Monogafia Eliete pedagogia 2011

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Pedagogia 2011

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Monogafia Eliete pedagogia 2011

  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS VII SENHOR DO BONFIM – BA. PEDAGOGIA 2006.1 ELIETE FAGUNDES DE JESUSHISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO: MEMÓRIAS DE UMA INFÂNCIA SEM PERSPECTIVA À FORMAÇÃO EM PEDAGOGIA SENHOR DO BONFIM – BA MARÇO DE 2011
  2. 2. 1 ELIETE FAGUNDES DE JESUSHISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO: MEMÓRIAS DE UMA INFÂNCIA SEM PERSPECTIVA À FORMAÇÃO EM PEDAGOGIA Monografia apresentada ao departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia-UNEB/CAMPUS VII, como parte dos requisitos para conclusão do curso de pedagogia: Docência e Gestão de Processos Educativos. Orientadora: Profª. Drª. Maria Glória da Paz SENHOR DO BONFIM – BA MARÇO DE 2011
  3. 3. 2 ELIETE FAGUNDES DE JESUSHISTÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO: MEMÓRIAS DE UMA INFÂNCIA SEM PERSPECTIVA À FORMAÇÃO EM PEDAGOGIA Aprovada em: 17 de março de 2011 Profª. Drª. : Maria Glória da Paz Orientadora Profª. Mestra: Edna Ferreira Examinadora Profª. Especialista: Ana Maria Campos Dias Examinadora
  4. 4. 3A Deus, pelo dom da vida e por seu amorincondicional, por sempre ter me dado forçapara não desistir.A meu filho, Lucas Emanuel, por ser parte de mim.A minha mãe, Dejanira, que com sua coragem é agrande responsável por essa conquista.Ao meu pai, Evanio, pelo incentivoAos meus irmãos, Marilza, Evaniel, JoseniceEvanice e Silvania, pelo apoio.Ao meu esposo, Manoel Neto pela dedicação,paciência e companheirismo.
  5. 5. 4 AGRADECIMENTOSAgradeço primeiramente a Deus meu pai por estar sempre ao meu lado, e por tudoque me proporciona, sendo meu porto seguro, meu eterno agradecimento.A minha família pela compreensão nos momentos em que precisei estar ausente epor sempre ter acreditado em mim.Ao meu filho, Lucas Emanuel, razão do meu viver.A minha irmã, Marilza, pela dedicação e carinho ao dividir comigo o papel de mãe deLucas, o meu muito obrigado.A professora Glória, co-autora na construção deste trabalho, meu sinceroagradecimento.Aos colegas de turma, em especial, Alice, Cícero Elaine, Elizangela e Simone, pelacumplicidade, compreensão, e amizade, que me serviram de ancora, em todos osmomentos, vocês moram no meu coração.A Lidiane, minha irmã, amiga, e fiel escudeira pelo companheirismo.Aos professores: Beatriz, Ana Maria Suzzana Alice, Rita Braz, Claudia Maisa,Pascoal, Elizabeth Barbosa, Elizabeth, Joanita Moura, Simone Wanderley, Ozelito,Sanda Fabiana, Helder Luís, Jader Rocha, Rita Carneiro, Ricardo e Romilson pelosconhecimentos proporcionados, estarão sempre na minha memória.Aos colegas da turma de 2007 com os quais dividi este percurso, principalmenteAna Lúcia, pelo apoio.A dona Rosi e seu Eduardo pela ajuda nos momentos que precisei.A minha prima, Suzana Fagundes, pela amizade e confiança.
  6. 6. 5A Valmir dos Santos pelo incentivo.A Drª. Eva, Drº. Hélio, Drª. Mariana pela força, e compreensão.Aos colegas de trabalho da Defensoria Pública e da Escola José de Anchieta com osquais compartilho muitos momentos.Aos irmãos da Igreja Adventista do Sétimo dia de Tijuaçu.Aos amigos Gabriela, Daniel, Fábio, Patrícia, Camila e Drº. Hélcio pela amizade, epalavras de incentivo.Aos amigos diretores, professores e funcionários do Colégio Estadual de Senhor doBonfim, pela confiança demonstrada.Ao pessoal da biblioteca, Margarida, Maria, Rizia e Grazi, pela ajuda e paciência.E a todos que, direta ou indiretamente contribuíram para a efetivação deste trabalhoe fizeram e fazem parte da minha vida.
  7. 7. 6“Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim”. Clarice Lispector
  8. 8. 7 RESUMOO presente estudo é fruto da linha de pesquisa narrativa autobiográfica e tem comoprincipal objetivo, tomando como pressuposto a minha história de vida, trazer aolume a importância da abordagem autobiográfica como veículo educativo. Naprodução deste trabalho, utilizamos a abordagem biográfica, através da narrativaautobiográfica buscamos subsidio em algumas fontes escritas de vários estudiosos,que nos deram sustentação dentre eles Josso (2004), Áries (1981), Sousa (2006),Passegi (2008), Freire (1983) e outros mais que, discutem a relevância da pesquisade si mesmo na formação pessoal e profissional como fonte de reflexão e avaliaçãode modo a propiciar novas posturas e ações. E como fonte oral me ancorei naminha própria narração.Palavras - chave: Memória Autobiográfica - Infância - História de vida eformação
  9. 9. 8 LISTA DE FIGURASFIGURA 01: Eliete Fagundes de JesusFIGURA 02: Mapa do Distrito de TijuaçuFIGURA 03: Vista da Praça Principal de Tijuaçu
  10. 10. 9 SUMÁRIOINTRODUÇÃO...........................................................................................................11CAPÍTULO I...............................................................................................................12 1. Memória autobiográfica: uma arte de tessituras de si..................................12 2. A infância e suas várias concepções de século a século.............................15 3. História de vida e formação: um ato de formar e de formar-se na e para vida..........................................................................................................................18CAPÍTULO II..............................................................................................................212. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS..............................................................212.1 Abordagem biográfica.......................................................................................212.2 Instrumentos utilizados no estudo...................................................................212.2.1 A Narrativa.........................................................................................................212.2.2 As fontes............................................................................................................222.2.3 Fontes orais.......................................................................................................222.2.4 Identificação da entrevistada.............................................................................222.2.5 Fontes escritas..................................................................................................232.3 O Local do estudo ou de onde estou falando: o meu lugar de nascimentomoradia......................................................................................................................24CAPÍTULO III.............................................................................................................283. CONTANDO A MINHA HISTÓRIA.........................................................................283.1 A INFÂNCIA: a descoberta do mundo e das pessoas, o primeiro contatocom a escola e com novas amizades.....................................................................283.1.1 Uma infância entre doenças e trabalho.............................................................283.1.2 Três bolachões e alguns restos de brinquedos venciam a tristeza do não ter, e ocupavam o seu lugar............................................................................................28
  11. 11. 103.1.3 Uma chuva forte: a casa caiu............................................................................293.1.4 Uma estratégia para conseguir ajudar em casa, trabalhar estudar...................303.1.5 Ir à escola... ou aquilo que não tive quero dar a vocês.....................................303.1.6 Primeiras experiências escolares... classe multiseriada,motivo pelo qualaprendi a ler muito cedo...........................................................................................313.1.7 Os professores leigos e dedicados...................................................................323.1.8 Nem bem professora e já fora despedida.........................................................333.1.9 Em meio às dificuldades uma profecia.............................................................333.1.10 Estratégia de convivência: um aluno passivo para uma professora“durona”......................................................................................................................353.1.11 Chega o tão sonhado ginásio..........................................................................363.2 A adolescência: a organização do meu universo, o surgimento dasprimeiras paixões.....................................................................................................373.2.1 Escola e trabalho infantil: uma experiência de aprendizagens ediscriminação..............................................................................................................383.2.2 Magistério... Mais barreiras... trabalhei como empregada doméstica...............393.3 A fase adulta: as minhas primeiras experiências profissionais e o sonho deser mãe e professora ..............................................................................................413.3.1 A universidade: passei a viver outra realidade, outras portas se abriram.........423.3.2 Curso de pedagogia..........................................................................................43CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................46REFERENCIAS..........................................................................................................48ANEXOS....................................................................................................................52
  12. 12. 11 INTRODUÇÃO Depois de “subir e descer” sobre qual seria o tema da minha monografia, acada encontro com minha orientadora uma proposta diferente e nada (rs), foi entãoque numa conversa meu desejo íntimo e a minha vontade de relatar um pouco daminha trajetória familiar e escolar falaram mais alto e decidimos então que eu fariauma narrativa (auto) biográfica. Por meio deste trabalho quero mostrar que uma infância pobre e semperspectiva, não é obstáculo para ninguém cruzar os braços e se conformar com o“destino” “o eu não posso” ou “eu não consigo”, “meu pai ou minha mãe não me dãonada” e o “ ninguém me dá uma oportunidade”. Esse relato se mostra relevante uma vez que aqui se registram experiênciasvivenciadas que ao invés de fazer-me desistir, me estimularam a fazer diferente, aultrapassar barreiras incontáveis, mas que não foram suficientemente fortes para mefazer desistir, pois levei em conta, o desejo de mudança de não aceitar o curso“natural” das coisas. Essa premissa me faz perguntar: Como é que filho de paissemi-analfabetos pobres e negros pode progredir na vida? Sendo assim, tomo comoobjetivo, escrever uma memória (auto) biográfica para refletir sobre a minhatrajetória de vida e formação.
