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  1. 1. A importância da leitura no ensino superiorSilmara de Jesus Bignardi dos SantosMestre em Educação - PUCCAMPProfessora do Centro Universitário Anhanguera - Unidade Pirassunungae-mail: silmarajbs@bol.com.br Resumo Abstract Considerando que a leitura é essencial para o Considering that the reading is essential for theaprendizado do aluno, e, conseqüentemente, tem student’s learning, and, consequently, she has implicationsimplicações na sua formação acadêmica e no seu in her academic formation and in her acting as professionaldesempenho como futuro profissional, este trabalho future, this work detaches the teacher’s importance todestaca a importância do professor conhecer a know the theoretical basis on the teaching of the readingfundamentação teórica sobre o ensino da leitura para to base her pedagogic action because besides havingfundamentar sua ação pedagógica pois além de ter os the specific knowledge of a certain discipline, it isconhecimentos específicos de uma determinada necessary also to have knowledge on the teaching of thedisciplina, é preciso também ter conhecimentos sobre o reading. To identify the abilities and strategies involvedensino da leitura. Identificar as habilidades e estratégias in the reading is decisive to accomplish a good work inenvolvidas na leitura é decisivo para se realizar um bom classroom, because that is an action that can contributetrabalho em sala de aula, pois essa é uma ação que to correspond to the emerging needs of the teaching now,poderá contribuir para corresponder às necessidades that is, to drive the student to the production of newemergentes do ensino atualmente, isto é, conduzir o aluno knowledge, without losing of view the knowledge alreadyà produção de conhecimentos novos, sem perder de vista elaborated. Like this, the action of reading and the oneo conhecimento já elaborado. Assim, o ato de ler e o de of learning is very close two realities, thereforeaprender são duas realidades muito próximas, portanto inseparable, interfering with mutually. To dominate theindissociáveis, interferindo-se mutuamente. Dominar a reading and being a proficient reader leads the studentleitura e ser um leitor proficiente conduz o aluno a uma to an attitude activates, dynamics and critic in relation toatitude ativa, dinâmica e crítica em relação ao the knowledge.conhecimento. Key-words: Reading; Learning; Academic Palavras-chave: Leitura; Aprendizagem; Ensino CoursesSuperior 77
  2. 2. A importância da leitura no ensino superior Introdução No interior da discussão sobre a importância do agir pedagógico nesse novo paradigma, Rios (1999) A leitura no âmbito universitário tem sido objeto afirma que:de estudo realizado por educadores e pesquisadores. (...) o saber fazer bem tem uma dimensãoMuitos desses estudos destacam a sua importância como técnica, a do saber e do saber fazer, isto é, doum dos caminhos que levam o aluno ao acesso e à domínio dos conteúdos de que o sujeito necessitaprodução do conhecimento, enfatizando a leitura crítica para desempenhar o seu papel, aquilo que se requer dele socialmente, articulado com ocomo forma de recuperar todas as informações domínio das técnicas, das estratégias queacumuladas historicamente e de utilizá-las de forma permitam que ele, digamos, “dê conta de seueficiente. Entretanto, tem sido demonstrado que os alunos recado” em seu trabalho. (RIOS, 1999, p.47)ingressam no curso superior apresentando grandesdificuldades em relação à leitura, isto é, não conseguem Com todas as transformações que estãocompreender os textos lidos, textos esses que são ocorrendo no mundo, é preciso desenvolver a autonomiasolicitados pelos professores e, portanto, imprescindíveis nos alunos levando-os a aprender a aprender. Isso implicapara uma sólida formação acadêmica. oferecer-lhes a condição de refletir, analisar e tomar Essa dificuldade, no contexto universitário, pode consciência do que sabe e a mudar os conceitos, sejaser perfeitamente compreendida. Ela se deve, para processar novas informações, seja