O Teatro na Educação Artigo- Claudineia da Silva Barbosa

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  • 1. O TEATRO NA EDUCAÇÃO Claudinéia da Silva Barbosa1 RESUMOO artigo situa a importância do Teatro na Educação e traz reflexões sobre ossignificados atribuídos a essa linguagem artística. Apresenta uma experiência apartir da realização de oficina sobre teatro e educação, onde foram discutidas, comestudantes de graduação, as inquietações sobre o ensino de Arte, especificamentedo teatro, as contribuições dessa linguagem e as implicações acerca da Arteeducação na formação de educadores. E através de pesquisa investigativadirecionada aos sujeitos docentes, atuantes em quatro instituições de ensino formalem Itaberaba, buscou-se compreender como o ensino da Arte/teatro tem sidoconsiderado no processo educativo e como tem contribuído para o desenvolvimentodas potencialidades do ser educando. A pesquisa traz, como contribuição,indicadores que apontam a resignificação do ensino-aprendizagem a partir do teatro,onde a realidade é o aqui e agora, em que se manifesta o potencial criativo.Palavras-chave: Arte educação. Teatro. Potencialidade Humana. Práticapedagógica.1 INTRODUÇÃO A Arte permite ao ser humano manifestações de diferentes formas do sabersensível. Ao utilizar as linguagens artísticas, ele cria e recria inúmeras possibilidadesde expressão através da sua potencialidade criadora. Por meio da fruição, é capazde estabelecer comunicação entre seu universo interior criativo e interagir com omeio, revelando percepção e estética a partir da linguagem artística representada.Seja por meio da dança, das artes visuais, da música ou do teatro, em suasespecificidades, estas linguagens possibilitam a compreensão e expressão quelevam o ser a apropriar-se de habilidades também específicas e desenvolver-se,construindo, ao mesmo tempo, produto de conhecimento e manifestações culturais.1 Graduanda do Curso de Pedagogia – Habilitação, Docência e Gestão dos Processos Educativos,cursando VIII semestre na Universidade do Estado da Bahia – Desp. de Educação Campus XIII –(UNEB - DEDC- XIII) – Itaberaba - BA. Trabalho orientado pela docente Giulia Fraga, Mestre emEducação e Contemporaneidade - UNEB e coorientado pelo docente Adailton Santos, Doutor comDupla Titulação em Artes Cênicas pelas Universidades Federal da Bahia (Brasil) em Cotutela ParisOuest Nanterre La Défense (França) (2009), ambos Professores da UNEB - DEDC- XIII.
  • 2. 2 Entre as infinitas possibilidades de criação e expressão, a linguagem teatralapresenta-se de forma mais complexa e integrada com as demais linguagens, pois,no desenvolvimento das habilidades teatrais, o ser humano, através de seu corpo ede suas possibilidades de expressão, é o elemento principal. A linguagem teatralpode estar representando dança, utilizando música e sendo, ao mesmo tempo,audiovisual. Sua complexidade está em exigir do aprendiz mais habilidades. Mas asublimidade dessa linguagem está no seu principal aspecto, que é ter o ser humanocomo elemento básico e, por esta arte, primar pelo desenvolvimento integrado desteser, considerando não somente os seus conhecimentos, mas as suas emoções, suasubjetividade e suas potencialidades. A partir da percepção que se tem sobre a importância e o significado doTeatro como produto de conhecimento e manifestação cultural desenvolvido nasociedade, este artigo busca compreender como a arte teatral está vinculada àEducação, refletindo sobre a sua contribuição para o desenvolvimento daspotencialidades humanas. Considerando o percurso histórico sobre o ensino da Artee suas implicações, investiga como essa linguagem artística está presente e como éconsiderada e desenvolvida em algumas instituições de ensino formal público eprivado nos níveis de Educação Infantil e Séries Iniciais. Através de entrevista estruturada, direcionada ao sujeito docente, pretendeu-se analisar de que forma as ações educativas têm dado relevância aodesenvolvimento da aprendizagem de forma a abranger o teatro. E perceber emquais circunstâncias de organização curricular e formação os sujeitos docentesrealizam suas práticas pedagógicas considerando essa linguagem artística.Fundamenta-se este trabalho nas contribuições dos autores, que trazem reflexõessobre a formação docente, a pesquisa e prática pedagógica no trabalho, com teatrona educação e também sobre a metodologia e avaliação no ensino-aprendizagem,envolvendo o universo das linguagens artísticas, em destaque, a arte teatral.2 TEATRO: UM ASPECTO DINÂMICO DA CULTURA HUMANA Uma especificidade humana, essa linguagem artística realiza-se,essencialmente, a partir do corpo, da fala e dos gestos, manifestando aexpressividade criativa do ser. De significação múltipla, o teatro é compreendido sob
  • 3. 3diversos aspectos, que circunscrevem desde espaço, lugar para a ação, àmanifestação de uma cumplicidade complexa e apaixonada entre o corpo vivificante,o que atua e o espectador que o observa. Esses são movidos pela ação criadora deum universo de encantamento, que se manifesta pela realidade cênica depersonagens com suas razões e emoções, culminando em um impulso interpretativopara o que atua e para o que observa e se emociona. Percebido como um mecanismo inteligente, capaz de criar e recriarsituações, intervir nas realidades, quebrar e reconstruir conceitos de espaço, tempo,estética, linguagem e comunicação, o teatro configura-se em um movimento que dápossibilidades de penetrar nas dimensões transcendentes do mundo das ideias. Dáao ser humano o domínio sobre a construção, desconstrução e reconstrução derealidades (ou realidades imaginárias) e conhecimentos que o envolvem e a simesmo. Entendida também como uma manifestação cultural que se desenvolveu notranscorrer da história da humanidade, a expressão da linguagem teatral é passívelde transformações, como afirma Fernando Peixoto: O teatro tem história específica, capítulo essencial da história da produção cultural da humanidade. Nesta história, o que mais tem sido modificado é o próprio significado da atividade teatral: sua função. Constantemente redefinida, na teoria e na prática, esta função social tem provocado alterações substantivas na maneira de conceber e realizar teatro (2003, p.11). Essa linguagem pode ser considerada como uma influência positiva emarcante, promovida na dinâmica evolutiva da vida ao longo da existência dahumanidade, tornando-se algo que é característico da organização e da produçãohumana. Ao se questionar sobre como surgiu o teatro, a teoria mais aceita propõeque ele tenha se desenvolvido a partir de rituais. Passou por diferentesreformulações estéticas e de concepções, muitas técnicas e recursos quecaracterizavam desde o teatro não ocidental – os da Antiguidade grega e romana –e que se aplicou na Idade Média e mesmo a multiplicidade que desenvolveu duranteo Renascimento até meados do século XX; muito foi reelaborado e se tornou objetode estudos e experimentos até a atualidade. Entre outros, o que se convencionou
