EvoluçãO Do Aleitamento Materno Em Uma Capital Da RegiãO Centro Oeste Do Brasil Entre 1999 E 2004
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EvoluçãO Do Aleitamento Materno Em Uma Capital Da RegiãO Centro Oeste Do Brasil Entre 1999 E 2004 EvoluçãO Do Aleitamento Materno Em Uma Capital Da RegiãO Centro Oeste Do Brasil Entre 1999 E 2004 Document Transcript

  • ARTIGO ARTICLE 1539 Evolução do aleitamento materno em uma capital da Região Centro-Oeste do Brasil entre 1999 e 2004 Breastfeeding trends in a State capital in the Central West region of Brazil, 1999-2004 Solanyara Maria da Silva 1 Gisela Soares Brunken 2 Giovanny Vinícius Araújo de França 2 Maria Mercedes Escuder 3 Sonia Isoyama Venancio 3 Abstract Introdução 1 Coordenadoria de A cross-sectional study was held on the first day O aleitamento materno é um modo insubstituí- Vigilância Epidemiológica, Secretaria Estadual de of the National Vaccination Campaign in 2004, vel de fornecer o alimento ideal para o cresci- Saúde de Mato Grosso, in Cuiabá, Mato Grosso State, Brazil, with the mento e desenvolvimento de lactentes, tendo Cuiabá, Brasil. 2 Instituto de Saúde Coletiva, objective of identifying breastfeeding evolution influência biológica, emocional e cognitiva so- Universidade Federal do from 1999 to 2004 during the first year of life. A bre a saúde dos mesmos 1. Com a introdução Mato Grosso, Cuiabá, Brasil. two-stage sampling procedure was used, con- de modernas tecnologias e adoção de diferen- 3 Instituto de Saúde, sidering the numbers of vaccination units and tes estilos de vida houve, em muitas sociedades, Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, children in each unit. A nutritional survey with uma redução notável na importância atribuída à São Paulo, Brasil. a 24-hour food recall questionnaire was ap- amamentação 2. plied to 921 parents or accompanying persons A introdução precoce de outros líquidos, além Correspondência G. S. Brunken of children less than one year of age. There was do leite materno, não é só desnecessária como Instituto de Saude Coletiva, an increase in exclusive breastfeeding in all age também prejudicial, mesmo em locais quentes Universidade Federal de Mato Grosso. brackets. At the end of six months, there were e secos 3,4. O consumo de outros alimentos pode Av. Fernando Correa da Costa low percentages of infants in exclusive breast- levar à diminuição da freqüência e intensidade da s/n, CCBS III, térreo, feeding (< 5% in 1999 and < 10% in 2004). The sucção, reduzindo a produção do leite materno 4. Cuiabá, MT 78060-900, Brasil. prevalence of exclusive breastfeeding doubled Há também o risco de infecções pela contamina- brunken@terra.com.br in five years in infants less than four months of ção de mamadeiras ou dos próprios alimentos 5. age, from 17.7% to 28.5%. The measures taken to Estudos demonstram que ocorre um aumento promote breastfeeding were effective, although acentuado na freqüência de diarréia quando o insufficient in light of the serious situation. aleitamento materno não é exclusivo 6,7. More such measures are needed to improve the A recomendação mundial preconiza a ama- existing programs. mentação exclusiva por seis meses e a manuten- ção do aleitamento materno complementado Breast Feeding; Weaning; Nutritional Assess- até, no mínimo, os dois anos de idade 8. Muito ment embora tenham sido observados no Brasil avan- ços na prática da amamentação, sua manuten- ção exclusiva ainda está longe do esperado. Há evidências de melhoria na prática da ama- mentação exclusiva e da amamentação como um todo, desde a década de 70, evidenciado nos es- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • 1540 Silva SM et al. tudos realizados no Brasil 9,10, especialmente nos do número de crianças cadastradas. No segundo estratos sócio-econômicos mais elevados. estágio foram sorteadas