para substituirprincipalmente, à ausência de tradição no ensino do país conceitos adquiridos no passado e adquirir novosde práticas docentes que conduzam à formação de um conhecimentos.leitor proficiente. Nessa concepção, a educação visa a preparar o Se a dificuldade existe, não adianta reclamar, ou aluno para a vida sócio-política e cultural, cumprindoatribuir a culpa aos professores do Ensino Básico, seu ideal político que é a emancipação do homem.esperar que a dificuldade desapareça como num passe Conforme Saviani:de mágica, ou ignorar o fato e prosseguir com a aula (...) a compreensão da natureza da educaçãoacreditando que se está ensinando e o aluno aprendendo. enquanto um trabalho não material cujo produtoÉ preciso oferecer condições para que o aluno tenha não se separa do ato de produção nos permiteoportunidades para sanar suas deficiências e isso situar a especificidade da educação comodepende do professor, não acontecerá por acaso, referida aos conhecimentos, idéias, conceitos,espontaneamente. valores, atitudes, hábitos, símbolos sob o aspecto O aprender a aprender já se tornou um ponto de elementos necessários à formação dafundamental e indiscutível em Educação, mas para tanto humanidade em cada indivíduo singular, na formaé imprescindível um leitor proficiente, um leitor que seja de uma segunda natureza, que se produz, deliberada e intencionalmente, através decapaz de compreender um texto escrito, que seja capaz relações pedagógicas historicamentede se posicionar diante dele com criticidade e que tenha determinadas que se travam entre os homens.autonomia intelectual. Senão, como buscar novos (SAVIANI, 1992, p. 29)conhecimentos? Como aprender sem a leitura? Comoencontrar soluções para os problemas sem a Considerando que a leitura é essencial para ofundamentação teórica proporcionada através da leitura? aprendizado do aluno, e, conseqüentemente, tem Refletir sobre a dimensão da importância da leitura implicações na sua formação acadêmica e no seuno contexto universitário nos conduz a uma análise de desempenho como futuro profissional e, além disso, deconceitos e objetivos que servem de referência para o ser a base de toda ação pedagógica, este trabalho destacaagir pedagógico. o que os pesquisadores têm ressaltado sobre o ensino A ação docente deve pautar-se pelos quatro da leitura, pois além de ter os conhecimentos específicospilares da educação superior contemporânea, de uma determinada disciplina, é preciso conhecer aestabelecidos no relatório para a UNESCO, da fundamentação teórica sobre o ensino da leitura paraComissão Internacional sobre a Educação para o Século trabalhá-la em sala de aula. Identificar as habilidades eXXI, assim estabelecidos: aprender a conhecer, aprender estratégias envolvidas na leitura é decisivo para se realizara fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. um bom trabalho em sala de aula, pois essa é uma ação 78
  3. 3. A importância da leitura no ensino superiorque poderá contribuir para corresponder às necessidades à compreensão do texto.emergentes do ensino atualmente, isto é, conduzir o aluno Os resultados obtidos das práticas empregadasà produção de conhecimentos novos, sem perder de vista parecem conduzir o aluno à reprodução e ào conhecimento já elaborado. memorização, não ocorrendo a aprendizagem Embora a leitura tenha muitos aspectos, lê-se por significativa.muitas razões como, por exemplo, para obter Certamente, o professor tem papel fundamentalinformações ou para entretenimento, neste trabalho sua no processo ensino-aprendizagem, é fundamentalimportância é dada por considerá-la fundamentalmente conhecer os conceitos teóricos sobre processamento decomo fonte de conhecimento indispensável para a textos escritos para uma ação pedagógica bem informadaformação acadêmica e, posteriormente, para o exercício e fundamentada.profissional. Sendo assim, se o aluno ainda não desenvolveu as habilidades necessárias e não sabe utilizar estratégias O cenário: práticas de leitura na graduação para a compreensão de textos, o professor deve criar