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  • 15 Capítulo IO carpinteiro de Santa Maria O nascimento de um líder A PAIXÃO DE PLÍNIO
  • 16
  • 17 O nascimento de um líder O produtor teatral Plínio Pacheco começou a carregar pedrasmuito cedo. Aos 16 anos. O primeiro emprego, na área de construçãocivil, foi obtido como ajudante nas obras do Aeródromo de Santa Ma-ria, no Rio Grande do Sul, no início da década de 40. O aeródromo foi oprimórdio do que mais tarde seria a Base Aérea de Santa Maria (BASM),inaugurada oficialmente em 15 de outubro de 1971, no Governo Médi-ci. O trabalho foi conquistado graças ao grande esforço de guerraque o Brasil vivia nessa época. No dia 7 de setembro de 1941, em umlance inesperado, os japoneses atacaram a base americana de PearlHarbor, levando os Estados Unidos da América a entrar na 2ª GuerraMundial contra os países do Eixo (formado pela Alemanha de Hitler,além da Itália de Mussolini e do Japão, governado pelo imperadorHiroíto mas dominado, na prática, por militares ultranacionalistas). Ogoverno Getúlio Vargas, apesar de inicialmente demonstrar simpatiapelo bloco do Eixo e tentar manter-se à margem do conflito, foi obri-gado a entrar na guerra em 1942, quando vários navios mercantesbrasileiros começaram a ser torpedeados pelos submarinos alemães.A Força Aérea Americana, apesar de bastante considerável já naquelaépoca, precisava do suporte da Força Aérea Brasileira (FAB), criada em1941, com as bases e o apoio em território nacional. Esses pontos de apoio logístico – como os criados em Santa Ma-ria, Belém, Natal e Recife – começaram a ser preparados nos anos de1942 e 1943. A exemplo das bases no Nordeste, a de Santa Maria tinhauma importância continental por delimitar a fronteira Sul do Brasil. Olocal foi escolhido porque ficava em uma região central do Estado doRio Grande do Sul – a 300 quilômetros de Porto Alegre – e ampliariao poder aeroespacial da FAB no Sul do Brasil. Não por acaso, o desta-
  • 18 camento era conhecido pelo pomposo nome de “Sentinela Alada do Pampa”. Com uma população que contava, em 2002, com aproximada- mente 300 mil habitantes, até hoje Santa Maria é um importante centro militar e possui uma das três maiores guarnições militares do Brasil. No acordo de guerra, o Brasil cedia as terras e os Estados Unidos financiavam a construção das bases, a cargo do corpo de engenheiros do Exército Americano. No acampamento das obras em Santa Maria, Plínio recebeu as primeiras lições de liderança, justamente de um engenheiro inglês que era responsável pelo apontamento dos peões. No frio de rachar dos pampas, Plínio vivia intrigado com o gringo, sempre esperto, dando or- dens aos peões com um megafone nas mãos, invariavelmente montado a cavalo. Um dia o engenheiro ensinou-lhe o segredo para manter-se alerta a noite toda, no frio, mesmo quando soprava o cortante vento minuano. “O gringo abriu o sobretudo e mostrou-me os bolsos cheios de garrafas de gim”, costumava relembrar Plínio, entre risos. Já homem feito, com toda sua liderança empiricamente desen- volvida, a lembrança daquele velho senhor inspirou Plínio a comandar os trabalhos de construção das muralhas de Nova Jerusalém e também coordenar os espetáculos sempre montado a cavalo, com seu insepa- rável megafone da marca Siemens Whistle nas mãos. No que toca a bebida, Plínio sempre gostou de exercitar-se nessa área tão especial, particularmente a alguns homens. Mas nunca deixou que isso atrapa- lhasse a sua vida. O encanto fácil do álcool não permitiria ser bom pai, bom produtor e bom bebedor. Alguma coisa tinha que cair fora. Com o serviço militar, Plínio aprendeu cedo o valor da disciplina para atingir seus objetivos. O desejo inicial de Plínio era servir ao Exército, mas ele não tinha idade para alistar-se, com menos de 18 anos. Um dos irmãos de Plínio, Walter, também acabou trilhando a carreira militar. Desde 1921, havia sido criado na cidade um campo de aviação, que sediou as primeiras guarnições de bombardeiros e caças. Em 1937, o Governo Vargas já havia criado um destacamento de aviação em Santa Maria. A proximidade com a fronteira gaúcha, sempre envolvida em muitas guerras, deve ter exercido enorme influência nessas escolhas, além do fato de que a carreira militar era um caminho promissor na- quela época que o país vivia. Aos 14 anos Plínio comunicou a um primo que era tenente do Exército sua intenção de seguir carreira. Desde o fim da 1ª Guerra Mundial, as escolas de aviação existen- tes no Brasil continuaram a formar pessoal, mas em pequeno número, devido às dificuldades operacionais encontradas. Como ainda não ha- via instrumentos de vôo modernos, os municípios do interior costuma- vam escrever o nome das cidades no telhado das estações ferroviárias,
  • 19 Garoto teve infância pobreem Santa Maria, ao lado do irmão Walterpara auxiliar os pilotos. O clima criado com a 2ª Guerra Mundial deuimpulso à incipiente Força Aérea Brasileira, exigindo urgentemente aarregimentação de quadros. Com as amizades que fez na Base Aérea de Santa Maria e, levadosempre pela afoiteza da mocidade, Plínio conseguiu posteriormenteser indicado para fazer o curso de especialização em Aeronáutica, emSão Paulo, capital. O ingresso na Aeronáutica, mais tarde, possivelmente se deu apartir de uma adulteração em seus documentos. O próprio Plínio re-velou mais tarde esse detalhe pitoresco. “Eu não sei se nasci em 1926ou 1927, porque tenho duas certidões de nascimento. Uma tiradapor meu pai, com uma data, e outra tirada por minha mãe, com outradata. Até ia dando um rolo da gota. Uma vez, na FAB de Natal, eles mepediram, não sei para quê, uma certidão. Eu levei. Quando chequei lá,era diferente o ano de uns papéis que tinham a meu respeito. Eles des-cobriram que eu tinha duas certidões”, revela, em carta a um amigo,
  • 20 Fioraavante morreu em 33 e deixou 3 filhos Dona Hilda teve que assumir a prole escrita em 1966, já em Nova Jerusalém. “Em uma eu era Barbosa Pache- co e na outra, só Pacheco. Disse-lhes que não sabia de nada daquilo. Nunca havia notado. Se era crime ou dava cadeia, eles que resolvessem lá com meu pai, com minha mãe e os caras dos cartórios. O que eu sei é que nasci em um desses anos”. Órfão aos seis anos Plínio teve que se virar por conta própria e cedo porque seu pai, Fioravante Pacheco, morreu quando ele tinha apenas seis anos, em 1933. Naquela época, a população brasileira era de aproximadamente 37 milhões de pessoas. Setenta por cento viviam na área rural, como a família de Plínio. Com a morte do pai, a mãe de Plínio, Hilda Barbosa Pacheco, havia se mudado do pequeno município de Soledade (também no Rio Grande do Sul, a 220 quilômetros a noroeste de Porto Alegre) para uma cidade maior, Santa Maria, a 300 quilômetros a oeste da capital, levan- do os três filhos, Plínio, Walter, de 4 anos, e Wilson, de 3. Hilda conse- guiria colocar os filhos para estudar no Colégio Marista de Santa Maria,
  • 21onde ela trabalhava como cozinheira. Plínio entrou nesse colégiointerno aos seis anos de idade e saiu de lá quando completou 16 anos,em 1942, para se empregar na construtora do aeródromo. Mesmo sem a presença do pai, Plínio teve direito a uma educa-ção exemplar. Vivia-se a contingência de uma época em que o respeitoaos idosos e à família eram um verdadeiro mandamento religioso.O ingresso no seminário poderia favorecer a mobilidade social, peloacesso aos estudos. Naquele tempo, o ensino religioso era a porta deentrada para muitos jovens pobres, pois lhes abria as cortinas do mun-do. Nos seminários, além de o ensino ser da melhor qualidade, havia avantagem da gratuidade. Ter um padre na família era uma honraria, mas a vida em um in-ternato exigia grande sacrifício pessoal. Apesar da esperada vocaçãosacerdotal de Plínio ter-se esgotado no ofício de coroinha, esse perí-odo de sua vida deixou marcas indeléveis em sua formação humanís-tica. Como diziam os antigos, com a tenra idade, quando se é como aargila dócil, o bom modelador pode imprimir as formas mais delicadas.Dona Hilda certamente tinha isso em mente quando colocou os garo-tos no internato. Para Plínio, abraçar os estudos era uma boa opção, jáque fisicamente ele era mirrado. Assim, era mais vantajoso trabalhar ointelecto para vencer na vida. No Colégio Marista de Santa Maria, os padres classificavam to-dos os estudantes antes de serem admitidos no primeiro ano ginasial.Quem não passava na classificação era obrigado a fazer dois anos depreparatório. O português e o latim eram as principais matérias ensinadas.A partir da terceira série já eram ministradas aulas de grego, francês,alemão e as mais diversas matérias que formavam a grade das escolaspúblicas, que não tinham tanto português e tanto latim – por sinal,nessas aulas Plínio deve ter aprendido que seu nome, na língua dosantigos romanos, significa “completo, cheio, pleno”. Também era bas-tante puxado o ensino de geografia, história, matemática e álgebra,temas gerais que eram conhecidos então como humanidades. Naquela época, não havia professores particulares nos colégiosda região. As aulas eram ministradas por padres, em sua maioria ale-mães, com dedicação integral. Os estudos eram realizados sempre emuma grande sala, sob a vigilância de um padre ou um substituto deste.Cada aluno tinha a sua carteira individual e seus apetrechos escolares.Todos eram examinados pelos resultados que apresentavam no diaseguinte. As matérias não podiam ser apresentadas em conjunto. Coma proibição, buscava-se evitar cópias. Os trabalhos também deveriamser feitos de próprio punho, ajudando ainda na melhoria da caligrafia. Cada classe tinha o chamado sênior, em geral o aluno mais anti-
  • 22 go, encarregado de vigiar os demais. Com uma carga de responsabili- dade maior do que a dos colegas, os seniores costumavam ser aqueles alunos que tiravam as melhores notas no semestre. Essa estrutura acabava por estimular a delação. Era comum um aluno denunciar ou- tro, por causa de uma brincadeira qualquer ou de uma transgressão de pequenas regras, como conversar nas pausas de uma aula para outra. A prática era estimulada para que os padres mantivessem o controle rígi- do e total, com um mínimo esforço. As famílias não costumavam reclamar de nada, sendo ao con- trário até muito gratas, pois essa disciplina quase militar era garantia líquida e certa de uma formação de caráter invejável, de responsabi- lidade com o trabalho cotidiano, com o estudo e a atividade social do universo onde vivia. Exemplo disso é que Plínio, na idade adulta, por onde passou teve a preocupação de fundar escolas, com quadro de giz ou não. Em termos de leitura, os mestres daquela época eram muito exi- gentes. Até o tempo das férias deveria ser reservado para a leitura, so- bre literatura universal ou a evolução do Brasil, por exemplo. Crianças e jovens eram estimulados a escrever com lições de técnicas de redação, poesia e estilo. Isso ajuda a explicar porque Plínio redigia com um estilo envolvente e de forma caudalosa. Leitor contumaz, lia com fluência o francês, língua que aprendeu na escola. Com tanto rigor, os jovens menos abastados iniciavam-se no con- vívio com a fina flor da intelectualidade clerical. Os que não optassem por assumir os votos do sacerdócio estavam prontos para brilhar nas profissões liberais em geral, seguindo carreira no próprio magistério, no mundo jurídico ou mesmo no jornalismo. Foi justamente nesse período que Plínio conheceu um garoto chamado Robinson Flores, seu amigo de infância e que mais tarde se tornaria diretor do Jornal de Santa Maria. Foi na casa dele que Plínio passou o Natal de 1957, quando fugiu de Fazenda Nova levando sua mulher, Diva Pacheco, cujos pais eram contrários à união. Quando nas- ceu seu primeiro filho homem, Plínio batizou-o com o nome do amigo de colégio, que chegou a convidá-lo para ser secretário de redação da publicação gaúcha, caso decidisse não voltar para Pernambuco. “Meu pai tinha mania de homenagear as pessoas de que ele gostava ou, neste caso, também que admirava”, conta o filho Robinson Kennedy Pacheco, que ganhou o nome do meio por ter nascido, já com a família morando no Recife, um dia antes do assassinato do presidente dos Es- tados Unidos, em 21 de novembro de 1963. O ano de 1957 em Santa Maria, aliás, não foi especial apenas para Plínio e Diva, que começavam sua vida em comum. Por coincidência, comemorava-se o centenário de fundação da cidade. Além das festas,
  • 23havia reclamações contra o Governo Federal. O tenente e farmacêu-tico Luiz Prates Carrion assinou naquele ano um artigo na imprensalocal defendendo a criação de um colégio militar na cidade, conhecidacomo “Coração do Rio Grande”. A concretização desse sonho só ocor-reu graças ao esforço de um jovem nascido em São Bento do Una, oex-ministro do Exército Zenildo Zoroastro de Lucena. Por uma dessasironias do destino, Zenildo é primo de Diva. O Colégio Militar de Santa Maria (CMSM), prometido pelo entãoministro Zenildo Lucena em 1994, foi inaugurado oficialmente, pelopróprio ministro, em 1998, 41 anos depois do centenário da cidade. Em 1941, na mesma época em que Plínio completava seus estu-dos e buscava entrar na Aeronáutica, no Recife o jovem Zenildo Luce-na, vindo do interior, morava na Pensão Brasil, pertencente ao pai deDiva, Epaminondas Mendonça, enquanto completava seus estudos. Ensino religioso Nos colégios internos de Santa Maria, como era de se esperar,o ensino religioso era uma obrigação. Uma das maneiras mais usuaisde difundi-lo (embora não a única) era com apresentações de peçasteatrais com temas bíblicos. Naquela época, a Igreja e suas escolascarregavam uma forte herança da catequese da ameaça dos séculospassados. Os internatos, muito mais do que hoje, reproduziam de for-ma consciente ou não a memória traumática de obscurantismos. Osevangélicos pentecostais de hoje, com suas célebres sessões de des-carregamento espiritual, entre outras práticas mágicas que recuamaos primórdios do próprio cristianismo, certamente ficariam coradoscom a prática religiosa de então. O ensino religioso incluía aulas de escatologia, o estudo dosassuntos ligados ao fim do mundo e ao destino dos homens após amorte. O tema era usado para a propagação do pânico, um terrenoestratégico para a pastoral da ameaça que orientava a Igreja Católicanaqueles tempos. Os internos eram obrigados a ler textos catequéti-cos de 1724, de Caspar Erhard, com páginas e páginas com descriçõeshorripilantes de almas castigadas eternamente no inferno. “O Deusque se apresentava nesses internatos era um doente mental, um sá-dico, um monstro, não um Deus que se possa amar”, contextualizao teólogo Renold Black, autor de um livro onde apresenta uma pes-quisa sobre o alto nível de incidência de uma variante religiosa dofenômeno psicossomático conhecido por Síndrome de Estocolmo, a
