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Ressignificação

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Mudanças na estrutura social/cultural, interferindo nos sentidos dos objetos.

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  • 1. Ressignificação Mudanças na estrutura social/cultural, interferindo nos sentidos dos objetos Os objetos materiais são referidos às variadas modalidades designificados criados pelo Ser Humano confrontado à realidade no decorrer dasua trajetória histórica. Reconhecidos como detentores de significações e, emvirtude deste entendimento, dizem respeito à função de representação ou desimbolização e qualidade que é atribuída aos objetos pelo campo da cultura, oque permite caracterizá-los tendo a base conceitual repousando na ordemsimbólica. CHARTIER (1990, p.19). White (1978) acredita que todo comportamento humano se origina nouso de símbolos, sendo que o exercício da faculdade de simbolização que criaa cultura e o uso de símbolos é que torna possível a sua perpetuação. Ocomportamento humano é um comportamento simbólico. Uma criança Homotorna-se humana somente quando é introduzida e participa da ordem defenômenos superorgânicos que é a cultura. Logo, a chave deste mundo e omeio de participação nele, segundo o autor, é o símbolo. Assim, o ser humano,num primeiro momento antes de utilizar os símbolos, viviam instintivamente,isto é, apresentavam as reações que um animal apresentaria. Pela lei daseleção natural, eles evoluíam, mas ainda não possuíam consciência disso. Neste mesmo pensamento, Jung nos fala que naturalmente os sereshumanos começaram a decodificar alguns significados da realidade a suavolta. Em um segundo momento, quando as habilidades mentais ultrapassamum ponto crítico, desperta a consciência. Nasce a cultura. Símbolos tornam-seconscientes à medida que a seleção natural exige alternativas mais elaboradaspara vida. A partir daí, inicia-se a peregrinação coletiva da cultura para saberquem é e o porque existe o ser humano. Nascem às religiões, as filosofias, asconcepções de mundo. A consciência coletiva busca o entendimento interior eexterior. Compreender a si mesmo e ao mundo que o cerca. JUNG (1980). Para Damazio (2008), os artefatos não existem fora das relaçõessociais. A relação entre usuário e produto sempre inclui o outro, sejafisicamente, seja em pensamento, e, assim então, os artefatos são mediadoresde relações sociais. Ela nos acrescenta: “o percurso social de produto se dá
  • 2. junto ao usuário e fora da vista do designer. Mas não de sua imaginação. Issoequivale dizer que os designers podem planejar a forma das relações sociaisque seus produtos vão promover”. Podemos então pensar que nós, seres humanos, somos capazes decriar símbolos ou mesmo criar coisas e dar a elas um significado especial. Mastambém podemos alterar os significados que alguns objetos já possuem? Se analisarmos a história da evolução humana, poderemos perceberclaramente que neste processo evolutivo, o homem em muitas situações sóobteve um real progresso tecnológico à medida que ele foi atribuindo novossignificados a cosias que já existiam. Em uma passagem no tempo de 12 mil anos atrás, representada emapenas alguns segundos, o diretor de cinema norte americano Stanley Kubrick,em sua produção cinematográfica “2001 uma Odisséia no Espaço”, de 1968,produziu uma encenação de um grupo de hominídeos que estavam quase seextinguindo pela fome e se auto-destruindo na luta pela sobrevivência, até quea descoberta da ferramenta (um pedaço de osso de animal morto) por parte deum dos hominídeos, permitiu que ele permanecesse no seu habitat, evoluindoaté o ponto em que a sofisticação crescente da ferramenta lhe possibilitasseviajar através da galáxia. A ferramenta-arma que o hominídeo utilizou pode serencontrada hoje em uma loja de departamento no formato de um cassetete,ainda muito utilizada pela polícia militar e outras. Filme 2001 Uma odisséia no espaço