oportunidades em sala de aula para que isso ocorra. O Após a indicação da bibliografia, o professor professor tem um papel determinante na formação e nosolicita aos alunos a leitura dos textos que serão discutidos desenvolvimento das habilidades e competências que osna sala de aula. A aula do professor está diretamente alunos ainda não adquiriram. Deve criar situações paraarticulada à realização dessa leitura prévia dos textos. despertar a curiosidade, desenvolver a autonomia; deve,Porém, como os alunos demonstram dificuldades para enfim, criar as condições necessárias para a formaçãocompreendê-los, o que se percebe é que não há de um leitor proficiente.propriamente uma discussão em sala de aula sobre asidéias apresentadas pelo autor e sim a exposição, pelo Leitura: compreensão e criticidadeprofessor, daquilo que considera importante. Ou então,a partir da leitura do texto, passa-se a discutir um tema; A dificuldade dos alunos para compreender osporém não se dialoga com as idéias do autor. O aluno diferentes textos que são necessários para a suaafasta-se do texto lido passando a comentar o tema formação acadêmica, principalmente os propostos nosconforme o seu conhecimento prévio, extrapolando para trabalhos de leitura em sala de aula, requer uma reflexãooutras questões paralelas. sobre a prática efetiva de ler, compreender e criticar. Além disso, a leitura dos textos também é utilizada Os diversos conceitos de leitura existentes podempara a realização de resumos, sendo que, muitas vezes, ser agrupados em duas grandes concepções, geralmentenão há explicitação de um objetivo para essa atividade, vistas como antagônicas.bem como não há o retorno para o aluno sobre o texto Uma primeira tendência é a que prioriza o texto,que produziu. conseqüentemente, a leitura é vista como produto, como O problema se agrava quando o professor solicita reconhecimento de sentidos materializados na superfícieuma resenha. Não há como o aluno posicionar-se textual. Essa posição não considera a importância docriticamente diante de um texto quando ele sequer leitor e preconiza a noção de texto como objetocompreendeu as idéias apresentadas. O texto do aluno, autônomo e fechado de sentidos estáveis.geralmente, revela a sua incompreensão e se caracteriza Essa postura provém de uma visão estruturalistacomo uma colagem do texto original, isto é, revela que e mecanicista da linguagem, entendendo que o sentidoainda não se constituiu como um leitor proficiente. está no texto. Portanto, caberia ao leitor a tarefa de Em relação a não compreensão dos textos pelos decodificar e reconhecer os elementos lingüísticos jáalunos, não há uma ação pedagógica planejada para conhecidos e descobrir o significado dos elementosorientá-los quanto ao desenvolvimento das suas desconhecidos.habilidades e de estratégias cognitivas utilizadas na leitura Uma segunda tendência prioriza o leitor, ele é vistoproficiente. Não é realizado nenhum trabalho pedagógico como fonte de sentidos. Segundo essa posição, a leituracom desenvolvimento de atividades cognitivas de consiste justamente em um processo de atribuição dereflexão, com ativação do conhecimento prévio e análise sentidos ao texto cuja materialidade lingüística tem acrítica do conteúdo lingüístico que possa levar os alunos significação que lhe for atribuída pelo leitor. 79
  4. 4. A importância da leitura no ensino superior Essa segunda concepção de leitura está Discorrendo sobre a importância do ato de ler -fundamentada na psicologia cognitivista e considera que a realidade e a palavra, Freire (1999) enfatiza que a leiturao leitor é a fonte de sentido, portanto opõe-se, em parte, não deve ser apenas um processo mecânico de repetiçãoà concepção anterior. das palavras, mas da compreensão destas e do contexto O que se pode perceber é que essas duas que as envolve. Para ele, o aprendizado da leitura estátendências têm se revelado incapazes de produzir um presente em todas as fases da vida, iniciando-se naleitor crítico, um leitor capaz de construir sua infância, quando se tem a primeira percepção de