Síndromes geriátricas (artigo de revisão)

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Artigo de revisão sobre as grandes síndromes geriátricas do Prof. Edgar Nunes de Moraes

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Síndromes geriátricas (artigo de revisão)

  1. 1. artigo de revisão Principais síndromes geriátricas Main geriatric syndromes Edgar Nunes de Moraes1, Marília Campos de Abreu Marino2, Rodrigo Ribeiro Santos 3 resUMo 1 Coordenador do Núcleo de Geriatria e Gerontologia, Revisão acerca das grandes síndromes geriátricas: incapacidade cognitiva, instabili- Faculdade de Medicina da UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil. Professor Adjunto do Departamento de Clínica dade postural, imobilidade e incapacidade comunicativa, com enfoque nos aspectos Médica. Coordenador do Centro de Referência do Idoso etiológicos, diagnóstico e condutas terapêuticas. A saúde do idoso está estritamenteProf. Caio Benjamin Dias/HC-UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil. Especialista em Geriatria pela SBGG. relacionada com a sua funcionalidade global, definida como a capacidade de gerir a 2 Professora Adjunto do Departamento de Clínica Médica própria vida ou cuidar de si mesmo. Essa capacidade de funcionar sozinho é avaliadada Faculdade de Medicina da UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil. Especialista em Geriatria pela SBGG. por meio da análise das atividades de vida diária, que são tarefas do cotidiano realiza- 3 Especialista em Geriatria pela SBGG. Membro Colabora- das pelo paciente. A saúde do idoso é determinada pelo funcionamento harmonioso dor do Núcleo de Geriatria e Gerontologia, Faculdade deMedicina da UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil. Preceptor de quatro domínios funcionais: cognição, humor, mobilidade e comunicação. A perda do Centro de Referência do Idoso do HC-UFMG, Belo dessas funções resulta nas grandes síndromes geriátricas abordadas. Horizonte, MG - Brasil. Mestrado pelo Instituto deCiências Biológicas da UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil. Palavras-chave: Geriatria; Idoso; Saúde do Idoso. Doutorando em Neurociências. aBstraCt Review about major geriatric syndromes: cognitive impairment, postural instability, im- mobility and communicative disability, focusing on the etiology, diagnosis and therapeu- tic aspects. The health of the elderly is closely related to their overall functionality, defined as their ability to manage their own life or take care of themselves. This ability of function- ing alone is evaluated by the analysis of the daily activities, which are the daily tasks carried out by the patient. The elderly health is determined by the harmonic functioning of four functional domains: cognition, mood, mobility and communication. The loss of these functions results in the major geriatric syndromes addressed. Key words: Geriatrics; Aged; Health of the Elderly. introdUção A saúde do idoso está estritamente relacionada com a sua funcionalidade glo- bal, definida como a capacidade de gerir a própria vida ou cuidar de si mesmo. O idoso é considerado saudável quando é capaz de funcionar sozinho, de forma Recebido em: 29/07/2009 Aprovado em: 22/10/2009 independente e autônoma, mesmo que tenha doenças. Desta forma, resgata-se o conceito de saúde estabelecido pela Organização Mundial de Saúde como sendo o Instituição: Faculdade de Medicina e Hospital das Clínicas da UFMG, mais completo bem-estar biopsicossocial-cultural-espiritual, e não simplesmente a Belo Horizonte, MG, Brasil ausência de doenças. Essa capacidade de funcionar sozinho é avaliada por meio da Endereço para correspondência: Departamento de Clínica Médica de Faculdade de análise das atividades de vida diária (AVDs), que são tarefas do cotidiano realizadas Medicina UFMG Avenida: Alfredo Balena, 190, 2º andar pelo paciente. As AVDs avaliam o grau de autonomia e independência do indiví- CEP: 30130-100 duo.1 A autonomia é a capacidade individual de decisão e comando sobre as suas Belo Horizonte - MG, Brasil Email: racfled@dedalus.lcc.ufmg.br ações, estabelecendo e seguindo as próprias regras. Significa capacidade para deci- 54 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  2. 2. Principais síndromes geriátricasdir e depende diretamente da cognição e do humor. produtivo com o meio (habilidade de se comunicar).A independência refere-se à capacidade de realizar Depende de visão, audição e fala. (Figura 1)algo com os próprios meios. Significa execução e de- A perda dessas funções resulta nas grandes sín-pende diretamente de mobilidade e comunicação. dromes geriátricas: incapacidade cognitiva, instabili-Portanto, a saúde do idoso é determinada pelo fun- dade postural, imobilidade e incapacidade comuni-cionamento harmonioso de quatro domínios funcio- cativa. O desconhecimento das particularidades donais: cognição, humor, mobilidade e comunicação. processo de envelhecimento pode gerar interven-Tais domínios devem ser rotineiramente avaliados na ções capazes de piorar o estado de saúde da pessoaconsulta geriátrica.2 idosa - a iatrogenia, que representa todo o malefício A cognição é a capacidade mental de compreen- causado pelos profissionais da área de saúde. A in-der e resolver os problemas do cotidiano. É constitu- continência urinária também é reconhecida comoída por um conjunto de funções corticais, formadas uma das grandes síndromes geriátricas. Ela afeta apela memória (capacidade de armazenamento de independência do indivíduo, comprometendo, indi-informações), função executiva (capacidade de pla- retamente, a função mobilidade. O idoso com incon-nejamento, antecipação, sequenciamento e monitora- tinência esfincteriana sofre limitação de sua partici-mento de tarefas complexas), linguagem (capacidade pação social, em virtude da insegurança gerada pelade compreensão e expressão da linguagem oral e es- perda do controle miccional.crita), praxia (capacidade de executar um ato motor), A família, por sua vez, é outro elemento fundamen-gnosia (capacidade de reconhecimento de estímulos tal para o bem-estar biopsicossocial e sua ausência évisuais, auditivos e táteis) e função visuoespacial (ca- capaz de desencadear ou perpetuar a perda de autono-pacidade de localização no espaço e percepção das mia e independência do idoso (insuficiência familiar).relações dos objetos entre si). O humor é a motivação Os idosos são vítimas em número significativonecessária para os processos mentais. A mobilidade de síndromes semelhantes, independentemente deé a capacidade de deslocamento do indivíduo. Depen- doenças específicas1, denominadas gigantes da ge-de da postura/marcha, da capacidade aeróbica e da riatria. Descritas inicialmente por Isaacs3, as grandescontinência esfincteriana. E, finalmente, a comunica- síndromes geriátricas não incluíam a incapacidadeção é a capacidade de estabelecer relacionamento comunicativa e a insuficiência familiar. A sua inclu- SAÚDE FUNCIONALIDADE GLOBAL CAPACIDADE DE FUNCIONAR SOZINHO Gerir a própria vida Cuidar de si mesmo ATIVIDADES DE VIDA DIÁRIA AUTONOMIA INDEPENDÊNCIA COGNIÇÃO HUMOR MOBILIDADE COMUNICAÇÃOFigura 1 - Domínios de Saúde do Idoso Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66 55