as crianças em cada uni- Estudo nacional conduzido nas capitais bra- dade, de forma sistemática, obedecendo à fração sileiras em 1999 mostrou que 53,1% das crian- de sorteio anteriormente calculada. ças recebem apenas leite materno no primeiro O instrumento utilizado foi elaborado pelo mês de vida, decaindo o percentual conforme Instituto de Saúde, mediante recomendações da aumenta a idade. Comparando-se as capitais e o Organização Mundial da Saúde para inquéritos Distrito Federal, a melhor situação na modalida- sobre amamentação 13. Trata-se de questionário de de aleitamento exclusivo para os menores de semi-estruturado, organizado em blocos referen- quatro meses, encontra-se em Fortaleza, Estado tes ao aleitamento materno e alimentação infan- do Ceará (57,1%), enquanto Cuiabá, Estado do til nas últimas 24 horas, características das crian- Mato Grosso, apresenta a menor taxa (17,7%). A ças e das mães. Para caracterização do padrão de mediana do aleitamento materno exclusivo e de aleitamento materno adotou-se o seguinte 13: aleitamento materno no Brasil eram, respecti- • Aleitamento materno exclusivo: a criança re- vamente, de 23,4 dias e 295,9 dias 11. No caso de cebe apenas leite materno, de sua mãe ou ama- Cuiabá, verificou-se um desempenho bom em re- de-leite, ou leite ordenhado, e não recebe outros lação ao aleitamento materno (mediana de 357,1 líquidos ou sólidos com exceção de suplementos dias) quando comparado a outras capitais, mas minerais, vitaminas ou medicamentos; a mediana de aleitamento materno exclusivo foi • Aleitamento materno predominante: a fon- a pior entre todas (5,1 dias), sendo classificada a te predominante de nutrição da criança é o leite primeira capital em desmame precoce 11. Diante materno, porém também pode receber água e dessa situação alarmante, algumas ações foram bebidas a base de água (água açucarada ou com desenvolvidas para reverter o quadro, e faz-se sabores, infusões, chás etc.), suco de frutas, so- necessária uma nova investigação para conhecer luções de reidratação oral (SRO), vitaminas, mi- a evolução da amamentação entre 1999 e 2004, nerais e medicamentos em gotas e xaropes, e lí- avaliando as ações existentes, e possibilitando quidos cerimoniais (em quantidades limitadas); traçar novas estratégias para incentivo ao aleita- • Aleitamento materno: a criança recebe leite mento materno exclusivo. materno (diretamente do peito ou ordenhado) independente da ingestão de alimentos sólidos, semi-sólidos e líquidos, incluindo leite artificial. Material e métodos Realizou-se reunião de sensibilização com os gerentes das unidades selecionados para o es- Realizou-se inquérito sobre práticas alimenta- tudo, abordando-se a importância da pesquisa res por ocasião do primeiro dia da Campanha para verificar a evolução do perfil de amamenta- Nacional de Vacinação de 2004 (5 de junho) em ção no município. Os questionários foram apli- Cuiabá, por meio de uma parceria entre o Insti- cados por estudantes de Nutrição, Enfermagem tuto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de e Medicina, que receberam treinamento sobre São Paulo (Projeto Amamentação e Municípios) e o objetivo e metodologia da pesquisa, amostra- a Universidade Federal de Mato Grosso. gem, organização da coleta de dados, aplicação A projeção de menores de um ano para o ano do instrumento de coleta, bem como Manual do de 2004 foi de 8.129 crianças, com base no mé- Entrevistador, a fim de padronizar condutas de todo de progressão aritmética 12, calculado com campo. base nos censos demográficos de 1991 e 2000. As mães ou acompanhantes das crianças Planejou-se uma amostra de 1.040 crianças, sufi- potencialmente participantes da amostra foram ciente para estimar a prevalência de aleitamento abordadas na fila de vacinação e, uma vez infor- materno para as diferentes faixas etárias com um madas