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D. Sebastião

                                                  Décimo              sexto        rei         de
          ...
Chefe de um numeroso exército, na sua maioria aventureiros
e miseráveis, parte para a África em Junho de 1578; chega
perto...
Cardeal D. Henrique

                                                  Filho do rei D. Manuel e
                          ...
sobressair durante a menoridade de D. Sebastião, tendo sido
regente de 1562 a 1568, opondo-se às pretensões de D. Catarina...
D. António prior do Crato

                                                     Nasceu em Lisboa, filho de
               ...
obtém       uma    sentença            favorável,              mas      a    actuação             pessoal     do
cardeal-r...
nos Açores (1582-1583) a em Lisboa (1589). De várias mulheres
teve 10 filhos, sendo os mais conhecidos:
   1.   D.   Manue...
Filipe           II       de        Espanha                   e          I        de
Portugal

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Depois da morte de el-rei D. Sebastião na funesta batalha
de Alcácer Quibir, Filipe pensou na posse do trono português,
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consciências que quisessem vender-se: Filipe II, em Espanha,
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cruzavam nos mares dos Açores. Foi então que Filipe organizo...
antes do rei; António Peres, que lhe sobreviveu, mas que ele
perseguiu implacavelmente; o cardeal de Granville, que depois...
cerimonial    realizou-se        em    Elvas      a    20    de    Dezembro      de    1580,
sendo a Universidade represen...
recebeu a Universidade estatutos por duas vezes, uma em 1592,
sendo   trazidos   de   Madrid    pelo     Dr.    António   ...
Filipe                III         de        Espanha                     e       II          de
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Filipe III um edito expulsando definitivamente de Espanha os
descendentes dos mouros. Depois da conquista de Granada por
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daria providencias contra os danos de que todos se queixavam
das arbitrariedades dos governadores. Filipe III, porém, nada...
reino, que Filipe II tratou logo no começo do seu reinado;
apesar de já estar concluída em 1597, só veio a publicar-se em
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Filipe        IV     de        Espanha                e           III        de
Portugal

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irritação que lavrava em Lisboa e nas províncias, mas o conde-
duque não viu ou não quis ver a gravidade da situarão, e
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Para realizar esse plano começou por enfraquecer os diversos
reinos,         exigindo-lhes           pesados       imposto...
alfândegas retivessem um trimestre de juros aos portadores, a
quem os pagavam. Com esta simplicidade entendia também Migue...
Receando que o duque de Bragança se resolvesse a capitanear
uma insurreição, resolveu Olivares enleá-lo de tal modo que,
o...
quisera mandar em socorro do México uma esquadra, equipada à
custa do tesouro português e destinada ao Brasil.
      A not...
D. João IV

                                                             Filho        de          D.        Teodósio,
    ...
enfim, o trabalho feito no campo administrativo e legislativo,
procurando impor a presença da dinastia nova.
     Quando  ...
5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro de
1640 e faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no Convento
...
D. Afonso VI

                                              Rei de Portugal.
                                             ...
casamento desta com D. Afonso e este último é desterrado para
Angra do Heroísmo em 1669, donde regressa em 1674, sendo ent...
D. Pedro II

                                                    Último dos sete filhos de
                               ...
acto imprudente do sagaz político, tão fatal para a desgraça
do    rei,    como    para        os    seus      próprios   ...
Ericeira, D. Luís de Meneses, e outros economistas, homens
cultos,      informados         já    pelas       novas        ...
começara     em     1683,      por     morte          do     irmão        proscrito,    sem
descendência, na sua prisão-de...
acto     de      generosidade      de       autorizar         o     regresso         de     Castelo
Melhor, já velho e sem...
contrário, ficavam sob a permanente ameaça das contingências
duma guerra, sempre imprevisíveis.
   Aderindo à tripla alian...
Ficha genealógica:
   D. PEDRO II nasceu em Lisboa, a 26 de Abril de 1648, e
faleceu     em    Lisboa     a    1    de    ...
7.     D.       Manuel      José          Francisco      António      Caetano       Estêvão
Bartolomeu (n. em Lisboa, a 3 ...
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Biografias Reis da União Ibérica ao fim da Guerra da Restauração

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  1. 1. D. Sebastião Décimo sexto rei de Portugal, filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, e morreu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578. Sucedeu a seu avô D. João III sendo o seu nascimento esperado com ansiedade, enchendo de júbilo o povo, pois a coroa corria o perigo de vir a ser herdada por outro neto de D. João III, o príncipe D. Carlos, filho de Filipe II de Espanha. De saúde precária, D. Sebastião mostrou desde muito cedo duas grandes paixões: a guerra e o zelo religioso. Cresceu na convicção de que Deus o criara para grandes feitos, e, educado entre dois partidos palacianos de interesses opostos - o de sua avó que pendia para a Espanha, e o do seu tio-avô o cardeal D. Henrique favorável a uma orientação nacional -, D. Sebastião, desde a sua maioridade, afastou-se abertamente dum e doutro, aderindo ao partido dos validos, homens da sua idade, temerários a exaltados, que estavam sempre prontos a seguir as suas determinações. Nunca ouviu conselhos de ninguém, e entregue ao sonho anacrónico de sujeitar a si toda a Berbéria a trazer à sua soberania a veneranda Palestina, nunca se interessou pelo povo, nunca reuniu cortes nem visitou o País, só pensando em recrutar um exército a armá-lo, pedindo auxílio a Estados estrangeiros, contraindo empréstimos a arruinando os cofres do reino, tendo o único fito de ir a África combater os mouros.
  2. 2. Chefe de um numeroso exército, na sua maioria aventureiros e miseráveis, parte para a África em Junho de 1578; chega perto de Alcácer Quibir a 3 de Agosto e a 4, o exército português esfomeado a estafado pela marcha e pelo calor, e dirigido por um rei incapaz, foi completamente destroçado, figurando o próprio rei entre os mortos. Ficha genealógica: D. Sebastião, nasceu em Lisboa, a 20 de Janeiro de1554; faleceu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578; sepultado em 1582 no Mosteiro dos Jerónimos. Morreu solteiro e sem descendência.
  3. 3. Cardeal D. Henrique Filho do rei D. Manuel e da segunda mulher deste, D. Maria, foi o quarto na ordem varonil dos filhos daquele rei. A sua educação foi orientada para a vida eclesiástica, recebendo sólida cultura, que lhe foi ministrada por sábios como Pedro Nunes, Nicolau Clenardo e Aires Barbosa. Um cronista do tempo define-o como de sua condição encolhido, e vergonhoso (...) pouco mimoso e severo, continente e temperado nas palavras». A sua carreira eclesiástica iniciou-se aos 14 anos, ao ser investido como prior comendatário de Santa Cruz de Coimbra. Seis anos depois recebeu a administração do arcebispado de Braga. Em 1540 é feito arcebispo de Évora. Nesta cidade cria uma pequena corte de letrados, músicos, cantores a charameleiros, que faziam parte da sua casa episcopal. A protecção que dispensou à cultura até 1562 permite considerá- lo como um príncipe de ideal renascentista. Entretanto fora nomeado, em 1539, inquisidor-geral do reino, em 1545 cardeal e sete anos mais tarde legado apostólico em Portugal. Em 1562 obteve a arquidiocese de Lisboa, mas doze anos depois transferiu-se de novo para Évora. Foi graças aos seus esforços que se criou, em 1559, uma Universidade naquela cidade alentejana, tendo o cardeal ajudado ao desenvolvimento dessa instituição. Como prelado e inquisidor foi defensor extreme de princípios religiosos que concebia de forma altamente conservadora. A sua importância política começa a
  4. 4. sobressair durante a menoridade de D. Sebastião, tendo sido regente de 1562 a 1568, opondo-se às pretensões de D. Catarina de Áustria, adepta da ingerência espanhola na política portuguesa. Nos primeiros anos após a maioridade de D. Sebastião, D. Henrique é o seu principal orientador. Mas desentendem-se, e partir de 1572, e o cardeal voltará a Évora onde, em Janeiro de 1578, recusa o seu consentimento à expedição a Marrocos. Subindo ao trono após o desastre de Alcácer Quibir, começa por tentar resolver o problema da sucessão ao trono em termos nacionais, convocando cortes para Almeirim a projectando o seu casamento com a rainha-mãe de França. Mas a influência espanhola cada vez maior em Portugal, as rivalidades entre os vários pretendentes ao trono, a ruína financeira do País a outros factores fizeram da última fase do reinado de D. Henrique um período de indecisão; eximindo-se a nomear um herdeiro da coroa, preferiu deixar o problema em suspenso, escolhendo cinco governadores para o substituírem após a sua morte. Ficha genealógica: D. Henrique, nasceu em Lisboa, a 31 de Janeiro de 1512 e morreu em Almeirim a 31 de Janeiro de 1580. Foi sepultado na capela-mor da igreja do Paço de Almeirim, e transferido em 1582 para o Panteão dos Jerónimos. Cardeal de Portugal, arcebispo de Braga, Lisboa e Évora, morreu sem descendência.
