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Para contar a história do sonho que foi construído coletivamente entre as famílias do município de Coronel José Dias, a Cáritas Brasileira Regional do Piauí organizou o livro “O Sonho Construído em …

Para contar a história do sonho que foi construído coletivamente entre as famílias do município de Coronel José Dias, a Cáritas Brasileira Regional do Piauí organizou o livro “O Sonho Construído em Mutirão: uma experiência de convivência com o semiárido”. O livro conta toda a trajetória do projeto desde a idealização, diagnósticos, implantação e resultados concretos no município.
Nele buscou-se retratar os impactos sociais, ambientais e culturais da experiência, mostrando as ações desenvolvidas, o caráter dessas ações, desafios e importância para a população da região que busca melhores condições de vida.

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  • 1. Cáritas Brasileira Regional do Piauí Projeto FecundaçãoO sonhoconstruídoem mutirão Uma experiência de convivência com o semiárido Teresina - Piauí - Brasil, 2010
  • 2. O Sonho Construído em Mutirão:Uma experiência de convivência com o semiáridoDireitos autorais - 2010 - Cáritas Brasileira Regional do PiauíPermitida a reprodução desde que citada a fonteCoordenação ColegiadaSecretária Geral: Hortência MendesCoordenador Político-Pedagógico: Adonias RodriguesCoordenadora Administrativa: Célia AraújoTexto: Rosângela Ribeiro de Carvalho e João Evangelista Santos OliveiraEdição e Projeto Gráfico: Mariana GonçalvesRevisão: Assunção SousaColaboração: Carlos Humberto CamposFotografias: Gildásio de Lima e Iran MoraisImpressão: Gráfica do Povo Cáritas Brasileira Regional do Piauí Rua Agnelo Pereira da Silva, 3135 – São João Teresina – Piauí – Brasil – CEP: 64045-440 Telefone/fax: 32336302 E-mail: caritaspi@caritas.org.br
  • 3. Dedicamos... Dedicamos esse trabalho às populações que habitam o semiári- do piauiense. Mulheres e homens, que ao longo de suas histórias individuais e coletivas, construíram uma cultura simples e bela. Com sua fé consolidaram crenças e credos. Com seu suor, criatividade, trabalho e forças, suas vidas foram entregues como oferendas para salvar o ambiente exuberante que existe nesse pedaço de chão: Sertão. Caatinga. Semiárido...
  • 4. SumárioSiglas 07Quadros e Gráfico 08Prefácio 09Apresentação 11O SONHOO projeto de sistematização 15Contextualizando o semiárido 18Indicadores sociais motivadores do projeto 20Antecedentes históricos da experiência 22A escolha de Coronel José Dias 24Localizando a experiência 26A CONSTRUÇÃOProjeto Piloto de Coronel José Dias 33Educar para Conviver 34Gestão 37Recursos Hídricos 42Produção Agropecuária Apropriada 45Educação Contextualizada 47Fundo Rotativo Solidário 53A REALIDADEImpactos da experiência no ambiente semiárido 57Significado da experiência 60A visão das pessoas envolvidas no projeto 63Projeto Fecundação como Política Pública 69Referências Bibliográficas 71Anexos 73Fotografias 85
  • 5. SiglasASA Brasil – Articulação no Semiárido BrasileiroBAP – Bomba d’Água PopularBNB – Banco do Nordeste do BrasilCML – Projeto Cidadania no Mundo das LetrasCNBB – Conferência Nacional dos Bispos do BrasilCOMDEPI – Companhia de Desenvolvimento do PiauíECA – Estatuto da Criança e do AdolescenteECSA – Educação para Convivência com o SemiáridoEMATER – Instituto de Assistência Técnica e Extensão RuralEMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa AgropecuáriaEPS – Economia Popular SolidáriaFPCSA – Fórum Piauiense de Convivência com o SemiáridoGT – Grupo de TrabalhoIBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaIDH – Índice de Desenvolvimento HumanoIRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária ApropriadaONG – Organização Não-GovernamentalONU – Organização das Nações UnidasP1+2 – Programa Uma Terra e Duas ÁguasPACs – Projetos Alternativos ComunitáriosPCSA – Programa de Convivência com o SemiáridoPDHC – Projeto Dom Helder CamaraPEA – População Economicamente AtivaPIAJ – Programa Infância, Adolescência e JuventudePMA – Planejamento, Monitoramento e AvaliaçãoPMDS – Plano Municipal de Desenvolvimento SustentávelPME – Plano Municipal de EducaçãoPMRH – Plano Municipal de Recursos HídricosPNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de DomicíliosPNE – Plano Nacional de EducaçãoPNUD – Programa das Nações Unidas para o DesenvolvimentoPSF – Programa Saúde da FamíliaRESAB – Rede Educação do Semiárido BrasileiroSEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas EmpresasSEMEC – Secretaria Municipal de EducaçãoSENAES – Secretaria Nacional de Economia SolidáriaSTTR – Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras RuraisSUDENE – Superintendência de Desenvolvimento do NordesteUFPI – Universidade Federal do Piauí
  • 6. QuadrosQUADRO 01 – AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A RECURSOSHÍDRICOS – 1999 A 2000 (pag. 22)QUADRO 02 – CONSEQUÊNCIAS DAS ESTIAGENS (pag. 27)QUADRO 03 – MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE CORONELJOSÉ DIAS DE 1994 A 1998 (MM) (pag. 29)QUADRO 04 – PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM OSEMIÁRIDO (pag. 30)QUADRO 05 – ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃO (pag. 38)QUADRO 06 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS (pag. 43)QUADRO 07 – PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIAAPROPRIADA (pag. 46)QUADRO 08 – DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICAS (pag. 49)GráficoGRÁFICO 01 – ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DASLOCALIDADES RURAIS NO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS (pag. 28)
  • 7. 09Prefácio O Brasil possui seis grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga (semiá-rido), Mata Atlântica e os Pampas. Compreendemos um bioma como uma área territorial quepossui um conjunto de vida humana, vegetal e animal que cobre determinada região de formacontínua, em condições geoclimáticas semelhantes, o que acaba formando uma diversidadebiológica muito própria. A caatinga, também conhecida como semiárido ou sertão brasileiro, cantada emversos e prosas, é propagada como uma das regiões mais pobres do Brasil. As pesquisasrevelam que os Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) desta região estão abaixo damédia nacional, contrariando todo o seu potencial natural e cultural. A seca – fenômeno natural do semiárido – é sinônimo de tragédia, provoca grandesproblemas sociais, econômicos e políticos na região. Destrói as atividades agrícolas e pecuárias;agrava o problema da falta d’água até mesmo para o consumo humano. Ocasiona a sede, afome e muitas mortes em consequências de doenças provocadas pelo consumo de águasimpuras e contaminadas. Essa situação de extrema pobreza e falta de uma política de assistên-cia pública adequada, ao longo dos anos, tem sido a principal causa de migrações de popula-ções inteiras, em regiões de pobreza acentuada – como é o caso do Estado do Piauí – paraoutras regiões do país em busca da sobrevivência. Diante dessa realidade, a Cáritas Brasileira Regional Piauí, com a missão de promo-ver, animar, organizar e participar efetivamente da prática da justiça e da solidariedade, contri-buindo na construção de alternativas, vem procurando praticar e incentivar na sociedade açõessolidárias aos povos do semiárido, como forma de transformar uma situação de morte parauma situação de vida. Com isso, a Cáritas implantou em 2001, no município de Coronel JoséDias (PI), o Projeto FECUNDAÇÃO com o objetivo de contribuir, com as famílias e comuni-dades empobrecidas do semi-árido, para melhoria de suas condições de vida, através do acessoà água de boa qualidade e em quantidade suficiente para o consumo humano; e do desenvolvi-mento de conhecimentos e apropriação de saberes, habilidades e técnicas da agropecuáriaapropriada para a convivência sustentável no Bioma Caatinga. Com este documento, a Cáritas Brasileira Regional Piauí busca retratar em imagens epalavras o processo de transformação da história do povo de Coronel José Dias, a partir da O Sonho construído em mutirãointervenção do Projeto Fecundação, idealizado pela Cáritas Brasileira – Regional Piauí edesenvolvido em parceria com os segmentos sociais do município. A vontade de resgatar os processos de construção da proposta, as formas de gestão, aparticipação das pessoas envolvidas, o processo organizativo nas comunidades, os impactos eos desafios, as relações sociais, políticas e institucionais estabelecidas, numa perspectiva de seperceber a trajetória da experiência do Projeto Fecundação, vem sendo debatida no seio daCáritas Brasileira Regional Piauí e na Comissão Gestora do projeto, há algum tempo. Através do nosso olhar sob a trajetória desenvolvida pelo projeto buscamos retrataros impactos sociais, ambientais e culturais desta experiência, mostrando as ações desenvolvi-das, o caráter destas ações, os desafios que elas nos apresentam e a sua importância para o povodo semiárido no município de Coronel José Dias.
  • 8. 10 Neste sentido, a sistematização assume como OBJETO, a experiência do Projeto Fecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi- vência com o semiárido, buscando revelar os impactos da experiência no ambiente semiárido e sua importância para o Programa de Convivência com o Semiárido da Rede Cáritas. Outra dimensão importante do Projeto FECUNDAÇÃO é a busca da construção do saber, através das experiências forjadas no meio do povo com o apoio de entidades não- governamentais, caracterizando a ausência de políticas públicas adequadas. Ou seja, compre- ender melhor o contexto do semiárido e a realidade vivida no dia-a-dia das populações sertane- jas, para, a partir daí, poder contribuir com maior segurança na elaboração de iniciativas de intervenção junto àquelas pessoas mais empobrecidas e necessitadas, e para a efetivação de uma proposta de desenvolvimento Territorial Sustentável, considerando principalmente as pessoas e o meio ambiente. Carlos Humberto Campos Sociólogo, Secretário Regional da Cáritas Brasileira Regional do Piauí (2002-2009)Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 9. 11Apresentação A Cáritas Brasileira Regional do Piauí agiu coletivamente na busca de melhorescondições de vida para as famílias excluídas, lançando mais uma semente que veio germinar nosolo do semiárido com suas diversas características: rasos, arenosos, argilosos, pedregosos, debaixa e média fertilidade e que retém pouca água. Neste ambiente onde, à primeira impressão,pareça ser inabitável, a semente chamada de Projeto Fecundação já rende frutos. Frutos quepodem ser apreciados ao longo desta publicação. O Projeto Fecundação, uma ação pioneira da Cáritas Brasileira, é resultado de umconjunto de pessoas, identificadas como agentes, voluntários e voluntárias, técnicos e técnicas,famílias agricultoras, professores e professoras, alunos e alunas, religiosos e religiosas, gestorespúblicos, parlamentares, crianças e pessoas idosas. Todos protagonistas deste processo efazem da Cáritas Brasileira essa imensa Rede de Solidariedade. São pessoas que habitam noambiente semiárido do Estado do Piauí, no território da Serra da Capivara e especificamentelocalizadas e radicadas no município de Coronel José Dias. Pessoas que se juntaram com ocompromisso maior da valorização da vida. Não se pode esquecer parceiros importantes como o Instituto Regional da PequenaAgropecuária Apropriada – IRPAA, que repassou toda experiência em assessoria técnicaadquirida no apoio à agricultura familiar no Estado da Bahia, e a Cáritas Alemã que ofereceucolaboração e aporte financeiro para viabilizar a proposta em todas as etapas do projeto. Asetapas se desenvolveram em oito anos de caminhada, garantindo o acúmulo de um conjuntode informações que possibilitou a implantação e vivência da proposta de Educação paraConvivência com o Semiárido – ECSA em todo o país. Trata-se de um trabalho fincado em quatro eixos de ação: Gestão, Recursos Hídricos,Produção Agropecuária Apropriada e Educação Contextualizada. Eixos que garantiram aimplantação de processos democráticos e participativos, água de qualidade para o consumodas famílias, aumento e diversificação da produção de base agroecológica. Tudo através deprocessos educativos que começaram pela desconstrução de paradigmas enraizados dentro daeducação formal de combate à seca e pela construção de novas concepções e possibilidades deconvivência com a região semiárida. Este trabalho mostra uma boa experiência sobre a convivência com a região semiári- O Sonho construído em mutirãodo e as condições criadas com as ações reforçam o debate de Desenvolvimento Sustentável eSolidário, valorização da cultura, relações familiares e de gênero. Condições que afirmam oprotagonismo das pessoas como cidadãs, parte importante de uma democracia. Importante registrar a participação de todas as mulheres protagonistas nesse proces-so. Elas estão no antes, durante e firmes na continuidade do projeto. Elas são maioria naeducação, como professoras ou mães e passaram a ver e a participar da vida da escola em quefilhos e filhas estudam. Presentes na produção, firmes na geração de renda passaram a produ-zir os mais variados produtos derivados do Umbu, planta nativa da caatinga e sagrada, segundoa cultura e os costumes locais. A experiência do Fecundação tem o cheiro da terra molhada com as primeiraschuvas, tem a beleza da caatinga que se torna verde viva com uma gota d’água. Tem a criativi-
  • 10. 12 dade de um povo que também se adaptou para crescer e multiplicar. Tem a diversidade de conhecimentos construídos em mutirão que continua formando consciências. Tem toda uma gente simples, hospitaleira, que gosta de dançar, que tem valor, que ama seu chão e diz com segurança “daqui não saio não”. Considerando as palavras do compositor João Bosco: “Vida é fazer todo sonho brilhar”, o Projeto Fecundação fez brilhar o sonho de moradores e moradoras de Coronel José Dias, pelas mãos de pessoas que acreditaram neste sonho. Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto Fecundação e organizadora desta sistematização João Evangelista Santos Oliveira - Coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do PiauíCáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 11. IO Sonho
  • 12. 15O projeto de sistematização “Quem não tem desejo não caminha, porque não sonha, não busca o novo, não muda” (Ana Maria & Susan Chiode, 2002) A sistematização da experiência teve início quando a equipe da Cáritas BrasileiraRegional Piauí expressou o desejo de construir um documento que pudesse retratar a expe-riência, pelo seu caráter de mobilização social e de transformação da realidade. Tomando-se então como objeto da sistematização “A experiência do ProjetoFecundação no município de Coronel José Dias e sua contribuição para a melhoria da convi-vência com o semiárido”, buscou-se reviver a experiência, recuperando os processos vivencia-dos a partir do registro dos passos dados pelo projeto, evidenciando a avaliação processual dasações realizadas e as conclusões sistematizadas, a partir de relatórios e de outros documentosproduzidos pela comissão gestora do projeto e pelo PCSA – Programa de Convivência com oSemiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí e Secretaria Municipal de Educação. A fala das pessoas envolvidas foi registrada numa perspectiva de possibilitar oconfronto dos dizeres de quem faz a experiência e de mostrá-las enquanto protagonistas desteprocesso, pelo compromisso de construir novas perspectivas para a realidade em que vivem,superando preconceitos em torno do semiárido, quebrando paradigmas e vivenciando novasrelações. Partiu-se da concepção de que a sistematização resgata os processos de mudanças eos valores construídos numa determinada experiência, juntando fatos, ocorrências, depoi-mentos e, sobretudo, sentimentos. “Como produção de saber da experiência, a sistematizaçãobusca identificar as ideias, os sentimentos e as formas de fazer que ela esteja construindo ouproporcionando aos diversos sujeitos envolvidos”. (SOUZA, 2000, p.35). Não se trata aqui de abrir um debate conceitual em torno da sistematização, mas deevidenciar as referências tomadas para registrar a experiência do Projeto Fecundação, reafir-mando a proposta de convivência com o semiárido num processo de construção coletiva, quepossibilita, a partir do conhecimento da realidade, refletir sobre suas vivências, valores eatitudes, promovendo a desconstrução de saberes e fazeres. O Sonho construído em mutirão Sistematizar aqui reúne avaliação e pesquisa, à medida que busca revelar nos dadoscoletados a investigação do que foi realizado, diante do que foi planejado e ainda, refletir sobreos resultados alcançados numa perspectiva de revelar as mudanças no modo de vida dapopulação e dos avanços e desafios encontrados ao longo da experiência. Neste sentido, ao fazer o resgate, o documento buscou também dar visibilidade àsações de convivência com o semiárido, destacando a importância da experiência para o PCSAdesenvolvido pela rede Cáritas. Neste processo, foi importante a identificação de mudanças nas relações de gênero egeração, a partir da implantação do projeto e de outros processos de novas relações em favorda dignidade humana e do desenvolvimento sustentável. Isto só foi possível, a partir do consenso em torno da definição do objeto e do eixo
  • 13. 16 central da sistematização, o que possibilitou avançar neste propósito e adotar procedimentos teóricos metodológicos capazes de revelar o sentimento das pessoas envolvidas, através das entrevistas individuais e coletivas, que associadas à pesquisa bibliográfica, viabilizaram a análise documental da experiência. Tal análise foi realizada sob um olhar crítico em que os elementos do discurso se encaminharam para um conjunto de informações que convergiram para um mesmo ponto: a introdução de novas práticas de convivência superando o paradigma de combate à seca. Cada passo da sistematização envolveu diálogos, leituras, reflexão, seleção e muita emoção: angústias e incertezas diante das dificuldades em coletar as informações necessárias, mas também contentamento e satisfação pelo dever cumprido e, sobretudo, pelas certezas reveladas de uma experiência que deu certo e que mudou a vida de muita gente. Perguntas orientadoras: 1. Em que consiste o Projeto Fecundação? (Objetivos e metas) 2. Quais as linhas de ação desenvolvidas pelo projeto? 3. Que ações foram desenvolvidas? 4. Como as ações desenvolvidas contribuíram para a transformação da realidade do município? 5. Quem são os protagonistas da experiência? 6. O que pensam as pessoas envolvidas neste processo sobre os impactos do projeto na vida do município? 7. Qual a compreensão das pessoas envolvidas em relação à mudança de paradigma no tocante à convivência com o semiárido e o combate à seca? 8. Como as ações do projeto influenciaram nas relações de gênero e geração? 9. O que representa a experiência para o Programa de Convivência com o Semiárido da rede Cáritas? 10. Como era a vida das pessoas antes da implantação do projeto no município? 11. Em relação às linhas de ação, que mudanças significativas foram efetivadas? 11.1 - Que mudanças ocorreram na educação do município a partir da ECSA? (Organização/estrutura; índices/resultados de aprendizagem...)? 11.2 - O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produto- ras a adoção da agricultura e produção apropriada? 12. De que forma pode-se perceber o fortalecimento da participação da sociedade civil na elaboração, implementação e controle social de políticas púbicas do municí-Cáritas Brasileira Regional do Piauí pio? 13. Em que medida as ações desenvolvidas pelo projeto possibilitaram aos partici- pantes serem protagonistas dessa experiência? 14. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região? Procedimentos Teórico-metodológicos: 1. Antecedentes Históricos Processo de construção e contextualização do Projeto Fecundação 2. Concepção do Objeto Os objetivos do Projeto Fecundação, a metodologia e as perspectivas 3. Trabalho de Campo
  • 14. 17 - Realização de entrevistas individuais e coletivas - Construção de Histórias de Vida dos sujeitos da experiência - Pesquisa bibliográficaProcedimentos de análise e interpretação:Categorias de análise: Convergências e divergências/ Presenças e ausências/Tendências e associações/ Convivência e combate.1. Análise documental (relatórios, slides, correspondências, documentários etc.)2. Análise da experiência dos participantes (entrevistas individuais e coletivas,depoimentos etc.) O Sonho construído em mutirão