  3. 3. Principais síndromes geriátricas são deve ser contemplada, pois são síndromes fre- Esquecimento quentes e que atuam diretamente na saúde do idoso, “Perda de memória ou lapsos de memória” totalizando os 7 “Is” da Geriatria.1 (Figura 2) Ausência de perda cognitiva Presença de perda cognitiva (Triagem cognitiva normal) (Testes de triagem Incapacidade cognitiva cognitiva anormais) Designa o comprometimento das funções encefá- licas superiores capaz de prejudicar a funcionalida- Transtorno Cognitivo Leve Incapacidade Cognitiva de da pessoa. As alterações nas funções superiores AVDs preservadas AVDs comprometidas que não apresentam prejuízo na funcionalidade do paciente não podem ser classificadas como inca- Figura 3 - Incapacidade cognitiva pacidade cognitiva. Essas alterações constituem o transtorno cognitivo leve. Para o estabelecimento do INCAPACIDADE COGNITIVA diagnóstico de incapacidade cognitiva. é fundamen- Baixo performance nos testes cognitivos tal a constatação do prejuízo na funcionalidade do Dependência nas atividades de vida diária indivíduo ou perda de AVDs. (Figura 3) As principais etiologias da incapacidade cognitiva são: demência, depressão, delirium e doenças men- DELIRIUM DEPRESSÃO DEMÊNCIA DOENÇA MENTAL tais, como esquizofrenia, oligofrenia e parafrenia. Esquizofrenia Parafrenia É recomendado o uso de normas padronizadas para Oligofrenia detectar as alterações na funcionalidade dos idosos pelo desempenho em suas atividades básicas ou instru- mentais de vida diária, por intermédio das escalas de Causas Reversíveis Causas Irreversíveis Katz4 e de Lawton-Brody5, respectivamente. (Figura 4) Figura 4 - Os quatros “Ds” da incapacidade cognitiva AUTONOMIA INDEPENDÊNCIA (Decisão) (Decisão) COGNIÇÃO HUMOR MOBILIDADE COMUNICAÇÃO Memória Motivação Função Executiva Linguagem Visão Função visoespacial Postura e Marcha Continência Audição Gnosia Capacidade aeróbica es ncteriana Fala Praxia INCAPACIDADE INSTABILIDADE IMOBILIDADE INCONTINÊNCIA INCAPACIDADE COGNITIVA POSTURAL ESFINCTERIANA COMUNICATIVA IATROGENIA INSUFICIÊNCIA FAMILIAR Figura 2 - Grandes sindromes geriátricas56 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  4. 4. Principais síndromes geriátricasO miniexame do estado mental (MEEM), descrito por representam menos de 5% de todas elas. É recomen-Folstein6, representa o principal teste de triagem das fun- dada, para isso, a realização de alguns exames com-ções encefálicas superiores. Todos os testes de triagem plementares, como: hemograma, dosagem de TSH,cognitiva são influenciados pelo nível de escolaridade de vitamina b12, de ácido fólico e a análise da função(instrução) dos pacientes. O indicador de escolaridade renal3,8, que podem ser expandidos para a avaliaçãopossibilita a correção dos escores dos testes. No MEEM das provas de função hepática, pesquisa de antiVIH,utiliza-se como ponto de corte o escore 18 para indiví- VDRL e a realização de algum exame de imagemduos analfabetos e 26 para aqueles com escolaridade com especificidade para o diagnóstico aventado.superior a oito anos.7 A Figura 5 mostra um fluxograma Espera-se que a avaliação clínica e complementar dopara a triagem de déficit cognitivo. paciente seja capaz de afastar as seguintes causas de O diagnóstico etiológico nem sempre é fácil, já demência (agrupadas mnemonicamente pela pala-que as causas de incapacidade podem coexistir no vra TIME): 1. tóxicas: uso de drogas, álcool, metaismesmo paciente. O delirium (estado confusional pesados, drogas psicoativas; 2. infecciosas: neuros-agudo) também pode simular ou associar-se à de- sífilis, infecção pelo VIH; 3. metabólicas: deficiênciamência ou depressão. A história pregressa constitui- de vitamina B12 e de ácido fólico, hipotireoidismo,se em elemento dos mais importantes para a distin- hiponatremia, insuficiência renal e hepática; 4. es-ção entre a demência e as doenças psiquiátricas truturais: hidrocefalia de pressão normal, hemato-(Tabela 1). ma subdural e tumores. O critério mais utilizado para o diagnóstico da O diagnóstico de demência, depois de afastadasdemência encontra-se no Manual Estatístico e Diag- as causas potencialmente reversíveis, são decorren-nóstico de Desordens Mentais (DSM-IV), definido tes de processos degenerativos primários, entre aspela Associação Americana de Psiquiatria, em que quais 50-60% associam-se à demência de alzheimero diagnóstico de demência é definido pelo desenvol- (dA). Os demais grupos são constituídos, basicamen-vimento de múltiplos déficits cognitivos (Tabela 2). te, pela demência: por corpos de Lewy, fronto-tem- É necessário estabelecer a etiologia da síndrome poral, vascular e mista. É fundamental promover odemencial após o estabelecimento do seu diagnósti- diagnóstico diferencial entre elas, pois o tratamentoco sindrômico. Devem ser excluídas, inicialmente, as e o prognóstico são diferentes (Tabela 3).causas de demência potencialmente reversíveis, que DÉFICIT COGNITIVO Limitação ou restrição nas AVDs e/ou Minimental: Baixa escolaridade < 18 Alta Escolaridade < 26 Aplicar triagem cognitiva completa MEMÓRIA EPISÓDICA FUNÇÃO EXECUTIVA LINGUAGEM Lista de Palavras do CERAD: 10 Fluência Verbal Fluência Verbal Reconhecimento de Figuras (10) Teste do Relógio FABFigura 5 - Fluxograma para triagem de déficit cognitivo Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66 57
