11                                INTRODUÇÃOAo evidenciarmos o processo histórico de colonização imposta pelos brancoseuro...
12por ser consideradas como uma forma de conhecimento que é construída ecompartilhada em um contexto social e que procura ...
13                                       CAPÍTULO I1.1 O povo negro: um breve histórico dos nossos antepassados.Há muitos ...
14                     desfavoráveis. Todas as descrições da época mostravam os habitantes do                     interior...
15 Foi a partir deste século que os negros africanos passaram a fazer parte dahistória do nosso Brasil, como escravos. Com...
16negros trazidos para cá dependiam da região do Brasil - Colônia para onde eramlevados.   Muitos desses escravos e escrav...
17alimentos. Além da amamentação, os negrinhos e negrinhas comiam engrossadosde farinha seca, de mandioca e de milho.     ...
18Foi nesses lugares de resistência à escravidão que foi possível a preservação dehábitos, crenças e costumes africanos, p...
19Trabalhos foram desenvolvidos por estudiosos nesta área no sentido de percebertal processo de desqualificação racial e p...
20surgimento de propostas que venha auxiliar o grupo social em que as criançasnegras quilombolas estão inseridas.
21                                  CAPÍTULO IIConsiderando o processo histórico de colonização imposta pelos brancoseurop...
22teorias positivistas e evolucionistas, desqualificavam extraordinariamente a raçanegra e as demais raças que divergem da...
23Compreende-se, portanto que foi através dessas teorias de inferioridade racial e dadesqualificação histórica que termos ...
24características físicas para se submeter aos valores que não são seus.Assim, submeteram-se ao embranquecimento para pode...
25Assim, a criança negra, através da socialização começa a ser percebida eestigmatizada pelo grupo social que está inserid...
26                     Era tempo de buscar outros caminhos. A situação do negro reclama uma                     ruptura e ...
27Ao refletirmos sobre o processo histórico excludente e dos mecanismos eficazesde reprodução ideológica que desqualificam...
28opressora, sendo um movimento reivindicador marcado por uma literatura que,muito mais do que um movimento literário, foi...
29Contudo, este movimento foi alvo de sérias críticas de vários teóricos pois “o fatode não ter conseguido conceber o dese...
30                     A mim, me parece mais frutífero e consequente esclarecer a opinião                     pública de q...
31racismo e a toda sorte de discriminações cabendo ao Estado promover e incentivaressas políticas de reparação disposto na...
32de portadores de deficiências físicas nos cargos de assessoramento daqueleMinistério, sendo acatado os mesmos princípios...
33branco dominador e o colocasse como “coisa”, ele não era uma pessoa comsentimentos, sonhos e vontade de mudar.Assim, dur...
34A partir desse contexto, os quilombos eram odiados pelos brancos dominadores,porque servia de refúgio para aqueles oprim...
35Combate à Pobreza, do governo do Estado sendo relatórios com as demandasencaminhadas para uma agenda de prioridade do go...
36                     idênticas quanto à constituição, formas e funções e de outro lado se                     distanciam...
37                       Moscovici vai além e se debruça sobre uma forma de conhecimento                       apropriada ...
38ressalta a importância que as Representações Sociais ocupam no cotidiano decada indivíduo inserido no contexto social, d...
39Com relação ao segundo processo, denominado de ancoragem refere-se àinserção orgânica do que é estranho no pensamento já...
40Para Vygotsky (1994), o percurso do desenvolvimento humano se dá “de fora paradentro” e é marcado pela inserção do sujei...
41                                  III CAPÍTULO                      OS CAMINHOS PERCORRIDOS3.1 O conhecimento e a pesqui...
42esferas de atividades comuns e desenvolvida por sujeitos comuns. (SANTOS,2003). Assim, o ato de pesquisar requer que est...
43Desta forma, a partir de uma epistemologia de caráter qualitativa, a pesquisacientífica passa a compreender a realidade ...
44Procurando identificar e analisar as representações sociais que as crianças negrasda comunidade quilombola de Bananeira ...
45permitindo o aprofundamento de pontos levantados por outros instrumentos decoleta e sendo um veículo importante para que...
46questionário fechado, para traçar o perfil sócio-econômico das crianças negras,aplicamos o questionário semi-estruturado...
47                                   CAPÍTULO IV    ANÁLISE DE DADOS E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOSNeste capítulo, apresen...
48grafismos e, a partir dos dados que obtivemos através da aplicação doquestionário fechado, foi possível traçar o perfil ...
49pesquisados, complementando assim as demais informações coletadas sobre apesquisa e sobre as representações sociais circ...
50relação à educação formal. Os dados apontaram um alto índice de repetênciaescolar, pelo fato de 60% dessas crianças apre...
51desqualificação intelectual pelo fato de não se interessarem pela escola,reforçando de maneira veemente, a situação de d...
52nos lembrar a fala de Meireles (2005) no capítulo I deste trabalho, onde retrata naépoca da escravidão, a infância e pri...
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Monografia Doracélia Pedagogia 2008
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Monografia Doracélia Pedagogia 2008

1,154 views

Published on

Pedagogia 2008

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
1,154
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
8
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Monografia Doracélia Pedagogia 2008

  1. 1. 11 INTRODUÇÃOAo evidenciarmos o processo histórico de colonização imposta pelos brancoseuropeus e a construção e veiculação de representações sociais quedesqualificam os negros por meio de estereótipos de ordem racista, ondepercebemos a criança negra quilombola distanciada de sua cultura e de suasorigens, a nossa pesquisa se propôs em estudar quais as representações sociaisque as crianças negras quilombolas têm sobre a sua negritude, onde a partir dosnossos estudos, buscamos reunir informações para identificá-las por meio dasfalas dos sujeitos pesquisados e dos aportes teóricos estudados.Nesse sentido, o capítulo I faz um retrospecto da vida do povo negro antes dainterferência do branco europeu e após a sua inserção no continente africano,onde pautados em teorias que desqualificavam a raça negra, os brancos europeusse utilizavam destas teorias para justificar o tráfico negreiro e para atingir osobjetivos econômicos e imperialistas que possuíam. Também, fazemos umadiscussão acerca da resistência à escravização por parte de homens, mulheres eem especial das crianças negras que se refugiavam nas comunidades quilombolasde resistência, sendo possível até os nossos dias atuais, a preservação da culturanegra e ainda, fazemos uma reflexão acerca do distanciamento da criança negraquilombola de suas origens raciais por meio da veiculação de representaçõessociais negativas através dos meios de comunicação e das interaçõesdesenvolvidas nos contextos sociais.O capítulo II apresenta os conceitos teóricos dos nossos estudos, sendo eles “anegritude”, que nos fala da necessidade de abandonar os paradigmas brancosoutrora assimilados pelos negros e voltar às origens da cultura africana para quese desenvolva nas pessoas negras, principalmente nas crianças negras, umsentimento de identidade e de pertencimento racial; “a comunidade quilombola”,que representam uma forma de resistência e de luta dos negros e negras contra osresquícios da escravidão, mas que infelizmente a pobreza, a falta de perspectivase a miséria ainda os perseguem; “as representações sociais”, que se caracterizam
  2. 2. 12por ser consideradas como uma forma de conhecimento que é construída ecompartilhada em um contexto social e que procura dar sentido às práticas sociais.O capítulo III corresponde à metodologia da pesquisa que permitiu o levantamentodos dados para a realização da nossa pesquisa de caráter qualitativo, ondepudemos conhecer com maior clareza lócus da pesquisa e os sujeitospesquisados, através dos instrumentos de coleta de dados, sendo utilizados oquestionário fechado que traçou o perfil sócio-econômico dos sujeitos, oquestionário semi-estruturado que permitiu descobrir as opiniões das criançasnegras pesquisadas e o mapa mental como complemento dos demaisinstrumentos de coleta que por meio de grafismos os sujeitos puderam apresentarsuas representações simbolicamente.No capítulo IV consta a análise de dados e a interpretação de seus resultados,onde puderam ser identificadas nas falas dos sujeitos de pesquisa asrepresentações sociais que possuem sobre a sua negritude, sendo confrontadosos discursos destes com o quadro teórico, nos permitindo obter uma visão ampladessas representações sociais circulantes no grupo pesquisado.Nas considerações finais, procuramos fazer um apanhado geral da pesquisa,relembrando os objetivos de estudo e o alcance destes através da identificaçãodas representações sociais circulantes no grupo pesquisado. Assim, com aidentificação dessas representações sociais, há a necessidade de se repensar emações que promovam nessas crianças negras a valorização de si mesmas e desua cultura desenvolvendo-lhes orgulho de ser negras e convivendo com adiversidade.
  3. 3. 13 CAPÍTULO I1.1 O povo negro: um breve histórico dos nossos antepassados.Há muitos séculos atrás nas cidades do reino africano se encontravam, além denobres e sacerdotes, excelentes construtores, agricultores, ceramistas,carpinteiros, contadores de histórias e tradições. Eram pessoas que, com suaslínguas e dialetos, valorizavam e preservavam a memória e os conhecimentos desua rica e diversificada cultura. (CASTANHA, 2001).Segundo Hernandez (2005), os povos africanos possuíam uma alta complexidadeno que diz respeito à heterogeneidade, às instituições econômicas, à política, aodinamismo sócio-cultural e às relações de poder, sendo sociedades não estáticase nem passivas, mas sim, caracterizadas por mudanças continuadas e designificativo potencial revolucionário.Entretanto, a partir do século XV, todas as complexidades sociais e culturais dospovos da África começaram a ser ameaçadas com a expansão da EuropaOcidental, denominado de século das grandes descobertas, e foi a partir desseperíodo que os contatos entre os brancos ocidentais e os negros africanosaconteceram, causando conseqüências incalculáveis para a conjuntura social ecultural desse povo. (HERNANDEZ, 2005).Munanga (1988) afirma que neste contexto histórico, os portuguesesdesembarcaram na costa africana, atingindo antes do fim do referido século, oCabo da Boa Esperança e a costa oriental. Outros aventureiros provindos depaíses europeus seguiram os portugueses e viram com os próprios olhos, ospovos descritos de maneira negativa nos relatos antigos. Munanga (1988) aindaafirma que: A partir de sua imaginação e baseando-se na teoria dos climas, criou-se uma imagem do resto do continente (não visitado) de clichês bastante
  4. 4. 14 desfavoráveis. Todas as descrições da época mostravam os habitantes do interior do continente africano com animais selvagens. (p.13-14).Neste contexto de desqualificação do continente africano e da população africana,Hernandez (2005) ressalta que: No imaginário dos dominadores, os africanos eram representados socialmente como seres monstruosos, gigantes, pigmeus, mulheres- pássaro, homens-macaco, povos deformados, sem nariz, sem língua, sem sentimentos, sem alma e que cultuavam deuses próprios do pensamento animista. (p.06).Para justificar o injustificável tráfico de homens, mulheres e crianças negras noséculo XVIII, Munanga (1988) complementa afirmando que no século XVIII, oseuropeus se pautavam em algumas teorias desenvolvidas por filósofoshumanistas, propagando o eurocentrismo, ligando à idéia de civilização dominante.Diante do exposto, Hernandez (2005) também complementa afirmando que aosafricanos e africanas eram atribuídos epítetos como incapaz, fleumático, indolentee frouxo, construindo representações sociais negativas e estereotipando umaimagem de primitivismo e inferioridade e diziam que o continente africano fosse umeldorado recolhido em si mesmo, aquém da luz consciente e que na parte principalda África subsaariana, não podia haver história.“Com as teorias sobre as características morais e físicas sobre os negrosafricanos, firmou-se a legitimação da escravidão, da colonização européia e daestereotipação negativa dos negros, numa época em que a ciência se tornava umverdadeiro objeto de culto”, (MUNANGA, 1988, p.20) a teorização da inferioridaderacial ajudou a esconder os objetivos econômicos e imperialistas da empresacolonial.No século XVI, Castanha (2001) afirma que os europeus e, mais tarde, osbrasileiros, começaram a trocar objetos utilitários por negros africanos de diversasetnoculturas, os quais eram arrancados de seus lares e de sua cultura e trazidosdentro dos porões dos navios até os portos de destino, onde inúmeros nãosuportavam a terrível viagem e morriam durante a travessia do atlântico, em meioà fome, doenças e maus-tratos.
