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Transcript

  • 1. Refrescando a Mente e o Corpo Uma grande quantidade de vapor emanava do box duplo d e azulejos brancos, proveniente do chuveiro, que despejava água e m abundância sobre a cabeça e os ombros largos de Giles. Ele se refrescava após o dia quente passado em seu escritório de Londres e sentia-se frustrado tanto pelo trabalho quanto pelo crescente desejo que sentia por Kathy, a nova gerente de Comunicação Social e Mídia de sua agência de publicidade. Tinha o tronco sarado, mas pálido e desbotado: fazia dezoito meses que não usufruía do benefício de um bronzeado; preferira lançar-se ao trabalho na tentativa de evitar a dor do fim de seu casamento. O calor das férias ensolaradas estava distante, mas mesmo assim trazia-lhe lembranças agradáveis. O gel de banho exalava um aroma picante de limão e, num instante, os seus ombros bem definidos ficaram cheios de espuma. Giles se massageava lentamente, espalhando a espuma em direção ao peito largo. N a região superior do braço direito ostentava uma tatuagem pequena mas muito chamativa, do Capitão Caverna, personagem de histórias em quadrinhos, mas da qual se arrependera logo no dia seguinte ao de sua dolorosa chegada. Com o passar dos anos e com a ascensão da carreira — era agora um empresário, dono de sua própria agência — este arrependimento só aumentou; a esperança de que o brilho provocativo da figura um dia desbotasse fora em vão. Continuou o seu ritual de limpeza: as mãos iam descendo, passando pelo umbigo, depois pela cintura ainda em forma, até chegar aos loiros pelos pubianos e ao avantajado equipamento. Sabia há muitos anos, desde a infância, que, para seu orgulho, nada lhe faltava neste departamento. Deslizou os dedos com firmeza e depois, propositadamente, agarrou o falo. Um formigamento suave e sugestivo lhe atingiu a ponta da masculinidade encharcada de água quente. Antes de continuar
  • 2. a manobra, massageou mais além, entre as pernas, para se certificar de que nenhuma área ficasse por lavar. A mão molhada, continuando a jornada exploratória, chegou às coxas definidas e firmes. Depois, arqueou as costas fortes para alcançar as panturrilhas musculosas e torneadas, esfregando-as para completar o banho. Continuou a investigação tátil enquanto os sedimentos acumulados durante o dia se dissolviam com a água, que dançava contra a sua pele macia e lhe percorria o corpo até chegar aos pés, cujos sapatos eram 42, e desapareciam através do ralo cromado do box. Ele permaneceu imóvel por mais alguns instantes sob o fluxo do chuveiro para sentir diretamente a força da água a jorrar, e para que o rosto, que estava virado para cima, absorvesse a sua energia ante s de retomar o fôlego, desligar o chuveiro e retirar-se do cubículo para se enxugar. O vapor invadiu o banheiro, e a experiência o liberou das pressões do dia, embora a memória de Kathy permanecesse firmemente impressa no primeiro plano de seus pensamentos . Estendeu a mão para alcançar a toalha branca, dobrada, para se secar, depois aplicou um pouco de loção no rosto já seco e se dirigiu ao quarto. Na tentativa de se conservar elegante para si próprio, e não para eventuais futuras admiradoras, Giles se esforçava por manter a forma e evitar que os indesejáveis pneus se acumulassem na cintura. Ocasionalmente, praticava ciclismo de forma enérgica pelas ciclovias de Londres; preferia a sua própria bicicleta às patrocinadas, azuis (Boris bikes, como os londrinos as apelidaram), um tanto populares e, portanto, nem sempre disponíveis nas várias estações espalhadas ao longo do caminho até o seu escritório. Não lhe agradava, porém, ser chamado de MAMIL, acrônimo em inglês para um homem de meia idade usando Lycra (Middle Aged Man In Lycra), pelos conhecidos que o viam, e muito menos lhe agradavam as manobras constantes de ônibus e caminhões a virem em sua direção. Além disso, o clima tinha estado tão ruim e imprevisível que, ao sair de bicicleta num dia que prometia um tempo seco, corria-se o risco de voltar do trabalho encharcado. Ele conhecia formas mais aprazíveis de se molhar. Viver na «terra verde e agradável», como diz a canção Jerusalém, que se tornou um hino patriótico dos
  • 3. britânicos, requeria chuva — mas ess e verão em particular, o verão em que os Jogos de Londres se realizaram, provou ser excepcional pela fartura de precipitação. Giles dava muita atenção aos detalhes, como seria de se esperar de um executivo da publicidade, por isso gostava de estar sempre bem vestido e, invariavelmente, de terno — mas sem gravata, acessório que abolira. Preferia uma aparência «muito elegante, mas acessível» àquela simples, modesta, «de contador», que muitos de seus contatos exibiam. Se o clima de verão o permitisse, optava por bermudas escuras de alfaiataria. Giles gostava de exibir um estilo «contemporâneo», mas acabava por ser alvo de gozação de alguns colegas. Era considerado um high flyer urbano, termo utilizado pelos ingleses para as pessoas ambiciosas e bem-sucedidas; a agitação, o corre-corre de Londres e do mundo da publicidade lhe convinham quando era mais jovem; no entanto, de alguma forma ele sabia que todo esse estresse não estava lhe prestando favores físicos: reparara que as linhas de expressão estavam cada vez mais acentuadas. Era um jogo para um homem mais jovem. Orgulhava-se de ser um ponto fora da curva quando se tratava da sua evolução na carreira e na publicidade: conseguira chegar ao topo, mas não sem um custo conjugal e pessoal. Giles alugara um apartamento num dos antigos e gastos edifícios de tijolos envelhecidos pela poluição da doca de Saint Katharine, no coração do centro histórico de Londres. Morava lá há pouco mais de um ano, mas estava à procura de uma habitação mais modesta e acessível, a sul ou a leste da cidade. Na verdade, ele não s e importava com o custo de sua atual residência, inviável no longo prazo, porque era verão. A cidade era linda, e os Jogos de Londres tinham realmente trazido uma energia até então desconhecida, que lhe proporcionava uma distração à sua recém-encontrada, porém indesejada, liberdade. Após um divórcio amargo que estava começando a se armazenar de forma resignada nos bancos de
  • 4. sua memória, essa energia positiva era bem-vinda. Giles estava consciente do avanço dos ponteiros de seu «relógio»: tinha conhecimento de que a sua idade, 38 anos, não diminuiria. Tinha 1,73 metro de altura, era magro e estava começando a se esforçar por manter a forma; tentava dar um ar jovial aos cabelos finos, loiros e crespos, e ostentava uma pequena tatuagem irritante e lamentável de um desenho animado no ombro, fruto de um fim de semana na juventude, que apagara da memória. Começara a usar óculos aos vinte e poucos anos; estes, combinados com as entradas que continuavam a lhe aumentar a testa, conferiam-lhe autoridade. Fazia dezoito meses que o seu divórcio fora concluído, e após um período de transição, sem querer, deu por si à procura de um novo amor que preenchesse o vazio deixado por aquela mulher que lhe fora infiel, e com quem foi casado durante sete anos. Ela saíra de sua vida há muito tempo. Morava numa casa sofisticada na frondos a Wimbledon, às custas da metade do patrimônio de Giles e da pensão que este lhe pagava. Vivia na companhia do filho que tivera com o seu antigo chefe, mas que com Giles sempre evitara ter. De vez em quando, a ex-mulher entrava em contato com ele, na maioria das vezes quando se esquecia de algo importante e lhe faltava alguma peça para restabelecer a sua memória. Ele não se importava de a ajudar, desde que o seu horário de trabalho o permitisse. Giles, entretanto, ficou com Duster, um gato persa de meia-idade, macho, embora castrado (ele está convencido de que o gato nunca o perdoou por isso), que agora lhe fazia companhia na maioria das noites, já que se considerava um tanto velho demais para a vida social selvagem que levara antes de se casar. Na verdade, logo após a separação quem ficou com o gato foi ela, mas ao descobrir que estava grávida de quatro meses (e nem desconfiava!) o devolveu, sugerindo que Duster sentia saudades dele. Que conveniente!... Enfim, foi há tanto tempo, que o melhor seria não se incomodar mais com isto.
  • 5. A localização do escritório de sua empresa era adequada e m relação ao seu apartamento, perto de Monument (como é conhecido o monumento do Grande Incêndio de Londres, a coluna dórica próxima à Torre de Londres) e, dependendo do tempo, a uma distância possível de ser percorrida a pé ou de bicicleta. Ele também tinha a opção de ir de ônibus, uma alternativa que se pudesse evitaria, para manter a forma física. O escritório era limpo, moderno e tinha sido decorado de acordo com o estilo favorito de Giles: dinâmico e contemporâneo. Situava-se num edifício antigo, o que revelava os seus inconvenientes ao longo do ano, principalmente quanto ao isolamento térmico: fervia- se no verão e congelava-se no inverno. As divisórias altas, escuras e azuis instaladas no escritório amplo e moderno impediam uma visão completa de todos os responsáveis pelo sucesso da empresa. Em vez disso, criavam áre a s individuais de trabalho de forma a evitar a contaminação e a duplicidade em campanhas publicitárias. Só os gerentes de projeto e os novos colaboradores ou contratados que representassem uma mais-valia à campanha tinham permissão para dar «uma olhadela». O próprio Giles encontrava dificuldades em ter uma visão de Kathy ou uma oportunidade de lhe dizer «bom-dia». Ela ingressara na agência na primavera daquele mesmo ano, e a cada dia ia acrescentando uma agradável distração à sua rotina diária. Claro que batiam papo junto à copa e acompanhavam os colegas para um happy-hour após a jornada de trabalho, mas ele não tinha sido capaz de realmente se apresentar como o Giles que gostaria que ela conhecesse. Ele estava um pouco arrependido de ter introduzido o sistema «estilo baias» no mobiliário do escritório, três anos antes, a fim de evitar tal confraternização: compreendia agora claramente as acusações de que fora vítima na época. Para se defender, argumentara em parte que esse sistema interromperia o voo de eventuais setas atiradas pelo «Cupido» ao longo do escritório, mas parece que o flechado agora tinha sido ele. Kathy também havia superado a crise decorrente de seu
  • 6. divórcio e conseguira renegociar e reestabelecer os limites emocionais com todos os envolvidos. Este processo psicológico demorou anos, e o seu sucesso deu-se graças a um exame de consciência e à determinação de Kathy. Tinha 41 anos, mas sentia-se jovem; Jess, a filha, agora com sete anos, encarregava-se de a fazer sentir assim devido à correria e ao «malabarismo diário» que a atividade social infantil, uma arte em si, exigia dela. Kathy se sentia grata por isso, porque ela queria reiniciar a sua vida. O divórcio não representava o fim, apenas um recomeço. Ela sempre fora cuidadosa quanto à aparência, e isso era evidente diante da intensidade de sua beleza confiante. Tinha os cabelos castanho-claros, de comprimento médio, os quais mantinha impecáveis: sedosos, brilhantes e com o corte em dia. Invariavelmente, mantinha as unhas cuidadas e pintadas e usava rímel nos longos cílios que lhe emolduravam os olhos castanhos brilhantes. Tinha 1,63 metro de altura bem distribuídos por uma estrutura delicada, e para mantê-la sob controle, sempre que possível, praticava jogging pelos parques da cidade em que vivia, ou, quando o tempo fechava, ia para a academia. Os deslocamentos diários e a caminhada até o escritório em Londres também contribuíam para que tivesse um belo corpo. Como o cargo gerencial que ocupava no novo emprego exigia muito dela — o que lhe agradava —, queria que a sua mente estivesse tão em forma quanto o seu físico e estava sempre alerta em relação à equipe que liderava. Ocasionalmente fumava um cigarro ou outro para se acalmar, quando necessário, e para relaxar em casa, à noite, após o longo percurso diário que enfrentava de Londres ao Jardim da Inglaterra — como a cidade de Kent é conhecida. Para Kathy, o seu divórcio representou a morte gradual de um relacionamento inicialmente amoroso, ao invés de apaixonado, daqueles que terminam tipo: «Você deveria ter pens a d o nisso antes de dormir com… ». Enquanto amadureciam, ela começara a valorizar as oportunidades de
  • 7. forma diversa. Casaram-se cedo, Kathy aos vinte e poucos anos, e no início da vida desfrutaram d e alguns tempos dourados; depois decidiram ter um filho que, pensando bem, pode ter sido uma maneira de manter a união por mais tempo do que deveriam — enquanto esta se desgastava. Com a maturidade, e por causa da filha, libertaram-se mutuamente da união matrimonial da forma menos conflitante possível. Matt, o seu ex-marido, mudou-se para o Norte da Inglaterra em virtude do trabalho logo após a separação, cerca de vinte meses antes; o divórcio foi obtido à distância, e um nunca culpou realmente o outro pelo fim do casamento. Para atenderem às formalidades legais no processo de divórcio, ambos concordaram em acusar Mat t d e ter um «comportamento irracional». Na realidade ambos só queriam seguir diferentes direções emocionais, físicas e geográficas. O golpe final do casamento foi o fato de Matt querer se mudar para o Norte e de Kathy preferir ficar próxima aos seus pais e à sua cidade, Kent. Tanto a força estável e discreta quanto a beleza de Kathy irradiavam sempre que Giles olhava para ela. Magnetizado pelo seu brilho, pela sua voz articulada e tranquila e pelo seu corpo bem cuidado, ele tinha por Kathy uma admiração tangível. A perturbação que sentia estava se tornando óbvia tanto para ele quant o para alguns de seus colegas. O desejo de conhecê-la crescia cada vez que a encontrava, descobrindo algo novo, perturbador e ainda mais sedutor sempre que a via.
  • 8. 2. # Um Twitt que disse tanto A necessidade que Giles sentiu de conhecer melhor Kathy logo no seu primeiro dia de trabalho, cerca de três meses antes, não diminuíra. Ele já se dera conta de que ela também o notara em seus breves encontros no escritório enquanto ambos, agitados, exerciam as respectivas atividades profissionais. Giles não era um homem tímido: não teria chegado tão longe no mundo dos negócios se o fosse, mas não compreendia a razão pela qual se encontrava diante de uma dificuldade pessoal insuperável. Desde que se divorciara, havia saído com algumas mulheres, mas esses encontros nunca tiveram nenhuma consequência além de um pouco de diversão e de uma «farra» movida a álcool, na maioria das vezes. Tanto Kathy quanto Giles, cada qual em seu caminho, interessaram-se por sites de namoro na Internet e neles se registraram. Os resultados foram diversos, mas frustrantes para ambos. Além disso, alguns anúncios de TV e de revistas lhes chamaram a atenção pela capacidade profissional e pessoal que apresentavam, e através deles cada um definiu as suas preferências. Ambos responderam a vários, em função dos atributos descritos (que na realidade provaram ser muito diferentes em suas experiências individuais): era óbvio que, por vezes, esses «pretendentes» estavam apenas à procura de uma breve aventura sexual e de um amor passageiro, ao invés de uma relação significativa. A palavra «significativa» queria dizer tudo para Giles: num relacionamento, ele queria alcançar a realização pessoal e não a do desejo físico, embora fosse homem e tivesse necessidades nesse sentido. De vez em quando, as atividades profissionais de Giles e de Kathy se cruzavam, participando ambos ocasionalmente da mesma reunião ou do mesmo grup o de discussão sobre um determinado assunto, fosse este específico ou parte de um
  • 9. projeto maior. Para manter o moral da equipe elevado, Giles organizava eventos esporádicos em bares ou restaurantes locais para os funcionários que desejassem se socializar após a jornada de trabalho. Giles tentava aproveitar essas oportunidades para bater papo com Kathy, mas só depois apercebia-se da sua abordagem um tanto desajeitada por este ou aquele motivo. Giles sabia que ela era importante para ele e, acima de tudo, que esta mensagem estava sendo enviada a Kathy, que apesar de estar encantada com as suas investidas fracassadas, preferia não o deixar transparecer. As longas e quentes noites de verão eram mais propícias para este tipo de confraternizações, que ficavam por conta do projeto e eram consideradas como um benefício para a equipe. Como esses projetos eram grandes e envolviam muitos participantes, a oportunidade que tinha de realmente passar algum tempo especial com Kathy, para saber mais sobre a mulhe r que desejava, era limitada, principalmente porque ela saía cedo para apanhar o trem com destino a Kent. Nestes curtos encontros, a sua mente borbulhava ao absorver a personalidade de Kathy, e o desejo que tinha por ela não se extinguia; pelo contrário, ia sendo cada vez mais alimentado. Giles se conscientizara de que voltar a se envolver com novas pessoas para fins de relacionamento passou a lhe incutir o medo da rejeição; estava cansado das ocasionais transas no primeiro encontro, excitantes, mas vazias: ele descrevia estas parceiras, de forma desapegada, como interesseiras. Ele sabia que Kathy não era indiferente a ele, mas ficava estranhamente confuso sobre como deveria proceder para s e aproximar dela de modo a ser lembrado como gostaria. Os colegas do escritório, pioneiros em tudo o que se refere a comunicação, twittavam entre si e com os seus contatos — para se manterem atualizados em relação às
  • 10. «novidades» da agência e a qualquer outro assunto que os interessasse. Tanto Giles como Kathy participavam desta rede social, e, uma vez ou outra, ele bisbilhotava no avatar dela para ver o que estava acontecendo em sua vida, família e afins. A questão de como dar o primeiro passo no relacionamento o confundia. Sendo o chefe, embora não trabalhasse diretamente com ela, não queria que um convite soasse estranho; não lhe agradava a ideia de, sem mais nem menos, perguntar-lhe: «Que tal se fôssemos jantar juntos uma noite dessas?», porque ele estava ciente de quão dedicada e comprometida ela estava para com a família, e furtá-la de sua filha por uma noite poderia soar como um começo egoísta. Este dilema pessoal e emocional não saíra de sua lista de prioridades por várias semanas, voltando-lhe à mente com uma regularidade irritante. A caixa de entrada de seu computador estava abarrotada com a dose diária de material publicitário sobre tudo o que se poderia imaginar, como problemas do escritório em geral e convites de almoço que ele se esforçava em recusar na época mais movimentada d o ano. Ao voltar de uma reunião interna, chamou- lhe a atenção uma entrada que continha palavras inspiradoras dos Jogos de Londres e a confirmação da reserva que fizera para obter alguns ingressos. Giles ficou excitadíssimo por ter conseguido três ingressos para os Jogos, embora sentisse ao mesmo tempo uma pontinha de decepção, porque solicitara dez durante o processo de aplicação para a compra; assim, twittou a boa notícia aos seus seguidores. Como previsto, recebeu em resposta as habituais gozações dos engraçadinhos de sempre, mas também uma de Kathy dizendo que tentara levar Jess, a sua filha, mas falhara no processo. Sem titubear e ainda ligado no Twitter, Giles enviou-lhe uma mensagem direta como resposta, sugerindo um encontro entre os três no Velódromo. Ao clicar «enviar», percebeu que esta poderia ser a oportunidade esperada. Kathy aceitou de
  • 11. imediato, oferecendo-se para pagar a sua parte. Giles disponibilizou-se alegremente a pagar pelos três desejados ingressos e, conforme fora negociado, curvou-se ao pedido de Kathy de que o almoço no evento seria por conta dela. Nunca menos de 140 caracteres significaram tanto para Giles, e a sua fé nas mídias sociais deu um salto de gigante — juntamente com a gerente de Mídia Social, que lhe enviou uma resposta pelo Twitter. O alívio que sentiu em conseguir um encontro era palpável, em parte porque dera o primeiro passo, mas também porque este aconteceu de uma maneira simples, num estilo que ele poderia ter apenas sonhado em colocar num de seus comerciais. Que ironia da vida. Após efetuar o pagamento dos ingressos — a competição seria realizada num final de semana durante os Jogos —, marcou a data em vermelho na agenda de seu computador e, para não haver dúvidas, enviou pelo Twitter um convite para Kathy — que o aceitou imediata e automaticamente. Os ingressos chegaram alguns dias depois, e ele os prendeu no quadro de avisos de cortiça que tinha em sua sala, para assuntos pessoais: costumava olhar para eles com um espanto entusiasmado pela «conquista» e por aquilo que este dia prometia. A ansiosa espera pela chegada do dia marcado provocou um conflito na mente de Giles . Ele queria gritar aos quatro ventos que tinha ingressos para os Jogos e, principalmente, que iria com Kathy, mas entendeu que a melhor e mais apropriada abordagem a adotar seria manter-se discreto sobre o assunto. Além disso, a novidade de ter conseguido ingressos logo se exauriu, pois muitos colegas do escritório, bem como os seus diferentes grupos sociais, também tiveram a mesma sorte de conseguir uma oportunidade de assistir a vários eventos e de admirar o melhor dos melhores competindo para alcançar as preciosas medalhas.
