A comunicação comunitária na internet caso da rede índios online

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  • 1. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE LONDRINA 2010
  • 2. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA PRÁTICA DA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Orientador: Prof. Dr. Rozinaldo Antonio Miani LONDRINA 2010
  • 3. BRUNA DE LIMA SILVAO USO DA INTERNET NA PRÁTICA DA COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA: ANÁLISE DO PORTAL ÍNDIOS ONLINE Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. COMISSÃO EXAMINADORA ____________________________________ Prof. Dr.Rozinaldo Antonio Miani Universidade Estadual de Londrina ____________________________________ Prof. Dra. Florentina das Neves Souza Universidade Estadual de Londrina ____________________________________ Prof. Dra. Rosane da Silva Borges Universidade Estadual de Londrina Londrina, _____de ___________de _____.
  • 4. AGRADECIMENTO (S) A Deus, o primeiro e verdadeiro motor e incentivo de todas as açõese etapas realizadas desde a idealização deste projeto, até sua finalização. Ao professor e orientador Rozinaldo Antonio Miani e todos osdemais professores da Universidade Estadual de Londrina que de alguma formacontribuiram e apoiaram a elaboração e andamento deste trabalho em todas as suasetapas. Aos amigos e colegas que serviram de incentivo durante a execuçãodo trabalho, sendo importante base de sustentação diante das limitações eoferecendo apoio constante. Aos familiares pela presença imprescindível, o apoio, o carinho e adedicação pessoal em todos os momentos. Agradecimentos também a Anápuáka Muniz, da Web BrasilIndígena, Potyra Tê Tupinambá e Sebastián Gerlic, da gestão da rede Índios Online,pela receptividade e disposição em colaborar com informações via email para aexecução do trabalho.
  • 5. SILVA, Bruna de Lima. O uso da Internet na prática da comunicação comunitária:Análise do portal Índios Online. 2010. Número total de folhas. Trabalho deConclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social - Jornalismo) –Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010. RESUMO O seguinte trabalho tem como objetivo analisar o projeto Índios Online eatravés dele avaliar como a Internet e seus recursos de mídia digital podem serutilizados em benefício da comunicação comunitária. O portal Índios Online existedesde 2004 e caracteriza-se no padrão de comunicação comunitária pois todo o seuconteúdo é produzido e divulgado por grupos indígenas, além de ser voltadotambém para esse público. É coordenado pela ONG Thydewá, com apoio doMinistério da Cultura e do governo federal. Faremos uma abordagem sobre a história e desenvolvimento do site, além deuma descrição estrutural. Observaremos de que maneira os recursos multimidia(como vídeos e fotos) são utilizados e o padrão de conteúdo e de forma observadonos textos e na linguagem. Além disso, avaliaremos quais são os meios usados parainteração com o público fora das comunidades indígenas que colaboram com o site,os resultados positivos que o projeto da rede Índios Online trouxe para ascomunidades integrantes e quais expectativas ainda devem ser atendidas.Palavras-chave: Comunicação. Comunidade. Indígenas. Interatividade. Internet.
  • 6. SILVA, Bruna de Lima. Internet use in the practice of community communication :Analysis of the project Índios Online. 2010. Número total de folhas. Trabalho deConclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social - Jornalismo) –Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010. ABSTRACT The following study aims to analyze the project Índios Online and through it toevaluate how the Internet and its digital media capabilities can be used to benefit thecommunity communication. Portal Índios Online exists since 2004 and characterizedthe pattern of community communication for all its content is produced anddisseminated by indigenous groups, and is also directed to that audience. It iscoordinated by the NGO Thydewá, supported by the Ministry of Culture and thefederal government. We will make an approach on the history and development of the site, beyonda structural description. We will see how the multimedia features (such as picturesand videos) are used and the standard of content and form found in the texts andlanguage. In addition, we will assess what means are used to interact with the publicoutside of indigenous communities that contribute to the site, the positive results thatthe network project Índios Online brought to the community members andexpectations what still must be metKey-words: Communication. Community. Interactivity. Internet. Native.
  • 7. LISTA DE ILUSTRAÇÕESFigura 1 – Página inicial do portal Índios Online (05 de outubro de 2010) ... .......... 18Figura 2 – Página do Google Maps mostrando as aldeias onde estãopresentes pontos do Índios Online: cada "@" marcada no maparepresenta uma aldeia diferente (06 de outubro de 2010) ....................................... 19Figura 3 – Janela do chat do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) ............ 20Figura 4 – Perfil na rede social de comunicação Twitter do portal ÍndiosOnline (06 de outubro de 2010)................................................................................ 21Figura 5 – Página inicial do canal da Índios Online no portal Youtube(06 de outubro de 2010) ........................................................................................... 24Figura 6 – Página inicial do blog Retomada Tupinambá (13 de outubro de 2010) .. 29Figura 7 – Fotografia tirada durante oficina realizada pelo projetoFotografia Tupinambá. Autor: Alessandro Tupinambá (13 de outubro de 2010) ..... 30Figura 8 – Página do artigo "A beleza do Rio São Francisco", publicadopor Juayran (11 de outubro de 2010) ....................................................................... 33Figura 9 – Página inicial do portal da rede Grumin (16 de outubro de 2010) .......... 41Figura 10 – Página inicial do portal do grupo Esperança da Terra(13 de outubro de 2010) ........................................................................................... 55Figura 11 – Página inicial do portal da Web Brasil Indígena(13 de outubro de 2010) ........................................................................................... 58Figura 12 – Cartaz de divulgação da pré-estreia do documentárioIndígenas Digitais em Salvador - BA (18 de outubro de 2010)................................. 61Figura 13– Página inicial do portal Indígenas Digitais (17 de outubro de 2010) ...... 64
  • 8. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLASAJI – Ação dos Jovens IndígenasAL - AlagoasANAI – Associação Nacional de Ação IndigenistaAPOINME - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Minas Gerais e EspíritoSantoBA - BahiaBNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e SocialCedi – Centro Ecumênico de Documentação e InformaçãoCESE – Coordenadoria Ecumênica de ServiçoEmbratel – Empresa Brasileira de TelecomunicaçõesFUNAI – Fundação Nacional do ÍndioFunarte – Fundação Nacional de ArtesFUNASA – Fundação Nacional de SaúdeGESAC – Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao CidadãoInbrapi – Instituto Indígena para Propriedade IntelectualISA -Instituto SocioambientalMinC – Ministério da CulturaMS – Mato Grosso do SulNDI – Núcleo de Direitos IndígenasONG – Organização Não GovernamentalPDF – Portable Document Format – Documento em Formato PortátilPE - PernambucoPIB – Povos Indígenas no BrasilRJ – Rio de JaneiroS/A – Sociedade AnônimaSP – São PauloSTF – Supremo Tribunal FederalUnesco – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization -Organização Educacional, Cultura e Científica das Nações Unidas
  • 9. SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 092 A REDE ÍNDIOS ONLINE E A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET ............... 142.1 O PORTAL ÍNDIOS ONLINE E O ARCO DIGITAL ........................................................... 172.2 O QUE TÊM A DIZER OS ÍNDIOS ONLINE..................................................................... 272.3 A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET ....................................................................... 373 A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA NA INTERNET ............................................. 454 A WEB BRASIL INDÍGENA E O PROJETO ESPERANÇA DA TERRA .............. 544.1 O DOCUMENTÁRIO INDÍGENAS DIGITAIS ................................................................... 594.2 OBJETIVOS ATINGIDOS, EXPECTATIVAS E NECESSIDADES PENDENTESNA COMUNICAÇÃO DIGITAL ............................................................................................ 705 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 78REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 80ANEXOS ................................................................................................................... 83ANEXO A – Documentário Indígenas Digitais ........................................................... 84
  • 10. 91. INTRODUÇÃO A profusão da Internet e das tecnologias mais recentes como alternativas decomunicação de certo modo levou a mídia, que até o final do século XX seconcentrava em difundir seu conteúdo de forma massiva através dos meioseletrônicos - rádio, TV e impressos -, a descobrir e explorar esse potencial ambientecomunicativo digital. Em seus estudos sobre o ciberespaço, definidosuperficialmente com “um espaço de comunicação aberto pela interconexão mundialdos computadores e de suas memórias” (LÉVY, 1999, p.92), o filósofo francês PierreLévy já apresentava esse novo meio digital como um espaço de interações, depráticas e relacionamentos humanos antes restritos apenas ao ambiente físico. A prática da comunicação comunitária, vista como uma alternativa desociabilidade dos grupos minoritários (FERNANDES, 2007), encontra nos meiosdigitais e na Internet uma alternativa simples, relativamente barata e que não exigeexperiência elevada. Entre os diferenciais da rede estão a estrutura basicamentenão-linear, ausente no material impresso, por exemplo, e as ligações hipertextuais,que permitem ao usuário se movimentar mediante as estruturas de informação dosite sem uma sequência predeterminada, mas sim saltando entre os vários tipos edados que necessita (PINHO, 2003), com o auxílio dos chamados links. A Internet também se destaca pelo modo ágil e instantâneo como asinformações podem ser apuradas, publicadas e dispersas por todos os limites darede; a perenidade das informações, que ficam arquivadas (e muitas vezesacessíveis a maioria das pessoas) por tempo indeterminado; e talvez um dos fatoresmais importantes, a interatividade digital: a Internet possibilitou uma grandevariedade de opções de interação online entre usuários, até então não exploradapelos meios de comunicação convencionais. A interação é característica comum dasinterações sociais do cotidiano, mas a ascensão das tecnologias e relações digitaisajudou a ampliar esse conceito. O conceito de comunidade, incluindo aí o de comunicação comunitária, nãose restringe mais à prática social e comunicativa realizada dentro de um espaçogeográfico limitado:
  • 11. 10 Há mudanças substanciais nas concepções de comunidade, ao mesmo tempo em que alguns de seus princípios ainda se verificam. O sentimento de pertença, a participação, a conjunção de interesses e a interação, por exemplo, são características que persistem ao longo da história, enquanto a noção de lócus territorial específico como elemento estruturante de comunidade está superada pelas alterações provocadas pela incorporação de novas tecnologias da informação e comunicação. Sem menosprezar que a questão do espaço geográfico continua sendo um importante fator de agregação social em determinados contextos e circunstâncias (PERUZZO, 2008, p.12). Os meios de comunicação digitais tecnicamente são um campo ainda poucoexplorado dentro da prática comunitária, mas com grande potencial de expansão eutilização, como veremos a partir do exemplo do portal Índios Online 1, que desde2004 serve como veículo de comunicação para grupos nativos indígenas e mesmonão-indígenas de todo o país. No caso da criação da rede Índios Online, a partir dainiciativa da Organização Não-Governamental (ONG) Thydewá (sediada emSalvador - BA), é relevante lembrar que esta iniciativa de inclusão digital é paralela aoutras atividades de caráter voluntário: oficinas realizadas por facilitadores nas áreasde saúde, jornalismo étnico, educação, cidadania e direitos, economia solidária eagroflorestagem; atividades voltadas tanto para os próprios indígenas quanto para acomunidade em geral. A descoberta e exploração adequada de todas as ferramentasproporcionadas pelos meios digitais, além da superação dos desafios que aindaseparam a prática comunitária das novas tecnologias, como a necessidade de maioriniciativa de inclusão digital, são questões fundamentais para potencializar o uso daInternet como meio de comunicação comunitária. Como lembra Marili de Souza, emseus estudos sobre a prática comunicativa no contexto das comunidades “o custodos equipamentos ainda é uma barreira que deixa de fora as populações pobres,embora os telecentros e os softwares livres já enfrentem essa realidade, fazendoaumentar a inclusão entre as camadas mais populares” (SOUZA, 2007, p. 02). A partir dessa iniciativa, é possível expandir os limites dos meios decomunicação comunitários, fortalecendo os grupos e as iniciativas sociais quesustentam esses veículos. No caso da rede Índios Online, de certo modo é possível,inclusive, quebrar a ideia da perda de identidade étnica, a partir do momento que os1 http://www.indiosonline.org.br
  • 12. 11indígenas passam a se expressar através da Internet: para esses povos, o contatodinâmico com as redes digitais é um modo de se manter sintonizado às mudanças eavanços sociais e tecnológicos. No entanto a Internet funciona principalmente comouma forma de registrar, manter e globalizar as tradições indígenas, sem esquecer desuas raízes. Através da análise do conteúdo, estrutura e funcionamento do portal ÍndiosOnline, nosso objetivo é constatar como as funcionalidades da Internet, da rededigital, podem ser exploradas na prática da comunicação comunitária. O uso daInternet na comunicação comunitária ainda é uma ideia em ascensão, envolta empreconceitos, mas que pode ser bem explorada. A rede tira as pessoas do papel demeros espectadores ou ouvintes – comum na mídia tradicional – e as coloca comodifusoras e produtoras de conteúdo (PERUZZO, 2008). A Internet ajuda a romperlimites geográficos, quebrando a ideia de que a comunicação comunitária estárestrita a um limite territorial, além de possibilitar o uso de diversas mídias (som,texto, imagens) simultaneamente (a chamada convergência) e de forma eficiente. Os desafios da prática da comunicação comunitária na Internet também serãoabordados. A administração de funções e objetivos dentro do grupo - comum emqualquer prática comunitária -, a necessidade de recursos materiais para a práticacomunicativa, a habilitação adequada para o uso das ferramentas de comunicação.No caso específico da rede Índios Online, a preocupação com a perda da identidadeindígena a partir do momento em que esses grupos se identificam na Internettambém é vista como um desafio a ser superado. Os próprios indígenas enxergam arede como uma forma de se integrarem ao mundo globalizado sem perder suasraízes, perpetuando suas tradições e divulgando-as para o resto do mundo(PEREIRA, 2008). São essas questões que abordaremos adiante. A pesquisa apresentada caracteriza-se como um trabalho de observação,exploração, análise e descrição. Através da observação geral do funcionamento,ferramentas e características do site Índios Online tentaremos aplicar estudosteóricos sobre as funcionalidades da Internet e elementos que definem a prática dacomunicação comunitária, para mostrar que é possível unir de forma efetiva a rededigital e o conceito comunitário. Estudaremos o site Índios Online em um período de aproximadamente duassemanas, com suas atualizações e todo o material publicado (textos, vídeos,imagens etc). É válido lembrar que os membros da rede Índios Online, os produtores
  • 13. 12de conteúdo, são oficialmente de tribos indígenas da região nordeste, de estadoscomo Bahia, Alagoas e Pernambuco. No entanto, a participação no site e produçãode conteúdos é disponibilizada a qualquer membro da população indígena (e mesmonão-indígena), contanto que o tema apresentado seja de interesse desses grupos,sem teor ofensivo. Como explicado anteriormente, a análise do conteúdo e dos recursosaplicados na estrutura e alimentação do portal Índios Online serão feitos com basena observação, além do contato com representantes do grupo. A princípio adistância geográfica da sede da ONG Thydewá, principal responsável pelaorganização do projeto, poderia caracterizar uma certa limitação na realização dapesquisa: o contato direto com o processo de produção de conteúdos para o siteproporcionaria uma abordagem mais delicada e aprofundada do assunto. Noentanto, considerando-se que um dos objetivos do site Índios Online é justamentepoder expandir fronteiras de comunicação, levando seu conteúdo para públicosgeograficamente mais distantes, pareceu adequado e conveniente manter toda acomunicação necessária através da rede digital. Após a pesquisa teórica, cujo objetivo é coletar o máximo de conteúdo sobrea comunicação digital na Internet e a prática da comunicação comunitária, a próximaetapa é a análise do site e aplicação dos conceitos estudados no modelo do portalÍndios Online. Com isto posto, podemos concluir o cumprimento das expectativas jáapresentadas. Nos capítulos seguintes apresentaremos, inicialmente, uma descriçãogeral da estrutura do portal Índios Online, a história do projeto, os principaisconteúdos abordados e recursos (que a rede digital disponibiliza) utilizados.Também destacaremos as demais formas de presença indígena desenvolvidasdentro da Internet, direta ou indiretamente inspiradas pelas atividades da rede ÍndiosOnline. A partir dessa experiência, ofereceremos a seguir uma abordagem teórica decomo a Internet pode ter seus recursos utilizados em benefício da prática dacomunicação comunitária. Em destaque apresentaremos também três projetos desenvolvidos comparticipação direta de membros da equipe da rede Índios Online, que utilizamdinâmicas distintas e demonstram diferentes fases de desenvolvimento da presençaindígena na Internet: o portal Web Brasil Indígena, a rede de informaçãocompartilhada Esperança da Terra e o documentário Indígenas Digitais, iniciativa daprópria Thydewá que teve seu lançamento no início de 2010. Todas as iniciativas
  • 14. 13citadas, que detalharemos mais adiante, caracterizam a tendência de se reafirmar apresença indígena no ambiente digital pelas próprias aldeias, inserindo o cotidiano ea cultura desses povos dentro da sociedade urbana sem que eles se percam desuas origens e tradições. A ideia é mostrar que, embora ainda existam muitos limitesa ser superados (como falta de equipamentos e questões de acessibilidade, porexemplo), a Internet se encaixa adequadamente na atividade da prática dacomunicação comunitária. Não só entre os indígenas, mas em todas ascomunidades e grupos que de alguma forma são considerados socialmenteexcluídos. O ambiente digital tem se tornado não apenas uma extensão da comunicaçãoconvencional, praticada no dia a dia, mas de todo tipo de atividade praticada nocotidiano. As práticas sociais em geral aos poucos migraram e se adaptaram aoscaminhos e possibilidades digitais. A Internet, por ser um espaço relativamenteacessível a qualquer indivíduo e pela sua facilidade de compartilhamento edivulgação de informações tem todo o potencial para ser uma ferramenta útil nacomunicação comunitária. É com essa constatação e seus desdobramentos queconcluímos nosso trabalho.
