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AmamentaçãO Natural Como Fonte De PrevençãO Em SaúDe
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  • 1. 103 TEMAS LIVRES FREE THEMES Amamentação natural como fonte de prevenção em saúde Breast-feeding as a source of prevention in healthcare Leonardo dos Santos Antunes 1 Lívia Azeredo Alves Antunes 2 Marcos Paulo Fonseca Corvino 1 Lucianne Cople Maia 2 Abstract The importance of breast-feeding has Resumo A importância da amamentação na- been addressed through multi-professional ap- tural tem sido abordada sob âmbito multiprofis- proaches. As healthcare practitioners, dentists are sional. O cirurgião dentista como profissional included in this context and − due to the close da área de saúde está incluído neste contexto e links between breast-feeding and the development deve ser capaz de orientar a gestante e as recém- of the stomatognathic system − should be able to mães visto a forte relação que existe entre ama- advise pregnant women and new mothers on this mentação natural e o desenvolvimento do siste- practice, with countless benefits for mothers and ma estomatognático. São inúmeros os benefícios their babies. This paper thus presents up-to-date gerados tanto para a mãe quanto para o bebê. and enlightened information through a review of Baseado nisso, o presente artigo propõe, por meio the literature that supports the benefits of breast- de uma revisão de literatura discutida, argumen- feeding, urging heightened awareness of its im- tar com informações atuais e esclarecedoras os portance and the preparation of policies and ac- benefícios da amamentação dando estímulo à tions implemented through Brazil’s National conscientização da sua importância e à formu- Health System (SUS) that rank breast-feeding as lação de políticas e ações, através do SUS, que a high-priority goal. priorizem a prática da amamentação como meta. Key words Breast-feeding, Public health, Oral Palavras-chave Aleitamento materno, Saúde health, Brazil’s National Health System (SUS) pública, Saúde bucal, SUS 1 Faculdade de Odontologia, UFF. Rua São Paulo 30, Centro. 24020-140 Niterói RJ. lsantunes@terra.com.br 2 Universidade Federal do Rio de Janeiro.
  • 2. 104 Antunes, L. S. et al. Introdução Revisão de literatura A importância da amamentação natural tem sido Benefícios para o bebê abordada, principalmente sob o ponto de vista nutricional, imunológico e psicossocial; portan- O ato de amamentação propicia o contato to, é um assunto de interesse multiprofissional físico entre mãe e bebê, estimulando pele e senti- envolvendo dentistas, médicos, fonoaudiólogos, dos. Se a amamentação é feita com amor e cari- enfermeiros, nutricionistas e psicólogos1. nho, sem pressa, o bebê não só sente o conforto A industrialização e a urbanização crescentes de ver suas necessidades satisfeitas, mas também implantaram novas rotinas e hábitos na alimen- sente o prazer de ser segurado pelos braços de sua tação, atingindo também mães e filhos. Em me- mãe, de ouvir sua voz, sentir seu cheiro, perceber ados do século XX, a indústria moderna intro- seus embalos e carícias. Logo, ao estabelecer esse duziu o leite em pó que, através de intensas cam- vínculo entre mãe e filho, há compensação do vazio panhas de incentivo, foi conquistando o merca- decorrente da separação repentina e bruta que do com sua facilidade e praticidade. Este fato, ocorre pós-parto, corrigindo fantasias prematu- associado a fatores sociais (aumento de núme- ras frustrantes que o parto possa lhe ter causado ros de mães trabalhando fora) e culturais (falta como abandono, agressão, ataque e fome3. de informação sobre os benefícios da amamen- Os aspectos psicológicos do aleitamento ma- tação, causas referidas