  5. 5. 15 Foi a partir deste século que os negros africanos passaram a fazer parte dahistória do nosso Brasil, como escravos. Começaram a ser trazidos para o Brasilpelos traficantes portugueses e brasileiros, chegando o número de escravosnegros à aproximadamente dois milhões, sem contar aqueles morreram durante aviagem.Segundo Del Priore (2000), eram poucas as crianças africanas que aportavamdeste lado do oceano, pois o tráfico de escravos privilegiava mais adultos do sexomasculino. Ainda ressalta que apenas 4% dos africanos possuíam menos de dezanos de idade e, aqueles que não faleciam durante a viagem, se tornavamcrianças escravas.Shimidt (2004) acrescenta que os portugueses e brasileiros escolhiam os negrosadultos vindos da costa e do interior do continente africano pelo fato de que osíndios, desde a chegada dos colonos portugueses, eram terrivelmente forçados atrabalhar até não agüentar mais. Assim, muitos morreram de doenças que oseuropeus trouxeram da Europa (varíola, sarampo e gripe).Depois que a maioria dos índios morreu ou fugiu para o interior do país, os colonospreferiram os escravos africanos, pois quando morriam por excesso de trabalho oude alguma doença, os colonos brasileiros simplesmente compravam mais escravosafricanos dos traficantes.Falando da relação da Igreja com a escravidão no Brasil, Lopes et al (2000) afirmaque embora a religião cristã tivesse um cunho de emancipação, a mesma não sepreocupou em emancipar os negros escravos e livres, quer seja adultos oucrianças, legitimando o sistema colonial e aplicando-lhes castigos aceitos naquelaépoca como “princípio moral da formação do trabalhador” e ameaçando osescravos fujões com a excomunhão.Segundo Shimidt (2004), “aqueles escravos que fossem submissos aos seussenhores e à Igreja, aceitando a condição de escravos sem reclamar, estariamperdoados e depois da morte, iriam para o céu”. (p.210). Nesse períodocolonialista, Silva (2004) salienta que as atividades desenvolvidas pelas negras e
  6. 6. 16negros trazidos para cá dependiam da região do Brasil - Colônia para onde eramlevados. Muitos desses escravos e escravas eram leiloados, alugados e atémesmo, revendidos pelos seus donos como animais e ou como objetos parainúmeros lugares do país, integrando e marcando significamente, a sociedadebrasileira com características sociais, expressões culturais e caminhos deidentidade de origem africana.1.2 A criança negra e sua trajetóriaProsseguindo nessa incursão histórica, vale ressaltar que, assim que chegaram aoBrasil, os negros e negras começaram a reagir contra a escravidão, sendo atravésde revoltas, de lutas, de fugas e de resistências. Nesse sentido, Meireles (2005)faz um significativo retrospecto à história das crianças negras e suasrepresentações sociais no período escravagista no Brasil, a partir do século XVI.Segundo a autora, uma das principais maneiras de resistência à escravização erao fato de muitas escravas negras evitarem a gravidez, pois estas não desejavampara seus filhos um futuro de violências e de trabalho escravo como era o delas.Quando não conseguiam evitar a gravidez, muitas mulheres perdiam seus filhospor se esforçarem demasiadamente no trabalho pesado. Outras vezes, as criançasnasciam, mas não conseguiam sobreviver por causa dos surtos de doenças que osacometiam. Muitas outras mulheres deixavam seus filhos nas “Rodas dosExpostos” para livrá-los da escravidão. (DEL PRIORE, 2000)Mesmo assim, a população infantil negra se tornou significativa, pelo fato demuitas mulheres e adolescentes negras serem estupradas sexualmente por seusdonos e estes não permitirem a venda das crianças que nasciam para assim setornarem escravas.Nos primeiros anos de vida, as crianças eram sustentadas pelo leite materno,porém suas mães serviam, também, para amamentar os filhos dos brancos, quemuitas vezes se alimentavam de mingau de mandioca, garapa entre outros
  7. 7. 17alimentos. Além da amamentação, os negrinhos e negrinhas comiam engrossadosde farinha seca, de mandioca e de milho. Meireles (2005) coloca que estascrianças não eram tratadas como crianças. Renegada a infância e principalmentesua cultura a partir de sete anos, os meninos negros começavam trabalhar naagricultura e pecuária, e as meninas no plantio de hortaliças, nos afazeresdomésticos e na lavagem de roupas.Scaratano, apud Del Priore (2000), ressalta que o aumento significativo decrianças de pele mulata recebia críticas das autoridades. Estas reclamavam que onascimento dessas crianças iria trazer à sociedade uma nova categoriapopulacional. Não sendo nem brancos e nem descendentes africanos, essa novacategoria passou a ser discriminada por aqueles que se consideravam favorecidos.Percebe-se ainda que até o século XIX, a educação não seria uma opção para ascrianças negras escravas, mas seria a transformação em indivíduos produtores eextremamente úteis para inúmeras atividades braçais, enquanto as criançasbrancas e de elite eram instruídas por professores particulares.A única educação que as crianças negras tinham acesso era à educação religiosa,a qual era obrigatória, pois com relação à escola pública, lhes eram proibidofreqüentá-la. Entretanto muitas aprendiam a ler de forma assistemática e nosquilombos, lugares para onde muitos negros fugiam como forma de resistência.(NOVAIS, 1993).A partir da criação da lei do ventre Livre (século XIX), passou-se a oferecer àscrianças crioulas e pobres um ensino profissionalizante, oferecido em escolas deorigem religiosa, dando-lhes uma “instrução primária mínima” para odesenvolvimento de atividades manuais. (DEL PRIORE, 2000).Estas crianças foram entregues pelos senhores às autoridades, pois com a Lei doventre Livre (1871) deixavam de ser lucrativas aos donos de escravos. Aquelasque não foram entregues às autoridades continuaram vivendo como escravas comseus familiares, ou passaram a viver nas ruas abandonadas e ou nas comunidadesquilombolas de resistência.
  8. 8. 18Foi nesses lugares de resistência à escravidão que foi possível a preservação dehábitos, crenças e costumes africanos, promovendo até os dias atuais, adiversidade cultural do país e da nossa Bahia. (SILVA, 2004). Neste contexto,percebemos que por todo o Estado concentra-se atualmente um númerosignificativo de comunidades remanescentes de quilombos, fruto das fugas eresistências da raça¹ negra escravizada em séculos anteriores.Assim, muitas comunidades quilombolas do norte baiano vêm adquirindo cada vezmais espaço no cenário do reconhecimento, preservando algumas manifestaçõessociais e culturais de matriz africana. Desse modo, enfatizamos a comunidade deBananeiras dos Negros, a qual se localiza no município de Antonio Gonçalves-Ba,reconhecida recentemente como comunidade remanescente de quilombo pelaFundação Palmares.Contudo, apesar de terem se passado séculos desde a abolição da escravatura, osdescendentes de africanos, sejam eles homens, mulheres e crianças moradoresde comunidades quilombolas, ainda sofrem na pele os resquícios de umahistoricidade de injustiças, dores e abandono, sofrendo as conseqüências de umato puramente econômico, ideológico e dominante. Podemos compreender que daquela infância desconhecida das fazendas, dosquilombos e das ruas, esta continuou sendo desvalorizada atualmente; a raçanegra continuou ficando à sombra de uma cultura embranquecida e imposta pelosdiversos meios de veiculação de valores, seja a família, seja a escola ou os meiosde comunicação. A desqualificação sistemática dos negros e afro-descendentes aolongo da história, apesar de serem personagens essenciais na construção e nodesenvolvimento do Brasil, da nossa Bahia e da nossa microrregião, levou àveiculação de representações sociais articuladas a valores, crenças e sentimentosnegativos a respeito dos membros desse grupo em diversas esferas da vida social._______________________________¹ O Movimento Negro usa o conceito raça com uma nova interpretação, que se baseia na dimensão social epolítica do termo
  9. 9. 19Trabalhos foram desenvolvidos por estudiosos nesta área no sentido de percebertal processo de desqualificação racial e perceberam-se referências estigmatizantesde ordem social, educacional e física relacionada aos afro-descendentes,tornando-se “verdades absolutas” e levando-os a vivenciarem situações dedesvantagens e humilhações que por ventura aconteçam no cotidiano.Neste aspecto, historicamente construído, a criança negra quilombola desde cedose apropriou da idéia de que, através de mecanismos eficazes de reproduçãoideológica, a identidade positivamente afirmada é a do europeu, e o que lhe cabe éa imitação desse ideal, para poder ser socialmente aceita.Tendo em vista tais abordagens e levando em consideração a constatação de queos afro-descendentes têm sido percebidos secularmente através do preconceito eda visão etnocêntrica, nosso estudo visa saber: Quais são as representaçõessociais as crianças negras da comunidade quilombola de Bananeira dos Negrostêm acerca da sua negritude? Como essas crianças negras percebem a si mesmasdentro da sociedade como um todo?Desse modo, a presente pesquisa tem como objetivos: identificar e analisar asrepresentações sociais que as crianças negras da comunidade quilombola deBananeira dos Negros têm sobre a sua negritude.Acreditamos que através dos nossos estudos poderemos provocar novos debatese reflexões acerca dos discursos sociais sobre as questões raciais, contribuindopara a correção das injustiças construídas historicamente na comunidadequilombola de Bananeira dos Negros, incentivando os poderes públicos domunicípio de Antonio Gonçalves a desenvolver políticas públicas no sentido depromover o resgate da identidade e pertencimento da raça negra na comunidade..Ainda, acreditamos que este tema seja de grande relevância científica,pois trará respaldo para a ampliação de novas reflexões nos meios acadêmicosque envolvam tal temática, incentivando o desenvolvimento de estudos epesquisas mais aprofundadas nesta área no sentido de contribuir para o
  10. 10. 20surgimento de propostas que venha auxiliar o grupo social em que as criançasnegras quilombolas estão inseridas.
