sozinha. Olhando-se através dela, ver-se-á um caminho ao lado de uma inscrição que diz: Eis o caminho em direção àquela fé que realmente funciona. [...] Vimos que éramos impotentes perante o álcool, mas também percebemos que alguma espécie de fé, mesmo que fosse somente em A.A., estava ao alcance de qualquer um (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p.29). Este viés, que para um leigo soará como uma simples terapia, não explicita estefenômeno hoje mundialmente conhecido, com bem mais de dois milhões de pessoas emrecuperação por todo o globo, conhecido como Irmandade dos Alcoólicos Anônimos. Mas oque esta traz de peculiar, mesmo transformador? Calcada fundamentalmente em Doze Passos,
  • 12. 12que foram escritos por Bill Wilson, àquele americano já condenado à morte, que conseguiuficar sem beber e levou uma solução para pessoas que sofriam deste estado compulsivo.Fazendo isso ele salvou a própria vida, e dos milhões que vieram posteriormente a fazer partedesta Irmandade. O livro Os Doze Passos e as Doze Tradições (OS DOZE PASSOS E ASDOZE TRADIÇÕES, 2007) explica sucintamente o que representa os passos. Os Doze Passos de A.A. consistem em um grupo de princípios, espirituais em sua natureza que, se praticados como um modo de vida, podem expulsar a obsessão pela bebida e permitir que o sofredor se torne íntegro, feliz e útil (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p.11). Deste movimento surgiram outras Irmandades que usam como ponto derecuperação os passos e as tradições, cunhadas primeiramente pelos Alcoólicos Anônimos,que tratam das diversas compulsões que atingem milhões de indivíduos em todo o mundo,exemplificando o comer em demasia, ser viciado em jogos, sexo, amar em excesso, até“tomar conta” dos outros, doença denominada como co-dependência. Compulsões que searrastam desde tempos remotos da História, mas apenas no século XX vislumbra-se umasolução: A centelha que iria se tornar o primeiro grupo de A. A. foi acesa em Akron, Ohio, em junho de 1935, durante uma conversa entre um corretor da Bolsa de New York e um médico de Akron. Seis meses antes o corretor havia sido libertado de sua obsessão pela bebida por uma experiência espiritual súbita, após um encontro com um amigo alcoólatra que havia estado em contato com os Grupos Oxford daquela época. Também havia sido grandemente ajudado pelo Dr. William D. Silkworth, um especialista em alcoolismo [...] Deste médico o médico havia aprendido a gravidade do alcoolismo (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955, p. 9). O alcoolismo foi reconhecido pela Organização Mundial de Saúde como doençaincurável, que leva seus portadores inexoravelmente à loucura, ou morte prematura apenas àdécada de 60, ou seja, não existe uma cura para a doença do alcoolismo e seus pares(compulsões): apenas um indulto diário, que apresenta um maior número de recuperações nosgrupos de mútua ajuda. Alcoólicos Anônimos utiliza uma ponte com a Medicina e a Religião,
  • 13. 13agradecendo as mesmas pelas suas inúmeras contribuições (ALCOÓLICOS ANÔNIMOSATINGE A MAIORIDADE, 1994), mas denomina esta ação como cooperação sem afiliação.Mas a Religião, a Medicina e a Ciência, ainda não se debruçaram devidamente sobre estefenômeno, que é possivelmente a melhor resposta adquirida até nossos dias, no tocante aoalcoolismo e demais compulsões. Mais importante seria a Religião, a Medicina, e a Psicologia utilizar os preceitosde Alcoólicos Anônimos sem modificar seus princípios. A Ciência caberia fazer pesquisas, eobservando os mais de dois milhões de recuperações por todo o mundo, haveria umaconsequente validação científica, aceitando-a como um “Método”. Provavelmente issoajudaria para uma maior divulgação dessa Irmandade. Na Vivência (2007) - Revista Brasileirade Alcoólicos Anônimos trouxe a opinião do Dr. Fernando Antônio de Deus, médico e amigodesta Irmandade: Devemos todos, classe médica, educadores, autoridades formadores de opiniões assumirem uma postura responsável e comprometida com o problema. Sabemos que não vamos eliminar o alcoolismo, porém devemos combatê-lo com vigor e entusiasmo. Os médicos em parceria com A.A. têm uma função fundamental neste caso e somente através da união destas forças além da ajuda da família, dos amigos e da força de Deus poderemos ter sucesso no controle desta terrível doença (REVISTA VIVÊNCIA, 2007, p.9). A aceitabilidade pelo programa sugerido por esta Irmandade sofre limitações eainda carece de maior divulgação por parte dos especialistas, o seja, médicos, psicólogos,religiosos, provavelmente como a melhor solução para o alcoolismo na atualidade.Infelizmente, a Irmandade sofre até mesmo modificações em seus pressupostos básicos, comofaz o movimento conhecido como Pastoral da Sobriedade, ligado à Igreja Católica. Nãoqueremos emitir neste exemplo quaisquer juízos de valor, apenas apresentar um dos casos demudança nos preceitos de Alcoólicos Anônimos. A Pastoral da Sobriedade utiliza os passos desta Irmandade para recuperação doseu rebanho alcoolista. O problema que surge é a modificação dos princípios da Irmandade,porque esta aceita em seu rol de membros quaisquer pessoas, independente da fé queprofessam, ainda que sejam ateus. Um movimento como a Pastoral da Sobriedade modificaessa característica, talvez um dos maiores pilares de Alcoólicos Anônimos, porque sugere a
  • 14. 14recuperação do alcoolismo para àqueles que acreditam em um Deus sacramentado naSantíssima Trindade. A Irmandade, contrariamente a tais dogmas, faz uma ligação da recuperação comum Deus de acordo com o entendimento de cada um dos seus membros, usandopreferencialmente a terminologia Poder Superior para Lhe designar, mostrando claramenteuma tendência dialógica com as variadas concepções de fé apresentada pelos membros dentrodo movimento, assegurada na Terceira Tradição: “Para ser membro de A.A., o único requisitoé o desejo de parar de beber” (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007). Um Poder Superior, que poderá ser Deus, Oxalá, até mesmo um simples objeto. Epara os ateus, o Poder Superior fica simbolizado pelo grupo que está em recuperação; emrelação ao recém-chegado este é considerado superior, visto que estão sóbrios. Ainda que osateus, mesmo agnósticos, não mudem sua concepção de Poder Superior com o decorrer dotempo, eles são aceitos em sua singularidade, porque a tradição citada acima explicitapontualmente que o único requisito para se tornar membro de Alcoólicos Anônimos é odesejo de parar de beber. Observemos a Terceira Tradição em sua forma integral: Nossa Irmandade deve incluir todos os que sofrem do alcoolismo. Não podemos, portanto, recusar quem quer que deseje se recuperar. A condição para tornar-se membro não deve nunca depender de dinheiro ou formalidade. Dois ou três alcoólicos quaisquer reunidos em busca de sobriedade podem se autodenominar um grupo de A.A., desde que como grupo não possuam qualquer outra afiliação (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p. 171). Já as tradições seriam os usos e costumes que formam o elo de integração entre osindivíduos desta sociedade, como vemos no prefácio: As Doze Tradições de A.A. dizem respeito à vida da própria Irmandade. Delineiam os meios pelos quais A.A. mantém sua unidade e se relaciona com o mundo exterior, sua forma de viver e desenvolver-se. [...] Há um interesse crescente acerca das Doze Tradições de Alcoólicos Anônimos. Estudiosos de relações humanas começam a perguntar-se como e porque A.A. funciona como uma sociedade (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p. 11).
  • 15. 15 Uma sociedade dentro da sociedade? Sem dúvida, um objeto histórico rico paraanálises. Terá esta Irmandade ao longo do tempo, a maleabilidade para quebrar seu envoltóriopuramente recuperativo de doentes alcoolistas, vindo a emergir como uma nova filosofia?Servirá como um lenitivo para os diversos males que atingem as sociedades no mundocontemporâneo? Assim ocorreu em se tratando de outras compulsões. Mas servirá como umnovo modo de vida, em se tratando da melhoria nas relações sociais? Estas apenas serão frutíferas, mais satisfatórias quando o indivíduo melhorcompreender-se e aceitar-se. Os Doze Passos sugere autoconhecimento, longe dos divãs epróximo a outros companheiros (pessoas que tenham dificuldades semelhantes). Sem dúvida,estes estarão irmanados por um ideal comum: buscar uma vida íntegra, feliz e útil, se levaremadiante a mensagem de recuperação, sem modificar a essência, ou seja, os princípios daIrmandade. Quanto a ajudar diferentes pessoas, os mais variados grupos hoje usam os mesmospassos e tradições de Alcoólicos Anônimos, mas em âmbitos separados: NarcóticosAnônimos (N.A.), focando a recuperação da dependência em drogas; Al-Anon, parafamiliares e amigos de alcoólicos; Comedores Compulsivos Anônimos (C.C.A.), para quemcome demasiadamente, etc. Se um dia os seres considerados normais estarão usando salasparecidas para dividir as angústias e desafios do dia a dia como uma nova terapia para se vivermelhor, isto é um capítulo a ser escrito, ficando a cargo do tempo futuro, porque nossasconstatações caberão sobre averiguações no passado. Lançamos aqui possibilidades porque ao nos debruçarmos sobre essa temática, amesma desperta certa sensibilidade filosófica, ainda que seja basicamente histórica nossaanálise; este objeto nos sugere novos caminhos para a nossa sociedade que poderão serpercorridos ainda no tempo presente, simplesmente por uma questão de sobrevivência. O maisinteressante: sendo anônima esta participação dos membros! O indivíduo é anônimo, mas fazparte de uma unidade, ou seja, uma coletividade chamada Alcoólicos Anônimos, ou outraIrmandade que siga os mesmos preceitos. Salientando que esta unidade perpassa uminconsciente coletivo, em um novo modo de vida, como expresso nas Irmandades quetrabalham com Os Doze Passos e as Doze Tradições. O chamamos “Método” por ele apresentar um caminho consciente e sistematizadona busca da recuperação do alcoolista, ainda que pela via espiritualista. Mas salientamos quemétodo, no sentido literal da palavra não nos cabe neste contexto; aqui apenas observamosque esta Irmandade tem seu Método, que um dia poderá estar sendo usado sem aspas, deforma literal, inclusive nos meios científicos e acadêmicos.
  • 16. 16 Vamos observar a Ciência: quando tenra criança foi ridicularizada pela “MadreIgreja”. Hoje, o Saber Científico, provedor, fez-se o próprio “Pai da Racionalidade”, e talveznão queira enxergar os brotos que surgem vigorosos noutros campos, porque esses sãoaparentemente destoantes do seu discurso dominante. E apenas o tempo mostra se os “brotos”,ou idéias-força vingarão nas universidades, ou ficarão apenas nas narrativas que as futurasgerações contarão, como um conhecimento leigo, ainda que funcione muito bem. A esperança, na verdade, é de que as futuras gerações estarão aqui, agindo econtando histórias, porque estas sim, se eternizarão – fora ou dentro das academias.Preferencialmente, que nos dias vindouros exista mais comunicação do saber leigo dentro dasacademias, e que se sua funcionalidade seja observada, que a mesma venha a ser uma práticaentre profissionais, já que os métodos científicos em voga não estão solucionando, de fato, osproblemas com alcoolismo e doenças semelhantes. Se encarado como um novo modo de vida para os alcoolistas, e por extensão, paraos doentes compulsivos que está dando certo, vislumbramos que nossos pares, ligados à áreade História e das ciências correlatas, principalmente sociais, em breve irão se debruçar sobreeste movimento aparentemente recente, mas que traz em sua gênese uma possibilidademodificadora do status quo em vigência. Ao observar nossa sociedade, cada vez maismarcada por xenofobia e acirramento de questões, sejam de ordem política, ideológica, etc.;percebemos que a mesma, em certa óptica, também está enferma. Ao procurarmos soluções edirecionamento não excludentes, mas sim integradores, que respeite a individualidade comsuas peculiaridades intrínsecas, porém buscando uma convivência pacífica entre as diversaspessoas, vemos nos AAs sugestões valiosas, bem mais que temas filosóficos ouaparentemente “religiosos”. Ressaltamos que quando escrevemos AAs sem ponto nosreferimos aos membros. Sabemos da dificuldade em analisar um objeto tão diversificado, porém nãovemos aqui um relato biográfico dos seus co-fundadores, ou junção dos principais eventosocorridos dentro da Irmandade chamada Alcoólicos Anônimos até nossos dias; antes aperspectiva de observar a transformação deste movimento ao longo do tempo, que no nossoentendimento pode representar uma quebra, ou seja, uma ruptura com duas facetas que vemorientando nossa sociedade ocidental há muito, a se dizer, a religião e a ciência: àquela comonorteadora durante séculos, dominante com seus preceitos e dogmas, já o cientificismorompendo ferozmente com os preceitos religiosos, para sua aceitabilidade concretizar-se. Infelizmente a ciência e o progresso, obviamente com suas boas conseqüências,trouxeram para a mesma os defeitos da religiosidade, fazendo com que suas averiguações
  • 17. 17sejam uma certeza quase inquestionável, ou mesmo a última palavra para as questões dahumanidade. Alcoólicos Anônimos parece-nos uma ruptura com um paradigma tão eloquentecomo o da religião, e daquilo que está empiricamente comprovado com o aval da ciência,mais especificamente a medicina. Esta Irmandade usa conceito de ambas, e ainda assim,subverte pilares fundamentais, tanto da religião, quanto da ciência e medicina em voga. A recuperação em Alcoólicos Anônimos parte da noção de um Poder Superiorpara devolução de uma sanidade perdida no alcoolismo ativo: independente da fé que seprofesse, ou mesmo na ausência desta, vê-se a recuperação da doença através do despertarespiritual, conceito fundamentado nas teorias do psicólogo William James, (JAMES, 1991),ou seja, um caminho que a ciência não baliza como um Método para melhoria no quadro dadoença chamada alcoolismo. Mais interessante é ressaltar que à década de 1930, o então incipiente movimentojá pontuava o alcoolismo como doença, fato que só veio a ser reconhecido pelas AssociaçõesMédicas somente à década de 1960, quando a Organização Mundial de Saúde (OMC)apresentou o alcoolismo como doença, mas infelizmente não ofereceu um paliativo. Tambémnão reconheceu em Alcoólicos Anônimos uma terapia eficaz para estacionar estaenfermidade, desde que seu portador tentasse praticar o programa sugerido. O que se vê, na prática, são casos isolados de médicos que reconhecem e sugeremaos seus pacientes com sintomas alcoolistas uma alternativa com maior número derecuperações, ou seja, a Irmandade de Alcoólicos Anônimos. A maior parte dos médicos nãofala sobre Alcoólicos Anônimos. O Doutor William Silkworth (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,1955), foi o primeiro médico a verificar a eficácia deste método, ao falar em valor do mesmo: [...] Eis o que disse o médico-diretor de um grande de um grande hospital norte- americano para recuperação de viciados em álcool e em drogas, em carta escrita especialmente para os Alcoólicos Anônimos: [...] Em fins de 1934 atendi a um paciente que, apesar de ter sido um homem de negócios muito bem sucedido, era um alcoólatra que eu considerava irremediável. Durante o seu terceiro tratamento, ocorreram-lhe certas idéias sobre um possível método de recuperação. Como parte inicial do seu programa de recuperação, começou a expor os seus conceitos a outros alcoólatras, convencendo-os de que, por sua vez, fizesse o mesmo com terceiros. Essa se tornou a base de uma fraternidade que se tem desenvolvido rapidamente. [...] Conheço muitos casos desse tipo, para os quais outros métodos fracassaram completamente. Esses fatos parecem ser de grande importância para a Medicina [...] talvez estejamos assistindo ao momento precursor de uma nova era nos anais do alcoolismo, pois é possível que esses homens tenham o remédio adequado para milhares de casos semelhantes. Pode-se ter absoluta confiança em qualquer testemunho dos Alcoólicos Anônimos sobre eles mesmos (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955, p. 13-14).