  13. 13. 12 CAPÍTULO I “Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim”. Clarice Lispector1. MEMÓRIA AUTOBIOGRÁFICA: UMA ARTE DE TESSITURAS DE SI Construir uma narrativa autobiográfica é trazer a público experiênciasvivenciadas cotidianamente, para tanto é preciso que seja feita uma introspecçãodas lembranças, dos acontecimentos, recordar a própria história, desde o momentodo nascimento, o primeiro choro, as visitas, as alegrias os problemas, o convíviosocial, as tradições culturais, as primeiras experiências escolares, a primeiraprofessora; é querer falar dos fatos como estes realmente aconteceram; embora amemória humana, com alguns limites impostos pelas questões biológicas,neurológicas e pelas vivências construídas diariamente, além dos limites temporais,não proporcione uma lembrança completamente nítida e pura. O que realmente fica armazenado passa por uma seleção subjetiva em quea visão de mundo do indivíduo juntamente com as construções da memória coletivadesses registra o que aconteceu de mais marcante na vida do indivíduo. ParaPassegi (2008), autobiografar é aparar a si mesmo com suas próprias mãos,entretanto essa trajetória de contar de si trará a luz muitos fatos importantes docaminho, alguns bons que com certeza dão prazer ao recordar e outros queprovocam lembranças não tão agradáveis, mas que fazem parte da trajetória de vidae que provocam pontos para refletir, sobre como são construídas as histórias devida. Vive-se no presente, mas por força da lembrança e da imaginação amemória recorre ao passado para um repensar, ou, melhor dizendo, umbalanceamento sobre a formação obtida e o que não se obteve ainda e assimchegar à compreensão de que a busca de si requer um parar para pensar e comobem nos diz Larrosa (2002) também olhar, sentir e perceber através da ativação damemória o que foi feito e o que falta fazer para alcançar uma cota maior de
  14. 14. 13perfeição; e é este ato de lembrar que a memória produz. Souza (2006) consideracomo um processo de recuperação do eu, que envolve a própria memória, o tempoe o esquecimento a partir do que cada um viveu e vive, sua maneira de fazer asescolhas, de situar suas pertenças, interesses e aspirações, de contemplar suassubjetividades, suas recordações, referencias acontecimentos simbólicos na vida(p.22). A esse respeito Freire (1983) afirma que: (...) o homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser em busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. (...) (p.27) Reforçando estas idéias vale acrescentar que, para recordar as histórias devida é necessário manter pelo menos alguns elementos essenciais guardados namemória: os fatos, as pessoas e as coisas que fizeram parte desse acontecimento,elementos esses, que a partir do grau de sensibilidade do indivíduo se torna possívelou não, o resgate da lembrança; o que se confirma na palavra de Garcia (2003): O processo de tessitura das lembranças é tramado pela utilização da sensibilidade da memória, através da linguagem e dos sentidos, que cada sujeito atribui aos fatos e acontecimentos vividos em sua trajetória pessoal- social, o que torna a experiência comunicável. (p.103) Observamos que no convívio social o ser humano vivência experiênciasconsideradas imprescindíveis para o seu desenvolvimento, entretanto mesmo dentrodo coletivo cada ser tem em si especificidades que permite uma interação com ooutro e consigo mesmo, porém dar vida a essas experiências é narrar a vida, éreinventá-la. É produzir novos sentidos, é atualizar, em novo contexto, as marcasinscritas em nosso corpo, em nossa história. (GARCIA, 2003, p.112). Compreendemos que para se tornar possível esse reencontro com ahistória, precisamos nos debruçar sobre o passado na sua totalidade analisandoaspectos que julgamos importantes para serem contados. Em Souza (2006...) apudSachacter, “A experiência subjetiva da memória é o que nos permite interligar asnossas lembranças umas as outras e avaliar o seu significado na nossa vida.”
  15. 15. 14 Portanto, ao fazermos uma narrativa (auto) biográfica temos a oportunidadede lembrar e recontar as experiências vivenciadas, lembranças essas de grandesignificado, que nascem com a própria história de vida. Buscando um encontro emque se descortinam as sutilezas que mobilizaram diferentes campos na construçãoda identidade e em vários momentos atribuindo significados às reminiscências daminha trajetória de vida, ou seja, um reencontro comigo mesma. Como nos dizSouza (2006): A arte de evocar, narrar e de atribuir sentido às experiências como uma estranheza de si permite ao sujeito interpretar suas recordações em duas dimensões. Primeiro, como uma etapa vinculada à formação a partir da singularidade de cada história de vida e, segundo, como um processo de conhecimento sobre si que a narrativa favorece. O processo de formação e de conhecimento possibilita ao sujeito questionar-se sobre os saberes de si a partir do saber-ser – mergulho interior e o conhecimento de si – e o saber- fazer-pensar sobre o que a vida lhe ensinou. (p. 62) Através da narrativa, os sujeitos conseguem expor seus anseios, revelandoassim o sentido da vida isso é possível porque temos guardado na memória, fatos,pessoas, recordações até então privadas que por decisão própria tornam-sepúblicas ao ser desveladas potencialidades, atitudes e valores que orientavamescolhas, nos diversos campos da vida humana como pessoal, educacional,profissional, emocional e espiritual assim como bem nos explica Souza (2006): A escrita da narrativa, como uma atividade metarreflexivo, mobiliza no sujeito uma tomada de consciência, por emergir do conhecimento de si e das dimensões intuitivas, pessoais, sociais, e políticas impostas pelo mergulho interior, remetendo-o a constantes desafios em relação às suas experiências e às posições tomadas. Diversos questionamentos surgem na tensão dialética entre o pensamento, a memória e a escrita, os quais estão relacionados à arte de evocar, ao sentido estabelecido e à investigação sobre si mesmo, construídos pelo sujeito, para ampliar o seu processo de conhecimento e de formação a partir das experiências. (p. 101) Quando refazemos o percurso trilhado nos espaços vivenciados é possívelcompreender o contexto e os sentidos desse caminho, entretanto é importantelembrar que essa vivência não se deu de forma solitária e individual. Tudo aconteceue acontece em um ou vários contextos sociais. Nesse enfoque, Souza (2006) apudHalbwachs (1990) comenta que a memória se estrutura em identidades de grupo:recordamos a nossa infância como membros da família, o nosso bairro comomembros da comunidade local, a nossa vida profissional em função da comunidade
  16. 16. 15da fábrica ou do escritório. Mesmo assim com todo esse convívio social o contexto das narrativasautobiográficas é perpassado por singularidade, são muitos os significadosencontrados no processo de busca de si. Nessa perspectiva Josso (2004) ressaltaque: (...) a busca de si é inseparável de uma relação com outrem, mesmo quando, durante um tempo, se privilegia uma exploração de si, em relação a si mesmo, a partir de autopercepções e de auto-observações, sustentadas ou não, por um quadro terapêutico ou de desenvolvimento pessoal. Essa perspectiva de pesquisa é um processo de redescoberta, é umaespécie de desmascaramento das facetas que constituem o percurso daquele queconta sua história. Ou melhor, a pessoa pesquisa e é ao mesmo tempo pesquisada,possibilitando uma análise mais precisa do objeto pesquisado. Como ressalta Pérez(2003, p. 100) narrativa nos permite conhecer e analisar (...) “histórias que não nosfalam de fatos, mas de acontecimentos, que não se constituem em documentos,mas em signos, que não nos apresentam argumentos, mas sentidos.” Portanto, é através da memória autobiográfica que nos lembramos do nossopróprio passado, temos a capacidade de relembrar eventos pessoais que foramretidos, recuperados para assim poderem ser relatados. Nesse sentido Souza (2006,p. 103) diz o seguinte: “O sentido da recordação é pertinente e particular ao sujeito,o qual implica-se com o significado atribuído às experiências e ao conhecimento desi, narrando aprendizagens experienciais e formativas daquilo que ficou na suamemória.”2. A infância e suas várias concepções de século a século Recorrendo a definição da palavra infância, buscamos no dicionário dalíngua portuguesa, subsídios para tal. Em Gama (2001), encontramos que a infânciaé a idade da meninice, período do crescimento que precede a puberdade, e parainfantil a definição de relativo à criança, ingênuo, inocente. Atrelado a isso,encontramos que a palavra infância é originária do latim, significando, portanto, a