  5. 5. Principais síndromes geriátricas Tabela 1 - Principais diferenças entre as incapacidades cognitivas achado Delirium demência depressão doença Mental Início Agudo, em geral, noturno Insidioso Variável Variável Evolução Flutuante, intervalos de lucidez Progride lentamente Variação diurna Variável diurnos, piora à noite discreta Duração Horas a semanas Meses a anos ----- ----- Consciência Reduzida Precisa até estágios avançados Geralmente intacta Geralmente pouco alterada, exceto nas agudizações Atenção Hipo ou hiperalerta, Usualmente normal Redução leve da Redução leve da atenção desatenção (focalizar, sustentar, des- atenção viar atenção), flutuação durante o dia Orientação Usualmente alterado para tempo, ten- Frequentemente alterado Normal Em geral normal, exceto nas dência a confundir pessoas e locais agudizações Memória Alteração da memória imediata e Alteração da memória recente e Normal. Redução da Preservada até fases recente, com desatenção remota, sem inatenção atenção. avançadas da doença Percepção Ilusões e alucinações (usualmente Presentes em fases moderadas a Ausentes, exceto na Frequentes, psicopatia com- visuais) comuns avançadas depressão psicótica plexa, frequente paranóia Linguagem (fala) Incoerente, hesitante, lenta ou rápida Dificuldade em achar as palavras Normal Normal Ciclo sono-vigília Sempre Frequentemente sono fragmentado Insônia terminal Normal Doença médica ou Uma ou ambas presentes Frequentemente ausente Ausentes (depressão Ausentes efeitos de drogas secundária) Tabela 2 - Critérios de depressão DSM IV a. desenvolvimento de MÚLtiPLos dÉFiCits Cognitivos manifestados tanto por (1) quanto por (2): (1) Comprometimento da memória: AMNÉSIA (2) Uma (ou mais) das seguintes perturbações cognitivas: (a) AFASIA: pertubação da linguagem; (b) APRAXIA: capacidade prejudicada de executar atividades motoras, apesar do funcionamento motor intacto; (c) AGNOSIA: incapacidade de reconhecer ou identificar objetos, apesar do funcionamento sensorial intacto; (d) DISFUNÇÃO EXECUTIVA: perturbação do funcionamento executivo (i.é. planejamento, organização, sequenciamento, abstração); B. os déficits cognitivos nos critérios (1) e (2) CaUsaM CoMProMetiMento signiFiCativo do FUnCionaMento soCiaL oU oCUPaCionaL e representam um deCLÍnio signiFiCativo em relação a um nível anteriormente superior de funcionamento. C. sinais e sintomas neurológicos focais (p. ex., exagero dos reflexos tendinosos profundos, resposta extensora plantar, paralisia pseudo-bulbar, anormalidades da marcha, fraqueza em uma das extremidades) ou evidências laboratoriais indica- tivas de uma doença cérebro-vascular (p.ex., múltiplos infartos envolvendo o córtex e a substância branca) considerados etiologicamente relacionados à perturbação. d. os déficits não ocorrem exclusivamente durante o curso de um delirium. Tabela 3 - Principais causas primárias de demências As manifestações clínicas da DA aparecem, em etiologia sintomatologia geral, após os 65 anos de idade. Caracterizam-se, Doença de Alzheimer Apatia, agitação, depressão, ansiedade, irritabilidade. em seu primórdio, pela redução na produtividade Delusões e alucinações são mais frequentes funcional associada à realização de tarefas comple- nas fases moderada a avançada xas, assim como desorientação espacial, alteração Demência de Corpos Alucinações visuais (80%), delusão, depressão no comportamento, perda da memória recente e de Lewy e desordens comportamentais no sono REM Demência associada à (sonhos vívidos, pesadelos, agitação, etc) dificuldade para aprender novas informações. A sua Doença de Parkinson evolução caracteriza-se pela progressiva redução Demência Vascular Apatia (circuitos frontal-subcortical), de- do rendimento funcional e da capacidade cognitiva. pressão, labilidade emocional (incontinência emocional), delusão. Sua fase moderada comumente associa-se a insônia, Demência Fronto- Apatia, desinibição, elação, comportamentos confusão mental, agitação, afasia e apraxia. Em seu Temporal repetitivos e ritualísticos (compulsão), hipero- estágio avançado, surgem distúrbios motores, dificul- ralidade e alterações dietéticas importantes. dade para deglutir e incontinência urinária. O estágio58 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  6. 6. Principais síndromes geriátricasterminal caracteriza-se por mutismo e/ou intensa dis- Os idosos, devido à redução de sua reservafagia. O óbito ocorre, na maioria dos casos, por infec- cerebral, são muito vulneráveis ao aparecimentoções, em geral, após 10-15 anos do início da doença. de delirium, que pode se manifestar nas formas de O tratamento farmacológico baseia-se em drogas delirium hiperativo, hipoativo e misto.9 Apenas oditas antidemenciais, como: inibidores da acetilcoli- tipo hiperativo é frequentemente diagnosticado nanesterase (donepezil 5-10 mg/dia, rivastigmina 6-12 prática clínica, apesar de corresponder a aproxima-mg/dia e galantamina 16-24 mg/dia); e nos antagonis- damente um terço dos casos. As principais causastas dos receptores do glutamato (memantina 20 mg/ de delirium são: infecções, medicamentos, intercor-dia). A alteração neurobiológica mais marcante da rências clínicas e hospitalizações. Sua prevalênciaDA é a disfunção colinérgica, por isto o tratamento em pacientes com síndrome demencial é muito ele-farmacológico visa a aumentar o tônus colinérgico, vada.9,10 O tratamento do delirium inclui as medidaspor intermédio da inibição da acetilcolinesterase. gerais que visam a: corrigir os distúrbios hidroele-Essas drogas constituem a principal intervenção far- trolíticos e ácido-básicos, promover a nutrição ade-macológica na DA, podendo contribuir para melhorar quada, retirar a contenção, estimular a mobilidadea cognição ou estabilizar temporariamente a doença. e a mudança de decúbito, proteger a via aérea eO tratamento farmacológico da DA é constituído tam- promover a reorientação espacial e temporal do pa-bém pelo controle das alterações comportamentais, ciente. O tratamento específico inclui a remoção dapor intermédio da administração de antidepressivos causa básica ou fator precipitante, além do controlee de antipsicóticos. A FDA não liberou, entretanto, o da sintomatologia.uso dessas classes de medicamentos para o tratamen- A depressão é entidade clínica subdimensiona-to das alterações comportamentais na demência.3 Os da quanto ao diagnóstico e tratamento nos idosos.benzodiazepínicos devem ser evitados devido a seus Os critérios diagnósticos para depressão (DSM-IV)efeitos colaterais, especialmente sua capacidade de devem levar em conta a seguinte sintomatologia: hu-provocar quedas em idosos. Para o controle da agita- mor deprimido; diminuição do interesse e do prazerção, o tratamento farmacológico é indicado somente na maioria das atividades (anedonia); insônia ou hi-quando a sintomatologia apresentada pelo paciente personia; ganho ou perda de peso acima de 5%; re-representa perigo para ele ou para as pessoas com dução da capacidade de concentração; agitação