  • 18. 18 O fato é que a OMS estava relativamente atrasada em três décadas, em relação aum conhecimento desenvolvido a partir de um “ex-beberrão” com suas observações pessoais.Bill Wilson, (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955), um autodidata, que por sua profundidadede estudos poderia sem sombra de dúvidas ser visto como um filósofo, que fez da própria vidasomada à convivência com outros alcoólicos em recuperação, uma verdadeira pesquisa decampo, levando à humanidade uma solução eficaz no tocante ao alcoolismo. Em breve haveremos de pensar, possivelmente, em uma quebra de ruptura com amedicina dogmática, no tratamento de doenças não meramente físicas, e que fazem dasociedade um campo de perdas incalculáveis; se vislumbramos os óbitos relacionados aoconsumo de álcool em excesso, ou das drogas ilícitas, por extensão, não nos detendo aqui anomear as diversas compulsões já citadas, (comer, sexo compulsivo, etc.) que não são curadaspor quaisquer medicações. Existe a recuperação destes estados mórbidos nos chamadosgrupos de mútua ajuda. Será que Ciência não irá averiguar com acuidade este “Método” derecuperação, apenas por destoar do modelo científico em voga? Quando a ciência irácaminhar lado a lado com a sociedade, oferecendo resoluções? Ou será que a Medicina se validará de discursos, levando aos hospícios (clínicaspsiquiátricas) os alcoólicos que precisam de um grupo de ajuda, e não de alopáticos infindos?Até quando o capital norteará o cientificismo? Este deveria supostamente priorizar a vida. Seem momentos anteriores a religião queimou nas fogueiras “os heréticos”, hoje ainda encerramem hospícios e em quarentenas infindas pessoas que não precisam de remédio e observaçãoem clausuras, mas de uma orientação médica transparente. O que estes podem fazer, a priori,é ajudar no restabelecimento do quadro físico, mesmo desintoxicação. Quanto à obsessãomental pelo álcool, qualquer remédio é mero placebo; por longo prazo poderá vir a ser umsubstituto perigoso. Um médico bem intencionado e informado, simplesmente explicará estacondição da doença, a limitação da ciência, indicando o grupo de Alcoólicos Anônimos maispróximo, isso se partirmos da premissa que este profissional é ético e conhece a Irmandade.Mesmo em casos de neuroses, etc., existem grupos de Neuróticos Anônimos, baseados nosprincípios desta Irmandade. Até quando a medicina segurará o bastão da verdade absoluta? Quando essarelativizará as doenças de acordo com a natureza das mesmas e suas especificidadesintrínsecas? Não mais utilizando métodos obsoletos que não trazem alívio aos doentesalcoólicos, compulsivos, adictos, neuróticos, etc., que engrossam o número de pacientes tidoscomo casos para psiquiatria. Seria a psiquiatria, na maior parte dos casos, o novo tribunal deinquisição da contemporaneidade? Szasz (SZASZ, 1984) afirma que sim! Em seu livro A
  • 19. 19fabricação da loucura, faz um paralelo da insanidade dos tempos modernos como substituta daInquisição e caça as bruxas. Tantos questionamentos não haverão de ser respondidos aqui, porque taissubsídios para respostas concretas estão em nossa atualidade mais no campo das hipóteses,isso às vezes por mero comodismo dos estudiosos, em rever as práticas arcaicas de certossegmentos da ciência. Estas e outras questões que poderão surgir no transcorrer deste trabalhode caráter histórico perpassam o inconsciente coletivo de nossa sociedade, que perguntaincansavelmente até quando a ciência estará mais para o capital do que para a preservação davida. Quando a ciência mostrará soluções, invés de internações, mutilações, e segregações? Quando a ciência for a favor da vida, esta não vai tratar compulsões comalopáticos, meras substituições enganosas. Exemplificamos a redução de danos, que hoje épropagada no meio psiquiátrico, nos famosos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), queparecem funcionar como uma substituição aos tenebrosos manicômios. A redução de danossugere a substituição de drogas ilícitas por outras consideradas mais leves. Normalmentereceitam-se alopáticos, fomentando uma indústria poderosa, ou seja, a Farmacêutica. Quandoa Ciência descerá do seu pedestal, representando o próprio Deus encarnado na Terra? ACiência possui sua esfera de poder firmada em um saber que muitas vezes é alienador, masquando esta se debruçará sobre teorias relativizadas, com um proceder diversificado (e quefuncionam), como sugeriu Jung, William James, e como propõe a Irmandade dos AlcoólicosAnônimos? Alcoólicos Anônimos utiliza subsídios da ciência, espiritualidade (e nãoreligiosidade), sugerindo um novo modo de vida; não poderá ser definido apenas comofilosofia. Ultrapassando o terreno das abstrações e da metafísica, em plano empíricocomprova a eficácia do seu “Método”, com mais de dois milhões de pessoas em francarecuperação nos nossos dias. O preâmbulo da Irmandade define o que é AlcoólicosAnônimos: Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo. O único requisito para tornar-se membro é o desejo de parar de beber. Para ser membro de A.A. não há taxas ou mensalidades. Somos auto-suficientes, graças às nossas próprias contribuições. A.A. não está ligada a nenhuma seita ou religião, nenhum movimento político ou instituição; não deseja entrar em qualquer controvérsia; não apóia nem combate quaisquer causas. Nosso propósito primordial é mantermo-nos sóbrios e ajudarmos outros alcoólicos a alcançarem a sobriedade (VIVER SÓBRIO, 2006).
  • 20. 20 Alcoólicos Anônimos não traz a solução para todos os problemas que afligem ahumanidade, mas possivelmente poderá algum dia ser um método para se viver maisplenamente em sociedade; em se tratando do alcoolismo, sem sombras de dúvida, agrega omaior número de recuperações, mesmo sendo um movimento relativamente novo, e atípico.Um sedutor objeto de estudo, apesar de seu teor paradoxal: não temos ainda a dimensão realda repercussão desse movimento, talvez por trazer em si toda incongruência de um quadrosocial que não poderá ser lido buscando opiniões dos historiadores nesta área (alcoolismo erecuperação), pela ausência nesse campo. Antes buscamos fontes primárias no interior dopróprio movimento, além opiniões médicas e sociológicas, que são a favor desta pragmática. Aqui se dará uma pesquisa multifacetada, onde a investigação talvez seja maisárdua, dado ao objeto ser contemporâneo, ou seja, dialogando diretamente com o presentehistórico. Esta análise não é um mero olhar para o passado, mas como este passado está sendoconstruído no hoje. Essencialmente, uma História do Presente, dado nosso objeto serrelativamente novo: este ano a Irmandade fez 76 anos de existência.2.2 A construção da História desses Anônimos e o tempo presente Segundo Chauveau e Tétart (CHAUVEAU, 1999, p.33), no livro Questões para ahistória do presente: “Não se trata, portanto, de discutir o valor real dos fatos históricos, massua percepção e as condições históricas nas e pelas quais eles são percebidos”. De fato, sãomuitos os quadros da sociedade que precisam ser percebidos, mas para isso precisamos nosdesvencilhar de qualquer olhar positivista sobre estes novos objetos que se apresentaminsistentemente ao nosso olhar. Antes fazer uso das ferramentas ainda inovadoras, como nossugeriu a escola francesa, que se não entram em uso de forma apropriada “enferrujam”,ficando obsoletas. Os Annales, com sua introdução a novos métodos de pesquisa, é de ondepartiremos, como pesquisadores em nosso tempo, tentando desbravar aspectos maissubjetivos, que possam vir a revelar o lado mais intimista do indivíduo em seu coletivo. Ahistória vista de baixo não trará heróis, ou personagens emblemáticos que tem o poder detransmutar o curso da história, porém atores ativos, pessoas comuns e transformadores em seu
  • 21. 21tempo, não meros coadjuvantes do desenrolar histórico: assim o são os homossexuais, asmulheres, as minorias propositalmente esquecidas pela história, também os alcoólicos. Porémcom voz que emerge para além de sua micro-realidade, porque a escola francesa deixou-nosesta ótima herança cultural que podemos designar de novas perspectivas, com novos olharessobre cidadãos comuns que fazem uma ruptura em seu tempo. A história das minorias, interesse de grande instância na perspectiva da escolafrancesa, poderá nos revelar também o quadro do “anti-herói”, aquele ser que desprovido dequaisquer possibilidades de fazer parte da coesão social, se transforma em catalisador de umprocesso novo, com um divergente modo de proceder dentro de um quadro já previamenteestabelecido. Em nosso objeto de estudo, este fenômeno inovador conta como os co-fundadoresBill Wilson e Bob Smith (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955), que são catalisadores de umevento inovador que veio a se chamar Alcoólicos Anônimos: Bêbados estigmatizados, jádespossuídos, sem identidade, suportados na sociedade. Quando em recuperação serãoanônimos, mas levando a palavra que ajuda o alcoólatra sofredor. Privilegia-se assim o não-profissionalismo, para enfatizar a necessidade de se levar a mensagem adiante: os anônimosna História. Anônimos que fazem um elo de recuperação, dia após dia, em um programa devida, para toda a vida. Anônimos, como a maior parte da população mundial. Assim, quando não existiam respostas poderão surgir estes indivíduos, quepartindo de uma micro-realidade, conseguem aglutinar elos de uma mesma corrente do todofragmentado, que à primeira vista parece incoerente. Dando um salto quântico na história,podem colocar em xeque um paradigma tão fortemente constituído, a se saber, a ciência comotal é apresentada, como palavra final de verdades incontestáveis, como outrora foi a IgrejaCatólica, com seu poder de supremacia. Quebra de um paradigma? Na verdade, conversando com outras áreas do saber, aexemplo da própria psicologia, vemos que o aumento e alcance de fontes possibilitou aoshistoriadores um alcance maior da visão do corpo social. Observemos Alcoólicos Anônimos:nos primeiros anos, com caráter relativamente isolado e parcialmente incipiente, com seusdesarranjos e sutis rupturas. Progrediu rapidamente desde 1939 com a publicação do livroAlcoólicos Anônimos, que narrou à experiência de recuperação dos primeiros membros.Poderá ser em breve encarado como um fenômeno revolucionário para recuperação no séculoXX, porque na atualidade continua sendo a melhor resposta para àqueles que sofrem doalcoolismo.
  • 22. 22 Perspectivamos nosso paradoxal objeto de estudo, ou seja, Alcoólicos Anônimos.O então Papa João XXIII, em 1959, definiu essa Irmandade como “o milagre do século XX”.Assim, partir da escola dos Annales, com seus novos meios de pesquisa, foi o que nospossibilitou visitar este fenômeno atípico na sociedade, ou seja, Alcoólicos Anônimos,movimento onde se entrelaça filosofia, espiritualidade, ou seja, estudaremos a doença a partirde sua recuperação. Alcoólicos Anônimos não sugere medidas profiláticas para combater oalcoolismo, ou seja, A.A. não combate o álcool, apenas dá uma solução para quem sofreproblemas com a bebida. Tampouco prescreve remédios farmacêuticos; mais um ponto afavor da psicologia, com muitas correntes ainda marginalizadas e pouco evidenciadas empleno século XXI, como a teoria balizar da Irmandade, ou seja, os estudos de William James(JAMES, 1991). A prova da eficácia da teoria sugerida por James, que adaptada com outroselementos da religião e medicina por Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955),somadas as experiências com outros membros, culminou com o “Método” dos Doze Passos,mostrando a recuperação do alcoólico por ele próprio, através de um entendimento do PoderSuperior como o mesmo o concebe, em associação ao grupo de apoio (Irmandade). Entendercomo se dá esta escala evolutiva que permeia o inconsciente coletivo destes alcoólicos emrecuperação é o objetivo deste trabalho. Vamos buscar destrinchar muitos dos fios que fazem desta sociedade de “ex-bêbados” ser hoje um dos maiores interesses de estudo das classes médicas e afins, mesmorivalizando com os preceitos utilizados pelos mesmos. Alcoólicos Anônimos, ainda que em“simbiose” com os meios técnicos cientificistas em voga, rivaliza no momento que nãoentrega a um médico, um remédio, a solução da doença do alcoolismo; entrega esta solução aum Poder Superior, como cada ser humano o concebe. Esse movimento também não distinguecredo, religião, cor, condições econômicas, gêneros para escolher quem pode fazer parte daIrmandade, pois a mesma enfatiza que só tem um único propósito primordial, que é levar amensagem de recuperação ao bebedor problema que ainda sofre. Assim, começamos a tentarperceber este fenômeno social de grande importância no quadro das ciências sociais, queainda não foi buscado como objeto pelos historiadores profissionais, talvez por ser umfenômeno histórico relativamente novo, porém de enorme alcance em todo o globo. “Repetir” a mesma história talvez seja olhar o mundo pelo mesmo prisma, masapenas conseguiremos nos deter na essência quando buscarmos os indivíduos e seu contextosocial, em realidades divergentes e variados locais, revelando os aspectos intimistas e
  • 23. 23deflagradores da sociedade esfacelada que nós mesmos criamos; ainda que a mesma tenhaacertos, muitos dos erros são por falta de análise em perspectiva, quando privilegiamosobjetos de estudo longe de nossos tempos, que denota mais facilidade segundo a experiênciade Vovelle (VOVELLE, 1991): [...] E não surpreenderia ninguém ao confessar, como um modernista consciente da minha imprudência, que sente menos dificuldade ao me improvisar como medievalista – quaisquer que sejam as críticas que merecer por isso – do que ao tentar organizar uma síntese coerente para o período contemporâneo, onde a História das mentalidades, significativamente, abre seu caminho com muito maior dificuldade em vista da profusão de testemunhos ainda desorganizados (VOVELLE, 1991, p. 55). A História do Presente poderá trazer-nos urgentes contribuições para entender osfenômenos individuais e sociais, que obviamente são essencialmente históricos, e muitoesclarecedores para a transformação. Somos ensinados a ver o corpo social como um todo, ouseja, uma massa homogênea, quando isso é falso, até mesmo alienador, reforçando apenas asformas de manipulação de um sistema dominante, que quer nos passar uma idéia de supostacoesão social. Um olhar assim não nos permitirá um reagrupamento de idéias, uma sensataanálise, para descortinarmos novas possibilidades de viver melhor em sociedade. Hajam vistoas novas possibilidades investigativas que o historiador dispõe, com variados métodos depesquisa, podemos fazer uma nova história das “grandes minorias”, que terá cada vez maisvoz e não será anônima, mesmo que o grupo de estudo se chame Alcoólicos Anônimos.2.3 Alcoolismo: reflexos na sociedade Neste segundo momento de nosso trabalho pretendemos mostrar o aspectodeletério do álcool no organismo e algumas de suas complicações, sejam no nível físico doindivíduo, seja na sua vivência no corpo social ao qual está inserido. Lucena (LUCENA,2006), em sua tese de mestrado esclarece sobre o álcool:
  • 24. 24 (...) Parece ser a droga mais antiga da humanidade, produzida em grande escala por volta de 6000-8000 a.C. e tem assumido junto à população diversos significados. Ele é associado à animação, ao lazer, à recreação dos grupos sociais e também ao alívio das angústias da vida. O álcool tem sido utilizado em variados contextos, tais como social, religioso, ético, estético, familiar, econômico, psicológico, climático, militar, da saúde, dentre outros. No entanto, não educa a população quanto aos seus efeitos colaterais, nem se enfatiza que se trata de uma substância psicotrópica, depressora do Sistema Nervoso Central - SNC, responsável pela síndrome da dependência e da codependência do álcool, denominada, geralmente, por alcoolismo (LUCENA, 2006, p. 43). Nas salas de Alcoólicos Anônimos usam-se adágios, ou seja, frases que explicamo que representa o programa, e oferece esclarecimentos que reforça a caracterização do quevem a ser a doença do alcoolismo. Existe um em particular que nos oferece uma ótimapercepção dessa enfermidade, não apenas enfocando o aspecto da mesma pelo viés damedicina, mas dando-nos a noção exata do reflexo na sociedade: “O alcoolismo é uma doençaque antes de matar desmoraliza o ser humano”. Como mostra-nos a Política a Organizaçãodas Nações Unidas (LUCENA, 2006): O uso de substâncias psicoativas (drogas), principalmente o álcool, faz parte da história da humanidade e das tradições culturais. Porém o uso excessivo arruína a vida das pessoas de todas as idades, constituindo-se até mesmo uma ameaça à estabilidade das nações e à vida no planeta, pois os efeitos deletérios do álcool e das outras drogas afetam a saúde individual, familiar e coletiva; eleva a violência em todos os níveis; afeta o rendimento produtivo e a democracia, além de comprometer a paz mundial (LUCENA, 2006, p. 42-43). Uma informação como esta poderá parecer exagerada, mas se nos detivermosapenas nos acidentes automobilísticos, que matam mais no Brasil que certas guerras civismundo afora, e que aqueles são causados normalmente por pessoas embriagadas, vemos aponta do iceberg das conseqüências do beber exagerado. Nós sabemos da campanha dedescriminação que vem tentando ser operada em outras enfermidades, como a AIDS. Umapessoa com câncer, por exemplo, poderá adquirir ajuda dos seus familiares, e da sociedadecomo um todo. Os aidéticos já estão sendo tratados de forma mais coerente, e humana. Mas oalcoólatra e o dependente químico ainda são vistos como irresponsáveis e errantes. E a isso é