  17. 17. 16incapacidade de falar, carregando consigo o estigma de incompletude, como nos falaLajolo (2001): Enquanto objeto de estudo, a infância é sempre um outro em relação àquele que a nomeia. A palavra ‘‘infante’’, infância e os demais cognatos, em sua origem latina e nas línguas daí derivadas, recobrem um campo semântico estritamente ligado a idéia de ausência da fala, essa noção de infância como qualidade ou estudo do ‘’infant, isto é, ‘’d’quele que não fala’’, constrói-se a partir de pré-fixos e radicais lingüísticos que compõem a palavra: in r prefixo que indica negação; fanti = particípio presente do verbo latino fari, que significa falar, dizer. (p. 229) Partindo de tais definições, percebemos que os conceitos de infância bemcomo de infantil estão associados à idéia de ingenuidade, pureza e inocência. Nabusca de uma conceituação sobre a criança/infância ao longo da historiografiahumana, tomamos de Carvalho, (2003), uma afirmativa ’’ A infância existe desde osprimeiros tempos da humanidade, mas a sua percepção dotada de representaçõessó é sentida a partir do século XVI e XVII’’ (p.47). O que significa dizer que a infânciasomente começa a ser percebida com a chegada do Iluminismo. A aparição da infância ocorre em torno do século XIII e XIX, mas o sinal desua evolução torna-se clara e evidente no continente europeu nos séculos XVI eXVII, no momento em que a estrutura social vigente provocou uma alteração nossentimentos e nas relações frente à criança. Percebemos diante disso que a criança neste período não tinha lugar dedestaque na sociedade nem na família, suas particularidades não eram levadas emconsideração, e o que realmente as diferenciavam dos adultos era apenas a forçafísica, e assim que adquiriam certa independência, por mínima que fosse, eraconduzida aos costumes e práticas do mundo adulto. A infância nesta época tinha uma duração mínima, que se restringia afragilidade física, mas ao conseguir alguma independência, a criança era conduzidaao convívio adulto, fazendo parte do seu mundo, mas é fácil concluir que não estavapreparada para tanto. Segundo Áries, (1956) a passagem que elucida este
  18. 18. 17entendimento: ‘’de criancinha pequena ela se transforma imediatamente em homemjovem, sem passar pelas etapas da juventude, que talvez fossem praticadas antesda Idade Média e que se tornaram aspectos essenciais das sociedades evoluídas dehoje. ’’(p.9-10). Sendo assim, não havia separação entre as funções exercidas pelos adultose crianças. No contexto das grandes navegações, por exemplo, para conquistarnovas terras, as crianças eram obrigadas a trabalhar e a se comportar como adultos,como nos aponta RAMOS (2001): Em uma época em que meninas de 15 anos eram consideradas aptas para casar, e meninos de 09 anos plenamente capacitados para o trabalho pesado, o cotidiano infantil a bordo das embarcações portuguesas eram extremamente penosa para os pequeninos. Os meninos não eram ainda homens, mas eram tratados como se fossem, e ao mesmo tempo eram considerados como pouco mais que animas cuja mão-de-obra deveria ser explorada enquanto durasse sua vida útil. As meninas de 12 a 16 anos não eram ainda mulheres, mas em idade consideradas casadoura pela Igreja Católica, eram caçadas e cobiçadas como se o fossem. Em meio ao mundo adulto, o universo infantil não tinha espaço: as crianças eram obrigadas a se adaptar ou perecer. (p. 48) O conceito de infância é muito dinâmico, e ao longo do tempo vem semodificando. A partir do século XVII, a criança passa a ter certo espaço nasociedade, sendo que antes disso era enxergada como uma miniatura de adulto.Nesse período, descobertas científicas fazem com que a criança pouco a pouco sejaconcebida como um sujeito frágil, indefeso que requer uma atenção maior. Eis quesurge neste contexto a escola, como entidade que ajudará nesta formação, comonos explicitam Fontana; Cruz, (1986), “À escola coadjuvante desta formação cabia aresponsabilidade pelo desenvolvimento de habilidades de leitura e aritmética, alémde reforçar os ensinamentos religiosos e morais transmitidos pelos pais’’. Sobre este momento do advento da escola atrelada ao novo sentimento doadulto para com as crianças, que implicará em um cuidado maior, Áries, (1981)emite o seguinte pensamento:
  19. 19. 18 A despeito das muitas reticências e retardamentos, a criança foi separada dos adultos e mantida á distância numa espécie de quarentena, antes de ser solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio. Começou então um longo processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das prostitutas) que se estende até nossos dias e ao qual se dá o nome de escolarização. (p.11) Áries (1981) vem fortalecer as discussões acerca das transformações pelasquais passam a visão da infância neste período histórico. A infância é baseada numintenso sentimento de afeto e aceitação. Passa a ser valorizada e “paparicada’’desde o nascimento e passa a ser observada, despertando o interesse deeducadores e moralistas. Nasce aí outro sentimento de infância assinalado pelointeresse psicológico do mundo infantil e pela preocupação com o desenvolvimentomoral da criança: O primeiro sentimento de infância - caracterizado pela paparicação surgiu no seio familiar na companhia das criancinhas pequenas. O segundo, ao contrário, proveio de uma fonte exterior à família: dos eclesiásticos ou dos homens da lei, raros até o século XVI e de um maior número de moralistas do século XVII preocupados com a disciplina e a racionalidade dos costumes. Esses moralistas haviam se tornado sensíveis ao fenômeno outrora negligenciado da infância, mas recusavam-se a considerar as crianças como brinquedos encantadores, pois viam nelas frágeis criaturas de Deus que era preciso ao mesmo tempo preservar e disciplinar. Esse sentimento, por sua vez, passou para a vida familiar. (p. 163-164) Segundo nos relata Áries (1981), a partir do século XVIII a criança torna-seespecial no seio da família e a ela é dispensada uma atenção especial, despertandoassim um sentimento mais fraterno por parte dos pais.3. História de vida e formação: um ato de formar e de formar-se na e para avida“Contar é tão dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. “Mas pela astúcia que têmcertas coisas passadas de fazer balance, de se remexerem dos lugares.” (Guimarães Rosa)) Estudar história, sempre me causou expectativa, rever todas aquelas datas, eacontecimentos, história essa contada por alguém que não se sabe ao certo se é
  20. 20. 19verídica ou não, agora me vejo aqui tentando contar a minha própria história, erefletir sobre as experiências vividas, o que será que vão dizer da minha história devida?Até porque vou contar algo que ninguém contou. Narrar a vida, escrever suaautobiografia é, do ponto de vista da formação, um exercício de autotransformação(Garcia, 2003. p.103) A esse respeito Moita (1992) afirma o seguinte: Só uma história de vida permite captar o modo como cada pessoa, permanecendo ela própria, se transforma. Só uma história de vida põe em evidência o modo como cada pessoa mobiliza os seus conhecimentos, os seus valores, as suas energias, para ir dando forma à sua identidade, num diálogo com o seu contexto. Numa história de vida podem identificar-se as continuidades e as rupturas, as coincidências no tempo e no espaço, as “transferências” de preocupações e de interesses, os quadros de referência presentes nos vários espaços quotidianos. (p. 117) A vontade de analisar a minha história de vida e formação é que me colocouaqui. Sei que muitas foram as influências existentes, as experiências vivenciadas, osquestionamentos, as angústias, as frustrações, mas também as vitórias. Esserecontar me remete a percorrer caminhos outrora já percorridos. Como coloca Souza(2006. p. 150) “a narrativa autobiográfica contem a totalidade de uma experiência devida”. Assim por meio da história de vida podemos fazer uma reflexão mais precisada experiência da nossa formação, isto porque esta também faz parte da nossatrajetória. As experiências, de que falam as recordações-referências constitutivas das narrativas de formação, contam não o que a vida lhes ensinou, mas o que se aprendeu experiencialmente nas circunstâncias da vida. (Josso, 2004. p. 43). Podemos dizer que essa experiência além de ser importante para o acúmulode informações, ela também constitui, transforma se em subjetividade Escrever sobre o processo de sua formação parece aos olhos de quem jamais o fez, uma tarefa fácil. Mas fixar na escrita o que se tenta pegar no ar, o que foge e escapa a cada tentativa é um trabalho ao mesmo tempo laborioso, sedutor e consideravelmente formador. (Passegi,2008 p.36)
  21. 21. 20 Principalmente porque colocando o sujeito em contato com suasexperiências construídas ao longo da vida através de registros oral ou escrito desuas vivências no cotidiano pessoal e ou profissional o mesmo se tornarápossibilitado, enquanto autor e ator de sua própria história, a eleger aprendizagenssignificadoras e significá-las, como bem afirma Josso (2002) a favor do seu processode formação na e para a vida.
  22. 22. 21 CAPÍTULO II2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS2.1 Abordagem Biográfica Quando me reportei ao caminho da história de vida, optei por falar sobre oprocesso de vida e formação. Então decidi em consenso com minha orientadora,voltar o olhar para mim mesma enquanto pessoa, visto que estou no caminho daformação. Acredito ser de extrema relevância desenvolver o estudo com base nospressupostos que permeiam a história de vida e formação, partindo da perspectiva(auto) biográfica. Sendo assim, me declaro como sujeito desse estudo, tendo como objeto aminha história de vida e formação, assumindo a condição de pessoa que investiga eque é investigada, infere e busca respostas por intermédio do caminho científico,vislumbrando o epicentro do problema que permeia a investigação rigorosa exigidano entorno acadêmico. Como afirma Souza (2006, p. 4) “(...) o sujeito tomaconsciência de si e de suas aprendizagens experienciais quando vive,simultaneamente, os papéis de ator e investigador da sua própria história.”2.2 Instrumentos utilizados no estudo2.2.1 A Narrativa Para o desenvolvimento do presente trabalho utilizamos à narrativa. Anarrativa foi dividida em três partes: infância, adolescência, fase adulta e atual, cadafase foi subdividida em vivencias pessoais, sociais e profissionais. 1. A infância, o período que proporciona à criança a descoberta do mundo e das pessoas, o primeiro contato com a escola e com novas amizades. 2. A adolescência, uma transição entre a infância e início da fase adulta, período de insegurança em que o indivíduo começa a organizar o seu universo, o
