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Curral da morte Curral da morte Document Transcript

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL INSTITUTO DE GEOGRAFIA, DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE – IGDEMA CAMILA COSTA CAVALCANTE LICENCIATURA EM GEOGRAFIA SÍNTESE DO LIVRO “CURRAL DA MORTE”, DE JORGE OLIVEIRA MACEIÓ – AL JANEIRO DE 2014
  • Introdução No ano de 1957 o Estado de Alagoas foi palco de um dos dias mais sangrentos de toda sua história política. Houve aqui o lendário embate de 35 deputados dentro da Assembleia Legislativa. Conta-se, que mais de mil tiros de metralhadora e revólver foram disparados e, desde então, Alagoas nunca mais foi a mesma.Famílias digladiaram-se num processo que perdurou mais de trinta anos, sendo, algumas delas, quase extintas, como é o caso da família Mendes, por pistoleiros a serviço de políticos gananciosos. Dentre os 35 deputados envolvidos somente um está vivo: Geraldo Sampaio. Esta tragédia não se restringiu, porém ao cenário político da Assembleia Legislativa. Arrastou-se em mais de vinte anos, depois que os Mendes, inconformados com a morte do patriarca Humberto, passaram a perseguir seus inimigos. Diante de todo esse clima de terror, Alagoas carimbava páginas policiais do país inteiro, quase como uma cadência. Fotografias do acontecido, dos deputados que chegavam à casa portando metralhadoras sob suas capas, rodaram o mundo, bem como dos deputados feridos, que ainda empunhavam suas armas. O grande gargalo de Alagoas, no entanto, está na política, na disputa por terras e no grande latifúndio. Os políticos não modificam nada; preferem a manutenção dos velhos feudos eleitorais do que um estado aberto, saudável e economicamente competitivo. E os latifúndios, nas mãos dos usineiros, não permitem que Alagoas se modernize, sendo o principal produto de sua economia, a cana-de-açúcar. Produto esse que pouco ou quase nada contribui para a modernização do estado. Cicerone da morte Viver em Alagoas é mesmo perigoso? É. Lá o verbo viver se conjuga com morrer. Era o que confirmava o jornalista Zito Cabral, profundo conhecedor dos emaranhados do Sindicato do Crime, isento e respeitado no seu
  • trabalhoprofissional. Em um rápido passeio pelo centro de Maceió, sempre apinhado de gente, à medida em que se avança pelas ruas, Zito enumerava, como cicerone da morte. Em cada rua do centro, havia uma história, uma morte, um morto: - Só aí nesse bar que você está vendo, o Bar do Chope, já teve umas dez mortes. A última faz poucos dias, quando um policial, o Aguiar, morreu em um tiroteio. Caiu ali, tentando se agarrar à mesa do bar. Continua: - Quer saber de uma coisa? Se você colocar uma cruz no local de cada crime ocorrido no centro da cidade, ninguém caminha. Virá cemitério. Teatro de guerra Naquela sexta-feira, 13 de setembro de 1957, quatro meses depois de aprovado o relatório do deputado Teotônio Vilela pedindo impeachment de Muniz Falcão, o dia amanheceu ensolarado. A movimentação intensa em Maceió era incomum para uma véspera de fim de semana. A cidade acordara nervosa. Na praça D. Pedro II, onde se localiza a Assembleia, aos poucos iam chegando os partidários do governador Muniz Falcão, os “turistas”, como eram chamados os jagunços na época, os comunistas, e os policiais militares que apoiavam os capangas oficiais, protegidos pelos deputados governistas. No local havia muitos policiais militares e do Exército, mesmo assim, não foi possível evitar que os deputados aliados Abrahão Moura, Antônio Moreira, Claudenor Lima, Luiz Malta Gaia e o vice-líder Humberto Mendes, que tinha a companhia de seu filho Valter, cruzassem a praça rumo à Casa. Os simpatizantes de Muniz chegaram cedo e se dispuseram em posição estratégica na praça. Alguns resguardaram-se na Catedral Metropolitana de Maceió, localizada ao lado da Assembleia, acompanhados de Dom Adelmo Machado, o então arcebispo da cidade, que envolveu a igreja nas negociações, procurando uma saída pacífica para o impasse. Para provar que falavam sério, dois deputados, Humberto Mendes e Oséas Cardoso, adversários ferrenhos, deram demonstrações do que aconteceria dali em diante.
  • O pai de Oseas era João Cardoso Paes, da cidade de Viçosa, terra de Teotônio Vilela. Vivia da agropecuária até ir para Maceió, com seu filho ainda jovem, onde passou a trabalhar com hospedagem. Deixou para trás algumas intrigas, intrigas essas que já as tinha como encerradas. Porém, em 1949 alguém o fez lembrar que suas dívidas provenientes da política, em Viçosa, ainda não haviam sido saldadas e, assassinado foi, em seu próprio estabelecimento. Oseas Cardoso foi um homem muito admirado no estado graças à sua bravura e coragem pessoal com que enfrentava as adversidades. Conquistou o respeito da população e dos aliados político. Em seu cargo de deputado estadual, vingou a morte de seu pai, matando a tiros Luiz Campos Teixeira, provável articulador do crime, então chefe da Casa Civil, no governo de Silvestre Péricles. Durante as investigações ocorridas em sessões na Assembleia Legislativa, Oseas foi ovacionado pelos admiradores de sua bravura, que aplaudiam o deputado que fez justiça pelas próprias mãos. O processo foi arquivado e Oseas ficou com fama de valentão. Aos seus 93 anos, disse a jornalistas para uma edição especial dos 50 anos do impeachment: - O governador (Muniz Falcão) e os deputados governistas afirmavam que o impeachment só passaria por cima dos seus cadáveres... e que o sangue derramado “daria no meio da perna”. Uma viagem no tempo Sempre que sai de casa, Roberto Mendes corre os olhos pela vizinhança, pois sabe que, para ser assassinado, não é difícil. Hoje, é um pacato pai de família, mas guarda na memória, fortes lembranças de vinte anos de guerra. No centro dessa trama está o poder político e econômico de uma família, os Mendes, quase dizimados pelas balas dos pistoleiros, muitos dos quais seus assalariados. O pai de Roberto era o deputado estadual Humberto Mendes, morto no famigerado confronto na Assembleia Legislativa, em 1957; o irmão Robson, foi emboscado em Palmeira dos Índios, por Zé Gago e Zé Crispim, seus pistoleiros; Valter, o outro irmão, morto a tiros no centro de Maceió; e, ainda, D. Eurídice, a mãe, vítima de um atentado na varanda de casa que, por pouco, escapou.