  5. 5. D. António prior do Crato Nasceu em Lisboa, filho de uma mulher do povo e do infante D. Luís. Seu pai desejava que ele seguisse a vida eclesiástica e a sua educação processou-se em sucessivos mosteiros e colégios religiosos, tendo tido por mestres o grande humanista Fr. Diogo de Murça, o padre Simão Rodrigues de Azevedo, o teólogo Pedro Margalho a D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Com a morte de seu pai decide romper com a carreira que lhe tinha sido imposta. Já prior do Crato e com as ordens de diácono, recusa a ordenação de presbítero e comporta-se como pessoa secular. Por esse motivo, seu tio o cardeal D. Henrique manifesta-lhe um ódio declarado, o que o leva a exilar-se em Castela, em várias ocasiões, durante a menoridade de D. Sebastião. Com a subida ao trono deste monarca e gozando da sua estima, D. António desempenha o cargo de governador de Tânger. Obtém, então, dispensa do papel das ordens de diácono. Toma parte na batalha de Alcácer Quibir e é feito prisioneiro. Resgatado, regressa a Lisboa para chefiar um dos partidos nacionais que se opunham à candidatura de Filipe II ao trono português. O prior do Crato baseava a sua candidatura na situação de filho legitimado do infante D. Luís, segundo filho de D. Manuel, uma vez que não havia descendentes directos de D. João III. Era necessário, todavia, provar o matrimónio secreto de seus pais. Organiza-se um processo a D. António
  6. 6. obtém uma sentença favorável, mas a actuação pessoal do cardeal-rei, que contesta aquela decisão, culmina numa nova sentença desfavorável. Com a morte do cardeal, as tropas filipinas entram em Portugal. Os partidários do prior do Crato aclamam-no rei em Santarém; Lisboa e Setúbal recebem-no vibrantemente e, em breve, quase todos os burgos do reino alinham a seu lado. Mas, não dispondo de exército organizado, nem de recursos, é derrotado na batalha de Alcântara pelo exército castelhano. Consegue fugir com dificuldade para o estrangeiro onde, nas cortes de França a de Inglaterra, procura obter auxílio para lutar contra Filipe II. Duas esquadras francesas enviadas à Ilha Terceira são derrotadas sucessivamente pelos castelhanos. A Terceira perde- se, como último bastião de D. António. Vivendo miseravelmente em França, a expensas de Catarina de Médicis resolve passar à corte de Isabel I pedindo novo auxilio. Os ingleses como represália contra o ataque da Invencível Armada, resolvem enviar a Portugal uma esquadra, comandada por Drake. D. António desembarca em Peniche mas sofre novo desaire. Regressa a França e, depois de ter conseguido um novo auxílio de Henrique IV, morre em Paris de uma crise de uremia, sem realizar o projecto por que tanto lutou. Ficha genealógica: D. António nasceu em Lisboa, em 1531, tendo falecido em Paris, a 26 de Agosto de 1595, tendo sido enterrado no Convento de S. Francisco da mesma cidade. Era filho natural ou legitimado do infante D. Luís e de Violante Gomes, mulher plebeia. Foi rei de Portugal desde 19 de Junho de 1580, data da sua aclamação em Santarém, até à derrota de Alcântara, a 25 de Agosto seguinte. Nunca resignou aos seus direitos e, embora exilado em França e na Inglaterra, manteve luta armada contra Filipe II,
  7. 7. nos Açores (1582-1583) a em Lisboa (1589). De várias mulheres teve 10 filhos, sendo os mais conhecidos: 1. D. Manuel de Portugal (n. em Lisboa, 1568; f. em Bruxelas, a 22 de Junho de 1638), acompanhando seu pai no exílio e vivendo em França, na Inglaterra a na Flandres. Casou em 1597 com Emília de Nassau, princesa de Orange, dela se separando em 1625 por motivos de ordem religiosa; 2. D. Cristóvão de Portugal (n. em Tânger, em Abril de 1573; f. em Paris, a 3 de Junho de 1638). Viveu também no estrangeiro, sustentando a causa paterna e, após a morte de D. António, manteve vivo o mesmo ideal.
  8. 8. Filipe II de Espanha e I de Portugal n. 1527 f. 13 de Setembro de 1598 O Prudente. Nasceu em Valladolid em 1527, faleceu no Escurial a 13 de Setembro de 1598. Era filho de Carlos V, imperador da Alemanha, e da imperatriz D. Isabel, filha de el-rei D. Manuel, de Portugal. Casou em 15 de Novembro de 1543, contando 16 anos de idade, com a infanta D. Maria, que também contava a mesma idade, filha de D. João III e da rainha D.: Catarina, a qual faleceu dois anos depois, a 12 de Julho de 1545. Ficando viúvo aos 18 anos, Filipe assim se conservou até 1551, em que casou com Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e foi residir em Londres, mas tornou-se tão pouco simpático aos ingleses, que estes, com o maior prazer o viram partir em 1555 para os Países Baixos, cujo governo Carlos V lhe cedeu, como anteriormente lhe cedera, um ano antes, o governo de Nápoles e da Sicília, e como lhe cedeu mais tarde, em 1556, a coroa de Espanha, quando completamente abdicou para se recolher no mosteiro de S. Justo. Filipe enviuvou também da rainha de Inglaterra, falecida em 1558, e tornou a casar, pela terceira vez, com a princesa de França, Isabel de Valois, filha de Henrique II. Não seguiremos a vida deste monarca, senão depois de se ter apoderado de Portugal em 1530.