mundocompreensão a partir das palavras do autor e posicionar- e segue através da leitura da palavra propriamente dita.se com sua contra-palavra. Afirma o autor “A compreensão do texto a ser alcançada É importante ainda refletir a respeito de uma por sua leitura crítica implica a percepção das relaçõesterceira posição teórica sobre leitura, intermediária em entre o texto e o contexto” (FREIRE, 1999, p.11).relação às duas tendências e que supera essa dicotomia Ao narrar suas primeiras experiências de leituratexto-leitor, denominada sociointeracionista e como “momentos em que os textos se ofereciam à nossadesenvolvida a partir do conceito Vygotskyano de inquieta procura” (op.cit, p.16), Freire coloca uma outrainteração na aprendizagem. idéia interessante que é a do ato de ler como engajamento, Essa posição entende que a construção de como busca interessada e significativa por parte do leitorsentidos se dá através de um processo ativo e dinâmico em oposição à recepção passiva e indiferente quede negociação entre autor e leitor no espaço caracteriza a leitura no contexto escolar.compartilhado do texto. Portanto, o leitor para construir Essas duas noções são fundamentais parao significado durante a leitura mobiliza seu conhecimento configurar uma leitura crítica. São igualmente necessáriasprévio, socialmente adquirido e armazenado em a percepção das relações texto-contexto e a ida ao textoesquemas mentais, confrontando-os com as pistas com uma disposição de procura significativa, em umalingüísticas impressas pelo autor no texto, entende-se, atitude de engajamento reflexivo. Faz-se necessárioportanto, que a leitura se processa na interação autor- ressaltar que a palavra contexto está sendo utilizada emtexto-leitor. um sentido bastante abrangente, isto é, como contexto Conforme as recentes correntes teóricas, o texto sócio-histórico (situação social, cultural, histórica ejá não pode ser considerado como um objeto lingüístico ideológica que envolve a produção), discursivo (situaçãocujos sentidos existem fora de um contexto sócio- de enunciação) e intertextual (relação do texto lido comhistórico e discursivo. Koch (1997) define texto como outros textos com os quais ele dialoga).evento discursivo, que vai além da sua materialidade Para Freire (1982) não se pode fazer apenas umalingüística, encaminhando-se, assim, para uma leitura mecânica do texto, na qual se memoriza operspectiva interacional com inclusão do aspecto sócio- conteúdo, sem compreendê-lo. É imprescindível terhistórico. postura crítica para que o estudo possa ser produtivo. Também Kleiman (1998), ao discutir sobre Essa postura crítica necessária ao ato de estudar requerquestões de letramento, adota uma concepção de texto que se “assuma o papel de sujeito desse ato”. Logo, umescrito como evento discursivo que não pode ser determinado trecho de um texto pode suscitar reflexõesdesvinculado do contexto sócio-cultural em que é no sujeito que o levem a novos caminhos, às novasproduzido. Assim, reivindica a necessidade de se legitimar descobertas.outros modos de ler, diferentes do padrão escolar, os É, portanto, necessário, na leitura de um texto,quais se constituem em função do contexto em que seus além da compreensão do seu conteúdo, ter posturaparticipantes estão inseridos. constante de busca. É através da leitura e sua respectiva compreensão Também o ato de estudar um texto implica numaque se consegue entender a realidade. Compreender um relação dialógica com o seu autor, em que se evidenciatexto é estabelecer uma relação dinâmica com um seu posicionamento histórico-sociológico e ideológico.determinado contexto, bem como perceber criticamente É função do sujeito leitor perceber esse posicionamentoa objetividade dos fatos desse contexto. Assim, a leitura que, muitas vezes, está implícito no texto.de um texto precisa transcender os limites dele mesmo e Leitura e compreensão são atividades de granderemeter o leitor à percepção e análise da realidade. importância na aprendizagem; portanto, o trabalho em 80