como “a criança não quis terno estão relacionados ao desenvolvimento da mais”, “tenho pouco leite” ou crenças “leite é fra- personalidade do indivíduo. As crianças que co”2), além do medo em relação à estética do seio, mamam no peito tendem a ser mais tranqüilas e ocasionaram a falta de estímulo à prática da fáceis de socializar-se durante a infância. As ex- amamentação3. Hoje, esses fatores continuam periências vivenciadas na primeira infância são existindo exceto em relação à informação, que é extremamente importantes para determinar ca- bem divulgada por ser um assunto em voga. ráter do indivíduo quando adulto 3. O dentista, sendo um profissional da área de A sucção, deglutição e respiração, funções saúde, deve ser capaz de orientar a mulher ges- primárias do bebê, são desenvolvidas através de tante e as recém-mães no sentido de justificar a uma correta forma de amamentação, devendo necessidade do aleitamento do bebê ao seio, visto constituir um sistema equilibrado7. Mamar não que uma amamentação insuficiente tem forte supre apenas a necessidade de alimentação, sa- correlação com a presença de hábitos bucais no- tisfazendo duas “fomes”: a fome de se nutrir, de civos, constituindo-se num dos principais fato- se sentir alimentado, como também a “fome” de res etiológicos das maloclusões dentárias 4. sucção, que envolve componentes emocionais, O sucesso na promoção do aleitamento ma- psicológicos e orgânicos3. Essas duas “fomes” terno advém do engajamento das autoridades devem estar em equilíbrio, caso contrário, a ne- públicas. O SUS, por exemplo, num esforço ge- cessidade de sucção pode não ser alcançada, cau- rado para o controle da mortalidade infantil, tem sando uma insatisfação emocional, e assim a cri- registrado iniciativas em vários níveis de gestão5. ança buscará substitutos como dedo, chupeta, Outros órgãos como a Organização Mundial de ou objetos, adquirindo hábitos deletérios8, 9. Saúde (OMS) e o UNICEF - Fundo das Nações No ato de amamentar, a criança estimula um Unidas para a Infância, também estão na luta exercício físico contínuo que propicia o desen- para a promoção da amamentação6. Entretanto, volvimento da musculatura e ossatura bucal, ainda está longe de se alcançar a meta recomen- proporcionando o desenvolvimento facial har- dada pela OMS, fato esse que deve reforçar o mônico. Isso direciona o crescimento de estrutu- compromisso das unidades básicas de saúde na ras importantes, como seio maxilar para respi- promoção do aleitamento materno. ração e fonação, desenvolvimento do tônus mus- Desse modo, a presente revisão de literatura cular, crescimento ântero-posterior dos ramos objetiva argumentar, através de informações atu- mandibulares, anulando o retrognatismo man- ais e esclarecedoras, a importância da amamen- dibular 4. Além disso, ele impede alterações no tação para a mãe e o bebê, dando estímulo à sistema estomatognático, a saber: prognatismo formulação de políticas e ações que priorizem a mandibular, musculatura labial superior hipo- prática da amamentação através do seu estabe- tônica, musculatura labial inferior hipertônica, lecimento como meta. atresia de palato, interposição de língua e atresia