  9. 9. Depois da morte de el-rei D. Sebastião na funesta batalha de Alcácer Quibir, Filipe pensou na posse do trono português, com as maiores esperanças, por ver aclamado o cardeal D. Henrique, velho decrépito, de quem não se podia recear sucessão. Era, porém, preciso antes da sua morte, assegurar a posse do trono, e para isso empenhou, todos os meios, intrigas e dinheiro para ganhar ao seu partido a corte de Portugal, conseguindo assim chamar para seu lado muitos fidalgos portugueses. Os pretendentes, que eram sete, disputavam entre si a posse do reino, mas; desses sete, contavam-se cinco que baseavam as suas pretensões em fundamentos aceitáveis. Estes cinco eram: Filipe do Espanha, que alegava ser filho de D. Isabel, filha primogénita de D. Manuel, que casara com Carlos V; o duque de Sabóia dizia ser filho da infanta D. Beatriz, filha do referido monarca, que casara com seu pai o duque de Sabóia; D. António, prior: do Crato, alegava ser filho natural do infante D. Luís, igualmente filho de el-rei D. Manuel; o duque de Parma, o ser neto, por sua mãe, do príncipe D. Duarte, filho também de D. Manuel; e a duquesa de Bragança, D. Catarina, alegava ser filha do mesmo príncipe. Os dois, que menos direito mostravam, eram Catarina de Medicis, rainha de França, dizendo-se descendente de D. Afonso III e de sua primeira mulher, a condessa Matilde de Bolonha, e finalmente o papa, que se dizia herdeiro natural dos cardeais, e entendia portanto dever usufruir o reino que um cardeal governava como podia usufruir uma quinta de que fora possuidor. Os cinco primeiros é que apresentavam títulos valiosos, e entre esses só três disputavam seriamente entre si a coroa: Filipe, D. António, prior do Crato, e a duquesa de Bragança. Cem a morte do cardeal D. Henrique ainda mais se acendeu a intriga. Cristóvão de Moura, o português renegado que estava sendo em Portugal o agente infernal do rei de Espanha, conhecido pelo demónio do meio-dia, enleava tudo nas redes da sua diplomacia corruptora, espalhando ouro castelhano, com que comprava as
  10. 10. consciências que quisessem vender-se: Filipe II, em Espanha, seguia com ansiedade a marcha dos acontecimentos, e de lá dirigia os planos e auxiliava a politica do seu emissário. O reino ficara, entregue a cinco governadores vendidos a Cristóvão de Moura, os quais, receando do povo que se agitava; hesitavam em reconhecer Filipe como rei de Portugal. Vendo isto, o monarca castelhano dispôs-se a conquistar o reino pela força das armas, empresa fácil, porque os governadores das praças já eram, na maior parte, criaturas de Cristóvão de Moura. D. António, prior do Crato, fizera-se aclamar em Santarém, mas dispunha de poucas tropas. Apesar disso, Filipe reuniu um poderoso exército, cujo comando confiou ao general duque de Alba; confiou ao marquês de Santa Cruz o comando duma esquadra, e conservou-se próximo da fronteira de Badajoz. O duque de Alba marchou sobre Setúbal; conquistando facilmente o Alentejo, atravessou para Cascais na esquadra do marquês de Santa Cruz, marchou sobre Lisboa, derrotou o prior do Crato na batalha de Alcântara, a 4 de Agosto de 1580, perseguiu-o até à província do Minho, e preparou enfim o reino para receber a visita do seu novo soberano. (V. António, D.). Filipe, em 9 de Dezembro, atravessou a fronteira, entrou em Elvas, onde se demorou dois meses recebendo nesta sua visita os cumprimentos dos novos súbditos, sendo um dos primeiros que o veio saudar o duque de Bragança. A 23 de Fevereiro de 1581 saiu de Elvas, atravessou triunfante e demoradamente todo o país, e a 16 de Março entrou em Tomar, para onde convocara cortes, e ali distribuiu as primeiras recompensas, e ordenou os primeiros suplícios e confiscos, e recebeu a notícia de que todas as colónias portuguesas haviam reconhecido a sua soberania, exceptuando a ilha Terceira, onde se arvorara a bandeira do prior do Crato, que fora ali, jurado rei de Portugal a 16 de Abril de 1581. Nessas cortes prometeu Filipe II respeitar os foros e as isenções de Portugal, e nunca lhe dar para governador senão um português ou um membro da família
  11. 11. real. Entendendo que devia demorar-se algum tempo no território português, expediu de Lisboa as tropas que subjugaram, depois de porfiada luta, a resistência da ilha Terceira, em que D. António fora auxiliado pela França, e só partiu para Espanha, quando a vitória naval de Vila Franca, em que o marquês de Santa Cruz destroçou a esquadra francesa em 26 de Julho de 1582, lhe garantiu a definitiva submissão da referida ilha. Nomeando para vice-rei de Portugal seu sobrinho, o cardeal-arquiduque Alberto, e depois lhe ter agregado um conselho de governo, e de ter nomeado os membros do conselho de Portugal, que devia funcionar em Madrid, partiu finalmente a 11 de Fevereiro de 1583 para Espanha. A 29 de Agosto conquistava o marquês de Santa Cruz a ilha Terceira. A nova monarquia hispano-lusitana era opulentíssima; abrangia na Europa toda a península ibérica, Nápoles, Sicília, Milão, Sardenha e Bélgica actual; na Ásia as feitorias portuguesas da Índia, da Pérsia, da China, da Indochina, e a da Arábia; na África: Angola, Moçambique, Madeira. Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Canárias, toda a América menos algumas das Antilhas, parte dos actuais Estados Unidos e o Canadá, e urnas porções de terrenos na Guiana; na Oceânia tudo o que então havia conhecido e pertencente aos europeus. Nenhuma outra nação ali fora ainda assentar domínio. As Molucas eram a parte mais importante dessas possessões. A Europa principiou a assustar-se com este poderio colossal, receosa de que por este caminho Filipe chegasse a realizar o sonho ambicioso de monarquia universal. Sucederam se então importantes acontecimentos políticos, em que a Inglaterra aproveitou para se vingar de Filipe, de quem se considerava ofendida. As coisas complicaram-se gravemente porque Isabel, de Inglaterra, mostrou-se disposta a auxiliar as pretensões do prior do Crato, e o almirante Drake, por ordem superior, invadiu as colónias espanholas, que eram também as portuguesas, saqueando Cabo Verde, tomando o castelo
  12. 12. do Cabo de S. Vicente, e apresando quantos galeões americanos cruzavam nos mares dos Açores. Foi então que Filipe organizou a célebre Armada Invencível, comandada pelo duque de Medina Sidónia, que uma tempestade aniquilou por completo, em Junho de 1588. (V. Armada Invencível). As ambições de Filipe II foram profundamente ruinosas para as nossas colónias. Em 1589 fechara aos ingleses os Portos portugueses e em 1591 fechou-os também aos holandeses Daí resultou que não podendo nem uns nem outros vir buscar a Portugal os géneros do Oriente, lembraram- se de ir à, fonte desse comércio. Os holandeses começaram a aparecer no seu tempo no Oriente, onde a nossa decadência era sensível, e onde depois da perda da nossa independência só dois capitães ilustres, D. Paulo de Lima Pereira e André Furtado de Mendonça, tinham mantido nobremente a honra da bandeira portuguesa. Os ingleses salteavam as nossas possessões mais próximas, Cabo Verde e os Açores, mas não tardariam também a aparecer no Oriente favorecendo a natural reacção dos indígenas contra o nosso domínio. Em Portugal houve duas tentativas de revolta, promovidas pela aparição de dois homens em quem o povo julgou ver D. Sebastião, e que por isso tiveram a denominação de rei de Penamacor e de rei da Ericeira. O motim promovido por este último tomou proporções gravíssimas, e foi reprimido dum modo sanguinário e violentíssimo. Filipe II, apesar da destruição da Armada Invencível, não desistiu das suas expedições contra a Inglaterra, e ainda em 1596 enviou urna à Irlanda que também os temporais dispersaram, perdendo a Espanha neste desastre 40 navios. Filipe enviuvou pela terceira vez, e casou novamente com uma segunda prima, Ana de Áustria, que faleceu em 1580, quando estava com seu marido em Badajoz, seguindo o progresso das armas castelhanas em Portugal, deixando-o pela quarta vez viúvo. Filipe II teve uma série de primeiros-ministros notáveis: o duque de Alba, que morreu em Lisboa dois anos depois da conquista; o príncipe de Eboli que morreu muito
  13. 13. antes do rei; António Peres, que lhe sobreviveu, mas que ele perseguiu implacavelmente; o cardeal de Granville, que depois de ter perdido todo o valimento, o recuperou e foi chamado de Nápoles para ficar como regente do reino em Madrid, enquanto o rei vinha a Portugal; e Cristóvão de Moura, que foi o valido da última hora, o que recebeu o seu derradeiro suspiro e as suas derradeiras confidencias. Pouco tempo antes de morrer, o cardeal-arquiduque Alberto, vice-rei de Portugal, fora nomeado soberano de Flandres, e para o substituir em Portugal nomeou um conselho composto do arcebispo de Lisboa, dos condes de Portalegre, de Sabugal e de Santa Cruz, e de Miguel de Moura. Foi este o último acto importante do seu reinado. Com a Universidade de Coimbra deu-se o seguinte facto, logo no começo do reinado de Filipe. Em Fevereiro de 1580, pouco depois da morte do cardeal rei D. Henrique, apresentou-se ao claustro da Universidade o Dr. João Nogueira, com uma provisão dos governadores do reino, na qual permitiam a todos os lentes, que não fossem desembargadores, dar o seu parecer dentro de oito dias, sobre a sucessão do trono. Quis, porém, a má estrela da Universidade, que D. António, prior do Crato, lhe escrevesse uma carta, datada de Santarém aos 20 de Junho do mesmo ano, dando conta de ter sido aclamado rei em diversos lugares do reino. A Universidade resolveu em claustro que se fizesse uma procissão, em acção de graças, desde a sua capela até Santa Cruz; e no mesmo claustro foram eleitos, para irem dar obediência ao nosso rei, reconhece-lo como tal e fazer-lhe a entrega da protectoria, o reitor Fernão Moniz Mascarenhas e Fr. Luís Sotto-mayor. Em 13 de Dezembro voltou o reitor, disse em claustro que era desnecessário dar conta do desempenho da sua missão, pois de todos era já sabido que o rei de Castela estava reconhecido como rei de Portugal. Em vista desta declaração deliberou-se que o próprio reitor, encarregado havia pouco de cumprimenta o prior do Crato, fosse agora com os lentes da sua escolha, dar obediência a Filipe I. Este acto