  • 15. 14CAPÍTULO 2A REDE ÍNDIOS ONLINE E A PRESENÇA INDÍGENA NA INTERNET Como explicamos, o meio digital é atualmente um campo bastante viável paraa prática da comunicação, por seus custos reduzidos, manejo simples, grandeabrangência e imensa possibilidade de liberdade de comunicação que garante. Noentanto, quando se pensa em comunicação na Internet é necessário planejar umaestrutura atraente, prática e que ofereça o máximo de interatividade ao internauta. Apartir de uma apresentação do portal Índios Online e uma observação sobre algunsde seus conteúdos, definiremos quais recursos digitais são explorados, suasprincipais características e também o teor do conteúdo publicado: uma espécie delinha editorial do site. Interessante recordar que o portal Índios Online é essencialmente decomunicação, não de jornalismo; como veremos nos exemplos adiante, o materialpublicado se caracteriza por possuir um teor opinativo visível. É certo dizer que amaioria das notícias publicadas exprime o sentimento, a visão dos própriosindígenas sobre os atos acontecidos no cotidiano desses grupos. Divulgação deeventos, projetos realizados por ou para a comunidade indígena, denúncia de crimesou ilegalidades praticadas contra índios ou contra o meio ambiente, atividades do diaa dia das comunidades indígenas, protestos, conflitos indígenas contra órgãos dogoverno etc., qualquer assunto voltado ao universo indígena, de cultura à política,tem espaço para ser abordado. O portal Índios Online passou a funcionar ativamentea partir de abril de 2004. Foi uma iniciativa da Organização Não-GovernamentalThydewá, sediada em Salvador, na Bahia, com colaboração da rede desupermercados Bompreço do Nordeste S/A e do Programa governamentalFazcultura de incentivo ao patrocínio cultural. Em 2004 o governo da Bahia apoiou um projeto de conexão entre aldeias.Foram comprados sete computadores com conexão pelo serviço Star One, daEmbratel, com o apoio da Unesco. Foi feito contato com diversas aldeias, das quaisforam escolhidos dois representantes de cada uma delas para uma oficina dequalificação, a fim de orientar para o uso dos computadores. A primeira oficina foidesenvolvida em uma semana, em horário integral, em Salvador, na sede da
  • 16. 15Thydewá, e cada etnia saiu com um computador para ser instalado em suas aldeias,num total de sete aparelhos, além de seis meses de conexão de Internet. O site do portal Índios Online é hospedado atualmente pelo serviço gratuito degerenciamento de conteúdos na Internet Wordpress 2, e elaborado pelo tambémgratuito sistema de tecnologia digital Livresoft. Atualmente, onze nações indígenascolaboram ativamente no portal: Kiriri, Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe, Tumbalalá naBahia, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó em Alagoas e os Pankararu em Pernambuco. Nopróprio site o projeto Índios Online é descrito como uma oportunidade de diálogo,encontro e troca de experiências entre indígenas e não-indígenas de tribos diversas.A conexão com a Internet é feita dentro das próprias aldeias, buscando o benefíciodessas mesmas comunidades. Como explicado no site do portal: Nossos objetivos são: Facilitar o acesso à informação e comunicação para diferentes nações indígenas, estimular o dialogo intercultural. Promover aos próprios índios pesquisarem e estudarem as culturas indígenas. Resgatar, preservar, atualizar, valorizar e projetar as culturas indígenas. Promover o respeito pelas diferenças. Conhecer e refletir sobre o índio de hoje. Salvaguardar os bens imateriais mais antigos desta terra Brasil. Disponibilizar na internet arquivos (textos, fotos, vídeos) sobre os índios nordestinos para Brasil e o Mundo. Complementar e enriquecer os processos de educação escolar diferenciada multicultural indígena. Qualificar índios de diferentes etnias para garantir melhor seus direitos (ÍNDIOS ONLINE, 2010). Todos colaboram na rede voluntariamente e, desde 2005, o projeto conta como apoio do Ministério da Cultura (MinC), que auxilia através dos programas Pontosde Cultura Viva e Associação Nacional de Apoio ao Índio (ANAI). O Pontos deCultura Viva é uma parceria do MinC com os Ministérios das Telecomunicações e doTrabalho e Renda criado em 2006 como parte do programa Governo Eletrônico –Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC). O programa trata exatamente dadisponibilização de computadores conectados à Internet em postos da FundaçãoNacional de Saúde (FUNASA) instalados nas aldeias. Novos povos se integraram àrede e a ideia inicial era de que cada aldeia pudesse participar ativamente,representando um ponto de cultura. Já a ANAI é uma ONG também sediada emSalvador existente desde 1978 e que trabalha com práticas de inclusão e2 http://pt-br.wordpress.com/
  • 17. 16reafirmação dos grupos indígenas na sociedade, cuidando pela manutenção dosdireitos dos povos indígenas e sua representatividade cultural e social. Em relação ao GESAC, é interessante recordar que este tipo de apoio doMinistério da Cultura em recursos materiais e estruturais não significa que a redeÍndios Online se submeta a alguma gestão ou critério governamental: o trabalho nãoperde seu perfil independente, alternativo, comunitário. A ideia da criação da redeÍndios Online surgiu depois da organização Águia Dourada, fundada pelo argentinoSebastián Gerlic, radicado há 15 anos na Bahia, e constituída por grupos indígenase não-indígenas, criar a série de livros Índios na visão dos índios. A coleção continhatextos, fotos e desenhos feitos pelos indígenas das etnias Kiriri, Tupinambá e Truká.Em 2001 os membros da Águia Dourada se dividiram e em 2002 foi fundada a ONGThydewá (“esperança da terra” no idioma Pankararu), coordenada por Gerlic. Entre1997 e 2004 foram publicados oito livros pelas instituições. Sebastián Gerlic passoua se dedicar à causa das comunidades indígenas depois que ele e um grupo deíndios foram vítimas de um ataque feito pela Polícia Militar, quando Gerlic gravavaum documentário na Bahia. A ideia das iniciativas da ONG seria dar mais espaço deatuação e representatividade para os indígenas brasileiros. No ano de 2006, na ocasião de um encontro da rede Índios Online (chamadode “Encontrão”), em Ilhéus, na Bahia, foi eleito um coordenador indígena geral parao grupo (Alex Pankararu), além de outros responsáveis principais pela coordenaçãode setores específicos como administração, informática, monitoramento, contatoscom parceiros etc. Até então os coordenadores responsáveis eram Ivana Cardoso,Laura Juliani, Sebastián Gerlic e Luis Henrique Moreira. No Encontrão, além daeleição dos novos administradores, feita por representantes das aldeias integrantesda rede, também foram discutidas novas ideias de gestão, parceria, expansão etrabalho em rede, além de atividades culturais e apresentação dos principaistrabalhos desenvolvidos até ali. Em 2007 a Thydewá, pelo projeto Índios Online, recebeu o selo de IniciativaReconhecida Prêmio Cultura Viva, do MinC, através do Programa Cultura Viva, deincentivo a práticas culturais executadas pelo Brasil. No ano de 2008 o projetorecebeu o prêmio AREDE de inclusão digital. Em 2009, o Índios Online tambémganhou os prêmios Rodrigo Melo Franco de Andrade (por divulgação do patrimônionacional através da Internet, livros e campanhas) e Prêmio Mídias Livres do MinC. Apartir do recebimento deste último, a Índios Online se expandiu e com o objetivo de
  • 18. 17afirmar ainda mais a presença indígena no projeto foi criado o método de GestãoCompartilhada: a partir dele, representantes de todas as aldeias ligadas à ÍndiosOnline e espalhadas pelo Brasil passaram a ter o mesmo peso, o mesmo poder degestão e administração. Isso eliminava a necessidade de um coordenador geral parao conteúdo publicado no site, resultando numa atividade mais igualitária e bemdistribuída para todos. Inicialmente foram escolhidos oito representantes de povosdiferentes: dois Pankararu, dois Tupinambá, um Kariri-Xocó, um Guarani, um Terenae um Potiguara. Em janeiro de 2010 a Thydewá organizou o I Encontro Nacional daRede Índios Online no Pontão de Cultura Esperança da Terra em São José daVitória, na Bahia. Hoje, lembra Sebastián, a Índios Online é uma rede independente,administrada por seus próprios integrantes. A Thydewá, que antes era a principalgestora da rede, hoje trabalha em um sistema de parceria. Nas palavras de Gerlic, Entendemos que Índios On-Line é uma rede de comunicação indígena, onde dá oportunidade e autonomia aos índios de todos os povos brasileiros e não brasileiros, a expressar suas opiniões e ser um etnojornalista, ciberativista, etnocelumetrista e ser o protagonista de sua própria cultura, historia, costumes e tradições. Para que assim possam ser compartilhada com outros povos e vice versa (GERLIC, 2010).2.1 O portal Índios Online e o Arco Digital O site da rede Índios Online é considerado um pioneiro na ideia daorganização, representação e interatividade das comunidades indígenas de diversasetnias através da Internet. Atualizado pelos próprios indígenas, o site (figura 1)apresenta conteúdo em formato de textos, fotos, vídeos (gravados através deaparelhos celulares), além de ser aberto a comentários. Também é disponibilizadoum chat (sistema de bate papo virtual), promovendo a ideia do diálogo intercultural.Atualmente são mais de 3000 matérias publicadas e 10000 comentários no site, queconta com cerca 500 participantes de 25 etnias diferentes. Atualmente o grupo de gestão da rede Índios Online conta com oitointegrantes, de diferentes aldeias indígenas do Brasil: Alex Pankararu, GracielaGuarani (Cunha Poty Rory), Ivana Cardoso (Potyra Tê Tupinambá), JaborandyYandê Tupinambá, Diana Terena (Diana Davilã), Luciano Pankararu, Jaqueline
  • 19. 18Potiguara (Irembé) e Nhenety Kariri Xocó. Todos os integrantes da rede podempostar no site, com periodicidades variáveis. Aos membros da gestão é exigidoapenas que se comprometam a gerenciar e postar conteúdo no site, além de cuidardo chat que o portal oferece. Os elementos gráficos que compõem a apresentaçãovisual do site, como os detalhes que lembram o desenho do trançado da fabricaçãode cestos de sisal e os tons esverdeados e terrosos reforçam a ideia dos elementosda cultura e do cotidiano indígenas mantidos firmemente mesmo no contexto dapresença no ambiente digital. Na página inicial do site estão organizados links paratodos os serviços oferecidos pelo portal, além das chamadas dos textos publicadosmais recentemente (com o link Leia mais para se acessar o texto completo). Figura 1 Página inicial do portal Índios Online (05 de outubro de 2010) No menu, localizado logo acima do logotipo Índios Online são visíveis osseguintes botões de acesso: Oca – direciona para a página inicial do Índios Online. Mapa – através de imagem obtida pelo programa de mapeamento geográfico 3digital via satélite Google Maps é mostrada a região das comunidades indígenas3 http://maps.google.com.br/
  • 20. 19que integram a rede Índios Online. Cada “ponto” de acesso do programa érepresentado pelo símbolo “@” (figura 2). Arquivos – são exibidos links das postagens mais recentes publicadas no site. Chat – é o programa de comunicação instantânea do portal. Para acessá-lo énecessário criar um cadastro na página com email, uma senha e um nome deusuário. No site Índios Online, o serviço é normalmente frequentado por fundaçõesou grupos interessados na temática indígena, além de estudantes que buscaminformações para trabalhos escolares. A página exibe também o número de usuáriosconectados no chat. Elaborado pelo Livresoft, o serviço é semelhante à estrutura deuma sala de bate papo digital comum (figura 3): uma janela lateral com a listagemdos usuários, uma janela onde se escreve a mensagem e outra maior, onde aparecetodo o conteúdo da conversa. Figura 2 Página do Google Maps mostrando as aldeias onde estão presentes pontos do Índios Online: cada "@" marcada no mapa representa uma aldeia diferente (06 de outubro de 2010) Também é possível enviar emoticons (as “carinhas” animadas que ajudam aexpressar o que o usuário está sentindo, de forma bem humorada) e sinais sonorospara chamar a atenção dos outros usuários. Além disso, existe a possibilidade decompartilhar jogos com outros usuários, utilizar cores e fontes de textopersonalizadas e avatares, ilustrações que representam a figura do usuário dentrodo chat. O serviço conta ainda com um botão de registros, marcando as últimas
  • 21. 20atividades do chat, e um link de ajuda com instruções (em inglês) de utilização dosrecursos do programa. Quem somos – a página contém uma espécie de editorial, com explicando oque é e quais os objetivos e as metas do projeto Índios Online. Participe – uma espécie de convite para os indígenas ainda não incluídos narede Índios Online. Para o cadastro, é necessário apenas informar nome, email paracontato e a etnia, a “nação” a qual o indígena pertence. Figura 3 Janela do chat do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) Contato – espaço aberto para comunicação direta com a administração doportal. Para isto é apenas necessário informar o nome e email para contato,deixando a mensagem desejada. Ainda no alto da página inicial, há um botão de busca onde o usuário podepesquisar um elemento desejado no conteúdo do site. Nos resultados da busca, sãoexibidos integralmente artigos relacionados ao tema procurado. À esquerda dapágina inicial, uma série de janelas/links levam a outros pontos ligados ao portal. Decima para baixo, pode-se ver:
  • 22. 21 4 Siga nosso Twitter – abre uma nova janela para o perfil no Twitter (redesocial de que permite a troca de mensagens instantâneas curtas) do Índios Online(figura 4). Atualmente o perfil do Índios Online, descrito por seus criadores como “umportal de diálogo intercultural”, conta com 435 seguidores. No perfil do Twitter darede Índios Online são postadas algumas atualizações do portal, com as manchetese os links para cada texto publicado. O primeiro registro de atividade do perfil daÍndios Online no Twitter data do dia 5 de maio de 2010. Figura 4 Perfil na rede social de comunicação Twitter do portal Índios Online (06 de outubro de 2010) Imprima e difunda a petição! - clicando nesta caixa, o usuário é direcionadopara um link do site da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas doNordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME). A APOINME 5, sediada emOlinda, Pernambuco (PE), integra 64 povos indígenas e atua em defesa dos direitose causas desses grupos: demarcação e identificação de terras; educação escolarrespeitando a cultura e tradições indígenas; assistência técnica e extensão ruralpara as comunidades; respeito ao meio ambiente e uso consciente de recursosnaturais (APOINME, 2010). O link no portal da Índios Online redireciona para uma4 http://twitter.com/indiosonline5 http://www.apoinme.org.br/
  • 23. 22página da APOINME, com um texto denominado “Campanha Opará – Povosindígenas em defesa do rio São Francisco”. No artigo, a organização convoca ospovos indígenas a se manifestarem contra o trabalho de transposição do rio SãoFrancisco, operado pelo governo federal. A obra - ainda não concluída totalmente - teria como objetivo irrigar as regiõesdo nordeste e semi-árido brasileiros, mas o argumento da APOINME é de que oprojeto danifica o ecossistema às margens do rio (onde estão localizadas aldeiasindígenas) e o próprio São Francisco, além de não suprir as necessidades dapopulação instalada na região do semi-árido. A transposição do rio beneficiariaapenas o agronegócio, latifundiários e empresas multinacionais com instalações na 6região. Em documento publicado no mês de junho de 2010 no Blog do Planalto –site com informações gerais do governo mantido pela Presidência da República – opresidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a previsão é de que o projeto sejaconcluído no final de 2012, e a APOINME orienta a população a assinar uma petição(disponível no site) contra o andamento do projeto, que posteriormente seriaencaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF). No documento, a APOINME requere ao STF uma audiência pública dandovoz a especialistas na área do meio ambiente e ecologia, além dos residentes naregião afetada pelo trabalho de transposição, a fim de averiguar se os impactosambientais realmente têm ligação com a transposição do rio. Se comprovados osdanos ao ecossistema, o documento pede ainda que sejam aplicadas ações judiciaisreferentes ao projeto. Além da versão digital, a instituição também orienta para que apetição seja enviada via fax ou correio, disponibilizando cópias do documento paradownload em cinco idiomas (português, alemão, francês, inglês e italiano). O focoatual das reivindicações da APOINME é o prejuízo provocado pelo andamento dasobras do São Francisco, e informações gerais relativas ao tema estão publicadas nosite da organização. Índio off- line? Você é a nossa Rede. Fique on! - o link redireciona para apágina de cadastro dos usuários indígenas (em Participe). Novo chat no ar!!! Acesse aqui - redireciona para a página de login (entrada)no chat, onde o usuário pode criar seu cadastro no bate papo (se ainda não possuir)ou solicitar o reenvio de sua senha, caso se esqueça dela. Nesse caso, uma nova6 http://blog.planalto.gov.br/
  • 24. 23página solicita o nome utilizado pelo usuário no chat e seu endereço de email, paraonde a respectiva senha será enviada. Indígenas Digitais – o filme - clicando na janela, o usuário é direcionado aosite Indígenas Digitais 7. Nele, é possível assistir e saber mais detalhes sobre odocumentário Indígenas Digitais, com depoimentos de indígenas das naçõesTupinambá e Pataxó Hahahãe, da Bahia, Kariri-Xocó de Alagoas, Pankararu dePernambuco, Potiguara da Paraíba, Makuxi de Roraima e Bakairi de Mato Grosso. Odocumentário foi produzido por indígenas e não indígenas integrantes da Thydewá,além da empresa de capacitação e gerenciamento de projetos sociais, educacionaise culturais Cardim Soluções Integradas, sediada em Salvador. Adiante detalharemoscom mais cuidado o projeto do documentário Indígenas Digitais. Login - clicando no link dentro da caixa de cor verde, o usuário é direcionadopara o site da APOINME, citado anteriormente. Abaixo da caixa há outro linktambém escrito Login, mas este serve para que aqueles cadastrados no site (atravésda página Participe) tenham acesso à administração do portal, publicando seumaterial no Índios Online. Na página inicial do portal Índios Online também é possível visualizar a barraCanal Celulares Indígenas Youtube. São vídeos produzidos pelos própriosindígenas, com o uso de câmeras de aparelhos celulares, que também sãopublicados na rede de compartilhamento de vídeos Youtube. Segundo Potyra TêTupinambá, entre computadores, filmadoras e câmeras digitais os celulares são osaparelhos mais comuns e utilizados pelos indígenas no dia a dia, justamente porserem os de mais fácil transporte e praticidade. Os assuntos abordados sãovariados: cultura, manifestações artísticas, opiniões, eventos, apresentação deprojetos realizados e dos integrantes da rede, até “tutoriais” que ensinam os demaisparticipantes da Índios Online a postar matérias no site principal da rede, porexemplo. No portal Youtube é possível encontrar inclusive uma página exclusiva 8criada pela rede Índios Online (figura 5) com todos os vídeos produzidos pelogrupo. Esse tipo de serviço é totalmente gratuito; para ter acesso a ele basta possuirum endereço de email e criar uma conta no site. No Canal somos informados de que ele foi criado no dia 28 de maio de 2009,e até o último dia 07 de outubro tinha 70 vídeos publicados no total, que juntos foram7 http://www.indigenasdigitais.org/8 http://www.youtube.com/indiosonline
  • 25. 24visualizados 15.173 vezes. A página da Índios Online no Youtube possuía 1223acessos e 22 colaboradores, outros usuários do Youtube que podem se inscreverpara contribuir com o Canal na administração e em postagem de vídeos. Ao acessaro site é possível aos demais usuários postar comentários nos vídeos, fazeravaliações positivas ou negativas do conteúdo, pesquisar vídeos por ordem depostagem no site, número de visualizações ou pela ordem dos melhor avaliados pelopúblico. O usuário também pode recomendar e compartilhar os vídeos desejadosatravés de outras redes sociais, como Twitter, Orkut, blogs e mesmo por email. Figura 5 Página inicial do canal da Índios Online no portal Youtube (06 de outubro de 2010) É importante lembrar que, no caso da rede Youtube, a participação indígenanão se restringe apenas ao canal do portal Índios Online. Outros índios, a maiorialigados de alguma forma ao projeto Índios Online, mantém canais com vídeospróprios mostrando entrevistas com representantes indígenas, o cotidiano dasaldeias, eventos etc. É o caso de Graciela Guarani, de Dourados, Mato Grosso doSul (MS). A jovem, além de ser membro da equipe de gestão da Índios Online, fazparte do grupo de representação socio-cultural Ação de Jovens Indígenas (AJI) desua cidade. Em sua página no Youtube 9, Graciela, que mantém o perfil desde9 http://www.youtube.com/gracielaguarani