  • 4. 4chamar, conforme Rosenfeld (1995, p.169), de Teatro Épico, com Bertolt Brechtmarcando um período com o conhecido teatro didático, que rompe a “quarta parede”e traz elaborações ideológicas sobre o pensamento político , tornando o teatro umpotente mecanismo na busca de conscientização e transformação social. Semdúvida, isso trouxe influências marcantes para as montagens e os espetáculoscontemporâneos. Considera-se também um destaque o Teatro do Oprimido , desenvolvido porAugusto Boal, que, na década de setenta, no Brasil, começou com teatro-jornal,trabalhando com público popular. Mais tarde, foi reprimido e o seu criador, exilado.Ele desenvolveu fora do País outras técnicas que denominou de “teatro do invisível”,“teatro-fórum” e “teatro imagem”, expressando interessante conceito sobre essaexperiência humana rica de aprendizagens e ensinamentos de que o indivíduo podeusufruir, em contato consigo mesmo, ao expor suas potencialidades através dalinguagem artística. Boal conceitua o teatro como a reflexão do ser humano sobre simesmo e como uma possibilidade de transformação do mundo externo: Os humanos são capazes de se ver no ato de ver, capazes de pensar suas emoções e de se emocionar com seus pensamentos. Podem se ver aqui e se imaginar adiante, podem se ver como são agora e se imaginar como serão amanhã [...]. O teatro é uma forma de conhecimento e deve ser também um meio de transformar a sociedade. Pode nos ajudar a construir o futuro, em vez de mansamente esperarmos por ele (BOAL, 2008, p. xiv – xi). Essa definição leva a refletir sobre a essência humana como construção daconsciência de si mesma e afirma a sublimidade da linguagem artística naresignificação do processo de aprendizagem. Boal contribuiu com diversas obras,entre as quais há a presença de jogos teatrais, cuja dinâmica tem favorecido oplanejamento e desenvolvimento de programas educacionais, cujas metas deaprendizagem buscam a valorização e ampliação das habilidades potenciais doeducando. Favorece, assim, uma educação que propicia a aprendizagemsignificativa e libertadora no campo artístico. Para além deste, o teatro expressatambém valor educativo.
  • 5. 53 O TEATRO E A EDUCAÇÃO Tanto o Teatro quanto a Educação são campos do conhecimento humano,considerados extensos e complexos em seus saberes, e que exigem familiaridadepara que se desenvolvam estudos unindo-os em uma linha de pesquisa, embora oprimeiro esteja “presente” no segundo há mais de quinze décadas. Apesar de oensino de Arte, que envolve as quatro linguagens (dança, música, artes visuais eteatro2), ter sido significativamente discutido e redimensionado, algumas questõesainda persistem e são trazidas por estudiosos, por exemplo, Ingrid Koudela: Pesquisas científicas revelam claramente que tanto ao nível da formação de professores, quanto na condução do processo com a criança, torna-se necessário o detalhamento de objetivos específicos, que conduzem à operacionalização do ensino de teatro (1990, p. 25). São questões pertinentes para o educador, na reflexão sobre suashabilidades, quanto às dimensões e saberes do ato de educar, uma vez que secompreende que “ensinar é uma especificidade humana”, como elucida Freire (2006,p.91). Os seres humanos têm sido capazes de ensinar essa habilidade ao longo daevolução da humanidade. O saber foi se organizando, se institucionalizando até seconstituir em um sistema formal de educação. É preciso considerar que este é umprocesso inacabado, por ser um ato humano e por se entender que o conhecimentodo homem não é elaborado mecanicamente, mas na interação, a partir deinvestigações, análises e reflexões. Um ensino que, além de possibilitar oconhecimento científico, sensibilize para a construção de valores, é a essência daEducação e que Freire aponta como uma especificidade humana, porque entende oser completo, compreendendo suas emoções, além de seus outros aspectos bio-físico-psicossocial. A Educação tem, entre suas finalidades, a responsabilidade degerenciar o maior patrimônio da humanidade, que é levar a compreender, ajudar aconstruir e manter em processamento o seu conhecimento, considerando toda suadiversidade e inacabamento. A Educação é como um instrumento em que o ser humano percebe eaperfeiçoa a si mesmo e o meio, na tentativa de processar novos meios paraproduzir melhor e de maneira mais eficaz, a partir do desenvolvimento de suaaprendizagem. As habilidades de aprender, ensinar e criar novos mecanismos e2 Parâmetros Curriculares Nacionais: Arte.
  • 6. 6conhecimentos operacionalizadores na inter-relação com o meio e com o objetopodem ser transformadoras se levarem o indivíduo ao desenvolvimento de suaspotencialidades (sensibilidade, criticidade, criatividade, cientificidade...). Comoafirma Lowenfeld sobre a importância da linguagem artística e seus elementos nodesenvolvimento da criança, “a interação dos símbolos, do eu e do meio ambienteque fornece os elementos necessários aos processos intelectuais abstratos” (1970,p.16). A aprendizagem depende também dos sujeitos que se comprometem e secolocam como mediadores desse processo nesta estabelecida relação deconstrução de conhecimentos. Eis a Educação! O “novo” processo criativo deconstrução humana. E que Lowenfeld, na década de setenta, considerando o ensinoda Arte, já trazia as seguintes reflexões sobre a importância que se dá aos valoresque visam ao desenvolvimento total do ser, valorizam sua potencialidade e queprecisam estar envolvidos na Educação: Em nosso sistema educacional, damos realmente, ênfase aos valores humanos? Ou estamos tão ofuscados pelas recompensas materiais que não logramos reconhecer que os verdadeiros valores da democracia residem no seu mais precioso bem, o indivíduo? [...] Quanto maior for a oportunidade para desenvolver uma crescente sensibilidade e maior a conscientização de todos os sentidos, maior será também a oportunidade de aprendizagem. [...] Num sistema educacional bem equilibrado, em que o desenvolvimento do ser total é realçado, o pensamento, o sentimento e a percepção do indivíduo devem ser igualmente desenvolvidos, a fim de que possa desabrochar toda a sua capacidade criadora potencial (LOWENFELD; BRITTAIN, 1970, p.15 -18). Mas quem somos nós, na qualidade de seres humanos em evolução? Quemsomos nós, como educadores? O que tem instigado nossas inquietações? Por quenossas potencialidades, muitas vezes, são ignoradas? Quem são os que deveriamestar refletindo e inquietos a respeito disso? (Essas questões foram levantadasdurante os esquetes desenvolvidos pelo grupo teatral “Inquietos”3). A Educação, seentendida como um potencial instrumento que possibilita o desenvolvimento e aorganização do conhecimento humano, será um elo e deixará como legado ummecanismo rico e poderoso para as futuras gerações. Esse “novo” processo criativo da humanidade, assim como sua história, tevediferentes roupagens. Foi marcado por momentos nos quais se vivenciaram3 Grupo de estudantes de Pedagogia 2008.1, na UNEB/DEDC-XIII, e que se organizou desde oprimeiro semestre do curso fazendo apresentações teatrais em eventos e grupos de estudo nestedepartamento.