  11. 11. 21 CAPÍTULO IIConsiderando o processo histórico de colonização imposta pelos brancoseuropeus por motivos econômicos e a construção de representações sociaisnegativas dos negros através de estereótipos de ordem racista, a criança negraquilombola que se distancia das suas origens e de sua negritude e, tendo comoprincipais objetivos de pesquisa identificar e analisar as representações sociaisque as crianças negras da comunidade quilombola de Bananeira dos Negros têmsobre a sua negritude, nos convém neste capítulo discutirmos os seguintesconceitos-chave: a negritude; comunidade quilombola; as representações sociais.2.1 A Negritude e a criança negra: De volta às Origens...A negritude segundo Bernd (1999) possui um sentido abrangente a qual se referea uma tomada de consciência por parte dos negros com relação à discriminação ea dominação que sofreram e ainda sofrem, existindo a negritude ”desde que osprimeiros escravos se rebelaram e deram início aos movimentos conhecidos comoMarronage, no Caribe, Cimarronage, na América Hispânica e Quilombismo, noBrasil”. (p.27).Munanga (1988) complementa ainda que “sem a escravização e a colonização dospovos negros da África, a negritude, essa realidade que tantos estudiososabordam não chegando a um denominador comum nem teria nascido”. (p.05).Segundo o autor: Interpretada ora como formação mitológica, ora como movimento ideológico, seu conceito reúne diversas definições nas áreas cultural, biológica, psicológica, política e entre outras. Esta multiplicidade de interpretações está relacionada à evolução e à dinâmica da realidade colonial e do mundo negro no tempo e no espaço. (MUNANGA, 1988, p.05).Neste contexto, a consciência e a reivindicação de equidade racial por parte dosnegros e descendentes surgiram em decorrência da não aceitação dosestereótipos e conceitos negativos que muitos cientistas e teóricos, apoiados em
  12. 12. 22teorias positivistas e evolucionistas, desqualificavam extraordinariamente a raçanegra e as demais raças que divergem da raça branca européia.Nesse sentido, Munanga (1988) afirma que no século XVIII, alguns pensadoresiluministas ao invés de corrigir os estereótipos de inferioridade e negativismo quese referiam ao povo negro, reforçaram ainda mais estes estereótipos, sendo queneste mesmo século, elabora-se o conceito de progresso, de desenvolvimento ede perfeição humana.Sexualidade, nudez, feiúra, preguiça e indolência constituem temas-chave dadescrição do negro na literatura científica da época” (p.16) e firmando assim nacultura brasileira a identidade de origem africana ligada à idéias de escravidão etrabalho braçal. (NASCIMENTO, 2001. p.119).A partir do século XIX, Carneiro (2002) acrescenta que foram feitas diversasexperiências de cunho científico com cérebros de seres humanos, desenvolvendouma série de estudos sobre as diferenças raciais, baseadas nas teoriasevolucionistas de Darwin. Desse modo, segundo a autora, “os africanos foramapontados como seres biologicamente inferiores”. (p.21).Estas teorias que reforçavam a desigualdade de raças passaram a ser respeitadaspor todo continente europeu e por todo mundo através da literatura específica.Sendo assim, estas teorias de inferioridade racial que deu origem àsrepresentações sociais com caráter de desqualificação dos negros e seusdescendentes serviram para o desenvolvimento de interesses econômicosimperialistas e burgueses, onde Carneiro (2002) afirma que: De acordo com as conveniências do momento, o conhecimento científico foi vulgarizado, com o objetivo de facilitar sua compreensão pelo grande público. Pseucientistas apropriaram-se dos avanços das ciências biológicas, colocando-se a serviço de interesses imperialistas e de uma burguesia em ascensão. Ao vulgarizar as teorias e as informações complexas decorrentes de prolongadas pesquisas, faziam a ponte entre o discurso científico e o popular. Dessa forma, interferiam no imaginário social, gerando ou reforçando estereótipos e atitudes discriminatórias. Assim, entre 1860 e 1890, o conceito de evolução se popularizou, dando origem a novas teorias, entre as quais cabe lembrar o darwinismo social, o evolucionismo, o arianismo e a eugenia, cujos princípios influenciaram muitos intelectuais brasileiros. (p.21).
  13. 13. 23Compreende-se, portanto que foi através dessas teorias de inferioridade racial e dadesqualificação histórica que termos como preconceito (conceito negativo préviocom relação a uma determinada raça), discriminação racial (prática discriminatóriafundamentada em princípios preconceituosos) e racismo (conjunto de teorias ecrenças que estabelecem uma hierarquia entre raças ou etnias) entraram nocenário social e cultural da sociedade deixando marcas incalculáveis na vida dopovo negro e de seus descendentes. (GOMES APUD HENRIQUES, 2005).A condição de negro discriminado, sempre associada ao insucesso, àincompetência e inferioridade, nem sempre é assumida prontamente, provocandoinúmeras reações, tanto em brancos quanto em negros, tais como dor, tristeza,sentimentos de impotência e baixa auto-estima, culpa e agressividade etc.(BENTO, 2006).Mas é extremamente importante ressaltar a busca da ciência contemporânea paraa correção das teorias de desqualificação racial através de cuidadosos estudos epesquisas científicas. Desse modo, Shimidt (2004) contribui de maneira enfáticapara descaracterização das teorias evolucionistas desenvolvidas com o intuito depromover a teorização da inferioridade racial e da estereotipação negativa dosnegros e de outros povos e de exaltação do paradigma branco. Assim, Shimidt(2004) ainda acrescenta que: Os cientistas mais capazes do mundo tanto negros como brancos reunidos pela UNESCO (Organização das nações Unidas para Educação, Ciência e Tecnologia), chegaram à conclusão unânime de que não existem diferenças, nem na capacidade intelectual nem na física, entre os diversos grupos humanos. Colocando lado a lado, o cérebro (sede da inteligência) de um africano da Nigéria ou de Angola, um branco espanhol ou dinamarquês, um índio ianomâmi ou um indiano, não haverá ninguém no mundo capaz de dizer “este é branco, aquele é negro, aquele é indiano, aquele é coreano, etc.” (p.42).Apesar da comprovação científica de descrédito das teorias de desqualificaçãoracial, a sociedade e os próprios negros e descendentes internalizou essasinformações de caráter desprezível, transformando-se em representações sociaisnegativas através das interações estabelecidas com o meio social e nestecontexto, o negro por infinitas pressões sociais e psicológicas, termina assimilandouma situação degradante tendo que negar seus costumes, sua cultura e suas
  14. 14. 24características físicas para se submeter aos valores que não são seus.Assim, submeteram-se ao embranquecimento para poder ser aceitos na sociedadee fugir do racismo e da discriminação racial seria a solução. “O embranquecimentodo negro realizar-se-á principalmente pela assimilação dos valores culturais dobranco”. (MUNANGA, 1988, p.26). Bem divulgado, o retrato degradante acaba por ser aceito pelo negro, e contribuirá para torná-lo realidade e, portanto, uma mistificação. Podemos comparar esta situação com a ideologia da classe dirigente, que é adotada frequentemente pelas dominadas. Ao concordarem com ela, os submissos confirmam o papel que lhes foi atribuído. Assim, como o colonizador é tentado a aceitar-se, o colonizado, para viver, é obrigado. Em pouco tempo, a situação colonial perpetua-se, fabricando alguns e outros. (...) Ora, para nisso chegarem, pressupunha-se a admiração da cor do outro, o amor ao branco, a aceitação da colonização e a auto- recusa. E os dois componentes desta tentativa de libertação estão estreitamente ligados: subjacente ao amor pelo colonizador, há um complexo de sentimentos que vão da vergonha ao ódio de si próprio. (MUNANGA, 1988, p.26-27).Ainda sobre a ideologia do embranquecimento, Piza apud Bento e Carone (2002)ressalta sobre os prejuízos sociais e psicológicos sofridos por toda a parcela negraque rejeitou as suas origens e buscou miscigenar-se com parceiros brancos parapoder ser aceita socialmente e ter a possibilidade de ascensão social. O pressuposto dos estudos sobre branqueamento, no sentido da adequação do negro a uma sociedade branca e embranquecedora, supõe que, para atender às demandas racistas e de embranquecimento da população brasileira, sua parcela negra tenderia a desenvolver a negação de sua racialidade e promover formas de embranquecimento, tanto na busca de parceiros para a miscigenação, no desejo de ascendência social através da “melhoria de sangue”, quanto no comportamento, discreto e distanciado de sua comunidade de origem, visando assemelhar-se ao branco. (p.65).Com relação às crianças negras, Cavalleiro (2000) fala sobre a socializaçãodessas crianças que recebem uma configuração de mundo já definida e imposta,se relacionando com outros membros sociais. Desse modo, a criança negra“aprende atitudes, opiniões, valores a respeito da sociedade ampla e, maisespecificamente, do espaço de inserção de seu grupo racial e social” (p.202) eassim, “nessa faixa etária, as crianças, ao realizarem identificações ou descriçõesse referem de modo bastante acentuado à cor da pele”. (CAVALEIRO,2000,p.202).