  • O cenário sangrento dessa história é a Alagoas das décadas de 1950 e 1970. Se olharmos com atenção o mapa de Alagoas, veremos que tem o formato exato de uma pistola. A coronha ao norte, onde fica a capital, Maceió; o cano aponta para o sertão pernambucano; e o gatilho fica em Palmeira dos Índios. Essa história de dor, luto e extrema violência começou, ironicamente, na região com forma de gatilho. Palmeira dos Índios começou com uma capelinha de tijolo e taipa, construída por Frei Domingos na Serra da Boa Vista em 1773. Sempre foi uma terra de valentes, e Humberto Mendes, o pai de Roberto, era um deles. Era bem sucedido. Os filhos estudavam na melhor escol, o Educandário Sete de Setembro, na Praça da Independência. Década de 1950. Os irmãos Mendes foram estudar no Recife. Roberto ficou em Palmeira dos Índios acompanhando o pai na campanha de Arnon de Mello para o governo do estado. Arnon de Mello foi eleito pela União Democrática Nacional (UDN). Grupos e famílias rivais aproximavam-se perigosamente da política. A UDN parece pequena demais para conter tantas inimizades. Humberto Mendes filiou-se ao Partido Trabalhista Nacional(PTN), criado por Arnon de Mello, que funcionava como uma espécie de linha auxiliar da UDN. – Em Alagoas, toda família tem um assassino ou um assassinado. Naquela terra, quem não morreu, já matou – dizia o alagoano Tenório Cavalcanti, conhecido, também, por si fazer acompanhar de sua inseparável “Lurdinha”, metralhadora que conduzia sob sua capa de chuva. Antônio, pai de Tenório, fora assassinado quando esse ainda era menino. E assumiu a família para que não tivessem o mesmo fim. Deixou o povoado onde nasceu até conseguir se mudar para o Rio de Janeiro, onde fixou residência até morrer, em 7 de maio de 1987. O assistencialismo e fisiologismo na região pobre de Duque de Caxias popularizaram Cavalcanti, conduzindo-o à política. Elegeu-se vereador em 1936 em Nova Iguaçu, representando o distrito de Duque de Caxias, e deputado estadual em 1946. Foi eleito deputado federal por três vezes, até se candidatar a governador pelo Rio de Janeiro em 1960, obtendo 220.000 votos, 23% dos votos válidos. A com a ditadura militar, em 1964, encabeçou a lista das pessoas que tiveram seus direitos políticos suspensos,
  • encerrando assim, sua carreira política. Quando a cadeia de matança e vingança entrou na família Mendes, Roberto era pouco mais que uma criança. No trajeto de Palmeira dos Índios até Quebrangulo, um carro levava cerca de 30 minutos. O motorista que conduz um passageiro por essas bandas do interior leva sempre um acompanhante, mas, por via das dúvidas, não larga não de uma peixeira. Em Quebrangulo, na vila São Francisco, há Antônio Fernandes de Amorim, beato franciscano, que beirava os 35 anos de idade, ergueu primeiro uma igrejinha. O romeiro ficou com fama de santo após uma romaria até a cidade de Batalha, onde os fiéis fincariam enorme cruz que carregavam. O candidato que ganhasse a proteção do beato milagreiro garantiria, no mínimo, mil votos. Humberto Mendes batizou uma das crianças do beato e ganhou seu apoio ao candidatar-se a deputado estadual em 1954. – O beato começou a misturar religião com política – revela Valdemar de Souza Lima, historiador, aliado de Remi Maia e do prefeito Juca Sampaio. Um dia, ao voltar da roça, à noitinha, o beato viu um luz piscando em um poste. Foi buscar uma escada para trocar a lâmpada e, ao subir, levou um tiro só. Humberto Mendes financiou as buscas para a polícia, e o assassino do beato, um pernambucano conhecido como Catucá, foi preso em São Paulo. No processo, figuram como mandantes Juca Sampaio, Remi Maia e seu irmão Ari Tenório, e Rubens Amorim, cunhado e Valdemar de Souza Lima. O então deputado Humberto Mendes leva a família para Maceió. Roberto faz o ginasial enquanto Valter se prepara para a faculdade de Direito. Apenas Robson permanece em Palmeira dos Índios, para cuidar dos negócios. Em Maceió, a irmã mais velha, Alba Mendes é apresentada ao governador Muniz Falcão. Inicia-se então o namoro e, em janeiro de 1957, o casamento. Casou-se, porém, num momento delicado, quando havia perdido o apoio de nove deputados, para a oposição. Seus adeptos diziam que ele começou a perder forças ao apresentar um projeto de lei que criava uma taxa de educação que incidiria sobre a produção do açúcar. O presidente da Assembleia Legislativa na época, o fornecedor de cana-deaçúcar Lamenha Filho, seu adversário político, reconhece que os produtores de cana não gostaram. A campanha de Muniz acirrou-se quando, em fevereiro de 1957, foi assassinado a tiros, em Arapiraca, o deputado udenista e médico Marques da Silva. O suposto mandante seria Claudenor Lima, aliado dos Mendes.
