Monografia Cristiane Pedagogia 2010

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Pedagogia 2010

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Monografia Cristiane Pedagogia 2010

  1. 1. 1UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEBDEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS VII COLEGIADO DE PEDAGOGIA MEMÓRIA DE VELHOS CRISTIANE BATISTA PINTO SENHOR DO BONFIM - BA 2010
  2. 2. 2UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA-UNEBDEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS VII COLEGIADO DE PEDAGOGIA CRISTIANE BATISTA PINTO MEMÓRIA DE VELHOS Monografia apresentada ao Departamento de Educação-Campus VII, da Universidade do Estado da Bahia, como parte dos requisitos para obtenção de graduação no Curso de Pedagogia com Habilitação em Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Linha de Pesquisa: Memória, Cultura e História da Educação. Orientadora: Profª Drª Maria Glória da Paz SENHOR DO BONFIM - BA 2010
  3. 3. 3 CRISTIANE BATISTA PINTO MEMÓRIA DE VELHOS Monografia apresentada ao Departamento de Educação- Campus VII, da Universidade do Estado da Bahia, como parte dos requisitos para obtenção de graduação no Curso de Pedagogia com Habilitação em Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Aprovada em 24 de março de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________ Profª Drª Maria Glória da Paz Universidade do Estado da Bahia –UNEB Orientadora_____________________________________________________ Profª Ana Maria Campos Universidade do Estado da Bahia – UNEB Examinadora____________________________________________________ Profª Beatriz Barros Universidade do Estado da Bahia – UNEB Examinadora____________________________________________________ Profª Sandra Fabiana Almeida Franco Universidade do Estado da Bahia – UNEB Examinadora
  4. 4. 4 A Maria Amélia Pinto, minha mãe. Com ela aprendi muitas coisas... Desaprendi muitas coisas também... Somos cúmplices na vida. A Raimundo Batista Pinto, meu pai. Contador de estórias, cordelista... Aprendi com ele o gosto pela palavra e pelas coisas simples, como uma pedra colhida no rio, como o perfume lilás da flor de setembro. Aos meus irmãos: Tarcísio, Vágner, Jorbson, Wilton e Carolina que têm me incentivado e apoiado em todas as horas. A Rodrigo Gomes Wanderley, porque compartilhamos prosaicamente de tudo, mas, sobretudo, compartilhamos coisas que se situam no reino do indizível, tocadas apenas pela poesia. Aos meus amigos: Jácia Pereira, Bruna Pamponet,Mara Araújo, Priscila Pereira, Maísa Borges, Laryssa Andrade, Joana Dias, Jaqueline Oliveira, Hilda Maria Vieira, Joel Porto, Ágda Solene Braga, Márcia Xavier, Dan Loureiro, Fabiana Lima, Jacira Souza e Ana Lúcia Barbosa. E a você...
  5. 5. 5 AGRADECIMENTOSÀ Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus VII;Ao Colegiado de Pedagogia do Campus VII;Aos professores que contribuíram para a minha formação, nomeadamente AnaMaria Campos, Beatriz Barros, Elizabete Santos, Fani Rehem, Gilberto Lima, JoanitaMoura, Maísa Lins, Norma Leite, Ozelito Cruz, Paulo Batista Machado, Rita Braz,Rita Carneiro, Rubens Antonio da Silva Filho, Simone Wanderley, Suzzana AliceLima e, especialmente, à minha dedicada orientadora e parceira de tear, professoraMaria Glória da Paz;Aos Servidores da UNEB – Campus VII;Ao Centro Espírita Discípulos de Jesus;Aos funcionários e voluntários do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo, pela acolhida ecolaboração durante a realização dos trabalhos;Aos velhos, sujeitos desta pesquisa: Edvalda Maria de Jesus, João Xavier Dias,Joselita Roque da Silva e Raul Gomes, que, com suas vozes, compuseram estetrabalho;A Jácia Pereira, Joel Porto, Priscila Pereira, Rodrigo Wanderley e Rubens Antonioda Silva Filho pela colaboração técnica e pelo incentivo durante a realização destetrabalho.
  6. 6. 6 EPÍGRAFE “A história aqui tecida,como uma renda, é feita de fios, nós, laçadas, mas também de lacunas, de buracos, que, no entanto, fazem parte do próprio desenho, são partes da própria trama”. Michel Foucault
  7. 7. 7 RESUMONeste trabalho foram colhidas e analisadas memórias de velhos. Utilizamos aabordagem da História Oral como metodologia. Foram realizadas entrevistas comquatro depoentes, o Sr. João Xavier Dias, o Sr. Raul Gomes, a Srª Edvalda Maria deJesus e a Srª Joselita Roque da Silva, moradores do Lar dos Idosos Fabiano deCristo, localizado em Senhor do Bonfim, em março de 2009. Dentre as lembrançasevocadas figuraram as referentes à família, destacando-se pais, irmãos econvivência, à infância, especialmente espaços, amigos e brincadeiras, e à escola,citadamente localização, professores, colegas, atividades de ensino, brincadeirascastigos e festas. Para a análise nos valemos especialmente das propostas deHalbwachs (2006), Bosi (1994) e Pollak (1989).Palavras- chave: Memória, História Oral, Velhos.
  8. 8. 8 LISTA DE FIGURASFIGURA HISTÓRICO PÁGINA 01 João Xavier Dias (1928) .............................................................. 30 02 Raul Gomes (1932) ..................................................................... 31 03 Edvalda Maria de Jesus (1936) .................................................. 32 04 Joselita Roque da Silva (1932) ................................................... 33 05 Fachada do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo ........................... 39
  9. 9. 9 LISTA DE MAPASMAPA HISTÓRICO PÁGINA 01 Mapa do Território de Identidade 25- Piemonte Norte do Itapicurú, Bahia, 2004............................................................... ............38
  10. 10. 10 LISTA DE ABREVIAÇÕESCEDJ Centro Espírita Discípulos de JesusCNAS Conselho Nacional de Assistência SocialCNPJ Cadastro Nacional de Pessoa JurídicaCPDOC Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do BrasilCRAS Centro de Referência de Assistência Social (Casa da Família)GPS Publicidade Giosvaldo Porto Silva (Proprietário)IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaSEI Superintendência de Estudos Econômicos e SociaisUNEB Universidade do Estado da Bahia
  11. 11. 11 SUMÁRIO1.INTRODUÇÃO........................................................................................................12 1.1.Tecendo as minhas lembranças: um encontro com a memória de velhos....12 1.2. Entrelaçando nós: História e Memória de Velhos.........................................172. A COSTURA: PONTO A PONTO..........................................................................22 2.1. A pesquisa....................................................................................................22 2.1.1.Os instrumentos......................................................................................23 2.2. As Fontes......................................................................................................29 2.2.1.Fontes orais ( e a biografia dos entrevistados)......................................29 2.2.2. Caracterização dos Depoentes.............................................................30 2.2.3. Fontes escritas......................................................................................35 2.3.Local da pesquisa: O Município de Senhor do Bonfim.................................38 2.3.1. A localização do município....................................................................38 2.3.2. O Asilo: O Lar dos Idosos Fabiano de Cristo.........................................39 3. CAPITULO I - A Família ......................................................................................42 3.1. Lembranças da Família................................................................................42 3.2. Os Pais.........................................................................................................43 3.3. Os Irmãos ...................................................................................................464. CAPITULO II - A Infância......................................................................................50 4.1. Lembranças da Infância...............................................................................50 4.2. A casa, o quintal, e os outros espaços revisitados.......................................51 4.3. As Brincadeiras............................................................................................53 4.4. Os Amigos....................................................................................................545. CAPITULO III- A Escola.......................................................................................56 5.1. Lembranças da Escola.................................................................................56 5.2. Os Professores.............................................................................................57 5.3. As Atividades de Ensino...............................................................................57 5.4. Os Castigos..................................................................................................58 5.5. Festas...........................................................................................................596. ARREMATE.......................................................................................................... .60REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..........................................................................63
  12. 12. 12FONTES ELETRÔNICAS..........................................................................................65FONTES ORAIS........................................................................................................66
  13. 13. 13 1. INTRODUÇÃO1.1. Tecendo as minhas lembranças: Um encontro com a memóriade velhos Quando criança, no período de alfabetização, eu fui considerada, na entãoEscola Nuclear Belarmino Pinto, em Itiúba, Bahia, uma menina inteligente, porémmuito inquieta, hiperativa, diriam hoje. É que D. Amélia, minha mãe, já havia mealfabetizado em casa mesmo, usando uma cartilha antiga, um quadrado recortadode papel de pão perfurado no meio, lápis, papel e as coisas do meu mundo, do meumundo de criança, a casa, o quintal, as pessoas, enfim... Por causa disso,geralmente, concluía as atividades antes dos meus colegas. O problema é que,respondendo as lições antes da turma, era inevitável que começasse a conversar, aquerer sair da carteira, da sala. Assim, acabava por atrapalhar o andamento da aula. Contudo, a minha professora, D. Mariazinha Freitas, que costumava levarpara a sala de aula novelos e agulhas de tricô, percebera os meus olharescobiçosos e, em consenso com a minha mãe, resolveu, no intervalo das lições, meensinar a tecer. Os meus primeiros sapatinhos foram encomendados por minha avópaterna. Ela havia me presenteado com um novelo vermelho belíssimo. Aindarecordo do cheiro, da textura daquela lã. Fora mainha quem comprara as agulhas.Não lembro se, por um tempo, fiquei mais quietinha. Mas que aprendi a tecer, ahisso eu aprendi direitinho. Por sua vez, com o meu pai, Seu Raimundo, cordelista, poeta, contador dehistórias, aprendi a ouvir. Os causos, as histórias populares da tradição oral, osrecitais de cordel da coleção do meu avô, com as cantigas e cantorias, onde seres,personagens humanos e/ou não humanos, existiam. Misturadamente, por vezes, ou,em outras ocasiões separadamente. Não dava pra saber o que era e o que não erareal, mas tudo era maravilhoso nas narrativas do meu pai. Ele ainda as recontaalgumas, para o divertimento da meninada da rua, sempre é convidado para