  14. 14. cerimonial realizou-se em Elvas a 20 de Dezembro de 1580, sendo a Universidade representada por D. Jorge de Ataíde e D. Afonso Castelo Branco. Tornou-se a fazer outra procissão solene, quando o reitor, em voltando, trouxe carta de el-rei, datada de Elvas a 25 de Fevereiro de 1581, na qual significava o contentamento que sentira pela obediência da Universidade, e com o ser declarado seu protector. Mas Filipe não era homem que deixasse sem castigos os sentimentos que a Universidade manifestara ao prior do Crato. Pedro de Alpoim, colegial de S. Pedro e lente do Código, foi degolado em Lisboa; Fr. Luís de Sotto-mayor privado da cadeira grande de Escritura; Fr. Agostinho da Trindade, da de Escoto; Fr. Luís foi depois restituído, mas Fr. Agostinho ausentou-se para França, e foi lente de Teologia na Universidade de Tolosa; João Rodrigues de Vasconcelos, que trouxera a carta do prior do Crato, foi preso e morreu na prisão. Outro facto é também digno de narrar-se; pela provisão de 9 de Março de 1583 foi Manuel de Quadros nomeado visitador e reformador da Universidade; tomou posse do cargo e prestou, juramento a 21 de Março do mesmo ano. O visitador vinha encarregado de construir escolas para a Universidade, mas os seus esforços estacaram afinal pela falta de dinheiro. A Universidade pediu a Filipe I que lhe cedesse os paços reais para neles se assentarem as escolas, que lá estavam havia já 40 anos. O rei respondeu, em 30 de Setembro do referido ano de 1583, que, embora desejasse fazer muitas mercês à Universidade, não era conveniente a seu serviço dar- lhe os seus paços, que aliás, em sendo desocupados pela Universidade, tencionava mandar concertar, para poder em algum tempo ir a eles, como desejava. Filipe nunca realizou o desejo que disse ter de ir aos paços de Coimbra. Anos depois, em 1597, o mesmo monarca vendeu à Universidade esses mesmos paços por 30 mil cruzados. Neste sentido foi expedido um alvará em 17 de Maio de 1597, e se fez a carta de venda, em nome de el- rei, a 16 de Setembro do mesmo ano. No reinado de Filipe I
  15. 15. recebeu a Universidade estatutos por duas vezes, uma em 1592, sendo trazidos de Madrid pelo Dr. António Vaz Cabaço, resultantes da reformação operada por Manuel de Quadros; outra, os novos estatutos confirmados em 8 de Junho de 1597, e trazidos de Madrid pelo Dr. Rui Lopes da Veiga. Filipe I, o rei ambicioso e desumano, que todos esmagava com o seu feroz despotismo, faleceu coberto de vermes e de úlceras, depois dum doloroso e demorado sofrimento.
  16. 16. Filipe III de Espanha e II de Portugal n. 1578 f. 31 de Março de 1621 O Pio. Nasceu em Madrid em 1578, onde também faleceu em 31 de Março de 1621. Era filho de Filipe II, e de sua quarta mulher, D. Ana de Áustria. Subiu ao trono em 1598, contando 20 anos de idade. Tinha um carácter fraco, apático e irresoluto, e foi completamente dominado pelo seu ministro duque de Lerma, D. Cristóvão de Moura, que fora elevado a marquês de Castelo Rodrigo, e nomeado vice-rei de Portugal, o que muito indignou os portugueses, apesar da sua administração ser das mais hábeis, segundo consta. O duque de Lerma procurava um pouco favorecer Portugal e cimentar a união dos dois reinos da península, adoptando medidas de grande importância. Assim tratou tanto quanto possível do desenvolvimento da marinha, aboliu os Portos secos, as alfândegas, abriu os Portos de Portugal ao comércio inglês, e por algum tempo também os abriu ao comércio holandês, mas essa ultima medida pouco tempo durou, o que prejudicou muito Portugal. Em 1609, vendo que não podia lutar por mais tempo com os estados da Holanda, assinou com eles uma trégua de doze anos, mas tão ineptamente procedeu o marquês de Castelo Rodrigo que, assinando a trégua na Europa, deixou que continuassem as hostilidades nas colónias, onde mais prejudiciais eram ao país. Por essa mesma época publicou
  17. 17. Filipe III um edito expulsando definitivamente de Espanha os descendentes dos mouros. Depois da conquista de Granada por Fernando o Católico, esses moiros tinham sido forçados a abraçar o Cristianismo, formavam uma massa de população submissa, industriosa, cultivando admiravelmente a terra e enriquecendo o Estado, mas o fanatismo espanhol não lhes perdoava a sua origem. A sua expulsão foi uma grande fatalidade para a península, que perdeu perto de um milhão doa seus habitantes mais industriosos, e arruinou a sua agricultura e a sua indústria. Desses desgraçados, os que se recusavam a abandonar a pátria, eram perseguidos como feras e assassinados, ficando somente as crianças de menos de 7 anos, que se venderam como escravas, depois de se baptizarem. Esta expulsão dos moiros não foi movida só pelo fanatismo, porque Filipe III tratava ao mesmo tempo com os judeus de Portugal para os proteger contra os rigores da Inquisição, a troco dum subsídio importante. Ao marquês de Castelo Rodrigo sucedera no governo de Portugal o bispo de Coimbra, a este o bispo de Leiria, voltara depois ao marquês, novamente ao bispo de Leiria, ao arcebispo de Braga, ao arcebispo de Lisboa, e finalmente ao marquês de Alenquer, espanhol de origem, e que por conseguinte estava completamente fora das condições estipuladas pelas cortes de Tomar. O descontentamento dos portugueses era geral, e Filipe III, que não o ignorava, empreendeu uma viagem a Portugal, resolução que muito aplaudiu o novo ministro e valido, o duque de Uzeda, filho do duque de Lerma, que descaíra do valimento real, e se havia afastado da corte. A viagem realizou-se em 1619. Dela ficou a interessantíssima narrativa ilustrada de João Baptista Lavanha, e que, embora impressa em Madrid, o foi à custa da cidade de Lisboa. O soberano foi acolhido por toda a parte com o maior entusiasmo, as câmaras e as corporações portuguesas gastaram enormes somas para uma pomposa recepção, esperando grandes proveitos desta viagem, imaginando que o soberano
  18. 18. daria providencias contra os danos de que todos se queixavam das arbitrariedades dos governadores. Filipe III, porém, nada fez, nem sequer soube cativar simpatias. Insinuou-se-lhe que fizesse de Lisboa a capital da vasta monarquia espanhola, e Filipe nem se dignou responder; os fidalgos e os jurisconsultos queixaram-se de que nem recebiam mercês, nem eram empregados nos tribunais, nas embaixadas, nas universidades espanholas, e Filipe não fez o mínimo caso destas reclamações. O duque de Uzeda, muito menos hábil que seu pai tratou com aspereza o duque de Bragança, que viera também prestar homenagem à majestade castelhana. Depois de estar alguns mexes em Lisboa, sem fazer mais do que causar grandes despesas aos seus súbditos portugueses, Filipe retirou-se em Outubro do referido ano de 1619, deixando Portugal descontentíssimo, agravando-se ainda mais esse descontentamento, depois da sua saída, com a recondução do marquês de Alenquer no cargo de vice-rei de Portugal. Na Índia, contudo, mantinha-se o nosso domínio, ainda que, a muito custo; os holandeses já tinham tentado tomar-nos as Molucas, Malaca e Moçambique, mas batidos por André Furtado de Mendonça e Estêvão de Ataíde, haviam desistido dessa empresa. Na América também os holandeses ainda não tinham atacado as nossas colónias. Filipe III casou com D. Margarida de Áustria, filha do arquiduque Carlos, no dia 18 de Abril de 1599. Ao sair de Portugal Filipe adoeceu gravemente em Covarrubias, e nunca mais se restabeleceu, falecendo pouco mais dum anuo depois. Diz-se que a sua morte foi devida ao rigor de etiqueta, porque sentindo-se muito incomodado com o calor dum braseiro, teve de o suportar enquanto não apareceu o fidalgo, que pela sua hierarquia, segundo as praxes palacianas, era encarregado de o fazer remover para outro lugar. No Panorama, vol. II da 2.ª série, 1843, a pág. 218, 238 e 253, vem uma narrativa intitulada O Brazeiro, em que se descreve este facto. No seu reinado publicou-se a reforma das Ordenações do
  19. 19. reino, que Filipe II tratou logo no começo do seu reinado; apesar de já estar concluída em 1597, só veio a publicar-se em 1603. São as conhecidas ordenações denominadas Filipinas, e que na ordem dos tempos foram precedidas pelas intituladas Afonsinas e Manuelinas.
