ESTUDOS DE VIABILIDADE ÍNDIOS CITADINOS UHE BELO MONTE-Mirella Poccia 2009

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  • No segundo parágrafo deste estudo, a pesquisadora conclui que a FUNAI de Altamira não reconhece esses índios 'citadinos'. A informação não procede. A FUNAI sempre os reconheceu, entretanto, por não constarem regularmente na programação orçamentária anual da FUNAI central, não dispunham de assistência regular do orgão local. Me parece outra interpretação. Por outro lado, o referido estudo não envolveu indígenas que moram nas margens de outros rios, como Bacajá, Xingu e nas cidades vizinhas como Vitória do Xingu, Pacajá, Brasil Novo, etc. Assim como citado na pesquisa, eles não foram reconhecidos como índios?
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  • 1. 1ST3 - Índios Citadinos de Altamira e Famílias Indígenas Ribeirinhas daVolta Grande do Xingu: Aspectos Demográficos, Socioeconômicos eCulturaisAna Corbisier, socióloga e Paulo Serpa, antropólogoA última parte dos estudos etnoecológicos do EIA do AHE Belo Monte foi dedicadaaos indígenas “desaldeados”, ou seja, aqueles grupos indígenas moradores dacidade de Altamira e dos “beiradões” da Volta Grande do Xingu. De fevereiro aagosto de 2009, uma equipe de 11 técnicos dedicou-se a levantar as condições devida dessa população indígena.Não havia informação sobre esta população, visto que alguns setores regionais daFundação Nacional do Índio – Funai, e da Fundação Nacional de Saúde – Funasa,não os reconhece como índios pelo fato de não viverem em Terras Indígenas.Mesmo o cartório do registro civil recusa a inclusão da etnia no nome dos recémnascidos. Enfim, observa-se uma situação de total invisibilidade dos indígenascitadinos e das famílias indígenas moradoras na Volta Grande do Xingu.Optou-se por reunir algumas lideranças e representações dessa populaçãoindígena, integrá-las à equipe e por meio delas, iniciar a identificação das famílias.À medida que eram localizadas, aplicavam-se questionários de caráter sócio-econômico, ao mesmo tempo em que eram entrevistados os mais velhos iniciando-se a construção da genealogia das famílias.Averiguou-se que além do movimento endógeno de recuperação cultural quemotiva atualmente a população em estudo, alguns órgãos públicos, como aDefensoria Pública do Estado do Pará, apoiam os índios na busca de recuperaçãode sua identidade. Verificou-se que esta invisibilidade pode ser entendida também,como uma estratégia de sobrevivência e que, em lugar de constituir uma diáspora,fortaleceu a resistência cultural iniciada ainda na época da missão jesuíticaTawaquara, no século XVII.O estudo detectou 400 famílias indígenas, sendo 360 em Altamira e 40 moradorasàs margens do rio Xingu, a jusante da cidade. As famílias entrevistadas pertencema 17 etnias, sendo as mais numerosas os Xipaya, os Kuruaya e os Juruna. Todasessas etnias possuem Terras Indígenas com as quais se relacionamperiodicamente. Portanto, apesar das grandes distâncias e da falta de meios detransporte mais rápidos, são estreitos os laços que mantêm entre si as váriascomunidades. Essas relações inter e intra comunidades são permeadas pelosvínculos sagrados que essas etnias mantêm com o rio Xingu, com suas paisagens,cachoeiras e pedrais, onde residem e resistem as entidades mitológicas.
  • 2. 2A segunda etapa do trabalho consistiu em inventariar os impactos que, caso sejaconstruída, a usina irá provocar sobre aquela população.O objetivo desta comunicação é, portanto, trazer a público as informações sobreessa população indígena, principalmente sobre a que vive na cidade de Altamira,mas também, nos “beiradões” da Volta Grande do Xingu, suas condições de vida,formas de inserção no mundo urbano, estratégias de sobrevivência e reproduçãosocial, demandas de políticas públicas diferenciadas a que têm direito,reconhecimento étnico e, principalmente, o grau de interferência que a UHE BeloMonte virá provocar caso a usina seja construída. Assim, esta comunicação vemtrazer elementos socioeconômicos e culturais, fundamentais para o debate sobre aeficiência e eficácia dos programas de mitigação e de compensação previstos paraessa população indígena, historicamente abandonada a sua sorte e que, semdúvida, será o componente humano que sofrerá a maior incidência de impactosnegativos e irreversíveis caso o empreendimento seja implantado.Pretende-se também contribuir para o debate sobre o fenômeno indígena noespaço urbano, indicando as considerações que devem ser atendidas naelaboração de políticas públicas específicas para esse segmento social.MetodologiaO estudo sobre os índios citadinos de Altamira e da Volta Grande do Xingu incluiu abusca de informações secundárias sobre o tema, além dos estudos ambientais járealizados sobre o AHE Belo Monte. A coleta de dados primários realizou-se emduas etapas – abril e maio de 2009 -, sendo a primeira interrompida pela enchenteque atingiu a população indígena que vive à beira dos igarapés Panelas, Altamira eAmbé, ou próxima a eles. Durante essa campanha foi realizada reunião com osmovimentos da sociedade civil organizada e entidades indígenas e com instituiçõescompetentes da estância municipal, estadual e federal para integrar o trabalho aouniverso local.Foram agregados à equipe seis colaboradores indígenas locais, com experiêncianesse tipo de levantamento, o que foi essencial para o pleno desenvolvimento dotrabalho, tanto pelo conhecimento que possuem da complicada organizaçãoespacial da cidade de Altamira, como também, e mais importante, peloconhecimento e amizade que mantêm com as famílias indígenas objeto dapesquisa.Realizou-se um censo, restando 25 famílias, identificadas, mas não localizadas,porque na época se encontravam nas aldeias ou na zona rural. As informaçõesforam obtidas por meio de entrevistas semi-estruturadas, de caráter qualitativo, e da
  • 3. 3aplicação de um questionário e de um cadastro. Priorizou-se sempre o cônjugeindígena, mas, na falta deste, foram entrevistados os cônjuges não índios.1. - De Tawaquara a Altamira - Apontamentos da etnohistória do Médio XinguO vale do Médio Xingu, área de influência regional do AHE Belo Monte, estálocalizado entre os rios Tapajós e Tocantins. Essa região da Amazônia foi ocupadamuito lentamente, devido aos cursos d‟água serem interrompidos por corredeiras, oque torna o rio Xingu e seus tributários um dos rios brasileiros mais dificultosos paraa navegação.1.1. Área Cultural do Médio XinguSegundo Nimuendaju (1948), os povos indígenas originários1dessa região podemser caracterizados em três grupos: povos canoeiros restritos aos rios Xingu, Iriri eCuruá: Juruna, Xipaya e Arupaí (extinto); povos do centro da floresta: Kuruaya,Arara2, Asurini e Tacunyape (extinto); povos das savanas, que eventualmenteinvadem a zona de floresta: Kayapó do Norte3.A agricultura da mandioca foi a base da subsistência de todos esses povos, comexceção dos Arara, que eram menos propícios ao cultivo. A unidade sociopolíticaera a aldeia, e, aparentemente a descendência era patrilinear, principalmente paraas chefias. A poligamia era rara e os laços familiares eram muito fortes. As relaçõesinterétnicas geralmente envolviam guerras com canibalismo.Os Juruna4, grandes bebedores de cauim, hoje autodenominados Yudjá, sãoconhecidos como exímios canoeiros e são antigos habitantes das ilhas epenínsulas do baixo e médio Xingu. A história oral Yudjá delimita como territóriooriginal toda a região da Volta Grande até a desembocadura do rio Fresco e atribuia extinção dos povos Takunyapé, Arupaia e Peapaia a sua própria ação guerreira ea seus inimigos memoráveis, os Txukahamãe (Kayapó).Os escritos de Nimuendaju (1981), com base em suas visitas de 1918 e 1919,informam na região, além dos Xipaya, grupos indígenas como os Kuruaya.1Vale observar que o autor não faz referência aos Araweté e aos Parakanã. Os Araweté não eram conhecidos na época do estudo deNimuendaju; talvez fossem confundidos com os Asurini, porque também faziam uso abundante do urucum, costume que veio adenominar os Asurini (os vermelhos). Quanto aos Parakanã a ausência de referência se deve ao fato de que, naquela época, aindaestavam unidos; a cisão que levou uma parte do povo para o Xingu só ocorreu depois dos anos cinquenta.2Segundo Melatti esses Arara são os mesmos que podem ser encontrados agora no baixo Iriri, afluente do rio Xingu.3Incluem-se aqui todos os grupos Kayapó originários das cisões históricas ocorridas nos últimos séculos e que, grosso modo,compreendem os grupos Kararaô, Xikrin, Megranoti, Txukahamãe, entre outros.4O etnônimo Juruna parece significar “boca preta” em Língua Geral (Nhengatu) devido à tatuagem que usavam quando o baixoXingu foi explorado pelo colonizador português.