ouquem convive ou, ainda, quando interfere na ação do lentificação psicomotora; fadiga; ideia inapropriadacuidador ou causa prejuízo funcional significativo. de menos valia ou de culpa; pensamento recorren- O delirium (estado confusional agudo) é uma sín- te de morte ou de ideação suicida. A sintomatolo-drome neurocomportamental causada por comprome- gia deve persistir por mais de duas semanas, comtimento transitório da atividade cerebral, secundário a perturbação ou alteração da capacidade funcionaluma causa orgânica. É definido como distúrbio de início e não relacionada ao abuso de alguma substância,súbito que envolve a consciência, a atenção, a cognição condição médica ou luto. O diagnóstico de depres-e a percepção e que tende a variar (flutuar) ao longo do são maior requer a presença de cinco desses sinto-dia. Pode ser comparado à insuficiência cerebral aguda mas, incluindo, obrigatoriamente, humor deprimidoe, portanto, não deve ser confundido com delírio. Os cri- ou anedonia. Recomenda-se que todos os idosostérios indicados para o estabelecimento do diagnóstico sejam avaliados, em busca do diagnóstico de de-de delirium estão descritos no DSM-IV (Tabela 4). pressão, tendo em vista a sua alta prevalência e a significativa repercussão dela decorrente. O princi- Tabela 4 - Critérios DSM IV para diagnóstico de De- pal instrumento de avaliação empregado é a escala lirium de depressão geriátrica (GDS)11 (Tabela 5). A. Perturbação da consciência, com redução da capacidade de focalizar, manter ou direcionar a atenção. O tratamento da depressão inclui o uso de me- B. Alteração na cognição ou desenvolvimento de perturbação da dicamento, associado ou não à psicoterapia. A ele- percepção, que não é mais bem explicada por demência preexistente, troconvulsoterapia (ECT) está indicada nos casos estabelecida ou em evolução. urgentes, refratários ou quando o tratamento far- C. Perturbação desenvolvida em curto período de tempo (geralmente em horas ou dias), com tendência a flutuações no decorrer do dia. macológico não é seguro. A escolha da droga a ser D. Evidências, a partir do histórico, do exame físico ou de achados labora- utilizada baseia-se, principalmente, na análise das toriais, de que a perturbação seja causada por consequências fisiológicas comorbidades clínicas e, sobretudo, nos seus efei- diretas de condição médica geral. tos colaterais e na susceptibilidade dos pacientes. 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  7. 7. Principais síndromes geriátricas Tabela 5 - Escala Geriátrica de Depressão (GDS-15 GDS-5) (Para cada questão, escolha a opção que mais se assemelha ao que você está sentindo nas últimas semanas). validação: almeida o.P. arq neuropsiquiat,v.57,p.421-426, 1999. Você está basicamente satisfeito com sua vida? Sim NÃO Você se aborrece com freqüência? SIM Não Você se sente um inútil nas atuais circunstâncias? SIM Não Você prefere ficar em casa a sair e fazer coisas novas? SIM Não Você sente que sua situação não tem saída? SIM Não Você tem medo que algum mal vá lhe acontecer? SIM Não Você acha que sua situação é sem esperanças? Sim Não Você acha maravilhoso estar vivo? Sim NÃO Você sente que sua vida está vazia? SIM Não Você sente que a maioria das pessoas está melhor que você? SIM Não Você se sente com mais problemas de memória do que a maioria? SIM Não Você deixou muitos de seus interesses e atividades? SIM Não Você se sente de bom humor a maior parte do tempo? Sim NÃO Você se sente cheio de energia? Sim NÃO Você se sente feliz a maior parte do tempo? Sim NÃO Iatrogenia (iatros: médico, gignesthai: mento artificial da vida sem perspectiva de reversi- nascer, derivado de palavra gênesis: produzir) bilidade, com sofrimento para o paciente e sua famí- lia; 8. prescrição de intervenções fúteis e/ou sem comprovação científica: que impõem ao paciente Significa qualquer alteração patogênica provoca- risco desnecessário; 8. iatrogenia do excesso de da pela prática médica. É fundamental evitar iatroge- intervenções reabilitadoras: o excesso de “equipe nia em idosos devido à sua natural vulnerabilidade interdisciplinar” pode trazer consequências desfavo- mais acentuada às reações adversas associadas às ráveis ao paciente, assim como o faz a polifarmácia. drogas, às intervenções não-medicamentosas, decor- A maior parte da iatrogenia resulta do desconheci- rentes da senescência, do risco de polipatogenia e de mento das alterações fisiológicas do envelhecimento polifarmácia, além de incapacidades. e das peculiaridades da abordagem ao idoso. Trata- A iatrogenia resulta da presença de uma ou mais se de síndrome geriátrica potencialmente reversível das seguintes situações: 1. iatrofarmacogenia: de- ou até curável, enfatizada pelos idosos comporem corrente do uso de medicamentos, de polifarmácia, aproximadamente 13% da população dos Estados da interação medicamentosa e do desconhecimento Unidos da América (EUA) e consumirem 32% de to- das alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas dos os medicamentos prescritos. Os idosos nos EUA associadas ao envelhecimento; 2. internação hospi- fazem, em média, seis visitas médicas/ano e usam talar: que pode potencializar os riscos decorrentes dois medicamentos novos prescritos por consulta, do declínio funcional, da subnutrição, da imobilida- totalizando a média anual de 12 prescrições/idosos/ de, da úlcera de pressão e da infecção hospitalar; 3. ano. A iatrogenia é a quinta causa de morte nos EUA iatrogenia da palavra: associada ao desconheci- [3]. O Tabela 6 apresenta alguns eventos adversos às mento de técnicas de comunicação de más notícias; drogas mais comuns nos idosos. 4. iatrogenia do silêncio: que decorre da dificuldade de ouvir adequadamente o paciente e sua família; 5. subdiagnóstico: pela tendência a atribuir todas as Incontinência urinária queixas apresentadas pelo idoso ao fenômeno “da idade”, o que pode resultar grave erro; 6. cascata A incontinência urinária (IU) é definida como a propedêutica: em que a solicitação de exames é fei- queixa de qualquer perda involuntária de urina.12,13 A ta de forma desnecessária, extensiva, sem indicação sua prevalência aumenta com a idade, variando de precisa; 7. distanásia: caracterizada pelo prolonga- 12,2 para 20,9% em mulheres entre 60 e 64 anos e60 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  8. 