  • 15. 18 Contextualizando o semiárido O semiárido brasileiro é o maior do mundo e se estende por uma área de 975 mil km², abrangendo mais de 86% da região nordeste e penetrando no norte do estado de Minas Gerais. É o semiárido com maior densidade demográfica do mundo. Nessa área vivem cerca de 26 milhões de habitantes em 1.113 municípios, e dela faz parte a maior concentração de popula- ção rural do Brasil. No Piauí a região semiárida abrange 125.692 km² - dos 252.378 km² totais do Estado - ocupando boa parte do setor central e sul, fazendo fronteira com os estados do Ceará, Pernambuco e Bahia, e correspondendo a 13,96% da área do semiárido brasileiro. Dados do Governo do Estado e da Universidade Federal do Piauí (UFPI) dão conta de que dos 224 municípios piauienses, 156 estão localizados na região semiárida, com uma população de 956.617 habitantes. No semiárido brasileiro ocorrem uma ou duas estações de chuva, de quatro a cinco meses de duração. A pluviosidade varia entre 300 e 800 mm/ano. As temperaturas médias variam de 23 a 39º C, com forte evaporação potencial (mais de 2.000 mm/ano). Estudos revelam que metade da área da região semiárida é composta por embasamento cristalino, com acumulação de água apenas nas fraturas, e a outra metade é composta de terrenos sedimenta- res, com a boa capacidade de armazenamento de águas subterrâneas. Muitas vezes, quando a água é encontrada no subsolo, através da perfuração de poços, sejam eles tubulares, cacimbões ou artesianos, trata-se de uma água salobra, de péssima qualidade para o consumo humano e animal. Os longos períodos de escassez de chuvas acontecem principalmente na época do plantio de arroz, feijão, mandioca e milho, culturas predominantes da região. Estudos mais recentes concluíram que esse problema agrava-se num ciclo de vinte a vinte anos, caracterizan- do períodos mais longos de estiagens, as chamadas “grandes secas”. As “grandes secas” são caracterizadas pelo esgotamento da umidade do solo, fenecimento das plantas por falta de água, depleção do suprimento de água subterrânea e redução e eventual cessação do fluxo dos cursos de água. O Estado do Piauí é caracterizado por três regimes pluviométricos bem definidos,Cáritas Brasileira Regional do Piauí que iniciam no mês de novembro na região Sul e prolonga-se até o mês de maio na região Norte. Em menos da metade do território piauiense (48,36%), as chuvas são superiores a 1.000mm. Os cursos d’água apresentam regime hidrológico intermitente na estação chuvosa e permanecem completamente secos após a estação das chuvas, com curvas de recessão atingin- do rapidamente o ponto zero. O flagelo das secas ocorre quando as chuvas são insuficientes ou irregulares demais para permitir a produção que assegura a subsistência das famílias do semiá- rido que, mesmo em anos normais, já vivem em condições limites de pobreza. Além de vulnerabilidade climática do semiárido, grande parte dos solos da região encontra-se degradada. Os recursos hídricos rumam à insuficiência. A água é o fator mais rico do semiárido, porque é um limitativo tanto da ocupação humana quanto das atividades agrope- cuárias. Os ecossistemas regionais são frágeis e não estão sento protegidos, pondo em risco a sobrevivência de muitas espécies de vegetais e animais, criando ainda riscos a ocupação
  • 16. 19humana, associados, inclusive, a processo em curso, como a desertificação. Apesar dessas características gerais, o semiárido brasileiro é uma realidade complexa:a EMPRAPA identificou cerca de 170 diferentes tipos de sistemas geoambientais (ecossiste-mas). Essa complexidade exige mudanças nas formas de conceber e intervir nessa realidade. Épossível conviver com o semiárido apesar das fragilidades. Ter muita luminosidade, ter muitocalor e ter baixa unidade são elementos diferenciais para o desenvolvimento da região. O semiárido piauiense apresenta grandes potencialidades econômicas e sociais, entreas quais podem ser mencionadas: solos adequados para práticas agrícolas apropriadas; áreassedimentadas com boa disponibilidade de águas subterrâneas; açudes públicos com elevadasreservas de água; a rica biodiversidade da caatinga na qual se destaca o elevado potencial deexploração; a agroindustrialização de produtos agrícolas e agropecuários, como a castanha decaju e o mel da abelha; a irrigação dos vales úmidos, principalmente com a perenização dos rios;o criatório animal; o turismo ecológico, cultural e religioso; as diversas práticas artesanais; oextrativismo mineral e a localização de vários centros de pesquisas. Mas apesar dessas potencialidades, a região não consegue superar seus péssimosindicadores sociais e nem autofinanciar seu desenvolvimento econômico, seja pela ausência depoupança interna, seja pelo elevado déficit da balança comercial. Além desses fatores econô-micos, a falta de conhecimento adequado do semiárido piauiense levou a introdução dediversas atividades produtivas – agropecuárias extrativas e industriais – que não apresentamsustentabilidade ambiental e nem se tornam vantagens competitivas dinâmicas. O Sonho construído em mutirão
  • 17. 20 Indicadores sociais motivadores do projeto A pobreza está disseminada por todo o Estado do Piauí e sabe-se que os dez maiores índices de indigência absoluta são verificados nos municípios mais populosos e que desempe- nham funções polarizadoras. Utilizando dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilio (PNAD), realizada pelo IBGE em 1997, a População Econômicamente Ativa (PEA) do semiárido piauiense foi estimada em 538 mil pessoas, sendo que 41% não auferiam qualquer rendimento e cerca de 40% recebiam entre R$ 33,00 e R$ 100,00 por mês. Dessa população trabalhadora, 67% desenvolviam atividades ligadas à agricultura ou atividades afins. Nesse contexto, foi possível identificar as principais problemáticas enfrentadas pela população empobrecida do semiárido: a dificuldade de aceso à água e a alimentos em quantida- des e com qualidade para o consumo humano, principalmente nos períodos de estiagem prolongada na região. Esse problema era fruto da estrutura excludente que predomina na área, baseando na concentração da terra e da água, além da dificuldade de acesso da agricultura familiar aos meios e recursos necessários a produção agrícola e pecuária. A persistência desses problemas por centenas de anos conduz a identificação de suas causas. A principal delas, certamente, é a forma de intervenção do poder público nessa região. As políticas públicas são excludentes e inapropriadas ao semiárido, caracterizadas pelo caráter emergencial fragmentado e descontinuo das ações desenvolvidas nos momentos de calamida- de pública ocasionadas pelas estiagens prolongadas. A intervenção estatal privilegia a construção de grandes obras hídricas que favorecem principalmente às empreiteiras, à grande propriedade rural e às agroindústrias que desenvol- vem a agricultura irrigada na região, sem considerar as condições específicas do meio ambiente e da população. As grandes barragens contribuem para a concentração da água, alagam faixas de terras cultiváveis, deslocam cidades inteiras e pioram as condições de vida das populações ribeirinhas que nunca são consideradas nos processos de planejamento. Já as grandes áreas de produção irrigadas são degradadoras dos ecossistemas do semiárido. Além do desmatamento para implantação das áreas de produção irrigada, constata-se que a utilização de métodosCáritas Brasileira Regional do Piauí inapropriados de irrigação e a utilização de produtos químicos contribuem para a formação de áreas desertas no semiárido. De modo geral, as práticas agropecuárias (com tecnologias tradicionais e modernas) utilizadas no semiárido são inadequadas e degradadoras do meio ambiente. As queimadas desordenadas e uso de defensivos e fertilizantes químicos também ocasionam o empobreci- mento dos solos, pondo em risco os ecossistemas e a própria vida humana. Isso se deve ao fato de que a maioria da população do semiárido não tem um conhecimento adequado do seu meio ambiente, de suas potencialidades e limites e de estratégias de sobrevivência adequadas na região. Além da dificuldade de acesso à água para o consumo humano em quantidade suficiente, as famílias residentes no semiárido consomem água de péssima qualidade, sem um tratamento adequado. Esse consumo de água tornou-se uma prática tradicional naturalizada,
  • 18. 21embora tenha como consequência direta o aumento de inúmeras doenças, com elevadosíndices de mortalidade infantil. A dificuldade de acesso à água para o consumo humano edoméstico, além de ser determinada pela privatização e concentração das águas em grandesreservatórios hídricos, está diretamente relacionada com uma cultura de desvalorização dacaptação, armazenamento e tratamento da água da chuva. Diante dessas constatações de principais causas das problemáticas do semiárido,poderiam parecer fáceis as soluções: tornar as políticas públicas apropriadas à região e promo-ver a educação para a convivência com o semiárido. No entanto, a sociedade civil não temconseguido participar efetivamente dos processos de formulação de políticas públicas para aregião, apesar de ter dado alguns passos importantes nos processos de articulação de entidadesem nível dos Estados e na experimentação e disseminação de alternativas produtivas e derecursos hídricos adaptados à realidade do semiárido. Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações dasociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dosprogramas implantados a nível local. A dificuldade de participação está relacionada comdiversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos departicipação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos recursos que sãodestinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é urgente a melhoria na qualidade dainformação e dos canais de comunicação entre governo e sociedade civil, otimizando a difusãode tecnologias apropriadas ao semiárido. No campo político-institucional, apesar dos recentes avanços no processo de demo-cratização, organização da sociedade e mecanismos de participação social, ainda persistem, naregião do semiárido, práticas clientelistas e outras formas de apropriação privada do Estado. Acapacidade dos organismos públicos em atender com eficiência as demandas sociais é bastantelimitada em decorrência da baixa qualificação dos seus recursos humanos, das deficiênciasorganizacionais e dos mecanismos de gestão e insuficiências materiais e financeiras. O Sonho construído em mutirão
  • 19. 22 Antecedentes históricos da experiência A Cáritas Brasileira é um organismo ligado à Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, testemunhando o Evangelho da Esperança de Jesus, compromete-se a promover e animar o serviço da solidariedade ecumênica libertadora, participar da defesa da vida, da organização popular e da construção de um projeto de sociedade, a partir dos excluí- dos e excluídas, contribuindo para a conquista da cidadania plena para todas as pessoas, a caminho do Reino de Deus. A Cáritas tem tido uma presença constante nessa realidade do semiárido brasileiro, contribuindo com as famílias empobrecidas, através de diversas formas de atuação: na realiza- ção de campanhas de solidariedade nos momentos emergentes de calamidade pública, que agravam a situação estrutural de miséria e pobreza na região; no desenvolvimento de ações permanentes de formação e de apoio às organizações comunitárias; nas iniciativas comunitári- as de geração e melhoria de renda (com os projetos alternativos comunitários); na dissemina- ção de técnicas apropriadas de manejo de recursos hídricos; e no apoio efetivo (financeiro e material) para a construção de pequenos reservatórios de água da chuva, para manutenção, equipamento e recuperação de mananciais e reservatórios hídricos para abastecimento familiar. Nos últimos anos, a Cáritas Brasileira tem tentado desenvolver uma intervenção pró- ativa na região (atuando sobre as causas dos problemas e não sobre suas consequências) através da formação para a cidadania, a universalização do acesso à água para o consumo humano e a produção como elementos estratégicos para melhoria da qualidade de vida na região. Entre 1998 e 1999, a Cáritas Brasileira Regional Piauí coordenou a distribuição de 1.100 (mil e cem) toneladas de alimentos para 55 mil famílias (cerca de 275 mil pessoas) que estavam em situação de calamidade. Foram realizadas ações permanentes de infraestrutura hídrica, apoiando a construção de 363 cisternas de placas (captação e armazenamento de água da chuva), equipando 17 poços artesianos, revestindo 12 poços e realizando 02 canalizações para facilitar o acesso das famílias e comunidades rurais à água para consumo humano. Além dessas ações diretas, a Cáritas realizou diversas atividades pedagógicas de capacitação deCáritas Brasileira Regional do Piauí agentes pastorais e animadores de comunidade, aprofundando o conhecimento da realidade e das formas de convivência com o semiárido piauiense. QUADRO 01 AÇÕES DE APOIO DA CÁRITAS PIAUÍ AO ACESSO A RECURSOS HÍDRICOS -1999 A 2000 Tipo de ação Cisternas Valor (R$) Famílias Pessoas Localidade Município Construção de cisternas 397 181.481,00 409 2.045 34 12 Revestimento e equipamento de poços 18 41.318,49 5.554 30.000 13 11
  • 20. 23 O programa de convivência com o semiárido não se resume à construção de cisternase outras ações de apoio hídrico e produtivo. As ações político-pedagógicas são prioritárias. Osprocessos pedagógicos se referem tanto à disseminação de alternativas viáveis para a convivên-cia com o semiárido e à realização de campanhas educativas para conhecimento adequado darealidade, quanto ao respeito aos seus limites e aproveitamento de suas potencialidades.Anualmente a Cáritas realiza atividades na “Semana da Água” junto com outras entidades, naoportunidade em que chama a atenção para as diversas dimensões da problemática da água nosnossos dias e mobiliza a sociedade para apoiar e lutar para que todas as famílias que residem nosemiárido piauiense possam a ter acesso à água de boa qualidade. Ainda no aspecto educativo merecem destaque as atividades de formação realizadasno âmbito do PCSA. Foram realizados os cursos sobre manejo de recursos hídricos, tendocomo temática central “O uso e o tratamento d’água”, atendendo ao publico de todas asdioceses do Piauí. A realização dos cursos foi de fundamental importância, pois as famíliasrurais ainda possuem muita dificuldade em entender e desenvolver tecnologias alternativas eapropriadas para a convivência com o semiárido e mais precisamente para o manejo de recur-sos hídricos. Esses cursos visam à formação de multiplicadores e multiplicadoras para odesenvolvimento do trabalho na comunidade, na perspectiva de promover e desenvolver aorganização para a convivência com o semiárido. No aspecto sociopolítico, a Cáritas Brasileira Regional Piauí teve uma atuaçãodecisiva para a articulação do Fórum de Convivência com o Semiárido no Piauí (FPCSA). Essefórum conta com a participação de outras 12 organizações não governamentais do Piauí quetem o compromisso político e ações voltadas para a convivência com o semiárido em nossoEstado, possibilitando as parcerias e convênios que procuram canalizar recursos públicos paraa região, como por exemplo, um convênio firmado entre as ONGs e a SUDENE (Superinten-dência para o Desenvolvimento do Nordeste), em que a Cáritas participa com a capacitação de810 pessoas para a construção de cisternas de placas. Outra ação significativa do FPCSA ocorreu durante a semana da água em 2000. OFórum programou e realizou uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Estado paradiscutir sobre as políticas públicas para recursos hídricos do Piauí e as alternativas.Participaram da audiência, representantes da Assembléia Legislativa, Secretaria de RecursosHídricos do Estado, SUDENE, COMDEPI, DEFESA CIVIL, Cáritas Brasileira e mais outrasONGs. Dali resultou um compromisso e abertura por parte da Assembléia para a continuidadedos debates sobre o tema acima referido. A partir dessa experiência em nível estadual, a Cáritas Brasileira Regional Piauípercebeu que era necessário desenvolver um projeto piloto no âmbito de um município, O Sonho construído em mutirãopossibilitando a integração dos sujeitos e das diversas ações de convivência com o semiárido(recursos hídricos, produção agrícola e não agrícola, educação, construção de políticas públi-cas apropriadas, serviços sociais básicos, etc.). A Cáritas acredita que a concentração de ações ea produção de resultados significativos em um município possam ter uma maior capacidade deimpacto em nível de outros municípios do semiárido e das políticas públicas estaduais enacionais.
  • 21. 24 A escolha de Coronel José Dias Os processos de discussão foram sendo construídos e, a partir de abril de 2000, a Cáritas Brasileira Regional do Piauí definiu, pelas condições climáticas da região e pela disponi- bilidade da equipe regional, implantar o projeto na Diocese de São Raimundo Nonato. Diante disso, passou-se a analisar as condições dos municípios daquela região para receber as ações do projeto e, após estudos e reflexões, foi apresentado ao município de Coronel José Dias. O município foi escolhido com base nos seguintes critérios: localização no semiárido com a incidência das problemáticas de convivência com a região; a possibilidade de continuida- de de ação através de parcerias com organizações da sociedade civil, movimentos sociais e o governo municipal; a existência de estrutura de apoio (Cáritas Diocesana ou entidade membro, apoio da Igreja local – paróquia); indicadores socioeconômicos: nível de renda, analfabetismo, mortalidade infantil e abastecimento de água. A elaboração do projeto foi assumida pelos agentes da Cáritas e contou com a participação ativa de representantes da prefeitura municipal de Coronel José Dias, representan- tes das organizações da sociedade civil e lideranças comunitárias das comunidades rurais do município. As principais atividades realizadas foram: um levantamento de informações em cada uma das localidades do município, identificando os aspectos sociais e econômicos da realidade local, as principais problemáticas, potencialidades e expectativas dos moradores e moradoras daquela região. Em setembro de 2000, foi realizado um Seminário Municipal de Planejamento, com a participação de 95 pessoas, onde foi aprofundado o diagnóstico com a identificação das potencialidades municipais e os principais problemas enfrentados pelas famílias. Estes eventos realizados possibilitaram também a identificação de prioridades de ação, a consensualidade de objetivos e interesses e a afirmação de compromissos entre as diversas organizações partici- pantes. O seminário municipal, acima citado, foi planejado e realizado conjuntamente pela Cáritas Brasileira Regional Piauí, Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato, Paróquia de Coronel José Dias e pelo Governo Municipal que assumiu as atividades de articulação, trans- porte, alimentação e hospedagem das pessoas participantes, além de oferecer toda infraestru- tura necessária a realização do evento.Cáritas Brasileira Regional do Piauí Objetivos: A experiência teve como objetivo geral desenvolver um conjunto de ações articuladas que possibilitassem melhoria das condições de vida das famílias que residiam no semiárido do município e, a partir dos resultados alcançados, propor políticas públicas apropriadas ao semiárido nos níveis municipal e estadual. Objetivos específicos: • Viabilizar o acesso a estruturas de captação e armazenamento de água de chuva e o aproveitamento sustentável dos mananciais hídricos existentes no município; • Favorecer o acesso a recursos e infraestrutura para o desenvolvimento de iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido favorecendo a melhoria de renda
  • 22. 25 das famílias; • Promover capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável no município; • Fortalecer a participação da sociedade civil na elaboração, implementação e controle social de políticas públicas; • Garantir a visibilidade e difusão das ações e resultados. Assumiram-se também as seguintes diretrizes: • Difusão de alternativas; • Democratização das políticas públicas; • Fortalecimento das parcerias, alianças, articulações e afinidades; • Atenção especial às questões de gênero e gerações; • Educação para convivência com o semiárido e • Manejo adequado dos recursos naturais do semiárido. Ao ser apresentado, o projeto foi amplamente discutido pelas pessoas representantesdos segmentos sociais dos municípios, as quais apresentaram interesse pelo desenvolvimentodas ações propostas. Foi esta comissão que cuidou da instalação do projeto e da sensibilização da comuni-dade. No ano de 2001, após o Seminário de lançamento e apresentação do Projeto Piloto foiaberto um concurso interno nas escolas da rede municipal para a escolha do nome do projeto. FECUNDAÇÃO, o nome escolhido fez jus à proposta de convivência com osemiárido pela mística que envolve o próprio nome, conforme escreveu Iran Morais deOliveira, então coordenador do projeto, representante da Cáritas Diocesana de São RaimundoNonato: No projeto Fecundação está a Fé daqueles/as que acreditam em Deus e sabem que as situações que levam milhares de pessoas ao sofrimento [...] não é o projeto que o Deus da vida preparou para os seus filhos e filhas [...]. No projeto Fecundação, fecunda é a terra que se prepara, indepen- dente do seu clima, pois guarda potenciais próprios e características só existentes nela, que se bem trabalhados, conduzidos e aproveitados faz fecundar condições de vida. [...] e germinar possibilidades, caminhos que devolvam a confiança e que mudem situações de morte em situações de vida. O projeto Fecundação é promotor de uma AÇÃO libertadora, O Sonho construído em mutirão democrática e contextualizada. [...] Ações que comprometem, provocam participação, que respeitam gerações, culturas/saberes e natureza num objetivo comum de promoção da vida. (OLIVEIRA, Iran M. de. In Boletim Projeto fecundação JULHO/AGOSTO 2004). Foi com esta visão que o projeto deu os seus primeiros passos para efetivação daproposta de convivência com o semiárido, buscando a promoção da vida e sendo sinal deesperança construída na partilha e na solidariedade em Coronel José Dias.