  • 4. 4Nessa área onde predominam povos falantes do tronco Tupi, os Arara se destacampor falar uma língua Karib5. Viviam no divisor que separa as águas que correm parao Iriri, onde passa a Transamazônica. Hoje, após a atração, ocupam as TerrasIndígenas Arara e Cachoeira Seca6.O mosaico etnográfico do Médio Xingu compreende também os Kararaô e os Xikrin,povos Jê. Tal como os outros grupos Kayapó autodenominam-se Mebengokré, quesignifica “gente do buraco d‟água” ou “gente da água grande”, em referência aosrios Tocantins e Araguaia, cuja travessia marcou a separação do grupo ancestral(VIDAL, 1977).1.2. Apontamentos sobre a Etnohistória do Médio XinguA reconstrução da etnohistória regional vem fornecer informações e subsídios paracompreender a situação atual dos povos indígenas do Médio Xingu, principalmentedaqueles grupos que lograram sobreviver em áreas urbanas para onde foramempurrados pela violência dos ciclos histórico-econômicos. Portanto, o foco dadescrição são as etnias Xipaya, Kuruaya e Juruna, por compreenderem a grandemaioria dos indígenas citadinos e das famílias indígenas moradoras na VoltaGrande.Os arranjos matrimoniais observados nas genealogias, os padrões de localizaçãode residências nas “palafitas”, os fluxos migratórios históricos dentro da baciahidrográfica do Xingu, a inserção dos grupos na cidade de Altamira, oressurgimento das etnias consideradas extintas, a re-construção da identidade e doterritório no mundo urbano, a busca de visibilidade étnica constituem o “modusvivendi” desenvolvido por cada etnia, principalmente no cenário urbano.A colonização aliada à catequização católica realizou ao longo do século XVIIvárias tentativas de escravizar e “aldear” os Juruna. Em 1655 os „convertidos‟ foramestabelecidos na Missão Tawaquara, acima das cachoeiras da Volta Grande(Oliveira, 1970) onde, em 1842, Adalberto da Prússia registrou a presença dosJuruna na Missão restabelecida.Os Juruna foram também observados por Von den Steinen (1884), Coudreau(1896), Nimuendaju (1918); e, este último afirma que sempre mantiveram relaçõesde guerra e de paz com os Xipaya, Kuruaya e Arara do Iriri. Nessa épocarealizaram uma aliança por meio de casamentos interétnicos, confirmada por5Nimuendaju menciona a dispersão do grupo Arara quando a aldeia no rio Iriri foi atacada pelos Kayapó-Gorotire em 1918. Nomesmo relato conta que em 1934 este território foi tomado pelos Kayapó-Gorotire, obrigando os Kuruaya a se espalharem: “algunsseguiram para o Tapajós, outros se dispersaram ao longo do rio Iriri e outros tantos se juntaram aos poucos Xipaia que viviam pertodo Gorgulho do Barbado” (Nimuendaju 1940).6Não devem ser confundidos com os Arara da Volta Grande que também são chamados de Arara do Maia. Esse é provavelmenteum subgrupo Arara de família lingüística Karib, que viveu na foz do rio Bacajá no século XIX e que pode ter se misturado com osJuruna e outros não índios ao longo do processo de contato interétnico.
  • 5. 5Coudreau (1896) quando, em visita à aldeia da Cachoeira de Jurucuá, registravários casamentos entre Juruna e Xipaya (Oliveira, 1970).Os Xipaya permaneceram sem contato direto com o “mundo civilizado”, na regiãodos rios Iriri e Curuá, apesar de terem feito contato, em 1750, com o jesuítaHundertpfund que visita Tawaquara e a seguir entra em contato com os Kuruaya(Nimuendaju, 1948).Os ataques dos Kayapó, em 1885, levaram os Xipaya a abandonar as aldeiaslocalizadas nas cachoeiras do Iriri, estabelecendo-se no Gorgulho do Barbado,onde realizaram casamentos com os Kuruaya. Entre 1909 e 1913, os Xipaya sãovisitados por Emília Snethlage que reencontra os Kuruaya em 1918 e registra umasituação de extrema subordinação dos Xipaya e Kuruaya aos patrões seringalistas.A partir de 1918 intensificam-se os ataques dos Kayapó que ficam mais intensosdurante a década de 1950, com o avanço do grupo sobre territórios dos Xipaya,Kuruaya e Juruna.Em síntese, a região do Médio Xingu experimentou ao longo dos últimos séculos asfases da catequese jesuítica (1655 -1760), a administração pombalina e suacontinuidade no período imperial (1760– 1860), o boom da borracha (1880-1945), odesenvolvimentismo e ampliação da fronteira de colonização (1950-1980) cujoexemplo mais emblemático é a abertura da Transamazônica na década de 1970 e,atualmente, a fase dos „mega projetos‟ de hidrelétricas, exploração de recursosminerais e vegetais e empreendimentos de colonização privada.A presença de famílias Juruna, Xipaya e Kuruaya no espaço urbano é consolidadano século XX e está estreitamente relacionada ao auge e declínio do ciclo daborracha e da formação da vila de Altamira que já era nessa época o principalentreposto comercial do médio Xingu.Na primeira metade do século XX as fontes etnohistóricas descrevem, para osXipaya e Kuruaya, uma migração pendular, entre os rios Iriri e Curuá e as margensdo Xingu, imediações do igarapé Panelas, local da antiga aldeia-missãoTawaquara. As histórias de vida dos mais velhos Xipaya, Kuruaya e Jurunaevidenciam esse movimento e a posterior fixação das famílias na cidade, poisalguns desses indivíduos nasceram nos seringais (“Malocas”) no Iriri-Curuá; outrosnasceram no “Moquiço”7ou “Aldeinha”, assentamento indígena que posteriormentefoi incorporado pelo bairro São Sebastião, em Altamira.7Segundo Maria Helena (Juruna idosa da Ilha da Fazenda), o termo moquiço quer dizer “monte de mato”. O Dicionário Houaissdefine o termo como “habitação rústica, desprovida de conforto; casebre”.
