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Monografia Bruna Pedagogia 2008

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  • 1. 10 INTRODUÇÃO A presente Monografia apresenta um trabalho baseado em pesquisa e emanálises de dados que nos possibilitou através da observação e aplicação dequestionário, bem como da pesquisa bibliográfica pensar acerca da temática entre aexperiência de artistas/professores na cidade de Senhor do Bonfim, professores eartistas, a partir desse estudo refletir sobre suas práticas pedagógicas dentro dasescolas. Atualmente alguns artistas têm assumido o papel de educador e tem atuadonas escolas como professor. Nosso interesse nesse campo investigativo da arte-educação é percebemos a importância da ocupação desse lugar pelos artistas, umavez que os mesmos, em suas atuações artísticas, nas experiências de formação queacessam e que já vêm participando nos espaços não-formais de educação,principalmente nos grupos teatrais da qual fazem parte, possibilitam a esses artistasvivências com outros conceitos e práticas de formação, e de educação. Como afirma Ana Mãe Barbosa, o artista não necessariamente é umprofessor nas instituições de ensino. No entanto, ao ocupar esses espaços, o artista,agora professor, atua com legitimidade nos espaços de educação formal, trazendoconsigo toda uma bagagem adquirida ao longo de sua formação artística. Comoeducador o artista questiona a própria conceituação da realidade. O seu modo deeducar é um incessante recomeçar, pois ele tem consciência de que a históriahumana recomeça em cada novo indivíduo que ele educa. Logo, o artista é umeducador na íntegra da palavra. O artista como educador, busca desenvolver noaluno a consciência do corpo e aprimorá-lo enquanto instrumento de expressão e deapropriação do conhecimento. Esse trabalho conduz a uma reflexão acerca do fazer artístico e doeducacional, e do papel do artista nesse processo. Esse desenvolve umametodologia didático-pedagógica diferenciada, como estratégia para um ensino comarte. E nesse contexto, o artista/professor trabalha buscando no emocional, naimaginação e na criatividade um maior contanto como os alunos em sala de aula,
  • 2. 11desenvolvendo estratégias para um ensino-aprendizagem mais estimulante esignificativo. Este trabalho está estruturado em quatro capítulos. O primeiro capítulo trata-se do desenvolvimento e apresentação da problemática que nos levou a investigarsobre esse assunto, o segundo capítulo vem a tratar ao que se refere afundamentação teórica em que discorremos sobre de educação, arte e a arte-educação, buscando uma relação entre tais conceitos e suas possíveis articulações;neste capítulo faz-se referência à educação com arte, à importância da arte naformação do homem, a função do artista na escola, o artista/professor no espaçoescolar e como o professor desenvolve suas experiências de ensino-aprendizagem.No terceiro capítulo é abordada a metodologia, instrumentos de pesquisa,desenvolvendo-se um campo de discussão teórica de acordo a nossa opçãometodológica, são enumerados os passos que foram seguidos na elaboração dopresente estudo; o quarto capítulo aborda os resultados obtidos na pesquisa, suaanálise e discussão. Finalmente, fazem-se as considerações finais.
  • 3. 12 CAPÍTULO I PROBLEMATIZAÇÃO O processo de ensino-aprendizagem exige do professor, a criatividade,flexibilidade, escuta e limite, além de competência acadêmica. Diante de umagrande massa de informações sobre o crescimento e desenvolvimento humano,educar torna-se um ato muito complexo e também muito delicado. O ato de ensinarrequer sensibilidade, capacidade de improvisação, imaginação e domínio dalinguagem. Contemporaneamente está havendo um processo de transformação nasescolas, estas buscam um ensino mais significativo e atraente para o aluno. Diantedisso, torna-se necessário o uso de diferentes ferramentas e estratégiaspedagógicas no processo de ensino e aprendizagem. No entanto ao longo da história, a escola foi o lugar do desprazer, da rigidez,da razão. Pouco ou quase nunca se considerou a emoção, a sensibilidade, ossentimentos. Os espaços escolares acabam se tornando, mais o lugar de controle,de medo, do que o espaço de formação que leva em consideração a corporeidade,as diferentes expressões e sentimentos, elementos fundamentais nodesenvolvimento de uma experiência educativa com arte. Ensinar é uma arte e para ensinar com arte é preciso que o professor seaproprie de alguns elementos tratados na arte de um modo geral, como imaginação,criação, poética, leitura e fruição, o prazer elementos básicos para a materializaçãoda arte e o exercício artístico na escola formal. Com esse contexto, busca-se doprofessor uma outra postura, percebendo a educação a partir de outra perspectiva,uma perspectiva que leve em conta os aspectos da emoção, da sensibilidade e daimaginação, disposto a romper com a lógica do racionalismo, e nesse sentidorevestir-se do papel de artista, daquele que imagina, cria, muda, e faz educação comarte e que fazendo arte na educação, torna o ensino mais motivador. Pensando no ensino com arte, ou seja, na arte-educação, conduz a umareflexão acerca do fazer artístico e do educacional, e do papel do artista nesseprocesso, no espaço da escola, acreditando-se que este desenvolva umametodologia didático-pedagógica como estratégia para um ensino com arte, sendo a
  • 4. 13aula uma obra de arte. O que seria então a aula como uma obra de arte? É a aulaque incentiva a criação e como os alunos gostam de criar torna-se necessário utilizaresse prazer como um instrumento de trabalho. Nesse contexto, o artista/professortrabalha buscando com o emocional, a imaginação e a criatividade e promove ummaior contato com seus alunos em sala de aula, uma vez que esses aspectos naformação das pessoas tratam-se de linguagens que desencadeiam um movimentode aprendizagens significativas. O potencial criativo do ser humano é um fator de realização e detransformação. Para Fayga (1987, p. 10) “ele afeta o mundo físico, a própriacondição humana e os contextos culturais”. Continua Fayga (1987, p. 12): “[...] osprocessos de criação interligam-se intimamente com o nosso ser sensível. Mesmono âmbito conceitual ou intelectual, a criação se articula principalmente através dasensibilidade”. Criar é então, formar algo novo. Logo, todos os seres humanos,possuem criatividade porque ela é intrínseca ao homem. Através da imaginação seformam idéias abstratas que se transformam em novos fatos: isso é criatividade! A arte transforma o ser humano, torna-o mais livre, mais criativo. A literatura,a história, a música, a corporeidade são necessidades vitais ao ser humano. Quandose mostra ao aluno um ensino diferente, quando ele utiliza a arte como estimuladorade seus pensamentos e saberes aprendidos, está aprendendo mais e melhor, deforma mais prazerosa e com melhor compreensão e integração. Os artistas que atuam nas escolas como professores incorporam em suaspráticas pedagógicas elementos como a criatividade, a imaginação, a corporeidadee desenvolvem atitudes de cumplicidade, o que permite um desenvolvimentopsicológico positivo nos alunos, porque essa forma de agir estabelece uma relaçãoprofunda entre eles e os alunos. Alem disso, os artistas/professores possuem muitashabilidades e talentos e para eles, a sala de aula é um espaço para discussão,análise e crítica de todos os acontecimentos que acontecem dentro e fora dela.Geralmente, os profissionais artistas que atuam nas escolas se “sustentam numaconstrução autopoética, ou seja, numa ação de produzir a si mesmo mediada porum trabalho reflexivo sobre o que foi observado, percebido e sentido” (BIASOLI,1999, p. 48).
  • 5. 14 A docência tem sido amplamente procurada por artistas que percebem aescola como um lugar possível de recebimento e de troca, um local onde serealizam ações de ensinar e aprender, uma troca de conhecimentos, umenriquecimento de novos saberes. Eles já perceberam que o espaço escolar é umambiente fértil para proliferar o desenvolvimento da criatividade. Esse trabalho pretende desenvolver uma pesquisa, estudo de caso, deprofessores que são artistas e que atuam em escolas particulares na cidade deSenhor do Bonfim. Neste caso os quatro professores em estudo exercemprincipalmente a arte da dramatização: são atores de teatro. Observando esse fatosurgiu a curiosidade em investigar como esses artistas que lecionam em escolasparticulares se sentem dentro de uma sala de aula, fazendo um trabalho diferentedaquele que realizam no teatro. Esse foi o motivo que gerou à execução desteestudo monográfico. Então, pergunta-se como será que esses atores se vêem noprocesso da educação? Como atuarão esses artistas no palco da sala de aula? Eisas questões norteadoras deste estudo. Para isso estaremos diante da questão:Como os atores de teatro que trabalham como professores se sentem em uma salade aula? E como desenvolvem sua práxis pedagógica? Nesse percurso investigativo, algumas perguntas contribuem para a busca denossas respostas: Quando o artista é trazido para a escola, qual o papel dele? Seráque transformam seus dotes artísticos em métodos didáticos criativos? comodesenvolvem sua práxis pedagógica? Esse trabalho objetivou investigar a práxis pedagógica dos atores de teatroque atuam como professores nas escolas Casinha Feliz1, Sacramentinas2 e CentroEducacional Professora Isabel de Queiroz, analisar os seus pontos de vista diantedo ensino-aprendizagem e como eles realizam o trabalho pedagógico nestasescolas.1 Nome como é popularmente conhecida a escola. Seu nome correto é Centro Educacional SagradoCoração (CESC).2 Nome como é popularmente conhecida a escola. Seu nome correto é Educandário Nossa Senhorado Santíssimo Sacramento.