  • 3. Neste sentido, acreditamos que o ato de “designar” significados a coisasexistentes já esta incorporado nas atribuições do designer desde os primórdiosde sua atuação reconhecida pela sociedade. E esta atribuição de significadosesta diretamente ligada aos processos sociais e culturais as quais o serhumano esta submetido. Mas para entendermos melhor estes processos, é preciso estar atentosao comportamento que se estabelece na sociedade, a partir da formaçãodesses vínculos que na maioria das vezes é invisível e que se constroem oscírculos de relacionamento com as marcas e os objetos de desejo, que naquelemomento é uma relação de fidelidade, mas que a qualquer momento, pelaefemeridade dos tempos, será trocada por outra que dê mais benefícios para oindivíduo em questão. Atualmente se fala muito na cultura midiática da pós-modernidade paratentar entender esse processo de fascínio e envolvimento volátil que o serhumano cria em torno de si e dos outros que o rodeiam. Lipovetsky (1989) nos afirma que não há dúvidas quanto ao sucessodessa cultura, uma vez que o principal contributo dela foi e é a possibilidade deevasão a qualquer momento, o que atrai cada vez mais o sujeito pós-moderno.Ela se torna um envolvente necessário para o quotidiano, responsável por criarsituações, possibilitar novas sensações, produzir sonhos e levar coisas a cairno esquecimento. A cultura midiática afirma a efemeridade dos dias e da sociedade,possibilitando milhares de relações animadas e inanimadas ao mesmo tempo,encurtando espaços e barreiras geográficas. Evidentemente, esse processo foiacelerado pela globalização, onde as pessoas querem tudo ao mesmo tempoindependente da distância, ainda mais com o auxilio da virtualidade para qualnão existe tempo e distância. Essa cultura se transforma num tipo de “víciosocial” uma vez que o ser humano se distancia (ao menos por algum tempo) dasua realidade, de tudo de bom e mal que o rodeia até mesmo por condição dequerer se tornar outros personagens por instantes, como exemplo os avatares1.1 O termo avatar, popularmente, se refere às figuras que são criadas à imagem e semelhança do usuário humano, dessa forma uma pessoa pode ter vários personagens na rede virtual, usando de avatares, ou seja, bonecos produzidos virtualmente.
  • 4. A globalização esta afetando a sociedade de modo brusco, ocorrendoum enfraquecimento identitário nacional, pelos efeitos produzidos a partir dessefenômeno consequente da modernidade. É possível verificarmos estaafirmação ao analisarmos o que acontece a nossa volta, como por exemplo,jovens brasileiros utilizando acessórios que são frutos da identidade de outrospaíses. É possível que o consumo de modo globalizado, junto ao fluxo culturalentre as nações esteja criando a possibilidade de uma identidade partilhada, naqual pessoas com raízes diferentes mesmo distantes territorialmente busquemconsumir os mesmos produtos e serviços, sendo que são públicos das mesmasimagens e mensagens. Para o consumo as diferenças culturais se reduzem a uma moedaglobal, tornando-se linguagem de todos através da homogeneização cultural2.As informações chegam em questão de segundos, são instantâneas, são“internetizadas”, multiplicando-se, sendo disseminadas sem fronteiras. Temosde ter em mente que as comunidades virtuais, não são somente frutos dodesenvolvimento tecnológico, mas também da fragmentação das identidadesculturais que ocorre no mundo atualmente. A cultura de massa que a globalização gerou esta permitindo ao serhumano outras conquistas muito além das satisfações e possibilidades nocampo das emoções e com isto houve uma reordenação das relações, criandonovos estilos de vida e padrões sócio-culturais. Segundo Lipovetsky, novosreferenciais ideológicos incorporados pela sociedade são capazes dedisseminar massificadamente novos modelos existenciais, inclusive auxiliandofortemente a forma de individualização moderna, onde afirma um bem-estarsocial através de realizações individuais perpassando por detalhes maisíntimos da essência do ser-humano. É o voltar para si próprio antes de sevoltar para o mundo que lhe aguarda. Com isto, gera-se todo um movimento demudanças comportamentais, o que claramente reflete nas atitudes deconsumo, onde outras necessidades e posturas são geradas. Lipovetsky (1989,p.297).2 PROCHET, Neysa. Corpo, Identidade e Globalização. Disponível em: www.achegas.net/numero/30/neysa_30.pdf. Acesso em: 13/04/2011.
