Reminiscências edificadas: a relação entre memória e esquecimento na  paisagem da Rua Dr. Assis no Bairro da Cidade Velha em Belém-PA
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Reminiscências edificadas: a relação entre memória e esquecimento na paisagem da Rua Dr. Assis no Bairro da Cidade Velha em Belém-PA

on

  • 1,130 views

Este trabalho visa investigar as edificações classificadas como “renovação” pela Lei 7709 de ...

Este trabalho visa investigar as edificações classificadas como “renovação” pela Lei 7709 de
1994, responsável pela preservação e proteção do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental e Cultural
do município de Belém. A categoria “renovação” enquadra os imóveis sem interesse à preservação, onde
em seu lugar pode ser construída uma nova edificação. Com isso esses lotes presentes no conjunto
histórico “abrem a guarda” para a dinâmica de transformação intrínseca à cidade, a paisagem
transfigurada escapa à “estética patrimonial” consolidando uma nova “Cidade Velha”. Desvendar as
relações simbólicas implícitas no processo de “descaracterização” do tecido urbano tombado é o mote
usado para relacionar memória e esquecimento dos usuários da Rua Dr. Assis à transformação da
paisagem, segundo caminho aberto em Belém. A via que já se encontrava traçada por volta de 1619, hoje
faz parte do bairro da Cidade Velha, o qual juntamente com o bairro da Campina formam o Centro
Histórico de Belém, núcleo urbano possuidor de grande parte do acervo de bens patrimoniais da cidade.
Através do método etnográfico como instrumento de pesquisa buscou-se entender a produção da cultura
material a partir da relação entre memória e esquecimento estabelecida nas falas dos agentes
transformadores do lugar e refletidas nas “lacunas patrimoniais edificadas”.

Statistics

Views

Total Views
1,130
Views on SlideShare
1,130
Embed Views
0

Actions

Likes
0
Downloads
7
Comments
0

0 Embeds 0

No embeds

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

Reminiscências edificadas: a relação entre memória e esquecimento na  paisagem da Rua Dr. Assis no Bairro da Cidade Velha em Belém-PA Reminiscências edificadas: a relação entre memória e esquecimento na paisagem da Rua Dr. Assis no Bairro da Cidade Velha em Belém-PA Document Transcript