sobre o objetivo da pesquisa e aceitando nível de significância de 95%. Adotou-se o proce- participar, iniciava-se a entrevista. dimento de amostragem por conglomerado, com Foram calculadas as freqüências, intervalos sorteio em dois estágios, com probabilidade pro- de confiança e variação na prevalência do aleita- porcional ao tamanho dos conglomerados, devi- mento materno, aleitamento materno exclusivo do ao fato de que as crianças não se distribuem e aleitamento materno predominante por faixa uniformemente nas unidades de vacinação. As- etária intervalar de trinta dias entre os anos de sim, todas as crianças que foram aos postos de 1999 e 2004, utilizando-se o programa Csample vacinação na campanha tiveram igual probabi- do Epi Info 6.04 (Centers for Disease Control and lidade de pertencer à amostra sorteada. No pri- Prevention, Atlanta, Estados Unidos). Com esse meiro estágio foram sorteadas 29 Unidades de mesmo programa, foi possível analisar o efeito Vacinação das 60 selecionadas para campanha, do desenho amostral, o deff sobre as estimativas mas uma delas foi sorteada duas vezes, por conta obtidas. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • EVOLUÇÃO DO ALEITAMENTO MATERNO 1541 Para avaliar a evolução do aleitamento mater- Tabela 1 no em suas três modalidades, foi utilizado o delta Características das crianças e das mães em pesquisa de aleitamento materno. da prevalência do aleitamento (∆%), calculado Cuiabá, Mato Grosso, Brasil, 2004. pela diferença dos anos, dividindo-se pelo valor de 1999. Foi considerada variação significativa quando não houve sobreposição dos intervalos Características n % de confiança. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Éti- Infantis ca em Pesquisa do Hospital Universitário Julio Sexo Müller. Os gerentes das Unidades Básicas de Masculino 478 51,9 Saúde envolvidos no estudo assinaram termo de Feminino 443 48,1 consentimento livre e esclarecido. Os acompa- Idade (dias) nhantes das crianças potencialmente da amostra 0├30 61 6,6 eram informados sobre os objetivos da pesquisa 30├60 71 7,7 e solicitado consentimento verbal para aplicação 60├90 77 8,4 do inquérito. 90├120 86 9,3 120├150 70 7,6 150├180 76 8,3 Resultados 180├270 215 23,3 270├365 265 28,8 No dia “D” da campanha de vacinação (5 de junho Peso ao nascer (g) de 2004), compareceram 7.300 crianças, configu- < 2.500 55 6,0 rando-se uma alta cobertura (89,8%). Desse total, 2.500├3.000 205 22,3 921 compõem a amostra do estudo. ≥ 3.000 644 69,9 A Tabela 1 apresenta as características da Em branco 17 1,8 amostra, sejam elas relacionadas à mãe ou à Local de nascimento criança. As crianças da amostra distribuíram-se Cuiabá 863 93,7 uniformemente em relação ao sexo e idade em Outros municípios 58 6,3 meses. Uma pequena parte nasceu com baixo Tipo de parto peso (6%) e a maioria (57,4%) nasceu de parto Vaginal 386 41,6 cesáreo. Poucas crianças (6,3%) vacinadas em Cesárea 529 57,4 Cuiabá haviam nascido em outros municípios. Não sabe/Em branco 9 1,0 Em relação às características maternas, quase Maternas todas as acompanhantes das crianças (83,9%) Acompanhante da criança eram as próprias mães. Uma parcela (16,4%) Sim 773 83,9 era adolescente (< 20 anos) e a quinta parte não Idade (anos) havia completado a 4a série do 1o grau (24,6%) < 20 127 16,4 e 1,7% relatou não ter instrução. No outro ex- 20├35 588 76,1 tremo do nível de instrução, quase a metade ≥ 30 58 7,5 (46,4%) havia completado o 2o grau ou tinha o Escolaridade 3o grau, completo ou não. Cerca de metade das Sem instrução 13 1,7 mães informou que a criança era o seu primeiro 1o grau incompleto 190 24,6 filho. 