  • 24 identificação da vítima com seu torturador. No caso, dos fiéis com seu carrasco divino. Esse conservadorismo da Igreja Católica só viria a ser quebrado três décadas depois. Somente a partir do Concílio Vaticano II (1962 e 1965) é que a igreja autorizou a celebração de missas em outros idio- mas além do latim, permitindo também que os padres olhassem para os fiéis durante os cultos e liberassem os cânticos. No Brasil da década de 30, até o bispo vermelho, como o papa Paulo VI viria se referir a dom Hélder Câmara, um dos responsáveis pela mudança de trajetória da igreja após o concílio, ainda estava embriagado pelo fascismo ita- liano, com sua breve experiência, de cinco anos, até 1936, como mem- bro da Ação Integralista. A obrigatoriedade do ensino religioso, se por um lado poderia despertar vocações, por outro fazia nascer uma má vontade eterna com o tema para muitos outros. Plínio desenvolveu aí uma profunda ojeriza aos padres em geral. “Ele não levava muito a sérios os padres mesmo” , confirma o amigo Victor Moreira, que por coincidência tam- bém estudou em colégio Marista, no caso, o do Recife. Outra explicação possível para a raiva dos padres pode ter um fundo emocional. O psicanalista João Batista Ferreira, um ex-padre radicado no Rio de Janeiro, diz que a psicanálise e a religião têm o mesmo alvo: a evolução do homem. Mas enquanto esta última apre- senta a palavra pronta, trata o indivíduo como objeto e o padre dá o perdão, a psicanálise, por outro lado, não tem a palavra escrita como uma lei, lida com o homem como sujeito e nunca o julga. Homem de muitas leituras, Plínio entendia essa diferença. Sentia-se, com relação à religião, como o personagem principal de O Processo, de Franz Ka- fka, lido na juventude. Na obra, Joseph K., um burocrata de um banco, descobre ao acordar no seu 30º aniversário que está sendo acusado de algum crime. Instaura-se um processo de que não se conhecem os detalhes nem a acusação que o originou. Uma alegoria ao pecado ori- ginal, do homem que não sabe do que é acusado, mas mesmo assim é condenado. Joseph K. é executado de forma sórdida, apunhalado por seus carrascos. Muito antes dos questionamentos teológicos, o que mais mar- cou a sua infância no internato foi uma obrigação mais prosaica e ter- rena, embora especialmente grave para um garoto então com 10 anos. O contato com gente de fora ficava restrito aos dias de festas. No caso de Plínio, além dessas limitações, havia outro sério agravante. Os mestres eram extremamente rigorosos com os horários. As aulas no período da manhã começavam às 7h30 e terminavam às 12h. O perí- odo de estudo propriamente dito se iniciava normalmente às 14h e ia até às 18h30, com alguma pausa para o recreio.
  • 25 “Os padres o obrigavam a descascar batatas, trabalhando no re-feitório, ajudando à mãe na cozinha, enquanto os outros brincavam”,conta o filho Robinson Pacheco. Acertada com a mãe, a colaboraçãoera uma maneira de ajudar a custear os estudos no internato. O ir-mãos, por serem mais novos, eram poupados. A batata era muito usada, naqueles tempos, em quartéis e asi-los, principalmente por ser um tubérculo de fácil cultivo e ter capaci-dade de permanecer muito tempo armazenado, sem perder o sabor.Por isso, ficou conhecida como comida de pobre durante muitos sé-culos. Usado nos jardins da Inglaterra até mesmo como planta orna-mental (antes de ganhar o nome de batata inglesa), até o Século 18o tubérculo era apreciado principalmente por camponeses e utiliza-do como alimento de animais, na Espanha e no resto do continenteeuropeu, por conta da crença de que transmitia lepra aos humanos,contaminado por águas impuras carregadas dessa peste e despejadasnas terras em que o brotava. Apenas com a Revolução Francesa a ba-tata ganhou algum privilégio, chegando a ser conhecida como maçãda terra, graças a um farmacêutico que converteu sua divulgação emverdadeiro apostolado. O farmacêutico e militar francês Antoine Au-gustin Parmentier, depois de fazer um regime à base de batatas, naprisão de Westfalia, ficou fascinado pelo tubérculo e deu início à suadifusão, não sem enfrentar percalços. Em 1769, o militar foi demitidodo posto de farmacêutico-chefe no L’Hôpital des Invalides (o antigohospital para militares feridos em guerra), por ter servido batatas aosmilitares ali internados – os veteranos do exército não podiam ser ali-mentados com a comida que se dava aos porcos. O trabalho de descascar batatas não era dos mais nobres e gra-tificantes, mas, com uma grande sede de conhecimento e cultura, Plí-nio superou tudo. Aos 40 anos, ele conhecia a história das civilizaçõese dava-se ao luxo de fazer citações sobre a batalha do imperador incaAtahualpa e as aventuras do conquistador espanhol Pizarro, respon-sável pelo fim do império Inca, em 1532. Deve ter dado boas risadasao descobrir que as batatas eram cultivadas originalmente por aquelepovo andino e pelos astecas (que habitavam o México). Essas civiliza-ções também cultivavam milho, feijão, abóbora, tomate, pimentão,cacau e algodão. A papa, como era chamada pelos incas, foi levadapor Pizarro para a Espanha, junto com pedras e metais preciosos, de-pois de encerrada a devastadora conquista do império Inca. Era umagarantia contra invernos rigorosos e longas viagens marítimas. Depoisda Espanha, a batata foi levada para a Inglaterra, virou inglesa e ga-nhou o mundo. No tempo certo, quando a biruta indicava bons ventos naquele
  • 26 Brasil do início dos anos 40, Plínio, apoiado nas asas brasileiras, deco- lou para os seus primeiros vôos, em São Paulo. O menino que come-
  • 27 Capítulo II40 dias no deserto A vida dura em São Paulo A PAIXÃO DE PLÍNIO
  • 28
  • 29 A vida dura em São Paulo O jovem Plínio Pacheco odiou cada minuto dos três anos queviveu em São Paulo. A terra das oportunidades não encantou o gaúchode 20 anos que viajou à capital paulista para estudar e ingressar naAeronáutica. “Conheço essa vida aí. Quase fui esmagado por ela. Feliz-mente, despertei a tempo”, confidenciaria a um amigo, 20 anos maistarde, em 1966. A selva de cimento, como Plínio tratava a metrópole, realmenteavassalava tudo já naqueles idos de 1950. Uma breve contextualizaçãoda vida econômica do país e da própria cidade naquela época ajuda aentender a ojeriza de Plínio. Desde o início dos anos 40, o mundo e o Brasil viviam o início da2ª Guerra Mundial. O Brasil sofria a escassez dos produtos importados,impedidos de chegar ao país com o afundamento de navios brasileirosna costa do Nordeste e ao redor do mundo pela Alemanha nazista. Eranecessário aumentar a produção para atender ao mercado interno. Aindústria nacional viu-se diante de um desafio, foi convocada para o es-forço de guerra e respondia afirmativamente. Faltava até mão-de-obrapara as empresas e, em 1942, criou-se o Serviço Nacional de Aprendi-zagem Industrial (Senai), que funciona até hoje. O Estado de São Paulo,nesse contexto, protagonizou uma das maiores revoluções que o paísjá viveu, com a transição da economia rural para a economia industriali-zada, de modo que fosse possível produzir, no país, bens e serviços atéentão importados. “São Paulo me obrigava cada dia a produzir mais para poderconsumir cada vez mais. Senti, então, que é humanamente impossívelvocê viver na cidade, permanentemente acossado pela publicidade epela visão dos produtos, em geral supérfluos. Acabei envolvido naquelamerda, e em vez de um emprego de seis horas, já estava em dois de 14
  • 30 horas por dia. Ninguém tem ou arranja forças suficientes ficando lá, para fugir ao envolvimento. A única solução é sair e sair não pode ser consi- derado fuga, uma vez que ficar seria ser conivente com a própria des- truição, seria ajudar no processo de auto-destruição”, descreveu. “É tudo criminosamente absurdo, quando se sabe que milhões de pessoas mor- reram de inanição ou no cacete no período inicial da industrialização porque usaram a greve como arma para poder reduzir a tarefa diária de 14 horas para 12 horas, para dez horas diárias e até conseguir uma lei de oito horas de trabalho por dia, tantas horas por semana. Em São Paulo, fica todo mundo trabalhando 12, 14, 16 horas diárias e até sem fim de semana, sem férias, para produzir mais, ganhar mais e assim consumir toda essa troçada multicolorida que os veículos coloridos enfiam na sua cabeça 24 horas por dia”, reclamava. Naquela época, os grandes fazendeiros de café que haviam se ins- talado em São Paulo e mandavam na economia nacional até os anos 30 já não eram os principais atores do processo de transformação da socie- dade. Começam a ganhar força as primeiras indústrias, que se instala- ram no início do século. A indústria Matarazzo, fundada em 1904 e que desde 1911 já produzia artigos finos na área de fiação e tecelagem, con- solidou-se nos anos 40, tornando-se símbolo da cidade até hoje. Com o surgimento dos primeiros bancos para financiar a atividade econômica e o desenvolvimento do sistema ferroviário, para escoar a produção, a locomotiva paulista estava posta em marcha, atropelando todos que lhe tentassem fazer oposição. “A imensa e maluca engrenagem que é São Paulo transforma você em um parafuso (ou uma porca), pois São Paulo é São Paulo e não pode parar”, ironizava o jovem Plínio, imerso naquele mundo de profundas mudanças e sentindo-se totalmente deslocado. “O paulistano não pode parar, quem mora em São Paulo não pode parar. Então corre de casa para o transporte, corre no transporte para pegar o horário do trabalho, corre no horário do trabalho para aumentar a produção, aumenta a produção para vender mais, vende mais para dar mais lucro, que vai para o dono da indústria, que divide com o governo, governo que precisa desse dinheiro para aumentar o número de seus funcionários, de polícia, de justiça, de fisco, para manter o povo dentro da ordem, cada vez trabalhando mais, rendendo mais, para que as indústrias e os governos (principalmente este) possam ter mais força e mais poder”. Curiosamente, embora criticasse a sociedade de consumo que se formava no País, Plínio não atribuía esses males ao capitalismo, como deixa bem claro nos trechos de suas cartas que se referem àquele período. “A busca de mais força e mais poder não tem qualquer ligação com regime. Tanto faz no comunismo, tanto faz no capitalismo. Isso tudo traduz-se por um homem escravo do homem. A ordem é sempre a mesma. Aperta o pa-
  • 31O jovem Plínio Pacheco não queria ser transformado em parafuso em São Paulo
  • 32 rafuso, bota a macacada para produzir”, dizia. A situação política do país, por sinal, não era menos turbulenta do que a vida econômica. O Estado Novo, regime autoritário imposto por Getúlio Vargas em 1937, ainda dava as cartas, antes de ser derrubado pelo processo de redemocratização de 1945, com a eleição de Eurico Gaspar Dutra, do PSD. Em Pernambuco, a situação não era diferente, pois de 1937 a 1945 o Estado foi governado pelo interventor Agamenon Magalhães, indicado por Getúlio Vargas. Antes de tornar-se governador em eleições livres, em 1950, Agamenon Magalhães ficou conhecido por ter instaurado uma regra não escrita, a Lei do Mandacaru, aquela que não dava sobra nem encosto, especialmente aos adversários políticos. No plano nacional, os jornais eram alvo de intensa censura do De- partamento de Imprensa e Propaganda (DIP), de Getúlio Vargas. Houve até caso de jornal que teve o suprimento de papel cortado, sendo forçado a sair de circulação, depois de publicar uma entrevista em que o ex-ministro do Trabalho de Getúlio, Lindolfo Collor, disse esperar que a ditadura tivesse fim após a queda do nazismo, na Europa. “O período da 2ª Guerra Mundial foi, antes de tudo, uma fase de exaltação nacional. O nosso patriotismo ditava as reflexões. Havia pessimismo diante dos avanços do Eixo, que se alastrava pelo mundo, num ímpeto satânico de dominação”, rememora o jornalista Nilo Pereira, redator-chefe da Folha da Manhã na época. No Recife, as noites eram longas e tenebrosas. A cidade acompanha- va os discursos do führer com a ajuda do alemão naturalizado brasileiro Alexandre Kruse, que ouvia o líder nazista pelo rádio e reproduzia quase na íntegra as traduções no Jornal do Commercio, para desespero do jorna- lista Anibal Fernandes, que dirigia o concorrente Diário de Pernambuco naquela época. “Após o afundamento de vários navios brasileiros pe- los submarinos nazistas, o Brasil declarou guerra ao Eixo formado pela Alemanha, Itália e Japão. O Recife vivia às escuras, diante da ameaça de bombardeios e o espectro de morte sobre a cidade”, relembra Nilo Pereira, em artigo assinado no Jornal do Commercio, em 1986. Nos anos 40, a população brasileira ficou dividida com relação à entrada na guer- ra, porque havia um forte componente sócio-econômico com relação aos países que compunham o Eixo. Era grande o número de alemães, italianos e japoneses no Brasil naquele tempo, inclusive em Pernambu- co. Para dar curso à industrialização do país, o governo brasileiro facili- tou a entrada de imigrantes daqueles países, que estabeleceram colô- nias espalhadas em vários pontos do país, principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Após o rompimento do Brasil com o Eixo, a situação complicou- -se ainda mais. No Recife, o calor do momento fez a população voltar-se contra os estrangeiros. Várias famílias de imigrantes passaram a sofrer discriminação e foram condenadas ao ostracismo pela sociedade local.