  14. 14. 14participar de eventos nas escolas e na cidade de modo geral. Ah... Infância. E, afinal, quem jamais se curou de sua infância? Mas esta éoutra história e talvez seja tecida em outra ocasião... Cabe dizer, agora, que foi ela,a minha infância, que me trouxera aqui. Sim. Ela me guiara tal qual Teseu foraguiado pelo novelo de Ariadne para fora de um labirinto. Porém, de modo inverso, eufora atraída por um casaco de tricô exposto numa arara, para ser vendido no Brechódo Lar dos Idosos Fabiano de Cristo, para o labirinto de minhas reminiscências. Sei que isto não explica a necessidade de voltar àquele casaco... Aquele quemeus olhos, numa mistura de surpresa e encanto, descobriram no Brechó... Masreitero que é necessário. Neste momento, basta saber que era lindo, incomum.Porém, agora, racionalizando, penso que apenas o que resta de pueril em meusolhos enxergara a beleza e intuíra a pureza do branco, que, pelo tempo, foraamarelecido. Entretanto, naquele instante, fui tomada por uma profusão de sentimentosconfusos, para mim desconhecidos, até então... Quem o tecera? Alguém doara?Quanto custava? Perguntei, quase num tom exaltado. As vendedoras sorriambenevolentemente... Não. Não sabiam o nome da tecelã ou tecelão e, sim, haviasido doado e custava R$ 3,00. Achei esquisito e repeti, apenas para mim, franzindoo cenho de modo cético: “R$3,00.” Tinha ciência de que era roupa velha, usada por outrem, e que, para muitos,isso deve, por certo, diminuir o valor das coisas. Eu não tinha tanta certeza.Meticulosamente, comecei a examinar com os dedos o casaco. Apesar da qualidadeaparente da linha, da trama bem feita, pude detectar um furo na manga, perto dopunho esquerdo... Não pude disfarçar, com meio sorriso, o meu desencanto, atéporque, por experiência, sei que reparar é mais difícil que fazer. Onde, além da memória, guardara as minhas agulhas? Poderia compraragulhas novas, adequadas? A lã também. Eu poderia comprá-la? Quantos anos
  15. 15. 15haviam se passado? Duas décadas, talvez... Fiquei perdida num amaranhado depensamentos, segurando o casaco por mais um tempo, desolada. Uma dasvendedoras, a fim de me consolar, pontuou reticente: “Talvez D. Ermínia...” Olhou desoslaio para a outra vendedora, que, num ar de complacência, arrematou: “É... Elatem as agulhas. Poderemos falar com ela.”. Certas palavras e expressões são mágicas, polívocas. Realizam desejos,abrem portas – “Abracadabra!” “Abre-te Sésamo!” - Inauguram tempos e espaços.No meu caso, o tempo era de espera. Espera pelo reparo do casaco. Espera pelohorário de visitas ao Lar dos Idosos Fabiano de Cristo. Quais as palavras que medeixaram tão esperançosa? “D. Ermínia tem as agulhas”. Contudo, não à toa, os gregos, em sua Mitologia, colocaram a Esperançaentre os males, reservados à Humanidade, guardados na Caixa de Pandora. Dissoeu não esquecera. Mas a Esperança, ao longo dos tempos, ganhara novossignificados... Restava saber qual deles estava a mim reservado. E isso não tardou. Voltei à minha casa com a garantia de que reparariam ocasaco. Guardariam-no para mim e eu poderia conhecer não apenas D. Ermínia,como os outros internos do referido Lar. Quando regressei ao Brechó, descobri queo casaco havia sido vendido a alguém menos exigente e mais inteligente que euhavia sido naquele dia - compreendi isto depois - pois quem o comprou, comprou-odaquele modo, sem reparos. Oh... Esperança! Nesse dia, eu conheci uma das tuasfaces! Bem... Porém era horário de visitas. Cheguei logo após a hora da refeiçãovespertina e fora acolhida tanto pelos internos quanto funcionários/voluntários.Sobre o Lar, adianto apenas que há espaço para vinte e cinco internos. Havia 20idosos internados até o início de dezembro de 2008. Conheci a área comum e a alafeminina. Apesar disto, alguns possuem quartos individuais. A maioria dos idosos, jáque tinha ingerido a refeição, estava dormindo. Eu não quis importuná-los, comminha presença, naquele dia. Entretanto, conversei com os funcionários e algumas
  16. 16. 16das internas. Certamente, em momento oportuno, voltarei a oferecer detalhes doreferido ambiente. Estive lá outras vezes para visitá-los, ainda em dezembro do referido ano, trêsou quatro vezes... Por que? “Saber, eu não sei, mas desconfio de muita coisa...”,diria Riobaldo, grande memorialista, personagem do “Grande Sertão: Veredas”, obrade Guimarães Rosa. Mas e eu? Eu digo o que? Que nos gostamos uns dos outros,talvez bastasse, mas não é toda a verdade, nem o fato de que a minharelação/convivência com velhos é literalmente familiar. Já explico, em outrosparágrafos. Prosseguindo, do lado materno, Morais, tive, durante a infância, aoportunidade de morar com minha avó Joaninha e com tia Maria, zeladas por minhamãe. Ambas faleceram quando eu estava na segunda infância. Meu avô um tempodepois. Com este tive pouco contato direto, por ele ter se divorciado da minha avóetc... Contudo, ainda hoje, estão presentes nas conversações em família e,conseqüentemente, no meu imaginário. Já do lado paterno é um amaranhado só. Muita gente e que vive muito. Difícilé saber, em Itiúba, minha cidade natal, de quem não se é parente. Digo isto demodo hiperbólico, é claro. Porém, um dos fatores pelos quais uma das minhasfamílias, Pinto, é reconhecida na cidade é a longevidade. Um exemplo, dentreoutros, a ser mencionado é o do meu avô Pedro Batista Pinto, conhecido como“Piroca, do Lino”, vaqueiro e trovador, nascido em 1907 e falecido em 2007. Por ser da família, e atender a outros requisitos como ter alguma experiênciacom entrevistas, pois já trabalhava há três como locutora na GPS Publicidade, rádioa fio, sob a direção do Sr. Giosvaldo Porto Silva, “Doutor”, fui convidada pelo Sr.Humberto Pinto de Carvalho para participar de um projeto. Este consistia emregistrar oralmente, em fitas K7, com a finalidade de montar um acervo, asmemórias dos moradores mais velhos da cidade ou que tiveram alguma participaçãorelevante em fatos históricos, de modo geral.
  17. 17. 17 Em 1998, eu tinha 17 anos e contava com a boa vontade e entusiasmo domeu pai, que ficou encarregado de me ajudar não apenas nos deslocamentos, jáque iríamos à moradia das pessoas, mas a colher o material de nossa pesquisa. Istoconsiderando que ele conhecia e era conhecido de todos os prováveis entrevistados.Aceitei a proposta imediatamente. Cheguei até a receber carta-roteiro e recursosmateriais encaminhados pelo Sr. Humberto, todavia, não pude realizá-la, por estarcursando o Estágio Regencial do Curso de Magistério e não contar comdisponibilidade de tempo. Quando aceitei a proposta tive a ousadia de crer que o contato com agulhas elãs pudesse aguçar não apenas meus olhos, meus dedos. Mas isso para todos osmeus sentidos para as delicadezas e também para asperezas de tramas outras,para o manuseio de instrumentos outros, tendo em vista a complexidade danarrativa de si e do outro enquanto sujeitos de um contexto social determinado. Ah,juventude! Se não tive, de Aracne, a ousadia, também não tive a sua miserável sortede pobre aranha condenada aos limites à sua teia... Confesso que, ao passar dos anos, meu desejo de realizar o projetodesapareceu completamente, assim como outros desejos, mas surgiram outros eainda outros se tornaram mais intensos, como o desejo de ler e de escrever, porexemplo. Mal de Infância? Talvez... Enfim, com justificativas, mas semressentimento, devolvi o material que havia recebido ao remetente e comuniquei-lheque não mais realizaria a atividade. Examinando cuidadosamente a minha tecitura, percebo que os furos e tonsamarelecidos fazem parte da história das nossas vidas. A maioria dos idososdaquela lista já está morta. Meu querido avô, inclusive. Só agora percebo o que merecusei a fazer... Adoraria ter em minhas mãos aquele casaco esburacado no punhoesquerdo e amarelecido pelo tempo, mas já não há casaco algum. Se hoje escrevo, é porque reconheço que o entusiasmo pelo qual fui tomadano Lar dos Idosos Fabiano de Cristo, ao conversar com aqueles velhos, é um
  18. 18. 18sentimento que transpassa e vai além de sapatinhos e blusas de tricô que aprenderaa fazer quando era uma menina, uma menina tecelã. É o mesmo entusiasmo que sentia ao ouvir as cantigas, os “causos”, ashistórias contadas por painho. Essas histórias que, misteriosamente, ainda ressoamem minha mente, o que, de alguma forma, creio eu, vem preparando os meusouvidos para a diversidade de notas e intervalos que compõem a partitura dasvivências humanas... Sei que a minha pena, por muitas vezes, seguirá vieses e improvisos,obviamente, não lineares nem, ao menos, harmoniosos porque minha escritura soueu e também outros, sendo, num só instante, memória, presente e projeto. E, porfim, que a escritura de minhas lembranças seja o primeiro acorde na tessitura damemória dos já mencionados velhos. Objetivamos, neste trabalho, colher e analisar memória de velhos, ditoespecificamente, suas lembranças acerca da família, infância e escola. Eacreditamos em sua relevância, especialmente por dois aspectos. Pretende dar voza sujeitos silenciados historicamente, para que possam “descrever a si próprios”,“inventar as narrativas que os definem como sujeitos da história” (COSTA, 2001,p.50) e esperamos, ainda, que os resultados possam inspirar e, até mesmo,subsidiar discussões em torno da referida temática.1.2. Entrelaçando nós: história e memória de velhos Tem sido árdua a tarefa no sentido de buscar uma definição da históriaenquanto ciência. Le Goff (2003), em seu ensaio, se debruça sobre uma série dedefinições e questionamentos do fazer do historiador que refletem os estágiosexperienciados na construção dessa disciplina histórica, desde a Antiguidade aosdias atuais. De acordo com o mencionado autor, etimologicamente:
  19. 19. 19 A palavra história (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialeto jônico [Keuck, 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-européia wid-, weid ver. Daí o sânscrito vettas testemunha e o grego histor testemunha no sentido de aquele que vê. Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à idéia que histor aquele que vê é também aquele que sabe; historein em grego antigo é procurar saber, informar-se. Historie significa pois "procurar". É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são "investigações", "procuras" [cf. Benveniste, 1969, t. II, pp. 173-74; Hartog, 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema. (LE GOFF, 2003, pg. 17) Observamos que, nas línguas românicas e em algumas outras, a palavra“história” apresenta dois, senão três, conceitos distintos. Na primeira, no intuito parase constituir em ciência, a ciência histórica, tradicionalmente associada a Heródoto,está à procura das ações realizadas pelos seres humanos. Na segunda, o objeto deprocura é o que os seres humanos realizaram, requerendo uma série deacontecimentos, a narração desses acontecimentos. Ainda pode apresentar umterceiro sentido, o da narração, que pode ser verdadeira ou falsa, puramenteimaginária (fábula) ou baseada na “realidade histórica”. Como num jogo deespelhos, ao longo dos tempos, equívocos quanto à designação e uso do termo têmsido mantidos. (LE GOFF, 2003). Seguindo o viés cronológico, pontuamos que, no século XVIII, com o adventodo pensamento iluminista, emergiu uma concepção da história que supervaloriza aracionalidade, propagando a crença, a partir da idéia de progresso, numa ciênciacapaz de conduzir a verdades objetivas e absolutas. A Ciência foi estabelecida comoúnica forma de conhecimento. A memória, sendo constituída a partir dasubjetividade, sob essa perspectiva não mais é uma fonte confiável para a produçãodo conhecimento científico. De posse desse estatuto, a história deixa de considerá-la, a memória, fonte segura de conhecimento (FREITAS; BRAGA, 2006). Em contrapartida, durante o século XIX, emergiram, prolificamente, inúmerasdefinições de história derivadas de embates epistemológicos, teóricos emetodológicos, travados por estudiosos, na tentativa de abarcar ou delimitar o objetodos Ciência, disciplina e afazeres do historiador. Este século é decisivo porque, alémde atualizar o método crítico dos documentos que interessam ao historiador, peloensino e pelas publicações, difunde esse método, e divulga os seus resultados
  20. 20. 20unindo história e erudição. Em resumo, para este período, “a obra do historiador éuma forma de atividade simultaneamente poética, científica e filosófica” (LE GOFF,2003, p. 37). Pontuamos que, em decorrência de inúmeros fatores, a crença em umprogresso contínuo, linear, irrevogável, ainda na metade do século XX, mostrou-seinsustentável. Com a inauguração de um novo conceito de temporalidade, propostopelos Annales, apresentando olhares mais críticos sobre a história, a percepção deque no universal também reside fragmentário, o tempo histórico encontra, com maisrefinamento, o tempo da memória. Possibilita, assim, uma transversalidade,amparada em conceitos oriundos de outras ciências sociais como a Antropologia e aFilosofia. Acrescente-se a isso as experiências individuais e coletivas quecontribuíram para a incorporação da noção de tempo múltiplo, vivido, relacional,desse modo, a abertura para a contextualização, problematização de conceitos maisamplos como mudanças culturais, transformações sociais, e indicaram ser ofactualismo insuficiente para a compreensão dos fenômenos históricos. ( LE GOFF,2003). Considerando que a História é ancorada na construção de referências degrupos sociais diversos a respeito do passado e presente, respaldados nas tradiçõese atados às mudanças culturais, não se pode pretender estabelecer os fatos comoefetivamente ocorreram. Isto tendo em vista que coexistem várias leituras possíveissobre o uso da memória para a interpretação histórica. Alertamos que, nas CiênciasHumanas, a memória não pode ser tida como um processo de caráter acessório,parcial e limitado de lembrar fatos passados. Ao mesmo tempo em que a Históriaconvive com uma insuficiente discussão historiográfica, notamos uma crescenterevalorização da memória tanto no âmbito individual quanto na esfera coletiva. E suarelação com a história tem suscitado calorosas discussões teóricas por a memóriaestar, de certo modo, imbricada nos objetivos e fundamentos do ofício do historiador.(FREITAS; BRAGA, 2006). A partir das contribuições oferecidas pela Ciência Histórica, ao longo dotempo, foi possível, através de uma leitura racional da própria História, constatar-se
  21. 21. 21a dinamicidade das estruturas por ela estudadas e a observância quanto àrigorosidade metodológica na apreensão do objeto. Entretanto, o seu decurso geracerta desconfiança quanto à adoção de um modelo de historicidade que se pretendauniversal e que ainda atente para as idiossincrasias e diversidades derepresentações produzidas pelas Sociedades. (FREITAS; BRAGA, 2006). Como resultado das transformações historiográficas, a Memória tem sidoentendida como um elo, uma ponte interrelacional com a História. Este intercâmbiopropicia, em contrapartida, a instrumentalização do discurso historiográfico, tornadomenos mecanicista, priorizando a subjetividade, emergindo o narrativo, o humano. Em tempo, alertamos que, embora o estudo da memória possa ser abarcadopor uma diversidade de ciências como a Psicofisiologia, a Neurofisiologia, a Biologia,a Psiquiatria etc.., “por sua propriedade de guardar informações”, nos remete,“especialmente, às funções psíquicas, com as quais podemos atualizar impressõesou informações passadas ou como representamos como passado”. (LE GOFF,2003, p. 423) Neste trabalho, ocupamo-nos da memória tal qual ela aparece nasCiências Sociais / Humanas, de modo transdisciplinar, abordando tanto seusaspectos individuais quanto coletivos. Dito isto, gostaríamos de tecer algumasconsiderações sobre a velhice, tendo em vista que nosso trabalho versa a respeitoda memória de velhos. O envelhecimento da população tem se tornado um fenômeno que afetapaíses de todo o mundo indiscriminadamente. O aumento da expectativa e do tempode vida da população tem inspirado discussões acerca desse processo e suasimplicações. Isto atentando para questões relativas á qualidade de vida e com aprópria compreensão dos idosos sobre esse fenômeno. Entendemos que o envelhecimento é um processo que, no plano individual,implica múltiplas trajetórias de vida e, no plano coletivo, se constrói sob diferentesinfluências de ordem sociocultural, tais como: acesso a oportunidades educacionais,adoção de cuidados em saúde, e realização de ações que acompanham o curso da
  22. 22. 22vida e se estendem às fases tardias da vida, como a velhice. (SIQUEIRA;BOTELHO; COELHO, 2002). Embora se constitua numa das maiores conquistas do século, chamamosatenção para a falta de estrutura e política pública adequadas para lidar com asmudanças decorrentes de tal crescimento demográfico, especialmente no âmbito dotrabalho, para a independência e autonomia funcional, saúde, urbanismo etc.., queprivilegiem o idoso. Além disto, lembramos que, freqüentemente, o processo deenvelhecimento tem sido simplificado, entendido a partir de representações eestereótipos negativos, exclusivamente relacionado com as perdas e a inutilidade.Em contrapartida, têm sido feitos estudos mostrando as experiências deenvelhecimento bem sucedido, onde grupos de convivência de idosos, clubes daterceira idade dentre outros, possibilitam, coletivamente, a reconstrução dasrepresentações do envelhecimento e da velhice. (VELOZ; NASCIMENTO-SCHULZE; CAMARGO, 1999). Por reconhecemos que a velhice contempla uma pluralidade de experiênciasindividuais e coletivas, admitimos a dificuldade de encerrá-la, simplesmente, numconceito ou noção. O que fica para nós é a possibilidade de confrontar diferentesexperiências de envelhecimento, no intuito de determinar razões de suas diferençase similitudes. Da experiência dos velhos emerge a essência de nossa Cultura. Eles, porserem, em certa medida, guardiões do passado, representam o elo entre esse e opresente. Pelo estudo da lembrança de idosos, nos é dada a possibilidade deconhecer fatos ocorridos, bem como costumes, enfim, uma pluralidade de quadrossociais e culturais determinados. “A memória dos velhos desdobra e alarga de talmaneira os horizontes da cultura que faz crescer junto com ela o pesquisador e asociedade em que se insere” (BOSI, 2003, p.199)
  23. 23. 23 2. A COSTURA: PONTO A PONTO.2.1. A pesquisa Optamos, neste trabalho, por estudar memória de velhos, definidos comohomens e mulheres com idade a partir de 60 anos, moradores do Lar dos IdososFabiano de Cristo, em Senhor do Bonfim, no intuito de colhermos lembranças acerca de suas vivências. Aportamo-nos na História Oral por considerá-la apropriadaao nosso objetivo, não só durante a colheita dos depoimentos, como também pelapossibilidade de estabelecer laços e de exercitar a escuta sensível das narrativas dooutro e, neste caso específico, um outro em idade avançada, longe do burburinho docotidiano. Nesta visão, ele vive numa espécie de exílio brando, onde vive tratadocom simplicidade e zelo, mas afastado de suas origens e do convívio familiar, nummomento da vida em que as incertezas e os medos, o que o torna mais carenteafetivamente. A História Oral: Recupera aspectos individuais de cada sujeito, mas ao mesmo tempo ativa uma memória coletiva, pois, à medida que cada indivíduo conta a sua história, esta se mostra envolta em um contexto sócio-histórico que deve ser considerado. Portanto, apesar de a escolha do método se justificar pelo enfoque no sujeito, a análise dos relatos leva em consideração, [...], as questões sociais neles presentes. (OLIVEIRA, 2005, p. 94). Considerando que a Memória é uma construção não apenas individual, mascoletiva, neste labirinto que é a produção de saberes e conhecimentos, escolhemos,através da História Oral, seguir os fios rememorativos oferecidos por nossos idosos,em suas lembranças de família, de infância e escola. E ainda acrescentamos que, de acordo com Thompson (1992), as pessoasidosas podem ser especialmente beneficiadas com a História Oral, porque elasfreqüentemente são indivíduos “ignorados e fragilizados economicamente [e atravésda história oral], podem adquirir dignidades e sentido de finalidade ao rememorarem
  24. 24. 24a própria vida e fornecerem informações valiosas a uma geração mais jovem” (p.33).2.1.1. Os instrumentos: A entrevista: Elegemos a entrevista como o instrumento precípuo da nossa pesquisa. ParaThompson: “o uso da voz humana, viva, pessoal, peculiar faz o passado surgir no presente de maneira extraordinariamente imediata. As palavras podem ser emitidas de maneira idiossincrática, mas por isso mesmo, são mais expressivas. Elas insuflam vida na história”. (THOMPSON, 1992, p.41)”. Alberti (2008, p.101) descreve uma entrevista como, primeiramente, “umarelação entre pessoas diferentes, com experiências diferentes e opiniões tambémdiferentes, que têm em comum o interesse por determinado tema, por determinadosacontecimentos e conjunturas do passado”. Começa no planejamento, passandopela escolha dos depoentes e confecção do roteiro de questões propriamente dito.Para tanto, é imprescindível que o pesquisador / entrevistador tenha o entendimentode que “as pessoas são diferentes, cada uma tem suas próprias maneiras de ser ede pensar e, diante de um gravador, podem ter as mais diversas reações”(SANTOS; ARAÚJO, 2007, p. 197). A carta cessão Documento indispensável para garantir a legalidade do uso da entrevista, acarta de cessão deve dispor tanto da gravação quanto do texto final, devendoexplicitar as possibilidades e limites para o eventual uso posterior do materialproduzido. O controle e o uso (do todo ou parte do material) devem ser vinculados àinstituição que tem a guarda das gravações. (MEIHY; HOLANDA, 2007).