  23. 23. 22 surgimento das primeiras paixões e a necessidade de independência se acentua, as escolhas, o avanço nos estudos e o sonho da formatura. 3. A fase adulta, o indivíduo demonstra maior estabilidade, onde surgem asprimeiras experiências profissionais, e foi nesse período que tive a minha primeiraexperiência como professora, onde também passei no vestibular, realizei o meumaior sonho que foi o de ser mãe.2.2.2 As fontes2.2.3 Fontes orais: Figura 01: Eliete Fagundes de Jesus (1983): Acervo de Eliete2.2.4 Identificação da entrevistada Sou Eliete Fagundes de Jesus, negra, tenho 27 anos de idade nasci no dia14 de setembro de 1983, na cidade de Senhor do Bonfim, Bahia. Sou a quarta emuma família de seis irmãos, sou filha de Dejanira Fagundes de Jesus e de Evanio deJesus, sou casada, tenho um filho do sexo masculino, sou adventista do sétimo dia,
  24. 24. 23estou concluindo o terceiro grau (curso de pedagogia), sou professora e auxiliar deserviços gerais.2.2.5 Fontes escritas: Para fundamentar este trabalho buscamos alguns autores que nos deramsustentação na construção dos conceitos chave: ÁRIES, (1981). No livro “Historia Social da infância e da família” PhilippeÁries pontua os diversos conceitos de infância em relação à criança ao longo dostempos, de geração a geração. Até o final da Idade Média, a criança era vista como um pequeno adulto;somente na transição dos séculos XVII para o XVIII, um novo conceito seestabeleceu e a criança passou a ser considerada como um ser ingênuo e frágil,portanto, merecedora de cuidados e mimos. Na modernidade, a educação proporcionou à criança o desfrute do seu realespaço na sociedade através do direito de ter infância. FREIRE, (1983). Em “Educação e Mudança” temos a oportunidade de umaleitura interessante que nos leva a compreender a nossa incompletude; daí anecessidade de educarmo-nos para alcançarmos a perfeição. Este livro fala-nos sobre a importância da esperança na educação, poisatravés dela haverá mudanças. O autor faz referência à responsabilidade doprofissional de educação perante a sociedade, no desenvolvimento de atividades ecompromissos em colaborar com um processo de transformação. Assinala tambémque a educação tem como elemento fundamental, como seu sujeito, o homem quebusca, por meio dela, a superação de suas imperfeições. JOSSO, (2004). A partir da leitura do livro “Experiências de Vida eFormação” de Marie-Christine Josso obtive contribuições teóricas, como também,reflexões importantes à elaboração deste trabalho monográfico. Josso apresenta neste livro a possibilidade do uso da metodologia das
  25. 25. 24histórias de vida ao tempo em que nos dá um excelente retrato das razões e usosdas abordagens autobiográficas que permitem a cada um de nós “caminhar para si”reavaliando os conhecimentos adquiridos ao longo da vida e socializando-se com odesconhecido na busca de novos saberes. SOUZA, (2008) Em “Histórias de vida, escrita de si e abordagemexperiencial” Elizeu Clementino de Souza evidencia as historias de vida comoprocesso de conhecimento e de formação, considerando a abordagem biográficapertinente quando vista como um meio de investigação e um instrumentopedagógico. Figura 02: mapa do Distrito de Tijuaçu2.3 O Local do estudo ou de onde estou falando: o meu lugar de nascimento emoradia Tijuaçu é um distrito pertencente ao município de Senhor do Bonfim, que ficalocalizado no Piemonte Norte do Itapicuru, Noroeste do Estado da Bahia, situado ás
  26. 26. 25margens da BR 407, com uma população estimada em 6.000 habitantes. A sua história teve início com a chegada de três mulheres negras que vieramfugidas de senzalas perto de Salvador, duas destas mulheres não temos notícias,apenas uma delas Maria Rodrigues mais conhecida por Mariinha Rodriguesdepositou aqui suas esperanças à beira de um lago embaixo de uma montanhaonde iniciou toda nossa história. ... Há cerca de 200 anos atrás três mulheres negras, escravas, fugitivas de uma senzala do litoral baiano, depois de uma longa e muito desgastante caminhada chegaram à beira de um pequeno lago, onde pararam para descansar. (...) Diante dos seus olhos tiveram a preciosa água e uma terra fértil para plantar. Ao redor havia um mato cheio de plantas e animais. Entretanto, as duas das três mulheres sumiram no esquecimento do tempo e só uma, Maria Rodrigues, popularmente chamada Mariinha Rodrigues, tornou-se uma parte da memória do povo de Tijuaçu, a grande mãe de muitos deles... MACHADO (2005) p.(21) Miranda (2009) acrescenta que: “... A localidade de Tijuaçu teve início quando três escravas que estavam fugindo do cativeiro passaram a viver em Tijuaçu. Apenas uma permaneceu, que foi Maria Rodrigues. A partir daí, toda história relatada pelos depoentes tem como protagonista essa ex-escarvizada, que constituiu família, criando laços de parentesco e solidariedade no referido território. ( p. 34) Mariinha Rodrigues segundo relatos dos mais velhos era uma mulher forte einteligente, e para assegurar a posse de suas terras estrategicamente, colocou umdos seus filhos para morar nas localidades ao redor de Tijuaçu, visando assim aodomínio das terras. “Mariinha Rodrigues “uma negra fugida”, a desbravadora do território, que residia no Alto Bonito e que, estrategicamente, povoou as terras de Tijuaçu, pondo em cada localidade um filho, com o objetivo de tomar posse dessas terras, pelo uso de ocupação.” Miranda (2009) p.(33) Por ter sido fundada por negros, a população de Tijuaçu é composta em suamaioria por negros, pessoas que durante muito tempo vêm lutando pelo resgate desua história e pelo reconhecimento como comunidade quilombola, o que veioacontecer em 2000, reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares comocomunidade remanescente de quilombo. Como nos afirma Machado (2005):
  27. 27. 26 ...Só no ano de 2000 um outro antropólogo, Osvaldo Martins de Oliveira, junto com algumas pessoas das comunidades e com ajuda de agentes comunitários, visitou todas as comunidades, fez entrevistas com a população, elaborou o laudo e no dia 08 de fevereiro de 2000 viajou para Vitória/ES . Já no dia 20 de fevereiro enviou o laudo e no dia 28 de fevereiro de 2000 no Diário Oficial da União o Governo Federal reconheceu Tijuaçu como uma terra remanescente de quilombola. (p. 29-30) E Miranda complementa: “... Em 18 de fevereiro de 2000, o antropólogo da Fundação Cultural Palmares, Osvaldo Martins de Oliveira, concluiu o Relatório de Identificação da Comunidade Negra de Tijuaçu, sendo Tijuaçu reconhecido como território remanescente de quilombo, através de Ato publicado no Diário Oficial da União de 28 de fevereiro de 2000.” p. (62) Após o reconhecimento, a realidade de nossa comunidade mudou: podemosandar de cabeça erguida e temos orgulho de ser negros. Além do mais, somos oterceiro maior distrito de Senhor do Bonfim, temos uma população composta pormais ou menos 6.000 habitantes e aproximadamente 1.300 famílias. A economia ébasicamente proveniente da agricultura, aposentados funcionários públicos evendedores informais que, entre outras coisas, comercializam o tradicional acarajé eo milho assado. Figura 03: Vista da Praça principal de Tijuaçu: Acervo ElieteO padroeiro de Tijuaçu é São Benedito, um santo negro que é festejado nacomunidade no dia primeiro de novembro com festejos religiosos em que temos
  28. 28. 27novenas missas e batizados, e algumas manifestações culturais como o tradicional eanimado samba de lata, dança do parentesco, dança do corta cana e dança - afro. Afesta profana conta com apresentação de bandas musicais, desfiles de blocos e asapresentações culturais da comunidade. Tijuaçu conta com duas escolas públicas municipais de médio porte, umanexo de uma escola estadual, um mini-hospital (PSF), posto policial, um, Centro deReferência de Assistência Social – (CRAS QUILOMBOLA), uma igreja católica, trêsigrejas evangélicas, um centro cultural, casas comerciais, dois cemitérios, bares,lanchonetes, um restaurante e três associações: Associação de Moradores,Associação de Desenvolvimento Comunitário de Tijuaçu e Associação Agro-PastorilQuilombola de Tijuaçu e Adjacências, esta última após ter sido fundada deu um novorumo a nossa comunidade, trazendo muitos benefícios. “A Associação Quilombolatem conquistado espaço enquanto órgão representativo, procurando atender àsreinvidicações da comunidade e defendendo os direitos desses remanescentes”(Miranda, 2009, p.59).
  29. 29. 28 CAPÍTULO III3. CONTANDO A MINHA HISTÓRIA3.1 A INFÂNCIA: a descoberta do mundo e das pessoas, o primeiro contatocom a escola e com novas amizades.3.1.1 Uma infância entre doenças e trabalho Sou Eliete Fagundes de Jesus, filha de Dejanira Fagundes de Jesus e deEvanio de Jesus. Nasci em uma família pobre, no dia 14 de setembro de 1983,tenho muito que aprender. Sou a 4ª filha de uma família de seis irmãos (uma veio deuma relação extraconjugal de meu pai), mas que mora com a gente. Quando nasci era muito doente, mainha conta que só vivia no médico ou nosrezadores locais. Certa vez, diz ela que eu estava mal e então ela me levou paraSenhor do Bonfim para um médico me consultar, ele ficou com tanta pena de mim,que pediu a ela que me entregasse para ele cuidar de mim e me criar, achando queeu não sobreviveria, mas, ela disse que não, ficaria comigo mesmo correndo esserisco e ele se dispôs a cuidar mesmo assim. Ela sempre me levava para ele meexaminar foi então que ela lhe pediu para ser meu padrinho de batismo, graças aDeus fiquei curada. A Minha Infância não foi fácil, minha mãe ia trabalhar na roça ou vendermilho em Senhor do Bonfim, nós ficávamos em casa, meus irmãos mais velhostomavam conta da gente. Mainha saía de madrugada e chegava à noite motivo peloqual por muito tempo chamei minha irmã mais velha de mãe.3.1.2 Três bolachões e alguns restos de brinquedos venciam a tristeza do não ter, e ocupavam o seu lugar...