  • 3. 105 Ciência & Saúde Coletiva, 13(1):103-109, 2008 do arco superior1 e evita maloclusões, como dependente das causas que determinam o estado mordida aberta anterior, mordida cruzada pos- anêmico, associa-se ao mesmo graves prejuízos terior e aumento de sobressaliência10. para o desenvolvimento cognitivo e motor da A amamentação proporciona à criança uma criança e para o seu futuro aproveitamento es- respiração correta, mantendo uma boa relação colar16. Além disso, há interferência nos proces- entre as estruturas duras e moles do aparelho sos de crescimento e desenvolvimento da criança estomatognático e proporciona uma adequada com prejuízo de desenvolvimento mental, motor postura de língua e vedamento de lábios11. Além e de linguagem; alterações comportamentais e psi- disso, associada ao mecanismo de sucção, de- cológicas como falta de atenção, fadiga, insegu- senvolve os órgãos fonoarticulatórios e a articu- rança e diminuição da atividade física17. lação dos sons das palavras, reduzindo a presen- A icterícia precoce, por discreta imaturidade ça de maus hábitos orais e também de patologi- do fígado, pode ocorrer em neonatos, onde a as fonoaudiológicas1. alta concentração de leite e colostro ajuda elimi- O desenvolvimento da articulação temporo- nar o mecônio pelas primeiras fezes estimulando mandibular (ATM) durante o período em que o desaparecimento da cor11. os dentes ainda não erupcionaram também está As doenças atópicas como alergias podem ser relacionado à amamentação. Essa articulação fica desencadeadas pelo contato com o leite de vaca. prejudicada se houver um menor esforço mus- Logo, crianças que possuem esse risco hereditá- cular para extrair alimento, como na amamen- rio buscam através de dietas restritivas e outras tação artificial, causando uma anulação da exci- medidas preventivas, como o aleitamento natu- tação da ATM e da musculatura mastigatória do ral, fazer uma profilaxia da doença18. recém-nascido11. Os benefícios da amamentação natural não A mãe é considerada a principal fonte de mi- atingem a criança apenas quando bebê, podendo croorganismos importantes para o estabeleci- as vantagens se estender para sua saúde futura. mento da microbiota digestiva da flora do re- Crianças amamentadas por certo período de tem- cém-nascido tanto no parto quanto na amamen- po têm taxa de infecção por parasitas reduzidas, tação, através do colostro e do leite humano, que visão melhor aos 4 meses e aos 36 meses e três oferece condições nutricionais (fatores de cresci- vezes menos a presença de xeroftalmia15. Na fase mento) favoráveis para essa implantação12. A fase adulta, a presença de amamentação quando bebê de colonização é crítica, pois uma implantação está relacionada à diminuição de risco para doen- anormal pode acarretar uma microbiota menos ças cardiovasculares, redução ou adiamento do eficiente nas suas funções12. Esse fato pode estar surgimento de diabetes em indivíduos susceptí- correlacionado à formação de fezes menos con- veis19, risco reduzido de desenvolver câncer antes sistentes através do crescimento de microorga- dos 15 anos por ação imunomoduladora forne- nismos, como os lactobacilos, que ajudam na cida pelo leite15 e metade do risco de disfunção digestibilidade de lipídeos e fermentam açúcar neurológica15. do leite materno no intestino, fato que vem im- Um pequeno, porém detectável aumento na pedir a instalação de outras bactérias que atuari- habilidade cognitiva e desempenho escolar da am evitando diarréia e conseqüente desnutrição12, criança está associado ao aleitamento natural, 13 . As propriedades antiinfectivas do colostro e fato esse concluído em 70% de estudos sobre esse do leite materno manifestam-se através dos com- tema20, 21. Isto está associado à presença marcan- ponentes solúveis (IgA, IgM, IgG, IgD, IgE, lisozi- te de ácidos graxos de cadeia longa no leite ma- mas, lactobacilos e outras substâncias imunor- terno. Eles são essenciais ao desenvolvimento reguladoras) e componentes celulares (macró- cognitivo de crianças que nasceram prematuras, fagos, linfócitos, granulócitos, neutrófilos e célu- as quais apresentaram QI mais elevado que quan- las epiteliais)11, 14. As infecções comumente evita- do comparados àquelas que se alimentavam de das são: diarréia, pneumonia, bronquites, gripe, fórmulas15. paralisia