  20. 20. Filipe IV de Espanha e III de Portugal n. 8 de Abril de 1605 f. 7 de Setembro de 1665 O Grande. Nasceu em Madrid a 8 de Abril de 1605, onde também faleceu a 7 de Setembro de 1665. Era filho de Filipe III, de Espanha, e da rainha sua mulher, D. Margarida de Áustria. Em 14 de Julho de 1619 foi jurado príncipe de Portugal, e aos 16 anos de idade, em 1621, sucedeu no trono por morte de seu pai. Logo no começo do seu reinado chamou para junto de si D. Gaspar de Guzman, que fez conde-duque de Olivares, que se tornou o seu ministro e valido homem em que depositava a maior confiança e a quem entregou completamente a administração dos negócios do Estado. O novo valido era mais activo e mais inteligente que os anteriores ministros, os duques de Lerma e de Uzeda, mas pela sua má política, foi mais prejudicial do que eles ao rei e aos países que governava. Julgando conseguir os seus fins adoptando medidas rigorosas, tomou tais providências com relação a Portugal, que provocou a maior resistência. O que os portugueses aceitaram de bom grado, serenando mais os ânimos irrequietos, foi a demissão do marquês de Alenquer, que era o vice-rei de Portugal, substituindo-o por uma junta de três membros, composta do conde de Basto, D. Nuno Alvares Portugal e o bispo de Coimbra. Seria decerto um bom ensejo para se entrar numa politica conciliadora, muito mais, conhecendo-se a
  21. 21. irritação que lavrava em Lisboa e nas províncias, mas o conde- duque não viu ou não quis ver a gravidade da situarão, e seguiu um caminho cheio de precipícios. Promulgou, em nome do rei, decretos sobre bens da Coroa, sobre a fiscalização financeira, que feria os interesses do povo, decretos que começaram a suscitar grande indignação; arrancou tributos ao país, a título de subsídios voluntários, publicou fechar outra vez os Portos do reino aos holandeses, medidas que muito contribuíram para a ruína do país, que tivera algumas esperanças de lucrar com a actividade e inteligência do novo ministro e valido. A esta situação pouco tranquilizadora sobrevieram factos que seriamente inquietavam o conde-duque, e que o obrigaram a empregar toda a energia. A trégua com as Províncias Unidas estava concluída, e a luta recomeçava não muito desvantajosa na Europa, onde Spínola mantinha o prestigio das armas espanholas, mas nas colónias, onde o desmoronamento estava sendo completo, principalmente nas colónias portuguesas menos protegidas que as de Espanha, pelo egoísmo inepto do governo de Madrid. Em 1623, Ormuz caiu em poder dos persas auxiliados pelos ingleses; em 1624, os holandeses tomaram Baía; no entretanto, Macau e a Mina foram heroicamente defendidas; repeliram os holandeses, e a Baia foi-lhes reconquistada em 1625, por uma forte esquadra, que o conde-duque de Olivares mandou rapidamente aprestar, com o auxílio do patriotismo português, então vivamente excitado. Contudo, o ministro bem calculava que os holandeses deveriam continuar a inquietá-lo, porque a França aliara-se com os protestantes da Alemanha, com a Dinamarca e a Holanda, sendo um dos planos desses aliados o enfraquecimento da Espanha pelos repetidos assaltos dados ás suas colónias pelas esquadras holandesas. Para resistir àquela aliança, entendeu Olivares que devia ligar fortemente os diferentes reinos que constituíam a monarquia espanhola, quebrando os foros e as isenções que cada um deles guardava com a maior tenacidade.
  22. 22. Para realizar esse plano começou por enfraquecer os diversos reinos, exigindo-lhes pesados impostos, especialmente a Portugal, que no plano tributário ocupava o primeiro lugar. O conde-duque de Olivares, de tal forma o oprimiu que o povo se revolucionou, cansado de tantas violências. Não tendo já sobre que lançar impostos, chegou até a tributar as maçarocas, o que amotinou as regateiras do Porto, que correram à pedrada Francisco de Lucena, que fora ali encarregado de distribuir e cobrar o novo imposto. (V. Maçarocas, imposto das). Os governadores do reino, o conde de Basto e D. Afonso Furtado de Mendonça eram os primeiros a protestar contra os inauditos tributos e tão repetidas vexações, ponderando ao governo de Madrid que o povo, já tão oprimido e massacrado, poderia reagir energicamente, mas os seus protestos não foram ouvidos, e o implacável ministro castelhano ainda mais agravou os impostos, recomendando aos agentes fiscais que procedessem com o máximo rigor contra os que não pagassem pontualmente. Era duma sofreguidão insaciável; Olivares empregava mil formas para arrancar dinheiro a Portugal, já alcançando dos cristãos novos milhão e meio de cruzados a troco de um indulto que lhes oferecia, já levantando empréstimos, que eram verdadeiros tributos, já promovendo subscrições, a que dava o nome de voluntárias, a pretexto de socorrer as colónias. As ordens do conde-duque de Olivares tinham hábeis executores em Diogo Soares, secretário do conselho de Portugal em Madrid, e no seu parente, o celebre Miguel de Vasconcelos, nomeado escrivão de fazenda e secretário de Estado de Portugal, quando a duquesa de Mântua, parenta de el-rei, foi nomeada em 1631 vice-rainha de Portugal. Este homem tornou-se justamente odioso aos portugueses pelo modo como desempenhava a sua missão de secretário de Estado. Os impostos eram cada vez mais odiosos. Olivares tivera a ideia de obrigar os portadores de títulos de divida publica a um empréstimo forçado, mandando que os tesoureiros das
  23. 23. alfândegas retivessem um trimestre de juros aos portadores, a quem os pagavam. Com esta simplicidade entendia também Miguel de Vasconcelos que se deviam cobrar os tributos. Foi ele quem lembrou que, em vez de se lançarem tributos novos neste ou naquele género, se lançasse ao reino de Portugal uma finta de 500:000 cruzados, finta que as câmaras distribuiriam depois entre os contribuintes como lhes aprouvesse. A paciência popular estava esgotada; de tantos sacrifícios e vexames resultara o povo revolucionar-se. Em Évora romperam os tumultos e com Poda a energia, em que tanto se salientou o celebre Manuelinho de Évora. Contudo, tomaram um carácter exclusivamente democrático, que foi muita prejudicial, porque a nobreza em vez de se aliar à insurreição, viu-se insultada pelo povo, e o mais que pôde fazer, em atenção ao patriotismo, foi apresentar-se como medianeira deixando a revolução entregue ás suas próprias forças, mas o movimento propagou-se com bastante rapidez no Alentejo, Algarve, Porto e em alguns pontos do Minho. Faltava, porém, um chefe, direcção e unidade neste ímpeto revolucionário. Olivares aproveitou-o como pretexto para trazer tropas castelhanas a Portugal, punindo severamente os revoltosos de Évora, e tornando ainda mais despótico e opressor o jugo que fazia pesar sobre Portugal. Esperava que o povo português reagisse de novo, dando-lhe pretexto para poder aniquilar completamente a nossa autonomia. Tomara para isso todas as precauções necessárias. Fora chamando a Espanha pouco a pouco os principais fidalgos portugueses, invocando diferentes pretextos, mas na realidade para tirar à revolução, que esperava, os seus naturais chefes; mandava alistar em Portugal terços que remunerava bem para irem servir em Flandres, apoderava-se de todos os navios portugueses, e dera ordem à, esquadra de D. António de Oquendo que viesse para Lisboa, afim de dar força à proclamação da união definitiva de Portugal com a Espanha.
