Deste Planalto Central - Poetas de Brasília

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Esta coletânea, que
abriga expressões da poesia brasiliense — atuantes nesta antevéspera do
cinquentenário da Capital —, é item da programação da I Bienal Internacional
de Brasília, promovida pela Biblioteca Nacional de Brasília.

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Deste Planalto Central - Poetas de Brasília

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3 Deste Planalto Central — Poetas de Brasília
  4. 4. 4
  5. 5. 5 Deste Planalto Central — Poetas de Brasília Salomão Sousa Organizador 2008
  6. 6. 6 @ 2008. Proibida a reprodução. Direitos autorais reservados aos autores. Diagramação: Carlos Alberto
  7. 7. 7 Sumário 9 Argumentos do Organizador 23 Afonso Henriques Neto 27 Aglaia Souza 31 Alexandre Marino 35 Alexandre Pilati 39 Álvaro Faleiros 43 Amneres 47 Anderson Braga Horta 53 Angélica Torres 57 Antonio Carlos Osorio 61 Antonio Miranda 67 Astrid Cabral 71 Chico Pôrto 75 Cláudio Murilo Leal 79 Cristina Bastos 83 Eudoro Augusto 87 Ézio Pires 91 Francisco Alvim 95 Francisco Kaq 99 H. Dobal 103 Heitor Humberto de Andrade 107 Hermenegildo Bastos 111 Hugo Mund Junior 117 Joanyr de Oliveira 121 João Bosco Bomfim
  8. 8. 8 Sumário 125 João Carlos Taveira 131 José Edson dos Santos 135 Josira Sampaio 139 José Carlos Pereira Peliano 143 José Santiago Naud 147 Julio Cezar Meirelles 151 Lina Tâmega Peixoto 155 Lourdes Teodoro 161 Luiz Martins da Silva 165 Luis Turiba 171 Menezes y Moraes 177 Nelson Carvalho 181 Nilto Maciel 185 Nicolas Behr 191 Otávio Afonso 195 Pedro Tierra (Hamilton Pereira) 203 Reynaldo Jardim 209 Robson Corrêa de Araújo 213 Ronaldo Cagiano 217 Ronaldo Costa Fernandes 223 Salomão Sousa 229 Sylvia Cyntrão 233 TT Catalão 237 Vera Americano 241 Viriato Gaspar 247 Wilson Pereira 251 Xenïa Antunes 255 Referências Biobibliográficas
  9. 9. 9 Argumentos do Organizador “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas de- cisões nacionais, lanço os olhos mais um vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma con- fiança sem limites no seu grande destino.” Juscelino Kubitschek
  10. 10. 10
  11. 11. 11 Esta coletânea, que abriga expressões da poesia brasiliense — atuantes nesta antevéspera do cinquentenário da Capital —, é item da programação da I Bienal Inter- nacional de Brasília, promovida pela Biblioteca Nacional de Brasília. O organizador acalentava há mais de quinze anos o desejo de agrupar num único vo- lume aqueles poetas que contribuem com têmpera pessoal para a edi- ficação da poesia da sociedade cultural no Planalto Central. O convite da Biblioteca Nacional de Brasília concretiza este desejo. Ainda é cedo para o antevisto amanhã do profético discurso de Juscelino Kubitschek, mas numa velocidade elétrica com argamassa de sangue e sonho de arquitetos, escritores, músicos… forja-se com arrojo não só a certeza da centralização de decisões políticas e da abertura de frentes econômicas, mas forja-se também a certeza da necessária irradiação de cultura. Com a nova Capital ficou aberta a possibilidade de melhor miscigenação cultural da população mais a oeste do país. Ao elevar-se como símbolo da modernidade frente a todas as nações, Brasília extinguiu o conceito de província, que causou malefícios a tantos criadores não só em razão do preconceito, mas sobretudo pela ausência de redes de formação e de divulgação. Desse projeto, os poetas brasilienses têm sobressaído em
  12. 12. 12 Salomão Sousa antologias estrangeiras e nacionais, à medida que os anos passam, numa representatividade crescente. Basta ver o número deles na Antologia Comentada da Poesia Brasileira no Século 21 (Publifolha, 2006) e na Antologia Comentada de Literatura Brasileira (Vozes, 2006). Por se tratar de sociedade nascente, ainda são raros os poetas brasilienses naturais. Pelo que está coletado neste volume transcorridos quase 50 anos da inauguração de Brasília , constata-se que apenas um, numa totalidade de cinqüenta poetas, nasceu na cidade. Portanto, é cedo para a arte de Brasília admitir qualquer tombamento ou cerca limitadora, pois junto com a cidade, ainda está em processo a dinâmica de ampliação dos limites dos próprios recursos humanos e criativos. A condição de estrangeiro dos poetas brasilienses não é desalentadora. Primeiramente, ela corresponde à situação idêntica vivida pelos que atuam em outras instâncias. Assim como a árvore transplantada conforme comprova a ciência , os poetas se ajustam a esse solo, dele retiram elementos de sobrevivência e de construção simbólica, e a esse solo transferem características insemi- nadoras de novas fertilidades, contribuindo para o surgimento de uma vistosa Babilônia da modernidade. Essa troca de fertilidade não é de agora desde a demarcação