infantil, infecções urinárias, otite15, in- fecção no trato intestinal12. Além disto, a ama- Benefícios para a mãe mentação no primeiro ano de vida pode ser a estratégia mais exeqüível de redução da mortali- Para a mulher, a amamentação tem papel dade pós-neonatal oriunda das infecções5. importante sob vários aspectos. Ao amamentar, O leite materno propicia à criança ferro em o instinto maternal é satisfeito e supre a separa- alta biodisponibilidade e proteção contra infec- ção abrupta ocorrida no momento do parto, que ções, condições essas protetoras da anemia16. In- pode causar até depressão22, amenizada pela for-
  • 4. 106 Antunes, L. S. et al. mação de um “cordão psíquico” duradouro até o cisão de amamentar ou não o seu bebê depende desmame progressivo3. da importância atribuída a esta prática que fre- A satisfação no instinto sexual da mãe tem qüentemente é fundamentada nas informações sido relacionada a esse ato devido a respostas da transmitidas culturalmente através do relacio- lactação serem semelhantes às do coito na esti- namento avó-mãe-filha2, 24. mulação da contratibilidade uterina e ao aumen- A substituição da amamentação e do leite to do interesse sexual pós-parto3. materno por produtos industrializados apresen- A redução de estresse e mau humor tem sido tou uma fase de declínio no início do século XX. relatada por mães após as mamadas. Este efeito é As estratégias de “marketing” para a implanta- mediado pelo hormônio ocitocina, que é liberado ção de fórmulas sempre se concentraram na con- na corrente sanguínea durante a amamentação veniência da mamadeira e do leite em pó, enfati- em altos níveis22. Além disso, a sensação de bem- zando o ponto de vista da mulher – liberdade estar referida pela lactante no final do tempo da para manter uma vida social ativa, participação mamada deve-se também à liberação endógena do marido na alimentação29. Logo, nos anos 70, de beta-endorfina no organismo materno23. auge do declínio da prática da amamentação, O início da liberação da ocitocina começa na houve piora das condições de saúde materna in- hora do parto para a promoção da contração fantil e, como conseqüência, campanhas foram uterina. Sua ação é continuada e potencializada organizadas e o aleitamento voltou a ser estimu- no ato da amamentação pela estimulação que a lado nas décadas subseqüentes, nas quais houve sucção causa sobre a hipófise. A descarga de hor- aumento lento, no entanto crescente30. mônio que ocorre reduz o tamanho do útero, Para proteger o aleitamento materno quanto libera a placenta, diminui o sangramento pós- às estratégias de marketing não éticas, a OMS, em parto, causa atraso da menstruação e conseqüen- 1981, recomendou aos países a adoção do “Códi- te prevenção à anemia24. go Internacional de Marketing dos Substitutos do No período em que não começa a menstrua- Leite Materno”. O cumprimento deste código, vis- ção, enquanto a mulher amamenta exclusivamen- to nos estudos de Rea e Toma29, objetivou evitar o te, a proteção quanto à gravidez fica em torno de estabelecimento da relação profissional-indústria 98% nos primeiros seis meses e depois cai para e conflitos de interesses pessoais (financiamento 96%. Nesse período, as mulheres estão aplican- direto aos profissionais, aceitação de presentes, do uma técnica de planejamento familiar extre- patrocínios e incentivos individuais) para a pres- mamente segura chamada LAM – Método de crição dos substitutos do leite materno. Amenorréia Lactacional25 – que assegura o espa- A partir da década de 80, a OMS e o Fundo çamento entre gestações desde que a amamenta- das Nações Unidas para a Infância – UNICEF ção seja exclusiva e em livre demanda24. direcionaram esforços para a instituição de