  • 7. 7diferentes possibilidades, como elucida Freire (2006, p.53): “Gosto de ser gente,porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte étempo de possibilidades, e não de determinismo.” Foram diferente épocas, foramdiferentes metas, porém todas inacabadas, sujeitas a mudanças. E são observáveis,na história da Educação brasileira, vários momentos em que ocorreramreformulações nas constituições do ensino. Analisando a trajetória que percorreu o ensino da Arte no Brasil, percebe-seque suas perspectivas estavam atreladas a cada momento do contexto sociocultural,sendo, portanto, constituído por tendências que estavam ligadas tanto aopensamento coletivo educacional, quanto às políticas públicas. Observem-se osParâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do ensino de Artes para os anos iniciaisdo Ensino Fundamental: Ao recuperar, mesmo que brevemente, a história do ensino de Arte4 no Brasil, pode-se observar a interação de diferentes orientações quanto à finalidade, à formação de professores, mas, principalmente, quanto às políticas públicas educacionais e os enfoques filosóficos, pedagógicos e estéticos (1997, p. 22). Assim, a cada época, o ensino de Arte é identificado por um determinadométodo. A tendência tradicional (iniciada pelos jesuítas no período colonial) aplicavae valorizava o ensino das artes manuais e canto orfeônico, sendo centrado natransmissão do conhecimento padrão e modelo da cultura dominante. O teatroestava atrelado às datas comemorativas, sendo uma atividade de apresentação nasfestividades. “Em 1971, promulgou-se a (tristemente) famosa Lei 5.692/71, que,verticalmente, pretendia “modernizar” o ensino. O seu objetivo último sempre foi –não se pode negar – a eliminação de qualquer criticidade e criatividade no seio daescola, [...]” como aponta Duarte Júnior (1991, p. 80-81). O que se pode refletir sobre expressão criativa nas décadas de cinquenta esessenta? Qual era a função formadora da Educação? Como era considerado o serhumano-aprendiz em seu processo de desenvolvimento psíquico, cognitivo, afetivo,artístico, sociocultural, político...? Quem eram estes educadores? Situações básicase importantes, hoje consideradas por estes dois campos de estudos, Educação e4 Faz-se referência às modalidades artísticas ligadas às imagens, aos sons, movimentos, às cenas. AArte literária não está diretamente abordada neste contexto, porque se apresenta nos currículosescolares, vinculados ao ensino de Língua Portuguesa.
  • 8. 8Teatro. No âmbito dos estudos teatrais, em espaços não formais e mesmo nosgrupos de teatros, a expressividade e o desenvolvimento do indivíduo são vistoscomo fatores importantes “[...] somente a partir da década de setenta, quando seincrementam os estudos e investigações a respeito das inter-relações entre Teatro eEducação no País [...]” (JAPIASSU, 1998, s p.) Os períodos seguintes foram de sucessivas mudanças nas diretrizes para oensino de Arte, como pode ser observado no PCN Arte: A partir da década de 80, constitui-se o movimento de Arte-Educação, inicialmente com a finalidade de conscientizar e organizar os profissionais, resultando na mobilização de grupos de professores de arte, tanto da educação formal como da informal [...]. Em 1988, com a promulgação da Constituição, iniciam-se as discussões sobre a nova Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional, que seria sancionada em 20 de dezembro de 1996 [...]. Com a Lei no 9394/96, revigoram-se as disposições anteriores e Arte é considerada obrigatória na educação básica. Tornando-se componente curricular [...]. (1997, p. 25). As perspectivas pedagógicas foram redimensionadas. Teatro passa a seruma linguagem estudada na disciplina de Arte, considerado em sua especificidade.Tem como propósito educacional o desenvolvimento global da criança, contribuindopara seu crescimento integrado, no plano individual e coletivo e buscando propiciar aaprendizagem a partir das relações, por meio de jogos dramáticos, nas aulas deteatro. Passou-se, então, a considerar como fundamental o desenvolvimento dacriança e só depois, o processo de aquisição do domínio dessa linguagem. Aproximando-se a transição para o século XXI, muitas propostas em relaçãoao ensino de Arte se afloraram, sugerindo novos encaminhamentos pedagógicos. AProposta Triangular para o Ensino de Arte, defendida por Ana Mae Barbosa (2003),tem como alicerce três bases: a apreciação da obra de arte, a sua contextualizaçãohistórica e o fazer artístico; os Jogos Dramáticos e Jogos Teatrais, pesquisados edesenvolvidos pelo grupo de pesquisadores (alunos de graduação e pós-graduação)da Escola de Comunicações e Arte na Universidade de São Paulo (ECA-USP), emTeatro-educação em 1981, e 82 liderados por Ingrid Koudela e inspirados naspropostas de Viola Spolin. Koudela traduziu o livro “Improvisação para o Teatro deSpolin”, é autora da primeira tese em Teatro-educação e defendeu a linha
  • 9. 9essencialista5 da Arte-educação na sua dissertação de mestrado. Fundamentada emPiaget, chama a atenção para a potencialidade do teatro no desenvolvimentointelectual e afetivo da criança. E sua tese de doutorado sobre Teatro-educaçãotornou-se o primeiro trabalho original brasileiro desenvolvido nessa temática. AsAtividades Globais de Expressão e Jogos Teatrais na Escola, sistematizadas porOlga Reverbel, e Jogos para Atores e Não atores, desenvolvidos por Augusto Boal,são alguns exemplos que trazem orientações para o desenvolvimento de atividadeseducativas através da expressão, interação e comunicação no uso das habilidadesartísticas e criativas. Esses autores trazem contribuições significativas para o trabalho com teatrona educação, pois tratam de saberes sobre as possibilidades entre Teatro eEducação, e apresentam trabalhos e resultados de pesquisas e práticas, emdiferentes públicos, do infantil ao adulto, e nas mais diversas situações, nos espaçosformais e não formais. E Japiassu reitera, trazendo reflexões sobre essa inter-relação, mencionando a importância da prática pedagógica incrementada no Brasil apartir do pensamento vigotskiano. O impacto do modelo histórico-cultural do desenvolvimento sobre as práticas pedagógicas formais e não formais no Brasil se fez sentir com especial vigor a partir dos anos noventa, com o incremento da divulgação do pensamento vigotskiano no meio educacional brasileiro. Consequentemente, os estudos sobre a dimensão pedagógica do Teatro não poderiam ficar indiferentes nem fugirem à discussão desse novo paradigma do funcionamento mental humano. Conhecer a abordagem histórico-cultural do desenvolvimento e incorporá-la ao exame de questões que dizem respeito ao ensino do Teatro deve contribuir para o esclarecimento das inter-relações entre Teatro e Educação (JAPIASSU, 1998, s p.) A finalidade de todo esse processo e discussão sobre as práticaspedagógicas em relação à Arte-educação precisa permitir ao educador einvestigador (e, dir-se-ia mais, ao sistema educacional) a possibilidade de coleta dedados e informações de suas ações e prática sobre a relevância do teatro comolinguagem que permita a aprendizagem e o desenvolvimento cultural e potencial doser humano, podendo circunscrever em seus projetos pedagógicos as novas metase ações e articulando, sobretudo, os cursos de formação profissional de docentesArte educadores, que, em meio a toda essa transformação, têm deixado lacunas.5 Corrente que defende a ideia de que a Arte por si é um meio para a liberdade. E para o próprioprocesso da liberação da mente humana.