  • 23. 26 Localizando a experiência O município de Coronel José Dias está localizado na mesorregião sudoeste piauien- se, microrregião de São Raimundo Nonato, no sopé do Parque Nacional da Serra da Capivara, a 550 km de Teresina – capital do Estado do Piauí –, área de domínio semiárido. Seus limites territoriais abrangem ao norte, o município de João Costa; ao sul, o Estado da Bahia e o município piauiense, Dirceu Arcoverde; A leste, o município de Dom Inocêncio e a oeste, os municípios de São Raimundo Nonato e São Lourenço do Piauí. Foi instalada no ano de 1992. A população total do município é de 4.484 de habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE (2009). Sua Área é de 1822 km² representando 0,7244 % do Estado, 0,1172 % da Região e 0,0214 % de todo o território brasileiro. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,58 segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2000). É fortemente concentrada na área rural (81%) do município que conta com a densidade demo- gráfica de 2,15 hab/km². A População Economicamente Ativa (PEA) atinge 55% da popula- ção total. Do ponto de vista social, o município apresenta indicadores compatíveis com os registrados na área do semiárido piauiense. No aspecto da saúde, constatava-se que as princi- pais doenças que acometiam a população local eram as diarréias, as infecções respiratórias e as verminoses. Uma das causas da diarréia era a água consumida e a falta de saneamento adequa- do nas localidades rurais e na sede do município. O setor educacional apresenta uma rede de ensino formada por 41 unidades, sendo 3 na sede do município e 38 na zona rural. O acesso ao ensino fundamental é garantido à popula- ção na faixa etária correspondente, com um índice de 11,37% de evasão escolar ao longo do período letivo. O analfabetismo atinge 39% da população total, sendo que o analfabetismo da população com mais de 15 anos é de 31%. A base econômica do município é a agricultura de subsistência, com destaque para o milho e feijão, e a pecuária de pequeno porte, com a criação de caprinos, ovinos e aves, além a criação de abelhas. A vegetação de caatinga, com a predominância da favela, o angico e o marmeleiro, favorece a criação de caprinos. As floradas existentes nas proximidades da Serra da Capivara favorecem a apicultura, com uma significativa produção de mel.Cáritas Brasileira Regional do Piauí No município, há a predominância da agricultura familiar com base em pequenas propriedades rurais. O levantamento de dados realizados pela Cáritas nas localidades do município constatou a seguinte distribuição da população por situação ocupacional: a agricul- tura familiar desenvolvida em mini e pequenas propriedades predominam na maioria dos casos, seguida por famílias sem terra (diaristas, meeiros e parceiros) e assalariados e assalariadas (maioria do setor público). O mesmo levantamento constatou que as principais fontes de renda identificadas no município são: a produção agrícola e pecuária, 48%, a aposentadoria de pessoas idosas, 41%, a ajuda de familiares ausentes, 7%; e o emprego público, 4%. Foi constatada também a faixa de renda da população: até ½ salário mínimo, 39%; mais de ½ até 1 salário mínimo, 58%; e entre 1 a 2 salários mínimos, 3%. As famílias que desenvolvem a agricultura familiar tinham grande dificuldade de
  • 24. 27acesso às condições necessárias para desenvolver a atividade agrícola: a falta de crédito (custeioe investimento, a assistência técnica, sementes, transporte para o escoamento de produção).Os preços dos produtos eram baixos, estando a comercialização dependente do mercadoatravessador. Coronel José Dias é ladeado por serras, pelo lado oeste, com destaque para a Serra daCapivara, onde está situado o Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Cultural daHumanidade. O Parque Nacional está localizado em quatro municípios piauienses, sendo quemaior parte fica no município de Coronel José Dias, abrigando os mais importantes SítiosArqueológicos e as duas áreas de maior atração turística, que são o Desfiladeiro da Serra daCapivara e a Pedra Furada. Por ser a porta de entrada para o Parque, o município de Coronel José Dias é dotadode grande potencial para o Ecoturismo, embora não haja investimentos suficientes nesta áreacapazes de equiparar a infraestrutura do município às condições de cidade turística.Atualmente é o município vizinho, São Raimundo Nonato, que explora o ecoturismo culturalcom localização de um hotel, um Museu e fundações culturais. No entanto uma das entradasdo Parque tem acessos pela sede de Coronel José Dias, através da localidade Sitio do Mocó. Há também na sede do município uma pequena indústria cerâmica (telhas e blocos) eum setor comercial bastante precário, atingindo apenas uma pequena parte da população. Estabase econômica, no entanto, não tem sido o suficiente para a manutenção dos serviços públi-cos no município. A administração do município é totalmente dependente do repasse derecursos dos governos Estadual e Federal. Localizado em pleno semiárido piauiense, um dos principais problemas enfrentadospela população local são as estiagens que agravam a precária situação de sobrevivência damaioria das pessoas. O levantamento realizado pela Cáritas constatou as principais consequên-cias desses períodos: QUADRO 02 CONSEQUENCIAS DAS ESTIAGENS Tipo de consequência* % - Falta de água para o consumo humano 76 - Falta de água para os rebanhos 60 - Dificuldade de acesso a alimentos para a família 60 - Dificuldade de acesso a alimentos para os animais 67 - Perda total das lavouras 60 O Sonho construído em mutirão - Perda parcial das lavouras 24 - Falta de trabalho 24* Questão de múltiplas respostas: as pessoas entrevistadas indicavam até três consequências O acesso à água de boa qualidade é uma das dificuldades presentes não apenas nosmomentos de estiagem prolongada. O levantamento constatou que as principais fontes deabastecimento de água da população das áreas rurais do município não eram adequadas.
  • 25. 28 GRÁFICO 01 ORIGEM DA ÁGUA UTILIZADA PELAS FAMÍLIAS DAS LOCALIDADES RURAIS DO MUNICÍPIO DE CORONEL JOSÉ DIAS Poços 16% Cacimbas Cisternas 44% 17% Barragens 23% A dificuldade de acesso à água de boa qualidade para o consumo humano deve-se à escassez dos recursos hídricos no município. O território municipal é cortado pelos rios Piauí e São Lourenço e pelos riachos Mulungu, Lagos e cavaleiros. No entanto, estes rios e riachos são todos intermitentes e sofrem com o assoreamento e outros danos provocados nas suas imediações. No que se refere às águas subterrâneas, constata-se que o solo cristalino dificulta a obtenção de água de boa qualidade através da perfuração de poços. Na maioria dos poços perfurados a água é salobra, imprópria para o consumo humano. No entanto, a 30 km do município encontra-se uma área sedimentar com água boa em abundância. Apenas um poço tinha água de boa qualidade servindo para o abastecimento da sede do município, que conta com um sistema de abastecimento através de dois chafarizes e carros pipas, sendo distribuída à população sem nenhum tratamento. O município conta com pequenas barragens e açudes que favorecem o abastecimen- to de água para as famílias e pequenos rebanhos. A maioria destes barramentos demora pouco tempo com água, tendo em vista a rapidez e intensidade da evaporação, além de estarem assoreados, precisando urgentemente de reformas nas suas estruturas.Cáritas Brasileira Regional do Piauí Nos períodos em que a chuva atrasa, a escassez de água se torna ainda mais grave, sendo preciso o transporte de água da barragem Petrônio Portela, localizada no município de São Raimundo Nonato, através de carros pipas. No período de estiagem prolongada, as principais formas de abastecimento são: carro pipa (64%) e os animais de carga (27%). O levantamento constatou também que as mulheres carregavam água das fontes para as residên- cias, andando longas distâncias. Com a fragilidade desses mananciais hídricos acima apresentados, uma das possibili- dades apropriadas para acesso à água de boa qualidade no município é a captação e armazena- mento de água da chuva. De acordo com o quadro 04, a quantidade de chuvas varia de 460 a 850 milímetros/ano, com uma média anual de 580 mm. As chuvas estão concentradas no período de dezembro a março, sendo irregularmente distribuídas a cada ano, o que dificulta significativamente as práticas agrícolas.
  • 26. 29 QUADRO 03 MEDIDAS PLUVIOMÉTRICAS NO MUNICÍPIO DE 1994 A 1998 (mm)Ano/mês jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez Total 1994 78 124 175 30,1 - - - - - - - 8,3 463,4 1995 52 131 33 72 32 - - - - 42 42 107 569 1996 - 96 229 106 - - - - - - - 84 542 1997 218 75 374 66 - - - - - 57 57 21 855,5 1998 129 148 30 - - - - - - - - 199 505,6Fonte: Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Recursos Hídricos. Banco de Dados Pluviométricos do Departamento de Hidrometeorologia Nos últimos anos, através do incentivo da Cáritas, tem sido implantadas cisternascom sistema para captação de água da chuva nas residências localizadas no meio rural. Aprefeitura tem incentivado e apoiado esta iniciativa, favorecida pela captação de recursos doPrograma de Combate à Pobreza Rural – PCPR (Governo do Estado e Banco Mundial), tendosido construídas mais de 300 cisternas. O levantamento de informações realizado pela Cáritas em setembro de 2000 consta-tou que as famílias residentes nas localidades que tiveram acesso às cisternas ressaltam asseguintes melhorias: garantia do acesso e a qualidade da água consumida; aumento do tempodisponível para outras atividades (antes ocupado para carregar água de longas distâncias); aredução de doenças e a diminuição da dependência política das famílias em relação ao forneci-mento de água (acesso a reservatórios, carros pipas etc.). No entanto, há o reconhecimento deque esta quantidade de cisternas construídas é insuficiente para atender as demandas locais. O enfrentamento destas problemáticas acima apresentadas deve contar com aparticipação de todos os setores sociais do município. O levantamento constatou que emCoronel Jose Dias já existia um potencial organizativo que podia ser valorizado. Além doSindicado dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais (STTR) existem cerca de 20 associa-ções comunitárias e de pequenos trabalhadores e trabalhadoras rurais espalhadas pelo municí-pio. A juventude participa com maior intensidade dessas organizações locais, tendo assumido aliderança de algumas delas. O município também conta com alguns conselhos de gestão depolíticas públicas: saúde, educação, assistência social e desenvolvimento rural. Em duas das localidades pesquisadas já ocorria mobilização da população em buscade soluções e atendimento de suas necessidades nos períodos de estiagem. Esta participação émaior quando induzida, como é o caso de onze organizações comunitárias que afirmam terparticipado das atividades e planejamento das Frentes de Trabalho criadas no município, em O Sonho construído em mutirão1998. Outro exemplo deste potencial pôde ser medido pela participação de todas asassociações e de outras organizações locais na construção do projeto. No seminário realizadoem setembro de 2000, no município, os participantes identificaram estas problemáticas, mastambém reafirmaram a convicção de que é possível conviver com o semiárido, aproveitando demodo sustentável suas potencialidades, com o uso de tecnologias de manejo de recursoshídricos e de produção apropriada a esta realidade. O Quadro 04 expressa a opinião de quemparticipa das associações comunitárias sobre as principais ações para conviver com a qualidadede vida no semiárido.
  • 27. 30 QUADRO 04 PRIORIDADES DE AÇÕES DE CONVIVÊNCIA COM O SEMIÁRIDO Tipos de ações n. % 1 - acesso à água para abastecimento familiar, criações de animais e pequenas plantações: 33 100 - Cisternas 18 54 - Restaurar açudes e barragens 06 18 - Perfurar e equipar poços 04 12 - Construir barreiros e cacimbas 03 09 - Tratar a água 02 06 2 - Produção agrícola 14 42 - Produção de alimentos (culturas de sequeiro) 07 18 - Culturas permanentes: caju, mamona, palma 05 15 - Beneficiamento da produção agrícola 02 06 - Acesso a sementes apropriadas 01 03 3 - Apoio à produção pecuária 20 61 - Criação de caprinos e ovinos 08 24 - Melhoria de rebanhos 06 18 - Criação de abelhas (apicultura) 03 09 - Beneficiamento da produção de mel 03 09 4 - Apoio às atividades agrícolas e pecuária 12 36 - Assistência técnica 04 12 - Uso de tecnologias apropriadas 02 06 - Crédito para produção 02 06 - Capacitação 03 09 - Organizações comunitárias 01 03 5- Outras iniciativas de geração de renda 09 27 - Setor turístico 03 09 - Artesanato 06 18 6- Serviços sociais Básicos 05 15Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 28. IIA Construção Diretrizes Gerais do PCSA
  • 29. 33Projeto Piloto de Coronel José Dias Conforme o Quadro 04 apresentado sobre a realidade do semiárido brasileiro, ondeforam destacados alguns dos principais problemas enfrentados pelas famílias e comunidadesempobrecidas da região, a Cáritas Brasileira Regional Piauí deu continuidade e ampliou aintervenção nessa realidade, através de um projeto piloto voltado para a convivência harmôni-ca e com qualidade de vida no semiárido brasileiro de acordo com os princípios do desenvolvi-mento humano sustentável. Tratou-se de uma intervenção pró-ativa que precisou alguns princípios ou diretrizesgerais orientadores dos objetivos a serem alcançados, bem como das atividades a seremrealizadas: a) Difusão de alternativas: a capacidade de transformar o alternativo em alterativo, ouseja, a visibilidade do programa, a publicização e a disseminação de ações significativas que setornem referencias para a população local e para a formulação de políticas públicas apropria-das à realidade do semiárido. Tomar como referência os impactos de implementação dealternativas permanentes de convivência com o semiárido; b) Democratização das políticas públicas: aumento das capacidades organizativas,fortalecimento das organizações comunitárias, desenvolvimento de conhecimento e docontrole e monitoramento das informações referentes ao semiárido e a aplicação de recursospúblicos. Inserir na agenda governamental um planejamento pró-ativo com a interiorização dodesenvolvimento e investimentos em infraestrutura social e econômica; c) Fortalecimento das parcerias, alianças, articulação e afinidades entre os diversosórgãos da sociedade civil e do estado (nas esferas municipal, estadual e federal) que atuam naregião para realizar ações conjuntas que promovam impactos sociais e ambientais sustentáveisem nível da região semiárida. Combinar ações para potencializar recursos e esforços; d) Atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes no semiárido,reconhecendo suas especialidades e buscando enfrentar processos culturais de exclusão, comogarantia de democratização e sustentabilidade das ações previstas no presente programa,acesso das mulheres e jovens a programas de crédito e nos conselhos de políticas públicas; e) Educação para a convivência com o semiárido: ampliação das capacidades educa-cionais (alfabetização, ensino básico para pessoas jovens e adultas, formação profissional e O Sonho construído em mutirãoassistência técnica); valorização de conhecimentos básicos de convivência com a região;geração e difusão de informações; f) Manejo adequado dos recursos do semiárido (hídricos e produtivos): buscapermanente de informações e monitoramento das previsões de seca; conservação, usosustentável e recomposição ambiental dos recursos naturais; uso de tecnologias apropriadas;fortalecimento da agricultura familiar; garantia de segurança alimentar; universalização doabastecimento de água para consumo humano; acesso ao crédito e canais de comercialização;estímulos a unidades de beneficiamento da produção e empreendimentos não-agricolas.
  • 30. 34 Educar para Conviver O problema da água no mundo tem no semiárido um agravamento maior, pois se trata de uma realidade onde a água disponível é escassa combinada com a falta de políticas públicas apropriadas ao uso sustentável dos recursos disponíveis, bem como a construção de obras hídricas capazes de abastecer toda a comunidade. Se por um lado a ação política do Estado brasileiro em todos os níveis não tem sido capaz de solucionar este problema, por outro lado, a população não tem encontrado formas para sair da acomodação e mudar essa realidade. Então, faz-se necessário criar novos hábitos, rompendo com velhos costumes que só contribuem para a perpetuação da situação de mendi- cância em que vive maioria da população do sertão, agravadas em épocas de estiagem. Torna-se, portanto, necessário e urgente investir na educação e mais ainda, em uma educação de qualidade e contextualizada na região. Investir em educação é um dos passos mais decisivos para a superação de tal realidade: os dados indicam que cada quatro anos de estudo da mãe corresponde à redução de 20 pontos na pobreza das crianças e adolescentes [...] (CARVALHO, 2004: 21). Viver melhor no semiárido significa conhecer melhor a realidade, perceber as suas fragilidades e a sua viabilidade no jeito de plantar, de criar, de produzir e de lidar com os recursos disponíveis na região e estabelecer novas formas de se relacionar com o meio ambiente. A convivência com o semiárido consiste em aproveitar as potencialidades da região e transformá-las em novas perspectivas de vida. Existem plantas e animais que se adaptam melhor ao clima e à vegetação, assim como o beneficiamento de frutos e a captação da água da chuva propiciam melhor desenvolvimento e renda para as comunidades e, consequentemente, para o município. É preciso investir na educação, porque é através desta que a população se apropriará de novas técnicas de criação, plantação, produção e de conhecimento da realidade. Desenvolvendo estas experiências alternativas, estará contribuindo “para uma convivênciaCáritas Brasileira Regional do Piauí mais solidária e sustentável com a região semiárida e com o meio ambiente em geral” (BRAGA, 2004:28). Isto terá um impacto grandioso na vida das pessoas no que se refere à valorização do lugar onde vivem e de si mesmas, enquanto pessoas capazes de mudar a realidade, evitando que as famílias se desagreguem pela busca de melhores condições de vida em outros lugares. Sabe- se que, “quando os trabalhadores do semiárido não conseguem produzir nem para comer ou dar comida aos seus animais, eles migram. Vão para outra região à procura de uma vida melhor” (LIMA &ABREU, 2005:15) As condições de melhoria de vida estão no próprio lugar onde se vive. Basta acreditar em uma vida possível no semiárido a partir de um novo olhar para a realidade e um novo jeito de se viver, rompendo com a tradição do combate à seca e aprendendo a conviver com ela, numa perspectiva superadora das velhas práticas e instalação de novas capazes de garantir
  • 31. 35qualidade de vida. A Educação para a Convivência com o Semiárido não é apenas uma ação social emque as pessoas interagem entre si e vão passando novos conhecimentos informalmente. Estaação é necessária, mas não é suficiente. A escola será palco de novas práticas também, à medidaque, assuma a responsabilidade em difundir esta nova proposta, adotando metodologiasapropriadas e, sobretudo, que possibilite a construção de novos conhecimentos pautados narealidade onde vivem. A educação escolar deve promover uma releitura da realidade do semiárido e contex-tualizar o ensino de modo a se construir a convivência como um novo referencial para a região,contribuindo para que as pessoas deste lugar aprendam a conviver consigo mesma, com asoutras pessoas e com o meio ambiente. Uma ação pedagógica efetiva poderá redimensionar arelação sociedade-natureza e assim transformar um destino coletivo e um círculo vicioso dedegradação ambiental e pobreza em um espaço da vida e do aconchego. (BRAGA, 2004: 83- 84) A proposta de educação para a convivência com o semiárido está associada a umprojeto de sociedade onde se promova a dignidade humana, através de relações ecologicamen-te saudáveis, economicamente justas e socialmente livres, condições necessárias para o desen-volvimento sustentável, que está diretamente ligado ao atendimento das necessidades huma-nas, sem causar prejuízos ao meio ambiente. Eis o grande desafio: conviver com o semiárido, a partir do conhecimento da realida-de, das condições climáticas da região, do respeito à biodiversidade e da preservação do meioambiente, e criar condições de sustentabilidade econômica, social e ecológica dos seres aliexistentes.Eixos de Atuação A partir das diretrizes, a Cáritas e as parcerias de elaboração e gestão do projeto,seguindo a máxima de Educar para Conviver, decidiram delimitar os seguintes eixos de ação: • Gestão • Recursos Hídricos • Produção Agropecuária Apropriada • Educação Contextualizada Para cada eixo foi desenvolvida uma política de capacitação, que se constitui também O Sonho construído em mutirãona formação de agentes multiplicadores e multiplicadoras da convivência com o semiárido nascomunidades envolvidas no projeto. Embora professores e professoras assumam esta funçãode forma mais intencional nas escolas onde trabalham a proposta de EducaçãoContextualizada. Assumindo a dinâmica de intervenção na realidade a partir destes eixos, o ProjetoFecundação conseguiu promover a discussão e, ao mesmo tempo, realizar as ações, integrandocampo e cidade e envolvendo homens e mulheres, crianças e jovens numa mesma perspectiva:tornar melhor a vida em Coronel José Dias e proclamar as potencialidades do semiáridobrasileiro. Perpassando as ações desenvolvidas nos eixos de ação, buscou-se também trabalharas questões de gênero e geração, partindo do entendimento de que as relações “verticalizadas”
  • 32. 36 e “patriarcais” são uma herança que se configura nas relações familiares e sociais de hoje. Desta forma, nos momentos de formação, esta temática buscou seu lugar na medida em que oportu- nizava questionamentos e reflexões quanto às relações de gênero e geração, promovendo-se um recorte, sobretudo em relação às condições da mulher. Neste processo se entrelaçam questões sociais, culturais e de cidadania, com foco na política local, numa perspectiva de empoderamento das pessoas excluídas não somente de políticas públicas, mas também do poder de decisão.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 33. 37Gestão Na maioria dos municípios localizados no semiárido brasileiro, as organizações dasociedade civil tem tido pouca capacidade de articulação para intervenção e controle social dosprogramas implantados em nível local. A dificuldade de participação está relacionada comdiversas causas: a falta de capacitação, a pouca articulação, a fragilidade dos mecanismos departicipação popular (conselhos, fóruns, etc.) e o desconhecimento dos direitos, dos recursosque são destinados e de como são aplicados. Nesse sentido, é que o Projeto Fecundaçãotrabalha o eixo Gestão: na perspectiva de empoderamento das pessoas, buscando a autonomiae a sustentabilidade das ações desenvolvidas. O desafio de se constituir/construir uma gestão compartilhada do projeto foivivenciada desde o início da “gestação” do Projeto Fecundação. Segundo LÜCK (2001), opróprio conceito de gestão já nos remete a uma idéia de participação, de um trabalho coletivode análise/reflexão sobre determinada situação que permite uma tomada de decisão sobrecomo agir. Parte-se do princípio de que o sucesso de determinada proposição depende de umadecisão conjunta do grupo envolvido, de forma recíproca, gerando um “todo” guiado por uma“vontade coletiva”. Deste modo, buscou-se uma organização capaz de se responsabilizar pela execução eanimação do projeto e que fosse capaz de refletir e decidir de forma coletiva, sobre o processode construção das ações. Partiu-se da compreensão de que a gestão é um compromissocoletivo do FAZER – REFLETIR – REFAZER. Para este exercício foi composta a comissão gestora do projeto fecundação, concebi-da de forma a proporcionar a todas as pessoas envolvidas na experiência a apropriação desaberes e fazeres no processo de execução da proposta. A comissão gestora do projeto fecun-dação, desde a sua implantação no município foi composta por representantes da CáritasDiocesana de São Raimundo Nonato, da Igreja local, do sindicato dos trabalhadores, trabalha-doras rurais e do poder público municipal. Figurando da seguinte forma: • 01 representante da Cáritas Regional • 01 representante da Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato • 01 representante da Prefeitura Municipal O Sonho construído em mutirão • 01 representante da Igreja • 01 representante do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais • 02 representantes das associações de produtores e produtoras (um dos quais deveria ser, necessariamente, uma mulher) Essa comissão gestora foi instituída com atributos de deliberação em algumas açõesdo programa: aprovação de projetos de recursos hídricos e produtivos apresentados pelasassociações; monitoramento do projeto; definição da aplicação de recursos da partilha solidá-ria; mobilização de recursos locais e em outros níveis para a efetivação das ações previstas. Foi instalado no município um escritório do projeto fecundação para atender àsdemandas latentes e dar suporte às ações previstas, promovendo a coordenação, a administra-ção das ações e o apoio técnico de modo a viabilizar o planejamento e a execução do projeto.