  • 12. Havia muito trabalho, como sempre, e o tempo que antecedeu aos Jogos voou. Tanto Kathy quanto Giles estavam muito ocupados, o que garantia, com relutância, o mínimo contato entre eles no escritório. O fechamento de um novo e valioso contrato em Washington o obrigou a passar um tempo nos Estados Unidos e a se concentrar exclusivamente nas negociações. Uma vez que o acordo já estivesse assinado e seguro em seu escritório, ele teria algum tempo livre, e poderia voltar a focar o seu pensamento nas pessoas mais próximas — esperava ele — ao seu coração. Durante a sua estada nos Estados Unidos, Giles usufruiu de algumas pausas para visitar certos pontos turísticos; estas lhe proporcionaram um tempo para pensar a respeito de casa: e m Duster, que deixou aos cuidados da Senhora Cormack, sua leal diarista, e, é claro, em Kathy, em conhecer a filha dela e no dia que brevemente iriam compartilhar. Este seria o ponto alto do mês seguinte, e esta perspectiva não poderia deixar de lhe levantar o astral. Ao retornar, Giles conseguiu ligar à Kathy para dar um «oi» e confirmar os pormenores do encontro marcado para o domingo seguinte — não queria que esta almejada oportunidade falhasse. Eles conversaram, e Giles perguntou se Kathy ou Jess precisavam de alguma coisa quando chegassem à sua casa. Ela ficou satisfeita em ouvi-lo, puseram as notícias em dia, conversaram sobre nada em particular: a respeito da viage m recente, sobre o trabalho e a vida em geral, antes de combinar tudo, verificar os números de telefone e tratar da logística adequadamente. O luminoso brilho do sol foi saudado por Giles na manhã de domingo, o dia muito ansiado da ida ao Leste da cidade, aos Jogos Olímpicos. O encontro foi marcado para as 9h15 em seu apartamento de dois dormitórios, convenientemente localizado. Da porta, Duster miou alto para recebê-las e depois esfregou-s e nelas: o gato achou as inesperadas convidadas muito divertidas e as apreciou demonstrando carinho. Jess, que nunca tivera um gato, estava
  • 13. histérica com as carícias que recebia e alerta ao seu divertido ronronar. — Oi, oi, entrem, entrem! — exclamou Gile s às convidadas, sorrindo-lhes enquanto cruzavam o limiar do apartamento. — Como o gato se chama? — perguntou Jess, sem tirar os olhos de sua nova fonte de afeto. — Duster! — respondeu com entusiasmo, satisfeito por Jess parecer já se sentir em casa. Ele estendeu a mão para as ajudar a tirar os casacos e conduziu-as ao apartamento. — Fizeram uma boa viagem? — perguntou à Kathy, inclinando-se suavemente para a frente a fim de recebê-la, dando-lhe um beijo na face macia. O perfume dela o embriagou com a sua fragrância inebriante. — Sim, muito boa. O trem estava cheio de gente que veio para cá só para os Jogos, foi muito excitante! — respondeu, retribuindo o carinho ao mesmo tempo. — Batemos papo com muita gente, não foi, Jess? — perguntou Kathy à filha, que claramente não estava ouvindo nenhuma palavra. — Por que o gato se chama Duster? — foi a pergunta que logo saltou em tom deliciado da boca de Jess, como seria de esperar, enquanto o gato, encorajado pela acolhida da menina, fuçava a mão que lhe acariciava o queixo de forma um tanto desajeitada. — Porque ele é o único Duster (que significa espanador em inglês) que tenho. — Giles sorriu, sabendo que isso não era verdade e que, se a Senhora Cormack o ouvisse desprezar o seu trabalho dessa maneira, ele teria problemas. Costumava ser um pouco injusto para consigo próprio ao se referir a tudo o que tinha mantido da época de casado: continuar com a Senhora Cormack era um bônus do qual muitas vezes ele esquecia.
  • 14. Quaisquer inibições tipicamente infantis que Jess pudesse sentir desapareceram como que num passe de mágica no momento em que ela se esqueceu de si mesma, em função do gato e da emoção que lhe aguardava naquele dia. A menina estava bem vestida, mas não sofisticada como a mãe; estava, portanto, diferente daquilo que Gile s imaginara: usava jeans, camiseta de manga comprida e um par de tênis resistente e brilhante, como se estivesse pronta para enfrentar uma longa jornada. Os seus cabelos lisos estavam presos num coque, e sobre o leve anoraque ela levava uma mochila, que Giles prontamente apanhou. Enquanto as conduzia até o corredor, ele observava Kathy a entrar na sala de visitas. Ela também parecia preparada para o dia, espelhando um pouco a filha na maneira de se vestir, mas com muito mais classe: usava a maquilagem correta, a camiseta tinha um corte perfeito, como se fosse dimensionada para se movimentar livremente, e exibia de forma provocante e encantadora a divisão entre os seios, além de deixar transparecer a copa do sutiã branco que lhe definia as formas. Os pesados óculos escuros, estilo Jackie «O», que portava sobre os cabelos arranjados e sedosos, quase caíram enquanto caminhavam pela sala em direção à privilegiada vista sobre o rio Tâmisa. Jess foi até a varanda em tom azulão e de lá admirou a vista magnífica da Ponte da Torre de Londres, adornada pelos círculos multicoloridos e brilhantes, símbolo dos Jogos, e ao fundo viu a mais nova atração de Londres: o cintilante edifício Shard, o mais alto da Europa. Giles e Kathy conferiram se tinham tudo o que precisavam para passar o dia fora. O gato parecia entristecido com a saída da nova amiga e voltou para o calor de sua janela favorita. Giles verificou se levava o celular, as chaves e a carteira; depois lançou um olhar furtivo e vaidoso ao espelho para se assegurar de que estava no seu melhor, fechou a porta da entrada do apartamento e juntou-se às duas, que seguravam a porta de metal do elevador. Jess, diminutivo de Jessica, tinha sete anos, bem… «sete
  • 15. e meio», como fez questão de frisar ao corrigir Giles no final do dia. Ela tinha cabelos longos, loiro-avermelhados, e muitas das características do pai, como o amor por chocolate — razão pela qual talvez ainda conservasse uma gordurinha infantil. Tinha muita energia; na escola, porém, o seu desempenho era médio; além disso, era um pouco sonhadora, mas nada muito preocupante. Ultimamente estava viciada na nova versão do jogo Angry Birds, que havia sido baixado no celular da mãe; Jess era uma criança alegre e descontraída, no entanto sentia a falta da estabilidade da unidade familiar que a presença do pai garantia antes do divórcio. Os pais de Kathy eram despreocupados, tinham um jeito peculiar, mas revelavam-se muito prestativos em relação à sua carreira e à educação de Jess: eram eles que levavam e buscavam a neta do colégio e que a ajudavam nas lições de casa. Ambos estavam aposentados e assumiram um papel muito importante na estrutura dess a unidade. Jess e seus avós teriam de ser aceitos se Giles estivesse com intenções sérias em relação a Kathy. O fato de estar pronto para dar este salto o surpreendeu, mas estava um pouco temeroso de se magoar mais uma vez. Os três fizeram uma curta caminhada, dobraram a esquina e se dirigiram para a estação Tower Gateway da ferrovia Docklands Light, onde tomaram o trem com destino à estação Poplar. Jess pulava o tempo todo e, na estação, conseguiu se sentar numa poltrona individual à frente, fingindo conduzir o trem. Kathy e Giles estavam parados perto dela quando o trem, lotado de viajantes, com destino ao East London Park e às suas muitas atividades, chegou. Policiais, voluntários (responsáveis por ajudar o público nos Jogos) e portadores de ingressos estavam todos igualmente com o moral elevado, e os suaves empurrões sofridos no trajeto representavam uma mudanç a refrescante para variar a monotonia do ritmo da viagem. Desceram na estação Poplar: Jess estava ansiosa por sair correndo, mas Kathy a conteve delicadamente, com medo
  • 16. que caísse. A plataforma elevada permitiu que a brisa de verão lhes atraísse a atenção antes que se dirigissem para Stratford — enquanto a multidão seguia como se fosse um rebanho. Existia alguma expectativa de que haveria grandes aglomerados de gente, o que puderam comprovar ao avistarem, logo no embarque, o número extra de vagões adicionados. O espírito que se sentia entre a crescente multidão era de emoção, felicidade e comunhão. Eles continuaram o seu caminho atravessando o shopping recém-construído: a animada turba constituída de crianças, pais, avós e afins era guiada para o portão de entrada e para os cordões de isolamento dos Jogos; a maioria das pessoas estava de alto astral enquanto conversava e vibrava, avidamente incentivada pelos voluntários ao longo do percurso, que acrescentavam um toque individual a cada oportunidade. Jess parecia muito feliz por estar no meio daquela multidão, mas também pela companhia da mãe e de Giles, que conversavam animadamente. O papo entre eles fluía sobre tudo e nada. Jess se intrometia de vez em quando para fazer uma observação sobre algo novo, mas, sempre que possível, ambos trocaram muitos olhares, movidos por uma curiosidade carinhosa.
  • 17. 3. A caminho da vitória Giles nunca se viu como um pai, mas para os espectadores ao seu redor, os três constituíam uma família. Atravessaram os portões só após serem liberados pela equipe de segurança, que visivelmente apreciava as interações com o público. Enquanto caminhavam, maravilhavam-se com o número e a variedade de locais destinados a cada esporte, mesclados aos gramados bem cuidados e aparados que suavemente interrompiam o desenho original do jardim. Não esperavam campos floridos tão belos e se encantavam com este cenário inesquecível. As multidões animadas já haviam aumentado significativamente, quando o sol surgiu por entre as nuvens. O instinto maternal de Kathy, que mantinha uma vigilância cerrada em relação a Jess, s e intensificou. Como as mudanças de cenário eram espetaculares, Giles sugeriu que Jess se sentasse sobre os seus ombros, o que foi imediatamente aceito. Logo, porém, arrependeu-se, pois a menina pulava e apontava para tudo o que conseguia avistar desse novo nível e que considerava interessante. Kathy ficou encantada com essa sugestão, não só por lhe facilitar o controle sobre Jess, mas também porque Giles demonstrava aceitar a menina. Juntou-se a eles, colocando o braço sob o de Giles, tentando conter, quando necessário, as pernas de Jess cobertas pelos jeans, que não paravam de se movimentar à medida que seu entusiasmo aumentava. Eles se divertiam para valer. O Velódromo ficava quase no final do parque, para quem chegasse da estação de Stratford. Durante a caminhada, passaram pelo Centro de Comunicação e pelas muitas equipes de TV e repórteres que exerciam as respectivas atividades a partir de containers metálicos. Comparadas às áreas já percorridas, verdadeiras belezas arquitetônicas, estas pareciam descuidadas, destinadas simplesmente a transmitir o evento. Após um longo passeio apreciando o parque, finalmente o Velódromo surgiu ao longe:
  • 18. um magnífico edifício revestido de madeira, no alto de uma colina. Chegaram lá depois de muito andarem, meia hora antes que os portões se abrissem. Uma combinação de aromas intensos de café moído e algo que cheirava à canela e fermento os seduziu, conduzindo-os para a praça de alimentação formada por barracas ao ar livre. — A melhor forma de marketing — comentou Giles, inspirando o aroma, enquanto Kathy era arrastada por Jess para a barraca dos waffles. — Nem me diga! — retrucou ela após pedir «três waffles com creme», enquanto Jess procurava um lugar para se sentarem junto às mesas de cavalete de madeira. Os quitutes foram colocados sobre a mesa cuidadosamente, por medo de que os pratos de papel se danificassem; embora não parecessem tão apetitosos quanto os que estavam em exposição, não decepcionaram em relação ao aroma que os seduzira. O sol quente começou a se tornar intermitente; fragmentos brilhantes de raios solares matinais perfuravam as habituais nuvens de tempestade de verão que se avolumavam sobre o Centro Aquático a uma curta distância dali. Giles, Kathy e Jess, terminado o lanche, dirigiram-se ansiosos à fila que se formava, para entrar no evento de ciclismo; ninguém tinha permissão de passar pela segurança até que o Velódromo abrisse. A fila não durou muito tempo, pois logo começou um barulho incessante proveniente das catracas que apitavam quando ingressos eram nelas inseridos; o trio subiu em direção às arquibancadas e, enquanto passava, teve uma visão geral da pista de provas para BMX, que em breve seria utilizada. Assim que alcançaram o interior do recinto, uma tempestade inundou rapidamente o parque, espalhando as multidões por todas as áreas onde se pudessem abrigar. O timing no qual Giles e as amigas chegaram ao auditório foi perfeito: observavam, agora bem protegidos, a chuva formando poças d’água no local onde estavam momentos antes,
  • 19. encharcando aqueles que estavam atrás deles na fila. Tiveram de esperar algum tempo na entrada para permitir que a temperatura interior fosse mantida e, ao entrar no local gigantesco, avistaram a pista coberta, revestida de madeira, em todo o seu esplendor. As pessoas se aglomeravam enquanto se dirigiam aos seus lugares, e o MC, mestre de cerimônias, encorajava os espectadores a que transformasse m o local no «mais barulhento do parque». Podiam ser vistos de todos os cantos gigantescos telões, nos quais se viam celebridades menores a serem entrevistadas, e a sua imagem transmitida para o mundo todo. Os voluntários, que trajavam uniformes roxos com o emblema dos Jogos incrustado, sorriam e ajudavam o fluxo da multidão a fazer tudo isso funcionar, e o ritmo animava as almas tocadas pela experiência. Jess acenava freneticamente para cada voluntário, dando a confirmação a Kathy e a Giles de que esta era a tarefa que escolhera para o dia. Logo começaram as provas preliminares das variadas modalidades de ciclismo. A plateia se acalmou e permaneceu num completo silêncio para poder ouvir a sirene que daria início à prova; o decolar dos atletas aguardando a largada incentivou um bramido geral. Giles, Kathy e Jess prontamente acompanharam o movimento praticado pela assistência, aproveitando a emoção de cada corrida, enquanto a competição, o tempo, o ritmo, a frequência cardíaca e a emoção atingiam novos níveis na passagem de cada volta. Câmeras de TV giravam panoramicamente pela multidão, e os seus alvos geralmente ficavam frenéticos ao serem focalizados, entusiasmados com a exposição e com a aproximação do final da prova. Pouco a pouco, Kathy e Giles baixaram a guarda, relaxaram e, na corrida final, viram-se vibrando de alegria com a vitória de um participante britânico que acabara de quebrar um novo recorde mundial. Ambos se abraçaram, saltitantes, de maneira espontânea, enquanto a bandeira vitoriosa era
  • 20. hasteada. Este desprendimento foi para os dois estranhamente lento, e quando o abraço se completou, os seus olhos dançaram uns nos outros. Ao mesmo tempo, surpreenderam-se com a própria imagem no telão: a câmera que girava acima deles decidira parar para mostrar um exemplo daquilo que pode acontecer quando se está excitado. Kathy corou ao abaixar-se para chamar a filha: — Olha, Jess, você está na TV! — disse, apontando ansiosamente para a câmera que já focalizava outros torcedores frenéticos. Após se acalmarem, como se isso fosse possível, voltaram a sentar-se, e Giles verificou no Smartphone que a luz da conta do Twitter estava acesa: seguidores da rede sugeriram que ele era um «cara de sorte» por estar no Velódromo assistindo à prova de ciclismo, além de comentários adicionais do tipo: «Quem é a gata com quem você está abraçado?» Alguns colegas os identificaram imediatamente, e Giles mostrou o telefone para Kathy, dizendo com um sorriso maroto: — Bem, vamos ser o assunto da cidade amanhã! — e em seguida continuou de forma interrogativa, mas amável, consciente de que estavam todos se divertindo — Você se incomoda com isso? — De maneira nenhuma; é tão bom estar com você… — Então, olhando para Jess, que continuava entretida com os ciclistas ainda competindo no meio da pista, acrescentou rapidamente — com vocês dois… Ao olhar novamente para o Smartphone, Giles viu outra mensagem direta do Twitter. Esta vinha de sua ex-mulher: «Finalmente a fila andou?» Ela continuava com o seu insuportável e habitual sarcasmo, pensou. — Que Vaca — sussurrou ele para os seus botões; o barulho nas arquibancadas estava alto demais para que alguém o ouvisse. Decidiu então esquecer o ressentimento provocado pela mensagem, mas segui-la à risca: mover finalmente a sua fila.
  • 21. Concluídas as provas de ciclismo, os espectadores se retiraram, e os três se dirigiram para fora à procura de ar livre; a atmosfera estava carregada, tomada pelo vapor devido à tempestade que havia ocorrido durante a sua aventura no interior do Velódromo. Realizaram, assim, a visita obrigatória à loja d e souvenirs, onde compraram camisetas para os três; o objetivo seguinte seria almoçar no jardim florido e ensolarado. Giles teve de enfrentar uma fila para comprar peixe empanado e batatas fritas com o dinheiro que Kathy lhe entregou na mão — e que ele aceitou com relutância. Depois, segurando uma bandeja, retornou ao jardim, que estava relativamente tranquilo. Após o almoço, atravessaram um pavilhão onde havia muitas pessoas lendo notas presas nas paredes. Sem demora, localizaram papel e lápis disponíveis e prontamente resolveram deixar por escrito a experiência vivenciada nos Jogos e os pensamentos do dia, depois colocaram as notas numa estrutura de madeira especialmente projetada para este efeito, ao lado de um córrego, onde pudessem ser compartilhadas. Jess, abaixada, apoiando-s e sobre os joelhos, rabiscou com o lápis no papel autocolante fornecido: «Quando eu crescer, quero ser uma estrela de ciclismo.» Kathy ajudou Jess a colocar a nota num pequeno espaço entre milhares delas, juntamente com a que escrevera: «Um lugar maravilhoso, uma experiência incrível, uma grande diversão, um homem interessante.» Giles rabiscara algo também, e em seguida admirou a not a que escrevera antes de a colocar junto às outras: «Quem sabe repetimos a experiência em breve?”, sabendo que Kathy a leria. Ela o fez, mas fingiu ignorar a nota; foi traída, porém, pela curva formada por seus lábios, e seu espírito se elevou ao olhar para os olhos dele.