  • 6. 61.3. Índios Citadinos: “desaldeados” ou “ressurgidos”?Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX houve, portanto,uma profunda compressão das etnias no Xingu, Iriri e Curuá, devido à expansãodos Kayapó e os relatos dos indígenas mais idosos moradores de Altamira apontampara as mudanças ocorridas desde então, as migrações dos grupos para outrasáreas do Médio Xingu e, principalmente, o deslocamento de aldeias inteiras para acidade de Altamira e imediações.Por volta das décadas de 1940-50 as doenças, as epidemias, as mortes, oscasamentos entre Xipaya, Kuruaya, Juruna e com os nordestinos, vindos para aregião como "soldados da borracha", imprimiram um novo perfil à região; assucessivas mudanças forçadas e a dispersão do grupo passaram a idéia de que osXipaya haviam desaparecido como grupo étnico.Nas décadas de 1970-80 os Kuruaya estavam espalhados ao longo do rio Curuá,em pequenos núcleos familiares. A reorganização social só foi possível quando oouro aluvial atraiu indígenas e garimpeiros para as terras ocupadas; mas quando asempresas mineradoras passaram a atuar, os Kuruaya começaram a sofrer violênciafísica8e isso os levou a empenharam-se em sua reorganização social e territorial.Em 2002 uma portaria do Ministério da Justiça declarou a TI Kuruaya de posseindígena permanente.Os Xipaya iniciaram na década de 1970 um movimento que resultou nareunificação do grupo para a reconquista de seu antigo território. Atualmente asituação jurídica da T.I. Xipaya é de “declarada em demarcação” segundo Portaria2.362 (Funai) publicada em 18/12/2006.Esse longo processo de “pacificação” e territorialização promovido pelo Estadobrasileiro gerou diversas transformações: fixação desses grupos em áreas restritasenquanto seus modos de vida baseavam-se na exploração de grandes áreas. Esseprocesso levou uma parcela significativa da população indígena a se fixar noambiente urbano, apesar de continuar mantendo relações com as terras indígenas.Existe, atualmente, um movimento para identificação de uma área indígena nobairro de São Sebastião, que além de comportar o território da antiga missãojesuítica é uma área em que é evidente a ocupação indígena tradicional.No século XX a antiga aldeia transformou-se em um bairro conhecido por Moquiçoou “Aldeinha” (Patrício, 2003), que depois passou a ser conhecido como “bairro da8Nos anos 1980, os arquivos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mencionam as dificuldades enfrentadas pelos Kuruaya,como a situação de pressão, agressão, invasão armada e risco de vida que estavam passando no rio Curuá, em razão da presença dasempresas mineradoras: Espeng Minérios e Minerais LTDA, Brasinor Mineração e Comércio LTDA (garimpo Madalena). Nos anosseguintes passaram a atuar outras empresas, como Andrade Gutierrez S/A, Mineradora Palanqueta, Minerador Souther Anaconda eMadalena Gold Corporation.
  • 7. 7onça" por haver um barracão de comércio de peles do felídeo e, até recentemente,chamava-se São Sebastião.Os relatos indígenas informam que a área da Missão ia além dos limites do bairroSão Sebastião, que hoje equivale aos bairros Independente I, II e Recreio; aí habitauma parte substancial da população indígena da cidade. As condições deocupação desta área foram agravadas, na segunda metade do século XX, pelagrilagem das terras. Por último, o crescimento urbano iniciado a partir da década de1960 e o processo de colonização, levado a efeito na região pelo Instituto Nacionalde Colonização e Reforma Agrária (Incra) provocaram outros impactos negativos detal intensidade que muitas famílias migraram para outros lugares na região (Patrício2003).Nos primeiros anos do século XXI o movimento pela retomada de parte do territóriourbano, que consideram seu de direito, tem sido mais presente no seio dacomunidade citadina e veementemente expresso em suas reuniões e nas açõesque desenvolveram com diferentes atores políticos locais (Cimi, ISA, Funai,Prefeitura, entre outros). Vale destacar o movimento de recuperação de aspectosda cultura material e imaterial, como por exemplo, o interesse em conhecer aliteratura sobre a etnia, detalhes dos grafismos usados na cerâmica e na pinturacorporal, os cantos tradicionais, a língua original, além do incentivo para recuperaras celebrações do Kariá, ritual vinculado ao culto dos mortos.A perspectiva da implantação da usina de Belo Monte vem impor uma novasituação crítica para a população indígena, como o remanejamento de centenas defamílias indígenas residentes nas palafitas, além da possibilidade de outrosimpactos ambientais que fatalmente irão interferir no cotidiano das famíliascitadinas e da Volta Grande do Xingu.2. A Terceira Margem do Xingu2.1. Ser ou não ser índio?Um fenômeno observável em toda a Amazônia é o estreitamento das relações entrecomunidades indígenas e centros urbanos. Nessa articulação, que ocorre desde operíodo colonial, a cidade, a vila, a missão, o entreposto ou o posto militarsustentaram e sustentam as atividades ligadas ao comércio dos produtos florestaisou dos produtos agrícolas.Na área em estudo, os deslocamentos forçados por contingências históricasacabaram, mas observa-se que há uma intensa mobilidade, contínua epermanente, entre as terras indígenas situadas na região e a cidade de Altamira.Esse fluxo observado quando dos levantamentos de campo indica que, há vários
  • 8. 8anos, famílias indígenas Xipaya e Kuruaya deslocam-se da região do “Alto”9, parareencontrar os parentes instalados a jusante, na “rua”10. A recíproca é verdadeira:os Xipaya e Kuruaya citadinos, assim como os Juruna, também mantêm fluxocontínuo para as terras indígenas.À margem desses deslocamentos observa-se, desde os anos 1980, outromovimento de confluência para as cidades. O fator escolar se sobrepõe a outros,levando ao deslocamento do centro de gravidade da família da floresta para acidade. O acesso aos serviços públicos (aposentadoria, saúde) e ao comércio, aremota possibilidade de um emprego na cidade e a perspectiva de outro modo devida fazem com que se diluam os limites entre o urbano e o rural, ou florestal, o“indígena” e o “globalizado” (Andrello, 2006).O surgimento da categoria “índio citadino” é cada vez mais visível na cidade a partirde 1988, com as conquistas da democracia, que fomentaram esse fenômeno emtodo o país.A população indígena em questão é composta por uma grande quantidade decasamentos interétnicos com não índios e, simultaneamente, boa parte dela éresidente há décadas na cidade de Altamira, tendo seus filhos nascido e sidocriados no ambiente urbano.Estas duas características - “índios misturados” e “índios citadinos”- que, no casoem foco se sobrepõem, têm em comum o contraste com a imagem do “índio” quepersiste na consciência nacional: vivendo na “selva” e com hábitos de vida“primitivos” e promíscuos; andando nus ou com vestimentas rudes; fenotipicamentemarcados como exóticos; praticando economia de subsistência ou mesmo“preguiçosos”; religiões mágicas e ausência de ordem política.A antropologia acabou por reafirmar este perfil exótico ao afirmar que uma vez queos povos indígenas entrassem em contato com a sociedade nacional, a tendênciaseria a perda estrutural da sua condição de “índio”.No entanto, a própria representação popular sobre a condição do índio reafirma, demaneira contraditória que, apesar de não poderem ser classificados como “índiosde verdade” (Patrício, 2000), apresentam persistências sociológicas que lhes dãouma condição diferenciada no cenário regional.Os critérios de indianidade definidos pela antropologia, como a continuidadehistórica entre a população originária e a que atualmente se identifica comoindígena, já não se sustentam em termos genéticos e culturais, pois sofreu muitas9Expressão que se refere às terras indígenas localizadas a montante de Altamira, entre os rios Iriri e Curuá.10A expressão “rua” se refere à cidade propriamente dita em contraposição à “aldeia”.