  30. 30. 29 Em casa, cada um tinha sua tarefa, as meninas cuidavam da pequena casacom dois quartos sala e cozinha e meu irmão fazia e dividia a comida, minha outrairmã cuidava dos menores, quando mainha saía deixava o dinheiro paracomprarmos bolachão em seu Zé do bar (in memorian), como era conhecido ovelhinho da venda. Meus irmãos compravam três unidades de bolachões, que eramdivididos da seguinte maneira: meu irmão mais velho comia um e os outros doiseram repartidos por nós quatro. Meio dia, se tivesse feijão, arroz, farinha e a misturaquando tinha, mainha dizia para os três maiores comerem só com a farinha, e eu eminha irmã mais nova comíamos com arroz. Não tinha brinquedo para brincarmos aí catávamos alguma coisa queencontrávamos no lixo que alguém jogava fora, para brincarmos, à noitebrincávamos de bicho (pega-pega), tarefa, sete pedra, cuscuz, macaco (amarelinha), salada mista etc.3.1.3 Uma chuva forte: a casa caiu... Eu era muito pequena, mas consigo lembrar de uma chuva que deu aqui naregião em que encheu muitos tanques e o açude onde pegávamos água elavávamos roupas. Uma senhora chamada dona Raimunda morreu na hora dachuva, pois como foi muito forte, na época disseram que ela morreu com medo dostrovões. A nossa casinha de taipa (pau a pique), que ficava vizinho a um córregoenorme que chamávamos de barroca, infelizmente não resistiu à forte chuva e caiu,graças a Deus, não fomos atingidos, mainha saiu desesperada em busca de ajuda esó quando amanheceu o dia foi que nós percebemos que estávamos sem teto e coma ajuda de alguns parentes e amigos conseguimos salvar o pouco que nos restou enos mudamos temporariamente para uma outra casa. Sem casa e sem dinheiro, o que fazer? Meu irmão tinha uma porca, mainha
  31. 31. 30vendeu-a e conseguiu pagar a alguém para tirar varas no mato, e assimconseguimos reerguer a nossa casa. Todos reclamavam porque morávamos em umlocal tão perigoso, mas era o único que tínhamos, mainha sempre foi muitobatalhadora e com a ajuda de Deus conseguiu juntar o dinheiro necessário paranovamente fazer a casa de taipa ( pau a pique), com chão batido. Como estávamos crescendo, a casinha com dois cômodos estava ficandopequena, depois de algum tempo é que ela conseguiu pagar para bater adobes efazer uma cozinha e um quarto para meu irmão; não tínhamos sanitário, o banheiroera de palha de licurizeiro e só servia para tomar banho, o que era um sufoco.3.1.4 Uma estratégia para conseguir ajudar em casa, trabalhar e estudar À medida que fomos crescendo íamos ajudando mainha no que podíamossem que prejudicassem os estudos, o sistema funcionava assim: quem estudasseem um turno, iria no turno oposto para a roça, para Bonfim vender milho ou para acasa de alguém fazer algum trabalho doméstico, a fim de contribuirmos com asdespesas da casa; também catávamos ossos, mamona ou alumínio, material queera vendido ao seu Zé do bar, local onde também trabalhávamos. Nossa vida eramuito corrida, tínhamos que buscar lenha, água nos tanques, cuidar da casa, cuidaruns dos outros e ainda ajudar mainha. Uma pergunta sempre me vinha a cabeça:onde estaria o nosso pai? Eu tinha pouca lembrança dele, assim como sentia muitavontade de revê-lo.3.1.5 Ir à escola... Ou aquilo que eu não tive quero dar a vocês... Mainha sempre priorizou o estudo, ela dizia: “aquilo que eu não tive, querodar a vocês, por isso, estudem”, mas não era fácil manter cinco filhos na escola,numa época em que todos os materiais escolares teriam que ser comprados pelospais, mesmo assim, ela fazia questão e mesmo comprando o material aos poucos,muitas pessoas diziam: “tira a metade desses meninos da escola pra te ajudar, que
  32. 32. 31tu não agüenta sozinha”, mas graças a Deus ela não dava ouvidos a estasinterferências. Quando íamos para escola, lá em casa parecia um campo de concentração,pois todos os meninos da vizinhança vinham para que fossemos juntos, nãopodíamos perder um só dia, muitas das vezes íamos sem tomar café ou semalmoçar, então, a hora da merenda era uma alegria. Nunca reclamávamos dacomida, como muitos dos colegas faziam, pois além de derramar a merenda,ficavam dizendo bobagens às merendeiras. Lembro-me da sopa deliciosa de dona Margarida, do arroz com sardinha,das almôndegas... pois tínhamos que comprar o pão para comer com asalmôndegas, mas nem sempre mainha podia deixar o dinheiro para todos, aícomíamos as almôndegas puras mesmo, sem o pão. Uma vez um aluno estava comuma moeda para comprar o pão - é que o rapaz da padaria ia vender na escolacoitado do menino, engoliu a moeda. Foi um sufoco, precisou levá-lo para o hospitale, graças a Deus conseguiram tirar.3.1.6 Primeiras experiências escolares... Classe multisseriada, motivo peloqual aprendi a ler muito cedo Meus primeiros anos escolares foram em classes multisseriadas, acredito tersido este o motivo pelo qual aprendi a ler muito cedo, gostava tanto de ler que liatudo que vinha pela frente, sentia uma enorme sensação de liberdade, mainha dizia:“papagaio quando aprende ler sabe a cartilha toda, mas não sabe o A B C”. No ano de 1991 com sete anos já estava na 1ª série; em Tijuaçu as aulasaconteciam de terça à sexta-feira, porque na segunda-feira era o dia em se realizavaa feira livre: Nesse dia, mainha fazia um bico como tratadeira de fato de boi, nósíamos para feira pedir verdura e carne para fazermos a brincadeira do guisadojuntamente com os colegas da rua, era uma alegria, era também uma maneira de
  33. 33. 32amenizarmos o sofrimento.3.1.7 Os professores, leigos e dedicados Apesar de ficarmos sozinhos em casa, ninguém ousava desobedecer a umaordem dada por mainha, dificilmente perdíamos um dia de aula, só mesmo poralguma necessidade. Os professores na sua maioria eram leigos, mas, muitodedicados. Minha professora da 1ª série chamava-se Tereza, ela era muito paciente,todos gostávamos dela, eu tinha sete anos e como já sabia ler não sentia muitadificuldade de pegar as matérias, no final do ano ela fez um passeio para uma roça,mainha não me deixou ir, fiquei muito triste, mas eu sabia que ela só queria o melhorpara mim, pois no local tinha um tanque onde os meninos iam tomar banho, e comoeu por duas vezes tinha me afogado em um tanque onde lavávamos roupas, elaficou receosa em me deixar ir. Os alunos gostaram do passeio e nada de ruimaconteceu. Esta professora hoje é aposentada e continua morando em Tijuaçu, pelaqual tenho muito respeito. Nesta época passei por mais um problema de saúde e novamentedependendo de cuidados médicos mainha me levou para o meu padrinho meexaminar, ele passou alguns exames e foi detectado que eu estava com umainfecção urinária sofri muito, mas graças a Deus fiquei curada. Com quase oito anosfui batizada, mas, no dia meu padrinho não pode vir, pois estava de plantão e o filhodele me batizou, foi quando ganhei meu primeiro brinquedo era um kit contendo umsecador, um espelho, um pente, pó e escova, como ninguém sabia o que era umsecador, um dos meninos que estava presente falou que era um revólver debrinquedo. O ano letivo chegou ao final, e fui aprovada para a 2ª série, em 1992 já na 2ªsérie, a turma continuou praticamente a mesma, fui cada vez mais me aproximandodos amigos, tive ainda a feliz oportunidade de conhecer a professora Zilda a qualcarinhosamente chamávamos de Zildinha. Era jovem, paciente, e muito dedicada.
  34. 34. 33Mostrava que gostava de ensinar, íamos para a escola com prazer pois lá tínhamosa certeza que éramos bem vindos; os prédios escolares não tinha muros nemportões, mesmo assim não saía da escola, pois tinha o objetivo de estudar e meformar, não pretendia desistir e temia receber reclamação em casa.3.1.8 Nem bem professora e já fora despedida... Como já sabia ler, a vizinha me colocava para ensinar as filhas dela. Ela eramuito severa com as meninas e não as deixava sair de casa para brincar fora. Umdia eu fui ensinar uma lição que tinha na cartilha e tinha como título a palavra Gilete.Como já entendia a pronúncia das letras comecei ensinando da seguinte maneira:“vamos soletrar, gi-le-te”, a mãe das meninas quando viu aquilo ficou brava, poisachava que eu estava ensinando errado. Ela disse que o certo era “gi-ji-le-te”, noentendimento dela se pronunciava daquela maneira e foi uma confusão: me acusoude não querer ensinar direito a fim de que as filhas dela não aprendessem e medispensou das aulas. O futuro escolar das meninas não foi muito bom a mais velha desistiu muitocedo de estudar e a mais nova infelizmente faleceu de repente vítima de meningite.Me entristeci muito, pois éramos muito amigas, fiquei abalada, pois não entendiamuito destes assuntos de “adulto”, achava que a qualquer momento ela voltaria comaquela alegria de sempre.3.1.9 Em meio às dificuldades uma profecia Em uma visita à minha madrinha, ela me deu uma blusa que tinha uma lindapintura, ela é artista plástica, nesta pintura tinha escrito o meu nome, e o meupadrinho pediu para eu ler o que estava escrito, e eu li “Eliete”, então ele disse:professora Eliete, será que ele estava profetizando?
  35. 35. 34 Sabendo que mainha não poderia comprar outro caderno caso um acabasseeu escrevia as letras bem pequenas e nas entrelinhas para economizar, era tãopequena que só eu mesma conseguia entender, procurava sempre fazer a lição decasa cedo antes de escurecer, pois lá em casa ainda não tinha energia elétrica eestudar com o candeeiro era ruim, além do mais à noite todo mundo saía de casa oupara brincar na rua ou para assistir as novelas na casa de alguém. Na escola, na hora do recreio, gostava muito de brincar com os colegas,mas na sala de aula não dizia uma só palavra era muito tímida. Certa vez, teve umacampanha de vacinação que me marcou muito, fomos eu, minhas irmãs e minhasprimas para o posto de saúde em Tijuaçu para nos vacinarmos, chegando lásoubemos que quem se vacinasse ganharia um gibi, só que como eu era pequenatinha apenas 08 anos, a moça achando que eu não sabia ler não me deu arevistinha, e todas as meninas disseram para ela que eu sabia ler, logo ela falou:“então leia para eu ver se você sabe”. Na minha mente de criança eu não me achavana obrigação de provar para ela que eu sabia ler, então, eu não li, além disso, haviaa questão da timidez, o que me deixava envergonhada. A moça não me deu a revista e eu voltei para casa triste, minha prima, sóporque era maior, ganhou e nem sabia ler ainda e eu não ganhei, e isso ficou naminha mente por muito tempo, porque aquela moça não acreditou na minhapalavra? Ela nem trabalhava lá, estava apenas ajudando a mãe dela, daí entãotomei um trauma de vacina que só ia ao posto para vacinação quando era obrigada. Ao final do ano letivo a professora fez um amigo secreto, todos estavamansiosos para ver que presente ganharia, o embrulho da professora era lindo o quecausou curiosidade em toda a sala, só que apenas uma pessoa ganharia e estapessoa fui eu, ganhei uma linda blusa da “família Dinossauros” uma série de TV queestava passando na época, gostei muito da blusa e a usei por muito tempo. Passeipara a 3ª série, nas férias aproveitava para ir para a roça onde morava nossa avó.Íamos quase todos os dias era muito divertido, pois lá moravam alguns primosnossos e brincávamos e trabalhávamos bastante também.