  • 34. 38 Contratou-se inicialmente um técnico agrícola, sob a responsabilidade da prefeitura municipal, e um auxiliar técnico administrativo que viabilizaria o contato com os grupos organizados, conforme as ações. Estes profissionais faziam parte da comissão gestora e se responsabilizaram pelo processo de acompanhamento das ações que vinham sendo desenvol- vidas, inclusive as reuniões da comissão. A gestão do projeto adotou a estratégia de PMA – Planejamento, Monitoramento e Avaliação para melhor acompanhar o desenvolvimento das ações. Foram realizadas duas oficinas de PMA com o objetivo de propiciar espaço de análise e planejamento do processo de implantação do projeto no município e de compreender esta ferramenta como estratégia de acompanhamento das ações, numa perspectiva de superar as fragilidades, a partir do exercício da avaliação, do monitoramento e do (re)planejamento das ações. Para possibilitar esta dinâmica, foram criados Grupos de Trabalho (GT), como forma de contribuição no acompanhamento das ações planejadas. Participam dos grupos pessoas que, de uma forma ou de outra, tem interesse pelas ações do projeto e indicadas pelos membros da comissão gestora. O grande objetivo dos GTs é discutir e aprofundar as temáticas e garantir as condições e estratégias para a execução das atividades de cada eixo do projeto. Foram constituídos os seguintes grupos: • GT de Educação; • GT de Produção; • GT de Recursos Hídricos; • GT de Gestão. Foi definido também o papel dos membros dos GTs: • Organização das atividades de acordo com o planejamento • Reuniões de trabalho para execução das atividades • Contatos com as entidades parceiras para a gestão do projeto • Participação nas reuniões ampliadas da Comissão Gestora e dos encontros de PMA • Elaboração do relatório anual de atividades do GT • Assiduidade e compromisso com as ações do projeto de ECSA QUADRO 05 ATIVIDADES NA EXECUÇÃO DO PROJETO FECUNDAÇÃOCáritas Brasileira Regional do Piauí Atividade Detalhamento • Reuniões mensais da As reuniões são espaços de discussão e controle das ações e o comissão gestora momento de reflexão e definição de ações estratégicas de acordo com a necessidade. • 04 oficinas de PMA Os encontros de PMA ocorreram entre os anos de 2001 a 2004 com o objetivo de Propiciar espaços de análise e planejamento do processo de implantação e de desenvolvimento do projeto. • Reuniões com Os grupos de trabalho foram criados para darem suporte às ações coordenações dos Grupos e promover o acompanhamento a cada eixo. de Trabalho da comissão gestora.
  • 35. 39 Atividade Detalhamento • Inauguração da sede do A sede foi inaugurada em dezembro de 2001 e seu funcionamento é projeto cedido pelo poder uma parceria com o poder público local. público • Participação de membros Atividade de mobilização social das comunidades em eventos externos • 01 Encontro de avaliação A avaliação é parte do processo de apropriação das ações do trienal do projeto projeto com o objetivo de alimentar o planejamento • 01 Oficina de teatro com Realizada em maio de 2006 com o objetivo de envolver os jovens, a juventude alunos das escolas a se sensibilizarem com as técnicas teatrais e trabalhar as temáticas do semiárido através do teatro • Visitas a parques e Com o objetivo de envolver a comunidade no ambiente semiárido experiências local, a partir da realidade de preservação e do potencial turístico da região. • Confecção de 250 As cartilhas foram distribuídas nos momentos de formação cartilhas sobre educação promovidos nos eixos de ação. para convivência com o semiárido. • Grito das pessoas Realizado no dia 07 de setembro de 2005, teve como principal excluídas objetivo envolver a classe estudantil e a sociedade em busca de conhecimentos sobre este ato cívico e manifestarem os seus direitos através de reivindicações. • Cursos de pintura em tela Com a duração de nove meses, os participantes aprenderam a pintar utilizando várias técnicas, desenvolvendo um potencial maior em pintura em tela, tendo como base o semiárido nordestino. • Capacitação de jovens em O curso foi ministrado pelo SEBRAE e destinado a guias turísticos, atendimento do turismo em 2006, com o objetivo de capacitar 25 jovens como agentes multiplicadores do potencial turístico da região. Além disso, foram realizadas atividades voltadas para as questões ambientais na O Sonho construído em mutirãosemana do meio ambiente. O Projeto Fecundação confeccionou 1.000 folderes com algumasdicas sobre água, lixo e fauna e apoiou a realização de concurso de coleta seletiva de lixo,gincanas com temas ambientais, palestras educativas sobre fauna, flora, caça predatória,patrimônio histórico e reciclagem de lixo, promovidas pela Secretaria do Meio Ambiente.O PMA do Fecundação Compreendemos que o processo desencadeado pelo PMA possibilita percebersignificado da experiência para os sujeitos envolvidos e para a comunidade, ao tempo em que
  • 36. 40 possibilita qualificar as ações desenvolvidas rumo aos objetivos propostos no projeto. Partiu-se da compreensão elementar de que o PLANEJAMENTO é o detalhamento das ações a serem desenvolvidas, o MONITORAMENTO é o acompanhamento das ações, através de registros e informações, e a AVALIAÇÃO é a validação das ações, conforme pensadas e, na medida em que permite analisar as falhas e as potencialidades, possibilita um re- planejamento rumo aos objetivos propostos. Conhecer os passos metodológicos a serem dados é a primeira ação que desencadeia a aplicação da metodologia no trabalho a ser desenvolvido, por isso a realização das oficinas, num exercício teórico-prático que permite, ao mesmo tempo, apropriar-se da ferramenta PMA e exercitá-la dentro do projeto. O ato de planejar já é uma ação que faz parte do nosso cotidiano, se vamos sair de casa, planejamos o que fazer, se ficamos, também planejaremos o que será feito e com que propósito. Neste sentido, definimos o planejamento como uma tomada de decisão compro- metida com as expectativas que temos de algo a ser realizado e com os resultados que ela deve gerar. Na concepção adotada pelo projeto fecundação, o planejamento é uma ferramenta de intervenção da realidade, na medida em que pressupõe inicialmente a análise da realidade para que se possam identificar os problemas nela existentes e refletir sobre a nossa capacidade de intervir. Um problema é sempre algo que incomoda, é uma situação indesejável. O desejo de mudar a realidade nos faz planejar e isso exige: definir objetivos, traçar metas e propor ações. Definir OBJETIVOS é uma forma de antecipar os resultados e processos esperados de um plano de ações. As METAS são mais sólidas e são mensuráveis e por isso mesmo são expressas quantitativamente, estabelecendo prazos para não se perder de vista os resultados, de modo que os objetivos possam ser atingidos. As AÇÕES são as mudanças a serem realizadas e estão intrinsecamente ligadas às metas a serem alcançadas. Um plano de ação contempla outros elementos que traduzem o planejamento, o processo de reflexão e de tomada de decisão, que estão interligados entre si, de modo a expres- sar o desejo de mudança. Convém destacar que o planejamento feito com o propósito de intervir, necessaria- mente o caráter participativo se evidencia enquanto espaço privilegiado de discussão e tomada de decisões. Vale ressaltar que todo processo de planejamento envolve escolhas, decisões e responsabilidades, permitindo o surgimento de questões como: O que fazer? Por que fazer? Como fazer? Quando fazer? Quem irá fazer? Quem se responsabilizará pelos seus resultados? O monitoramento é feito a partir das informações colhidas durante o processo deCáritas Brasileira Regional do Piauí aplicação do planejamento. É uma ferramenta utilizada para reconhecer as mudanças que estão sendo implementadas, através do registro de observações e de dados que irão subsidiar a avaliação e o re-planejamento. Importante ainda que estes instrumentais possam estabelecer uma relação direta com os indicadores de resultados, definidos também no processo de planejamento, desse modo é que o monitoramento busca sempre a relação entre o que foi planejado e o que foi executado. No projeto fecundação, o monitoramento foi realizado, através de fichas, relatórios, pesquisa para o levantamento de dados sobre cada eixo de ação, revelando em que medida os resultados esperados foram sendo alcançados, buscando também revelar as dificuldades encontradas e os encaminhamentos feitos em relação ao que não foi realizado. Quanto à avaliação, esta é uma ferramenta indispensável em qualquer atividade. É, através do olhar avaliativo, que se pode perceber as mudanças significativas, as fragilidades,
  • 37. 41possibilitando ainda, uma reflexão sobre os rumos que estão sendo construídos e se estes sãode fato, o que se esperava construir. A avaliação nos permite refletir sobre nossa prática. Ela é um momento imprescindí-vel para a sistematização. Estando centrada na prática, busca sempre a melhoria, o aperfeiçoa-mento. Na avaliação, é preciso discernir o que são falhas a serem corrigidas e o que são limita-ções a serem potencializadas. É a avaliação, com a ajuda do monitoramento, que vai dar umnovo impulso ao planejamento, guiando-o para os rumos pretendidos. Adotando o enfoque metodológico do PMA na gestão do projeto, a comissãogestora, através de seus componentes, manteve um calendário ordinário de reuniões, quepermitia um acompanhamento sistemático das ações e a motivação dos sujeitos envolvidos atambém vivenciarem esta metodologia. O Sonho construído em mutirão
  • 38. 42 Recursos Hídricos Que a água no planeta é farta, todos nós sabemos. Ela ocupa 2/3 da superfície terres- tre, mas apenas 3% deste volume de água é doce. Esta quantidade, mesmo sendo pequena, seria suficiente se não estivesse distribuída de forma muito irregular. Só para dar um exemplo, nos rios está apenas um milésimo da água do planeta. A maior parte das águas está nos pólos, isto é, muito longe para termos acesso a ela. (MALVEZZI & POLLETO, 2003, p. 23) O problema da falta de água potável é, portanto, uma realidade para todo o planeta, mas a problemática da água no semiárido é mais agravante ainda devido ao clima. As chuvas irregulares e a grande incidência de raios solares fazem com que a evaporação seja mais intensa, influenciando na diminuição das reservas de água. Associada à falta de água está a falta de cuidados com a água, assim como o acesso a fontes de água próprias para o consumo. Segundo a Organização das nações Unidas (ONU), “para cada 100 litros de água que nós usamos, 10 mil litros de água se tornam poluídas”¹. A proposta de educação para a convivência com o semiárido prevê a criação de novas formas de abastecimento de água, bem como a divulgação dos cuidados no armazenamento e gerenciamento das águas, para que a água colhida no semiárido possa ser suficiente para cozinhar, beber e fazer a higiene, e para os animais. Neste processo, o projeto Fecundação buscou a viabilização do acesso à água de qualidade, através das ações promovidas pelo eixo dos Recursos Hídricos, mobilizando as famílias para a construção de cisternas e limpeza das aguadas, visando à apropriação das tecnologias de baixo custo para “colher a água” e gerenciar o seu abastecimento. Os 16 mil litros de água captada através do telhado das casas no período chuvoso garantem o abastecimento para até seis meses. E, dependendo do cuidado da família com sua cisterna, além de suficiente, ela também dispõe de uma água livre de microorganismos que possam provocar doenças e a mortalidade, principalmente, de crianças e pessoas idosas. Resolvido o problema da água para o consumo humano, é a vez de pensar na água para a produção de alimentos, criação de animais e outras necessidades. Nesse sentido, o Projeto Fecundação possibilitou a construção de barragens subterrâneas, limpeza de açudes e barreiros, marcação de poços através da hidroestesia, instalação de Bombas d’Água PopularesCáritas Brasileira Regional do Piauí – BAPs (programa desenvolvido em parceria com a Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA Brasil). Em 2009, o município de Coronel José Dias começou a receber cisternas calçadão, através do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), mais uma parceria com a ASA Brasil. Além da realização de cursos e seminários para capacitar as famílias para o bom aproveitamen- to dessa água que é armazenada, com capacitação de pedreiros para a construção de cisternas e barragens. Tudo isso visando ao aproveitamento dos recursos naturais com respeito ao meio ambiente e reafirmando a importância dessas ações para a saúde e o bem estar das gerações. ¹Cartilha “ÁGUA DE BEBER: encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas”. Cáritas Brasileira, p.13
  • 39. 43 QUADRO 06 PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO RECURSOS HÍDRICOS Atividade Detalhamento ObservaçõesCriada a Comissão de Os diagnósticos foram feitos O levantamento de recursosRH e feitos diagnósticos dando início ao processo de hídricos para ser contido no planohídricos elaboração do Plano Municipal municipal encontra-se em fase de de Recursos Hídricos (PMRH). conclusão, falta uma pequena faixa na zona rural e a sede.Diagnóstico de recursos A secretaria de saúde fez um Água armazenada para o consumohídricos levantamento das barragens humano e dessedentação dos existentes no município – são 14 animais barragens de médio porte.Recuperação do O sangradouro possibilita a O sangradouro se encontravasangradouro da vazão do excedente de água na danificado e sem manutenção, e jábarragem do Berreiro montante da barragem durante o apresentava risco e danos para aGrande reabastecimento evitando o parede da barragem rompimento da parede.Construção de 01 Objetivo de reter a água no A retenção da água no subsolo ébarragem subterrânea subsolo para plantio durante o resultado do barramento feito período seco, construída em local numa vala no solo até o nível da em que as águas se deslocam por rocha. O barramento é feito com caminhos naturais e favoreça o lona plástica. cultivo de alimentos. A barragem subterrânea foi a primeira construída pela Cáritas no regionalLimpeza de 02 Objetivo de aumentar a As barragens com o passar dosbarragens capacidade de armazenamento de anos a cada reabastecimento no água e também melhorar a período chuvoso vai sendo qualidade da água. aterrada com deslocamento do solo pela água. O Sonho construído em mutirãoRealização de um curso Participaram cerca de 20 famílias, O curso é de fundamentalde Gerenciamento em mas a participação não foi em importância, visto que nas análisesRecursos Hídricos para tempo integral, fato que gerou feitas com água de várias cisternas40 famílias do PSF – uma discussão sobre a aparecem coliformes fecais.Programa Saúde na mobilização.Família.Capacitação de 30 As capacitações foram feitas para A contrapartida das comunidadespedreiros no município orientar os pedreiros na na construção das cisternas é a construção das cisternas. mão-de-obra
  • 40. 44 Atividade Detalhamento Observações Construção de 700 Em mutirão onde cada família Cisternas com capacidade entre cisternas entra com a contrapartida de 16 e 20m³ de água. Suficiente para escavação do buraco e acolhida uma família de 05 pessoas beber e do pedreiro durante a construção cozinhar durante o período seco da cisterna. Marcação de 03 poços Técnica milenar de identificação Com a técnica de hidroestesia as (hidroestesia) da água no subsolo. Em Coronel pessoas com sensibilidade Dias, o técnico do Fecundação, energética conseguem identificar na época, Juvenal Antônio de onde tem água, sua profundidade Sousa, foi treinado e chegou a e qualidade. (o IRPAA trabalha marcar três poços cacimbões. com esta temática, identifica e capacita agricultores/as) Seminário Gestão de Para definir um plano diretor Este seminário apontou como Recursos hídricos para gestão dos recursos hídricos meta a construção do PMRH, no município. mas que não foi possível ainda sua realização. Limpeza do açude da Com o objetivo de aumentar a Estes reservatórios com Salininha capacidade de armazenamento de sucessivas recargas de água água para consumo humano e durante o período chuvoso animal. passam a ser aterrados em função do deslocamento do solo pela água. Levantamento de poços A Bomba d`Água Popular – BAP O GT de recursos hídricos nos 1º e 2º distritos de (bomba manual instala em poços percorreu as comunidades Coronel José Dias para tubulares de baixa vazão que identificando poços não o programa Bomba permite a elevação da água). equipados e públicos para a d’Água Popular. instalação das BAPs. O levantamento se estendeu em toda a diocese onde foram instaladas cerca de 70 bombas.Cáritas Brasileira Regional do Piauí Instalação de duas BAP Instaladas em Coronel José Dias comunidade Veredas (segundo distrito) Realização de 08 cursos Foram capacitados cerca de 180 Com duração de 2 a 3 dias as sobre tratamento e multiplicadores. famílias beneficiadas recebem gestão de água informações teóricas e praticas sobre o uso da água e manejo e conservação da cisterna. Realização de 04 Realizada na comunidade com o Com duração de três dias em cada oficinas para construção objetivo de capacitar os pedreiros comunidade. Em mutirão, as de cisternas com as técnicas de construção de famílias garantem a escavação do cisternas de placas. buraco para construção.
  • 41. 45Produção Agropecuária Apropriada É importante que as famílias residentes no semiárido tomem conhecimento de que aregião é caracterizada por um baixo índice pluviométrico e com chuvas muito irregulares. Ossolos são rasos e cristalinos e estão sujeitos a desertificação, por isso não dão condições favorá-veis ao cultivo de culturas anuais como o milho e o feijão, enquanto fonte geradora de renda. Em relação à agricultura familiar, a reflexão sobre o jeito de plantar no semiáridotambém trouxe novas contribuições, principalmente no que se refere às queimadas, pelosprejuízos que elas causam à natureza e ao meio ambiente. Quando o produtor(a) faz a queimada, está matando todos os microorga- nismos que vivem nos primeiros 30cm de 1m² do solo, o que corresponde a mais de 600g de seres vivos nesses espaços, ficando o solo sem proteção, fraco, duro, sem presença de vida e impermeável e obviamente, sem fertilidade. (SOUSA, 2003) A prática de queimadas, o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos são algumas dasatividades que tem empobrecido e contaminado os solos e pondo em risco o ecossistema e avida humana. Nesse eixo, o projeto procurou fornecer aos agricultores e agricultoras as basespara uma produção sustentável, através dos princípios da agroecologia e da agrobiodiversidade. A implantação de tecnologias apropriadas ao uso do solo busca o melhor aproveita-mento para o plantio, como aproveitar a palha e o mato seco para evitar a perda da água pelaevaporação (cobertura morta) e plantar sob a orientação da curva de nível, evitando o plantiono sentido da declividade de solo para aumentar a retenção da água. Conforme assinala João Evangelista Oliveira, coordenador do Programa deConvivência com o Semiárido da Cáritas Brasileira Regional Piauí, “as tecnologias adotadas eque estão sendo utilizadas na agricultura familiar são simples, de baixo custo, ambientalmenteharmônicas, socialmente mobilizadoras e no campo econômico primam pela sustentabilida-de” (impresso, 2009 – anexo). Neste sentido é que as ações do projeto Fecundação em relação à produção apropria-da tiveram como base a produção sustentável no semiárido, numa perspectiva de criar umanova mentalidade no jeito de produzir, proporcionando melhoria de renda das famílias. O Sonho construído em mutirão Para tanto, foi incentivada a criação de pequenos animais (caprinos, ovinos, aves esuínos) que necessitam de pouca água para sobreviver; a melipolinicultura (criação de abelhas)que aproveita a florada existente para a produção do mel, alimento bastante nutritivo e comalto valor comercial; o beneficiamento de frutas com o aproveitamento de árvores nativas –como umbu e caju – para a produção de polpas, doces, compotas, bombons e a famosa cajuínado Piauí; cursos de artesanato; bancos de sementes e de proteínas. Tudo através de cursos decapacitações que deram um incremento na qualidade e no valor da produção das famílias. E estasaprenderam novas formas de comercialização, através da Economia Popular Solidária (EPS). No processo de formação e capacitação desenvolvido pelo Projeto Fecundação, alémdo conhecimento acerca da história da criação dos animais, buscou-se também promover oconhecimento de técnicas como: sistemas de criação e manejo do rebanho: condições sanitári-as, reprodutivas, alimentares e cuidados nas instalações.