do Distrito Federal que se tem registro de poetas no território abrindo clareiras, armazenando metáforas da cons- trução… Com essa troca leal, os poetas dão face à cultura de Brasília, e na história da cidade cinzelam suas efígies pessoais. A presença do corpo diplomático, dos tribunais, das casas legislativas, das universida- des de todo o arcabouço administrativo a exigir presença de homens e mulheres íntimos da interpretação cultural e política favoreceu o rápido florescimento da literatura em Brasília. Assim, após a arquite- tura, a poesia foi o segmento criativo que melhor vem se aclimatando às vastidões do Planalto Central, e se afirma como um dos segmentos da literatura de maior expressão na região. Outros segmentos aparecem
  13. 13. Salomão Sousa 13 através de booms temporários, enquanto a poesia se preocupa em en- contrar dinâmica evolutiva. Como alternativa para enfrentar o distanciamento do mercado editorial, bem como do incipiente processo crítico já que Brasília demora a produzir crítica cultural, pois os meios de comunicação aqui se instalam para produzir crítica política e para demarcar, de forma coesa, a presença na cidade, os poetas brasilienses sempre buscaram se afirmar de forma organizada em entidades culturais e em antologias. A primeira antologia de Joanyr de Oliveira, de 1962, empresta cinco nomes para a presente coletânea. De lá para cá, são dezenas de antologias consorciadas, temáticas, marginais, poetas agrupados por entidade, por repartição pública, por cidades-satélites… Inútil a construção de argumentos para justificar ausências de poetas nesta coletânea. Ou a abertura das preferências do organizador, pois elas nem sempre irão coincidir com a multiplicidade dos olhares críticos mesmo quando manifestamente benfazejos. Independente da linguagem de cada au- tor, esta coletânea busca apreender poetas de todas as fases e grupos de escritores de Brasília, considerando desde aqueles que circulavam aqui entre 1956 e 1958, até os que atuam na Capital no advento de seu cinqüentenário. Seria injusto se não fosse oferecida prioridade, no processo de escolha, aos poetas residentes na cidade, preferencialmente àqueles que entrelaçam suas raízes para maior fixação numa nova territorialidade. Foram raríssimas, mas necessárias ao olhar do organizador, exceções àqueles que, mesmo fora, continuam a emprestar parcerias em ramificações que contribuem para ampliar a vitalidade da cultura brasiliense. Para evitar preterições de justificado questionamento, o material de vários poetas foi recolhido após a busca em fundos abandonos. Foi constatado que
  14. 14. 14 Salomão Sousa em Brasília os poetas guardam riquíssimo material inédito, prontos para edição, ou que se encontra em elaboração (há exigência urgente de projeto capaz de trazer à luz a obra que muitos poetas ativos têm produzido, e também o que sabidamente foi deixado inédito por Altino Caixeta de Castro, Esmerino Magalhães Jr., Fernando Mendes Vianna e Otávio Afonso). Alguma aura de invisibilidade já que é incipiente o processo de avaliação dos escritores de Brasília pode ter prejudicado a avaliação de algum autor. No entanto, sem o corpo-a-corpo crítico é oportuno reconhecer não há a troca entre terra e raízes, ou mesmo sem entrecruzar de genes na boa sementeira. Em que pese toda secura com que é tratado, o poeta não pode se recolher tem de insistir com a sua fertilidade, trazê-la para a rua. Nem tudo pode acontecer só no antevisto amanhã. É natural que a coletânea não consiga abrigar todos os poetas expressivos que passaram ou que continuam em Brasília. O organizador coletou informações sobre muitos outros autores (basta dizer que de muitas antologias não foi sa- cado nenhum nome para figurar aqui), que deixam de ser relacionados, pois, a simples menção de seus nomes não repararia a ausência de uns e ainda suscitaria a lembrança de outros — o que sedimenta a certeza da impossibilidade de esgotar a totalidade daqueles que fortalecem a história inicial da literatura de Brasília. Para não diminuir a representatividade dos poetas que se encontram em atividade, a coletâ- nea não contempla aqueles que já faleceram por si sós, seriam suficien- tes para volume ainda mais caudaloso. Na primeira fase do levantamento dos nomes que poderiam figurar na coletânea, treze deles chegaram a ser relacionados. Sem necessidade de contratação de consultoria crítica para avaliá-los, acrescentariam mérito a qualquer antologia nacional ou estrangeira ainda mais a uma regional: Altino Caixeta de Castro, Afonso Félix de Sousa, Antonio Roberval Miketen, Cassiano Nunes, Domingos Carvalho da Silva, Esmerino Magalhães Jr., Fernando Mendes Vianna, Jesus Barros Boquady, José Godoy Garcia, José Hélder de Souza, Yolanda