  • Adorado pelos pobres e pelos funcionários públicos, Muniz Falcão era odiado pela elite, que resistia em pagar o novo imposto. Essa nova taxa a ser paga pelos usineiros provocou grande revolta em meio à classe produtora que, através de um processo na justiça, derrubou o decreto do governador. Iniciou-se, assim, a campanha que precedeu a queda de Muniz. Todo projeto por ele enviado era rejeitado. Humberto Mendes aderiu ao partido de genro, o Partido Social progressista (PSP), fundado por Adhemar de Barros, formou-se então, um novo arranjo político. O prefeito de Palmeira dos Índios era o médico Remi Maia, que tinha como aliado Valdemar de Souza Lima, historiador da cidade, que passou a ser ameaçado por Humberto Mendes, novamente forte na política. – Diziam que muitos homens iam desaparecer aqui na cidade. A verdade é que os Mendes pegaram o poder e se empolgaram, pensaram que podiam conquistar o mundo com o dedo no gatilho. Disse Valdemar. Quando a morte manda recado No nordeste é comum as pessoas anunciarem suas mortes com antecedência, diante dos boatos e das ameaças que lhes chegam como um aviso prévio macabro. É praxe também o Sindicato do Crime encarregar-se da fazer chegar à “encomenda” a triste notícia de sua eliminação. O deputado estadual Marques da Silva, médico de Arapiraca, o segundo maior município de Alagoas, vivia esse drama: estava marcado para morrer. Depois que a organização criminosa eliminou o vereador Benício Alves Oliveira, já carregava a certeza dolorosa de que já o tinham na mira da pistola. No dia 04 de dezembro de 1956, Marques da Silva enviou uma “carta-denúncia” para a sede do partido no Rio de Janeiro. [...] para situar bem o problema político de Alagoas e, em particular, a situação do município de Arapiraca, devo recuar no tempo e fazer um pouco de história pessoal[...] fui eleito deputado estadual com a votação pessoal mais expressiva obtida até hoje por um candidato à Assembleia Legislativa. Chegou agora o
  • momento crucial de falar sobre recentes acontecimentos que justificam minha presença no Rio de Janeiro. Como é de conhecimento da direção central do partido, perdemos em Alagoas as eleições para governo no pleito de 1955. [...] como resultado do nosso insucesso, foi eleito governador de Alagoas um homem inescrupuloso, insensível e com evidentes marcas criminosas, que infelicita e degrada um povo. [...] [...] fiz um relato circunstanciado diante do Diretório Nacional da UDN sobre as lamentáveis ocorrências de Alagoas, denunciando, inclusive, a trama criminosa que se organizava para o extermínio da minha vida e de outros correligionário. Esse vaticínio já foi confirmado pela trágica realidade dos fatos. O vereador udenista Benício Alves de Oliveira foi barbaramente assassinado. [...] fui à Arapiraca, cidade que continua infestada de bandidos, a serviço das famílias Pereira e Barbosa. O deputado Claudenor Lima, seus irmãos Cláudio e Claudisbel, em automóveis e caminhões, passaram várias vezes em frente de minha residência, com evidentes propósitos de intimidação. [...] não ignoro portanto, a trama que está arquitetada contra minha vida. A impunidade de um crime gera outros crimes. Essa regra não poderia ser exceção em Alagoas. Prefiro morrer com honra viver sem ela. Não deixarei meu estado, nem abandonarei minha família e o povo que me elegeu, para que meus filhos não tenham vergonha de ouvirem falar em meu nome. Estou convencido de que meus sofrimentos só terminarão quando meus adversários consumarem seus intentos criminosos. [...] se o ponto final dessa verdadeira tragédia for, como tudo indica, minha eliminação pessoal, desejo apenas que minha família sofra com resignação e cuide de meus três filhinhos, afim de que, mais tarde, eles possam fazer, por Alagoas e pelo Brasil, o que não me foi possível realizar. [...] esta, Sr. Presidente, é a confissão que me senti com o dever de transmitir à Direção Central do meu partido, pedindo a V. Exa. que, consumado meu assassinato, encaminhe este relatório à Justiça. Em fevereiro de 1957, dois meses depois, o deputado foi morto. Confronto com os usineiros
  • O governo do populista Muniz Falcão estava com os dias contados depois da morte de Marques da Silva, que em sua carta-testamento o acusava de cumplicidade na trama para mata-lo. Sebastião Marinho Muniz Falcão nasceu na pequena cidade de Araripina, em Pernambuco, aos 6 de janeiro de 1915. Chegou a Alagoas ainda jovem, com pouco mais de 30 anos, para dirigir a Delegacia Regional do Trabalho. Pressionado por sua posição intransigente na fiscalização das ilegalidades cometidas pelos grandes empresários do açúcar, foi transferido para a Bahia, regressando ao estado logo depois pelas mãos então governador Silvestre Péricles. Estudou no Crato, no Ceará, fez Direito no Recife porém foi em Maceió que concluiu seu curso. Desde cedo notava-se suas aptidões para a política. Com uma campanha franciscana, sem o apoio das oligarquias elegeu-se deputado federal pelo Partido Social Trabalhista, em 1951. Ano este em que o jornalista Arnon de Mello elegeu-se governador do estado de Alagoas. Muniz logo se identificou com a população mais carente e passou a conviver de maneira informal e simples com os mais humildes. Sucedeu, no governo do estado, Arnon de Mello, tido como zebra eleitoral, derrotou Afrânio Lages, que tinha o apoio dos usineiros e de poderosos empresários. Porém não