  25. 25. 25 Conseguimos as assinaturas dos depoentes, escreveram com certadificuldade motora, mas de modo legível. Infelizmente não obtivemos as assinaturasdas duas depoentes. Uma esboçou o próprio nome, porém de maneira ilegívelporque segundo a mesma “ficou nervosa”. Tentou-se tranqüilizá-la, imprimindo maiscópias e dizendo que poderia tentar o quanto quisesse, contudo depois de algumastentativas, ela perguntou: “Posso colocar o dedo? [...] É por causa das vistas”,justificando a sua dificuldade em enxergar mal. Assentimos. Já a outra relatou quefreqüentou a escola, contudo não quis tentar assinar, disse: “não lembro mais denada, tem muito tempo”. Para resolver o impasse, usamos almofadas para carimbospara colher as impressões digitais. Como testemunhas assinaram o Senhor JoãoFernandes, presidente do Centro Espírita e Dona Nivanilda Dias da Silva,funcionária do Lar. Ainda nessa fase fora necessário recorrer à Ata de Admissão àprocura da data exata da entrada dos depoentes no Lar, bem como de números deRG ou CPF, para preencher os dados exigidos da carta de cessão.
  26. 26. 26CESSÃO DE DIREITOS SOBRE DEPOIMENTO ORAL PARA A UNEB/CAMPUS VII-SENHOR DO BONFIM 1.Pelo presente documento,.................................................................................... brasileiro (a)............................... (estado civil),............................................., (profissão), carteira de identidade nº............................................., emitida por...................................., CPF nº. ................................................, residente e domiciliado (a) em .................................................................................................... ............................................................................................................................. ..... cede e transfere neste ato, gratuitamente, em caráter universal e definitivo à UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA (UNEB) a totalidade dos seus direitos patrimoniais de autor sobre o depoimento oral prestado no dia........................, perante a pesquisadora ........................................................................................... 2. Na forma preconizada pela legislação nacional e pelas convenções internacionais de que o Brasil é signatário, o DEPOENTE, proprietário originário do depoimento de que trata este termo, terá, indefinidamente, o direito ao exercício pleno dos seus direitos morais sobre o referido depoimento, de sorte que sempre terá seu nome citado por ocasião de qualquer utilização. 3. Fica, pois, a UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA (UNEB) plenamente autorizada a utilizar o referido depoimento, no tido ou em parte, editado ou integral, inclusive cedendo seus direitos a terceiros, Brasil e/ou no exterior. Sendo esta forma legitima e eficaz que representa legalmente os nossos interesses, assinam o presente documento em 02 (duas) vias de igual teor e para um só efeito. .................................................................................... Assinatura legível do cedente TESTEMUNHAS: ____________________________ _____________________________ Nome legível Nome legível CPF: CPF:
  27. 27. 27 Após o recolhimento das assinaturas ou equivalente dos depoentes etestemunhas, mediante carta cessão, conforme exposto nos parágrafos anteriores.Fizemos uso de roteiros para as entrevistas, que foram organizados em um guiacontendo dois blocos. O guia das entrevistas BLOCO I – IDENTIFICAÇÃO DA FONTE: No primeiro bloco foi utilizada uma ficha de identificação dos depoentes. Estaetapa das entrevistas ocorreu sem transtorno significativo. Marcou-se comantecedência a visita e, com a ajuda dos depoentes, recolheram-se dados para aelaboração do quadro de identificação, necessários à caracterização dos mesmos. Na oportunidade, fotografamo-los, mediante consentimento. Durante asessão, demonstraram desenvoltura e contentamento ao posarem e ao sereconhecerem nas imagens da câmera digital. Ainda neste momento, aproveitamospara testar, com os depoentes, pela primeira vez, o gravador e o microfone.Surpreendentemente, foi um instante de descontração, em que acharaminteressantíssimo ouvir a própria voz, esboçando sorrisos e expressões deadmiração. Optamos por um gravador de voz digital de memória flash, display LCD,marca Nakashi, modelo PDR3-489, com peso 36 gramas e tamanho 105 x 30 x19,5mm, que funciona com duas pilhas palito AAA, grava até 8:00h de conversação,além de vir com microfone do tipo lapela e fones de ouvido o que tornou menoscomplexa a posterior transcrição.
  28. 28. 28 ROTEIRO DE ENTREVISTA Por ...........................................................................Assunto:................................................................................................................................ ........ 1° BLOCO: Identificação dos entrevistadosData:............................... horário do início:........................................................Local:.............................................................................................................................Nome:.............................................................................................................................Etnia:....................................................................................................................... .......Idade:...................anos / data de nascimento:..........................................................Posição no grupo familiar:..............................................................................................Filiação:.........................................................................................................................Local de nascimento:....................................................................................................Estado Civil: .................................................................................................................N° de filhos:..............................(feminino) .............. (masculino).................................Religião:........................................................................................................................Escolaridade:.......................................................................
  29. 29. 29 BLOCO II – AS QUESTÕES DO CORPO DA INVESTIGAÇÃO: O segundo bloco de entrevistas foi agendado observando-se a escolha dosadministradores do Lar. Foi realizado no turno vespertino, atentando para o confortodos depoentes, já que no período matutino é feita a higienização do local além deserem desenvolvidas outras atividades como higiene pessoal dos pacientes,refeições e medicação. Chegamos após o almoço e, mais uma vez, testamos omaterial técnico com cada um deles antes da colheita dos depoimentos. O roteiro foi assim composto: BLOCO II – As memórias1. A FAMILIA Fale sobre os seus pais. E os seus irmãos? Como era o convívio com sua família?2. A INFÂNCIA O senhor (a) lembra como era a sua casa? E o quintal? O senhor (a) lembra como era a sua rua? Fale sobre os seus amigos. Como eram que as crianças brincavam, e quais as brincadeiras?3. A ESCOLA Fale sobre os seus colegas. Como eram os seus professores? Onde se localizava a sua escola? Quais eram as atividades de ensino? Como eram as brincadeiras na escola? Como eram as festas da escola e os castigos?
  30. 30. 302. 2. As Fontes2.2.1. Fontes orais: De acordo com Benjamim (1994), sempre houve dois tipos de narrador. Um éo que vem de fora e narra suas viagens. Outro é o que ficou e conhece sua terra,seus conterrâneos cujo passado o habita. Suas experiências geram conhecimentodo qual tira o conselho. A arte da narração não está confinada nos livros, tendo veioépico oral. O narrador tira o que narra da sua experiência, transformando emexperiência aos que o escutam. O, conhecendo seu ofício, tem como dom oconselho, abarcando uma vida inteira. Há algo de sagrado na atmosfera que envolveo narrador. Da experiência advém o dom da narrativa. Do sofrimento retira sempreuma lição. A sua dignidade está em contá-la, sem temor, até o fim. Como forma artesanal de comunicação, a narração objetiva transmitir oacontecido em sua essência, tecendo, alcança o objeto e lhe confere uma novaforma, uma boa forma. Contando a circunstância em que foi testemunha doacontecido, começa a sua narrativa. Cada história contada está inscrita na suaprópria história. “O narrador é o homem que pode deixar a luz tênue de sua narraçãoconsumir completamente a mecha de sua vida [...] O narrador é a figura na qual ojusto se encontra consigo mesmo” (Benjamim, 1994, p. 221). Considerando que depoentes são narradores, não nos preocupamosespecialmente com amostragem, já que partimos de pressupostos qualitativos paraa escolha desses. Fomos guiados pelos objetivos da nossa pesquisa, tendo em vistaque o nosso trabalho consiste no estudo da memória de velhos, elegemos a velhicecomo condição, pois acreditamos que o dom da narrativa surge das dores, dasvivências e do resultado extraído delas. Ancorados nesse recorte, elencamos doishomens e duas mulheres, pertencentes à faixa etária igual ou superior a 60 anos,critério cronológico estabelecido no Estatuto do Idoso1. Isto por entendermos que1 Lei Federal nº. 8.42/94; 10.741/2003 (Estatuto do Idoso).
  31. 31. 31experiências diversificadas quanto ao gênero ampliariam e enriqueceriam o nossotrabalho. Consideramos aspectos como as condições físicas e psicológicas dosatores e ainda a disponibilidade real para participação nas entrevistas.2.2.2.Caracterização dos Depoentes:Fig 01: Senhor João Xavier Dias (1928): Foto de caracterização do depoente;João Xavier Dias: Brasileiro, filho de Anna Xavier Dias e Baldoíno Dias, natural de Pirajuí, SãoPaulo, nasceu no dia 15 de outubro, tem 81 anos. Caçula de cinco filhos, doisDisponível em: http://www.amperj.org.br/store/legislacao/codigos/idoso_L10741.pdf.