  • 22. — Não está na hora de irmos embora? — perguntou Giles, percebendo que o tempo voara e que o trem para Kent teria de ser apanhado no centro de Londres a fim de conseguirem voltar para casa em segurança naquela noite. Muita gente estaria se encaminhando para as saídas, e ele sabia que o acesso às catracas em breve iria piorar. Sim, boa ideia! — confirmou Kathy, reafirmando estar de acordo através de um cordial aceno com a cabeça. — Ok, pronta para irmos, Jess? A careta da menina demonstrou o quanto a ideia lhe desagradava. — Que tal se eu a levasse sobre os meus ombros para você ficar lá no alto, acima de todas as pessoas? — perguntou Giles, sabendo que a estratégia poderia funcionar como antes, mas que, provavelmente, a sua coluna sofreria as consequências no dia seguinte. — Pronta, pronta! — veio o grito infantil, enquanto as mãos e as pernas levantaram quase que imediatamente do chão com o objetivo de subir para os ombros de Giles. — Hum! acho que você pode estar certo — respondeu-lhe Jess, com uma voz abafada, enquanto o seu pé quase bateu no rosto dele. — Você ainda vai se arrepender! — constatou Kathy espirituosamente, sorrindo para os dois e dando um beijo exagerado no ombro dele, como agradecimento. Kathy estava satisfeita com a interação entre Giles e a filha e com o potencial de ele passar no teste de futuro padrasto. Ela olhou para cima a fim de se certificar que Jess estava segura, antes de recolher as camisetas recém-adquiridas e outros acessórios, e indicou o caminho para a saída. Jess continuava a apontar para cada detalhe e acenava a todos os voluntários que avistava. A viagem de volta ao centro de Londres passou num instante, pelo fato de estarem tão entretidos entre si e com os
  • 23. passageiros que lotavam o metrô. As multidões bem-humoradas conversavam animadamente sobre a qual competição tinham assistido e sobre quem levara as medalhas. Que diferença das habituais viagens silenciosas! Uma vez no apartamento, após os adultos tomarem uma xícara de chá e Jess servir-se de suco de fruta e brincar mais um pouco com o gato, Giles as acompanhou até a estação de trem. As grandes emoções vividas nos Jogos não distraíram Giles ou Kathy do verdadeiro prazer da companhia informal e divertid a que tinham compartilhado naquele domingo. A dinâmica d a amizade que os unia havia se transformado completamente: já não eram simples colegas. Ambos se sentiam manifestamente felizes com essa transformação. Na estação, trocaram um selinho de despedida, leve mas significativo, e não queriam que a emoção do dia ou o contato um com o outro chegassem ao fim. Os seus olhos se encontraram enquanto os lábios se roçaram. Jess, em silêncio, observava atentamente, mas logo corou e deu uma risadinha, interrompendo a breve intensidade do momento. Ela não tinha visto a sua mãe beijar um homem desde que o pai se fora, anos atrás, e decidiu que também queria um beijo de despedida. Giles levantou-a e deu-lhe um forte e gentil abraço; ela retribuiu o carinho afetuosamente, e eles se separaram; depois, do interior do vagão, as duas lhe acenavam e mandavam beijos imaginários e cômicos, que ele devolvia ao passo que o trem deslizava e saía da estação, em direção a leste, para Kent. Ele afastou-se com uma satisfação afetuosa no coração, saboreando os acontecimentos do dia enquanto se dirigia à saída da estação, ao seu apartamento e a Duster.
  • 24. 4. Reflexões inspiradas pelo rio Giles voltou para casa animado e com o espírito renovado graças à encantadora companhia com a qual passara o dia. Preparou um café e em seguida, para relaxar, dirigiu-se à varanda com vista para o murmurante rio Tâmisa (ou «lapping Thames», como diria o poeta inglês Wilfred Owen em seu poema Shadwell Stair); durante o verão, o seu lugar favorito no alojamento temporário em que vivia. O som da música que vinha da sala era tão suave, que parecia flutuar pela varanda. Giles contemplava o rio, cujo nível estava mais baixo do que de costume, quando se conscientizou de que finalmente encontrara a mulher que estava procurando. O amor pode acontecer de novo. A sua alma se encheu de esperança e sorriu com o pensamento irônico que lhe passara pela mente: tivera um dia competitivo, não nas pistas mas na arquibancada, para conquistar o afeto de Kathy. O seu próprio desempenho não o decepcionara. Já há algum tempo, sabia estar pronto para seguir em frente. Além disso, ele precisava partilhar a sua vida com alguém e também sabia ser um homem bondoso e generoso. Essa partilha não seria fácil, porque ele, como a maioria das pessoas , queria que alguém fizesse parte de sua vida: alguém especial que pudesse realmente conhecer, em quem pudesse confiar, de quem pudesse depender, de uma forma recíproca, sem qualquer condição a ser imposta. A figura de Giles foi diminuindo, até desaparecer rapidamente, à medida que o trem se afastava da estação, e Kathy reservou esta lembrança no fundo da mente, para concentrar-se na filha, que tagarelava sem parar sobre os acontecimentos do dia. Jess logo se acomodou no calor do balanço do vagão, e Kathy levou apenas alguns minutos, no interior do trem que deslizava, para concentrar o pensamento nas memórias do dia,
  • 25. em Giles e no beijo que trocaram na despedida. Estas divagaçõe s não duraram muito, pois foram interrompidas pela série de perguntas infantis que Jess lhe fazia. — No ano que vem a gente vai de novo? Todos os ciclistas têm de pedalar em inclinações íngremes de madeira? — e, o que era inevitável — A gente pode ter um gato? Kathy sorriu ao pens a r que gostaria de possuir um bichano em particular… se o seu dono viesse junto! Em breve, Jess se acalmaria: estava em plenas férias escolares e, no dia seguinte , faria uma visita de grupo ao Castelo de Leeds, que fora organizada pelos avós; Kathy sabia o quanto a filha ficaria agitada com toda essa excitação durante a semana inteira. A viagem no trem abarrotado levou uma hora, depois chamaram um táxi para as levar a casa. Kathy ligou aos pais para os tranquilizar de que haviam chegado bem e dizer que tiveram um grande dia — e Jess teve também de lhes dar boa-noite. Felizmente para Kathy, o ritual noturno de Jess aconteceu sem dramas. O modo como a menina acolhera o travesseiro e o edredom demonstrou o quanto estava cansada. Quando ainda lhe dava um abraço e um beijo de boa-noite para lhe selar o sono, a filha já estava com os olhos fechados. Após certificar-se de que a menina adormecera, Kathy acomodou-se no pequeno jardim do pátio, localizado no andar inferior, para aproveitar os últimos raios solares: baforadas de cigarro formavam um círculo em caracol que pairava no ar em direção ao crepúsculo, e havia sobre a mesa do jardim uma taça de vinho tinto. Kathy sabia que passara um dia maravilhoso — sem considerar o quanto Jess tinha adorado —, e a alegria lhe invadiu o peito enquanto dava uma última tragada no cigarro. Kathy pegou o telefone que colocara sobre a mesa e enviou um torpedo a Giles para lhe agradecer, terminando com um «a gente se vê, x». Ainda na varanda, Giles respondeu: «adorei o dia, x», e
  • 26. um sentimento semelhante ao de Kathy corria em suas veias. Ele analisou a situação por alguns minutos. Queria ligar para ela, só para lhe dizer «boa-noite», para lhe ouvir a voz e confirmar que para ele também fora muito especial. Resistiu à tentação, sem saber bem porquê, obedecendo a algum protocolo estúpido de «dar-lhe espaço», o que não fazia sentido. Fechou, então, a varanda e foi para a cama. Duster, por sua vez, agarrou-se ao parapeito da janela para apreciar um pouco mais o calor. Giles colocou o celular sobre o criado-mudo, despiu-se, preparou-s e para dormir, e se deitou nu sobre o edredom — persistia o calor que fizera durante o dia. Tinha a ment e repleta com as experiências vividas horas atrás, tanto visuais quanto emocionais . E, enquanto adormecia, a visão da beleza de Kathy e do beijo que trocaram o excitou e lhe provocou uma ligeira ereção. A reunião de praxe das segundas-feiras sobre «Como foi o seu fim de semana?» costumava acontecer na copa do escritório. A maioria compartilhava a glória do churrasco de domingo ou os sucessos de algum campeonato esportivo. Algumas das últimas «fofocas do escritório» giravam em torno de um vídeo, que foi passado várias vezes, onde apareciam dois de seus colegas numa prova de ciclismo que acontecera no dia anterior. Giles sorriu e confirmou que ambos estiveram lá de fato, mas desviou a conversa de qualquer assunto pessoal, preferindo falar do espetáculo dos Jogos. A maioria dos ouvintes se satisfez com o caminho que a conversa levara, fosse porque já tinha estado nas arenas, ou porque estava prestes a conhecê-las e queria participar ainda mais do burburinho que os Jogos trouxeram para Londres. Giles se dirigiu à sua mesa de trabalho sentindo um certo alívio porque, pelo menos, o dia maravilhoso não era mais um segredo. A agência de publicidade ia muito bem, embora tivesse os seus «impasses», e em todos os momentos uma mão firme era necessária sobre o «leme». Os picos na produção de projetos do ano comercial aconteciam geralmente no verão, ficando para o
  • 27. outono e para o inverno as campanhas publicitárias que precisavam gerar lucros. Todos sabiam disso, e, durante esses períodos de pico, era necessário fazer muitas horas extras; em contrapartida, nos meses de inverno, os funcionários tinham mais folgas e horários mais flexíveis. Era uma época em que prazos e soluções precisavam ser taticamente manobrados e em que Giles achava que o tempo não lhe pertencia. No passado, isso não representara nenhum problema, especialmente após o seu divórcio. Desta vez, havia o conflito agradável de querer partilhar o seu tempo com Kathy. A pressão falava mais alto. Para manter uma postura profissional, Giles se esforçava por ter o mínimo contato possível com Kathy; e, quando conseguiam finalmente falar, a conversa se transformava rapidamente numa acalorada discussão sobre um problema do projeto que tinha aparecido, sem que um acordo fosse alcançado, atrasando a oportunidade de se encontrarem outra vez. Giles não queria que essas discussões viessem a público, por isso, quando aconteciam, fechava a porta de seu escritório para evitar que ouvidos indiscretos os ouvissem. Esse esforço, porém, fora e m vão, pois ambos pareciam portar um cartaz a dizer: «briga de namorados!» A frustração que ambos sentiam em relação aos habituais desafios profissionais era palpável: sabiam que sentiam muito carinho um pelo outro, mas também achavam a situação um pouco estranha. Kathy queria gritar aos quatro ventos que tinha passado um dia maravilhoso com Giles e desejava estar com ele novamente. Da mesma forma, Giles se sentia maravilhado pelos sentimentos que nutria por ela, mas não sabia como manifestá-lo no ambiente profissional que dividiam. Giles se perguntava se, para ambos, persistia o mesmo sentimento vivenciado na estação, quando se despediram. Já Kathy se questionava se Giles não estaria fugindo dela por temer assumir um compromisso com Jess a tiracolo. Muitos homens estariam, pensou, mas Giles era diferente. Por sua vez, Giles estava arrasado em virtude do
  • 28. desentendimento ocorrido justo no dia que sucedera aquele em que passaram horas fantásticas juntos. «Como consegui estragar tudo num espaço tão curto de tempo?», ele se perguntava reiteradamente. A manhã terminou, e depois a tarde, e o sentimento de decepção para consigo mesmo apenas aumentava. No fim do expediente, ainda estava preso à mesa de trabalho: o relógio de parede marcava 19h30. Os seus olhos se voltaram para o espaço no quadro de avisos que abrigara os três ingressos que permitiram que se divertisse tanto na véspera. O espaço estava vazio, exatamente como ele se sentia. O processo do projeto atingira um ponto ideal para ser interrompido, e ele sabia que estava na hora de alimentar o gato. Pensou em Kathy: percebera que não tinha feito muito além disso durante o dia; imaginava que ela estaria em casa com Jess, em Kent, provavelmente terminando o jantar e… Giles interrompeu as imagens que lhe vinham à mente; ao invés de tentar adivinhar, ligaria para ela a fim de esclarecer certos assuntos e confirmar alguns sentimentos. Pegou o celular, marcou o número de Kathy e esperou que ela atendesse. Após alguns toques, a ligação caiu para a caixa postal, e ele se derreteu com a sua voz perfeita. Resolveu deixar a seguinte mensagem: «Oi, Kathy, aqui é Giles, só queria lhe dar um “oi”… e desculpe pelo que aconteceu hoje. Espero que possamos nos encontrar um dia desses, com mais calma. Mande lembranças para Jess; espero que ela tenha gostado do castelo», e antes que se esgotassem todos os assuntos que tinha a dizer, desligou com um simples «tchau». Ele sabia que tinha muito a lhe dizer, mas não através do atendedor de chamadas. A mente de Giles estava a mil: será que ela não atendera por saber que era ele? Será que resolvera ignorá-lo? Será que ele estragara tudo? Quase imediatamente interrompendo-lhe os pensamentos. o celular tocou,
  • 29. — Giles, é Kathy, desculpe, eu estava preparando o banho de Jess e perdi a sua chamada. Como vai você? — Oi, eu estou bem — respondeu Giles, aliviado ao ouvir a voz dela. — Deixei-lhe uma mensagem, liguei apenas para dar um «oi» e também para pedir desculpas pelo incidente de hoje; tudo aconteceu por causa de um monte de assuntos que estão dando errado em relação ao projeto e a última coisa que eu queria fazer era ter uma discussão com você. Desculpe! — Ei, está tudo bem, eu também sinto muito, especialmente depois do dia maravilhoso que passamos juntos. — E Jess, como está? Aproveitou bem a visita ao castelo? — Você se lembrou do castelo... Sim, ela está ótima. Deve estar cansando os meus pais de tanto falar sobre o passeio que fizemos juntos. Eles querem saber quem é esse tal de Giles, e se ele me agrada. sutil. — Ah!... e o que você respondeu? — adicionou Giles, nada — Giles, passei um dia fantástico com você, como poderia não ter me agradado? — confirmou ela com carinho e com certa segurança. — Obrigado, eu pensei que tivesse estragado tudo, desculpe mais uma vez! — disse Giles todo atrapalhado.
  • 30. — Está tudo bem, eu também sinto muito… onde você está? — Prestes a deixar o escritório — afirmou. — Oh! Ainda? Coitadinho... Você está bem? — Tudo bem… além de ter criado confusão com uma linda mulher horas atrás, e esperando não ter causado nenhum dano, e querendo saber quando a posso ver novamente, sendo incapaz de tirá-la da cabeça, mesmo se quisesse, o que não é o caso, acho que o dia foi realmente medíocre. — Giles percebeu neste momento o verdadeiro motivo de ter-lhe telefonado. — Giles, eu gostaria de vê-lo novamente. Espero que seja em breve! E, para sua informação, eu também me sinto assim, se você não tiver nada contra isso. — Giles suspirou de alívio, satisfeito pelo fato de Kathy não ter se assustado com as suas revelações.
  • 31. — Que bom! É uma boa notícia, e eu adoraria encontrá-la logo! — respondeu de forma repentina e quase infantil. — Quando? — perguntou Kathy. Inevitavelmente, as respectivas agendas estavam ocupadas nos fins de semana com passeios em família, compromissos sociais e afins; mesmo assim, o desejo de passarem o maior tempo possível juntos só continuava a crescer, ao invés de diminuir. De vez em quando, tinham condição de conversar ao telefone, e uma vez até conseguiram ir juntos a Southbank — o movimentado bairro às margens do Tâmisa — para comer sanduíches improvisados, mas infelizmente o «almoço» foi interrompido por uma ligação que Giles recebera do escritório para resolver um problema proveniente dos Estados Unidos. Duas semanas se passaram antes que Giles recebesse uma mensagem direta de Kathy no Twitter, onde sugeria que tivesse m um segundo encontro, desta vez em Kent, num domingo. Ele aceitou de bom grado, pois recentemente as oportunidades de se encontrarem eram raras e esparsas.
  • 32. Todos os dias, Kathy tomava o trem em London Bridge com destino a Ashford, que ficava a aproximadamente trinta quilômetros de Kent. Normalmente a viagem levava pouco mais de uma hora, o que lhe dava tempo para pensar sobre o que acontecera durante a jornada de trabalho ou no que estaria por vir, e, ocasionalmente, para terminar alguns e-mails ou verificar dados do projeto em que estivesse envolvida. Na verdade, era um meio de transporte fiável, e ela trabalhara em Londres a vida inteira; foi lá que conhecera Matt, o seu primeiro marido, há tantos anos. Já fazia mais de uma década que ambos haviam se estabelecido em Kent, para Kathy, devido à comodidade de estar próxima à família, o que funcionava bem: o seu pai a buscava na estação quase todos os dias e a levava no carro da família para Mersham — a sonolenta aldeia que ficava a poucos quilômetros da estação —, onde vivia com o marido, na direção oposta da casa dos pais. Era um ambiente limpo e seguro para Jess, e o pub local era perfeito para se socializar e consumir as cervejas da região. O preço do bilhete de trem e as deslocações diárias tinham um baixo custo, uma vez que permitiam que usufruíssem de uma boa qualidade de vida e de uma casa bem localizada. Kathy e a filha, no começo, viviam mais próximas de Ashford, mas a modest a moradia onde vivia com o marido teve de ser vendida quando se divorciaram, para que fosse realizada a divisão do patrimônio obtido em comum. Ela estava satisfeita por ter conseguido adquirir um chalé da virada do século XIX, tão próximo da casa dos pais. Quanto a eles, Rachel e Jack, estavam sempre dispostos a dar cobertura à adorada e um tanto mimada Jess, aproveitando a sua companhia nas muitas tardes de verão, depois das aulas e em passeios pelos campos montanhosos de Kent. Além disso, acompanhavam a neta nas atividades extracurriculares e a ajudavam nas lições de casa aos domingos.