  15. 15. 25Assim, a criança negra, através da socialização começa a ser percebida eestigmatizada pelo grupo social que está inserida. Como revela Oliveira et al(2005) as crianças negras de 4 a 6 anos já revelam um sentimento e umaidentidade negativa com relação à sua raça, já as crianças de cor brancademonstram uma superioridade com relação às crianças negras e muitas vezes amanifestam de maneira totalmente preconceituosa e racista, como nos mostraCavalleiro (2000): As crianças negras nesta faixa etária se sentem desconfortáveis quando da necessidade de verbalizar ou assumir a sua condição racial. Tendencialmente, as crianças demonstram uma interiorização de sua diferença racial, procurando assemelhar-se fisicamente ao branco. (p.202).Nesse sentido, Oliveira et al (2005) complementa que muitas vezes as criançasnegras, que possuem traços físicos marcantes de sua raça manifestavam o desejode possuir os cabelos lisos e a pele branca em comparação aos paradigmas deestórias infantis que elas têm acesso na escola, as quais fortalecem de maneirasignificativa a imagem negativa que elas fazem de si mesmas e da condição racialque pertencem. Dessa forma, as crianças negras em seu processo de desenvolvimento têm diversas possibilidades para internalizar uma concepção negativa de seu pertencimento racial, favorecendo a constituição de uma auto-imagem depreciativa. (...) Podemos concluir que estas crianças já passaram por processos de subjetivação que as levaram a concepções muito arraigadas no nosso imaginário social sobre o branco e o negro e, consequentemente, sobre as positividades e negatividades atribuídas a um e a outro grupo racial. No entanto, isso pode ter sido favorecido pela instituição a partir das concepções e dos valores das profissionais envolvidas com essas crianças, e também pelos pais. É claro que não podemos nos esquecer da mídia que atua de forma bastante forte na veiculação de imagens e idéias que acabam fortalecendo o grupo racial branco e estigmatizando o grupo racial do negro. (OLIVEIRA ET AL, 2005, p.30).Entretanto, apesar de os negros terem procurado assimilar os valores culturais dosbrancos, Munanga (1988) em sua fala afirma que os negros continuaram sendotratados como seres inferiores, não deixando de ser negros e mal vistos perante asociedade. Assim, tiveram que retomar a consciência da situação de dominação ede discriminação sofrida, havendo a urgente necessidade de retornar às suasorigens, isto é, retomar a identidade negra.
  16. 16. 26 Era tempo de buscar outros caminhos. A situação do negro reclama uma ruptura e não um compromisso. Ela passará pela revolta, compreendendo que a verdadeira solução dos problemas não consiste em macaquear o branco, mas em lutar para quebrar as barreiras sociais que o impedem de ingressar na categoria dos homens. Assiste-se agora a uma mudança de termos. Abandonada a assimilação, a libertação do negro deve efetuar-se pela reconquista de si e de uma dignidade autônoma. O esforço para alcançar o branco exigia total auto-rejeição; negar o europeu será o prelúdio indispensável à retomada.É preciso desembaraçar-se desta imagem acusatória e destruidora, atacar de frente a opressão, já que é impossível contorná-la ”. (MUNANGA, 1988, p.32).Bernd (1999) complementa ainda que os povos negros que foram colonizados eexplorados física e economicamente em vários continentes tendo que assimilar acultura européia e se desvinculando da sua cultura de origem, “originou emcontrapartida da negritude que traz em seu bojo a vontade de reencontrar umaidentidade perdida, o desejo de opor ressurreição à assimilação” (BERND, 1999,p.24).Após o período de conflito, no qual o negro sente desorganizar sua estrutura desubjetividade referenciada em valores embranquecidos que proporcionavamsustentação e segurança, inicia-se um processo de intensa metamorfose pessoalem que ele, gradualmente, vai demolindo velhas perspectivas e, ao mesmotempo, passa a desenvolver uma nova estrutura pessoal referenciada em valorese paradigmas etnorraciais de matrizes africanas, reforçando assim a suaidentidade raciaL. Tomado assim, de maneira abrangente, podemos dizer que sempre ou quase sempre houve negritude e que sempre haverá Césaire: “Enquanto houver negros, haverá negritude; não posso imaginar um único negro que decida virar as costas a estes valores”. Isto é, enquanto houver negros e as regras do jogo continuarem as mesmas, ou seja, feitas por brancos e para brancos, este sentimento de legítima defesa contra o racismo, que pode ser reconhecido como negritude, se manterá. (BERND, 1999, p.28).Neste sentido, Oliveira et al (2005) ressalta a importância da aceitação e danecessidade do negro em afirmar a sua identidade, quebrando paradigmas raciais,afirmando que: A questão da identidade racial já aparecia nas preocupações da FNB (Frente Negra Brasileira). É neste período que o negro se afirma na cena histórica rejeitando a imagem de “preto” ou do “homem de cor” reafirmando a necessidade de quebrar o isolamento, incorporando o protesto negro e firmando-se no contexto social como “raça”. Para esse autor, era um momento histórico e social para a afirmação de uma identidade racial capaz de alterar a situação de desigualdades. (p.41).
  17. 17. 27Ao refletirmos sobre o processo histórico excludente e dos mecanismos eficazesde reprodução ideológica que desqualificam com extrema intensidade a raçanegra, entendemos que é preciso desenvolver nas pessoas negras, principalmentenas crianças negras, um sentimento de identidade e de pertencimento racial, ondeatravés de políticas de afirmação racial, percebam em suas vidas a importância daconvivência com a diversidade racial e cultural existente na nossa sociedade e quecompreendam a pluralidade que possui o termo negritude. 2.1.1 A questão das negritudes: um conceito plural.É interessante notar que a palavra negritude esteve ausente dos dicionáriosbrasileiros até a década de 1970, período em que seria consagrada como “termocorrente da língua portuguesa” a partir da primeira edição do Dicionário Aurélio(1975), no qual se encontra, sem indicação de datas ou etimologia, a definiçãomantida até hoje:1. Estado ou condição das pessoas da raça negra; 2. Ideologia característica dafase de conscientização, pelos povos negros africanos, da opressão colonialista, aqual busca reencontrar a subjetividade negra, observada objetivamente na fasepré-colonial e perdida pela dominação da cultura branca ocidental.Partindo dessa idéia, “há, portanto, um sentido lato de negritude, com “n”minúsculo, utilizado para referir a tomada de consciência de uma situação dedominação e de discriminação e a conseqüente reação pela busca de umaidentidade”. (BERND, 1999, p.27).Em um sentido mais limitado conceito de Negritude com “N” maiúsculo aparecepela primeira vez escrito pelo martiniquense Aimé Césaire, em meados de 1935(FERREIRA, 2006) no seu livro de poemas francês "Cahier dun retour au paysnatal". (Discurso sobre o colonialismo, Caderno dum retorno ao país natal etc) e narevista no número 3 Létudiant noir ("O estudante negro"). Ferreira (2006) afirmaainda que com o conceito de Negritude Césaire pretendia em primeiro lugarreivindicar a identidade negra e sua cultura perante a cultura francesa dominante e
  18. 18. 28opressora, sendo um movimento reivindicador marcado por uma literatura que,muito mais do que um movimento literário, foi uma afirmação de independência,um clamor por reconhecimento.Mais adiante o movimento da Negritude foi retomado mais adiante pelo senegalêsLéopold Sédar Senghor, o maior representante desse movimento que caracteriza onegro como um ser humano constituído de emoção e com o intuito de valorizarsuas manifestações culturais na luta contra o racismo, fazendo assim umainversão de conceitos impostos pelos brancos europeus desde a colonização.(FERREIRA, 2006). O movimento de Negritude nasce em meio à necessidade dos europeus, no período colonialista iniciado no século XV, de manifestar a suposta inferioridade dos negros, desvinculando-os de qualquer capacidade intelectual por serem supostamente primitivos. Essas idéias de caráter alienante provocaram nos intelectuais negros do século XX a necessidade de combater essa visão. (...) Assim, a Negritude afirmava que o homem negro era tão homem quanto qualquer outro, e que havia realizado obras culturais de valor universal, às quais os que empunhavam a Negritude queriam ser fiéis. Mesmo tendo influenciado diretamente os processos de libertação da África, o movimento negritude recebeu críticas, sendo considerado conservador e de “confirmação da teoria racista das diferenças genéticas” um “racismo ás avessas”. No contexto da descolonização, o movimento representou um ato político de luta pela afirmação e independência africana. (RIBEIRO, 2001, p.82-83).Foi a partir desse quadro que o movimento da Negritude através dos negrosafricanos e descendentes de africanos encontraram forças para resistir e negar oembranquecimento imposto pelos brancos europeus, aceitando a herança sócio-cultural africana que outrora foi inferiorizada. A negritude nasce de um sentimento de frustração dos intelectuais negros por não terem encontrado no humanismo ocidental todas as dimensões de sua personalidade. Nesse sentido, ela é uma reação, uma defesa de perfil cultural do negro. Representa um protesto contra a atitude do europeu em querer ignorar outra realidade que não a dele, uma recusa da assimilação colonial, uma rejeção política, um conjunto de valores do mundo negro que devem ser reencontrados, defendidos e mesmo repensados. Resumindo, trata-se primeiramente de proclamar a originalidade da organização sócio-cultural dos negros para, depois, sua unidade ser defendida, através de uma política de contra-aculturação, ou seja, desalienação autêntica. (MUNANGA, 1988, p.56).Desse modo a Negritude se caracterizou como um movimento de exaltação dosvalores culturais dos povos negra sendo a base ideológica que vai impulsionar omovimento independentista no continente africano transmitindo uma visão umtanto romântica e uma versão glorificada dos valores e da cultura africana.
