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Corpos encarnados no passeio público
 

Corpos encarnados no passeio público

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    Corpos encarnados no passeio público Corpos encarnados no passeio público Presentation Transcript

    • OS CORPOS ENCARNADOS NO PASSEIO PÚBLICO
    • O LADRÃOGosto de conversar, gosto muito de conversar, mas não gosto de deixar que osoutros falem. Encontro-me acostumado a estar só, conversando comigo, porisso quando tenho alguém para conversar continuo falando sem parar.Acredito que sou confuso, mas na realidade acho que não gosto muito daspessoas e creio que elas também não gostam de mim. Passo a acreditarsinceramente que não preciso delas. Nunca tive muita coisa; na realidade anteseu não tinha nada e as pessoas me tratavam como o nada que eu tinha. Isso medeixava mal, porque eu queria me aproximar e sentir o contato com aspessoas, fazer amigos, ter uma namorada, mas absolutamente ninguém medava atenção, não demonstravam interesse em iniciar uma amizade comigo epara completar minha solidão, nenhuma menina bonita sequer me olhava.Nunca gostei de estudar e permaneço assim. Logo, sempre soube que nuncaseria advogado e muito menos um médico de respeito. Sabia também que nãotinha vocação para ser garoto de programa porque não consigo imaginar umavelha rica querendo um homem negro, pobre e feio como eu. Sempre soubeque nunca teria ajuda de ninguém por pensar que nesse mundo não existesolidariedade. Logo decidi que as coisas comigo iriam ser diferentes e são. Continua...
    • O LADRÃOAgora eu tenho dinheiro sempre que quero. Posso conseguir um tênis que esteja namoda, um celular de última geração, qualquer coisa que eu desejar. Sou ladrão, porprofissão e por prazer. Não sei o por quê dessa sensação surgir; sei que a ausência deum olhar amoroso e de uma compaixão para com o próximo estão presentes e tiram aculpa dos meus ombros. Hoje, para mim, ver o medo no olhar de uma vítima que nãotem a coragem de dar uma esmola a um necessitado na rua me deixa confortável.Consigo me divertir como se estivesse me vingando em nome dos pobres. Não uso daviolência, nunca gostei dela e espero não ter que usá-la contra ninguém. Adoro ver omedo nos outros por ser fácil me impor como ladrão, mas evito bater nas pessoas eestou sempre munido com uma arma apenas para assustar e, sinceramente, esperonunca ter que matar ninguém. Nunca chamei um ser de vagabundo por invejar quem éescolarizado e trabalha direito, isso não me motiva. O verdadeiro núcleo de minhamotivação é sentir o medo do outro e vê-los fazer o que eu mando, submetendo-se amim sem ter outra escolha, sem saber que não quero machucá-los. Costumava assaltaraqui no Passeio Público, mas essa nova administração colocou os guardas municipaisque me olham como se eu fosse atacar alguém a qualquer momento e com o grandenúmero de pessoas vindo em grupos, percebi que seria muito desgastante e difícilrealizar meu trabalho por aqui. Portanto, decidi parar apenas para descansar e pensarna vida. Termino por sentar nesses bancos olhando as meninas que passam, às vezesencontro alguém conhecido para conversar e por vezes passo a noite por aqui,principalmente quando não quero voltar para casa.
    • O SORVETEIROFaz um bom tempo que vendo picolés e sorvetes aqui no Passeio Público de Fortaleza. Nos diasatuais, vejo que minhas condições estão bem melhores e vendo muito mais, principalmente nos diasde domingo, quando as crianças aparecem em grande número. Elas sempre me tratam bem. Naverdade, todos me tratam agradavelmente por aqui. Me sinto velho, desgastado, sem ânimo oucoragem para andar por toda a cidade vendendo meus produtos. Aqui, o público é garantido e nãopreciso me locomover com tanta frequência e, quando o cansaço bate, sento em um desses bancospara descansar. Mesmo quando escolho uma dessas sombras para me encostar e descansar osbraços, depois de tanto empurrar esse carrinho pesado, as pessoas vêm comprar e terminam porconversar comigo. Quando menos espero estou fazendo uma amizade, contando histórias de vida econhecendo um pouco mais dessas pessoas. Com minha coragem se esvaindo, a velhice chegando eo cansaço aparecendo cada vez mais, não consigo trabalhar todos os dias como antigamente, quandoconseguia vender nas praias da cidade, em todo o centro, principalmente, na Praça do Ferreira. Hoje,venho ao Passeio Público aos sábados e aos domingos. Costumava andar pelas ruas dessa lindaFortaleza com meu carrinho e, quando o final da tarde chegava, minhas pernas apresentavam oinício de exaustão e eu vinha para o Passeio descansar. Passei a aparecer tanto por aqui que todos osladrões me conheciam e me deixavam tranquilo, todas as garotas de programa me respeitavam e àsvezes dava alguns picolés para elas para me deixarem em paz e não me oferecerem mais os seusserviços. Comecei a interagir mais com os fregueses do lugar durante os anos como vendedor,principalmente, quando as moças vêm comprar, quando são bonitas faço um preço mais acessível ese me chamam de “tio”, me sinto com mais liberdade e solto algumas brincadeiras e cantadas, masse for feia e já com alguns anos de vida, como a minha mulher, deixo o preço convencional e nemconverso muito. Continua...
    • O SORVETEIROGosto do que faço, nunca ganhei muito dinheiro e nem quis ser umhomem rico cheio de luxo. Todo meu trabalho honesto me deu osuficiente para criar meus filhos com o pouco que precisam paraserem felizes. É interessante o fato de eu sempre querer sersorveteiro, desde menino. Adorava sorvete quando criança eminha mãe nunca podia comprar e dava a desculpa de que eu eramuito novo para comer aquelas coisas, isso me inspirava a dizerque quando crescesse seria vendedor de sorvete e picolé para podercomer quantos eu quisesse. Minha mãe era dona de uma barraca nocentro, logo, desde pequeno, sempre ia com ela para ajudar nasvendas e conheci todas as ruas dali que passaram a ser minhasegunda casa. Quando comprei meu primeiro carrinho de vendas einiciei meus trabalhos senti uma facilidade enorme por conta dessefato que me fazia lembrar tanto de minha mãe.