  • 26. 25fevereiro de 2009, posta vídeos sobre manifestações e histórias que retratam ocotidiano de sua aldeia. O uso de aparelhos celulares para a produção de vídeos na rede ÍndiosOnline passou a ser facilitado a partir do estabelecimento do projeto CelularesIndígenas, em 2009. O programa, uma parceria com o programa Oi Futuro, ofereceuoficinas de etnojornalismo, publicação digital, fotografia e vídeo para seterepresentantes indígenas em janeiro do ano passado. A partir daí, esses agentespuderam reproduzir e integrar todos os conceitos aprendidos aos demais integrantesda rede. Foram distribuídos 60 aparelhos celulares para representantes indígenasde 24 nações diferentes. Vídeos de poucos minutos até pequenos documentários,como o filme Indígenas Digitais, que aprofundaremos adiante, foram produzidosbasicamente com o uso desses celulares. Entre 2006 e 2007, também em parceria com o programa Oi Futuro, aThydewá criou dentro da rede Índios Online a proposta da comunidade colaborativade aprendizagem Arco Digital. A ideia do Arco Digital foi fornecer a indígenas detodo o Brasil cursos de aprendizagem colaborativa através de um programa gratuito 10de educação digital à distância, o Moodle . A metáfora do arco digital é associadapelos próprios indígenas à figura do arco e flecha, ferramentas que simbolizam aomesmo tempo, caça (sustento) e arma (ataque e defesa). As novas tecnologiasrepresentariam os mesmos significados da caça e da guerra no contexto dasociedade informacional contemporânea. No projeto Arco Digital foram oferecidas oficinas realizadas por facilitadoresigualmente atuantes nas áreas de saúde indígena, jornalismo étnico, educação,cidadania e direitos, economia solidária e agrofloresta, voltadas para qualquerindígena, sem nenhum custo e dentro do princípio colaborativo. O objetivoimpulsionador do Arco Digital foi a troca de ideias e reflexão sobre desenvolvimento,cidadania, tecnologias de Informação e comunicação, bem como compartilharexperiências, práticas e saberes. A partir da realidade dos povos indígenas, tomou-se a iniciativa do diálogo (como forma de construção coletiva de conhecimento einteração para a transformação) no qual os próprios índios são protagonistasresponsáveis por decidir o caminho de suas comunidades, lutando e seguindo pormelhores condições de vida. O incentivo constante à autonomia entre os indígenas,rompendo os estereótipos em relação a esses povos enraizados dentro da1 0 http://www.moodle.org
  • 27. 26sociedade urbana e apresentando a real identidade e capacidade de independênciadas comunidades e seus membros é um dos objetivos dessas iniciativasdesenvolvidas. Numa espécie de reflexão integrada em rede, esses povos passam a refletir,planejar, elaborar e executar suas próprias ações e projetos. No ano de 2008, com oapoio do MinC, a Thydewá lançou a publicação @rco Digital com 3000 exemplares,narrando as experiências dos integrantes da Índios Online dentro do Arco Digital. Olivro é descrito por seus organizadores como uma oportunidade de refletir sobre atecnologia, a realidade contemporânea dos povos indígenas e suas relações com asnovas tecnologias, rompendo possíveis preconceitos e ajudando a estender asiniciativas do Arco Digital. O “criador” do Arco Digital, Nhenety Kariri-Xocó, descrevedeste modo o início das atividades no programa e seus objetivos: Pela primeira vez, índios de comunidades distantes se encontravam num chat para dialogar sobre seus interesses... intercambiar ideias, experiências...se apoiar...pesquisam e projetam suas culturas publicando suas matérias no portal. Abrem espaços para divulgar suas visões com o objetivo de serem mais respeitados...dialogam com os internautas promovendo a paz... (NHENETY KARIRI-XOCÓ, 2007). Nhenety ainda realça a importância do computador como ferramenta útil aospovos indígenas: Nós índios já estamos usando o computador como ferramenta de buscar soluções. O computador nos serve para escrever projetos ou cartas, que nos auxiliam para buscar melhorias na saúde, educação, sustentabilidade e tudo que se refere a nossa sobrevivência e desenvolvimento, servindo como um Arco e Flecha. O arco e flecha é um instrumento de defesa, de caça… Hoje em dia, um computador com internet também pode ser utilizado pelos índios como um instrumento de defesa e caça [...] Hoje em dia, também nos reunimos em grupo e através do computador e a Internet nós estudamos todas as possibilidades: os órgãos do governo e seus editais e suas leis, as agências de cooperação, os financiadores, os programas, os patrocínios de empresas, o mundo das parcerias...Preparamos nossos projetos e saímos na busca de concretizar nossa caçada. (Idem, 2007). Para o índio online, ou “caçador eletrônico”, Nhenety recorda a necessidadeda prática no aprendizado do uso da informática. Com a Internet é possível descobrir
  • 28. 27novas instituições, agências, empresas, como elas atuam... pesquisar na rede digitalpara saber como se comunicar adequadamente, como atrair o “público” que sequer. O fato do projeto Arco Digital não existir mais dentro da rede Índios Online nãosignifica que seus ideais, ações, práticas e projetos se perderam. As iniciativas epropostas de reflexão e discussão levantadas pelo projeto continuam se propagandopor todas as vias da rede Índios Online, a cada nova geração que ingressa noprojeto, na produção de vídeos, textos e nos debates e discussões levantadas.2.2 O que têm a dizer os Índios Online O conteúdo do portal Índios Online, totalmente produzido pelos própriosindígenas membros da rede, é marcado por um forte teor opinativo, muitas vezes emtom de denúncia, e não há uma preocupação rígida em relação à linguagem formal,organização da página, harmonia estrutural entre texto e fotos, quantidade decaracteres etc. É visível a liberdade que os autores dos artigos publicados no ÍndiosOnline têm não só na seleção e produção de todo o conteúdo publicado, mastambém para reproduzir sua opinião no texto, denunciar ou criticar o que julgarnecessário, e mesmo organizar o modo como será publicado no site (ordem dasimagens, fonte de texto) da maneira que considerar mais adequada e de fácil leiturapara o internauta. O teor do material produzido e abordado no portal Índios Online demonstrabem a força dessa proposta de reflexão, de autodescobrimento, a iniciativa queconduz ao fortalecimento da cidadania, da representação social e cultural dessesgrupos. Denúncias, artigos, opinião, material político, eventos, cotidiano das aldeiasindígenas: tudo isso atua em benefício da demarcação do espaço e inclusão dessesindígenas não só no campo geográfico, mas no ciberespaço, em todas as áreas dasociedade, de forma independente, livre e realmente atuante. O portal Índios Onlinepode ser visto como um canal sem restrições de comunicação dos indígenas dequalquer lugar do país com toda a população, uma oportunidade de livremanifestação de expressões. Questões sobre demarcação e posse de terras, resistência de gruposindígenas, preservação do meio ambiente, histórias de antepassados, novidades naárea de tecnologia e infra-estrutura para os índios, tudo isso ganha espaço para
  • 29. 28abordagem no Índios Online. Tudo isso sempre com um tom crítico e de análise, quedireciona para a reflexão dos próprios leitores. Em relação ao assunto de posse deterras e resistência indígena, por exemplo, ou mesmo denúncia de atitudes violentascontra as comunidades indígenas, é possível notar que sempre se ressalta a posturapacífica entre os índios, cujo interesse maior é sempre a defesa dos próprios direitosda maneira mais justa e organizada possível. No artigo “Retomada Tupinambá – Nacomunidade Santana” (11 de outubro de 2010), assinado por Bruno Tupi, o rapazretrata a retomada dos indígenas Tupinambás daquela região a uma fazenda cujaterra lhes seria de direito. Segundo relato do próprio Bruno: Com o objetivo de reaver o que é nosso, e de maneira pacífica entramos na fazenda. Permanecemos ainda na fazenda, até o instante momento, e até agora graças ao nosso pai Tupã ainda não tivemos nenhum registro de conflito. Mas segundo o Administrador da FUNAI – Ilhéus – BA, a filha do Fazendeiro Juvenal que é o morador da fazenda retomada, foi informar a Polícia Federal, que nós estamos mantendo em cárcere privado, dois idosos hipertensos, mas isso não é um fato real, pois estamos abertos a diálogos pacíficos, pois não temos em mente maltratar ninguém, só apenas reaver o que é nosso e ampliar até porque essa fazenda se encontra dentro de nossa demarcação. Sendo assim reafirmamos mais uma vez, que essa retomada é pacífica, não queremos conflitos, só queremos o que é nosso de fato e se tem esses idosos com a gente é porque eles não tiveram tempo de se locomover ainda, e porque também não vamos colocar eles na rua de uma hora pra outra. Nesse instante estamos dentro da fazenda e se nosso pai Tupã permitir, nosso povo não sairá mais. Pois lá pertenceram os nossos ancestrais e agora pertenceram aos nossos herdeiros. (BRUNO TUPI, 2010). A causa da retomada de terras pelos Tupinambás também é um bomexemplo da utilização da Internet, da rede digital para divulgação de algum tipo demobilização popular. Neste caso, ela não se limita apenas ao que é publicado na 11rede Índios Online. No blog Retomada Tupinambá (figura 6) é possível fazer todoum acompanhamento das atividades dos Tupinambás pela retomada de suas terras.Textos, vídeos e fotos (a maior parte deles compartilhados com o portal ÍndiosOnline) expõem depoimentos do cotidiano desses indígenas. Segundo o RetomadaTupinambá, atualmente há cerca de 7000 Tupinambás no Brasil em um território1 1 http://www.retomadatupinamba.blogspot.com/
  • 30. 29reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) de 47300 hectares, ao sul daBahia. No entanto nem todas essas áreas ainda foram demarcadas, e esta é aprincipal luta atual dos indígenas. Figura 6 Página inicial do blog Retomada Tupinambá (13 de outubro de 2010) Além da Índios Online, o Retomada Tupinambá ainda conta com setecolaboradores oficiais e o apoio do projeto Fotografia Tupinambá. O programa nadamais é do que oficinas de fotografia oferecidas aos indígenas Tupinambás da Bahia. 12No site do Fotografia Tupinambá , é possível se informar sobre as oficinas járealizadas, ver fotografias tiradas durante os eventos (com direito a galerias de fotostiradas pelos participantes) (figura 7) e também um vídeo, realizado pela equipe darede Índios Online em parceria com a produtora Petei Xe Rajy, sobre a pintura e oartesanato praticado pelos Tupinambás. As fotos exibidas nas galerias sãohospedadas e visualizadas através de programas de distribuição e 13compartilhamento gratuito de imagens, como o PicLens e o Flickr , de 2004. Parautilizar o PicLens é necessário instalar uma das versões do programa em seucomputador, através de portais especializados em informática que oferecem esse1 2 http://fotografiatupinamba.com/novo/1 3 http://www.flickr.com
  • 31. 30tipo de serviço. Já no Flickr basta fazer um cadastro no site indicado. O projetoFotografia Tupinambá ainda conta com a colaboração da Fundação Nacional deArtes (Funarte), do MinC e da Petrobrás. Figura 7 Fotografia tirada durante oficina realizada pelo projeto Fotografia Tupinambá. Autor: Alessandro Tupinambá (13 de outubro de 2010) Em alguns casos, o apelo mais explícito à comunidade não indígena a favordas causas desses grupos também se mostra presente. No texto intitulado “Árearetomada sofre ataque de pistoleiros na tarde de ontem” (08 de outubro de 2010),assinado por Fábio Titiá em nome da comunidade Pataxó Hãhãhãe, é relatado umataque violento a indígenas ocupantes de uma fazenda em terras que seriam de suapropriedade. Os Pataxó Hãhãhãe estão determinados a permanecer na áreas, e pede a justiça possa agora fazer o seu papel, devolvendo as nossas terras. As fazendas que antes servia para criatório de gado, de hoje em diante acreditamos que ela possa servir para buscar a sustentabilidade de várias familias indígenas que vivem a margem da linha da pobreza. e assim evitaríamos que mais de nossa terra fosse destruída, já que foi comprovado desmatamento por parte dos fazendeiros. Os índios Pataxó Hãhãhãe, está cansado de esperá pela a justiça, que anda lenta como uma tartaruga. Enquanto as “autoridade retarda o julgamento de nossas terras” tem índios
  • 32. 31 morrendo assassinados. por falta de condições melhores para poder cuidar da saúde, de uma educação e alimentação de qualidade. Sendo que essas terras nos pertence temos prova, e a STF, continuam deixando o povo indígenas amingua. Através da rede indios online, levamos para a sociedade que nos ajude, a cobrar das autoridades desse país , que assuma a nossa causa com carinho e não permita mais que um pai de familias perca a sua vida nessa luta árdua e necessária. (FÁBIO TITIÁ, 2010). O texto é um exemplo claro de como a rede Índios Online é vista e utilizadacomo uma ponte de manifestação e contato entre os povos indígenas e acomunidade em geral. E é uma estrada de duas vias, considerando que o internauta,o público, também pode se comunicar de formas diversas com os autores do portal,expressar sua opinião e suas ideias. A participação de indígenas e não-indígenasnos comentários dos textos postados no site é constante, o que sinaliza um grandecomprometimento e interesse não só entre aqueles que já estão ingressos na redeÍndios Online, mas também da parte do público em geral. No artigo de Fábio Titiá,por exemplo, são vistos os seguintes comentários: Mauro Alessandro Zalcbergas – Salvador – BA - Estudante de Direito disse: sexta-feira, 08 de outubro de 2010 as 8:55 Diante de tal violência, procurem coletar o máximo de provas possíveis,como fotos dos carros, pistoleiros, placa dos carros, videos e testemunhas. Com todas essas provas em mãos, divulguem em todos os meios de comunicação, vamos fazer todo o Brasil saber quem são essas pessoas, mas somente com relatos não é suficientes, boas imagens são bem fortes e ajudam até nas decisões da justiça. Conseguindo boas imagens e fotos, vamos divulgar na internet e youtube, tenho certeza que a mobilização terá muita repercursão. ARATIMBÓ disse: sexta-feira, 08 de outubro de 2010 as 18:30 É UMA VERGONHA PARA AS AUTORIDADES O QUE ESTÁ ACONTECENDO, ELES FAZEM VISTA GROSSA QUE Ñ VER OS PISTOLEIROS É UMA TERRA SEM LEI. [...] SÓ PARA LEMBRAR A SOCIEDADE, QUE NA HISTORIA DE LUTA DO POVO PATAXÓ HÃ-HÃ-HÃE, NO DECORRER DO TEMPO ONDE FORAM MORTOS VÁRIAS LIDERANÇAS, ATÉ QUEM FIM ONTEM FOI UM BANDIDO PRA CADEIA O FAMOSO ”GILBERTO ALVES DE BRITO” ISSO DEPOIS DE MUITAS QUEIXAS NO MINISTÉRIO PUBLICO E NA POLICIA FEDERAL, DE ILHÉUS. [...] ESPERO QUE AS AUTORIDADES FAZ O SEU PAPEL QUE SEJAM
  • 33. 32 PROFICIONAIS, CHEGA DE IMPUNIDADE, VAMOS FAZER JUSTIÇA, VAMOS COLOCAR OS CULPADOS NA CADEIA. sebas disse: domingo, 10 de outubro de 2010 as 6:07 Hoje de manha recebei varios recados no meu celular… [...] o recado era: “A retomada foi invadida pelos pistoleros hoje pela manha, só quem esta na área são os homens, as mulheres foram obrigadas a sai. ESTA VENDO UMA GUERRA HORRIVEL, por favor entre em contato com a funai para ajudar no reforço, Yonana diretamente da retomada” Existe uma corrente para divulgar os acontecimentos diretamente da retomada… (ÍNDIOS ONLINE, 2010). A presença constante dos comentários serve não apenas como uma forma deintervenção dos leitores, dos outros integrantes no conteúdo abordado, mas tambémcomo um meio de estímulo ao trabalho dos Índios Online. Ao final de cada texto,junto com o nome e uma breve descrição do usuário, é exibido o número de artigosjá postados por ele (com um link que leva para uma listagem desses textos). Nocaso de Juayran, por exemplo, que no dia 05 de outubro de 2010 apresentou o texto“A beleza do Rio São Francisco” (figura 8), descrevendo o rio São Francisco edestacando a necessidade de sua preservação, podem ser vistos os seguintescomentários sobre a matéria: seredser disse: quarta-feira, 06 de outubro de 2010 as 7:13 juayran sua materia é muito boa, nós temos o dever de presevar o nosso querido velho chico, por que como vc falou uma belesa como essa não passa despecebido por que o nosso rio é lindo demais. Josemar pires disse: quarta-feira, 06 de outubro de 2010 as 9:52 ola juayran , o são francisco apesar de tanta poluição ainda guarda suas belezas. (ÍNDIOS ONLINE, 2010).
  • 34. 33 Figura 8 Página do artigo "A beleza do Rio São Francisco", publicado por Juayran (11 de outubro de 2010) Para Juayran, que até o momento registrava oito artigos publicados na redeÍndios Online, os comentários sobre seu trabalho podem manifestar não apenas ointeresse pelo assunto abordado, mas o incentivo para prosseguir suas experiênciase seguir cada vez mais atuante na rede Índios Online, além de estender sua voz,sua atividade para outras redes digitais de raiz indígena e não-indígena. Enfim,buscar oportunidades de atuação e representação na Internet, na sociedade digital,através da comunicação. Ainda em relação aos conteúdos observados nas matérias do Índios Online,percebe-se de que modo práticas culturais, religiosas, tendências e mesmo víciosantes considerados “não-indígenas” hoje se encontram inseridos, de alguma forma,no cotidiano desses grupos de forma bastante natural. Não estamos nos referindoapenas ao uso da Internet e da inclusão digital nessas tribos, mas de influênciasrelativas ao consumo em geral e mesmo à religião. Um exemplo interessante é otexto publicado por Hemerson Pataxó no dia 27 de setembro de 2010, “Um dia semdrogas”. Na matéria Hemerson destaca um seminário, organizado pelas própriasinstituições indígenas na cidade de Pau Brasil (BA), abordando os malefícios doconsumo de drogas em geral.
  • 35. 34 O encontro contou com a presença de representantes indígenas da FUNASAe psicólogos, além de depoimentos de índios ex-usuários de drogas. A matéria deHemerson Pataxó é só um exemplo de como as influências nascentes no centro dassociedades urbanas tem afetado essas comunidades, tanto para o bem quanto parao mal. Essa tendência é natural e praticamente inevitável, com a expansão daglobalização e a introdução cada vez mais profunda dos povos indígenas nasociedade e no ciberespaço. A preocupação, no entanto, é de se saber selecionarquais influências podem ser negativas ou positivas, usá-las com moderaçãoestabelecendo cada um seus devidos limites, e tomando iniciativas para repeliraquilo de negativo que possa se aproximar. Trata-se de uma questão deconscientização e bom senso que deveria estar presente e ser estimulada não sóentre os povos indígenas, mas em toda a sociedade. Outro ponto de miscigenação visível dentro da cultura indígena, e cujo teorfica claro no contexto das matérias publicadas no Índios Online diz respeito àreligião. A inserção dos costumes das igrejas cristãs na cultura indígena é assuntode bastante relevância e conflito para esses povos. Apesar da diversidade religiosapresente entre as comunidades indígenas atuais, existe um grande esforço para quesejam preservadas e respeitadas as tradições de culto de seus antepassados.Embora exista espaço para manifestações de fé católica e evangélica dentro dasaldeias, para muitos índios algumas dessas igrejas ameaçam as tradições,estruturas e direitos naturais dos povos indígenas. O desejo de preservação do patrimônio natural e passado histórico sãomarcantes na discussão da cultura religiosa indígena. O ponto de equilíbrio seriaconciliar a liberdade de culto cristão (daqueles que realmente desejarem seguir estecaminho) sem desvalorizar os valores, cultos e tradições históricas indígenas. Aconsciência crítica contra a simples imposição de tradições religiosas, sociais eculturais, a liberdade de culto sem ameaças nem preconceitos: este é o padrãobuscado pela maioria dos representantes indígenas. As igrejas católica e evangélicanormalmente são criticadas por tentarem afastar os povos das aldeias de suascrenças, valores e ideais tradicionais, o que é visto como abuso pelos indígenas.Portanto, além do respeito e tolerância por parte das instituições religiosas, énecessário estimular nos índios essa reflexão e visão crítica sobre os valores,ideologias e crenças que lhes são apresentados.
  • 36. 35 A preservação dos hábitos e tradições indígenas é tema de muitos artigos,além de depoimentos e opiniões de vida dos próprios índios. No caso do texto de FaTupinambá, autora de “Pintura Tupinambá” (22 de setembro de 2010), a arte dapintura corporal indígena é mostrada como uma prova de resistência erepresentação deste povo que se mantém viva através dos tempos: Para nós Tupinambá a pintura é de muita importância, pois é uma forma de nos afirmamos como uma comunidade indígena, por conta que é uma pintura unica de nosso povo, fortalecendo assim nossa identidade étnica. Nossa pintura tanto a corporal como as diversas outras pinturas, que pertence ao nosso povo é repassada de pai para filho, e tem diversos significados que vai desde a pintura para guerrear até a pintura de festa. As tintas para pintura corporal é feita de jenipapo ainda verde, onde ralamos e esprememos para extrair o caldo do fruto, desse caldo misturamos com carvão para que ele fique mais escuro. A tinta do jenipapo demora em media 15 dias para sair do corpo, mesmo agente lavando e escovando bem a pele, a permanecia da tinta em nossa pele é a mesma. [...] é de costume da maioria dos índios se pintarem, assim quando estivermos na caminhada nos mostramos com uma cultura forte e resistente. Que mesmo depois de varias repressões, massacres e discriminações, o nosso povo se fortalece cada vez mais e mais, e a quem dizia que o povo Tupinambá era um povo extinto, estamos aqui para mostrar que não, e que somos um povo forte e resistente, com uma cultura forte e com pinturas lindas e expressivas. (FÁ TUPINAMBÁ, 2010). Além da arte e da cultura, manifestos, depoimentos e relatos de experiênciasde vida também compõem o material da rede Índios Online. Texto publicado emnome de Seu Gino, em julho de 2005, é um bom exemplo do registro histórico dasmemórias das tribos indígenas; intitulado “Nossos avós levantavam cedo”, o artigotraz uma visão crítica e pessoal da história da colonização e da atual situaçãoindígena. A tristeza pela exploração do passado e o desejo de um futuro melhor sãoas marcas do pensamento expresso por Seu Gino: Nossos avós levantavam cedo, pegavam seus arquinhos e iam para o mato. Matavam um nambu, um preá, um tatu, viviam comendo batatas do mato, tipã, gravitaia, agisaia, salbu (fruta selvagem), mandaunhão, não trabalhavam que nem hoje. Ele vivia do mato, caçando seus inhames. Depois o branco tomou conta, desmatou a floresta, aí o índio não teve como viver mais. Eles foram tomando as terras do índio, dizendo assim: “Índio vamos trocar essa terra por uma cabeça de animal!”.