  • 42. 46 QUADRO 07 PRINCIPAIS AÇÕES DO EIXO PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA APROPRIADA Agricultura • Inserção de sementes forrageiras na agricultura (sorgo, palma e feijão guandu) - 90 famílias; • Otimização das culturas de caju e umbu com compra de mudas para as famílias; • Curso de técnicas em fruticultura e Capacitação de 20 famílias; • Curso sobre manejo do solo e tecnologias apropriadas; • Aquisição de dois motores para máquinas de beneficiamento agrícola; • Plantação de 33,72 ha. de caju; • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju; • 01 grupo de produtores de caju; • Aquisição de 62 bolas de arame para a melhoria das roças. Criação e manejo de animais Artesanato e comercialização de produtos • Curso de técnicas em artesanato e capacitação de 20 famílias; • Curso sobre gestão e comercialização do artesanato; • Oficina de produção de cajuína; • Organização dos produtores de umbu para criar a cooperativa de beneficiamento dos frutos; • Curso de fabricação de bombons de chocolate com recheio de umbu, castanha e goiaba; • Reunião com o grupo de famílias beneficiadoras de frutas para a discussão sobre identidade de possíveis canais de comercialização no mercado local para a produção existente nos grupos; • Reunião com o grupo de famílias que trabalham com o beneficiamento de frutas para nivelamento de conhecimentos sobre técnicas de venda; • 01 grupo de beneficiamento do umbu; • Curso de aperfeiçoamento dos produtos (cajuína, doces e outros) promovido pelo EMATER – capacitação de 20 famílias; • Capacitação de aproveitamento do potencial do caju; • Oficina de capacitação sobre defumados e embutidos de caprinos e ovinos com assessoria externa; • 01 curso de produção de remédios fitoterápico; • Criação de uma farmácia fitoterápica.Cáritas Brasileira Regional do Piauí Na medida em que as ações aconteciam, geravam novas demandas e outras atividades também foram sendo sugeridas, planejadas e executadas com o intuito de reforçar os objetivos do trabalho em relação à produção apropriada, bem como os objetivos do projeto. São elas: • Reuniões comunitárias sobre desenvolvimento sustentável; • Realização de encontro de intercâmbio sobre artesanato, caprinocultura, apicultura; • Aprovação em dezembro de 2005, junto ao BNB/ SENAES, do projeto de Fundos Produtivos Solidários; • Retomada dos acompanhamentos aos grupos produtivos; • Renegociação das devoluções junto aos grupos produtivos; • Apoio ao projeto Fitoterápico do grupo de mulheres, liderado pela Irmã Ana Maria; • Acampamento e monitoramento das atividades; • Participação no XII Seminário Piauiense de Apicultura.
  • 43. 47Educação Contextualizada Várias construções teóricas em torno da educação contextualizada foram registradasao longo do processo de implantação do Projeto Fecundação, algumas, inclusive, deramsuporte às discussões nos espaços das oficinas pedagógicas, como é o caso dos textos trabalha-dos pelo grupo de assessoria, sendo objetos de reflexão e de apropriação da temática, numaperspectiva de alimentar o fazer pedagógico no semiárido. Destaque-se a contribuição do Instituto Regional da Pequena AgropecuáriaApropriada (IRPAA), pelos serviços de assessoria e parceria durante a execução do projeto eda Rede Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB), pelas experiências acumuladas nesteprocesso que motivaram, e motivam, a vivência de uma prática pedagógica pautada na necessi-dade de se conhecer a realidade, sobre ela refletir e para nela intervir, numa perspectiva dedesconstruir saberes internalizados em torno do semiárido, modificando-se “hábitos, atitudes,valores, comportamentos e conceitos” (SOUSA e REIS, 2003, p.31). As oficinas pedagógicas foram espaços privilegiados de formação e atualização emtorno do conhecimento da proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido,incluindo-se a Educação Contextualizada como base para as mudanças mencionadas e danecessidade de sua implementação nas escolas. Essas oficinas tiveram, portanto, caráterteórico-prático, na medida em que oportunizaram aos professores, professoras, técnicos etécnicas da educação obterem subsídios para o trabalho nas escolas e, a partir das experiênciasdesenvolvidas, refletirem sobre a prática pedagógica. De acordo com o IRPAA, as oficinas pedagógicas: [...] são estruturadas sobre temas que abordam as questões mais específicas como o clima, a água, a geografia, a produção, a estrutura fundiária. Esses temas permitem uma abordagem pedagógica que relaciona esse novo saber com a ação educativa em sala de aula [...] revendo conceitos e investigando os diversos processos que permeiam o ensino-aprendizagem” (SOUSA e REIS, 2003, p.12). As mudanças de atitudes no fazer escolar envolvem relações de ensino aprendizagem O Sonho construído em mutirãonão apenas entre professores, professoras, alunos e alunas, mas também a família e a comuni-dade, na discussão dos processos educativos: planejamento, avaliação, disciplina, dentreoutros. É um processo difícil, porém desafiador, conforme têm manifestado, ao longo daexperiência do projeto, alguns professores e professoras²: Os professores e professoras do município após a realização das oficinas pedagógicas estão mais bem preparados e preparadas para trabalhar e já estão colocando em prática esta nova proposta educacional que é aprender-²Depoimentos feitos em setembro de 2003
  • 44. 48 mos a conviver com o semiárido. E ensinar os alunos, alunas da rede municipal de ensino, juntamente com a comunidade, que a realidade climática do semiárido não podemos modificar, mas podemos desenvolver tecnologias alternativas para vivermos melhor nessa região. (José Roberto – então Secretário Municipal de Educação). Com a educação para a convivência com o semiárido está ocorrendo a promoção de conhecimentos e divulgação de nossas potencialidades para que todos valorizem seus elementos culturais e ambientais, partindo do contexto local, para que haja transformações significativas dentro do nosso convívio diário (Professora Mirian – U. E. Monsenhor Nestor). Com esta nova proposta estamos aprendendo de uma forma descontraída e agradável, com um melhor aprendizado, e que ao analisarmos a realidade dos outros percebemos que aqui é o melhor lugar do mundo (Profª. Regina - U. E. Monsenhor Nestor). Os alunos e alunas: A Educação para Convivência com o Semiárido tem nos ajudado a enten- der melhor o clima, a conviver com a seca e cuidar melhor da nossa proprie- dade (aluna Taiane da U. E. Monsenhor Nestor). A ECSA é importante para o nosso município, pois as pessoas estão aprendendo a sobreviver em sua comunidade e como cuidar melhor de sua roça e animais, e está ajudando a toda comunidade a entender melhor o semiárido (aluno Gilvonete da U. E. Monsenhor Nestor). E as famílias: Passei a conhecer o que era o semiárido a partir do ano de 2002, com a chegada do Projeto Fecundação, e hoje já estamos fazendo silagem, guardando alimentos para os animais (Sr. Gonçalo – comunidade Salininha). Estamos aprendendo a conviver no semiárido e desejamos que nossosCáritas Brasileira Regional do Piauí filhos vivam aqui e não tenham a necessidade de ir embora... (Srª. Maria do Socorro – comunidade Salitre). Sob este eixo foram trabalhadas 09 oficinas pedagógicas, envolvendo os professores e professoras da rede municipal e estadual de ensino e gestores escolares, numa perspectiva de subsidiar estes profissionais na implementação da Educação Contextualizada no município a adotar a Pedagogia de Projetos como eixo da ação da escola, favorecendo a interdisciplinarida- de e transversalidade, e conduzindo o ensino aprendizagem à reflexão da realidade, à compre- ensão dos fatos e fenômenos a ela intrínsecos e ao compromisso de assumir novas atitudes diante da realidade e, assim, produzir conhecimentos. As oficinas cobriram toda a rede municipal de ensino e, no período de 2002 a 2008, foram realizadas 09 oficinas pedagógicas, conforme descrição:
  • 45. 49 QUADRO 08 DESCRIÇÃO DAS 09 OFICINAS PEDAGÓGICASEsp. Temática Período Detalhamento I Clima e água 19 a 21 de abril A partir da temática central, foram abordadas de 2002 outras questões em relação à realidade do semiári- do, com o objetivo de sensibilizar os professores e professoras para a proposta de ECSA. II Recursos 16 a 18 de agosto Reforçou o debate em torno dos recursos hídricos, Hídricos: Clima de 2002 buscando subsidiar professores e professoras para e água e Didática o trabalho interdisciplinar com a temática e do Planejamento discutiu-se sobre a didática do planejamento, numa perspectiva de refletir sobre a prática e de melhorar o planejamento e a sua aplicação em sala de aula.III A criação de 30 e 31 de Foram apresentadas algumas experiências já caprinos e o outubro de 2002 desenvolvidas em sala de aula, ressaltando o manejo de pasto esforço em aplicar a proposta apesar das dificulda- des encontradas. A temática central da oficina permitiu maiores conhecimentos sobre a criação de animais no semiárido.IV Os eixos 09 a 11 de abril Com o objetivo de proporcionar conhecimentos norteadores da de 2003 na teoria cognitiva, foram apresentados e discuti- proposta de dos os eixos norteadores da ECSA e, em seguida, ECSA: natureza; trabalhou-se sobre os conteúdos escolares numa cultura; trabalho e compreensão de que tudo que é trabalhado em sala sociedade/ Conteúdos de aula constitui-se conteúdos, objeto de aprendi- escolares e zagem. Para reforçar os conhecimentos acerca do Agricultura Semiárido, foi apresentada uma exposição familiar dialogada sobre a agricultura familiar. V Pedagogia dos 04 a 06 de junho A pedagogia dos projetos foi apresentada como O Sonho construído em mutirão projetos/ de 2003 sugestão para o direcionamento da prática Ecoturismo/ pedagógica, numa perspectiva interdisciplinar das Aprofundament temáticas abordadas e como instrumento de o das temáticas: análise da realidade e de buscas coletivas de A criação de intervenção. O ecoturismo foi uma temática caprinos e introduzida, buscando refletir sobre as potenciali- Agricultura dades turísticas da região. Temáticas trabalhadas familiar em oficinas anteriores foram retomadas com o objetivo de reforçar o conhecimento da realidade.
  • 46. 50 Esp. Temática Período Detalhamento VI Problematização 17 a 19 de Discutiu-se inicialmente sobre o Projeto dos projetos setembro de Fecundação e a efetivação da proposta de didáticos e a 2003 Educação para a convivência com o semiárido. perspectiva para Foram apresentadas experiências com projetos o letramento didáticos desenvolvidas por algumas escolas e a escolar partir delas reflexões e orientações para melhorar contextualizado a prática, a partir dos projetos. Discutiu-se ainda sobre a escolarização da escrita no semiárido como perspectiva para letramento escolar contextualizado. VII Avaliação 24 a 26 de março A educação do município foi objeto de avaliação diagnóstica da de 2004 diagnóstica para perceber os passos dados em ECSA no torno da construção da proposta de ECSA. município e os Discutiu-se também sobre as questões norteado- princípios da ras e os princípios da formação continuada, formação processo pelo qual passam professores e profes- continuada soras por ocasião das oficinas pedagógicas. VIII Currículo 26 e 27 de maio Inicialmente foi feito uma discussão sobre o contextualizado, de 2006 Currículo contextualizado e, em seguida, um os avanços e estudo do PME (Plano Municipal de Educação). novos desafios Para concluir os trabalhos, foi realizada uma da Educação avaliação da educação contextualizada no Contextualizada município, no intuito de descobrir e delinear os novos rumos a serem tomados na caminhada do processo com a educação. IX Avaliação da 23 a 25 de Realizou-se a discussão do texto final do plano, proposta de outubro de 2006 com o objetivo de definir uma proposta de educação para a educação contextualizada ao semiárido para o convivência com PME e oportunizar a participação da comunidade o semiárido e da no processo de construção do plano. Ao final, foi aplicação do definida a equipe municipal de acompanhamento Plano Municipal do plano, com o compromisso de encaminhar asCáritas Brasileira Regional do Piauí de Educação discussões nas escolas e nas comunidades e de (PME) – Coronel acompanhar o processo de aprovação e imple- José Dias. mentação do plano. As oficinas levaram os professores e professoras à compreensão dos três princípios básicos da convivência: CONHECER (a realidade socioeconômica-política-cultural e ambi- ental, compreendendo as relações e práticas sociais de classe, gênero e geração, bem como a biodiversidade do meio); REFLETIR (sobre esta realidade e produzir conhecimentos) e CONVIVER (fazer a interação dos conhecimentos produzidos com as mudanças pretendidas e educar para a convivência harmoniosa com as pessoas e com a natureza). As temáticas desenvolvidas nas oficinas pedagógicas permitiam aos professores, professoras e demais participantes avaliarem a realidade educacional do município e provocar
  • 47. 51mudanças nas escolas. Também possibilitaram a construção de propostas que subsidiaram oPlano Municipal de Educação (PME) do município de Coronel José Dias, aprovado em 2003. Fruto deste processo de mudança foi o desenvolvimento de projetos didáticoscontextualizados, que teve início em 2002. As temáticas envolveram alunos, alunas, professo-res e professoras em pesquisas da realidade que levaram à reflexão e a ações de caráter transfor-mador. A Unidade Escolar Professora Raquel Ferreira de Oliveira desenvolveu o projetoFolclore que motivou os alunos a pesquisarem sobre as manifestações folclóricas da região,como forma de resgate da cultura local. A Unidade Escolar Monsenhor Nestor desenvolveu o projeto ‘Aprendendo com acaatinga’ que possibilitou uma pesquisa sobre as plantas da caatinga e culminou com a realiza-ção de uma campanha de preservação do meio ambiente. A Escola Manoel Agostinho de Castro do Povoado Lages da Pedra desenvolveu umprojeto sobre as plantas medicinais da caatinga e divulgou as receitas em um informativo. Outras escolas também desenvolveram projetos com temáticas diversificadas, mascontextualizadas no semiárido possibilitando a construção coletiva e a problematização darealidade, motivando o exercício da ação-reflexão-ação de modo a suscitar formas de interven-ção e de mudanças. Conforme a equipe pedagógica do IRPPA, (Impresso, s.d: 2) o trabalho com apedagogia dos projetos “leva alunos/as e professores/as a perceber que há diferentes formas ecaminhos para o aprendizado”, contribuindo para que possam “agir com flexibilidade”,“acolher a diversidade” e “compreender sua realidade pessoal e cultural”. Outras ações foram desenvolvidas no processo de implementação da proposta deEducação Contextualizada, que revelam a organização da comunidade em torno da educaçãono município e na busca de melhoria da qualidade de ensino, dentre elas é importante destacaro processo de elaboração e aprovação na Câmara Municipal do Plano Municipal de Educação(PME). O PME foi aprovado em 2003 pela Lei n° 078/2003, após ter sido debatido nasescolas, em reuniões e seminários envolvendo estudantes, professores, professoras, demaisfuncionários, funcionárias e as famílias. As diretrizes e ações propostas no PME de CoronelJosé Dias foram alimentadas pelas discussões decorrentes das oficinas pedagógicas e pelodesejo da comunidade escolar em ter uma Política Pública Municipal que norteasse a educaçãono município. As discussões geradas em torno dos objetivos e diretrizes do plano, bem como dodiagnóstico educacional do município e de temas relacionados à concepção e prática da O Sonho construído em mutirãoeducação contextualizada (interdisciplinaridade e transversalidade, valorização do magistério egestão escolar) encaminharam-se de modo a definir uma proposta de PME do município. A equipe municipal de acompanhamento do plano ficou assim definida: José Roberto Silva Costa – Secretário Municipal de Educação Juracy Almeida da Costa – Professor Filomena Neiva de Oliveira Santos – Professora Marluce da Silva Costa - Professora Constantino João de Oliveira - Professor Mirian Antonia de Sousa Oliveira - Professora Raimunda Oliveira Lima Costa - Professora Rosineide Brito de Oliveira – Professora
  • 48. 52 O PME de Coronel José Dias é o primeiro no Piauí que afirma a educação contextua- lizada no semiárido como condição de ensino e aprendizagem para a melhoria da convivência com a região, e que delibera ressaltar as marcas de gênero na linguagem textual, reafirmando a predominante presença feminina na sociedade e negando os valores machistas implícitos na gramática e na literatura produzida por mulheres e homens ao longo da história. O PME foi avaliado na IX Oficina Pedagógica para avaliação da proposta de ECSA e da sua aplicação prática. Na oficina foi apresentado aos professores e professoras, pelo então secretário de educação, os limites e possibilidades do plano, bem com as ações que estavam em execução até aquela data. A educação contextualizada, a partir da experiência do Projeto Fecundação, tornou- se a fonte principal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a demanda de vários segmentos sociais com interesse na temática e as entidades, tanto organiza- ções e redes articuladas dentro da convivência com o semiárido, como os órgãos de governos municipais e estaduais. Atividades como as descritas abaixo também foram sendo realizadas, conforme a demanda apresentada seja por professores, professoras, alunos e alunas ou pela própria comunidade: • Duas oficinas de teatro e comunicação; • Semana da água (realizada no município com ampla participação da comunidade escolar); • Confecção de material de divulgação e apresentações em eventos (folder, informati- vo, banner, painel); • Participação na conferência da RESAB; • Realização de 04 oficinas de convivência com o semiárido com as famílias, envol- vendo 180 famílias; • Qualificação de 28 professoras e professores como agentes multiplicadores e multiplicadoras da proposta de convivência; • Oficina pedagógica com coordenadores e diretores de escolas; • Coordenação da exposição de pintura em tela; • Realização de duas atividades de manifestação cultural; • Parceria com município e com o Estado (PPCSA); • Atividades de integração família-escola; • Capacitação continuada do quadro docente; • Criação do sindicato de servidores públicos municipais;Cáritas Brasileira Regional do Piauí • Visitas dos alunos ao parque e ao museu e pequenas oficinas; • Parceria com o Conselho Tutelar presente nas escolas; • Realização de projetos didáticos diversos como: estudo da caatinga, ecoturismo etc.
  • 49. 53Fundo Rotativo Solidário A prática dos Fundos Rotativos Solidários tem uma longa história no Brasil, mas é apartir dos anos 80 que essas ações ganham força junto aos movimentos sociais e diversasigrejas. No início dessa década, percebia-se cada vez mais que as políticas e projetos assistenci-ais pouco contribuíam para alterar as estruturas que geravam o empobrecimento. Situação queainda perdura na sociedade. Para mudar essa realidade, Cáritas Brasileira começou a apoiar os ProjetosAlternativos Comunitários (PACs). Esses projetos são pequenas iniciativas produtivas dedesenvolvimento e de infraestrutura comunitária, financiados com recursos da cooperaçãointernacional. Tais iniciativas eram executadas pelas famílias e grupos na própria comunidade econtavam com a ajuda de pessoas que animavam a ação como voluntárias. A política formatada veio da necessidade de consolidar a idéia verdadeira de promo-ção de cidadania, deixando para trás o assistencialismo, baseada na exigência de contrapartidapor parte de famílias e grupos beneficiados. Várias metodologias foram se configurando eestimulando a criatividade na cultura das comunidades. Assim, o retorno que seria de repasseintegral do recurso aplicado, depois do tempo de carência, podia ser feito também através deprodutos, prestação de serviços, repasse de crias de animais para outras famílias, prática detroca de produtos, banco de sementes e moeda social, entre outras. Nessa caminhada da convivência com o semiárido, foi criado em 2002, a Política deFundos do Projeto Fecundação que surge como uma estratégia de ação para potencializar asustentabilidade. O Fundo Rotativo Solidário foi direcionado para o eixo de Recursos Hídricose de Produção Agropecuária Apropriada, sendo repassados recursos para a construção decisternas e para produção de alimentos da cajucultura e ovinocaprinocultura. No ano de 2006, a prioridade foi o fortalecimento, a ampliação e a consolidação dapolítica de fundos. Para atingir este objetivo, a Cáritas recebeu apoio do Banco do Nordeste doBrasil (BNB), através do projeto de Fundo Produtivo Solidário. Com ele, foi possível fortaleceros grupos existentes, apoiando novos grupos produtivos, atendendo diretamente 90 famílias,cerca de 450 pessoas beneficiadas. O apoio do BNB foi essencial para possibilitar o investi-mento necessário para o aproveitamento racional das potencialidades do semiárido, gerandorenda, qualidade de vida, cidadania e construção novas relações com o clima. Os recursos do Fundo Rotativo Solidário garantiram o apoio financeiro a grupos O Sonho construído em mutirãoprodutivos, com caráter devolutivo. A devolução dos recursos passa a ser total (100% do valorrecebido) para os projetos produtivos de geração de renda. Indexados ao salário mínimovigente. O prazo para a devolução é de 04 anos com carência de até 02 anos. São objetivos centrais do Projeto de Fundos Solidários: • Melhorar as condições de vida das famílias, através da capacitação e de infraestrutu- ra de produção agropecuária; • Viabilizar a comercialização com a melhoria da qualidade dos produtos; • Preservar o ambiente; • Possibilitar a vivência da economia popular solidária.