    • O SOLDADOTenho vinte e quatro anos e sou soldado desde os dezoito. Eu gosto dessa minha escolha deprofissão, apesar de ficar muito tempo fora de casa e sentir saudades dos meus pais e também domeu cachorro. Mas a saudade que mais me arremata é a de minha noiva. Começamos a namorarmuito cedo ambos com apenas quinze anos de idade e, desde então, não conseguimos nos separar.No momento, estamos juntos no coração por causa de todo o tempo que fico distante em serviço peloexército e ela passa muito tempo sozinha sentindo minha falta e eu a dela. Sei que sou bruto e umtanto grosseiro para conseguir falar com delicadeza coisas bonitas para minha amada e, por vezes,percebo que não consigo dizer o tamanho da saudade que sinto dela. Sempre que pode, ela vem aquino Passeio Público que fica logo ao lado do quartel, parede com parede, geralmente aos domingospara podermos saciar um pouco a vontade enorme de estarmos juntos. Toda vez que a vejo prometoque um dia iremos nos casar e que esse dia não tardará a chegar. Falo com toda convicção o quesinto, esperando que esse dia chegue logo e que ela acredite em mim. Falo com sinceridade e nuncapenso em enganá-la.Nós, soldados desse quartel, não podemos sair para muito longe nas noites de folga. Quando posso,venho para o Passeio Público e fico pensando nela. A saudade é tanta que, quando menos percebo,estou escrevendo nosso nome naquela enorme e larga árvore. Não gosto de falar muito, mas no diaque Deus me der a graça de prover uma vida digna e boa para ela, vou conseguir dizer a ela o quantoela é importante para mim. Mas um homem tem necessidades, fico muito tempo só e preciso meocupar, portanto, em algumas noites de folga eu e alguns amigos do quartel nos juntamos parapaquerar algumas moças que vem ao Passeio, só para isso, para tentar ter algo com alguns de nós.Elas sabem que a maioria tem namoradas ou esposas e não ligam, já sabem que se não conseguir algomais sério pelo menos terão uma diversão com soldados. Continua...
    • O SOLDADOEu amo e respeito muito a minha namorada, não me entenda mal,mas essas relações mais íntimas eu só posso ter com ela depois docasamento. Enquanto isso, vou me divertindo com essas moças queaparecem por aqui. É difícil rejeitá-las porque elas vêm preparadaspara ficar o dia inteiro paquerando com a gente durante o serviço, eesperam ansiosas por nossas folgas, uma tentação muito complicadade suportar.Além dessas relações que tenho com as mulheres dentro do PasseioPúblico, seja com minha noiva ou com alguma das moças queaparecem, gosto bastante deste lugar que é tranquilo e meproporciona um ambiente favorável para colocar as ideias em dia etentar pensar em um futuro bom. E tem o ar daqui que é limpo e, deverdade, diferente do ar das ruas de Fortaleza que parece ser umafumaça pura.
    • A MOÇA BONITAToda vez que venho ao Passeio Público sinto como se estivesse em outra cidade, como se por algunsmomentos conseguisse sair de Fortaleza e viajar para um lugar tranquilo e cheio de natureza linda epreservada. As árvores daqui sempre me encantam bastante e ajudam a tornar o lugar mais livre. Um dosmotivos que me fazem vir com frequência é o fato de ser um lugar aonde as pessoas parecem me respeitarmais, onde sinto uma sensação de liberdade maior, isso porque tenho uma relação homossexual. Venhocom minha namorada e nós passamos horas por aqui sem perceber o tempo passar. Sentimos umasegurança enorme pela presença dos guardas municipais que nos tratam muito bem. Além disso, o lugartem uma beleza que não cansa e um lanche muito gostoso no novo restaurante que foi instalado noquiosque. É um lugar perfeito para que nós possamos curtir um tempo juntas, sem sermos perturbadaspor preconceitos. Estamos juntas há dois anos e, desde o início de nosso namoro, frequentamos o lugar. Jáaparecemos por aqui em todos os dias da semana: nos que estão vazios e nos cheios. O tratamento é omesmo, não sofremos distinção alguma mesmo com os públicos diferentes que aparecem todos os dias.Nos dias de sábado, quando acontecem aquelas feijoadas que fazem com que o lugar se encha de gente e,também nos domingos, quando as histórias contadas alegram as crianças, também percebo uma boarecepção e liberdade. Minha companheira toca cavaquinho e em alguns dias chegamos aqui e ela começaa tocar chorinho e eu a admiro com muita felicidade.Esse lugar me faz ter mais esperança de igualdade, pela forma como sou tratada aqui. Todas as pessoasparecem se tratarem bem, como se todos os preconceitos e temores ficassem do lado de fora, separadospelas grades; como se os sentimentos negativos não conseguissem sobreviver dentro das ruas do Passeio.Parece que há uma chance de que todas as pessoas sejam educadas e aceitem bem todas as opções de cadaum, seja ela qual for, tanto de estilo de se vestir como de opção sexual. É como se aqui fosse um lugar degente do bem, pessoas de verdade que respeitam as outras como deveria ser no mundo inteiro, gostandode estar na presença de quem quer que seja, fazendo o que for. Me sinto em outra cidade mesmo, fora darealidade das ruas de Fortaleza.
    • O MÉDICOSou membro de uma família simples, que migrou de uma cidade do interior para o Rio de Janeiro. Estávamospassando por uma crise financeira quando nos víamos em uma situação precária e meus pais se sentiram naobrigação de tomar uma decisão difícil diante desse momento decisivo em nossas vidas. Mesmo naquela cidadegrande e cheia de promessas, a situação não melhorou, meu pai teve de vender o pouco que tinha para que elepudesse levar sua esposa e os seis filhos para a cidade de Fortaleza e tentar uma nova vida, na tentativa deconseguir uma vida digna novamente. Essa decisão não foi fácil, minha avó morava no quintal de nossa casa epresenciava nosso sofrimento, diariamente, sem poder fazer nada. No dia vinte e dois de novembro, quando eutinha treze anos de idade, meu pai tomou sua decisão de migrar para esta nova cidade nordestina. Contudo, elepercebeu que o dinheiro que tinha não daria para levar todos juntos. Logo, juntamente com a minha avó, eledecidiu que iria na frente comigo e com minha irmã mais nova, deixando meus quatro irmãos esperando. Essedia em que tivemos de nos separar foi o pior de minha vida. Deixá-los para trás foi um sofrimento enorme porsermos muito apegados e o fato de nunca termos nos separado antes. Minha mãe não tinha muito o que falar eapenas chorava e arrumava as malas para seguir conosco, confiando nas palavras de meu pai que afirmavavoltar para pegá-los assim que pudesse. Foi muito difícil para minha mãe deixar os seus filhos para trás.Chegamos em Fortaleza, meu pai logo conseguiu um casebre muito pequeno e bagunçado para morarmos esempre nos confortava dizendo que aquilo era apenas o começo e em breve tudo iria melhorar. Ele sempre foimuito confiante e passava uma segurança muito grande para mim e para minha irmã mais nova. Nos sentíamoscom uma ótima autoestima que nos impulsionava a ajudá-lo confiando que tudo ficaria bem. Via meu pai sairpara procurar emprego, vestindo sua melhor roupa que transparecia toda a sua simplicidade e humildade. Pordiversas vezes o vi voltando com um ar triste e sem emprego. Um dia chegou em casa dizendo que nós doisprecisávamos estudar, sem estudo não iríamos conseguir nada na vida. Ele convenceu a minha mãe de irprocurar vagas nas escolas próximas. Como nunca havíamos estudado antes, minha mãe teve de enfrentar umaburocracia enorme para conseguir nos colocar na escola, toda a determinação e paciência dela fez com que nóscomeçássemos a estudar. Continua...