  32. 32. 32irmãos e duas irmãs. Aos seis meses, devido à morte do pai, a família voltou para aBahia, onde estudou até o terceiro ano primário. Afirma que, quando jovem,trabalhou como balconista de farmácia, no Rio de Janeiro, como operário em umafábrica nitro-química, em São Miguel Paulista, e que, de volta à Bahia, “tomou contade quartos” na Caraíba Metais, em Jaguarari. É solteiro, não tem filhos, é católico,aposentado, foi trazido ao Lar por um amigo no dia 21 de janeiro de 2008.Fig. 02: Raul Gomes (1932): Foto de caracterização do depoente;Raul Gomes: Brasileiro, nascido em 18 de abril, em São Luiz do Quitunde, Alagoas, criadoem Maceió, capital do Estado, tem 77 anos. Caçula, num total de cinco, duas irmãs edois irmãos, filho de José Melquides Gomes e Augusta Cula, estudou até a quinta
  33. 33. 33série ginasial. Tem formação católica. Como profissão afirma ter sido sempreviajante, representante de fábricas de doces, sem vínculo empregatício formal. Éaposentado. É solteiro, contudo afirma que tem duas filhas residentes em Juazeiro,mas não mantêm contato. Ainda segundo o seu depoimento, elas não sabem ondeele está. É morador do Lar desde 01 de junho de 2006.Fig. 03: Edvalda Maria de Jesus (1936): Foto de identificação da depoente;Edvalda Maria de Jesus: Brasileira, natural de Saúde, Bahia, nascida em 10 de setembro, filha maisvelha de Adelina Josefa Maria de Jesus e de José Lopes da Silva, irmã de Joaquim,Adolfo, Nilton, Euclides e Laura, tem 73 anos. Lavradora, não alfabetizada, écatólica, foi “casada no padre”. É viúva, pensionista, afirma ter tido nove filhos. Cinco
  34. 34. 34deles faleceram, já os outros vivem em São Paulo, Gildásio, Everaldo, Maria deLourdes, em Brasília, e Manoel que mora na Água Branca. Chegou ao Lar trazidapor um sobrinho, no dia 12 de abril de 2008.Fig 04: Joselita Roque da Silva (1932): Foto de identificação da depoente;Joselita Roque da Silva: Filha de Tertuliano Luiz da Silva e Bárbara Francisca Dias, nasceu no dia 03de julho de 1932, em Canavieiras, Município de Campo Formoso. Irmã mais velhade dois irmãos, tem 77 anos. Estudou até a terceira série do primário. Viúva, eradoméstica, teve apenas um filho “de criação” que atualmente reside em Juazeiro, evem visitá-la “de vez em quando”. É aposentada. Foi trazida ao Lar por uma
  35. 35. 35sobrinha que também é sua afilhada, com quem morava numa casa junto com umdos irmãos, também já idoso, em Senhor do Bonfim. A coleta de depoimentos: “A fim de produzir melhores condições para as entrevistas, o local escolhido éfundamental. Deve-se, sempre que possível, deixar o colaborador decidir sobre ondegostaria de gravar a entrevista.” (MEIHY; HOLANDA 2007). Seguimosrigorosamente a esta orientação. O primeiro a ser entrevistado foi Sr. João Dias, que escolheu o próprio quarto,embora o quarto fosse coletivo. Os outros internos, pensamos, não causariamproblemas, e não causaram. Contudo, por uns instantes é possível ouvir a voz deuma das enfermeiras falando com os pacientas a fim de dar-lhes a medicação e istoprovocou desconcentração na entrevista, mas apenas momentânea. O quarto eraarejado e o Sr. João conversou com desenvoltura e, apesar de dizer que não selembrava nada da infância, ofereceu testemunhos valiosos. Os três seguintes aserem entrevistados foram Sr. Raul, D. Edvalda e D. Joselita, respectivamente, olocal escolhido foi a sala da diretoria. Nestes casos, alguns problemas surgiram,como ser a sala quente, escura, apertada. Arranjou-se um jeito de acomodá-losconfortavelmente, mas não ligamos o ventilador para que não interferisse nacaptação do áudio. Para a entrevista, fizemos uso de banquinhos, postando-seabaixo do plano dos entrevistados. Resolveu-se parar de fazer anotações e passar aapenas concentrar nos depoentes. A porta, que estava entreaberta, se abriu aindamais e, nas gravações é possível ouvir além de ruído dos internos conversando, boaparte de uma novela televisiva. Gostaria de ressaltar que os transtornosmencionados não provocaram problemas que conduzissem a erros perceptíveis,fora o incômodo na condução das entrevistas. Com os depoimentos colhidos, passou-se à transcrição. Inicialmente,transferiram-se os dados para o computador, que também foram gravados em mídia.Para a audição, usamos o programa Windows Média Player e fizemos parte da
  36. 36. 36digitação diretamente, contudo, devido à dificuldade de entendimento de algumasfrases e ou palavras tornou-se necessário uso de fones, sendo realizada,primeiramente, transcrição a mão para posterior digitação do material. Foinecessária conferência repetida para garantir a fidelidade do transcrito, bem como asinalização dos gestos e expressões capturados durante as entrevistas. A transcrição é o processo em que se assegura a formatação do corpodocumental a ser trabalhado pelo pesquisador. Em tempo, embora reconheçamos anecessidade da transcrição literal, chamamos a atenção para o fato de que trata deuma das etapas na feitura do texto final. Pela textualização a narrativa é valorizada“enquanto um elemento comunicativo prenhe de sugestões” (MEIHY, 1991:30-1apud MEIHY; HOLANDA, 2007, p160).2.2.3 Fontes escritas: As fontes escritas foram imprescindíveis na tecitura do nosso trabalho. Alémde livros, valemo-nos de artigos e outras fontes documentais como, por exemplo,Leis que versam sobre idosos e ainda o Estatuto do Centro e do Lar dos IdososFabiano de Cristo. Dentre as fontes referenciais utilizadas destacamos: Ariès (1981) - Em sua obra apresenta duas teses, na primeira delas esboçauma interpretação das sociedades tradicionais e na segunda aponta o novo lugarassumido pela criança e a família em nossas sociedades industriais. Onde pudemosacompanhar o surgimento e mudanças nas configurações do que passamos achamar de “idades da vida”. As idades da vida não correspondiam apenas a etapasbiológicas, mas a funções sociais o que lhe garante historicamente um caráternotadamente sociocultural. Indispensável para a ampliação do nosso entendimentoquanto ao surgimento do que denomina sentimento de família e de infância. Alberti (2005) - O Manual de história oral foi constituído a partir dasexperiências do programa de História Oral do CPDOC e como todo manual,estabelece um universo de procedimentos possíveis e serve de modelo para
  37. 37. 37aplicações práticas. Pelo seu valor instrumental foi referência e guia de constante deorientação tanto nas etapas de elaboração do nosso projeto quanto nas análises donosso trabalho, por trazer a História Oral como uma atividade interdisciplinar, naqual são imprescindíveis o rigor da pesquisa científica e a sensibilidade no processode indagar, questionar, reconstituir a dimensão e a consistência do que nos fora, demodo cúmplice, revelado. Benjamin (1994) – Vale esta obra especialmente pelo que tange ácaracterização do narrador e esclarecimentos quanto à natureza da narração ou artede narrar, como algo que brota das experiências e gera conselho, sabedoria. Bosi (1994). - Obra, sobretudo, poética, sem deixar de contemplar o teórico, osocial e o político na colheita e análise das memórias dos velhos. Teve emmoradores da Cidade de São Paulo os objetos de seu trabalho, confeccionado comsensibilidade e cientificidade. Foi, ao mesmo tempo, inspiração e ferramenta para odesenvolvimento de nossas atividades. Halbwachs (2006). – Servimo-nos de seus estudos sobre a Memória.Especialmente porque considera memória não apenas como evocação de individual,mas como reconstrução coletiva. Também, neste trabalho distingue Memóriahistórica de Memória coletiva. Seguindo as direções apontadas pela consciênciacoletiva e individual, discorre sobre o desenvolvimento de diversas formas deMemória, que adquirem formas diferentes conforme os objetos que elas implicam. Le Goff (1990). - Teve indispensável serventia quando trabalha com conceitoscomo História e Memória e suas relações sob uma perspectiva história. Machado (2007). - Paulo Batista Machado é licenciado em filosofia, história eteologia. Mestre em educação pela Universidade Federal da Bahia (1990) e Ph. Dem Educação pela Universidade do Quebec em Montreal (1999), concluiu o pós-doutorado na universidade Federal da Bahia, atualmente é professor titular doInstituto Superior de Teologia e pastoral de Bonfim e professor titular da
  38. 38. 38Universidade do Estado da Bahia. Publicou diversos artigos em periódicosespecializados e alguns trabalhos em anais de eventos. Possuiu livros publicadosnos domínio da poesia, educação e história. A obra “Notícias e saudades da VillaNova da Rainha”, aliás, Senhor do Bonfim, discorre sobre aspectos geográficos,sociais, políticos, econômicos, demográficos e culturais do referido município, nosauxiliando especialmente no histórico e caracterização do lócus de pesquisa. Meihy; Holanda (2007). - Introdução abrangente e exemplificada, a fim defacilitar o debate sobre como abordar: memória, identidade e comunidade, matérias-primas da história oral. Temos aqui um roteiro em que a experiência prática searticula às ponderações teóricas de maneira que uma justifica a outra. Thompson (1992) - Trata de como fontes orais podem ser coletadas eutilizadas pelos historiadores. Contudo, também provoca historiadores a sequestionarem sobre o que estão fazendo e por que, considerando que as atividadespor eles exercidas estão inevitavelmente imbricadas num contexto social e que temimplicações políticas. Daí sua importância teórico-metodológica. A tomada deconsciência da dimensão política do nosso trabalho, sobretudo da adoção de umaperspectiva crítica, quanto aos limites e possibilidades da História Oral foramcertamente norteadores durante a execução das nossas atividades de pesquisa.