1o grau completo 68 8,8 As Tabelas 2, 3 e 4 apresentam a evolução das 2o grau incompleto 111 14,4 modalidades de aleitamento materno por fai- 2o grau completo 255 33,0 xa etária, no período entre 1999 e 2004. Houve 3o grau 103 13,4 incremento consistente na freqüência de alei- Em branco 33 4,3 tamento materno nas faixas etárias de menores Trabalha fora de casa de um mês (8,7%) e de maiores de nove meses Sim 193 25,1 (21,1%). Ainda que tenha havido um pequeno Primípara incremento apenas nessas faixas etárias, perce- Sim 341 44,1 be-se que, ao final do primeiro ano de vida, 40% das crianças já não recebiam leite materno. Entre as crianças menores de 180 dias, pa- rece haver uma tendência, em todas as idades, de ligeiro decréscimo da prática de aleitamento materno predominante em relação à pesquisa de 1999. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • 1542 Silva SM et al. Tabela 2 Prevalências e intervalos de confiança (IC95%) do aleitamento materno, segundo faixa etária das crianças menores de um ano. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Idade (dias) 1999 (a) * 2004 (b) ∆ (%) ** % IC95% % IC95% 0-30 90,5 88,4-92,3 98,4 95,1-101,7 +8,7 31-60 88,6 86,4-90,5 91,0 85,3-96,5 +2,7 61-90 86,4 84,1-88,3 89,5 83,4-95,6 +3,6 91-120 83,9 81,6-85,8 90,5 84,3-96,7 +7,9 121-150 80,8 78,6-82,8 77,5 65,7-89,2 -4,1 151-180 77,5 75,3-79,4 75,3 65,4-85,3 -2,8 181-270 65,0 62,7-67,3 64,7 59,0-70,3 -0,5 271-365 49,4 45,7-53,2 59,8 54,1-65,5 +21,1 Total de crianças 2.186 921 - * Fonte: Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais e no Distrito Federal 11; ** (b-a) x 100. a Tabela 3 Prevalências e intervalos de confiança (IC95%) do aleitamento materno predominante, segundo idades das crianças menores de 180 dias. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Idade (dias) 1999 (a) * 2004 (b) ∆ (%) ** % IC95% % IC95% 0-30 45,2 39,3-51,2 44,3 28,4-60,1 -2 31-60 39,1 34,9-43,5 32,5 22,4-42,5 -17 61-90 33,3 30,3-36,5 29,0 19,4-38,5 -12 91-120 28,0 25,3-31,0 29,8 18,7-40,8 +6 121-150 23,3 20,2-26,7 21,1 14,1-28,1 -9 151-180 19,1 15,6-23,2 12,5 4,7-20,3 -34 * Fonte: Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais e no Distrito Federal 11; ** (b-a) x 100. a O grande incremento ocorreu, efetivamente, Discussão em relação à modalidade de aleitamento mater- no exclusivo, ocorrendo incremento positivo em No tocante à validade interna, adotaram-se di- todas as faixas etárias, mesmo que somente nas versos procedimentos a fim de garantir a con- idades entre maiores de 60 e menores de 120 dias fiabilidade nos resultados apresentados. Houve essa diferença seja estatisticamente significante. treinamento de quatro horas dos entrevistadores Em ambos os estudos, chega-se ao final dos 180 e supervisores de campo, que receberam Manual dias com menos de 5% (em 1999) e de 10% (em de Entrevistador e Manual de Supervisor, promo- 2004) das crianças mamando exclusivamente no vendo uniformidade de abordagem no inquérito peito. aplicado às mães na fila de vacinação. Cada uni- A Tabela 5 compara as duas modalidades de dade de vacinação contou com um supervisor e aleitamento (aleitamento materno e aleitamen- os dois coordenadores do projeto estiveram em to materno exclusivo) em menores de 120 dias, 27 dos 29 postos de vacinação no dia “D”, e con- entre os dois períodos investigados. Percebe-se tavam com telefones móveis que permitiam re- uma nítida melhoria na evolução dessa prática. solver prontamente qualquer dúvida no trabalho Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • EVOLUÇÃO DO ALEITAMENTO MATERNO 1543 Tabela 4 Prevalências e intervalos de confiança (IC95%) do aleitamento materno exclusivo, segundo idades das crianças menores de 180 dias. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Idade (dias) 1999 (a) * 2004 (b) ∆ (%) ** % IC95% % IC95% 0-30 29,7 3,9-36,1 45,9 31,6-60,2 +54,5 31-60 20,7 17,4-24,5 24,7 15,4-34,0 +19,3 61-90 14,0 11,8-16,4 26,3 17,0-35,7 +87,9 91-120 9,1 7,3-11,3 21,4 13,2-29,6 +135,2 121-150 5,9 4,3-8,0 7,0 1,6-12,5 +18,6 151-180 3,7 2,4-5,6 6,9 1,8-12,1 +86,5 * Fonte: Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais e no Distrito Federal 11; ** (b-a) x 100. a Tabela 5 Prevalências do aleitamento materno, aleitamento materno exclusivo e intervalos de confiança (IC95%), em crianças menores de 120 dias. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. Modalidades do aleitamento 1999 (a) * 2004 (b) ∆ (%) ** % IC95% % IC95% Aleitamento materno 89,1 86,4-91,2 92,2 89,3-95,1 +3,5 Aleitamento materno exclusivo 17,7 15,0-20,9 28,5 22,9-34,0 +61,0 * Fonte: Pesquisa de Prevalência do Aleitamento Materno nas Capitais e no Distrito Federal 11; ** (b-a) x 100. a de campo. Essas estratégias contribuíram para A principal evolução, nesses cinco anos, foi garantir a padronização e qualidade dos dados um incremento maior que 50% do aleitamento coletados. materno exclusivo em menores de quatro me- A cobertura vacinal em Cuiabá, no primeiro ses, especialmente nos terceiro e quarto meses dia da primeira fase da Campanha de Vacinação de idade. No entanto, observa-se baixa freqüên- em 2004 foi relativamente alta (89,8%), sendo cia em crianças menores de um mês (< 50%) e próxima à encontrada no estudo das capitais e maiores de quatro meses (< 10%), permanecen- Distrito Federal de 1999. Conforme relatório do do muito aquém das recomendações estabele- Programa Nacional de Imunização, naquele ano cidas 8,13. Outro importante achado foi a manu- de 1999 a cobertura vacinal variou de 88,5% a tenção do aleitamento materno, embora não na 100% 11. O processo de seleção da amostra, utili- modalidade exclusiva, em torno de 90% em me- zando a técnica de conglomerados em duas eta- nores de 120 dias. pas, permite que cada criança presente no dia É possível que não tenha havido variação sig- de vacinação tenha igual chance de participar nificativa no aleitamento materno predominante da pesquisa. A avaliação do efeito do desenho porque houve, na verdade, melhoria no aleita- permitiu observar que a precisão dos resultados mento materno exclusivo e estabilidade no alei- apresentou-se semelhante àquela alcançada tamento materno de forma geral. O aleitamento com uma amostra do mesmo tamanho obtida materno predominante não é a meta de nenhum pelo processo causal simples. programa de incentivo ao aleitamento, mas refle- Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • 1544 Silva SM et al. te uma fase transitória de introdução de líquidos terno 17, mas o fato de existir Hospital Amigo da não nutritivos que culturalmente está presente Criança no município também está relaciona- no Brasil, particularmente em Cuiabá, que apre- do à proteção do aleitamento materno 9, pois as senta uma elevada temperatura e baixa umidade crianças que nascem em município sem Hospital relativa do ar. Amigo da Criança têm 2,2 vezes mais chance de As ações realizadas em Cuiabá, pelas três receber outro alimento precocemente. esferas do governo, nesses últimos cinco anos, Ações como o monitoramento periódico surtiram resultados positivos na prática da da Norma Brasileira de Comercialização de Ali- amamentação. Dentre tais ações, pode-se citar mentos para Lactentes 18 pela Superintendên- a inauguração de três bancos de leite nos prin- cia de Defesa do Consumidor de Mato Grosso cipais hospitais públicos da cidade, quando an- (PROCON-MT) e pela Vigilância Sanitária, além tes não havia nenhum. Houve, também, capa- da maior divulgação na mídia sobre os efeitos citações para todos os agentes comunitários de nocivos da introdução precoce de líquidos co- saúde e de profissionais tais como técnicos de mo água, suco e chá para crianças menores de enfermagem dos hospitais e pronto-socorro mu- seis meses em aleitamento materno exclusivo, nicipal, além de maior divulgação do aleitamen- ajudam no controle do uso indiscriminado dos to materno nos diversos meios de comunicação substitutos do leite materno. e realização de eventos