  • 37. 36 Depois o branco pegava a terra e dava só a cabeça do animal, não era um animal inteiro, se aproveitava da fome para enganar e pouco a pouco ia tirando nossas terras. [...] Os costume da gente é a parte da Natureza que Deus deixou aqui na terra e nós não podemos trocar essa sabedoria pela sabedoria do branco. Não podemos só estudar e esquecer nossos costumes. O branco quer que a gente esqueça até o nome de Deus, porque nosso direito é levantar e dar benção ao pai e a mãe, isso para o pai lembrar o nome de Deus todo dia. O estudo trás bom dia pai, bom dia mãe e faz esquecer o nome de Deus. Aqui na terra estamos todos juntos, com um Deus só. Nós temos que ser todos por um e um por todos. Nós temos que seguir um caminho. Estamos na beira do abismo, sem promessas para o futuro, muitas pessoas fazendo as coisas erradas, saindo do caminho. Nós temos que conversar, sentar juntos e combinar as coisas. (SEU GINO, 2005). Manifestos de necessidade de luta, mobilização e atuação indígena, como oartigo “Vida de Guerreiro”, assinado por Seredser em 07 de outubro de 2010,também representam o apelo dos indígenas na necessidade de manter suasculturas, raízes e objetivos, sem se deixar corromper por outros valores ouideologias que não sejam positivas. Desde que o Brasil foi descoberto que nós índios viemos lutando, lutando contra a escravidão, lutando pela democracia, lutando por uma vida melhor. Hoje que estamos totalmente civilizados, temos lutado pelos o que tiraram da nós,o que é nosso por direito, que é a nossa língua e o que é mais importante as nossas terras, quem é que não quer ter o seu pedaço de terra para criar o seu gado, para plantar legumes, fazer sua casinha e morar com sua família, fazer uma roda de toré todas as noite e repassar sua cultura. Guerreiro que é guerreiro luta pelos seus objetivos, luta para que eles nunca venham desaparecer, cultiva os seus costume, acredita que um dia vai vencer, nós podemos perde a batalha mais a guerra nós nunca perdemos, por que quem acredita em Deus enfrenta vários obstáculos mais no final sempre vence. (SEREDSER, 2010). Além de depoimentos, denúncias e cenas do cotidiano das aldeias indígenas,o Índios Online também procura dar destaque a todo assunto relativo à inclusão einvestimento digital entre os indígenas. Esse tipo de iniciativa também é ressaltada,justamente para estimular e mostrar que é possível a realização desse tipo deprojeto. Vale lembrar que, estruturalmente, parte da estratégia de divulgação e
  • 38. 37multiplicação do material publicado no portal Índios Online inclui as funções deimpressão e divulgação por email das matérias publicadas, representadas porícones dentro da própria página de texto, contribuindo assim para a expansão edivulgação desses conteúdos para públicos mais amplos. Para facilitar a navegaçãodo internauta, cada página de texto também inclui links diretos para o último artigopublicado anteriormente e o que tenha sido publicado depois. Um marco importante para o trabalho dos integrantes da rede Índios Onlinefoi a representação nos anos de 2009 e 2010 no Campus Party Brasil, eventorealizado anualmente em São Paulo desde 2008. A exposição, realizada no mês dejaneiro, reúne novidades, grupos, palestras, debates, oficinas, tudo relacionado àInternet ou às novas tecnologias. Nas duas edições em que participou do evento, oÍndios Online manteve um estande próprio com exibição de vídeos, materiais econteúdo sobre o projeto. Durante os dias do evento, é feita uma cobertura diária,pelos próprios indígenas, de tudo o que acontece por ali, além de suas impressõesparticulares de tudo o que foi apresentado. No ano de 2009, por exemplo, quando oCampus Party deu destaque especial às mídias digitais móveis, o Índios Onlineaproveitou para promover a iniciativa Celulares Indígenas, além de apresentarpalestras e entrevistas sobre o tema. Naquele ano foram ao Campus Party seteintegrantes da Índios Online, seis da Bahia e um da Paraíba. A viagem e a estadiaem São Paulo, no período do evento, foi concedida pela própria organização doCampus Party e pelo MinC.2.3 A presença indígena na Internet O portal Índios Online, que de abril de 2004 até o dia 11 de outubro de 2010registrara 1.866.860 acessos, é considerado uma inovação entre os meios decomunicação digital feitos por e para os povos indígenas, pois ao contrário de outrastentativas postas em prática anteriormente, o site permite o uso e associação deferramentas colaborativas, onde qualquer usuário de postar, enviar informações oucolaborar, numa integração até então não experimentada na comunicação entreindígenas (PEREIRA, 2008). A presença indígena na Internet, embora relativamentepouco expressiva, tem se mostrado cada vez mais crescente, especialmente noBrasil. Em levantamento realizado no mês de setembro de 2008 por Eliete da Silva
  • 39. 38Pereira foi calculado um total de 39 sites brasileiros voltados para o públicoindígena, alguns infelizmente até já desativados. No Brasil, os primeiros registros de participação indígena na Internet datamde 2001, e de lá para cá essas manifestações se multiplicaram em sites, blogs,comunidades virtuais e portais. O portal, como é o caso da rede Índios Online, sedifere dos sites comuns exatamente pelas múltiplas funções e possibilidades deinteratividade e comunicação entre usuário e produtor de informação que oferece.Os participantes da rede podem se comunicar de qualquer distância em tempo real(via chat, por exemplo) e pela troca de mensagens e comentários simples. Segundoos dados da pesquisa de Pereira a presença indígena na Internet pode ser escaladado seguinte modo: 70,27% de sites; 27,02% de blogs e 2,70% de portais,equivalente à rede Índios Online. Desses, 56,7% utilizavam serviços de hospedagemde sites gratuitos e 43,25% domínios de sites pagos. No total são 48,64% dos sites em plena atividade e atualização, embora estaseja uma tendência crescente. Em 2008, 70,27% dos sites exploravam recursos deinteratividade. A Internet se tornou um importante ambiente interétnico e de(re)formulação étnica não só para os indígenas, mas para todos os povos muitasvezes considerados “excluídos”, à margem do contexto social. 62,71% dos sites eportais de atuação indígena no Brasil são gerenciados por organizações derivadasdas próprias aldeias, de abrangência nacional, regional ou local. Isso demonstra oquanto o ambiente digital tem sido visto e desenvolvido como meio propício à lutapor direitos, instrumento de reivindicações políticas e visibilidade étnica perante asociedade global. Aos poucos, essas organizações se aperfeiçoam no serviço de gestão deinformação e boa utilização dos recursos disponibilizados, criando mais experiênciae tomando consciência de como a comunicação pode servir positivamente aosmovimentos sociais. A atuação indígena na Internet, como vimos no exemplo doprojeto Arco Digital, vem associada a outras iniciativas de políticas públicas emáreas como a saúde, educação, conscientização ambiental e uso de informática.Portanto, é válido dizer que a inclusão digital nas aldeias reflete em benefícios edesenvolvimento para toda a comunidade, que consequentemente propiciam oincremento da experiência indígena na Internet. O protagonismo indígenaidentificável nos sites, portais e mesmo em redes sociais de relacionamentos (comoo Twitter e em comunidades virtuais do Orkut) permite que esses indivíduos
  • 40. 39exerçam sua cidadania de forma mais atuante, ativa e consciente: fiscalização dagestão pública de recursos destinados às populações indígenas, denúncias contraviolação de direitos indígenas, articulações de apoio entre povos indígenas e nãoindígenas para ações específicas em rede, direito à voz e acesso ao conhecimento. Observa-se um amadurecimento constante do movimento indígena ecrescimento no número e na diversidade de organizações nativas, dirigidas pelospróprios índios, que buscam cada vez mais participar na formulação e execução daspolíticas para os povos indígenas. Além disso, organizações não-governamentais(ONGs) têm aumentado sua participação na formulação e execução de políticasindigenistas, função antes atribuída exclusivamente ao Estado brasileiro. A rededigital é importante também como instrumento político para as tribos indígenas, poisé um bom instrumento de reforço e difusão de ideias de identidade, o que aumenta aresponsabilidade das organizações indígenas em difundir ideias para a obtenção deações e conquistas políticas justas. Enfim, a rede digital abriu, como define YakuyTupinambá, do Índios Online, novas possibilidades para a comunidade indígena emtodas as áreas: A internet promoveu a abertura de horizontes – contrariando o pensamento de uma grande maioria interessada em nos manter amordaçados – trouxe-nos novos significados, sem que isso implique no abandono das nossas tradições. Devolvendo nossas vozes, que foram caladas por muito tempo, coberta pelas vozes dos que julgam especialistas. Conectar-se ao mundo através da internet é ter direito a ter um rosto, e fazer ouvir nossa voz é saber dos acontecimentos e interesses que envolvem toda a humanidade. Através desse mecanismo tecnológico conseguimos perceber uma janela para o mundo, a tão sonhada inclusão dos Povos Indígenas, como sociedade fundamentada, negada há décadas e décadas. (YAKUY TUPINAMBÁ, 2008).14 A presença indígena na Internet é importante não só para apresentar ocotidiano dessas tribos a um público mais extenso, mas também para que ascomunidades possam redefinir e atualizar a imagem que tem deles mesmo, e a quequerem passar a outros usuários indígenas e não indígenas. Esse processo de auto- O depoimento de Yakuy Tupinambá foi extraído do artigo Ciborgues Indígen@s.br: entre a atuação nativa no1 4ciberespaço e as (re)elaborações étnicas indígenas digitais, de Eliete da Silva Pereira, publicado no ano de 2008.
  • 41. 40representação resulta num processo de fortalecimento cultural, elevando a autoconfiança desses povos muitas vezes tão sufocados por estigmas e preconceitos. Ofortalecimento cultural é justamente o conjunto da prática representativa, da atuaçãodos grupos indígenas na rede. A presença dos índios no ambiente de comunicaçãodigital mostra formas de compartilhamento de significados que rompem, pelo menosem parte, a dependência desses indivíduos em relação a instituiçõesgovernamentais incumbidas de representá-los, oferecendo uma visão particular elivre desses grupos. A ação comunicativa na rede digital tem resultados no modo em que essesgrupos são vistos pela sociedade não indígena e no modo como eles mesmos seveem e se definem em rede. Um dos resultados dessa expansão da participação erepresentação indígena na rede digital é demonstrado ativamente através da redeGrumin, de representação de mulheres indígenas. A rede Grumin surgiu oficialmenteno ano de 1987, e foi fundada por Eliane Potiguara em cima da experiência de vidade sua avó, Maria de Lourdes de Souza, índia nascida na Paraíba cuja história émarcada pela sobrevivência física, moral e étnica. Eliane ainda é conselheira doInstituto Indígena de Propriedade Intelectual (Inbrapi) – órgão promotor da defesa debens e direitos relativos ao meio ambiente e ao patrimônio intelectual dos povosindígenas - e coordenadora da Rede de Escritores Indígenas na Internet. A Grumin atua basicamente na defesa dos direitos dos povos indígenas,oferece projetos de capacitação e formação para mulheres em diversas áreas, atuaem parceria com diversas entidades de defesa do meio ambiente e movimentossociais, além de difundir informação sobre as ações do órgão através do portalGrumin Online15 (figura 9). O Grumin dá prioridade e assistência a mulheresindígenas ou afrodescendentes, de alguma forma excluídas socialmente. O site doprojeto Grumin, além de explicar as ações, objetivos, parceiros e iniciativas dogrupo, publica notícias referentes ao universo e às conquistas sociais, políticas eculturais dos negros e indígenas, especialmente as mulheres, com espaço abertoinclusive para comentários dos internautas. Além dessas iniciativas, o Instituto Socioambiental (ISA), ONG criada em1994 que incorpora o patrimônio do Programa Povos Indígenas no Brasil do CentroEcumênico de Documentação e Informação (PIB/Cedi), e o Núcleo de DireitosIndígenas (NDI), do Ministério da Justiça, em Brasília, também têm desenvolvido1 5 http://www.grumin.org.br/
  • 42. 41trabalhos importantes na divulgação e preservação da cultura indígena. Todos essesprojetos estimulam e convergem para uma maior inserção e associação de todos osgrupos sociais considerados marginalizados ou não. Figura 9 Página inicial do portal da rede Grumin (16 de outubro de 2010) Cada um deles, a sua maneira, com os recursos e apoio disponíveis, sãoexemplos de como a rede digital, a Internet, pode ser campo fértil na prática dacomunicação popular. Com estrutura material disponível e gerenciamento adequado,é possível administrar e expandir um projeto de comunicação de qualidade voltadoàs comunidades, sem dependências governamentais e empresariais que aprisioneme restrinjam a prática comunicacional. E esse trabalho bem sucedido reflete emconquistas para toda a comunidade, não só em relação à comunicação, mas emvários âmbitos. Na interação com as modalidades de comunicação digital, oprotagonismo indígena assume formas criativas em que o diálogo intercultural não émediado por instituições indigenistas que antes eram as únicas mediadoras. Emmuitos momentos essa independência dessas instituições possibilita que os própriosindígenas exponham suas críticas em relação às entidades governamentais que osrepresentam. Para os próprios indígenas, no exemplo da rede Índios Online, acriação e desenvolvimento do projeto beneficia principalmente pelo intercâmbio
  • 43. 42cultural, a troca de experiências entre os integrantes da rede. O que antes só podiaser discutido, debatido e compartilhado através de encontros pessoais, de formamuito limitada, a Internet ajudou a transformar para melhor. A Internet propicia um trabalho autônomo de comunicação e a não-interferência de instituições e órgãos majoritários, que poderiam acabar “desviando”o foco das necessidades e anseios dos povos indígenas também é vista como umponto positivo oferecido pelo ambiente da rede digital. Pela conexão e interação viaInternet os povos indígenas divulgam seus valores e pontos de vista para o mundoformando redes de apoio, conhecendo pessoas, construindo relacionamentos e sefazendo presentes além das aldeias e espaços territoriais demarcados. Comoexplica Yakuy Tupinambá: Novas realidades são construídas, sem que isso implique abandono de nossas tradições. Toda a sociedade se move, se expande, enquanto a nossa tem que permanecer fixa, imutável, para atender à necessidade de uma saudade da tradição? Tradições são sistemas intelectuais dinâmicos capazes de mudar... conectar-se ao mundo através da Internet é ter direito a ter um rosto e mostrar nossa voz. É saber dos acontecimentos e interesses que envolvem toda a humanidade. Fazemos parte desse contexto. (Idem, 2008). Em artigo publicado por Rodrigo Diego dos Santos (Rodrigo Makuxi) no dia 29de setembro de 2010, integrantes da rede expõem suas opiniões em relação aotrabalho do Índios Online como um movimento social indígena e as parcerias futuras(ou já realizadas) com organizações de iniciativas semelhantes dispostas a ajudarde alguma forma (principalmente na questão estrutural) no desenvolvimento da rede: RODRIGO MAKUXI - Quanto mais parcerias tivermos dos nossos parentes será muito melhor, pois é nelas que estão e saem as demandas do que realmente acontecem em nossas aldeias e comunidades indigenas. E nisso também ajudara a ficarmos muito mais autonomos contando com o apoio de cada uma delas. E rede ajudara a circula as necessidades e outros parentes puderam dar ideias. E sobre a reflexão acho que não diretamente mas a Rede Indios Online é sim movimento que esta se repercutindo no brasil. ALEX MAKUXI - Somos sim um movimento social indígenas. E isso está nas petições on line que fazemos. No apoio, quando fazemos matérias sobre o que acontece nas aldeias e nos estados. Mais de certa forma também estamos distantes. E acredito que com essa parceria podemos sim estar cada dia mais presentes nos movimentos sociais indígenas, e da
  • 44. 43 mesma forma que contribuimos com cada uma elas também contribuem com a rede FABIO TITIÁ - para que serve o indios online se não poder ajudar o seu povo. Para que servem a internet para nós classe em grande parte excluida, vivendo em situações desumana, se não for para mostrarmos a realidade e buscar ajuda pelo o mundo afora, que tem senso de justiça. Indios Online, é preciso que nos fortalecemos para ajudar o nosso povo no momento certo, ou seja está presente na hora certa seja fisico ou em espirito. A nossa rede está sendo motivada a fazer de fato o papel de um índio online. Parabens parentes todos são felizes nos seus texto, bola para frente, rumo em defesa de nossos direitos. (SANTOS, 2010) Pelos depoimentos apresentados, é possível avaliar a relevância que o canalÍndios Online tem como ferramenta de comunicação e desenvolvimento geral dascomunidades para os povos indígenas. As parcerias com instituições de interesses eobjetivos semelhantes ajudam na expansão dessas redes, contribuindo para umaindependência maior e atividade mais eficiente. A iniciativa do projeto Índios Onlinetambém ajuda a aproximar essas pessoas e organizações, muitas vezesgeograficamente distantes, levando mais eficiência ao trabalho da rede. A Internetrepresenta uma voz para os povos indígenas, uma forma de serem incluídos eexpressarem sua diferença, possibilidade de auto representação sem a mediação denenhuma instituição. As transformações culturais desde o período colonial,passando pelo etnocídio e esquemas de assimilação e mistura, até as mudançassofridas durante esses processos não provocaram uma perda ou desaparecimentodas referências étnicas indígenas por esses sujeitos e grupos. A luta dos indígenas pelo direito à assistência e demarcação de terras passapela intermediação comunicativa, seja na divulgação de denúncias e reivindicaçõespor meio da rede, seja pelo contato com pessoas e apoiadores envolvidos com aquestão indígena. A rede digital serve como um recurso essencial para autodesenvolvimento dos povos indígenas participantes, ávidos em buscar novoscaminhos com o estudo de formas alternativas de sustentabilidade. A Internet atestauma permanente e ativa presença indígena, num contexto muitas vezes deinvisibilidade étnica por parte do próprio Estado. Ainda há o que se fazer no sentidoda inclusão indígena no uso das tecnologias digitais, como lembra Potyra TêTupinambá: “Este mundo (das tecnologias) já está presente em nossascomunidades. No Brasil existem duas realidades indígenas distantes. Os índios da
  • 45. 44Amazônia estão, de fato, mais isolados. Mas no restante do país estamos muito 16próximos da urbanidade” (INDÍGENAS DIGITAIS, 2010). Porém a atual presençaindígena na Internet, cujo principal expoente é a rede Índios Online, mostra que cominvestimento estrutural adequado (incluindo incentivos por parte do próprio governoou de outras organizações) e boas iniciativas de criação e participação é possívelexpandir e aprofundar espaços comunicacionais e de convivência social não sóentre os povos indígenas, mas para todos os grupos comunitários de alguma formaexcluídos socialmente. A presença indígena na Internet representa a capacidade de se integrardiferentes pontos de vista nesse novo espaço social que promove uma novasociabilidade, interativa e flexível, movida por fluxos comunicativos. As ações dossujeitos e movimentos sociais em geral incorporam as transformaçõescomunicativas da sociedade, organizadas e amplificadas na rede e na virtualidade.Essa sociabilidade na rede promove novas espacialidades públicas. Novas formasde interação social com a Internet têm como base a própria noção de comunidade,já existente no cotidiano. As relações digitais afetam diretamente as configuraçõesdos relacionamentos do dia a dia: os sistemas informativos e a circulação deinformações em tempo real transformam continuamente os cenários sociais, dandonovo significado a práticas e atuações. E este é um processo cujos limites ainda sãodesconhecidos, considerando que a cada geração novas potencialidades eutilidades para a Internet na comunicação e na sociedade vão surgindo, sem umlimite de alcance muito definido.1 6 Depoimento extraído do documentário Indígenas Digitais, lançado no início de 2010.