  • 33. Tanto Giles quanto Kathy estavam ansiosos por saírem juntos, mas tentaram manter a calma para não serem precipitados no relacionamento que se solidificava e que era tão bem-vindo. Embora os três tivessem imediatamente criado um vínculo no dia dos Jogos, concordaram em encontrar-se num local mais neutro e calmo: o Santuário de Vida Selvagem, em Kent, numa agradável tarde de domingo, onde poderiam alimentar com pão os muitos patos, que de tão variados, muitas vezes era difícil identificá-los. Coube a «BraVô» — o apelido que Jess dera ao avô — buscar Giles na estação de Ashford. O pai de Kathy, Jack, deulhe um breve «olá» de boas-vindas e, antes de se afastar, confirmou a hora para levar Giles de volta à estação. O idílico cenário campestre era perfeito para o passeio: o pequeno lago, um suave açude de moinho, repleto com uma infinita variedade de patos, que disputavam junto a um peixe escuro as migalhas habilmente lançadas por Jess, parada às margens da água com os pés ligeiramente submersos, espalhando lama por todos os lados. O vínculo inicial entre Jess, Giles e Kathy se manteve e simplesmente recomeçou do ponto em que tinha sido interrompido, com uma nova profundidade e energia. Eles curtiram o sorvete local e a cálida luz solar de verão; Jess demonstrava estar muito apegada a Giles. Ela gostava de ter um homem por perto e esperava que da próxima vez ele lhe consertasse a bicicleta — partindo do princípio que ele sabia como fazê-lo. Jess sentia falta do pai, mas Matt, o ex-marido de Kathy, havia se mudado de Ashford para o Sul de Hull e as duas visitas mensais a que tinha direito para estar com a filha estavam se tornando raras à medida que a vida seguia em frente, devido a compromissos pessoais e profissionais. Matt superou emocionalmente a separação e tinha uma nova parceira; e, ao invés de passar os fins de semana com a filha, preferia passar mais tempo com ela nas férias, se fosse possível. Kathy considerou esta situação difícil, se não inaceitável num primeiro momento, querendo que Jess ficasse com o pai tanto quanto possível. Com o tempo, Kathy
  • 34. ficou mais flexível com a mudança das visitas, porque a qualidade do tempo que Jess tinha com o pai melhorara, juntamente com o amor e o apoio emocional que recebia. A tarde, tão rica em atividades, passou depressa, e os horários dos trens disponíveis para o retorno de Giles logo se esgotariam. O carro de Jack, que chegara no horário marcado, já estava à espera no estacionamento há uma hora, quando, finalmente, os três apareceram. A janela ao lado do motorista estava aberta, a poltrona reclinada, e Jack dormia profundament e ao volante, debaixo da sombra; podia-se ouvir-lhe o ronco abafado a uma distância de 1,5 metro. Logo, porém, foi despertado pelas risadas do trio; ajeitou-se antes que se acomodassem no banco de trás, para o curto trajeto até a estação. — Oh! Oh! Olá, olá!... — desculpe, adormeci... Que horas são? — perguntou Jack, passando a mão na boca para detectar sinais de alguma baba inesperada. — Está bem tarde — sorriu Kathy, que parecia ter uma aura luminosa ao seu redor, prestes a soltar a mão de Giles, que segurava levemente. — Prontos para irmos? Gostou dos patos, Jess? — Bacanas, BraVô! Tinha um enorme! Nunca tinha visto um tão grande... era preto! — É mesmo? Entre e conte-me sobre isso no carro. Acho que temos de levar alguém à estação... — Jack piscou o olho para Giles enquanto as portas do carro se abriam para receber os passageiros. A viagem até a estação durou somente uns cinco minutos. Conseguir pronunciar uma palavra com a presença de Jess no carro era divertido, mas também um desafio. Giles saiu do carro rapidamente. Jack lhe estendeu a
  • 35. mão dizendo: — Esperamos vê-lo novamente, meu jovem. Antes que Giles seguisse o seu caminho, Kathy e Jess, cada uma de um lado, tomaram-lhe as mãos, e os três caminharam de mãos dadas até a plataforma onde o trem que o levaria de volta para casa estava prestes a sair. Kathy se aproximou dele, dando-lhe carinhosamente um beijo e um abraço apertado de despedida, e, por um momento, ambos mantiveram os lábios e os corpos colados. Por um instante, esqueceram-se da presença de Jess, todavia foram logo lembrados, pois ela soltara uma risadinha e exigira também um abraço. Giles obedeceu feliz, levantando-a em direção ao céu. A sua afeição por ela crescia na mesma proporção da que crescia por Kathy. — Será que vou ver você novamente, em breve? Por favor… — exigiu Jess. Giles assentiu antes de recolocá-la no chão e confirmou: — Sim! — depois sussurrou a Kathy — Até amanhã — beijando-a novamente na face enquanto remexia no bolso à procura do bilhete que entregaria no trem parado à sua frente, com as portas abertas. — Claro. Vamos nos encontrar em breve? — e ela não se referia aos breves encontros junto à máquina de café no escritório. — Com certeza, tente me deter! — sorriu enquanto se afastava dela. Depois parou para dizer a Jess — Vejo você em breve, gatinha! Entrou no vagão e ficou à procura de um lugar adequado junto à janela. Jess sorriu e acenou, agarrando a mão da mãe e encostando o seu corpo junto ao dela, em busca
  • 36. de conforto. A menina acenou delirantemente da plataforma até perder o trem de vista, mandando beijos imaginários, imitando o que já tinha visto outras pessoas fazerem, com um grande sorriso estampado no rosto. Giles sabia que iria sentir falta delas… já estava sentindo!
  • 37. 5. Sem condições de voltar para casa O encontro seguinte foi mais cedo do que esperavam ou poderiam ter planejado. Logo na terça-feira, dois dias após a visita de Giles a Kent, devido ao forte calor do final do verão, o serviço ferroviário utilizado por Kathy para voltar para casa fora suspenso, pois havia o risco de que os trilhos cedessem e causassem um descarrilamento. Como o conserto seria realizado durante a noite, ônibus lotados foram disponibilizados como uma pobre alternativa de transporte. Esta ocorrência era felizmente incomum, mas não inédita, e como consequência formou-se uma enorme fila que dobrava a esquina, composta por pessoas cujo cansaço e aborrecimento eram notórios. Kathy atravessava a passos largos a ponte sobre o rio Tâmisa, para tomar o trem na estação London Bridge, quando deparou com esta fila composta por pessoas que tinham uma fisionomia frustrada e celulares encostados aos ouvidos. Ao perceber a situação, desacelerou o passo. Que pesadelo! A agência já havia fechado, e os colegas se dispersaram, cada qual em seu caminho, indo para casa ou outro destino qualquer. A ideia de realizar uma viagem de volta para casa após uma jornada tão longa de trabalho — mais longa do que de costume, em virtude de uma comunicação de mídia que tinha prazo para ser entregue ao cliente de um projeto — era para Kathy desagradável e desencorajadora. O calor era opressivo, por isso, enquanto caminhava para a estação, Kathy habilmente pegara uma presilha de ébano e prendera o cabelo — que agora se emaranhava levemente nos óculos que portava sobre a cabeça — para que o ar, apesar d e quente, lhe circulasse em torno da linha do pescoço fino. Usava um vestido leve de algodão florido que lhe aderia um pouco ao corpo devido à transpiração. Ela remexeu na sua bolsa, tirou o celular e ligou aos pais para saber de Jess e també m para informar que estava bem, mas que voltaria para casa tarde, muito tarde, devido ao problema
  • 38. ocorrido com o transporte — não se preocupava com a filha, pois sabia que podia contar com eles. Sentiu-se aliviada ao pensar em Giles, achando que, de alguma forma, ele poderia libertá-la desta situação indesejável; enviou-lhe, então, um torpedo para ver se ele poderia ajudar e se estava por perto. Ela agora estava parad a na área externa da estação, tentando evitar o tumulto de passageiros confusos, também à procura de alternativas. Giles, encantado com este infortúnio que poderia significar uma oportunidade inesperada, ligou para Kathy e, de bom grado, convidou-a para que o fosse visitar: o seu apartamento ficava a apenas cinco minutos de caminhada de onde ela se encontrava. Kathy se dirigiu ao apartamento, mas antes detendo-se um pouco na estação para disfarçar o quanto havia ansiado por este convite. Giles, que se orgulhava de suas habilidades culinárias, usava um avental sobre as calças jeans quando ela chegou; a massa já estava na panela a ferver, e o Pinot Grigio, recém-tirado da geladeira, estava frio e transpirando numa grande taça em virtude do calor da noite de verão. Ele já tinha feito uma rápida incursão pelo apartamento para garantir que não houvesse coisas de «homem» espalhadas, que poderiam revelar demasiadas informações sobre o seu estilo de vida celibatário, embora a époc a hedonista já tivesse passado, e as lembranças dessa época tivessem sido trocadas pelo fardo, por vezes agradável, d e administrar um negócio. A Senhora Cormack — que o conhecia bem e o aturava — tinha lá estado no dia anterior, e deixado o lugar impecável; felizmente, devido às pressões profissionais, ele ainda não tinha tido a chance de lhe destruir o trabalho. A Senhora Cormack já estava com sessenta e poucos anos. Tinha uma expressão dura, mas agradável, cabelos grisalhos, curtos e com permanente, e havia agora reduzido o vício de fumar devido ao custo. Quando da separação, resolvera ficar com aquele que lhe pagava pelos serviços realizados na antiga casa de Clapham — que no passado fora tão almejada pelos donos — , antes de ser vendida para pagar todos os credores.
  • 39. O interfone soou na sala desbotada pelo sol. Giles, então, atravessou o apartamento para permitir o acesso ao antigo armazém convertido em prédio residencial. — Oi, entre, o jantar está pronto! — exclamou, sem sequer verificar quem era. Giles se apoiou na porta aberta para receber Kathy, que chegou ao apartamento compreensivelmente perplexa e frustrada, mas, mesmo assim, satisfeita por vê-lo. Kathy parou sob o umbral da porta e o cumprimentou com um beijo prolongado. Giles a segurou em seus braços, e o momento durou alguns apaixonados segundos antes que ela voluntariamente o acompanhasse ao interior. Assim que Kathy largou a bolsa e a pasta, telefonou para casa para verificar com seus pais se estava tudo ok, se Jess estava bem e dizer-lhes onde estava. Kathy, bastante calma, perguntou a Giles se poderia passar a noite lá. Ele concordou, de forma casual, mesmo sabendo qual seria o resultado óbvio e esperado. — Obrigada! — disse Kathy, antes de lhe dar um beijo e de mandar um torpedo a seus pais para confirmar que só voltaria no dia seguinte, e, a pedido de Giles, mandou um «um beijo para Jess em seu nome». — Branco ou tinto? — ofereceu Giles e, por achar que ela poderia querer um pouco de privacidade, afastou-se e foi colocar os pertences de Kathy sobre uma das cadeiras da sala de jantar, antes de ir para a cozinha. — Branco, por favor. Você está sendo muito legal, Giles — disse, satisfeita por estarem finalmente a sós. — Sinta-se em casa; a varanda está aberta e o pôr do sol está perfeito — observou ele, da cozinha, levantando a voz, supondo que ela ainda estivesse no corredor. De repente, ele sentiu os braços dela a deslizarem por trás até lhe abraçarem a cintura; ela conseguira entrar na cozinha sem que ele a ouvisse; então, ele sentiu um carinhoso aperto, antes de soltá-lo
  • 40. levemente para que pudesse se virar. Ela era sofisticada e linda; Giles se derreteu diante dela. Mesmo com o calor e com as dificuldades pelas quais ela tinha acabado de passar, exalava charme feminino e sexualidade. Ele pousou as taças que estava prestes a servir sobre a bancada, segurou o rosto dela com as mãos e ergueu-lhe os lábios em direção aos seus. Os quentes e suaves lábios de Kathy envolveram os dele à medida que compartilhavam o momento; as línguas dançavam entre si, e a paixão começou a efervecer dentro deles. Era um momento intenso, e ambos procuravam controlar os sentimentos ao mesmo tempo que ele a mantinha presa em seus braços. — Antes que eu... nós nos empolguemos demais, posso lhe oferecer o jantar? — Giles sorriu, encarando-a, sem querer quebrar o contato. — Maravilha, estou morrendo de fome! — respondeu Kathy. Giles verteu vinho nas duas taças que estavam na bancada; ela se serviu e foi até a varanda admirar a vista. Duster miou do peitoril da janela para a cumprimentar. Giles começou a trabalhar na elaboração do jantar, orgulhoso de que seus dotes culinários estivessem sendo postos à prova. Da cozinha, sentiu o cheiro e avistou baforadas provenientes do cigarro que ela secretament e fumava na varanda, e que se misturavam ao vapor da massa. — Sabe, isto vai matá-la! — exclamou num tom alto, mas brincalhão. Kathy hesitou, pensando que a sua discrição permitiria disfarçar as tragadas sorrateiras. — Desculpe, você gostaria que eu o apagasse? — Não, tudo bem… gostou do vinho? Achei bom… obrigada… muito bom… excelente, na verdade. — A voz de Kathy vinha agora de uma outra direção.
  • 41. Kathy andava suavemente pela sala; o sol que se punha brilhava nas paredes brancas e nos veios da madeira clara d o assoalho enquanto beijava o grande tapete branco. Uma mesa d e jantar de vidro contribuía para o ambiente arejado que emanava da casa, e Kathy, com a taça de vinho na mão, explorava os quadros nas paredes: a maioria composta por gravuras numeradas; havia algumas serigrafias dos filmes de Harold Lloyd dos anos 1920. A modernidade histórica destas obras refletia a natureza extrovertida e otimista de Giles, assim como a sua coleção musical de CD, cuidadosamente empilhados, em ord e m alfabética, nas prateleiras de madeira clara, que contrastavam com as paredes brancas. — Tudo a ver com o seu lado feminino — disse Kathy, enquanto tocava nas caixas das variadas trilhas sonoras. Giles saiu da cozinha, segurando dois pratos, em direção à mesa de jantar. — Oh! Você está falando dos CD! — disse Giles, após pousar os pratos na mesa e aproximar-se. — Espero que sim. São maioritariamente meus, mas alguns são «herança» da ex. Escute este! Giles se inclinou, apanhou o controle remoto, ligou o som e, a partir daquele momento, a voz de Norah Jones passou a integrar a atmosfera; depois, ainda com o controle na mão, apagou as luzes. Kathy sorriu, sugerindo que uma oportunidade como esta para impressionar era rara e nem sempre bem- sucedida; mas esta ela tinha a certeza que seria. Sentaram-se lado a lado. Estavam com o paladar estimulado pelo aroma do vapor do talharim ao molho rosé, acabado de ser preparado, que emanava dos pratos brancos, quando decidiram se servir de mais vinho. As portas da varanda foram abertas para que o ar da noite, agora fresco, compensasse o calor que acabara de chegar da cozinha. Não lhes faltou assunto durante o jantar. Falaram sobre ex-parceiros , sobre como os conheceram, o que deu certo, o porquê de se
  • 42. terem apaixonado e posteriormente os terem perdido, a causa da separação, sobre como ambos recuperaram, e ainda, sobre os reais motivos que levaram Giles à pequena tatuagem do Capitão Caverna, e afins. A imersão no passado foi mútua e solidária, e os ensaios dessa iniciativa não os envergonharam, uma vez que, de boa vontade, investigavam reciprocamente os seus mundos e a forma como estas experiências se manifestaram para criar a pessoa que estava diante deles. O jantar estava delicioso. Giles ficou aliviado por ter se superado: os pratos foram limpos com pedaços rasgados da baguete adquirida no mercado gourmet a caminho de casa. Levantaram-se da mesa e foram à varanda para assistir ao pôr do sol sobre a Tower Bridge. Kathy fumou o habitual cigarro após o jantar e enviou uma mensagem de boa-noite a Jess, antes de ficarem realmente sozinhos. Relaxados, lado a lado, encostaram os braços no parapeito da varanda e se debruçaram para observar as ocupadas embarcações a exercerem as suas atividades ao longo do rio Tâmisa — eram os «barcos da baderna», como eram carinhosamente chamados por Giles — apinhados de passageiros bêbados, festejando a noite inteira. As muitas luzes salpicadas de Londres se acenderam quando a luz do dia enfraqueceu; e a iluminação brilhante do estádio distante, que visitaram recentemente, cintilava ao leste. As esteiras que os barcos iam deixando para trás, à medida que se movimentavam, apanhavam os últimos filetes de sol enquanto o seu brilho alaranjado se desbotava. Olhando para o Leste, na direção do local onde os Jogos se realizaram, Kathy sussurrou: — Sabe, foi tão bom o dia que passamos juntos! Jess aind a não parou d e falar sobre isso… ou sobre você, desde então — disse, relembrando aquele domingo inesquecível nos Jogos.
  • 43. Giles se virou para Kathy e a beijou suavemente. O toque os fez levantar, para logo se abraçarem: era como se o beijo entrelaçasse as suas bocas, enquanto as línguas enroscavam uma na outra, numa mútua exploração, desta vez sem interrupções, à medida que apreciavam um ao outro, durante um tempo longo e intenso. Ele se afastou dela para a poder observar, mirou-a profundamente e lhe acariciou o rosto de forma suave e terna. Depois, tomou-lhe a mão e a conduziu para o quarto — deixando as portas da varanda abertas. Eles se detiveram na beirada da cama king size, coberta por um lençol branco; ele continuava a fitá-la nos olhos com intensidade enquanto se beijavam, numa paixão arrebatadora e recíproca. A mão de Giles acariciou os seios de Kathy e, pouco a pouco, percorreu-lhe o corpo em direção à cintura ao mesmo tempo que, com delicadeza, lhe desabotoava um a um os botões do vestido, revelando o leve corselete branco de renda. Ela puxou-lhe a camisa, que ele prontamente abriu, deixando o tronco a descoberto. O vestido de Kathy deslizou em direção ao assoalho de madeira enquanto ela, cuidadosamente, se desvencilhava dele.