  • 33Em 1942, após o afundamento dos navios brasileiros Baependi, Taubatée Bahia, na costa nordestina, entre Sergipe e a Bahia, a população pro-moveu até um quebra-quebra contra casas comerciais de imigrantesjaponeses e alemães, tamanho era o clima de animosidade. Alheio às questões políticas nacionais e internacionais da época,até pela pouca idade, Plínio rebelava-se contra o avanço do processode industrialização. Numa carta a um amigo, escrita em 1979, Plíniolembrava daqueles dias com amargor. Ele atacava de forma virulenta oque se chamava à época de admirável mundo novo, com suas máqui-nas, ciência, progresso e sociedade de consumo. “Tente analisar o queestá por todo o canto e você concluirá que o homem é cada vez menoshomem e cada vez mais escorpião. Isto tudo aí está decompondo ohomem, transformando a humanidade em um gigante escorpião. Ficar(em São Paulo) é ser devorado, esmagado e consumido. Sair disso não éfuga, é a única maneira de sobreviver, continuar (ou tentar) ser homem.Não sei se é alienar-se, mas sei que é vital sair deste labirinto de Dédalo.Quanto mais você consome, mais é consumido. Quanto mais você usa,mais você é usado. Sei que não dá mais para tornar ao negativismo ab-soluto, não consumir nada, não usar nada. Mas ainda é possível tentarconsumir o mínimo e usar o mínimo. O mínimo para saber viver dentrode uma fórmula que seja possível manter a dignidade humana. Con-sumir o mínimo de tal maneira que essa sociedade de consumo, se fordepender do seu consumo para manter-se, ela se arrebenta e desmoro-na em meia dúzia de anos. Sei que não vai acontecer isso, porque nãoé a minha posição que vai abalar o menor tentáculo desse poderosopolvo. A gente vai virar pó e o polvo será ainda mais gigante e podero-so. Apenas sei de seu poder e gigantismo. Por mais que se multiplique,será com o mínimo do seu consumo e do seu uso. Minha posição nãovai resolver nada, mas eu estarei em paz comigo mesmo e com a minhaconsciência”. As lembranças negativas dessa fase de sua vida eram tão fortese marcantes que acompanharam Plínio pelo resto da vida. O tempopassou, mas o trauma que viveu na capital paulista nunca foi apagado.Em um conto escrito algumas décadas depois, o produtor cultural dei-xa transparecer seu horror quando diz que a visão de uma prostitutao faz lembrar da cidade. No texto, a prostituta, batizada por Plínio deDulcinéia, numa referência à amada de Dom Quixote, reclama da vidadura no Nordeste e ele sugere que a solução seria ir para São Paulo. Naépoca, era comum o grande fluxo migratório para o Sul. Era o que todomundo fazia ou dizia que ia fazer quando ficava cheio da vida que leva-va, no Nordeste ou em qualquer outro lugar do país. “Acho que falei de São Paulo por correlação com o mundo sujoem que Dulcinéia vivia. Um mundo sem cor, manchado, de duvidosos
  • 34 odores, sórdido, mundo furtivo à luminosidade do sol, para esconder sua sordidez, mundo disfarçado no colorido de lâmpada e luz artificial, povoado de pessoas artificiais, vivendo artificialmente”, descreve Plínio. “Agora, vendo o vale lá embaixo, em pleno verão de novembro, verifico que foi isso mesmo. Simples analogia, afinal. Tanto faz o mundo de Dul- cinéia como São Paulo, a mesma coisa, a mesma vida, apenas em outro lugar. Um mundo em decomposição, decadente, sem objetivo de vida, com seus corpos alugados, para o trabalho ou para a cama, tanto faz, tudo alugado. Tanto faz, aqui e lá, tudo alugado tanto faz, em pé ou dei- tado, tudo alugado, tanto faz, dia ou noite, tudo alugado”. Em São Paulo, Plínio já vivia em outro plano, agravado por uma busca de si mesmo angustiada e cheia de dilemas. O torvelinho psíquico no qual Plínio estava mergulhado nada mais era do que o resultado de aspirações e ilusões que atormentam uma alma visionária e apaixonada. É nesse contexto que o jovem Plínio desce do céu de admiração para um inferno de questionamentos. Boa parte dessa inquietação pode ser atribuída às leituras que ajudaram a formar sua filosofia de vida. Um dos autores preferidos de Plínio era Henry David Thoreau (1817-1862). O escritor americano tornou-se conhecido por criticar seriamente o homem em sociedade, já naqueles tempos cercado de compromissos e bugigangas e passando a vida sem ter tempo para viver. Thoreau era um radical na defesa de suas idéias e conseguiu viver seus ideais não apenas teoricamente, mas também na prática. Sobre sua vida, ficou famoso o episódio em que, morando em um quarto alugado, achou que estava colaborando com a lei do inquilinato e com o governo que não dava casa para o povo mo- rar. Simplesmente juntou os teréns e foi morar numa choupana. Depois, arrendou um pedaço de terra onde plantava verduras e frutas, obtendo assim tempo suficiente para viver a natureza e escrever. Com o trabalho de duas horas por dia na terra, o escritor conseguia se manter e trocava o excedente pelas poucas outras coisas de que necessitava e que não produzia. O exemplo do filosofo americano certamente influenciou as opiniões sobre consumo mínimo de Plínio naquela altura de sua vida. Com a leitura dos clássicos de Thoreau, além de uma filosofia, Plínio adquiriu amor ao estilo, que seria especialmente útil mais tarde, quando abraçaria o batente do jornalismo diário. Discípulo do filósofo transcendentalista Ralph Waldo Emerson, Thoreau é um dos escritores mais notáveis da língua inglesa. Nos livros sobre lireratura, o autor sem- pre é destacado por ser fecundo em imagens imprevistas, em descrições coloridas e pitorescas, amigo do paradoxo mais audacioso, cheio de humor violento, capaz de confundir ódio com amor. A sua prosa tem um caráter particular de áspero misticismo e desabrida sátira. O anseio por uma vida espartana também pode ter sido vislum-
  • 35Literatura filosófica influenciou modo de vida alternativo do jovem militar
  • 36 brado a partir da obra de Aldous Huxley. Plínio costumava citar com fre- qüência Mr. Propter, personagem principal de Também o Cisne Morre. O livro relata justamente uma experiência de afastamento da sociedade de consumo, pregando que se consuma dela apenas o essencial em equipamentos, para com eles fabricar coisas que permitam o máximo de independência dessa sociedade. Na obra, um professor universitário, depois de aposentar-se, vai morar num pedaço de terra herdado do pai. Propter constrói uma casa para morar e várias casinhas para alojar famílias que subiam à Califórnia no período da colheita da laranja. Em geral, essas pessoas eram ex-agricultores que tinham perdido suas ter- ras, exaustas pelo uso impróprio, passando à condição de trabalhadores alugados. Além de Thoreau e Huxley, Plínio adorava a obra de George Orwell, conhecido pelo clássico 1984, uma sátira à opressão dos regi- mes comunistas. No entanto, o livro que ele mais citava era Mantenha o Sistema, uma crítica filosófica à sociedade de consumo. “Quando você lê Mantenha o Sistema, ele entra em sua vida e fica por muito tempo”, dizia, recomendando que o livro fosse devorado. Em outra citação, ele elogia Mellors (personagem criado pelo escritor inglês D. H. Lawrence em O amante de Lady Chatterley), um guarda-caça que é severo crítico do materialismo, do mecanicismo e da corrida pelo dinheiro. “É necessário afundar, afundar e afundar, para assim não ter meios de consumir”, comentou Plínio. O papel de Mellors resumia-se a criar fai- sões. Conseguira ficar só, longe da vida e de tudo, como desejava. Desse modo, poderia continuar a viver sem ligação com ninguém, sem nada esperar. A preocupação com o dinheiro, como um vasto cancro, devora todos os indivíduos ou todas as classes. Mellors professava que era pos- sível sobreviver consumindo o mínimo, sem deixar-se afundar. “Que fazer então? Que oferece a vida além da preocupação com o dinheiro? Nada. Mellors tinha se encontrado, era um homem livre e perdeu-se ao encontrar Constance (a Lady Chatterley de quem se torna amante)”, escreveu Plínio, oferecendo uma pista importante para os destinos de sua vida naquela época. “Mellors poderia viver só, com a vaga satisfação de ser só, de criar faisões para regalo da mesa dos ricos. Era a futilidade, e a máxima ironia. Preocupar-se com o que, entretanto? Por que aborrecer-se? Foi sem preo- cupações que Mellors viveu até a entrada daquela mulher, Constance, em sua vida. Ele tinha dez anos a mais do que ela e mil anos de experiência a mais, mas o laço ia se apertando e ele viu chegar o momento em que, não podendo desatá-lo, teriam ambos de refazer suas vidas, porque os laços do amor são difíceis de desatar”. Em suas cartas, Plínio chega a traçar um paralelo entre Gordon (per-
  • 37sonagem criado por George Orwell em Mantenha o Sistema) e Mellors.“Um é o outro e o outro é o mesmo. Gordon também era um homem livre,até que se envolveu – por que quis ou por que se deixou – com uma moçade que não lembro o nome. E, como Mellors, perdeu-se. Entraram, retorna-ram ao lixo do sistema. Forçados por quê? Amor. Não é um absurdo? Sen-do assim, a gente é obrigado a usar a lógica. Só é possível ser livre quandose conseguir libertar-se, inclusive do amor”, observou. Assim, o estopim para abandonar São Paulo e ir servir à Força AéreaBrasileira no Nordeste, mais tarde, deu-se justamente por causa de umagrande desilusão amorosa. A saída de Plínio da capital paulista não tevesomente a ver com o dia-a-dia, a loucura do transporte das pessoas nacidade grande, o mesmo trabalho sempre, a mesma sala de trabalho ou osmesmos fins de semana, nos quais domingo é sempre domingo e segun-da-feira é sempre segunda-feira. Plínio apaixonou-se perdidamente poruma turca e queria casar-se com ela. Ele chegou a trabalhar em três expe-dientes para poder bancar os luxos de uma moça abastada, que gostavade sair para jantar fora e freqüentar teatros. O problema é que ela contava27 anos de idade na época e ele tinha apenas 20 anos. A moça tinha receiode que, com o passar do tempo, os anos de diferença entre ambos fizes-sem o jovem perder o interesse por ela. A jovem acabou o relacionamentoe jogou Plínio em um poço de amargura. A receita de liberdade que Plínio oferecia aos amigos, lida com aajuda da literatura que consumia compulsivamente à época, permite vis-lumbrar o tamanho do conflito pessoal que ele viveu em São Paulo: “Esteslivros todos, um após o outro, se completam e resultam na orientação deum dos poucos caminhos de como chegar lá, como se diz. Ou seja, libertar--se, isso se se quiser. Libertar-se é não ser o homem ou a mulher de Mante-nha o Sistema ou o homem e a mulher de 1984. O único problema é que opreço é alto. O preço da liberdade é acabar as lembranças, apagar os ros-tos, o rosto não mais desmentir o coração. Não haver mais esperas. Mortasas ambições, não questionar-se. Não mais perguntas, sem as angústias demais respostas. Mortas as necessidades do conhecimento e do saber, fazero tempo parar, parar dentro do tempo, parar no tempo. Não usar as forçaspara nada a não ser a negação, com todas as forças, de aceitar o mundo, oque morreu, esse que está morrendo ou qualquer outro que o substitua.Nada nem ninguém, apenas o viver por viver, livre dos outros, mais livrede si, isto é igual à única liberdade. Ou se aceita isto e parte para isto ou écontinuar até o fim nessa merda de sonhos, pesadelos, dubiedades, incoe-rências, medos, temores, amedrontamentos e vazios”. Sem se referir a esse desencontro amoroso, o primeiro de tantos ou-tros, Plínio relatou de forma seca como se libertou de São Paulo: “Conseguicoragem e caí fora. Numa mala botei minha roupa e, em dois caixotes, oslivros. E subi para o Nordeste. Não era uma fuga, era deserção”, classificou,
  • 38 mais tarde. Sua Constance agora faria parte do passado.