  • 46. 45CAPÍTULO 3A COMUNICAÇÃO COMUNITÁRIA NA INTERNET A prática da comunicação comunitária vem desde suas origens, a partir dosmovimentos sociais da década de 1970, como um contraponto às mídiasempresariais, meio de resistência e de manifestação desses grupos. A comunicaçãocomunitária é uma das denominações para comunicação popular, participativa,horizontal ou alternativa, entre outras expressões, para se referir ao processocomunicativo levado a efeito por movimentos sociais populares e organizações semfins lucrativos da sociedade civil (PERUZZO, 2008). Ainda hoje ela tem como umade suas mais marcantes características os relacionamentos baseados na coesão,convergência de objetivos e de visão de mundo, interação, sentimento de pertença,participação ativa, compartilhamento de identidades culturais, co-responsabilidade ecaráter cooperativo. Como recorda Peruzzo: A história dos movimentos sociais populares revela que uma carência, num primeiro momento sentida individualmente, pode vir a contribuir para uma ação conjunta, num processo de transição da consciência-organização-articulação-ação para uma demanda coletiva. A satisfação de certas necessidades passa de sua apreensão enquanto direitos individuais para sua compreensão com direitos da pessoa humana e de todos os que estão na mesma situação. (PERUZZO, 1998, p. 61). É importante lembrar que, embora a autora em questão defina os conceitosde comunicação popular e comunitária praticamente como sinônimos, uma análisemais aprofundada aponta especificidades de cunho ideológico e mesmo na atividadeprática referente aos termos apresentados. A comunicação popular, por exemplo,tem relação direta com os conceitos de cultura popular e multidisciplinaridade(PEREIRA, L. H., 2008). Isso porque ela se baseia nas experiências de vida dosgrupos sociais, suas diversidades, anseios e necessidades. Considera-se também ofato de que muitas vezes a expressão “comunicação popular” acaba sendoapropriada pelos grandes meios de comunicação, definindo uma espécie decomunicação voltada diretamente à comunidade, embora praticada por empresas demídia comerciais.
  • 47. 46 Neste caso, o termo se distancia muito do conceito original de comunicaçãocomunitária definido por Peruzzo, que tem o povo como principal protagonista daação comunicativa. E na prática este seria o mais relevante diferencial entre as duasexpressões. A comunicação comunitária é desenvolvida como experiênciacomunicativa e prática social dentro de uma comunidade promovendo a manutençãoda cidadania através de práticas participativas. Os integrantes da comunidade,participantes ativos de todas as etapas processuais dessas experiências, passam aconstruir uma nova sociabilidade de certo modo fortalecendo e alimentando adisputa pela hegemonia (contra as grandes empresas, os monopólios de mídia) nocampo da comunicação (MIANI, 2006). Não só os movimentos sociais, mas também as Organizações Não-Governamentais (ONGs), centros e institutos de assessoria e educação popular,enfim, qualquer instituição sem ligação empresarial ou governamental está aberta autilizar os meios de comunicação de forma alternativa como força de manifestação eprotesto. Normalmente esses meios alternativos e comunitários atuam como formade denúncia, articulação social, conscientização e divulgação de conteúdo sobre ocotidiano de determinados grupos, que muitas vezes não recebem a devida atençãodas grandes mídias. No meio desses movimentos populares são desenvolvidos valores deigualdade, luta pelos direitos, democracia, autonomia e solidariedade. Os integrantesde um grupo podem compartilhar carências e necessidades semelhantes, emborasejam seres individuais, com históricos de vida e interesses particulares. Nasexperiências de caráter popular-comunitário, a finalidade, em última instância, éfavorecer a autoemancipação humana e contribuir para a melhoria das condições deexistência das populações empobrecidas, a fim de reduzir a pobreza, discriminação,violência etc, avançando na equidade social e no respeito à diversidade cultural(PERUZZO, 2008). A autora recorda que a prática da comunicação comunitária éresultado dessa demanda dos movimentos e grupos sociais - um modo depreencher suas necessidades - cuja atuação é normalmente voltada para a questãoda mudança social. A conquista do direito à comunicação serviria como uma espéciede mecanismo facilitador das lutas pela conquista de direitos de cidadania. A prática da comunicação comunitária, ao contrário dos grandes órgãos demídia, não se submete a interesses empresariais, sem buscar lucro econômico ecom interesses ideológicos e políticos firmes e bem apresentados, caso existam.
  • 48. 47Fato é que as práticas de comunicação popular e comunitária, com o passar dasgerações, o desenvolvimento e expansão dos meios de comunicação e aconscientização e crescimento dos próprios movimentos, passaram a ganhar cadavez mais espaço em veículos impressos, radiofônicos, televisivos e mesmo nasnovas tecnologias digitais. A comunicação comunitária é realizada de acordo com os recursos econforme as necessidades e a realidade sentida por cada grupo. Nela, os interessese objetivos de seus grupos criadores podem ser observados não só pelo conteúdoproduzido, mas também na forma como a informação é distribuída e apresentada aopúblico. No caso do portal Índios Online, por exemplo, vemos que mais do que o fatodo material ser produzido diretamente pelos próprios indígenas, são relevantes asformas de interação com o público externo e os recursos de mídia utilizados. Entre as marcas da comunicação popular, comunitária e alternativa atualestão a agregação de formas inovadoras de comunicação e a continuidade deoutras experiências de cunho comunitário e alternativo (PERUZZO, 2008). A partirdo início do século XXI, a comunicação comunitária começou aos poucos adescobrir os meios digitais e suas potencialidades. A Internet e os meios digitaisproporcionaram uma possibilidade até pouco tempo atrás impensada: a de estenderseu conteúdo e sua produção para muito além de um limite geográfico restrito. Tudoisso, como veremos mais adiante, de modo ágil, sem altos custos e explorando aomáximo a interatividade, a relação com o próximo. Muitas vezes, como recordaCicília Peruzzo, os segmentos organizados das chamadas classes subalternas nãotêm acesso a veículos para transmissão em rádio e TV, pois falta estrutura. Com aexpansão da rede digital e da inclusão digital – como os pontos de acesso à Internetpúblicos e redes de conexão sem fio – tornou-se mais fácil e acessível produzir epesquisar conteúdos na rede. Isso não significa que as iniciativas de comunicação comunitária não sejamviáveis no rádio ou na TV, por exemplo. O fato é que pelo menos no Brasil oincentivo quanto a esse tipo de meio de comunicação ainda é considerado um tantoburocrático, e a falta de recursos também prejudica essas iniciativas. Peruzzorecorda limitações como a baixa abrangência desses veículos, tanto no caso dosimpressos quanto das ondas de rádio e TV; a falta de uma formação adequada, umahabilitação e prática no uso dos equipamentos necessários para esses tipos detransmissões; a falta de estrutura física e financeira para manter esses projetos.
  • 49. 48Além disso, a luta pela legalização – junto ao Ministério das Comunicações – dosmeios comunitários radiofônicos ainda é uma questão urgente e relevante.Atualmente a demanda seria agregar as possibilidades comunicativas das novastecnologias sem desprezar os meios mais tradicionais. Na comunicação comunitária o indivíduo participa ativamente de todas asetapas do processo comunicativo, desde a produção de conteúdos até a gestão dosmeios. Em matéria de conteúdo é possível afirmar que o material produzido nacomunicação comunitária é marcado por um teor essencialmente crítico, sem deixarde lado a preocupação em informar os fatos. Essa característica pode ser observadade forma marcante no caso do portal Índios Online. Como define Cicília Peruzzo: Julga-se a realidade concreta, local ou mais abrangente, tanto em nível de denúncia descritiva quanto de interpretação ou de opinião levantando reivindicações, apelando à organização e à mobilização popular, apontando para a necessidade de mudanças. Tudo isso mexe com a cultura, mesmo que não de forma predominante. Há na verdade incorporação de novos valores, ao mesmo tempo em que se reproduzem outros. (PERUZZO, 1998, p. 156). A comunicação comunitária também exerce um importante papel social naárea de prestação de serviços públicos de interesse de uma determinadacomunidade, atendendo às suas principais demandas, além de servir como meio depreservação da memória e da cultura de um grupo. Para Peruzzo, o avanço dasiniciativas em comunicação comunitária pode estimular cada vez mais atitudesdesse tipo: a comunicação popular, à medida que se ampliarem o número de rádios,televisões e outros veículos a serviço da comunidade estará servindo cada vez maisà democratização dos meios e do poder de comunicar desses grupos (PERUZZO,1998). Embora ainda faltem, por parte do governo, políticas de regulamentaçãoespecíficas para os meios de comunicação comunitária – o cenário atual demonstrarepressão desses meios e indisponibilidade de recursos – a comunicaçãocomunitária cava espaços em busca de seu próprio espaço comunicativo, com todosos recursos possíveis. O incentivo às práticas de comunicação comunitária tambémpoderia impulsionar uma postura social e política mais democrática, em todos ossentidos. Como define Giuseppa Sperillo, numa sociedade em que tecnologia evelocidade se colocam em evidência nas dinâmicas sociais faz-se necessário pensar
  • 50. 49uma nova comunicação nos meios populares (SPERILLO, 2004). A inclusão socialna produção de informação e comunicação seria, de certo modo, uma porta deentrada para que esses grupos legitimem seus direitos de decisão, participação eexercício da cidadania. O meio de comunicação escolhido por um determinadogrupo deve levar em conta as condições da comunidade, o tipo de interesse e suacultura. Para Adilson Cabral, a Internet se revela atualmente como um meio ondeexiste uma possibilidade ativa de participação, a partir de sua capacidade dearticulação e convergência de mídias: textos, imagem e som. O ciberespaço pode ser apresentado como uma alternativa propícia aosmeios de comunicação convencionais: um espaço aberto de representação ecomunicação independente para os indivíduos. A informação produzida em redenormalmente não precisa ser submetida a interesses ideológicos externos,empresariais ou cortes editoriais. Não há monopólio ou força maior que censure oconteúdo veiculado na Internet (PRUDÊNCIO, 2003). Ela cria um via de mão duplana comunicação, pois permite que seus usuários sejam produtores e receptoresativos de informação, ao mesmo tempo podendo divulgar sua mensagem por toda aextensão da rede virtual. Foi basicamente essa característica da liberdade deexpressão, muitas vezes sem necessidade de mediações, e o alto grau deinteratividade que ajudaram a Internet a se popularizar, principalmente como palcode redes sociais e meio de comunicação. A comunicação pela Internet é bastanteconveniente para as camadas populares, grupos e comunidades, pois ao contráriodos meios de comunicação tradicionais não exige a reivindicação de espaços apartir da luta pela aprovação de leis democráticas, visando a sustentação legal derádios e TVs comunitárias (CABRAL, 2004). Além, é claro, de ofertar mais recursosdo que qualquer outro instrumento de comunicação atualmente. Em sociedades democráticas a Internet é livre de qualquer tipo de censura oudomínio econômico e empresarial. A partir do momento em que se possui o materialnecessário, qualquer informação lançada na Internet é disponível a todos. Portais esites de Internet oferecem serviços específicos que prometem agilizar e potencializara navegação na rede. As pessoas passam a atuar não apenas como receptoras,mas como produtoras e difusoras de mensagens. Além de possibilitar a circulaçãode mensagens independente de territórios geográficos, tempo, diferenças culturais ede interesses econômicos, culturais ou políticos, a Internet altera o sistemaconvencional de tratamento da informação ao permitir a produção de conteúdos e
  • 51. 50sua transmissão, sem limites, por qualquer indivíduo. No entanto, ainda se faznecessário estimular o uso da Internet entre os grupos comunitários como umaferramenta viável de comunicação para as massas. A manipulação de softwares e arquivos se torna cada vez mais simples efácil. Atualmente a indústria da segurança e a própria legislação de direito criminaltêm buscado se adaptar às novas realidades e tecnologias, para impedir e julgarpossíveis fraudes e infrações eventualmente realizadas no campo digital. AdilsonCabral lembra que, se por um lado esse desenvolvimento e massificação detecnologias pode ser identificado como parte de um sistema de produçãoempresarial, é válido recordar que são os próprios usuários e programadores quedeterminam as tendências de comportamento e utilização da rede. Como afirma oautor [...] o uso compartilhado de seus recursos (da rede), nos leva a crer que ao contrário dos meios de comunicação antecedentes, estar na Internet fazendo o uso cada vez mais amplo dela será cada vez mais uma atribuição de todos, do que uma casta de privilegiados ou mesmo de profissionais do setor, visto que tanto o público pode ser concebido como consumidor de produtos e serviços, como incentivador e realizador de projetos cooperativos. (CABRAL, 2004, p.278). Basicamente, a Internet é um instrumento que permite a reprodução decomportamentos e atitudes comuns do cotidiano no meio digital: as relações sociaisvia rede digital de certa forma são uma espécie de reconfiguração das relações dodia a dia, com normas de comportamento e estrutura diferentes. O ambiente deinteração, convivência e compartilhamento de informações digital, tambémapresentado pelo filósofo Pierre Lévy como ciberespaço, é considerado o maisinclusivo de todos os meios de comunicação. Para Dênis Moraes (2003) ociberespaço, mais do que permitir a livre expressão para seus usuários com um graude acesso à informação nunca visto antes, estimula os cidadãos a adotar umapostura política e socialmente mais ativa e consciente. É possível travar debates e discussões com profissionais de diversas áreas,especialistas, figuras políticas etc. Trocar ideias com pessoas de qualquer lugar domundo, com interesses semelhantes ou divergentes. Essas discussões e contatosem rede podem incentivar no cidadão o protagonismo político e social numacomunidade do cotidiano. Por isso a importância de que todos, tanto o representante
  • 52. 51da comunidade quanto o líder político descubram, compartilhem e interajam entre sino meio virtual: para que um sinta a presença, interesse e atuação do outro,podendo dialogar sobre os mais diversos assuntos e, desse modo, trocarconhecimentos e também exercer cidadania. Pessoas sem maior experiência ou conhecimento de programação podemfacilmente utilizar funções de busca de informações na Internet ou envio demensagens eletrônicas. Empresas e sites especializados oferecem informação eestrutura que permitem a qualquer indivíduo criar uma página pessoal na Internet,para publicação de todo tipo de conteúdo. A emergência desse ciberespaço,segundo Pierre Lévy, é a representação do contraponto aos veículos decomunicação de massa. A Internet se expandiu comercialmente no Brasil a partir dadécada de 1990, superando as barreiras do universo acadêmico e se estendendo atodos os setores da sociedade. E neste momento de revolução tecnológica eascensão de inclusão digital, embora muito ainda precise ser realizado, é que amídia digital se caracteriza como um dos meios mais promissores de comunicaçãocomunitária. Enfim, é importante recordar que o texto, o conteúdo digital, exige que sejamexercitadas novas habilidades pelo usuário. A questão é que o conteúdo antespublicado apenas nos meios impressos, televisivos e radiofônicos precisa seradaptado para a Internet, para a tela do computador. A estrutura da página, do portalda Internet, juntamente com seus links (ligações, interconexões entre páginasdiferentes) e recursos que facilitem a interação do usuário com o site, pode serdefinido como hipertexto. As informações, os links são bem amarrados, numaestrutura não-linear, que oferece várias possibilidades e caminhos de leitura para ousuário. O leitor pode criar o seu próprio percurso ao longo dos textos, retornandoao ponto que desejar de forma fácil e quantas vezes quiser (BUGAY; ULBRICHT,2000). A história registra que o termo hipertexto foi utilizado pela primeira vez porTed Nelson, na década de 1960. Originalmente o termo designa o desejo de semanter os pensamentos em estrutura multidimensional, e não sequencial. É ohipertexto que faz com que a própria Internet seja concebida como uma rede, umateia infinita de informações que se interligam, com milhares de possibilidades denavegação. Ícones ou botões que executam ações no hipertexto assim que clicados,barras de rolagem de texto, que permitem a leitura de grandes extensões textuais de
  • 53. 52forma prática na tela do computador, além dos links contidos em textos queencaminham o usuário para outras páginas; todos esses recursos contribuem parauma navegação mais agradável e maior interatividade entre site e usuário. De acordo com Lúcia Leão (1999) o leitor cria sua própria trilha peloscaminhos do hipertexto. Aqueles que programam e produzem conteúdo para aInternet, especialmente os meios de comunicação, devem pensar e cuidar para umaestrutura de hipertexto balanceada, que permita boa interatividade, seja atraente,inovadora, prática e agradável ao leitor. Um documento, uma página construída deforma clara e bem estruturada evita que o usuário se perca em meio a todainformação disponibilizada, e assim perca também o interesse. O texto pensadopara a Internet deve, basicamente, priorizar a concisão, a clareza e a praticidade. Ousuário da rede deseja encontrar a informação que procura da forma mais ágil eprecisa possível, e a leitura é quase sempre feita de forma ágil (MARTIN, 1992). A questão da inclusão digital, da democratização do acesso e capacitaçãodos indivíduos ao uso da Internet e dos demais recursos de informática é um entraveque, aos poucos, vem sendo superado. Com o surgimento crescente de programasde computador de uso gratuito, pontos de acesso livre em escolas, bibliotecas elocais públicos disponibilizados pelo próprio governo e o incentivo em projetos ecursos gratuitos de aperfeiçoamento em informática (muitas vezes com ajuda derecursos de empresas privadas) que promovem a acessibilidade e a inclusão, osmovimentos sociais encontram medidas propícias para utilizar esses recursos nacomunicação, sem perder seu foco e objetivo na cidadania. A necessidade édespertar o interesse dos grupos, a consciência do potencial que a Internet podetrazer não só como meio de expressão e representação, disseminação efortalecimento de elementos da própria cultura, mas de acesso a praticamente todotipo de conteúdo desejado e mesmo ainda desconhecido, enfim, de um meio decomunicação realmente “revolucionário”. Além disso, é importante buscar novas medidas de superação dos problemasde falta de acesso e qualificação de indivíduos para a utilização básica da Internet.Trata-se aí não apenas de uma questão de inclusão digital, mas de uma inserçãosocial, política e cultural entre os indivíduos de diferentes esferas sociais em umnovo meio comunicativo e de troca de experiências. Estimular enfim aindependência desses cidadãos em relação à Internet, para que eles possam utilizar
  • 54. 53todos os recursos possíveis da rede na comunicação, expressão de ideias erelacionamento com outros indivíduos.