  • 6. 15 CAPÍTULO II A EDUCAÇÃO, A ARTE E A ARTE-EDUCAÇÃO2.1 Conceituando a Educação A ação que as pessoas adultas exercem sobre os jovens em sua formaçãopara a vida em sociedade, é o que se chama de educação. Ela incute e desenvolvenos mais jovens, valores intelectuais, culturais e morais reclamados pela sociedadevigente. Para Brandão (1995, p. 16) a “Educação é um dos principais meios derealização de mudança social ou, pelo menos um dos recursos de adaptações daspessoas, em um mundo em mudança”. Pode-se dizer que educação é o ato de ensinar e de aprender, é ensinar auma criança a andar ou a falar, a escrever e a ler. Para Freire (1983) a educação éum encontro entre interlocutores, que procuram no ato de conhecer a significação darealidade e na práxis o poder da transformação. A educação, segundo Freire (1983),deve ter como objetivo maior desvelar as relações opressivas vividas pelos homens,transformando-os para que eles transformem o mundo. O mais importante no processo de educar não é o conteúdo, mas, é oprocesso de formação, o modo e a relação que se constrói nesse processo. Educaré desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais do ser humano(RAMAL, 2002). Educação é o processo através do qual os indivíduos podemadquirir ou desenvolver competências e capacidades em interação com outros, emcontextos organizados, formais ou informais. Para Freire (1998, p. 54) educar é “capacitar pessoas a lidarem crítica ecriativamente com a sua realidade social, e não simplesmente adaptá-las a ela [...]um exercício de libertação [...] uma conscientização”. Cada pessoa é única e seletivapois aprende aquilo que sente ser importante para a sua existência. Portanto: Uma educação que apenas pretenda transmitir significados que estão distantes da vida concreta dos educandos, não produz
  • 7. 16 aprendizagem alguma. É necessário que os conceitos (símbolos) estejam em conexão com as experiências dos indivíduos. Voltamos assim à dialética entre o sentir (vivenciar) e o simbolizar (DUARTE JUNIOR, 2001, p. 23). A aprendizagem acontece quando os conhecimentos fazem sentido, tantopara quem os transmite quanto para quem os recebe. É necessário então, que oeducador e o educando sejam participantes da ação educativa, visto que aeducação é um processo dinâmico que requer um educador e um educando atentospara as questões que envolvem o processo de educação enquanto uma experiênciade troca e tematização. Read (1982, p. 24) salienta que: A educação é o apoio do desenvolvimento, mas à parte a maturação física, o desenvolvimento apenas se manifesta na expressão – signos e símbolos audíveis e visíveis. A educação pode ser definida como o cultivo de modos de expressão – consiste em ensinar as crianças e os adultos a produzir sons, imagens, movimentos, ferramentas e utensílios. Um homem que consegue fazer bem estas coisas é um homem bem-educado. Se pode produzir sons, é um bom orador, um bom músico, um bom poeta; se pode produzir imagens, é um bom pintor ou escultor; se pode produzir bons movimentos, é um bom dançarino ou trabalhador [...]. Todas as faculdades de pensamento, lógica, memória, sensibilidade e intelecto, estão envolvidas nestes processos e nenhum aspecto da educação está aqui excluído. E todos eles são processos que envolvem a arte [...]. O objetivo da educação é por isso a criação de artistas – de pessoas eficientes nos vários modos de expressão. Pode-se acrescentar que a educação é uma ciência e uma arte, no sentido deque sendo ciência desenvolve pesquisa e mecanismos que transmitem aos maisjovens os conhecimentos acumulados até então e sendo arte, no sentido deacreditar em outras possibilidade da própria educação , que é educação pela arte.Logo, a educação na perspectiva trabalha o aluno como uma pessoa inteira, comsua afetividade, suas percepções, sua expressão, seus sentidos, sua crítica, suacriatividade, afirma Santos (2002). A educação é o objetivo da escola e já que a escola é o primeiro espaço formalonde se dá o desenvolvimento dos cidadãos, esta poderia ser também o espaço do
  • 8. 17contato com o universo artístico e suas linguagens: artes visuais, teatro, dança,música e literatura. Assim como a educação, a arte sempre esteve presente na historia do individuoao longo de seu processo de formação em sociedade. E nessa construção devalores e saberes agregados de cada individuo, a arte contribui para externaliza einternalizar conhecimento contribuindo para formação reflexiva do homem.2.2 Considerações sobre a arte É impossível separar o homem da arte, pois desde que ele passou a seconhecer e conhecer mundo que o rodeia passou a representar, em imagens, tudo oque vive e sente. As criações humanas com valores estéticos, nas quais sãocolocadas suas emoções, seus sentimentos e sua cultura são denominadas arte. Aarte é criada pelo homem com o objetivo de divulgar suas crenças e interpretarobjetos e cenas (BOSI, 1999). Portanto: Um fenômeno comum a todas as culturas – desde as mais ‘primitivas’ às mais ‘civilizadas’, desde as mais antigas às mais atuais – é a arte. A arte do homem pré-histórico, inclusive, é tudo o que restou, integralmente, desses nossos antepassados. Qualquer cultura sempre produziu arte, seja em suas formas mais simples, como enfeitar o corpo com tinturas, seja nas formas mais sofisticadas, como o cinema em terceira dimensão, na nossa civilização. A arte nos acompanha desde as cavernas (DUARTE JUNIOR, 2001, p. 38). Um campo de habilidades do homem é a arte, que é também uma autêntica einequívoca expressão humana. Por servir como registro e informação da sociedadeque a produziu, ela tem um valor antropológico. Além disso, legitima as impressõessobre tudo que cerca o homem, tendo um grande valor social ao integrar as pessoasdentro do meio em que vivem. Através dela o homem exprime e externaliza o seueu, os seus sentimentos e emoções, ela não transmite significados conceituais, masdá expressão ao “sentir”, afirma Basbaum (2003). Ela concretiza os sentimentos deuma forma tal que todos possam percebê-los.
  • 9. 18 Segundo Santos (2007, p. 24): A palavra “arte” é derivada do latim ars e significa habilidade, ou seja, é um processo em que o conhecimento é usado para realizar determinadas habilidades. Para Saunders (1998, p. 130) a arte é um fenomeno cultural “inventada há milhões de anos pelos seres humanos para satisfazer algumas de suas necessidades”. A arte tem acompanhado as manifestações humanas desde a Pré-história, por meio de manifestações diversas (que vão do trabalho com ferramentas à pintura em cavernas). A educação, juntamente com a família é a base estrutural de qualquersociedade e ela é necessária para humanizar os indivíduos. Um dos instrumentos dehumanização é a arte e se ela humaniza, mais do que nunca deve fazer parte docontexto escolar, uma vez que esta instituição trabalha com a formação humana nasociedade de modo geral. Não há verdadeira educação sem arte e verdadeira arte sem educaçãoporque tanto a arte como a educação cumpre sua missão que é emancipar um ser.Juntas, educação e arte podem transformar o mundo tornando-o democrático. Aatuação da arte no espaço educativo é uma das estratégias e um dos principaisinstrumentos da transformação do sistema educacional. Ela, no trabalhopedagógico, dá sentido ao aprendizado, envolve o aluno de tal maneira que estimulasua participação em atividades que cruzem visão e sensação e que encorajemconexões múltiplas. É preciso dirimir dúvidas desde já: arte-educação não significa o treino para alguém se tornar um artista, não significa a aprendizagem de uma técnica, num dado ramo das artes. Antes, quer significar uma educação que tenha a arte como uma de suas principais aliadas. Uma educação que permita uma maior sensibilidade para com o mundo que cerca cada um de nós (DUARTE JUNIOR, 2001, p. 12). A arte na educação não torna o aluno um artista nem significa a aprendizagemde técnicas. Ela permite o desenvolvimento de uma maior sensibilidade em relaçãoao mundo, transformando os espaços escolares e cria laços de confiança mútuaentre alunos e professores. Almeida (1992) salienta que a arte ensina o aluno a seexpressar e não apenas se comunicar, desperta o seu interesse, estimulando-o para
  • 10. 19que compreenda melhor e desenvolva seus sentimentos. Além disso, permite aampliação da imaginação, da criatividade e do interesse. Segundo Read (1982) só o interesse pode despertar e manter a atenção doaluno. É uma faculdade que não pode ser subestimada. E a arte cumpre esse papel.O professor deve levar em consideração a natureza da criança, a sua capacidade deprogredir e os seus interesses. Conforme Silva (2006) a arte educa pelo desenvolvimento da imaginação,descobrimento de possibilidades, projetos de transformação, pelo ultrapassarbarreiras de comunicação com outros povos, vivenciando o mundo integralmente emcada época, vivenciando o imaginário na vida cotidiana. Ela cria sentido para osalunos através do processo das descobertas de percepções, experiências,sentimentos, integração, auto-expressão. As pessoas ampliam o conhecimento sobre si mesmo através das formasartísticas, ou seja, o seu desenvolvimento, a sua educação. “Através da arte, pode-se, então, despertar a atenção de cada um para sua maneira particular de sentir,sobre o qual se elaboram todos os outros processos racionais”, afirma Duarte Junior(2001, p. 66). Na escola a arte contribui para a formação integral do homem levando-o ainteragir com o outro, com o mundo, é a socialização. Além disso, educa o sujeitopara a compreensão sensível de fatores culturais e sociais que conduzem a atitudese pensamentos inseridos em um determinado tempo/espaço. Segundo Eco (1995), na escola ao se utilizar a arte, objetiva-seespecificamente o desenvolvimento da criatividade e da auto-expressão do aluno.Atualmente, quando o foco do processo educativo se deslocou da transmissão deconteúdos para as necessidades e interesses do educando, todas as atividades têmcomo ponto de partida o fazer artístico, estimulando o aluno a criar. Na educação, omais importante, não é produzir belas obras de arte e sim, o próprio processo decriar, o processo pelo qual o aluno desperta seus sentidos em relação ao mundo queo rodeia, desenvolvendo sua consciência estética.
  • 11. 20 Portanto, a arte na educação não significa trabalhar a educação artística noscurrículos escolares. A arte-educação é uma atividade estética e criadora em siprópria e que desenvolve no aluno a harmonia, o belo. Ela é fundamentada naconstrução de um sentido pessoal para a vida de cada aluno.2.3 A função do artista na escola Na pré-história, o artista era o feiticeiro, que tinha por função atrair as boasenergias e neutralizar as más (PERROTI, 1995). Naturalmente, tal atividade nãopoderia ser denominada “artística”, no significado que hoje se atribui a essa palavra. Com a evolução da humanidade, o artista confundiu-se com o sacerdote das civilizações agrárias, que já não eram dependentes de meras invocações ou rituais, mas, que possuíam uma bagagem de informações e conhecimentos qualificados de pré-científicos. Mais tarde, o artista assume uma função particular: a de ilustrar os mitos coletivos, ou a de celebrar a sacralização do poder público. Só lentamente, à medida que a aristocracia principia a se formar, nasce um novo tipo de arte: a que confere fausto e brilho aos “novos ricos” da época, o que se vê, por exemplo, nas mastabas do Egito, e bem mais tarde, na arte santuária romana (BACHELARD, 1986, p. 13). No período do Renascimento o artista assume um papel que contribui com aprodução do conhecimento naquela época, bem como faz um trabalho solicitadopela sociedade que busca as interpretações do artista em suas diversas formasartísticas como a escultura, pintura, desenho, etc., sua arte acaba sendo submetidaaos donos do poder, que eram os mercadores. Essa situação se modifica no inícioda civilização moderna, na qual os valores dominantes são os direitos do homem. Oartista então, passa a viver do que produz. A partir do século XX a sua funçãopassou a ser unicamente produzir obras de arte. “Tão cheio de si ou do universo, overdadeiro artista está sempre pleno para se utilizar da poesia, das coisas que nãoservem para nada” (BARBOSA, 1986). Contemporaneamente, a função do artista no mundo globalizado acaba sendoparadoxal, onde sua arte é expressa de acordo com seus ideais, mesmo nasociedade em que ele vive. Porém é fato que devido uma questão de sobrevivênciao artista muitas vezes usa criatividade em função de interesses econômicos
  • 12. 21capitalistas. O sistema capitalista acaba por influenciar o comportamento daspessoas gerando um mecanismo de estímulo ao consumo, bem como de atitudes depadronização de gostos em relação a um determinado tipo de produção social ecultural. O artista abre espaço para a existência de um outro a partir de suasentranhas. Essa é a sua função social e seu papel na sociedade. Ele estimula opensamento sobre a existência, vislumbrando possibilidades de vida mais reais. Oartista traz o inconsciente de suas emoções e de suas ações para o consciente.Portanto: O artista deve estimular a criação artística, valorizando os processos criativos existentes na sociedade, não cedendo a pressões oriundas do mercado, do poder ou de qualquer discriminação de caráter cultural (ARAUJO, 1994, p. 73). A função de todo artista é sacudir a inércia, é colocar na vida, o que estáescondido no seu interior, o seu dom de criar. É desenvolver uma educaçãosaudável, voltada ao humano, à natureza artística, ao prazer de expressão do belo.Para o artista, educar é reconhecer arte na vida e fazer do dia-a-dia uma verdadeiraobra de arte. Segundo Ernst (1987, p. 14) “para conseguir ser um artista énecessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memóriaem expressão, a matéria em forma”.2.3.1 O artista professor no espaço escolar O ato de criar supõe a imaginação. E a imaginação é a mola propulsora dosurgimento de novas idéias. Quando a imaginação conduz à concretização doselementos do “sentir”, está criada uma obra de arte. E o seu criador é chamado deartista. O artista tem um poder especial. É capaz de sintonizar com o universo etrazer um pouco de sua beleza para o mundo que o cerca. O professor também éum criador, logo, ele também é um artista (DUARTE JUNIOR, 1988).