  • 39 Capítulo III O soldado romanoA importância da Aeronáutica em sua vida A PAIXÃO DE PLÍNIO
  • 40
  • 41 A importância da Aeronáutica em sua vida A Força Aérea Brasileira (FAB) teve um papel importante na vida dojovem Plínio. Depois de concluir o curso de especialista em comunicação,em São Paulo, em 1945, e ingressar oficialmente na vida militar, ele serviuinicialmente por um breve período na Base Aérea de Natal, na do Recifee depois em Fernando de Noronha, no controle de tráfego aéreo. A vidamilitar ensinou-lhe a importância da disciplina para a realização de seussonhos e as amizades que granjeou na caserna seriam de grande valia paraseus objetivos no futuro, embora seja difícil acreditar que Plínio, com vintee poucos anos, tivesse plena consciência disso àquela altura da vida. As declarações públicas de agradecimento à Força Aérea Brasileira(FAB) nos discursos que faria mais tarde, a cada nova vitória em Nova Je-rusalém, eram sinal inequívoco dessa gratidão. “Não posso esquecer osdistantes e nobres gestos de Eduardo Gomes e Manoel Vinhais, generaisdos ares, sensíveis ao sonho do humilde escudeiro. Eles representam o al-truísmo da minha Força Aérea Brasileira”, registra Plínio, na apresentação doprimeiro espetáculo de Nova Jerusalém, em 1968. Noutro discurso público, quando recebeu o título de cidadão dePernambuco, em 1971, Plínio chegou a lembrar que foi a Aeronáutica quesustentou sua família enquanto o sonho de construir uma réplica de Jeru-salém não lhe rendia qualquer fruto. “A decisão de optar por este trabalhofoi uma decisão particular minha. Para este trabalho, impus a mim mesmoque ele não seria remunerado. As minhas necessidades e as de minha fa-mília seriam atendidas pelo meu ordenado na Aeronáutica, que de 1965 a1970, como militar da ativa, manteve-me à disposição de Nova Jerusalém”,agradeceu, antes de ser transferido para a reserva remunerada, já no finalda década de 80. “Além da FAB, conto com a ajuda do resultado do trabalhode minha mulher, que se estende de 12 a 14 horas por dia”. Quando Plínio ingressou oficialmente na vida militar, a fase áurea dos
  • 42 anos 40 já havia praticamente acabado, com o fim da 2ª Guerra Mundial, mas, como diz o ditado difundido pelo brigadeiro Eduardo Gomes na cam- panha presidencial de 1950 e depois tornado lema das Forças Armadas, “o preço da liberdade é a eterna vigilância” (a frase, na verdade, é do político conservador inglês Edmund Burke, que viveu no século XVIII). A máxima aplicava-se bem à base aérea de Fernando de Noronha, o ponto oriental mais extremo do Brasil. A história do Brasil na Guerra começa em 29 de setembro de 1939, quando o presidente Getúlio Vargas anunciou a neutralidade no conflito que então se iniciara na Europa, subestimando o alerta feito em julho da- quele ano pelo ministro das relações exteriores, Oswaldo Aranha, avisando que haveria uma guerra e que o Brasil não podia ficar neutro. O Governo Vargas, àquela altura, demonstrava nitidamente sua simpatia pelo bloco do Eixo, mas tentava ficar à margem do conflito. No ano de 1941, os americanos acabaram entrando na guerra, após o inesperado ataque do Japão à base de Pearl Harbor, em 7 de dezembro daquele ano. Meses antes, também em 1941, no Brasil, foi criado o Minis- tério da Aeronáutica e organizada a FAB. Em outubro, o Governo Vargas já havia assinado um acordo com os EUA. Em troca da permissão de ins- talação de bases norte-americanas em Belém, Natal e Recife, os Estados Unidos se comprometeriam a financiar a construção da Companhia Side- rúrgica Nacional (CSN). No ano seguinte, os subseqüentes torpedeamentos de navios mer- cantes brasileiros por submarinos alemães levaram o Brasil a romper re- lações diplomáticas com o Eixo e depois ingressar no conflito, em agosto de 1942, pressionado por amplas manifestações populares, inclusive no Recife. A ordem expressa havia partido do próprio Hitler, em 15 de junho de 1942, determinando o torpedeamento de embarcações nos portos de Santos, Rio de Janeiro e Recife. O objetivo desses ataques era tornar ina- cessíveis, aos barcos dos países neutros, os mares que banham as costas da Grã-Bretanha. Com a ajuda financeira dos EUA, em agosto de 1942, a Base Aérea de Natal era inaugurada, visitada cinco meses mais tarde pelo próprio pre- sidente americano Franklin Delano Roosevelt, em companhia de Vargas, oportunidade em que os Estados Unidos elevaram para US$ 45 milhões o empréstimo para a construção da usina de Volta Redonda. Em janeiro daquele mesmo ano, a Ilha de Fernando de Noronha era declarada zona militar, sendo convertida em território nacional. Além das bases físicas, os americanos doaram caças ao governo brasileiro e ajudaram na criação do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva da Aeronáutica, fundado no mesmo dia em que Vargas declarou guerra ao Eixo. A especialização de Plínio na aeronáutica ocorreu numa escola ame- ricana de avião que funcionava em São Paulo. Em 1944, o Brasil participou
  • 43efetivamente da guerra ao lado dos aliados, atacando a Itália com a ForçaExpedicionária Brasileira (FEB), composta por 25 mil homens enviados aocampo de batalha. O Nordeste brasileiro onde Plínio iria servir mais tarde era uma po-sição estratégica para os aliados e Natal foi escolhida para receber umabase área de apoio aos aviões que passavam para a África e dali para a Eu-ropa. O interesse dos Estados Unidos era ter o controle sobre toda a costabrasileira. Com o sucesso do Brasil no conflito, a cidade ficou conhecidano meio militar e fora dele, mais tarde, como Trampolim da Vitória. A Forçado Atlântico Sul, como ficou conhecida a cooperação entre os america-nos e os brasileiros, tinha sede no Recife e, pela FAB, era coordenada pelobrigadeiro Eduardo Gomes, à época comandante da I e II Zonas Aéreas,sediadas em Belém e no Recife. O general dos ares, como Plínio se referia a Eduardo Gomes, alémde passar à história como o comandante responsável pelo transporteaéreo de homens e material, patrulhamento da costa, cobertura aérea ecomboio de navios mercantes, além dos ataques de aviões brasileiros asubmarinos do Eixo, também desempenhou um papel importante nasbatalhas que o humilde escudeiro, como Plínio se auto-intitulava, travoupara tirar Nova Jerusalém do papel. Eduardo Gomes, uma legendária figura das Forças Armadas brasi-leiras, realmente teve muita sensibilidade com os planos para Nova Jeru-salém e o fato de terem várias coisas em comum ajuda a explicar as razõesque levaram o então ministro da Aeronáutica a ajudar o humilde escudei-ro. Inicialmente, eram conhecidos como figuras fechadas e clericais. Osdois tiveram uma infância pobre. Havia ainda ligações mais telúricas comPernambuco. O bisavô paterno de Eduardo Gomes, Félix Peixoto de Britoe Melo, lutou em 1822 pela Independência do Brasil e nas revoluções de1824 (Confederação do Equador) e de 1848 (Praieira), em Pernambuco. Entre Plínio e Eduardo Gomes havia outros pontos afetivos de liga-ção. O brigadeiro pode ter desenvolvido uma grande admiração por Plínioporque o pai, Luiz Gomes, também foi jornalista, tendo trabalhado comoredator do Jornal do Brasil, em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Além dissotudo, o brigadeiro devia enxergar na figura do visionário Plínio o mesmofervor que moveu muitos anos antes o empreendedor Luiz Gomes. O paiabandonou uma bem sucedida carreira militar na Marinha para se dedicarà construção de uma ferrovia no Rio de Janeiro, empreendimento queacabou provocando a sua ruína financeira. Antes disso, era um homem devastas posses. A principal ajuda, entretanto, pode ter sido dada de forma indire-ta, com o exemplo de suas convicções democráticas. Hábil interlocutor,embora severo, e tido como uma pessoa de fino trato, Eduardo Gomesdestacou-se inicialmente na vida nacional por ser um democrata e liberal.
  • 44 Aos 49 anos, em 1945, o padrinho de Plínio na FAB já era reconhe- cido dentro e fora das Forças Armadas, especialmente por aqueles que acompanharam os sobressaltos da guerra. Desde o final de 1944, com a vitória na guerra na Itália, o nome do comandante Eduardo Gomes já era cogitado como candidato à presidência da República, uma vez que o Brasil respirava os ares da redemocratização, com eleições marcadas para 1945. A juventude e a intelectualidade de meados da década de 40 estavam literalmente hipnotizadas pelo brigadeiro e não apenas porque o herói da Aeronáutica lembrava Charles Boyer, astro do cinema francês da época. O fato de o brigadeiro ter conseguido promover uma coexistência pacífica entre brasileiros e norte-americanos só aumentou seu prestígio. O ingresso de Plínio na FAB, justamente em 1945, coincide com o processo de redemocratização do país, quando o Brasil estava sendo obri- gado a escolher entre dois militares, depois de 15 anos de ditadura Vargas. Justamente pela afinidade com o companheiro de farda, com toda certeza Plínio votou em Eduardo Gomes no pleito de 1945, quando o brigadeiro mediu forças, pela oposicionista União Democrática Nacional (UDN), con- tra o candidato de Vargas, marechal Eurico Gaspar Dutra, o ministro da Guerra que disputava como candidato do situacionista Partido Social De- mocrático (PSD). Dutra ganhou a presidência com 54% dos votos, apoiado na força do partido organizado nacionalmente pelos ex-interventores de Vargas, mas Eduardo Gomes não perdeu o prestígio que conquistara. Derrotado depois por Vargas nas eleições presidenciais de 1950, recusou o convite deste para que assumisse o Ministério da Aeronáutica. Em 1954, Eduardo Gomes chegou ao cargo de ministro da Aeronáutica do Governo Café Filho, que assumiu com a morte de Getúlio Vargas. No tempo da ditadura militar, apesar de ter apoiado inicialmente o Golpe de 1964, já em 1966, na qualidade de ministro da Aeronáutica de Castelo Branco, o brigadeiro lustrou sua biografia ao liderar uma parcela das Forças Armadas que se colocava contra o recrudescimento do pro- cesso de cassação de mandatos políticos. Ele se contrapunha à linha dura, que insistia para que o presidente, o marechal Humberto de Alencar Cas- tello Branco, levasse adiante a “limpeza do terreno” com maior rigor. A séria crise que se desenrolou na FAB, em pleno regime militar, em 1968, com o famoso caso Para-Sar (como era conhecida a unidade especial de busca e salvamento da Aeronáutica) dá uma idéia do caráter de Eduardo Gomes. No final daquele ano, veio a público que a unidade estava sendo usada por um grupo de radicais de extrema direita dentro da corporação, com aval do próprio ministério. O capitão Sérgio Miranda de Carvalho, lotado no Para-Sar, foi punido por ter se recusado a cumprir ordens ilegais, que incluíam o uso da unidade para o extermínio de líderes políticos e estudantis, além de outros atos terroristas que seriam depois imputados à esquerda.