  • 50. 54 Os fundos produtivos são destinados a ações nas comunidades: Salininha, Salitre, Santa Teresa, Barra do Campestre, Borda, Sítio do Mocó e Santa Luzia. Entre os anos de 2006 a 2008, com os recursos do Fundo foram atendidos: • 09 grupos com criação de Pequenos animais; • 05 grupos de Caprinos e Ovinos - Salininha, Santa Teresa, Barra do Campestre, Borda e Poço do Angico; • 02 grupos de Apicultura - Salitre e Curral de Ramos – 22 famílias; • 02 grupos de avicultura: Sitio do Mocó e Santa Luzia 200 matrizes de aves – 10 famílias; • 381 animais (caprinos e ovinos), 366 matrizes e 15 reprodutores; • 02 grupos atendidos com a criação de galinhas caipiras no Sítio do Mocó e em Santa Luzia - 10 famílias; • Poço do Angico: 09 famílias, 93 animais; • 134 famílias envolvidas; • 664 pessoas envolvidas. O projeto se configurou numa ação importante na busca da sustentabilidade das populações de comunidades vulneráveis no semiárido do Piauí e está sendo uma possibilidade concreta de acesso a crédito para famílias agricultoras na construção de um modelo de desen- volvimento solidário e sustentável, a partir da aplicação de fundos solidários produtivos locais.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 51. IIIA Realidade Impactos da experiência
  • 52. 57Impactos da experiênciano ambiente semiárido Conforme as estratégias metodológicas definidas pelo Programa de convivência como semiárido para o projeto Fecundação, os processos a serem desenvolvidos foram definidos eexpressos em quatro linhas centrais: recursos hídricos, iniciativas produtivas, capacitação deagentes de desenvolvimento sustentável do semiárido e fortalecimento da participação dasociedade civil nas políticas públicas. Essas linhas definiram os eixos de ação, a partir dodiagnóstico realizado no processo de implantação do projeto no município. A implantação da proposta de educação para convivência com o semiárido nomunicípio de Coronel José Dias tornou-se realidade, através da aprovação e implementação doPlano Municipal de Educação (PME). Este é um dos resultados mais significativos da expe-riência, através das múltiplas ações desenvolvidas. No eixo dos Recursos Hídricos pensou-se em superar a problemática da águavivenciada pelas pessoas daquela região, a partir da construção de um Plano Municipal deRecursos Hídricos (PMRH) que orientasse as ações no município e que as famílias pudessemter acesso a água boa, de qualidade e suficiente para o consumo humano, animal e necessidadesdomésticas e produtivas. Embora o PMRH não tenha sido concluído, com o levantamento diagnóstico darealidade hídrica do município foi possível direcionar as ações neste eixo, no sentido de superaras dificuldades de acesso à água de boa qualidade e em quantidade suficiente. Foram mobilizadas diretamente 333 famílias beneficiadas, parte com cisternas eoutra parte com ações em parceria como o projeto das Barraginhas que possibilitou a constru-ção de 300 unidades no município de Coronel José Dias e que armazena água de chuva para aprodução de alimentos. As ações foram consolidadas e culminaram com outras parcerias quevisam a garantir o acesso à água para todas as famílias rurais. O acesso à água de qualidade contribuiu para a melhoria da saúde, acabando com osurto de diarréia no município, amenizou a situação das pessoas com problemas de coluna ehouve também o melhor aproveitamento do tempo, diminuindo as preocupações, sobretudodas mulheres para pegar água em longas distâncias. O acesso à água de qualidade para beber e cozinhar pela captação e armazenamento O Sonho construído em mutirãoda água da chuva, através das cisternas, é uma realidade indiscutível. Por exemplo: uma cisternade 20m³ garante água suficiente para o consumo, apenas para beber, de 05 famílias (correspon-dente a uma média de 30 pessoas) durante o período do verão. Neste processo, novos conceitos foram estabelecidos, novas relações foram constru-ídas. O Projeto Fecundação rompeu os limites do seu território e promoveu mudanças cultura-is capazes de construir novos referenciais de convivência, vivenciando-se um novo paradigma. A comunidade comemora e vivencia o acesso à água de qualidade. As cisternas edemais equipamentos construídos testemunham a nova realidade. Avançou-se na articulaçãopara a construção do plano municipal neste setor, embora os passos dados tenham sidolimitados, no processo de conclusão do levantamento geral dos recursos hídricos, pelas
  • 53. 58 dificuldades enfrentadas, sobretudo quanto à metodologia utilizada no que se refere às atribui- ções e funções das pessoas e órgãos envolvidos. No eixo da produção, em razão da baixa renda obtida pelas famílias do município e da falta de apoio e incentivo às iniciativas produtivas apropriadas ao semiárido, buscou-se a otimização das condições de produção (caprinocultura, apicultura e agricultura) e a promoção da melhoria de renda da população, através da criação de uma Central de Apoio ao Beneficiamento e Comercialização das associações implantadas e em funcionamento, agregan- do valor aos produtos e obtendo melhores condições de vendas. Desta forma, sinalizou-se para a implantação de 21 projetos de geração de renda, beneficiando 653 famílias. Além do aproveitamento do potencial turístico do município, valorizando a cultura local e promovendo o desenvolvimento sustentável da região. Foram mobilizadas 277 famílias de produtores e produtoras que tiveram acesso a capacitações, apoio direto com os recursos do fundo, parte para produção na aquisição de animais e capacitações, realizadas através das oficinas sobre o processamento de embutidos e defumados de carne de caprino e ovino, produção de cajuína, carne vegetal e ração animal de caju, para melhorar a qualidade do produto. O Projeto Fecundação implantou no município cerca de 20 projetos na área de produção e possibilitou a formação, a capacitação e apoio aos grupos de produção, sobretudo na área rural, proporcionando o melhoramento dos rebanhos, maiores cuidados com a criação e com a plantação e o beneficiamento dos frutos regionais, promovendo a geração de renda. Os recursos do Fundo Produtivo Solidário mobilizaram mais três grupos que serão apoiados com projetos de criação de galinhas caipiras. Esses grupos passaram pelas capacita- ções e, após o levantamento de preços do produto, vislumbram a comercialização. Na perspectiva da sustentabilidade econômica e social, buscou-se – através da ação de formação, capacitação e estruturação dos grupos de agricultores e agricultoras – fincar a base para o trabalho de Economia Popular Solidária (EPS). Esta base associa-se à demanda de comercialização, a partir da melhoria da qualidade do produto, da infraestrutura de comerciali- zação e do constante processo de capacitação. No eixo da educação, – através da capacitação de agentes de desenvolvimento sustentável no semiárido, como forma de superação do desconhecimento da realidade com- plexa que envolve o clima e de métodos apropriados ao manejo de recursos hídricos e agrícolas – buscou-se a capacitação de professores e professoras para a introdução desta temática nas escolas do município, sendo estes agentes multiplicadores e multiplicadoras de métodos apropriados de convivência com o semiárido; pensou-se também na mobilização da sociedadeCáritas Brasileira Regional do Piauí através de Jornadas de Convivência para difundirem a proposta. Pelas oficinas pedagógicas contemplou-se a formação de multiplicadores e multipli- cadoras para a convivência com a região, culminando com a construção do PME, uma referên- cia na educação para a convivência com o semiárido no município, que embora represente um resultado ainda tímido em políticas públicas, demonstra que este trabalho foi capaz de subsidi- ar professores e professoras para uma nova prática pedagógica contextualizada bem como orientar na condução e fiscalização do PME de Coronel José Dias. Para o fortalecimento da participação da sociedade civil nas políticas públicas, pensou-se na criação de um fórum funcionando como espaço de articulação de sujeitos para negociação de propostas para o desenvolvimento; na promoção de ações integradas dos conselhos; na participação dos representantes da sociedade civil de forma mais qualificada e autônoma; em um Plano Municipal de Desenvolvimento Sustentável – PMDS, orientando as
  • 54. 59políticas locais; e a participação popular no orçamento público municipal. Entende-se que a comunidade de Coronel José Dias adquiriu condições melhores departicipação na vida do município, reivindicando políticas públicas de atenção à juventude, àscrianças e adolescentes, bem como de questões específicas ligadas à saúde e à educação. E ocumprimento destas, na medida em que é notória a participação das pessoas nas atividades deformação e capacitação, em grupos comunitários, no Programa de Garantia de Direitos daInfância, Adolescência e Juventude (PIAJ), desenvolvido pela Cáritas com representantes desegmentos sociais do município e conselhos de direitos. Apesar de não ter sido criado o PMDS, a ampla discussão que envolveu o PME – quealém das ações de caráter pedagógico também apresenta a dotação orçamentária para a educa-ção do município, bem como a participação efetiva das pessoas representantes dos sindicatos egrupos organizados da comunidade – é um processo de consolidação de uma nova visão departicipação social. Todas as atividades desenvolvidas nos eixos do Projeto Fecundação vão ao encontroda preservação do ecossistema. No aspecto cultural, a ação é fortalecida com o peso da histórialocal, na Serra da Capivara como berço do homem americano e referência da pré-história dahumanidade, mistura de raças, ritmos e religiões. Um povo que desperta, a partir deste referen-cial, para construir uma sociedade pautada no desenvolvimento local. O Sonho construído em mutirão
  • 55. 60 Significado da experiência A experiência apresenta condições de sustentabilidade, a partir dos trabalhos assumi- dos pelas famílias envolvidas. Elas são protagonistas deste processo e demonstram, a partir dos novos conhecimentos adquiridos, que são capazes de dar sequência às demandas de continuidade da proposta de convivência. Exemplo disso é a família do Sr. Sílvio, que mora na comunidade Borda, zona rural do município de Coronel José Dias. Sr. Sílvio foi beneficiado pelo projeto Fecundação, desde o início da sua implantação. Participou de diversas capacitações oferecidas pelo projeto e também da Escola de Formação de Lavradores e Lavradoras promovida pelo IRPAA, em Juazeiro (BA), que oportuniza aos participantes a capacitação para a convivência com o semi- árido, a partir da vivência de atividades na área da produção e dos recursos hídricos. Hoje, a família do Sr. Sílvio desenvolve vários projetos em sua pequena propriedade como a apicultura e o manejo de caprinos e mantém uma horta com a água vinda da cisterna calçadão, construída pelo P1+2, parceria com a ASA Brasil. Além da sua cisterna caseira para uso doméstico, comercializa produtos do semiárido como mudas de mandacaru sem espinho. Para Celmo, filho do Sr. Sílvio, O projeto Fecundação criou várias alternativas de emprego e renda porque aproveita o que tem na própria realidade: o artesanato local, o beneficia- mento de frutos da região e a criação de animais adaptados ao semi-árido (Depoimento colhido em outubro/09). Novas possibilidades também surgiram para outros municípios do semiárido piauiense. No período de 2003 a 2005, o projeto Fecundação foi ampliado com o Programa de Ações Preventivas e Emergenciais de Convivência com o Semiárido, desenvolvendo ações correspondentes aos eixos já trabalhados em Coronel José Dias em mais seis municípios: Bonfim do Piauí, Flores do Piauí, Julio Borges, Lagoa do Barro do Piauí, Pio IX e São João da Varjota. Em 2006, foi a vez dos municípios de Isaías Coelho e Santa Rosa do Piauí serem integrados ao projeto. E em 2009, os municípios de São Lourenço e Itainópolis foram contem-Cáritas Brasileira Regional do Piauí plados. Nos primeiros seis municípios, a proposta de convivência com o semiárido foi trabalhada num recorte temporal menor. Mas acredita-se que a semente plantada foi fecunda- da, considerando que um novo olhar para o semiárido ali instalado se abre para novas perspec- tivas de relação com o ambiente no qual se vive. Em atenção especifica às questões de gênero e gerações presentes na região, a expe- riência do Projeto Fecundação também enfatizou a participação das mulheres e da juventude, conduzindo à reflexão de situações de opressão e injustiça. Percebe-se o papel da mulher na sociedade, bem como o lugar das crianças jovens e adolescentes como sujeitos de direitos a serem preservados pelas suas condições peculiares e em processo de desenvolvimento. É possível dizer do projeto, que ele movimentou as relações de gênero e geração, a partir das novas vivências provocadas pelas mudanças, por exemplo, nas formas de colher a
  • 56. 61água. A mulher do sertão de Coronel José Dias não precisa mais “carregar água na cabeça”,nem submeter suas crianças a este tipo de trabalho, como fazia antes, sobrando mais tempopara se dedicar a outros afazeres como cuidar de si mesma, estudar, cuidar da educação de seusfilhos e filhas, e participar da geração de renda da família. Ressaltemos a experiência do município com os grupos de mulheres na produção,através do artesanato, como o trabalho liderado pela dona Maura, do Sítio do Mocó. D. Mauracom outras mulheres produzem lindas peças do artesanato com referência à arte rupestre daSerra da Capivara, valorizando o que tem na própria comunidade, agregando valores ao que éda terra, aproveitando a potencialidade turística da região para gerar renda. O grupo de mulhe-res está organizando uma cooperativa para favorecer a comercialização dos produtos e aprópria organização da produção e participa de atividades várias de organização e mobilizaçãotanto dentro como fora do município. Para dona Maura, o grande desafio para a sustentabilidade está no poder de mobiliza-ção junto ao poder público: “Falta a prefeitura construir o centro de produção como espaço dedivulgação e de comercialização dos produtos”. Outra experiência importante também é a fabricação de remédios fitoterápicos, quetem como animadora a religiosa Ana Maria, a partir da sua experiência com manuseio deplantas e ervas medicinais. Foi criado um grupo de mulheres com tal fim e o apoio do ProjetoFecundação possibilitou a aquisição de frascos de plásticos e de vidro para adequadamenteacondicionar os medicamentos. Os medicamentos começaram a ser comercializados nomunicípio, com boa aceitação pela população, e são encontrados no salão da paróquia, numavitrine localizada no escritório do projeto Fecundação e com as mulheres participantes dogrupo. Através do Programa de Garantia de Direitos da Infância, Adolescência e Juventude(PIAJ), um programa da rede Cáritas Nacional que conta com o apoio da Cáritas Suíça, daCORDAID e do Fundo Nacional de Solidariedade (fundo da Campanha da Fraternidade),crianças, adolescentes e jovens passaram a ter, a partir da escola e da comunidade, um novoreferencial de organização no município. No Piauí, o Programa é executado nas dioceses de São Raimundo Nonato, BomJesus, Parnaíba, Picos e Teresina e consiste em um trabalho de prevenção à exploração e abusosexual de crianças e adolescentes, do trabalho infantil e gravidez precoce, bem como nocombate e prevenção do uso de drogas na juventude. As ações do Programa vão desde a formação em relação ao Estatuto da Criança e doAdolescente (ECA) às Políticas Públicas, Orçamento Criança, passando pela mobilização dacomunidade, escola, poder público local, desenvolvendo atividades de recreação, arte, cultura e O Sonho construído em mutirãolazer, e promovendo o fortalecimento dos Conselhos. Tudo isso em consonância com aEducação Contextualizada e com a convivência com o meio, colocando todas essas questõesdentro da temática transversal "Protagonismo das Gerações". Em Coronel José Dias, essa ação é desenvolvida com mais de 60 crianças, adolescen-tes e jovens das famílias de trabalhadores e trabalhadoras do projeto Fecundação, pela aproxi-mação de seus objetivos, na medida em que mobilizam a juventude, crianças e adolescentespara a luta pelos seus direitos, tendo na escola um espaço privilegiado destas ações. A educaçãoé o maior espaço social aglutinador e, portanto, força social mobilizadora para o protagonismojuvenil. O projeto Cidadania no Mundo das Letras (CML), ação desenvolvida dentro doProjeto Dom Helder Câmara (PDHC) e em parceria com a Petrobrás, tem possibilitado a
  • 57. 62 descoberta da cultura local em um prazeroso processo de leitura e contagem de histórias. O PDHC envolve as ações do PIAJ e outras ações de convivência com o semiárido, desenvolvi- das no território Serra da Capivara, que contempla os municípios de Coronel José Dias, São Raimundo Nonato e São João do Piauí. Segundo Marcos Pereira, pedagogo que acompanha as ações do PIAJ e coordena o CML, à luz das expectativas das comunidades envolvidas, o projeto: É necessário para melhoria da leitura, escrita e interpretação entre as crianças, adolescentes e jovens e, sobretudo, para a melhoria das relações entre professores/as, alunos/as e toda a comunidade que busca dias melhores para os seus filhos e filhas, através de um processo educativo comprometido com a ética e com a cidadania (Depoimento feito em novembro/2009). Importante também destacar a mística e a espiritualidade como vivência do Projeto Fecundação – alimentada pela Cáritas Brasileira, através de momentos de oração e reflexão das ações à luz do projeto de Deus para todo o seu povo – que assumiu um caráter motivador para as pessoas beneficiárias do projeto. Fonte de fé inspira a esperança de que nesta terra prometi- da, haverá de correr leite e mel sob a proteção do criador e cuidada pelas suas criaturas de forma harmoniosa. As ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação mostram resultados satisfatórios pelo caráter de intervenção e mobilização social para o enfrentamento da realidade local e pelas mudanças implementadas.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 58. 63A visão das pessoasenvolvidas no projeto A sustentabilidade da experiência reside nas ações desenvolvidas pelo projeto emtodos os eixos, que propiciam a aquisição de conhecimentos e informações capazes de tornaras pessoas protagonistas deste processo. Outro destaque está relacionado às parcerias estabe-lecidas durante todo o processo de execução: O poder público dando continuidade e apoio às ações, implementando e executando ações como a construção de barraginhas. A parceria Cáritas/ASA na implantação de cisternas calçadão e barragens subterrâne- as e as ações da Igreja católica em relação ao empoderamento das pessoas, especialmente à juventude e às famílias com projetos sociais (Depoimento colhido durante a Oficina de Sistematização, dez. 2009). No eixo da gestão, é apontado como resultados significativos a gestão democrática,viabilizada pela participação dos diversos segmentos sociais nos processos de planejamento eexecução das ações, acompanhadas pelos grupos de trabalho por eixo, valorizando assim, aparticipação coletiva. Para buscar saber o que pensam as pessoas envolvidas neste processo, sobre osimpactos do projeto na vida do município, em dezembro de 2009, foi realizada uma oficina desistematização com pessoas beneficiárias do projeto Fecundação com cisternas, iniciativasprodutivas e educação contextualizada: professores e professoras; agricultores e agricultoras erepresentantes de grupos de produção (remédios fitoterápicos, artesanato e beneficiamentode frutos) e da comissão gestora do projeto: Sindicato dos Trabalhadores e TrabalhadorasRurais – STTR, Igreja Católica, Secretaria Municipal de Educação e PIAJ e chegou-se a umasérie de conclusões. Das pessoas envolvidas na área de produção e recursos hídricos, buscou-se saber oque representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção daagricultura e produção apropriada. As aguadas e as cisternas trouxeram saúde à população; as O Sonho construído em mutirãofrutas geraram alimentos e renda, proporcionando uma alimentação de qualidade, a partir doque é produzido no próprio local; a carne dos animais é saudável e houve um aumento dacriação de bode e da renda com o abate dos animais. Houve melhoria de renda, a partir do aproveitamento das plantas e animais apropria-dos à região, através do aumento das roças de caju e mandioca e o melhoramento das pasta-gens, bem como do incentivo à criação de abelhas. A assistência técnica ainda não é capaz deatender às demandas e para que as políticas públicas no setor produtivo agropecuário sejam defato atendidas, é necessário que a Secretaria de Agricultura disponibilize uma equipe técnica,para fazer o devido acompanhamento aos grupos de produção nesta área. O processo produtivo foi consolidado – embora ainda haja dificuldades na comercia-lização – através da criação de estratégias de escoamento da produção. Como é o caso da
  • 59. 64 compra direta para a merenda escolar, que poderia absorver os produtos beneficiados advin- dos do caju (como a cajuína) o umbu, o maracujá bem como os embutidos e defumados de caprinos e ovinos e a farinha de mandioca. A casa de beneficiamento de frutas, por exemplo, é uma proposta que vem sendo discutida desde 2003, mas até agora não se efetivou. Os grupos de produção precisam se reorganizar e rever toda a estrutura produtiva que foi implantada com o projeto Fecundação. Já há uma possibilidade, a partir dos apicultores, para que possam viabilizar suas criações para certificação. Quanto à agricultura, falta investir mais em capacitações. Torna-se necessário o apoio do governo e que a prefeitura viabilize o acompanhamento às famílias agricultoras, orientando sobre o andamento dos projetos produtivos, principalmente em relação aos projetos já envia- dos e que não foram aprovados. A realidade política do município, devido às constantes mudanças na prefeitura, dificulta o diálogo com as comunidades e o acompanhamento dos grupos. Para as pessoas, a Cáritas já fez sua parte, mas, para buscar as saídas, precisa-se de acompanhamento. Os partici- pantes da oficina afirmaram ser gratos à Cáritas pelos benefícios recebidos e por isso tentam dar continuidade à proposta de convivência. Das professoras da rede municipal de educação presentes na oficina de sistematiza- ção e da representante da Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) buscou-se saber em que a proposta de Educação para a Convivência com o Semiárido contribuiu para a prática pedagó- gica de cada uma delas, para a prática pedagógica da escola na qual atuam e para a educação no município. Para Naildes, professora aposentada e representante da Igreja Católica na comissão gestora do projeto Fecundação, e Camila, professora e coordenadora do PIAJ, a contribuição está na aquisição de um novo conhecimento sobre o semiárido e como trabalhar o contexto como conteúdo escolar. Pelas informações temos um grande avanço no sentido de falar para os alunos de como conviver com o semiárido. Antes, o recurso era apenas o livro didático. Depois, a própria realidade e o contexto também viraram conteúdo. A abordagem com as famílias ficou mais fácil. A pedagogia dos projetos facilitou a contextualização com várias disciplinas e desenvolve- mos vários projetos envolvendo a escola (Naildes, professora). Para Laurenice, professora, a contextualização a partir das capacitações - adquirindo conhecimento e levando os alunos, alunas e comunidade escolar para campo - contribuiu paraCáritas Brasileira Regional do Piauí a valorização do que existe na comunidade, através do desenvolvimento de projetos interdisci- plinares e da socialização do conhecimento. No início, não foi fácil, principalmente por parte da comunidade escolar. Foi um desafio, porém não somente eu, mas outros professores e professo- ras hoje trabalham a realidade local fazendo o paralelo entre os conteúdos apreendidos e os conteúdos apresentados nos livros didáticos (Profª. Laurenice) Para Filomena, coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação e representante da SEMEC na comissão gestora, as oficinas pedagógicas impulsionaram uma nova educação no município:
  • 60. 65 A partir das oficinas pedagógicas, passamos a adotar a proposta de educa- ção contextualizada para a convivência com o semiárido, levando em consideração os saberes que nossos alunos e alunas já trazem consigo, bem como, aproximar, através do conhecimento, a família para a escola. As aulas passaram a ser embasadas em projetos didáticos, com envolvimento de toda a comunidade escolar e, consequentemente, o resultado na aprendiza- gem está bem visível. Tivemos alguns problemas como a resistência por parte de alguns professores/as, mas, ao longo do desenvolvimento da proposta, eles foram superados (Filomena, SEMEC). Em relação à contribuição da proposta de ECSA para a prática pedagógica da escola,a participação das famílias, a interdisciplinaridade e o envolvimento dos professores e profes-soras de forma coletiva a partir dos projetos – bem como a apropriação dos saberes pelosalunos e alunas a partir da sua própria realidade, como fonte de conhecimento – representam agrande contribuição para a escola do município. Está consolidada uma proposta de currículo escolar no município e o PlanoMunicipal de Educação é a referência da educação contextualizada não somente para CoronelJosé Dias, mas para os municípios circunvizinhos e para o país, considerando as inúmerasparticipações em congressos e seminários nos quais a experiência foi apresentada. A grande limitação do projeto ainda é a mudança de gestão sem a garantia da continu-idade dos profissionais. O desafio é garantir a capacitação de novos professores e professorasque ingressaram na rede após a realização das oficinas pedagógicas e que não têm conhecimen-to da proposta de ECSA. Numa roda de conversa, as pessoas participantes da oficina foram questionadassobre o seu aprendizado em relação à convivência com o semiárido e as respostas apontarampara uma aprendizagem significativa de convivência e da consciência de que esta é a melhorforma de se viver no semiárido. Qual a compreensão sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com osemiárido e o combate à seca? O conhecimento das potencialidades do semiárido levou àvalorização do lugar, provocando mudanças nas formas de ver e de se relacionar com a realida-de e elevando a autoestima. Os cursos e capacitações ensinaram a mudar o jeito de plantar. Com os cursos as famílias passaram a valorizar o plantio de culturas que utilizampouca água e aprenderam formas de estocar água para suprir a necessidade. Aprenderam afazer e estocar a alimentação dos animais e a deixar de queimar o mandacaru, o qual pode sertransformado em uma rica fonte de proteína para as criações. As pessoas aprenderam a conviver com o semiárido, aproveitando suas potencialida- O Sonho construído em mutirãodes, armazenando a água, cultivando plantas adaptadas e preparando a alimentação dosanimais. Como as famílias relatam, elas aprenderam a conviver, começando com a cisterna. Naregião não se bebe mais água suja. Saíram do sofrimento de carregar água na cabeça e, hoje,toda casa tem uma cisterna. A valorização do lugar onde se vive levou a uma aceitação das condições de vida nosemiárido e a convivência foi como uma descoberta da vida possível na região. Essas famíliaspassamos a aceitar morar no semiárido, não precisando mais sair para buscar uma vida melhor.O combate à seca era um processo sofredor para as famílias. Que impactos o projeto causou na vida dos moradores e moradoras de Coronel JoséDias? As respostas obtidas demonstraram que as pessoas aprenderam a fazer o uso racional daágua, fato que ocorre inclusive na zona urbana e que as cisternas já definem bem o que é o
  • 61. 66 Fecundação e o que o projeto representa para o município. Em relatos, ouve-se que a maioria das pessoas toma cuidado com a água, embora haja alguns casos de desperdício. Há, por exemplo, cisternas que não sustentam água porque as famílias não tiveram o devido cuidado com a limpeza e com os reparos. A organização deve ser o caminho para retomar todas as ações que o projeto já implantou no município, pois apesar das conquistas e avanços, as falhas aconteceram e estas se devem à falta de organização das comunidades. “A dependência política das famílias foi reduzida, as pessoas buscam saídas, zelam seus benefícios (pintam a cisterna, cuidam da água, fazem a manutenção de seus chiqueiros)” (Filomena, SEMEC). Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município, após a implantação da ECSA? As respostas revelam falhas no próprio sistema de educação que causa resistências em alguns professores e professoras em relação à necessidade de se atualizarem profissionalmente, principalmente no que se referem ao domínio das novas tecnologias educacionais. O que pode ser visto hoje é que alunos e alunas saem na frente dos professores e professoras com relação ao uso da informática. Há professores e professoras que conhecem a ECSA, mas se acomodam e não se preocupam em se qualificar devidamente. Além da atualização profissional a questão salarial também foi apresentada na discussão como um fator que, às vezes, dificulta o processo educacional porque, nos momen- tos de reivindicação, prejudica-se o ensino-aprendizagem. Embora tenha sido esclarecido o direito dos trabalhadores e trabalhadoras em reivindicarem e buscarem melhores condições de trabalho e isso inclui, necessariamente, a valorização do magistério. Os princípios da educação contextualizada permanecem orientando a proposta pedagógica do município e notadamente, a prática pedagógica dos professores e professoras, promovendo-se o resgate da cultura local e a valorização do lugar onde se vive, mas é preciso melhorar a qualidade do ensino, sobretudo no que se refere às novas exigências tecnológicas, colocando-as a serviço do conhecimento, e à capacitação de novos professores e professoras. Atualmente, são 78 professores e professoras na rede municipal de educação, 06 ainda não tem graduação. Isto representa um percentual baixo (7,69%). No entanto a SEMEC preocupa-se com a formação profissional do corpo docente, visando à melhoria da qualidade de ensino em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE), que exige a formação em nível superior num prazo de 10 anos, encerrando-se, portanto, em 2012. Em que o projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região? As capacitações promovidas nas áreas de produção apropriada, recursos hídricos e educação contextualizada como suporte para a continuidade das ações desenvolvidas, emboraCáritas Brasileira Regional do Piauí algumas delas careçam de mais investimentos em acompanhamento técnico e infraestrutura, garantindo-se assim, a efetivação da proposta de convivência. O acesso à água de beber, através das cisternas, permitiu ao jovem Celmo, mais tempo para estudar, e hoje é professor da rede municipal de educação onde experimenta a multiplicação da proposta de convivência, antes vivenciada apenas na propriedade de sua família onde planta, cria comercializa produtos artesanais e contribui no gerenciamento da água para beber, cozinhar os alimentos, plantar e matar a sede dos animais. A experiência do projeto Fecundação promoveu a sustentabilidade na medida em que propagou o conhecimento do semiárido e possibilitou uma visão diferente de uma realidade, antes tida como terra ruim, seca e sem condições de prosperar. Camilla, professora e coordenadora do PIAJ, sente-se beneficiada pelo projeto pela participação nas oficinas de defumados e embutidos e gratificada por poder contribuir com a
  • 62. 67juventude: “o projeto contribuiu para a promoção da cultura através da capoeira, teatro eoutras festividades com as crianças e com a geração de renda, alcançada a partir das capacita-ções em defumados e embutidos”. O Senhor Otávio, que participou do processo de instalação do projeto no município,hoje se sente insatisfeito com a plantação de caju, pois segundo ele, trouxe prejuízos pessoaisem razão da falta de experiência com o solo e de apoio técnico especializado, mas reconhece opotencial transformador da experiência, a partir dos benefícios trazidos: “o manejo de capri-nos, o acesso a água e a geração de renda para muitas pessoas.” A professora Lucineide é quem diz: “A água - o tratamento, a captação, através dascisternas, o armazenamento e os cuidados com a higienização - foi o grande benefício, assimcomo o beneficiamento de frutas da região”. Para o Senhor Marciano, agricultor e beneficiário do projeto com cisterna de placa, oconjunto das ações desenvolvidas contribuíram para o desenvolvimento do município.“Todos os eixos contribuíram para o nosso crescimento, tanto que foi repassado para outrosmunicípios”. Para Naildes, professora, o conhecimento veio a partir das assessorias externas,inclusive de outros países. Segundo ela, “a troca de experiências com outras realidades erelações construídas com outras pessoas de culturas diferentes eleva a autoestima das pesso-as”. Irmã Inês, representante da paróquia e animadora do PIAJ, expressou sua opiniãosobre a sustentabilidade da experiência: contribuiu totalmente para a melhoria da qualidade de vida e para a cidada- nia. A libertação de tanto sofrimento causado pela água é uma grande ajuda para o ser humano. O PIAJ é fruto do processo de convivência. A mística da Cáritas incentivou a vivência da cidadania e a valorização da pessoa humana (Ir. Inês - PIAJ) O Senhor Sílvio afirmou a sua gratidão à Cáritas, que na opinião dele, é formada degente confiável e não escondeu a sua felicidade ao dizer que “a Cáritas é mãe. Foi muitoimportante porque trouxe bastante benefícios. Só tenho a elogiar a iniciativa da Cáritas querealmente ajudou a muita gente.”. Filomena, professora e coordenadora pedagógica da SEMEC, falou dos desafios dese construir a sustentabilidade da região: “os pontos negativos nos impulsionam ao desafio. Oprojeto Fecundação foi e ainda é, uma lição. O grande desafio é a organização das pessoas emgrupos, no sentido de organizar a produção e a comercialização”. Ivomar, membro da comissão gestora e técnico do EMATER, falou do processo de O Sonho construído em mutirãodemocracia na construção do conhecimento para a execução das ações. É o conhecimento um elemento forte de sustentabilidade do projeto Fecundação e um instrumento de democracia. A sistematização é prova deste processo. O fortalecimento da democracia é o que há de se destacar, pelo caráter das ações. A herança maior é o conhecimento, expansão para outras regiões, países etc., a participação que possibilita as pessoas serem protagonistas deste processo é a grande força do projeto (Ivomar – EMATER)
  • 63. 68 Laurenice, professora na Comunidade das Lages, desde 1995, falou do significado do acesso à água na comunidade e classificou como uma vitória muito grande para as famílias sair do sofrimento que representava a busca pela água. Destacou também a importância da Educação Contextualizada: Não existia uma pratica de educação. Seguia-se o livro, professor e profes- sora não poderiam criar. Com as capacitações/oficinas passamos a ter visão diferente. Havia professores que tinham vergonha de se expressar, mas a participação nas oficinas abriu horizontes. Ainda falta melhorar, mas as pessoas incorporam e vivem a ECSA.” Os depoimentos colhidos na entrevista coletiva pela comissão gestora e na oficina de sistematização revelaram a satisfação das pessoas com a experiência desenvolvida no municí- pio e o desejo de continuidade, e demonstraram a certeza de que chove em Coronel José Dias não somente água enquanto recurso natural, mas também a chuva do conhecimento, que transforma a vida no sertão.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 64. 69Projeto Fecundaçãocomo Política Pública Hoje o projeto fecundação chega ao longo de sua trajetória como referência daCáritas em Educação Contextualizada na convivência com o semiárido, eixo fortalecedor daconstrução de um novo referencial para a educação escolar. Esta ação tornou-se a fonteprincipal de dados e informações para subsidiar as políticas públicas, atender a demanda devários segmentos sociais com interesse na temática e para as entidades, tanto organizações emredes articuladas dentro da convivência com o semiárido como os órgãos de governos munici-pais e estaduais. O grande desafio agora, é que as ações desenvolvidas pelo projeto Fecundação setornem políticas publicas de modo a garantir melhorias das condições de vida das populaçõesdo semiárido. Esta é, portanto, uma experiência que, apesar das dificuldades, demonstra a capacida-de de fecundar ações transformadoras de hábitos e costumes revelando a força e resistência dopovo do semiárido e, através deste processo de aprendizagem de um novo jeito de convivercom a realidade, novas sementes estão sendo fecundadas com a esperança de continuarproduzindo novos frutos. Constituem-se, portanto, DESAFIOS de acordo com cada eixo de ação trabalhado:GESTÃO • Ampliação das parcerias, viabilizando novos convênios; • Animação da comissão gestora para dar mais agilidade às ações; • Divulgação da experiência; • Melhor funcionamento dos grupos de trabalho por eixo; • Melhor comunicação com o regional da Cáritas; • Maior envolvimento da comunidade no projeto; • Vivenciar a gestão compartilhada; • Melhorar o relacionamento institucional: projeto e paróquia; O Sonho construído em mutirão • Desafiar o poder público a manter o apoio às ações; • Definir melhor o compromisso das parcerias; • Tornar o projeto uma política pública no município e no estado; • Dar sustentação às ações desenvolvidas pelo projeto; • Tornar a comunidade mais atuante e com maior compreensão do projeto; • Fazer uma avaliação dos impactos do projeto na comunidade; • Organização interna dos grupos de trabalho.RECURSOS HÍDRICOS • Concluir o plano municipal de recursos hídricos; • Tornar a construção de cisternas uma política pública no município;
  • 65. 70 • Viabilizar mais recursos para cisternas e demais obras hídricas; • Agregar os agentes de saúde nas ações deste eixo; • Melhorar a gestão dos recursos hídricos. PRODUÇÃO AGOPECUÁRIA APROPRIADA • Consolidar os grupos com a produção e melhoria do produto; • Viabilizar a comercialização na perspectiva da Economia Popular Solidária – EPS; • Integrar-se a redes de comercialização e produção agroecológica; • Consolidar o fundo produtivo solidário e rotativo; • Fortalecimento da organização dos grupos de produção; • Promover a auto-sustentação do projeto; • Compromisso coletivo com as práticas de preparação dos produtos e derivados; • Criação de novos grupos de produção de alimentos com o fundo solidário. EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA • Maior participação da família na escola; • Incentivo aos professores e professoras para a prática de leitura e atividades extra- classe; • Acompanhamento pedagógico aos planejamentos escolares; • Multiplicação da proposta oportunizando aos novos professores/as a apropriação da proposta de ECSA; • Construção dos projetos políticos pedagógicos da escola em consonância com a proposta pedagógica do município; • Planejamento participativo da proposta curricular do município; • Viabilizar o PME enquanto política pública. Esta proposta é uma possibilidade de construção de uma cultura de solidariedade, pela experiência de relações democráticas e pela ampla divulgação do conhecimento, apontan- do perspectivas de sustentabilidade, através da continuidade das suas ações assumidas tanto no plano individual, como coletivo, ressaltando-se a responsabilidade do poder público em viabilizar as condições de vida digna à população.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 66. 71Referências BibliográficasBRITO, Walderes. Encontros comunitários sobre o gerenciamento de águas. CEBI/CáritasBrasileira, 2004.BRAGA, Osmar Rufino. Educação e convivência com o semi-árido: introdução aos funda-mentos do trabalho polítcio-educativo no semi-árido brasileiro. In: Educação no contexto dosemi-árido brasileiro. KÜSTER, Ângela & MATTOS, Beatriz (Orgs.). Fortaleza: FundaçãoKonrad Adenauer, 2004.CÁRITAS BRASILEIRA. Água de beber – Encontros comunitários sobre o gerenciamentode águas (s/d).CÁRITAS BRASILEIRA. Projeto Fecundação – uma ação pedagógica de intervenção napolítica de convivência com o semi-árido. In: Caderno de experiências apresentadas noSeminário sobre desenvolvimento solidário e sustentável. (s/d) p. 11 a 13.CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Planejamentos do Projeto Fecundação,2002 a 2009. (impresso).CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Programa de convivência com o semi-árido piauiense – Projeto piloto de Coronel José Dias, setembro de 2000. (Impresso).CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios das oficinas pedagógicas,2002 a 2006. (impresso).CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios de atividades do projetofecundação 2006 a 2008. (impresso).CÁRITAS BRASILEIRA REGIONAL DO PIAUÍ. Relatórios de encontros de PMA, 2001 a2004. (impresso).CARVALHO, Lucineide Dourado. A emergência da lógica da “Convivência com o semi-árido” e a construção de uma nova territorialidade. In: Educação para a convivência com osemi-árido – Reflexões teórico-práticas. (ORG. RESAB): 2004.GONÇALVES, Ana Maria: PERPÉTUO, Suzan Chiode. Dinâmica de grupos na formação delideranças. 7ª ed. DP&A: 2002.IRPAA. A busca da água no sertão – convivendo com o semi-árido. Juazeiro, 2001.IRPAA.- Equipe Pedagógica. Pedagogia de Projetos. IMPRESSO: s/d.IRPAA – Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada. Plano de FormaçãoContinuada – Educação para a convivência com o semi-arido. Equipe Pedagógica, março de2003 (Impresso).LIMA, Maria de Moura Fé; ABREU, Irlane Gonçalves de. O semi-árido piauiense: vamos O Sonho construído em mutirãoconhecê-lo? Teresina: Nova Expansão, 2006.LÜCK, Heloísa et. Alli. A Escola participativa – o trabalho do gestor escolar. 5ª ed. Rio dejaneiro: DP&A, 2001.MALVEZZI & POLLETO. Bendita água – Cartilha produzida pela Cáritas Brasileira eComissão Pastoral da Terra-CPT para a Semana da Água. Brasília, março de 2003. P. 23MATTOS, Beatriz H. O. de Mello. Natureza e sociedade no semi-árido brasileiro: um processode aprendizagem social? In: Educação no contexto do semi-árido brasileiro. KÜSTER,Ângela & MATTOS, Beatriz (organizadoras). Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2004.OLIVEIRA, Iran Morais de. In: Editorial. Boletim Projeto Fecundação JULHO/AGOSTO2004PME – Plano Municipal de Educação – Aprovado em 2003 pela Lei n° 078/2003, CoronelJosé Dias - Piauí, novembro / 2003. (Impresso)
  • 67. 72 PROJETO FECUNDAÇÃO: Atas de reuniões da comissão gestora: 2001 – 2008 PROJETO FECUNDAÇÃO: Slides: Experiência do Projeto Fecundação/ ações do projeto fecundação 2001 – 2008/ Água para produção PROJETO FECUNDAÇÃO: Vídeo-carta debate SOUSA, Ivânia Paula Freitas de; REIS, Edmerson dos Santos. (org.) Educação para a convi- vência com o semi-árido: re-encantando a educação com base nas experiências de Canudos, Uauá e Curaçá. São Paulo: Petrópolis, 2003. SOUZA, João Francisco. Por que sistematizar? In: O que é sistematização? Uma pergunta. Diversas respostas. CADERNO 1. CUT: São Paulo: 2000. P.35 SME – Secretaria Municipal de Educação. Educação para a convivência com o semi-árido – “A caminhada em Coronel José Dias”. Setembro/2003 - cartilha SME. Informativos da Secretaria Municipal de Educação: AGOSTO/2002; NVEMBRO/2002; JUNHO/2003; OUTUBRO/2003 – Coronel José Dias OLIVEIRA, João Evangelista Santos. Produção de alimentos, tecnologia apropriada e segu- rança alimentar. Novembro, 2009 (anexo) SOUSA, Juvenal Antonio de. Agricultura familiar. In: Guia de orientações básicas de convi- vência com o semi-árido – tecnologias alternativas. Coronel José Dias – Piauí, julho/2003. Cartilha, p. 2 UNIDADE ESCOLAR MONSENHOR NESTOR. Projeto Aprendendo com a caatinga. Coronel José Dias, setembro a novembro/2002 (Impresso). UNIDADE ESCOLAR MANOEL AGOSTINHO DE CASTRO, Plantas medicinais da caatinga - informativo. Coronel José Dias – Piauí (s/d); (Impresso) U. E PROFª. RAQUEL FERREIRA DE OLIVEIRA. Projeto Folclore – Relatório final. Coronel José Dias, 18 de agosto de 2002. (impresso)Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 68. AnexosTextos,depoimentos eroteiros
  • 69. 75Educação Contextualizada -Educação Para Convivência com o Semiárido³ O problema da Educação no Brasil é conjuntural e estrutural, um indicativo de que aspolíticas educacionais devem atuar nos espaços de onde podem verter as bases estruturais dosproblemas educacionais, tais como: currículo não contextualizado, evasão escolar, falta dequalificação e capacitação profissional, dentre outros problemas, que impedem e/ ou dificul-tam o acesso universal à escola pública, as condições de permanência na escola, por isso a baixaescolaridade e a oferta de ensino público e gratuito de qualidade. No semiárido, a referida problemática conta com a agravante da SECA, facetacomum e muita conhecida, veiculada como a causa base de todos os problemas por que passaesta região brasileira. A seca não é causa dos problemas sociais vivenciados no semiárido,como também não é questão a ser combatida. A seca é fenômeno natural, agravado pela açãohumana de exploração e devastação do meio ambiente, apresentando-se hoje não comoproblema a ser combatido, mas como uma condição de vida que exige ações e relações deconvivência, adequadas às especificidades da região. Carecendo, pois de que se desenvolvamcostumes e hábitos voltados para a construção e efetivação de uma relação de convivência, emsubstituição à relação de exploração do meio assim como, carece de políticas públicas quepossam atuar na recuperação dos graves danos já provocados ao meio ambiente; preservar oque ainda não foi destruído; estimular a criação de relações de convivência com o meio;estimular o processo produtivo apropriado às condições do semiárido; planejar e democratizara gestão dos recursos hídricos. Uma Política Educacional apropriada à realidade semiárida, cuja natureza se traduzana preparação das pessoas para a convivência com a realidade do semiárido, é um dos meios aser potencializado, em todas as suas dimensões, especialmente, a educação escolar, por ser olugar de produção e reprodução do saber de forma sistemática. O artigo 225 da Constituição Brasileira assegura o direito a todos a um “meio ambi-ente ecologicamente equilibrado”, entendendo este como um “bem de uso comum do povo eessencial à sadia qualidade de vida” devendo o poder público e a coletividade “defendê-lo epreservá-lo para presente e futura gerações”. Desta forma garante a necessidade de uma“educação ambiental em todos os níveis de ensino”, bem como a “conscientização pública O Sonho construído em mutirãopara a preservação do meio ambiente”. A política educacional brasileira através da Lei de Diretrizes da Educação preconizaum ensino contextualizado, conforme artigo 26: “os currículos de ensino fundamental emédio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada em cada sistema de ensino eestabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais elocais da sociedade e da clientela” e, em seu artigo 12, tratando da incumbência dos estabeleci-mentos de ensino, prever também a articulação com as famílias e a comunidade, criandoprocessos de integração da sociedade com a escola. Tratando especificamente das populações³O texto é parte do referido PME e define a Educação Contextualizada.