  • 9. 9mudanças com as mesclas ocorridas ao longo dos anos, e não é tão simples de serdocumentada.No Brasil, a antropologia só vai superar os conceitos de “assimilação” e“aculturação” nos anos 1970, quando incorpora as idéias de F. Barth de que grupoétnico é “tipo organizacional” e não “unidade portadora de cultura”, e que o códigoessencial da identidade que orienta as relações interétnicas se exprime porcontraste. Nas décadas seguintes, essas idéias de etnicidade continuaram fortes.Definitivamente, uma cultura indígena não é estática, mas se transforma, perde eganha, esconde e mostra, conforme as relações interétnicas. Assim, índio é aqueleindivíduo que se auto-identifica enquanto tal e é identificado da mesma maneirapela comunidade a que pertence (OIT – convenção 169).Pioneiro nesse campo de estudo, foi o clássico “Urbanismo ou Tribalismo” deRoberto Cardoso de Oliveira sobre os Terena nas cidades do Mato Grosso do Sul.Reflexões inovadoras sobre este tema foram elaboradas recentemente porpesquisadores como Patrício (2000), Saraiva (2005), Andrello (2006) entre outros.Diante do contexto político favorável à mobilização por direitos indígenas, a partirda promulgação da Constituição de 1988, e indo ao encontro desta novaabordagem dinâmica de definição do que é ser índio, um fenômeno sociológico sealastrou por várias partes do país, particularmente na região nordeste e, maisrecentemente, em estados que compõem a Amazônia Legal: é o surgimento dos“índios emergentes”, ou, na linguagem acadêmica, de processos de etnogênese.Os “índios emergentes” conformam um conjunto de pessoas, fruto de processos demiscigenação históricos, que ligadas por laços de parentesco a populações pré-colombianas e também de mesma origem territorial, buscam revitalizar suastradições culturais e linguísticas colocadas em situação de invisibilidade histórica epolítica, e reivindicam suas identidades coletivas de maneira oficial diante doEstado nacional.O caso dos Xipaya, Kuruaya e Juruna citadinos e moradores da Volta Grande doXingu se encaixa perfeitamente nestas características, como demonstraram aspesquisadoras Marlinda Patrício (2000) e Márcia Saraiva (2004).Além dessa condição de “índios misturados”, os três grupos em foco têm sobre si opreconceito generalizado e arraigado na consciência nacional e regional (inclusive,em segmentos da própria Funai) de serem, em sua maior parte, moradores dacidade, carregando o estigma de “índios desaldeados”, portanto, não sujeitos aosdireitos coletivos garantidos para aqueles que vivem em situação de aldeia.O conceito “índio citadino” é também aplicado aos indígenas “beiradeiros”, ou seja,às famílias indígenas moradoras na região da Volta Grande do Xingu, que mesmo
  • 10. 10morando fora das terras indígenas reservadas têm reivindicado, junto à Funai eFunasa regionais, sua condição étnica e, portanto, os mesmos direitos especiais deassistência.Os quadros genealógicos dão conta da relação de parentesco entre os “índioscitadinos” e grupos que residem em terras indígenas. Essas informaçõesgenealógicas fornecerão subsídios para que as famílias Xipaya, Kuruaya, Juruna,entre outras – “citadinas” e “misturadas” – possam acessar seus direitosconstitucionais, a começar pelo reconhecimento formal de sua condição indígena.2.2. Aldeias e Indígenas invisíveis emergem dos igarapés – padrões deocupação urbana e espaços de resistência indígena.Empurrada para as zonas mais insalubres da cidade de Altamira, a maioria dasfamílias indígenas vive hoje à beira dos igarapés Altamira, Ambé e Panelas e emsuas proximidades, em condições extremamente precárias e sujeita, todos os anos,às enchentes que as levam para abrigos provisórios em estádios, escolas etc.Entre as etnias residentes na cidade predominam os Xipaya, com 38,24%, seguidospelos Kuruaya, com 25,58% e pelos Juruna, com 13,83%. O total das outras etniassoma 22,35%. (ver em anexo o quadro 2.2.1)Gráfico 2.2.1 – Percentual de etnias das famílias indígenas entrevistadas emAltamiraFonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009Essas etnias estão espalhadas por vários bairros da cidade, mas Açaizal eIndependente II são aqueles em que há mais famílias Xipaya e Kuruaya, seguidospor Boa Esperança, Aparecida, Independente I, próximos aos igarapés Altamira ePanelas. Essas aglomerações parecem reproduzir a espacialidade das aldeias noespaço urbano.Quanto à pirâmide etária, como se vê no gráfico, predominam as pessoas em idadeprodutiva, o que é muito favorável à reprodução física e cultural daquelas famílias:
  • 11. 11Gráfico 2.2.2- Faixa etária e sexo dos entrevistados (%)Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009; (homens / mulheres)Entre os “índios citadinos”, são muito frequentes os casamentos, tanto entre etniascomo entre índios e não índios. Os quadros 2.2.2 e 2.2.3 em anexo mostram estescasamentos interetnicos – 222 em 248 casais. Não parece haver qualquer restriçãoà exogamia. Pelo contrário, os casamentos com não índios já ocorriam no ciclo daborracha, quando os seringueiros recebiam ou tomavam índias em troca do apoio adeterminado povo indígena acossado por outros povos. Tais casamentos, quecontinuam acontecendo, parecem representar, hoje ainda, uma estratégia desobrevivência, não mais como sobrevivência física, mas como busca dereconhecimento social.Na Volta Grande, esta situação se repete: os casamentos mistos, principalmenteentre índios e não índios também são frequentes. De 38 casais, 34 estão nestecaso, como mostra o quadro 2.2.4 em anexo.Confirma-se a estreita relação entre a “rua”, as aldeias e a Volta Grande:aproximadamente 2/3 da população indígena de Altamira (72%) tem parentes nasaldeias, assim como em outros locais, como a beira do Xingu, ou, maisespecificamente, na Volta Grande.Na Volta Grande, quase a metade das famílias afirmou ter parentes morando nasterras indígenas (48%); outros tantos afirmaram ter parentes em outras localidades.E, como em Altamira, também na Volta Grande a relação com as aldeias, a “rua” eoutras localidades da região é bastante intensa, transitando a população nas“voadeiras” pelo rio Xingu e igarapés.Reforçando a demanda por terra indígena urbana na área da antiga missãoTawaquara, protocolada pelos índios na Funai, 76,8% dos entrevistados respondeuque é favorável a esta reivindicação, 3,5% que não e 19,7% não souberamresponder.