    • O MÉDICODurante meu período de escolarização sofri humilhações e desprezo por parte dos colegasde turma por ser uma pessoa simples e não ter como comprar as roupas da moda e não sercomo os outros. Até o Ensino Médio foi assim, tive de suportar intrigas e o menosprezo dosoutros colegas. Constantemente penso na força que meu pai me dava para eu conseguircontinuar estudando, apesar de tudo. Tive que passar por alguns supletivos cheios deprovas para alcançar os alunos de minha idade e compensar os anos que fiquei semestudar. Fui bem. Estava cursando o primeiro ano do Ensino Médio quando consegui umavaga como vendedor de cachorro quente aqui no Passeio Público. Um senhor amigo demeu pai anunciou que precisava de ajuda e logo ele me indicou. Com o dinheiro querecebia comecei a ajudar em casa. Meu pai havia começado a trabalhar como ajudante depedreiro e tudo parecia melhorar em nossas vidas. Foi quando recebemos uma terrívelnotícia de que meu irmão do meio estava com febre amarela, não sabíamos muito sobreaquela doença e meu pai pensava que era apenas uma doença comum e todos nóspensávamos que logo ele estaria bem. Contudo, em pouco tempo, recebemos a notícia deque ele havia falecido. Foi um dos dias mais tristes de minha vida. Senti a necessidade defazer um juramento que iria estudar para conseguir ser médico e ajudar as pessoasenfermas. Estudei e consegui passar para o curso de medicina na Universidade Federal doCeará, continuei meu trabalho de vendedor aqui no Passeio Público, enquanto estudava nauniversidade. Hoje, sou médico e preservo o hábito de visitar esse lugar tão especial, queme acompanhou durante toda a minha estadia nesta cidade, e que me faz lembrar de tudoque passei para chegar aonde estou hoje.
    • OS AMIGOS AMANTESConheci esse amor há um bom tempo, nunca tivemos o hábito de conversar muito porque, naverdade, eu o via como um soldado metido e inconveniente. Ele acreditava ser melhor do queos outros por causa de sua profissão. Nos víamos bastante pelo fato de nossas famílias seremamigas. Em um belo dia vim ao Passeio Público e o vi do outro lado da grade, que delimita osfundos do lugar; ele estava trabalhando juntamente com os outros soldados e de repentepercebi o quanto o achava bonito. Fui até a fronteira entre o Passeio Público e o quartel paraentrar em contato com ele. Com uma facilidade inesperada começamos a conversar e, a partirdali, iniciamos uma amizade. Passei a frequentar mais o lugar só para encontrar com ele, elogo passei a confiar plenamente nele, confidenciando-lhe todos os meus segredos e tudo oque me acontecia. Nossos contatos geralmente aconteciam entre as grades, e ele tambémpassou a confiar em mim. Eu escutava com muita atenção a todas as suas histórias e passei aamar os nossos encontros. Frequentemente, ele contava como eram os encontros que tinhacom as meninas que iam ao Passeio Público para flertar com os soldados. Mas, com o tempo,fui sentindo ciúmes. Fui sentindo que estava começando a gostar muito dele e que esperavaalgo para além das palavras de amizade, o sentimento foi aumentando como nunca antes.Um dia fui ao Passeio bastante determinada. Entreguei a um amigo soldado uma carta paraser entregue nas mãos dele e nela declarava todo o sentimento que estava crescendo dentrode mim. Voltei no dia seguinte e fui surpreendida por um beijo inesquecível. Hoje somoscasados há três anos e voltamos com frequência ao Passeio Público para namorar e relembraro início de nossa história.
    • A GRÁVIDAHá exatamente vinte e quarto anos, quando tinha apenas quinze anos de idade, conheci o grande amor daminha vida aqui no Passeio Público. Durante uma visita do colégio no qual estudávamos, conheci essemaravilhoso lugar. Tivemos a oportunidade de nos conhecer e logo aflorou uma paixão enorme, de tirar osnossos fôlegos. Sentíamos vontade de estar perto o tempo inteiro. Rapidamente começamos um namoroque durou cinco anos de forma escondida, pois meu pai não aceitava a nossa união. O Passeio Público erao lugar que escolhemos para realizar nossos encontros escondidos, todos os sábados e domingos. Nadapoderia impedir nosso amor de continuar. Fiz vinte anos e já estava cursando o quarto semestre dafaculdade, quando descobri que estava grávida. Essa notícia mudou tudo naquele momento; minha vidade repente ficou diferente, o medo da reação de meu pai era paralisante e imaginava tudo o de maisterrível, até a morte. Além disso, o medo de não conseguir me formar na universidade era tambémconstante, não conseguia me imaginar sem alcançar esse sonho por causa de uma gravidez. Fui conversarcom meu amor, contei toda a história e todos os meus medos. O meu companheiro me entendeucompletamente e o seu apoio foi total. Decidimos juntos que teríamos aquela criança e faríamos o possívelpara que todos os nossos sonhos se tornassem realidade e que iríamos enfrentar nossos pais para quepudéssemos finalmente nos casar.O encontro com minha família foi árduo, uma verdadeira confusão. O conservadorismo de meu pai ocegava a ponto de pensar apenas na vergonha que sentia de ter uma filha grávida sem estar casada. Paraele, aquilo era uma tremenda tragédia para toda a nossa família, como se eu estivesse sujando toda a nossareputação. Contudo, minha doce mãe conseguiu aos poucos convencê-lo de que o importante era a nossasaúde e a chegada de um neto. As coisas foram melhorando e recebi a bênção para casar com o pai deminha filha. O amor de meu companheiro por mim era tão grande que o fez decidir trancar a suafaculdade para ajudar com nossa bebê, a fim de que eu pudesse terminar minha graduação como semprehavia sonhado. Hoje, tenho mestrado e estamos casados há vinte anos. Minha filha que é fruto de todanossa batalha e amor, é graduanda na Universidade Federal do Ceará e me acompanha todos os domingosao Passeio Público para contarmos histórias para as crianças que vêm com tanto entusiasmo e alegria paraeste lugar.