  39. 39. 392.3. Local da pesquisa: O Município de Senhor do Bonfim2.3.1. A localização do MunicípioMapa 01: Mapa do Território de Identidade 25- Piemonte Norte do Itapicurú, Bahia, 2007. Fonte:http://www.sei.ba.gov.br/site/geoambientais/cartogramas/territorio_identidade/pdf/piemonte_norte_itapicuru.pdf;
  40. 40. 40 O Município de Senhor do Bonfim fica situado no Piemonte Norte do Territóriodo Itapicurú, no Estado da Bahia (mapa 01). Esta micro-região compreende osMunicípios de Senhor do Bonfim, Campo Formoso, Antonio Gonçalves, Pindobaçu,Jaguarari, Andorinha, Ponto Novo, Filadélfia e Caldeirão Grande, sendo atualmenteclassificado como Território de Identidade 25. O Município de Senhor do Bonfim, referencial desta microrregião, teve origemno final do século XVIII, relacionando-se os ciclos do ouro e do gado à suafundação. Conforme lembra Machado (2007, p.37), “as terras desconhecidas foramconquistadas, os índios apresados, as pedras e metais precisos procurados...” Atualmente, o município conta com uma população estimada, conformepublicação do IBGE2 – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 01/07/09,em 76.113 habitantes. Dentre estes, 36.510 pessoas são do sexo masculino e39.603 são do feminino.2.3.2. O Asilo: O Lar dos Idosos Fabiano de CristoFig. 05: Fachada do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo;2 Estimativas das populações residentes, em 01/07/09, segundo os municípios. Disponível em:http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/estimativa2009/POP2009_DOU.pdf.Acesso: marçode 2010
  41. 41. 41 Fundado em 22 de abril de 1973, inicialmente era conhecido como o Lar dasVelhinhas, hoje Lar dos Idosos Fabiano de Cristo. Teve a sua primeira diretoria sob ocomando dos senhores Everaldo Pereira Dantas e Gildásio Sales. Esta casa de acolhida funciona à Rua João Rodrigues, número 67, no centroda Cidade de Senhor do Bonfim, num espaço anexo ao Centro Espírita Discípulosde Jesus, o mais antigo Centro Espírita Kardecista desta municipalidade. A funçãodesse abrigo é atender a idosos menos favorecidos dos sexos masculino e feminino. As atividades do Lar dos Idosos Fabiano de Cristo são potencializadas comrecursos financeiros do Centro Espírita Discípulos de Jesus, recebendo donativos dacomunidade em geral e pelo CRAS - Centro de Referência de Assistência Social(Casa da Família). Em março de 2009, a referida instituição contava com 11 (onze) funcionários,desde técnicos em enfermagem até pessoas contratados para serviços gerais, quesão remunerados pelo Centro Espírita Discípulos de Jesus. O Lar tem capacidadepara 25 internos e até a mencionada data contava com 20 moradores, oriundos nãoapenas de Senhor do Bonfim, mas de regiões circunvizinhas. Os Aspectos Legais e Administrativos do Lar dos Velhinhos: O Lar dos Idosos Fabiano de Cristo é regido por um Regimento Interno,elaborado em consonância com o art. 6º da Lei Federal nº. 8.42/94 e os Artigos 52 e53 da Lei Federal nº. 10.741/2003 - Estatuto do Idoso. E também a Lei nº.9013/2004, de 25 de fevereiro de 2004, que dispõe sobre a política Estadual doIdoso. É parte integrante de uma das áreas de ação do Departamento de Serviço deAssistência e Promoção Social do Centro Espírita Discípulos de Jesus, disposto numParágrafo Único, Capítulo VI, Art. 39:
  42. 42. 42 “Para execução de suas finalidades e alcance de seus objetivos sociais, oCEDJ poderá criar e gerir departamentos de serviços sociais, educacionais, etc. quese regularão através de regimento interno devidamente aprovado em ato próprio dadiretoria e posterior comunicação em Assembléia. I. Tais órgãos, quando criados, serão vinculados á instituição, podendo, a fimde atender as legislações pertinentes, virem a ser cadastrados nas entidadesgovernamentais que forem obrigados para o desenvolvimento das atividades a quese pretendem, como a inscrição no CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica),CNAS (Conselho Nacional de Assistência Social) etc.; II. Poderão celebrar convênios, parcerias e outras formas de acordosespecíficos com órgão governamentais e não governamentais desde que, tenhamprévios projetos elaborados e aprovados em Diretoria; II. Uma vez acordados tais compromissos institucionais, o CEDJ obedecerá emanterá escrituração contábil/financeira específica dentro das normas legaisemanadas, com o objetivo de prestar contas não somente aos órgãosgovernamentais fiscalizadores que estiverem obrigados por lei, como também atentoà conduta espírita de transparência e oralidade. Parágrafo único: em funcionamento desde abril de 1973, O LAR DOSIDOSOS FABIANO DE CRISTO, é parte integrante de uma das áreas de ação doDepartamento de Serviço de Assistência e Promoção Social, regulado de acordocom Regimento Interno.”
  43. 43. 43 3. CAPÍTULO I - A FAMÍLIA3.1. Lembranças da Família Através de estudo iconográfico, Ariès (1981) tece sua tese de que a Históriada Família, a partir da segunda metade do Século XI, sofreu uma significativaalteração. Ilustrando a colocação com imagens colhidas em calendários, afirma quea partir do período mencionado, as imagens de família deixa de ser a do casal e seuamor romântico “cortês” ou do casal e da criança prematuramente morta e passa aassociar a sucessão dos meses do ano às idades da vida. Contudo esta nãorepresentada mais em seu aspecto individual, mas sim, familiar. De acordo com Bosi (1994), o sentimento de pertencimento a um grupo émantido pela atmosfera familiar. Já que família se constitui num grupo coeso, por seruma espécie de unidade de mediação entre o mundo e a criança. Para Halbwachs(2006, p. 45), “a família é o grupo do qual a criança participa mais intimamentenessa época de sua vida e está sempre a sua volta”. Apesar da fixidez que as relações de parentesco possam impor, em nenhumoutro espaço social nos sentimos tão singulares como dentro do ambiente familiar.Os depoimentos de alguns dos colaboradores demonstram como esses elementostão significativos permeiam as suas lembranças: O Sr. Raul conta que é o filho maisnovo de uma família de quatro irmãos (...) “Ah, sim sou o caçula”(...). D. Joselitarelembra o seu animal de estimação: (...)”Eu tive um cachorro que se chamavaSultão, que morreu há muito tempo” (...) D. Edvalda revela qualidades e diferençasentre ela e a irmã: (...) “Mas, eu tinha mais saber que minha irmã legítima, irmãprópria. Porque eu era terrível, não nego, sou positiva” [risos] (...) O Sr. João por suavez lembra e conta uma acontecimento curioso sobre o nome de sua mãe: (...)“Minha mãe chamava-se Anna, de vez em quando assinava só com um “nê".Quando eu fui tirar a identidade, foi com dois “nês”, né?”(...). Ser o caçula, ter um
  44. 44. 44cachorro, “ser terrível”, ser filho de D. Anna, com dos “nês”, confere relevo, um lugarde destaque, assemelha e difere os indivíduos dentro do seio familiar. Nossos depoentes têm uma média de idade de 77 anos, nascidos entre 1928a 1932. Foram criados no interior, exceto o Sr. Raul que embora tenha nascido nointerior alagoano, fora criado em Maceió. Majoritariamente tiveram suas famíliasformadas por vários irmãos, à exceção é D. Joselita, que teve apenas dois irmãos. Como instituição social, a Família tem passado por inúmeras transformaçõesao longo dos tempos. Adotado várias feições. Embora esteja cada vez mais rara aimagem de família numerosa que além de pais, filhos, netos, avós, tios e tinha os“agregados”. E seja cada vez é mais comum nos depararmos com famílias formadasapenas pelo casal ou com um ou dois filhos. É inegável a sua importância comoguardiã e geradora de memórias. As lembranças do grupo doméstico persistem matizadas em cada um dos seus membros e constituem uma memória ao mesmo tempo uma e diferenciada. Trocando opiniões dialogando sobre tudo, suas lembranças guardam vínculos difíceis de separar. Os vínculos podem persistir mesmo quando se desagregou o núcleo onde sua história teve origem, Esse enraizamento num solo comum transcende o sentimento individual (BOSI, 1994, P. 423)3.2. Os Pais Pela vida, levamos conosco a imagem dos nossos pais. Conforme ascondições do momento presente, dos juízos que podemos fazer sobre sua época, aimagem deles, tal qual num retrato vai sendo avivada, restaurada pela memória.Pela rememoração, através de fotografias, conversas com conhecidos, amigos quefreqüentava os mesmos ambientes, trabalho, pessoas que vivenciaram as mesmashistórias, somos capazes de reconstituir suas figuras. Entretanto, se não dispomosmais disso, fotografias, pessoas que conviveram conosco ou mesmo alguémdisposto a nos ouvir, cada vez mais essa imagem vai amarelecendo, se apagando,sendo esquecida. (BOSI, 1994; HALBWACHS, 2006).
  45. 45. 45 Nossos idosos são asilados. Durante a vida foram despojados ou perderamobjetos catalisadores de recordações, como fotografias antigas. A maior parte delesnão tem contato algum com parente ou amigo próximo para que possa rememoraros “tempos idos” ou simplesmente “papear”. Recebem visitas ocasionais de “amigosdo lar”. A entrevista se configurou um momento para rememorar, evocar, reconstruirmemórias, narrar suas vidas. Começamos pelas lembranças de família... Nos relatos de lembranças do grupo doméstico de nossos depoentes,observamos que embora a maioria dos idosos tenha ficado órfã em tenra idade, oaparecimento da figura paterna surge inicialmente como central na maioria dosrelatos. O Sr. João perdeu o pai aos seis meses de idade. Então, D. Anna, viúva, mãede cinco filhos, um recém nascido, decidiu deixar Pirajuí, cidade cafeeira do interiordo São Paulo e voltar para Jaguarari, Bahia, sua terra natal, onde tinha seusfamiliares. Pelo diálogo, trocando informações sobe tudo, cria uma memória una ediferenciada, que pertence de modo diferente a cada um dos membros da família.Mas é, antes de tudo, uma construção coletiva. De acordo com Bosi (1994, p.425),um familiar não mais presente, distante, pode tornar-se especialmente amado,mitificado, figura a quem a família agarra-se, buscando forças, possibilitando oestreitamento de seus vínculos, o depoimento do Sr. João ao relembrar de seu pai éexemplo disso: (...)”Meu pai era bom. Era fazendeiro lá em Pirajuí. Meu pai,Baldoíno Dias, não cheguei a conhecer, me deixou com seis meses.” (...). AindaBosi (1994) coloca que, “na verdade, nossas primeiras lembranças não são nossas.Estão ao alcance de nossa mão no relicário transparente da família”. Em suas rememorações, D. Edvalda faz referência à autoridade paterna.Comenta como era exercida. Disse que seu pai batia, mas não era muito. Olhares egestos de repreensão bastavam para que fosse obedecido. Seu pai se chamavaJosé Lopes da Silva. Ela não mencionou a data nem as circunstâncias dofalecimento do mesmo. Usou lugares referencias para apoiar suas memórias e noscontou onde foi sepultado (...)” Sei onde é Papinho, é quando vai para CaldeirãoGrande. Tem um cemitério. Meu pai sepultou lá. E minha mãe levou o defunto por
  46. 46. 46aí”. (...) Atestando assim a importância do espaço como marco, ponto-de-apoio desuas reminiscências, como apontara Halbwachs (2006). O senhor Raul Gomes também não descreveu o pai fisicamente, mas seemociona muito ao falar da relação que tinha ele:(...) “meu pai era muito amigo. Metratava muito bem” (...). Acrescentou gesticulando que seu pai era um homem muitoeducado, experiente e que conversava muito: (...)”Aí, quando chegava em casa,conversava. Conversava coisas de gente grande [risos]” (...). A figura paterna é aquiapreendida pelos traços mais etéreos, espirituais, não físicos. Talvez isso aconteçaporque sua presença no lar era menos concreta, quando comparada à da mãe queestava quase sempre presente. D. Joselita relatou que foi criada pela mãe, com quem manteve um bomrelacionamento até a morte desta. Ficou órfã de pai aos quatro anos idade e sobre omesmo relatou apenas: (...) “Eu lembro que fui lá, assim. Vi ele lá no caixão, masnão tenho lembrança de nada” (...). Bosi (1994 p. 427) observa que “se nossosmortos recuam, se a distância se alonga entre nós, a culpa não é do tempo, mas dadispersão do grupo onde viveram e que sentia necessidade de nomeá-los, dechamá-los de vez em quando”. A figura materna também apareceu, nos relatos dos idosos. Caracterizada poratributos físicos, em contrapartida, prevaleceram atributos morais como comprovamos seguintes depoimentos: nas palavras de Sr. João: (...)“Minha mãe era boa,direita”(...). D. Anna Dias Xavier faleceu com 96 anos. Por sua vez, D. Joselita contaque lembra bem da sua mãe, D. Bárbara Francisca Dias. Esta faleceu depois queela já tinha casado, e, a exemplo de Seu João, cuja mãe também era dona de casae viúva, ressalta suas características morais ou de personalidade: (...) “Minha mãeera uma pessoa distinta, paciente, alegre”. (...). Mas suas lembranças tambémcontemplam outra faceta da mãe. Disse que ela não teve estudo, que arrumava acasa, colocava as coisas em ordem e ainda complementou: (...) “Eu tambémajudando, ajudava a varrer o terreiro, as coisas" (...).