  • 12. 122.3. Guia de sobrevivência na anti-cidade – Condições de vida e aspectos dasaúde e educação.As condições de vida em Altamira são precárias para quase toda a população, noque se refere a infraestrutura, serviços públicos, emprego e renda. Mas, para apopulação indígena são muito piores. Embora a legislação não faça nenhumadistinção entre índios “citadinos” e “aldeados”, principalmente com relação à saúde(Lei nº 9.836/99), as famílias indígenas de Altamira não são atendidas pela Funasa.Além de não se beneficiarem do atendimento da Funai e Funasa, as famíliascitadinas, em sua maioria, não são beneficiadas pelos programas destinados àpopulação de baixa renda, como o Bolsa Família (27,94%). E, das pessoas commais de 60 anos, apenas 10% recebe aposentadoria.As moradias indígenas são feitas de madeira e sobre pontais, estilo palafita, e nãotêm sanitários ou fossas. Cada domicílio tem em média três cômodos, havendouma grande concentração de pessoas no mesmo espaço. A ausência desaneamento básico, especialmente de sistemas de abastecimento de água tratadae de esgotamento sanitário, é geral e faz com que os moradores, especialmente ascrianças, sejam acometidos por diarréia e gripe. Devido à inexistência de rede deesgotamento sanitário, há um montante significativo de esgotos lançadosdiretamente nos igarapés e no rio Xingu.A precariedade da infra-estrutura urbana favorece a ocorrência anual deinundações em vários pontos da cidade no período chuvoso. Estas inundações,associadas à falta de saneamento básico, potencializam a ocorrência de doençasveiculadas pela água, por exemplo, a esquistossomose e a dengue. O grau dedegradação ambiental dos espaços urbanos é particularmente sensível para apopulação indígena devido a sua condição de extrema vulnerabilidade social.Gráfico 2.3.1 – Condições de moradia da população indígena em Altamira (%)
  • 13. 13Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte 2009.A situação de vulnerabilidade se repete na Volta Grande, embora a vizinhança dorio Xingu, com seu grande volume de água, e o menor adensamento populacionalatenuem um pouco a falta de infraestrutura. Por outro lado, a situação se agravadevido à distância das cidades. A estrutura de saúde nestas localidades é precária,e a maioria da população recorre a Altamira, num deslocamento que leva horas,sendo que muitas vezes paga pelo transporte.A vulnerabilidade social é agravada tanto pela alta taxa de analfabetismo entre oschefes de família – Altamira: 25% e Volta Grande: 23,8% - quanto pelas condiçõesda educação escolar, uma vez que o direito à educação diferenciada não érespeitado e que o alto grau de preconceito discrimina os alunos indígenas,aumentando a evasão escolar devido à introjeção do sentimento de inferioridade(BOGÉA, 1997). Acresce que cerca de um terço dos chefes de família (53,53% emAltamira e quase 60% na Volta Grande) tem só até a 4ª série do curso fundamental.Gráfico 2.3.2 - Escolaridade dos chefes de famílias indígenas residentes emAltamira (%)Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009; *EJA: Educação de Jovens e AdultosJá a nova geração, em Altamira, está alcançando um grau de escolaridade maior,porém não de forma homogênea: há estudantes universitários, enquanto outros têmaté a quarta série, mas são analfabetos funcionais.
  • 14. 14Na Volta Grande as escolas situam-se nas localidades de maior concentraçãopopulacional, como Ilha da Fazenda, Garimpo do Galo e Ressaca, e atendem todaa população destas comunidades, sem que haja educação diferenciada para osindígenas. Os jovens, apesar da insistência dos pais e devido às grandesdistancias, tentam completar o primeiro grau, porém a grande maioria acabaabandonando a escola, o que mantém a pobreza das famílias, e não permiteperspectivas de mudança.2.4. Bases materiais para a reprodução sociocultural – renda e trabalho.Com relação ao mercado de trabalho, a situação da população indígena não émuito diferente do que ocorre com o conjunto da população de Altamira. Os poucosanos de estudo e a falta de qualificação profissional adequada ao mercado detrabalho da cidade, visto que os índios da região, tradicionalmente, estão ligados àsatividades de pesca e extrativismo, limita suas oportunidades de emprego e mesmode trabalho. São muitos os desempregados e aqueles que trabalham fazem, emsua maioria, serviços que exigem pouca qualificação e proporcionam parcosrendimentos.A aposentadoria é importante fonte de recursos das famílias, sendo a “ocupação”principal do maior número (22,35% das famílias), tendo-se tornado uma importanteestratégia de sobrevivência das famílias extensas. Em seguida, vem a construçãocivil, com cerca de 20% das pessoas em funções sem qualificação e de baixaremuneração. A pesca profissional ocupa cerca de 10% dos chefes de família; estaatividade é também praticada pelos aposentados, desempregados e pelasmulheres, como forma de complementação da dieta familiar. O trabalho em casa defamília é o que mais ocupa as mulheres. Há cerca de 5% desempregados e 5% sãoagricultores. Apenas três chefes de família têm profissões qualificadas. Não foiregistrada a ocorrência de trabalho infantil.Depreende-se que a inserção da população indígena no mercado de trabalho deAltamira é precária, representando um contingente mal remunerado, e apenasdisponível para qualquer atividade que não exija qualificação.