  19. 19. 29Contudo, este movimento foi alvo de sérias críticas de vários teóricos pois “o fatode não ter conseguido conceber o desenvolvimento de valores negros no interiorde um combate político, tendo se restringido ao âmbito dos valores culturais edeixado, portanto, de lado a esfera política e social”. (BERND, 1999. p.30).Apesar do movimento da Negritude ter sofrido inúmeras críticas é relevantepontuarmos a contribuição deste movimento para o fortalecimento de uma lutafervorosa que continua e firma-se cada vez mais em busca de igualdade, sobre osalicerces erguidos pelos desbravadores da raça negra, que merecem destaque nomundo inteiro, pela coragem, força e determinação que os moveram durante essaépoca de árduo combate contra a desvalorização da raça negra em busca dereconhecimento, e é baseados neste movimento de resistência que ressaltamos aimportância das políticas públicas para a afirmação e valorização da identidadenegra.2.1.2 Revendo o passado e refletir sobre o presente: as políticas deexclusão e inclusão destinadas aos negros.Parece-nos claro que a abolição tornou homens os ex-escravos, mas a indiferençadas elites e das autoridades com aqueles que foram o sustentáculo da economianacional durante aproximadamente quatrocentos anos os marginaliza e os conduzà miséria. Nesse sentido, Nascimento (2001) nos fala que, infelizmente, aindapersiste na nossa sociedade e no “imaginário social brasileiro, a identidade deorigem africana intimamente ligada à idéias de escravidão, trabalho braçal”.(p.119).A abolição libertou o negro do pântano da escravidão, mas o jogou no poço danão-qualificação, da falta de oportunidade e da miséria que não lhe possibilita vivercom cidadania a qual todo o cidadão, independente de sua raça e classe social,tem direito. Assim, sem reais condições de auto-sustento, sem possibilidade de seinstruir profissional e intelectualmente, a maioria dos negros foram marginalizadose excluídos das esferas sociais. Neste contexto, Silva (1988) afirma que:
  20. 20. 30 A mim, me parece mais frutífero e consequente esclarecer a opinião pública de que os responsáveis pela Lei Áurea apenas legitimaram a libertação do negro, mas que, nem de longe, cogitaram sobre a sua integração e não foram criadas nem por aqueles e nem pelos dirigentes republicanos as condições necessárias para que o negro saísse da subumanidade em que se encontrava. A luta foi contínua e árdua. Livre e marginalizado. Livre e desqualificado como mão-de-obra. Livre e desempregado. Livre e espezinhado em sua dignidade por forças verticais. Humilhado e ofendido, sem emprego e sem possibilidade de estudar e viver decentemente, o negro não pode se preparar profissionalmente e qualificar-se para concorrer no mercado de trabalho. Daí a marginalização permanente. Daí a postura humilde e complexada geralmente assumida pelos negros mais velhos e a agressividade dos mais jovens muitas vezes inconsciente e inconsequente, pois a grande maioria deles ignora o seu valor histórico, não lê nada, não está interessada por cultura, e a rigor, nem por si próprios. (...) Este é um problema que exige atenção e cuidado e sobre o qual se deve pensar seriamente. (p.189).Percebemos ainda que no Brasil, além da discriminação racial, existe adiscriminação social atingindo todas as criaturas pobres sejam brancas ou negrase se compararmos a dimensão de preconceito contra o branco pobre e o negro,verificaremos que este é o mais atingido pelos seus efeitos.Neste recorte racial, os indicadores sociais e econômicos brasileiros dá conta deque a população negra é mais pobre e tem menos acesso à educação, à saúde e aoutros serviços básicos. Estes indicadores mostram que, mesmo quando asituação econômica e social melhorou para toda a população, a desigualdade semanteve para os afro-descendentes. (SABÓIA, 2000).Neste sentido, Carneiro (2002), fala que a adoção de ações afirmativas ecompensatórias deve ser encarada como o reconhecimento da sociedade diantede uma história excludente dessa realidade.Assim, a presença do Movimento Negro na ação contra hegemonia dedeterminadas classes sociais foi decisiva para resguardar direitos e reivindicarações governamentais, iniciando-se discussões no sentido de contestar opreconceito racial dissimulado e desmistificar o mito da democracia racial atravésde políticas públicas no sentido de ressarcir a dívida histórica para com os afro-descendentes. A partir deste quadro surgiram políticas que visam por parte doEstado e da sociedade, reparar os danos psicológicos, materias, sociais, políticose educacionais sofridos sob o regime da escravidão, concretizando o combate ao
  21. 21. 31racismo e a toda sorte de discriminações cabendo ao Estado promover e incentivaressas políticas de reparação disposto na Constituição Federal, que assinala odever do estado de garantir por meio da educação, iguais direitos para o plenodesenvolvimento de todos, enquanto pessoa, cidadão ou profissional. Neste intuito,Nascimento (1995) destaca que: as propostas de se implementar uma visão de mundo africano e ameríndio no ensino básico tem sido múltiplas ao longo dos anos e atualmente possuímos uma legislação avançada no que diz respeito a essa visão pluralista da realidade brasileira no que tange à educação. A Constituição Federal (art. 210 e 215), a Constituição da Bahia (art. 275 e 276), Estatuto da Criança e do Adolescente (lei 8.096/90, art.58), o Plano Nacional de Educação (10.172/01), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (lei 9394/96) e mais recentemente a lei 10.639/03 que altera esta última e torna obrigatória a temática História e Cultura Afro-brasileira e Africana garantem, juridicamente, a nível nacional estas conquistas. (p.02).Assim, a lei 10.639/03 que vem alterar a lei 9394/96 estabelecendo assim,diretrizes e bases da educação nacional, incluindo no currículo oficial da Rede deEnsino a obrigatoriedade da temática História e cultura afro-brasileira no sentido dedesconstruir idéias homogeneizadoras que há muito persistem, “negando astradições africanas e afro-brasileiras, dos costumes da negação da nossa filosofia,de nossa posição de mundo, de nossa humanidade”. (CAVALEIRO, 2001, p.07).Segundo o Ministério da Educação, o intuito é de que a temática sobre a históriada África seja contemplada no cotidiano escolar das crianças e jovens, além deinstitucionalizar que o “calendário escolar incluirá o dia 20 de novembro como DiaNacional da consciência Negra”. Com isso, as crianças negras, irão perceber aherança racial e cultural as quais pertencem, valorizando suas raízes, sua cultura eum sentimento de identidade e de pertencimento racial.Neste contexto, ressaltamos o regime de cotas para afro-descendentes nasuniversidades estaduais e federais, que oferece aos alunos pobres, negros eíndios igualdade de oportunidades para ingressar e permanecer no ensinosuperior. Isto implica na sistematização dos esforços em promover o acesso dosgrupos em desvantagem social nas universidades. Ainda instituiu em 2002 oregime de cotas para afro-descendentes pelo Ministério da Justiça em dezembrode 2002, que determina a contratação de 20% de negros, 20% de mulheres e 5%
  22. 22. 32de portadores de deficiências físicas nos cargos de assessoramento daqueleMinistério, sendo acatado os mesmos princípios às empresas de prestação deserviços e às organizações não-governamentais conveniadas com órgãos federais.(ALENCASTRO, 2002).Segundo a antiga Ministra Chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoçãoda Igualdade Racial (SEPPIR) Matilda Ribeiro, o Governo Federal por meio destasecretaria, órgão criado em 21 de março de 2003, instituiu políticas de promoçãode igualdade racial e recolocou a questão racial na agenda nacional e aimportância de se adotarem políticas públicas afirmativas destinadas a todos ossegmentos da população negra.O principal objetivo do SEPPIR é o de promover alteração positiva na realidadevivenciada pelos negros, revertendo os perversos efeitos da escravidão,implementando ações que promovam igualdade de oportunidades com parceriacom o MEC (Ministério da Educação e Cultura) no sentido de construir asmudanças necessárias para combater o racismo, discriminação racial e opreconceito.Não se pode negar que hoje o Brasil caminha para modificar o seu quadro derelações raciais e sociais. Apesar dos entraves que obstaculizar o processo e a mávontade de alguns setores governementais, essas políticas afirmativas irão permitirque o Estado e sociedade civil brasileira reconheçam as disparidades sociais entrebrancos e negros, contribuindo para a eliminação das desigualdades sociaisatravés de intervenções positivas e afirmando os direitos humanos básicosnecessários à população afro-descendente brasileira.2.2 Comunidade remanescente de quilombo: a resistência negra.Apesar da dominação e dos castigos a que estavam submetidos, os negrosescravos não eram passivos à própria situação e sempre que puderam, resistiram.É um erro histórico imaginar que o negro escravo era alguém que aceitasse aescravidão e que não tivesse procurado formas de se libertar, e por mais que o
  23. 23. 33branco dominador e o colocasse como “coisa”, ele não era uma pessoa comsentimentos, sonhos e vontade de mudar.Assim, durante todo período de escravidão no Brasil, Ribeiro e Anastácia (1996)afirmam que os escravos se revoltaram e criaram várias formas de resistência,através de atos isolados contra a escravidão como resistir ao trabalho, fugas,assassinatos contra feitores, suicídio, dentre outros. Dessa maneira, ressaltam queas formas de organização coletiva de resistência eram bem mais sucedidas, poisincluíam as revoltas, atentados contra senhores e feitores, cantos, danças e,principalmente a fuga em grupos para os matos e outros lugares, onde seorganizavam em quilombos e ou mocambos. Segundo as autoras: Os quilombos, comunidades independentes de escravos fugidos, eram vistos pelas autoridades como afronta e mau exemplo para os outros escravos e por isto mesmo eram procurados insistentemente e quando encontrados, eram completamente destruídos e seus líderes assassinatos. (RIBEIRO E ANASTÁCIA, 1996, p.89).Shimidt (2004) complementa que mesmo com toda a repressão sofrida pelosescravos negros, estes sempre se revoltaram com a situação de humilhação eexploração que padeciam, organizando inúmeras fugas. “As fugas não eramindividuais, pois combinavam e fugiam em massa, unidos. E quando recapturados,muitos preferiam se suicidar e os que conseguiam ir mais longe, juntava-se aosquilombos”. (p.47).Além da formação de quilombos, Silva (1988) destaca a participação dos negrosrebeldes em marcantes rebeliões na colônia e no império, como por exemplo aConjuração dos Alfaiates e a Revolta dos Malês, na Bahia e a Balaiada, noMaranhão. Percebemos que estas rebeliões demonstram a importância e aplenitude da participação dos negros na sociedade brasileira, pois estas revoltasnão forma lideradas pela classe dominante.Já o que concerne aos quilombos, Silva (1988) destaca que vale mencionar quehouve no Brasil, “inúmeras comunidades quilombolas que lutavam cotidianamentepela afirmação de sua autonomia e pela libertação de seus integrantes. Destas,Palmares foi a glória maior, mas não foi a única comunidade”. (p.188).