  24. 24. Receando que o duque de Bragança se resolvesse a capitanear uma insurreição, resolveu Olivares enleá-lo de tal modo que, ou se declarasse formalmente em oposição ao governo espanhol, e então seria um pretexto para o obrigar a sair do reino, ou se tornasse cúmplice do domínio espanhol, fazendo-se executor das suas ordens mais odiadas. D. João aceitou o cargo de presidente de uma junta de defesa do reino, e nessa qualidade veio até Almada, onde os fidalgos lhe pediram para tomar a Coroa. D. João recusou, mas se a sua timidez o impedia de se lançar no caminho da revolução, o seu natural bom senso fazia com que se escapasse dos laços de Olivares, e evitasse a posição falsa em que o ministro castelhano o pretendia colocar, procedendo de modo que todos percebessem que ele andava ali forçado e tratando dos interesses do nosso país. Procurando por todas as formas desprestigiar, desmoralizar e enfraquecer Portugal, Olivares não hesitava em recomendar a Miguel de Vasconcelos que promovesse tanto quanto possível a desonra e o descrédito das famílias nobres; fazendo com que se lhes seduzissem as filhas, indicação que pareceria fantasiada, se não estivesse publicada a correspondência sobre este assunto, entre Diogo Soares e Miguel de Vasconcelos. Os planos do conde-duque de Olivares não se realizaram, porque a esquadra do almirante Oquendo foi derrotada pelos holandeses na batalha do Canal, porque a guerra dos Trinta Anos recrudesceu, achando-se a Espanha a braços com todo o poder da França, porque a Catalunha, que via os seus foros já suprimidos violentamente por Olivares, respondeu à opressão com a revolução, e, expulsando o vice-rei e as tropas castelhanas, declarou-se em insurreição aberta. Os acontecimentos das colónias, que estavam cada vez em piores circunstâncias, tendo-nos tomado os holandeses Pernambuco, Paraíba, Maranhão, S. Jorge da Mina e Malaca, indignavam seriamente os portugueses que já tinham reagido com toda a energia contra a imprudência com que o conde-duque de Olivares
  25. 25. quisera mandar em socorro do México uma esquadra, equipada à custa do tesouro português e destinada ao Brasil. A notícia da insurreição da Catalunha veio agitar ainda mais a opinião pública. Olivares aproveitou esse acontecimento para arrancar mais tropas a Portugal, e chamar a Madrid quantos fidalgos pôde, sendo o primeiro que chamou o duque de Bragança. Em Lisboa conspirava um grupo de fidalgos de acordo com João Pinto Ribeiro, procurador do duque de Bragança, para lhe darem a Coroa. D. João, vendo que não podia desobedecer ás ordens do governo de Espanha, que o chamava a Madrid, senão pondo-se à frente da revolução, deu o seu consentimento, e o glorioso dia primeiro de Dezembro de 1640 raiou finalmente, em que Portugal readquiriu a sua independência depois de tio anos de ignominiosa opressão sob o domínio de três monarcas castelhanos. Filipe IV de Espanha e III de Portugal, enquanto o seu ministro e valido conde-duque de Olivares governava abertamente, cavando com os seus planos e as suas teorias a ruína de Espanha, empregava o tempo divertindo-se, caçando, escrevendo comédias, namorando actrizes, com especialidade Maria Calderon, de quem teve um filho, que foi depois D. João de Áustria, um dos generais espanhóis de maior nomeada; e fazia-se retratar por Velásquez e Rubens. Apesar da sua indiferença, causou-lhe uma certa sensação a perda de Portugal, e desde então começou a desgostar-se do valido, que não tardou a substituir por D. Luís de Haro. Deram-se em seguida grandes batalhas, como as das Linhas de Elvas, do Ameixial, de Castelo Rodrigo, terminando a campanha da Independência com a de Montes Claros, em 1665. Filipe faleceu pouco depois desta batalha. Tinha casado com D. Isabel de Bourbon, filha de Henrique IV, de França.
  26. 26. D. João IV Filho de D. Teodósio, duque de Bragança e de D. Ana Velasco, casou em 1633 com D. Luísa de Gusmão, espanhola da casa de Medina Sidónia. Já em 1638, os conjurados da Revolução de 1640 tinham procurado obter a aceitação de D. João para uma revolta contra Espanha. Mas as hesitações, ou cautelas, do duque fizeram levantar a hipótese de se conseguir o regresso do infante D. Duarte, solução que falhou, tendo-se mesmo encarado a instauração de uma república, nos moldes da das Províncias Unidas. A verdade é, que depois da sua aclamação como rei a 15 de Dezembro de 1640, todas as hesitações desapareceram e D. João IV fez frente às dificuldades com um vigor que muito contribuiu para a efectiva restauração da independência de Portugal. Da actividade global do seu reinado, deveremos destacar o esforço efectuado na reorganização do aparelho militar - reparação das fortalezas das linhas defensivas fronteiriças, fortalecimento das guarnições, defesa do Alentejo e Beira e obtenção de material e reforços no estrangeiro; a intensa e inteligente actividade diplomática junto das cortes da Europa, no sentido de obter apoio militar e financeiro, negociar tratados de paz ou de tréguas e conseguir o reconhecimento da Restauração; a acção desenvolvida para a reconquista do império ultramarino, no Brasil e em Africa; a alta visão na escolha dos colaboradores;
  27. 27. enfim, o trabalho feito no campo administrativo e legislativo, procurando impor a presença da dinastia nova. Quando morreu, o reino não estava ainda em segurança absoluta, mas D. João IV tinha-lhe construído umas bases suficientemente sólidas para vencer a crise. Sucedeu-lhe D. Afonso VI, seu segundo filho. Ficha genealógica: D. João IV nasceu em Vila Viçosa, a 19 de Março de 1604 e morreu em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1656, tendo sido sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Era filho de D. Teodósio II, 7 ° duque de Bragança, e de sua mulher, D. Ana de Velasco. Do seu casamento, celebrado em 12 de Janeiro de 1633, com D. Luísa Francisca de Gusmão, que nasceu em San Lucar de Barrameda, a 13 de Outubro de 1613, e morreu em Lisboa a 27 de Outubro de 1666, filha do 8 ° duque de Medina-Sidónia, D. Juan Manuel Pérez de Guzman, e da duquesa D. Joana de Sandoval, nasceram: 1. D. Teodósio, que nasceu em Vila Viçosa a 8 de Fevereiro de 1634 e morreu em Lisboa, a 13 de Maio de 1653. Foi 9 ° duque de Bragança e príncipe do Brasil, em 1645; 2. D. Ana, que nasceu em Vila Viçosa, a 21 de Janeiro de 1635 e morreu no mesmo dia; estando enterrada no Convento das Chagas daquela vila; 3. D. Joana, que nasceu em Vila Viçosa a 18 de Setembro de 1635 e morreu em Lisboa, a 17 de Novembro de 1653; sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora; 4. D. Catarina, que nasceu em Vila Viçosa, a 25 de Novembro de 1638 e morreu em Lisboa, a 31 de Dezembro de 1705. Foi sepultada no Mosteiro dos Jerónimos e mais tarde trasladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Foi rainha de Inglaterra pelo seu casamento, em 1661, com o Carlos II, rei de Inglaterra, que morreu em 16 de Fevereiro de 1685;
  28. 28. 5. D. Manuel, que nasceu em Vila Viçosa, a 6 de Setembro de 1640 e faleceu no mesmo dia, tendo sido sepultado no Convento de S. Francisco daquela vila; 6. D. Afonso VI, que herdou a coroa; 7. D. Pedro II, que sucedeu ao precedente; Teve D. João IV uma filha ilegítima, de mãe desconhecida: 8. D. Maria, que nasceu em Lisboa, a 30 de Abril de 1644, e morreu em Carnide, a 7 de Fevereiro de 1693, no Convento de S. João dos Carmelitas Descalços. Foi reconhecida pelo progenitor, o qual lhe fez mercê das vilas de Torres Vedras e Colares e dos lugares de Azinhaga e Cartaxo, tendo-se dado à vida religiosa.