  36. 36. 353.1.10 Estratégia de convivência: um aluno passivo para uma professora“durona” Na 3ª série, com 09 anos, a turma era praticamente a mesma, mas comalguns alunos novos. A professora não era muito aceita pela turma e ela tambémnão fazia questão de ser simpática, sempre muito séria, não puxava assunto quenão fosse referente às aulas. Não tenho lembrança de vê-la brincando ou em ummomento de descontração com toda a turma, apenas conversava com algumasmeninas, pois tinha alguns parentes aqui, mas ela era de Senhor do Bonfim, muitosalunos a temiam, pois não era o primeiro ano que ensinava na comunidade e todomundo já sabia da fama dela de durona. Teve até uma menina que era muitonervosa e não quis estudar com ela temendo ser reprovada, graças a Deus, não tivenenhum problema, pois sempre ficava quieta no meu canto e fazia as tarefas o queera considerado positivo, o aluno passivo que nunca reclama de nada e fazia tudosem questionar. A essa altura já sabia resolver alguns cálculos matemáticos, mas nãodominava a divisão, neste ano me tornei evangélica o que mudou completamente aminha vida; meu pai resolveu aparecer depois de muito tempo fora. Eu praticamentenão me lembrava mais da fisionomia dele, fiquei muito feliz em revê-lo, ele bebiamuito o que nos deixava muito tristes, pois nos maltratava com xingamentos epalavrões. Percebi, então, que a alegria se tornou em tristeza, já que o curto períodode tempo que passava em casa, a maior parte era bebendo, mainha sempreaguentou tudo calada e nunca falava mal dele para nós. Eu, muito sonhadora, sabia que um dia sairia daquela situação, o que mefazia ver as coisas um pouco mais além do que a minha mente de criança conseguiaalcançar, com uma mentalidade um pouco avançada já pensava no futuro. Lá emcasa continuava o mesmo sufoco mainha sozinha para manter cinco filhosestudando, em uma manhã antes de irmos para a escola meu irmão procurou acaneta e não encontrou-situação comum para nós - então, ele resolveu parar deestudar para ajudar mais mainha nas despesas. Ela ficou muito triste, pois ele
  37. 37. 36sempre foi muito inteligente, sabia fazer conta como ninguém, cubava terra parapessoas e já estava na 5ª série, mas foi uma decisão que ele tomou e ninguém podefazer nada. Eu e minhas irmãs continuamos estudando. Brincávamos de escola eu e minhas amigas, em nossa “escolinha” tínhamosde tudo, professora, diretora, merenda, quadro de giz, alunos, boletim escolar etc. euera a professora e a minha amiga Nadja era a diretora, a “escolinha” funcionava emum depósito do pai dela, era muito divertido, nem todos os dias dava para fazermerenda, pois cada aluno trazia um pouquinho de alguma coisa e nós fazíamos,mas, nem sempre tínhamos. Na escola regular, como a professora era contratada ameaçaram colocá-lapara fora. Isso gerou uma confusão entre os alunos, pois todos gostavam dela,então ela nos levou até uma fazenda de um vereador, que fica aqui próximo, parapedirmos a ele que não deixasse tirar a professora, ele prometeu que ela não sairia.Tempos depois ele cumpriu o que prometeu: a professora não saiu e no final do anoela fez um amigo secreto na sala, como eu não tinha dinheiro, não queria participarda brincadeira, com o incentivo da professora, eu trabalhei em seu Zé, ganhei umreal e levei para a escola, entreguei para professora comprar o presente.3.1.11 Chega o tão sonhado ginásio Quando cheguei a 5ª série no ano de 1995 levei um choque, pois estavaacostumada com apenas quatro disciplinas no currículo e agora teria 8 e professorpassava de um para vários. Confesso que tive um pouco de dificuldadeprincipalmente com matemática, pois como já disse não sabia resolver cálculos dedividir . Já estudava com minha irmã mais velha, na turma tinha muitos alunos que jáeram casados e tinham filhos. Nesta série tive uma experiência que considero uma das mais importantespara a minha vida escolar e pessoal, entre os professores tinha um especial, oprofessor Marcelo, morava na comunidade de Alto Bonito, era muito respeitado pelospais, pois tinha um método rígido, o que se constituía no desespero de muitos
  38. 38. 37alunos, minhas irmãs mais velhas já tinham estudado com ele, mas eu era a primeiravez... O professor de geografia sugeriu uma das atividades para casa, pediu quedesenhássemos o mapa do Brasil com os estados e as capitais. No dia seguinteentregamos as atividades. Muitos dos meus colegas pagaram para fazer. Eu comonão tinha como pagar, fiz e confesso que não ficou muito bom, mas, quando oprofessor olhou os trabalhos tivemos uma surpresa, ele pegou o meu mapa eperguntou de quem era, como eu era tímida fiquei quieta, aí ele me chamou, e eutremi toda, foi quando ele disse que aquele era realmente um trabalho, e segurandoa minha atividade disse que o importante era o esforço de cada um e não a beleza, emandou os demais alunos refazerem a atividade. Este momento para mim foi comouma quebra de barreira, pois até então eu era muito calada, dificilmente expressavaminha opinião, e quando o professor Marcelo me mostrou que eu era capaz,comecei a mudar, a participar das aulas, não mais temia “errar” pois aprendi que oerro faz parte do processo de aprendizagem 3.2 A ADOLESCÊNCIA: a organização do meu universo, o surgimento das primeiras paixões A adolescência é uma fase meio confusa, via o tempo passar como umfoguete e eu sem querer me desgarrar da inocência de criança, mas tendo que meacostumar com as responsabilidades de um “adulto”, tudo foi um pouco estranho nocomeço, pois gostava muito de brincar apesar de não possuir brinquedos, pensavaque dava para parar o tempo e permanecer naquele universo, mágico da infância,onde mesmo com muitas limitações considero ter sido a fase mais importante daminha vida. Naturalmente outros interesses foram surgindo e com eles as primeiraspaixões, assim também surge a necessidade de trabalhar; num universo demudanças, incertezas e inseguranças, felizmente encontrei no seio familiar e socialajuda para conviver com as mudanças, e sempre tendo a escola como prioridade. A adolescência nos faz pensar que não necessitamos de mais ninguém quedá para resolver tudo sozinho, começamos a dar prioridade aos amigos e
  39. 39. 38desconsiderar a opinião familiar, então tive que aprender que mesmo tendo crescido,não era suficientemente independente para fazer da minha vida o que quisesse,necessitava dos outros e principalmente da família para seguir o meu processo deformação física e profissional.3.2.1 Escola e trabalho infantil: uma experiência de aprendizado ediscriminação Nesta época, me apaixonei por um garoto, mas acho que ele nuncadescobriu, só quem sabia era eu e uma amiga, nunca namorei com ele, tinha medode apanhar, o tempo passou assim como a paixão e antes do início do ano letivo fuitrabalhar em Senhor do Bonfim, tinha apenas 13 anos, não foi uma experiênciamuito agradável, pois nem uma cama para dormir foi disponibilizado. Dormia nosofá, até quando a filha da patroa me colocou para dormir no chão em umcolchonete bem fino, alegando que o meu peso danificaria o sofá, logo após passei adormir na casa de outra pessoa, voltando bem cedo para o trabalho. Explorada, tratada como escrava, diante dos maus tratos, quinze dias depoispedi para ir embora, recebi como pagamento, cinco reais, mas estava contente,estava voltando para casa. Este acontecimento reforçou ainda mais o meu desejo demudar de vida. No ano de 1997, na sétima série, aprendi a resolver cálculos de divisão, emapenas um mês, com o professor Oberdan, que não continuou nos ensinandoporque foi selecionado no concurso da polícia. Outro fato de que tenho lembrança,foi uma atividade em que a professora solicitava uma história em quadrinhos, comoeu não sabia ainda o que era, fui procurar nos livros, até que uma prima meofereceu um exemplar, elaborei a atividade, mas para minha surpresa não eradaquela maneira, e isso me serviu de lição. Aos evangélicos não era permitido usar calça, o fardamento escolar eracomposto de blusa e calça, por razões de obediência a Igreja, eu usava a blusa coma saia, o que foi de encontro as orientações da direção da escola, que exigia o usodo uniforme completo, sob pena de não poder frequentar as aulas, fui motivo de
  40. 40. 39chacota dos colegas, fiquei envergonhada e preocupada ao mesmo tempo, pois nãoqueria parar de estudar, precisei quebrar as regras de Igreja, e consegui uma calçausada, pois não podíamos comprar uma nova, essa atitude da escola me fezperceber que muitas das vezes a escola se preocupa com questões burocráticas enão com o desenvolvimento dos alunos. Em 1998, na 8ª série, a turma continuavapraticamente a mesma, salvo por alguns alunos que haviam sido reprovados, asamizades já estavam bastante amadurecidas, com as quais continuo merelacionando até hoje. No currículo outras surpresas: começamos a estudar químicae física. Me acostumei rápido com as novidades que o currículo apresentava, osnovos assuntos de matemática também me atraiam. Mesmo convivendo com as pressões da adolescência tive que fazerescolhas, mesmo sem entender, mesmo assim, acredito ter feito a coisa certa já queas consequências não foram ruins, o que culminou com a escolha profissional nummomento em que estava finalizando o ginásio e entrando no ensino médio ealimentava o sonho da formatura. Mesmo precisando trabalhar, continuei os estudosfoi um pouco sufocado, mas havia a necessidade de contribuir com a renda familiarera indispensável que me dividisse entre o trabalho e a escola.3.2.2 Magistério... Mais barreiras trabalhei como empregada doméstica Mesmo com o desejo de ser professora, não escolhi fazer magistério, eu fuiescolhida pelo magistério, motivada por boatos de que o curso estava desvalorizadooptei por fazer formação geral, e graças a um equívoco da diretora da escola, fuimatriculada no magistério, as colegas solicitaram transferência de curso,continuamos estudando juntas. Para mim, não foi fácil cursar o magistério, pois precisava trabalhar, e aúnica opção era ser empregada doméstica, só que o curso era oferecido no turnovespertino, foi uma luta, mas eu tinha um objetivo, que era o de continuar meusestudos para que no futuro pudesse escolher em quê trabalhar. Como aqui emTijuaçu só era oferecido o ensino fundamental quem passasse para o ensino médiotinha que ir cursar em Senhor do Bonfim.