  • 70. 76 rurais, característica predominante na realidade semiárida, a lei também dá abertura para as adaptações necessárias às suas peculiaridades, devendo adotar: “conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural” (alínea I, art. 28 da Lei 9.394/96). Desta forma, a educação para a convivência com o semiárido é urgente e necessária na medida em que promove o conhecimento da realidade, evidenciando suas potencialidades, promovendo e valorizando toda e qualquer espécie de vida ali existente, buscando uma relação harmoniosa e de colaboração com a preservação da vida. A proposta de educação para a convivência assume quatro eixos norteadores de sua prática: Natureza, Trabalho, Sociedade e Cultura, tendo como referência os quatro pilares para a educação: Conhecer, Fazer, Conviver e Ser.Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 71. 77Construir novas relações de gênero e geraçãopara uma boa convivência com o semiárido 4 Hortência Mendes5 Igualdade tem sido a tônica pela qual perpassou toda a teoria e a luta do movimentofeminista nacional e mundial historicamente. Igualdade de direitos. Igualdade de responsabili-dades com a vida de todos os seres existentes no planeta. Igualdade de participação, de oportu-nidades, de desenvolvimento de potencialidades físicas, espirituais, emocionais, sexuais eintelectuais. A ONU – Organização das Nações Unidas estabeleceu a igualdade entre os sexos e aautonomia das mulheres como uma das oito metas do milênio, com o fito de melhorar ascondições de vida de todos os povos. Sem autonomia é impossível construir igualdade, semigualdade, as condições de vida dos setores tratados desigualmente deixam muito a desejar. Promover e estabelecer a igualdade entre mulheres e homens, pessoas jovens eidosas, negras e brancas, etc.; só é possível respeitando-se as diferenças e construindo a equida-de de direitos. É na diferença entre gênero/raça e geração que se constrói a vida com toda a suarica diversidade e, no momento em que essas diferenças são respeitadas, como fator importan-te na vida de cada pessoa, é que se inicia o processo de construção da cidadania real e plena. O movimento feminista desnudou as desigualdades existentes entre as mulheres e oshomens que geraram e ainda geram para as mulheres muitos problemas como: violência, triplajornada de trabalho, desemprego, subemprego, fome, miséria, analfabetismo, mortalidadematerna, pobreza, desigualdade salarial e morte, para mencionar alguns dos problemas. Durante décadas afinco, o movimento feminista denunciou para toda a sociedadeessa problemática e apontou saídas para coibir essa situação; mesmo assim, a situação só tem seagravado a cada ano e, em que pese os avanços consideráveis, a situação de vida da mulher nomundo e no Brasil ainda requer um tratamento especial e diferenciado em relação aos homens. O mesmo podemos dizer ao nos referimos às crianças, adolescentes, à juventude etambém às pessoas idosas. Os problemas relacionados a essas gerações são na sua maioria,problemas relacionados aos desrespeitos à vida, à violência intrafamiliar, de rua e institucional.Vivemos em um mundo de homens adultos normalmente brancos e ricos. As políticas, os O Sonho construído em mutirãoprivilégios, as leis, as oportunidades, os direitos são voltados especial e prioritariamente paraesse público, e então se dão as desigualdade e as injustiças. A forma de fazer política como aconhecemos em nosso País, historicamente, é marcadamente masculina e adulta, provavel-mente por que faz pouco tempo – menos da metade de um século - que as mulheres e a juven-tude ensaiaram uma participação mais efetiva na sociedade. Não estamos nos referindo apenas ao direito de votar e ser votada ou votado, mas, aofazer político de uma forma geral. Dirigir e organizar a sociedade de todas as formas, sob todosos aspectos; econômico, político, social, religioso, educacional e cultural, passando também4Texto produzido especialmente para este documento5Coordenadora político-pedagógica da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 72. 78 pela organização social do espaço familiar, enquanto espaço primeiro de socialização das pessoas. Todo esse processo durante séculos foi tarefa exclusiva dos homens adultos. Às mulheres e à juventude foi relegado o espaço doméstico e periférico, por excelên- cia. Toda a engenharia e sinergia social é uma atividade masculina, chegando a se considerar em dado momento da história como algo genético. Acreditou-se por décadas que as mulheres eram incapazes de realizar tais ações, assim como as pessoas idosas, os jovens, adolescentes e as crianças eram tolhidas de todo e qualquer poder de decisão. Durante séculos perdurou essa dicotomia de gênero e geração retrógrada. Às mulheres era destinado o espaço privado. Aos homens, o espaço público, tendo sido dado à palavra “público” significados diferentes conforme a quem é adjetivado. O homem público é aquele que toma as decisões, é o executivo, o político. A mulher pública é a prostituta que está à disposição de todos os homens (Michelle Pirrot). Por tudo isso a política enquanto expressão da vontade de uma sociedade, em nosso país caminha sempre incompleta. As mulheres, maioria da população, não participam, não dirigem, não tomam as decisões. Fato que retira o poder das mãos de mais de 50% da popula- ção brasileira, sem contar com a juventude e adolescência. Toda essa realidade é a mesma no nordeste que estava presente historicamente no imaginário do povo brasileiro, inclusive das populações que aqui viviam, como um nordeste de grandes secas, de fome, miséria, que provocavam, por sua vez, migrações de milhares de pessoas. Famílias inteiras se retiravam para outras regiões do país em busca de melhores dias. Essa odisséia nordestina virou poema, música e sentimentos de dor e saudade. Ao sair, às famílias perdiam seu vínculo cultural, seus laços familiares, sua relação com o tipo de produção e das formas de trabalho aqui existentes. Muitas pessoas migravam para nunca mais voltar. Com o passar do tempo esse fato foi se transformando e percebe-se hoje que a migração é vista e realizada enquanto uma demanda masculina. Migração é problema de homens. Eles é que iam embora, se permitiam mudar de vida, buscar novos horizontes, iam em busca de liberdade. Liberdade financeira, liberdade de compromissos. E essa sua liberdade nunca era vista como a escravidão para as mulheres. As consequências desastrosas da migração atingem também as mulheres em cheio no sertão nordestino, por exemplo. Os homens iam embora, em busca de outra vida, e deixavam as mulheres sozinhas, a cuidar das famílias. Na maioria das vezes, eles não voltavam mais e suas famílias (muitas famílias) (segundo dados do IBGE, cerca de 15% de famílias com um só cônjuge, é chefiada por mulheres), ficavam e ainda ficam a mercê das mulheres, que por sua vezCáritas Brasileira Regional do Piauí tinham que se redescobrir como dirigentes, lideranças, organizando e resolvendo todos os desafios impostos pela falta dos companheiros. Esse fenômeno da migração leva homens adultos, mas também jovem. Deixando pra trás mulheres, crianças, adolescentes e pessoas idosas. As mulheres nunca eram reconhecidas como trabalhadoras, mesmo que sempre trabalharam, nunca ganharam e ainda não ganham nenhuma notoriedade por trabalhar dias inteiros em jornadas intermináveis entre a roça, o rio, a casa, a comunidade, a igreja. Não há políticas públicas para esse segmento social que durante muitas décadas viveu no anonimato, sustentando suas famílias sozinhas. “Viúvas da seca” foi como ficaram conhecidas no semiárido nordestino. Mulheres que tiveram que romper com preconceitos, reaprenderam a ser uma nova mulher, pois tudo o que aprenderam na sua socialização (ser submissa, ser protegida, ser provida por outros), nada
  • 73. 79disso dava mais conta da vida que elas tinham que levar depois que ficavam sozinhas, depoisque os homens migravam. Mais uma vez a desigualdade de gênero se impõe. Os homens mesmos, os maispobres, os migrantes ainda tem privilégios, saem, vão em busca do futuro melhor, de saláriomelhor, de vida melhor, mesmo que não encontre nada disso. As mulheres ficam no lar, noespaço privado, sem nenhuma estrutura, sem nenhum recurso extra, só com seu aprendizadode ser uma nova mulher solitariamente. Cuidar da família é, na maioria das vezes, esquecer-se de si mesmas para as mulheres.Pesquisas realizadas demonstram que as mulheres nordestinas, principalmente no semiárido,comem menos que os homens e as crianças, pois são sempre elas que distribuem a comida emcasa e sempre são as últimas a comer. Primeiro os homens, depois as crianças, depois aspessoas idosas e só aí a mãe pode comer do que sobrar. Essas mulheres também dormem menos, pois são as primeiras a acordar e as últimasa irem para o descanso noturno. Se a família precisa de água e de outras coisas que estão fora decasa é sempre a mulher que tem que providenciar, sempre bem cedo da manhã. Toda essa discrepância é muito nítida no semiárido piauiense. Para promover umanova relação de convivência com o clima, há de se ter como prevalência das ações, essasquestões político-culturais estabelecidas nas relações de gênero e geração. O Sonho construído em mutirão
  • 74. 80 Produção de alimentos, tecnologia apropriada e segurança alimentar João Evangelista Santos Oliveira 6 A ação da Cáritas Brasileira Regional do Piauí no que refere à segurança alimentar e a produção de alimentos nos remete as inúmeras campanhas de arrecadação e distribuição de alimento já realizadas e, dentre elas, resgato aqui, a de 1998, onde foi arrecadado cerca de 1 (um) milhão de quilos de alimentos e distribuídos para a população do semiárido piauiense. As campanhas continuam, sejam em situação de estiagem ou de enchentes. A ação da Cáritas com a produção de alimento tem início com a mobilização das comunidades de base, isso lá na década de 80. Ali se fazia o trabalho de organização de grupos comunitários tendo como foco viabilizar um apoio para se produzir alimentos e também o seu beneficiamento. Muito se fez até então, tivemos bons resultados, uma centena de grupos com projetos de roças comunitárias, casas de farinha, campos agrícolas, produção de pequenos animais, dentre outros. Concluímos que os pequenos agricultores de então, e hoje, denominados de agricultores familiares ainda têm muitos problemas para viabilizarem sua produção. Segundo o IBGE (censo 2006) cerca de 68% da produção de alimentos básicos vêm deste segmento. Isso mostra que a força gera economia, mas não gera distribuição que garanta segurança alimentar. Dentre as dificuldades enfrentadas pelas famílias agricultoras para viabilizar a produção aparece a ausência de políticas que garantam a assistência técnica, a semente, a terra, tecnologias adequadas, crédito, etc. A conjuntura mudou, passaram-se governos e estes problemas continuam. A ação da Cáritas vem vivenciando estes problemas. Buscamos várias maneiras de enfrentá-los, percebemos dois caminhos: o primeiro, insistir na organização, fortalecimento da comunidade e na apropriação de conhecimento; o segundo, o caminho da construção do conhecimento que se começou a ver a relação com o meio ambiente e a adoção de tecnologias apropriadas, através de processos agroecológicos. Diante desta caminhada de vida, a ação da Cáritas no semiárido solidifica com a implantação do projeto Fecundação, e com ele veio a consolidação da proposta de EducaçãoCáritas Brasileira Regional do Piauí para a Convivência com o semiárido – ECSA. Com o projeto Fecundação, a produção de alimentos se fortalece, as famílias passam a adotar as tecnologias apropriadas para a convivência com o semiárido. Veio então a mobilização das famílias, os eventos de formação, as visitas, com estes conhecimentos sendo introduzidos. A produção de alimentos envereda pelo caminho da diversificação. As famílias começam a adotar as tecnologias. Começamos com as plantas adaptadas como o cajueiro, as pastagens cultivadas com sorgo e guandu. As famílias agriculto- ras já utilizavam a palma como planta adaptada num processo de troca de conhecimento e construindo “passos de convivência”. 6Coordenador do Programa de Convivência com o Semiárido - PCSA da Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 75. 81 A produção de alimentos começa a dar frutos, pois com a adoção de tecnologiasapropriadas pelos grupos, buscamos a aproximação plena com a natureza, com o ambientesemiárido, disso resultou a diversificação da produção. A experiência do fecundação registra aprodução de “comida” vindo dos roçados, dos quintais, das hortas familiares, de caprinos eovinos, da apicultura, das “galinhas caipiras” dos porcos e das frutas nativas (produçãoverticalizada do umbu) e (produção verticalizada do caju). Toda esta potencialidade veio a tonacom a presença viva do projeto Fecundação. As tecnologias adotadas e que estão sendo utilizadas na agricultura familiar sãosimples, de baixo custo, ambientalmente harmônicas, socialmente mobilizadoras e no campoeconômico primam pela sustentabilidade. As famílias que estão vivenciando estes processosconfirmam a importância de usar a cobertura orgânica para reter água no solo, a importânciados inúmeros reservatórios de água (cisternas, barreiros, barragens subterrâneas, açudes...). Asformas de captação de água, ao lado ou ao redor das plantas como as microbacias. A bombad`água popular – BAP (bomba manual instalada em poços tubulares de baixa vazão quepermite a elevação da água). Seleção e armazenamento de sementes, plantio de forrageirascomo a leucena e uso racional da mata ou com maior intervenção no bioma caatinga.Aproveitamento do esterco dos animais no cultivo de alimentos. A produção de alimentos é uma realidade, garante para as famílias a geração de rendae segurança alimentar é resultado da organização e do uso de varias tecnologias adotadas evalorizadas. Neste processo que consideramos consolidado junto aos grupos de famíliasenvolvidas, o projeto Fecundação viabilizou como alimento primeiro o acesso a água dequalidade. Veio com os recursos hídricos eixo prioritário da ação da Cáritas e mobilizou asfamílias para “fazerem água”. Isso significou e resultou na apropriação das tecnologias deconstrução de cisternas, “água de beber e para cozinhar”. O Sonho construído em mutirão
  • 76. 82 Depoimento “Pessoalmente, aceitei o desafio de contribuir com este processo pelo fato de ter vivenciado parte (boa parte) da experiência, quando exercia a assessoria pedagógica do projeto através da Cáritas. Retornar à experiência, assumindo este papel é como se estivesse resgatando uma dívida com a entidade, com o projeto e com a população do semiárido, pelo fato de, ter me afastado do projeto ainda em andamento (2004), em razão de compromissos profissionais assumidos em outra instância e que não podia fazer uma recusa, nem tampouco conciliá-los, pois se tratava de um concurso público. Considero o documento final de sistematização como um pouco de cada um e cada uma de nós, que contribuímos para a sua viabilização e, sobretudo, para a viabilização do projeto fecundação.” Rosângela Ribeiro de Carvalho - Professora da rede pública, ex-assessora do projeto Fecundação e organizadora desta sistematizaçãoCáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 77. 83Roteiro para entrevista ENTREVISTA COLETIVA - COMISSÃO GESTORA01 – EM RELAÇÃO AO ACOMPANHAMENTO DAS AÇÕES DO PROJETO:- Como vem sendo desenvolvidos o acompanhamento e o monitoramento das ações em cada eixo doprojeto: Educação – Recursos Hídricos - Produção - Gestão- Quais as maiores dificuldades encontradas no desenvolvimento do projeto Fecundação?- Que resultados, vocês consideram significativos neste processo?- É possível perceber o fortalecimento da participação da sociedade civil na elaboração, implementaçãoe controle social de políticas púbicas do município? De que forma?02- EM RELAÇÃO Á QUEBRA DE PARADIGMAS:- Que atitudes/ações dos sujeitos da experiência no município revelam mudanças de comportamentoem relação ao modo de vida no semiárido?03- EM RELAÇÃO ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS:- A relação entre poder público e população revela alguma mudança neste processo de implantação doprojeto?- Que sustentabilidade tem as suas ações, caso o projeto Fecundação saia do município?- Que mudanças foram efetivadas pelo poder público na educação do município, após a aprovação doPME?ENTREVISTA COLETIVA - OFICINA DE SISTEMATIZAÇÃO1. O que representa para o município e para as famílias agricultoras e produtoras a adoção da agriculturae produção apropriada?2. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a sua práticapedagógica?3. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a práticapedagógica da escola?4. Em que a proposta de educação para a convivência com o semiárido contribuiu para a educação domunicípio?5. Qual a compreensão de vocês sobre a mudança de paradigma em relação à convivência com osemiárido e o combate à seca?6. Que impactos o projeto causou na vida dos moradores de Coronel José Dias?7. Como podemos perceber a melhoria da qualidade de ensino no município após a implantação da O Sonho construído em mutirãoECSA?8. Em que o Projeto Fecundação contribuiu para o desenvolvimento sustentável da região?ENTREVISTA COM AGRICULTORES (AS)/ PEQUENOS PRODUTORES (AS) RURAIS:01- Você continua plantando ou cuidando de sua criação da mesma forma que há 10 anos atrás?02- Se houve alguma mudança, o que mudou? Por quê?03- As condições de trabalho hoje podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê?04- E as condições de vida podem ser consideradas melhores ou piores que antes? Por quê?05- Como você vê o acesso à água, hoje, no município? Como era antes?06- Você deixaria o município para morar em outro lugar. Por quê?
  • 78. Fecundar é fazer brotaro alimento da terra...Fotografias
  • 79. 87 Tive sede e me destes de beber (Mt 25,35) O Sonho construído em mutirãoA buscada água
  • 80. Cáritas Brasileira Regional do Piauí 88 piloto para o projeto A preparação
  • 81. 89Lançamento do projeto O Sonho construído em mutirãoEscritório do projeto nomunicípio deCoronel José Dias
  • 82. Cáritas Brasileira Regional do Piauí 90 da água A bênção
  • 83. 91Limpeza da barragem da comunidade São Pedro Produtores de Mel da Comunidade Salitre O Sonho construído em mutirão
  • 84. 92 Beneficiamento de frutas Produção de cajuína Produção de mudas de caju - Fazenda MaravilhaCáritas Brasileira Regional do Piauí Intercâmbio de experiências - visita a Uauá (BA)
  • 85. 93 Montagem dos apriscos Estoque de silo O Sonho construído em mutirãoManejo de caprinos
  • 86. Cáritas Brasileira Regional do Piauí 94 pedagógicas Oficinas
  • 87. 95SemanaCultural Teatro O Sonho construído em mutirão Atividades extracurriculares
  • 88. 96 Tive fome e me destes de comer (Mt 25,35)Cáritas Brasileira Regional do Piauí
  • 89. 97 ...fecundar é fazer brotar umsentimento de convivência de dentro de cada pessoa que vive no semiárido. O Sonho construído em mutirão