  • 25. 25acrescido à sentença: “Se quisesse parar de beber, conseguiria. É falta de força de vontade!”Ou como reforçam outros: “É falta de vergonha na cara”! Isto é intensificado, infelizmente, pelo próprio doente alcoolista, quedesconhecedor de sua enfermidade, quando é abordado quanto à possibilidade de quer deixarde beber, é veemente ao dizer: “Bebo quando quero, e paro quando quero”. A istonormalmente acrescenta: “Bebo com meu dinheiro”. Comumente, associado ao declíniomoral, financeiro, é principalmente no aspecto orgânico que observamos a degradação que oálcool empreende quando as unidades de saúde são acionadas. Vemos em nossa pesquisa queexistem estudos mais específicos na área da medicina focando este aspecto. Porém, cada vezmais se estende as pesquisas relacionadas à doença do alcoolismo pelos campos da sociologia,antropologia, etc. Porém todas estas abordagens frequentemente são trabalhadas separadamente, ede forma restrita, o que não possibilita um olhar mais abrangente sobre a questão. Seencararmos o aumento preocupante de alcoolistas e dependentes químicos pelo mundo,poderemos concluir que a integração de diversas áreas poderia oferecer melhores resultados,projetando práticas mais eficazes, quem sabe estimulando métodos como AlcoólicosAnônimos, que é uma possível solução, visto que é reduzido o número de recuperações doalcoolismo e das dependências químicas, por extensão. Alcoolismo já é considerado uma epidemia mundial, que perde apenas, em termosde óbitos, para o câncer e problemas cardiovasculares. Se pararmos para ver o que causou osproblemas cardíacos e câncer, muitos destes são provocados pelo consumo abusivo do álcool.Quadros desesperadores de alcoolistas e demais dependentes acabam reiteradas vezes emoverdose, ou seja, morte por dose excessiva da droga. Outros dependentes não suportam osestados depressivos, que acompanham os alcoolistas e dependentes químicos, e muitosrecorrem a atitudes drásticas, aumentando cada vez mais o número de suicídios. Se acrescentarmos que esta doença pode ser detida em sua marcha, isto sugere ummaior empenho dos profissionais da área de saúde, dos empregadores e da sociedade comoum todo, buscando possíveis soluções perante tal epidemia. Lucena (LUCENA, 2006) mostra-nos alguns números, em termos de quantificação do alcoolismo: De acordo com os estudos epidemiológicos que retratam as conseqüências do uso excessivo de álcool, nos Estados Unidos, 90% da população já tomaram bebidas alcoólicas. Desses, 70% bebem regularmente e 40% apresentam problemas temporários, devido ao uso. Dentre esses usuários, 20% são homens e 10% são
  • 26. 26 mulheres que bebem excessivamente. Nesse país, o alcoolismo é considerado o segundo transtorno psiquiátrico mais prevalente, superado apenas pelas depressões. [...] Também no Brasil os estudos epidemiológicos evidenciaram que 80% da população já consumiram bebidas alcoólicas [...] Evidenciaram também que 44% da população entre 25 e 29 anos bebem, e que a síndrome da dependência de álcool afeta 10%7 da população em geral e 15% da população economicamente ativa (LUCENA, 2006, p. 45-46). Existe um velho jargão que virou lugar-comum no discurso de terapeutas, epessoas que lidam com a problemática da adcição e do alcoolismo, citando que o álcool é aporta de entrada para o uso de outras drogas. Normalmente, um dependente químico nãocomeçou sua carreira de usuário com a canabbis sativa, chamada popularmente de maconha.O álcool foi à primeira droga, ainda consumida na puberdade. Nossa lei proíbe venda deálcool para menores de idade, mas a teoria não corresponde à prática! Em muitos casos, osamigos mais velhos, mesmo os pais e familiares, propiciam ao menor o acesso ao álcool, semfalar que esta é barata, ou seja, é uma droga lícita acessível a todas as camadas sociais (todosos bolsos). Na linguagem da juventude, ou seja, na gíria destes, a “intera”, quer dizer, ajunção de vários centavos propicia facilmente uma garrafa de álcool (cachaça), para odivertimento, e consequente destruição daqueles que são portadores do alcoolismo. Beba com moderação é o que nos diz um locutor ao final de propagandas debebidas alcoólicas, notoriamente dos comerciais de cerveja em nosso país. Mas o que é bebercom moderação? Pela experiência adquira pelos AAs, um bebedor problema jamais conseguebeber moderadamente, por exemplo, tomar um aperitivo, parar e ir almoçar. Um panoramadas conseqüências à saúde deste bebedor aqui serão mostradas. Lucena (LUCENA, 2006)também reconhece o papel da mídia, que infelizmente, na maior parte dos anúncios incentivaos jovens a consumirem o álcool: Dados qualitativos da Política Nacional Antidrogas mostram que, cooperando com a cultura para o uso excessivo de álcool, temos as suntuosas propagandas de bebidas alcoólicas, exibindo a imagem de pessoas famosas, a exemplo de Ronaldinho e Ivete Sangalo, assim como outros líderes de massa, motivando os adolescentes e os jovens a beberem excessivamente enquanto, discretamente, alertam para “o beber com moderação”, quando deveriam alertar que “a bebida alcoólica causa dependência química e desestrutura a família”. A cultura para o uso do álcool também se expressa na contradição da nossa sociedade, pois as campanhas que apontam o esporte como fonte de saúde, são veiculadas através da mídia sob o patrocínio do fabricante de bebida alcoólica (LUCENA, 2006, p. 44-45).
  • 27. 27 Nosso trabalho não pretende sugerir as pessoas que não bebam, mas que àquelasque veem em si mesmas características de bebedor que causa problemas a si e aos outros(familiares, vizinhos, empregadores ou empregados), possam procurar ajuda. TampoucoAlcoólicos Anônimos poderá ser a solução de todos os problemas, mas aqueles relativos àperda de controle quanto ao beber, é o lugar que vem mostrando o número mais alto derecuperações, e sem uso de remédios como substitutos.3 ALCOOLISMO: AVERIGUAÇÕES PARA UM POSSÍVEL“DIAGNÓSTICO” Identificar a doença do alcoolismo ainda é uma questão de análisecomportamental, mais que uma análise do quadro orgânico do paciente. Quando o bebertornou-se exagerado, contrapondo-se aos ditames da sociedade, vê-se a necessidade deprocurar ajuda. Um médico poderá fazer uma averiguação preliminar, ao se deparar comexames de quaisquer complicações orgânicas advindas do uso excessivo do álcool, mas istonão é suficiente para fazer um diagnóstico de alcoolismo em um paciente. Muitos usuários,mesmo diante de exames detalhados, com conseqüências alarmantes do uso abusivo do álcoolnegam o seu uso, ou mesmo dizem beber socialmente, em ocasiões esporádicas; muitos quedizem estas palavras bebem todos os dias. Em nossas pesquisas de campo, freqüentando a Irmandade de AlcoólicosAnônimos, verificamos que muitos acordam cedo, e tem como desjejum uma dose de cachaçano bar mais próximo de sua casa. Isto é uma prática usual para com a qual eles usam aseguinte explicação: “Esta é uma dose pra equilibrar os nervos”. Isto que eles chamam de‘equilibrar os nervos’ é fazer com que os tremores matinais cessem. A caracterização de alcoolismo enquanto doença é uma resposta ainda abstrata,aonde o profissional de saúde procura avaliar por meio de conversas durante a consulta, quegeralmente só vem à tona quando as pessoas que sofrem problemas com uso do álcool sãointernadas em clínicas de repouso ou hospitais psiquiátricos. Sendo um problema que nãoafeta apenas o indivíduo, mas a família como um todo, e por extensão, a sociedade, é noaspecto laboral que o bebedor problema enfrenta suas maiores dificuldades. Alguns alcoólicos
  • 28. 28em recuperação relatam ter perda de produtividade em seu campo de trabalho, porém outrosmostram que conseguiam cumprir suas obrigações, sem faltar ao emprego, etc.: aspectosdistintos para os quais nos caberá reflexões. O primeiro ponto cabe a análise setorial no universo do trabalho. Infelizmentenosso país não é dotado de leis que possam assegurar ao doente alcoólico um afastamento doseu trabalho, mesmo uma aposentadoria integral em casos crônicos. Se houver um ganho deaposentadoria, esta será baseada em um salário mínimo (INSS), e não de acordo com aremuneração que o trabalhador recebia na ativa. Hoje, as empresas buscam ajudar seustrabalhadores, seja indicando-os às salas de Alcoólicos Anônimos, ou pagando internaçõespara recuperação de um quadro físico debilitado. Redes de clínicas de repouso como a VilaSerena são onerosas, mas apresenta um maior número de recuperações, justamente porquetrabalham os passos sugeridos pelos Alcoólicos Anônimos e não priorizam medicamentos,apenas utilizando-os em casos mais graves. Alopáticos infelizmente não inibem a vontade debeber, que é orgânica, mas principalmente psicológica. O fato é que quaisquer medicaçõesnão tendem a solucionar a compulsão pelo beber excessivo dos bebedores problema. O segundo ponto a se analisar é toda a força de vontade que estes trabalhadorespossuem, quando dizem não faltar ao emprego e cumprir com seus horários. Isto não érepresentação de maior domínio sobre o álcool; muitas vezes é um esforço sobre-humano paranão perder a fonte de renda que financia os gastos com sua sede alcoólica, porque semdinheiro passariam a pedinte, não podendo usufruir da sua maior diversão, e porque não dizer,daquilo que realmente dá sentido ao seu viver. Nosso trabalho de campo teve como uma de suas fontes a observação dosalcoólicos em recuperação nas salas de Alcoólicos Anônimos, e estas se encontram abertaspara todos os cidadãos, sejam leigos ou pesquisadores, que queiram conhecer o que éalcoolismo através do olhar daqueles que estão sem beber, ou seja, sóbrios (como os mesmosdenominam-se). Isso significa que estão abstêmios perante o primeiro gole. Aqui jápoderemos fazer uma averiguação. Evitar o primeiro gole não é simples frase no contexto daIrmandade. É uma palavra de firmeza, um compromisso diante do propósito de continuarvivendo, partindo da premissa de que quem tem problemas com a bebida, se beber, fatalmentemorrerá ou enlouquecerá. Assim, evitar o primeiro gole é saber que não é um litro de cachaça queembebeda, mas o primeiro gole, que dá ao bebedor problema a falsa ilusão que poderá beberoutra, e mais outra dose, ou seja, que desta vez controlará o uso do álcool. Depois desteprimeiro gole, que é uma representação de “gatilho” para a mente alcoolista, vem em resposta
  • 29. 29o despertar pelo beber desregrado, e talvez aqui esteja um ponto importante para saber sealguém tem problemas com álcool: o bebedor problema não ficará na primeira dose. Outro fato que merece consideração é que normalmente o bebedor problema usa oálcool para se embriagar, como relatam a maior parte dos alcoolistas em recuperação, ou seja,não bebem pelo gosto, ou seja, para apreciação do sabor de quaisquer bebidas. Bebem paraficar embriagados, ainda que isto não seja feito propositalmente. Assim, o alcoolismo poderáser considerado um estado de enfermidade quando averiguamos um ser humano que não bebemais por prazer, mas sim para evitar dor. E ao acordar em estado comumente chamado deressaca, que seriam as reações físicas e morais desagradáveis pelo abuso do álcool, estebebedor quer rebater, como diz uma gíria entre os usuários alcoolistas: rebater é continuarcom o uso do álcool para evitar os tremores, o mal estar, ou seja, buscando saciar, ainda quemomentaneamente, a sede orgânica presente nos mesmos. A sede pelo álcool jamais será controlada, dada a natureza progressiva daenfermidade que os fazem beber mais a cada dia. Os alcoolistas também usam um termodenominado “parada forçada”, quando os mesmos se abstêm do álcool para recuperaçãofísica, e/ou financeira. Mas logo estarão bebendo mais, é apenas uma questão de tempo.3.1 Alcoólicos Anônimos: uma saída do isolamento Para que esta escala progressiva seja detida em sua marcha, o bebedor problemadeverá abster-se do uso de qualquer bebida alcoólica e ter um suporte como o que é oferecidoem Alcoólicos Anônimos, que funcionará tal qual uma “terapia”. Seguir este caminho é termaiores chances de recuperação, porque neste método reside o maior número de casos desucesso que se tem conhecimento ao longo da história da humanidade. Em AlcoólicosAnônimos todos falam a mesma língua, ou seja, se interligam por um problema comum, oalcoolismo, buscando alívio e estímulo. Como citado no preâmbulo desta Irmandade, osalcoolistas trocam forças e esperanças a fim de resolverem seu problema comum, e ajudamoutros alcoólicos a se recuperarem do alcoolismo, sendo que o único requisito é o desejo deparar de beber (VIVER SÓBRIO, 2006). Já a autora Ângela Maria (GARCIA, 2004) nos apresenta a idéia de AlcoólicosAnônimos como um grupo que substitui o bar; uma verdade, em termos, até porque muitos
  • 30. 30indivíduos sequer saiam de casa, preferindo o isolamento, que é normalmente considerado umestágio crítico da doença. O fator que a autora deixa em perspectiva é que a Irmandadesubstitui o bar na medida em que possibilita uma socialização, ou seja, uma interaçãosaudável, que não tem como foco o beber, mas dizendo evitemos o primeiro gole juntos paraviver. Reunidos, os alcoólicos em recuperação socializam-se, e trocam forças e esperanças. Na nossa análise vislumbramos mais que uma mera substituição, mas sim asugestão para um novo modo de vida, que nas palavras do co-fundador Bill Wilson, precisamser praticados, assim como se faz necessário para um pára-quedista puxar a cordinha do pára-quedas. A recuperação baseada em Doze Passos como um modo de vida é sair do isolamento,e através do reforço de uma mensagem semelhante nos variados depoimentos os alcoólicosem recuperação adentram em uma forma diferente de viver sem o álcool. Mas parar de beberé apenas o começo da recuperação, pois a Irmandade sugere também uma mudança depersonalidade. Para um bebedor problema viver sem o álcool parece uma assinatura da suadesventura; a ciência não descobriu um paliativo, sequer um remédio que amenize osproblemas que o alcoolismo acarreta. Além disso, essa enfermidade traz toda aincompreensão e preconceito da sociedade, às vezes por falta de conhecimento, ao julgar obebedor problema como mau caráter, que não possui força de vontade para largar tal “vício”.Apesar de haver informação, esta não chegou a todas as partes para esclarecer alcoolismocomo doença, sem mais fugas ou respostas obtusas do saber científico em voga. A palavra que ajuda: Alcoólicos Anônimos é uma terapia que descentraliza, ondea solução não está na mão do psicólogo, mas sim do doente em recuperação que ajuda outrodoente. É nesta perspectiva que esta associação é singular, trazendo respostas através daquelesque um dia foram segregados, apartados da sociedade e até da família. Este quandorecuperado, freqüentando uma das salas da Irmandade, reforça aqueles que estão chegando. Ação, eis o programa espiritual de Alcoólicos Anônimos, que não é seita oureligião, mas mostra um novo modo de vida, se o bebedor problema assim aceitar. ÂngelaMarcia Garcia, (GARCIA, 2004) autora do livro E o verbo (re)fez o homem, fez um estudo doprocesso de conversão do alcoólico ativo em passivo, que defendeu como sua tese demestrado. O enfoque desta apresentação são as salas de Alcoólicos Anônimos, onde estáconcentrada mais veementemente sua pesquisa de campo. Para nós, estudos como este, aindaque no campo da sociologia, vem comprovando empiricamente a eficácia do Método destaIrmandade.