  41. 41. 40 No ano de 1999, aceitei o desafio de trabalhar e estudar, era muito cansativoentão no 1º ano do curso de magistério, não consegui suportar a pressão e desistide trabalhar, tornando as coisas ainda mais difíceis, pois como compraria asapostilas que os professores passavam, recorrer à família era impossível, elestambém não tinham como ajudar. Como estava estudando para ser professora, umadas atividades do curso é o estágio de observação, foi então que retornei a EscolaMunicipal Antônio José de Souza, a mesma escola em que eu havia estudado até a5ª série, só tinha uma diferença, antes eu era aluna agora estava buscando a minhaformação, foi uma experiência muito prazerosa. Na escola já estávamos sendo preparados para aprender a dar aulascausando nervosismo em muitos colegas, mas não tive problemas quanto a isso,pois o medo de falar na frente das pessoas estava sendo vencido. Com o final doano letivo veio também a minha aprovação para o 2º ano. Entre o trabalho comodoméstica e o estudo cheguei ao estágio, interrompi o trabalho neste período,retomando logo depois. Ainda no estágio presenciei um acidente fatal com um aluno,até hoje não consigo esquecer aquela cena. Em 2001, quando cheguei ao terceiro ano continuei trabalhando eestudando, não era fácil, mas fazia o quanto podia para não ter que desistir deestudar, novamente precisei fazer o estágio para conclusão do curso de magistério,então, saí do trabalho por um tempo retornando depois. Antes de terminar o ano letivo ficamos sabendo no colégio que aUniversidade do Estado da Bahia (UNEB) estava no período de inscrição para ovestibular e que os alunos de escolas públicas tinham o direito a isenção se tivessemédia 6,0 em português e matemática, e só ficamos sabendo disso no último diapara inscrição, então, eu e algumas colegas nos dirigimos até a secretaria da escolapara pedirmos o documento com as notas, para realizarmos a inscrição novestibular. Como estávamos concluindo o ensino médio a escola realizou algumassolenidades de formatura, com isso não pude estudar e o vestibular ficou para outraoportunidade. Entre 2002 e 2005, foram muitas as tentativas de concurso, sem resultados
  42. 42. 41positivos, como estava noiva, resolvi-me casar, algumas dificuldades surgiram, atésurgir a oportunidade de trabalhar no programa de alfabetização do governo, fomosaté a secretaria de Educação do Município, conseguimos a vaga, só que tínhamosque conseguir os alunos e isto nós fizemos. Então me vi divida entre o trabalhodoméstico e o de professora, a princípio deu certo, pois eu ensinava só à noite, masdepois não deu e eu optei por ficar trabalhando só com a escola, era um trabalhomuito gratificante, e trabalhar com adultos, então, me deu a oportunidade deaprender muitas coisas, inclusive de estudar no cursinho pré vestibular do governo,Universidade Para Todos.3.3 A FASE ADULTA: as minhas primeiras experiências profissionais e o sonhode ser mãe e professora É o que chamamos de fase adulta, quando determinadas atitudes, já nãosão mais aceitas. Foi nesse período que tive a minha primeira experiência comoprofessora, quando também passei no vestibular, realizei o meu maior sonho que foio de ser mãe, mas continuei determinada a conseguir os meus objetivos, e mesmodepois que tive o meu filho, não parei, pelo contrário, continue estudando e tive afelicidade de passar em três concursos públicos, e a correria só aumentou, pois tivee tenho que ser , mãe, esposa, dona de casa, profissional, estudante, ufa! E aindatenho tempo par ser feliz, é uma fase muito boa em que cada dia mais, aprendo eretiro algumas coisas não mais necessárias e estou perto de conseguir minhasegunda formação como professora, hoje já atuando. E estou sempre aberta anovas aprendizagens que com certeza serão muitas nas novas fases que virão, comfé em Deus. Iniciado o processo seletivo da UNEB, fiz a minha inscrição para o curso depedagogia, fiz as provas do vestibular e fui aprovada depois de algumas tentativas; oresultado foi informado por uma colega, que chegou até a minha casa avisando quetinha visto o meu nome entre os aprovados do vestibular da UNEB. Este foi ummomento de grande significado para mim, para minha mãe a notícia foi recebidacom naturalidade, afinal ela não entendia o significado deste acontecimento. Nareunião da Associação Quilombola fui parabenizada por todos os companheiros,muitos compartilharam dessa alegria comigo, foi um momento muito importante.
  43. 43. 42 Um novo tempo se iniciou, em 2006 fui aprovada em concurso publico daPrefeitura de Senhor do Bonfim, neste mesmo período a associação ganhoualgumas máquinas de corte e costura, e abriu um curso para quem quisesseaprender a costurar, eu me matriculei, gostava muito, fiz novas amizades, e algumtempo depois já estava confeccionando bolsas, a experiência foi fantástica, tambémtivemos a oportunidade de fazer cursos pelo SEBRAE, uma empresa foi criada ecomeçamos a trabalhar fabricando bolsas para comercialização.3.3.1 A Universidade: passei a viver outra realidade, outras portas se abriram As aulas começaram na faculdade estava um pouco apreensiva e ansiosa,mas logo me entrosei com a turma na qual já haviam pessoas que eu já conhecia,um novo mundo então foi sendo descoberto, os autores estudados a experiência decolegas e o contato com professores passei a viver outra realidade, até entãodesconhecida. Neste mesmo período saíram os resultados dos concursos para osquais havia me inscrito, O Regime de Direito Administrativo – REDA, do estado, paraauxiliar administrativo e da Prefeitura de Filadélfia para professor; mesmo estandonos últimos meses de gestação, Escolhi trabalhar no Colégio Estadual de Senhor doBonfim, mas com 15 dias que estava trabalhando, mais precisamente no dia 12 dejulho de 2007, dei a luz a meu filho Lucas Emanuel. Trabalhar no Colégio Estadual foi muito gratificante, pois conheci pessoasque acreditavam em mim, e torciam para que eu não desistisse dos meus sonhos,sou muito grata a todos que com seu carinho e amizade me ajudaram a crescer. Agora me dividia entre dois trabalhos família e faculdade. Tinha dias quepensava que não ia dar conta. No ano de 2009 ao chegar à Escola José de Anchietano povoado de Aguadas, tudo era novo para mim, senti um pouco de dificuldades noplanejamento das aulas, pois não havia participado do planejamento coletivo, vistoque ainda estava em questão com a prefeitura. Mas com o passar do tempo fuipegando o jeito e sempre procurava e procuro desenvolver meu trabalho da melhorforma possível, já é o 3º ano consecutivo que trabalho nesta escola, fortalecendocada vez mais os laços de amizades, com alunos, e corpo docente e comunidadelocal.
  44. 44. 433.3.2 Curso de pedagogia O curso de pedagogia para mim foi e é uma realização, adentrar neste novomundo me causou muita expectativa, as aulas, os debates, desenvolvimento dostrabalhos, a preparação e apresentação dos seminários, como também meangustiava muito com os trabalhos interdisciplinares, já no primeiro semestretivemos que fazer um artigo, até então não sabia o que era, dificultando ainda mais odesenvolvimento do trabalho, como éramos todos leigos no assunto escolhemosuma temática não muito boa de desenvolver, mas mesmo assim fizemos e foi muitoválida a experiência. A minha turma era muito boa. Fiz muitas amizades afinal éramos 50 pessoasdiferentes. Cada um com a sua história, seu jeito, e suas experiências, tive aoportunidade de aprender muito, seja com os professores que sempre estavamdispostos a compartilhar seus conhecimentos e com os colegas, nos debates, nasapresentações, e nos trabalhos em equipe. Algo que sei que não vou me esquecerforam às atividades interdisciplinares, pois além de produzirmos os trabalhosescritos (artigos, projetos e relatórios) tínhamos que participar de um sorteio para verquem iria apresentar e esta apresentação era para todas as turmas do curso depedagogia e os demais cursos. Apresentei algumas vezes, mas não tinha problemaem falar em público, ser evangélica e participar das atividades da igreja me ajudou aperder a timidez. Mesmo com o sofrimento, sabia que os trabalhos interdisciplinares eramnecessários à nossa formação, em um semestre do curso a turma entrou emconflito, pois os sorteios eram feitos na hora da apresentação, então queríamos queeste sorteio fosse feito antes, gerando uma enorme confusão, com o colegiado, ecom a professora da disciplina. Mas no final tudo se resolveu e os trabalhos foramapresentados. Como sou adventista não frequentava as aulas nem na sexta feira à noitenem no sábado pela manhã, então a cada dois semestres perdia duas disciplinas,mas felizmente o campus começou a disponibilizar turmas à tarde, facilitando assimpara mim e outros colegas para assim podermos cursar as disciplinas que
  45. 45. 44estávamos devendo, e no início como trabalhava pela manhã, ficou fácil. Entretantocomo meu filho ainda era pequeno, passar o dia fora era complicado, pois estavaamamentando então nos dias que necessitava ir para a faculdade, minha irmã traziao Lucas para que eu pudesse amamentá-lo enquanto estudava, mas depois quecomecei a trabalhar o dia todo ficou mais difícil, mas mesmo assim conseguianegociar e continuei cursando as disciplinas, o que me ajudou a não atrasar o curso. No componente curricular: Educação e Cultura Afro-brasileira tive aoportunidade juntamente com o grupo inseparável de apresentar um trabalho sobreTijuaçu, foi emocionante, contar a história do lugar onde vivo, apresentamos aHistória, convidamos um membro da Associação Quilombola para dar uma palestrae a presença marcante do samba de lata, meu esposo estava vendendo acarajé noCampus, no final da apresentação servimos acarajé de cortesia, Quando chegou o período de fazer os estágios exigidos pelo curso, me vinovamente em apuros, pois como poderia trabalhar e estagiar ao mesmo tempo?Mas graças a Deus que, as pessoas com quem trabalho são compreensivas, e nãome impediram de cumprir os estágios, pelo contrário me deram muita força para nãodesistir. Desde o 2º semestre começamos a trabalhar com a temática diversidadecultural em sala de aula, e quando os trabalhos passaram a ser desenvolvidosindividualmente, continuei com essa temática até o 7º semestre, para odesenvolvimento dos estágios escolhi a mesma Escola que estudei e fiz os estágiosdo ensino médio, e novamente tenho oportunidade de voltar no tempo e relembrardo meu começo na vida escolar, foi muito gratificante. Trabalhamos nos estágioscom: educação infantil, séries iniciais e educação em espaços não-formais. Participeitambém da elaboração e aplicação de um projeto de ensino e extensão com o temahigiene bucal. Já no 8º semestre, voltamos a trabalhar em grupo, o estágio que realizamosfoi em espaços não-formais. Então optamos por trabalhar com ludicidade,escolhemos a turma do programa de erradicação do trabalho infantil (PETI), aqui emTijuaçu, confeccionamos vários brinquedos com objetos reciclados como também
  46. 46. 45desenvolvemos vários tipos de brincadeiras. Foi muito legal. Como não consegui acompanhar a turma no 9º semestre me matriculei parafazer o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), aí surgiram as dúvidas: quetemática vou escolher para o meu TCC? Escolhia uma, não me encantava, outra emais e mais e nada. Foi então que em uma conversa com a professora Glóriacomecei a desabafar sobre o meu processo escolar, e a minha vontade de contar asminhas histórias, mas como “achava”, motivada por boatos de que só é válido sealguém já trabalhou com a temática antes, não poderia. Fiquei tentando meencontrar onde não estava, e nesta conversa com a minha orientadora descobri quepoderia sim fazer uma narrativa autobiográfica. Isto me deixou empolgada. Agorasim vou fazer o que sempre quis e pensei.