uma Os benefícios relacionados à mulher após a política de incentivo à amamentação. Nesse con- amamentação são vários: a forma física retorna texto, insere-se a publicação do texto “Proteção, ao peso pré-gestacional, menor risco de desen- promoção e apoio ao aleitamento materno: o volver artrite reumatóide, risco reduzido de os- papel dos serviços de saúde”31, que apresenta os teoporose aos 65 anos e menor probabilidade de “Dez passos para o sucesso do aleitamento ma- desenvolver esclerose múltipla15. terno”, e, posteriormente, o lançamento da Inicia- Em relação aos diversos tipos de câncer, ama- tiva Hospital Amigo da Criança – IHAC. A IHAC mentar por no mínimo dois meses reduz o risco propõe rotinas hospitalares facilitadoras do alei- de câncer no epitélio ovariano em 25% 15, 26; de 3 tamento materno. Venâncio6 em estudo mostra meses a 24 meses é um dos principais fatores que tal instrumento, além de ser útil para a orien- protetores do câncer de mama que ocorre antes tação de condutas dos profissionais de saúde quan- da menopausa27, além de estabilizar o progresso to ao manejo do aleitamento materno, foi tam- da endometriose materna diminuindo o risco de bém capaz de fornecer um diagnóstico sobre a câncer endometrial e de ovário28. freqüência de diferentes tipos de problemas da amamentação no pós-parto imediato. Conhecimento das mães e relação Todavia, estudos comparativos de épocas amamentação/Sistema Único de Saúde – SUS mais recentes com a década de 80 relatam manu- tenção da prevalência da amamentação. No Bra- As crenças e os tabus fazem parte de uma sil, de forma geral, houve importante melhora herança sociocultural, determinando diferentes nos índices de aleitamento materno após este significados do aleitamento para a mulher. A de- período, chegando à estabilização em certos lo-
  • 5. 107 Ciência & Saúde Coletiva, 13(1):103-109, 2008 cais; no entanto, não houve uniformidade em nhadas cotidianamente; inadequação entre suas todo o território nacional32. Apesar da tendência necessidades e as da criança; interferências exter- ascendente da prática da amamentação no país, nas de familiares, amigos e demais interações; tra- ainda está longe do cumprimento da recomen- balho materno; solidão e isolamento da mulher- dação da OMS, de amamentação exclusiva até o mãe e a necessidade de obter apoio para a execu- sexto mês de vida e a continuidade do aleitamen- ção da amamentação24. As mães sentem-se cul- to materno até o segundo ano de vida ou mais32. padas por não amamentarem e não são prepara- O desmame precoce segue sendo um desafio para das para conhecer esse processo básico de vida. os profissionais que atuam com a saúde mater- Por isso, precisam de ajuda e principalmente in- no-infantil33. formação11. O apoio referido seria além da atua- Os benefícios que a amamentação delega ao ção do setor de saúde, aparelhos sociais de su- bebê são reconhecidos não importando raça, porte à maternidade e o núcleo familiar24. condição social ou econômica30. As diversas atri- As mulheres em seus discursos costumam buições do leite materno fazem com que os mes- relatar a banalização do seu sofrimento pela equi- mos considerem-no o mais natural e desejável pe de saúde, principalmente enfermeiras, que não método de alimentação infantil no que diz res- possibilita o apoio necessário à mulher e se con- peito aos aspectos fisiológicos, físicos e psicoló- figura num dos fatores do desmame24. Neste caso, gicos 1, 7, 9, 11, 34. Assim no Brasil, país no qual podemos enfatizar a necessidade do treinamen- observam enormes discrepâncias sociais, o alei- to do profissional de saúde que lida precocemente tamento materno surge como elemento impor- com a mãe através de treinamentos32. tante, não só sob esse