a respeito do tema. So- Outra ação comprovadamente eficaz seria a bre esse último aspecto, deve-se ressaltar como adoção da Iniciativa Unidade Básica Amiga da principal momento o VIII Encontro Nacional de Amamentação. Tem como princípio que toda Aleitamento Materno em Cuiabá em 2003, com Unidade Básica de Saúde (como os postos de participação maciça dos profissionais de saúde, saúde, os centros de saúde, os postos de saúde gestores, estudantes, pesquisadores. da família etc.) que tenha pré-natal e pediatria Programas de capacitação da equipe de saú- pode tornar-se uma Unidade Básica Amiga da de têm demonstrado grande impacto nas prá- Amamentação. Para isso, deve cumprir os Dez ticas desses profissionais, levando a uma maior Passos para o Sucesso da Amamentação. Esses duração da amamentação nas comunidades passos definem intervenções a serem conduzi- atendidas 14,15. A importância da prática e conhe- das nas fases de pré-natal e acompanhamento cimento do aconselhamento em amamentação do binômio mãe-bebê e foram efetivas em esten- pelos profissionais de saúde constitui um pode- der a duração da amamentação 19. roso instrumento de intervenção para o aumento As ações realizadas foram efetivas, contudo, das taxas e duração do aleitamento materno 16. insuficientes para a grave situação em relação ao Infelizmente, percebe-se que há muito que se aleitamento materno exclusivo. Sugere-se, então, avançar nessas intervenções. A capital do Estado que sejam mantidas as ações em curso, e que se de Mato Grosso ainda não possui nenhum Hos- implementem novos projetos, como implanta- pital Amigo da Criança, embora tenham inicia- ção de hospitais e de unidades básicas de saúde tivas concretas nesse sentido nos três hospitais “amigas da criança”, treinamento prático de to- públicos que possuem bancos de leite. O único dos os profissionais de saúde que lidam com o Hospital Amigo da Criança no Estado, que era pré e pós-natal, implantação de grupos de apoio particular e distante da capital, foi fechado em ao aleitamento materno e vigilância da Lei nº. 2005 por problemas financeiros. O nascimento 11.265 18, que regulamenta a comercialização de em Hospital Amigo da Criança é reconhecida- alimentos para lactentes e crianças de primeira mente um fator de proteção ao aleitamento ma- infância. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • EVOLUÇÃO DO ALEITAMENTO MATERNO 1545 Resumo Colaboradores Um estudo de caráter transversal foi realizado durante S. M. Silva, G. S. Brunken e G. V. A. França participaram o primeiro dia da Campanha Nacional de Vacinação na realização do trabalho em campo, no processamen- de 2004, em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil, com o obje- to e análise dos dados e na redação do artigo. M. M. tivo de conhecer a evolução do aleitamento materno Escuder e S. I. Venancio colaboraram na organização da entre 1999 e 2004, no primeiro ano de vida. A deter- pesquisa e na revisão crítica do artigo. minação da amostra seguiu dois passos, consideran- do o número de unidades de vacinação e as crianças em cada unidade. Um inquérito nutricional contendo Agradecimentos um recordatório alimentar de 24 horas foi aplicado a 921 acompanhantes das crianças menores de um ano. Ao Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saú- Houve incremento positivo em todas as faixas etárias de de São Paulo, pela assessoria no delineamento do na modalidade de aleitamento materno exclusivo. estudo e acompanhamento. Às Secretaria Estadual de Observou-se, ao final dos 180 dias, baixo percentual Saúde de Mato Grosso e Secretaria Municipal de Saúde de crianças em aleitamento materno exclusivo, sendo de Cuiabá pelo consentimento para realização da pes- menos de 5% (em 1999) e de 10% (em 2004). A preva- quisa e financiamento. Aos acadêmicos das faculdades lência do aleitamento materno exclusivo