  47. 47. 46 CONSIDERAÇÕES FINAIS Atualmente me vejo como aluna remanescente de quilombos, no 10ºsemestre buscando a minha formação como pedagoga, para tanto terminando deconstruir o meu (TCC), onde narro a minha história de vida e formação, sãomomentos muito emocionantes parece que estou revivendo minha vida, o choro éinevitável, pois, existiram momentos que não trouxeram boas lembranças, mas,enxugo as lágrimas e continuo com a certeza de que tudo que aconteceu foi válido,por isso estou contando. E sei que muito tenho que aprender, e estou disposta aisso. Escrever sobre a minha trajetória de vida me conduziu a uma descobertasurpreendente: até então nunca tinha parado para refletir sobre a minha pessoa eagora sei que sou uma mulher cheia de coragem e decisão em lutar por tudo quedesejo por mais difícil que seja. Se antes eu era autora/atriz das minhasexperiências e vivências, hoje sou também expectadora: este trabalho monográficome coloca nesta posição uma vez que escrevendo e relembrando assisto e revivo aspassagens da minha vida como num filme, chorando e sorrindo ao mesmo tempo,pois se muito sofri por causa das dificuldades que enfrentei, agora posso sorrirporque me sinto vitoriosa por ter vencido esta fase tão difícil e triste do meupassado. Lembro-me de alguns dizeres animadores de um autor desconhecido“Todo obstáculo é um caminho e toda pedra nesse caminho, um trampolim”. Acredito que, com o apoio materno, transformei obstáculos em caminhos esaltei pedras como se saltasse de um trampolim para uma vida melhor, não só paramim, mas para todos os meus entes queridos a minha volta e tomo novamente porempréstimo as palavras de um autor desconhecido; ”Quando alguém evolui, evoluitudo o que está a sua volta”. Cabe salientar que, é de suma importância a abordagem autobiográfica noprocesso de formação de professores, como está sendo para mim futura pedagoga àautocompreensão do que somos e das aprendizagens que adquirimos ao longo davida e no decorrer da nossa formação docente.
  48. 48. 47 Está sendo muito difícil encerrar este trabalho, principalmente porquerepresenta o começo de uma nova trajetória em minha vida: a minha promoção paraoutros novos conhecimentos num patamar mais alto da formação continuada; seique para as experiências que estão além dos muros da Universidade meaguardando, tudo o que vivi e aprendi e relatei aqui, me servirá de base paraenfrentar e vencer com reflexão, criticidade e sabedoria os revezes da vida;significando uma farta munição para continuar a árdua jornada, buscando o melhorpara mim, para os outros e para o mundo. Enfim, antes de acionar a tecla “pause” ainda tomo a liberdade de convidara todos que analisarem e apreciarem este trabalho para uma breve reflexão sobre aafirmativa de Nietsche (2003) “Ninguém pode construir no teu lugar a ponte que teseria preciso tu mesmo transpor no fluxo da vida – ninguém exceto tu”. Baseadanisso, é que construí com as ferramentas da educação a ponte para atravessar deum lado a outro da minha vida - da ignorância para a sabedoria; da desinformaçãopara a formação e do fracasso para o sucesso.
  49. 49. 48 REFERÊNCIASÁRIES, (1981) PHILIPPE, Áries. História Social da infância e da família. TraduçãoDora Flaksman. Rio de Janeiro, Guanabara, 1981.ALBUQUERQUE JUNIOR, D.M. de. Historia: a arte de inventar o passado.Ensaios de teoria da história. Bauru, SP. Edusc, 2007.CARVALHO, Eronilda Maria Góis. Educação Infantil: percurso, dilemas eperspectivas. Ilhéus, BA. 2003.FONTANA, R. e CRUZ, M. N da. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo,Atual, 1986.FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 7ª ed. São Paulo, Paz e Terra, 1983.GARCIA, Regina leite (org.). Método: pesquisa com o cotidiano – DPEA, 2003.JOSSO, Marie- Christine. Experiências de vida e formação/ Marie- ChristineJosso; prefácio Antônio Nóvoa; revisão científica, apresentação e notas à ediçãobrasileira Cecília Warschauer; tradução José Claudino e Júlia Ferreira; adaptação àedição brasileira Maria Vianna. _ São Paulo: Cortez, 2004.________, Josso, Marie-Christine – Experiência de vida e formação. Lisboa:EDUCA 2002.LAJOLO, Marisa. Infância de papel e tinta. In: FREITAS, Marcos César. HistoriaSocial da Infância no Brasil. São Paulo: Cortez, USF; IFAN, 2001LARROSA, J. Literatura, experiência e formação. In: COSTA, M. V. Caminhosinvestigativos – novos olhares na pesquisa em educação. Rio de Janeiro: DP&A,2002, p. 133-160.LECHNER, Elza. Narrativas autobiográficas e transformação de Si: deviridentitário em ação. 2003.MENEZES, Ulpiano Bezerra de. Identidade cultural e arqueologia. Valorização dopatrimônio arqueológico brasileiro. Bibliografia. In: BOSI, Alfredo. CulturaBrasileira Temas e Situações. 4ª edição. São Paulo, Editora Ática, 2002.MIRANDA, Carmélia Aparecida Silva. Vestígios recuperados: experiências dacomunidade negra rural de Tijuaçu- BA/ Carmélia Aparecida Silva Miranda. - SãoPaulo: Annablume, 2009.
  50. 50. 49MOITA, Maria da Conceição. Percursos de formação e de trans-formação. In.:NÓVOA, António. Vidas de professores. 2ª ed. Porto Editora, Porto, 1992.NIETZCHE, F. Schopenhauer Educador (Terceira Consideração Intempestiva).Trad. N.D. de M. Sobrinho. São Paulo: Loyola, 2003PASSEGI, Maria da C. BARBOSA, Tatyana Mabel N.(org.). Memória e memoriais:pesquisa e formação docente. Natal, RN: EDUFRN: São Paulo: Paulus, 2008.PÉREZ, Carmen Lúcia Vidal. Cotidiano: história(s), memória e narrativa. Umaexperiência de formação continuada de professoras alfabetizadoras. In.:GARCIA, Regina Leite (org.). Método: Pesquisa com o cotidiano. DP&A, 2003.RAMOS, F. P. A história trágico-marítima das crianças nas embarcaçõesportuguesas do século XVI. In: DEL PRIORE, M. (Org.). História das crianças noBrasil. São Paulo: Contexto, 2006. p. 19-54.SILVA, René Marc da costa, Memória, Identidade e Patrimônio. In: Culturapopular e Educação. Salto para o Futuro, Brasília: Salto Para o Futuro / TV Escola/ SEED/MEC, 2008.SOUZA, Elizeu Clementino de. O conhecimento de si: estágio e narrativas deformação de professores. DP&A, Salvador-BA, UNEB. 2006._________, Elizeu Clementino de. Maria Helena Menna Barreto Abrahão, (orgs.)Tempos, narrativas e ficções: a invenção de si: Marie Christine Josso, Prefácio. -Porto Alegre: EDIPUCRS: EDUNEB, 2006._________, Elizeu Clementino de. A arte de contar e trocar experiências:Reflexões teórico-metodológicas sobre História de Vida em formação. In:Revista Educação em Questão. Natal. v. 25, n. 11, p. 22-39, abr., 2006. Disponívelem: <http://www.inep.gov.br/pesquisa/bbe-online/det.asp?cod=68640&type=P>_________, Elizeu Clementino de. Histórias de Vida, escritas de si e abordagemexperiencial. In: Souza, E.C. de; Mignot, A.C.V. (orgs) Historias de vida eformação de professores. Rio de Janeiro: Quartel, 2008.__________,Eliseu Clementino de. (Auto) Biografia, identidade e Alteridade: Modosde Narração, Escritas de Si e Práticas de Formação na Pós-graduação.Disponível em: Http://www.posgrap.ufs.br/periodicos/revista_forum-identidades/revistas
  51. 51. 50ANEXOS
  52. 52. 51 ALGUMAS FOTOSFoto 01: Infância: meu batismo na Igreja Adventista do 7º dia. Acervo Eliete Foto 02: Adolescência: eu e Neto. Acervo Eliete
  53. 53. 52 Foto 03: Conclusão da 8ª série. Acervo ElieteFoto o4: Conclusão do Ensino Médio, (curso de magistério). Acervo Eliete
  54. 54. 53Foto 05: Casamento, eu mainha e neto Acervo Eliete Foto 06: Gravidez, eu. Acervo Eliete
  55. 55. 54 Foto 07: Nascimento do meu filho Lucas Emanuel. Acervo ElieteFoto 08: Minha mãe Dejanira e meu filho Lucas Emanuel. Acervo Eliete
  56. 56. 55Foto 09: Meu pai Evanio e minha irmã Silvania. Acervo Eliete Foto 10: Minha irmã Marilza e Lucas. Acervo Eliete
  57. 57. 56 Foto 11: Minha irmã Josenice. Acervo ElieteFoto 12: Minha irmã Evanice e Lucas. Acervo Eliete
  58. 58. 57 Foto 13: Minha irmã josenice e meu irmão Evaniel ( Netinho)Foto14: Equipe de Professores e direção da Escola Municipal José de Anchieta(2009) Acervo Eliete
  59. 59. 58 Foto 15: No estágio em espaços não formais (PETI). Acervo ElieteFoto 16: Grupo inseparável do curso de pedagogia: Alice, Elaine, Simone, Cícero eeu. (acervo Eliete)
  60. 60. 59Foto 17: Silvania, minha sobrinha, Ana Carolina, Marilza e Lucas (acervo Eliete) Foto 18: Minha sobrinha Daise (acervo: Eliete)
  61. 61. 60Foto 19: minha sobrinha, Ana Júlia e Lucas (acervo Eliete) Foto 20: Neto Lucas e Eu (acervo Eliete)
  62. 62. 61 Foto 21: Vista d o monte de Tijuaçu. Acervo ElieteFoto 22: Vista da Praça do Comércio Tijuaçu. Acervo. Eliete

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