  • 55. 54CAPÍTULO 4A WEB BRASIL INDÍGENA E O PROJETO ESPERANÇA DA TERRA É importante lembrar que a atuação da rede Índios Online na Internet não selimita somente ao portal Índios Online. Vimos anteriormente que muitos projetosdesenvolvidos por grupos indígenas, e hoje representados na rede digital, como oRetomada Tupinambá e o projeto Grumin, tiveram para isto apoio e iniciativas demembros da rede Índios Online. Além do portal Índios Online, já analisado, o projetotambém rendeu frutos mais diretos ao longo de sua trajetória, que por sua vezajudam a multiplicar e explicar a importância do uso da Internet e da interação nociberespaço para as comunidades indígenas. Destacaremos aqui as respectivasiniciativas: o site Web Brasil Indígena, de 2007; o projeto Esperança da Terra, de2009 e o documentário Indígenas Digitais, do início de 2010, todos sob orientação edesenvolvimento da ONG Thydewá. O Esperança da Terra17 (figura 10) é uma rede de compartilhamento deinformações, de culturas e diálogo entre os mais diversos grupos indígenas. Oprograma busca dar apoio às práticas que incluem cruzamento de saberes,cidadania, protagonismo indígena, juventude, eco-alfabetização, tecnologias deinformação e comunicação, bioconstrução, sustentabilidade, ciberativismo, culturade paz, intercâmbios, consciência planetária, plantas medicinais, agroflorestagem,comunidade colaborativa de aprendizado, inteligência e diversidade. O projeto contacom 300 membros cadastrados atualmente, e sua prioridade é justamentecompartilhar conhecimentos ligados ao meio ambiente e ao cotidiano indígena. No total, são 12 grupos atualmente integrados no Esperança da Terra. Elesatuam em áreas como liderança comunitária, trabalhos e iniciativas ligados a gruposindígenas, ecologia e meio ambiente. O Esperança da Terra foi idealizado porSebastián Gerlic em 2007, mas a iniciativa só pode tomar forma a partir de 2009.Além da Thydewá e Índios Online, o programa ainda conta com o apoio do MinC, doprograma Pontos de Cultura Viva, do GESAC e da Prefeitura Municipal de São Joséda Vitória, na Bahia. Cada membro cadastrado na rede (o cadastro é feitogratuitamente no site) tem uma porta aberta de comunicação e integração com osdemais participantes. É possível postar conteúdos no site, vídeos, fotos, e1 7 http://esperancadaterra.ning.com/
  • 56. 55compartilhar as informações publicadas através de email e redes de relacionamentocomo Twitter e Facebook. O material, é claro, deve ser preferencialmenterelacionado à temática abordada pelo Esperança da Terra. Figura 10 Página inicial do portal do grupo Esperança da Terra (13 de outubro de 2010) Cada membro mantém seu próprio perfil no site, onde pode publicar asinformações que desejar para que sejam acessadas pelos demais usuários. Há linksespecíficos para que o integrante convide outros membros, através de email, epáginas organizadas pela ordem dos vídeos, fotos e textos já publicados no site. Épossível também divulgar eventos a serem realizados na sua região. Aos usuáriosnão cadastrados, também é livre a postagem de comentários sobre os conteúdospublicados. Além disso, o portal do Esperança da Terra conta com um sistema debate papo (chat) simples, de estrutura semelhante ao modelo daquele incluído noÍndios Online: as caixas de texto, listagem de membros conectados, botão devolume sonoro e emoticons que podem ser enviados. Também é possível visualizarum mapa com localização para a cidade de São José da Vitória, “sede” doEsperança da Terra.
  • 57. 56 O projeto Web Brasil Indígena foi gestado ainda no início de 2007 porAnápuáka Muniz Tupinambá Hãhãhãe, jornalista, programador e integrante da redeÍndios Online. Na época, ainda batizado como Web Rádio Brasil Indígena, o sitetinha estrutura e organização simples e servia como canal de divulgação de notíciasrelativas aos direitos e mobilizações sociais dos povos indígenas, cidadania, cultura,passado histórico, educação, além de iniciativas na área de comunicação edesenvolvimento (digital ou não) em benefício dessas comunidades. Enfim, trata-sede um canal de informação, prestação de serviços e especialmente de interatividadepara os grupos indígenas. Com mais de 300.000 acessos registrados, a Web RádioBrasil Indígena também incluía um canal de bate papo através do sistema gratuito 18Skype , que uma vez instalado no computador permite a conversa instantânea viaáudio e vídeo com qualquer usuário também conectado no sistema. A Web Rádio Brasil Indígena, assim como a rede Índios Online, também deuimportante destaque ao Campus Party 2009, evento no qual pode participardiretamente. Foi aproximadamente nesse período, no final do ano de 2008, que osite foi reformulado e ganhou o nome de Web Brasil Indígena que carrega até hoje.Com a parceria da professora de artes visuais e paisagista Rosane Farias, o site foivisual, estética e estruturalmente reformado, a fim de renovar e agilizar a estrutura eacessibilidade do mesmo. Foram seis meses de preparação para a recriação do site,segundo Anápuáka. Ele destaca o longo, porém satisfatório, trabalho de elaboraçãodo portal, cuja principal meta é justamente ser um canal de representatividade ecomunicação aos povos indígenas. O conceito da representação social,fortalecimento da cultura tradicional, cidadania e justiça para os povos indígenas,além de novas descobertas úteis ao desenvolvimento desses povos, em todos ossentidos, permanecem fortes como bases do trabalho da Web Brasil Indígena: Não nos interessa a nós veicular produtos culturais que não seja exclusivamente da visão de quem o faz ou pratica cotidianamente; e trabalhar acima de tudo em prol de uma sociedade mais humana, compreensiva e justa. Poder viabilizar encontros com nossas origens indígenas, mesmo que seja em 1%. Este conceito de “ninguendade” pode ser muito perverso pelo ponto de vista social e politico, ja que a miscigenação sucessiva leva a falta de pertencimento do indivíduo a um determinado grupo ou cultura. A veiculação desta cultura viva nos meios midiáticos nos possibilita um encontro de nossas origens, como também um processo de descobertas de1 8 http://www.skype.com/intl/pt-br/home
  • 58. 57 questões relevantes ainda desconhecidas por falta de facilitadores na busca destes conteúdos. (Anápuáka Muniz Tupinambá, 2010). 19 A Web Brasil Indígena tem como meta a construção de uma rede socialcolaborativa que gere conteúdo tecnológico comunitário, de conhecimento, cultural,informativo e de compartilhamento com povos indígenas e não indígenas. Acapacitação e conscientização dos indígenas (e da comunidade em geral) parautilização das novas tecnologias como meio de expressão livre, voltado por e para opróprio cotidiano das aldeias e dos índios, também é objetivo central da rede. A WebBrasil Indígena também incentiva a prática da produção de conteúdos em texto,vídeo e fotos pelos indígenas; possibilita o resgate do patrimônio cultural einformativo dessas etnias e a comunicação ampla com aldeias e indígenas de todo opaís. Trata-se de mais uma iniciativa útil que habilita esses povos a difundirem suasideias, visões e cotidianos em um nível extremamente amplo, perpetuarem suasculturas para novos públicos, enfim, alcançarem um universo comunicativo einformacional praticamente ilimitado. Ainda no início, quando era a Web Rádio BrasilIndígena, foi desenvolvido um projeto de integração de mídias indígenas por todo opaís, a Rádio Brasil Indígena transmitida via Internet. A ideia era que cada aldeiaconectada à Web Rádio, com condições de produzir material em áudio,disponibilizasse o conteúdo para que este fosse incluído na grade da Rádio, gerandoassim uma mídia de alcance local e nacional produzida pelos próprios indígenas. Noentanto, por limitações técnicas e falta de equipamentos, o trabalho foi encerradosem data de retorno definida. 20 O portal da Web Brasil Indígena (figura 11), além do trabalho de Anápuákae Rosane Farias, conta também com a colaboração de Poran Potiguara, (Paraíba),Yawar Muniz Tupinambá Hãhãhãe, Arakatibé Tupinambá Hãhãhãe, Bekoy PataxóHãhãhãe (Bahia), Xohã Karajá, Niara Fulni-ô (Rio de Janeiro) e Huru Kuntanawa(Acre). Basicamente o conteúdo é todo voltado à divulgação e compartilhamento deeventos, protestos, novidades em todas as áreas – da preservação do meioambiente aos novos canais de comunicação abertos – desde que o mesmo possaser de interesse da comunidade indígena e da sociedade em geral.1 9 Depoimento recebido por email no dia 05 de outubro de 20102 0 http://www.webbrasilindigena.org/
  • 59. 58 É dado um destaque especial à representação da luta e resistência dasmulheres indígenas e ao cotidiano dos índios que necessitam residir ou trabalharnos grandes centros urbanos (inclusão social, permanência de valores,discriminação e mesmo a abordagem que a sociedade possui e transmite para asnovas gerações sobre os povos e a cultura indígena). Além disso, conta tambémcom o canal TV Web Brasil Indígena, que nada mais é do que uma série deprogramas (disponíveis para visualização segundo a escolha do internauta) detemática indígena: seu cotidiano, suas culturas, tradições, manifestações, desafios,meio ambiente etc. Figura 11 Página inicial do portal da Web Brasil Indígena (13 de outubro de 2010) Para Anápuáka, apesar dos esforços concentrados em torno daadministração e sustento da rede, ainda há muito que ser conquistado para que aWeb Brasil Indígena possa funcionar ativamente, 24 horas por dia. Novas parceriassão buscadas para facilitar e aperfeiçoar essa tarefa. Outro problema é que algumasaldeias indígenas ainda não têm disponibilidade para acesso constante à Internet.Por isso mesmo é incentivado que cada um disponibilize uma parte de seu tempopara colaborar no programa de desenvolvimento comunicativo. Àqueles que
  • 60. 59puderem colaborar, a Web Brasil Indígena oferece inclusive capacitação para uso emanipulação de ferramentas de informática e navegação na Internet. São apenas alguns exemplos, diretamente mais ligados ao trabalho da redeÍndios Online, de como a rede digital pode ser usada como meio eficiente decomunicação por e para as comunidades indígenas, em nível global. A possibilidadede livre expressão, da pesquisa, do compartilhamento de informações, dointercâmbio de culturas e experiências, tudo isso é facilitado a partir do momento emque se tem acesso ao universo digital. Com um mínimo de habilitação técnica eestrutura material, qualquer indivíduo torna-se um membro da rede ciberespacial,fazendo dela o uso que julgar conveniente. Por esse motivo é importante a presençanão só de uma estrutura material adequada para o uso dessas ferramentas decomunicação, mas de conscientização para o uso da rede, objetivos claros, éticos edefinidos, que de alguma forma representem a comunidade de modo positivo eproporcionem benefícios ao sujeito e ao seu grupo. Para Anápuáka, o trabalho da rede Web Brasil Indígena, apesar daslimitações, é positivo especialmente pelo fato do próprio portal se pautar em cima dematerial e conteúdo confiável, originário de instituições e pessoas dedicadas eengajadas no desenvolvimento da comunicação e da cultura indígenas. Além disso ocontato com outras etnias, com o objetivo de mostrar o quão fértil pode ser oterritório digital para a articulação, presença e comunicação indígena, também évisto como um passo para o progresso. Como lembra Anápuáka, “[...] esta terrabinária (a Internet) é de cada indígena e que todos possam utilizar o portal WebBrasil Indígena para plantar suas reivindicações individuais e coletivas de cada etniaque ele pertença ou venha a apoiar, já que somos um só povo com 270 culturasdistintas”. O objetivo final, a meta é de que todos tenham acesso e conscientizaçãodo bom uso que podem fazer da rede digital como ferramenta de manutenção dacidadania e comunicação.4.1 O documentário Indígenas Digitais Dentro dos resultados do trabalho de inclusão dos povos indígenas nacomunicação digital, encabeçado pela rede Índios Online e pela Thydewá, éimportante destacar o projeto do documentário Indígenas Digitais (figura 12). O
  • 61. 60trabalho executado é curioso tanto em sua temática quanto em sua execução, pois,além da otimização do uso de recursos digitais na produção do filme, IndígenasDigitais procura mostrar, na visão dos próprios índios, como a Internet e ferramentascomo celulares, câmeras digitais e computadores têm sido importantes na busca demelhorias para as aldeias e nas relações das mesmas com o mundo globalizado.Produzido pela Thydewá e pela Cardim Soluções Integradas, com patrocínio dogoverno da Bahia e da empresa de telecomunicações Oi, o filme de 26 minutos(cortados de um total de 15 horas de material gravado) foi dirigido e filmado porSebastián Gerlic. Segundo ele a ideia do projeto surgiu em 2009, com a busca deparcerias e o incentivo fiscal do projeto Fazcultura, de incentivo a prática e produçãode projetos culturais, financiado pelo governo da Bahia. Representantes das aldeiasindígenas, como Jaborandy Tupinambá e Fábio Baenã Hãhãhãe também tiveramparticipação direta em todas as etapas de produção do filme, recebendo apoioessencial das comunidades. Filmado com câmeras full HD, com definição de alta qualidade, o curta-metragem foi produzido com depoimentos de indígenas de várias nações, entre elasTupinambá e Pataxó Hãhãhãe, da Bahia; Kariri-Xocó do Alagoas; Pankararu dePernambuco; Makuxi de Roraima e Bakairi do Mato Grosso. As gravaçõesocorreram entre os meses de janeiro e fevereiro de 2010. Homens, mulheres, idosose crianças, todos em meio a suas atividades cotidianas dentro das aldeias relatam aimportância que a Internet, assim como aparelhos celulares, câmeras ecomputadores, tiveram em levar as novas tecnologias contemporâneas para maisperto desses povos e, ao mesmo tempo, servindo como uma nova forma deexpressão para os grupos indígenas. A Internet é usada como forma decomunicação, de protesto, manifestação e perpetuação dos valores e da culturaindígena, além de ferramenta para se manter contato com outras culturas e“parentes”, indígenas da mesma etnia que residam em aldeias de outras partes dopaís.
  • 62. 61 Figura 12 Cartaz de divulgação da pré-estreia do documentário Indígenas Digitais em Salvador - BA (18 de outubro de 2010) Um meio de comunicação de uso relativamente simples: com orientação eestrutura adequadas, tanto os mais velhos quanto as crianças indígenas podemfazer uso do computador e navegar pela Internet. Como explica o índio JaborandyTupinambá: Indígena digital é aquele índio que se apropria da ferramenta e faz o uso dela para ajudar a sua comunidade, para estar aproximando a sua comunidade, dar voz à sua comunidade, apresenta tudo o que acontece dentro da comunidade. Mas também tem o índio digital que incentiva aqueles mais antigos a usarem essas ferramentas, a estar aprendendo, que são os
  • 63. 62 anciões, os mais velhos, que acham que essa tecnologia não é para eles. Esse também é um índio digital [...] Ele sabe a importância que é essa ferramenta dentro da nossa comunidade, ele sabe que nós vamos usar para apoiar a nossa causa, para fortalecer a nossa luta. (INDÍGENAS DIGITAIS, 2010). 21 No documentário, cada índio entrevistado é identificado por seu endereço deemail, dentro da rede Índios Online. Entre um e outro depoimento, as câmerasmostram os próprios indígenas fotografando ou filmando os entrevistados e oambiente ao redor com aparelhos como filmadoras digitais e celulares. Nodocumentário, no relato dos índios, nota-se o interesse em integrar o uso, oconhecimento e a habilidade com as novas tecnologias à luta pela defesa dosinteresses e direitos dos indígenas, prática da cidadania, interculturalidade einserção na sociedade. Os primeiros contatos com os computadores e a Internet, ouso da rede como veículo de comunicação, manifestação e contato com autoridadese serviços governamentais, o protesto e resistência pela posse e demarcação deterras. Nas palavras da cacique Jampoty, uma das primeiras mulheres a conquistaro posto de chefe de uma aldeia indígena: O índio não tem que só estar na mata, caçando, pescando...já não existe mais uma mata para a gente caçar; já não existe mais peixe no rio para a gente pescar. Então a gente agora vai dizer ao mundo que os homens brancos, os grandes latifundiários, destruíram todo o habitat dos indígenas [...] E aí a gente tem avançar conforme a tecnologia vai avançando, a gente tem que avançar pra mostrar ao mundo o que nós precisamos. Nós plantamos, preservamos, mas precisamos estar englobados dentro do mundo, das coisas que acontecem lá fora. (INDÍGENAS DIGITAIS, 2010). 22 Para Jamapoty a Internet é ferramenta útil de participação e integração dospovos indígenas em acontecimentos globais que fazem parte de seus interesses,ligados ao meio ambiente, saúde e direitos humanos, por exemplo. É um caminhode voz para os povos indígenas com o resto do mundo. Os índios desejam ter seusdireitos garantidos e serem inclusos na sociedade das novas tecnologias decomunicação, porém sem perder suas particularidades étnicas, o respeito por suasraízes e sua liberdade. Mostrar ao mundo a realidade dos povos indígenas. A2 1 Depoimento extraído do documentário Indígenas Digitais2 2 Depoimento extraído do documentário Indígenas Digitais
  • 64. 63apropriação da Internet, de câmeras e celulares pelos indígenas seria uma forma deextensão da história e da cultura desses povos: manter suas ideologias e tradiçõessem precisar parar no tempo e usando a rede digital como benefício próprio, de todaa comunidade, numa atividade definida como ciberativismo. Expor sua realidade eseus ensinamentos para outras comunidades, com uma verdadeira troca de culturase conhecimentos. Como define Yakuy Tupinambá: A comunicação virtual nos dá condições de falar pela nossa própria voz, semos protagonistas da nossa própria história. O indígena digital é o ciberativista, o etnojornalista, que dá condição de aproximar as culturas, de buscar os direitos, de respeitar a diversidade e fortalecer nossa cultura e nossa tradição. (INDÍGENAS DIGITAIS, 2010). 23 Um caminho de expressão e comunicação alternativo, que as grandes mídiasnormalmente não oferecem aos povos indígenas. Quando eles ganham voz,normalmente são intermediados por organizações ou instituições representantescomo a Funai, de maneira insatisfatória para esses indivíduos. A possibilidade decomunicação e contribuição social sem a necessidade de se deslocar de seuterritório também é vista como grande vantagem na utilização da Internet pelosíndios. Transmitir a realidade dos indígenas para a sociedade, fugindo dosestereótipos mostrados nos meios de comunicação e nas escolas, nos livrosdidáticos, também é uma função considerada importante da comunicação digitalentre os índios. A rede Índios Online, dentro da Internet, serviu não só como formade comunicação com a sociedade urbana, mas de diálogo e interação entre povosindígenas de diferentes pontos do Brasil. Em outras condições, o diálogo direto entreessas comunidades seria praticamente inviável. A Índios Online proporcionou aunião e integração desses povos em um único canal. As agressões sofridas pelos indígenas, problemas de infraestrutura nasaldeias, as queimadas florestais criminosas e a luta dos índios contra fazendeirospela reintegração de posse e demarcação de suas terras ganham destaque nodocumentário Indígenas Digitais. Em casos como esses a tecnologia é realçadacomo forma de aproximação dos indígenas com as autoridades responsáveis pelaadministração desses problemas, além de ajudar a realizar denúncias contra essasirregularidades. O preconceito étnico contra índios e o uso do computador como o2 3 Depoimento extraído do documentário Indígenas Digitais
  • 65. 64“arco digital”, arma e ferramenta dos povos indígenas, também são abordados. Odocumentário é interessante também pelo registro do cotidiano das aldeias atravésdas lentes dos próprios indígenas e entre os depoimentos, apresentando essarealidade para o público em geral. O trabalho foi traduzido para os idiomas inglês,francês e espanhol. De acordo com Sebastián Gerlic o documentário foi realizadojustamente para incrementar o diálogo intercultural entre indígenas e não indígenas,contribuindo para a troca de experiências e conhecimentos. O filme é exibido até hoje em escolas e institutos para incentivo de debatessobre o assunto e promoção da cultura indígena, com o objetivo de reduzir opreconceito e desconhecimento social em torno dessas etnias, de que elas vivemrestritas ao território de suas aldeias. O curta-metragem foi lançado oficialmente nodia 20 de abril de 2010 através da página Indígenas Digitais24 (figura 13), e tambémtransmitido em pré-estreias no Rio de Janeiro, em Salvador e nas aldeias dascomunidades indígenas integrantes da Índios Online. No portal do projeto IndígenasDigitais é possível conferir um trailer, além do próprio documentário na íntegra. Hálinks para o portal Índios Online e o site Esperança da Terra. Figura 13 Página inicial do portal Indígenas Digitais (17 de outubro de 2010)2 4 http://www.indigenasdigitais.org/