dobrou em de Nutrição, Medicina e Enfermagem da Universidade cinco anos nas crianças menores de 120 dias, passou Federal de Mato Grosso, pelo auxílio na coleta de dados, de 17,7% para 28,5%. As ações realizadas para promo- bem como aos profissionais que participaram como ção do aleitamento materno foram efetivas, porém, supervisores de campo. Ao Conselho Nacional de De- insuficientes para a grave situação. Mais ações são ne- senvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelas cessárias, bem como o aperfeiçoamento dos programas bolsas de mestrado e iniciação científica concedidas. existentes. Aleitamento Materno; Desmame; Avaliação Nutricio- nal; Referências 1. Akrè J. Alimentação infantil: bases fisiológicas. Ge- 6. Giugliani ERJ. Aleitamento materno na prática clí- nebra: Organização Mundial da Saúde/Rede Inter- nica. J Pediatr (Rio de J) 2000; 76 Suppl:238-52. nacional em Defesa do Direito de Amamentar/Ins- 7. Vieira GO, Silva LR, Vieira TO. Alimentação infantil tituto de Saúde; 1994. e morbidade por diarréia. J Pediatr (Rio de J) 2003; 2. Rea MF. Substitutos do leite materno: passado e 79:449-54. presente. Rev Saúde Pública 1990; 24:241-9. 8. Monteiro CA, Zuñiga HPP Benicio MHd’A, Rea MF. , 3. Ashraf RN, Jalil F, Aperia A, Lindblad BS. Additional Estudo das condições de saúde das crianças do water is not needed for healthy breastfed babies in Município de São Paulo, SP (Brasil), 1984-1985. III. a hot climate. Acta Pediatr 1993; 82:7-11. Aleitamento materno. Rev Saúde Pública 1987; 21: 4. Sachdev HPS, Krishna J, Puri RK, Satyanarayana 13-22. L, Kumar S. Water supplementation in exclusively 9. Venancio SI, Monteiro CA. A evolução da prática breastfed infants during summer in the tropics. da amamentação nas décadas de 70 e 80. Rev Bras Lancet 1991; 337:929-33. Epidemiol 1998; 1:40-9. 5. Horta BL, Olinto MTA, Victora CG, Barros FC, Gui- 10. World Health Organization. Report of the expert marães PRV. Amamentação e padrões alimentares consultation on the optimal duration of exclusive em crianças de duas coortes de base populacio- breastfeeding. Geneva: World Health Organiza- nal no sul de Brasil: tendências e diferenciais. Cad tion; 2001. Saúde Pública 1996; 12 Suppl 1:43-8. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007
  • 1546 Silva SM et al. 11. Ministério da Saúde. Pesquisa de prevalência do 16. Bueno LGS, Teruya KM. Aconselhamento em ama- aleitamento materno nas capitais e no Distrito mentação e sua prática. J Pediatr (Rio de J) 2004; Federal. Brasília: Ministério da Saúde; 2001. 80 Supl 5:126-30. 12. Laurenti R, Gotlieb SL, Mello-Jorge MH, Lebrão 17. Lutter C, Perez-Escamilla R, Segall A, Sanghvi T, ML. Estatísticas de Saúde. São Paulo: E.P .U.; 1987. Teruya K, Wichham C. The effectiveness of a hos- 13. Organización Mundial de la Salud. Indicadores pital-based program to promote exclusive breast- para evaluar las prácticas de lactancia materna. feeding among low-income women in Brazil. Am J Geneva: Organización Mundial de la Salud; 1991. Public Health 1997; 87:659-63. 14. Neylor A, Wester R. Providing professional lacta- 18. Brasil. Lei nº. 11.265. Regulamenta a comercializa- tion management consultation. Clin Perinatol ção de alimentos para lactentes e crianças de pri- 1987; 14:33-50. meira infância. Diário Oficial da União 2006; 4 jan. 15. Valdés V, Pérez A, Labbok M, Pugin E, Zambranco 19. De Oliveira MIC, Camacho LAB. Impacto das uni- I, Catalan S. The impact of a hospital and clinic- dades básicas de saúde na duração do aleitamen- based breastfeeding promotion program in a mid- to materno exclusivo. Rev Bras Epidemiol 2002; dle class urban environment. J Trop Pediatr 1993; 5:41-51. 39:142-51. Recebido em 20/Dez/2005 Versão final reapresentada em 27/Dez/2006 Aprovado em 10/Jan/2007 Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(7):1539-1546, jul, 2007