  47. 47. 47 Como elemento principal nos relatos do Sr. Raul e D. Edvalda, observamosque as lembranças estavam mais relacionadas às atividades que suas mãesdesempenhavam ou não no lar, na família. D. Augusta Cula, mãe do Sr. Raul, eradona de casa, contudo, ele afirma que ela não gostava dos afazeres domésticos,que não os fazia, deixava a cargo de sua irmã: (...) “Minha mãe ficava em casa semfazer nada... ela... não gostava disso não, quem fazia era a minha irmã” (...). Em seurelato podemos identificar vestígios da “educação feminina”, aquela voltada para olar. Esta apareceu também nos relatos de D. Joselita sobre sua participação nastarefas domésticas, enquanto os meninos, seus irmãos, eram dispensados detarefas: (...) “Quando pequeno era brincando por ai. Depois foram crescendo, foramtomando rumo. Aí deu para trabalharem.” (...). Nas lembranças de D. Edvaldaquando a figura de D. Adelina Josefa Maria de Jesus, sua mãe, surge é associada àfigura paterna, seja quando relembra a localização do cemitério onde foramenterrados, primeiro o pai, depois a mãe, seja quando relata o modo como eracriados, ela e os irmãos. (...)”O pai de nós seis e primeiramente a mãe, né não?Botam a gente pra cozinhar, fazer comida, lavar roupa, gomar, ir para as roças, catarmandioca, catar andu. Fazer todo serviço” (...). Mais adiante retomou o assunto,acrescentou mais um elemento para nossa análise: (...) “Nós ia trabalhá [...]. quenem burro na carroça. Para quê? Para não pegar no alheio. Nóis não pegava noalheio. Bem nascida e bem criada.”(...). Neste depoimento, além de aparecerem asatividades realizadas na esfera doméstica, também aparecem aquelas próprias dotrabalho na roça. Aparecem também a consciência do peso do trabalho eprincipalmente o seu valor como atividade moralizadora.3.3. Os Irmãos As famílias dos nossos velhos, de acordo com os depoimentos recolhidos,são bem numerosas. Na família do Sr. João e, coincidentemente, na do Sr. Raul,são quatro irmãos, dois meninos e duas meninas; D. Edvalda conta que em suacasa eram cinco irmãos, quatro meninos e uma menina; D. Joselita apresentou umafamília menor com apenas dois irmãos, do sexo masculino. Os irmãos sãocompanheiros de nossa infância, com quem partilhamos os mesmos espaços e
  48. 48. 48muitas experiências, descobertas, conquistas, perdas... São histórias queguardamos e que compõem as lembranças de família. Como fora dito, D. Joselita teve dois irmãos. Um, com quem morou antes devir para o asilo, e outro, já falecido. Em suas lembranças, eles aparecem comomeninos. Meninos que viviam brincando. Sobre a convivência com eles, ela diz:(...)“Se dava bem. Às vezes teimava, mas, na mesma hora, estava tudo bem. Écoisa de criança é assim, né?” (...). Bosi (1994, p.429) chama atenção para o fato deque na maioria das vezes, os irmãos são fixados na infância e que, depois, suafigura empalidece, apenas sobrevivendo no menino ou menina que foram. No depoimento do Sr. Raul, ele revelou que não conviveu muito com osirmãos porque pensavam de modo diferente. Contou que um dos irmãos era casado,uma irmã solteira, mas que moravam longe. Disse recordar da outra irmã, quemorou junto com ele e sua mãe, e que hoje mora no Rio de Janeiro. Sabemos que, apartir de laços de convivência familiar, é desenvolvida uma memória coletiva, que éformada pela memória de seus membros, unificando, acrescentando, corrigindo.Contudo, é o indivíduo que relembra, por mais que deva á memória coletiva. Naspalavras de Bosi (1994, p. 411), “ele é o memorizador e, das camadas do passado aque tem acesso, pode reter objetos que são, para ele e só para ele, significativosdentro de um tesouro comum”. Talvez isto explique porque o Sr. Raul lacrimejou aolembrar o irmão que morreu ainda jovem: (...)“O rapaz era Ronaldo, que morreu comtrinta anos [longa pausa] Meu irmão era... muito brincalhão”(...) [silêncio]. Com oolhar distante, voz embargada, como quem fala para si e ao mesmo tempo, comotestemunha e guardião desse tesouro que tem na memória, buscou num sorrisoentre olhos rasos d’água transmitir, para nós, a essência de seu ente querido, emsilêncio. A quietude tem sempre razões muito complexas. Há o silêncio queadotamos em situações de extremo sofrimento. Antes de qualquer coisa, precisamosencontrar ouvidos atenciosos, dispostos a escutar, só assim podemos relatarsofrimento (POLLAK, 1989). O modo como D. Edvalda se reportou aos irmãos foi, para nós, inicialmente,curioso: (...) “Joaquim, em Filadélfia; Adolfo em Ponto Novo; Nilton, em Saúde;
  49. 49. 49finada Vavá em... na Fazenda Várzea Funda e Laura em Saúde”(...). Em Bosi (1994,p.432), encontramos: “Os filhos partem, tomam seu rumo, ainda que ligadosafetivamente aos pais, se dispersam geograficamente”. Mas, no caso de D. Edvalda,pudemos perceber, em seu relato, referência a vários lugares onde morou desde asua infância, nomes como Rio das Pedras, Várzea Grande, Água Branca, dentreoutros povoados da micro-região de Senhor do Bonfim, figuram como evidência deconstantes deslocamentos. Um desenraizamento, finalmente, coroado com vendada terra e da casa que pertenceram aos pais, e foram adquiridas pelo seu irmãomais velho. A família, então, se espalhou pelas cidades da região. O desenraizamento é uma condição desagregadora da memória: sua causa é o predomínio das relações de dinheiro sobre outros vínculos sociais. Ter um passado, eis outro direito da pessoa que deriva de seu enraizamento. Entre as famílias mais pobres a mobilidade extrema impede a sedimentação do passado, perde-se a crônica da família e do indivíduo em seu curso errante. Eis um dos mais cruéis exercícios da opressão econômica sobre os sujeitos: a espoliação das lembranças (BOSI, 1994, p. 443). O Sr João não nos deu muitos detalhes a respeito de seus irmãos. Sabemosapenas que eram dois do sexo masculino e duas mulheres. Sobre a convivênciacom eles, ressaltou que era muito boa, e revelou especial afeição por um quemorava em Salvador, onde costumava visitá-lo. Destacou também o lugar e a funçãoprofissional que o irmão exercia: (...) “O de Salvador era gerente da Adamastor.Você já ouviu falar da Adamastor? Meu irmão era gerente, ali na Rua Chile” (...). Atradicional loja de roupas masculinas, o Adamastor 3, vendia as roupas que oshomens elegantes usavam. E teve como seu primeiro dono o pai do cineastaGlauber Rocha, cujo nome é o mesmo do estabelecimento. Ficava na Rua Chileque, por sua vez, fora aberta como Rua Direita do Palácio, em 1549, pelo primeiroGovernador Geral do Brasil, Tomé de Souza. Durante séculos foi a principal viaurbana de Salvador, e mesmo do Brasil. Ficou famosa, no século XIX, pelascompanhias que atuaram no seu teatro. No início do século XX, quando assumiusua denominação atual, era conhecida pela sua iluminação moderna. Passaram nelaa se localizar as sedes de várias lojas de luxo, os mais afamados escritórios etc...No seu apogeu, nas décadas de 1940 e 1950, os cines Glória e Guarany trouxeram3 [http://ibahia.globo.com/sosevenabahia/ruachile.asp – Bruno Porciúncula: Rua Chile: centro deelegância, fonte de história].
  50. 50. 50os maiores sucessos de Hollywood.
  51. 51. 51 4. CAPÍTULO II - A INFÂNCIA4.1. Lembranças da Infância A narrativa dos idosos sobre a infância se aproxima, com muita clareza, dosaudosismo de Casimiro de Abreu, nos versos do poema Meus Oito Anos. (...)”Infância é liberdade, eu tive uma boa infância “(...), declarou o Sr. Raul. D. Joselitasentenciou: (...)“É o que já passou. Não sei mais nem lembrar, quase, né? [pausa]Tem passagem boa, que a gente se alembra ainda, das pessoas que eramdelicadas e tudo... Só isso.”(...). Como uma das idades da vida, na maioria dosdepoimentos, a infância figurou como uma espécie de aurora irisada de prazeres,como disseram o Sr. João e D. Edvalda, respectivamente: (...)“A infância... A infânciaé... é... a pessoa que gosta de se divertir, não é? Com a memória boa... Hoje, eu tôcom setenta e tantos anos, não é? Aí, na infância, a pessoa tem aquele gosto, né?De comer... De se distrair”.(...); (...)“Vixe, rapaz, era trabalhar nas roças... Naqueletempo não tinha malandragem, não. Nera não? Deste tamanhinho [gesto], eu? Aí, váaltiano... altiano... Era uma delícia e eu trabalhava por seis mulheres... Era a maisinteligente e cuidadosa. Era eu. Tô me achando veinha de idade, será que já estoucaducando”?(...) Remete-se a Ariès (1981,p.36), que indica que, na velhice, segundolembra de Isidoro, essa é assim chamada porque as pessoas velhas já não têm ossentidos tão bons como já tiveram, e caducam. Estes dois relatos deixam transparecer, inicialmente, duas questões sócio-culturais. Na primeira lembrança, a jovialidade do corpo, a alegria de ser criança, abrincadeira, a diversão, uma demonstração de que as crianças do sexo masculinotinham maior liberdade para exercitar o espaço de suas relações futuras. Já o outrorelato, da senhora Edvalda, retrata um fato comum que acontece, ainda hoje, nasperiferias e nas áreas rurais. É o aproveitamento da mão-de-obra infantil no trabalho. No relato, a criança, mesmo sendo do sexo feminino, estava apta ao trabalhoduro da roça. Era um trabalho que, supostamente, deveria ser exercido por homens,por exigir mais força e vigor físico. Nos depoimentos, após a lembrança iluminada da
  52. 52. 52infância, a velhice apareceu amarelecida, débil, banhada por raios crepusculares.Espoliados da casa de seus primeiros afetos, do quintal, da rua onde brincaram efizeram amizades... Asilados e envelhecidos nos ofertaram memórias repletas desentimentos, da infância querida que os anos não trazem mais.4.2. A casa, o quintal, e outros espaços revisitados ” Porque a casa é o nosso canto no mundo. Ela é como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda acepção do termo.” (Bachelard)4 Em consonância com Bachelard (1993), Bosi (1994), acerca da casa, indicaque é aquela em que vivenciamos os momentos mais significativos, importantes danossa infância. Afirma: Ela é o centro geométrico do mundo, a cidade cresce a partir dela, em todas as direções. Fixamos a casa com as dimensões que ela teve para nós e causa espanto a redução que sofre quando vamos vê-la com olhos de adulto. Para enxergar as coisas nas suas antigas proporções, como posso tornar-me de novo criança? A pergunta já está no Evangelho. Algumas pessoas, em geral os artistas, guardam essa possibilidade de remontar às fontes. (BOSI, 1994, p 435) Ao rememorar, o idoso bebe das mesmas fontes que os artistas conhecem,porque memória tem o quê do sonho, porém também do trabalho. Nisso, alembrança é revelação e reconstrução do experienciado. Assim, numa mistura resignação e lamento, teve início o relato de D. Joselitasobre suas lembranças da casa de sua infância, do quintal. (...)“Lembro, mas temmuito tempo, já se acabou tudo...[pausa] era grande, tinha três quartos, sala,varanda” (...). Ela contou que tinha de tudo plantado no quintal: bananeira prata,cafezeiro... Revelou, inclusive, que, certa vez, teve um cachorro chamado Sultão, eque também, quando mocinha, arranjou um mico. Um mico que se chamava Preto.4 BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.24.