  5. 5. A importância da leitura no ensino superiorsala de aula desencadeado a partir da leitura deve determinada pelos seus objetivos e suas expectativas éprivilegiar o desenvolvimento do processo de a formulação de hipóteses de leitura”. Essas atividadescompreensão e criticidade. A leitura dos alunos não pode são de natureza metacognitiva e opõem-se aoslimitar-se à decodificação. Formar um aluno que realize automatismos e mecanismos típicos de uma leiturauma leitura proficiente e seja crítico, supõe formar alguém, superficial.cuja compreensão da leitura ultrapasse a simples Entendendo leitura como um ato individual dedecodificação, alguém que construa um significado construção de significado num contexto que se apresentaatravés dos elementos lingüísticos e dos elementos mediante a interação entre autor e leitor, a autoraimplícitos no texto, que estabeleça relações com outros considera necessário o ensino de “estratégias de leitura”,textos já lidos posicionando-se diante das idéias do autor. entendendo-as como “operações regulares para abordar o texto”. Estratégias em leitura é uma ação, ou uma série Aprendizagem, ensino e leitura de ações, utilizadas com a finalidade de construir significados. Assim, Kleiman (1989), e também Koch Kleiman (1989) abordando aspectos da leitura e (1997) conceituam estratégias como formas deliberadasda compreensão de textos afirma que esta é uma de construção de significado, quando a compreensão éatividade complexa, pois envolve uma multiplicidade de interrompida. Classificando-as em “estratégiasprocessos cognitivos, nos quais o leitor se engaja para metacognitivas” e “estratégias cognitivas”, o ensinoconstruir o sentido de um texto escrito. A autora enfatiza estratégico de leitura consistiria no desenvolvimentoa importância de conhecer tais aspectos, pois são eles dessas e na modelagem daquelas.que constituem e contribuem na formação do leitor. As estratégias metacognitivas são definidas comoAssim, tece esclarecimentos sobre o conhecimento prévio “operações (não regras) realizadas com algum objetivoque se tem ao ler, os objetivos e as expectativas, as em mente, sobre as quais temos controle consciente, noestratégias de processamento do texto e a interação na sentido de sermos capazes de dizer e explicar a nossaleitura. ação” (Kleiman, 1998, p. 50). Assim, se o leitor tiver Considera os conhecimentos que o aluno possui, controle consciente sobre essas operações, saberá dizerdenominando-os de conhecimentos prévios, como um para que ele está lendo um texto e saberá dizer quandodos fatores essenciais para a compreensão de um texto. não está entendendo um texto. Essas são asO leitor, durante a leitura, utiliza-se do conhecimento que características básicas apontadas para que um leitor sejaele já tem, como o conhecimento lingüístico, o textual e considerado proficiente.o conhecimento de mundo para construir o significado Já as estratégias cognitivas da leitura regem osde um texto. Dessa forma, a compreensão de um texto comportamentos automáticos, inconscientes do leitor,é um processo que se caracteriza pela utilização do são aqueles processos através do qual o leitor utilizaconhecimento já adquirido pelo leitor, pois sem esse elementos formais do texto para fazer as ligaçõesconhecimento ou com a sua limitação, não haverá necessárias à construção de um contexto.compreensão, ou pelo menos, haverá um Através de estratégias de processamento de texto,comprometimento em relação ao seu significado. o leitor interpreta as suas marcas formais, que são Fazem parte desse conhecimento prévio do leitor percebidas como elementos de ligação entre as formaso conhecimento lingüístico, o conhecimento textual e o contíguas de suas micro e macroestruturas. É uma tarefaconhecimento de mundo. Segundo a autora, é na que pode ser complexa em função da rede de relaçõesinteração desses níveis de conhecimento que o leitor (sintáticas, lexicais, semânticas e pragmáticas) que seconsegue construir o sentido do texto; por isso, esses sustentam no texto e que o tornam um objeto rico demaisconhecimentos devem ser ativados durante a leitura para para