  • Reminiscências edificadas: a relação entre memória e esquecimento na paisagem da Rua Dr. Assis no Bairro da Cidade Velha em Belém-PA Dinah R. Tutyia (1), Cybelle Salvador Miranda (2) (1) Mestranda, PPGAU- UFPA, Brasil. e-mail: dinahtutyia@hotmail.com (2) Profª. Drª.Cybelle Salvador Miranda, PPGAU/FAU – UFPA, Brasil. e-mail: cybelle@ufpa.brResumo: Este trabalho visa investigar as edificações classificadas como “renovação” pela Lei 7709 de1994, responsável pela preservação e proteção do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental e Culturaldo município de Belém. A categoria “renovação” enquadra os imóveis sem interesse à preservação, ondeem seu lugar pode ser construída uma nova edificação. Com isso esses lotes presentes no conjuntohistórico “abrem a guarda” para a dinâmica de transformação intrínseca à cidade, a paisagemtransfigurada escapa à “estética patrimonial” consolidando uma nova “Cidade Velha”. Desvendar asrelações simbólicas implícitas no processo de “descaracterização” do tecido urbano tombado é o moteusado para relacionar memória e esquecimento dos usuários da Rua Dr. Assis à transformação dapaisagem, segundo caminho aberto em Belém. A via que já se encontrava traçada por volta de 1619, hojefaz parte do bairro da Cidade Velha, o qual juntamente com o bairro da Campina formam o CentroHistórico de Belém, núcleo urbano possuidor de grande parte do acervo de bens patrimoniais da cidade.Através do método etnográfico como instrumento de pesquisa buscou-se entender a produção da culturamaterial a partir da relação entre memória e esquecimento estabelecida nas falas dos agentestransformadores do lugar e refletidas nas “lacunas patrimoniais edificadas”.Palavras-chave: Centro Histórico; Patrimônio Urbano; Memória; Esquecimento.1. Introdução1.2. A Rua Dr. Assis e o Bairro da Cidade VelhaSegundo caminho aberto em Belém recebeu a denominação inicial de Rua do Espírito Santo em virtudede um morador – Sebastião do Espírito Santo Tavares. Esta designação permaneceu por dois séculos emeio e depois passou a se chamar Rua Dr. Assis (FORUM LANDI, 2006). Atualmente comaproximadamente 392 anos a via compõe com demais logradouros o bairro da Cidade Velha, quejuntamente com o bairro da Campina formam o Centro Histórico de Belém (CHB). Figura 01 - Planta geométrica da Cidade de Belém do Grão Pará, desenhada por Andrade Schwebel em 1753. Fonte: ALUNORTE, modificado pelo autor, 1995.O perfil desta rua é o reflexo das transformações ocorridas no bairro como um todo. Hoje, pode-secaracterizar a Cidade Velha como um bairro onde existe o predomínio habitacional embora haja umarelativa diversidade de usos misto e comércio, abrigados em um conjunto peculiar de imóveis, marcados 1
  • pela heterogeneidade de linguagem e tipologia arquitetônica. Embora com uma quantidade significativade edificações descaracterizadas, em ambos os aspectos – linguagem e tipologia – ainda é possívelconstatar exemplares que vão do colonial às desfigurações1 sem classificações, da monumentalidade àsmais humildes habitações, espalhadas em uma malha de vias estreitas e sinuosas não tão bemconservadas.A necessidade da população local em atualizar-se e adaptar-se as diversas solicitações da modernidade,criou e recriou o cenário hoje presente, casas ecléticas com abertura para garagem em residências ou parafacilitar a entrada de maquinários e clientes em comércios, dentre outras modificações. Transformaçõesexigidas por novos programas de necessidades, que ao longo dos anos geraram um número de imóveisclassificados como parcialmente descaracterizados, porém tão importantes quantos os originais para apreservação do patrimônio edificado do lugar. Além destes, uma grande quantidade de imóveisclassificados como totalmente descaracterizados também foram surgindo no tecido histórico, em dadospercentuais das edificações levantadas, aproximadamente 47% do total encontravam-se sem análisequanto à linguagem arquitetônica2 no ano de 2006 (TUTYIA, 2010). É no numero de edificações as quais“destoam” e as quais permanecem “históricas” no conjunto, que se busca traçar a relação entre memória eesquecimento na rua Dr. Assis.2. ObjetivoEstabelecer a relação entre memória e esquecimento consolidadas nas fachadas das edificações da RuaDr. Assis por meio das falas dos