  • 13. 22 O homem pode exercer deferentes funções. Um indivíduo, a ele é possívelser um poeta, um homem de ciência e um político. No caso de nossa pesquisaestamos nos referindo ao fato de ser artista e de ser professor ao mesmo tempo,uma função não tira a outra. Pode ser uma experiência em que uma demandedesafio pra outra e/ou construam possibilidades de produção do saber e dopensamento reflexivo e da criatividade. O trabalho artístico e a docência sãodistintos entre si, mas, perfeitamente compatíveis. Eles são distintos na forma comoo conteúdo é aprendido e/ou ensinado. A aprendizagem realizada fora da escola nãoé estruturada, nem planejada e o tempo dessa aprendizagem não é previamentefixado, respeitando-se as diferenças para a absorção dos conteúdos. Naaprendizagem dentro da escola tudo é planejado, organizado e estruturado, novoconhecimento vai sendo acrescentado e aperfeiçoa o conhecimento já adquirido. A arte trabalha com a reflexão, com o pensamento. Assim, o artista quandoatua na sala de aula, torna-se um provocador que leva o aluno a pensar.Empenhado em cativar os alunos na sala de aula, ele cria uma didática própria edivertida. Quando o artista exerce a função de professor, geralmente transmuta-seem ator para abrir a cena e transformar a aula em um palco iluminado. Mistura razãoe emoção. O artista é criativo como deve ser todo professor e a partir do momentoem que ele cria alguma coisa, consegue se aproximar do aluno que também começaa criar conhecimentos. Para Biasoli (1999, p. 105) “reflexão significa reconhecimento de que aprodução de conhecimento sobre o que deve ser ensinado e como deve serensinado não é propriedade exclusiva das universidades” e que os professores têmsuas próprias teorias que contribuem para a aquisição do conhecimento. Diantedisso, torna-se inquestionável a capacidade docente de um artista. Devido à exigüidade do mercado de trabalho, muitos artistas são obrigados aexercer uma segunda atividade, geralmente ligada à docência. Atualmente, ésignificativa a quantidade de artistas que, desamparados pelas políticas públicas queenvolvem atividades culturais e artísticas, buscam o caminho do ensino, nasescolas, nas academias e nas Organizações Não-Governamentais (ONGs).
  • 14. 23 Exercedo paralelamente a docência e a prática artística. Exercer a docênciatorna-se uma garantia financeira para o artista, é a sua estabilidade financeira. Écomum ver artistas de teatro, dançarinos, artistas independentes, sem nenhumaligação anterior com a educação, procurar na escola a garantia de sua manutenção. Muitos artistas buscam a área educacional para atuarem e se manterem, emvirtude de que não conseguiram se realizar financeiramente através da sua arte. Oaumento do número de artistas atuando nas escolas como docentes, reflete umainsustentabilidade econômica do profissional vinculado à arte, como também oabandono de um preconceito, ainda recente, de que “artista que é artista” não fazoutra coisa que não seja o seu trabalho artístico (RODRIGUES, 1968). Eles exercem concomitantemente as duas profissões: artista e professor!Pergunta-se então: como são recebidos pela escola os artistas/professores? Seráque eles conseguem se adequar à nova situação? Será que o artista quando chegano espaço escolar consegue desenvolver bem o processo de ensino-aprendizagem?O artista conhece o processo de ação-reflexão-ação por estar envolvido em práticaeducativa fora da escola. A docência agrega a experiência, os conhecimentos e os saberespedagógicos. Para alguns estudiosos a docência é a profissão do professor, ou seja,é aquele que realiza práticas educacionais. Uma prática educativa, mas nem todaprática educativa é docência, como por exemplo, as relações familiares, afirmaZabala (1998). A educação acontece tanto dentro como fora da escola, emdiferentes setores como na família, igrejas e profissão. A prática educacional dentroda escola utiliza métodos e técnicas diferentes de ensino e trabalha com memórias,saberes, identidades e conhecimentos repassados em seus conteúdosprogramáticos. A educação não-formal, ou seja, aquela que os artistas possuemantes de chegar à escola, é a prática educacional organizada e sistemática que,normalmente, se realiza fora dos quadros do sistema formal de ensino. Geralmente a escola formal não trabalha com a emoção e a intuição, que sãoinerentes ao artista. O trabalho que os artistas participantes deste estudo realizamfora do espaço escolar é o teatro, que também é uma experiência educativa, embora
  • 15. 24seja uma educação não-formal. Ao atuarem em uma peça teatral, muitos artistasestão adquirindo sua intelectualidade ao longo do tempo, considerando que a arte étambém uma atividade intelectual. Duarte Júnior (2003), citando Maffesoli diz que épreciso considerar que o conhecimento do mundo é uma mistura de rigor e poesia,razão e paixão, lógica e mitologia, lógicas e estéticas, intelectuais e estésica,científicas e artísticas. A criatividade, a imaginação, os conteúdos lógicos são elementosfundamentais na aquisição dos conhecimentos. No processo de criação artística, onível mental também se faz presente, desempenhando importante papel, pois,quando se cria, costuma-se também pensar no para que se está criando, afirmaSergio C. B. Farias3. A educação deve priorizar o interesse dos alunos em adquirir novosconhecimentos e diante disso, a sala de aula deve ser um espelho do atelier de umartista ou do laboratório de um cientista. Neles deverão ser desenvolvidaspesquisas, técnicas que são criadas e recriadas, e o processo criador toma forma demaneira viva, dinâmica, afirmam Fusari & Ferraz (1992). A pesquisa e a construçãodo conhecimento é um valor tanto para o educador quanto para o educando,rompendo com a relação sujeito/objeto do ensino tradicional. Dessa forma, o ensinoestará intimamente ligado ao interesse de quem aprende. Então, cabe aosprofessores/artistas comprometidos com a educação fazer com que o ensino setorne um grande espetáculo na escola. A atividade artística e a docência são atividades distintas, porém compatíveis.Entre o fazer artístico e o fazer pedagógico existem afinidades, pois sendoatividades humanas, procuram criar usando a emoção e a razão, partem sempre embusca do aperfeiçoamento e do crescimento. A escola por ser um espaço que propicia convivência e debate é muitoprocurada pelos artistas, por vislumbrarem ali um novo ambiente de reflexão e deformação, que é um espaço coletivo por excelência, raramente encontrado em outro3 Doutor em Artes pela USP e Professor da UFBA.
  • 16. 25contexto. O artista faz não apenas seu trabalho artístico, como também se engajaem muitas outras questões da sociedade, sejam políticas ou sociais, denunciandoinjustiças e contribuindo para fazer de seu país um ambiente democrático. Quantosartistas na época da repressão foram exilados, porque através de suas músicas, desuas peças teatrais, de suas poesias, denunciavam o sistema político! A docência tem sido amplamente procurada pelos artistas em virtude delesperceberem que a escola é um lugar possível de discussão e troca, por que vêemnela um fórum de discussão e convivência, dois aspectos fundamentais para oexercício da arte. Campos (1993) ressalta que a escola se configura como umambiente fértil para intersecções de outras instâncias do conhecimento, e ferramentaútil na articulação de diferentes conceitos envolvidos na prática artística. O artista,por ocupar um papel ativo e presente na reflexão artística, busca outras áreas deatuação e a sala de aula pode tornando-se um ambiente de ativismo cultural epolítico exercido por ele. Zabala (1998) enfatiza que a Pedagogia Cultural conduz para que todos setornem muito menos "escolares" e muito mais "culturais", nesse sentido, favorece odesenvolvimento de uma prática pedagógica produzida num contexto da diversidadecultural, que vai interagir com as produções coletivas e individuais de cada aluno.Isto modifica a prática de formação do intelectual da educação, que atua de formamais engajada, envolvendo questões de mobilizações sociais e mudança políticas.O intelectual artista, geralmente atua nesse cenário de debate e proposições demudanças, uma vez que tem condições de pensar, dizer e fazer algo diferente com asua docência neste mundo culturalmente pluralizado. De acordo com Strazzacappa & Morandi (2006) a docência deveria serartística, por que ela cria e inventa, que, ao educar, reescreve os roteiros rotineirosde outras épocas. Ela desenvolve práticas pedagógicas ainda inimagináveis, quedesfazem a compreensão, a fala, a visão e a escuta das mesmas coisas, dosmesmos sujeitos, dos mesmos conhecimentos. Estimulam outros modos de ver eser visto, dizer e ser dito, representar e ser representado, acabando com a mesmice.