uma percepção rápida, imediata e total. Essasse atingir o momento da compreensão. relações estabelecem o processo de compreensão e Aquilo que é individual na leitura, os aspectos que orientam o leitor na organização de formas e regrassão únicos e que são determinados pelos objetivos e utilizadas para o estabelecimento da coesão e dapropósitos específicos do leitor também são relevantes construção de uma macroestrutura.no processo de compreensão. Segundo Kleiman (1989, Apresentando algumas considerações sobre op. 36) “(...) uma das atividades do leitor, fortemente caráter interacional da leitura, afirma a autora que existe 81
  6. 6. A importância da leitura no ensino superioruma responsabilidade mútua entre autor e leitor, pois só “reconstruir o evento da enunciação”, como tambémambos devem zelar para que os pontos de contato sejam recriá-lo a partir do conhecimento e da visão de mundomantidos, apesar das possíveis divergências de opiniões. de cada um. Conseqüentemente, em cada nova leituraEsse caráter interacional da leitura pressupõe a presença de um texto poder-se-á descobrir novas significações.do autor no texto, caracterizado pelas marcas formais, Enfatiza que se essas habilidades foremque atuam como pistas para a reconstrução do caminho desenvolvidas elas constituir-se-ão na competência depercorrido por ele durante a produção do texto. A leitura e, conseqüentemente, o aluno deixará de ser umcompetência do leitor para análise dessas pistas é “elemento passivo” e participará como “sujeito ativo”considerada como pré-requisito para o seu do ato de ler.posicionamento crítico frente ao texto. Citando Paulo Freire, Koch (1996, p.160) ressalta Logo, o trabalho com a leitura deve estar a importância do ensino da leitura para que o aluno torne-fundamentado numa concepção teórica consistente se “sujeito do ato de ler” e seja capaz de “ler o mundo”,sobre os aspectos cognitivos envolvidos na compreensão demonstrando criticidade diante da realidade em que estáde textos. inserido. Para que o aluno torne-se apto para isso, o A proposta da autora para o ensino de leitura professor exerce papel fundamental. Durante asconsiste no modelamento de estratégias metacognitivas, atividades na sala de aula, o professor deve mostrar aomediante a formulação de objetivos prévios à leitura e à aluno que um texto apresenta diversos níveis deelaboração de hipóteses sobre o conteúdo do texto. No significação.início, ou até que o aluno adquira autonomia, o professor Orlandi (1996, p. 35), para quem a leitura devepode elaborar atividades visando a ensinar o aluno, ter uma importante função no trabalho intelectual,através de um modelo, a ler com objetivos pré- considera-a como uma questão lingüística, pedagógicadeterminados. e social ao mesmo tempo. Diz que a leitura não deve Para Koch (1997), o processamento textual deve ficar restrita ao seu caráter mais técnico, pois issoser visto como uma atividade tanto de caráter lingüístico, conduziria o seu tratamento em termos de estratégiascomo de caráter sociocognitivo. Para o seu pedagógicas imediatistas.processamento contribuem três grandes sistemas de Assumindo a perspectiva da Análise do Discurso,conhecimento: o lingüístico, o enciclopédico e o afirma que na leitura de um texto não há apenas ainteracional. As estratégias de processamento textual decodificação e a constatação de um sentido que já estáimplicam na mobilização “on-line” dos diversos sistemas dado nele. Para Orlandi o texto não deve ser entendidode conhecimento e podem ser divididas em três tipos: apenas como um produto, deve-se observar o processoestratégias cognitivas, sócio-interativas e textuais. de sua produção, da sua significação. Segundo essa autora, uma boa leitura seria aquela Conseqüentemente, o leitor não apreende um sentidoem que o leitor conseguisse perceber que além da que está no texto, mas sim atribui sentidos ao texto. Logo,significação explícita, existe a significação implícita que a leitura é produzida e procura-se determinar o processoestá ligada a intencionalidade do “emissor”. Assim, e as condições