pode comparecer à posse no Palácio dos Martírios, pois Silvestre Péricles, inimigo mortal de Arnon de Mello, na condição de aliado, impediu que Falcão fosse à cerimônia. Silvestre Péricles, da lendária família dos Góes Monteiro, nasceu em São Luiz do Quitunde. Nutria um ódio mortal contra Arnon de Mello, seu sucessor no governo do estado. Antes de deixar o palácio, onde chegou em 1947, Péricles, além de não passar o cargo, recepcionou seu adversário de um modo nada convencional. Encheu de merda algumas meias e, à noite, sozinho, de pijama, transtornado e enfurecido coma vitória do rival, cagou as paredes do palácio, rodando em parafuso as meias, salpicando as dependências do casarão centenário. Arnon de Mello nasceu em Rio Largo, mas foi criado no Rio de Janeiro, onde se tornou jornalista, dono de jornal e sócio de outro jornalista, Roberto Marinho. Ao terminar o mandato de governador, elegeu-se senador em 1962, sendo a outra vaga, ocupada por Silvestre Péricles, que não cansava de insultar e desafiar seu inimigo. Em 4 de dezembro, o udenista Arnon de
  • Melo usou o microfone para denunciar as ameaças que vinha sofrendo. Ao chegar ao senado foi alertado de que Silvestre Péricles estava armado e disposto a tudo. E exibia sua arma presa à cintura. Arnon ocupou a tribuna e iniciou seu discurso respondendo às acusações de Péricles que, dias antes havia ocupado a tribuna para ofendê-lo. E, claro, Péricles não aceitaria nada que partisse de seu rival. E partiu com a arma em riste rumo a seu inimigo. Arnon, ao se ver ameaçado, sacou também o revólver e começou a atirar quando seu algoz já estava a menos de 2 metros dele. Péricles, porém conseguiu sair ileso, deixando o tiro para José de Kairala. Coube ao senador João Agripino evitar que a tragédia se prolongasse, atracando-se a Silvestre Péricles e desarmando-o. Já desarmados, os dois senadores foram levados para a custódia militar: Péricles para o quartel-general do Exército e Arnon para o da Aeronáutica, enquanto Kairala morria no hospital distrital, depois de perder quase todo sangue do corpo. O proprietário do jornal O Globo, Roberto Marinho, posicionou-se a favor de Mello, seu sócio, e contra Péricles. No dia 7 de dezembro três dias após o incidente, Arnon falou, do quartel da Aeronáutica, onde era mantido sob custódia, ao jornal Diário Carioca. Disse estar profundamente consternado com os acontecimentos que roubaram a vida do senador José Kairala e agradeceu a João Agripino o fato de seus filhos – um dos quais, de 10 anos, estava a seu lado – não serem, agora, órfãos. Sem o apoio das oligarquias, mas amparado pela maioria popular, que apoiava seu governo direcionado para as questões sociais, Muniz Falcão passou a ser vítima de calúnias e difamações e alvo de insistente campanha de desestabilização por parte da oposição inconformada com o apoio da camada mais pobre. Seus adversários temiam que ele se eternizasse no poder que em pouco tempo tirou dos políticos tradicionais do estado, que sempre trabalharam a serviço dos usineiros e que temiam a infiltração de comunistas no governo. O secretário de Segurança Pública fora indicação do PCB, partido de ideias pró-soviéticas que assustava as classes dominantes por defender abertamente a reforma agrária em um estado ocupado predominantemente por latifundiários.
  • Muniz não se intimidou diante de seus 22 oposicionistas na Assembleia Legislativa, muitos deles a soldo da indústria do açúcar, eterna financiadora das campanhas políticas. E partiu para o confronto. Anunciou que o governo mexeria nos bolsos dos usineiros e grandes empresários, que pouco contribuíam para o desenvolvimento econômico e social do estado. Comunicou a criação de um novo imposto que passou a ser chamado “taxa pró-educação, economia e saúde”: um tributo de 2% sobre a produção de açúcar, álcool, tecidos, fumo e arroz, que seria reinvestido nos programas sociais e educacionais, na tentativa de reduzir os bolsões de pobreza e a desigualdade social alarmante de Alagoas. A medida contrariou os interesses da classe produtora do estado e foi um prato cheio para a oposição – que já acusava o governo de ser conivente com o crime organizado e de manter laços estreitos com o Partido Comunista Brasileiro. Não demorou muito para os usineiros se movimentarem nos bastidores políticos a fim de frear a ganância do governador. Escalaram o deputado Oséas Cardoso, um dos políticos da “bancada do açúcar” na Assembleia Legislativa, para brecar o atrevimento do governador. E Oséas logo encontrou a saída: o pedido de impeachment de Muniz Falcão. [...] pelo senhor deputado Oséas Cardoso Paes foi oferecida, no dia 9 de fevereiro de 1957, à Assembleia Legislativa do estado de Alagoas, denúncia contra o Dr. Sebastião Marinho Muniz Falcão, governador do estado, como incurso em crime de responsabilidade [...] Assim começava o parecer da comissão legislativa que analisou o pedido do deputado: Os fatos erguidos na denúncia contra o senhor governador do estado podem ser assim resumidos: 1) Atentado contra o livre funcionamento da Assembleia Legislativa; 2) Emprego de ameaças para constranger Juiz de Direito a deixar de exercer atos do seu ofício; 3) Emprego de ameaças e violências contra deputados estaduais, a fim de afastá-los da Assembleia e de coagi-los no exercício de seus mandatos; 4) Infração de lei federal de Ordem Pública; e