  • 44. — Há tanto tempo que sonho com este momento — ele lhe disse em sussurros, alternando cada palavra proferida com beijos suaves e leves em diferentes partes do rosto dela. — Eu também — confirmou Kathy, com a pulsação aumentando por antecipação. Ambos haviam sonhado com esse momento, ávidos de desejo. Kathy almejara tanto que a primeira vez que fosse para a cama com Giles — o recomeço de sua vida sexual — fosse especial, carinhosa e apaixonada: a situação em que se encontrava estava à altura de suas expectativas e da necessidade de ser amada. Quase desajeitada no início, Kathy, que não tinha tido intimidade com um homem desde o seu tempo de casada — e mesmo nessa époc a nunc a se sentira à vontade — estava receptiva, excitada e pronta para Giles. Começando pelo peito, roçava os lábios nos mamilos dele, depositando-lhe beijos de poucos em poucos segundos, variando a intensidade de cada um. Ela foi lhe passando os leves dedos pelo cabelo enquanto ele abria a fivela do cinto e o fecho das calças, até que caíssem e ele se depreendesse delas: a sua ereção era evidente sob o boxer preto. Juntos, subiram na cama; beijavam-se com intensidade: os seus lábios se prendiam firmemente durante a frenética e mútua exploração das línguas. As peças de roupa que ainda não tinham sido tiradas recebiam uma atenção especial, e cada parte do corpo que ia sendo revelada, tanto dele quanto dela, era beijada, o que provocava a investigação do corpo um do outro. Estavam num jogo de descobertas físicas: o corpo dela era delicado e bem cuidado, o dele, firme e tonificado. Giles fez uma pausa e, estendendo a mão para alcançar a gaveta do criado-mudo, retirou um preservativo ainda na embalagem. Ela o tirou da mão dele, e, juntos, procederam à sua colocação; as mãos dela rolaram suave e habilmente pelo membro dele. Giles acariciava-lhe as costas ao passo que ela
  • 45. completava a tarefa e olhava para algo que há muito não via. Kathy se movia e lhe beijava o peito enquanto o seu rosto conduzia o corpo dele sob os lençóis. Ela encostou a sua cabeça na dele e o beijou delicada e concentradamente. Com os seus corpos encaixados, ela deslizou suavemente as pernas pelas coxas de Giles, que se posicionou e se ofereceu a ela. Kathy aceitou este avanço enquanto a sua abertura úmida o envolvia, deslizando sobre o tronco dele. Ele sentia a umidade feminina de excitação que se desprendia do interior dela. No início, tinham um ritmo gentil e receoso, numa tentativa de se conhecerem fisicamente; essa exploração erótica era um progresso no relacionamento. O colar de ouro que ela usava lhe repousava no pescoço, enquanto ambos se concentravam um no outro e na realização do ato de amor. Kathy gemia de prazer em virtude do contato físico com alguém que há muito desejava; Giles vibrava com a paixão provocada pela intimidade. Ainda encaixados, rolaram para o outro lado da cama: não podiam perder o contato de seus corpos entrelaçados. Kathy, sem soltá-lo de dentro de si, mudou de posição, colocando as pernas por cima dele, agarrando-lhe novamente as costas quentes com força, ávida por ele; nesta nova posição, a penetração tornou-se mais profunda. Ela contraía o seu interior firmemente e lhe acariciava o pescoço, enquanto o movimento de ambos, em total sincronia, se tornava progressivamente enérgico, com os seus seios comprimidos contra o peito dele. Giles podia sentir o pulsar do coração dela enquanto se movia, para frente e para trás, dentro de Kathy, que retribuía no mesmo ritmo. Giles era gentil e atencioso; compreendia a vulnerabilidade dela e apreciava o seu desejo por ele, bem como o compromisso que estava assumindo em relação a ele. Giles estava ciente desta realização e se sentia orgulhoso do que estava lhe sendo concedido. Continuaram ainda mais unidos, atingindo novos níveis de esforço até alcançarem o clímax juntos, abraçados e entrelaçados, conscientes de que cada um chegara ao limite de
  • 46. tolerância física de seus corpos. Continuavam a se mirar fixamente enquanto um mergulhava na alma do outro. Eles compartilharam a união definitiva dos seres; permaneceram abraçados por alguns instantes após atingirem o orgasmo. O corpo dela estremecera docemente durante o pico da penetração, e depois de alguns momentos relaxou, sentindo uma moleza no corpo. O contato físico abrandara, e, aos poucos, foram se soltando. Ambos ostentavam nos rostos um brilho quente de satisfação e amor recíproco e, deitados lado a lado, relaxavam sob os lençóis de algodão. Ficaram por alguns momentos sem nada a dizer, quase ofegantes, dividindo um sentimento de amor e plenitude que nenhum deles vivenciara havia muito tempo. Pouco foi dito, nem precisava sê-lo. As emoções íntimas de ambos é que conversavam entre si. Logo ficaram sonolentos devido à intensidade que acabaram de partilhar. Descansavam d e forma intermitente, confiantes que agora estariam enredados pela atração física. Houve um momento em que Kathy se viu acordada, simplesmente olhando para Giles, investigando-lhe o rosto: da sobrancelha arqueada até o cabelo, ao mesmo tempo que lhe admirava a respiração calma. A comunhão desse amor fazia Kathy se sentir relaxada. A excitação pelo futuro que os aguardava foi diluída pela necessidade de dormir; sentindo as pálpebras lhe pesarem, fechou os olhos e logo caiu no sono. Pela primeira vez, ambos experimentavam um novo grau de intensidade de amor. Nunca viveram tal veemência emocional com outros amantes, incluindo os ex-parceiros. Isto lhes garantia o sonho de uma vida realizada. O calor que fazia naquela noite em Londres era sufocante; assim, logo tiraram os lençóis brancos que os cobriam. No entanto, a sensação térmica era superior à temperatura, em parte pela energia gerada por eles, e em parte
  • 47. pelo calor que deles emanava, por estarem deitados de conchinha, enquanto as respectivas consciências ora despertavam ora se desviavam da realidade. Embora estivessem fisicamente cansados por terem acabado de se satisfazer no amor, Giles acordou ao de leve, com a mente voltada para as fortes emoções, o prazer e o carinho recém- experimentados, enquanto se abraçavam e descansavam encaixados um no outro. Já Kathy, caiu rapidamente no sono: tivera um longo dia e uma noite emocionante e mais longa ainda. Giles a admirava através de um filete da iluminação de Londre s que entrava no quarto, tanto pela janela quanto pela porta — a varanda estava entreaberta desde a hora do jantar. Ele , que acariciava o rosto dela com a ponta do dedo médio, observava-lhe a respiração calma e os seios firmes, que apontavam para o seu lado. Os seus olhos mantinham o traço e o rímel: era uma maquilagem pesada, mas perfeita, e o seu brinco delicado refletia um pontinho de luz. Nunca havia reparado no piercing de ouro que ela tinha no topo de uma orelha, pois ficava escondido sob o sedoso cabelo castanho; sentiu-se quase renegado ao constatar a arrogância juvenil que ela ainda mantinha. Ele sorriu e suspirou enquanto os hormônios o levavam levemente a adormecer; vencido pelo cansaço, caiu no sono que a mente lhe exigia. À medida que o manto escuro da noite se estendia, o sono deles se equilibrou; vez por outra, moviam-se e se acomodavam carinhosamente, dividindo a leve roupa de cama, o colchão e a luz de verão. O frio da madrugada encontrou membros descobertos à procura de proteção adicional que os aquecesse. Ambos tinham vivenciado longos relacionamentos antes e estavam agora desfrutando dos renovados benefícios de partilhar o calor do corpo da pessoa amada; Os dois já haviam se esquecido desse prazer. Esta convivência era tão natural, que lhes dava a impressão de serem destinados um ao outro. Kathy se mexeu um pouco, antes que o rádio-relógio de Giles tocasse e que ouvisse um «bom-dia» sob os lençóis. Com os olhos bem abertos, ele sentiu um beijo suave em seu peito e
  • 48. a perna dela a encostar-se na sua, enquanto ela continuava encostada no seu corpo nu. Era tão bom acordar nos braços de alguém que se deseja e admira após dormir «de conchinha» a maior parte da noite... — Oh… Oi — disse Giles, agitado, esticando os braços antes de colocá-los nas curvas de Kathy, para abraçá-la. Os seus seios roçaram-lhe a pele quando ela ergueu a cabeça para ficar na altura dele e beijá-lo lentamente, sorrindo, enquanto lambia os lábios levemente antes de mergulhar em sua boca. Giles estava deitado de costas, e ela, devagar, quase furtivamente, subiu em cima dele, que ficou imediatamente excitado com a ideia de ser devorado por sua passageira. Giles, de boa vontade, passou os braços em volta dela, animado com esta energia renovada e exploratória que se lhe apresentava. Os preservativos estavam há muito esquecidos, nada precisava ser dito, ambos tinham os mesmos desejos. As pernas dela logo se abriram suavemente, pousando ao lado das dele. A penetração foi alcançada sem demora, e desta vez, por estarem sem proteção, tiveram uma sensação mais próxima; ambos vibraram com este contato íntimo e delicado mais intenso. O ato de amor foi menos apressado desta vez, quase preguiçoso, porque simplesmente aproveitavam a proximidade que tanto ansiavam. O modo como ela se movimentava de forma firme e ininterrupta, massageando-lhe o membro, levou-os ao orgasmo em poucos minutos. Kathy repousava deitada sobre ele à espera que a ereção de Giles cedesse completamente e ele saísse de dentro dela. Um sorriso veio ao rosto de ambos enquanto a cabeça dela permaneceu apoiada em seu peito, ouvindo-lhe o pulsar já desacelerado do coração. — Café? — Sim, por favor — respondeu Kathy enquanto Giles começou a desvencilhar-se e a sair de baixo dela.
  • 49. — Oh! Não vá. — Ela se agarrou a ele, esfregando-lhe as pernas com movimentos simples, como se estivesse propondo que o contato sedutor continuasse. — Preciso de café, de banho e de ir trabalhar — disse ele, com a voz um tanto determinada. A alegria de vê-la ignorar o bom senso lhe agradava, embora soubesse não ter tempo para atender aos seus apelos. — Ok, as duas primeiras soam bem, de qualquer maneira — disse ela, levantando-se para ir ao banheiro; Giles lhe admirou o traseiro perfeito. Duster, o gato, parecia confuso com a presença desta nova pessoa no apartamento, que vagava nua em seu território e que à noite o despejara do seu lugar na cama. Para evitar qualquer contato físico que lhe fosse oferecido, moveu-se rapidamente para trás da cortina para aproveitar o sol da manhã que já tinha começado a irradiar o seu calor. Kathy se vestiu rapidamente e se maquilou no banheiro, utilizando os produtos coloridos que sempre mantinha na bolsa; depois, voltou à sala para ler as mensagens e os e-mails recebidos e ligar aos pais para saber como estavam. Ao conversar com eles, concordou em sair mais cedo do trabalho para compensar um pouco a ausência da véspera. Giles levou mais tempo a s e organizar, e Kathy saiu primeiro, pois ele preferiu que fossem para o trabalho separadamente; isso não diminuía o fato d e ambos saberem que estavam cada vez mais unidos. Ao entrar no escritório, Giles sentiu uma lufada do perfume de Kathy ao voltar da copa com a caneca de café, como fazia todas as manhãs. Ao se cruzarem, perceberam que a fragrância era do gel de banho dele. Kathy acenou-lhe para o prevenir, tentando manter o que restava da charada do relacionamento deles, não-tão-secreto assim, e começou a se afastar — desconfortável com o fato de querer na verdade agarrá- lo.
  • 50. Giles compreendeu esta abordagem, mas não conseguiu resistir à oportunidade; ele se inclinou para a frente e sentiu que ambos tinham o mesmo cheiro; arregalou os olhos e, confuso, enquanto ela, aparentando certa indiferença, já se afastava, exclamou: — Elementar, meu caro Watson! Sentindo-se algo rejeitado, mas não magoado, ele sorriu e voltou à sua mesa, derramando um pouco de café quando pousou a caneca na superfície. Já sentado, ficou desconfortavelmente excitado ao pensar em Kathy; esperava que, momentos antes, ao passar pelo corredor, os colegas não tivessem reparado no volume em suas calças quando o cumprimentaram. As lembranças de sua noite inebriante com Kathy eram poderosas, e as últimas horas, que o inundaram novamente de forma delicios a , aumentaram-lhe a pressão sanguínea… bem como outras partes do corpo.
  • 51. 6. Pertencer a alguém Aquele dia, para Giles, foi alucinante. Ele já havia previsto que estaria muito ocupado: a sua agenda estava repleta de reuniões, algumas presenciais, outras on-line. O que piorou a situação, porém, foi o fato de o líder de um importante e problemático projeto ter pedido a Giles, em cima da hora, que o substituísse. No fim do expediente, respirou aliviado e, só após a saída de todos os funcionários, incluindo Kathy, dirigiu-se ao apartamento que estaria vazio, não fosse por Dustin, o seu companheiro felino. No quarto, a roupa de cama ainda estava espalhada pelo chão e os travesseiros ostentavam a maquiagem de Kathy. A lembrança da noite anterior o fez sorrir. Giles contava para o gato o que estava acontecendo em sua vida enquanto se esforçava a organizar o espaço. — Pensei que você, pelo menos, fosse dar uma arrumad a nesta bagunça, Duster! — disse ele, como se o gato pudesse lhe responder. E continuou — O que você ficou fazendo o dia inteiro? Logo, porém, Giles perdeu o interesse em colocar tudo no seu devido lugar, preferindo aceitar o convite do pôr do sol, brilhando lá fora. Assim, foi à varanda para aproveitar os últimos raios quentes antes que a escuridão ficasse salpicada pelas luzes da Tower Bridge; enquanto bebericava uma cerveja gelada de uma grande caneca, via aumentar a infinidade de anéis multicoloridos iluminados que pairavam no horizonte. Giles pensava em Kathy e em nada mais, e a sua mente se expandia por causa da mulher com quem partilhara a cama na noite anterior. Sem planejar, Giles mandou a Kathy um torpedo dizendo: «Espero que tenha chegado bem em casa. Boa noite, x.» A luz de seu celular se acendeu, avisando que chegara uma mensagem: «Cheguei bem em casa. Obrigada por ontem,
  • 52. estou com saudades! X. Jess manda um beijo! X.» Giles sorriu de satisfação. «Estou pensando em você agora, Xx», foi a resposta que digitou, antes de largar o Smartphone para aproveitar a noite. Giles se indagou sobre o que teria acontecido se tivesse conhecido Kathy anos atrás e se fosse ele o home m com quem ela se casara nos anos noventa. Ele achou a ideia engraçada ao perceber que, na época, tinha uns dezenove anos, ao passo que ela teria vinte e dois. Foi um período borbulhante, caracterizado pela juventude emergente, pelas mudanças políticas, pela house music e pela cultura renovada. Ele se perguntou se o pesado delineador que ele apreciava nela e o renegado piercing na orelha seriam sequelas desse tempo. O seu rosto relaxou com um sorriso satisfeito no canto dos lábios, não só por lembrar-se dos dias felizes de verdadeira liberdade, das aulas na universidade, salpicadas entre raves, mas também por imaginar como seria Kathy todos aqueles anos atrás. Numa total sincronia, a cerveja perdeu a espuma e o sol se pôs. Giles, coberto por uma manta, relaxou ainda mais em sua cadeira e assim passou o princípio d a noite; Duster descansou no seu colo, sem querer ser perturbado, quando era ocasionalmente afagado. O celular acende u a luz , anunciand o o seguinte texto: «Tenha bons pensamentos. Boa noite, X.» Giles, esticado na cadeira, com os pés descalços sobre as grades do parapeito da varanda, fechou os olhos. Gradualmente, sucumbiu ao sono, após a longa jornada pela qual passara; Duster aproveitou a oportunidade para dormir também. O longo dia que tivera, chegara ao fim; como a temperatura caía, resolve u ir para a cama antes que adormecesse profundamente. Por trabalhar em Londres há muitos anos, Kathy tinha
  • 53. plena consciência dos desafios do deslocamento diário e da forma como problemas daí decorrentes — alguns pequenos, outros significativos — poderiam se manifestar: nevascas no inverno, inundações na primavera e altas temperaturas no verão. O serviço de trem que utilizava era, em geral, muito bom; mas quando algo dava errado, o sistema parecia desabar num ritmo alarmante. Os acontecimentos recentes que lhe restauraram a vida amorosa mudaram o seu ponto de vista sobre este assunto: qualquer problema que ocorresse no transporte seria uma desculpa para estar com Giles. Ela percebeu que quase torcia para que surgisse algum contratempo; não que a relação deles precisasse de uma desculpa para florescer. Isto lhe fazia lembrar da juventude, mas ela não estava mais com dezoito anos e tinha outros compromissos, ou seja, Jess. Quando não voltava para casa, ficava ansiosa em relação à filha amada, que ainda era muito jovem, mas crescendo tão rapidamente: tinha sete anos, mas às vezes lhe dava a impressão que estava prestes a completar quinze. O amor e a ajuda dos pais lhe davam um grande conforto; toda a família reconhecia que Kathy estava pronta para seguir em frente com Giles, que achavam perfeito para ela, com base nas histórias que ouviam a respeito dele. Eles comentavam as recentes transformações dela — aprovadas por eles com satisfação — em relação à personalidade e às atitudes. Mesmo Jess, continuava a falar dele e dos momentos que viveram juntos em Londres… ou em Kent, com os patos. Na semana seguinte, o calor do verão interferiu novamente na rotina de Kathy e o trem que a levaria de volta à casa, mais uma vez, iria se atrasar, mas pelo menos desta vez isto fora anunciado previamente. Tinha sido difícil chegar ao trabalho naquele dia: ela se atrasara por cinquenta minutos e, muito aborrecida, foi obrigada a adiar a primeira reunião do dia, marcada para às 9h15. Kathy não hesitou: sabendo que os seus pais cuidariam de Jess, ligou para Giles a perguntar se poderia passar a noite na casa dele, sem sequer indagar se haveria condições de tentar empreender a longa viagem de volta para Kent. Giles aceitou na hora, sem pestanejar. Ele sentia a falta dela desde o último encontro, embora, quase como uma
  • 54. criança castigada, tenha se lembrado da despensa vazia e da necessidade de comprar algo para comer no caminho de casa. Após a chamada, ele parou por um momento para organizar os seus pensamentos conflitantes: questionava-se sobre em que fase interior se encontrava, sentia-se numa vertiginosa felicidade, mas tinha medo de revelar o seu ser mais profundo. O sexo entre eles fora simplesmente delirante. Provavelmente nunca antes tinha se entregado a uma alma com tanta intensidade , ne m mesmo às namoradas da juventude; não conseguia se lembrar de ter compartilhado algo tão significativo com a ex-mulher. Foi então que percebeu que estava se apaixonando perdidamente — algo que não acontecia há muito tempo. Ele riu da forma brega como este pensamento juvenil lhe veio à mente, mas essa emoção foi logo substituída por outra nunca antes saboreada: a percepção de que Kathy era a mulher que sempre quis e de como, durante toda a sua vida, sentira falta de um sentimento assim — definitivo. Ele refletiu a respeito da magnitude desta revelação maravilhosa, que lhe encheu a alma de satisfação e plenitude. Já no fim da tarde, Giles ligou a Kathy sugerindo que, como o tempo estava quente e agradável, antes de chegarem à casa poderiam caminhar até a Embarkment, marginal que acompanha o rio Tâmisa, para jantarem e tomarem vinho… Ela respondeu apressada, antes de desligar: «Adorei a ideia, a gente se encontra lá pelas seis, há outra chamada em espera.» Ambos esperavam ansiosamente por este passeio romântico. Ao saírem do prédio, Giles lhe ofereceu o braço e juntos desfilaram pomposamente pela calçada, evitando a antiga faixa de pedestres e ciclistas, e enquanto serpenteavam na direção do apartamento admiravam a vista que os rodeava. No caminho, pararam numa taverna para tomar um drinque. No mercadinho gourmet local, compraram uma baguete fresca, azeitonas, várias qualidades de queijo e outras iguarias, criando um minipiquenique para degustar em casa. O amor que um sentia pelo outro foi, de forma lenta mas
  • 55. segura, crescendo a cada encontro — enriquecido pela recíproca exploração em que confirmavam aspectos sutis de personalidade que claramente um valorizava no outro. Giles não queria só sexo ou luxúria (embora estivessem curtindo essa nova experiência), o importante era estar com alguém, fazer parte de uma vida a dois, ser amado. Quando terminaram o jantar, e após terem lavado a louça juntos, precisavam de conforto e descanso. O contato partilhado na cama foi mutuamente controlado, carinhoso e cansado: abraçaram-se durante toda a noite, à medida que experimentavam uma paz interior e a agradável sensação de estarem num santuário, mais uma vez. — Boa noite — sussurrou ele, beijando-a docemente na testa. Ambos dividiram o mesmo travesseiro, e Kathy se acomodou bem abaixo da boca de Giles. — Boa noite… Eu amo você — respondeu Kathy, num sussurro, já sem receio de se expor demais. Giles lhe beijou a cabeça novamente e murmurou: «Eu amo você», tentando manter a calma ao ouvir a melhor coisa que lhe disseram nos últimos anos; esperava que ela não sentisse o acelerar de seus batimentos cardíacos. Ele ficou parado por um tempo, segurando-a em seus braços; não existia mais a vontade de continuar solteiro e livre, mas a de pertencer a alguém: a Kathy. Na verdade, este fora sempre o seu desejo, embora a escolha que fizera no passado tenha sido equivocada — como o tempo o demonstrou. Kathy adormeceu em seus braços, mas depois se virou para ganhar o seu próprio espaço; o calor do verão penetrava na atmosfera da noite. A iluminação noturna da noite de Londres transpassava as frestas das janelas emolduradas por metais antigos, e permitia que Giles apreciasse as formas de Kathy sob os lençóis brancos que dividiam; como as pernas esbeltas e
  • 56. depiladas estavam descobertas do joelho para baixo, ele lhe observou os pequenos pés com os dedos cuidados e pintados de vermelho, combinando com o batom. O rosto dela parecia em paz enquanto respirava calmamente, quase em silêncio; tinha a mão apoiada na coxa dele, como se estivesse se assegurando de que ele era real, e não um sonho fantástico que iria desaparecer junto com os seus devaneios. Mais uma vez ele se viu acariciando-lhe o rosto, assim com fez na primeira noite que passaram juntos. O brilho compassivo de seus lábios pintados de vermelho lhe avivou a memória. Este estava se tornando um hábito que ele não queria perder. Ele pousou a mão na cintura de Kathy, para confirmar que ela era real e estava com ele. E lá a manteve enquanto, com os olhos fechados, a sua mente vagou para lugares desconhecidos. A manhã irrompeu com um susto. Kathy pulou da cama e abafou um grito ao ouvir um ronco e sentir uma lambida nos dedos dos pés. Aturdida, examinou ao redor do quarto e, só quando olhou para baixo, avistou Duster deitado à beira da cama, encarando-a com os grandes olhos bem abertos, brilhantes e altivos, como só um gato vira-lata é capaz de ter. Ela dirigiu a vista para a janela e depois para Giles, ao lado dela, para s e lembrar de onde estava; foi aí que deparou com grandes pés, que obviamente não eram os dela, fora dos lençóis. O coração, que até então disparava nervosamente, relaxou, e ela se inclinou para o beijar no ombro. — Bom dia — sussurrou ela. Giles foi estimulado pelo beijo e pela agitação, mas ela o tranquilizou, beijando-lhe o peito. Então, por recato, agarrou a blusa que usara na véspera e saiu do quarto para checar os emails e as mensagens recebidas e enviar um torpedo para casa. Giles teve um vislumbre de seu traseiro nu saindo vagarosamente do quarto e admirou esta visão com um sorriso; antes de fechar os olhos, comentou com o gato:
  • 57. — Ela gosta de nós, Duster! — dando uma piscadela e um sorriso, como faria o Gato Cheshire, personagem do clássico Alice no País das Maravilhas. Giles estava deitado de barriga para cima, com os olhos fechados. O telefone dela, de quando em quando, emitia bipes da sala, avisando da chegada de mensagens, mas ela acabou por retornar ao quarto minutos depois e viu que Giles tinha uma ereção sob os lençóis brancos. Enquanto ela se aproximava, admirava-lhe a forma; juntou-se a ele na cama, deslizando sob o único lençol partilhado pelos dois. Ao se ajeitar para se encostar no corpo claro e esbelto de Giles, casualmente acariciou-lhe o volume — a expressão dela irradiava um brilho caloroso. Depois , as unhas pintadas tocaram na tatuagem do Capitão Caverna, e ela a beijou delicadamente e sorrindo, antes de olhar para cima e aconchegar-se mais para receber a investida matinal, esfregando suavemente os seus mamilos contra os dele, sentindo na cama o calor que o corpo dele emanava.