  • 17. 26 Quando um artista se encontra atuando na docência, enche-se de alegria aotrabalhar nas fronteiras entre as disciplinas e as pós-disciplinas, os sujeitos e osnão-sujeitos, os sentidos e os sem-sentidos. Recriam, fazem coisas que renovam esingularizam o seu trabalho cultural de Educação, ressaltam Fusari e Ferraz (1993).Promovem o auto-despreendimento, implicado no questionamento dos próprioslimites, desenvolvem a docência artística. É o que se denomina “educar artistando”.Todo professor deveria desenvolvê-la! O educar artistando significa ter prazer em criar novas metodologias, assumiro risco de educar diferente, tornar o ensino mais prazeroso, transformar o processoeducacional em algo belo e atraente, e praticar a arte-educação. A arte-educaçãonão é ensinar trabalhos manuais nem dar aulas de artesanato, não é promovereventos de arte, não é a utilização da arte como ferramenta de ensino de outrasdisciplinas, não é fazer teatrinho nas aulas de história. De acordo com Mae Barbosaa arte-educação valorizava o desenvolvimento da auto-expressão, da criatividade eda autodescoberta, essa experiência se torna efetiva a partir da Proposta Triangularque envolver três vertentes básicas: o fazer artístico, a leitura da imagem (obra dearte) e a história da arte de forma contextualizada (1991). Segundo Fusari e Ferraz(1993) a arte-educação tem propostas que vão além do ensino de uma técnica, sejaartesanal ou artística. E essa expressão de acordo com as autoras não é somente“expressão do eu” ou da “individualidade” tampouco. Na arte-educação o professor tem que fazer o papel de artista, entretendo edespertando o interesse dos alunos, por que quando o aluno está insatisfeito aaprendizagem está em perigo. Existem vários tipos de professor, segundo Campos(1993, p. 38): O professor se apresenta sob diversas faces. O professor-instrutor, sempre transmite orientações, conselhos, respostas prontas. O professor-capataz exige frequência, distribui tarefas, cobra desempenho, dá suas broncas. O professor-sábio, distante, especialista, profundo conhecedor da sua matéria, cuja última preocupação é saber se alguém quer aprender ou não. Há também o professor-treinador, atento à realidade do aluno, preocupado em tornar o saber apreensível, assimilável, praticável. Existe ainda o professor-artista que é um poeta em ação.
  • 18. 27 O professor precisa ser um artista, tornando suas aulas atraentes einteressantes. Nas suas aulas não deve haver lugar para o tédio. Ele deve possuircriatividade e determinação para manter uma realidade encantada, para tornar oespaço escolar mais bonito e mais alegre. Uma aula cheia de graça e irreverência rompe as barreiras entre “o lugar”professor e “o lugar” aluno, desenvolvendo uma práxis pedagógica que desestabilizacertas relações de poder, despertando uma consciência política da dignidade, olirismo na condição humana. Essa postura decerto promove uma outra relação entrealuno e conhecimento. O fazer artístico abre outros caminhos para o curioso, osingular, para misturas e idéias novas, ressalta Eagleton (1990). O professor-palhaço ou professor-clown como é chamado por Hudson,(1974), faz tudo seriamente. Para esse autor ele: É paradoxalmente, a encarnação do trágico, pois assume, sem as máscaras que nós usamos no cotidiano (falsos rostos, mais falsos do que as verdadeiras máscaras), a fraqueza da humanidade, a nossa condição de seres que praticamente tudo desconhecem. O professor-artista assume o que é cômico e risível, assume o risco de alguém misturar marmelo com chuchu (HUDSON, 1974, p. 18). Para o professor-artista a aula é um espetáculo na qual ele utiliza recursoscômicos para fazer rir, para fazer pensar, para despertar. O cômico é legítimacategoria artística, e tem o poder de iluminar os caminhos da aprendizagem. Aoutilizar um trocadilho, uma frase ambígua, um gesto que ninguém esperava vernuma sala de aula, o professor faz o aluno arregalar os olhos, abrir os ouvidos,despertando nele novas reações (PERISSÉ, 1994). Quando o artista-professor usa a graça, a irreverência em suas aulas,transforma-as em aulas encantadoras, quebrando a rotina, questionando as práticaspedagógicas tradicionais. Os alunos durante essas aulas são despertadosintelectualmente, brotando neles o desejo de absorver mais e mais conhecimentos. O autêntico professor-artista, relativiza normas e verdades sociais que se demonstraram insuficientes, espanta o medo de viver no
  • 19. 28 plano da criatividade, não leva a sério a idéia da punição. Sofre, mas não desiste de ridicularizar a idiotice humana, o sadismo humano que consiste em reprimir o humano que existe dentro de cada um (STRAZZACAPPA & MORANDI, 2006, p. 48). Ele tem como premissa de que a missão do artista é não aborrecer, émostrar, de forma lúcida que se pode olhar o mundo com uma visão crítica e aomesmo tempo, divertida, maneira viva, lúdica, lúcida, como podemos olhar o mundocom uma visão crítica e divertida, apaixonada e trágica. Ele brinca com asinstituições e valores oficiais com seriedade. Almeida (1992) afirma que todo docente usa máscaras de tristeza ou euforia,de timidez ou orgulho, de superioridade ou inferioridade, máscaras que ocultam suaverdadeira personalidade. E, atrás dessas máscaras existe sempre uma criança, umpalhaço, um formador de opiniões e desencadeador de conhecimentos. O professor-artista transforma a sala de aula em um picadeiro, em um palco, e com essapostura de teatralidade e provoca atitudes que vão revelar nos alunoscomportamentos relacionados a atitudes de “revoltas” e alegria. Essa revolta dizrespeito à consciência de si mesmo nas relações diante das situações vivenciadas eo rompimento e/ou enfrentamento das relações que causam certos tipos deopressão. O artista-professor estreita os laços pessoais com os alunos, o que permitemelhores condições para trabalhar coletivamente e encontrar soluções para osdesafios da prática pedagógica, no contexto onde essa prática se insere. Eleestabelece diálogos sem censuras com seus alunos, se permitindo conversasdescompromissadas e verdadeiras, como um bate-papo que flui naturalmente apósum espetáculo (ALMEIDA, 1992). Muitos artistas têm seu talento artístico voltado para o ensino e por isso resolvem abraçar a profissão de educador. Estes profissionais que possuem talento híbrido (artístico e pedagógico) devem ser valorizados. Porém, o que geralmente acontece é que eles muitas vezes não encontram espaços de trabalho, pois não são artistas convencionais nem professores tradicionais e acabam rechaçados tanto no mundo da arte quanto no mundo da escola. Deve-se enfatizar a maravilha que é um artista/professor ser um pedaço do mundo da arte que penetra no espaço escolar (STRAZZACAPPA & MORANDI, 2006, p. 81).
  • 20. 29 A sala de aula pode ser um lugar significativo de conhecimento de arte,portanto, é interessante que o artista/professor monte uma coreografia para dançar ediscutir com seus alunos, traga suas pinturas para a sala de aula, toque uma peçaou cante uma canção para que os alunos também entrem em cena, recite um poemaou faça uma leitura de um texto teatral para os alunos, afirma Abramovich (1998).Essa encenação por meio de significados imagísticos, causa o efeito de atribuiçãode significados de um termo a outro. De acordo com Ianni (2000, p. 17) “acomparação permite enriquecer a percepção das configurações e movimentos darealidade”. O artista tem o poder de canalizar os sentimentos mais profundos, o quelhe confere um poder de comunicação muito grande. E o artista/professor tem opoder de sensibilizar o aluno através de uma dramatização, de um canto, de umadança. Ianni (2000, p. 18) afirma que para Max Weber a reflexão sobre a realidadesocial “compreende sempre a comparação [...] por meio da qual se torna possívelobservar, analisar e interpretar a complexidade da realidade social”. Ao encenar emsala de aula o artista/professor conduz o aluno a “flutuar pelo mundo afora, de modoa desprender-se e se despertar, distanciar-se e clarificar-se, mergulhar em suareflexão e soltar a imaginação” (IANNI, 2000, p. 25). Isso quer dizer que oartista/professor utiliza a metáfora como uma metodologia de ensino bem atraenteaos olhos do aluno. A metáfora é então a compreensão de um domínio através de outro e secaracteriza por criar uma relação entre um domínio fonte e um domínio alvo. Ametáfora objetiva relacionar os conteúdos curriculares com situações do fazerartístico para facilitar a compreensão destes conteúdos. Ela é uma das formas delinguagem que possibilitam o resgate do cotidiano e a interação dos sujeitos queconstroem o conhecimento, em um ambiente livre de tensões, melhorando oprocesso de ensino-aprendizagem. A metáfora governa tanto a construção, quanto odesenvolvimento de conceitos, pois o pensamento passa primeiro pelo significadopara depois passar pela palavra (PONTES, 2003).