  • 31. 31 Normalmente as pessoas demoram, ou simplesmente recusam a se identificarcomo alcoolistas, porque imaginam estes perambulando às ruas, sujos, e sem família. Muitosnão sabem um meio de parar com o beber compulsivo; outros simplesmente se apegam ao usoabusivo do álcool, porque deste fazem um lenitivo diante das pressões do dia a dia. Existemculturas que fazem do álcool uma celebração, mas a nossa sociedade capitalista tende a fazero uso do álcool de forma abusiva, seja associado às festas ou para diminuir ansiedades, etc.Mas o que inicialmente era um relaxamento evolui em muitos casos para a enfermidadeconhecida como alcoolismo, e sendo de caráter progressivo, evidencia que com o passar dotempo, o consumo do álcool tende a aumentar. Alguns chegam às salas de Alcoólicos Anônimos com uma relativa estabilidadefinanceira, mesmo com família. Por identificação com os alcoólicos em recuperação e suashistórias de sofrimento, aceitam que se não pararem de beber, perderão bens materiais, entesqueridos, mesmo seus respectivos empregos. Infelizmente casos como o citado são minoria. Oque é mais comum é o indivíduo chegar às fileiras da Irmandade em um estado comumentedesignado “fundo de poço”: este seria um estado de perdas sucessivas, sejam morais, dafamília, perda de emprego, e principalmente, da própria saúde. Garcia (GARCIA, 2004)esclarece que: [...] O alcoólico passivo, no espaço do grupo por ele mantido e reproduzido, aprende e ensina a construção de discursos sobre sua condição, ao mesmo tempo em que constrói o espaço para esta escuta, nesses termos alçada como recurso terapêutico. Através de novas versões para a sua história de vida, o alcoólico, na condição de passivo, recria e dá forma à sua existência anteriormente caótica. [...] sustentado no caráter mediador da produção de novas identidades, ele, liberando o verbo [...] autoriza-se a transformar desonras em moralidades erigidas do controle sobre si mesmos (GARCIA, 2004, p.16 – 17). Estando em marcha no indivíduo esta doença poderá ser detida, pela medida deabstenção perante o hábito deletério de beber. Como parar de beber, ou seja, abandonar oálcool é o que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos propõe. E como diz conhecido slogandentro desta: “Se quiser beber, isto é um problema seu, mas se quiser parar de beber, este éum problema nosso”. Quando encarado por um aspecto orgânico, este nos tem muito a dizer, ainda maisquando vemos diversos profissionais da área médica nos oferecer sua contribuição para
  • 32. 32entender esta doença, apesar dessa possuir uma natureza muito complexa. Importante é reunirestas peças, e levar uma mensagem coerente para a sociedade, até mesmo aos profissionais daárea médica, psicólogos, etc., que desconhecem a pragmática da Irmandade de AlcoólicosAnônimos.4 ALCOOLISMO E SUAS VARIANTES [...] A filosofia do idealismo absoluto, tão vigorosamente representada hoje em dia na Escócia e na América, tem de lutar com essa dificuldade quase tanto quanto o teísmo escolástico lutou no seu tempo; e se bem seja prematuro afirmar que não há nenhuma solução especulativa para o quebra-cabeça, é perfeitamente justo dizer que não existe nenhuma solução clara ou fácil, e que a única maneira óbvia de fugir aqui do paradoxo é abandonar de todo a suposição monista e admitir que o mundo existe desde a sua origem de forma pluralista, como um agregado de coisas superiores e inferiores, mais do que um fato absolutamente unitário. Pois, nesse caso, o mal não precisa ser essencial; pode ser, e pode ter sido, uma porção independente, sem nenhum direito racional ou absoluto de viver com o resto, e do qual podemos concebivelmente esperar libertar-nos afinal (JAMES, 1991, p. 92). Este trecho coloca-nos a refletir encima do nosso objeto, Alcoólicos Anônimos:começando com Bill Wilson, esse que provavelmente conseguiu montar as peças de umparadoxal quebra cabeça, aceitando o pluralismo de concepções de um Poder Superior,auxiliado pelo profundo conhecimento religioso do Drº Bob, co-fundador desta Irmandade,evidenciando a possibilidade de devolver a sanidade ao doente alcoolista, que foi adaptadoposteriormente por outros segmentos para tratar diversas compulsões. Dando a possibilidadede recuperação da saúde através de um Poder Superior como cada qual o concebe e nãoatravés de uma visão monista, a Irmandade dos AAs rompe fronteiras, pois além de alcançarum lenitivo para o alcoolismo, cita os passos para um encontro com o Poder Superior. O mal do ser alcoolista é uma doença que pode ser estagnada. Uma enfermidadeque não diz respeito ao caráter do indivíduo, mas de como o beber destrutivo transformou avida do mesmo em derrotas freqüentes e deturpou sua personalidade. Ao abster-se do álcool,o alcoólico em recuperação poderá começar a reparar os danos causados a si e aos outros,como sugere um dos passos da Irmandade. Então A.A. resume em passos e meios tangíveis,de forma pragmática, como trabalhar-se um progresso espiritual buscando-se uma vida que
  • 33. 33possa ter sentido, através de laços de solidariedade que estão cada vez mais diluídos em umasociedade reducionista e individualista: “(...) Deixar que descubra generosamente a importância de valorizarmos a dádiva da sobriedade, uma noção que tende a ganhar destaque no vocabulário sociológico à medida que as inquietações coletivas se ampliam nesta conjuntura de muitas incertezas, que exige idéias originais de modo a se pensar novas formas de cooperação social” (MARTINS apud MOTA, 2004, p. 18).4.1 Viemos a creditar: um modo de vida para recuperação do doente alcoolista Com Alcoólicos Anônimos houve uma ruptura com o sistema imposto de quealcoolismo não poderia ter casos de recuperação, ou seja, quem desenvolvesse alcoolismoestaria inevitavelmente condenado à morte, com grande número destes alcoolistas sendopacientes de hospícios. No livro História da Loucura de Foucault lê-se que: A substituição do tema da morte pelo da loucura não marca uma ruptura, mas sim uma virada no interior da mesma inquietude. [...] agora a sabedoria consistirá em denunciar a loucura por toda a parte, em ensinar aos homens que eles não são mais que mortos, e que se o fim está próximo, é na medida em que a loucura universalizada formará uma só e mesma entidade com a morte (FOUCAULT, 1972, p. 16). Quem é alcoolista pode desenvolver o que a sociedade, principalmente ospsiquiatras consideram insanidade, mas essa era a representação da própria morte, comocitado por Foucault. Este livro nos apresenta a dimensão da história da loucura, mas aquicolocamos esta citação para pontuar que o alcoólatra foi considerado lunático, sendodenominada esta a própria natureza dessa enfermidade durante muitos séculos, como averiguao autor, o que infelizmente ainda perdura em nossos dias. Porém, a definição de alcoolismo na atualidade não traz uma referência explícitado bebedor-problema como louco. Vê-se como alcoólatra àquele indivíduo que não consegue
  • 34. 34controlar seu beber compulsivo, vindo a ter problemas de ordem laboral, social e/ou orgânica,ou seja, prejudicando a si mesmo e outros com seu beber desregrado, sendo a sua família aque mais sofre com esse estado. Atualmente a insanidade pode ser vista como um desdobramento da doença, ouseja, o alcoolismo enquanto doença progressiva poderá levar seu portador a loucura ou amorte prematura. Assim pontuamos a seguinte ressalva: o bebedor compulsivo poderádesenvolver um estado de loucura, porém o alcoolismo não é insanidade, como foiconsiderado durante séculos. Pelo menos, teoricamente. É importante salientar que existem pessoas que estão na ativa do álcool comatitudes consideradas anormais, mesmo que ainda não sejam considerados alcoolistas, masbebedores sociais. Porém a linha que separa um bebedor que se considera social (mas ingereálcool em excesso), do bebedor problema é muito tênue. Também existem pessoas quepararam de beber, fora ou dentro da Irmandade dos AAs, que continuam com posturasconsideradas insanas. Não é necessário apenas parar de beber para voltar a ter uma vida normal, isto éfato. Também é preciso uma profunda mudança de personalidade, que em AlcoólicosAnônimos está sugerida nos Doze Passos. O que nomeia o início deste capítulo é a essênciado segundo passo: “Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia nosdevolver a sanidade” (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p. 21). Entãoexiste a possibilidade de recuperação plena para àqueles que pararam de beber, e acreditamque poderão ter mentes sãs. Logo, parar de beber é apenas o começo de uma recuperação quepede também uma mudança de personalidade, ou seja, rever os defeitos de caráter que podemlevar para uma recaída no álcool ou deixar a vida estagnada e confusa, mesmo sem o primeirogole. Para aquela pessoa que continua com as atitudes de alcoolista, usa-se dentro daIrmandade a designação de “bêbado seco”, ou seja, àquele que parou de beber, mas preservaatitudes insanas, mesmo hostis, dentro e fora da Irmandade. Por isso a Literatura de Alcoólicos Anônimos indica a necessidade de desenvolvero modo de vida desta Irmandade, ou seja, que o alcoólico em recuperação deve transformar-see evoluir. Provavelmente está no segundo passo do programa de Alcoólicos Anônimos agênese para possíveis recuperações das variadas doenças mentais que desde muito assolam ahumanidade. O remédio controlado, ou seja, a alopatia, medida de maior uso em todo mundonos casos de doenças mentais, mostra na maior parte dos casos uma posição de clausura para
  • 35. 35àqueles que os usam, onde o paciente é mantido estabilizado através de uma “camisa-de-força” química, mas normalmente não oferece um retorno à vida, apenas anestesiam-se asangústias da alma, sem deixar de citar os variados e perigosos efeitos colaterais para àquelesque recorrem à farmacologia. James (1991, p.25) enfatiza que os materialistas médicos,portanto, são apenas outros tantos dogmatistas retardatários. Não afirmamos que os remédios sejam de todo um erro na terapêutica de umpaciente mentalmente enfermo, quando este tem crises, mas os Doze Passos pode ser umaexcelente terapia correlata ao tratamento medicamentoso, visando que o paciente liberte-sedos remédios o mais rapidamente possível, porém de forma paulatina. Enquanto tenta-seanestesiar o corpo para que a mente não raciocine e não sinta suas idiossincrasias, não existiráum tratamento eficaz que traga o alcoolista, e outros diagnosticados como doentes mentaisnovamente à vida! Importante é mostrar ‘o modo com que ela opera sobre o todo, que é o critériofinal de uma crença’, nas palavras do Dr. Maudsley, e que William James utiliza como seucritério empírico (James, 1995, p. 25). Portanto, há de ser averiguado como o modo de vida deAlcoólicos Anônimos poderá trazer o doente alcoolista novamente à vida, onde a mentepoderá ser curada pelo espírito através de um despertar espiritual, já que nenhum remédio écapaz deste milagre até nossos dias. James levanta esta teoria de que um despertar espiritual poderá trazer uma menteenferma novamente à vida, e Bill comprova sua aplicabilidade com o A.A., utilizando umanova perspectiva, que dispensa dogmatismos, sejam estes religiosos ou científicos, estes quemuitas vezes limita qualquer indivíduo que tenha necessidade de recuperar-se. O modo de vida de Alcoólicos Anônimos é contemplado no grande número derecuperações presente na voz coletiva dos seus membros, que por meio de suas experiênciaspessoais reproduzem os Doze Passos e as Doze Tradições, objetivando continuar a vida sem oálcool. Estes relatos são expostos em inúmeras publicações da Irmandade e nos periódicos damesma, sendo no Brasil chamado de Vivência (Revista Brasileira de Alcoólicos Anônimos). Sendo buscada a crença de que mudanças são possíveis, àquela vida insana edesequilibrada poderá ser modificada. Deve estar aqui à essência da Irmandade, ou seja, acrença de que o alcoólico pode converter um estado considerado mórbido em retorno à vida.E isto deverá incluir, esperamos que em curto espaço, diversas doenças mentais e outrosproblemas desta sociedade do século XXI, simplesmente adaptando os passos de AlcoólicosAnônimos:
  • 36. 36 (...) Não acho que qualquer um de nós possa acreditar que Alcoólicos Anônimos permanecerá necessariamente para sempre em sua forma atual. Somente podemos esperar que isso conduzirá a melhores resultados, para aqueles que sofrem do alcoolismo, que as lições e exemplos de nossa experiência possam, de alguma forma, trazer conforto e segurança ao mundo confuso e sofrido que nos rodeia, o mundo em que é nosso privilégio estar vivo, neste momento emocionante e perigoso, neste século no qual o despertar espiritual pode ser a única alternativa contra a extinção (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE, 1994, p. 206). Pontuemos esta passagem do final da citação anterior: “[...] neste século no qual odespertar espiritual pode ser a única alternativa contra a extinção” (ALCOÓLICOSANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE, 1994, p.206). Seria exagero do Bill Wilson?Quando pensamos em outros problemas da sociedade neste presente século, lembramostambém que existem demandas e enfermidades que diferem umas das outras. Citamos umexemplo: ser viciado em games, ou na Internet. Eis uma demanda relativamente nova, cadavez mais presente nos dias atuais, porém a base deste problema é originada em umacompulsão, que esteve na vida de diversos indivíduos ao longo da história. Milhares de pessoas foram encarcerados em manicômios, como mostrou-nosFoucault (FOUCAULT, 1972); isto porque havendo uma diminuição do número de leprosos apartir do século XVI, teve-se a necessidade de criar-se um novo público para estas casas, nadamenos que os loucos, os alcoolistas, os pobres, os exilados, etc. E hoje, é muito diferente? Mesmo neste século, a saída para um indivíduo abandonar às drogas continuasendo os internamentos, na maior parte dos casos, de forma forçada. Porém a maior eficáciapoderá estar em desintoxicar e encaminhar o alcoolista ou dependente químico para uma salade Narcóticos Anônimos. Mas um internamento para desintoxicação deverá ser aceito pelo“doente” alcoolista, e não imposto, assim como o primeiro passo da Irmandade sugere:“Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobrenossas vidas” (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007, p. 3). Aceitando ointernamento, o conhecimento da Irmandade dar-se-á ainda na reabilitação, como vempraticando a Clínica Vila Serena, por exemplo, ao utilizar o Modelo chamado “Minessota”.Refletindo as palavras de Mota (MOTA, 2004): [...] somos obrigados a admitir que, seja dentro de uma sala de A.A., como em uma clínica especializada, em um templo religioso, ou mesmo por meio de
  • 37. 37 autodeterminação isolada, a recuperação de um alcoólico não é uma tarefa das mais fáceis. [...] De qualquer modo, o princípio de adesão e permanência voluntárias é muito importante em A.A., pois, segundo o slogan do grupo no Brasil, “se o seu caso é beber, o problema é seu; se é parar de beber, o problema é nosso! (MOTA, 2004, p. 123). Este Modelo Minessota procura mostrar ao paciente os primeiros cinco passos daIrmandade de Alcoólicos Anônimos ainda na clínica, fato que poderá gerar admissão doalcoolismo e/ou adicção no doente. Essa perspectiva de tratamento continua sendo aplicada nesta clínica e em outrasque aderiram ao “Modelo Minessota”: tem demonstrado um número maior de recuperaçõesque o internamento tradicional, ou seja, àqueles métodos convencionais que a medicinadisponibiliza em clínicas psiquiátricas, ou seja, a quarentena regada ao uso de medicamentoscomo substitutos às drogas lícitas e/ou ilícitas. Na Clínica Vila Serena e suas correlatas, o usode remédios dar-se-á em situações críticas, por exemplo, em casos de insônias intensas, etc.;assim, a alopatia não será o ponto central do tratamento, mas sim o uso dos passos de A.A,concomitantemente ao uso de outras terapêuticas. Assim, o uso da espiritualidade vem firmando-se como uma saída viável para taisdoenças compulsivas, como o alcoolismo. A Dra. Dirce de Assis Rudge, na cartilha intituladaAlcoolismo – Cartilha básica, cita vários elementos interessantes desta doença, fala sobre afamília, etc. Um dos aspectos que é mencionado pela Dra. Dirce, fundamentado da palestra doprofessor Vaillante é: [...] De uma forma ou de outra, as drogas, como o álcool, têm a sua ação farmacológica centrada no Circuito de Recompensa, proporcionando prazeres artificiais e fugazes, mas como são prazeres, constituem reforço para a continuidade progressiva do uso, uma das características da doença alcoolismo e de outras dependências químicas. Os estímulos que partem do Circuito de Recompensa, alterados pelas drogas, e que vão para outras áreas do cérebro, determinam distorções, sobretudo relacionadas ao comportamento e ao caráter. E como bem disse o Prof. Vaillant, a sua localização fora da área cerebral onde se elaboram os pensamentos, o raciocínio e a crítica, afasta a possibilidade da força de vontade moderar o padrão do uso daquelas substâncias (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha basica.html).