8. Principais síndromes geriátricascom pelo menos 85 anos de idade, respectivamente.14 persensível; 3. mista: caracterizada pela perda invo-Atinge 15 a 30% e pelo menos 50% dos idosos que vi- luntária de urina concomitante à urgência miccionalvem em domicílio ou em instituições asilares, respec- e ao esforço; 4. por transbordamento (bexiga hipe-tivamente, sendo de aproximadamente 1:3 mulheres rativa, síndrome de urgência, síndrome de urgência-e 1:5 homens acima de 60 anos de idade.15-17 A preva- frequência): caracterizada pelo gotejamento e/oulência de seus tipos específicos é difícil de ser estima- perda contínua de urina associados ao esvaziamentoda devido à grande variação nas definições. Em 50% vesical incompleto, devido à contração deficiente dodas mulheres com IU observa-se incontinência de detrusor e/ou obstrução na via de saída vesical. Essaestresse, a seguir, mista e, por último, de urgência. O sintomatologia combinada é sugestiva de hiperativi-avançar da idade torna a IU de urgência a forma mais dade do músculo detrusor da bexiga e definida porcomum.18,19 A estimativa nos homens é mais difícil de meio da urodinâmica, pela demonstração de contra-ser realizada porque a sua história natural é afetada ções vesicais involuntárias.pelo tratamento das doenças prostáticas. A anamnese pode revelar situações que induzem A IU pode ser: 1. de estresse: caracterizada pela perda de urina, como história obstétrica ou cirúrgi-perda involuntária de urina sincrônica ao esforço, ca, doenças pregressas e uso de medicamentos. Oespirro ou tosse.12,13 Pode ser causada, em mulheres, exame físico deve ser geral, associado ao examepela fraqueza do assoalho pélvico e, em homens, genital, incluindo ginecológico e prostático. Devemapós prostatectomia radical; 2. de urgência: carac- ser observadas as condições gerais do paciente, suaterizada pela perda involuntária de urina, associada capacidade de locomoção e, ainda, se existem con-ou imediatamente precedida de urgência miccio- dições clínicas que predispõem ou agravam a IU. Nasnal. Há, em geral, queixa associada de polaciúria e mulheres, deve ser avaliada a existência de prolapso,noctúria. Corresponde, frequentemente, à queixa de mobilidade do colo vesical, trofismo das mucosasdiminuição da complacência vesical ou de bexiga hi- e contração da musculatura do assoalho pélvico. A Tabela 6 - Principais efeitos colaterais das drogas nos idosos Confusão Mental Anticolinérgicos: antipsicóticos (tioridazina > haloperidol) Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina > imipramina > nortriptilina), antiparkinsoniansos Bloqueadores H2 (cimetidina, ranitidina), corticosteróides, digitálicos, fenitoína, benzodiazepínicos, analgésicos narcóticos Quedas Psicotrópicos (sedação): benzodiazepínicos, antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos, anticolinérgicos Antihipertensivos (hipotensão ortostática): metildopa > nifedipina > diuréticos > β-bloqueadores Constipação Intestinal Anticolinérgicos, bloqueadores de canal de cálcio, analgésicos narcóticos, antiácidos com alumínio, diuréticos, carbonato de cálcio e suplemente de ferro, AINEs Hipotensão Ortostática Anticolinérgicos, antiadrenérgicos (antidepressivos tricíclicos: amitriptilina > imipramina > nortriptilina), antihipertensivos, anti-histamínicos, álcool Retenção Urinária Aguda Anticolinérgicos, analgésicos narcóticos, agonistas α-adrenérgicos, bloqueadores de canal de cálcio, agonistas β-adrenérgicos Incontinência Urinária Anticolinérgicos, analgésicos narcóticos, agonistas α-adrenérgicos, bloqueadores de canal de cálcio, agonistas β-adrenérgicos podem causar incontinência urinária de sobrefluxo Bloqueadores α-adrenérgicos podem causar incontinência de esforço Diuréticos podem causar incontinência de urgência Benzodiazepínicos, sedativos, hipnóticos: incontinência funcional Parkinsonismo Antagonistas dopaminérgicos (cinarizina, flunarizina), antipsicóticos (haloperidol > tioridazina > risperidona > olanzapina > quetiapina > clozapina) metoclopramida, fluoxetina, Xerostomia Anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos, antihistamínicos, anti hipertensivos, antiparkinsoniano, ansiolíticos e diuréticos Tinnitus Aminoglicosídeos, salicilatos, AINEs, diuréticos de alça Anorexia Digoxina, teofilina, hidroclorotiazida, AINEs, triantereno, inibidores da enzima conversora. Má-Absorção de Vitamina B12 Metformina, cimetidina, ranitidina, omeprazol, colchicina Má-Absorção de Ácido Fólico Metrotexato, difenilhidantoína, primidona, carbamazepina, fenobarbital, isoniazida, trimetropin, contraceptivos orais, sulfasalazina, triantereno, álcool, metformina, colestiramina. Má-Absorção de Vitaminas Óleo mineral Lipossolúveis Insônia Teofilina, descongestionantes nasais, inibidores da recaptação de serotonina (fluoxetina), IMAO, β-agonistas Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66 61
  9. 9. Principais síndromes geriátricas propedêutica inicial requer a realização de exame também ser útil com a aplicação do biofeedback. Os de urina de rotina e urocultura, já que a infecção do exercícios de fortalecimento da musculatura pélvica trato urinário pode simular toda a sintomatologia. A parecem ser efetivos no tratamento de mulheres com urodinâmica só será realizada após a exclusão de IU de estresse e mista. Os exercícios podem reduzir infecção urinária. Pode ser necessária a realização a IU e aumentar a pressão vaginal. Esses exercícios de urodinâmica em todos os pacientes, devido ao exigem instruções cuidadosas, acompanhamento fato de a anamnese e o exame físico detalhados não por profissional que entenda dessa prática e da moti- permitirem o diagnóstico preciso da disfunção vesi- vação do paciente. O biofeedback é instrumento que cal. O diagnóstico incerto é permitido se a opção de amplifica as respostas fisiológicas e as converte em tratamento for o conservador, devido ao baixo custo informações visuais e/ou auditivas com o objetivo de e morbidade deste.16 O estudo urodinâmico permite facilitar a percepção e o trabalho da musculatura do caracterizar, de forma objetiva, o verdadeiro distúr- assoalho pélvico. O método é empregado para ensi- bio urinário. nar a contrair os músculos pélvicos seletivamente, es- A IU requer abordagem multifatorial para a obten- pecialmente em mulheres, enquanto mantém outros ção de conhecimentos que permitam o diagnóstico grupos musculares relaxados, como os abdominais, correto e a definição de terapêutica mais apropria- nádegas e coxa. Os pacientes que conseguem desen- da. A identificação da doença do trato urinário baixo volver a percepção dos diferentes grupos musculares responsável pela IU é de suma importância. É funda- a partir do biofeedback passam a obter o