  • 10. 104 TEATRO E EDUCAÇÃO: ALGUMAS INQUIETAÇÕES As inquietações com relação ao ensino de Arte e a forma com que esta vemsendo trabalhada nas instituições de ensino formal aumentaram e têm motivado abusca e a pesquisa, desde quando cursava o II Semestre nesta graduação emPedagogia, na Universidade do Estado da Bahia, no Departamento de EducaçãoCampus XIII (UNEB/DEDC-XIII), em Itaberaba, orientada pela Professora GiuliaFraga, no componente curricular Artes e Educação. O interesse se evidenciouquando foram realizadas, em equipe, pesquisa investigativa e análise sobre asperspectivas do ensino de Arte, considerando a prática pedagógica e o históricosobre a Arte na Educação, que objetivava perceber as tendências pedagógicasexistentes na prática desse ensino nas instituições de ensino formal, a partir deentrevistas com alunos de diferentes faixas etárias. Na análise da pesquisa, apresentando as perspectivas do ensino de Arte-educação, para faixas etárias de 60, 30, 16 e 08 anos, constatou-se que asmudanças ocorridas nesta disciplina, de certa forma, acompanham as mudançasdo contexto social. Houve alterações significativas nas concepções teóricas, mas aprática de ensino apresenta-se ainda com influências das décadas iniciais. Isso épercebido na questão sobre “como eram suas aulas de Arte?” e a resposta que osalunos sujeitos da pesquisa trazem em comum é que se tratava de um momentoem que faziam desenhos, pintura e ensaiavam para apresentação de um coral. Havia a necessidade de ampliar a pesquisa sobre essa área de conhecimentoe suas especificidades, indo além do histórico contido nos Referenciais CurricularesNacionais para a Educação Infantil (RCNEI) e nos PCN, em relação à práticapedagógica aplicada na rede (e sistema) de ensino atual. Se houve mudanças nasconcepções teóricas, o que ainda estava condicionando o ensino de Arte? Qual era anecessidade real para que ocorresse o ensino das linguagens artísticas? A questãoprincipal era a formação do profissional docente, que, relegada à polivalência, nãodava (e não dá) conta da necessidade real de ensino-aprendizagem esperada. Oolhar voltou-se para a graduação, considerada formação inicial. Esta formação levarátodos os envolvidos a cometerem e passarem pela mesma prática. Isso é gritante!
  • 11. 11Mesmo com as mudanças, algumas questões ainda persistem e são trazidas porestudiosos contemporâneos, por exemplo, Ricardo Japiassu: 6 Que tipo de (in)formação os profissionais da educação recebem para trabalhar com seus alunos, de modo sistemático, as diferentes linguagens artísticas? Se a habilitação para o Magistério na Educação Infantil e séries iniciais do Ensino Fundamental é prerrogativa do pedagogo, por que, nos cursos de Pedagogia e de formação de professores, não são oferecidas disciplinas que contemplem a especificidade estética de cada uma das linguagens artísticas (Artes Visuais, Dança, Música e Teatro)? (2011, s. p.) Instigados com a situação em que se encontra o curso de formaçãoprofissional docente, que ainda apresenta, em sua matriz curricular, componentepara ensino de Arte sem os fundamentos teóricos e metodológicos que asespecificidades de cada uma das linguagens artísticas exigem, estudantes daUNEB/DEDC-XIII manifestavam as inquietações através da linguagem teatral,realizando rápidos momentos de discussões em grupo que apresentavam esquetes. Em agosto de 2009, cursando o IV semestre, esse grupo de estudantes foiconvidado a participar do I Encontro de Ludicidade: Linguagens em Movimento,evento realizado na UNEB-DEDC-XIII, em Itaberaba (BA), coordenado por CândidaMoraes e Luciana Moreno7, tendo como público-alvo graduandos dos Campi II,Alagoinhas e XIII, Itaberaba. Foi realizada a oficina “Teatro e Educação: Quais sãoas suas inquietações?”, desenvolvida com a colaboração de Rute Barbosa e RafaelDias8. O objetivo era instigar nos participantes a autopercepção relativa às suaspotencialidades artísticas, compreendendo-se como seres humanos aprendizes-educadores, cocriadores do seu conhecimento, expressividade e ação na inter-relação com o outro e com o meio, através da linguagem teatral. Com propostas de jogos dramáticos, teatrais e de improvisação,fundamentados em Augusto Boal e Olga Reverbel, entre outros autores, possibilitou-se a ação criadora dos participantes, de forma autônoma, o que levou osgraduandos dos Campi II e XIII a perceberem que a habilidade criadora é6 O termo “(in)formação” busca referir a complexidade das práticas formativas de professores noâmbito da sociedade do conhecimento (ou da informação) e destacar o aproveitamento e usosistemático da informação no processo da formação educacional dos professores.7 Professoras na UNEB/DEDC-XIII, Itaberaba-BA, em 2009.8 Graduandos do Curso de Pedagogia – Habilitação Docência e Gestão dos Processos Educativos,cursando VIII semestre na UNEB/DEDC- XIII - Itaberaba (BA), 2012.
