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Para entender as manifestações de junho de 2013
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Para entender as manifestações de junho de 2013

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Textos reunidos de Augusto de Franco (em 18 e 21 de junho de 2013)

Textos reunidos de Augusto de Franco (em 18 e 21 de junho de 2013)


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  • 1. 1PPAARRAAEENNTTEENNDDEERR AASSMMAANNIIFFEESSTTAAÇÇÕÕEESSDDEE JJUUNNHHOO DDEE 22001133NNOO BBRRAASSIILLAugusto de Franco21 e 18 de Junho de 2013Dois posts no Fabebook reunidos
  • 2. 277 PPOONNTTOOSSPARA ENTENDER POR QUE AS MANIFESTAÇÕES DE HOJESÃO DIFERENTES (E UMA MESMA CANÇÃO)1 - Em 1970, quando Chico Buarque compôs Apesar de você, vivíamos emplena ditadura militar no Brasil. Agora, em junho de 2013, não(felizmente).2 - Lutávamos àquela época por liberdade (embora não estivéssemosainda convertidos à democracia). Agora também (mas não lutamos hoje
  • 3. 3contra a limitada democracia realmente existente na sua essência, querdizer, no que ela tem de democrático: as multidões que saem às ruasneste memorável junho de 2013 estão expressando umdescontentamento com um velho sistema que - do modo como estáorganizado - sentem não mais representá-las).3 - Antes havia liderança, programas políticos, estratégia, táticas. Agoranão há. Há milhares de micromotivos diferentes que se combinam erecombinam por emergência.4 - Antes não vivíamos em uma sociedade altamente conectada (e nemhavia as ferramentas virtuais que permitem a interação em tempo real ousem-distância). Agora vivemos no dealbar de uma sociedade-em-rede (etemos a Internet e as midias sociais, como o Facebook, o Twitter, além datelefonia celular).5 - Antes a dinâmica era mais adesiva e participativa. Agora é maisinterativa.6 - Antes havia assembleísmo, recrutamento para organizaçõeshierárquicas, militantes obedientes às suas direções que atuavam comoagentes no meio da "massa" para conduzi-la. Agora temos interativismo(ativismo interagente, no qual cada pessoa comparece nos seus própriostermos e desobedece aos que querem mandá-la) compondo uma espéciede sistema nervoso fractal de imensas multidões.7 - Antes a fenomenologia da interação - a contaminação que se alastra deforma distribuída, seguindo uma dinâmica epidemiológica, peer-to-peer -
  • 4. 4não podia se manifestar de modo perceptível (como reverberação,múltiplos laços de realimentação de reforço, clustering, swarming,cloning, crunching). Agora a fenomenologia da interação está acelerada,contraída no tempo de sorte a poder ser percebida e assistimos, em várioslugares do mundo, a incidência cada vez mais frequente deaglomeramentos, enxameamentos, contaminação viral por proximidade,imitamento nas vizinhanças e contração do tamanho social do mundo (ouredução dos graus de separação).Mesmo com todas essas diferenças, por algum motivo, a velha canção deChico Buarque parece expressar a mesma emoção das multidões que vãoàs ruas, 43 anos depois.E podemos cantar nas praças outra vez.APESAR DE VOCÊChico Buarque (1970)Hoje você é quem mandaFalou, tá faladoNão tem discussãoA minha gente hoje andaFalando de ladoE olhando pro chão, viu
  • 5. 5Você que inventou esse estadoE inventou de inventarToda a escuridãoVocê que inventou o pecadoEsqueceu-se de inventarO perdãoApesar de vocêAmanhã há de serOutro diaEu pergunto a vocêOnde vai se esconderDa enorme euforiaComo vai proibirQuando o galo insistirEm cantarÁgua nova brotandoE a gente se amando
  • 6. 6Sem pararQuando chegar o momentoEsse meu sofrimentoVou cobrar com juros, juroTodo esse amor reprimidoEsse grito contidoEste samba no escuroVocê que inventou a tristezaOra, tenha a finezaDe desinventarVocê vai pagar e é dobradoCada lágrima roladaNesse meu penarApesar de vocêAmanhã há de serOutro diaInda pago pra ver