  • 21. 30 Para Bosi (1999) é significativa a contribuição da experiência artística naatividade docente, por parte do artista que também é professor, uma vez que tanto aatividade artística como a docente, são atividades criadoras que se conjugam numaperspectiva de educação libertadora. A mesma emoção que o artista sente ao criaruma obra de arte é sentida também no trabalho com os alunos em sala de aula. Eco (1995) salienta que o artista-professor, tendo a vivência teórico-prática dofazer artístico, tem a facilidade de compreender o processo de criação dos seusalunos e, também, a possibilidade de desenvolver uma prática pedagógica em que aemoção estética seja um elemento mediador significativo entre o ensinar e oaprender.2.3.1 Como o professor atua? Fica na responsabilidade do professor a formação integral das pessoas e nãoapenas a sua formação intelectual. Atualmente, o conhecimento assume novasconfigurações, modifica-se constantemente por causa das novas descobertas eprecisa ser sempre atualizado. Portanto, as aulas devem ser prazerosas e atraentesaos olhos dos alunos, para que eles passem a gostar cada vem mais do espaçoescolar. Nesse contexto, o trabalho do docente deve ser estratégico, abrangendo umraio de atuação cada vez maior. Assumindo um novo perfil, projetando juntos com osestudantes os caminhos que estes percorrerão até alcançar uma formaçãocompleta. Ele precisa ser um dinamizador de grupos, responsável não mais por“formar alunos isoladamente, mas por constituir comunidades de aprendizagemcapazes de desenvolver projetos em conjunto, se comunicar e aprendercolaborativamente” (RAMAL, 2002, p. 32) Com uma mentalidade e expressão artística em sua experiência pedagógica,utilizando uma linguagem figurada e emocional que é mais loquaz, marcará muitomais fortemente o aprendizado, afirma Santos (2002). Uma vez que a arte é um fatorde grande importância para o homem, o educador que utiliza os seus recursos paraauxiliá-lo na sua tarefa educativa assume junto aos alunos outra perpsctiva da
  • 22. 31educação. Assim a arte reestrutura a concepção do saber e abarca todos os tipos deinteligências. Ela possibilita ao professor, a procura por maneiras diferentes detransmitir uma mesma mensagem. O professor deve ainda estimular o raciocínio e acompreensão dos seus alunos. Assim: No processo de ensino-aprendizagem devem ser estimulados não somente os processo analíticos, que dividem, mas os de síntese, que integram. Cada hemisfério cerebral é responsável por uma dessas dimensões. O esquerdo pelo mundo analítico e racional e o direito, pela dimensão da síntese, da intuição, da criatividade, da arte (RAMAL, 2002, p. 2). Para Duarte Junior (1988) o docente deve compartilhar suas experiências comos alunos, o que contribuirá para a compreensão dos problemas vivenciados na salade aula e para a construção de sua prática pedagógica conjuntamente com osdemais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, durante o qual, váriasvozes poderão ser ditas e trocadas, entendidas e confrontadas, e em conjuntopoderão buscar saídas possíveis. A liberdade de ensinar para o docente torna-se o fator vital para sua realizaçãono desenvolvimento de sua práxis pedagógica, pois a aprendizagem do aluno vaidepender dessa liberdade. Mas, o que é ter liberdade de ensinar? É a liberdade deexternar suas práticas pedagógicas sem a vigilância da administração da escola, éter livre arbítrio para criar, para inovar, para escolher as metodologias que consideramelhor para seus alunos (CHIOVATTO, 2000). Para que haja liberdade no processo de ensino-aprendizagem, devem serasseguradas ao professor, condições para ensinar, instruir, transmitir conhecimento,através de suas exposições e dos recursos materiais disponíveis nas instituições deensino. Quem ensina com liberdade, educa. Quem ensina com liberdade desenvolveintegralmente o educando. Portanto: Quem tem liberdade de ensinar transforma suas aulas em muito mais do que lições, mas em artes de ensinar, de tal modo que a liberdade de ensinar revela-se, em muitos professores, como a liberdade de pôr em prática uma idéia, valendo-se, para tanto, de sua competência técnica. Quando os professores transformam suas
  • 23. 32 aulas em artes revela-se, que sob a liberdade de ensinar, podem obter resultados, no processo escolar, de modos diferentes, de formas pedagógicas das mais diversas (CHIOVATTO, 2000, p. 3). Uma das competências do docente deve ser a capacidade de decidir sobre aqualidade e a quantidade de conhecimentos, idéias, conceitos e princípios a seremexplorados nas suas atividades escolares, estabelecendo uma relação intrínsecacom a realidade social em que o aluno está inserido. “Uma pequena qualidade deconhecimento consolidado é mais utilizável e transferível do que uma grandequantidade de conhecimento instável, difuso e completamente inútil”, afirma Ausubel(1980, p. 78). Ao professor cabe possuir também a competência de perceber que osconteúdos só possuem significados para o aluno se estiverem vinculados à suarealidade existencial, se contribuirem para a resolução de seus problemascotidianos. Ele deve atuar na educação como um artista atua no palco durante umacena de teatro, porque na realidade, todo professor é no fundo, um ator, ressaltaZabala (1998). O artista-professor traz consigo experiências de vida nas suas relaçõeshumanas que ao logo da vida no palco contribuem para seu bom desempenho nasala de aula, tornando assim sua aula uma representação do seu saber artístico.Nesse sentido é importante que o professor/artista: [...] assuma também, sem susto e sem medo, sua função de artista, de produtor, de pesquisador e de apreciador de arte. Esta é uma das grandes riquezas a serem vividas e discutidas com os alunos. É importante que o professor se torne um professor-artista, e não um mero passador de técnicas ou informações (ZABALA, 1998, p. 48). Transformar as aulas em momentos prazerosos, e não de chateação, é umdos grandes trunfos do professor para que as relações entre o processo de ensino eo de aprendizagem, não sejam relações ingênuas, passivas ou reprodutoras, massim participativas, criativas e transformadoras.
  • 24. 33 CAPÍTULO III METODOLOGIA Realizar um estudo sobre determinada questão, ou seja, pesquisar éreconstruir um conhecimento partindo do que já existe para se chegar a outropatamar à frente. Uma pesquisa no processo educativo é um processo investigativoque busca a compreensão de determinado fenômeno. Este trabalho é o resultado deuma curiosidade em relação à atuação de atores de teatro que também trabalhamem algumas escolas como professores. Para investigar sobre essa temática foramrealizados estudos teóricos em extenso material bibliográfico. Para a realização deste trabalho, inicialmente fez-se uma pesquisabibliográfica, no período de fevereiro a abril de 2008, na biblioteca da Universidadedo Estado da Bahia (UNEB), na base de dados on-line e em outros locais diversos.O embasamento teórico foi ampliado por meio de buscas a referências bibliográficasdos estudos relevantes. Diversas referências foram selecionadas, atendendo aesses critérios. Ao longo do desenvolvimento deste trabalho, foram realizadasobservações e entrevistas, às quais levaram a obter dados satisfatórios para apresente investigação. As bases epistemológicas da metodologia que sustentaram nossa pesquisadialogam intimamente com a pesquisa qualitativa assumindo uma perspectiva emque “preocupa-se com os processos que constituem o ser humano em sociedade eem cultura e compreende esta como algo que transversaliza e indexaliza toda equalquer ação humana” (MACEDO, 2006). Os sujeitos são considerados comoatores e autores sociais, uma vez que não são descartáveis, com valor meramenteutilitarista. Acreditamos que a pesquisa não se apresenta em perspectiva neutra ouobjetiva, até porque a opção teórico-metodológica que optamos se constitui em umapesquisa qualitativa, nessa ótica se configura em uma abordagem conceitual de
  • 25. 34implicação. Nosso envolvimento com o campo de pesquisa está em nossasvivências pedagógicas, bem como com o envolvimento e participação nos grupos deartistas que trabalham com teatro na região. Nossa pesquisa caminha numa abordagem fenomenológica, considerandoque o fenômeno, a práxis pedagógica do artista professor, torna-se uma experiênciaco-participativa de sujeitos em experiências vividas permitindo partilharcompreensões e interpretações, “interessados em descrever para compreender, opesquisador fenomenólogo sempre está interrogando: o que é isto?” (MACEDO,2006). No caso específico de nossa pesquisa, é importante ressaltar o nossoconvívio cotidiano nos ambientes de atuação dos artistas professores, tanto nasescolas como no teatro, bem como a partir de nossa própria atuação, favoreceu deforma diferencial a realização da pesquisa. Vivências essas que nos possibilitaramobservação desse movimento que foi se contornando e se tornando o nosso objetode pesquisa. Para isso as ferramentas utilizadas como questionários, observações einterações em diálogos nas escolas onde as experiências acontecem nos deramsuporte para construir um discurso, um texto contextualizado, que junto aoreferencial bibliográfico selecionado favoreceram com as produções dos resultadosda pesquisa.3. 1 Pesquisa utilizada A pesquisa que busca entender um fenômeno específico em profundidade,chama-se pesquisa qualitativa. Nela, “o pesquisador é um interpretador darealidade” (BRADLEY, 1993, p. 15) e não se investiga em razão de resultados,mas o que se quer obter é "a compreensão dos comportamentos a partir daperspectiva dos sujeitos da investigação" (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p.16).
  • 26. 35 Esse tipo de pesquisa contribui na identificação de questões e entenderporque estas são importantes. Além disso, trabalha com uma amostra heterogêneade pessoas, revela áreas de consenso, tanto positivo quanto negativo, nos padrõesde respostas, determina quais idéias geram uma forte reação emocional. A pesquisaqualitativa não deve ser usada quando o que se espera é saber quantas pessoasirão responder de uma determinada forma ou quantas terão a mesma opinião. Apesquisa qualitativa não é projetada para coletar resultados quantificáveis.3.1.1 Os ambientes-palcos da pesquisa Embora os sujeitos entrevistados atuem em espaços concretos escolares, oenfoque desta pesquisa privilegiou a práxis pedagógica dos artistas/professores.Portanto privilegiou-se o espaço simbólico que se dá como “não lugar”. Isto seexplica pelo fato de que o objeto e contexto de estudo se movem no campo domundo simbólico, que não se aprisiona nos estreitos limites do mapa enquantoespaço geográfico. Neste sentido pode-se falar de uma dominância simbólica, emque os significados e as representações se dão enquanto meta-lugar. As falas dosartistas ouvidos se articulam a partir de situações que transcendem o tradicionalconceito de mapeamento físico. Nesse sentido pensar a práxis pedagógica implica pensarmos os princípiosepistemológicos e políticos que alicerçam as experiências com a educação. Implicatambém pensar um conceito de educação que viabilize as expressões das culturas,das experiências, das esperanças e dos sonhos, onde se possa problematizar ocontexto político onde a práxis pedagógica se realiza. O conceito de práxis aquidiscutido é numa perspectiva freiriana. FREIRE, falando sobre a pedagogia dooprimido diz: Enquanto houver um único ser humano oprimido no mundo este livro terá validade, se enriquecerá com os aprendizados a partir da prática da libert-ação e cumprirá sua missão messiânica: a de permitir os cativos se libertem e os que não-são, sejam como humanos sensíveis, críticos, criativos, éticos, fraternos e espirituais (1992, p. 08). Nesse contexto o conceito de educação vem como um “ato político” e nessaperspectiva expõe a produção do conhecimento como possibilidade de produção de
  • 27. 36experiências significativas, desenhadas nas trajetórias dos artistas professores, queatuam também na sala de aula. Os cenários onde a pesquisa foi desenvolvida foram os colégios CentroEducacional Sagrado Coração (CESC), Educandário N. Sra. do SSmo. Sacramento(Sacramentinas) e Centro Educacional Professora Isabel de Queiroz. O CentroEducacional Sagrado Coração (CESC) fica localizado à Praça Luis Viana, n. 182.Possui 13 salas de aula e seu quadro de pessoal é formado por 48 funcionários,sendo 38 professores, 1 Diretora, 1 Vice-diretora, 2 Coordenadores Pedagógicos, 1Secretária e 5 serventes. A coordenação pedagógica segue o SISTEMA COCENSINO, utilizando módulos Funciona nos três turnos, assim distribuídos: O Educandário N. Sra. do SSo. Sacramento (Sacramentinas), fica localizado àRua Manoel Vitorino, n. 42, centro, em Senhor do Bonfim, Bahia. Possui 42 salas deaula, 92 professores, 1850 alunos e 62 funcionários que atuam nos diversos setoresdo referido colégio. Nele funcionam a Educação Infantil, O ensino fundamental I e IIe o Ensino Médio. A Educação Infantil funciona nos turnos matutino e vespertino, oEnsino Fundamental I no turno vespertino e o Ensino fundamental II no turnomatutino. A maioria dos professores são graduados e outros estão cursando o 3ºgrau. O Centro Educacional Professora Isabel de Queiroz fica localizado à PraçaSimões Filho, n. 222, no centro da cidade de Senhor do Bonfim. Possui 13 salasonde funcionam o Ensino Fundamental I e II e o Ensino Médio no turno matutino e o3º grau de Licenciatura em história e Letras no turno noturno. Seu quadro defuncionários é composto por 54 funcionários, sendo que destes, 22 são professoresregentes. Esse estabelecimento de ensino é freqüentado por 350 alunos. É a escola o lugar atuante dos artistas–professores, onde se busca ainvestigação quanto à práxis pedagógica dos mesmos, que se mantém, de certaforma, livre de alguns moldes fixos das limitações do espaço escolar dos mesmos,uma vez que trazem consigo, diante de suas experiências, o potencial de lidar com aimaginação e criatividade e linguagens, diferentes expressões e corporeidade.