  • 45 O capitão Sérgio Miranda denunciou que essas ordens ha- viam sido dadas em uma reunião realizada no próprio gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza e Mello, um dos expo- entes da linha dura do governo militar, no dia 14 de julho de 1968, pelo então chefe de gabi- nete do ministro, o brigadeiro João Paulo Burnier. A reunião contou com a presença de 40 in- tegrantes do Para-Sar, sendo sete oficiais e os demais sargentos e cabos. Os oficiais sustentaram a versão do assessor do ministro, enquanto os sargentos e cabos confirmaram que a versão do ca- pitão Sérgio Miranda era correta. Por causa das denúncias, o capitão Sérgio Miranda foi refor- O suboficial Plínio Pacheco apoiou-se mado no ano seguinte, em 1969. nas “asas da pátria” O ex-ministro Eduardo Gomes,para ganhar o mun- que se aposentara um ano antes, do e nunca deixou saiu em defesa do capitão Sér- de agradecer gio Miranda. Além do capitão, o aos generais dosares, especialmente brigadeiro Itamar Rocha, diretor ao brigadeiro de rotas aéreas e responsável Eduardo Gomes pelo inquérito do caso (que aca- bou incriminando Burnier e seu grupo), também foi exonerado e preso, acirrando a crise, com uma série de manifestações dos briga- deiros e oficiais superiores. Em novembro de 1971, o ministro Márcio de Souza e Mello deixa o governo atacando o ex-ministro Eduardo Gomes, a quem acusava de intromissão na direção da Aeronáutica. Logo depois, o brigadeiro João Paulo Burnier também foi afastado do comando da III Zona Aérea, no
  • 46 Rio de Janeiro, mas os dois episódios apenas consolidaram a falsa impres- são de que o setor que agia sob a liderança moral de Eduardo Gomes ha- via voltado a prevalecer na FAB. O ex-ministro Eduardo Gomes não desistiu e, em março de 1974, faz chegar às mãos do presidente Geisel uma apaixonada carta em que pedia que fosse corrigida o que chamava de injustiça que lhe oprimia o cansa- do coração. Nessa mesma carta, Eduardo Gomes classifica Burnier como um insano mental, inspirado por instintos perversos e sanguinários, sob o pretexto de proteger o Brasil dos comunistas. No mesmo documento, Eduardo Gomes elogiava o capitão Sérgio Miranda, por ter impedido que o Para-Sar fosse convertido em uma esquadrão da morte e instrumento de política assassina. O capitão Sérgio Miranda, entretanto, nunca foi reintegrado à Aeronáutica e Eduardo Gomes morreu em 1981, no Rio de Janeiro, sem ter visto a injustiça corrigida. A ajuda do brigadeiro Eduardo Gomes, além de ter garantido um ordenado da Aeronáutica à família Pacheco, entre 1965 e 1970, para que Plínio estivesse à disposição de Nova Jerusalém como militar da ativa, também o manteve afastado do período de maior turbulência na FAB. Pessoalmente, Plínio era contra a tortura e deixou registrada, mes- mo de forma cifrada, devido à censura da época, sua repulsa em uma carta escrita para uma amiga atriz. “Estou copiando para você uns troços de uns casos acontecidos há uma porrada de anos e você junta com ou- tros troços e me diz porque estou escrevendo tudo isto e dizendo tudo isto. Aí, você vai deduzir porque vou atravessar o rio e puta que o pariu. Vou misturar tudo aqui é para fazer bem bagunça dentro da tua cabeça e estomago e fazer tu pensar até estourar ou entender”, diz, referindo-se a uma série de relatos de casos de tortura, fictícios ou não. A amizade com o legendário brigadeiro, entretanto, lhe custaria caro mais tarde, quando o ex-ministro se aposentou e a linha dura tomou conta do comando da Aeronáutica. No meio militar, outro oficial de alta patente marcou as relações de Plínio com a caserna foi o general Zenildo Zoroastro de Lucena, que impri- miu na sua passagem pela vida pública o espírito democrático e combate ao autoritarismo. Em 1945, quando Plínio ingressou na Aeronáutica, em São Paulo, Zenildo, com apenas 15 anos, acabara de sentar praça, em Re- sende, no Rio de Janeiro, na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), dando início a uma carreira de sucesso nas Forças Armadas. O destino dos dois só haveria de se cruzar, por força de laços familiares, mais de uma década depois. O primeiro teste público das convicções democráticas de Lucena se deu no início da década de 90. Depois do processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, os militares da reserva começa- ram a criticar duramente o governo do presidente Itamar Franco, dizendo
  • 47que não se estava dando um tratamento adequado às Forças Armadas.Em junho de 1993, o deputado federal e capitão da reserva Jair Bolsonarofez declarações públicas favoráveis ao fechamento do Congresso e à voltado regime de exceção. Zenildo sustentou que naquele momento a prio-ridade não era a questão militar e sim os problemas sócio-econômicos,garantiu o apoio do Exército ao Governo e afastou qualquer possibilidadede golpe. Em 1995, Zenildo, mantido como ministro do Exército, tornou--se o principal colaborador do presidente Fernando Henrique Cardosoentre os chefes militares e ajudou a vencer resistências às propostas doExecutivo no interior das Forças Armadas. Naquele ano, Zenildo foi umdos responsáveis, juntamente com o ministro da Aeronáutica, brigadeiroMauro Gandra, pela aprovação da Lei de Desaparecidos Políticos. A pro-posta de lei havia sido elaborada pelo Ministério da Justiça e tinha comoobjetivo conceder atestado de óbito a 152 pessoas desaparecidas duranteo regime militar (1964-1985), pois dos 369 opositores mortos, somente217 eram reconhecidos oficialmente. A referida lei previa o pagamento deindenizações às famílias das vítimas e este ponto foi o que mais encontrouresistências, principalmente entre os militares da reserva. Em agosto de1995, o ministro chegou a lançar uma nota oficial de apoio ao projeto, queacabou sendo aprovada no mês seguinte. Através dessa lei, foram benefi-ciadas centenas de famílias, entre elas a do jornalista Vladimir Herzog, e asdos líderes guerrilheiros Carlos Mariguelha e Carlos Lamarca. No GovernoFHC, Zenildo Lucena, além de estimular a divulgação de documentos refe-rentes ao período militar, também determinou a exoneração de funcioná-rios comprometidos com o autoritarismo. O caso mais notório foi o afasta-mento, em setembro de 1995, do adido militar da Embaixada do Brasil emLondres, coronel Armando Avólio Filho, acusado de prática de tortura pelaAnistia Internacional. Além do brigadeiro Eduardo Gomes, Plínio também teve como con-temporâneo na Aeronáutica um jovem médico chamado Nilo Coelho. Aocontrário de Plínio, Nilo entrou na Aeronáutica de forma casual. Ainda es-tudante de medicina, em Salvador, o jovem Nilo Coelho chegou a estar àfrente de passeatas que percorreram o centro de Salvador conclamando aopinião pública a reagir contra a ameaça nazista. Nilo foi convocado paraa guerra, mas como era quintanista de medicina, não chegou a embarcarpara a Itália. O pai dele, o coronel Quelê (Clementino Coelho), já era umpolítico importante no Sertão do São Francisco e conseguiu que o filho,logo depois de formado, prestasse serviço militar. Diplomado em 1944,Nilo optou pela Aeronáutica, tendo ido cumprir estágio na FAB em Cam-po Grande, no Mato Grosso. Em 1947, o jovem Nilo Coelho venceu suaprimeira batalha eleitoral, elegendo-se deputado estadual, tendo sido ocandidato mais votado no interior e o terceiro mais votado em todo o Es-
  • 48 tado. O colega de farda, mais tarde guindado ao cargo de governador do Estado, iria ajudar Plínio de forma decisiva, como se verá mais tarde.
  • 49 Capítulo IVCaminhando sobre as águas A fuga para Fernando de Noronha A PAIXÃO DE PLÍNIO
  • 50
  • 51 A fuga para Noronha Depois de abandonar a loucura da vida em São Paulo, Plínio, náufra-go da vida, foi levado por um mar de mágoas para o arquipélago de Fer-nando de Noronha, onde trabalhou no destacamento de controle aéreoda Aeronáutica a partir de 1948. Nas ilhas vulcânicas, seu primeiro contatocom a pedra, uma nova e maravilhosa vida se abriu à sua frente. “O sol, aonascer, me encontrava sobre um rochedo, com um short no corpo e umlivro na mão”, relembra, em uma carta de 1962, ao amigo Victor Moreira. O cheiro da maré, a lufada de vento no rosto, a carícia áspera daneblina salgada eram intimidades que Plínio descobriu rapidamente queamava. Olhar os navios chegando ou os acompanhar até que desapare-cessem no horizonte não passavam de um pretexto para estar junto aomar. “Meus dias eram pescando, descobrindo os segredos das praias edos penhascos, declamando poemas. Eu era dono de minhas horas e dosmeus minutos. Se não queria ver caras, não via. Era a liberdade absoluta.Não a liberdade que eu buscava, mas a de que precisava”. O isolamento foi completo e proposital. “De laços afetivos, só meligava ao continente uma carta mensal, ao menos, de minha mãe”, lembrao próprio missivista. Numa dessas cartas, Plínio ressaltava as duas facetasde Noronha que ele enxergava naquela época: “A amplidão dos grandescéus, a luminosidade deslumbrante do sol ardente, a solidão concentrada,o homem imutável”. Naquela época, percorrer as praias, antes da cinco da manhã, eraprincipalmente uma terapia pessoal. Curiosamente, fugindo para Fernando de Noronha, Plínio buscava,na verdade, se encontrar. “Aqueles anos foram necessários para que euraspasse, do meu corpo e de minha alma, tudo que a imbecilidade, a cre-tinice, uma má formação, uma impregnação de conceitos caolhos, lhestinham incrustado”, enumera. “Não fui para Fernando de Noronha com
  • 52 o propósito de fazer isto nem aquilo. Eu só queria sair da loucura de São Paulo e tentar viver a terra, o espaço, eu”, contou Plínio, inebriado com o ar de Noronha, revigorante e doce, atraente em todos os sentidos humanos. “Àquela altura da vida, tão cansado de desastres (amorosos), arrastado daqui para lá e de lá para cá pelo destino, arriscaria a minha vida numa oportunidade para remendá-la ou para, de vez, com ela acabar”, explicava, dando uma idéia do quanto gostaria de mudar de vida. Composto por 21 ilhas e ilhotas rochosas, o arquipélago era mesmo o porto seguro naquele momento. Na ilha principal, também chamada Fernando de Noronha, devia ter menos pé de gente do que formações vulcânicas naquela época. Era, portanto, o local ideal para não ver caras. Era um mundo sem jornal, sem revista, sem TV, sem radinho de pilha, sem outdoor. “O rádio só pegava programas dirigidos ao exterior. Mundo pequeno, das mesmas caras, mesmos assuntos, sem assunto. Movimento só das nuvens no céu, das ondas no mar, do vôo dos pássaros marítimos. Enfim, um mundo que, mesmo que você não quisesse, colocaria em geral você-com-você”, relembrava Plínio. Somente agora, com a consolidação do turismo, existe uma média mensal de 500 moradores temporários, além de uma população fixa de 2.200 ilhéus. O italiano Constantino Pellegrino, que conheceu Plínio e trabalhou em Noronha por mais de 30 anos para a empresa Italcable, instalada na ilha desde 1925 e responsável pelo cabo submarino que garantia o serviço de telégrafo até a 2ª Guerra Mundial, lembra que a vida era muito dura naqueles dias. “Naquele tempo, ter um rádio era sorte. Não havia bibliote- cas. Aí um livro passava de mão em mão, depois se devolvia. A leitura era a distração da gente, para não endoidar”, diz Pellegrino, que completou 83 anos em 2004. Com formação em ciência política, economia e comércio na Itália, Pellegrino conta que a vida social em Noronha era o maior desafio para um jovem de 29 anos. “Havia uma certa segregação. Os oficiais mais gradua- dos viviam na vila militar. Os rapazes da aeronáutica, que eram solteiros, aproveitavam as festas de aniversário para se divertir, visto que não havia muita distração. Até duas vezes por semana havia convites, sempre de um colega ou esposa de um colega. Naquela época, era normal que todos fu- massem muito. Mas, como a bebida era proibida, uma garrafa de cachaça valia ouro. Eles bebiam batida, uma mistura de álcool e frutas. O Carnaval era uma beleza, no salão da casa do governador, com muita gente, amigos, convidados e os filhos que vinham do continente. Os funcionários da base eram os mais festeiros. Plínio freqüentava pouco essas festas. Gostava mais de ficar na base. Era simples, sempre sério, mas simpático”, relembra o ami- go. Nas suas cartas, Plínio não revela amores na ilha, mas não deixa de criticar a moral vigente. “A moral pública não permitia mulher que não
  • 53Quem não joga, apita. Plínio busca exercer liderança até na hora da prática dofosse a mulher ou filha de alguém ou empregada. Elas eram vigiadas, ob-servadas, espreitadas”, relembra, nas cartas endereçadas ao amigo VictorMoreira. Outra maneira de se distrair nas horas vagas e matar o tempo eraa prática de esportes. Nos finais de semana, havia jogos de futebol, vo-leibol ou tênis, na quadra que havia na sede da empresa italiana. Hoje, olocal está parcialmente em ruínas e parcialmente invadido por famíliasde ilhéus. “Como Plínio não jogava bem, funcionava como juiz”, conta Pel-legrino. Os expedicionários da base aérea, em sua maioria jovens do Sulcomo Plínio, formavam um time. O Exército tinha outro. Os funcionáriosda Italcable, mais um, a exemplo do time da vila local, formado por nati-vos e descendentes dos antigos prisioneiros da ilha.A historiadora MarietaBorges Lins e Silva, responsável pelo resgate histórico de Fernando de No-ronha, guarda uma foto rara dessa época onde Plínio posa para a posteri-dade, de short e com uma bola na mão, apitando uma partida de voleibolentre os colegas de farda, vestindo uma camiseta com as lendárias “asasde um povo soberano”, a insígnia da FAB. Nessa época, Plínio também pra-