  • 15. 15Gráfico 2.4.1 – Renda das famílias indígenas de Altamira (%)11Fonte: EIA / Rima do AHE Belo Monte, 2009.Mais de 10% dos entrevistados declarou não ter nenhuma fonte de renda. Àpergunta: mas, de que vivem? As respostas eram: “É, minha mãe ajuda”, ou, “elevai pescar”. Ou seja, explicitavam o papel dos mais velhos na família, assim como aimportância da pesca em sua dieta alimentar. Mesmo somando-se o rendimento detodos os membros da família que estão trabalhando, 83% delas dispõem de, nomáximo, R$ 930,00 por mês. Considerando-se que as famílias têm, em média 5pessoas cada uma, verifica-se que esta é uma renda muito baixa.Na Volta Grande, 27% dos chefes de família são garimpeiros, 21% pequenosprodutores rurais e as aposentadorias sustentam um pouco mais de 16% dasfamílias. A maioria das famílias, à semelhança das que vivem em Altamira, tem atéum salário mínimo de renda mensal e apenas 30% recebe o “Bolsa Família”.Gráfico 2.4.2 - Renda dos chefes de família na Volta Grande (%)Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009.3. Inverno e verão permanentes – construção de um mito pan-xinguano?“Dos três céus que formavam com a terra um cosmos dotado de quatro andares, jácaíram dois e periga cair o último, derrubados por Selã‟ã em represália aoextermínio dos povos indígenas do rio Xingu. Segundo um mito, “Selã‟ã ficoufurioso e derrubou o céu, queria exterminar os Brancos. O rio havia desaparecido.Foi no tempo em que os Yudjá foram extintos, estavam à beira da extinção, equando Selã‟ã tentou avistar o rio, não havia mais rio, e ele ficou furioso e derrubouo céu (…). O sol apagou, tudo ficou escuro. Os Juruna ficaram apreensivos, os11A renda foi calculada somando-se o rendimento de todos os membros de cada família.
  • 16. 16poucos Juruna sobreviventes. (…) Os que se abrigaram ao pé de um granderochedo, somente eles se salvaram; os que se encontravam alhures morreram,todos os Brancos, os Brancos todos morreram, os Índios morreram, os Jurunamorreram. Os que estavam abrigados sob um rochedo escavaram o céu espessocom um pedaço de pau(…). Os sobreviventes reproduziram-se. “Selã‟ã disse (a umJuruna, no passado recente): „É assim que hei de fazer: quando os Índiosdesaparecerem, quando os Índios desaparecerem das ilhas, eu desmoronarei océu, o último céu”. (Lima, 2001)Este mito Juruna parece prever o que vai acontecer caso a usina de Belo Monteseja de fato construída. Na Volta Grande – que é parte do território tradicionalJuruna - as águas do Xingu ficarão distantes das margens em que vivem asfamílias, ou muito reduzidas com o desvio do rio. De fato, esse trecho do médioXingu terá sua vazão reduzida no inverno, devido ao desvio do curso normal paraos canais artificiais previstos no projeto de engenharia.Das 16 localidades da Volta Grande onde vivem famílias indígenas, quatro (24famílias) encontram-se na margem esquerda ou na Ilha da Fazenda, e sofrerãoensecamento. Outras nove localidades (19 famílias) situam-se na margem direita, àbeira do canal de vazão reduzida. E quatro localidades (4 famílias) situam-se amontante do eixo da barragem, onde o nível do rio ficará permanentemente alto,caso a barragem seja construída. O mesmo ocorrerá nas imediações e noperímetro da cidade de Altamira, onde as águas permanecerão sempre altas, comono verão, na época das enchentes.Em Altamira verificou-se que, das 340 famílias indígenas cadastradas, 76 residemabaixo da cota 97 msnm que é a cota de formação do reservatório previsto para aUHE Belo Monte, ou seja, que deverão ser obrigatoriamente remanejadas, caso ausina seja construida. A cota 100 msnm é a chamada cota de segurança doreservatório. Em principio as famílias que moram até esta cota também deverão serremanejadas, embora a água não venha a atingir suas moradias. No total, cerca de200 famílias serão transferidas. Entretanto, devido à topografia urbana e à situaçãoprecária dos sistemas de escoamento das águas pluviais e de esgotamentosanitário e como já ocorrem hoje, afloramentos pontuais em áreas onde não severificam inundações, é de prever que o número de famílias indígenas remanejadasserá mais elevado.Esta radical transformação ambiental, aliada ao impacto provocado pelo grandeafluxo de pessoas de fora, afetará a dinâmica sociocultural e econômica de toda aregião; no caso dos povos indígenas uma possível resposta a essastransformações será a criação de um novo mito apocalíptico, desta vez, com um
  • 17. 17caráter pan-xinguano.Como solução alternativa, caso a usina venha a ser construida, além das políticaspúblicas relativas ao atendimento à saúde e à educação, qualificação profissional,melhoria de renda monetária e ao reconhecimento de sua identidade étnica a quetêm direito todos, tanto os moradores de Altamira como os da Volta Grande, osíndios “citadinos”, por intermédio de suas lideranças, pleitearam um bairro indígena,com atendimento à saúde e à educação diferenciadas, além de melhores condiçõesde acesso ao rio Xingu para atividades domésticas, econômicas e de lazer.Em seu projeto de bairro, os índios incluiram instalações para receber os parentesmoradores nas terras indígenas, seja para tratamento de saúde, seja para continuaros estudos, seja por outras necessidades.Vale dizer que a decisão das famílias pela implementação de um bairro indígenaem Altamira não elimina e nem se confunde com a demanda pela área indígenaTawaquara, conforme deixaram claro suas lideranças. Segundo elas, trata-se deuma reivindicação histórica que continuará a fazer parte da agenda política dosíndios Xipaya e Kuruaya, independentemente de Belo Monte.Segundo o desejo expresso pelos índios, o bairro deverá abrigar as famíliasafetadas diretamente pelo enchimento do reservatório do Xingu (cerca de 200) oumesmo todas aquelas que vivem na cidade (estimadas em 340, mais as cerca de25 ainda não cadastradas). Para eles, o bairro deverá situar-se a não menos de 3,5km e não mais de 5,0 km da cidade e dispor de acesso ao rio Xingu.Grosso modo, deve-se prever uma área de cerca de 40 hectares, com lotes de1.000 m² que permitirão às famílias, além de morar, plantar e criar pequenosanimais. É desejo das famílias que o bairro indígena seja organizado por quadrasde acordo com as diversas etnias e que haja documento único de forma a evitarque os lotes sejam vendidos, garantindo assim a moradia das futuras gerações.No projeto expresso pelos índios nos encontros realizados, o bairro indígena deverácontar com: escola diferenciada, segurança indígena, hospital, moradiasadequadas, asfalto, saneamento, transporte público, telefone, praças, energia comtaxa social, espaço cultural (oficina para artesanato, biblioteca viva, manifestaçõesculturais), correio, caixa eletrônico, igrejas católica e evangélica, hospedagem paraos índios em trânsito e para os estudantes das aldeias e da Volta Grande.A efetivação dessas reivindicações permitirá a re-significação da categoria “índiocitadino” para cidadão indígena.