    • A GAROTA PERSEVERANTETinha apenas treze anos de idade quando em uma ida a um dos passeios da escola conheci umgaroto de dezesseis anos de uma turma mais avançada. Em pouco tempo nos tornamos muito amigose fomos percebendo que ambos estávamos apaixonados. Falei que ele precisava falar com meu paipara pedir a minha mão em namoro. Para a minha surpresa, a arrogância e o moralismo presentespor parte de um pai ausente foram mais fortes do que eu imaginava. Fomos proibidos de namorar,porque meu pretendente não trabalhava e, portanto, era considerado um vagabundo. Tudo o que eumais queria era estar perto do garoto que me tratou com respeito e carinho, como nunca havia sidotratada antes. Não consegui me afastar dele e logo meu pai começou a me privar de minha vidasocial. Foi quando entramos de férias que sofri um susto inimaginável. Fui passear com a minhafamília em uma pequena cidade em outro um estado e depois de um bom tempo de diversão meupai anunciou que eu e meus irmãos iríamos ficar morando ali e não voltaríamos mais para Fortaleza.Ele e minha mãe voltaram à cidade apenas para pegar nossas coisas e fazer as transferências decolégio. Me falaram que a razão de nossa mudança era para que meu pai pudesse desfrutar de suaaposentadoria em uma cidade mais pacata, sem muitos problemas. Mas eu sabia, que no fundo, eletambém queria me ver longe do garoto que tanto eu amava e durante trinta anos sofri nessa novacidade do interior tentando em vão encontrá-lo.Consegui retornar para Fortaleza e há um ano atrás encontrei o garoto em uma rede social nainternet. Com muita esperança deixei um recado para ele a fim de saber se ainda lembrava de mim edo rápido romance que vivemos. Para a minha surpresa ele havia sofrido também com minhaausência. Passamos algum tempo conversando por meios virtuais até que decidimos nosreencontrarmos no Passeio Público. O momento de nosso encontro foi inesquecível. Com muitaemoção nos abraçamos e nos beijamos sem acreditar que tudo aquilo era verdade. Aquele foicertamente um dos dias mais felizes de minha vida. Hoje, estamos casados e bem realizados no amor.
    • A PROSTITUTASou garota de programa. Tenho apenas vinte e cinco anos e desde os dezoito que recebo dinheiro em trocade favores sexuais. Não comecei a fazer isso por escolha própria e nunca sonhei em ser prostituta. O iníciode minha história nessa profissão aconteceu quando me apaixonei aos dezesseis anos por um homem quenão tinha muitas coisas e era muito simples, mas ele me amava e nós estávamos em um romance incrível.Por diversas vezes me encontrava com esse rapaz e como em um acidente inesperado, eu engravidei. Mevi sem saída e logo que contei o fato ao meu companheiro, ele desapareceu. Nunca mais tive notícias dele.Precisei contar sobre a gravidez ao meu pai, ele era o único que poderia me ajudar. Para agravar aindamais a minha situação, ele não quis saber de conversa alguma e com muito ódio no olhar e nas palavrasdisse que eu teria de me virar sozinha. Entrei em desespero, não havia estudado e não sabia fazer nada,nem empregada poderia ser, porque não sabia cozinhar direito. A única saída que encontrei foi a de ir atéuma das grandes avenidas de Fortaleza e começar a oferecer meu corpo em troca de algum dinheiro.Conheci uma garota que estava em uma situação parecida com a minha, sozinha no mundo, precisando dedinheiro, e logo ficamos amigas. Ela me explicou que havia um lugar no centro que tinham bons clientes eera mais seguro do que as avenidas. Foi assim que conheci o Passeio Público. Passei muitos anos aqui, aclientela é garantida, o dinheiro é bom e em pouco tempo me tornei uma profissional.Hoje em dia, depois da reforma do Passeio Público feita pela prefeita, não posso mais fazer meus serviçosdentro do Passeio Público. Antes eu e as outras garotas que ficam por aqui não precisávamos pagar ummotel pra fazer os serviços, porque os homens não se importavam em ficar pelos bancos mais escondidosdo lugar. Agora, a gente tem que conversar com eles aqui dentro e combinar o preço para poder sair paraalgum dos motéis baratos que ficam do outro lado da rua. Já me acostumei com o serviço e sei fazer bem,não amo o que faço e nem me orgulho dele, mas sei que é a única maneira que tenho para cuidar de meufilho. O que me incomoda é o preconceito das pessoas que não têm a mínima noção do por quê estou aqui,como garota de programa. Elas pensam que eu gosto e escolhi com felicidade essa profissão. A falta derespeito me incomoda e tenho medo de que isso afete meu filho. Este é o fator que me motiva a sair dessavida, antes que ele comece a entender qual é o meu trabalho e comece a sofrer por isso.
    • O CASALEstava cursando o segundo ano de Engenharia Civil, no ano de 2003, quando tive de me mudar para essalinda cidade de Fortaleza. Como um novato, cheguei à faculdade sem conhecer ninguém e com vontade deconhecer mais pessoas. Nunca tive dificuldade para fazer amigos, sou bem sociável e gosto de conversar.Vi que foi fácil conhecer algumas pessoas e me sentir como se estivesse em casa. As meninas da minhaturma eram amigáveis e muito bonitas, mas tinha uma que me chamava muita atenção e eu precisava meaproximar dela. Consegui conversar com ela e para a minha tristeza, ela estava a fim de outro rapaz denossa turma. Como não queria perder o contato com ela, ajudei-a a encontrar-se com o garoto e fazer comque eles se conhecessem melhor. Este foi o meio que encontrei para ficar mais próximo dela. Elescomeçaram a ficar juntos e ela me contava tudo, eu era o único que sabia de tudo e mantinha tudo emsegredo, porque ela não queria que ninguém soubesse. Tudo era escondido dos pais dela que acreditavamque a filha era uma verdadeira menina quieta, que apenas pensava em estudar. Eu comecei a namorar comuma amiga dela, que era muito legal, mas não me encantava completamente. O cara se mostrou muitogrosseiro, não tinha paciência e a traía com outras garotas, mas ela aguentava tudo por gostar dele. Umdia, ele recebeu a noticia de que teria de se mudar para outra cidade e, com um alívio, me enchi defelicidade. Eu queria estar com ela, mas percebi durante esse tempo que ela era muito namoradeira e logoque ficou solteira passou a se relacionar com vários garotos, toda semana ela tinha uma paixão diferente.Fiquei sem coragem de terminar meu namoro para investir em alguém que não parecia querer ficar comalguém. Mas a minha vontade de estar com ela era tão grande que foi me consumindo aos poucos. Decidichamá-la para me encontrar no Passeio Público, conversamos e me declarei a ela. Ela também meconfessou que sempre quis ficar comigo, nos beijamos e nos abraçamos como se estivéssemos enamoradospor muitos anos. Demorei para terminar o namoro, mas consegui confiar nela o suficiente para acabar como meu outro relacionamento e continuar o meu tão esperado romance. Passamos a nos encontrar todas asquintas-feiras, às nove horas da noite. Começamos a namorar em pouco tempo e já fazem dois anos queestamos juntos. Preservamos nossas vindas ao Passeio Público e tivemos o prazer de participar darevitalização do lugar que é tão importante para nossa história, por ter sido o primeiro lugar onde ficamosjuntos.