controle vo- mental a correção dos fatores associados à exacer- luntário dessas estruturas. bação da sintomatologia. A eficácia do tratamento é A prescrição farmacológica para o tratamento da medida, usualmente, pela redução dos episódios de IU é baseada no mecanismo presumido para cada IU. A cura é definida, em geral, pela ausência comple- uma das suas formas de apresentação.20 O tratamento ta de IU. Essas medidas, entretanto, nem sempre são farmacológico, entretanto, não é o mais comumente percebidas como melhora pelo paciente. É preferível usado na IU de estresse. Na IU de urgência e mista, medir o sucesso do tratamento por intermédio de os medicamentos podem ser associados às medidas questionários relativos à qualidade de vida. comportamentais. As drogas, em geral, não eliminam A qualidade de vida dos pacientes pode ser me- a hiperatividade detrusora, entretanto, melhoram a lhorada pela aquisição de alguns hábitos gerais, IU. As drogas anticolinérgicas constituem o tratamen- como: ingerir quantidade adequada, mas não exces- to mais utilizado para a IU, apesar dos seus efeitos siva, de líquidos; evitar o consumo de álcool e de colaterais.21 cafeína; reduzir a ingestão hídrica noturna; interrom- A cirurgia é indicada para o tratamento da IU de per o hábito do tabagismo; tratar a constipação e as estresse quando o tratamento conservador falha em pneumopatias quando a IU é exacerbada pela tosse. aliviar os sintomas. Pode ser tentado na IU de estresse As medidas comportamentais têm sido utilizadas ou por transbordamento. A cirurgia na IU por trans- para o tratamento da IU por décadas e devem sempre bordamento está voltada para a correção da obs- ser a sua primeira forma de tratamento específico. O trução, como a causada pela hipertrofia prostática. tratamento é iniciado pela realização do diário mic- A cirurgia oferece altas taxas de cura, apesar de ser cional. A seguir, é feita a integração das queixas com invasiva e poder gerar complicações. as peculiaridades clínicas de cada paciente, para a execução de melhor abordagem terapêutica. O objetivo da abordagem não-farmacológica é Instabilidade postural melhorar o controle vesical do paciente incontinen- te, mudando-lhe os hábitos urinários e ensinando-lhe A mobilidade é das principais funções corporais e técnicas para evitar a perda de urina. Os métodos o seu comprometimento, além de afetar diretamente a comportamentais incluem o treinamento vesical, os independência do indivíduo, pode acarretar consequ- exercícios para fortalecimento da musculatura pélvi- ências gravíssimas, principalmente nos idosos. A insta- ca e o biofeedback. O treinamento vesical consiste na bilidade postural, por exemplo, leva o idoso à queda, o micção com hora marcada, com aumento de 15 a 30 que representa um dos maiores temores em geriatria. minutos por semana, à medida que não haja a ocor- É fundamental conhecer as condições que a predispu- rência de episódios de IU. O treinamento vesical pode seram, como ocorreu, quais os sinais e sintomas que a62 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  10. 10. Principais síndromes geriátricasantecederam, a existência de comorbidades, se o ido- nados à ação de se equilibrar podem perder a capaci-so conseguiu se levantar sozinho e se houve fraturas. A dade para responder apropriadamente aos distúrbiosincidência anual de quedas varia com a idade, sendo na estabilidade postural, devido ao tempo mais longode 28 a 35% e de 32 a 42% entre pessoas com mais de de reação. Para o restabelecimento da posição são65 e de 75 anos de idade, respectivamente, chegando a necessários também bons níveis de amplitude articu-50% dos idosos em instituições de longa permanência. lar, principalmente das articulações distais, como darEntre os idosos que sofreram queda, dois terços terão um passo largo ou ajudar os membros superiores nanova queda no ano subsequente. As quedas consti- aquisição de equilíbrio. No entanto, essa função tor-tuem a sexta causa mortis de idosos e são responsáveis na-se menos eficaz em idosos devido ao enrijecimen-por 40% das suas internações. As quedas provocam, to do tecido conjuntivo e, com isso, há diminuiçãoem 40 a 60% das vezes, algum tipo de lesão, sendo de na amplitude do movimento. O idoso que apresentar30 a 50%, 5 a 6% e aproximadamente de 5% dos ca- imobilidade extrema no pé terá dificuldade para exe-sos, respectivamente, relacionadas com escoriações e cutar reações normais de equilíbrio.contusões menores, hematoma subdural e contusões A responsabilização pelas quedas nos idosos de-maiores e fraturas. A fratura de fêmur destaca-se pela corre, especialmente, da falta de condições clínicaselevada morbimortalidade entre os idosos, ocorrendo ou de ambiente inseguro. O envelhecimento por si sóem 1% dos casos. não é causa de quedas, apesar das alterações fisioló- A complicação mais frequente da queda é o gicas decorrentes do envelhecimento favorecerem omedo de cair novamente, o que, muitas vezes, impe- seu aparecimento.de o idoso de deambular normalmente, deixando-o A avaliação da marcha e do risco de quedas deverestrito ao leito ou à cadeira, aumentando o seu des- ser realizada em todos os idosos.23,24 (Figura 6)condicionamento físico. A manutenção do equilíbriocorporal em posição bípede representa capacidade INSTABILIDADE POSTURALfundamental para a manutenção da estabilidadepostural. O equilíbrio corporal é mantido pela inte-gração entre informações sensoriais captadas pela vi- Timed up and go < 20 s Timed up and go ≥ 20 ssão, sistema vestibular e propriorreceptores. O equilí-brio corporal permite corrigir mudanças de posiçãodo corpo em relação à base de sustentação.21 As informações visuais que corroboram o equi- Marcha Normal Marcha Anormallíbrio são: a localização e a distância de objetos noambiente, o tipo de superfície onde se dará o mo-vimento e a posição das partes corporais, uma em Avaliar causas Avaliar problemas clínicos NÍVELrelação à outra e ao ambiente. Os componentes do extrínsecas Condicionamento SENSÓRIO-MOTORsistema visual considerados críticos para o equilíbrio ou ambientais cardiorrespiratóriosão a: acuidade estática e dinâmica, sensibilidade aocontraste, percepção de profundidade e visão perifé-rica. O sistema vestibular, por sua vez, é constituído INFERIOR MÉDIO SUPERIORpelos canais semicirculares e pelo vestíbulo (utrículo Controle aferente e Programação Controle da execuçãoe sáculo). Os canais semicirculares estão separados eferente da marcha das respostas posturais da marchapor um ângulo de 90o. Em seu interior, há células ci- e motoras da marchaliadas capazes de detectar os movimentos de rotaçãoda cabeça, bem como a velocidade de rotação. As Figura 6 - Fluxograma de avaliação rotineira para ins- tabilidade posturalalterações músculo-esqueléticas comuns nos idosospodem prejudicar significativamente o equilíbrio efavorecer o aparecimento de quedas. Sabe-se que As alterações de marcha podem ser divididas emuma das alterações relacionadas ao envelhecimento três grupos, de acordo com o nível sensório-motor in-é o declínio da força muscular. A fraqueza é muito ferior, médio e superior. As doenças que ocasionamcomum nas extremidades inferiores do idoso, espe- marcha anormal por afetarem o nível sensório-motorcialmente nos tornozelos. Os músculos efetores desti- inferior são as disfunções dos sistemas sensoriais afe- Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66 63