  • 18. 184. ConclusãoParadoxalmente, os estudos etnoambientais necessários ao licenciamento do AHEBelo Monte tornaram possível a produção, sistematização e análise de umconhecimento até então inexistente sobre os índios citadinos e residentes na VoltaGrande do Xingu, o que tende a fortalecer o movimento indígena de recuperaçãoda identidade étnica hoje marcada pela invisibilidade.Para que este conhecimento seja complementado, torna-se necessário estudar asterras indígenas Xipaya e Kuruaya e, também, as famílias indígenas que vivemisoladas às margens do rio Xingu, a montante de Altamira. E, até onde se sabe,estes dois estudos são parte das condições para a continuação do processo delicenciamento ambiental da usina.Como demonstraram os resultados da pesquisa, a população indígena que vive emAltamira caracteriza-se como um contingente de baixa renda, com escasso acessoa serviços públicos básicos. Portanto, independentemente da construção de BeloMonte, deveria ser objeto de uma atenção especial por parte do poder público emsuas diversas esferas, municipal, estadual e federal.A impressão que fica da análise de todos os dados recolhidos em campo é que osentrevistados que moram na cidade de Altamira gostariam de unir a aldeia e acidade – a solidariedade que encontram na primeira, assim como o acesso à terra,à caça e à pesca, ao extrativismo mineral e vegetal -, ao atendimento à saúde e àeducação e ao acesso aos bens de consumo e aos serviços que a cidade,teoricamente, proporciona.Considera-se que o projeto de um bairro indígena, tal como foi proposto pelosíndios “citadinos”, é a forma mais adequada de compensar o remanejamento, masprincipalmente de resgatar o passivo histórico que foi a perda da área da antigamissão e dessa forma também proporcionar-lhes, além de condições de vida maissalubres e dignas, condições de continuar e aprofundar seu movimento de resgatede identidade étnica e cultural.As comunidades ribeirinhas da Volta Grande são também altamente vulneráveis doponto de vista físico-espacial, dada a precariedade e/ou insuficiência de infra-estrutura. Também, quanto ao aspecto sócio-econômico, uma vez que suaprodução não ultrapassa o nível da subsistência.É notável e uterina a relação de dependência dessas famílias indígenas para com orio Xingu e seu emaranhado de igarapés. O rio, além de ser desde temposimemoriais uma referência simbólica sempre presente, na mitologia Juruna eXipaya, é por excelência o principal ecossistema de exploração e uso e é também oprincipal meio de deslocamento para as terras indígenas e as cidades.
  • 19. 19No caso da Volta Grande, o resgate do passivo histórico compreende, além daimplementação das políticas públicas a que os indígenas têm direito – educação esaúde diferenciadas e etnodesenvolvimento – a identificação das áreas ocupadaspelas famílias e, consequentemente, sua regularização fundiária.5. AgradecimentosOs autores agradecem especialmente à socióloga Mayra Pascuet, pela ajuda nafinalização do artigo e à equipe multidisciplinar que, com eles, elaborou o estudoetnoecológico do componente indígena sobre os índios citadinos e ribeirinhos daVolta Grande do Xingu para os estudos ambientais do AHE Belo Monte: SoniaLorenz, Mirella Poccia, Luis Roberto de Paula, Fabio Ribeiro, Humberto Kzure-Cerquera, João Pavese, André Michiles, Mayra Pascuet e Samuel Medeiros Luna.E muito, e principalmente, aos colaboradores indígenas que integraram a equipe detrabalho: Elza Maria Xipaia de Carvalho, Raimundo Veriano Ferreira, MarileneCarvalho Ferreira, Darilene Xipaya Santana, Antonio Xipaya e Marly Nascimento daSilvaReferênciasANDRADE, Lúcia M. M. 1988. "Os Juruna no médio Xingu". Em As hidrelétricas do Xingu eos povos indígenas (Leinad Ayer O. Santos & Lúcia M. M. de Andrade, orgs.). São Paulo:Comissão Pró-Índio de São Paulo. pp. 147-151.ANDRELLO, Geraldo Luciano. Cidade do Índio. Transformações e cotidiano em Iauaretê.São Paulo: Editora da UNESP/ ISA/ NuTI, 2006CIMI - “O direito dos povos citadinos em debate” - Porantim – em defesa da causa indígena- Ano XXVI. N° 280 Brasília-DF. Novembro de 2005.COUDREAU, Henri. Viagem ao Xingu. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo : Edusp, 1977.EMPERAIRE, L & ELOY, L - A cidade, um foco de diversidade agrícola no Rio Negro(Amazonas, Brasil)? Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 3, n. 2, p.195-211, maio-ago. 2008.FAUSTO, Carlos. 1997. A dialética da predação e familiarização entre os Parakanã daAmazônia Oriental: Por uma teoria da guerra ameríndia. Tese de doutorado. Rio de Janeiro:UFRJ-Museu Nacional-PPGAS. [2ª diagramação].GALVÃO, Eduardo – “Áreas Culturais Indígenas do Brasil: 1900-1959”, Boletim do MuseuParaense Emílio Goeldi, N.S. Antropologia, nº8. Belém, PA., 1960.LEME Engenharia - EIA/RIMA AHE Belo Monte. São Paulo, 2008, vol 35.LIMA, T.S. “Yudjá”, Verbete para a Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo:Instituto Socioambiental. www.socioambiental.orgMAGALHÃES, Antonio Carlos. Identidade e reconhecimento étnico – índios citadinos emAltamira. Fundação Humanitas, 2008.MELATTI, J. C. - População Indígena - Série Antropologia 345 – UNB, Brasília, 2004.MELATTI, J.C. – Amazônia Centro-Meridional – In: www.geocities.com/juliomelatti, acessoem 05/03/2009.MÜLLER, Regina Polo. 1988. "Os Asuriní do Xingu". Em As hidrelétricas do Xingu e ospovos indígenas (Leinad Ayer O. Santos & Lúcia M. M. de Andrade, orgs.). São Paulo:Comissão Pró-Índio de São Paulo. pp. 173-177.NIMUENDAJU, Curt. Tribes of the lower and middle Xingu river. In: STEWARD, Julian H.(Ed.). Handbook of South American Indians. v.3. Washington: Smithsonian Institute, 1948.
