Uma Nova éTica PlanetáRia,Boff - Presentation Transcript
Uma nova ética planetária
Por Leonardo Boff*
Ou formamos uma aliança global para proteger a Terra e cuidarmos uns dos outros ou
enfrentaremos nossa destruição e a devastação da diversidade da vida, escreve o
teólogo Leonardo Boff neste artigo exclusivo para o Terramérica.
RIO DE JANEIRO, 4 de setembro de 2006.- A expressão “desenvolvimento sustentável”, criada
em 1972 pelo Informe Brundtland das Nações Unidas, foi assumida pelos organismos
internacionais e pelas políticas governamentais em todo o mundo. Entretanto, desde o início a
expressão foi alvo de críticas devido à contradição entre seus dois termos. A categoria
desenvolvimento provém da economia realmente existente (a capitalista), organizada pelos
mercados, que hoje em dia estão articulados em nível mundial. A lógica interna desta
economia é a exploração sistemática e ilimitada de todos os recursos terrestres para atingir
três objetivos fundamentais: aumentar a produção, expandir o consumo e gerar riqueza.
Esta lógica implica um lento, porém progressivo esgotamento dos recursos naturais, a
devastação dos ecossistemas e uma considerável extinção das espécies, na ordem de três mil
ao ano, dez vezes mais do que em um processo evolutivo. normal Em termos sociais, cria
desigualdades crescentes, já que substitui a cooperação e a solidariedade por uma feroz
competição. Mais da metade da humanidade vive na pobreza. Este modelo supõe a crença em
dois infinitos. O primeiro presume que a Terra possui recursos ilimitados. O segundo, que o
crescimento econômico pode ser infinito. Ambos são ilusórios.
A Terra não é infinita porque é um planeta pequeno, com recursos limitados, muitos deles não
renováveis. Se quisermos universalizar este tipo de crescimento, necessitaremos do triplo dos
recursos que nosso planeta tem. Hoje, nos damos conta de que o planeta Terra já não suporta
a voracidade e a violência deste modo de produção e de consumo. Apesar das críticas, o
conceito desenvolvimento sustentável pode ser útil para qualificar um tipo de desenvolvimento
em regiões delimitadas e em ecossistemas definidos. Postula a possibilidade de preservar o
capital natural, priorizar o uso racional dos recursos e manter a capacidade de regeneração de
todo o sistema.
É possível, por exemplo, uma utilização das riquezas naturais da floresta amazônica de
maneira que conserve sua integridade e permaneça aberta às demandas das gerações
presentes e futuras. Porém, em termos de estratégias globais – que englobam todo o planeta
com seus ecossistemas – o imperante paradigma utilitário, devastador e consumista, produz
uma taxa de iniqüidade ecológica e social insuportável para a Terra. A solução deve ser
encontrada em um novo modelo de convivência entre natureza, Terra e Humanidade, que dê
centralidade à vida, mantenha sua diversidade natural e cultural e garanta o substrato físico-
químico-ecológico para sua perpetuação e posterior co-evolução.
E aqui é onde se cruza com a questão da ética. Hoje, como nunca antes na história do
pensamento, a palavra “ethos” adquire atualidade em sua acepção original. Ethos em grego
significa morada humana, o espaço da natureza que reservamos, organizamos e cuidamos
para transformar em nosso hábitat. Atualmente, ethos não é apenas a morada que habitamos,
a cidade onde vivemos ou o país ao qual pertencemos. Ethos é a Casa Comum, o planeta
Terra. Conseqüentemente, necessitamos de um Ethos planetário.
O fundamento desta nova ética está exposto em dois documentos. O primeiro – a Carta da
Terra – é internacional e foi assumido pela Unesco em 2000. O segundo foi aprovado em 2002
pelos ministros do Meio Ambiente latino-americanos e se intitula “Manifesto pela Vida, por uma
Ética para a Sustentabilidade”. Ambos têm muito em comum com os Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas.
Utilizarei livremente as proposições destes textos com uma elaboração pessoal. O pano de
fundo está bem expresso na introdução da Carta: “As bases da segurança global estão
ameaçadas”. Esta situação nos obriga a “viver um sentido de responsabilidade universal,
identificando-nos com toda a comunidade da vida terrestre bem como com nossas
comunidades locais”. A situação é tão urgente que obriga a “humanidade a escolher seu futuro.
A opção é a de formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou enfrentar
nossa destruição e a devastação da diversidade da vida”.
A Terra, a vida e a humanidade são expressões de um mesmo e imenso processo evolutivo,
que começou há 13 bilhões de anos, e formam uma única realidade complexa e diversa. A
Terra é Gaia, um superorganismo vivo. O ser humano (cuja origem filológica vem de “húmus”,
que equivale a terra fértil e boa) é a própria Terra que sente, que pensa, que ama, que cuida,
que venera. A missão do ser humano, como portador de consciência, inteligência, vontade e
amor, é cuidar da Terra, ser o jardineiro deste esplêndido Jardim do Éden. Mais do que falar de
desenvolvimento sustentável, importa assegurar a sustentabilidade da Terra, da vida, da
sociedade e da humanidade.
Bem diz o Manifesto pela Vida: “A ética da sustentabilidade coloca a vida acima do interesse
econômico-politico ou prático-instrumental; a ética da sustentabilidade é uma ética para a
renovação permanente da vida, da qual tudo nasce, cresce, adoece, morre e renasce”. O
resultado desta ética é o que mais buscamos nestes tempos: a paz. Na definição da Carta, a
paz “é a plenitude criada mediante relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas,
com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o todo maior do qual somos parte”.
* Leonadro Boff é teólogo, escritor e membro da Comissão Internacional da Carta da
Terra.
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