  • 28. 373.2 Sujeitos da pesquisa O estudo foi desenvolvido com quatro professores da rede particular deensino. Realizou-se um questionário semi-dirigido com quatro professores,denominados A- B- C e D, artistas que atuam nessas escolas como professores dearte. Eles atuam no teatro e também trabalham como docentes nas seguintesescolas: 02 professores que lecionam na Casinha Feliz, 01 professor lotado noColégio das Sacramentinas e outro professor lotado no Centro Educacional Isabelde Queiroz. Os professores lotados no CESC, lecionam na Educação Infantil e nas1ª às 8ª séries do Fundamental I e II. Previamente, foi realizada uma conversa informal com os entrevistados com oobjetivo de familiarizá-los com o pesquisador. Em seguida, os sujeitos receberamexplicações sobre o significado, importância e objetivo do estudo. Todosresponderam o questionário no mesmo momento, na quadra dos colégios. Oprocedimento para preencher o questionário foi elucidado e, quando houve dúvidas,estas foram esclarecidas. O tempo médio para o preenchimento dos instrumentos foide 45 minutos aproximadamente.3. 2.1 Instrumentos da pesquisa Coletaram-se os dados mediante o preenchimento dos questionários semi-dirigido, que foram instrumentos elaborados especificamente para este estudo. Nasquestões fechadas foi feita a caracterização dos sujeitos e nas questões abertas osdados foram analisados qualitativamente, com o objetivo de apreender, através dodiscurso dos envolvidos, as questões importantes para este estudo. Foi elaborado um questionário contendo 3 questões fechadas e 7 questõesabertas. A formulação das perguntas voltou-se a questões sobre o fazer docente doartista/professor, por compreender que, como explicado anteriormente, a experiênciaartística traz um diferencial na práxis pedagógica. A práxis pedagógica dosartistas/professores é o conjunto de atividades que eles realizam na sala de aula.
  • 29. 38 Foi aplicado um questionário semi-dirigido. Num contacto entre o investigador(entrevistador) e o investigado (entrevistado) durante o qual aquele formulaperguntas sobre um determinado assunto que lhe interessa conhecer. Este métodopermite obter informações e conhecer o comportamento do entrevistado através deum diálogo planificado entre investigadores e investigados. Neste contexto elaborou-se antecipadamente as questões, o que permitiu recolher dados sobre aproblemática em questão. As entrevistas podem ter o caráter exploratório ou ser decoleta de informações.3.2.2 A coleta dos dados e sua análise Esta é a fase da pesquisa em que se reúnem dados através de técnicasespecíficas. Neste estudo, os dados foram coletados no período de 02 a 20 de maiode 2008, através da aplicação de questionários. Alguns dados foram colocados emtabelas, gráficos e outros foram transcritos na íntegra e em seguida foraminterpretados e analisados. Análise é o processo de ordenação dos dados, organizando-os em padrões,categorias e unidades básicas descritivas; a interpretação envolve a atribuição designificado à análise, explicando os padrões encontrados e procurando porrelacionamentos entre as dimensões descritivas (PATTON, 1980).
  • 30. 39 CAPÍTULO IV RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS Neste capítulo serão abordados os dados que o autor do presente trabalhoconseguiu obter. São informações a respeito do trabalho docente realizado porpessoas que também são artistas (atores). Os resultados estão sendo apresentados de duas maneiras. A primeiracontém informações gerais sobre o perfil dos pesquisados que foram transformadasem tabela para facilitar a visualização. A segunda maneira são as falas que contêmas informações fornecidas pelos entrevistados sobre sua atuação na sala de aula eo que eles pensam sobre esse fato. Dos quatro professores que receberam oquestionário, todos o responderam.4.1 O perfil dos entrevistados Dentre os quatro professores (Tabela 1) pesquisados, três (3) pertencem aosexo masculino e apenas um (01) ao sexo feminino. Um deles possui nível superiorcompleto (Pedagogia) e os demais estão cursando na UNEB, sendo que umfreqüenta o Curso de biologia e os demais o Curso de Pedagogia. Dois (02) professores atuam há mais de cinco anos na docência e o demais(02) há menos de 5 anos. Estes professores foram escolhidos porque realizam otrabalho na docência e também atuam no teatro, apresentando trabalhos dedramatização. Quanto à atividade artística realizada pelos investigados, todos afirmaram sero teatro, a dramatização, a encenação. Eles são atores que realizam suas atividadesem peças teatrais. O teatro está ligado diretamente ao ser humano, independente daárea que atua, trabalha com a reflexão, com o pensamento. Ele auxilia o aluno adesenvolver um processo de comunicação eficaz.
  • 31. 40Tabela 1. O perfil dos professores/artistas Sexo Capacitação Tempo de atuação Atividade profissional Na docência artística Prof. A M Biologia + de 5 anos Teatro Prof. B M Pedagogia - de 5 anos Teatro Prof. C M Pedagogia - de 5 anos Teatro Prof. D F Pedagogia + de 5 anos Teatro4.2 O discurso dos professores/artistas4.2.1 Em relação à prática docente instigar a prática artística Quando se perguntou aos professores se a prática do docente estimulava aprática artística, a maioria respondeu afirmativamente, variando apenas nas suasjustificativas, mas todos concordaram em um ponto de vista: o de que a prática emsala de aula prepara o docente para exercer qualquer atividade em qualquer setor,porque desenvolve o raciocínio, a eloqüência, a iniciativa e a criatividade. Um dosentrevistados acha que a prática docente só instiga a prática artística se o professornão se prender aos métodos prontos. Um outro entrevistado não justificou suaafirmativa. Eis a a fala dos professores: “Acredito que sim, pois a prática do arte-educador proporciona um despertar criador que se revela na prática artística” (PROFESSOR A). “[...] tudo depende da formação de cada sujeito. Se o arte-educador se limitar à reprodução de métodos prontos, dando conta dos conteúdos exigidos sem intervenções mais profundas, provocando o processo criativo, não será de forma nenhuma instigado à descoberta de novos insigt artísticos” (PROFESSOR B). “Sim, acredito que o artista estando na sala de aula provoque essa situação” (PROFESSOR D). Acredita-se que realmente a prática artística estimula uma docênciadiferenciada, no sentido de que o professor é antes de mais nada, um ator e queutiliza-se de trejeitos teatrais, que envolve a corporeidade, a valorozação dasemoções, contribuindo para uma prática pedagógica significativa.
  • 32. 41 Os dados acima são corroborados por Perissé (1994, p. 19) quando eleafirma: O professor-ator compreende que, por trás das aparências de uma sala de aula, na qual os alunos estão "sedentos de conhecimento", esconde-se uma outra verdade. Os alunos estão é sedentos de vida, e, se o conhecimento não for vital, os alunos manifestarão seu desagrado na forma de dispersão, de conversas paralelas e até mesmo de sono. Se ele agir somente como um simples reprodutor de idéias, dificilmentechamará a atenção de seus alunos. Ele tem conhecimento de que aulasorganizadas, com começo, meio e fim, com cada passo previsto, cada temadevidamente abordado, não atrai a atenção do aluno.4.2.2 Em relação à complementação da prática docente com a prática artísticae vice-versa. Alguns entrevistados, conforme a transcrição das falas abaixo, afirmaram queas referidas práticas se complementam porque os melhores professores geralmentesão ótimos atores. O professor usa a entonação, a gesticulação, a postura corporal ea dramaticidade para enfatizar conceitos e transmitir informações. Ele entra na salade aula e assume um comportamento (o papel de professor) e diante dessa posturaassumida já é um ator. Um dos entrevistados, apenas respondeu “às vezes” e nãojustificou sua resposta. Um dos entrevistados acha que elas só se complementam sea prática artística não se submeter aos ditames sociais da educação formal. A diversidade de posturas é ressaltada por Tardif e Gauthier (2001, p. 18): Todos os indivíduos têm centenas, se não milhares de comportamentos-papéis ao longo de um único dia. Qualquer indivíduo tem comportamentos-papéis diferenciados ao assumir uma representação: uma duplicidade, por representar um papel com uma comunicação adequada ao papel desempenhado. Um professor só é um professor em sala de aula porque assume a postura de professor e se comunica como um professor. Assim, quer queira ou não, um indivíduo para ser professor terá que representar e falar um professor em sala de aula, este é o primeiro caminho para ser ator.