  • 7. 7O jardim florescerQual você não queriaVocê vai se amargarVendo o dia raiarSem lhe pedir licençaE eu vou morrer de rirQue esse dia há de virAntes do que você pensaApesar de vocêAmanhã há de serOutro diaVocê vai ter que verA manhã renascerE esbanjar poesiaComo vai se explicarVendo o céu clarearDe repente, impunemente
  • 8. 8Como vai abafarNosso coro a cantarNa sua frenteApesar de vocêAmanhã há de serOutro diaVocê vai se dar malEtc. e talLa, laiá, la laiá, la laiá
  • 9. 988 PPOONNTTOOSSRetirados de uma entrevista concedida à Milton Jung na CBN1 - Em alguns lugares (como São Paulo e Rio) o que aconteceu ontem (17J)foi um swarming mesmo (quer dizer, um enxameamento: a manifestaçãode uma fenomenologia da interação que só pode ocorrer em sociedadesaltamente conectadas). Foi o primeiro swarming claramente identificável(e contraído no tempo a ponto de poder ser percebido) no Brasil
  • 10. 10(semelhante ao 13M e ao 15M em Madri e em outras cidades espanholase ao 11F na Praça Tahir, no Egito).2 - Foram as maiores manifestações de rua desde as dos carapintadas (queantecederam o impeachment de Collor em 1992). Com característicasinovadoras desta feita: não foram convocadas centralizadamente, nãohavia liderança (e sim multiliderança, múltiplas lideranças emergentes eeventuais) e uma prova disso, em São Paulo, é que não foi propriamenteum ato, as passeatas se bifurcaram, percorreram e ocuparam váriaslocalidades da cidade (na verdade, pararam mesmo São Paulo).3 - Minha estimativa é que 300 mil pessoas saíram às ruas no Brasil em 17de junho. A avaliação de 65 mil pessoas feita para São Paulo é incorreta(aqui teve mais ou menos o mesmo número de manifestantes do que noRio de Janeiro, senão mais). Além disso a movimentação ocorreu emdezenas de cidades brasileiras (além das capitais).4 - O vandalismo, onde houve, foi lateral, pontual. As multidõesenxameadas se manifestaram pacificamente e coibiram atos violentos.5 - As manifestações expressaram um descontentamento com a relaçãoEstado-sociedade ainda vigente. O sentimento generalizado - difusoporém identificável - expressava uma indignação com a velha política,sobretudo com os partidos. A multidão gritando "Sem partido, sempartido" e constrangendo os militantes partidários a recolherem suasbandeiras, indica uma clara recusa à privatização da política.
  • 11. 116 - Enfatizo também que não se trata mais de massas convocadas pororganizações centralizadas, mas de multidões de pessoas consteladas demodo distribuído (e que se não entendermos isso não vamos entendernada).7 - Como o Estado e os governos a partir de agora vão poder se comunicarcom essa sociedade altamente conectada e com graus crescentes deinteratividade? Não sei a resposta. O Estado e os governos vão ter quedescobrir um modo de se conectar mais e interagir mais, por dentro epara fora. Ressalto que os agentes políticos ainda não estão entendendonada quando pedem por lideranças para negociar. Mas não existemlideranças capazes de representar esse tipo de movimentação. E nem setrata propriamente de negociação. Embora um dos elementosdesencadeadores dos protestos foi o aumento das passagens de ônibus,as movimentações expressam uma pauta variadíssima (que vai desde asfortunas gastas com a Copa vis-a-vis à péssima qualidade dos serviçospúblicos, passando pela indignação com a corrupção política generalizadaaté o descontentamento com certas leis antidemocráticas que vêm sendoaprovadas pelo Congresso Nacional: como a PEC 37 e o projeto de lei doPT que tenta manietar o Supremo Tribunal Federal).8 - Concluo dizendo que o sentido mais geral de tudo que vemacontecendo nessas novas expressões políticas da sociedade-em-rede, noBrasil e em outros países, aponta para uma reinvenção da política, parauma reinvenção da democracia.