    • A DIRETORASou diretora de uma escola da região metropolitana de Fortaleza, gosto muito dahistória do Ceará e fico triste por ela ser tão negligenciada nas escolas. Acredito quedeveriam dar mais atenção a essa matéria tão importante, saber das origens do localonde moramos e muitos nasceram. A história é essencial para compreendermos melhora cidade atualmente. Gosto de incentivar o conhecimento através de idas aos locaishistóricos de Fortaleza. Vou pessoalmente com os meninos às visitas. O Passeio Públicoé um dos meus preferidos. Trago as crianças para cá, juntamente com suas professoras,e fazemos piquenique, contamos histórias sobre a cidade e sobre o local de formainterativa, para que eles possam imaginar como aconteceram as coisas por aqui. Elesadoram, fazem perguntas e demonstram verdadeiro interesse nas histórias e nasoficinas de artesanato e de construção de brinquedos que fazemos com eles aqui noPasseio. É um lugar tranquilo e seguro que fornece espaço para que possamos fazeressas atividades tão importantes para o crescimento dos alunos. Quando chegamosaqui, as crianças logo correm para aquela árvore enorme, chamada baobá, que fica naentrada, querem abraçar, subir nos caules que ficam para fora da terra e adoram baterfotos com ela. Eles nos perguntam sobre o por quê dos nomes escritos no tronco etambém querem deixar nele as suas marcas. Eu e as professoras ficamos muito felizesem ver o interesse dos alunos por locais históricos; vê-los correndo pelas ruas doPasseio Público é uma verdadeira alegria e faz com que me eu me sinta realizada comoeducadora.
    • O MENDIGOSou morador de rua e frequento o Passeio Público há mais de dez anos. Penso ter quase trinta equatro anos de vida, não tenho certeza. Os bancos daqui são ótimos para dormir e o lugar étranquilo. À noite não tem muitos guardas pra ficarem interrompendo meu sono e ninguémaparece para mexer comigo. Nos dias de domingo me sinto muito feliz, muita gente me ajuda eas pessoas me dão comida, trazem roupas e alguns acessórios. Essa gente me conhece e metrata bem, sou boa pessoa e faço por onde ser bem tratado por acreditar que é preciso sergentil. O guarda que fica aqui durante as noites da semana já é meu amigo e me protege, nãodeixa ninguém fazer maldade comigo. O lugar é bom para dormir, é bem ventilado, tranquilo,mas nem sempre foi assim. Antes da reforma que foi feita por aqui, as garotas de programa eos viciados faziam muito barulho e algazarra dentro do Passeio e o deixavam aos pedaços.Hoje em dia, parece ser outro lugar, muito diferente. Consigo dormir sem problemas e sonhotodas as noites.Sou mendigo mas não deixo de fazer meu trabalho. Recolho todo o material reciclável queencontro pelas ruas do centro durante o dia e tenho meu carrinho para armazenar tudo queencontro. Como não posso entrar com ele dentro do Passeio, ele fica do lado de fora e o guardafica olhando. Tenho um companheiro, meu cachorro, que me companha em todos os lugarespara onde vou e me faz companhia, até quando venho dormir aqui nos bancos. Não ficoreclamando por estar sem dinheiro, o pouco que recebo pela troca dos materiais recicláveisserve para que eu possa comprar minha comida e as moedas que recebo das pessoas na rua,ajudam a completar para as minhas refeições. Sou feliz, não tenho nenhuma doença e sempreme cuido para não pegar nada. Sinto-me livre, tenho amigos moradores de rua por todo ocentro da cidade e todos os cachorros gostam de mim.
    • O ARTISTASou artista de rua há oito anos, trabalho nas ruas de Fortaleza vendendo minha arte. Faço artesanato,sou malabarista profissional e conto histórias para crianças aqui no Passeio Público. Antigamente eutinha um pequeno preconceito com esse lugar, sempre que passava via algumas pessoas malencaradas e não me sentia à vontade para entrar. Depois de 2007, quando a atual prefeita fez areforma no lugar, eu passei a criar um certo afeto pelo Passeio Público, poderia até dizer que mesinto apegado ao ambiente, às árvores, principalmente, ao baobá, aos bancos e estátuas. A princípiofoi difícil criar um vínculo com o Passeio. Quando fui convidado a contar histórias aqui, quaseninguém vinha. A organizadora dizia que a divulgação ainda estava lenta e muita gente nãoacreditava ou não sabia da mudança que havia ocorrido e, portanto, tinham receio de entrar. Recebimuito apoio de meus colegas de trabalho que passaram a vir e aos poucos meu medo do lugar foipassando e pude transmitir aos que vinham, toda uma alegria através de histórias. Comecei a meidentificar com o lugar e, logo resolvi chamar meus amigos para virem contemplar as atividades queocorriam diariamente. Todos gostavam e falavam que não imaginavam que o Passeio Públicoestivesse tão diferente e renovado. Começamos a divulgar as nossas atividades nas escolas em quetrabalhávamos e em ONGs parceiras que conhecíamos, percebemos que os alunos poderiamaprender bastante neste lugar e, também, por ser um ambiente com o conforto para os estudantes.Consegui trazer inclusive a escola de teatro onde comecei a lecionar e todos adoravam. Até os dias dehoje, quando trago alguém novo, não canso de me satisfazer com a felicidade e a surpresa daspessoas.Com o tempo, o público foi ficando cada vez mais diversificado e alguns músicos amigos começarama aparecer e a trazer pessoas de todos os ramos da música. Os tocadores de chorinho adotaram olugar para tocar aos sábados, quando passou a acontecer a hoje tradicional feijoada. Quando vejotudo isso acontecendo, me sinto muito feliz de ter participado do início de tudo e espero poderpermanecer por quanto tempo puder e que minha arte me acompanhe sempre nessa jornada.
    • A CRIANÇAJá faz algum tempo que meu pai começou a trazer eu e meu irmão para brincar aqui noPasseio Público aos domingos. Desde a primeira vez que eu vim, me sinto feliz aqui dentro, édivertido e podemos andar de bicicleta à vontade porque tem umas ruas bem grandes e sãoprotegidas por grades, o que deixa meu pai mais tranquilo. A gente brinca de muitas coisasaqui dentro. Onde nós moramos não tem espaço pra correr assim e não tem essas árvoresgrandes. Toda vez que venho, tem uma moça muito bonita que usa uma maquiagem bastantecolorida e conta histórias muito interessantes. Às vezes ela usa alguns bonecos e tudo ficamais divertido. Meu pai traz uma toalha bem grande e uma cesta cheia de comidas gostosaspara que a gente fique até o final da tarde. Tem uns moços que passam vendendo picolé etoda vez que nós nos comportamos bem, meu pai compra um para cada, é justo porque nóssomos bem comportados. Enquanto a diversão acontece para nós, meu pai fica sentado norestaurante que tem no quiosque vermelho do Passeio Público e bebe cerveja conversandocom alguns amigos. É legal porque ele se ocupa e a gente brinca com os filhos dos amigosdele. Terminamos fazendo várias amizades, isso é bom porque às vezes tenho que vir só,como hoje, e brinco com as outras crianças.Minha parte preferida é aquela perto da árvore gigante, tem uma fonte lá que parece umapiscina e se fosse mais limpa e com mais água, eu pularia para nadar um pouco. Meu paisempre diz que é sujo e que eu posso ficar doente se entrar ali, Fico apenas olhando a águaparada, imaginando como seria um banho de fonte. Hoje está um pouco diferente porque meuirmão não veio porque se machucou e não conseguiu ficar bem para vir e não tem muitascrianças para brincar. Minha mãe já me deu meu almoço e estou começando a ficar cansada.Quando acontece de ter dias assim, sempre vou me deitar na nossa toalha ali na sombra edurmo um pouco.