  • 12. 12propriedade de todos e, em toda sua plenitude, pode estar aliada aos processoseducativos. Além de propor essa vivência corpórea e lúdica, a meta era levar osparticipantes a refletir, discutir sobre a formação do educador e também provocar oburilamento das ideias acerca da formação dos educadores, compreendendo que éatribuição do pedagogo docente, que atua nas Séries Iniciais do EnsinoFundamental e na Educação Infantil, ministrar aulas de Arte, atendendo àsespecificidades das linguagens artísticas mencionadas nos parâmetros ereferenciais curriculares. A realização da oficina gerou discussões interessantes e levantamento deideias relevantes que devem servir como indicadores para o melhoramento daorganização das ações do colegiado deste departamento, nas articulações dasmatrizes curriculares, cursos de extensão e núcleos de pesquisa. Resultou,principalmente, no sentido de levar a perceber que há necessidade urgente dereorganização dos componentes curriculares de Pedagogia em relação ao ensino deArte. Como alerta Japiassu, com referência à formação de pedagogos que precisamter fundamentação teórica e metodológica para o trabalho com Arte, masenfatizando que essa formação precisa atender às especificidades e à estética daslinguagens artísticas: Por que não se busca sinalizar procedimentos metodológicos para o trabalho sistemático com cada uma das linguagens artísticas em cursos que têm como objetivo a formação dos profissionais da educação que irão atuar nas creches, pré-escolas e séries iniciais do Ensino Fundamental? ( 2011, s. p.) Essa foi a principal inquietação que aflorou durante as discussões na oficinaTeatro e Educação e trouxe para os estudantes/investigadores e, ao mesmo tempo,mediadores do processo, um feedback satisfatório nos objetivos A partir da roda deautoavaliação, percebeu-se que os participantes encontravam-se inquietos em seuestado de espírito. E, principalmente, motivados com sua autopercepção. Todavia,na questão de formação docente, as ações ainda são mínimas. E como sugere oautor Duarte Júnior: Mas é preciso sempre e sempre denunciar essa educação voltada à submissão, à docilidade. Lembremo-nos: o ato criador é rebelde e subversivo – é, sobretudo, um ato de coragem. Coragem de não aceitar o estabelecido, propondo uma nova ordem, uma nova correlação de forças. (1991, p.86)
  • 13. 13 E o ato de coragem se revela sempre, em uma prática educativa que seconfigura em um ciclo contínuo de ações e reflexões em busca de sua organização.Assim também deve ser o ato criativo na formação para essa prática. A partir dasdiscussões e dos indicadores levantados na oficina, a proposta investigativa sobre apotencial contribuição da arte teatral redimensionou-se, transformando-se em novatemática de pesquisa, sendo direcionada à prática pedagógica dos profissionais jáatuantes. Buscou-se perceber como as ações educativas têm dado relevância aoprocesso de aprendizagem, considerando o desenvolvimento da sensibilidade, dasemoções e das atitudes expressivas proporcionadas pela arte teatral, e analisarcomo o currículo e a prática docente estão organizados para isso.5 E NA PRÁTICA PEDAGÓGICA? COMO O TEATRO É CONSIDERADO? A partir da compreensão que se tem sobre a relevância do ensino da arteteatral na aprendizagem do educando e também por perceber que a elaboração e odesenvolvimento de ações pedagógicas que envolvam as linguagens artísticas esuas especificidades exigem, por sua vez, conhecimentos e habilidades específicaspara mediação, o foco aqui investigativo é saber como esta linguagem estápresente na Educação Infantil e nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental dealgumas instituições públicas e particulares em Itaberaba e de que forma osprofessores trabalham essa arte. A pesquisa foi encaminhada para quatro instituições de educação formal,duas públicas e duas particulares. As instituições funcionam em dois períodos(matutino e vespertino), sendo que uma das públicas funciona em tempo integral,atendendo somente grupos de maternal. Esta pesquisa é de caráter qualitativo, estando voltada para uma realidadeempírica, a qual busca considerar uma estabelecida relação entre os sujeitos nadinâmica interatividade com o meio. O presente trabalho se fundamentou nosreferenciais teóricos que norteiam a proposta investigativa da temática aquidiscutida.
  • 14. 14 Observando o que André (2002, p. 41) aponta como base para uma pesquisasignificativa, “é importante assinalar que, sem um referencial básico de apoio, apesquisa pode cair em um empirismo vazio e, consequentemente, não contribuirpara um avanço em relação ao já conhecido.” Foi realizada através de questionário,como instrumento na técnica de coleta dados, o qual foi elaborado e aplicadoconforme explica Sanchêz (2007, p. 17): “[...] constituído por uma série ordenada deperguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença doentrevistador”, apresentando questões abertas. Das quatro professoras solicitadas, só três responderam. As três têmformação em Pedagogia. Uma é pós-graduada em Educação Infantil, está cursandoAtendimento Educacional Especializado para Educação Especial na modalidadeEducação a Distância (EAD) e atua em Creche. A outra pedagoga tem habilitaçãopara séries iniciais e atua na Educação formal há nove anos; desde que concluiu oMagistério, já atuou nas diferentes modalidades, da Educação Infantil ao EnsinoFundamental II, sendo que, atualmente, leciona em uma turma de 4a série9. Ambastrabalham na rede pública de ensino. A terceira professora formou-se no CursoNormal e está cursando Pedagogia. Atua na Educação há cinco anos, já lecionouem turmas de Educação Infantil, Ensino Fundamental II, EJA e, hoje, atende àsturmas do Fundamental I do 3o e do 5o ano, na rede particular. Sobre a atuação na educação formal, a professora que atende na Crechedeixa a seguinte reflexão: “O professor é um profissional capaz de atuar em diversosâmbitos da Educação”, e ressalta que “precisa estar preparado para enfrentar, comcriatividade e competência, os problemas do cotidiano, ser flexível, tolerante e atentoàs questões decorrentes da diversidade cultural que caracteriza nossa sociedade”. Uma das discussões no cenário educativo contemporâneo é a identidade doprofissional docente, mais especificamente do pedagogo. Desde a sua formação àssuas atribuições, professores da Educação Infantil e nas Séries Iniciais do EnsinoFundamental enfrentam desafios significativos que os colocam em situação dealerta, ou seja, vivem na realidade do ensino polivalente, de modo que precisam darconta de todas as disciplinas que fazem parte do currículo, atendendo às9 A proposta de Ensino fundamental de 09 anos, em Itaberaba, foi incluída recentemente e está emtransição, tendo classes designadas por série e classes designadas por ano.