  15. 15. Salomão Sousa 15 Jordão, Marly de Oliveira e Oswaldino Marques. Como faleceram após desencadeado o processo de organização da coletânea, foram mantidas as presenças de Otávio Afonso, que foi o segundo poeta brasileiro “a levar” o Prêmio Casa de Las Américas, pois o primeiro “a trazer” este prêmio para o Brasil foi Pedro Tierra (também aqui presente), e H. Do- bal, que, além de poeta aclamado, muita contribuição deixou na esfera administrativa de Brasília. O organizador pretendia que a formação da poesia de Brasília fosse apresentada na ótica de cada participante. Mas, por dificuldade de coletar o material, merecem destaque as justas observações de José Edson dos Santos: A formação do contexto histórico-cultural da práxis poética em Brasília passa certamente pela iniciativa desbravadora de Joanyr de Oliveira de reunir em 1962, na antologia Poetas em Brasília, nomes expressivos como Afonso Félix de Sousa, Alphonsus de Guimaraens Filho, Anderson Braga Horta, Ézio Pires, José Santiago Naud, entre outros. Nos anos setenta, outras manifestações poéticas coletivas como Águas Emendadas, com Francisco Alvim, Carlos Saldanha, Luis Martins, Chico Dias; Em Canto Cerrado, organizada por Salo- mão Sousa. As edições dos 8, 16, 20 e 27 POrrETAS, reunidas por César Athayde. A revista Grande Circular, a Lira Pau Brasília, com Turiba, Nicolas Behr, Paulo Tovar, Sóter, visitando escolas no início dos anos 80. A Livraria Galilei com os lançamentos e divulgação de livros e antologias que marcaram a iniciação de muitos poetas. A Feira do Livro também teve um papel relevante no surgimento de novos poetas, nas interações dos saraus pelos bares e cafés da cidade. Outras iniciativas e projetos alternativos ficaram no limbo do esquecimento. Trabalhos de mestrado como O Cristal e a Chama (A Linguagem Literária que Traduz o Objeto Brasília), de Maria da Glória Barbosa, e Poesia de Brasília: Duas Tendências, de José Roberto de Almeida Pinto, vêm de certa forma contribuir e resgatar esse espaço de atuação nas áreas da cultura e da poesia desenvol- vidas em Brasília.
  16. 16. 16 Salomão Sousa Realmente, o estudo de José Roberto de Almeida Pinto — que toma por eixo a Poesia Marginal — merece ser reconhecido como aquele que melhor organiza os primeiros movimentos da poesia de Brasília. Não podem passar despercebidos os livros História da Literatura Brasiliense, de Luiz Carlos Guimarães da Costa, que apesar da falta de sistematização historiográfica foca- liza alguns escritores de preferência do autor; e Depoimento Literário, Julgamento de Liberdade e Literatura na Criação de Brasília, de Ézio Pires, que reúne artigos e notas do autor sobre os primeiros passos da literatura brasiliense. Somam-se a esses livros os dois volumes de artigos, resenhas e palestras de Anderson Braga Horta. A literatura de Brasília — sem desmerecer esses esforços iniciais — já merece estudo de visão interpretativa e de melhor estrutura historiográfica. Quanto às publicações seriadas em que pese a existência do Boletim da ANE, das revistas da Academia Brasiliense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, Há Vagas e DF Letras , destaca-se de forma isolada a revista Bric-a-Brac, que inverteu o viés do processo criativo. Contudo, as aproximações com as vanguardas, promovidas pela revista Bric-a-Brac, foram insufi- cientes para mudanças significativas nos rumos da poesia de Brasília. Para compreender o entendimento pessoal do poeta sobre a vida na Capital, talvez pudesse ser dramatizado o momento da chegada de al- guns deles. Poderia, por exemplo, ser relembrada a primeira noite de determinado poeta numa cidade-satélite, quando andou chapinhando nas poças de lama. Para ele, a primeira lua em Brasília estava enlame- ada. Para muitos, a qualquer momento, a porta podia ser arrebentada pela força da repressão. O poeta, então, não tinha tempo para práxis e processos tinha de construir com lama e resistência. Há um pequeno poema de Lourdes Teodoro que remete ao período em que a Ditadura fazia (re) percutir dentro dos lares brasileiros o ruído de seu torniquete, chamado “Oração do Mutilado”, que pode ser interpretado como o apagar-se da
  17. 17. Salomão Sousa 17 esperança ou ao elevar-se da construção onde antes era o verde: o verde em mim é um remoto ponto escuro. Lembremos também o po- ema sem título, de Esmerino Magalhães Jr., que foi recitado em diversos momentos de protesto realizados em Brasília: O SARGENTO QUE MATOU GARCIA LORCA está sentado. A mão direita de seu padre todo-poderoso na aldeia acena-lhe da porta da igreja. Corpo ainda modorrento do catre, levanta-se, pensando no que mais importa: à tarde, ao vinho, virá o melhor alcatre. O sargento que matou Garcia Lorca vai à missa domingueira e genuflexo é o herói da aldeia. A

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