  29. 29. D. Afonso VI Rei de Portugal. Sexto filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão. Atacado na infância por doença não identificada, fica mental e fisicamente diminuído. Com a morte de seu irmão D. Teodósio e de seu pai, sobe ao trono com treze anos, pelo que a regência ficou entregue a sua mãe. O rei foi crescendo, rebelde a toda a acção educadora, levando uma vida desregrada e manifestando-se perfeitamente incapaz para assumir as responsabilidades do governo. Um dos seus companheiros, na vida de arruaceiro que levava, António Conti, italiano de origem, insinuou-se-lhe de tal maneira que em breve passou a viver no Paço, a convite de D. Afonso VI e a ter influência nos negócios do governo do reino. O escândalo aumentou a um ponto que D. Luísa de Gusmão fez jurar herdeiro do trono o infante D. Pedro e António Conti foi preso. Logo a seguir, o conde de Castelo Melhor executa um golpe de Estado, compelindo D. Luísa a entregar o governo a D. Afonso VI e forçando-a a retirar-se para um convento. Nas boas graças do rei, Castelo Melhor lança-se na sua curta a brilhante carreira política, terminando vitoriosamente com a guerra da Restauração e conseguindo casar D. Afonso com Mademoiselle de Aumale. Em breve a nova rainha entra em conflito com Castelo Melhor. Giza-se nova conspiração no paço, de que resulta a demissão do conde e a abdicação de D. Afonso VI. D. Pedro toma as rédeas do poder, casa com a cunhada, depois da anulação do
  30. 30. casamento desta com D. Afonso e este último é desterrado para Angra do Heroísmo em 1669, donde regressa em 1674, sendo então encerrado no Palácio de Sintra até à sua morte. Ficha genealógica: D. Afonso VI nasceu em Lisboa, a 12 de Agosto de 1643 e morreu em Sintra, a 12 de Setembro de 1683, tendo sido sepultado no Mosteiro dos Jerónimos e trasladado para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Casou em 1666 com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, que nasceu em Paris, a 21 de Junho de 1646, e morreu em Lisboa, a 27 de Dezembro de 1683, estando sepultada na igreja do Convento das Francesinhas e trasladada em 1912, para o Mosteiro de S. Vicente de Fora, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours, e de Isabel de Vendôme. Morreu sem descendência.
  31. 31. D. Pedro II Último dos sete filhos de D. João IV, quarto na ordem de sucessão, nascido em 1648, foi vigésimo terceiro rei de Portugal e o terceiro da Dinastia de Bragança, pelo imperativo duma solução política de emergência na mais grave conjuntura das primeiras décadas da Restauração, tão recente como ainda periclitante. Um signo funesto parecia pesar sobre os destinos da nascente dinastia. Não desistia o orgulho da Espanha de eliminá-la radicalmente por guerra de reconquista. Consumira-se o fundador, exausto na luta, sem ter podido consolidá-la. Por cúmulo, três anos antes da sua morte, falecera-lhe em 1653, aos 19 anos de idade, o primogénito, príncipe D. Teodósio, em quem seu pai fundava as melhores esperanças. Ficava-lhe por sucessor, ainda menor de 13 anos, o infante D. Afonso, com os defeitos que o incompatibilizavam com o exercício da realeza e as consequências políticas da sua doentia inferioridade, a principal das quais foi o golpe de estado que elevou à situação de primeiro-ministro, aparentemente na modesta designação de escrivão da puridade do monarca, mas na função efectiva de verdadeiro soberano, o conde de Castelo Melhor. Entretanto em 1666, para assegurar-lhe a sucessão e o apoio do poderoso Luís XIV, o diligente ministro negociara o casamento de D. Afonso VI com uma princesa de França, Mademoiselle d'Aumale, D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, sobrinha de Luís XIV e neta de Henrique IV. E foi esse o único
  32. 32. acto imprudente do sagaz político, tão fatal para a desgraça do rei, como para os seus próprios planos ambiciosos duma política de engrandecimento do Reino. Realizado em 1666, resultou o casamento irreparavelmente desastroso, dada a incapacidade física e moral do rei. Foi praticamente o detonador da segunda revolução de palácio, em 1667, encabeçada agora pelo infante D. Pedro, com o apoio de todos os inimigos de Castelo Melhor, invejosos da sua fortuna política. Educada na dissoluta corte de Versalhes, a nova e formosa rainha D. Maria Francisca, vexada por tal consórcio, apaixonou-se pelo brilhante cunhado D. Pedro, de 18 anos. Nos seus delituosos amores, ambos conluiaram novo golpe político. Em certa manhã de Novembro de 1667, a rainha abandonava o Paço e, de concerto com o infante D. Pedro, refugia-se no Convento da Esperança, aonde logo ele acorria a seu favor, com o Conselho de Estado; e, depois de tumultos vários, o rei era coagido a assinar a sua própria deposição e entrega do governo do Reino a seu irmão, o qual, em nome da rainha, assumia o poder como príncipe-regente, desterrando para os Açores o irmão destronado e, depois de rápido e escandaloso divórcio, casava com a cunhada em Abril de 1668, dela tendo logo em Janeiro do ano seguinte a sua primeira e única filha, a princesa D. Isabel Luísa. Consumara-se a dupla usurpação do trono e da mulher. Assim dramaticamente, com 20 anos apenas, começava D. Pedro, em 1668, a sua atribulada vida política. Defrontava-se de entrada com a gravíssima situação económica e financeira do Portugal restaurado, arruinado por vinte e oito anos de guerra sem tréguas, depois dos sessenta de estragos directos e indirectos do domínio filipino. Resolutamente se esforçou desde logo o usurpador por administrar bem, com acerto, chamando ao Conselho, para conjurar a crise, um escol de homens notáveis pela cultura e pelo carácter, como Diogo Rodrigo de Macedo, o 3.º conde da
  33. 33. Ericeira, D. Luís de Meneses, e outros economistas, homens cultos, informados já pelas novas teorias económicas fisiocráticas de Colbert, grande ministro das Finanças de Luís XIV. Nada, porém, remediavam de momento as suas tentativas de reformas drásticas, por inoperantes em país tão devastado pela guerra, desfalcado de população produtiva, com as lavouras ao abandono, sem indústrias fabris e inveteradamente viciado no gozo falaz da ilusória opulência do comércio do Oriente, já reconhecidamente ruinoso para o Estado e para a Nação desde os tempos de D. João III e Pêro de Alcáçova Carneiro. Restava à Metrópole, como esteio económico, o Brasil, com sua próspera actividade, agro-industrial de plantações e engenhos de açúcar, exportação de pau-brasil e outras madeiras e produtos exóticos, além da intensiva pesquisa de minas de ouro e prata que se presumia existirem a oeste, como nos sertões do Peru e da Bolívia, próximos em continental continuidade. No afã de se acudir por todos os meios à ameaça duma bancarrota à vista, recorria-se ainda complementarmente à valorização económica dos domínios de África. Em 1678 tentava- se uma colonização militar em Moçambique, para fixação de colonos e exploração agrícola, e desenvolvia-se na fertilíssima região da Zambézia um símile de capitanias donatárias, à semelhança das do Brasil, com as concessões de terras, a que se deu a designação oficial de prazos da Coroa. Na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, que praticamente viviam do tráfico de escravatura, incrementava-se por meios adequados o fomento agrícola e comercial, criando companhias de comércio privilegiadas, como as de Cacheu e Cabo Verde e outras, disseminando feitorias e povoações comerciais nas zonas mais populosas de Angola e Moçambique. Tudo, porém, pouco mais do que inútil. Progressivamente se agravavam a penúria e decadência material da Metrópole, sob a regência de D. Pedro, cujo reinado legítimo só propriamente