  • 15. 15especificidades de cada uma. No caso da Arte, a situação torna-se mais complicadaainda, pois essa disciplina é composta por quatro linguagens também específicas nasua prática pedagógica. Porém, este não é o foco central desta discussão, apesarda sua importância e interligação com o assunto que se pretende desenvolver. Objetivando compreender como o ensino de arte teatral tem sidoconsiderado no processo educativo e como este contribui para a Educação,desenvolveu-se a pesquisa tendo como temas o Teatro e a Educação:  Como esta linguagem artística pode contribuir para o desenvolvimento das potencialidades humanas? Sendo realizada nos espaços formais de educação, através de questionários direcionados aos sujeitos docentes, com a intenção de investigar como o ensino da Arte está organizado no currículo dessas instituições;  Como consideram a linguagem teatral na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental? Levantando questões que envolvem desde a fundamentação teórica, planejamento e mediação à avaliação no trabalho com arte teatral, considerando a formação docente e destacando as facilidades e as dificuldades nas suas ações educativas. Diante da questão sobre como é organizado e desenvolvido o ensino de Arteno currículo da instituição em que os participantes da pesquisa trabalham, aprofessora que atua na Creche diz que “é organizado em projetos e sequênciasdidáticas”. Analisando o RCNEI, observa-se que está dividido em três volumes: oprimeiro é intitulado “Documento de Introdução que discute os princípios daEducação Infantil”. O segundo e terceiro volumes são os que definem a matrizcurricular que está distribuída nos dois âmbitos de experiências: “Formação Pessoale Social” e “Conhecimento de Mundo”. O volume dois tem o eixo “Identidade eAutonomia”, sendo que esse perpassa pelos outros eixos como transversal. Novolume três, constam os outros eixos “Movimento”, “Música”, “Artes Visuais”,“Linguagem Oral e Escrita”, “Natureza” e “Sociedade e Matemática”. Não há um eixo específico para o trabalho com a linguagem teatral, naEducação Infantil. Mas na área de conhecimento, “Movimento” tem como um dosconteúdos a Expressividade, apresentando-se em duas dimensões: Subjetiva, que
  • 16. 16contempla as habilidades motoras e de comunicar das crianças; e Expressiva, que,como pode ser vista no RCNEI, volume 03 “[...] engloba tanto as expressões ecomunicação de ideias, sensações e sentimentos pessoais, como as manifestaçõescorporais que estão relacionadas com a cultura” (p.29). É a partir disso que são elaboradas e desenvolvidas diretrizes e ações deintervenção reunindo as atividades com jogos e brincadeiras com as criançaspequenas. Conhecida também como jogo do faz de conta ou jogo simbólico. Oucomo Peter Slide (1978, p. 19) considera: “Jogo Pessoal [...]. Ele se caracteriza pormovimento e caracterização, e notamos a dança entrando e a experiência de sercoisas ou pessoas”, que é muito frequente entre as crianças nos momentosespontâneos ou em atividades direcionadas. É o princípio para a improvisaçãoteatral. Outra situação em que se percebem princípios teatrais na Educação Infantil(EI) se apresenta nos momentos de contação de histórias com o uso de fantoches,por exemplo, em que a criança dá ânima10 e se expressa, sendo o intérprete dofantoche. A essa manifestação criativa através do objeto, o autor Slide (1990, p.19)chamou de “Jogo Projetado”, ou seja, uma das habilidades que as criançasdesenvolvem de interpretar projetando as falas, expressões e sentimentos aosobjetos ou brinquedos que utilizam. Entre os jogos dramáticos, o uso do fantoche talvez seja o mais utilizado;ainda que os objetivos sejam voltados apenas para o desenvolvimento daoralidade, as crianças expressam habilidades específicas para o desenvolvimentoda linguagem teatral. No RCNEI, mais especificamente no vol. 3, no eixo“Movimento”, que traz o contexto Expressividade, há também orientações didáticaspara o trabalho com brincadeiras de faz de conta, onde as crianças realizam osjogos dramáticos e projetados. No Ensino Fundamental, a Arte é tida como disciplina e o ensino, segundoas professoras, “[...] é ministrado de forma interdisciplinar, sendo que a cargahorária é mínima.” Ao analisar o PCN Arte (1ª a 4ª série), percebe-se que estedivide a disciplina nas quatro linguagens (Dança, Artes Visuais, Música e Teatro),indicando suas especificidades. E como pode ser observado neste documento:10 Dar vida, ânima ou movimenta tornando o ser existente no mundo. Termo utilizado na concepçãode utilização de máscara em jogos teatrais.
  • 17. 17 As propostas educacionais devem compreender a atividade teatral como uma combinação de atividade para o desenvolvimento global do indivíduo, um processo de socialização consciente e crítico, um exercício de convivência democrática, uma atividade artística com preocupações de organização estética e uma experiência que faz parte das culturas humanas. (1997, p. 57) Apesar de estar no currículo com carga horária mínima e o trabalhointerdisciplinar ser uma alternativa, precisa ser cuidadosamente elaborado edesenvolvido, pois o teatro, no Ensino Fundamental, como é mencionado no PCN(p. 58), “proporciona experiências que contribuem para o crescimento integrado dacriança em vários aspectos”. A disciplina de Arte, como se sabe, é composta por diferentes linguagens.Buscando compreender como as professoras trabalham com a linguagem teatral,os dados informados por elas mostram que, na Educação Infantil, o ensino érealizado na perspectiva interdisciplinar e de forma lúdica. No Ensino FundamentalI, onde o nível de leitura convencional está mais desenvolvido, o teatro é trabalhadocomo momentos de dramatização e apresentação. Uma das professoras diz que“compreende o teatro em suas dimensões artística, estética, histórica e social”, masnão menciona como é desenvolvida a sua prática de ensino. Já a que atua naturma de 4a série, revela que trabalha a linguagem teatral “através dedramatizações de textos lidos e de histórias, em culminância de projetos e etc.,sempre trabalhando com a interpretação desses portadores, a expressão corporal eo desenvolvimento da linguagem, etc.” Percebe-se que, mesmo tendo documentos norteadores da práticapedagógica, há ainda algo na prática docente que necessita de um olharorganizador, o dele próprio, que o fará ajustar seus conhecimentos ou estudosteóricos com sua prática. Sobre o ensino da linguagem teatral, o PCN de Artesesclarece que “é importante que o professor esteja consciente do teatro como umelemento fundamental na aprendizagem e no desenvolvimento da criança, e não natransmissão de uma técnica” (1997, p.58). A promoção de oportunidades para que os educandos conheçam, observeme confrontem diferentes culturas, em diferentes momentos históricos, operando comum modo coletivo de produzir arte e atividades lúdicas representadas por jogos ebrincadeiras, pode desenvolver o aprendizado das crianças; são indicadores que as
  • 18. 18professoras apontam como contribuições que a linguagem teatral pode dar nodesenvolvimento do educando e uma delas reitera: “Auxilia a diminuir a timidez dosalunos, melhora o raciocínio interpretativo, a capacidade de trabalhar em grupo,etc.” Ao avaliarem o trabalho que desenvolvem em suas turmas, as professorasque atuam no Fundamental percebem que os alunos gostam e se envolvem. Falamda reação da turma quando manifestam desejo por atividades teatrais. Uma diz:“[...] pedem para realizar esse tipo de atividade e até mesmo reúnem-se sozinhospara preparar uma apresentação para os colegas” e a outra: “Os alunos são críticose capazes de opiniões sobre a atividade teatral”, porém não revelam qualinstrumento ou método elas utilizam para avaliá-los. Duarte Jr. (1991, p.84),reportando-se à avaliação, afirma: “[...] na Arte educação, não importam tanto osprodutos finais, mas o processo de criação e expressão”. As docentes expressamrespostas a partir de suas vivências e observações no contexto das suas aulas, oque lhes apontam os indicadores da aprendizagem de seus alunos. Na Educação Infantil, a professora, referindo-se à avaliação, menciona quepercebe no processo uma série de vantagens, dizendo que “o teatro na EducaçãoInfantil é muito importante [...], o aluno aprende a improvisar, desenvolve aoralidade, a expressão corporal, a impostação de voz, aprende a se entrosar comos outros, desenvolve o vocabulário, trabalha o lado emocional e outrashabilidades”. Apesar de não estar como eixo específico no RCNEI, a linguagem teatral,nesta modalidade de ensino, é bastante expressiva na fase infantil através dosjogos de faz de conta, ainda como um conteúdo ou atividade. E esse momento nainstituição educativa é considerado muito rico para o desenvolvimento das criançaspequenas, pois é também nesta fase em que se iniciam a construção daidentidade, a autonomia e a formação social. Como afirma sobre a presença eevolução dos jogos lúdicos na escola, Olga Reverbel: É principalmente na escola que a criança aprende a conviver com os outros, delineando-se nesse momento sua primeira imagem da sociedade. É na sala de aula que podem acontecer as primeiras descobertas de si mesmo, do outro e do mundo, [...]. O jogo lúdico muda espontaneamente para jogo dramático. É importante que essas transformações aconteçam