ponto de vista, mas tam- Desse modo, o SUS como provedor de um bém do econômico30. processo social em construção permanente deve As mães verbalizam amplamente a impor- promover contínua discussão sobre como se tância da prática da amamentação, ainda que implementar políticas de saúde relacionadas à nem todas saibam expor os benefícios que o leite amamentação. materno traz para seus filhos33 e para si mesma. O profissional de saúde deve estar inserido no Segundo Pereira et al. 33, os aspectos sobre ama- SUS atuando em nível central ou distrital, em equi- mentação menos conhecidos por mães entrevis- pe interdisciplinares, no planejamento de políti- tadas em programas pré-natais foram: a impor- cas públicas saudáveis e no desenvolvimento de tância do colostro, o estímulo da sucção do seio ações de vigilância da saúde da comunidade que pelo bebê para a produção do leite materno, as venham promover a prática da amamentação36. situações em que a mãe não deve amamentar O cirurgião dentista entra nesse contexto de- (AIDS), a relação entre dieta materna e amamen- vendo estar capacitado a exercer uma prática que tação e os benefícios da lactação para a mãe, de- atenda ao SUS, sendo necessário uma readequa- notando falha no sistema de saúde quanto à uni- ção dos cursos de odontologia para formar pro- versalização das informações sobre aspectos de fissionais para atuarem neste sistema36. fundamental importância. A Carta de Ottawa já postulava que os profis- A questão do desmame precoce também traz sionais de saúde deveriam ter suas atribuições di- à tona a situação das mulheres trabalhadoras. recionadas à combinação de estratégias como for- As regras preconizadas pela OIT (Organização talecimento de ações comunitárias, estabelecimen- Internacional do Trabalho) garantem uma série to de políticas públicas saudáveis, desenvolvimen- de benefícios trabalhistas de proteção à mulher to de habilidades pessoais, criação de ambientes grávida e lactente, tais como garantia de empre- saudáveis e reorientação a serviços de saúde37. go, licença maternidade remunerada, creche e O conceito de promoção de saúde vem se pausas para amamentar. Além disso, Rea et al. 35, modificando nos últimos anos38, propondo a ao descrever o padrão do trabalho de mulheres articulação de saberes técnicos e populares, mo- da indústria de São Paulo, mencionam outros bilização de recursos institucionais e comunitá- aparelhos sociais de suporte fundamentais para rios, públicos e privados, na busca de qualidade que a manutenção da lactação seja facilitada, tais de vida da população36. Assim, os profissionais como: permitir a proximidade mãe-criança e/ou de saúde são responsáveis pela promoção de saú- a retirada periódica de leite materno durante a de da população; entretanto, é necessário que os jornada de trabalho. cidadãos assumam a responsabilidade pela de- Outras alegações são discutidas na literatura: fesa de sua própria saúde e da coletividade. falta de experiência materna; fardo ocasionado O SUS deve identificar os problemas dos di- pela amamentação frente às atividades desempe- ferentes grupos populacionais do território naci-
  • 6. 108 Antunes, L. S. et al. onal, visto a grande diversidade que há no Brasil, cológicas e neurológicas, não só para hoje como atuando em equipes multidisciplinares com par- também para seu desenvolvimento. O mesmo ticipação de líderes locais. ocorre com a lactante que, ao amamentar seu Dados obtidos nos estudos de Cecchetti e filho, produz benefícios futuros para ela e seu Moura30 apontam o efeito protetor do SUS quan- bebê. Além disso, esse ato é elemento importante to à presença da amamentação; dentre as crian- para o Brasil sob ponto de vista econômico. ças atendidas pelo SUS, 42,2% recebiam