  24. 24. 34A partir desse contexto, os quilombos eram odiados pelos brancos dominadores,porque servia de refúgio para aqueles oprimidos da colônia onde os negros e ascamadas mais pobres da sociedade como os índios perseguidos, mulatos,pessoas pobres procuradas pela polícia, brancos miseráveis, prostitutas seorganizavam em expedições de guerrilha para atacar propriedades e libertar outrosoprimidos demonstrando ser uma prática dos negros e outros pobres nãoprecisavam dos ricos para viver e formar uma sociedade mais justa. (SHIMIDT,2004).Entretanto, percebemos que apesar da Lei Áurea, que possibilitou a liberdadejurídica aos negros escravos regularizando os quilombos, nem de longe asseguroua sua integração, não propiciando as condições indispensáveis para que os negrosse livrassem da pobreza e da miséria que se encontravam.O jornal A Tarde (2005) revela que quando se rebelaram e fugiram das senzalaspor não aceitarem serem escravizados, vários negros formaram comunidadesquilombolas distantes e isoladas das cidades formando vilas, povoados efazendas, onde atualmente ainda tentam preservar sua história, cultura, religião emodo de vida e que apesar desta página escrita na história, a pobreza e a falta deperspectivas os perseguem há décadas.Segundo a Fundação Palmares (2008) a maioria das comunidades vive hoje semenergia elétrica, água encanada, saneamento básico, postos de saúde, educaçãobásica, acesso a estradas e qualquer benefício da sociedade. Sobrevivem daagricultura e da pesca artesanal e mal conseguem vender o que produzem, masnem por isso querem sair da terra de origem por ali existir a forte memória dosseus ancestrais, referências e riqueza cultural.Partindo dessa idéia de ressarcir a população negra, representantes de 220comunidades quilombolas da Bahia compareceram, se conheceram, trocaraminformações e se reuniram em oficinas para tratar dos seus problemas maisurgentes através do programa apresentado às comunidades o Programa BrasilQuilombola que com as estratégias de ação, o governo federal pretende fazer pararesgatar a dignidade destas comunidades, em parceria com a Secretaria de
  25. 25. 35Combate à Pobreza, do governo do Estado sendo relatórios com as demandasencaminhadas para uma agenda de prioridade do governo. Ainda segundo aFundação Palmares (2008), a certificação das comunidades remanescentes dequilombos é feita de acordo com a portaria nº. 98/2007, editada pela FundaçãoCultural Palmares. A portaria, de acordo com o decreto 4.887 de 2003, institui oCadastro Geral de Remanescentes das Comunidades de Quilombos,em que é registrada a declaração de auto-reconhecimento das comunidadesquilombolas.Entretanto, embora o governo adote medidas compensatórias referentes àscomunidades remanescentes de quilombo, ainda se tem muito que fazer, pois amaior parte dessas comunidades ainda sofre os resquícios de uma política deapartheid social, sendo vítimas de um sistema que exclui e que marginaliza seusmembros.2.3 Crianças negras enquanto atores sociais: as representaçõessociais em desenvolvimento.O conceito de Representações Sociais tem suas raízes na Sociologia eAntropologia, através dos estudos do sociólogo Émile Durkheim e Lévi-Bruhl.Inicialmente denominada de Representações Coletivas serviu como elementoessencial para a elaboração de uma teoria que abrange a religião, a magia e omito. (JACQUES, 1998).Anadón e Machado (2003) afirmam que “as Representações Coletivas refere-secomo uma forma de ideação social à qual se opõe ao individual e foi aplicada porDurkheim em relação a sociedades estáticas, tradicionais, estabelecidas, seminovação”. (p.10).Ainda segundo os autores, Durkheim compreendia as Representações Coletivas,como: diversos tipos de produções mentais como a ciência, a religião, a ideologia, os mitos e outros, produções estas que de um lado não são
  26. 26. 36 idênticas quanto à constituição, formas e funções e de outro lado se distanciam do que se entende como senso comum. Observa-se ainda que Durkheim concebia as leis da ideação social no jogo que se mantém entre elas, abstendo-se de discutir os aspectos cognitivos da representação e a sua produção pelos grupos sociais. (ANADÓN E MACHADO, 2003, p.10).Sendo assim, as Representações Coletivas de Durkheim vem traduzir a maneiracomo o grupo se pensa nas relações com os objetos que o afetam e para havercompreensão de como o meio social se representa a si própria ao mundo que arodeia, entende-se que nesta teoria se necessite considerar a natureza dasociedade e não a natureza dos sujeitos. (ANADÓN e MACHADO, 2003).Entretanto, a partir do conceito positivista de Representações Coletivas surge ateoria das Representações Sociais pelo psicólogo francês Serge Moscovici atravésda obra “A psicanálise, sua imagem e seu público” (1961). Nesse livro, Moscoviciretoma o ponto de vista de Durkheim em relação à sociedade, modificando a teoriadas Representações Coletivas e somando a essa perspectiva novas dimensõesteóricas.Moscovici (1978) demonstra em sua obra que é possível o desenvolvimento de umconhecimento válido pelo senso comum e que se pode estudar o conhecimento emuma dimensão psicossociológica. Nesse sentido, Anadón e Machado (2003)acrescentam que: Diferente de Durkheim que considerou as Representações Coletivas de maneira estática e análoga as categorias puramente lógicas e invariantes do espírito nas quais estão incluídos todos os modos de conhecimento, Moscovici os considera de uma maneira dinâmica (de natureza móvel e circulante), mais como um modo específico de conhecer e de comunicar aquilo que se conhece. (p.12).Assim a noção de Representações Sociais é ampla e dinâmica, abrangendo umespaço significativo nas ciências psicológicas sociais. Tal corrente teóricaencontra-se rica em elementos e conceitos psicossociológicos, não admitindo umadefinição fechada e limitada, mas que concede um vasto espaço para conceituá-la.Anadón e Machado (2003) ainda contribuem com a discussão sobre o caráter dateoria das Representações Sociais, analisando-a e comparando-a com o caráterestático da definição inicial de Durkheim acrescentando que:
  27. 27. 37 Moscovici vai além e se debruça sobre uma forma de conhecimento apropriada ao mundo contemporâneo na qual predominam mudanças constantes e o pluralismo de idéias e doutrinas, quer políticas, quer religiosas, filosóficas e morais. Uma sociedade em que esta dinâmica convive com uma ciência isolada e elitista, que fala uma linguagem esotérica, sem ter conta da diversidade e da mobilidade dos diversos grupos sociais e dos indivíduos que os compõem. (p.11).Segundo Jodelet apud Almeida (2004) as Representações Sociais aparecem comouma forma de conhecimento elaborada e compartilhada, contribuindo para aconstituição de uma determinada realidade comum a um grupo social, tendo umaforma de conhecimento diferenciada dos saberes científicos, proporcionandoesclarecimento dos processos cognitivos e das interações sociais.Desse modo, segundo Moscovici (1978), compreendemos por RepresentaçõesSociais um conjunto de conceitos surgidos na vida cotidiana no curso da relaçãoentre o sujeito e a sociedade, uma teoria de ordem prática que procura dar sentidoàs práticas sociais. A Representação Social é um conhecimento de ordem prática, como uma teoria do senso comum. Trata-se de uma modalidade de conhecimento na perspectiva do indivíduo que dá sentido às práticas sociais e procura compreender os significados que as pessoas atribuem a um objeto social. (MOSCOVICI, 1978, p.58).Guareschi e Jovchelovitch (1995) acrescentam ainda que o papel da teoria dasRepresentações Sociais confere a racionalidade da crença coletiva e suasignificação confere, portanto aos saberes populares, às idéias e, sobretudo aosenso comum, tendo a função de orientar a comunicação entre os indivíduos efamiliarizá-los com o novo, estando ambas ligadas a um complexo sistema devalores, noções e práticas que concedem ao sujeito, maneiras de se orientar nomeio social e material, oferecendo-lhes referencial comum, instituindo umarealidade consensual e aparecendo de maneira clara o papel da interação social.Assim, entendemos que as Representações Sociais trazem em si a históriaparticular de cada sujeito e nas variâncias de cada estrutura traz as marcas dosentido atribuído por determinados segmentos ou grupos ou, por sua veztotalidade a determinado objeto. Nesse sentido, Jodelet apud Almeida (2004)
  28. 28. 38ressalta a importância que as Representações Sociais ocupam no cotidiano decada indivíduo inserido no contexto social, destacando que: Sempre há a necessidade de estarmos informados sobre o mundo à nossa volta. Além de nos ajudar a ele, precisamos saber como nos comportar, dominá-lo física ou intelectualmente, identificar e resolver os problemas que se apresentam; é por isso que criamos representações. Frente a esse mundo de objetos, pessoas e acontecimentos ou idéias, não somos (apenas) automatismos, nem estamos isolados num vazio social: partilhamos esse mundo com os outros, que nos servem de apoio, às vezes de forma convergente, outras pelo conflito, para compreendê-lo, administrá-lo ou enfrentá-lo. Eis porque as Representações Sociais são importantes na vida cotidiana. Elas nos guiam no modo de interpretar esses aspectos, tomar decisões, eventualmente, posicionar-se frente a eles de forma defensiva. (p.17).Ainda ressaltando a pertinência das Representações Sociais, Moscovici (1978) falaque a importância do estudo das representações dos sujeitos sobre determinadosaspectos da realidade está na função social de orientação de comportamentos epreparação para ação, denominada como uma análise de sua produção social, jáque a ciência, a ideologia, aos saberes populares os mitos são construídos edeterminados socialmente. Desse modo, compreende-se que as RepresentaçõesSociais se tornam racionais, não por serem sociais, mas porque elas são coletivas.Percebemos que é somente através da coletividade que os homens se tornamracionais e um indivíduo isolado e sozinho não poderia sê-lo racional. Assim, todae qualquer forma de pensamento e linguagem deve ser social, pois vidasindividuais só são construídas e tomam forma em relação a uma determinadarealidade social. (MOSCOVICI, 1978). Nesse sentido, a teoria das RepresentaçõesSociais forma-se mediante dois importantes processos cognitivos: a objetivação ea ancoragem.Segundo Moscovici (1978), o processo de objetivação tem a função de transformaraquilo que é estranho à palavra, isto é, aquilo que é abstrato em algo concretotransformando um determinado conceito em uma imagem, concretizando o objetoapresentado. Assim, a objetivação é essencialmente uma operação formadora deimagens através do qual noções abstratas são transformadas em algo concreto,quase tangível, tornando-se "tão vívidos que seu conteúdo interno assume ocaráter de uma realidade externa" (MOSCOVICI, 1978).
  29. 29. 39Com relação ao segundo processo, denominado de ancoragem refere-se àinserção orgânica do que é estranho no pensamento já constituído, ou seja,ancoramos aquilo que nos é desconhecido em representações já existentes.Segundo Moscovici (1978), é no processo de ancoragem que se encontra oenraizamento social da representação e do seu objeto, ocorrendo assim aintegração cognitiva do objeto apresentado ao pensamento social. Assim podemoscompreender o processo de ancoragem como um processo de familiarização edomesticação de algo novo, sendo um código de interpretação no qual se ancora onão familiar, o desconhecido, o imprevisto.Ancorar significa, portanto, classificar e denominar, porque as coisas que não sãoclassificadas nem denominadas são estranhas, dando a impressão de nãoexistência, sendo ameaçadoras. (MOSCOVICI, 1978). Em suma, a ancoragem éfeita na realidade social vivida, não sendo, portanto, concebida apenas comoprocesso cognitivo intra-individual.A partir da idéia das Representações Sociais, situamos as crianças negras comosujeitos sociais inseridos em uma determinada realidade social e que interagemneste meio social, sendo construído e continuamente reconstruído a partir dacompreensão de coletividade.Vygotsky (1994) afirma que o indivíduo constrói suas formas de ação e suaconsciência através das relações sociais que estabelece com os demais indivíduossociais. Assim, a construção da intra-subjetividade, o interior do sujeito, se dá nasdimensões social e individual.Ainda afirma que a estrutura fisiológica da criança não é o suficiente para odesenvolvimento de suas características individuais humanas, como modo de agir,pensar, sentir, pois elas dependem da interação com o meio físico e social numaação recíproca entre organismo e meio. A interação do sujeito do e pelo meio desencadeia o processo de formação das suas “funções mentais superiores”. Esse meio “que não é só físico, mas é principalmente carregado de significados e é portanto, prenhe de ideologia, de história e de cultura”. (VASCONCELOS, 2002, p.60).