  • 19. 19 naturalmente, proporcionando à criança o prazer de novas descobertas (1991, p.19). As professoras entrevistadas revelam que norteiam seu trabalho buscandofundamentos dos RCNEI e PCN, além de pesquisa via Internet, livros literários ecoleções variadas de livros sobre arte. Apontam, como facilidade no trabalho com alinguagem teatral, o envolvimento das crianças e as possibilidades de acesso aoconhecimento. A linguagem teatral permite, pois, que os educandos evoluamsocialmente. E a dificuldade, para uma delas, é a falta de apoio da família,enquanto que para as outras é a falta de recursos e preparação para trabalhar coma expressão corporal dos alunos. Para Spolin (1992, p. 131), “o corpo deve ser umveículo de expressão e precisa ser desenvolvido para tornar-se um instrumentosensível, capaz de perceber, estabelecer contato e comunicar”. As professoras conceituam o teatro como “um tipo de linguagem acessívela todos, que contribui significativamente para o desenvolvimento social, intelectuale emocional dos envolvidos. E que o teatro estimula os educandos em diversosaspectos que levam ao aprendizado.” Essas concepções também são coerentescom as ideias apresentadas no PCN Arte. O professor deve organizar as aulas numa sequência, oferecendo estímulos por meio de jogos [...]. É importante que o professor esteja consciente do teatro como um elemento fundamental na aprendizagem e desenvolvimento da criança, e não como transmissão de uma técnica (1997, p.58). A partir desta pesquisa, foi possível compreender que o teatro, naconcepção das professoras entrevistadas, é considerado como uma estratégia deensino e, às vezes, como uma linguagem específica, ficando explícita na maneiracomo trabalham com essa linguagem e na própria compreensão que expressamsobre a mesma. As docentes demonstram que compreendem a necessidade e a importânciado teatro na educação e ressaltam isso muitas vezes em suas falas, o quanto essalinguagem artística pode contribuir para o desenvolvimento dos educandos. O quelhes falta para ampliar essa prática educativa é o conhecimento específico que aarte teatral – como qualquer outra linguagem ou área de ensino – exige: a técnica eos fundamentos teóricos e metodológicos. O interesse e a satisfação das criançasnas aulas, envolvendo-se e expressando-se através de suas habilidades criativas,
  • 20. 20também são indicadores de que o teatro na educação possibilita a aprendizagemsignificativa e prazerosa, intensificando o desenvolvimento das mesmas. Assim, a linguagem teatral está presente nestas escolas de EnsinoFundamental e Educação Infantil, junto ao processo educativo, de forma aindatímida, porém significativa para os aprendizes, uma vez que o envolvimento dehabilidades expressivas e apreciativas , mesmo que ainda tímidas, como o processode ensino-aprendizagem, acontece. E isso pode ser melhorado. As mudanças queainda se fazem necessárias são na organização curricular, nos aspectos comocarga horária e especificação das linguagens na disciplina de Arte, no caso doEnsino Fundamental, realizá-las, e na formação do profissional docente.NO TEATRO, A REALIDADE É O AQUI E AGORA! A educação formal, que é um sistema organizado temporal e espacialmente ,está imbuída da responsabilidade de organizar e desenvolver ações que promovama construção de saberes, que, por sua vez, se apoiam em outras ciências para arealização de estudos, pesquisas e métodos a fim de cumprir suas metas noprocesso educativo. E terá com a Arte/Teatro um nível mais profundo e instigante deações que permitem envolver o educando em toda a sua potencialidade.Primeiramente, porque nesta linguagem artística o elemento principal é o serhumano, através de seu corpo e de suas diversas possibilidades de expressão. Etambém porque intensifica a aprendizagem através do estímulo da sensibilidade,das emoções, além da reflexão e de outras atitudes expressivas. O Teatro expressa valor educativo por si próprio, pois permite ao ser humanopossibilidades de vivenciar realidades diferentes das que ele já vive, permiteexperimentar situações orgânicas e cotidianas que não sejam originalmente suas,mas de criação artística, proporcionando ao aluno uma aprendizagem significativaatravés dos sentimentos e das experiências. Isso lhe confere momentos deconstrução, desconstrução e reconstrução de conceitos, saberes e atitudes que vãoalém dos conhecimentos de mundo, uma vez que ele aprende a observar-se, asentir-se e a reiniciar o conhecimento sobre si mesmo.
  • 21. 21 Aprender através da linguagem teatral é passar pelo efeito catarse11, écompreender o sentido de empatia e humildade. Porque é através dos jogos teatraispreparatórios, por exemplo, que se estabelece a relação interpessoal com base natroca de experiências e consciência de coletividade, principalmente quando essasexperiências estão inter-relacionadas com as emoções e a afetividade que sedesenvolvem e reelaboram-se em experiência de grupo. Isso indica outra finalidadeque a Educação tem considerado e buscado vivenciar em seus processos deensino-aprendizagem, com a proposta de Piaget sobre o desenvolvimento daaprendizagem através da interação12, resultando nas atuais concepções de ensino eprática pedagógica na Educação brasileira. Os indicadores da pesquisa mostram que o Teatro pode contribuir com aEducação na sua forma mais sublime, porque proporciona infinitas possibilidades deexpressão do saber sensível, que pode ser manifestado através daspotencialidades. Esse é um dos importantes motivos para que a arte teatral e as demaislinguagens sejam desenvolvidas na escola com a fundamentação, a metodologiaespecífica e a estética que cada linguagem artística necessita, favorecendo tanto oeducando em suas etapas de aprendizagem e desenvolvimento, quanto o educadorna elaboração de suas propostas e ações mediadoras. Fazem-se necessárias eurgentes a reflexão e a ação por parte dos profissionais de Educação e, partindodestes, do próprio sistema educacional sobre o sentido da Arte educação através dalinguagem teatral e sua importante presença no desenvolvimento da aprendizagem. A partir da pesquisa realizada, foi possível perceber também que o teatro,além de ser uma linguagem artística fundamental para os processos educativos, écompreendido como uma arte que tem uma função social comunicativa e, quandoapreciado fora da escola, continua sendo considerando instrumento potencializadorna construção da identidade e na formação social dos indivíduos.11 Significa limpeza ou purificação pessoal. Os gregos usavam esse termo nomeando o efeitocausado na plateia através das diversas emoções transmitidas nas apresentações dramáticas. Acatarse era o estado de purificação da alma.12 Concepção de aprendizagem que parte do pressuposto de que todos constroem a própriaconcepção do mundo em que vivem a partir da reflexão sobre as próprias experiências. De acordocom Piaget, a estrutura cognitiva é um "mapa" mental interno, um "esquema" ou uma "rede" deconceitos construídos pelo indivíduo para compreender e responder às experiências que decorremdentro do seu meio envolvente.