  • 5. Importante ressaltarmos que a mídia não apareceu para desintegrar asociedade, mas para anunciar a informação e com isto tornar o sujeito livrepara criar seus próprios conceitos, que rodeiam o seu cotidiano. Assim, oindividualismo é reforçado por permitir a opinião e a comparação, dando-lhe opoder para direcionar a vida e suas escolhas. Para Lipovetsky (1989), são os meios de comunicação, como a internet,que desenvolvem um novo modo do sujeito interagir com a sociedade, criandoassim uma nova relação dos indivíduos com o saber. O que orienta asociedade depende cada vez menos dos padrões e amarras sociais, osconteúdos efêmeros que são comunicados sãos os que exercem a função deenvolver as atitudes e opiniões pós-modernas, desta maneira a estabilidade efirmeza são mais liquidas tendo em vista as explosões de notícias e rapidezque essas vêm e vão. Para Fontoura (2006), na sociedade midiática em que vivemos, asmercadorias são consideradas, cada vez mais, como sujeitos repletos derepresentações, interagindo com os indivíduos, construindo novassingularidades, a partir das diferenças e das identidades dos estilos de vida. Oautor defende a ideia que existe uma necessidade humana em se relacionarcom a visualidade. Desde necessidades imediatas e práticas, passando ànecessidades mais elevadas de auto-expressão a partir de um estado deespírito ou de uma ideia. Fontoura (2006). Lipovetsky (1989) defende que o fascínio entre sujeito e objeto que éestabelecido nesta atual sociedade midiática e que esta envolto emsignificados e fetiche, desperta no indivíduo o encanto, a necessidade desonhar, de consumir, o que o faz ignorar completamente a retórica de algunsautores que afirmam que a mídia tem uma arma que tira a capacidade doindividuo de pensar e de agir, ou seja, essa ideia é ultrapassada, já que osujeito tem a liberdade de escolha a partir da cultura de total informaçãoliberada pela mídia. O autor defende a ideia que nenhum anúncio publicitário,por mais sedutor que seja, convencerá os consumidores pós-modernos aabdicarem da liberdade de escolha que arduamente conquistaram. “A mídianão consegue fazer com que desejem o indesejável”. Torna-se importante entendermos que na cultura de um produto, todosos valores produzidos são comunicados através de signos estratificados e de
  • 6. imagens representativas, o que implica na fetichização do mesmo. Se por umlado podem ser apagados os rastros das relações sociais que o produziram,por outro, abre-se espaço para outra esfera dotada de significações einterpretações que proporciona um jogo lúdico reforçando o fetiche do objetode design na sociedade midiática. Então, poderíamos dizer que neste sentido,uma reformulação de significados pode acontecer naturalmente ou de formaplanejada pelos designers? A mídia, que é uma ferramenta reforçada pela sociedade pós-moderna,reflete os detalhes sociais em imagens e posteriormente em bens simbólicos,com extremos potenciais, tendo em vista os desejos do consumidor. A intensavelocidade com que as necessidades são criadas pela indústria para oconsumidor gerou uma intensificação da oferta de bens de consumo em nossocampo visual, trazendo para este a liberdade e ao mesmo tempo aresponsabilidade de um discernimento ao escolher o produto mais adequadoao seu estilo de vida. A sedução, tanto dos objetos por si só, quanto destes ao seremanunciados na mídia, parte do pressuposto do jogo do fetiche. A mensagemque é levada ao expectador é cada vez mais glamorosa, assim é estabelecidoum vínculo entre aquela imagem e a pessoa que observa um vínculo quetransforma os elementos intangíveis dessa comunicação em desejo depertença, em vontade de possuir aquele produto. Não existe mais nenhum tipo de obstáculo para ter aquilo que se desejae que pode estar do outro lado do oceano. As necessidades agora são criadase produzidas muito tempo antes do consumidor imaginar que irá precisardaquilo. É um verdadeiro ciclo, um movimento de obsolescência dos produtosque não para. Os produtos nesta sociedade contemporânea já ultrapassam a esfera dafunção e da estética, vão além de serem belos. Agora o produto virou um “sersocial”, um sujeito inanimado. Esses elementos que envolvem o objeto sãocriados a partir do vínculo que o ser estabelece com o mesmo e no meio destecaminho, está a mídia, que deixou de comunicar o sintético e objetivo, paraagora comunicar experiências, sensações, falar de signos e de elementos queentram na vida das pessoas e instigam novos desejos.
  • 7. “Uma pedra é uma coisa, e só se tornará objeto quando forpromovida pela indústria humana das “recordações” e “lembranças” àdignidade de peso para papéis com uma etiqueta de preço e qualidade”.Moles (2001, p.33).ReferênciasCHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações.Trad. Maria Manuela Galhardo. Lisboa: DIFEL, 1990. p.13-28. (ColeçãoMemória e Sociedade).DAMAZIO, Vera. MONT’ALVÃO, Claudia. Design Ergonomia Emoção. Rio deJaneiro: Mauad X FAPERJ, 2008.FONTOURA, Miriam. O poder da marca e uma construção de estilo de vida:um estudo de caso dos alunos da PucPr. Disponível em:http://www.pgsocio.ufpr.br/docs/defesa/dissertacoes/2006/Miriam-Fontoura_2006_sociologia.pdf. Acesso em: 13/04/2011.JUNG, Carl G. Tipos Psicológicos. Tradução Lucia Orth. Vozes. Rio deJaneiro, 2011.LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero. A moda e seu destino nassociedades modernas. São Paulo: Companhia da Letras, 1989.MOLES, Abraham. O kitsch. São Paulo: Perspectiva, 2001.

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