    • O COMERCIANTETrabalho aqui em uma dessas lojas de eletrodomésticos e derivados, no meio do centro deFortaleza, onde o sol parece ser mais presente que em todas as outras ruas. Chego cedo paratrabalhar. Às sete e trinta já estou abrindo os portões da loja, com todos os produtos bemcolocados nas estantes das vitrines e os fregueses já estão à espera para checar as novaspromoções. É bem desgastante, tem dias que entro em contato com mais de trinta pessoas emapenas uma manhã e não vendo nada, e em outros dias abençoados, vendo até os mais carosdos produtos. A hora do almoço é uma das mais esperadas, é o intervalo do dia quando possoparar em algum lugar para tranquilamente recarregar minhas energias. Tem algunsvendedores aqui que almoçam muito rápido, não saem da loja e por vezes dormem nosarmazéns da loja que são fechados e escuros. Eu tenho o prazer de pegar minha marmita quechega na loja todas as manhãs e venho até o Passeio Público. Escolho o banquinho verde commais sombra, de preferência um dos que ficam perto da avenida Caio Prado, para poder sentirmelhor a brisa do mar invadindo o lugar e balançando as árvores. É indescritível o modo comoa comida parece ser incrivelmente mais gostosa quando venho almoçar por aqui, e assim quetermino, jogo o recipiente da marmita no lixo e deito no banquinho verde com o boné no rosto.Consigo dormir um sono de meia hora que completa todo o processo de recarga de energia evou para a loja voltar a trabalhar.Não sou o único a fazer isso, alguns colegas de trabalho e muitos outros de outras lojas docentro, preferem vir aqui na hora do almoço para descansar. Faço de tudo para chegar o maiscedo possível, porque se me atrasar um pouco, os bancos com mais sombra já estão tomadospor outros trabalhadores do centro. O Passeio Público é o único lugar aqui perto do centro quetem silêncio, sombra e um vento constante que vem do mar. Isso para quem trabalha em meioà loucura do centro da cidade de Fortaleza é um verdadeiro paraíso na Terra.
    • O TURISTASou de Brasília, me casei com um cearense que se mudou para minha cidade há alguns anosatrás e desde então venho ao nordeste para conhecer as lindas praias desse litoral brasileiro.Adoro o Ceará, acredito que aqui seja uma terra verdadeiramente abençoada com beleza e aspessoas me encantam com sua alegria e receptividade. Sempre me dei muito bem com minhasogra e ela faz questão de me levar sempre a algum ponto turístico de Fortaleza. Dessa vez,ela decidiu me trazer aqui ao Passeio Público, essa praça tão verde e ventilada. Precisoconfessar que quando vim pela pela primeira vez, senti um certo medo ao vê-la dirigindo emdireção ao centro da cidade que é tão sujo e cheio de movimento, mas logo me tranquilizeiquando ela estacionou ao lado desse lugar tão lindo, com uma aparência organizada e limpo.Não tinha nada acontecendo, eram apenas os inúmeros bancos verdes, as luminárias comestilo retrô e uma decoração clássica com estátuas gregas e fontes espalhadas pelas avenidasdo lugar. Mas, o que realmente me chamou a atenção e me deixou paralisada por algunssegundos foi aquela árvore chamada baobá. A expansão como um todo dela me encantou,fomos juntas escrever nossos nomes no largo tronco e não consegui evitar, me veio umavontade súbita de abraçá-la e não resisti. Foi um momento único e cheio de energia, nunca ireiesquecer esse meu primeiro contato com o Passeio Público.Desde então, já vim duas vezes aos sábados para comer a deliciosa e tradicional feijoada ebeber uma cerveja gelada escutando uma boa música. Me impressiono com o preço das coisasaqui, tudo é acessível e com qualidade. Já está se tornando um hábito meu e de meu maridovir ao Passeio Público para relaxarmos e aproveitarmos os dias ensolarados e ventilados donordeste. Se algum dia eu decidir me mudar de vez para cá, irei, com certeza, frequentar oPasseio Público todas as semanas.
    • A FREIRASou religiosa, sirvo como freira da igreja católica há bastante tempo. Tenho cinquenta e cinco anose também trabalho como professora em uma grande escola daqui de Fortaleza. Gosto bastante doque faço e de minha cidade. Conheço o Passeio Público há muito tempo e hoje estou aqui por umaocasião especial: uma das irmãs que trabalha comigo está doente e teve de ser internada na SantaCasa de Misericórdia que fica aqui do outro lado da rua. Somos muito amigas e assim que elaadoeceu prometi que iria acompanhá-la durante todo o processo de cura. Agora que ela estáinternada fico aqui todos os dias e presencio todo o tratamento que ela está recebendo. Isso é umtanto desgastante para ela e para mim também. Quando ela consegue dormir, aproveito para viraqui no Passeio Público fazer as minhas orações com mais tranquilidade e respirar esse ar puro erefletir um pouco sobre o estado em que se encontra esse hospital. A situação em que seencontram as pessoas lá dentro é complexa, a miséria está presente em todos os cantos, pessoasadoentadas encostadas por todos os corredores e os médicos e enfermeiras fazem o que podempara ajudar. Percebo que são muitos pacientes para poucos funcionários e por isso tenho aimpressão de que as enfermeiras não se relacionam muito bem com os pacientes e terminam ostratando com frieza. As pessoas menos favorecidas que vêm aqui, não entendem muito bem comofunciona o sistema dos médicos e das enfermeiras. Converso muito com os pacientes e familiaressobre isso. Sempre que posso chamo alguns acompanhantes para virem até o Passeio Público.Aqui é mais tranquilo para fazer as orações ou simplesmente para os resultados dos exames. Nasconversas que tenho por aqui, sempre escuto os lamentos dos parentes que me contam assituações dos internos e alguns também falam como é bom vir ao Passeio Público para espairecerum pouco depois de ver tantos enfermos no hospital. Rezo diariamente e peço a Deus que tudo dêcerto para todos nós que esperamos aqui. Enquanto estou por aqui me inspiro nessa naturezalinda que nos cerca dentro do Passeio para conseguir renovar as forças para continuar orando.