  11. 11. Principais síndromes geriátricas rentes (visão, disfunção vestibular e propriocepção) As principais consequências da imobilidade em ou as doenças osteomusculares. As condições que cada sistema são: 1. Sistema cardiovascular: hipor- afetam o nível sensório-motor médio são principal- responsividade barorreceptora (hipotensão ortostá- mente a hemiparesia espástica, a mielopatia cervical, tica); intolerância ortostática (taquicardia, náusea, o parkinsonismo e a ataxia cerebelar. A disfunção do sudorese e síncope após repouso prolongado); re- nível sensório-motor superior se deve, principalmen- distribuição do volume circulante dos membros infe- te, à apraxia de marcha de origem vascular (múlti- riores para a circulação central (11% ou 500 mL), es- plos infartos lacunares, isquemia crônica subcortical pecialmente para o pulmão; redução da capacidade – Binswanger), à hidrocefalia de pressão normal e a aeróbica, com diminuição da tolerância ao exercício; tumores cerebrais. O medo de queda e a depressão alto risco de trombose venosa profunda; 2. Sistema compõem também esse grupo, pois o paciente, clas- respiratório: redução do volume corrente e da capa- sicamente, apresenta a marcha cautelosa. cidade vital; hipersecreção brônquica; tosse ineficaz; As drogas podem gerar ou agravar a instabilidade atelectasia; pneumonia; retenção de secreção; embo- postural, como: antidepressivos tricíclicos, anticonvul- lia pulmonar; insuficiência respiratória; 3. Sistema sivantes, anti-inflamatórios, anti-hipertensivos (diuréti- digestório: anorexia secundária a restrição dietética, cos, beta-bloqueadores, alfa-bloqueadores, inibidores doença de base, efeito de medicamentos, alterações da enzima conversora de angiotensina, bloqueadores psíquicas; desidratação por redução da ingestão hí- dos canais de cálcio), antiarrítmicos (amiodarona, ve- drica; alto risco de aspiração pulmonar por engasgo, rapamil, disopiramida), antibióticos (eritromicina, ri- tosse ou refluxo associados a posicionamento inade- fampicina, isoniazida, aminoglicosídeos, cloroquina), quado; doença do refluxo gastroesofágico; constipa- hipoglicemiantes orais e corticosteroides. ção intestinal e fecaloma; 4. Sistema geniturinário: aumento do volume residual da bexiga e alto risco de retenção urinária (“bexigoma”); alto risco de in- Imobilidade continência urinária de urgência, transbordamento e/ou funcional; alto risco de infecção urinária aguda O conceito de imobilidade é variável, associando- ou recorrente e bacteriúria assintomática; nefrolitía- se intrinsecamente ao movimento ou deslocamento se (hipercalciúria da imobilidade e pouca ingestão no espaço, possibilitando a independência do indiví- de água); 5. Pele: intertrigo nas regiões de dobras duo. Por imobilidade entende-se qualquer limitação cutâneas, particularmente nas regiões inframamária do movimento. Representa causa importante de com- e interglútea; dermatite amoniacal da “fralda”; esco- prometimento da qualidade de vida.3 O espectro de riações, lacerações e equimoses, frequentemente gravidade é variável e, frequentemente, progressivo. causadas por manipulação inadequada do idoso; No grau máximo de imobilidade, conhecido como xerodermia; prurido cutâneo; úlcera de pressão por síndrome de imobilização ou da imobilidade comple- compressão prolongada da pele, levando a compro- ta, o idoso é dependente completo: apresenta déficit metimento da circulação local; redução do tônus e cognitivo avançado, rigidez e contraturas generaliza- da força muscular (3 a 5% ao dia), encurtamento e das e múltiplas, afasia, disfagia, incontinência uriná- atrofia muscular; redução da elasticidade das fibras ria e fecal, úlceras de pressão. Necessita de cuidador colágenas com hipertonia, encurtamento muscular e em tempo integral. Essas características remetem tendinoso e contraturas. ao quadro descrito por Dr. Richard Asher, em 1947: A imobilidade pode associar-se a todos os gigan- “Olhe o paciente estendido na cama. Parece uma figu- tes da geriatria, inclusive a própria imobilidade agra- ra patética. O sangue coagulando em suas veias, a cal va ainda mais o grau de imobilidade prévia. escoando de seus ossos, as fezes amontoando em seu cólon, a carne de seu traseiro apodrecendo, a urina vazando de sua bexiga dilatada e o espírito evaporan- Incapacidade comunicativa do de sua alma.” Esse quadro deve ser evitado a todo custo. Todos os sistemas fisiológicos, de fato, perdem A comunicação é a atividade primordial do ser progressivamente as suas funções, com a imobilida- humano. A possibilidade de estabelecer relaciona- de constituindo a etapa final da história natural de mento produtivo com o meio, trocar informações, inúmeras doenças que acometem os idosos. manifestar desejos, ideias, sentimentos está intima-64 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66