  • 66. 65 O site do Indígenas Digitais pode ser lido em cinco idiomas diferentes(português, inglês, italiano, francês e espanhol). Também é disponibilizado um linkpara compartilhamento do vídeo via email, Twitter e outras redes sociais e umapequena lista com matérias relativas ao documentário publicadas em outros meiosde comunicação impressos e digitais. As matérias são apresentadas em formatoPortable Document Format (PDF) no portal do Indígenas Digitais. Exemplo é a notasobre o lançamento do documentário publicada no site do Ministério da Cultura, nocanal do programa Cultura Viva: Filme mostra a relação de culturas indígenas com a cultura digital No dia 15 de abril, acontece em Salvador (BA), a pré-estreia do curta-metragem Indígenas Digitais documentário que retrata como indígenas de várias etnias brasileiras estão utilizando a tecnologia para troca de informação e aprendizado. O projeto é o resultado da parceria da ONG Thydewá, Ponto de Cultura e Ponto de Mídia Livre Índios Online, com a Cardim Projetos e conta com o patrocínio da Oi e apoio Oi Futuro. O curta- metragem terá também lançamento nacional, no espaço Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), dia 19 de abril. No curta-metragem, integrantes de várias nações indígenas, como Tupinambá (BA), Pataxó Hahahãe (BA), Kariri-Xocó (AL) e Pankararu (PE), relatam como celulares, câmeras fotográficas, filmadoras, computadores e, principalmente, a internet vêm sendo ferramentas importantes na busca das melhorias para as comunidades indígenas e nas relações destas com o mundo globalizado. O documentário é uma produção de 26 minutos, editados a partir de 15 horas de filmagens. Entre as histórias do curta, é possível conhecer a da cacique Jampoty, uma das primeiras mulheres alçadas ao cargo de cacique no Brasil. Ela é a líder dos Tupinambá, povo que teve seu reconhecimento étnico em 2002, após estudos da Funai. Acesso aos meios digitais O filme mostra o funcionamento da rede Índios – Online, projeto de fomento à inclusão digital, que existe desde 2004, que proporcionou a criação de um portal para facilitar a informação e a comunicação entre sete nações indígenas na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas. Nos últimos 6 anos, o projeto contou com a participação de 500 indígenas de 25 etnias. Com o projeto, os índios já publicaram 3 mil matérias e receberam 10 mil comentários, chegando a quase 2 milhões de visitas ao Portal. Junto ao trabalho do Índios Online, há também o projeto Celulares Indígenas, realizado pela ONG Thydewá, em parceria com o Ministério da Cultura e o Oi Futuro, que permitiu capacitar os indígenas para utilizarem os celulares como ferramenta de promoção à diversidade cultural, justiça social e
  • 67. 66 cultura da paz. Saiba mais aqui (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2010). Na nota divulgada pelo site do Cultura Viva, há dois links representados pelogrifo no texto: ambos direcionam o usuário para a página inicial do portal ÍndiosOnline. No site, também é possível encontrar “extras” do documentário: são vídeosfeitos pelos indígenas no período de produção do filme. Alguns foram publicadoscomo matérias no portal Índios Online, outros retratam simplesmente os “bastidores”da produção do documentário. Todos esses vídeos foram feitos com o uso deaparelhos celulares, dentro do projeto Celulares Indígenas. No portal do IndígenasDigitais encontramos três vídeos: o primeiro, de cerca de seis minutos, mostra umapescaria com rede numa praia na aldeia Tupã, dos Tupinambás. O segundo, comduração de aproximadamente um minuto, mostra uma das etapas do plantio damandioca na aldeia. Já o terceiro vídeo, “O Sal Tupinambá”, de três minutos, feitopor Sebastián Gerlic, traz o relato do menino Binho sobre os métodos de sustento desua tribo: a pesca e a agricultura, para comercialização ou simplesmente para aprópria subsistência. No portal Indígenas Digitais são apresentados ainda algunsdos “protagonistas” do curta-metragem: o vice-cacique Pankararu Sarapo, aprofessora Maya Tupinambá Pataxó Hãhãhãe e o artesão Ayrá Kariri-Xocó. Hátambém um texto explicativo, assinado por Sebastián, que apresenta os projetosdesenvolvidos pela Thydewá: a rede Índios Online, o Arco Digital, o CelularesIndígenas e o grupo Esperança da Terra. No texto de Sebastián Gerlic também é apresentado um link para uma página,no próprio portal Indígenas Digitais, onde é possível fazer downloads no computadordos oito livros da série Índios na visão dos índios. Os livros retratam as comunidadesKariri-Xocó, Pankararu, Fulni-ô, Tumbalalá, Kiriri, Tupinambá e Truká, sendo queesta última teve publicações disponibilizadas também em francês. Outras iniciativas culturais e educativas apoiadas pela Thydewá também sãodestacadas: o programa Indígenas nas Salas, que atua desde 2002, onde índiosvisitam escolas das cidades com a intenção de promover o diálogo intercultural.Entre 2003 e 2004 foi criado o programa Índios Lendo, com patrocínio do CentroEcumênico de Serviços (CESE), para estimular a prática de leituras diferentes enovas alternativas: para isso, 1500 livros da coleção Índios na visão dos índios
  • 68. 67foram trocados por 3000 livros de temáticas diversas, a fim de fortalecer e renovaras bibliotecas indígenas. Ainda em 2004, a Thydewá ajudou na realização do documentário Irmãos noMundo, patrocinado pela Fundação Padre Anchieta (SP) e o Ministério da Cultura, edirigido por Sebastián Gerlic. O filme, que aborda a cultura, as tradições e ocotidiano dos povos Tupinambá (Ilhéus/BA) e Tumbalalá (Curaçá/BA), recebeuainda o prêmio Nacional DOCTV, pelo estado da Bahia. Entre 2004 e 2005, a ONGlançou seu primeiro livro coletivo inter-étnico: Cantando as Culturas Indígenas, compatrocínio do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) através do Programade Apoio a Crianças e Jovens em Situação de Risco Social Transformando em Arte.No livro, 3500 crianças das etnias Pataxó Hãhãhãe, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó,Pankararu, Tumbalalá, Tupinambá e Truká rememoram as histórias de seus povosatravés de danças e cantos sagrados, discutindo temas como cidadania, direitoshumanos, ecologia e diversidade cultural. Em 2007 a Thydewá, com parceria doMinistério da Educação e do Banco do Nordeste do Brasil, realizou novas oficinas elançou mais dois livros, sobre os Pataxó Hãhãhãe e Pataxó do Prado. No ano de 2008, foram lançados o livro Arco Digital, sobre o programa deinclusão digital realizado pela ONG, e o projeto Kariri-Xocó canta, com apoio doBanco do Nordeste, o MinC e a Secretaria da Cultura de Alagoas. Neste foramproduzidos um CD musical e um documentário em DVD sobre os rituais de cantotradicionais desse povo, além da realização de eventos objetivando o diálogointercultural. No mesmo ano, novas oficinas e livros de estímulo à interculturalidadeforam produzidos, inclusive com publicações em francês distribuídas naquele país.Dentro do projeto da rede Índios Online, algumas conquistas a destacar foram acriação da Rádio Comunitária Pataxó-Hãhãhãe, em 2005, apoiada pela Unesco eque qualificou 20 indígenas participantes da rádio. Em 2009 o projeto Índios OnAmerica com parceria do MinC levou 12 indígenas brasileiros a participar de umajornada de integração com outros índios do continente. Como pode-se notar oportal Indígenas Digitais é utilizado não apenas como um meio de divulgação dodocumentário produzido, mas como uma extensão, um caminho a mais dedivulgação das atividades promovidas pela Thydewá e pela Índios Online. No sitetambém é possível fazer comentários e enviar mensagens diretas para osadministradores, semelhante ao sistema do Índios Online. Outro ponto irreverente ecriativo do site é o “Brincando com alunos e professores”, uma brincadeira ao
  • 69. 68modo como a cultura indígena é abordada nas escolas atualmente. É reproduzidouma espécie de “questionário”, como uma lição de casa passada para a professoraa seus alunos sobre os hábitos indígenas (alimentação, quais suas tradições etc). Asrespostas dadas pelo site procuram ser informativas e irreverentes: Quais são as tradições indígenas? Imaginem em quase 250 povos, quantas tradições diferentes! Para que serve uma tradição? As tradições se inventam? As tradições mudam? Como é a dinâmica da cultura? As culturas falam entre si? Qual relação existe entre tradição e traição? Quais são as tradições do “homem branco”? Ir ao shopping? Ir à discoteca? Trabalhar? Fazer guerras por dinheiro? Subjugar das tradições dos outros? O importante não é a pergunta que o professor mandou, o importante é aproveitar a provocação para pensar, para refletir. Então aqui não há receitas para massas ou bolos. Aqui é um site de divulgação que mostra canais, meios, caminhos para a brincadeira de aprender. (INDÍGENAS DIGITAIS, 2010). Fica claro, no discurso dos integrantes e administradores da rede ÍndiosOnline e em todas as atividades promovidas, a busca da interculturalidade, da trocae compartilhamento de vivências, estimulando a riqueza e o desenvolvimentocultural. A quebra de estereótipos e preconceitos culturais seria resultado naturaldessa intercambialidade. No portal Indígenas Digitais também é possível encontrarmatérias, escritas pelos próprios indígenas e publicadas no Índios Online, sobreeventos de divulgação, exibições e pré-estreias do documentário em escolas e salasde cinema de Salvador, além das aldeias participantes. A partir dos três projetos apresentados ligados diretamente à rede ÍndiosOnline (Web Brasil Indígena, Esperança da Terra e Indígenas Digitais) notamoscomo pontos comuns entre eles que: todos contaram (ou contam) com participaçãoativa de representantes indígenas ou de suas comunidades em pelo menos uma dasetapas do projeto; em todos os casos, os principais objetivos destacados são a trocade culturas e conhecimentos entre indígenas e não indígenas, a inclusão dascomunidades indígenas na rede digital e consequentemente na sociedade urbana, arepresentação dos índios na sociedade segundo a visão deles próprios e areafirmação de sua cultura. No caso do site Esperança da Terra a ideia e a estruturasão mais simples: um espaço compartilhado de troca de experiências e informaçõespossivelmente úteis relativas ao universo indígena, ambiental e comunitário.Pessoas de qualquer lugar do mundo podem contribuir com informações para
  • 70. 69enriquecimento do projeto, que por sua vez, pode gerar novas ações e iniciativassociais e comunitárias. O projeto da Web Brasil Indígena funciona de forma semelhante, embora aideia de site compartilhado não funcione exatamente do mesmo modo que noEsperança da Terra. No entanto a estrutura física precária e a falta de investimentomaterial e recursos podem fazer com que projetos mais amplos e ambiciososacabem sendo descartados, como no caso da Rádio Brasil Indígena citado porAnápuáka. No caso do documentário Indígenas Digitais foram encontradascondições adequadas em todos os sentidos para que o documentário fosseproduzido e assumisse seu papel, de levar a cultura e a realidade indígena paranovos públicos e mostrar como esses grupos se relacionam com as novastecnologias. O filme condiz adequadamente com as ideias e objetivos demonstradospelo trabalho da rede Índios Online; as comunidades e os representantes indígenasparticiparam ativamente de todas as etapas do processo e a iniciativa ainda tevebons investimentos estruturais e materiais por parte de órgãos do governo e outrasinstituições, sem se desviar de sua temática de mostrar o ponto de vista dosindígenas. A partir disso podemos concluir que a Internet, por requerer habilidadetécnica simples, ser de fácil acesso nos dias de hoje e ter custo relativamente baixo,é também campo propício para a prática comunicativa entre as comunidades quenão possuem acesso a grandes ferramentas de comunicação para se expressar aomundo (rádio e TV, por exemplo). A Internet também possui alcance territorial ilimitado e amplas possibilidadesde utilização, como vimos anteriormente. Entretanto, quando se pretendeestabelecer projetos maiores e/ou mais ambiciosos em outros meios decomunicação ou simplesmente aperfeiçoar estruturalmente a iniciativa que já é feitana Internet, o investimento e incentivo de outras instituições ou mesmo do governose mostram essenciais para esse desenvolvimento. É possível firmar novas epositivas parcerias sem se desviar dos objetivos originais, das ideologias de umprojeto. Por isso é importante que programas como a rede Índios Online sejamdivulgados entre grupos indígenas e não indígenas e que a participação ativa dosindivíduos nos mesmos seja estimulada, para que estes projetos ganhem cada vezmais visibilidade na sociedade (e no universo virtual também) e consequentementenovos parceiros, investimentos e incentivos.
  • 71. 704.2 Objetivos atingidos, expectativas e necessidades pendentes nacomunicação comunitária digital O projeto da rede Índios Online, mesmo sendo uma iniciativa relativamenterecente, já serviu de impulso para evoluções no sentido da prática comunicacionalentre os povos indígenas na Internet e através de outros meios de comunicação.Esses programas nem sempre são necessariamente ligados à rede Índios Online ejá demonstram uma tendência positiva: os grupos comunitários começam a tomarsuas próprias iniciativas, a caminhar de forma independente, dentro das limitaçõesestruturais encontradas (de acesso a computadores, Internet e outros aparelhos, porexemplo) e em alguns casos conseguindo bons incentivos por parte do governo e deoutras instituições de alguma forma engajadas nesses progressos. Como vimos, aquestão do incentivo e de parcerias na produção e execução desses projetos muitasvezes é essencial para que eles se desenvolvam com sucesso e novas iniciativaspossam ser tomadas. No caso do Índios Online, que começou com a publicação de livros sobre atemática indígena, partiu para a comunicação entre aldeias e com o restante dasociedade via Internet e segue realizando palestras, convenções, editando maislivros e investindo em projetos na ideia da interculturalidade e da integração entre osdiversos povos indígenas e a sociedade em geral, pode-se dizer que durante essatrajetória o ideal original da comunicação indígena nunca foi abandonado. Outras iniciativas como a rede Grumin, o Esperança da Terra, a Web BrasilIndígena e mesmo o Retomada Tupinambá, relacionado a uma temática um poucomais específica, tentam otimizar o uso dos poucos recursos que têm disponíveisproduzindo ativamente e estimulando a colaboração de todos os lados em matériade conteúdo e manutenção dos projetos. As carências estruturais ainda são sentidasde forma bastante intensa, mas a ideia de luta constante, a integração digital esocial, o aperfeiçoamento das comunidades em todos os sentidos e a conquistaprogressiva de direitos, tudo isso influi para que esses programas sigam em frenteapesar das limitações encontradas. Em relação a essa comunicação feita por e para os povos indígenas percebe-se que as propostas de interculturalidade, troca de experiências, autonomia indígenana produção de informação, inclusão digital e social e defesa do meio ambiente e dedireitos indígenas levam para um caminho cada vez mais positivo a todos. A Internet
  • 72. 71e as novas tecnologias que aos poucos são disponibilizadas aos índios, como elespróprios avaliam, são parte importante desse progresso. O fortalecimento ereconhecimento das tradições e culturas pelos indivíduos das aldeias, pelas novasgerações, também é uma atividade constante trabalhada dentro de todas asatividades de comunicação digital indígena. Em termos de inclusão digital, acesso acomputadores e outras ferramentas tecnológicas e treinamento, qualificação mínimapara o uso desses aparelhos, ainda há muito a ser realizado. No entanto a própriarede Índios Online é um exemplo de como esse progresso é absolutamente viável epode trazer resultados positivos para as comunidades indígenas e a sociedade emgeral. A principal meta, o maior resultado a ser conquistado a partir desse trabalhode troca de experiências e cidadania para todos, seria o enfraquecimento depreconceitos sociais, étnicos e culturais. Por isso mesmo essas conquistas envolvendo a comunicação e a tecnologia,que de certa forma servem de caminho e incentivo para outros avanços sociais, nãoprecisam ser apropriações exclusivamente dos povos indígenas. Grupos de bairros,igrejas, instituições de apoio e caridade, ONGs sob os mais diversos interesses,associações de trabalhadores, todos eles podem encontram a forma mais adequadade se fazer ouvir, de dar voz a seus integrantes e ampliar ou investir nacomunicação nesses grupos. Cada um pode, através de experiências ou a partir dolevantamento de informações sobre o público que se deseja atingir (que meios decomunicação usa para se informar ou em atividades cotidianas, quais característicassão consideradas mais atraentes em um meio de comunicação, em qual período dodia ou da semana procura se informar ou cumprir outras atividades), definir onde, deque modo e com qual frequência um veículo de comunicação voltado para essesgrupos poderia circular. É importante identificar um perfil geral daqueles para quemessa comunicação será destinada e instrumentar uma forma interessante,abrangente e ao mesmo tempo de boa qualidade de informar esses grupos,incentivando-os a participar do projeto e mostrando que aquele canal também é paraeles. Cada organização pode encontrar a forma de comunicação mais adequada:um simples panfleto ou boletim com periodicidade regular, para que o leitor dêcredibilidade àquele material e seu conteúdo e até deseje, de alguma forma, fazerparte daquele processo. A Internet é ferramenta útil nesse tipo de comunicação:criação de sites e blogs gratuitos (com garantia de atualização de informações
  • 73. 72constantes) e mesmo o envio de boletins periódicos via email, para cada um quemantiver um endereço eletrônico e interesse em receber essa informação. Tudodepende das condições técnicas, estruturais e da disponibilidade geral de quemproduz e de quem deve receber o material. O importante é não esquecer que otrabalho deve alcançar o maior público possível, de forma atraente, com conteúdo eum pouco de descontração, para que o material não se torne uma coisa pesada ecansativa. Como recorda Vito Giannotti, todo material disponível é válido nesse tipode comunicação: Mesmo [...] com escassos recursos é possível fazer uma publicação regular. Não será a revista colorida dos grandes sindicatos, mas pode ser um boletinzinho de meia folha ofício, toda semana. Um boletinzinho feito a mão, com uma caneta, um pincel atômico, uma régua e uma bisnaga de cola pode dar bons resultados. [...] Se o boletim chegar no dia certo, na hora certa, com uma linguagem inteligível para quem o recebe e, óbvio, com o conteúdo adequado, será um poderoso instrumento. (GIANNOTTI, 1997, p.103-104). Por conteúdo adequado deve-se entender aquele que é de real interesse deseu público, com elementos que deem leveza e descontração ao material, além deuma linguagem adequada e compreensível ao leitor. Informativos em rádios,cartazes, revistas em quadrinhos, acessórios, é variada a lista de equipamentos quepodem ser usados na prática da comunicação comunitária entre os mais diversosgrupos. Como foi dito, tudo depende do perfil do público, da disponibilidade, dosrecursos disponíveis a quem produz a informação e da criatividade e iniciativa dosmesmos. No projeto do Índios Online, por exemplo, existe o esforço em se estenderas atividades da rede para além do ambiente virtual, em ações como palestras,oficinas e encontros presenciais promovidos pelos próprios integrantes da rede.Esse tipo de iniciativa ligada ao projeto desenvolvido através da Internet serve paraestimular o interesse entre novos públicos, proporcionar trocas de ideias e novosdebates e consequentemente passar mais credibilidade às ações administradas pelogrupo. A consciência da importância que representa a criação um meio decomunicação para determinados grupos e a utilização do máximo de recursosdisponibilizados é fator importante para que a comunicação comunitária tenharesultados eficientes. O conteúdo produzido deve, quando conveniente, serestendido para outros públicos, outras comunidades: se algum assunto relativo a um