  • 33. 42 Eis o que disseram alguns entrevistados: “As duas práticas se complementam, uma vez que a relação entre elas é intima e até sincronizada. Para quer as duas se complementem, é necessário que o arte-educador/artista traga conteúdos e métodos que provoquem os alunos para uma reflexão e depois um construir artístico que acaba sempre na produção de um produto” (PROFESSOR A). “A práxis do artista está relacionada com as questões mais subjetivas do ser humano, não ficando por isso, submetida a certos ditames sociais, muitas vezes impostos no contexto da educação, mais especificamente, da educação formal. Ambas podem se complementar, caso uma ou outra, resolva envolver elementos próprios em suas funções: seja artística ou educativa” (PROFESSOR B). “Sim, uma prática complementa a outra.” (PROFESSOR D). Como se percebe diante da opinião dos entrevistados, as práticas doprofessor e do ator são indissociáveis, pois uma amplia a outra. É uma associaçãocomplexa, sutil e instável, na qual se dialoga com experiências, vivências econceitos dos dois ambientes. O professor produz e pesquisa ao mesmo tempo,artística e academicamente. As atividades de ensino implicam de maneiras diferenciadas na produçãoartística, até porque produzir arte significa construir conhecimento, de forma práticae teórica, onde processos ou investigações artísticas desdobram-se em reflexões evice-versa. Deste modo, “produzir academicamente e artisticamente co-implicam-se”, afirma Perissé (1994, p. 21).4.2.3 Quanto à forma como são conduzidas as produções artísticas eeducacionais. Com referência a esta questão, as opiniões divergiram. Enquanto algunsdisseram que a docência é mais aberta e mais flexivel e que o fazer artístico é maistécnico e mais rígido, outro professor/artista afirmou o contrário. Um terceiroprofessor já afirmou que elas estão interligadas, dependendo de como sãoconduzidas. Eis o que eles disseram:
  • 34. 43 “Para mim a produção artística é mais livre que o sistema mais fechado da produção educacional que exige entre outras coisas uma nota determinada, o que às vezes em artes é um inconveniente. Instigo a produção artística e tento contextualizar a mesma, ao mesmo tempo que a produção educacional surge dentro da outra prática” (PROFESSOR A). “Dentro do contexto da educação, principalmente da educação formal, os conteúdos estudados têm um sentido prático racional. A prioridade é adquirir conhecimento para um aprimoramento de saberes e dominação de códigos, que permitam o acesso aos diversos meios culturais, relacionando produção educacional diretamente com a necessidade de saber, para se incluir nos espaços formais de geração de renda e valores sócio-econômicos. A produção artística tem tudo a ver com a subjetividade! Produzir artisticamente é promover e adquirir cultura para se afirmar social e emocionalmente, propondo mudanças significativas na sociedade” (PROFESSOR B). “A produção artística exige uma postura mais profissional, mais ‘técnica’. Já a produção educacional precisa de flexibilidade” (PROFESSOR C). “Está tudo ligado, seja uma produção artística ou educacional. A questão é como você conduz a atividade. Voce acaba orientando pedagogicamente também um espetáculo quando está no papel do diretor” (PROFESSOR D). A afirmação do professor C é concordante com o pensamento de Tardif eGauthier (2001) quando eles afirmam que o professor deve ser um ator racional, istoé, deve ser capaz de desenvolver estratégias pedagógicas, como um fazer singularque funde e confunde a idéia de aula como obra de arte e sua problemática. Assim: É indispensável, como efeito, que toda expressão espontânea seja seguida de uma reflexão a o seu respeito, reflexão que permita analisa-la, aprofundar os seus dados e, através de uma série de tomadas de consciência, trazer à tona as alienações que pesam sobre o indivíduo: alienações congênitas, “carências de ser”, mas também alienações sociais, econômicas, políticas, culturais. A revelação dessas alienações desenferruja e desperta as necessidades do indivíduo, desce à raiz dos desejos, libera todos os apetites profundos e indica as fontes em que eles podem ser saciados. (PORCHER, 1982, P. 135). A afirmação do professor B ajuda-nos a pensar que, através do estimulo emtorno das emoções, pode se gerar reflexões das experiências, que favorecem aprodução de um novo conhecimento. Nesse sentido Porcher nos ajuda a perceber oque vem a ser uma educação que tem como alicerce a problematização, que
  • 35. 44envolve outros aspectos do ser humano para além da racionalização, na busca deuma transformação em diferentes dimensões da existência, individual e coletivo.4.2.4 Como a docência influencia o fazer artístico ou vice-versa De acordo com os resultados obtidos, transcritos abaixo, alguns professoresafirmaram que são os ditames artísticos que influenciam o ensino em sala de aula.Entretanto, outros informaram que ambos estão integrados um ao outro, ou seja, ofazer artístico influencia a produção educacional, tanto quanto a educação influenciaa atividade artística. Esta afirmação é ratificada por Araújo (1994) quando salienta que isto querdizer que o professor com todo o seu instrumental de informação, traz para aexperiência do artista uma dimensão de diálogo muito grande, de reflexão sobre oprocesso criativo de uma maneira mais ampla e também de sistematização destasexperiências. No espaço escolar acontecem contatos com as linguagens expressivas, logo,o teatro e a expressão corporal têm objetivos educacionais porque estimulam aimaginação, organizam o pensamento que é abstrato, como o teatro. “Acho que a relação é recíproca e tem que ser. A produção educacional no seu contexto tem ampla influencia sobre o fazer artístico e acredito, devido a minha prática, que o fazer artistico pode e deve influenciar o ensino, pos bem trabalhado serve p/ derrubada de velhos conceitos educacionais” (PROFESSOR A). “A arte traz em si uma bagagem muito grande, causando muitas vezes, um desconforto nas coisas estabelecidas e tidas como certas. A arte exerce com sua postura libertina, um diálogo entre as linguagens do mundo, é provocada e provoca mudanças, pensando e fazendo pensar a partir da educação” (PROFESSOR B). “Acho que os ditames artísticos é que interagem com o ensino, porque foi a arte que me levou a pensar que poderia ser professor e me estimulou a sê-lo. Acredito que não haveria sentido em minha produção como professor sem uma produção artística e sem uma relação com o campo artístico ” (PROFESSOR C). “A questão é aquela velha história: que o professor de artes tem jeito para tudo, é animador. A visão deturpada que algumas
  • 36. 45 instituições tem do trabalho do arte-educador é que se mostra negativa” (PROFESSOR D).4.2.5 Quanto à atuação em sala de aula Os professores/artistas acham que em alguns momentos agem como seestivessem apresentando uma peça teatral. Em outros momentos se sentemtolhidos, até porque o sistema educacional limita o trabalho do docente, não lhedando autonomia para realizar um trabalho aberto, para criar livremente, paracolocar em prática metodologias inovadoras. O que disseram os professores/artistas entrevistados neste estudo: “Antes, no inicio me sentia muito mal, quase num pesadelo. Mas hoje, com uma certa experiência, me sinto muito a vontade e livre para programar o conteúdo a ser trabalhado” (PROFESSOR A). “Como educador tenho uma natureza artística, e preciso desenvolver uma oralidade agradável aos ouvidos de quem me escuta; isso é música! Assim, sinto-me como um músico. Contudo, é necessária uma atenção contextualizada, pois não depende somente do trabalho individual realizado na sala de aula. O educador precisa entender que sua tarefa separadamente não terá resultados satisfatórios, sendo imprescindível o trabalho coletivo interdisciplinar desfragmentado e flexível. É dentro da certeza que encontramos os caminhos que construimos” (PROF. B). “Um tanto quanto ‘preso’, pois o modelo de escola que temos, ainda, não está apto a uma boa aula com um arte-educador. Por exemplo: os professores das salas vizinhas precisam de silêncio. Para a escola, silêncio é sinônimo de ordem, organização, e barulho é o contrário. Isso se torna um pouco complicado, já que a proposta é a conquista da autonomia e criticidade” (PROFESSOR C). “Às vezes me sinto como se estivesse num palco quando o momento é prá contar uma história, e ao mesmo tempo, tem momentos que me sinto como uma professora longe de ser artista” (PROFESSORA D). O que se pôde entender diante das respostas acima, é que o professor/artistafica inibido diante de todo o processo pertinente ao ensino, fica dividido entre acomplexidade do sistema acadêmico gerido pelos moldes atuais e entre asimplicidade do sistema artístico. Para esse profissional a sala de aula pode muitas
  • 37. 46vezes se transformar em o palco de um teatro, como também o palco de um teatropode se transformar numa divertida sala de aula. Campos (1993, p. 48) se posiciona sobre esse fato ao afirmar que: O professor é também o ator na medida que além do pensar, do idealizar, atua na transmissão do conhecimento para difundir idéias, formar novos pensadores capazes de dar nova continuidade à arte da criação e assim dinamizar o processo educacional , o processo de transformação social com vistas ao progresso e ao desenvolvimento da nação.4.2.6 Quanto à questão “suas vivências artísticas influenciam no seu processode ensino-aprendizagem?” A maioria dos entrevistados responderam afirmativamente. Disseram que ofazer artístico não é apenas um entretenimento, mas também uma ferramenta para aformação crítica dos alunos, porque tem o poder de transformar pessoas comuns emcidadãos conscientes do seu papel na sociedade. Assim se manifestaram: “Totalmente. Creio que se não fosse artista nem professor seria. Ser artista e lecionar é complementar para mim, acho que o lugar da educação deveria ser ocupado por artistas” (PROFESSOR A). “O processo de ensino aprendizagem não é restrito política e geograficamente, portanto não é possivel separar um ser humano de si mesmo. Se alguém faz arte, onde estiver vai estar pensando em arte. Se essa pessoa trabalha no processo educacional, também estará ensinando e aprendendo, consciente ou inconscientemente” (PROF. B). “Muito. Por que eu sou um artista e é este artista que vai para a sala-de-aula” (PROFESSOR C). “Acredito que 80% da minha vivência artística tenha influenciado muito para essa atividade” (PROFESSORA D). A afirmativa dos professores acima, confirma o que Eco (1995) diz: quando seexerce uma atividade artística, os órgãos dos sentidos se tornam apurados. Oartista/professor desenvolve um olhar muito intenso, o que o ajuda, como professor,a avaliar o que o aluno precisa desenvolver mais. Portanto:
  • 38. 47 Um artista/professor tem muito poder transformador em suas mãos, pois exercita e exerce de forma integrada os distintos papéis: influencia o seu público, altera o seu meio e propõe principalmente, outras formas de ver e de viver (ECO, 1995, p. 36). É evidente que o fazer artístico influencia o processo de ensino-aprendizagem, uma vez que, todo professor precisa se caracterizar de ator paraabrir a cena e transformar a sala de aula em um palco, misturando razão e emoção,apelando para a imaginação e criatividade dos alunos, incentivando a suacuriosidade. O caráter pedagógico de uma aula dramatizada, mais do que umasimples técnica, é uma estratégia de grande alcance.4.2.7 Quanto à existência de diferenças entre uma sala de aula e um palco A maioria dos entrevistados acha que sim, que existem diferenças entre atuarem uma sala de aula como docente e atuar em um palco como ator. Um dosentrevistados afirmou que nem sempre as diferenças existem e que depende domomento da atuação. Veja-se os seus posicionamentos: “Totalmente. O planejamento para a sala de aula é direcionado para um público fixo e possui uma continuidade ao longo do ano. No palco, estar-se preocupado com o produto artístico final, no meu caso, teatro tem sempre um público variado de pessoas e quantidades” (PROFESSOR A). “Depende do ponto de vista em que se pretende citar a atuação e o que se pensa sobre atuação... O que parece claro é que, se um trabalho artístico estiver focado no contexto de uma categoria cênica, pode ser diferente uma vez que o espaço influencia na apresentação. Se a proposta for para teatro de sala ou palco italiano, a atuação é uma, teatro de rua é outra. Logo, na sala de aula, por ser um espaço menor, mais intimista, a atuação apresentará outros elementos, outra atmosfera, cheiros, luzes, sombras e cores diferentes. Porém, pretendendo-se citar uma atuação dentro de um campo mais amplo, por exemplo, tentando dizer que logo que tudo que se constrói é culturalmente pensado e portanto, quem fala está consciente de sua ação e por isso está atuando; No entanto, pode-se concluir que, se fragmentamos os saberes a fim de simplificá-los, perde-se a noção do contexto mais amplo ao qual estamos ligados e que paradoxalmente não nos pertence mesmo sendo nosso” (PROF. B).
  • 39. 48 “Sim. Às vezes acho que sim e em outros momentos acho que não. É contraditório” (PROFESSOR C). “Claro que sim. Quando estamos encenando, o público está atento mas não tem uma participação verbal naquilo que está apreciando. Na sala de aula é o contrário pois o aluno pode interromper e até mesmo modificar o conteúdo daquilo que foi programado. Isso no caso da Educação Infantil” (PROFESSOR D). Pelos dados obtidos acima ficou claro que a atuação em sala de aula divergeda atuação em um palco. No cotidiano de uma sala de aula a prática se desenrolacom os saberes obtidos na formação acadêmica do professor e o público-alvopossui quase sempre as mesmas características intelectuais e de conhecimento. Nasala de aula o professor é independente ao ministrar seus conhecimentos, nãoprecisa seguir à risca as determinações do Diretor ou do Coordenador. No palco, o público é heterogêneo com relação a idade, formação intelectuale objetivos, portanto, é mais complexo para se trabalhar nele. “No palco, o ator age,transforma, joga, cria imagens, traduz, expressa, sintetiza, transcende” afirmaKoudela (1990, p. 22). Para ele é importante dominar seu corpo e sua técnica deatuação seja ela qual for, saber o que ocorre com seu corpo e saber se expressarverbalmente. Na sala de aula, o professor não é tão exigido, não precisa ser tãocomplexo. No palco, é exigido do ator, que ele corresponda às expectativas do grupoheterogêneo que o assiste. Ele não é independente, tem que seguir as orientaçõesdo Diretor, do contra-regra, dentre outros. Precisa de técnica. Requer degenerosidade para distribuir sua alma para a platéia. Precisa de inteligência paraperceber o que os autores querem dizer com aquelas palavras.