  • 54 ticou equitação na ilha, pois o cavalo era um meio de transporte comum. Naquele final da década de 40, Plínio ficou trabalhando no posto de controle aéreo da Aeronáutica. Desde a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial (1939-1945), as Forças Armadas tinham montado um destaca- mento misto, instalado com o objetivo de vigiar todo o Atlântico Sul. O mundo estava em guerra com os países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália) e o arquipélago de Fernando de Noronha, como ponto mais a leste do con- tinente sul-americano, era importante para acompanhar os movimentos da máquina de guerra alemã. A rigor, até quando o Governo Vargas (1930- 1945) manteve uma posição neutra, o destacamento de Fernando de No- ronha servia apenas para observação. Quando a pressão norte-americana obrigou Vargas a negociar a cessão das bases de Natal e do Recife, os ame- ricanos chegaram a montar uma base aérea em Fernando de Noronha, um apoio que foi essencial para a vitória aliada no norte da África. Um pouco antes da decisão de Getúlio Vargas, o serviço secreto alemão informara ao comando nazista que o Brasil se alinharia aos EUA, Inglaterra e França (os Aliados), fazendo com que tivesse início uma série de afundamentos de navios brasileiros não apenas em águas internacionais, mas até mesmo na costa nordestina, com destaque para Sergipe e Bahia. No Recife, em agosto de 1942, famílias de italianos, alemães e japoneses foram agredidas como revide a tais afundamentos. Cinco navios tinham sido afundados, com mais de 300 mortes. No tempo da guerra, em Noronhas os americanos construíram di- versos galpões e fizeram uma nova pista de pouso, no local da que era operada antes pelos franceses da Air France. Quando o conflito acabou, deixaram tudo. Não levaram nada. Plínio começou a servir em Noronha quando os tempos já estavam calmos, no final da década de 40. Anos antes, entre 1942 e 1943, a convite do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, um jovem advogado, chamado Eraldo Gueiros Leite, servira junto ao conselho de Justiça Militar do mesmo destacamento, depois de ter sido nomeado, em 1941, substi- tuto de promotor de auditoria da 7ª Região Militar, com sede no Recife. Naquela oportunidade, os destinos dos dois não chegaram a se cruzar. Mais tarde, Eraldo Gueiros, já eleito governador do Estado, teria um papel importante na vida de Plínio. Mesmo depois do fim do conflito, o assunto 2ª Guerra Mundial ainda galvanizava os debates. Pellegrino conta que Plínio se interessava em des- cobrir as diferenças entre o nazismo e o fascismo, este último nascido em 1922, com a chegada ao poder, na Itália, de Benito Mussolini. “Eu só via be- nefícios no fascismo. Como os benefícios sociais criados com a Previdência, que Vargas copiou, em 1930, depois de mandar uma comissão à Itália”, cita Pellegrino. Além de política, Plínio demonstrava interesse por todo tipo de arte. “Na verdade, ele gostava mais de falar sobre cultura. Perguntava como
  • 55era a vida na Itália, enquanto me oferecia chimarrão, que eu experimenteie não gostei. Plínio gostava muito de ler, especialmente sobre a históriadas civilizações, a história dos egípcios, coisas assim”. Na ilha, o que o náufrago gaúcho não sabia é que aquele banco deareia perdido nos mares da eternidade lhe reservava mais do que descan-so eterno. “As coisas aconteceram mais por conseqüência”, narraria, anosdepois. A mais de 300 quilômetros do continente (a capital mais próxima,Natal, fica a 350 quilômetros de distância), na ilha o dinheiro tinha valorrelativo e, às vezes, não tinha valor algum. Só havia produtos ou objetosessenciais à venda. Às vezes, estes acabavam. O desabastecimento ocorriapor atrasos nos navios ou aviões. Até gêneros básicos de alimentação fal-tavam. Foi justamente por falta de certas coisas que começou a dar vazãoao seu espírito empreendedor. Plínio relatava que, como de vez em quando faltava comida e nãohavia onde comprar, ele preparou um pedaço de terra e fez uma pequenahorta para ter verduras frescas. “Meio dia de pescaria no mar dava peixepara uma pessoa comer toda uma semana e ainda sobrava um tanto queera vendido a um frigorífico do governo. No início tudo bem, mas depoiscomplicou”, contou Plínio. Naqueles anos, Plínio era muito influenciado pelas leituras dosescritores que o fascinavam. Citava-os com freqüência e comparava suaprópria disposição a escritores e personagens. Citava o filósofo HenryDavid Thoreau, mais ligado ao trabalho, à terra, à vida prática, e Mellors,o personagem de D.H. Lawrence que criava faisões para a nobreza masnão queria saber de dinheiro. Citava ainda Huxley e seu personagem Mr.Propter. Plínio tentava colocar em prática os ensinamentos do filósofo e es-critor americano Thoreau, cuja obra inspirou diversos movimentos sociaise políticos do século 20 e, mais tarde, foi uma referência essencial paramovimento ecológico, a partir dos anos 50, e para a contracultura dasdécadas de 60 e 70 do século passado. Ao contrário do tipo de vida domi-nante no seu país de origem nos dias de hoje, a obra de Thoreau pregavaa simplicidade, o respeito à natureza, o pacifismo, o desapego aos bensmateriais e a liberdade em relação ao Estado, entre outros valores. O escritor ficou famoso quando, em 1845, recém-formado pela jáprestigiosa e exclusiva Universidade de Harvard, construiu uma cabana– ao custo de US$ 28 – às margens do lago Walden, nas proximidades dacidade de Concord, no Estado de Massachusetts, Costa Leste dos EstadosUnidos. Nesse lugar, Thoreau viveu por dois anos, do seu esforço e das opor-tunidades que a natureza lhe oferecia para manter-se. Naquele tempo, eleescreveu um diário, base do livro chamado justamente Walden, modes-tamente publicado em 1854. A primeira edição, de cinco mil exemplares,
  • 56 levou cinco anos para se esgotar. Com o tempo, entretanto, o livro tornou- -se um best-seller, com mais de 200 edições e traduções para 25 línguas, além do inglês. Em agosto de 2004, comemorou-se nos Estados Unidos o sesquicentenário da primeira edição de Walden. Antes de Walden, Thoreau já havia escrito e publicado A desobe- diência civil, livro que influenciou decisivamente a resistência pacífica de Gandhi, Luther King e outros. Também teria servido de inspiração para a resistência dinamarquesa na 2ª Guerra Mundial, a luta contra o Apartheid na África do Sul e o combate à Guerra do Vietnã, nos anos 60 e 70. Já Mellors (personagem central de O Amante de Lady Chatterlay), era um severo crítico da sociedade materialista. O terceiro citado, Aldous Huxley, é autor de clássicos da literatura que expressam desilusão, cinismo e questionamentos. Mr. Propter é um dos personagens de Também o Cisne Morre, um exame do narcisismo e da superficialidade da cultura americana e sua obsessão pela juventude. “No início tudo bem. Em Fernando de Noronha, eu estava numa de Thoreau na vida prática (trabalhando a terra) e numa de Mellors na vida- -vida (criando faisão). Comecei a me perder quando deixei-me envolver por Mr. Propter (ajudando demais os outros). Não que a filosofia dele não fosse certa. É que tinha vários ângulos e eu que me impus já há algum tempo uma porra de humanismo, enveredei por esse caminho”, compara, em carta escrita em 1979. Como um Thoreau da Esmeralda do Atlântico, Plínio conta que co- meçou a plantar e criar aquilo que era essencial à sua subsistência, mas foi surpreendido pela produtividade da terra. “Aconteceu o que a minha inex- periência não podia prever. Como lá em Noronha toda a ilha é uma reserva de guano (fosfato de cálcio que é resultado do excremento de aves, o que dá uma cor esbranquiçada às rochas cobertas pelo material), a terra da ilha é de uma fertilidade incrível”, relata, em suas cartas. O jovem Plínio explicou aos amigos que não podia abandonar a ter- ra porque sempre foi muito ligado a ela e essa ligação dava-lhe uma paz que dificilmente conseguia em outras atividades. O outro motivo alegado para trabalhar com a terra era bastante inusitado. “O trabalho de duas a três horas por dia, parte da manhã e à tarde, era também uma necessidade física. Isso me ajudava parcialmente na solução do problema sexo”, reve- lava, sem nenhum constrangimento, a respeito do período de aparente privação. Havia pelo menos duas alternativas para contornar o excesso de pro- dução da terra, mas Plínio não queria optar por nenhuma delas. A primeira era jogar fora o excesso, o que ele achava um absurdo. Dar às pessoas ele também não queria. “Dar, no fim, faz mais mal do que bem a essas pessoas. Abandoná-las eu também não devia nem podia”, resumiu. A solução encontrada foi a criação de porcos, para consumir o exces-
  • 57so de produção de verduras. Como os porcos não vivem apenas de umadieta vegetariana, Plínio fez um acordo com o encarregado da alimen-tação do pessoal da Aeronáutica. Ele forneceria a verdura necessária aopessoal. Em troca, as sobras de comida eram usadas para a alimentaçãodos porcos. Acontece que os porcos cresceram, procriaram e, com isso,surgiram dois novos problemas: vender os porcos crescidos e ampliar ahorta para alimentar as novas crias. Mais ou menos nessa época, premido pelas circunstâncias, o es-pírito empreendedor de Plínio começava a se revelar. “Não havia outrasolução. Era botar um trabalhador para ajudar na ampliação da horta etambém tomar conta dos porcos, cada vez nascendo mais”, relembroutempos depois. Com um ano, Plínio tinha dois trabalhadores e tanto porco que ahorta, mesmo ampliada, e com as sobras de comida, não dava para ali-mentar tudo. Não havia, de novo, outra solução, senão ampliar a produ-ção. Plínio conseguiu consertar um trator que estava jogado numa dasoficinas. Descobriu ainda uma sucata de guerra, uma grade de discos dearar terra. Depois, escolheu uma área de três hectares, preparou a terra equando as chuvas chegaram colocou gente para semear milho, para ali-mentar os porcos. Plínio sabia que plantações como a de milho requerem uma cul-tura paralela que agregue nitrogênio à terra (em geral o feijão ou a fava).Acontece que feijão não dava na ilha. Como a terra é muito forte, as folhascrescem até quase o tamanho de uma folha de jerimum e o feijão nãoaparece. A solução foi mandar plantar uma parte de fava e o restante dealgodão. Com o tratorzinho consertado, Plínio mandou fazer uma capina-deira para que o trabalho de preparação do terreno fosse mecanizado. Amáquina faz a maior parte do trabalho, mas sempre é preciso ajuda manu-al, para limpar perto dos pés das plantas, exigindo mais gente para isso. Edepois vem a colheita do milho, da fava, do algodão, e mais gente. E paraa debulha do milho e da fava mais gente era necessária. A alta produção, sonho de qualquer agricultor interessado em lu-cros, inquietava o incipiente produtor. “O pior é que a terra amiga cada vezmais foi se tornando inimiga. A produção de milho foi mais que o dobronecessário à alimentação dos porcos que existiam ou iriam nascer por umano”, explicou, constatando que não havia consumo local para tanta fava eque o algodão era cultura de exportação. O excesso de carne de porco eravendido na própria ilha, a verdura também já excedendo, o excesso já eramandado uma parte de avião toda semana para um hospital de Natal. Com pouco, não sem se aperceber, Plínio estava se transformandoem um próspero comerciante. “Agora as coisas estavam se complicandoainda mais. A saída foi mandar um trabalhador a Campina Grande, na Pa-raíba, negociar algodão, milho e fava. E trazer sacos, ensacar, e transportar
  • 58 para o navio no fim do mês até o porto de Recife, e desembarcar no porto, e carregar em caminhões até Campina Grande. E entregar, e receber o che- que e descontar o cheque”. Era como se a loucura de São Paulo estivesse de volta. Com tantos afazeres, Plínio logo percebeu que ia naufragar naquele mar de excessos. “O meu ideal, a terra, o espaço, eu soçobrara. Era impor- tante me livrar daquilo tudo, reencontrar-me novamente, descomplicando tudo, parando, acabando com tudo. E foi o que fiz. Vendi o que podia ser vendido. Dei o que não podia e me libertei de tudo”, relembra. “E fui ver o mar, andar no mar, nadar no mar, navegar no mar. Contemplar a terra, ob- servar o espaço, estudar o céu e a terra. E ler, escrever, ouvir música. Eu, eu, a paz”, resume. Desse tempo, em suas cartas, sobre a beleza selvagem e solitária da ilha, Plínio cita os rochedos da Baía do Sueste, as alvas areias das praias do Sancho, batidas por azulados verdes mares de estúpida violência. Em um clima poético, cita também o céu e suas plácidas noites estreladas, de lu- ares de luas mortas. Nas reminiscências das histórias do mar, Plínio revela, tempos mais tarde, que sofreu ali um choque, com a descoberta de um es- tranho povo que vivia e contava fantásticas histórias. Mas gente significava problemas para Plínio. Os únicos habitantes que lhe interessavam eram as gaivotas, os caranguejos. “Tudo correu às mil maravilhas até enquanto era eu para cá e o meu humanismo para lá”, anotou. Ocorre que um dia chegou um trabalhador na casa de Plínio e come- çou a contar a vida dele. “Era ele, a mulher, não sei quantos filhos, o leite, a comida, roupa, remédio, tudo burro sem escola, a metade doente, tudo fraco, só ele trabalhando para sustentar a todos”. Nessa época, também não adiantava os que pudessem ou quisessem trabalhar, pois não havia trabalho. O que se ganhava como salário-mínimo do governo não dava para conseguir um terço do que necessitavam. - Pois é, e a solução?, perguntou-lhe Plínio. - Não sei, não tem, respondeu o homem. - Tem solução, a terra, disse-lhe Plínio. Muitos anos mais tarde, Plínio contou que se arrependeu de voltar ao assunto. “Quando disse àquele homem que a terra era a solução, dia- bolicamente Mr. Propter entrou em mim. Só fui perceber muito tempo depois”, relembra. Na época, a receita chegou a ser dada de forma pormenorizada. “Você pega uma foice, bota abaixo a vegetação alta, depois retraça a terra toda com trator e grade de disco, planta milho, fava, algodão, jerimum, vende o algodão, tira uma parte dos outros produtos para consumir e outra parte vende. E na terra, trabalha homem, mulher e menino. Além disso, você pode fazer uma hortinha no quintal da casa e ter verdura, que é capaz de não consumir tudo, então manda um menino vender o que não