  • 38. 38 Explicada biologicamente a impossibilidade de um alcoólico ter a força devontade suficiente para abster-se do uso do álcool, o segundo passo da Irmandade faz alusão aum Poder Superior - espiritualidade - como cada um a concebe, para haver restabelecimentoda sanidade perdida. Isto a Dra. Dirce também tratará na cartilha: Nesse ponto do raciocínio retornamos à espiritualidade e sua ligação com o Circuito de Recompensa, para afirmar que o seu desenvolvimento irá estimular a conscientização do valor da sobriedade, promovendo uma motivação firme e sobretudo persistente de uma vida sem álcool ou outras drogas, idéia que antes se afigurava absurda e completamente sem sentido, para o usuário. Dissemos ao início que a espiritualidade, manifestada pelo comportamento, transcende a existência individual e agora, imaginando o desenvolvimento espiritual num processo continuum, vislumbramos a transcendência da esfera material com a possibilidade de interação do homem com um Poder Superior a si mesmo, num movimento consciente de resgate biológico da sobriedade (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha-basica.html). Neste ponto, ou seja, ‘um movimento consciente de resgate biológico dasobriedade’, poderemos situar a pragmática da Irmandade dos Alcoólicos Anônimos. E aciência vem paulatinamente argumentando a favor de A.A., como demonstra Vaillant, aodefender a eficácia deste método calcado na espiritualidade.4.2 Alcoolismo e sua “evolução” na história: o alcoólatra como insano Primeiramente, a partir de um conceito de “longa duração”, analisemos um poucoda história do álcool, citado no trabalho de Cabral(http://www.ipv.pt/millenium/millenium30/14.pdf): A história da humanidade tem nos mostrado o constante gosto que o Homem em geral tem pela bebida alcoólica. Elas desde sempre foram preferidas pelo seu efeito tônico e euforizante, para aliviar a angústia a libertar tensões. [...] Em alguns países como Cartago, Esparta e Grécia antiga, era proibido o consumo de bebidas
  • 39. 39 alcoólicas pelos jovens casais [...] Um baixo relevo (30. 000 a.C.) é uma das mais antigas referências ao consumo de bebidas alcoólicas. Pensa-se que é no período paleolítico e de forma acidental que o homem conhece os efeitos da ingestão do mel fermentado. A cerveja e seu fabrico são já utilizados no período neolítico. [...] No século XI, sobretudo em França surge o processo de destilação do vinho. [...] Na antiguidade só a embriaguez era considerada perturbação (a evitar) sendo na época ignorada os fenômenos do alcoolismo crônico. [...] Só na segunda metade do séc. XIX em França é desenvolvido o conceito de alcoolismo como doença e não apenas como vício. [...] A abordagem científica dos problemas ligados ao consumo do álcool sustentou-se numa consciencialização dos seus perigos para a saúde pública, os avanços no conhecimento da fisiologia da célula nervosa e os efeitos do álcool no sistema nervoso (http://www.ipv.pt/millenium/millenium30/14.pdf). Já no livro “A fabricação da loucura”, de Thomas S. Szasz (SZASZ, 1984), essefaz um paralelo da loucura dos tempos modernos como substituta da Inquisição e caça asbruxas, como observamos quando este autor fala sobre Zilboorg: [...] sem dúvida, em nossa mente fica a impressão de que milhões de feiticeiras, bruxas, possessos e obcecados, constituíam uma massa enorme de neoróticos, psicóticos e pessoas em estado grave com delírio orgânico muito deteriorado [...] por muitos anos, o mundo parecia um verdadeiro asilo para insanos, sem um hospital psiquiátrico adequado (SZASZ, 1984, p. 106). É neste contingente de insanos que os alcoólicos estavam presentes, porque oalcoolismo também foi denominado como doença mental. Szasz (SZASZ, 1984, p. 144) diz:A perseguição de feiticeiras e de loucos é a expressão de intolerância social e uma busca debodes expiatórios. Szasz (SZASZ, 1984, p. 180) também descreve à posição de Rush quantoao encarceramento dos bêbados: Nem se diga que a prisão dessas pessoas num hospital será um ataque à liberdade pessoal e, portanto, incompatível com a liberdade de nossos Governos. Não usamos esse argumento quando colocamos um ladrão na cadeia; apesar disso, considerando o conjunto de males do maior número de bêbados, quando comparado ao de ladrões, bem como os maiores males que a influência de seu exemplo e de sua conduta imoral introduzem na sociedade, deve ser evidente que a segurança e a prosperidade de uma comunidade são mais protegidas pela prisão dos bêbados do que pela dos ladrões. Para impedir a injustiça ou a opressão, ninguém deve ser enviado para o hospital em vista, ou CASA DA SOBRIEDADE, sem exame e entrega por um
  • 40. 40 tribunal, formado por um médico e dois ou três magistrados, ou funcionários indicados para isso (SZASZ, 1984, p.180). Nesse trecho citado acima, é citado que a segurança e a prosperidade de umacomunidade são mais protegidas pela prisão dos bêbados do que pela dos ladrões, segundoRush (SZASZ, 1984, p.180). Assim, remetendo-nos a história da doença mental, queremospassar algumas averiguações pertinentes ao nosso tema que é o alcoolismo. Por exemplo,Szasz (SZASZ, 1984, p.173) observando Rush, que é considerado o Pai da Psiquiatria,conclui que este não reconheceu que a bebida era um problema médico, definiu-a comoproblema médico. O certo é que segundo Szasz nenhum dos manuais usuais de história daPsiquiatria menciona a teoria de Rush sobre a lepra da negritude, pois Rush afirmou que a cornegra tratava-se de um tipo de lepra congênita (SZASZ, 1984, p. 188). E se formos falar navida pessoal de Rush, porque não citar que o mesmo internou seu próprio filho em umhospital psiquiátrico, aonde esse veio morrer 27 anos depois? Não porque o filho tivesseproblemas; John apenas não quis seguir a carreira da medicina ao lado do pai, logo Rushdiagnosticou que o filho estava louco (SZASZ, 1984, p.184-185). Szasz (SZASZ, 1984, p. 213) reconhece a importância da autonomia do sujeitoperante sua enfermidade, como podemos averiguar: Se realmente valorizamos a cura médica e nos recusamos a confundi-la com opressão terapêutica – assim como nossos antepassados realmente valorizaram a fé religiosa e se recusavam a confundi-la com opressão teológica – devemos deixar que cada homem procure sua salvação médica, e erguer uma parede [...] que estabeleça uma separação entre a Medicina e o Estado (Szasz, 1984, p. 213). O primeiro passo da Irmandade é claro ao dizer que o bebedor problema admitesua impotência perante o álcool. Não perante a doença! E se a doença alcoolismo continuasendo uma definição, a se dizer, abstrata, Alcoólicos Anônimos apresenta uma possívelsolução, que parece abstrata, pois utiliza do sobrenatural para que se haja um retorno àsanidade, mas mostra-se empiricamente viável, de acordo como os números de recuperação
  • 41. 41em todo o globo, ou seja, bem mais de dois milhões de pessoas. Mesmo para os ateus, o PoderSuperior poderá ser considerado o Grupo (membros), que em relação ao bebedor-problema ésuperior, porque estão sem beber (OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES, 2007). Como já pontuamos, na atualidade o alcoolismo é considerada uma doença quepode levar seu portador à loucura, e não uma insanidade em si mesma. Isto modifica as viasde tratamento, e diminui o estigma de quem possui esta enfermidade. Mas nos questionamos:Alcoólicos Anônimos é uma Irmandade anônima para que as buscas por prestígio e poder nãoos afastem (seus membros) do seu objetivo primordial, que é a manutenção da sobriedade elevar a mensagem de Alcoólicos Anônimos para quem sofre, como é citado em suasTradições? Pode ser acrescentado que esta intolerância contra o diferente, neste caso oalcoólico, hoje é tão evidente quanto na década de 30 (século passado), quando foi forjado onome e o objetivo desta Irmandade. A medicina está de fato preocupada com o bêbado porque este pode morrer decirrose, etc., ou por que este causa um mal estar social? A designação de doença para oalcoolismo leva para seu portador a perpetuação da discriminação de uma sociedade“moderna”, que continua sua caça ao diferente, como um dia caçou bruxas e renegou osleprosos? Cremos que permanecer anônimo indubitavelmente preserva a unidade daIrmandade, mas também deve ser necessário como um escudo, ou seja, uma proteção, pelosimples fato de que o alcoolismo ainda continua sendo muito discriminado pela sociedade,ainda que o consumo do álcool seja abundantemente incentivado. Cabral(http://www.ipv.pt/millenium/millenium30/14.pdf) pontua: É no século XIX que é descrito o quadro clínico do Delirium Tremens por Thomas Sulton construindo, desta forma, a primeira abordagem médica à doença alcoólica. Já na segunda metade do mesmo século e no tratado sobre alcoolismo crônico, publicado em 1851, por Magnus Huss, médico sueco, considera o Alcoolismo crônico como uma síndrome autônoma e define-a como “forma de doença correspondendo a uma intoxicação crônica” e descreve “quadros patológicos desenvolvidos em pessoas com hábitos excessivos e prolongados de bebida alcoólica”. [...] tem surgido muitos autores a tentar definir alcoolismo no entanto nenhuma tem satisfeito inteiramente. [...] A escola americana de JELLINEK (1940) deu passos importantes no sentido da compreensão da extensão dos problemas ligados ao álcool, à complexidade dos seus efeitos, à multiplicidade e a interacção de forças e vetores que lhe estão na origem. Foi nesta escola que se defendeu a importância da equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, psicólogos, juristas, economistas [...] E surge um novo conceito alargado de
  • 42. 42 Alcoolismo. Em 1955, PIERRE FOUQUET concluía “[...] o conceito de alcoolismo, a sua patogenia, classificação nosográfica, seus fundamentos e sua realidade continuam a ser noções muito pouco claras”. Actualmente, as dificuldades de definição continuam apesar da vasta investigação realizada nos últimos anos, quer a nível clínico, laboratorial ou epidemiológico. Realça-se sim, uma nova compreensão etiopatogénico do problema. Esta designação de Alcoolismo, refere-se habitualmente às conseqüências da ingestão de álcool no indivíduo traduzido por um quadro mórbido de sinais e sintomas, esquecendo-se da complexa problemática ligada ao uso das bebidas contendo álcool (http://www.ipv.pt/millenium/millenium30/14.pdf). Assim, nos perguntamos por que a psiquiatria abraça o alcoolismo como umadoença mental: se existe a possibilidade de se viver sem o álcool, e estacionar a doença,podendo ser com a ajuda mútua de alcoólicos em recuperação na Irmandade dos AlcoólicosAnônimos, a doença passa a ser tratável, ainda que o portador não deva fazer uso do álcool,como o diabético não deve fazer uso de açúcar. Seria incurável se não houvesse quaisquermeios de se abandonar a bebida. Talvez fosse mais sensato para o discurso médico afirmarsuas limitações, e dizer que para os meios científicos em voga, não há possibilidade deestacionar-se o álcool. Mas os leigos, a se dizer, a Irmandade de Alcoólicos Anônimosmostram um meio de como se viver sem o álcool, ainda que para isto recorram aos meiosespirituais, ou seja, sobrenaturais. A ciência caberia incentivar este meio de recuperação não convencional, mas quefunciona; possivelmente o número de pessoas que procurariam a terapia de AlcoólicosAnônimos aumentaria: a pessoa em recuperação deverá continuar anônima, mas a ciênciapoderá validar este método como viável – seria um ponto favorável para a propagação destaIrmandade. Tirar o preconceito da pessoa que é alcoolista talvez seja o maior desafio destenovo século. Isto provavelmente ocorra mais eficazmente quando o alcoolismo não forconsiderado uma doença, que infelizmente carrega um teor pejorativo, mas sim evidenciarque o uso abusivo de álcool pode gerar doenças, como cirrose, insanidade (enquantodescontrole com a própria vida), ou mesmo a morte prematura: isto só ocorreria se houvesseuma revisão semântica por parte da própria ciência. Que este começo seja pelas ciênciassociais, incentivando urgentemente estas perspectivas revisionistas, quiçá desconstruindoalguns mitos da ciência em voga, seja no campo do alcoolismo, e dos diversos nuancescomportamentais que atualmente são considerados como doenças mentais.
  • 43. 43 Fica evidente que o discurso da ciência em voga entra em conflito com o sensocomum, como observamos na terapia leiga dos Alcoólicos Anônimos. Como pontua Santos(SANTOS, 2010), o paradigma da pós-modernidade estará em aceitar o senso comum comociência: “Hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessáriaoutra forma de conhecimento [...] que não nos separe e antes nos uma pessoalmente ao queestudamos” (SANTOS, 2010, p. 85). Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) mostra esta viabilidade comAlcoólicos Anônimos, e provavelmente possa estar nessa uma síntese na ciência pós-positivista, provavelmente apresentando pela primeira vez na História como religião e ciênciapodem estar unidas, objetivando a própria vida do homem, não apenas a sobrevivência, ouseja, aceitar diagnósticos conclusivos da medicina em voga, que gera muitas vezesconformismo, e não a busca de formas alternativas para o restabelecimento à vida. Algumas datas que merecem ser lembradas são citadas no livro de Szasz (SZASZ,1984): em 1952, os tranqüilizantes são introduzidos na prática psiquiátrica [...] confirma acrença de que as perturbações psiquiátricas são doenças médicas, curáveis com medicamentosespecíficos (SZASZ, 1984, p.359). Pontuamos também o ano de 1962, onde a Corte Supremados Estados Unidos declara que o vício em narcótico é doença, não um crime (SZASZ, 1984,p.362). Em 1961, a Subcomissão dos Direitos Constitucionais da Comissão do Judiciáriodo Senado dos Estados Unidos declarou que é característica de algumas doenças que a pessoanão conheça a sua doença. Em resumo, é necessário, durante algum tempo, proteger aspessoas de si mesmas (SZASZ, 1984, p. 362). O mesmo autor cita uma declaração daAssociação Psiquiátrica Americana: as coerções podem ser impostas (ao paciente) tantointernamente, através de meios farmacológicos, como através do fechamento de uma porta deenfermaria. Qualquer dessas imposições pode ser componente legítimo de um programa detratamento (SZASZ, 1984, p. 364). Eis que estas medidas coercitivas ainda são práticas comuns em nossos dias, comofoi noticiado recentemente na Rede Globo: o caso Walter Casagrande, comentarista esportivoda Rede Globo de Televisão, que foi internado em clínica de recuperação sem oconsentimento do mesmo. É a menor parcela dos médicos que encaminha seus pacientes para salas deAlcoólicos Anônimos, essa que poderá servir como uma terapia viável. Muitos médicos aindapreferem diagnosticar seus pacientes com outras enfermidades paralelas ao alcoolismo (comoexemplo, depressão, bipolaridade, etc.). Assim, poderão usar a farmacologia com estes
  • 44. 44enfermos, mostrando mais uma vez que em inúmeros casos a medicina não está diretamenteligada ao retorno da saúde do doente, mas a manutenção de um cliente por interesse nopagamento de consulta, remédios, etc., como observamos na leitura de Szasz (SZASZ, 1984).4.3 A revolução discursiva de Bill Wilson: uma possível síntese para a históriado alcoolismo Ao falarmos em práxis revolucionária, observemos os elementos transformadores.Primeiro, porque esta Irmandade reúne todos os indivíduos que queiram abandonar a bebida,ainda que com diferenças religiosas, étnicas, econômicas, etc.; segundo, porque estes grupostêm suas finalidades específicas, ou seja, Alcoólicos Anônimos inaugura esta prática: paracada tipo de dor, como pontuou James, (JAMES, 1991) haverá uma Irmandade que reuniráforças e esperanças a fim de resolver um problema comum. Esta rede de solidariedade éessencialmente por uma questão de sobrevivência; assim Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,1955) evidencia a importância da ajuda mútua que faz este sistema funcionar, e reproduzir-se.Dra. Dirce, apresenta um pouco da história desta Irmandade: De todo modo, os Grupos Oxford reuniam pessoas com outros padecimentos que não só os do alcoolismo, e por tudo isso os co-fundadores de A.A. resolveram organizar grupos de mútua-ajuda específicos para alcoólicos, estabelecendo um programa de seis etapas, com o objetivo de um aprimoramento permanente e gradual da espiritualidade. Inspiraram-se nos pensamentos de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino – com suas quatro virtudes capitais, Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança – e William James, o grande psicólogo e filósofo do pragmatismo americano, autor da obra As Variedades da Experiência Religiosa, que compartilhou com Karl Gustav Jung, eminente médico e psicólogo suíço discípulo de Freud, as idéias sobre a importância da experiência espiritual nos casos de difícil tratamento psicológico convencional (em correspondência com Bill, Jung chegou a mencionar a necessidade de uma "deflação do ego" e a conveniência de um contato pessoal e honesto com outro semelhante). De toda essa experiência resultou o Programa dos Doze Passos, que foi rápida e universalmente aprovado por clérigos de todas as religiões, por psiquiatras e outros profissionais dedicados ao estudo ou ao tratamento do alcoolismo e, o que é mais importante, pelos próprios alcoólicos que buscam a sobriedade (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha-basica.html).