    • O GARITenho quarenta e seis anos de idade. Já fazem três anos que fui selecionado para vir limpar oPasseio Público. Eu gosto muito de fazer a limpeza das ruas da praça, por mais que ela seja bemespaçosa e me faz ter muito trabalho todos os dias, eu gosto bastante. O que mais gosto são aspessoas que frequentam aqui, tem gente de todos os tipos e a maioria adora conversar. Eutambém gosto de falar, logo, fico alternando a limpeza do lugar com breves pausas para trocaralgumas ideias com os que passam por aqui. O coordenador do Passeio Público é meu amigo edeixa eu fazer a limpeza do meu jeito, com as minhas pausas e descansos. Ele sabe que eu limpotudo direito e passo pelos quatro cantos do lugar. Como estou ficando velho, minhas pernascomeçam a doer com mais rapidez e logo sento nos banquinhos para descansar um pouco edepois continuar meu trabalho. Por incrível que pareça, as pessoas me ajudam aqui, diferentedos outros lugares que já trabalhei, jogam os lixos nas lixeiras e levantam os pés quando vouvarrer perto dos bancos onde sentam. Até nos dias de sábado, quando vem muita gente prafeijoada, não tem muito lixo no chão. Tem um pessoal que faz oficinas com material recicladoque pede pra eu juntar as latinhas das cervejas de sábado e as garrafas de plástico que encontrodurante a semana. Junto com o maior prazer por saber que vão virar alguma coisa útil. Já fiz alimpeza da Praça do Ferreira e do Parque das Crianças. Não gostava muito daqueles lugares porserem muito cheio de gente mal educada e de correr o perigo de ser assaltado ou até mal tratado.As pessoas daqui são diferentes, a maioria é muito educada e são poucos os dias que vejo esselugar com muita gente. Sinto que meu trabalho é respeitado aqui, que faço a diferença, fico tãobem, que quando estou de folga, trago meus filhos aqui para brincarem e escutarem as históriasque contam aos domingos. Somos tratados muito bem e com igualdade, eu e meus meninosadoramos vir aqui.
    • O MÉDICO DESLOCADOSou médico da Santa Casa que fica aqui do outro lado da rua. Nunca havia entrado nessapraça, sempre vi que os acompanhantes dos pacientes e alguns dos que vêm se tratarentram aqui e passam um bom tempo. Nunca tive curiosidade de entrar no PasseioPúblico. Não tenho muito tempo para lazer e sempre tenho que atender muitos pacientesno hospital. Hoje foi um dia muito estressante para mim, não consegui ficar muito tempopensando nos problemas do trabalho e resolvi entrar aqui para pensar em outras coisas etambém para refletir sobre a minha situação como médico. Já ouvira falar sobre o PasseioPúblico. Muitos amigos e familiares me contaram sobre as atividades que acontecemaqui e como o lugar é bonito. A única pessoa que me falou o contrário foi minha mãe, elacontou que na época em que ela era jovem o lugar não era muito bem frequentado emuitas garotas de programa e drogados vinham aqui. Ela certamente parece convencidade que o lugar permanece da mesma forma de antes, com os mesmos frequentadores.Agora, vejo como é realmente muito bonito e organizado por dentro. Apesar de tergostado do lugar, não acredito que irei voltar aqui muitas vezes, não tenho temposobrando para fazer esses tipos de visita. Sempre que saio do trabalho penso em chegarem casa o mais rápido que puder, não consigo me imaginar parando em algum lugarpara refletir e relaxar. Hoje foi um dia muito puxado, fora do normal. Há muito temponão vejo um dia cheio como o de hoje, não tive muita escolha e percebi logo que minhaúnica opção era sair dali. Como sei que o centro é um lugar muito perigoso e cheio debarulho e confusão, minha única saída era entrar aqui no Passeio Público. Devo admitirque consegui o silêncio e a tranquilidade que estava precisando.
    • OS MÚSICOSSomos músicos há um bom tempo, tocamos juntos desde sempre. Uma de nossas maiores conquistas foiconseguir tocar em uma bar, em todas as noites de sábado. É uma verdadeira diversão poder tocar para osfregueses do lugar. Não costumamos ensaiar ao ar livre, mas um dia viemos almoçar aqui, era um sábado eestávamos com nossos instrumentos. Rapidamente tivemos algumas ideias de arranjos musicais e decidimostocar aqui mesmo, nas ruas do Passeio Público. Foi maravilhoso, nos afastamos um pouco do movimento daspessoas que almoçavam e começamos a tocar. Em pouco tempo alguns se juntaram a nós para escutar nossosom e acompanhar nosso ensaio improvisado. Desde então, todos os sábados, antes de tocar no bar, nós nosreunimos aqui para passar os acordes das músicas que iremos tocar à noite. Aqui nós temos companhiasmuito boas, as pessoas param para ouvir as nossas músicas, a tranquilidade e o silêncio do lugar nos ajudambastante e ainda tem uma vista muito agradável. Em meio ao horizonte da vista, há uma boate muitoconhecida da cidade de Fortaleza, uma das mais tradicionais, ficamos tocando e olhando para lá imaginandoum dia em que conseguiremos tocar naquele lugar. De tanto tocarmos por aqui, fomos chamados para nosapresentar durante uma das tradicionais feijoadas de sábado. Nós gostamos da experiência, mas percebemosque não fazemos o estilo das pessoas que frequentam o Passeio nesse horário. Elas estão acostumadas aescutar um bom samba e nosso repertório não contempla esse estilo musical.O ambiente é bem informal e descontraído, gostamos de frequentar o Passeio Público. Quando temapresentações musicais por aqui, percebemos que os músicos interagem bastante com as pessoas e o clima ficamuito agradável. O público que frequenta é bem diverso e bem educado, conseguimos perceber que sãopessoas cultas, bem informadas e que gostam de boa música. Conseguimos perceber que a diversidade é bemampla aqui, não existe preconceito e todos se aceitam do jeito que for. Tem gente que vem de short e sandáliasde dedo e alguns que se vestem com roupas de marca e adoram acessórios de ouro. O interessante também éque as pessoas interagem entre si, procuram conhecer a cultura do outro e conversar sobre as diferenças queexistem nos estilos de vida e musical. Isso afetou nossa banda, conseguimos abrir nossa mente para outrosestilos de música e estamos ensaiando outros estilos musicais além do rock. O Passeio Público traz bastanteinspiração para nossa banda.