leite Amamentar representa um encaixe perfeito materno e apenas 34,4% do sistema privado entre mãe e filho, cumprindo uma função de cor- eram amamentados. dão umbilical externo. A mulher que amamenta Estes dados reforçam o compromisso das vê reconfortada sua capacidade de continuar ge- unidades básicas de saúde com a política nacio- rando vida através do alimento que brota do seu nal de apoio à amamentação, embora essa polí- corpo. tica de apoio ainda seja insuficiente. Através de informações sobre aleitamento e seus benefícios dadas às mães, programas de in- centivos (governamental através do SUS, órgãos Considerações finais mundiais como UNICEF e OMS), quebra de ta- bus, treinamento de profissionais para auxílio no A amamentação deve ser estimulada, pois cada estímulo à amamentação, ética no marketing, mamada representa uma vacina para o bebê. O dentre outros, o perigo do desmame precoce pode aleitamento materno fornece todos os nutrien- ser convertido em estímulo à amamentação, po- tes, proteção, desenvolve estruturas ósseas, psi- dendo assim alcançar à meta idealizada pela OMS. Colaboradores Referências LS Antunes e LAA Antunes participaram de to- 1. Neiva FCB, Cattoni DM, Ramos JLA, Issler H. Des- das as etapas da revisão, desde a escolha do tema mame precoce: implicações para o desenvolvimen- to motor-oral. J Pediatr 2003; 79(1):07-12. e planejamento, até a sua finalização; MPF Cor- 2. Ichisato SMT, Shimo AKK. Aleitamento materno e vino e LC Maia participaram como orientador e as crenças alimentares. Rev Latinoam Enfermagem revisor final do texto. 2001; 9(5):70-6. 3. Zavaschi MLS. Aspectos psicológicos do aleitamento materno. Rev Psiquiatr Rio Gd Sul 1991; 13(2):77-82. 4. Medetros EB, Rodrigues MJ. A importância da ama- mentação natural para o desenvolvimento do siste- ma estomatognático do bebê. Rev Cons Reg Pernamb 2001; 4(2):79-83. 5. Escuder MM, Venancio SI, Pereira JC. Estimativa de impacto da amamentação sobre a mortalidade in- fantil. Rev. Saúde Pública 2003; 37(3):319-25. 6. Venâncio SI. Dificuldades para o estabelecimento da amamentação: o papel das práticas assistenciais das maternidades. J Pediatr 2003; 79(1):01-02. 7. Serra Negra JMC, Pordeus IA, Rocha JR. Estudo da associação entre aleitamento, hábitos bucais, ma- loclusões. Rev Odontol Univ São Paulo 1997; 11(2):79-86. 8. Baldrighi SEZM, Pinzan A, Zwicker CVD, Michelin CRS, Elias F. A importância do aleitamento natural na prevenção de alterações miofuncionais e orto- dônticas. R Dental Press Ortodon Ortop Facial 2001; 6(5):111-21.
  • 7. 109 Ciência & Saúde Coletiva, 13(1):103-109, 2008 9. Bittencourt LP, Modesto A, Bastos EPS. Influência 25. Leite ICG, Rodrigues CC, Faria AR, Medeiros GV, do aleitamento sobre a freqüência dos hábitos de Pires LA. Associação entre aleitamento materno e sucção. Rev Bras Odontol 2001; 58(3):191-3. hábitos de sucção não nutritivos. Rev Assoc Paul Cir 10. Queluz DP, Gimenez CMM. Aleitamento e hábitos Dent 1999; 53(2):151-5. deletérios relacionados a oclusão. Rev Paul Odontol 26. Schneider AP. Risk factor for ovarian cancer. N Engl 2000; 22(6):16-20. J Med 1987; 317(8):508-509. 11. Tollara MN, Bonecker MJS, Carvalho GD, Corrêa 27. Olaya-Contreras P, Buekens P, Lazcano-Ponce E, MSNP. Aleitamento natural. In: Corrêa MSNP. Odon- Villamil-Rodriguez J, Posso-Valencia HJ. Factores topediatria na primeira infância. São Paulo: Edi- de riesgo reproductivo asociados al cancer mamá- tora Santos; 2005. p. 83-98. rio, en mujeres colombianas. Rev. Saúde Pública 12. Novak FR, Almeida JA, Silva GO, Borba LM. Colos- 1999; 33(3):237-45. tro humano: fonte natural de protobióticos? J Pedia- 28. Rosenblatt KA, Thomas DB. Prolonged lactation and tr 2001; 77(4):265-70. endometrial cancer. WHO collaborative study of 13. Aguirre AN, Vitolo MR, Puccini RF, Morais MB. neoplasia and steroid contraceptives. Int J Epidemiol Constipação em lactentes: influência do tipo de alei- 1995; 24(3):499-503. tamento e da ingestão de fibra alimentar. J Pediatr 29. Rea MF, Toma TS. Proteção do leite materno e ética. 