  • 5) Realização de despesas não autorizadas por lei. Assinaram o parecer os seguintes deputados, integrantes da comissão: Hermann Almeida(presidente), Teotônio Vilela (relator), Edson Lins, José Onias, José Bezerra e Jorge Assunção (os dois últimos vencidos, de acordo com a declaração de voto). Teotônio Vilela nasceu no dia 28 de maio de 1917, na cidade de Viçosa. Depois de passar pelo Rio de Janeiro em 1937 e abandonar os cursos de Direito e de Engenharia, o senador voltou para o sertão alagoano, onde instalou uma usina. Em 1948 filiou-se à UDN, alcançando os cargos de deputado estadual e vice-governador. Ligado quase durante toda a sua vida política a partidos conservadores, o senador Teotônio Vilela só viria a se bandear para o lado da esquerda em 1979, ao ingressar no MDB e assumir a comissão parlamentar que discutiria a anistia aos presos políticos e exilados, cujos direitos civis foram cassados pela ditadura militar. Em 1975 confrontou de vez a ditadura ao cobrar da tribuna do Senado Federal a redemocratização do país. No Projeto de Emergência – que primeiro entregou ao general Ernesto Geisel – o senador alagoano cobrava do governo a moratória da dívida externa, reformas sociais e eleições diretas para o país, questões que engatinhavam no repertório político, até então intocáveis e indiscutíveis no Brasil dos militares. Teotônio Vilela morreu de câncer em 27 de novembro de 1983. CORAÇÕES DOS INIMIGOS O clima era tenso quando, na porta da Assembleia, um comunista, líder partidário de Muniz falcão, inicia seu discurso: “estamos aqui em paz para prestar apoio ao governador...!” Dentro do prédio a discussão se acirra. A oposição brada pelo impeachment, e os políticos da situação tentam evitar que a votação comece. Para a oposição, o crime contra o deputado Marques da Silva foi a
  • gota de sangue que fez extravasar as paixões contra a governador. Para Humberto Mendes o impeachment é algo que jamais seria tolerado: - Só votam esse impeachment se passarem por cima do meu cadáver. O caso já era nacional. Da Baixada Fluminense, onde mantinha uma espécie de sucursal do sindicato do Crime de Alagoas, o então deputado Tenório Cavalcanti voou para Maceió. Justificava sua presença dizendo que estava ali para dissuadir Humberto de comparecer à Assembleia no dia da votação do impeachment. - Mentira! – disse Roberto Mendes, tempos depois. – Ele foi levar metralhadoras para a oposição, tudo combinado com o senador Juracy Magalhães, que acompanharia, como observador da UDN, a votação do impeachment. O senador Juracy Magalhães nasceu em Fortaleza, em agosto de 1904, fez carreira militar no Rio de janeiro, onde chegou ao posto máximo de general de brigada. Foi governador da Bahia entre 1959 e 1963, mas chegou ao estado como interventor nomeado por Getúlio Vargas; ali permaneceu e seguiu carreira de político até morrer, aos 95 anos. Foi deputado estadual, deputado federal, senador, embaixador, ministro da Justiça, presidente da UDN, da Arena, da Petrobras, da Vale do Rio Doce e de outras grandes empresas públicas e privadas brasileiras. Líder da Revolução de 1930, o senador exerceu todos os cargos importantes no Brasil e no exterior. É atribuída a ele a célebre frase: “Tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Mas se todos sabiam que ia correr sangue, por que não se fez nada para evitar? Lamenha Filho, o deputado que presidiu o tiroteio na Assembleia Legislativa, acha que o governo Kubitschek não escapa ao julgamento da História nesse episódio. - O assessor do Ministério da Justiça chegou a ver os sacos de areia que mandamos colocar na Assembleia para proteger a mesa diretora. Mas o que fez? Esperou o tiroteio! – conta Edson Lins.
  • A tensão chegou ao clímax. A sessão estava marcada para às 15h. o Exército chegara sorrateiramente, posicionara-se na ladeira ao lado da catedral, ocupando alguns pontos estratégicos. Quase 15h o deputado estadual Claudenor Lima, suspeito de matar o udenista Marques da Silva no começo do ano, entrou na Assembleia vestindo uma capa de chuva, sem disfarçar a metralhadora. Humberto Mendes também chegou com uma capa, onde camuflava uma metralhadora e um revólver calibre 38. O deputado Edson Lins conta que o primeiro tiro foi disparado por Luiz Malta Gaia, “como uma sinal de alerta”. O certo é que Humberto foi atingindo por dois tiros logo no começo do tiroteio; um de raspão na nuca, outro fatal, no coração. Por alguns minutos, um silêncio sepulcral. Em meio aos sacos de areia que rodeavam a mesa da Assembleia, a fumaça de pólvora criava uma densa nuvem no recinto. No chão, o saldo: nove corpos – o governista Humberto Mendes, morto; e feridos, os deputados oposicionistas José Onias, Virgílio Barbosa, Carlos Gomes de Barros, Antônio Malta e José Afonso de Mello, o sargento Jorge José Araújo, o funcionário José Dâmaso e o jornalista carioca Márcio Moreira Alves. Carlos Lacerda viveu intensamente a política brasileira. Dotado de uma sagacidade política sem igual, sempre foi implacável com seus adversários. Jornalista panfletário, incendiário, despertava paixão e ódio, mas era admirado até por seus inimigos políticos, que o respeitavam e temiam. De uma família de políticos, nasceu no Rio de Janeiro como Carlos Frederico Werneck de Lacerda, cursou Direito na Universidade do Rio de Janeiro, onde ingressou no Partido Comunista Brasileiro. Em 1939 rompeu com o partidão e em 1945 entrou para a UDN, da qual viria a ser deputado federal e um dos principais ideológicos. Carlos Lacerda protagonizou um dos episódios mais marcantes do Brasil. Em 5 de agosto de 1954 foi ferido com um tiro no pé quando