    • A TURMA DA CERVEJASou cearense e tenho um grupo de amigos desde que entrei na escola. Sempre andávamos juntos econseguimos manter nossa amizade mesmo depois de seguir caminhos tão diferentes em nossasvidas. Conseguimos entrar em um acordo de que nos encontraríamos uma vez por semana paracolocar as novidades em dia e conversar sobre a vida, para manter a amizade que tanto gostamos.Sempre procuramos novos lugares para variar nossos encontros. O Passeio Público foi escolhidorecentemente quando um de nós veio com a família em um sábado e o recomendou para o restantedo grupo. Agora, todos os sábados nós estamos aqui bebendo cerveja e interagindo com os amigos ecom o ambiente que é muito agradável. Gostei tanto do lugar que fui atrás de me informar acerca dasatividades que ocorrem durante a semana. Tenho uma loja que fica perto do Passeio Público e, aossábados, fecho as portas às duas da tarde e venho direto para cá. Ligo para minha esposa e ela vemcom nosso filho para almoçar e escutar boa música. A criançada adora o espaço que tem para correr ese divertir, todos nós nos divertimos aqui. Passei a gostar tanto do lugar que recomendei para todosos meus amigos. Quando menos percebi comecei a encontrar diversos conhecidos por aqui, aossábados. Posso confessar que tem algumas pessoas estranhas que frequentam o Passeio Público, maseu não ligo porque fico tão feliz e tranquilo aqui dentro que nem percebo as diferenças e me preocupomesmo é com a alegria da minha família e amigos. Combinei com minha esposa que aos sábados eladirige para que eu possa beber com os amigos e ela fica conversando com as amigas e aceita bemnosso acordo. Aos domingos venho com meu filho para que possamos brincar e desfrutar dasatividades que acontecem por aqui. O lugar fica muito bonito com todas as toalhas estendidas pelasgramas, com as famílias fazendo piquenique. Me sinto muito tranquilo e trago um livro para lerenquanto meu filho participa das atividades que são propostas e brinca com as outras crianças.
    • AS IRMÃSSou jovem, estou longe de fazer trinta anos de idade. Não tenho medo de assumir quem realmentesou. Nunca tive problemas para defender meus pontos de vista e sempre gostei de ir atrás do quegosto e acredito. Minha sexualidade sempre foi uma incógnita. Há pouco tempo comecei a meconhecer melhor e compreender o que me interessa. Conheci uma garota que me interessou bastante ecomeçamos a nos relacionar, estamos namorando e me sinto muito bem. Contudo, tem um grandeproblema que eu não esperava enfrentar, a reação dos meus pais. Eles não aceitaram muito bem o fatode eu ter escolhido namorar uma garota e disseram que preferem que eu pare com isso. Eu nãoconsigo, é algo que faz parte de mim e me faz muito feliz. Percebi, no entretanto, que eu tinha quefazer algo para conseguir continuar me encontrando com minha namorada sem que meus paissoubessem. Consegui trocar o turno de minha faculdade para o período da noite sem que elessoubessem. Assim passei a me encontrar com minha amada aqui no Passeio Público durante os diaspara matar a saudade e ficar com ela. Aqui é um dos poucos lugares em que conseguimos ficartranquilas e namorar sem ninguém nos perturbar. Tenho uma irmã que me apoia apesar de não gostarda ideia e não aceitar minha escolha sexual. Somos muito amigas e apesar de nossas diferenças ela meajuda sempre que preciso. Por vezes venho aqui de carona com ela e vejo como ela fica preocupadacom meus encontros. Uma vez perguntou se os guardas mexiam com a gente, expliquei para ela queeles respeitam bastante e que não havia necessidade de se preocupar.Não gosto de fazer carinhos em público, acho que devo respeitar os outros também e ser discretaquando venho para namorar. A gente entra de mãos dadas e ficamos sentadas juntas conversando,quase ninguém olha para nós. O lugar me faz refletir bastante, sempre que estou aqui sinto anecessidade de conversar um pouco com Deus, como se estivesse rezando para pedir que meus paiscomecem a aceitar a minha condição e as minhas escolhas. Não gosto de me esconder e acredito queeles me amam muito. Sei que um dia iremos conseguir vencer isso e, por vezes, começo a imaginartodos nós vindo aqui ao Passeio juntos, para almoçar e conversar sobre a vida.
    • O ESTILISTASou estudante de estilismo e moda, recebi um trabalho da faculdade para essa semana e nãoestava conseguindo encontrar inspiração em casa. Resolvi sair e procurar algum lugar quepudesse me sentar e pensar sobre o trabalho que consiste em realizar uma coleção para umdesfile. Lembrei do Passeio Público e que fazia um bom tempo que não vinha aqui. Quandoaqui cheguei logo vi todo esse verde que me lembra a enorme natureza brasileira. Senti o armisterioso e cheio de história que esse lugar tem e vi as estátuas que me lembram a Gréciaantiga. Me senti como se tivesse viajado no tempo, me senti em outra época. Lembrei-me dealgumas aulas de História do Ceará, quando aprendi um pouco sobre a história do PasseioPúblico e das imagens das mulheres com aqueles vestidos longos, lindos, andando pelasavenidas daqui. Senti uma grande inspiração, comecei a imaginar um cenário de filmeantigo e comecei a escrever notas para meu trabalho. Comecei a perceber como o lugar épropício para eventos de moda e desfiles, um cenário natural com avenidas espaçosasperfeitas para lançar uma coleção. Gostaria que a prefeitura começasse a realizar eventosassim por aqui. Seria muito bom ver os eventos de música que geralmente acontecem poraqui começarem a se juntar com a moda. Seria ótimo para que as pessoas de fora, que sãoligadas à arte, conhecessem esse lugar lindo e aconchegante. Algumas vezes sinto vontadede morar aqui dentro, fico sentado olhando toda essa beleza e penso como deve ser bomvisitar esse lugar todos os dias. Voltarei mais vezes para buscar inspiração aqui. Minhamente se sentiu livre quando entrei aqui e logo comecei a criar, vou indicar para os amigosda faculdade também.
    • O CAMBISTATenho cinquenta anos e conheço o Passeio Público há muito tempo. Tive umabanquinha aqui dentro, ficava ao lado do quiosque e eu fazia o jogo do bicho. Muitaspessoas que andavam pelo centro já me conheciam e entravam aqui só para fazer aaposta do dia. Meu ponto dentro do Passeio foi muito conhecido e frequentado. Eufazia meu trabalho do jeito correto, era afiliado a uma empresa que organizava asapostas do jogo e sempre mantinha meus clientes informados de tudo. Um dia,aprovaram uma lei que proibia a existência dos cassinos e dos jogos de aposta nasruas e aconteceram várias operações policiais para fechar esses lugares. Não conseguisair do Passeio Público a tempo e fui apreendido durante alguns dias. Minhabarraquinha foi levada e perdi o direito que tinha sobre ela. A principio entrei emdesespero porque não sabia fazer outra coisa, vivia daquilo desde que comecei atrabalhar e já sabia o que dizer para os clientes. Tenho o dom de encher as pessoascom esperança para apostarem alguns poucos reais sonhando em receber muitos emtroca. Fui atrás de trabalhar com algo parecido, consegui ser representante da loteriados sonhos e também vendo algumas cartelas de aposta. Mas, os antigos clientes nãoquerem saber dessas apostas legais, o que eles realmente querem é o jogo do bicho.Continuo frequentando o Passeio Público porque muitas pessoas me conhecem daquie ainda vêm me procurar aqui dentro, o lugar é agradável e ninguém meche comigo.
    • Fim