  • 74. 73determinado grupo, mas que seria de interesse de todos, é divulgado na grandeimprensa, este grupo tem o direito (e mesmo o dever) de manter a populaçãoinformada sobre o seu ponto de vista dos fatos, a realidade vivida por eles mesmos. O material, como em qualquer meio de comunicação comunitário ouempresarial, deve ser apresentado sempre em cima de fatos concretos, se precisofor com alguma pesquisa ou levantamento histórico sobre assuntos relativos aotema entre jornais, sites, livros ou mesmo recorrendo ao depoimento de pessoasque passaram por situações semelhantes ou relacionadas ao tema. É necessáriauma boa organização em todas as etapas da produção desses veículos, para que otrabalho seja definitivamente bem sucedido. Mais do que ter em mãos o “arco eflecha” (na associação feita pelos integrantes do Índios Online) é importante sabercomo, quando e com qual objetivo usar essas ferramentas. No caso da presença indígena na rede, percebe-se uma preocupaçãopertinente de se garantir legitimidade e credibilidade aos meios de comunicação emrelação ao público. Segundo Anápuáka, na Web Brasil Indígena, o fato de sereceber informações de fontes consideradas seguras (instituições, grupos indígenasetc) e aos poucos poder mostrar aos índios que aquele é um espaço livre eadequado de comunicação já é uma grande conquista. O progresso entre ascomunidades indígenas nas próprias aldeias, entre a sociedade urbana e no meiodigital, o fato desses povos já possuírem um território independente e livre decomunicação na Internet que pode encaminhá-los para outros progressos em todosos sentidos, tudo isso é considerado uma vitória para essas etnias, embora aindahaja muito o que se evoluir em relação a essa temática. A rede Índios Online ainda busca apoio para que possam ser abordadas commais profundidade questões como a sustentabilidade, o uso consciente de recursosnaturais e a preservação da flora e da fauna naturais, por exemplo. Levar o acesso àInternet (e consequentemente o trabalho da Índios Online) para outras aldeias dopaís, aprimorando e desenvolvendo ainda mais a qualidade e o conteúdo oferecido edesenvolvido pela rede e estendendo assim todos os valores e conquistasdisseminados pelo programa em outras comunidades é desafio a ser superado.Apoio voluntário na área técnica em informática, divulgação e articulação deconteúdos e iniciativas e tradução de materiais para outros idiomas também sãoalgumas das carências que a Índios Online ainda tenta superar. O serviço voluntárioé a base de sustentação dessas iniciativas comunitárias, não só em relação à
  • 75. 74comunicação, mas em todas as áreas, como vimos anteriormente. Essacomunicação desempenha um papel de democratização da informação e dacidadania como um todo, tanto na ampliação do número de canais informativos einclusão de novos emissores quanto no fato de ser caracterizada como um processoeducativo, na medida em que habilita seus participantes para a atividade daprodução comunicacional e atuação geral em diversos setores da comunidade(PERUZZO, 2004). A comunicação comunitária ainda tem pouca visibilidade entre asociedade e sua abordagem pelas grandes mídias é insignificante, embora tenhacrescido com a contribuição, inclusive, da rede digital. A comunicação comunitária ou alternativa tradicional normalmente é praticadaapenas em pequena escala, embora existam iniciativas deste tipo em todo o mundo.A participação popular em experiências mais avançadas de comunicaçãocomunitária representa um significativo progresso na democracia comunicacional ena própria cidadania. Com a resolução de questões como a limitação ao acesso ecapacitação para uso da Internet, ela se torna ferramenta potencial para a práticacomunicativa. Apesar dessas necessidades, no entanto, nunca a liberdade decomunicação foi tão intensificada quanto no universo da Internet. A questão principalé tornar o indivíduo sujeito do processo de mudança social, que passa pelacomunicação e pelos demais mecanismos de organização e ação populares. Comoafirma Peruzzo: Todas as áreas da comunicação e demais campos do conhecimento têm espaço potencial para ação concreta dentro de suas especialidades. O que mais importa é a conjugação de princípios que favoreçam a autogestão popular, o respeito ao interesse social amplo e a inserção das pessoas como protagonistas da comunicação e organização populares. (PERUZZO, 2004, p.03). A Internet se torna o componente essencial de um novo tipo de movimentosocial emergente, a sociedade em rede (PEREIRA, 2008). A sociedade em rede écaracterizada como uma forma específica de organização social, processamento etransformação, tornando-se assim meio fundamental de produtividade. Osmovimentos da sociedade em rede têm como objetivo mudar os códigos designificados nas instituições e na sociedade. A partir disto, as organizaçõestradicionais já estabelecidas tendem a entrar em crise, cedendo espaço para aatuação de poder desses movimentos num contexto cada vez mais amplo. Um novo
  • 76. 75imaginário social e interativo emerge, com um novo tipo de ação social e derelacionamento entre sociedade, informação, indivíduos e tecnologias decomunicação. A presença indígena e de outras comunidades na Internet representaa capacidade de integração de diferentes pontos de vista em um novo espaço desociabilidade, interativo e flexível, movido pela comunicação. Na avaliação de Antônio Andrade (2007) a rede digital tem se apresentadocomo um dos fatores de ampliação da influência das novas tecnologias deinformação e comunicação no comportamento da sociedade contemporânea. Asredes sociais, a possibilidade de compartilhamento de informações de uma formaantes não imaginada, a facilidade e praticidade para execução de tarefas docotidiano através de sites da Internet, todas essas novas ideias contribuem parauma alteração significativa no comportamento e mesmo nos valores de umasociedade. É dentro desse contexto, numa realidade de escassez de recursostécnicos e financeiros e pouca consciência política que a comunicação comunitária,participativa, é exercitada. É a partir daí também que ela segue para novos objetivose horizontes, ocupando aos poucos espaços nos grandes meios de comunicação eganhando mais representação dentro das tecnologias mais avançadas. Há muitoainda que se fazer nesse sentido, mas a prática de experiências é sempreconsiderada válida. O sentimento de solidariedade é uma crescente em tempos deindividualismo social (PERUZZO, 1998). Na divisão entre conceitos de sociedade e comunidade, a autora RaquelPaiva oferece uma definição interessante: Já a partir dessas duas visões pode-se detectar uma compreensão do que seria comunidade em oposição à sociedade, na medida em que a primeira pauta-se pela integração do indivíduo ao lugar, sua vinculação as laços de sangue, sua preocupação com a tradicionalidade, os costumes e hábitos que deviam ser seguidos, com a família; ao passo que a segunda visão está comprometida com o trabalho socialmente organizado, o cumprimento dos contratos, o progresso impregna-se da visão monetária que inclusive se justifica legalmente a partir da jurisprudência, que tudo dimensiona através da lógica do universal. (PAIVA, 2004) Dentro da análise de Raquel, o conceito de sociedade está relacionadodiretamente ao ideal capitalista, ao consumismo e ao racionalismo. Já a comunidadeprezaria o tradicionalismo, os costumes e as ligações afetivas e familiares. Se dealgum modo o desenvolvimento e massificação das novas tecnologias se insere
  • 77. 76numa lógica de produção empresarial, como destaca Adilson Cabral, são osusuários da rede que estabelecem as futuras tendências de comportamento eutilização da mesma. A principal delas é o uso compartilhado de recursos: este nosleva a crer que, ao contrário do que ocorre com os demais meios de comunicação,estar na Internet e fazer uso cada vez maior dela futuramente será um direitogarantido a todos os indivíduos, de qualquer classe social, com formas de atuaçãoigualitárias (CABRAL, 2004). Na Internet, a informação se torna cada vez mais umbem quase gratuito: a partir de um computador conectado à Internet, um universoinfinito de informações se abre ao nosso controle. Os limites potenciais da rededigital, no entanto, ainda são desconhecidos. Em relação ao ambiente digital, o filósofo Pierre Lévy alerta sobre anecessidade de uma reavaliação constante das implicações sociais e culturais dasnovas tecnologias, uma vez que o desenvolvimento do que ele chama deciberespaço está diretamente relacionado à evolução da nova sociedade em rede,da sociedade em geral. A cada geração as tecnologias de comunicação ecompartilhamento de informações desenvolvidas contribuem para reconfiguraçõescomportamentais, linguísticas e mesmo geográficas na sociedade. A própriadefinição de comunidade no sentido que estudamos sofreu alterações com oadvento do ciberespaço e das relações sociais digitais: não há mais a visão de umlimite territorial dentro desse conceito, os veículos e práticas de interação ecompartilhamento de ideias e experiências foram alterados (PRUDÊNCIO, 2003).Apesar dessas modificações, no entanto, as raízes da ação comunitáriapermanecem vivas. A representação política e social da comunidade, a luta peladefesa de direitos e manutenção da cidadania, esses objetivos se mantém bemdefinidos no centro das atividades e mobilizações comunitárias. Novos programas foram criados para facilitar o uso da Internet e doscomputadores por qualquer pessoa, já que ela se mostra cada vez maisimprescindível ao cotidiano. O ambiente digital é uma extensão, um aprimoramentodo cotidiano da sociedade. Trata-se de um reflexo do dia a dia urbano, embora comadaptações e possibilidades de comunicação e interação consideradas muito maisinovadoras. Para Lévy “a perspectiva de digitalização geral de informações devetornar o ciberespaço o principal canal de comunicação e suporte de memória dahumanidade a partir deste século” (LÉVY, 1999, p.93). Ou seja: o futuro da
  • 78. 77comunicação e do armazenamento de informações a partir de agora seria baseadoem cima da Internet. O ciberespaço encoraja a troca recíproca e comunitária, enquanto as mídiasconvencionais praticam uma comunicação unidirecional na qual os receptores seencontram isolados uns dos outros. As diversas relações sociais, econômicas eculturais devem ser transferidas para esse ambiente digital, e caberá aos própriosusuários definir qual o limite dessa transição, da utilização e convivência nociberespaço. As novas tecnologias digitais devem ser utilizadas tendo comoprioridade a valorização da cultura, dos recursos, competências e projetos regionais,estimulando os indivíduos a participar de ações coletivas, voluntárias, em benefíciodas comunidades. Essas atividades devem objetivar o combate ao preconceito e àsdesigualdades, promovendo a autonomia dos grupos sociais consideradosexcluídos. A emergência do ciberespaço representa a ascensão do contraponto aosmeios de comunicação de massa, da comunicação comunitária: as grandesempresas de comunicação aos poucos enfraquecem o poder de seus monopólios eos meios de expressão social, através da rede de forma livre, tendem a semultiplicar de forma imprevisível. A Internet é, enfim, canal propício para aaglomeração e compartilhamento dos mais diversos tipos de informações e culturas.Dispositivos de navegação e filtragem são desenvolvidos por empresas que lidamdiretamente com as redes digitais para facilitar a navegação e permanência dousuário conectado em rede. O futuro da Internet e de sua utilização neste momentodepende especificamente de como as pessoas desejarão fazer uso dela: afinal, opúblico é o principal responsável por toda a informação que circula ao longo dessainfinita rede digital.
  • 79. 785. CONSIDERAÇÕES FINAIS O fato da rede digital ter se revelado, na medida do avanço nas novastecnologias desde o início no século XXI, como um ambiente propício para a práticade uma comunicação livre e com possibilidades de interatividade até entãoimpensáveis, torna esse ambiente adequado para a emergência de novasalternativas de comunicação. As práticas sociais do cotidiano aos poucos têm sidoincorporadas em um ambiente digital, configurado pela própria presença humana naInternet e nas redes sociais de comunicação. Os meios de comunicação,naturalmente, procuram abrir seus caminhos também na rede digital paraacompanhar o novo ritmo, a nova realidade de seu público e aproveitar asvantagens que a Internet permite: informação em tempo real, interatividade,comunicação e contato direto com o leitor/usuário, utilização de diversos recursos(som/vídeo/imagens/textos) de forma simultânea. Os meios de comunicação empresariais e privados já descobriram e exploramessa nova realidade, com transmissões de rádio e TV via Internet por todo o país (oupelo mundo, em alguns casos), postagem de vídeos e material publicado na TV ouno rádio para acesso direto na Internet, enquetes, pesquisas de opinião, serviços decomunicação instantânea e presença constante e atuante nas redes sociais decomunicação. Todos esses canais são extensões da comunicação tradicional feitano rádio, na televisão e nos veículos impressos. A tendência mais viável, portanto, é que os meios de comunicaçãocomunitária sigam esta vertente, pois além da liberdade de expressão ecomunicação que a rede digital garante (nos dias atuais, não é preciso pagarnenhum valor alto para criar um grande blog comunicativo na Internet) ela tambémapresenta uma grande variedade de canais comunicacionais e permite atingir umpúblico muito mais extenso que os veículos tradicionais, considerando que todainformação lançada na Internet estará disponível ao acesso de pessoas de qualquerlugar do mundo que estejam conectadas. Para a produção comunicativa, a Internet atualmente é uma via de acessorelativamente simples e barato e cujo uso requer uma especialização técnicasimples em relação aos outros veículos de comunicação. Não só os meios decomunicação comunitários, mas toda a sociedade pode e deve exigir de seus
  • 80. 79governantes condições mínimas de acesso à Internet e de educação para o usodessas ferramentas, exercendo seu assim seus direitos em relação à liberdade decomunicação. Levar a Internet, os computadores e as novas tecnologias para todosainda é um grande desafio que limita muito a prática da comunicação comunitária,mas com o apoio do governo e a ação voluntariada de instituições e indivíduos esseproblema aos poucos tem sido contornado. As comunidades devem tomar a Internet,os meios de comunicação digitais e os recursos que estes oferecem como oprincipal e mais fértil espaço para a prática da comunicação comunitária. A busca de espaço entre as novas tecnologias de comunicação, no entanto, éapenas a primeira etapa pela luta democrática e de garantia da cidadania e dedireitos para todos. Como podemos ver no caso da rede Índios Online a exploraçãode meios alternativos de comunicação, de curta ou longa abrangência, também deveser buscada. Além da Internet, palestras em escolas, comunidades e instituiçõesregionais; divulgação de iniciativas através de panfletos e cartazes bem elaborados;boletins periódicos distribuídos entre toda a comunidade; enfim, material atrativo ede conteúdo firme e sustentado que estimule o interesse da comunidade pelosvalores e causas defendidos. Toda forma legal de manifestação é válida na práticada comunicação alternativa e comunitária, não importa se o objetivo seja o alcanceem nível local ou nacional. No caso da Internet, por suas características ela seapresenta como ferramenta adequada aos meios de comunicação comunitáriaconsiderando-se que facilita o exercício da democracia pelas comunidades, não sóno sentido social, mas na política e na cultura; promove o extenso intercâmbio deculturas e experiências entre grupos sociais diferentes e serve como forma derepresentação social e digital de comunidades muitas vezes consideradassocialmente excluídas. O caminho da prática da comunicação comunitária, como exemplificado notrabalho da rede Índios Online, não deve se limitar, no entanto, ao uso da Internet. Éimportante que comunidades, grupos, instituições e organizações continuem lutandojunto aos governos e responsáveis para garantir o acesso democrático a veículos derádio e TV, que são os mais custosos e de legislação ainda burocrática em relação aoutros meios de comunicação. Com meios de comunicação comunitários ealternativos estabelecidos em todas as vias, exercendo livremente seu direito deliberdade de expressão, já é facilitado um caminho a mais para a luta e conquista dacidadania e democratização em todos os sentidos, para todas as pessoas.
  • 81. 80REFERÊNCIASEletrônicas:Anápuáka Muniz. Informações Web Brasil Indígena. [mensagem pessoal]Mensagem recebida por <brunalima@hotmail.com> 05 de outubro de 2010.Bruno Tupi, 2010. Retomada Tupinambá – Na comunidade Santana. Em:<http:/www.indiosonline.org.br/novo/retomada-tupinamba-%E2%80%93-na-comunidade-santana>. Acesso em: 11 de outubro de 2010.Fa Tupinambá, 2010. Pintura Tupinambá.Em:<http://www.indiosonline.org.br/novo/pintura-tupinamba. Acesso em 01 deoutubro de 2010.Fábio Titiá, 2010. Área Retomada Sofre Ataque de Pistoleiros na Tarde de Ontem.Em: <http://www.indiosonline.org.br/novo/area-retomada-sofre-ataque-de-pistoleiros-na-tarde-de-ontem>. Acesso em: 10 de outubro de 2010.GERLIC, Sebastián, 2010. Em: <http://www.indigenasdigitais.org>. Acesso em: 17de outubro de 2010.Seu Gino, 2005. Nossos avós levantavam cedo. Em:<http://www.indiosonline.org.br/novo/nossos_avos_levantavam_cedo>. Acesso em:10 de outubro de 2010.INDÍGENAS DIGITAIS, 2010. Em: <http://www.indigenasdigitais.org/?page_id=199>.Acesso em: 15 de outubro de 2010.ÍNDIOS ONLINE. Em: <http://www.indiosonline.org/quemsomos>. Acesso em: 11 deoutubro de 2010.______, 2010. Em:<http://www.indiosonline.org.br/novo/area-retomada-sofre-ataque-de-pistoleiros-na-tarde-de-ontem>. Acesso em: 10 de outubro de 2010.______, 2010. Em: <http://www.indiosonline.org.br/novo/a-beleza-do-rio-sao-francisco>, 2010. Acesso em: 10 de outubro de 2010.Ministério da Cultura, 2010. Em: <http://www.indigenasdigitais.org/wp-content/uploads/2010/05/MinC_Cultura-Viva.pdf>. Acesso em: 15 de outubro de2010.PEREIRA, L.H. Comunicação popular: para além do bem e do mal. Em:http://www.bocc.uff.br/pag/pereira-lucia-comunicacao-popular.pdf. 2008. Acesso em:02 de novembro de 2010.PRUDÊNCIO, Kelly. Mídia e Movimentos Sociais Contemporâneos: a luta do sujeitopela construção do significado. 2003. Em: http://www.rizoma.ufsc.br/pdfs/366-of11b-st1.pdf. Acesso em: 06 de novembro de 2010.
  • 82. 81SANTOS, Rodrigo Diego dos, 2010. Rede Índios Online. Em:<http://www.indiosonline.org.br/novo/rede-indios-online>. Acesso em: 10 de outubrode 2010.Seredser, 2010. Vida de Guerreiro. Em: <http://www.indiosonline.org.br/novo/vida-de-guerreiro>. Acesso em: 10 de outubro de 2010.SOUZA, Marili de. Comunicação e participação: interseção necessária na construçãoda cidadania. Belo Horizonte – MG. In: E-com, v. 01, n. 01. 2007.http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/e-com/article/view/5578/5065 Acessoem: 06 de novembro de 2010.Impressas:ANDRADE, Antonio L.: Usabilidade de Interfaces na Web: Avaliação Heurística doJornalismo Online. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, Ed. 2007.BUGAY, Edson Luiz; ULBRICHT, Vânia: Hipermídia. São Paulo; Visual Books, Ed.2000.CABRAL, Adilson. Contrapontos e perspectivas de uma Internet para todos. In:PERUZZO, Cicilia. Vozes Cidadãs: aspectos teóricos e análise de experiências decomunicação popular e sindical na América Latina. São Paulo; Angellara, Ed. 2004.FERNANDES, Guilherme. Folkcomunicação e Mídia Digital: a luta simbólica pelacidadania nos espaços de homocultura virtual. Juiz de Fora – MG. In: XII Congressode Ciências da Comunicação da Região Sudeste - Intercom. 2007.GIANNOTTI, Vito. Comunicação Sindical: falando para milhões. Petrópolis – RJ.Vozes, Ed. 1997.LEÃO, Lúcia. O labirinto da hipermídia: arquitetura e navegação no ciberespaço.São Paulo. Illuminuras, Ed. 1999.LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo. 34, Ed. 1999.MARTIN, James. Hiperdocumentos e como criá-los. Rio de Janeiro. Campus, Ed.1992.MIANI, Rozinaldo A. Comunicação comunitária: uma alternativa política aomonopólio midiático. Niterói – RJ. In: 1° ENCONTRO DA ULEPICC-BRASILEconomia política da comunicação: interfaces acadêmicas e sociais do Brasil. 2006.MORAES, Dênis de. Por uma outra comunicação: mídia, midialização e poder. Riode Janeiro. Record, Ed. 2003.PAIVA, Raquel. Estratégias da comunicação e comunidade gerativa. In: PERUZZO,Cicilia. Vozes Cidadãs: aspectos teóricos e análise de experiências de comunicaçãopopular e sindical na América Latina. São Paulo; Angellara Ed., 2004.
  • 83. 82PEREIRA, Eliete da Silva. Ciborgues indígen@s.br: entre a atuação nativa nociberespaço e as (re)elaborações étnicas digitais. São Paulo. In: II SimpósioNacional da ABCIBER. 2008.______. Nos meandros da presença étnica na rede digital. In: FELICE, Massimo Di.Do público para as redes: a comunicação digital e as novas formas de participaçãosocial. São Caetano do Sul – SP. Difusão, Ed. 2008.PERUZZO, Cicilia M.K. Comunicação nos movimentos populares: a participação naconstrução da cidadania. Petrópolis – RJ. Vozes, Ed. 1998.______. Direito à comunicação comunitária, participação popular e cidadania. SãoBernardo do Campo – SP. In: VII Colóquio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação / V Encontro de Ensino e Investigação da Comunicaçãonos Países do Mercosul. 2004.______. Conceitos de comunicação popular, alternativa e comunitária revisitados.Reelaborações no setor. In: Palabra Clave, v. 11, n. 02. 2008.PINHO, J.B. Jornalismo na Internet. São Paulo. Summus, Ed. 2003.SPERILLO, Giuseppa. Comunicação comunitária e novas tecnologias -por umaformação profissional em busca de cidadania. In: PERUZZO, Cicilia. Vozes Cidadãs:aspectos teóricos e análise de experiências de comunicação popular e sindical naAmérica Latina. São Paulo; Angellara, Ed. 2004.
  • 84. 83ANEXOS
  • 85. 84 ANEXO ADocumentário Indígenas Digitais