  • 58. O desejo mútuo explodiu enquanto se agarravam. A necessidade de ficarem juntos era sufocante, sensual e inebriante: desta vez, livres das inibições sentidas na primeira vez que se entregaram. A paixão, estimulada pela perspectiva da novidade de serem amados novamente, só lhes aumentou o apetite sexual, e com ele a luxúria. Aos poucos, foram sincronizando o ritmo até atingirem um movimento simultâneo. Ocasionalmente, Giles arqueava as costas para se aproximar do corpo magro dela, abaixando a cabeça para lhe alcançar os pequenos mamilos escurecidos, que beijava e sugava um a um. Ela reagia com intensidade a cada iniciativa que ele tomava; depois, os lábios dele procuraram os dela, e ambas as línguas começaram a se friccionar uma contra a outra. Rolaram na cama, sem querer desvencilhar as pernas do lugar onde estavam encaixadas, enquanto praticavam o amor. Ele passou as mãos viris sobre os contornos da coluna dela e depois, descendo-as, seguiu massageando até chegar ao topo de suas nádegas lisas — parando um pouco antes para sentir as ondulações sutis das covinhas de suas costas. As mensagens recebidas através de seus dedos lhe aumentavam o desejo à medida que continuavam a busca pelas curvas contínuas dela. Ele a puxou para mais perto dele, para que ficassem muito próximos: queria penetrá-la, entrar nela de forma suave, mas mais fundo, para que ambos se sentissem como um só; o êxtase que aos dois arrebatava atingiu níveis anteriormente desconhecidos. A intensidade da relação foi, para eles, uma experiência incrível, e, quando juntos atingiram o limite da tolerância, sentiram-se exaustos: os líquidos que deles provinham se fundiam avidamente; os seus corpos excitados alcançaram o clímax em harmonia, num padrão que esperavam poder repetir sucessivamente. Deitaram-se sobre os lençóis desarrumados, ambos de barriga para cima, furiosamente ofegantes: inalando muito ar no começo, mas aos poucos, relaxando. Um brilho de suor cobria- lhes uniformemente os rostos, cujas expressões
  • 59. pareciam atordoadas, por terem saboreado uma experiência que tinham mutuamente compartilhado e amado. Kathy estendeu a mão para segurar a de Giles, que a aceitou prontamente; os dedos se lhes entrelaçaram com força, e eles continuaram deitados lado a lado, fechando os olhos de vez em quando. — No que você está pensando? — sussurrou Giles cerca de um minuto depois. — Uau! — foi a resposta que resumiu perfeitamente a forma como ambos se sentiam — Poderia ser sempre assim! — É mesmo… uau! — concordou Giles, demorando um pouco para concordar, antes que se virasse para Kathy e a beijasse no rosto ao de leve; depois fechou os olhos de novo — desta vez propositalmente, enquanto se aconchegava no corpo quente de Kathy. Ela continuou com um olhar distante por alguns momentos mais, com a satisfação correndo-lhe nas veias e o coração acelerado, antes de também sucumbir ao cansaço e fechar os olhos. Este precioso repouso foi de curta duração, pois o tempo passava, e, devido às responsabilidades, esta plenitude não poderia ser prolongada, mas somente conduzida a um lugar especial dos bancos da memória. Ao se vestirem para o trabalho, esbarravam-se de forma intencional, pois de cada vez que isto acontecia aproveitavam a oportunidade para se beijar e se abraçar. Ele preparou para Kathy uma xícara de café enquanto ela vestia um blazer elegante e pantalonas de tecido leve. Entretanto, Kathy deu um pulo na varanda para admirar a vista e fumar a metade de um cigarro, mas o forte aroma do café que estava sendo preparado, inevitavelmente, a atraiu de volta ao interior do apartamento. Giles lhe trouxe o café, preto e forte, adoçado com meia colherinha de chá de açúcar. — Exatamente como você gosta! — exclamou ele,
  • 60. esperando que a memória, agora confusa, não lhe tivesse falhado. Kathy exalou, no canto da boca, uma baforada de cigarro enquanto levantava a caneca em direção aos lábios recém-pintados. — Perfeito… obrigada… você é tão atencioso! — ela sorriu, sabendo que ele prestava atenção a todos os detalhes, característica que lhe agradava, pois ela também era assim. Formavam um par perfeito. — O tempo todo, quando estou com você. Como posso resistir? — Os seus olhos se iluminaram ao fitá-la, antes que uma expressão reveladora lhe estampasse o rosto. Seguiu-se um silêncio constrangedor, e Giles, desviando o olhar na direção do edifício Shard, à procura das palavras certas, disse: — Escute, ontem à noite eu estava falando sério quando disse que amo você. — Eu ouvi; também amo você — disse Kathy, sorrindo antes de o beijar ternamente para o tranquilizar. — Eu queria dar uma sugestão e não sei como fazer isso, gostaria muito que você aceitasse — Giles falou. O sorriso no rosto de Kathy se dissipou, porque sentira uma ameaça inesperada e indesejada, como se ele fosse lhe propor algo que faria a relação entre eles piorar. — Eu sinto muito a sua falta quando estamos separados. Que tal se passássemos juntos uma ou mais noites por semana? Depende de você. De repente, você poderia deixar algumas coisas aqui, para que comecemos a brincar de «casal»… O que você acha? Kathy colocou a caneca de café sobre a mesa e, ao mesmo tempo, largou o cigarro, pôs os braços ao redor dele e o
  • 61. beijou lentamente: as suas línguas exploratórias se acariciavam de forma delicada e vagarosa. — Que ótima ideia — disse ela, confirmando — eu adoraria isso. — Kathy se inclinou para a frente e o beijou novamente, desta vez num estilo mais apaixonado e vigoroso. Depois, passou a mão em volta da cintura dele e foi descendo devagar, até dar-lhe um tapinha no traseiro. A alegria estampada no rosto de Giles era visível. — Bem, aqui vou eu atrasado para o trabalho; espero que você tenha um chefe compreensivo! — disse ele. Depois, ergueu-a em seus braços, beijando-lhe ao longo da pele exposta. Ele, então, carregando-a meio desajeitado, começou a se mover com intenção de levá-la para o quarto. Kathy gritava de emoção com a expectativa. Continuavam cada vez mais excitados — só conseguiram chegar até a sala — um arrancou do outro as roupas que tinham acabado de vestir. Giles colocou Kathy no chão, certificando-se primeiro de que não quebrara nada, nem ninguém. — Sabe que, por vezes, você tem a mente suja, Senhor Giles! — disse Kathy rindo, depois acrescentou — eu sei do que você precisa… de um BANHO! — ela, então, arrastou-o até o banheiro, e daí para o chuveiro. Um rastro de roupas, formando um caminho da sala até o banheiro, confirmava a incapacidade de chegarem até o quarto: terminaram os seus exercícios românticos no chuveiro — com a água a jorrar sobre eles. O vapor descia pelos azulejos brancos enquanto se seguravam com força para encaixar os seus corpos num abraço sexual; Por vezes, tinham de recuperar o fôlego, devido ao esforço e à água quente que os asfixiava. Para não escorregar e continuar com o prazer, tinham de reposicionar-se; Kathy acabou sendo imprensada por ele contra
  • 62. os azulejos aquecidos; as pernas brilhantes dela se apertavam em torno das nádegas dele, e os seus braços o seguravam com força enquanto ele movia suavemente sua pelve contra a dela. Esta experiência lhes abriu novos caminhos no relacionamento sexual. Ele a embalou, segurando-lhe o corpo delicado por baixo, e parou de se mover enquanto atingia o orgasmo — que Kathy acolheu. Ofegante, ela lhe sussurrou ao ouvido: «Pegue i você primeiro», beijando-o e o segurando com mais força do que antes; ela deixou escapar um leve gemido enquanto o seu corpo estremecia; Giles sentiu o repetido frêmito do corpo dela unido ao seu. Eles se beijaram apaixonadamente — a água espirrando sobre os rostos — transmitindo mais uma vez mensagens de amor, como se fosse algo inédito para os dois. Após o banho, Giles secava Kathy e vice-versa, o que levou um tempo, pois um explorava e acariciava de bom grado as partes íntimas do outro; além disso, aninhavam-se um no outro e se beijavam a cada oportunidade — em que orgulhosamente satisfaziam o amor que ambos sentiam. Eles tentaram chegar juntos à agência — porém muito tarde — de uma forma respeitosa e conspícua. Todavia, isso foi muito revelador para os colegas, coisa que Kathy e Giles desejavam que não acontecesse. A realidade é que ambos estavam atrasados, e a ideia juvenil de disfarçar o relacionamento falhara. Este fracasso, no entanto, provocou certo alívio, pois um e outro desejavam partilhar essa entusiasmante e crescente paixão que viviam com qualquer pessoa que estivesse disposta a ouvir, mas sabiam que, como adultos, tinham de abordar o assunto com dignidade. Despediram-se rapidamente e se dirigiram às respectivas mesas, inseridas nas divisórias azuis do escritório. No caminho, tiveram de passar pelos colegas, que já estavam acomodados em suas mesas de trabalho — as canecas de café no lugar, os telefones tocando e os teclados tagarelando até que os eventos profissionais do dia logo ultrapassassem a curiosidade despertada pelo novo casal.
  • 63. 7. O jogo da volta O aconchego decorrente do relacionamento feliz que se desenvolvia foi para ambos uma revelação inspiradora. Eles haviam atravessado quilômetros — tanto do ponto de vista emocional quanto físico — para se encontrar, e esperavam que esta agradável viagem de descoberta pessoal fosse continuar. Kathy, encantada com as novas perspectivas que a vida lhe apresentava, desejava que essa convivência não só os transformasse num verdadeiro casal, mas também abrangesse a sua família. — É muito bom ficar com você, «Senhor Solteirão», mas acho que está na hora de você vir passar uma noite ou duas, ou talvez até um fim de semana inteiro no meio da roça, com os caipiras, isto é, conosco... — disse ela de uma maneira muito feminina, mas jocosa. — E, de qualquer forma, Jess gostaria de vê-lo de novo, e eu, que você viesse e cumprimentasse os meus pais adequadamente. — Nossa! Aí vem o pacote completo. — Giles respondeu, tentando soar sério, mas falhando desoladoramente ao acrescentar de forma infantil — Quando, quando, quando? — perguntou, dando ao mesmo tempo um grande beijo melado no rosto de Kathy. — Fale sério! Você concorda? Eu falo tanto de você, que todo o mundo gostaria de o conhecer — disse ela, fazendo uma careta curiosa para reforçar o convite. — Por mim tudo bem — veio a resposta calma, como se fosse um adolescente repreendido. Ele sabia que este era um grande compromisso para Kathy, e a forma pueril como reagiu ao assunto pode não ter sido como inicialmente previra. — Muito bem, pois eu combinei com os meus pais que seja em algum dia do próximo fim de semana... e você vem! — foi a réplica.
  • 64. Giles ficou surpreendido, apesar de confiante e satisfeito com o imediatismo do plano. A pequena casa de Kathy, típica do final do século XIX, localizava-s e numa rua sem saída; tinha dois quartos, um terraç o nos fundos e uma vista que dava para campos cultivados e para os trilhos da ligação ferroviária do Eurotúnel, cujos elegantes trens enchiam o ar de estrondo intermitentemente. A linda aldeia de Mersham era pitoresca; lá, todos se conheciam — às vezes um pouco bem demais. E dispunha de todas as facilidades necessárias, o que valorizava a localização do típico chalé de tijolos vermelhos e telhado íngreme. A propriedade tinha um aspecto um tanto degradado, mas nada que uma mão de tinta e uma chave de fenda não pudessem resolver, pensou Giles ao chegar, naquele fim de semana. Havia tanto ar fresco e espaço para explorar: era um lembrete austero para Giles, de que havia uma alternativa à vida urbana, algo que o reportava para a infância. Juntos aproveitaram um típico dia em família, que passou depressa. Foi uma experiência quase surreal para Giles: algo que não vivenciava há muitos anos, talvez décadas. Giles estava um pouco apreensivo por se encontrar com os pais de Kathy, dizendo na brincadeira: «O relacionamento está ficando sério.» Ele desejava que a relação desse certo e sabia que, por enquanto, estava tudo bem. Ficou positivamente surpreso por não se sentir incomodado ao ser-lhes apresentado de forma oficial. Após o almoço — um churrasco no jardim da casa dos pais —, caminharam até a casa de Kathy, em cujo jardim Giles e Jess brincaram enquanto Kathy desaparecia pela cozinha para preparar o jantar. A festa gastronômica foi perfeita, mas Kathy insistiu que não o fora, admitindo que as suas habilidades culinárias eram medíocres ou limitadas, na melhor das hipóteses.