  • 40. 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS Procurou-se, através da análise das falas transcritas, tomar conhecimento doponto de vista dos professores que também são atores e que realizam os doistrabalhos: na docência e na educação. A análise dos resultados obtidos permitiu concluir que a prática na sala deaula estimula o fazer artístico e esses dois fazeres se complementam. Segundo osresultados obtidos, o trabalho docente realizado na sala de aula pelo artista, recebeinfluências do seu trabalho artístico, especificamente neste estudo, quando osentrevistados iniciaram como atores de teatro e só depois ingressaram na área deeducação. Comprovou-se que os artistas/professores que participaram dessa pesquisa,se sentem muito bem atuando na sala de aula, pois para eles a docência possuimuitas semelhanças com a atividade que eles desempenham no palco. Eles trazemdo teatro a criatividade, a auto-estima, a eloqüência, a facilidade de se comunicarcom o público. O fazer artístico foi uma preparação para que eles pudessem se sairbem como docentes. Vale ressaltar que apesar da inter-relação entre as duas atividades, osentrevistados acham diferenças entre o trabalhado desenvolvido na sala de aula e otrabalho desenvolvido no palco. Impressionante foi constatar que eles se sentemmais à vontade quando estão atuando no teatro do que dentro de uma sala de aula,apesar de no teatro, não serem totalmente independentes, pois têm que seguir asorientações do Diretor da peça teatral. Os motivos alegado foram que as escolasnão lhes dão liberdade para agir da maneira que acham melhor, ou seja, na escola(apesar de ser mais flexível que o teatro) eles não têm autonomia para usar suametodologia. Acredita-se que isso ocorra porque as escolas temem que osartistas/professores provoquem desorganização e bagunça, agindo com a
  • 41. 50irreverência que lhes é peculiar. É importante ressaltar que aqueles queefetivamente agem com irresponsabilidade não estão sendo nem professores nemartistas, mas sim distorcendo o ensino. Para que isso não ocorra torna-senecessário que as escolas não reprimam a ousadia das práticas dos professores-artistas nem punam suas iniciativas. As escolas precisam compreender o papeltransformador exercido pelo artista/professor na sociedade atual. O que se pôde perceber também é que o artista/professor está procurandoexercer a docência, fazendo cursos voltados para a Educação, pois os entrevistadosestão freqüentando atualmente Cursos de Graduação em Licenciatura. Isso sinalizaque a procura pela Licenciatura por parte dos artistas, deve-se às semelhançasentre a prática docente e a prática artística, ou será que a grande maioria dosartistas não tem outra opção senão exercer uma segunda atividade, habitualmenteligada à docência? Sugere-se que sejam realizados mais estudos sobre essa temática no intuitode informar aos professores sobre as semelhanças entre a docência e o fazerartístico, neste caso, o teatro, para que eles tomem conhecimento de que oprofessor precisa ser um bom ator para melhor desenvolver o seu trabalho.
  • 42. 51 REFERÊNCIASABRAMOVICH, F. O professor não duvida! Duvida? São Paulo: Editora Gente,1998.ALMEIDA, C. M. C. O trabalho do artista plástico na instituição de ensinosuperior: razões e paixões do artista-professor. 1992. Campinas: UniversidadeEstadual de Campinas. 270 f. Tese (Doutorado em Educação). Disponível em<www. bve.inep. gov.br/pesquisa/bbe-online/det> Acesso em 14 abr 2008.ARAUJO, H. C. Educação Através do Teatro. Rio de Janeiro: Editex. 1994, p. 73-76.AUSUBEL, G. O Sentido da Arte: Esboço da História da Arte, PrincipalmentePintura e Escultura e das Bases dos Julgamentos Estéticos. São Paulo: Ibrasa,1980, p. 78.BACHELARD, G. O direito de sonhar. São Paulo: Difel, 1986, p. 13.BARBOSA, A. M. História da arte-educação: a experiência de Brasília. São Paulo:Max Limonad, 1986._________. A imagem no ensino da arte: anos oitenta e novos tempos. SãoPaulo: Perspectiva: Porto Alegre: Fundação IOCHPE, 1991.BASBAUM, R. Pensar com arte: o lado de fora da crítica. Porto Alegre: Editora daUFRGS, 2003.BIASOLI, C. L. A. A formação do professor de arte: do ensaio...à encenação.Campinas/SP: Papirus,1999, p. 48-105.BOGDAN, R.; BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação. Porto: PortoEditora, 1994. Disponível em < www.ufpel.edu.br/cic/2007/cd/pdf/CH/CH_01070.pdf-> Acesso em 31 mai 2008.BOSI, A. Reflexões sobre a Arte. São Paulo: Ática, 1999.BRADLEY, J. Methodological issues and practices in qualitative research. TheLibrary Quarterly, v.63, n.4, p.431- 449, Oct. 1993.
  • 43. 52BRANDÃO, C. R. O Que é Educação. 33. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 16.CAMPOS, M. D. C. A Importância do Processo Criador na Formação doEducador: Uma Ação Transformadora. Ceará: 1993, p. 38- 48.CHIOVATTO, M. O Professor Mediador. BOLETIM Número 24 deOutubro/Novembro 2000, p. 3. Disponível em<http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php?id_m=13> Acesso em04 mai 2008.COURTNEY, R. Jogo, Teatro & Pensamento. São Paulo: Perspectiva, 1980.DUARTE JUNIOR, J. F. Por que arte-educação? 12. ed. Campinas/SP: PapirusEditora, 2001, p. 12-23-38-66.___________________Fundamentos estéticos da educação. 2. ed.Campinas/SP: Papirus, 1988.EAGLETON, T. A ideologia da estética. Rio de Janeiro: Zahar, 1990, p. 7-28ECO, U. Os limites da Interpretação. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 36.ERNST, F. A necessidade da arte. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987, p. 14.FAYGA, O. Criatividade e processos de criação. 6. ed. Petrópolis/RJ: Vozes,1987, pp. 10-12.FUSARI, M. F. R. e FERRAZ, M. H. Arte na educação escolar. SãoPaulo:Cortez,1992.____________.Metodologia do Ensino de Arte. São Paulo: Cortez, 1993.FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 9.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, p. 54._________. Pedagogia do Oprimido. 13. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
  • 44. 53_________. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia dooprimido. – notas: Ana Maria Araújo Freire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.HUDSON, T. Educação Criadora. Rio de Janeiro: Escolinha de Arte do Brasil,1974, p. 18.IANNI, O. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,2000, pp. 17-18-25.KOUDELA, I. D. Jogos Teatrais. São Paulo: Perspectiva. 1990, p. 22. Disponívelemhttp://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/volume2/numero2/plasticas/sandra_favero.pdf.MACEDO, Roberto Sidnei. Etnopesquisa crítica, etnopesquisa-formação. –Brasília: Líber Livro Editora, 2006.MAGALHÃES, S. C. Uma Experiência em Educação. Salvador: Gráfica daPrefeitura da Bahia, 1982.OLIVEIRA, I. B.; SGARGI, P. (orgs.) Fora da escola também se aprende. Rio deJanieor: DP&A, 2001, p. 38.PATTON, M. Q. Qualitative evaluation methods. Beverly Hills, CA: Sage, 1980.Disponível em <www.geocities.com/claudiaad/qualitativa.pdf -> Acesso em 01 jun2008.PERISSÉ, G. A arte do ator. Professor-Artista... ou Palhaço? Dissertação deDoutorado em Pedagogia. 252 fls. São Paulo: PUC, 1994.PERROTI, E. Arte na escola: anais do primeiro seminário sobre o papel da arte noprocesso de socialização e educação da criança e do jovem. São Paulo:Universidade Cruzeiro do Sul, 1995.PONTES, E. (org.). A metáfora. Campinas/SP: UNICAMP, 2003.PORCHER, L. Educação Artística - luxo ou necessidade? Ed. SUMMUS, 1982.
  • 45. 54RAMAL, A. C. Pedagogo: a profissão do momento. Rio de Janeiro: GazetaMercantil, 2002, p. 2 – 32.READ, H. A educação pela arte. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1982. p. 24.RODRIGUES, A. Escolinha de Arte do Brasil. Brasília: Instituto Nacional deEstudos e Pesquisas Educacionais, 1968.SANTOS, S. M. P. O lúdico na formação do educador. Petrópolis: Vozes, 2002.SILVA, M. B. A inserção da arte no currículo escolar. Recife: Biblioteca do Centrode Educação – UFPE, 2006.STRAZZACAPPA. M. & MORANDI, C. Entre a arte e a docência. São Paulo:Papirus Editora, 2006, p. 48 – 81.TARDIF, M. & GAUTHIER, C. O professor como “ator racional”: queracionalidade, que saber, que julgamento? Porto Alegre: Artmed, 2001, 9. 18-198..ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Trad. de Ernani F. Rosa. PortoAlegre: ArtMed, 1998. Disponível em<http://www.artenaescola.org.br/pesquise_artigos_texto.php?id_m=22> Acesso em02 mai 2008.
  • 46. 55APÊNDICES
  • 47. 56APÊNDICE A- QUESTIONÁRIO APLICADO AOS ARTISTAS/PROFESSORES DACIDADE DE SENHOR DO BONFIM, BAHIA.A) Perfil do entrevistado1. Sexo[ ] Masculino [ ] feminino2. Tempo de atuação na docência[ ] Até 5 anos [ ] Mais de 5 anos3. Capacitação profissional[ ] Magistério [ ] Graduação [ ] Pós-graduação4. Atividade artística realizada[ ] Canto [ ] Dança [ ] TeatroB) O discurso dos entrevistados1) A prática do professor instiga a prática artística?2) Elas se complementam? Como se complementam?3) Como você conduz o problema: produção artística e produção educacional?4) De que forma a produção educacional influência os ditames artísticos, ou é ocontrário, os ditames artísticos influenciam o ensino?5) Como você se sente atuando dentro de uma sala de aula?6) Suas vivências artísticas influenciam no seu processo de ensino-aprendizagem?7) Existem diferenças entre a atuação em sala de aula e a atuação no palco? Seexistirem, quais são essas diferenças?

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