2002; 78(3):202-8. Rev. Saúde Pública 2000; 34(4):388-95. 14. Vieira GO, Silva LR, Vieira TO. Alimentação infantil e 30. Cecchetti DFA, Moura EC. Prevalência do aleita- morbidade por diarréia. J Pediatr 2003; 79(5):449-54. mento materno na região noroeste de Campinas, 15. Sterken E. Documento do mês sobre amamentação São Paulo, Brasil, 2001. Rev Nutr 2001; 18(2):201-8. n.02/99. Benefícios do aleitamento materno e im- 31. Organização Mundial da Saúde. Proteção, promo- portância dos ácidos graxos de cadeia longa. IN- ção e apoio ao aleitamento materno: o papel espe- FACT/IBFAN [acessado 2005 out 10]. Disponível em: cial dos serviços materno-infantis. Genebra: Orga- http://www.aleitamento.org.br/arquivos/acidos nização Mundial da Saúde; 1989. graxos.pdf 32. Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para 16. Monteiro CA, Szarfrac SC, Mondini L. Tendência crianças menores de 2 anos. 2002 [acessado 2005 out secular da anemia na infância na cidade de São Pau- 10]. Disponível em: http://www.opas.org.br/sistema/ lo(1984-1996). Rev. Saúde Pública 2000; 34(6):91-101. arquivos/Guiaaliment.pdf 17. Souza SB, Szarfarc SC, Souza JMP. Anemia no pri- 33. Pereira GS, Colares LGT, Carmo MGT, Soares EA. meiro ano de vida em relação ao aleitamento mater- Conhecimentos maternos sobre amamentação entre no. Rev. Saúde Pública 1997; 31(1):15-20. puérperas inscritas em programa de pré-natal. Cad 18. Saarinen UM, Kajosaari M. Breastfeeding as pro- Saúde Pública 2000; 16(2):457-66. phylaxis against disease: prospective follow-up stu- 34. Gama FVA, Solviero VM, Bastos EPS, Souza IPR. dy until 17 years old. Lancet 1995; 346(8982):1065-9. Amamentação e desenvolvimento: função e oclusão. 19. Perez-Bravo, Carasco E, Gutierrez-Lopez MD, Mar- J Bras Ortodontia Ortop Maxilar 1997; 2(11):17-20. tinez MT, Lopez G, de Los Rios MG. Genetic pre- 35. Rea MF, Venâncio SI, Batista LE, Santos RG, Greiner disposition and environmental factors leading to the T. Possibilidades e limitações da amamentação en- development of insulin-dependent diabetes mellitus tre mulheres trabalhadoras formais. Rev. Saúde Pú- in Chilean children. J Mol Med 1996; 74(2):105-9. blica 1997; 31(2):149-56. 20. Anderson JW, Johnstone BM, Remley DT. Breastfe- 36. Aerts D, Abegg C, Cesa K. O papel do cirurgião eding and cognitive development: a meta–analysis. dentista no Sistema Único de Saúde. Rev C S Col Am J Clin Nutr 1999; 70(4):525-35. 2004, 9(1):131-8. 21. Jain A, Concat J, Leventhal JM. How good is the 37. World Health Organization. Ottawa Charter on He- evidence linking breastfeeding and intelligence? Pe- alth Promotion. Copenhagen: World Organization diatrics 2002; 109(6):1044-53. Regional Office for Europe; 1986. 22. Mezzacappa ES, Katlin ES. Breastfeeding is associa- 38. Moyses S, Watt R. Promoção de saúde bucal – defi- ted with reduced perceived stress and negative mood nições. In: Buischi YP, organizador. Promoção de saú- in mothers. Health Psichol 2002; 21(2):187-93. de bucal na clínica odontológica. São Paulo: Ed. Artes 23. Franceschini R, Venturini PL, Cataldi A, Barreca T, Médicas; 2000. p.1-21. Ragni N, Rolandi E. Plasma beta-endorphin con- centrations during suckling in lactating women. Br J Obstet Gynaecol 1989; 96(6):711-3. 24. Ramos CV, Almeida JAG. Alegações maternas para Artigo apresentado em 01/01/2006 o desmame: estudo qualitativo. J Pediatr 2003; Aprovado em 02/03/2007 79(5):385-90. Versão final apresentada em 04/03/07