  • 65. Quando terminaram de jantar, Jess pediu educadamente para se retirar da mesa e sumiu para assistir aos programas habituais de sábado à noite na TV e, ao mesmo tempo, jogar Angry Birds no celular da mãe, o que era confirmado pelo ruído provocado pelos seus movimentos bruscos toda a vez que completava uma fase. Antes que as atividades de seu dia se esgotassem, a mãe a conduziu ao banheiro e preparou-a para dormir. Jess exigiu um beijo de boa-noite de Kathy e de Giles. Depois, os adultos se retiraram para a sala, deixando a tarefa de lavar a louça para mais tarde. O vinho tint o circulava livremente, relaxando-os noite adentro e nos braços um do outro. O sofá macio era um convite para que se esticassem por toda a sua extensão. A posição em que estavam, combinada ao ambient e romântico, fe z que as carícias trocadas se intensificassem, conduzindo-os à excitação sexual. De forma tácita, aceitaram interromper o jogo, quase como num cessar-fogo. Levantaram-se e, como pais cuidadosos, foram até a base das escadas checar rapidamente se o quarto de Jess estava silencioso e se as cortinas da sala estavam devidamente fechadas. Depois, Kathy se empoleirou habilmente na beira do sofá e começou a despir Giles. Ela percorreu-lhe o corpo com beijos, fazendo uma pausa em seus mamilos para os mordiscar; Giles correspondia a estas carícias sem questionar. Sentiam-se como crianças levadas . Então, ele se livrou voluntariamente das calças e do boxer; Kathy, diante desta visão, suave mas deliberadamente, se abaixou e deslizou a língua pelo seu membro duro, para depois colocá-lo em sua boca enquanto movia a cabeça com o impulso. Giles, fora de si de excitação, não esperou para lhe remover o sutiã e as delicadas calcinhas floridas. Trazendo-a para a beirada do sofá, abriu-lhe as pernas, puxou- lhe as calcinhas para um lado, ajoelhou-se, acariciou-lhe o peito e entrou nela. A paixão que os dominava era profunda e furiosa, a penetração de Giles atingiu-a lá no fundo enquanto ela se contorcia sob ele, gemendo de
  • 66. prazer. Kathy lhe cravou as unhas nas costas ao mesmo tempo que se achegava cada vez mais a ele; depois, ajustou os quadris para permitir que o membro dele conseguisse entrar ainda mais dentro dela. Eles se perderam um no outro enquanto o ato de amor continuava, inexorável. Movendo-se ao longo do sofá, Kathy enroscou as pernas ao redor das dele. Os seus movimentos tornaram-se mais rápidos e intensos à medida que o orgasmo se aproximava e abraçava ambos os corpos; Ao liberar os fluidos dentro dela, Kathy se contorceu em êxtase por baixo dele: enquanto ele gozava, ela atingia um orgasmo múltiplo. Ela sentiu que iria desmaiar diante deste esforço inédito pelo qual passava, mas não queria que ele parasse. Giles, em cima dela, abrandou os movimentos para que a explosão continuasse o seu caminho delicioso. Continuaram a se abraçar com paixão: Giles se mantinha dentro dela, e Kathy, deitada por baixo, tinha a respiração carregada, os olhos fechados e o segurava firmemente. Os músculos úmidos do interior dela agarraram-lhe com firmeza o membro viril por algum tempo, antes que ambos se soltassem, molhados pelos seus fluidos. Não conseguiram silenciar os involuntários gemidos de prazer e, por um momento, ficaram em silêncio para ter a certeza de que Jess continuava dormindo em seu quarto, que ficava nos fundos da casa; as pesadas e antigas paredes de tijolo conseguiram abafar-lhes os diferentes sons emitidos durante o intenso ato sexual. A sensação dessa combinação fantástica de ternura e erotismo tornava-se mais intensa e física ao passo que continuavam a se explorar mutuamente, até atingirem águas e locais inexplorados. Assim, não conseguiram disfarçar os sons de prazer que soltavam espontaneamente: ambos riam baixinho quando um deles deixava escapar um som audível, que o outro tentava calar sussurrando um «psiu!», quando necessário. Descansaram no sofá; a atividade os fez ficar mais agarrados um no outro, antes de subirem para o quarto —
  • 67. conferindo primeiro se não deixavam para trás nenhuma evidência. O edredom vermelho da cama dela oferecia um abraço reconfortante de boas-vindas, no qual se aninharam durante a noite. A madrugada tranquila se transformou em dia, e a manhã foi acolhida pelo canto dos pássaros e por outros sons campestres, que lhes interromperam as buscas cegas que cada um, em sua semiconsciência, realizava no corpo do outro, tornando realidade a expectativa de interação sexual matinal. Giles vislumbrou o relógio na mes a d e cabeceira ao desvencilhar-s e d o edredom aquecido pelos corpos e, espreitando as figuras digitais, viu que eram 7h08. Ele suspirou e voltou a cobrir a sua face com o edredom. — O que foi isso? — perguntou Kathy. — O que foi o quê? — exalou Giles, em parte porque a voz estava abafada pelo edredom, mas também por estar se concentrando no que fazia e não querer ser interrompido. — Acho que Jess está acordada. — Ah, hmm… você quer que eu pare? — a ereção matinal e as intenções dele eram claras quando rolou sobre ela. — Nem pensar! — respondeu Kathy, como se estivesse zangada, enquanto se preparava para a proximidade que agora também desejava. — Você tem a certeza de que… — as palavras de Giles foram interrompidas pelo som de passos leves e pela entrada quase teatral de Jess: a porta se abriu e uma criança vestindo um grande macacão infantil correu em direção a eles. — Vocês estão fazendo uma luta de travesseiros? — perguntou Jess, com a sua vozinha infantil ao mesmo tempo que subia pela frente da cama de madeira, esmagando o pé de
  • 68. Kathy no caminho. Giles nunca tinha se sentido tão desanimado, emocional e fisicamente. A excitação sexual d e há pouco terminou num segundo; Kathy exagerava a saudação matinal entre ela e a filha, como se nada tivesse acontecido, embora, para qualque r observador atento, ou seja, Giles, a sua voz ofegante pudesse traí- la. — Mãezinha... tenho fome — disse Jess, ao pular para s e instalar sob o edredom que os cobria, a fim de abraçá-los; primeiro abraçou Kathy e depois resolveu dar um chute em Giles, de brincadeira. — Desculpe-me, princesa — respondeu Giles, antes de agarrar-lhe o pé e fazer-lhe cócegas. — Eu estou com fome agora, mamãe — Jess repetiu, puxando o braço de Kathy com muito vigor para conduzi-la ao andar inferior. Kathy inclinou-se para pegar o pegnoir, um pouco envergonhada. Giles riu desta cena estranha e disse: — Café e torradas para mim, por favor! — num tom arrogante, para participar da brincadeira. — Hum! Vamos ver. Jess pode decidir isso. — Kathy soprou um beijo a Giles e, ao se virar, deixou o traseiro à mostra e permitiu que Jess a guiasse.
  • 69. Os sons de utensílios, chaleiras e torradeiras chocalhavam da cozinha enquanto se sentia um leve aroma de torradas. Em pouco tempo, podia se ouvir passos subindo novamente as escadas, que logo chegaram à entrada do quarto com uma bandeja de guloseimas. Jess tomou o seu lugar no centro da cama para garantir o máximo de atenção… fez um brinde com a torrada e exclamou: «Toast!» (que em inglês tem dois significados: torrada e brinde!). Jess queria jogar Angry Birds, mas Kathy e Giles tinham outros planos. Tomaram um café d a manhã descontraído na cama mesmo, como se fosse um piquenique: os adultos tiveram direito a café e torradas, e Jess, a um suco de laranja. Depois, vestiram-se e desceram. Kathy fumou meio cigarro no jardim antes que combinassem passear pela aldeia, dar uma passada pela casa dos pais para cumprimentá-los e almoçar no pub. Giles e Kathy tinham de começar uma vida em comum, como casal e como família, o que envolvia Jess, principalmente, mas também a família de Kathy. Isto não era segredo em relação aos pais dela, que desejavam esta integração para se sentirem completos. Todos eles sabiam que ambos tinham os requisitos necessários para serem felizes juntos. Kathy presenciava com satisfação uma transição na filha. Acreditava que a nova e revigorada energia de Jess tinha sido inspirada a partir da confiança que um homem carinhoso trouxera a esta unidade familiar, que estava aos poucos sendo formada pelo amor que compartilhavam entre si, e que desejavam partilhar com a família. O frio matinal chegava ao fim, e a névoa outonal diminuía; por isso a temperatura estava agradável e os três puderam sair de camiseta e shorts. Assim, fecharam a casa, e saíram para passear pelas estradas vicinais da aldeia, que conduziam ao parque principal.
  • 70. — Então, quer dizer que você é o «garotão» da «cougar»? — Kathy perguntou ao começarem a caminhada. Ela se referia à gíria utilizada para mulheres maduras que namoram homens jovens. Giles nunca tinha pensado na diferença de idade entre eles e ignorou o fato pela irrelevância, mas sorriu por este poder ser um bom assunto para iniciar conversas em festas, com futuros conhecidos. Jess atravessou a grama que tinha passado pela última aparada antes que o outono chegasse; os seus pés infantis emanavam uma fragrância perturbadora provocada pelo resto das plantas cortadas, mas não recolhidas, que acabaram de pisar. O pub Royal Oak, que estava acordando para o dia mais movimentado da semana, estava enfeitado com cestas suspensas, cobertas por flore s prestes a murchar. Os três seguiam pelo caminho previamente combinado, quando avistaram a casa dos pais de Kathy: uma moradia isolada de estilo moderno; Jess saiu em disparada, em direção à porta de vidro da entrada. Quando Kathy e Giles finalmente alcançaram a menina, estavam sorridentes, até serem recebidos com um abraço por Jack e Rachael, que os esperavam à porta. Giles sentiu-se surpreendido e emocionado com esta acolhida calorosa, mas disfarçou o sentimento. A seguir, entraram e se dirigiram ao pequeno jardim que ficava no fundo — um aroma de café vinha da cozinha antiga, cuja porta estava aberta quando passaram. Havia jornais de domingo sobre a mesa do pátio: estes foram cuidadosamente separados pelos anfitriões, conforme os interesses de cada um. Giles tentou ler o maior número de manchetes esportivas que a educação lhe permitia. No jardim, o grupo partilhava café fresco e um bate-papo agradável. Rachael se preocupava em servir bebidas apropriadas para o período da manhã enquanto Jess e o avô brincavam com uma bola de plástico de cores vivas, que Jess ocasionalmente atirava em direção a Giles, para que ele a devolvesse. O calor do sol foi absorvido por todos, e Jack recebeu muitos elogios pelo capricho com que cuidava do jardim. Leram e dissecaram os
  • 71. jornais de domingo, depois foi acordado que Kathy e Giles iriam ao pub para tomar um drinque e almoçar. Jack, Rachael e Jess iriam mais tarde, quando a menina terminasse a lição de casa — um ritual pedagógico que observavam nos últimos anos, e que fora ressuscitado da infância de Kathy. Rachael fez questão de dar-lhes um pouco de espaço, por eles aceito de boa vontade. — Encontraremos você daqui a uma hora, querida — disse Rachael, com carinho, inclinando-se para dar em Kathy um abraço de aprovação mais prolongado, dando a entender que lhe aprovava o namorado. Quando a soltou, sussurrou-lhe calorosa e secretamente ao ouvido enquanto lhe dava uma piscadela atrevida — Agarre este! — Hum... Obrigada, mãe! — respondeu de forma cautelosa e um pouco confusa. Kathy, então, virou-se na direção de Giles, dirigiu-se para a porta dos fundos, tomou-lhe a mão e o conduziu à saída. — Daqui a pouco a gente se encontra — disse Giles, para depois acrescentar — vamos reservar-lhes um lugar, provavelmente na área externa do pub — confirmou ele. Rachael começou, neste momento, a organizar o espaço, tirando as canecas de café da mesa, e Jack estendeu a mão para alcançar a mochila verde de Jess, que estava debaixo de um banco. Kathy e Giles já haviam se afastado, mas ainda puderam ouvir a voz de Jack: — Então, senhorita, o que precisamos estudar hoje para prepará-la para as aulas de amanhã? E ouviram Jess perguntando: — Temos mesmo que estudar? — e continuou — Então, você gostou dele? — a voz estridente e animada da
  • 72. criança se ouvia no fundo da casa. — … Bem, eu gosto dele — Kathy ofereceu-se para responder quando a sua voz já estava fora do alcance dos outros; os seus olhos vagavam com alguma indiferença imatura e com um sorriso provocante que lhe iluminou o rosto. — Epa! é mesmo? — perguntou Giles, dirigindo-se a Kathy de forma tranquila, sorrindo como um pinto no lixo, e continuando — Ajudaria se você soubesse que ele sente o mesmo? — disse ele feliz, acrescentando — … e que ele ama você? Ela parou e o puxou para perto de si, trançando-lhe os braços firmemente em torno da cintura dela, e confirmou: — Completamente! Diante desta declaração, os seus lábios se procuraram mutuamente, e por um momento um desapareceu nos braços do outro, entrelaçados num misto de amor e admiração. «Bip! Bip!» O abraço apaixonado foi, naquele instante, interrompido pela buzina de um carro. Foi então que perceberam que tinham esquecido de sair do meio da pista ladeada por pequenas casas. — Arrumem um quarto! — alguém gritou da janela de um veículo que passava, ao mesmo tempo que o motorista de uma van lotada e toda arranhada manifestou, carrancudo, o seu descontentamento — estava obviamente atrasado —, fazendo o casal sair da pista. Após saírem do caminho, um tanto assustados, riram juntos, arrebatando outro beijo breve; depois, continuaram a caminhada, que seria curta, desta vez um abraçado à cintura do
  • 73. outro: o polegar de Giles se apoiava no bolso traseiro do shorts dela. Como previsto, o pub estava movimentado, servindo a moradores e visitantes os seus famosos almoços de domingo e cerveja de fabricação própria. Eles conseguiram uma boa mesa no jardim, à sombra de uma macieira. Consumiram um litro ou mais de cerveja regional, e tiveram um almoço típico dos pubs britânicos: ela, um salmon, e ele um Ploughman’s lunch — literalmente, o «almoço do lavrador», ou de «boia-fria», composto por um prato com um bom pedaço de queijo da região, pepino em conserva, pão e manteiga. Depois, conforme ficou combinado, encontraram Rachael, Jack e Jess. A tarde preguiçosa foi passando; o calor do dia e os efeitos da cerveja lhes desaceleraram o ritmo, e algumas horas soporíferas castigaram Giles na viagem ferroviária de volta a Londres. As despedidas foram breves, pois tiveram a percepção de que ele perderia o trem se não se apressassem. Jack, como na primeira visita, levou-o para a estação de Ashford. O adeus a Kathy e a Jess, que choramingava, foi para eles demasiado curto: esta separação parecia sem sentido. Kathy segurava Giles e com esforço tentou soltar o homem que amava; ao mesmo tempo, Jess se pendurava na perna dele. Uma vez instalado em seu banco, Giles tirou um cochilo de uma hora: o tempo que durou a viagem. O sono que sentia foi provocado pela combinação do suave balanço do trem e pela sensação de peso que o copioso almoço lhe causara. A soneca foi bem-vinda, apesar da frustrada intenção de fazer algum planejamento de negócios, recuperar o atraso de algumas tarefas administrativas referentes à reunião de segunda, de manhã cedo, a ser realizada em Earls Court. Ele lembrou-se do gato, esperando que estivesse bem. Teria de alimentar Duster quando chegasse e, por um breve momento, ele se perguntou se o gato e ele seriam felizes em Kent.
  • 74. 8. Ufa! Pensei que você nunca fosse fazer esta proposta! Kathy estava satisfeita: Matt, o seu ex-marido viria buscar Jess para passarem um fim de semana em Hull. Eles se davam bem; além disso, ela fazia questão que a filha soubesse que os pais a amavam muito e que a separação não tinha nenhuma relação com o sentimento que nutriam por ela. Kathy ainda confiava em Matt e o amava por ser o pai de sua menina, pelo cuidado e amor que lhe dispensava e por querer ser uma parte central da vida dela — quando, e se, o tempo o permitisse. Ela fazia questão que Matt participasse da vida de Jess e louvava o tempo que disponibilizava para a filha, apesar de, por vezes, achar irritante esse sistema de visitas aleatório e irregular. O ex- casal mostrava maturidade ao controlar a situação, para o bem de Jess: Kathy se sentia grata por isso. Assim, em meados de setembro, numa sexta-feira à tarde, Kathy concordou ficar em casa, para preparar a viagem de Jess com o pai no fim de semana; o céu carregado de nuvens e o ar abafado ameaçavam chuva. Matt vinha de Hull, no carro da empresa, para logo depois das aulas buscar Jess, que não se continha de entusiasmo. De acordo com o que fora programado, Matt faria uma rápida visita à Kathy, para tomar um chá, descansar um pouco e apanhar a bagagem da filha, com a qual viajaria rumo a Humber — um estuário localizado no Norte da Inglaterra. A viagem levaria cerca de quatro horas, se tudo corresse bem e Jess não precisasse parar no caminho. O retorno a Mersham estava previsto para as dezenove horas, no domingo, para permitir que ela ficasse em casa à noite e se preparasse para as aulas de segunda-feira. Matt era um homem grande e gentil. Jess se divertia com ele e com a sua nova companheira, pois costumavam preparar uma agenda cheia de atrações; assim, o tempo juntos desaparecia num flash. Matt chegou na hora prevista, mas com muita pressa de retornar a Hull.
  • 75. — Pai, a mamãe tem um novo namorado; ele se chama Giles — desabafou Jess, ao colocar no banco traseiro do carro a mochila vermelha, que fora cuidadosamente arrumada por Kathy. A novidade não o abalou; Matt sorriu para Kathy e, virando-se para Jess, perguntou: — Sério? Ele é legal? — Se é! Quando passa a noite lá em casa é muito divertido… mas não tanto como com você, papai. Eu gosto muito mais de você — disse com segurança, ao passo que se acomodava no assento traseiro do carro. — Giles nos levou ao pub e eu… — a porta do carro foi fechada por Matt, que abruptamente interrompeu a filha devido à vontade de testar a potência do M25. Jess podia ainda ser vista sentada no interior do carro, conversando, sem se dar conta de que agora havia um vidro entre ela e o seu interlocutor, e ao mesmo tempo acenando freneticamente para Kathy. Matt, determinado a enfrentar a longa viagem pela frente, olhou para o relógio enquanto ajeitava no porta-malas uma segunda sacola, cheia até a boca, antes de reassumir o volante do veículo. — Tenho a certeza de que vou ouvir toda a história no caminho! Está tudo bem — acrescentou prontamente, para depois se virar e dizer à Kathy — Vejo você domingo à noite; qualquer problema, ligue. — Obrigada, Matt — disse Kathy confirmando com a cabeça, e continuou — Divirtam-se vocês dois — dando-se conta de que levantara a voz, enquanto acenava para Jess, mandandolhe alguns beijos. O carro se afastou, iniciando a viagem em direção ao norte.