  • 59conseguir, que já ajuda. E tendo verdura, milho, jerimum, também dá paracriar uma meia dúzia de galinhas, e tem o ovo e a galinha para comer ouvender. Dá também para engordar um porquinho. No fim do ano, vocêtem seis vezes mais do que ganha do governo e juntando um com o outrosalário dá para mudar essa vida um pouco”, recomendou Plínio. O trabalhador concordou com a criação da horta e da lavoura, masachou difícil tocar aquela empreitada sem o trator para preparar a terra,sem a capinadeira para limpar. “Acho que não dá. E também não entendodessas coisas de verdura, não tendo as sementes nem as mudas. E depoiseu não sei como vender lá fora o algodão, o milho e as outras coisas. Euacho que resolvia, que mudava, mas não sei, parece muito complicado. É,é muito complicado”, concordou Plínio. Naquele dia, ao fim do diálogo com o homem simples, Plínio ficoumuito sensibilizado. “O trabalhador foi embora deixando aquela misériade vida dentro de mim. Alguns dias depois chegou outro, a família, o sa-lário, a solução. E vai e eu fico com mais esta parte de mais outro. E vemmais um outro e vai e mais outro, cada um voltando com sua parte inteira,mas todos deixando dentro de mim todas aquelas partes”, relembra. Como era um homem sensível, Plínio não podia ficar omisso diantedaquela realidade. Ele achava que não dava para ficar somente com pala-vras do tipo “pois é, é muito complicado” como resposta. Naquela ocasião,com a pessoa que era, Plínio não tinha estrutura psicológica para conti-nuar ou permanecer imóvel, mesmo sabendo que tinha que abrir mão datão sonhada paz. “A solução estava muito mais nas minhas mãos, desdeque eu me dispusesse a, mais uma vez, renunciar ao meu mundo, à minhapaz, retornando à terra, sementes, máquinas, produção, produzir, produ-zir. Eu era a solução para aquilo tudo, reduzir aquela miséria, melhorar umpouco a vida das pessoas e talvez abrir novos horizontes”. Anos mais tarde, incentivando o amigo Victor Moreira a seguir emfrente com a carreira de pintor, Plínio explicou em detalhes essa filosofiade vida, relatando a importância de doar-se, repartir o conhecimento. Paraele, fazer algo que fique é a mesma coisa que busca um sentido para avida. “Não é o que fazemos que importa, mas sim as perspectivas queestamos abrindo a alguém sempre que fazemos alguma coisa. Não é oque fazemos a nós próprios que nos dá sentido na vida, mas sim o sen-tido que podemos dar à vida dos outros. No fim, só conseguiremos essesentido quando encontrarmos um sentido para a nossa vida. A vida é algomais do que nascer e morrer, mais do que uma simples luta pela sobrevi-vência, pois que os animais também nascem, lutam e morrem. Enquantonão estivermos fazendo algo que fique, não estaremos fazendo mais doque viver. No momento, porém, que encontrarmos uma idéia e tivermoscoragem de a fazer andar, teremos encontrado um sentido na vida e es-
  • 60 taremos dando a outros esse sentido”, escreveu. “Em resumo, não é o que sabemos que importa, mas o que podemos dar aos outros deste saber. De tudo, uma descoberta foi a mais importante. Não adianta descobrir e saber tudo, sobre qualquer forma de conhecimento e saber, se o fazemos só pelo fato de conhecer e saber. Você poderá obter as duas coisas no momento em que decidir transmitir aos outros o que descobriu e sabe”. Plínio, assim, acabou aceitando o desafio de ajudar às pessoas sim- ples do lugar. No caso, apenas impôs a condição de não ser dono de nada, não usufruir de nada. Assim, os gostos, os desgostos, o trabalho, a eventual gratidão ou quase certa ingratidão, durante todo o processo, não deveriam entrar em jogo, embora de qualquer forma fizessem parte do jogo. “Se, no fim, para mim, fosse valido, tudo bem. Se não fosse, estava feito e não ha- via mais o que fazer. Acho que foi nessa ocasião que aprendi a conjugar o verbo resignar-se”, escreveu, tempos depois. Plínio pediu a um dos trabalhadores que chamasse todos os outros para conversar e ver o que podia ser feito. Eles acertaram que cada um escolheria um pedaço de terra e botaria abaixo a vegetação alta. Plínio pegaria o trator e entregaria a terra arada, mandaria comprar as sementes para as lavouras e os trabalhadores preparariam os canteiros nos quintais para as hortas. Plínio entregaria ainda o adubo e levaria as mudas, além de ensinar como plantar e cuidar a terra. E ainda se comprometeu a ajudar na orientação da agricultura e providências para a exportação do que fosse necessário. No entanto, tudo isso estava condicionado a uma série de exigên- cias. Os trabalhadores deveriam pintar suas casas com cal branca e manter tudo lavado e limpo, incluindo as crianças. Os pequenos também deviam ser colocados na escola. Plínio comprometeu-se a dar um jeito junto ao governo local. Plínio não queria ver florescer apenas a terra. O objetivo era plantar sementes para uma vida melhor. “Consegui escola e as crianças começaram a estudar”, comemorou, na época. Conforme o acordo, as áreas foram sendo desbastadas da vegetação alta e Plínio passou o trator e aprontou a terra. Os trabalhadores, enquan- to esperavam as chuvas, começaram a preparar as hortas. As casas foram pintadas. Quando as chuvas chegaram, o plantio foi feito e veio a colheita, separando-se o que devia ser exportado. Como o transporte de navio era muito complicado, o próprio Plínio convenceu o pessoal da FAB a ceder alguns aviões para transportar parte da produção diretamente para Cam- pina Grande. Dois dos trabalhadores foram escalados para acompanhar a descarga e recarga no aeroporto para a cidade, realizando a venda e o recebimento do dinheiro. Com tudo concluído, o dinheiro da produção de cada um foi entregue ao seu dono. Plínio sabia que ninguém sai da miséria com um ano, mesmo que seja bom de trabalho, mas se dava por satisfeito pois, de qualquer forma,
  • 61todos tinham o que comer, do que tinham produzido, e havia algum di-nheiro para comprar o que não produziam. Como a colheita foi boa, deupara comprar alguma roupa e até mesmo algum móvel. Na avaliação quefez, Plínio anotou que, se o resultado econômico era importante, mais im-portante era que as crianças estavam andando limpas, na escola. As casaseram pintadas agora já por hábito. As mulheres e os homens já sabiamque precisavam manter as hortas. Alguns já tinham até plantado algumasflores na frente das casas. O lixo não era mais jogado nos quintais, mascoletado em tambores e incinerado. “Houve mudanças”, exultou Plínio,com grande satisfação. No segundo ano, os trabalhadores tiveram receio de que não hou-vesse continuidade, mas tudo acabou sendo mais fácil, principalmentepara Plínio, que não precisou mais orientar ninguém. O seu trabalho eraapenas entregar a terra arada, providenciar as sementes, passar o trator-zinho com a capinadeira e conseguir o transporte após a colheita. “Tudobem plantado, colhido, vendido o que tinha de ser vendido, a vida delesteve uma mudança ainda maior após o segundo ano. As pessoas botaramdentro de casa mais alguma coisa, como roupa, louça, panela”, contabili-zou. No terceiro ano, ninguém perguntou mais nada a Plínio nem eleteve tempo de responder. Nada havia a perguntar e muito menos aresponder. Na verdade, para Plínio não houve nem terceiro ano em seucalendário agrícola. Um certo dia chegou um telegrama perguntandocandidamente onde ele desejava servir. Em bom português, para ondegostaria de ser transferido. “Alguém, fora ou dentro da ilha eu não sei, masno alto, decidiu que havia alguma coisa errada acontecendo”, relembra osuboficial da Aeronáutica. “Com isso, morreu dentro de mim não apenasThoreau, mas também Mr. Propter, Mellors. O que havia dentro de mimnão morreu, mas com ele também se perdeu. E muito pior, pois se perdeumais de uma vez”, confidenciou mais tarde. Cinco anos depois de chegar em Fernando de Noronha, apesardos dissabores, Plínio saiu da ilha com um balanço positivo. “É claro quenão saí de lá santo nem sábio, mas saí um pouco homem. Conseguira mereencontrar. Descobrira que se pode ser feliz com pouco, quase nada eque não se deixa de ser infeliz por ter muito. E que um homem só estásó quando ele é um burro. Valeu a pena a experiência. Valeu? Não valeu?Na hora em que resolvo ressuscitar só a parte boa dos mortos, valeu. Aí agente começa a relembrar tudo, a pensar e a concluir... Falando sincera-mente. Qual é a importância?”, questiona-se Plínio, mais tarde, referindo--se ao que chamou poeticamente de fantasmas nas espumas das águas. Em frente ao mar de Fernando de Noronha, Plínio aprendeu que afelicidade é como a linha do horizonte, quanto mais a gente se aproximadela, mas ela se distancia. Descobriu também, com os nativos, que não é
  • 62 fácil fundear ali. O fundo encontrado a 40 metros do rochedo pode ir facil- mente de dez a mais de mil metros de profundidade. Naquela hora, mais do que nunca, era preciso alguma âncora, alguma segurança. “Fiz minha mala e fui para o Recife”, comentou secamente, após ter recebido o telegra- ma cheio de candura dos superiores da FAB.
  • 63 Capítulo V O Moisés do AgresteA história do patriarca Epaminondas Mendonça A PAIXÃO DE PLÍNIO
  • 64
  • 65 A história do patriarca Epaminondas Mendonça No tempo em que Plínio contava apenas 29 anos e mal acabara dedesembarcar de seu exílio em Fernando de Noronha, por volta de 1955,a vila de Fazenda Nova, com muito sacrifício, já começara a despontarno calendário turístico do Estado, embora ainda houvesse um longocaminho a percorrer. Cerca de 5 mil pessoas já se deslocavam para assis-tir ao Drama da Paixão, encenado nas ruas de Fazenda Nova, enfrentan-do as duras condições de acesso do lugar, pois apenas uma estrada deterra separava, mas do que ligava, os 40 quilômetros entre Caruaru e apequena vila. A vida, boa dramaturga para alguns e nem tanto para ou-tros, entretanto, já cuidava para que o caminho fosse aplainado, antesmesmo de o governador Agamenon Magalhães fazer a primeira estra-da até a cidade, nos idos de 1940. O espírito desbravador do patriarcaEpaminondas Mendonça, funcionando como uma espécie de profeta,já apontara os caminhos para o povo daquele lugar, antes que qualquercidade de pedra tivesse sido prometida ou cogitada, sequer em sonho.Antes das encenações teatrais de cunho religioso, a cidade era conheci-da apenas por suas fontes termais, descobertas em 1824. Com mais de 200 anos de história, Brejo da Madre de Deus (deque Fazenda Nova é hoje distrito) é um dos municípios mais antigos doEstado e já foi terra de escravos. Nos primórdios do lugar, a religião sem-pre desempenhou uma influência muito forte. Consta que a comarcade Brejo, nascida de uma localidade então conhecida como Tabocas, foifundada em 1833 pelos frades recoletos da Congregação de São Felipede Nery. Em 1859, quando Dom Pedro II esteve no Recife, um intelectualda cidade, Francisco Alves Cavalcanti Camboim, falou com o imperadorem francês e deixou o monarca tão impressionado que obteve dele otítulo de Barão de Buíque, em 1871. O idioma foi aprendido com o frei
  • 66 Pedro Marinho Falcão, do convento dos recoletos. Antes, em 1843, o imperador já havia mandado construir uma pi- râmide como parte dos trabalhos para elaborar o mapa de Pernambuco, na chamada Serra do Ponto, que também serviria para fins de observação militar, a seis quilômetros da cidade. O responsável pela obra, junto com a Casa da Câmara e da cadeia de Brejo da Madre de Deus, hoje monumentos tombados pelo patrimônio, foi ninguém menos que o engenheiro francês Louis Leger Vauthier, o mesmo que construiu no Recife o Teatro de Santa Isabel, de acordo com descoberta divulgada pela equipe de arqueologia da Universidade Católica de Pernambuco, em outubro de 1988. As mesmas serras que impressionaram o engenheiro francês mais tarde encantariam o gaúcho Plínio. O lugar era tão atrasado que somente em fevereiro de 1927 a luz pública chegou, com um ato festivo. Para comemorar o funcionamento do gerador, instalado pelo Barão de Lucena, o comerciante Agnelo Campos doou uma cédula de 20 mil réis à Comissão de Festa da inauguração da luz na cidade, logo convertida em moedas de pequeno valor e distribuídas com os pobres na solenidade. O consumo de energia elétrica pelas linhas de transmissão da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, Chesf, dis- tribuída pelo Departamento de Águas e Energia do Estado de Pernambuco (DAE), antecessor da Celpe, foi um luxo só conquistado em setembro de 1962, no governo Cid Sampaio. Agnelo Campos, casado com Antônia Campos, teve três filhos (Ana- nias, Artur e Joel Campos, comerciante) e virou nome de rua no Brejo da Madre de Deus. Um dos filhos foi o pai de Wilson Queiroz Campos, ex-se- nador e ex-deputado federal, pai do ex-governador Carlos Wilson Campos e do também político André Campos. Epaminondas, um Moisés do Agreste, chegou a Fazenda Nova qua- se por acaso. Nascido em Quipapá (Mata Sul pernambucana), chegou ao lugarejo no início da década de 20, atraído pelas águas milagrosas das fontes termais. Seu pai, Nicolau, aportou em Fazenda Nova em 1921, para tratamento de saúde de um tio de Epaminondas, Bertoldo. Dois anos mais tarde, Nicolau foi nomeado o primeiro juiz de paz de Fazenda Nova e a mãe de Diva, Sebastiana, alugou uma casa no lugar, onde passou a residir em definitivo em 1924. Vinham de Panelas, onde moraram anteriormente. Naquele período, Epaminondas ainda mantinha uma fábrica de bebidas, a Fábrica Aurora, em Belo Jardim. Com a experiência de comerciante e ex-prefeito de Panelas, entre 1927 e 1928, Epaminondas começou a atrair melhorias para a localidade que adotara para morar. Em 1928, conseguiu com o governador Estácio Coimbra a elevação de Fazenda Nova a vila e sede do distrito de Manda- çaia. Também coordenou, em 1932, uma comissão para examinar as águas de Fazenda Nova.