  30. 30. 40Para Vygotsky (1994), o percurso do desenvolvimento humano se dá “de fora paradentro” e é marcado pela inserção do sujeito em determinado grupo sociocultural.Nessa perspectiva, podemos enfatizar também na linguagem a existência de umaconexão entre os fatores sociais de natureza cultural e histórica. Quanto a isso,Silva e Boaventura [s.d] ressaltam que: Desse modo, a identidade, portanto, é constituída de elementos simbólicos. Como numa concepção holística, a identidade pode ser compreendida como uma totalidade integrada, nunca reduzida a unidades fragmentadas. (p.114).Desse modo, a criança negra nasce num mundo simbólico, onde os significadosdas “coisas” são usados pelos indivíduos para controlar seu ambiente e a sipróprios. Na interação estabelecida com os outros de sua cultura – familiares,colegas, professores –, a criança negra vai construindo seu próprio sistema designificação e a sua auto-imagem. A interação, portanto, possui um papel essencialna construção destes significados culturais e na construção das RepresentaçõesSocial.
  31. 31. 41 III CAPÍTULO OS CAMINHOS PERCORRIDOS3.1 O conhecimento e a pesquisa qualitativaPodemos entender o conhecimento como um produto do intelecto humano voltadopara o indivíduo, que lhe permite compreender, a seu modo, o mundo à sua voltae, ao mesmo tempo, apropriar-se da realidade no qual está inserido, sendo esteconhecimento compreendido em vários níveis. Neste sentido, enfatizamos arelevância do conhecimento científico para a compreensão da realidade queestamos inseridos.O conhecimento científico, por meio da pesquisa científica em ciências sociaisconstitui um importante processo de investigação da realidade onde permite aampliação de possibilidades de compreensão e interpretação do cotidiano e doconhecimento do senso comum, tornando-se possível a compreensão dacomplexidade humana nas relações sociais. Segundo Minayo (1994): Entendemos por pesquisa a atividade básica da ciência na sua indagação e construção da atividade de ensino e a atualiza frente à realidade do mundo. Portanto, embora seja uma prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação. Ou seja, nada pode ser intelectualmente um problema, se não tiver sido, em primeiro lugar um problema na vida prática. As questões de investigação estão, portanto, relacionadas a interesses e circunstâncias socialmente condicionadas. (p.18).Nesse sentido, a pesquisa de caráter científico em ciências sociais deve ter ocompromisso com o social e com a finalidade de resgatar a importância dasexperiências vividas no cotidiano, buscando a reabilitação do senso comum ouempírico por reconhecer nesta forma de conhecimento a essência dascomplexidades produzidas nas relações sociais, pois toda e qualquer prática depesquisa em ciências sociais não pode acontecer em um lugar situado acima das
  32. 32. 42esferas de atividades comuns e desenvolvida por sujeitos comuns. (SANTOS,2003). Assim, o ato de pesquisar requer que estejamos longe da certeza,proporcionando assim uma mudança de paradigma de conhecimentoinquestionável e de verdade absoluta. Sobre isso, Esteban apud Garcia (2003)ressaltam que: Longe da certeza da pesquisa como processo que encontra o conhecimento e a verdade, objetivo garantido pela dissolução do sujeito que permite a revelação da essência do objeto de estudo reduzido, simplificado, isolado do sujeito que o concebe e do contexto do qual se produz, a pesquisa vai se desdenhando como uma prática de errância e de produção e também de ignorância. (p.129).Pensando neste fazer científico que valoriza a busca da compreensão da realidadee da complexidade das relações, a presente pesquisa desenvolveu-se a partir deuma metodologia qualitativa, “que se preocupa com a compreensão de casosparticulares e não com a formulação de leis generalizantes, como fazem asciências naturais” (GOLDENBERG, 2000, p.19). A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operalizações de variáveis. (MINAYO, 1994, p.22).Ludke e André (1986) afirmam ainda que a pesquisa qualitativa propõe umaatividade metodológica que valoriza o contexto e a descrição dos fatos a seremestudados pelo pesquisador, sendo que este deve obter os dados coletadosatravés do contato direto com o contexto estudado e com os sujeitos participantesda referida pesquisa, havendo a necessidade de apreender na pesquisa aperspectiva dos participantes, isto é, a maneira como os sujeitos encaram asquestões que estão sendo enfatizadas. O reconhecimento da especificidade das ciências sociais conduz à elaboração de um método que permita o tratamento da subjetividade e da singularidade dos fenômenos sociais. Com estes pressupostos básicos, a representatividade dos dados na pesquisa qualitativa em ciências sociais está relacionada à sua capacidade de possibilitar a compreensão do significado e a descrição densa dos fenômenos estudados em contextos e não á sua expressividade numérica. (GOLDENBERG, 2000, p.50).
  33. 33. 43Desta forma, a partir de uma epistemologia de caráter qualitativa, a pesquisacientífica passa a compreender a realidade em sua complexidade e não mais comoalgo simples que possa ser descrito a partir de poucas leis universais, substituindoa metodologia da investigação pela construção e a neutralidade pela participaçãodos indivíduos na pesquisa.3.2 Lócus da pesquisaBananeiras dos Negros é um povoado distante 6 km da cidade de AntonioGonçalves, sede do município, onde está situado ao norte da Bahia, distante cercade 400 km de Salvador. O povoado de Bananeiras dos Negros é compostoaproximadamente por 350 habitantes como idosos, homens, mulheres, jovens ecrianças, sendo este reconhecido recentemente como uma comunidaderemanescentes de quilombo, pela Fundação Palmares.Sua economia é baseada no extrativismo (do ouricuri), da agricultura, pecuária eda produção de derivados da cana-de-açúcar, como raspadura, mel de cana, caldode cana, dentre outros produtos. Algumas manifestações culturais deste povoadoestão esquecidas pela população, devido à falta de importância das novasgerações em resgatá-las e pela falta de interesse dos poderes públicos domunicípio com relação a estas manifestações.Entretanto, percebemos que esta comunidade preserva ainda a cultura de produzirderivados da cana de açúcar por meio de um velho engenho construído porantepassados negros, sendo uma forma de resistência e de valorizar a culturaafro-descendente. Ainda citamos o papel que a Associação Quilombola deBananeiras dos Negros a comunidade desenvolve, desempenhando a função deluta e reivindicação a favor dos direitos dos cidadãos quilombolas. A partir destequadro, escolhemos para participar da nossa pesquisa qualitativa quinze criançasnegras residentes na referida comunidade, na faixa etária de oito a doze anos porsaberem se expressar com mais clareza e objetividade.3.2.1 Os sujeitos da pesquisa
  34. 34. 44Procurando identificar e analisar as representações sociais que as crianças negrasda comunidade quilombola de Bananeira dos Negros têm sobre a sua negritude éque escolhemos como sujeitos da nossa pesquisa, 15 crianças negras (meninos emeninas) do povoado de Bananeira dos Negros por acreditarmos que através daanálise descritiva e analítica de suas falas seriam reveladas as informaçõesimportantes que nos auxiliaram no estudo do objeto proposto, à luz dos objetivoslevantados na pesquisa, favorecendo assim, a realização da mesma.3.3 Instrumentos de coleta de dadosNo sentido de ouvir os sujeitos da pesquisa, dando visibilidade e relevância àssuas falas e ao contexto que estão inseridos, procuramos contemplar na nossapesquisa a utilização de três diferentes tipos de instrumentos de coleta de dadosque nos proporcionou ter maior segurança quanto aos dados coletados e ainterpretação de seus resultados.Desse modo, utilizamos um questionário fechado o qual pôde traçar o perfil sócio-econômico dos sujeitos participantes da pesquisa e caracterizá-lo de uma maneiramais segura, revelando assim as atividades cotidianas dos mesmos e o contextosócio-econômico e cultural em que estão inseridos, onde Trivinõs (1987) nos falaque: Com efeito, além de salientar a necessidade de observar os sujeitos não em situações isoladas, artificiais, senão na perspectiva de um contexto social, coloca ênfase na idéia dos significados latentes do comportamento do homem. (p.122).Tal instrumento nos permitiu ainda, revelar dados e informações extremamenterelevantes referentes às crianças negras como o sexo, a idade, a freqüênciaescolar, as atividades que desenvolvem fora do ambiente escolar e o convívio daspessoas que fazem parte de suas vidas, pois essas informações nos permitiramanalisar com mais profundidade a maneira como as representações sociais seformam dentro da comunidade quilombola investigada.Também fizemos uso do questionário semi-estruturado, onde através de questõesde caráter reflexivo, pudemos descobrir as opiniões dos sujeitos investigados,
  35. 35. 45permitindo o aprofundamento de pontos levantados por outros instrumentos decoleta e sendo um veículo importante para que pudéssemos atingir os objetivosque nos propomos alcançar.E ainda para auxiliar e complementar os dados dos questionários e para quepudéssemos mapear as representações sociais que as crianças negrasquilombolas têm sobre a sua negritude, achamos conveniente utilizarmos o mapamental que segundo Anadón e Machado (2003) caracteriza-o como um espaçoonde o indivíduo faz uma representação mental do ambiente que está inserido,“uma representação que é o mundo tal qual as pessoas crêem que ele é”. (p.66).Entretanto, esta representação de espaço não é imóvel e nem estática, mas semodifica com a importância deste ambiente físico para o sujeito, fazendo umareescrita deste espaço e se desenvolvendo em forma de símbolo, existindo umaintensa relação imaginária que no entender de Anadón e machado (2003) dásentido a este espaço de interação, segundo a qual: A experiência do mundo exterior é marcada sempre por sentimentos e noções apreendidas no meio em que as pessoas vivem. Nesse sentido, toda a situação é uma reescrita simbólica do espaço segundo a importância e o valor que o indivíduo dá aquilo que o cerca. Isto significa que a utilização funcional de um espaço vai além de uma utilização material, porque existe uma relação imaginária que dá sentido a este espaço. (ANADÓN E MACHADO, 2003, P.64).3.4 Desenvolvimento da pesquisaPara atingirmos os nossos objetivos, elaboramos o questionário fechado (perfilsócio-econômico), questionário semi-estruturado com questões relacionadas àproblemática da pesquisa e o mapa mental, através de grafismos (desenhos)desenvolvidos pelas crianças.Assim, a aplicação dos instrumentos de coleta de dados foi desenvolvida poretapas onde procuramos conhecer os sujeitos da nossa pesquisa e o contexto emque vivem. Também, sensibilizamos o grupo de pesquisa, expondo aos sujeitos opropósito e os objetivos da nossa pesquisa e a partir disso, aplicamos o
  36. 36. 46questionário fechado, para traçar o perfil sócio-econômico das crianças negras,aplicamos o questionário semi-estruturado, onde através deste, sentimentos eopiniões com relação à temática foram expostas e ainda, aplicamos o mapa mentalque por meio de grafismos, puderam manifestar as representações que possuemsobre negritude.Inicialmente, tivemos algumas dificuldades na aplicação dos instrumentos decoleta pelo fato de os sujeitos de pesquisa se tratar de crianças, onde muitas delasinicialmente tiveram certa resistência com relação aos instrumentos de coleta.Entretanto, eles conseguiram se expressar de maneira satisfatória nos trêsinstrumentos de coleta de dados, sendo possível a coleta dos dados e ainterpretação de seus resultados.