  • chegava em casa. O policial que o protegia morreu baleado e as investigações chegaram ao palácio do Catete, quando se descobriu que seguranças do presidente Getúlio Vargas estavam envolvidos no atentado. Mesmo acusado de induzir Getúlio ao suicídio, ocorrido 19 dias depois do atentado que sofreu, Lacerda foi eleito deputado federal no mesmo ano, e governador do antigo estado da Guanabara em 1960. “AÍ VÊM ELES! VAMOS SER METRALHADOS!” Os jornais alagoanos não noticiaram o tiroteio na Assembleia Legislativa devido ao boicote que deixou Maceió sem água e energia elétrica durante 17 horas. No dia 14 de setembro, o jornal o Globo publicou a matéria: “Controla o Governo Federal a grave situação em Alagoas”. “Metralham-se os deputados dentro da Assembleia Legislativa alagoana”. “Foram para o recinto conduzindo, sob capas de chuva, armas de diversos calibres”. “Morto o sogro do governador Muniz Falcão, deputado Humberto Mendes, que teria iniciado o tiroteio”. “Por pouco não foram atingidos pelas balas os senadores Juracy Magalhães e Freitas Cavalcanti”. “Ameaçados de Morte os enviados especiais de O Globo”. O ÚLTIMO SOBREVIVENTE Passaram-se dois anos entre o primeiro contato e a decisão de Geraldo Sampaio nos receber. Ele é o último sobrevivente dentre os 35 ex-deputados daquela tarde fatídica e sangrenta no plenário da Assembleia Legislativa de Alagoas. Sampaio, udenista, era um dos 22 oposicionistas que pediam o impeachment do governador Muniz Falcão.
  • Geraldo Sampaio é natural de Palmeira dos Índios. A índole pacífica do exdeputado nesse últimos 50 anos é a prova de aversão que ele tem à violência. O caso da Assembleia Legislativa foi atípico para esse homem sem inimigos, procurado até hoje para alianças políticas. Mas ninguém escapa da afirmação feita por Tenório Cavalcanti, o “homem da capa preta”, de que, em alagoas, quem não morreu, já matou. Geraldo Sampaio é reticente ao falar da morte do beato, cabo eleitoral do ex-deputado Humberto Mendes: - A morte do franciscano não tem nada a ver com o impeachment do Muniz Falcão. Realmente meu pai respondeu pela morte do beato, mas foi absolvido. O envolvimento de Sampaio no tiroteio da Assembleia não se resume apenas às divergências políticas e partidárias entre ele e Muniz Falcão. Vai além disso. A disputa por uma mulher, que conhecera ainda na infância em Palmeira dos Índios, teria guiado os instintos de Sampaio à tragédia, motivado também pelo ciúme. Ele ainda se emociona quando fala em Alba Mendes, a bela mulher palmeirense, filha de Humberto, que se casou com Muniz Falcão, frustrando suas pretensões. UM TIRO NA HISTÓRIA Em 1982, o jornalista Denis Agra entrevistou Rubens Jambo, um dos repórteres que acompanharam o tiroteio dentro da Assembleia. Pela primeira vez que alguém confessava, com todas as letras o nome do deputado que matara Humberto Mendes: “As balas saíram do revólver do deputado Virgílio Barbosa”, garantiu ele a Denis Agra. Três dia depois do tiroteio, o impeachment foi finalmente votado, desta vez no Instituto de Educação, protegido pelo Exército. Sem a presença dos deputados governistas e dos oposicionistas feridos, Muniz Falcão foi afastado do governo, assumindo seu vice, Sizenando Nabuco, do PTB.
  • “(...) precisando afastar-me por alguns dias do governo, pois terei possivelmente necessidade de deslocar- me do estado durante curto prazo, transmito, nesta data, o exercício do cargo de governador a V. Exa., na qualidade de meu substituto legal.” Por decisão do Tribunal Misto, formado por desembargadores e deputados estaduais sorteados, Muniz foi reintegrado ao cargo de governador, um ano depois. Voltaria ao governo de Alagoas na ensolarada tarde de 24 de janeiro de 1958, carregado por uma multidão que se acotovelava, procurando espaço na porta do Palácio dos Martírios para assistir seu retorno triunfal. No dia 19 de setembro, sob o título “A história falará”, o Diário de Alagoas publicava o seguinte editorial, no alto da primeira página: Desde que se implantou em Alagoas o governo do nefasto Sr. Arnon de Mello, Alagoas nunca mais teve paz. A vitória udenista iniciou uma série imensa e crescente de calamidades que cobriram o estão de desolação e horror. Com a vitória de Muniz Falcão raiou uma esperança de dias melhores. (...) A Gazeta de Alagoas, do udenista Arnon de Mello, preferiu disfarçar sua oposição radical a Muniz Falcão e sua torcida pelo impeachment, condenando a sabotagem que a cidade sofreu com o corte de energia em um editorial sob o título “Fé e sentimento”, publicado em 13 de setembro de 1957: [...] Alagoas precisa de um rumo Alagoas quer uma estrada. Além dos generosos editoriais, o Diário de Alagoas virou também uma espécie de porta-voz de Muniz Falcão. Por meio dele, o governador deposto publicou na quinta-feira, dia 19 de setembro, um dia depois de afastado do governo por força do impeachment, sua posição sobre o episódio: Taxa, o ponto de partida Em 1956, em face das dificuldades do tesouro estadual, enviei ao Legislativo alagoano um projeto de lei criando a taxa pró-economia, educação e saúde, tributo esse que incidia exclusivamente sobre os produtores básicos da economia do estado: açúcar, tecidos, coco, fumo e arroz.