  • 67Casal Mendonça personifica o comando político e religioso na antiga Brejo da Madre Já estabelecido como comerciante na cidade, nada disso o impediude sofrer um duro golpe em 1940. Disposto a tentar a vida no Recife eeducar os nove filhos, Epaminondas vendeu um hotel, uma loja de teci-dos, uma farmácia, uma mercearia e uma fazenda ao cônego Lira. O padredeu-lhe um documento provisório e, como entrada, uma sapataria no Re-cife. Como ele era amigo e compadre do religioso, confiou sem pestanejar.Em agosto daquele ano, o padre foi assassinado. “Meu pai foi ao lar sacer-dotal falar com os padres e lá disseram-lhe que o documento não valianada e ele acabou perdendo tudo”, conta Diva. Com o nascimento da caçula, Diva, em 1939, Epaminondas contavaentão com nove filhos para cuidar e uma situação desesperadora. “Coma coragem da minha mãe, eles alugaram uma casa no Recife e montaramuma pensão, no início dos anos 40”, relembra a filha mais nova. Vivia-se otempo da 2ª Guerra Mundial e Epaminondas acabou sendo beneficiadopelo clima de beligerância criado contra os estrangeiros. Em 1942, depoisque os navios brasileiros sofreram diversos ataques dos alemães, a po-pulação do Recife promoveu uma forte reação aos descendentes diretosde alemães, italianos ou japoneses, em um movimento conhecido comoQuebra-Quebra. Nessa época, foram destruídas casas famosas como asJoalherias Krause, Regulador da Marinha e Sorveteria Guemba. A PensãoBrasil, de Epaminondas e Sebastiana, nasceu logo após desse movimento.
  • 68 O prédio abrigava o Clube Alemão, cujo imóvel ficou desvalorizado e pôde ser comprado por uma pechincha. Depois que a mulher adoeceu, Epaminondas voltou em 1946 para Fazenda Nova, retomando os negócios e a política local. Montou uma loja e uma farmácia, negociava com algodão e mais tarde voltou a montar um hotel na localidade. “Na cidade, todo mundo comprava tudo a ele”, relem- bra Diva. Os filhos mais novos, Paulo e Diva, esta então com sete anos de idade, também voltaram com eles. Os irmãos Nair, Berenice e Luiz Men- donça ficaram no Recife, na casa da irmã Geni, indo sempre nas férias para Fazenda Nova. Logo depois, as irmãs Berenice e Nair desistiram de estudar e voltaram para o interior e Luiz Mendonça foi o único irmão que se dedi- cou aos estudos. O velho Epaminondas Mendonça, com sua força política, foi quem indicou o filho Luiz Mendonça para um posto na coletoria do interior, no Recife. Sem saber, o patriarca estava lançando as bases para aproximar o pessoal de teatro do Recife para a sua futura encenação. Nesse emprego, Luiz Mendonça viria a conhecer Victor Moreira, um jovem que já se dedi- cava ao Teatro de Adolescente de Pernambuco e mais tarde teria uma im- portância fundamental para o espetáculo. “Seu Mendonça era muito forte. O pai de Lourinho, como ele era chamado, encaixou ele lá com sua força política. Isso era comum na época. Eu mesmo fui indicado por um tio que trabalhava no Iapas (o Instituto e Administração da Previdência e Assistên- cia Social, que deu origem ao INSS)”, revela Victor Moreira. Com os contatos políticos que travou no Recife pouco antes, em 1947, Epaminondas conseguiu trazer água para Fazenda Nova, com a aju- da do governador Barbosa Lima Sobrinho. Na inauguração do sistema de abastecimento, o próprio governador Barbosa Lima visitou a cidade. Alia- do desde sempre do Partido Social Democrático (PSD), Epaminondas fez campanha política em 1950 na cidade em favor de Agamenon Magalhães, contra o candidato da União Democrática Nacional (UDN), João Cleofas, então em sua primeira queda (ele se candidataria outras duas vezes, sendo sempre derrotado, o que lhe rendeu o apelido de João Três Quedas). Seu prestígio político só seria abalado em 1958, quando fez campanha para o então candidato Jarbas Maranhão, do PSD, contra Cid Sampaio, sofrendo os revezes dos adversários udenistas. “Depois de ter exercido a liderança política local durante 13 anos e após 30 anos de vida política, meu pai fi- cou sem prestígio no governo. Os nossos adversários pintaram horrores. Marly, mulher de Paulo, professora, teve que ser transferida para Sairé. To- dos os funcionários amigos nossos foram transferidos”, lembra Diva. As origens do espetáculo religioso nas ruas da cidade, entretanto, antecedem a essas escaramuças políticas. A rigor, não fosse a atividade política do patriarca, é bem possível que a família pudesse desabrochar bem mais cedo os seus pendores artísticos. Diva conta que aos sete anos
  • 69havia visto um circo pela primeira vez, em 1946, e se encantado, tendoaté montado um circo improvisado com o irmão Paulo. Num desses circosmambembes, arrependeu-se de ter aprendido com um palhaço a músicaa Flauta de seu Riobaldo, que sugeria sexo oral. “Mamãe me deu cada cas-cudo que eu só faltei ficar doida”, relembra, em seu livro de memórias. Ospais proibiam visitas ao circo, dizendo que lá só havia gente safada e aqui-lo era lugar de gentinha. “Eles eram chefes políticos e não podiam sentarnum circo mambembe, para não se misturar. Isso só se fazia em tempo deeleição”, recorda. Já casada e livre do jugo paterno, Diva reclamaria das oportunida-des de diversão perdidas. “Eles não sabem o que perderam. Tudo mistura-do é melhor. Ninguém bebe puro, sempre se mistura com alguma coisa.Cachaça, geralmente, se mistura com caju ou umbu. As coisas que nãotêm mistura geralmente não prestam. No fim, todos morrem e vão parao mesmo lugar. Só porque eu era filha de um chefe político, nunca reali-zei muitos sonhos, como ir mais vezes ao circo”, lamentou. O irmão LuizMendonça foi quem influenciou todos na família para a carreira artística,como Diva Pacheco. “O gosto pelo teatro, o cinema, clubes, conheci com omeu irmão Lourinho”, conta ela em seu livro de memórias. “Ele não foi umirmão, mas um pai querido que eu desejei ter. O grande amigo que umamoça precisa dos 12 aos 17 anos”, conta. Em casa, realmente o patriarca Epaminondas Mendonça era bas-tante conservador, conforme determinavam os rígidos padrões morais daépoca. A sua casa mais parecia um internato. Se não era, chegava perto,com hora para tudo. Seis horas, acordava-se. Sete horas, café. Doze horas,almoço. Quinze horas, lanche. Dezoito horas, jantar. Vinte horas, dormir.Vinte e uma horas, apagavam-se todas as luzes. Os filhos, especialmente as meninas, conheciam de cor a lista dascoisas proibidas: ler folhetos, ouvir o homem da cobra, cantador de viola,circo, apanhar tanajura, comer fubá e fruta de palma, andar de bicicletae a cavalo, praia, calça comprida, vestido sem manga e decotado, cabelocurto, namorar, contar anedotas, dizer palavrão, vaquejada, novela, e atépraia ou clube. Com esse ambiente familiar, Diva só tomou o seu primeirobanho de mar no final de 1953, aos 14 anos. No Natal daquele ano, elaconheceu a família do figurinista Victor Moreira, no Recife, onde foi passarférias, selando uma amizade rica para ambos. Amigo intimo da família,em 1954, o figurinista Victor Moreira se incorporaria ao grupo de FazendaNova, para fazer o guarda roupa, uma ponta como centurião e nunca maisse afastar do espetáculo. Enquanto Epaminondas Mendonça desempenhava o papel de che-fe político local, a mãe de Diva, Sebastiana, que também era animadoradas festas locais, desde 1947 já montava pequenas peças de teatro com oobjetivo de angariar fundos para comprar instrumentos para a banda mu-
  • 70 sical da cidade. A sede musical e do teatro acabou sendo inaugurada dois anos mais tarde, em 1949. Em 1951, meio por acaso, todos os horizontes se alargaram. O chefe político local de Brejo da Madre de Deus, lendo uma revista de variedades da época chamada Fon Fon, tomou conhecimento de uma pequena cida- de da Baviera alemã que promovia a realização de espetáculos da Paixão de Cristo, numa tradição secular. No caso, o texto explicava que os habitan- tes do lugar agradeciam a Deus a graça de o povoado ter se livrado da pes- te negra que assolou a Europa no século XVIII. Estava fundado O Drama do Calvário de Fazenda Nova. Em abril daquele mesmo ano, a famosa revista semanal O Cruzeiro já abria espaço para registrar oficialmente o primeiro evento, na edição de 26 de abril de 1951. “A tragédia do Gólgota, vivida em extensão e profundidade, não poderia oferecer, em outras circunstâncias, melhor efeito ou realismo teatral. Nem a verdade artística maior autentici- dade”, anunciava, com a pompa dos textos da época. Se na cidade alemã de Oberammergau os espetáculos sempre tive- ram um cunho religioso, de dez em dez anos, no Agreste de Pernambuco, o comerciante e dono do Hotel Familiar Epaminondas Mendonça, um cató- lico fervoroso, julgava que não faria mal algum acrescentar ao testemunho de fé uma boa dose de oxigênio na economia local com a chegada de visi- tantes e turistas, todos os anos. Logo toda a família se envolveria com os espetáculos. A mãe Se- bastiana faria a produção. O patriarca faria o papel de Caifás, o sumo sa- cerdote, na cena do julgamento de Jesus, que era interpretado pelo filho Luiz Mendonça. Um sumo sacerdote que no ano 33 da Era Cristã aparecia de óculos de leitura, já que Epaminondas não conseguia decorar o texto. A primeira Maria, mãe de Jesus, de 1951 a 1954, foi interpretada por Nair Mendonça. O papel de Madalena coube a Marly Mendonça, esposa de Paulo. Pilatos era interpretado por Paulo Mendonça. Com apenas 11 anos de idade na época, a caçula Diva ganhou dois papéis, encarnando duas figuras antagônicas. A figuração de donzela era dividida com o papel de demônio do Horto, tendo feito depois outros papeis como Verônica e Maria, além de uma bailarina, não sem enfrentar a forte reação conservadora da localidade. A reação popular condenava, como blasfêmia, que uma mocinha, em plena Quinta-feira Santa, fizesse o papel do diabo. Nessa época, em Fazenda Nova ou em qualquer lugar que cultuasse a religião católica, o comércio não abria nem para vender uma vela. “Quem morresse, só se enterrava no sábado de Aleluia”, recorda Diva. Epaminondas Mendonça envolveu-se de corpo e alma no drama, a ponto de aceitar desempenhar um papel para o qual não havia ensaiado. Na quarta edição do drama, para substituir às pressas um ator que bebia muito e não reunia condições para fazer Herodes, Epaminondas aceitou o desafio sem ter estudado o texto. A sorte é que a cena se desenrolava na
  • 71 varanda do hotel, improvisada como palco, e o ator Clênio Wanderley, acocorado, leria as falas para ele, de pé. “Mesmo repetindo tudo, ele engolia metade do texto. O ponto falava mais alto do que o per- sonagem, justamente na hora em que Jesus chegava para ser julgado”, lembra o ator Car- los Reis, atual diretor do espe- táculo. “Nunca vi merda igual” reclamou Clênio, tempos mais tarde, segundo relatou Reis. Se jogou o pai nessa fogueira, Luiz Mendonça foi o responsável por todo o suces- so daqueles primeiros anos de vida do espetáculo nas ruas,Encenação nas ruas: pois cuidava da produção, muito amadorismo e muita paixão atuava e ainda foi o autor da pelo teatro primeira peça escrita para o Drama do Calvário, em par- ceria com o amigo radialista e coletor de impostos Ozires Caldas. Já no terceiro ano dos espetáculos de rua, em 1953, Luiz Mendonça tratou de providenciar a vinda, pela pri- meira vez, de vários atores do Recife, como Clênio Wanderlei (Judas e, mais tarde, diretor), Otávio Catanho, o Tibi, além do ator Carlos Reis. Naquela época, Luiz Mendonça era funcionário da Secretaria da Fazenda e suas amizades no movimento cultural da capital foram definitivas para o futuro do espetáculo. Com a humil- dade que lhe era peculiar, des- pido do papel de Cristo, nas semanas que antecediam ao
  • 72 Drama, para promover o evento, ia ele mesmo pedir notas e levar convites para os jornalistas nas redações.
  • 73 Capítulo VI A boa novaJornalismo foi ponte para Fazenda Nova A PAIXÃO DE PLÍNIO