  • 45. 45 Esta busca, ou seja, como encontrar este remédio espiritual, foi o que Bill Wilson(ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) buscou condensar na Literatura da Irmandade dosAlcoólicos Anônimos. James (JAMES, 1991) no livro As variedades da ExperiênciaReligiosa, mostra variados relatos deste encontro com o sobrenatural, que devolve aosindivíduos um sentido de existência e de retorno à vida, ou seja, este autor mostra que orestabelecimento da saúde seria possível, mas não esquematiza como poderia dar-se estamudança. James vai apresentando no decorrer do seu livro os variados modos que muitoshomens e mulheres percorreram para modificar-se, e quais os elementos que estavampresentes nestas histórias inusitadas de milagres que pôde observar, ou seja, os elementostransformadores de vidas que estavam estagnadas. A tese de James (JAMES, 1991) éapresentar que existem características comuns nestes exemplos que ele vai analisando,comprovando a teoria de que é possível curar-se através de uma experiência sobrenatural. Existem pessoas para quem o mal significa apenas um desajustamento com coisas, uma correspondência errada entre a vida e o ambiente. Um mal dessa ordem é curável, pelo menos em princípio, no plano natural, pois bastará modificar o eu ou as coisas, ou ambos ao mesmo tempo, para que os dois termos sejam levados a ajustar-se. (...) Para outros, porém, o mal não é apenas uma relação entre o sujeito e determinadas coisas externas, senão algo mais radical e geral, um erro ou vício em sua natureza essencial, que nenhuma alteração do ambiente e nenhum rearranjo do eu interior vingam curar, e que requer um remédio sobrenatural (James, 1995, p. 93). As Variedades da Experiência Religiosa (JAMES, 1991) foi o livro de cabeceirade Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) e permeou o seu pensamento. Observemos umacolocação de James (JAMES, 1991): Não se tem a impressão de que o que costuma viver de um lado do limiar da dor pode precisar de uma espécie diferente de religião do que o que costuma viver do outro lado? Neste ponto, surge naturalmente a questão da relatividade de diferentes tipos de religião para diferentes tipos de necessidades, e se tornará um problema sério antes do fim (JAMES, 1991, p. 94).
  • 46. 46 É um fato o acirramento de tensões que envolvem em todo o mundo as questõesde natureza religiosa vem se agravando. O que é embaraçoso, até certo ponto, é não havermosaveriguado, enquanto pesquisadores da área de humanas, especialmente a História, osaspectos que permeiam a Irmandade de Alcoólicos Anônimos, e que esta, sendoessencialmente democrática, ainda que aparentemente anárquica, consegue reunir pessoas dediferentes religiões, mesmo àqueles que não professam crença em Deus; além de estaremnestas salas pessoas de diferentes classes sociais, etnias, gêneros, etc. Assim, para umproblema sério, como cita James, deduz-se que já existe um caminho, ou seja, uma possívelsolução que já está posta: assim é o legado de Bill e da Irmandade de Alcoólicos Anônimos,que poderá em breve ser uma solução para outras doenças intituladas como distúrbiosmentais, que continua presente na humanidade deste século XXI. Como cita a Dra DirceRudge: Dessa forma podemos concluir que, dentro dos conhecimentos científicos atuais, um processo terapêutico que demonstre eficiência para deter o curso da doença alcoolismo ou da adição, tem obrigatoriamente que incluir um programa de revisão e aprimoramento espiritual, do mesmo modo como pensaram os co-fundadores de A.A., Bill e Bob, há mais de 60 anos. Eles freqüentaram as reuniões dos Grupos Oxford, uma sociedade religiosa onde se preconizava o altruísmo, amor, honestidade e pureza, todos de forma absoluta. Essa proposição muitas vezes desanimava aos alcoólicos, os quais também se sentiam pressionados pela severidade do grupo. Mas ali já se enfatizava a necessidade do trabalho pessoal de um membro com o outro e se praticava um tipo de confissão, a reparação de danos causados e a meditação, mais tarde adotados na programação de Alcoólicos Anônimos (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo- cartilha-basica.html). Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) reuniu algumas práticas dosGrupos Oxford, retirando a perspectiva de ser absolutamente honesto, etc., ou seja, tirou os“absolutos”, atrelou com outros elementos científicos e revolucionários para o começo doséculo XX, como ainda é na atualidade, ou seja, as teorias defendidas por James (JAMES,1991) do livro As Variedades da Experiência Religiosa, teorias de Jung, e reformuloudiversos elementos religiosos, conseguindo condensar com a prática dos primeiros membrosno Livro Azul, que foi intitulado de Alcoólicos Anônimos, que veio a tornar-se o nome destaIrmandade.
  • 47. 47 Assim, ainda nos anos 30 do século passado, Bill Wilson (ALCOÓLICOSANÔNIMOS, 1955) foi um dos principais teóricos desta nova pragmática, e também oescriba deste movimento, ou seja, este absorveu o inconsciente coletivo do meio, conseguindotranspor para uma literatura as experiências dos primeiros membros, que garantiu não apenasa continuidade do movimento, mas principalmente, com a averiguação dos elementos alipresentes, pôde ter-se a base para se constituir outras Irmandades que seguem os mesmospreceitos. Provavelmente, os grandes avanços na área da medicina devam-se a estaIrmandade; se ela não tivesse mostrado um modo de vida sem o álcool, talvez os alcoólicostivessem apenas como caminho certo os hospícios, ou seja, sendo considerados loucos, ou ocemitério. Hoje a tese defendida é que o alcoólico é possuidor de uma doença que pode levara loucura, e/ou a morte prematura. Já expomos algumas averiguações da própria história doalcoolismo, que durante vários séculos esteve entrelaçado como uma doença mental, o quetrouxe maiores estigmas para quem sofria desta enfermidade. Se James (JAMES, 1991) apresentou variados exemplos de histórias pessoais detransformação por intermédio da espiritualidade, Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,1955) mostrará o meio para se obter um despertar espiritual; trata-se obviamente de umainovação, por conseguir demonstrar como percorrer este caminho na prática, criandoobjetivamente os meios para a recuperação da saúde, e que este está acessível a todos quequeiram desenvolver o programa dos Doze Passos. É o que observamos no capítulo V do livroAlcoólicos Anônimos (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955), intitulado como funciona: Raramente temos visto fracassar uma pessoa que cuidadosamente seguiu nosso caminho. Os que não se recuperam é porque não podem ou não querem se entregar completamente a este programa simples. Geralmente, homens e mulheres que, pelas suas constituições, são incapazes de ser honestos consigo mesmos. Existem tais desafortunados. Eles não tem culpa; parecem ter nascido assim. São, por natureza, incapazes de desenvolver um modo de vida que requeira rigorosa honestidade. Suas “chances” são menores que o comum. Existem, também, aqueles que sofrem de graves distúrbios emocionais e mentais, embora muitos se recuperem por terem a capacidade de ser honestos. Nossas histórias revelam, de um modo geral, como éramos, que aconteceu conosco e como somos agora. (...) Com toda sinceridade imploramos que leve a sério o programa desde o início. Alguns de nós tentamos apegar-nos às nossas velhas idéias. O resultado foi nulo e nos rendemos completamente. Lembre-se que estamos tratando do álcool – destro, frustrador, poderoso! Sem ajuda, é demais para nós. Mas existe Um que é todo poderoso. Esse Um é Deus. Que o encontre agora! (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1995).
  • 48. 48 Assim Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) e os membros pioneiros validamesta experiência de recuperação. Através da quantificação de que vai crescendo a cada diaprova-se a validade de sua práxis, esta que já deveria estar sendo observada com maioracuidade, como um novo campo de pesquisa para a ciência social, sendo superior ao conceitomédico tradicionalista que não consegue, por si só, deter o alcoolismo. Se assim podemos fazer um quadro demonstrativo desta experiênciatransformadora, Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) absorveu uma tese, queseria o diagnóstico que o Doutor Silkworth fez do mesmo; este disse que Bill era um caso semsolução, ou seja, que o alcoolismo iria levá-lo ao óbito, que era só uma questão de tempo... Naverdade, dada a natureza do avanço do alcoolismo de Bill, presume-se que pouco tempo devida restaria para o mesmo. A antítese começou a surgir através de uma esperança que surgiuem Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) quando soube que um amigo dele chamadoEbby parou de beber porque tinha “religião” (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE AMAIORIDADE, 1994, p.53). Em certa noite conheceu os Grupos Oxford acompanhado por Ebby, o que lhe fezpensar em internar-se novamente. Nesta última internação, com uma depressão insuportável,clamou por um Deus que talvez pudesse existir, foi então que Bill (ALCOÓLICOSANÔNIMOS, 1955) teve uma experiência “mística”, ou seja, um despertar espiritual súbitoque transformou sua vida pra sempre. Bill resolveu perguntar ao seu médico o que pensava detal experiência e o mesmo disse: “[...] Às vezes as experiências espirituais libertam pessoas doalcoolismo” (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE, 1994, p. 58). EntãoBill preferiu acreditar que sua visão não era fruto de sua imaginação ou loucura, como muitosmédicos atribuíram a vários pacientes, em tantos momentos no decorrer da História dahumanidade. Noutro dia, o amigo Ebby deixou ao seu lado o livro de William James aqui jámencionado; Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) reagiu favoravelmente a esta leituravislumbrando uma possível saída para seu caso sem esperança, acreditando na teoria posta porJames: James achava que as experiências espirituais poderiam ter realidade objetiva, quase do mesmo modo como as dádivas do céu poderiam transformar as pessoas (...)