  • 20. 20- Fragmentos de religião e tradição dos índios Sipáia: contribuições ao conhecimento dastribos de índios da região do Xingu, Brasil Central. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro:Tempo e Presença Ed.; São Paulo: Cortez, n. 7, p.3-47, jul. 1981.OLIVEIRA, A.E. – “Os Juruna do Alto Xingu” in Dédalo. Ano VI, nº11-12, São Paulo, 1970.OLIVEIRA FILHO, João Pacheco. A Problemática dos “Índios Misturados” e os Limites dosEstudos Americanistas: um Encontro entre Antropologia e História. In: Ensaios emAntropologia Histórica. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.PATRÍCIO, Marlinda Melo. Índios de Verdade – O caso dos Xipaia e Curuaia em Altamira –Pará. Dissertação em Antropologia Social na Universidade Federal do Pará. Belém/PA –2000.- “Kuruaya”, Verbete para a Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: InstitutoSocioambiental. www.socioambiental.org. 2003- “Xipaya”, Verbete para a Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: InstitutoSocioambiental. www.socioambiental.org. 2003RIBEIRO, Fabio Nogueira. Etnodesenvolvimento e o mercado verde na Amazônia indígena:os Asuriní no Médio Xingu. Dissertação de mestrado. São Paulo: Procam/USP, 2009.SANTOS, Leinad e ANDRADE, Lucia, org. As hidrelétricas do Xingu e os Povos Indígenas.Comissão Pró Índio, São Paulo, 1988.SARAIVA, Márcia Pires. Identidade multifacetada: a reconstrução do "ser indígena" entre osJuruna do Médio Xingu. Dissertação de Mestrado - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos,Universidade Federal do Pará, Belém, 2005SNETHLAGE, Emília. A travessia entre o Xingu e o Tapajós. Manaus : Governo do Estadodo Amazonas ; SEC, 2002. 72 p. (Documentos da Amazônia, 98)STAVENHAGEN, Rodolfo. Los Derechos Indígenas. In: ZAMBRANO, Carlos Vladimir (Ed.).Etnopolíticas y Racismo: Conflictividad y Desafios Interculturales em América Latina. 2ª ed.Bogotá: Universidad Nacional de Colômbia, 2003.STEINEN, Karl von den. O Brasil Central: expedição em 1884 para a exploração do rioXingu. Rio de Janeiro : Companhia Editora Nacional, 1942.VIDAL, LUX – Morte e Vida de Uma Sociedade Indígena Brasileira. São Paulo,Hucitec/EDUSP, 1977VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & Lúcia M. M. de ANDRADE. "Os povos indígenas domédio Xingu". Em As hidrelétricas do Xingu e os povos indígenas (Leinad Ayer O. Santos &Lúcia M. M. de Andrade, orgs.). São Paulo: Comissão Pró-Índio de São Paulo, 1988.WILHERLAN, Adalbert Heinrich (Príncipe Adlaberto da Prússia). Brasil : Amazonas-Xingu1811-1873. Belo Horizonte : Itatiaia, 1977.AnexosQuadro 2.2.1 – Famílias indígenas entrevistadas em Altamira, segundo etnia ebairroBairro Xipaya Kuruaya JurunaXipaya-Kuruaya Outras EtniasTotalIndependente I 23 13 1 0 1 Munduruku 38Açaizal 15 7 13 1 Kayapó 36Invasão dosPadres 6 7 2 01 Guajajara, 1 Tipiniquim , 2Munduruku 19Brasília 5 4 31 Kayapó, 1 Munduruku, 1Carajá, 1 Arara 16Independente II 20 14 2 3 1 Munduruku 40Sudam I 8 2 1 1 Kayapó 12São Sebastião 4 0 4 1 2 Arara, 2 Kayapó 13Olarias 0 3 1 2 Kayapó 6Mutirão 8 4 3 0 2 Munduruku, 5 Arara 22Primavera 1 Kayapó 1Colina 3 2 0 5Centro 10 4 0 0 4 Munduruku, 2 Kayapó, 1 Arara 21
  • 21. 21Bela Vista 6 3 1 1 Munduruku 11Jd. Oriente 1 1 0 2Liberdade 2 1 2 0 5Boa Esperança 4 7 12 Munduruku, 2 Kayapó, 5 Baré,1 Mocorongo, 1 Anambé 23São Domingos 0 1 2 02 Munduruku, 2 Kayapó, 1Wapixana 8Premem 1 0 1Aparecida 15 12 92 Guarani, 7 Kayapó, 2Tupiniquim, 5 Arara, 4 Canela, 1Mumduruku, 1 Carajá 58Esplanada doXingu 1 1 0 2Ivalândia 1 0 1Total 130 87 47 4 72 340Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009Quadro 2.2.2– Casamentos interétnicosEtnias/BairrosIndependenteIAçaizalInvasãodosPadresBrasíliaIndependenteIISudamISãoSebastiãoOlariasMutirãoPrimaveraColinaCentroBelaVistaJd.OrienteLiberdadeBoaEsperançaSãoDomingosPrememAparecidaEsplanadadoXinguIvalândiatotalíndio/não índio 21 26 13 14 29 8 9 4 12 1 3 8 8 1 4 13 6 1 38 2 1 222Xipaya/Xipaya 3 1 1 1 6Kuruaya/Kuruaya 1 1Xipaya/Juruna 1 1 2Xipaya/Kuruaya 1 1 1 3Canela/Kuruaya 1 1Guajajara/Guajajara 1 1Munduruku/Xipaya 1 1 1 3Mund./Munduruku 1 1Kayapó/Arara 1 1Kayapó/Xicrim 1 1Xipaya/Canela 1 1Arara/Xipaya 1 1Kayapó/Kayapó 1 1Kayapó/Juruna 1 1Arara/Arara 1 1Kuruaya/Kayapó 1 1Total de casados 26 28 14 14 30 9 12 4 14 1 4 12 8 1 4 15 7 1 41 2 1 248Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009.
  • 22. 22Quadro 2.2.3 - Distribuição por etnia e sexo dos casamentos entre índios enão índiosBairroÍndios casados com não índios, por sexoCasadosentrevistadosXipaya Kuruaya JurunaXipaya/Kuruaya outrosíndiose ñíndiosTotaldoscasadosM H M H M H M H M HIndependente I 7 4 7 2 0 1 0 0 0 0 21 26Açaizal 8 4 4 2 4 3 0 0 1 0 26 28Invasão dosPadres 4 2 2 1 2 0 0 0 2 0 13 14Brasília 3 1 3 1 1 1 0 0 2 2 14 14Independente II 11 5 6 4 1 0 2 0 0 0 29 30Sudam I 5 0 1 1 1 0 0 0 0 0 8 9São Sebastião 0 3 0 0 3 1 1 0 0 1 9 12Olarias 0 0 1 1 1 0 0 0 0 1 4 4Mutirão 1 4 2 0 1 1 0 0 2 1 12 14Primavera 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 1 1Colina 0 1 2 0 0 0 0 0 0 0 3 4Centro 2 2 1 1 0 0 0 0 2 0 8 12Bela Vista 3 1 2 0 1 0 0 0 1 0 8 8Jd. Oriente 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1Liberdade 2 0 1 0 1 0 0 0 0 0 4 4Boa Esperança 0 2 3 1 0 0 0 0 2 5 13 15São Domingos 0 0 1 0 1 1 0 0 3 0 6 7Premem 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 1 1Aparecida 5 7 2 6 2 0 0 0 7 9 38 41Esplanada doXingu 0 1 0 0 1 0 0 0 0 0 2 2Ivalândia 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 1 1Total 51 37 39 22 20 8 3 0 23 19 222 248Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009.Quadro 2.2.4 – Casamentos interétnicos na Volta Grande do XinguEtnias/BairrosArrozCruCotoveloFazendaBacabeiraGarimpodoGaloIlhadaFazendaItatáGarimpoJapãoLocalidadeJuliana(Bacajá)MineraçãoVerenaMoradaNovaPAAssuriniParatizãoParatizinhoRessacaRessacãoSitioMangueiraSitioSãoFranciscosemrespostatotalÍndio/nãoíndio 3 0 2 4 11 2 1 1 1 1 1 0 0 4 0 0 1 1 33Xipaya/Xipaya 0 0 2 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 3Arara/Xipaya 0 0 0 0 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1Juruna/Arara 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 0 1Total decasados 3 0 4 4 13 2 1 1 1 1 1 0 0 4 0 1 1 1 38Fonte: EIA/Rima do AHE Belo Monte, 2009.