de sua produção. São mencionadosdefende a idéia de que o texto apresenta uma como componentes das condições de produção damultiplicidade de interpretações ou de leituras, não sendo leitura: os sujeitos (autor e leitor), a ideologia, os diferentespossível atribuir apenas uma interpretação como única e tipos de discurso e a distinção entre leitura parafrásticaverdadeira. Porém, nem toda compreensão é válida; pois e a polissêmica.a compreensão de um texto consiste na apreensão dassignificações possíveis que são representadas através de Considerações finais“marcas lingüísticas” que funcionam como “pistas” paraque o leitor faça a “decodificação” adequada. A partir do que se coloca atualmente como Assim sendo, o aluno precisa ser preparado para objetivos e finalidades do ensino superior, a importânciareconhecer essas marcas e alertado para o fato de que do domínio do ato de ler assume posição de destaque,elas estão inseridas na própria gramática da língua. É pois estabelece uma relação direta com a aprendizagem.preciso também fazer com que o aluno saiba que através O domínio da capacidade de ler é condição paradas pistas que são fornecidas pelo texto é possível não se efetivar a aprendizagem e o “aprender a aprender”. 82
  7. 7. A importância da leitura no ensino superiorO aluno que aprende a aprender é aquele que é leitor. O Portuguesa).leitor que aprende a aprender é aquele que primeiro ORLANDI, Eni P. Discurso e leitura. 3. ed., Campinas,domina uma técnica de leitura e tem, diante do texto, SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1996.uma posição de aprendizagem, de busca e uma postura (Coleção passando a Limpo). RIOS, Terezinha A. Ética e competência. 7. ed., Sãocrítica. Paulo: Cortez, 1999. O ato de ler e o de aprender são duas realidades SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica:muito próximas, portanto indissociáveis, interferindo-se primeiras aproximações. 3. ed., São Paulo: Cortez:mutuamente. Dominar a leitura conduz o aluno a uma Autores Associados, 1992.atitude ativa, dinâmica e crítica em relação ao SEVERINO. Antônio Joaquim. A universidade, a pós-conhecimento. graduação e a produção do conhecimento. Curitiba: Reitero as palavras de Severino (1998) quando Universidade Tuiuti do Paraná, 1998.se refere à Universidade “como lugar de construção deconhecimento científico, filosófico e artístico”, ondeprofessor e aluno são desafiados a buscar oconhecimento novo de forma crítica, reflexiva e criativae isso só é possível para um leitor proficiente. Repensar o ensino superior a partir do trabalhocom leitura significa primeiro definir a clientela a quemse destina, implica considerar os conhecimentos que osalunos já possuem e as suas dificuldades. Realizar umtrabalho que desenvolva no aluno a capacidade deaprender a aprender - lendo, compreendendo einterpretando é um grande desafio, porém constitui-senum dever do professor. O que é novo hoje pode estarsuperado amanhã, portanto há a necessidade de se criare inovar sempre. A sociedade atual requer um pesquisare construir constantes. E a leitura tem sua parcela decisivade contribuição, pois é ela que nos permite buscar novosconhecimentos. Referências BibliográficasDELORS, Jacques et alii. Educação - um tesouro adescobrir. Relatório para a UNESCO. 6. ed., São Paulo:Cortez, 2001.FREIRE, Paulo. “Considerações em torno do ato deestudar”. In: Ação cultural para a liberdade. 6. ed.,Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.________. A importância do ato de ler: em três artigosque se complementam. 37. ed., São Paulo: Cortez, 1999.KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor: aspectos cognitivosda leitura. Campinas, SP: Pontes, 1989.________. Oficina de leitura: teoria e prática. 6. ed.,Campinas, SP: Pontes, 1998.KOCH, Ingedore G.V. Argumentação e linguagem. 4.ed., São Paulo: Cortez, 1996.________. O texto e a construção dos sentidos. SãoPaulo: Contexto, 1997.________. A coesão textual. 7. ed., São Paulo:Contexto,1997. (Coleção Repensando a Língua 83

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