agentes transformadores do espaço.3. JustificativaCastriota (1999) ao tratar da preservação do meio ambiente urbano, afirma que preservar o patrimônioambiental urbano não significa congelar a vida e transformar o conjunto histórico em um museuintocável, preservar o patrimônio ambiental é preservar o equilíbrio da paisagem, é pensar em como inter-relacionar infra-estrutura, lote, edificação, linguagem urbana, usos, perfil histórico e a própria paisagem, égarantir qualidade de vida e de desenvolvimento ao homem. O autor ainda complementa colocando quepara a memória, para a identidade cultural e para o meio ambiente urbano é importante conservar oselementos que os conjuntos têm de essencial como “[...] volumetria, traços básicos de fachada, eeventualmente, mesmo tipologias em planta.” (CASTRIOTA, 1999, p.13).Oliveira (2008) ressalta ainda que intervenções desrespeitosas no entorno imediato ou no patrimônioedificado [...] traz conseqüências de várias ordens [...] duas dessas conseqüências: 1) os danos causados à memória e à imagem da cidade, em decorrência da redução ou mesmo eliminação dos vestígios históricos; e 2) o enfraquecimento de seu potencial turístico, com a conseqüente perda de receitas (OLIVEIRA, 2008, p.21).Ao se considerar a cidade como um artefato, a renovação é algo intrínseco que acompanha odesenvolvimento humano, é um fato o qual não se pode impedir, porém cabe à “[...] sociedade e aogoverno orientar essa renovação, para que a paisagem evolua de maneira equilibrada [...]” (CASTRIOTA,1999, p.13).1 Desfigurações, descaracterização são termos usados no trabalho para tratar os imóveis classificados por“renovação” na Lei 7.709 - responsável pela preservação e proteção do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental eCultural do município de Belém. A categoria “renovação” enquadra os imóveis sem interesse à preservação, ondeem seu lugar pode ser construída uma nova edificação.2 As linguagens arquitetônicas foram definidas pela equipe técnica do projeto, para maiores informações ver:FÓRUM LANDI. Estudo Tipológico e Sócio-Econômico do Bairro da Cidade Velha Belém. Belém, 2006. 2
  • Desta forma, o conjunto de imóveis inseridos no núcleo urbano histórico da Cidade Velha, maisespecificamente da rua Dr. Assis, traz as camadas sobrepostas da história, podendo estas ser visualmenteperceptíveis em suas fachadas. Entender a construção da paisagem é de extrema importância, tanto paraguiar as intervenções na área como também ponto de reflexão da edificação de uma nova arquitetura.4. Método empregadoCom o objetivo de conhecer o processo de perda das características arquitetônicas históricas dos imóveisda via, foi utilizada a técnica da etnografia de rua que consiste [...] na exploração dos espaços urbanos a serem investigados através de caminhadas sem destino fixo nos territórios. A intenção não se limita, portanto, apenas a retornar o olhar do pesquisador para a sua cidade por meios de processos de reinvenção/reencantamento de seus espaços cotidianos, mas capacitá-lo às exigências de rigor nas observações etnográficas ao longo de ações que envolvem deslocamentos constantes no cenário da vida urbana” (ROCHA; ECKERT. p.6, 2001).O percurso, sob um andar descompromissado, possibilitou registrar – por meio de câmera fotográfica –em um primeiro momento a vida da rua, o comportamento das pessoas na Dr. Assis, assim como aspectosreferentes a estruturação do logradouro. Em um segundo momento, o estabelecimento de contato pormeio de entrevista com os moradores e donos de estabelecimentos comerciais – dos imóveisdescaracterizados – possibilitou analisar a relação morador/dono de estabelecimento – imóvel.As interpretações desta coleta de dados sob o viés da relação memória-esquecimento são feitas a partirdas considerações de Nora (1993), Pelegrini (2006), Bogea (2007) e Nietzche (1983).5. Resultados obtidos5.1. Apreensão do lugarO caminhar descompromissado do flâneur, permitiu outro olhar do lugar, ausente do sistema métricoproporcionado pela trena. A cada passo para o interior da rua Dr. Assis se desvendava um novo objetivo,uma nova composição de paisagem, as edificações excluídas do interesse à preservação pelo tombamento,agora eram capazes de revelar os seus interesses e de seus usuários. A partir do método etnográfico,eventos