  • 22. 22 Com isso, a reflexão sobre o quanto se tem vivenciado no contextosociocultural, em intenso contato com e sob a influência das linguagens artísticas,que, em plena era da globalização, da marcante época da comunicação, é um fatorque tem ampliado as possibilidades das formas de conhecimento, assim comoentretenimento e até burilamento das identidades. São situações que atingemdiretamente o Ser. A investigação sobre as contribuições do Teatro para a Educação apontaque, nas instituições educativas onde a pesquisa foi realizada, algumas açõesenvolvendo a linguagem teatral acontecem, ainda que precisem melhorar emdeterminados aspectos, como a formação necessária para o docente pedagogo,que precisa oferecer o ensino de Artes atendendo às especificidades de cadalinguagem que compõe essa disciplina; a reflexão e ampliação da carga horária naproposta curricular, considerando a necessidade do reconhecimento da importânciadas linguagens artísticas para a formação dos educandos, entre outros aspectosque envolvem estrutura física, disponibilidade de recursos etc. Isso indica a lógicado processo sensível e organizativo das mudanças em Educação. Há também odesejo de que não se esteja desperto apenas para a especificidade da linguagemartística teatral, mas que surjam manifestações relativas às demais linguagensartísticas. Entretanto, algumas outras questões surgem a partir dessa nova situaçãoe ficam reverberando: O que nós, como espect’atores e espect’atrizes doespetáculo educacional, temos interpretado? Estamos sob constante influência daslinguagens artísticas através das mídias e como estamos educando os nossosalunos para esse contato? Não basta querer saber, ter conhecimento. A educação tem levado ao “ter”conhecimento. É preciso também ensinar a “ser” corpo vivente, que põe em ação aspotencialidades. Que investiga, descobre e vivencia cada momento de suaaprendizagem. Manifestar o potencial criativo. É preciso pôr em movimento a existência humana, os sentidos e significadosde cada aprendizagem no “aqui e agora”. E com isso, pôr em movimento algo quejustifique a existência de educadores potenciais e cocriadores da vida e da históriaque será inacabada. Pois, quem nós queremos ser como seres humanos?
  • 23. 23ABSTRACThe article shows the importance of Theatre in Education and reflects on themeanings assigned to such artistic language. Presents an experience fromconducting a workshop on theater and education, with discussions with graduatestudents, the concerns about the teaching of art, specifically theater, contributionsand implications of this language about the art-education in shaping educators. Andthrough investigative research directed to the subject teachers, working in fourschools formal Itaberaba, we sought to understand how the teaching of art / theaterhas been considered in the educational process and how it has contributed todeveloping the potential of being educated. The research brings, as a contribution,indicators that point to reframe the teaching-learning from the theater, where reality isthe here and now, which manifests the creative potential.Keywords: art education. Theatre. Human Potential. Pedagogical practice.REFERÊNCIASAndré, Marli E. A. A pesquisa no Cotidiano Escolar. In: Metodologia da PesquisaEducacional / Ivani Fazenda (org.). 8. ed. Biblioteca da Educação, série I, Escola;v. 11.São Paulo, Cortez, 2002.BARBOSA, Ana Mae. Inquietações e mudanças no ensino da Arte. Ana MaeBarbosa (org.). 2. ed. São Paulo: Cortez, 2003.BOAL, Augusto. Jogos para Atores e Não-atores. Augusto Boal. 11. ed. Rio deJaneiro: Civilização Brasileira, 2008, 368p.BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de EducaçãoFundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília:MEC/SEF, 1998.______. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros CurricularesNacionais: Arte. Brasília: MEC/SEF, 1997. 130p.DUARTE JÚNIOR, João Francisco, 1953 – Por que arte-educação? 6. ed.(Coleção Ágere). Campinas, SP: Papirus, 1991.FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à práticapedagógica. São Paulo: Paz e Terra, 2006, 33. ed.JAPIASSU, Ricardo O. V. Repensando o ensino de arte na educação escolarbásica: projeto oficinas de criação. Revista de Educação do Ceap, Ano 4, n.12.1996, p.42-8. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php>. Acesso em: 14dez. 2011.
  • 24. 24__________. Desafios da (in)formação docente: o trabalho pedagógico com as artes naescolarização. Disponível em:<http://br.monografias.com/trabalhos914/pedagogico-artes-escolarizacao/pedagogico-artes-escolarizacao.shtml>. Acesso em: 29 dez. 2011.LOWENFELD, Vitor. BRITTAIN, W. L. O Significado de Arte para a Educação. In:Desenvolvimento da Capacidade Criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1970.KOUDELA, Ingrid Dormien. Jogos Teatrais. Coleção Debates. São Paulo:Perspectiva S. A., 1990.PEIXOTO, Fernando. O que é Teatro. (Coleção Primeiros Passos). 10. ed. SãoPaulo: Brasiliense, 2003.REVERBEL, Olga. Jogos Teatrais na Escola: Atividades Globais de Expressão. 1.ed. (Série Pensamento e Ação para o Magistério). São Paulo: Scipione, 2006.______. Um Caminho do Teatro na Escola. 1. ed. (Série Pensamento e Ação parao Magistério) São Paulo: Scipione, 1991.ROSENFELD, Anatol. O Teatro Épico. São Paulo, Desa, 1995. (Buriti, 5). Novaedição. In: História do Teatro. Módulo: Teorias. Organização do Retrato Interior -Requalificação do Trabalhador de Teatro, 2008.SANCHÊS, Sandra. Instrumentos de Pesquisa Qualitativa. Publicado em 2007.Disponível em:<http://www.ia.ufrrj.br/ppgea/conteudo/conteudo.../Pesquisa_Qualitativa.ppt>.Acesso em: 11 mar. 2012.SLADE, Peter. O jogo dramático infantil. Tradução Tatiana Belinky. Direção de edição FannyAbramovich). São Paulo: Sumus, 1978.SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro. Tradução Ingrid Dormien Koudela,Eduardo José de Almeida Amos. São Paulo: Perspectiva, 1992.