  37. 37. 47 CAPÍTULO IV ANÁLISE DE DADOS E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOSNeste capítulo, apresentaremos os dados coletados e os respectivos resultadosalcançados através dos instrumentos de coleta de dados, norteados pelosobjetivos pelo quadro teórico presentes na nossa problemática.A partir desse contexto pudemos obter informações reveladoras para a pesquisa,procurando refletir e considerar aspectos importantes que dizem respeito aosnossos questionamentos e objetivos de pesquisa e à realidade a qual os sujeitosestão inseridos, sendo que tais informações foram coletadas com rigorosidadecientífica.Assim, com consciência da nossa limitação enquanto pesquisadores da área deciências sociais, buscamos não encontrar respostas únicas, verdadeiras paranossos questionamentos iniciais da pesquisa, mas sim o de procurarmos encontrarrespostas possíveis que revelassem informações importantes para nos auxiliar emnossos estudos.Segundo Esteban apud Garcia (2003), a pesquisa deve ser encarada como umaprática que busca não um conhecimento verdadeiro, inquestionável e sim umaprática de pesquisa que procura se aperfeiçoar de maneira a permitir o florescer denovos olhares e novas possibilidades de pesquisa.Com este entendimento de pesquisa é que nos interessou saber quais asrepresentações sociais que as crianças negras quilombolas têm sobre a suanegritude, onde notamos a importância de fazermos um estudo dasrepresentações sociais sobre negritude na vida e no cotidiano das crianças negrasresidentes na comunidade negra de Bananeira dos Negros, em AntonioGonçalves-Ba. Para tanto, utilizamos como instrumentos de coleta de dados oquestionário fechado, o questionário semi-estruturado e o mapa metal, através de
  38. 38. 48grafismos e, a partir dos dados que obtivemos através da aplicação doquestionário fechado, foi possível traçar o perfil sócio-econômico dos sujeitospesquisados.O resultado sinaliza para a compreensão de fatores evidenciados anteriormente noque se refere ao nível social das crianças negras residentes na comunidadequilombola de Bananeira dos Negros. Desse modo, considerando o sexo dascrianças, idade, freqüência escolar, nível de escolaridade e outras variáveis, forampercebidas as seguintes características:4.1 Resultado do questionário fechado.4.1.1 Faixa etária:Através do questionário fechado, o qual traçou o perfil sócio-econômico dos 15sujeitos pesquisados, pudemos identificar a faixa etária das crianças. Conforme ográfico 1, cerca de 20% delas afirmaram possuir entre 7 e 8 anos e 80% afirmaramter entre 9 e 10 anos de idade, como vemos no gráfico 1: Gráfico 1: Faixa etária das crianças negras pesquisadas. 20% Entre 7 e 8 anos Entre 9 e 10 anos 80%Entretanto, ressaltamos que a faixa etária apresentada pelas crianças pesquisadasnão influenciou de nenhum modo o resultado da pesquisa. Acreditamos sernecessário conhecer a faixa etária destas crianças para ampliarmos oconhecimento sobre aspectos e características referentes aos sujeitos
  39. 39. 49pesquisados, complementando assim as demais informações coletadas sobre apesquisa e sobre as representações sociais circundantes entre este público.4.1.2 Sexo:Das 15 crianças negras pesquisadas que responderam ao questionário fechado doitem referente ao sexo, foi observado que 30% pertencem ao sexo feminino e 70%pertencem ao sexo masculino. Conforme o gráfico 2 abaixo: Gráfico 2: Sexo das crianças negras pesquisadas. 30% Feminino Masculino 70%Partindo das seguintes informações, enfatizamos que com relação ao sexo dossujeitos, este foi selecionado de maneira aleatória e informal, também nãoapresentando nenhuma alteração ao resultado da pesquisa, possuindo somente afinalidade de complementar as informações sobre os atores sociais que forampesquisados.4.1.3 Série:Os dados coletados, através do questionário fechado demonstraram que 100% das15 crianças negras pesquisadas freqüentam a escola regular, que se localiza nacomunidade onde residem. Entretanto, foi observado que 60% das criançascursam entre a 1ª e a 2ª séries do ensino fundamental I e 40% cursam entre a 3ª ea 4ª séries do ensino fundamental I. Percebemos que apesar freqüentarem aescola regular, os sujeitos pesquisados demonstraram um déficit significativo com
  40. 40. 50relação à educação formal. Os dados apontaram um alto índice de repetênciaescolar, pelo fato de 60% dessas crianças apresentarem uma idade elevada para onível de escolaridade que possuem, como nos mostra o gráfico 1 (Faixa etária dossujeitos pesquisados). Gráfico 3: Série das crianças negras pesquisadas. 40% Entre 1ª e 2ª série Entre 3ª e 4ª Série 60%Esse resultado nos possibilita analisar que esses altos índices de repetênciapodem estar associados a outras necessidades e a outros afazeres mais“produtivos” do que se dedicarem à escola e aos estudos, pois muitos necessitamtrabalhar para ajudar seus familiares nas tarefas cotidianas da comunidaderemanescente de quilombo do que estudar.Tais conseqüências podem também estar associadas ao programa curricular daescola em que as crianças estudam, já que o currículo escolar implantado nestainstituição não está adequado à realidade dessas crianças negras da comunidaderemanescente de quilombo, fazendo com que a escola se torne inútil,desinteressante e muitas vezes, legitimadora de ideologias contrárias à cultura dossujeitos pesquisados.Nesse sentido, Cavaleiro (2001) nos fala que a escola tem se configurado comoum significativo instrumento de legitimação de idéias homogeneizadoras, “negandoas tradições africanas e afro-brasileiras, dos costumes, a negação da nossafilosofia de vida, de nossa posição de mundo, da nossa humanidade”. (p. 07).Assim, inculca-se desde cedo idéias que são alheias à sua realidade,desenvolvendo na criança negra, um sentimento de desvalorização e de
  41. 41. 51desqualificação intelectual pelo fato de não se interessarem pela escola,reforçando de maneira veemente, a situação de desvantagem intelectual e,consequentemente a social se tornando um ser humano sem perspectivas, comoressalta Silva (1988): (...)Daí a marginalização permanente. Daí a postura humilde e complexada geralmente assumida pelos negros mais velhos e a agressividade dos mais jovens muitas vezes inconsciente e inconseqüente, pois a grande maioria deles ignora seu valor histórico, não lê nada, não está interessada por cultura e a rigor, nem por si próprios. (...). (p.189).4.1.4 atividades cotidianas:As atividades cotidianas que os 15 sujeitos da pesquisa desempenhamcotidianamente no horário às aulas, 60% das crianças negras afirmaram trabalhar,30% responderam que brincam e assistem televisão e somente 10% estudam,reforçando os conteúdos da escola formal, segundo o gráfico 4 abaixo: Grafico 4: Atividades cotidianas 10% Estudam Brincam e assistem 30% televisão 60% TrabalhamNeste caso, pudemos refletir sobre o contexto social e cultural em que os sujeitosda nossa pesquisa estão inseridos. Partindo dessa idéia, percebemos que amaioria das crianças negras da comunidade trabalha em atividades braçais (60%).Tanto meninos como meninas exercem tais funções, dando prioridade ao sustentoda família do que à educação e ao lazer. Sobre isso, é inevitável não lembrarmosdo trabalho infantil, sobretudo, da época da escravidão e dos abusos que ascrianças negras sofriam, sendo obrigados, desde muito pequenos a trabalhar naslavouras e em outros afazeres, não tendo nenhum direito a terem direitos. Cabe-
  42. 42. 52nos lembrar a fala de Meireles (2005) no capítulo I deste trabalho, onde retrata naépoca da escravidão, a infância e principalmente a cultura renegadas a partir desete anos, onde os meninos negros começavam trabalhar em atividades braçais, eas meninas nos afazeres domésticos, na lavagem de roupas e no plantio dehortaliças.Tais práticas reforçam e legitimam, mesmo que involuntariamente, o estereótipo deque o negro é forte e proveitoso para o trabalho pesado, mas para o trabalhointelectual ele não tem serventia, sendo esta informação legitimada no percentualonde demonstra a quantidade de crianças que se preocupam e dispõem de tempopara estudar no horário oposta às aulas, somente 10% dos sujeitos pesquisados.Ainda, sobre o item referente às atividades cotidianas, cerca de 30% das criançasresponderam que assistem televisão e brincam no horário oposto às aulas. A partirdesta informação, notamos o papel dos meios de comunicação, principalmente oda televisão como sendo um dos principais difusores de idéias e valores para ossujeitos da pesquisa, onde veicula e reproduz ideologias e imagens que, muitasvezes, são totalmente incompatíveis ao contexto vivido por estes, levando-os aquerer imitar tais valores e paradigmas que são diferentes dos seus. “Dessa forma, as crianças negras em seu processo de desenvolvimento têm diversas possibilidades para internalizar uma concepção negativa de seu pertencimento racial, favorecendo a constituição de uma auto-imagem depreciativa.(...). É claro que não podemos nos esquecer da mídia que atua de forma bastante forte na veiculação de imagens e idéias que acabam fortalecendo o grupo racial branco e estigmatizando o grupo racial do negro”. (OLIVEIRA ET AL, 2005, p.30).Quanto ao brincar, entendemos que as crianças negras trazem consigo opiniões,crenças, sentimentos, valores que são socializados e compartilhados com outrascrianças através da interação social e, a partir dessa troca de experiências entreelas, a criança constrói sua intra-subjetividade, seu sistema de significação e suaauto-imagem. Quanto a isso Vasconcellos (2002) ressalta que: A interação do sujeito no e pelo meio desencadeia o processo de formação das suas “funções mentais superiores”. Este meio, “que não é só físico, mas é, principalmente, carregado de significados e é, portanto, prenhe de ideologia, de história, de cultura”. (Vasconcellos, 2002, p.60).

×