que em um primeiro momento aparentariam ser simples ou óbvios, permitiram produzir reflexõessignificativas, o contato com os atores sociais que se relacionam com estas edificações mostraram a visãodestes com o “mundo do patrimônio”. Desta forma expõe-se a experiência realizada com o objeto deinvestigação deste trabalho3:O “monstro” chamado patrimônio[...] O segundo momento da visita ao campo, a aproximação com os moradores/donos deestabelecimentos comerciais para a abordagem quanto as descaracterizações feitas nos imóveis, tive ocuidado da não utilizar a palavra “descaracterização”, substituindo-a pela palavra “reforma” para soarmais suave a fim de evitar que o proprietário se sentisse diante de uma entrevista com um órgão público,levando-o a pensar que iria ser multado sobre as possíveis reformas feitas na edificação. “[...] Nestainteração, ele [o etnógrafo] depende não só do domínio da língua do Outro para compreender o que édito, mas a atenção aos tons e meios tons, das insinuações e dos silêncios, dos não-ditos e refusas”(Rocha; Eckert. p.9, 2001).3 As presentes considerações foram resultado do trabalho de pesquisa de campo desenvolvido para a Disciplina“Método etnográfico aplicado a pesquisa em Arquitetura”, do Programa de Pós Graduação em Arquitetura eUrbanismo da UFPA. 3
  • Trechos do diário de campo são capazes de revelar a relação dos entrevistados com os imóveisreformados:“Dei preferência aos imóveis comerciais pela possível facilidade de conseguir coletar informações porestarem abertos no horário da caminhada, em um desses ao perguntar sobre as reformas na edificação, oinquilino (importante ressaltar que o entrevistado fez questão de se colocar como inquilino e nãoproprietário) respondeu que não havia mexido no imóvel externamente e que só havia colocado um piso,o que estava lá, mas percebi que ele não queria falar muito sobre o assunto, pois estava meio receoso,pois dentro de sua resposta mencionou que “não pode mexer em prédios antigos por causa dopatrimônio”, mesmo eu não tendo mencionando as palavras “edificação histórica”, “tombamento” ou“patrimônio”. [...] Em um segundo imóvel um senhor que se dispõe a responder algumas perguntas,relata que está ali aproximadamente 50 anos, e que a casa antiga era de uso misto. A partir disto, eupeço que ele fale um pouco sobre como era a Dr. Assis há cinqüenta anos, ou qual era a lembrança queele tinha da via, ele responde que “existiam muitas casas velhas que foram caindo, sendo derrubadas” eaponta para a frente mencionando com a mão as casa [...] pergunto se ele fez alguma reforma no imóvel,ele responde que não pode falar pois é inquilino, neste momento percebo que ele tenta se abster dequalquer responsabilidade de descaracterização do imóvel. Mas o senhor segue falando, que naquelaépoca, há 40 anos não havia muita fiscalização – suponho que sejam dos órgãos públicospreservacionistas – e que se derrubavam as casas antigas para construírem comércio. Pergunto então sena elaboração da edificação atual houve alguma inspiração quanto ao projeto, e o mesmo responde quenão.Caminho para próxima edificação, o proprietário que toma conta do próprio negócio e ocupa o local há52 anos. O senhor afirma que o aspecto da edificação sempre foi o mesmo, e que a configuração atual daloja, não foi uma adaptação ao comércio, afirma que a antiga casa caiu e construíram essa “nova”.Pergunto se ele lembra de como era a via antigamente há 50 anos atrás, ele afirma que haviam casasvelhas, antigas e menciona a casa da dona O. – uma casa eclética de porão alto, considerada original -percebo que a casa serviu como um objeto de lembrança do antigo aspecto que a via possuía. [...]Termino a caminhada com outro imóvel comercial [...]. O proprietário relata que o prédio tinha afachada antiga, e era de uso residencial, comenta também que o atual imóvel já está nesta configuraçãohá 30 anos, e que naquela época não havia fiscalização como é hoje “do patrimônio” [...] Quandopergunto se ele teria alguma foto antiga do imóvel ou da área, ele responde “você está louca? Depois opatrimônio vem atrás de mim!”