  • 49. 49 Algumas nasciam de fontes religiosas, outras não (...) Total desespero e “fundo de poço” eram quase sempre necessários para se chegar à aceitação (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS ATINGE A MAIORIDADE, 1994, p. 58). Houve uma transformação em Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955),mas para isso permanecer ele precisou sair em busca de pessoas que tinham o mesmoproblema, para continuar sóbrio. A Igreja santificou muitas pessoas que tiveram experiênciasde iluminação parecidas com a de Bill. Não estamos querendo aqui santificar o despertar deBill Wilson, mas será que este poderia ser considerado no futuro um santo? Talvez se suasposições fossem mais centralizadas com um viés dogmático, por um Deus que cura segundoos ditames da Igreja Católica. Porém Bill, que viveu uma experiência espiritual transformadora tentou nãocolocar de fora quaisquer pessoas que precisassem recuperar-se do beber compulsivo.Independente da fé que professassem, ou na ausência da mesma, a conseqüente Irmandadeque nasceu do encontro de Bill com Dr. Bob, em Akron, Ohio, em maio de 1935 aceitariaqualquer pessoa, com credo definido, mesmo os ateus (Alcoólicos Anônimos atinge amaioridade, 1994, p. 59). A Irmandade que paulatinamente veio a se formar não se prendeu a quaisquerconceitos absolutos, que separam pessoas ao insistir na busca de perfeição, que está presentena maior parte das religiões. Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) ressalta queimportante é o progresso espiritual, não a perfeição. Este buscou registrar os meios paraabandonar a bebida com um teor plural das experiências dos primeiros AAs, estas espirituaisem sua essência, mas que tivesse em comum o fato de abandonar a bebida. Bill e Dr. Bob,juntamente com os primeiros veteranos vivenciaram erros e acertos. Analisando estas práticasem grupo, nas recuperações que ele observou nos companheiros e nele mesmo, e estudandotanto o livro de James, a Bíblia, etc., Bill procurou condensar o pensamento em um livro queveio foi chamado Alcoólicos Anônimos, com a idéia de difundir a Irmandade. Surgiram vários pedidos de S.O.S. por todo o globo! Buscando responder àquelesque perguntavam como funcionava o Programa de A.A., Bill (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,1955) tentou explicar posteriormente, de forma detalhada, os passos para a recuperação doalcoólico, presentes no livro os Doze Passos e as Doze Tradições, demonstrando como esteprograma é simples e que pode ser tentado por qualquer pessoa que queira abandonar abebida. Consideramos as vivências compartilhadas por Bill, Dr. Bob e os veteranos, assim
  • 50. 50como suas inevitáveis tentativas, acertos e erros no incipiente movimento dos AAs, na décadade 40 do século passado, possivelmente como uma antítese neste processo. A síntese seria justamente esta sistematização, ou seja, pontuar os caminhos parater uma experiência espiritual que possa tirar o sujeito do lamaçal do alcoolismo, ou de outrastendências compulsivas, como outras Irmandades que usam os passos e tradições deAlcoólicos Anônimos. Portanto, o que esta Irmandade traz de inovador não é meramentemostrar as recuperações dos alcoolistas, mas a sistematização de como qualquer ser humanopode vencer suas limitações, sejam de qualquer gênero, e que para esta recuperaçãosedimentar-se, mostra-se a importância de espaços para troca de experiências com pessoasque sofram de males semelhantes. Haverá de se haver separações de pessoas por Irmandadesimplesmente porque a prática demonstrou que pessoas alcoolistas se identificarão com outrosque sofram da mesma doença; se além de alcoólatra, a pessoa for um jogador compulsivo, elepoderá recuperar-se com os mesmos passos sugeridos por Alcoólicos Anônimos. E se nãohouver um grupo com esse fim, ele poderá formá-lo em sua localidade. Não há isolamento grupal porque os grupos se ligam as suas sedes, normalmentepresentes nas capitais dos grandes centros, sendo que tudo começa e termina no grupo, quetem sua autonomia respeitada, desde que não firam os princípios da Irmandade como umtodo. Pede-se o anonimato para que os princípios da Irmandade superem as personalidades, etambém é sugerida a pobreza coletiva, para que problemas com propriedade e prestígio nãoafastem os alcoolistas do seu propósito primordial, que é permanecer sóbrio e levar estamensagem de recuperação para outros que sofrem deste mesmo mal. Assim, reafirmamos que inovador em Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS,1955) e nessa Irmandade, não é simplesmente a recuperação dos alcoolistas, mas como elesistematizou os passos de A.A., sendo este a base para obter-se uma experiência espiritual.Nós acreditamos que provavelmente Bill complementou a obra de James, na proporção quevalida à teoria e mostra sua eficácia, comprovada através das recuperações dos alcoolistas emtodo globo. Principalmente, Bill explica qual o meio recuperar-se de doenças consideradasincuráveis, a exemplo do alcoolismo, através de uma experiência sobrenatural posta nospassos, mesmo na ausência de crença em Deus comumente definido nas religiões, até mesmopara os ateus e agnósticos: eis a revolução de um pensamento. É este ponto que tentamos evidenciar em nosso trabalho, mostrando queprovavelmente poderemos considerar muito em breve, os passos de Alcoólicos Anônimoscomo uma síntese do trabalho defendido por James (JAMES, 1991) no livro As Variedades daExperiência Religiosa, juntamente com o que outros autores desenvolveram ao longo da
  • 51. 51história. Visto por uma perspectiva abrangente, observando a macro realidade, o livro escritopor James poderia ser denominar como uma espécie de antítese. A tese seria justamente o queperpassou o consciente coletivo durante toda a história da humanidade antes do século XX:que alcoolismo não tinha quaisquer lenitivos. É bom ressaltar que em Alcoólicos Anônimoshouve a sistematização de um método que fez com que o bebedor problema pudesse se afastarda bebida: eis a síntese. Na verdade, o que o inconsciente coletivo deixou escapar; o que vários filósofosao longo do tempo tentaram explicar; o que os homens e mulheres considerados como santosexperimentaram em suas vidas, mas que a religião buscou dogmatizar de acordo com seusditames, e o que a ciência tentou menosprezar, ou seja, os aspectos subjetivos da mentepermeados pela idéia de um ente espiritual que devolvesse a sanidade, entendendo-sesanidade aqui empregada no seu contexto mais amplo, ou seja, retorno a saúde e bem estar,Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955) sistematiza nos Doze Passos, e com opassar dos anos a Irmandade dos AAs veio a comprovar a validade deste sistema. Autores como Jung, por exemplo, foi menosprezado pela Ciência ao trabalharcaminhos diferentes para promoção de saúde através do inconsciente. Bill Wilson ofereceuma fórmula para mudança de uma mente enferma, contida nos Doze Passos e reforçada nosgrupos de ajuda mútua. Fazendo que o inconsciente não seja inerte diante dos próprios limiteshumanos e de um consciente doentio, Bill fornece um meio para a recuperação do alcoolismoao mostrar caminhos para uma mudança de personalidade, ou seja, um progresso espiritualatravés de uma nova conscientização, utilizando elementos que agem sobre a mente, com otrabalho da fé que transforma, não mais com condicionamentos rasteiros que não alteramestados mórbidos de difícil compreensão, como se percebe no alcoolismo crônico. A diferença destes autores, como James, Jung, dentre outros, que queremapresentar o contato do ente superior reagindo à nossa procura e Bill Wilson, é que estedemonstrou empiricamente o que antes era uma possibilidade desarticulada, como um quebracabeça com apenas algumas peças encaixadas. Validando as teorias de vários séculos, Billpontua o passo a passo para conseguir-se uma experiência espiritual transformadora, ou seja,como conseguir-se um despertar espiritual, ou seja, este salto quântico que fomenta umamudança estrutural de vida. De forma simples, um dia de cada vez: “Evite o primeiro gole,mas não evite a próxima reunião”. Simples, certo? Decerto. Mas não é fácil. Dra Dirce Rudge resume a experiência do alcoólico em recuperação, e aimportância dos grupos de Alcoólicos Anônimos:
  • 52. 52 No Brasil temos mais de cinco mil grupos, só na grande São Paulo são cerca de 200 grupos. Há pouca formalidade e a pessoa não precisa dizer o nome, se desejar pode inventar um. Interessa a pessoa que lá está e nada mais. A receptividade de um novo adepto é amigável e ele é encorajado a retornar. O programa de Doze Passos é apenas sugerido e pode ser utilizado de acordo com a possibilidade e disponibilidade de cada membro da irmandade. Se alguns iniciam o programa esforçando-se para compreender os passos em sua seqüência, outros vão aos poucos, podendo levar anos para compreender e dar dois ou três fora da seqüência. Há um incentivo ao serviço dentro do grupo e isto faz com que surja um fio de auto-estima, que costuma estar muito baixa. Muitos são os ganhos dos freqüentadores da irmandade. O primeiro deles talvez seja a descoberta de que ele pode ter esperança ao ver companheiros em recuperação que já reconstruíram parte de suas vidas e em variados graus (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha-basica.html). Infelizmente, a Ciência continua essencialmente “positivista”, ou seja, dogmática,os psicólogos normalmente freudianos, e as pessoas morrendo por não entender ou conheceruma fórmula para transformar suas vidas. Alcoólicos Anônimos apresenta um meio: Os DozePassos apresenta a fórmula. Cabe aos estudiosos maior divulgação, para estender a maispessoas uma possível chance de recuperação, ainda que por vias sobrenaturais, mas quecomprovadas empiricamente nas salas dessa Irmandade. Depende agora se o bebedorproblema quer buscar esta tentativa sugerida, ou seja, A.A., uma Irmandade que reintegra oalcoólico à sociedade, onde uns ouvem aos outros, como salienta Rudge: É a terapia de espelho. Ele vê que outros conseguiram ficar abstinentes e recuperar- se. Ele também pode. Outro é o encontro de um grupo de pessoas com propósitos semelhantes. Como diz Vaillant “a parede protetora da solidariedade humana”. Para alguém que viveu anos e anos de solidão é confortante esse encontro. Citando ainda Vaillant – “é preciso encontrar um comportamento que vá competir com o comportamento adictivo. Não se pode deixar o cérebro de “jacaré” com sede.” A freqüência ao grupo e o encorajamento dos companheiros para a mudança do estilo de vida é extremamente benéfico ao alcoolista (http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha-basica.html). O que em James (JAMES, 1991) ainda era reunião de casos, uma hipóteseverificável, Bill sistematizou. E que em breve outros pesquisadores possam adentrar emvários pontos essenciais que permeiam esta Irmandade, porque aqui poderão se encontrarrespostas tangíveis pra outras questões suscitadas por toda a humanidade, como a tolerância ea melhor convivência entre grupos, apesar das diferenças étnicas, econômicas, etc., ou seja,
  • 53. 53como gerir um mundo que necessita de sustentabilidade e cooperação, assim como osalcoólicos buscam conviver em harmonia por uma questão de sobrevivência. Quiçá sirva como uma singela provocação, para que outros observam a síntese deBill Wilson, co-fundador de Alcoólicos Anônimos, vislumbrando que a experiência espiritualpode ser conseguida por àqueles que a perderam, devolvendo a sanidade ao indivíduo. Poderáservir também para o restabelecimento do equilíbrio do inconsciente coletivo em nossaintempestiva atualidade? Isto é questão de experimentação. Quem sabe podendo haver nofuturo, uma validação.5 RESULTADOS E DISCUSSÕES Com Alcoólicos Anônimos vemos claramente uma alternativa de deixar de ser umalcoólatra ativo, porque é difícil uma pessoa conseguir abandonar o álcool sozinho. Mostraresta práxis e sua revolução é ressaltar a evidente mudança de paradigma para os alcoólicos,compulsivos, dentre outros, que não tinham chances de recuperação, com raras exceções queeram consideradas verdadeiros milagres. Alcoólicos Anônimos não apresenta a cura, mascomo deter a doença em sua marcha pela primeira vez na história da humanidade, e de formaquantitativamente expressiva mostra-nos seu valor. Damos ênfase na história de Bill Wilson (ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955)não por este ser o único pensador e formulador de um novo sistema. Pelo contrário, o mesmotrocou experiências com diversas pessoas e pesquisou inúmeras fontes, todavia foi ele oresponsável por tornar tangível um pensamento do inconsciente coletivo, e juntamente comsua fatídica experiência na vida pessoal, construir um novo Método, dando assim um saltoquântico na história da mentalidade ocidental no que se refere ao alcoolismo, queposteriormente foi adaptado para diversos males oriundos por outras compulsões. Assim, o aspecto central nos primórdios desta Irmandade é a doença doalcoolismo, mas o Método inaugurado pela mesma, ainda na década de 30 do século passado,vai reproduzindo-se cada vez mais por outros segmentos, surgindo novos grupos que tratamde outros problemas compulsivos. A tabela que segue mostrará algumas destas Irmandadesbaseadas nos Doze Passos e Tradições de Alcoólicos Anônimos, mas que tem seus fins
  • 54. 54próprios, pois este é o ponto chave para manter a coesão grupal: a dor compartilhada e anecessidade de o grupo ter unidade, por uma questão de sobrevivência, porque como se temobservado, é muito difícil manter-se afastado do álcool, ou de quaisquer comportamentoscompulsivos sozinho. Observemos o quadro a seguir, que mostra os principais grupos deajuda mútua dos Estados Unidos que utilizam os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos: 1935 - Alcoholics Anonymous - Alcoólicos Anônimos - Alcoolismo 1948 - Alcoholics Victorious - Alcoólicos Vitoriosos (cristão) - Alcoolismo 1951 - Al-Anon - Al-Anon - Familiares de Alcoólicos 1953 – Narcotics Anonymous – Narcóticos Anônimos – Toxicomania 1953 – Nar-Anon – Nar-Anon – Familiares de adictos 1957 – Alateen – Alateen – Adolescentes, filhos de alcoólicos 1960 – Overeaters Anonymous – Comedores Compulsivos Anônimos – Obesidade,distúrbios alimentares 1964 – Neurotics Anonymous – Neuróticos Anõnimos – Neuroses, depressão 1971 – Emotions Anonymous – Emocionais Anônimos – Fobias, problemasemocionais 1971 – Families Anonymous – Famílias Anônimas – Familiares de alcoólicos eadictos 1976 – Adult Children of Alcoholics – “Filhos Adultos de Alcoólicos” – Familiares deAlcoólicos 1976 – Debtors Anonymous – Devedores Anônimos – Dívidas, consumo compulsivo 1976 – Sex and Love Addicts Anonymous – Dependentes de Amor e Sexo Anônimos– Sexo compulsivo 1982 – Cocaine Anonymous – “Cocaína Anônimos” – Dependência de cocaína
  • 55. 55 1982 – Survivors of Incest Anonymous – Sobreviventes de Incesto Anônimos –Vítimas de Incesto 1983 – Workaholics Anonymous – Trabalhadores Compulsivos Anônimos – TrabalhoCompulsivo 1985 – Nicotine Anonymous – Fumantes Anônimos – Tabagismo 1986 – Co-Dependents Anonymous – Co-Dependentes Anônimos – Co-dependência 1987 – Marijuana Anonymous – “Maconha Anônimos” – Dependência de maconha 1988 – Obsessive Compulsive Anonymous – Obsessivo-Compulsivos Anônimos –Transtorno obsessivo-compulsivo(FONTE: MOTA, 2004, p. 44-45 apud MÄKELÄ, 1996; CAVANAUGH, 1998 e correspondências enviadaspelas centrais de serviço dos diversos grupos relacionados). Atentamos que possivelmente seja os Alcoólicos Anônimos um forte exemplo deuma práxis revolucionária surgida no século XX, ainda que despercebida por muitas esferasdo conhecimento, ou seja, pouco reconhecida e divulgada nas Academias e círculos depesquisa, talvez por diferir da racionalidade “dogmática” que a Ciência aprecia. AlcoólicosAnônimos não apenas inspirou outras Irmandades, sendo todas estes designadas,essencialmente, como grupos de ajuda mútua, mas esteve à frente das pesquisas no campo doalcoolismo, pois este foi aceito como doença apenas na década de 60: Alcoólicos Anônimos jádefendia isso na década de 30. A diferença é que a ciência, em especial a medicina, nãoconseguiu um meio de deter esta doença: Alcoólicos Anônimos conseguiu. São nas Irmandades, ou seja, nos grupos de mútua ajuda que utilizam os DozePassos, que se percebem as maiores chances para estacionar as mais diversas compulsões, eque está oferecendo os maiores números de recuperação que se tem conhecimento na história. Assim, provavelmente Alcoólicos Anônimos apresenta de forma quantitativa, queatravés da crença em um Poder Superior como cada qual o concebe, aliado a experiência detrocas na coletividade, ou seja, nos grupos de ajuda mútua, processa-se a recuperação dedoenças consideradas incuráveis como o alcoolismo. Portanto, esta Irmandade prova de formaexpressiva, a recuperação através de um fenômeno sobrenatural, independente do credo e daforma como qual cada o busque: sem segregação, absolutismo ou dogmas, respeitando oprogresso espiritual de cada um dos seus membros. O que Wiliam James argumentou, Bill
  • 56. 56Wilson, Dr. Bob e os veteranos demonstraram como é possível: Alcoólicos Anônimoscontinua comprovando a eficácia deste Método em nossos dias. O que surgiu como umapossibilidade, passando à criação de uma nova teoria, foi sistematizada nos 36 princípios:Passos, Tradições e Conceitos. Vemos que a Irmandade de Alcoólicos Anônimos representa uma mudança deparadigma, uma ruptura, ainda aparentemente despercebida aos olhos de muitospesquisadores. Nessa Irmandade existe uma síntese que mostra um meio de recuperação paradoenças consideradas incuráveis durante séculos... Uma mostra que apenas a Religiãosegrega. A Ciência, especialmente a Medicina não possui todas as respostas. Mas que aojuntarmos os conhecimentos acumulados, condensados nos Doze Passos, temos grandeschances de recuperação para o doente alcoolista.6 CONCLUSÕES É preciso acreditar que existem outras saídas. A medicina tradicional ainda estápresa aos conceitos racionalistas, descartando processos de recuperação baseados em meiossubjetivos, que tem como pano de fundo algum tipo de despertar espiritual, como foi propostopor William James (1991) e sistematizado com Bill Wilson nos Alcoólicos Anônimos(ALCOÓLICOS ANÔNIMOS, 1955), este que com sua história vida permeada por umalcoolismo insano, fomentou para todos à possibilidade de se viver sem o álcool. James(JAMES, 1991) observa um fato que pode ser averiguado na personalidade de Bill Wilson: A insanidade fronteiriça, a excentricidade [...], a perda do equilíbrio mental [...] tem certas peculiaridades e suscetibilidades que, ao se combinar com uma qualidade superior do intelecto num indivíduo, torna mais provável que ele venha a deixar a própria marca na sua época e influa nela, do que se o seu temperamento fosse menos neorótico. [...] quando um intelecto superior e um temperamento psicopático se unem [...] no mesmo indivíduo, temos a melhor condição possível para o surgimento da casta de gênio operante com que topamos nos dicionários biográficos. Homens assim não se limitam a criticar e conhecer com o intelecto. Suas idéias os possuem e eles as impõem, [...] aos companheiros de sua época (James, 1991, p. 27).