  • Destinava-se o produto da arrecadação respectiva ao atendimento do programa governamental no setor de construção de estradas e no reaparelhamento dos órgãos destinados à assistência médico-hospitalar e educativa das populações pobres. [...] Os que não perdoam É evidente que deputados sejam usineiros, proprietários de fábrica de tecidos, latifundiários, não perdoam nenhum governo que, em benefício da coletividade, procure reduzir, embora de modo suave, os lucros da empresa. [...] Aumento de vencimentos Em dezembro de 1956 a Assembleia Legislativa concedeu aumento de vencimentos a seu funcionalismo, me bases, aliás, consentâneas com as necessidades decorrentes da ascensão do custo de vida. Os servidores do Poder Executivo encontravam-se nas mesmas condições de remuneração e o meu governo já fazia estudos a fim de possibilitar o equilíbrio de seus orçamentos, aumentando-lhes a remuneração. [...] Lutar contra imposto Para atender ás despesas do aumento proposto, e depois de rigorosos cálculos da Contadoria Geral do estado, era mister elevar em 0,75% o imposto de vendas e consignações, que vinha sendo cobrado na base de 3, 25%. Quando da criação da taxa próeconomia, educação e saúde, resisti tenazmente às propostas que me foram feitas por deputados que hoje estão na oposição ao governo, notadamente o presidente da Assembleia Legislativa (deputado Lamenha Filho), e que propunham a transformação da taxa em aumento de imposto de vendas e consignações. [...] O governador reclama Nesse processo de mandato de segurança, o desembargador relator concedeu a medida liminar, o que importou em suspensão provisória da decretação do impeachment. No dia 20 de agosto, foi encaminhada pelo presidente ao desembargador Laverene Machado, relator designado para relatar o acórdão do mandado de segurança, uma reclamação minha que deu entrada na mesma data em virtude de não ter o presidente proferido o seu voto no julgamento à matéria, o que se impunha por estar em discussão a
  • inconstitucionalidade da Lei 1.079. Até o dia 16 de setembro não foi publicado o acórdão dessa reclamação. “ – NÃO PODE, SOU MACHO! IR EMBORA POR QUÊ?” O representante da família Mendes na Assembleia ficou sendo o primo de Humberto, Luiz Gonzaga de Barros, de 23 anos, que viera do Recife, onde estudava Direito, para se eleger deputado estadual em 1958. Nessa eleição, o prefeito e médico Remi Maia, de Palmeira dos Índios, também foi eleito deputado estadual. Muniz Falcão indicou Robson Mendes para completar os dois anos de mandato de Remi, indicação aprovada pela Câmara dos Vereadores. Palmeira do Índios, onde o escritor Graciliano Ramos ensaiou os primeiros textos de Caetés e Vidas Secas, era na época uma cidade às escuras. O povo imaginava coisas, soltava boatos de que a casa de Robson havia uma cacimba cheia de cadáveres. Até Roberto Mendes reconhece que, para sobreviver, Robson deve mesmo ter matado muita gente. Mas nenhum lhe terá sido tão prejudicial quanto o assassinato de sargento do Exército Fernando Ferreira da Costa, comandante do destacamento do 20° Batalhão de Caçadores em Palmeira dos Índios, em dezembro de 1959. O sargento protegia uma jovem prostituta ameaçada de prisão pela polícia de Robson. Um dia, ao fazer compras, a mulher foi vista por Robson, que mandou prendê-la imediatamente. O sargento veio em sua direção e discutiu com os jagunços. Foi morto com três tiros por João Vital, inspetor de quarteirão da prefeitura. O caldo engrossou. A briga agora era com o Exército. E, além de tudo, Robson perdeu o cargo de prefeito nas eleições de outubro de 1960. A situação só explodiu porque Robson, com prisão preventiva decretada pelo Conselho Permanente da Justiça Militar, acusado de mandante da morte do sargento, fugiu para o Recife. Só votou quinze dias antes das eleições de 1962 (nesses quinze dias, de acordo com a legislação eleitoral, não podia ser preso).