.Não era a primeira vez neste dia que as pessoas se referiam ao “patrimônio” como se fossem umapessoa que fizesse cobranças. Fato que me fez refletir sobre o medo que as pessoas têm dos órgãos depreservação patrimonial, e me faz pensar em como deveria ter sido traumática para os moradores daárea o contato com as restrições feitas a partir tombamento do local, e as intensificações dasfiscalizações por partes dos órgãos preservacionistas. Além deste fato, fica claro que, ao contrário decomo se conceitua hoje o patrimônio cultural, e a sua função para determinada sociedade, podemosdestacar que esta sociedade deva usufruir e apreciar o bem cultural, porém este pequeno número depessoas não consegue absorver esta idéia de patrimônio, delegando a este, o sentido de uma pessoa “opatrimônio”, personificando o vocábulo, que atua ali com seus olhos invisíveis fiscalizando o bairro,sempre pronto a castigar reformas na área.5.2. O Tombamento como lugar de memóriaO conceito de lugar de memória definido por Nora (1993) serve como ponto de partida para compreendera fixação dos imóveis originais no tecido do bairro da Cidade Velha, sobretudo na via em estudo. O autorconsidera que os lugares de memória são consolidados a partir de uma atribuição de valor que cristalizaestes lugares para serem lembrados de forma estática, e imediata. Nora (1993) expõe que estes, são “[...]marcos testemunhos de outra era, das ilusões de eternidade [...] (NORA, 1993, p.XX)”, apontando oaspecto nostálgico delegado a tais lugares. A rua Dr. Assis está resguardada do processo de aceleração dotempo, fenômeno inerente à sociedade contemporânea, através da Lei 7709 de 1994, responsável pelapreservação e proteção do Patrimônio Histórico, Artístico, Ambiental e Cultural do município de Belém.Assim depreende-se que a ação de tombar um bem tem como objetivo congelá-lo frente à dinâmica da 4
  • transformação da cidade, freando-o à perda do caráter histórico e artístico que o qualifica e o “eleva” apatrimônio, que garante sua fruição às gerações futuras. [...] O sentimento de um desaparecimento rápido e definitivo combina-se à preocupação com o exato significado do presente e com a incerteza do futuro para dar ao mais modesto dos vestígios ao mais humilde testemunho a dignidade virtual do memorável” (NORA, 1993, p.14).5.3. A dialética memória e esquecimento na transformação das fachadasRefletindo sobre o „lugar de memória‟ no logradouro, as 51 partes desprovidas da originalidade histórico-estética e de contornos capazes de rememorar um tempo mítico da história da cidade se confrontam comos outros 17 imóveis originais detentores de uma estética histórica capaz de travar o tempo em seuscontornos. A apreensão das relações simbólicas estabelecidas entre os usuários desses dois grupos, feitaatravés do método etnográfico de pesquisa a partir das anotações no diário de campo revela uma nova Dr.Assis (Fig. 02), (Fig.03), (Fig.04), (Fig.05), (Fig.06) e (Fig.07). Figura 02 - Imóvel de Figura 03 - Imóvel de Figura 04 - Imóveis de uso comercial, uso misto, classificado uso comercial, com desprovido da estética segundo a legislação solução arquitetônica patrimonial. como imóvel de recorrente ao longo da Foto: Dinah Tutyia, renovação. via. 2010. Foto: Dinah Tutyia, Foto: Dinah Tutyia, 2010. 2010. Figura 05 - Imóvel de Figura 06 - Imóvel de Figura 07 - Imóvel uso misto, com a uso residencial, com a sem uso, recém fachada possuidora de fachada original, ponto restaurado, referência uma estética histórica. de referência na rua. de arquitetura da Belle Foto: Dinah Tutyia, Foto: Dinah Tutyia, Époque. 2010. 2010. Foto: Dinah Tutyia, 2010. 5
  • Do estabelecimento de contato com os usuários por meio de entrevista, pode-se observar que o ato derecordar e descrever a antiga paisagem são frutos de um exercício mnemônico, facilmente feito poraqueles que têm uma relação afetiva com espaço, aqueles que de certa forma fazem questão de manter aambiência histórica do bairro por meio da conservação dos imóveis. Segundo Pelegrini (2006), é nointimo da memória de uma dada população que se encontra os elementos próprios da história, datipologia, do espaço, das paisagens. A autora também afirma que a memória estabelece um vínculo entreas gerações ao longo do tempo e que [...] tal vínculo, além de constituir um “elo afetivo” que possibilita aos cidadãos perceberem-se como “sujeitos da história”, plenos de direitos e deveres, os torna cônscios dos embates sociais que envolvem a própria