  • 57. 57 Bill, esse ser que passou por clínicas psiquiátricas, tido como um homem a beirada morte por causa do seu alcoolismo crônico, mostrou a sagacidade do ser humano emreinventar-se, para achar uma solução que lhe devolvesse a vida, observado em seu poder detransformação, através do seu “religar-se” com um Poder Superior. Citemos que estepersonagem era ateu, até o dia de seu despertar espiritual no hospital. Assim, quando já não existem meios para solucionar diversos males que afligemmilhões de seres humanos, devemos buscar explicitar o fenômeno, ou seja, relatar estes meiosalternativos para a recuperação, ainda que calcados em conceitos subjetivos. A História nãopoderá ficar ausente deste debate, ou seja, da possibilidade palpável de recuperação nosgrupos de mútua ajuda, ou seja, como um meio eficaz de estacionar a doença do alcoolismo, esuas correlatas. Apesar de ser um movimento relativamente novo, esse mudou radicalmente opensamento ocidental sobre doenças caracterizadas pela compulsão. A mudança de objetos e fontes que os Annales possibilitaram deverá ser buscada,porque existe uma elevada demanda por respostas aos dilemas contemporâneos nas nossassociedades. Não podemos enquanto sujeitos históricos ficar omissos perante este debate;busquemos essencialmente oferecer possíveis esclarecimentos à sociedade. Hoje, bem maisdo que no passado, o ser humano quer ser um ator social em seu tempo, ter maioresclarecimento, e ao menos vislumbrar possíveis soluções para os males que o aflige. Assim,uma análise da história da mentalidade dos AAs e o que está condensado em seu pensamentocoletivo, trará uma maior compreensão deste processo transformador, que desenvolve estapossível solução para àqueles que sofrem do alcoolismo ativo. E que isto não é um atocoletivo, de cima para baixo, mas do indivíduo reinserido no coletivo, através de novasescolhas, ou seja, de um novo modo de vida. A partir da caracterização dos elementos presentes nesta Irmandade, veremos queos mesmos legaram uma mudança paradigmática no pensamento ocidental. E isto não é umato isolado que merece apenas o olhar perspicaz da Sociologia. Se ainda passa “despercebido”pela maior parte dos estudiosos de outros campos do saber, não seremos omissos temendoqualquer crítica do sistema analítico em voga. Enveredar por uma pesquisa movediça, quepossuiu pouquíssimas fontes históricas como esta temática que abraçamos é decertodesafiadora, ainda que soe como temerária. Buscando evidenciar alguns dos aspectos deste recente fenômeno histórico, a sedizer, a Irmandade dos Alcoólicos Anônimos, é possuirmos a sensibilidade em notar oelevado número de alcoolistas, adictos, e outros sofredores de distúrbios compulsivos em todoo mundo. É também atentar que a escolha de um tema para pesquisa não deverá ser guiado
  • 58. 58pelo que é mais fácil em termo de análise, e de acordo com as fontes disponíveis para aconsulta bibliográfica. Antes nos guiemos pela necessidade que a humanidade demonstra, sejaprocurando possíveis soluções para o alcoolismo, dependência de drogas e seus correlatos. Ao vislumbrarmos os grupos de ajuda mútua que surgiram a partir de AlcoólicosAnônimos e sua eficácia, sentimo-nos impelidos a escolher este objeto, ainda que sejaparadoxal. Assim, a extensão foi nosso objetivo primordial, porque infelizmente a falta deinformação mata mais que o próprio alcoolismo. E utilizando o movimento contrário,esperamos trazer um conhecimento leigo, ou seja, Alcoólicos Anônimos, para dentro daAcademia, porque o esclarecimento desta possivelmente ajudará enormemente a diminuir oíndice elevado de desinformação que cerca o alcoolismo, doença que permeia todos ossegmentos da sociedade, e que todos os profissionais, direta ou indiretamente têm de lidar,sejam eles psicólogos, professores, médicos, assistentes sociais, etc. Vemos que A.A. provavelmente traz em si uma mudança estrutural nopensamento ocidental, mesmo que aparentemente despercebida. Como toda mudança, causacerta perplexidade, mesmo insegurança para utilização dos seus meios, ou recomendaçãodestes novos métodos. Àquela busca por valores e respostas objetivas formulados pelosistema cartesiano do saber, um dos principais orientadores das práticas científicas, mesmo denossas pesquisas enquanto cientistas sociais, em breve haverá de ser repensado, porque estemesmo sistema não está contemplando às necessidades urgentes das modernas sociedades.Não podemos ficar ausentes de um debate sobre a própria formulação do discurso científico. Precisamos aguçar nossa percepção, porque os grupos de mútua ajuda é arepresentação palpável de um movimento histórico em plena ascensão, e esta poderá ser achave para a recuperação das mais variadas doenças, seja alcoolismo, ou quaisquer tipos decompulsão, e por extensão, esta solução subjetiva e essencialmente espiritualista poderá serum lenitivo para as doenças mentais, pela primeira vez na história da humanidade. Talvez sejapreciso a descentralização da verdade, tida como uma certeza incontestável, que está retida namaior parte das mãos dos psiquiatras e psicólogos, que gastam caneta para prescrever venenoaos seus pacientes. Sim, porque existem muitos remédios que tem imensos efeitos colaterais,e não poderão ser uma base segura de recuperação dos pacientes, mas um S.O.S.; fica umaindagação no ar: até quando seremos meros pacientes, ou cobaias humanas? Se os que são considerados doentes da mente, buscarem reunir-se em grupos demútua ajuda, e estes grupos forem cada vez mais incentivados pelos psiquiatras e psicólogos,a tendência será amenizar enormemente o sofrimento de muitos enfermos em todo o globo.Um novo caminho seria esses profissionais incentivarem os grupos de mútua ajuda: sair da
  • 59. 59utilização farmacológica como via única de tratamento, também descentralizar a atençãopsicológica, ou seja, que um bipolar possa ajudar outro bipolar, por exemplo, através deexperiências, forças e esperanças entre os mesmos, como vem sendo feito pelos alcoólicosanônimos há anos, e vem dando certo para a maior parte daqueles que exercitam este método. Poderá ser um salto quântico no tratamento das doenças mentais, principalmentese os profissionais da medicina e psicologia trabalharem em prol do restabelecimento dasaúde do cliente, ainda que por vias espiritualistas, pensando neste não como mero pacienteou enquanto saldo bancário, mas como um ser humano que merece reconforto e sociabilidade,não apenas receitas de alopáticos e/ou monólogos intermináveis em divãs frios. Mostrar este quebra cabeça é uma parte que também cabe aos historiadores.Averiguar que o quadro já está delineado e que faltam maiores informações sobre este recentefenômeno. Seja mostrando a perspectiva dos grupos de ajuda mútua aos diversos profissionaisque têm suas formações centradas em perspectivas positivistas, e aos diversos segmentos dasociedade que desconhecem este meio para deter as doenças como o alcoolismo, adicção, etc. Insistimos que nosso objetivo é apresentar esta mudança em plena expansão, eque não podemos simplesmente colher as respostas da ciência em voga como uma verdadeabsoluta, irrevogável, como fizemos no passado, centrados nos dogmas da religião. Há umaopção clara ainda que pouco divulgada, e está calcada no despertar espiritual, que devolve aosofredor alcoolista a perspectiva de viver sem a bebida. Nós deduzimos que isto poderá serveiculado nas Universidades e nos centros de pesquisa que tratam de temáticas sobre a mente,sendo este trabalho um modesto incentivo neste sentido, até porque já existem diversosestudiosos e médicos que reconhecem este conceito de recuperação como funcional e viável. O pensamento cartesiano poderá ser muito bem empregado em matemática,tecnologia, etc., porém não está dando conforto e serenidade para a vida das pessoas. Estemundo que progride materialmente, mas apresenta pessoas enfermas, depressivas, ansiosas echeias de fobias. Para haver um equilíbrio, haverá de unir-se a racionalidade a espiritualidade,essa em sentido amplo, ou seja, cada qual concedendo seu Poder Superior à sua maneira,como sugeriu Bill Wilson, co-fundador de Alcoólicos Anônimos: unir-se o racional e oespiritual em uma aventura coletiva, que são as salas de mútua ajuda, e respeitando aexperiência individual, que é o progresso espiritual que cada ser em recuperação deverábuscar. Eis a grande revolução paradigmática dos AAs. A História da humanidade vem sendo feita de recortes, sejam eles da religião emdetrimento da razão, ou da racionalidade em detrimento da espiritualidade. Talvez ao unirestes elementos, poderão as sociedades caminhar para seu aprimoramento. As ciências exatas
  • 60. 60como propulsores do desenvolvimento material, e as ciências humanas como ficam nestecontexto do século XXI? Colocadas desde muito em segundo plano, poderão evidenciar emque aspectos a sociedade vem acertando, e os possíveis erros neste processo. Também que osaber é uma construção do homem em seu tempo, e não uma repetição de teorias que podemter caído em desuso: um tipo de “anacronismo social”, se assim podemos designar, revela-semuitas vezes ao querer adequar à vida das pessoas em fórmulas e respostas prontas, essas quesolucionaram muitas questões do passado, mas que hoje não estão dando conta dasnecessidades impostas pelas novas demandas da vida em sociedade, que encontra um homemcada vez mais irrequieto, porém – com raras exceções – carregando os mesmos problemas deantigamente. Hoje existem respostas diferentes para estes anseios históricos, e isso precisa serevidenciado com certa urgência, citando que apenas o alcoolismo e as drogas já assumemcaracterização de epidemia mundial, sem citar as mais diversas compulsões e doenças mentaisque assolam grande parte da humanidade. Os Doze Passos poderá ser um possível meio pararecuperação desta questão secular da loucura, ou seja, problemas relacionados com a mentehumana. Vemos neste pensador, Bill Wilson, uma formulação coerente de novas leis,espirituais em sua essência, que sintetizam uma nova forma de recuperação, quiçásociabilidade humana. Se partirmos de uma análise hegeliana, vê-se em Alcoólicos Anônimos umasíntese, ou seja, uma solução para as doenças de natureza compulsiva. Primeiro houve areligião como um lenitivo para as doenças, que podemos denominar para melhorentendimento, de tese. Não havendo uma recuperação do doente, este teria o reconforto nosbraços do “Pai celestial”, ainda que seja a morrer nas fogueiras, no caso dos hereges. Doençascomo o alcoolismo tinham como fim determinado a morte do indivíduo portador destaenfermidade, muitas vezes com encarceramento desses indivíduos em hospícios, o que aindaocorre nas chamadas clínicas de repouso. Depois veio a ascensão da Ciência que ofereceu sobrevida para inúmeros casos,mesmo com o uso de intervenções bárbaras, como o eletro-choque em doentes mentais, aindano século XX. Chamaríamos estes usos também de tese, porque usam basicamente os mesmosinstrumentos da Contra Reforma, adaptados como terapia para “cuidar” dos loucos.Atualmente é usada a camisa-de-força química, ou seja, remédios controlados como o Haldol(haloperidol), medicamento proibido em diversos países, por causa da violenta reação adversano ser humano, que com o uso do mesmo fica em um estado semi-vegetativo.
  • 61. 61 James apresenta possibilidade de recuperação de vidas estagnadas, que seria umaantítese, paralelo ao começo do incipiente movimento dos AAs a partir de 1935. Mas ao unirelementos desses dois elos que parecem distantes, ou seja, espiritualidade e ciência, queparecem não poder coabitar em uma mesma esfera, Bill Wilson (ALCOÓLICOSANÔNIMOS, 1955) mostrou ser possível a recuperação do alcoolismo: uma provável síntese?Possivelmente, sim. Não estamos aqui analisando Hegel em sentido restrito, mas utilizamos a premissado mesmo que introduziu “um sistema para compreender a história da filosofia e do mundomesmo, chamada geralmente dialética: uma progressão na qual cada movimento sucessivosurge como solução das contradições inerentes ao movimento anterior”.(http://pt.wikipedia.org/wiki/Hegel). Partindo desse conceito, nota-se em A.A. uma soluçãode um movimento anterior que se arrasta desde muito, a se dizer, as doenças que tem em suaessência a natureza compulsiva. Na vida do próprio Bill Wilson (ALCOÓLICOSANÔNIMOS, 1955) já pontuamos um movimento dialético que gera como síntese uma novaforma de compreender e viver no mundo sem o álcool. Se o mundo é uma representaçãoexterna do homem, o movimento dialético observado em Bill Wilson poderá ser a base deuma nova ciência, porque como cita Santos, a ciência é autobiográfica (SANTOS, 2010,p.84). Esse acrescenta: À luz do que ficou dito atrás sobre o paradigma emergente, estas características do senso comum têm uma virtude antecipatória. Deixado a si mesmo, o senso comum é conservador e pode legitimar prepotências, mas interpenetrado pelo conhecimento científico pode estar na origem de uma nova racionalidade. [...] o desenvolvimento [...] deve traduzir-se em sabedoria de vida.” (SANTOS, 2010, p. 90-91). Por estes fatos consideramos nosso objeto um movimento revolucionário queainda deverá ser estudado mais veementemente pelos cientistas, sejam sociais, da áreamédica, psicológica, etc.: poderá ser uma síntese transformadora da sociedade em quevivemos, onde inúmeros indivíduos perdem assustadoramente o sentido de viver, mas quepoderão reencontrá-lo, se vierem a acreditar. Que possamos, cientistas de todas as áreas, juntamente com o público leigo, emascendente espiral buscar tocar o espiritual para poder alicerçar o nosso material. E que novas
  • 62. 62teses possam vir a ser escritas e vividas, sem dogmas pseudo científicos separatistas, masexperenciemos um verdadeiro sistema rizomático, que se faz por rupturas e novas tentativas,que tragam para a humanidade mais harmonia e um sentido pleno de chamar nossaexperiência corpórea de vida. Para maior plenitude, busquemos o elo perdido que se chama religare. Que estereligar-se seja a ascensão de um novo tempo, em que humanos buscarão ser inteiros, e aciência será integração, pautada em transdisciplinaridade efetiva, que corte a neblina dahipocrisia e do medo, devolvendo-nos uma existência rica em sentidos e realmentesignificativa. Parece utopia? Paulo Freire diria: “Reconhecer que a história é tempo depossibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático enão inexorável” (FREIRE, 2011, p.20). Alcoólatras: outrora insanos, errantes, mas que no século XX tem a chance devoltar a viver: para os doentes compulsivos, mais que uma esperança... A história é feita deboas mudanças!
  • 63. 63 REFERÊNCIASALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Livro Azul. São Paulo: Claab, 1955.ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Alcoólicos Anônimos atinge a maioridade. São Paulo: Claab,1994.ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Levar adiante: A história de Bill Wilson e como amensagem de A.A. chegou ao mundo inteiro. São Paulo: JUNAAB, 2000.ALCOÓLICOS ANÔNIMOS. Viver Sóbrio: Alguns métodos usados por membros deA.A. para não beber. São Paulo: JUNAAB, 2006.BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. Coleção primeiros passos. 14ª ed. São Paulo:Brasiliense, 1989.CABRAL, Lidia do Rosário. Alcoolismo Juvenil.<http://www.ipv.pt/millenium/millenium30/14.pdf>. Acessado em 20 de setembro de 2011.COMEDORES COMPULSIVOS ANÔNIMOS. Texto Básico. São Paulo: JUNCCAB, 1993.FOUCAULT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo: Perspectivas, 1972.FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. SãoPaulo: Paz e Terra, 2011.GARCIA, Angela Maria. E o verbo (re)fez o homem: Estudo do Processo de conversão doalcoólico ativo em alcoólico passivo. Niterói: Intertexto, 2004.JAMES, William. As Variedades da Experiência Religiosa: Um estudo sobre a naturezahumana. São Paulo: Cultrix, 1991.LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In. PINSKY, CarlaBassanezi. Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2006.
  • 64. 64LUCENA, Maria das Graças. Educação popular em Saúde: Abordagem intergeracionaldo alcoolismo numa unidade de saúde da família. CE/UFPB: Dissertação (Mestrado),2006.MOTA, Leonardo de Araújo. A dádiva da sobriedade: a ajuda mútua nos grupos dealcoólicos anônimos. São Paulo: Paulus, 2004.OS DOZE PASSOS E AS DOZE TRADIÇÕES. São Paulo: JUNAAB, 2007.PEALE, Norman Vincent. Mensagens para a vida diária. São Paulo: Cultrix, 1955.REVISTA VIVÊNCIA DE ALCOÓLICOS ANÔNIMOS . São Paulo: Comitê de PublicaçõesPeriódicas. nº 110, nov./dez. 2007.RUDGE, Dirce de Assis. Alcoolismo – Cartilha Básica.<http://sobredrogadicao.blogspot.com/2009/07/alcoolismo-cartilha-basica.html>. Acessadoem 05 de outubro de 2011.SZASZ, Thomas. A fabricação da Loucura. Rio de Janeiro: Guanabara, 1984.SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2010.VAILLANT, George E. Alcoólicos Anônimos: Culto ou Pílula Mágica?<http://www.monicadelimaazevedo.psc.br/artigos/13_congresso_de_alcoolismo.pdf>.Acessado em 27 de março de 2010.VOLVELE, Michel. Ideologias e Mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1978.WILSON, BILL. A linguagem do coração. São Paulo: JUNNAAB, 2008.<http://pt.wikipedia.org/wiki/Hegel>. Acessado em 09 de dezembro de 2011.