  53. 53. 53Sobre o bichinho, rindo, ela prosseguiu: (...) “Ele chegava assim na cozinha e aí agente chamava: Preto! E ele descia... E descia medonho [risos]”(...). São duas as casa de D. Edvalda. A primeira ficava no Rio das Pedras (...) “Dejunto de seu Angelim. Rio das Pedras... Sei onde é.” (...). Depois mudaram.Compraram outra casa, outro terreno no Itapicuru. A segunda era (...) “outra casonagrande, muito grande” (...) O que a diferencia da casa de sua infância é o sentimentode luto pela perda dos pais (...) “Aí, foi onde minha mãe faleceu e meu pai”. (...) Sr. Raul relata que a casa ficava numa avenida. Não oferece mais detalhes.Resume em uma frase o que lembrou ser importante. (...) “A casa... tinha minha mãee minha irmã.” (...). A casa evocada por ele é a casa materna, a da família. Já sobreo quintal, com entusiasmo, revelou: (...) “Ah... Tinha um quintal grande... Era ipueira”“(...) E, sorrindo, acrescentou que tinha plantas sim (...)“ Tinha coqueiro...mangueira... tinha um bocado de coisa”(...). O Sr. João, quando perguntado sobre sua casa e/ou quintal, afirmou: (...)“Disso aí eu não lembro mais não... Não... Não lembro de jeito nenhum”. (...).Quanto ao esquecimento, Halbwachs (2006, p.37) indicou que “esquecer um períododa vida é perder o contato com os que então nos rodeavam”. O Sr. João sejustificou, dizendo: (...) “Não vou forçar muito [riso]. Agora... Aí, eu me recordo daminha boemia...”(...). Ainda conversando com o Sr. João ele revelou que gostava de ficar na PraçaNova do Congresso: (...) “A Praça Nova tinha um Coreto... Um coreto... Era... naPraça Nova. No coreto, a gente subia por uma escada... No coreto tinha, né? Osoutros lugares era... [pausa]... Às vezes ia pá Canoa passear. Essa Canoa. Igara...Só isso”(...).
  54. 54. 544.3. As Brincadeiras Estamos acostumados a conceber a infância como um tempo reservado aolazer, às atividades lúdicas, especialmente às brincadeiras. O Sr. Raul, numintrigante depoimento, conta: (...)“Eu não brincava, eu não brincava não... [pausa]Era difícil de brincar. Eu não tinha brinquedo não, porque... [pausa longa]. Não.. Nãogostava de brincar... [silêncio]” (...). São constantes as pausas e o silêncio ao longoda narrativa. Talvez por algumas lembranças dolorosas, que o impedem de externaro pensamento a respeito do brincar, que seria inerente ao ser criança. Já o Sr. João elencou uma série de brinquedos que gostava. Às vezes eragude, outras, pião com enfieira. Também soltava raia e disse ainda que gostavamesmo era de caçar passarinho. Em suas palavras: (...) “Eu gostava de ir pro matojogar... com... com badogue de borracha. Derrubar, né? Ééééé... Matar... [pausa] É...Caçar passarinho. Matar com badoguezinho no braço.” (...). Se no depoimento do Sr. João aprecem brinquedos e brincadeiras associadosao gênero masculino, no relato de D. Joselita, os referidos elementos foramassociados, inclusive por ela, ao gênero feminino: (...) “Brincava assim, quando seajuntava... Brincava de boneca, dessas coisinhas que menina brinca, né? A gentefazia aquelas brincadeiras no chão, no cantinho, né? De casinha, levava as bonecastudo. Depois tornava a juntar e guardava.”(...). Em relação aos espaços utilizadospara as brincadeiras, observamos a seguinte implicação, também relacionada aogênero. É a determinação dos lugares apropriados para os meninos, sendorepresentados pelo mato, pela rua, e, para as meninas, o cantinho, a casa. Omenino João saia para matar passarinho. A menina Joselita, depois de brincar,arrumava e guardava suas bonecas, reforçando a divisão dos espaços. O públicodestinado aos homens, suas lutas e atividades, e o espaço privado, a casa, local devivência das mulheres. D. Edvalda evidenciou, em seu relato, uma situação que é comum às criançasda zona rural: o trabalho infantil. Segundo a mesma, os pais não a deixam brincar,
  55. 55. 55pois tinha que trabalhar na roça. E descreveu assim sua atividade e dos irmãos: (...)“A mãe de nós seis era Divida Maria de Jesus. Meu pai, José Lopes da Silva, nãodeixava [brincar]. Nós ia carpi ná enxada. Capinando, sabe? Nas roça. Nós iatrabalhá. Pa... Para... Que nem burro na carroça. Para quê...? Pra não pegar noalheio”. (...).4.4. Os Amigos O Sr. Raul disse não se lembrar de amigos de infância. Mas relatou que,quando já era um “rapaz crescido” , tinha um amigo: (...) “Ele se chamava Edval. Val,né? Quando ia na casa dele, a gente conversava, mas a conversa era de gentegrande” (...). D. Joselita revelou que tinha poucas amigas, mas relembrou uma. Disse: (...)“Me lembro... Tem muito tempo que Maria casou e foi embora, pro mundo, para esselado das caatingas. Não vi mais nunca... Não sei nem se é viva, ainda.” (...) O relato de seu João: (...) “Ah! Me lembro... de infância... De infância...Lembro de Rafael... [pausa] Ele era da Polícia Federal... Rafael Pereira da Silva...Melembro desse Rafael... Me lembro desse “Buck Jones”... que está em Salvador. Dosmeus amigos Albérico Simões, o Catrévio... Do Aristides Simões, irmão de Albérico,dessa família, né? E do Coca, também, né? [risos]” (...)5.Segundo seu João, o amigoCoca e ele curtiram muitos carnavais em Senhor do Bonfim, na avenida que vai daSociedade 25 de Janeiro ao Clube União e Recreio. Observamos, nos depoimentos, que apenas um ou outro amigo de infânciafora lembrado. Conforme Halbwachs (2006), esquecemos quando saímos do grupoao qual fazíamos parte, quando deixamos de pensar nele e/ou não temos meio dereconstruir sua imagem. E, ainda, que “quanto mais os grupos se tocam e sedistanciam ou quanto mais numerosos são eles, mais a influência de cada um é5 O Cel. Aristides Simões foi um dos ilustres moradores de Itiúba, conhecido por não ceder a um cerco deLampião. Já o Coca é uma personagem pitoresca da cidade, irmão de um político desta mesma cidade.
  56. 56. 56enfraquecida.” (p.56-57) Ou, ainda, o esquecimento pode estar associado apatologias comuns ou não à velhice.
  57. 57. 57 5. CAPÍTULO III - A ESCOLA5.1. Lembranças da Escola: Atualmente, a escola é tida como um espaço especialmente destinado àsocialização de saberes, à educação da criança. A infância, por sua vez, carrega aprerrogativa de ser o “tempo da escola”. Todos os depoentes passaram peloprocesso de escolarização. D. Edvalda freqüentou a escola por apenas seis meses.O Sr. João e D. Joselita cursaram até o terceiro ano. Finalmente, o Sr. Raul estudouaté a quinta série. O Sr. João estudou em Senhor do Bonfim, no Prédio Escolar Austricliano deCarvalho6, situado ao lado da Catedral. (...)“Ali li naquele prédio escola. Não temaquele prédio? Não tem a Igreja? Vivia no colégio... Essas coisas. Assim, nessescolégiozinhos... Estudando, que minha mãe mandava. Somente isso. Não tive numginásio, nem nada. Entendeu como é?.. Até o terceiro ano”. (...). Dona Joselitaestudou em Campo Formoso e D. Edvalda no povoado de Rio das Pedras, emPindobaçu; (...) “Eu estudava com doze anos. Mas, hoje, pelejo... Pelejo paraescrever e não sai. É porque, naquele tempo, naquela situação... Ano muito velhopra caramba. Povo reduzido... Reduzido. Botava só pra ir pás roças.”(...). No passado, a quase totalidade das famílias da zona rural tinha poucointeresse na escolarização das mulheres. Estas estavam destinadas ao trabalhodoméstico, à criação dos filhos e cuidados com a casa e o marido. Daí, a senhoraEdvalda dizer que a sua escolaridade durou somente seis meses: (...) “direto p’asroças... Direto. Sim, só seis meses, eu... E olhe lá” (...). O Sr. Raul, alagoano, embora não tenha explicitado a idade em que foi àescola, o seu depoimento deixa algumas pistas. Primeiramente, não era mais6 Engenheiro Austricliano de Carvalho, chefiou a política e 1893 (...) Autor do projeto que doou a Bonfim 500hectares de terra, onde está edificada a cidade e 100 hectares a Missão do Saí.(...)”. MACHADO, Paulo Batista.Senhor do Bonfim: minha rua , minha história. Salvador: Editora UNEB, 2004.

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