  34. 34. começara em 1683, por morte do irmão proscrito, sem descendência, na sua prisão-desterro do Paço de Sintra, para onde viera transferido dos Açores (ilha Terceira), depois de malograda, pela execução dos cabecilhas, a conjura de 1673, para o libertar e repor no trono. De perto o seguiu no túmulo, ainda nesse ano, a própria rainha D. Maria Francisca, sua ex-mulher, sem outros herdeiros além da infanta D. Isabel Luísa. Já rei de facto, proclamado em Cortes, D. Pedro II casava, em segundas núpcias, com D. Maria Sofia de Neuburgo, princesa bávara do Palatinado do Reno, que em 1689 lhe assegurava a sucessão da coroa em varão herdeiro dando à luz o príncipe D. João, depois D. João V, logo como tal proclamado, em substituição da princesa Isabel Luísa, das primeiras núpcias, falecida pouco depois, aos 22 anos de idade. Nesse mesmo ano de 1690 a situação agravava-se com o suicídio do 3.0 conde da Ericeira, seu vedor da Fazenda, numa crise aguda de neurastenia, exacerbada pela inanidade da sua sábia administração desde 1675 e de todos os seus planos da criação de indústrias fabris para ressurgimento da Metrópole em sólidas bases económicas. Era o sinal de alarme duma inevitável ruína financeira a curto prazo, que arrastaria possivelmente a própria Nação à catástrofe duma desagregação política, precursora de definitiva absorção por Espanha. De resto, já mesmo em 1683, ano da proclamação do rei em Cortes, era tão patente e generalizada a previsão dessa fatalidade que o próprio D. Pedro II chegara a encarar seriamente o propósito de renunciar à coroa e retirar para o Brasil, abdicando na filha D. Isabel e em quem viesse a ser seu marido. Dissuadiram-no dessa espécie de deserção o confessor e o seu conselheiro secreto, sem que por esse facto se desanuviassem as perspectivas do pessimismo que havia levado ao suicídio o seu mais ilustre vedor da Fazenda. Em 1685, cedia enfim ao
  35. 35. acto de generosidade de autorizar o regresso de Castelo Melhor, já velho e sem veleidades políticas. Nesse destino lúgubre se teria talvez afundado, com a dinastia, a sobrevivência da Nação, se nos fins do século não tivesse providencialmente chegado à corte a alvoroçada notícia da descoberta de minas de ouro e brilhantes no Brasil, a coroarem de pleno êxito as exaustivas e pertinazes incursões do bandeirismo paulista nas selvas e sertões a oeste do imenso e inexplorado estado americano. Como o rendimento fiscal da Coroa era desde logo o quinto da mineração, a primeira remessa de 1699 trazia a D. Pedro, além de 11000 quilos de ouro amoedado, o valor de sete milhões de cruzados, na transacção de brilhantes em Amesterdão; e até final do reinado o quinto devido à Coroa orçaria por cerca de cinco milhões de cruzados. Era uma ressurreição de desvairantes esperanças! Considerados desnecessários, e logo abandonados, todos os planos de sadia reformação económica por exploração metódica das próprias riquezas da Metrópole, e por isso também já despiciendo, por supérfluo, o acordo comercial negociado com Inglaterra em 1703, conhecido por Tratado de Methuen. Era, aliás, de vantagens problemáticas para a nossa economia a colocação dos nossos vinhos em Inglaterra, mas substancial para esta a colocação entre nós de seus lanifícios. O fortuito caudal de ouro e pedras preciosas do Brasil tudo viria suprir e sanar sem mais cuidados para o futuro da dinastia. Ter-lhe-ia, pois, terminado em glória o tormentoso reinado sem a aventura militar em que por fim precipitava o Reino, acedendo a pressões inglesas para se imiscuir também, como aliado, no imbróglio inextricável da Guerra de Sucessão de Espanha, em que rigorosamente não se pleiteavam vitais interesses materiais ou políticos para a Nação, nem mesmo a defesa do seu território ou da honra nacional, que, pelo
  36. 36. contrário, ficavam sob a permanente ameaça das contingências duma guerra, sempre imprevisíveis. Aderindo à tripla aliança anglo-austro-holandesa contra o bloco bourbónico franco-espanhol, D. Pedro obrigava-se, por acordo de 1703, a fornecer aos aliados um exército de 28 000 homens e, pior que tudo, à cedência do próprio território pátrio para teatro de operações, como a melhor base estratégica de invasão da Espanha. Favorável de começo a campanha, pelos êxitos efémeros do exército do marquês das Minas na sua marcha e entrada triunfal em Madrid (1706), evoluiria em breve desastrosamente para os aliados, depois da sua decisiva derrota na batalha de Almansa, em Espanha (1707), a que se seguiu a contra-ofensiva espanhola sobre Portugal, em cujas fronteiras, forçosamente desguarnecidas, a batalha do Caia foi outra--derrota para o exército anglo-português. Em suma, por sua morte, em 1706, o rei, cognominado Pacífico, deixava ao sucessor, com várias praças do Alentejo ocupadas por espanhóis, o encargo de liquidar uma guerra inglória e dispendiosa que, no reinado seguinte, se arrastaria por mais seis anos e de que a única vantagem positiva para a Nação, pelo Tratado de Paz de Utreque, ratificado em 1713 com a França e em 1715 com a Espanha, viria a ser a de se ter salvo, ao menos, a integridade dos seus domínios do Ultramar. Em reinado de tão tumultuária política interna e externa, a actividade cultural da Nação não sofreu, todavia, o colapso ou afrouxamento que seria de esperar, quer na expressão literária, em que fulgurara o talento dum António Vieira, mestre e renovador da língua, quer nas artes plásticas, pintura religiosa e arquitectura religiosa e civil, em que o barroquismo seiscentista, com toda a sua sobrecarga de decoração ornamental, teve entre nós e no Brasil o seu período áureo e de carácter tão inconfundivelmente nacional como o manuelino, no século XVI.
  37. 37. Ficha genealógica: D. PEDRO II nasceu em Lisboa, a 26 de Abril de 1648, e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1706; tendo sido sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Do seu primeiro casamento, com a cunhada D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, teve: 1. D. Isabel Luísa Josefa (n. em Lisboa, a 6 de Janeiro de 1668; f. no palácio de Palhavã, a 21 de Outubro de 1690; sepultada no Convento das Francesinhas, erigido por sua mãe, e transladada para o Mosteiro de S. Vicente de Fora). Foi herdeira presuntiva do Reino entre 1668 e 1689, tendo-se malogrado o projecto de consórcio com Vítor Amadeu de Sabóia. Do segundo casamento de D. Pedro II, com D. Maria Sofia de Neuburg (n. em Brewath, a 6 de Agosto de 1666; f. em Lisboa, a 4 de Agosto de 1699; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora), filha de Filipe Guilherme de Neuburg, eleitor palatino do Reno, e de sua mulher Isabel Amália, nasceram os seguintes filhos: 2. D. João (n. em Lisboa, a 30 de Agosto de 1688; f. em 17 de Setembro seguinte; sepultado em S. Vicente de Fora); 3. D. João, que herdou o trono; 4. D. Francisco Xavier José António Bento Urbano (n. em Lisboa, a 25 de Maio de 1691; f. na quinta das Gaeiras, em Óbidos, a 21 de Julho de 1742; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Foi 7 ° duque de Beja, grão-prior do Crato e senhor do Infantado. Morreu solteiro e sem descendência; 5. D. António Francisco Xavier José Bento Teodósio Leopoldo Henrique (n. em Lisboa, a 15 de Março de 1695; f. em Lisboa, a 20 de Outubro de 1757; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteiro e sem descendência; 6. D. Teresa Maria Francisca Xavier Josefa Leonor (n. em Lisboa, a 24 de Fevereiro de 1696; f. em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1704; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora);
  38. 38. 7. D. Manuel José Francisco António Caetano Estêvão Bartolomeu (n. em Lisboa, a 3 de Agosto de 1697; f. na quinta de Belas, em igual dia de 1736; sepultado no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteiro e sem descendência; 8. D. Francisca Josefa (n. em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1699; f. na mesma cidade, em 15 de Julho de 1736; sepultada no Mosteiro de S. Vicente de Fora). Morreu solteira. Fora dos dois consórcios, D. Pedro II teve os seguintes filhos: 9. D. Luísa (n. em Lisboa, a 9 de Janeiro de 1679; f. em Évora; a 23 de Dezembro de 1732; sepultada no Convento de S. João Evangelista, dos cónegos seculares da mesma cidade), filha de D. Maria da Cruz Mascarenhas. Foi criada na família do secretário de estado Francisco Correia de Lacerda, e depois no Mosteiro de Carnide, junto de sua tia D. Maria (veja-se supra, 1, 8). Casou com D. Luís e, em seguida, com D. Jaime de Melo, respectivamente, 2.º e 3.º duques de Cadaval. 10. D. Miguel (n. em Lisboa, a 15 de Outubro de 1699; f. afogado no Tejo, a 13 de Janeiro de 1724; sepultado no Convento de S. José de Ribamar), filho da francesa Ana Armanda Du Verger. Foi reconhecido por D. João V como seu irmão e casou em 1715 com D. Luísa Casimira de Nassau e Ligne, herdeira da casa de Arronches. 11. D. José (n. em Lisboa, a 6 de Maio de 1703; f. em Ponte de Lima, a 3 de Junho de 1756; sepultado na sé arquiepiscopal de Braga), filho de D. Francisca Clara da Silva, foi aluno da Universidade de Évora e ali obteve o grau de doutor em Teologia. Arcebispo de Braga em 1739, foi sagrado em 5 de Fevereiro de 1741 e entrou naquela sé em 23 de Julho seguinte.

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