  12. 12. Principais síndromes geriátricasmente relacionada à habilidade de se comunicar. É imobilidade e incontinência esfincteriana. Essa fragi-a partir dela que o indivíduo compreende e expressa lização do suporte familiar deu origem a outra gran-seu mundo. Problemas de comunicação podem re- de síndrome geriátrica, a insuficiência familiar, cujasultar em perda de independência e sentimento de abordagem é extremamente complexa.desconexão com o mundo, sendo um dos mais frus-trantes aspectos dos problemas causados pela idade.A incapacidade comunicativa pode ser considerada ConCLUsãoimportante causa de perda ou restrição da participa-ção social (funcionalidade), comprometendo a capa- A descrição dos ditos gigantes geriátricos eviden-cidade de execução das decisões tomadas, afetando cia a importância da realização de ampla avaliaçãodiretamente a independência do indivíduo. clínica de todos os idosos. Caso contrário, não será Aproximadamente um quinto da população com possível visualizar todos os seus problemas e as inter-mais de 65 anos apresenta problemas de comunica- relações entre eles. A visão fragmentada do idoso é,ção. O geriatra, sendo tipicamente o primeiro clínico indiscutivelmente, uma das principais causas de po-a ter contato com esses pacientes, necessita saber lifarmácia e iatrogenia que tanto os prejudicam. Oscomo reconhecer esses problemas. As habilidades médicos que trabalham com idosos, portanto, devemcomunicativas compreendem quatro áreas distintas: realizar a sua avaliação multidimensional e ficaremlinguagem, audição, motricidade oral e voz (fala). A atentos à identificação e tratamento das síndromesvisão pode ser incluída como a quinta função comu- geriátricas, principais responsáveis pela perda da suanicativa, atuando como função compensatória, na autonomia e independência.ausência das outras habilidades da comunicaçãooral-verbal. reFerênCiasInsuficiência familiar 1. Moraes E N. Princípios Básicos de Geriatria e Gerontologia, Belo Horizonte: Coopmed; 2008. A dimensão sociofamiliar é fundamental na ava- 2. Isaacs B.The Challenge of Geriatric Medicine. Oxford: Blackwell; 1992.liação multidimensional do idoso. A família consti- 3. Isaacs B. Some characteristics of geriatric patients. Scott Med J.tui-se na principal instituição cuidadora dos idosos 1969 July;14(7):243-51.frágeis, devendo ser privilegiada nessa sua função. A 4. Katz S, Ford AB, Moskwitz RW, Jackson BA, Jaffe MW. Studies Of Ill-transição demográfica, entretanto, atinge diretamen- ness in the aged. the index of ADL: a standardized measure of bio-te essa “entidade”, reduzindo drasticamente a sua ca- logical and psychosocial function. JAMA. 1963 21 Sept; 185:914-9.pacidade de prestar apoio a seus membros idosos. 5. Lawton MP Brody EM. Assessment of older people: self-main- ,A redução da taxa de fecundidade trouxe profundas taining and instrumental activities of daily living. Gerontologist.modificações na estrutura familiar. O número de fi- 1969; 9(3):179-86.lhos está cada vez menor e as demandas familiares 6. Folstein MF Folstein SE, McHugh PR.“Mini-mental state”. A prac- ,são crescentes, limitando a disponibilidade dos pais tical method for grading the cognitive state of patients for thede cuidarem de seus filhos quanto dos filhos de cui- clinician. J Psychiatr Res. 1975 Nov.; 12(3):189-98.darem de seus pais. Por sua vez, o aumento da partici- 7. Bertolucci PH, Okamoto IH, Brucki SM, Siviero MO,Toniolo NJ, Ra- mos LR. Applicability of the CERAD neuropsychological batterypação da mulher no mercado de trabalho, a valoriza- to Brazilian elderly. Arq Neuropsiquiatr. 2001 Sept; 59(3-A):532-6.ção do individualismo e os conflitos intergeracionais 8. McKhann G, Drachman D, Folstein M, Katzman R, Price D, Stad-contribuem para as modificações nos arranjos domi- lan EM. Clinical diagnosis of Alzheimer’s disease: report of theciliares. Essas mudanças sociodemográficas e cul- NINCDS-ADRDA Work Group under the auspices of Departmentturais têm repercussões importantes na capacidade of Health and Human Services Task Force on Alzheimer’s Dis-de acolhimento às pessoas com incapacidades, que ease. Neurology. 1984 July; 34(7):939-44.historicamente dependiam de apoio e cuidado fami- 9. Stagno D, Gibson C, Breitbart W. The delirium subtypes: a reviewliar. A própria modificação nas dimensões das habi- of prevalence, phenomenology, pathophysiology, and treatmenttações limita as possibilidades de cuidado adequado response. Palliat Support Care. 2004 June ; 2(2):171-9.às pessoas com grandes síndromes geriátricas, como 10. Inouye SK. Delirium in older persons. N Engl J Med. 2006 Mar 16; 354(11):1157-65.a incapacidade cognitiva, instabilidade postural, Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66 65
  13. 13. Principais síndromes geriátricas11. Yesavage JA, Brink TL, Rose TL, Lum O, Huang V, Adey M, et al. 18. Hunskaar S, Burgio K, Clark A. Epidemiology of urinary and fe- Development and validation of a geriatric depression screen- cal incontinence and pelvic organ prolapse. In: Basic E, editor. ing scale: a preliminary report. J Psychiatr Res. 1982; 17(1):37-49. Incontinence 3rd International Consultation on Incontinence12. Abrams P Cardozo L, Fall M, Griffiths D, Rosier P Ulmsten U, et , , 2005; Paris. p. 255. al. The standardisation of terminology in lower urinary tract 19. Nygaard IE, Lemke JH. Urinary incontinence in rural older wom- function: report from the standardisation sub-committee of the en: prevalence, incidence and remission. J Am Geriatr Soc. 1996 International Continence Society. Urology. 2003 Jan; 61(1):37-49. Sept; 44(9):1049-54.13. Sand PK, Dmochowski R. Analysis of the Standardisation of Ter- 20. Thomas DR. Pharmacologic management of urinary inconti- minology of Lower Urinary Tract Dysfunction Report from the nence. Clin Geriatr Med. 2004 Aug; 20(3):511-23. Standardisation sub-committee. Neurourol Urodynam. 2002; 21. Erdem N, Chu FM. Management of overactive bladder and urge 21:167-78. urinary incontinence in the elderly patient. Am J Med. 2006 Mar;14. Anger JT, Saigal CS, Litwin MS. The prevalence of urinary incon- 119(3 Suppl 1):29-36. tinence among community dwelling adult women: results from 22. Brauer SG, Woollacott M, Shumway-Cook A. The interacting the National Health and Nutrition Examination Survey J Urol. effects of cognitive demand and recovery of postural stabil- 2006 Fev; 175(2):601-4. ity in balance-impaired elderly persons. J Gerontol. 2001 Aug;15. Liu C, Andrews GR. Prevalence and incidence of urinary incon- 56(8):M489-96. tinence in the elderly: a longitudinal study in South Australia. 23. Mathias S, Nayak US, Isaacs B. Balance in elderly patients: the “get- Chin Med J (Engl). 2002 Jan; 115(1):119-22. up and go” test. Arch Phys Med Rehab. 1986 June; 67(6):387-9.16. Morantz CA.ACOG Guidelines on Urinary Incontinence in Wom- 24. Podsiadlo D, Richardson S. The timed “Up & Go”: a test of basic en. Am Family Phys. 2005 Jan 07; 72(1):175-8. functional mobility for frail elderly persons. J Am Geriatr Soc.17. Ouslander JG, Palmer MH, Rovner BW, German PS. Urinary in- 1991 Fev; 39(2):142-8. continence in nursing homes: incidence, remission and associ- ated factors. J Am Geriatr Soc. 1993 Oct;41(10):1083-9.66 Rev Med Minas Gerais 2010; 20(1): 54-66

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