  • 76. Kathy tinha feito planos com Giles para o fim de semana livre e lhe pediu, tomando todas as providências, que tentasse vir a Kent naquela mesma noite. Assim, esperava a chegada dele pelas dezenove horas. Jack concordou em trazê-lo da estação; era uma variação na sua rotina: não iria buscar a filha, mas o namorado. Mais uma vez, a Senhora Cormack iria, gentilmente, alimentar Duster e renovar-lhe a tigela de água. Giles estava tranquilo com a expectativa do fim de semana num ambiente de aldeia, oferecido pela dona do chalé onde estaria hospedado. Kathy se sentia solta e animada perante a perspectiva da liberdade diante dela, como uma adolescente prestes a sair com uma «paquera» proibida. Assim, logo que a filha desaparecera de seu campo de visão, entrou em casa apressada para tirar de circulação brinquedos e objetos que poderiam eventualmente estar espalhados pela casa. Feito isto, conferiu se o vinho estava na geladeira e se tirara o pão do congelador para o chá com torradas da manhã seguinte. Depois, deu um pulo ao banheiro para se embonecar um pouco; lá olhou-se no espelho e lhe desagradaram as raízes grisalhas aparentes, como já havia notado no começo da semana. Kathy calçou um par de escarpins, vestiu um jeans preto agarrado, para combinar com a camisa estampada acinturada, usada para fora das calças, que revelava acima do decote um collant preto de renda, que estreava. Para lhe adornar o colo, colocou uma pequena joia de ouro: um cordão com um pingente de coração; e por fim, passou perfume por trás do pescoço. Giles foi pontual e desembarcou do trem no horário previsto; cumprimentou Jack com um aperto de mão, e, uma ve z no carro, trocaram ideias sobre os respectivos mundos, enquanto saíam do perímetro urbano de Ashford pelo leste, com destino à aldeia onde Kathy vivia. Quando Kathy e Giles, abraçados, saíram para jantar, já
  • 77. estava chovendo. No pub, ela pediu um salmon e ele, um bife acompanhado com torta de cerveja, ou melhor, Steak and ale pie — prato típico dos pubs britânicos , cujos ingredientes principais são carne , cogumelos e cerveja. O ambiente era encantador. Quando voltaram para a casa vazia, abriram uma garrafa de vinho que tiraram da geladeira e compartilharam a cama com as aventuras que ela oferecia: dest a vez, sem perturbação ou limites em relação aos sons de prazer que juntos produziam. Giles explorou o collant, mas rapidamente o arrancou, dando início a uma noite de aventura sexual, exaustiva e enérgica; não estavam mais restritos ao quarto, já que a liberdade lhes permitia explorar novas posições em diversos ambientes da casa, sem a preocupação de que seriam interrompidos ou descobertos. O domingo chegou e passou num piscar de olhos, e a tarde apareceu sem que se dessem conta disso, principalmente porque só saíram de baixo do edredom às onze horas — para tomar um café, e a seguir voltar e continuar do ponto em que haviam parado, ou seja, rolando na cama com os corpos entrelaçados. O meio-dia chegou e se foi, e tiveram que correr para conseguir comprar o jornal de domingo e algumas provisões antes das treze horas — horário em que a loja de conveniência mais próxima fechava. Os habituais e essenciais alimentos perecíveis foram colocados na geladeira para poderem ser consumidos por Jess quando voltasse. Fizeram uma rápida incursão pelo apartament o a fim d e apagar quaisquer evidências das «aventuras» vividas na maioria dos quartos, e garantir que o ambiente estivesse adequado para Jess, e também para Matt, caso decidisse dar uma parada antes de voltar a Hull. Ouviu-se uma buzina da estrada, enquanto Matt e Jess saíam do interior do carro. Jess correu pela vereda da casa, com a mochila nas costas, segurando com uma mão um suco
  • 78. de fruta e com a outra, uma pasta de plástico. Ofegante, falava pelos cotovelos, devido à quantidade de informações que queria despejar sobre a mãe naquele momento. Giles estava parado junto ao portão, tentando não parecer desajeitado ou incorreto, mas só o conseguiu quando Jess lhe deu um abraço e o levou ao
  • 79. interior da casa para descarregar a bagagem. Ele acenou uma única vez a Matt, que do carro lhe retribuiu o gesto, enquanto via Giles desaparecer de vista. Kathy se dirigira ao veículo para recolher o restante da bagagem da filha e convidar Matt para entrar. Desta vez, porém, Matt decidiu nem sair do carro, para não interromper a cena de «família feliz»; ao invés disso, baixou o vidro, parecendo um pouco perplexo e ansioso. — Oi, tudo bem, Matt? — perguntou Kathy, estendendo a mão para pegar a sacola que Matt lhe passava pela janela. — Tudo bem, s ó que preciso ir, desculpe! Na vinda, percebi que o trânsito estava aumentando em direção a Hull e temo chegar tarde em casa esta noite — respondeu ele, olhando para o relógio. — Tem certeza de que não quer entrar para descansar, cumprimentar Giles e se despedir de Jess? — perguntou Kathy, para depois acrescentar — Você sabe que é bem-vindo... — Claro que sei. Não vou entrar, Obrigado. Jess está tão animada, ainda sob o efeito das aventuras do fim de semana, que nem vai reparar. Quanto a Giles, fica para a próxima vez. — Tudo bem. Vocês se divertiram? — Muito, foi ótimo. Parece que Jess está muito feliz e gostando da escola. Ela não parava de falar de Giles. Giles para aqui, Giles para ali... — cutucou ele, como se isto o incomodasse como uma farpa. — Jess é assim mesmo — disse Kathy, meio constrangida. — Escute, na semana de férias escolares, em outubro,
  • 80. planejamos levar Jess para a Bélgica. Nós vamos para lá de ferryboat, que sai de Hull. Eu gostaria de poder compensar a minha ausência dos fins de semana. Ela vai adorar: é um parque temático de aventura, deixei com Jess uma brochura com todas as informações quanto ao pacote turístico, para você olhar — esclareceu Matt, sabendo que Kathy precisaria conhecer todos os detalhes antes de concordar. — Vamos ver — retrucou Kathy cheia de dúvidas. — Você tem algum plano para este período? — perguntou ele, sabendo que isso seria improvável. Kathy sempre preferia viajar na Páscoa e nas férias de verão. — Eu reparei na pasta que Jess tinha nas mãos e fiquei imaginando o que seria... Gostaria, apenas, de examinar a brochura primeiro. Não tenho nada específico em mente em relação a esse período, mas posso saber mais pormenores antes de confirmar? — Claro, o problema é que preciso fazer as reservas até quarta-feira, pois não gostaria de perder os descontos promovidos pelo serviço de ferry — ele sorriu com um certo prazer por colocar alguma urgência no pedido. — Tudo bem. Obrigada por cuidar dela. — Ela olhou com carinho para Matt e depois olhou em direção à casa para ver se Jess viria cumprimentar o pai. A julgar pelos altos risos e sons , vindos da filha e provenientes da sala, e sabendo como Jess se distraía facilmente, parecia improvável. Matt ligou o carro e sorriu para Kathy antes de dar adeus, afastar-se da casa e iniciar a sua jornada. Ela levantou a mão para se despedir e voltou à vereda, sabendo que uma criança entusiasmada, cheia de energia e histórias para contar a aguardava. Giles e Jess já estavam esparramados no chão da sala,
  • 81. mirando a brochura que continha as informações emocionantes sobre aquilo que, em breve, ela iria conhecer. Quando espalharam sobre o carpete as suas folhas coloridas e brilhantes, Jess ficou encarregada de descrever para onde pretendia ir, como era um ferry, quais as atividades que teria e quando tudo isso aconteceria. Kathy admirou a visão por alguns segundos; nunca tinha visto a sua filha tão segura… depois fingiu estar chocad a ao ser flagrada, após o que se sentou no chão para participar d o animado planejamento da aventura. Ela sabia que ia ser difícil impedir que Jess empreendesse esta viagem, mesmo que não tivesse motivo ou desejo de o fazer. Jess estava determinada a ir e, enquanto estava literalmente estatelada sobre o folheto, Gile s ajoelhou-se em cima do tapete e cochichou no ouvido de Kathy com a mão em forma de conchinha: — Fique comigo em Londres essa semana — ele lhe deu uma piscadela e soprou um beijo na ponta da mão para em seguida pousar os dedos sobre a brochura. Ela mais uma vez fingiu estar maliciosamente descontente com ele, fazendo uma careta de total repulsa, antes de aceder com a cabeça e continuar a divertida reunião. — Você terá de aprender a dizer «olá», «adeus» e «por favor» em flamengo, Jess… ou será em francês? Oh! Não tenho a certeza, tenho de confirmar — Kathy parecia confusa. — É francês, mon aimé! — Giles confirmou, seguro. — Eu não tenho tanta certeza, meu amorrr! — disse Kathy carregando o r, como se estivesse falando francês. — Oui! — respondeu Giles, brincando com Jess, que observava atentamente este novo dialeto, sem entender o que estava acontecendo.
  • 82. O restante da noite acabou durante o chá. Não havia nem sombra do entusiasmo que prevalecera durante o planejamento das férias, horas antes: desaceleraram o ritmo propositalmente, a fim de criar uma transição suave para a hora de Jess dormir. Giles quis ajudar a colocá-la na cama: os seus instintos paternos, anteriormente latentes, começaram a emergir. Ele havia planejado voltar a Londres naquela mesma noite, mas ao pensar bem e se deixar persuadir por Kathy, abriram uma garrafa de vinho e acabaram por passar a noite juntos no sofá. Antes de dormir, e também pela manhã, conversaram sobre Jess, sobre a evolução da relação que partilhavam e sobre o que cada um tinha de especial na vida. Giles pegou o trem muito cedo — confirmara um táxi na véspera, do sofá em que passara a noite —, para dar um pulo em seu apartamento; precisava trocar de roupa e ver se Duster estava bem, antes de sair apressado para o escritório e começar o seu dia. Na segunda-feira, Kathy confirmou a Matt que concordava com a viagem de Jess, sabendo que esta seria também uma oportunidade de viver com Giles por uma semana, em Londres.
  • 83. O romance entre Giles, Kathy e, de uma maneira diferente, Jess parecia um turbilhão. Giles não acreditava em destino, mas sabia que ambos tinham tudo para construir uma vida em comum muito feliz. Esta percepção não era aparente quando se conheceram, mas, naquele momento, alguma coisa havia lhes tocado tanto a alma quanto o comportamento. Já Kathy, estava preocupada que as suas emoções e o amor que sentiam um pelo outro se transformassem muito rapidamente, mas se tranquilizava ao pensar no quanto o toque dele lhe agradava e na felicidade que sentia na companhia dele: ela sabia que era correspondida. Era evidente que ambos teriam de enfrentar problemas à medida que o relacionamento mergulhasse mais profundamente no interior de suas almas. Havia as preocupações óbvias em relação à rapidez na qual a relação se desenvolvia. Quando estavam no pub em Mersham, Jack puxara Giles de lado e, enquanto lhes enchia as canecas de cerveja, proferiu um sermão típico de um pai protetor. Ele explicou que todos estavam muito bem, que não tinham motivos de queixas e que Giles só deveria se envolver se realmente tivesse boas intenções. Giles apreciava esta extensão da estrutura da família que ele clarament e estava adotando. A determinação em relação a Kathy ser o seu objetivo real era inabalável. No Velódromo, não só os atletas lutaram para conquistar as medalhas: estava claro agora que ambos conseguiram o prêmio máximo, o de estarem juntos, e para eles isto era o suficiente. Em seus respectivos caminhos, no passado, ambos aceitaram prêmios de consolação e perderam. A maneira como faziam amor era, para eles, uma experiência nova. Kathy não tinha tido um orgasmo com um parceiro há anos, muito menos um em simultâneo, e considerou o elixir deste novo nível de excitação sexual uma garantia de que Giles fosse alguém com quem valesse a pena compartilhar as suas necessidades físicas mais íntimas. Sentiu-se compelida a
  • 84. estudar e aprender sobre a arte do sexo devido ao desejo restaurado: esta imersão emocionante a surpreendeu. Giles também sentia um interesse renovado e, curiosamente, cheio de energia, apesar de catártico, em relação à forma como faziam amor. Ambos experimentavam variações nunca antes testadas, por vezes nem imaginadas ou permitidas. Ele estava contente por ter se mantido e m forma o suficiente para se envolver, devido à flexibilidade necessária no desabrochar do relacionamento. A intimidade compartilhada era palpável, e ele se deleitava com isso. Kathy sentia uma plenitude, uma confiança renovada e m relação a um homem que chegara um dia a pensar que jamais encontraria — não devido à sua personalidade, mas às camadas naturais de proteção cimentadas no seu exterior, graças à dor inesperada e ao amor fracassado causados pelo divórcio. Como decorrência desta decepção, ficara muito próxima de Jess, e a partir de então a prioridade de sua vida passou a ser a filha adorada, ficando ela própria em segundo plano. O amor de Giles tinha reacendido a crença em seu futuro como uma mulher completa, alguém que é respeitada, estimada, venerada e realmente desejada. A cidade de Kent logo ficou descolorida com a umidade e o frio de outubro, anunciando que o inverno estava prestes a chegar. Jess partira com Matt, mas antes o seu passaporte foi encontrado e sua mala, minuciosa e repetidamente preparada, para assegurar a Kathy que a filha levava tudo o que poderia, por ventura, precisar para se divertir como nunca — como de fato aconteceu. Kathy preparara uma mala para levar a Londres, no domingo; escolhera as melhores roupas informais para sair à noite com Giles, e esperava, nessa semana, fazer muito amor — mais do que o habitual —, pois achava que estavam se aprimorando no assunto. A semana mágica que passaram juntos voou: no sábado, Jess retornara de sua aventura belga. O amor que Giles e Kathy
  • 85. viveram, junto ao Támisa, naqueles dias despreocupados, foi encantador, confirmando ainda mais o compromisso que sentiam um em relação ao outro, bem como os planos de um futuro em comum. Na quarta-feira voltaram à realidade ao receberem um cartão postal de uma criança — Kathy tinha deixado o endereço de Giles com Matt. Esta reclusão íntima foi desfrutada por eles com vigor, desejo e, sobretudo, amor. Na sexta-feira à noite, após o trabalho, Kathy e Giles voltaram a Kent de trem, para que ficassem à espera de Jess, que voltaria no sábado à tarde. Kathy sentira muitas saudades de Jess e estava animada com a sua volta. Eles se instalaram na casa, aproveitando as últimas horas, pelo menos por agora, como um casal apaixonado prestes a se transformar numa família que se ama: a liberdade total terminaria, de forma positiva, com o retorno de Jess. Matt chegou carregando a velha mochila, no período da tarde, conforme acordado e ansiosamente aguardado. Jess adormecera no caminho e saíra do carro sonolenta, aos tropeços, esfregando os olhos. Ao avistar a mãe, atirou-se nos seus braços calorosos, antes de se aproximar de Giles para dar um abraço similar. Apesar de cansada, vibrava por reencontrá-los e se emocionou ao se despedir do pai e dizer olá à sua casa. Matt e Giles se saudaram, apertando as mãos firmemente, de uma forma tipicamente machista, como é hábito entre homens seguros: verificando, de forma interrogativa, se estavam à altura das recíprocas expectativas. Este contato logo se abrandou, com certa submissão de ambas as partes, e, a seguir, soltaram as mãos para que Matt iniciasse a viagem de volta para o Norte, onde a companheira o aguardava. Jess derramou algumas, e pequenas, lágrimas quando chegou a hora de o pai partir. Giles, então, levantou-a suavemente, colocou-a sobre os ombros, em parte para a distrair — ele sabia que isto normalmente funcionava —, e em parte para se divertir: fazendo-lhe cócegas quando ela atingiu o novo patamar, que a atordoava. Ela estava numa posição privilegiada e acenava ao pai, que lhe respondia movendo o
  • 86. braço que tirara da janela do carro. Ela ainda exigiu ficar no alto por alguns minutos, depois de o pai ter desaparecido de cena, e, é claro, o seu pedido foi aceito; Kathy tomou cuidado para que a filha não batesse a cabeça na moldura de madeira da porta. Elas desfizeram as duas sacolas, separando a roupa que iria direto para a máquina de lavar, que já havia sido programada para isto. Matt nunca tinha sido muito bom para fazer malas; parecia que o volume de roupas aumentara durante a viagem. Logo depois, jantaram cedo e as histórias das aventuras de Jess flutuavam sobre a mesa de jantar, como se Giles fosse um elemento permanente na família; a presença dele na casa e o fato de passar a noite lá não causaram estranheza. Jess, que já tinha os olhos cansados e pesados, logo passou a esfregá-los e a bocejar. Giles se levantou da mesa, oferecendo o braço estendido à menina, e a levou para o quarto para ajudá-la a se trocar e escovar os dentes, antes de colocá-la na cama. Kathy se juntou a eles para dar um beijo à filha. Jess sorriu com doçura, depois virou-se e encaixou a cabeça profundamente no travesseiro, aparentemente adormecida, antes mesmo que eles tirassem as roupas que ela usara durante o dia. Kathy parecia aliviada: — Obrigada, você foi um doce — mencionando a sua atenção aos detalhes, pois reparara no carinho com que ele tinha tratado Jess. — Tive o maior prazer em ajudar, ela é uma criança maravilhosa — confirmou baixinho, não querendo acordar a menina e estragar o trabalho realizado com tanto sucesso. — Ela se sentiu muito à vontade com você — sussurrou Kathy, enquanto os seus olhos davam indicações de que ambos deviam descer. Levava algumas das roupas de Jess em seus braços para colocar na máquina de lavar. Giles se sentiu
  • 87. satisfeito consigo mesmo, irradiando um certo orgulho e realização à medida que seguia Kathy, que se dirigia à cozinha. Terminada a tarefa da lavagem, com o ruído surdo e ritmado da carregada máquina de lavar roupa ao fundo, eles se aquietaram e começaram a curtir o sábado à noite: serviram duas taças de vinho e colocaram batatas fritas numa tigela para satisfazer algum eventual apetite, mas nem um nem outro tinha fome. Ambos estavam exaustos, não por terem realizado qualque r atividade física, mas pelos esforços cerebrais provocados pela reunião de família, que parecia estar agora completa com os três em segurança sob o mesmo teto. A programação da TV estava fraca como sempre; o seu som foi deixado em segundo plano, já que o casal preferiu passar o tempo trocando impressões sobre Jess, Matt e a sua viagem de volta para casa, sobre os próprios sentimentos e sobre os planos para o domingo e para a semana que iria começar. Com o sono a aproximar-se rapidamente, eles também decidiram se recolher cedo e se abrigar no calor do quarto e do edredom. O frio da noite de outono logo invadiu a casa antiga, e Giles comentou que iria consertar o isolamento térmico da próxima vez que viesse. Passaram rapidamente pelo quarto de Jess para confirmar que estava tudo bem, antes que se engalfinhassem até se encaixarem numa posição confortável no meio da cama; deram-se um longo e apaixonado beijo, um tanto de praxe, e Kathy flutuou para o sono. Giles logo seguiu o seu exemplo, enquanto o calor combinado de seus corpos os envolvia. Não havia um pio que perturbasse o sono da casa. Um vizinho, porém, ao jogar garrafas vazias de vinho nos contentores de lixo para serem recicladas, interrompeu o sono profundo e completo de Giles, quebrando o feitiço da luz da manhã fria. O seu sobressalto perturbou Kathy e ambos ficaram ali, imóveis por alguns momentos, para interpretar o dia que os aguardava. Giles lhe beijou a testa suavemente enquanto ela estava deitada ao seu lado. Sinos de igrejas distantes tocaram
  • 88. no decorrer da manhã, reverberando na quietude da aldeia e dos campos. Ela correspondeu ao carinho: os lábios suaves dela acariciaram os dele; Giles devolveu o afeto, e em seguida Kathy tirou o rosto, virou a cabeça no travesseiro, ficando de frente para ele, e o fitou de forma intencional. Ele sorriu, olhando-a nos olhos e admirando-lhe o cabelo levemente despenteado, que ela tirou do rosto para poder ter uma visão clara de Giles — buscando-lhe a expressão enquanto se mexia um pouco na cama. — Giles? — Sim, minha linda — respondeu ele, e a seguir perguntou — Que horas são? — Oito horas. E, reafirmando o tom da voz — Giles, eu amo você. Você sabe disso? — ambos já sabiam qual seria a resposta. — Hum! Sim, muito! E eu também amo você — disse ele, confirmando o seu comprometimento ao beijar-lhe a mão. — Adoro a nossa convivência desses últimos meses e amei a semana que passamos juntos. Têm sido muito especial: são tempos dos quais sempre vou me lembrar. — A intensidade do tom de voz de Kathy se aprofundou. — E eu não quero que a nossa relação chegue ao fim… — continuou ela, fitando-o nos olhos enquanto o seu rosto se aproximava dos lábios dele —… seria tão bom se você viesse morar comigo e com Jess. Você vem? — ela perguntou em voz baixa, tentando decifrar-lhe as emoções, antes que ele respondesse: — Ufa! Pensei que você nunca fosse fazer essa proposta!
  • 89. Sobre a Autora Marion é de Kent, mas vive atualmente num bairro tranquilo no sudeste de Londres, cidade em que reside e trabalha há muitos anos. Ela guarda muito carinho em relação ao leste da cidade e ao Jardim da Inglaterra — como é conhecida a sua cidade de origem — a grande inspiração de seus anos de formação. A pequena comunidade onde morava com os seus pais e o irmão foi generosa em relação a ela enquanto crescia na região de Ashford, antes de finalmente dar o grande salto em sua vida e aceitar um emprego administrativo em Londres: foi quando começou a rotina, às vezes desencorajadora, do deslocamento diário. O cenário social após o trabalho compensava esse transtorno, sem contar com o alto salário e as muitas aventuras das quais desfrutara antes de se casar com Matt, o seu ex-marido. Tendo sentido as dores de um divórcio um pouco arrastado, viveu sozinha com o filho por algum tempo, até ser capaz de colocar o passado para trás e seguir em frente com um novo alguém excitante, tanto emocional como fisicamente. Esta experiência a lembrou um pouco dos primeiros anos em Londres: o início das descobertas de si mesma e de suas necessidades. Ao chegar à meia idade — se é que este conceito ainda exista hoje em dia — não teve dificuldade em explorar o amor, o sexo e o real companheirismo. Marion sempre manteve um diário, em que escrevia com menor ou maior regularidade. Após a separação, as atualizações passaram a ser diárias: sobre os acontecimentos do dia, bons e maus, mas também sobre os seus sentimentos, os do filho, da família, conforme evoluíam, e tempos depois, sobre o amor e o desejo em relação ao homem atraente que apareceu em sua vida. Os diários de Marion têm muitas outras revelações, e «Um amor em Londres» é, dentre elas, apenas parte da história… como você verá em breve.

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