paisagem, os lugares onde vivem os espaços de produção e cultura (PELEGRINI, 2006, p.116).Bogéa (2007) considera que os ambientes construídos pelos homens “guardam através da materialidade, amemória das idéias, das praticas sociais e dos sistemas de representação dos indivíduos que aliconvivem”, todavia a autora relata que é impossível manter a memória integralmente materializada naprodução cultural.Desta forma, os usuários dos imóveis totalmente remodelados, não se identificavam com a paisagemantiga, evidenciando a “vontade” do esquecimento desta, materializada nas “lacunas estéticas” dasfachadas das edificações ocupadas pelos mesmos. Para Nietzsche (1983), a necessidade do esquecimentoestá em abrir espaço na consciência para o novo, a ação de esquecer funciona como zelador da ordempsíquica, da paz e que sem ele não haveria felicidade, esperança, jovialidade, orgulho e o presente.As exigências da vida moderna conduzem as alterações, e adaptações das edificações aos novosprogramas de necessidades, com isso uma nova paisagem vai sendo delineada ao longo do logradouro.5.4. Reminiscências Edificadas, os indícios de um passadoA capacidade evocatória de alguns imóveis originais foi um ponto identificado e recorrente nasentrevistas realizadas. Esta ação era feita especialmente pelos usuários das edificações descaracterizadasdurante a tentativa de narração da paisagem anterior à atual. Neste contexto, os imóveis das figuras 05 e06 – usos misto e residencial respectivamente – eram constantemente tomados como exemplos de modeloarquitetônico na reconstituição visual da rua Dr. Assis.Esta evocação está ligada a memória indireta, considerada por Nora (1993), como uma memóriaarquivística que se apóia inteiramente sobre o que há de mais preciso no traço, mais material no vestígio,mais concreto no registro, mais visível na imagem. Quanto “[...] menos a memória é vivida no interior,mais ela tem a necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis [...]” (NORA, 1993, p.12).6. Considerações FinaisMúltiplas são as formas de investigação na tentativa de trazer à tona as relações simbólicas inerentes aconstrução e aos construtores da paisagem de uma área protegida por instrumentos preservacionistas. Ométodo etnográfico empregado para o desenvolvimento deste trabalho foi capaz de articular as discussõesentre paisagem, memória, esquecimento e lugares de memória, revelando novos dados da dicotomiaoriginal x descaracterizado, recorrente à temática patrimonial.7. Referências BibliográficasALUNORTE. Belém do Pará. São Paulo: Gráfica Editora Hamburg, 1995.BOGÉA, Marta. Esquecer para preservar. São Paulo Arquitextos, ano 08, dez 2007. Disponivel em <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.091/181> . Acesso em 28 de Jun de 2011. 6
  • CASTRIOTA, Leonardo Barci. Alternativas Contemporâneas para Políticas de Preservação. Topos Revista deArquitetura e Urbanismo. Belo Horizonte v.1, p. 134-138, jul/dez 1999.FORUM LANDI. Manual do Guia. Belém, jan. 2006. Disponível em <http://www.forumlandi.com.br/circuito/manual_guia.pdf >. Acesso em 10 out. 2007.NIETZSCHE, F. W. Da utilidade e desvantagem da História para a Vida. In: Obras Incompletas - Coleção "OsPensadores". Rio de Janeiro: Abril, 1983.NORA, Pierre. Entre a memória e a história: a problemática dos lugares. Projeto História: Revista do Programa deEstudos de Pós-Graduação em História e do Departamento de História da PUC-SP, n. 10, dez, 1993 (p.7 a 28).OLIVEIRA, Raquel Diniz. Um olhar sobre a Itália e o Brasil: o tratamento de vazios urbanos em conjuntoshistóricos na perspectiva comparada. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Minas Gerais, Escola deArquitetura, Belo Horizonte, 2008.PELEGRINI, Sandra C. A.. Cultura e natureza: os desafios das práticas preservacionistas na esfera do patrimôniocultural e ambiental. Revista Brasileira de História, n.51, 2006 (p.115 a 140).ROCHA, Ana Luiza Carvalho; ECKERT, Cornelia. Etnografia de rua: estudo de antropologia urbana. Iluminuras –Banco de Imagens e Efeitos Visuais. Rio Grande do Sul, n.44, p 3-25, 2001.TUTYIA, Dinah R.. Albergue: uma proposta de turismo e sustentabilidade no Centro Histórico de Belém. TrabalhoFinal de Graduação. Universidade Federal do Pará, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Belém, 2010. 7