  • Fez uma campanha-relâmpago, elegeu-se deputado estadual. Muniz falcão, que em 1960 tinha passado o governo ao major Luiz Cavalcanti, foi eleito deputado federal. A família voltava ao poder. Mas a coleção de inimigos se multiplicava. No domingo de carnaval de 1965, Robson saía do seu sítio, de carro, quando um pistoleiro lhe acertou dois tiros, na clavícula e na mão esquerda. O regime militar que se instalou no país fez prevalecer seu poder de força e extinguiu os direitos políticos de Robson Mendes, deixando-o vulnerável à ação da Justiça e da polícia locais. Em 1966, o ex-deputado teve seu mandato cassado no processo que o apontava como mentor intelectual da morte do sargento Fernando Ferreira da Costa. O delegado de Palmeira dos Índios na época era Aurino, um militar durão, “macho mesmo”, segundo Roberto Mendes. Tinha sido nomeado com o objetivo de perseguir Robson. (...) Ao abrir a porta para repreender o desconhecido, Aurino foi fuzilado à queima-roupa. Robson foi apontado como mandante. Apesar de cassado, sua família mantinha um deputado na Assembleia: Roberto. O sobrevivente dessa história foi eleito em 1966, ano em que Muniz Falcão morreu de câncer, em Recife. Com a morte de Muniz, o general João Batista Tubino assumiu como interventor até a realização de eleições indiretas, que apontaram o primeiro governador após o golpe militar: Lamenha Filho, que era o presidente da Assembleia na época do tiroteio. Acuado, com pouco dinheiro, cassado, processado e cheio de inimigos, Robson nem saía mais à noite. Ficava no sítio, com um vigia caso fosse necessário chamar os pistoleiros Zé Crispim e Zé Gago. Ambos já haviam assassinado nove pessoas por encomenda de Robson, como contou Zé Crispim à polícia, mais tarde. Robson prometeu aos pistoleiros três mil cruzeiros para matarem o vereador José Fernandes. Este, já sabia disso e, pelo intermediário Enéas Boiadeiro, em contrapartida, ofereceu quatro mil cruzeiros a Zé Crispim pelo
  • assassinato de Robson – Adeildo Nepomuceno, inimigo mortal de Robson, ofereceu mais quatro mil pela empreitada. Adeildo tinha uma fama: só se sabia que alguém era seu inimigo quando se aparecesse morto. Em 8 de março de 1967, Zé Crispim e Zé Gago liquidaram o vigia do sítio e, com a ajuda de Robson, levaram o corpo para Pernambuco, para queimá-lo. Na volta, num lugarejo à estrada, pararam o carro para colocar água no radiador. Ouviram-se disparos. Robson tombou com vários tiros, fulminado por Zé Crispim e Zé Gago. A família Mendes, porém não acreditaram nessa versão. Roberto tem certeza de que havia, no mínimo, quinze homens de tocaia. Zé Crispim e Zé Gago foram presos na Bahia e narraram detalhadamente a trama para executar Robson Mendes. PISTOLEIROS MATAM E VÃO AVISAR A MULHER DE ROBSON Madrugada de 1967, 9 de março. Palmeira dos Índios. Dona Yane Araújo Mendes é desperta por batidas violentas na porta. São três homens que vieram contar que seu marido, Robson Mendes, acaba de ser vítima de uma emboscada. ZÉ CRISPIM CONFESSA A TRAMA PARA MATAR ROBSON Dia 14 de abril, Salvador, Bahia. Depoimento de Zé Crispim, transmitido por telefone, da rádio Gazeta de Alagoas: Delegado: Qual é o seu nome? Zé Crispim: José Rocha, mas vulgo Zé Crispim [...] Delegado: O ex-deputado Robson Mendes foi assassinado no dia 8 de março. Foi o senhor que o matou? Zé Crispim: Fui eu sim, senhor. Matei para não morrer. Sabia que o homem ia me matar.
  • [...] Delegado: Quem fez o convite para matar Robson Mendes? Zé Crispim: Quem fez o convite foi Adelmo, compadre de Adeildo, mas mandado por ele. Foi me achar na casa de Clarindo, no Cajueiro. Recebi 2 mil e não vi mais o homem, o que mandou. Delegado: O nome do contratante? Zé Crispim: Foi João Clarindo, mas Adeildo estava no dia. [...] Delegado: o que aconteceu com Robson? Zé Crispim: ... eu vinha dirigindo na caminhonete e parei. Ele desceu de um lado, eu desci do outro. Ele me deu um revólver dele, um “Smith Weston”, e ele levava um Taurus. A gente ia com essas pistolas e dois mosquetões dentro da caminhonete. [...] ele entrou primeiro do que eu, e quando fui entrando já acompanhei ele na boca do revólver. Seu robes recebeu o tiro, bateu a mão no revólver, eu soltei o meu e fechei ele. [...] o Gago veio e atirou no seu Robes por cima da porta. Ali mesmo onde morreu, nós o deixamos, dentro da boleia. “UM DE NÓS SERIA MORTO; ENTÃO, MELHOR O OUTRO.” O fazendeiro José Fernandes, cuja inimizade com Robson Mendes era conhecida de todos, confessou sua participação no crime, lembrando: “um de nós dois seria morto; então melhor o outro.” O único que não reconhece participação no crime é Adeildo Nepomuceno, prefeito de Santana do Ipanema. Apontado por Zé Crispim como um dos mandantes, jurou inocência e foi impronunciado na Justiça. Na acareação com Zé Crispim, disse que era homem honrado, de bem, e que não podia estar sujeito às infâmias de um bandido. Ao ouvir isso, Zé Crispim ergueu-se: - Bandido? Sou sim. Mas você é muito mais do que eu porque paga pra mandar matar! E olhe: você contratou a morte de seu robes por 3 mil cruzeiros. Foi de noite, no quintal da casa de João Clarindo, por trás da casa de farinha, debaixo de um cajueiro. Foi sim, senhor. Não negue! E depois só me mandou 2 mil pelo João Clarindo. Além de bandido, você também é caloteiro.
  • João Clarindo confirmou essa versão na polícia, mas depois negou na justiça. Por isso Adeildo foi inocentado. O pistoleiro zé Gago foi batizado como José Marcelino da Silva. Tinha grande dificuldade de se expressar. Aprendeu cedo o ofício de matar, influenciado por Zé Crispim, seu porta-voz. Acusado da morte de 22 pessoas, Zé Gago não se conformava em estar atrás das grades, já condenado a 148 anos. Em 1968, Zé Crispim e Zé Gago fugiram da cadeia em Maceió, mas só Zé Gago foi preso com vida. Zé Crispim não escapou ao confronto na Serra do Gorgi com o coronel Osman Lins. Dois anos depois, Zé Gago fugiu pela última vez. Desta vez, teve em seu encalço o temido delegado Rubens Quintela. O pistoleiro apareceu morto em Marechal Deodoro, município vizinho a Maceió, com a versão policial de que cometera suicídio. Foi sua quarta fuga. A última. VALTER MENDES SOFRE O PRIMEIRO ATENTADO