Highly Connected Worlds
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Os novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. Augusto de Franco (2011)

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  • 1. HIGHLY CONNECTED WORLDS Os novos mundos altamente conectados do terceiro milênio AUGUSTO DE FRANCO 2011 E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade, cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados. Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores. Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades. Como um gigantesco desdobramento dentro dele, ele via nessa revelação o que ela devia ser: uma janela para as partes invisíveis da sociedade. Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela. Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo. Começou a perscrutar as janelas, como um voyeur cósmico. Frank Herbert em Os filhos de Duna (1976)MUITOS MUNDOS, ISSO MESMO. Não existe um mundo que se possadizer o mundo, a não ser por efeito de hierarquização.Pensar e falar do mundo é tentar impingir um só mundo. Pois osmundos são muitos. Um só mundo é uma invenção do broadcasting.Broadcasting – um para muitos – é, obviamente, centralização, querdizer, hierarquia. Tirem as TVs e as rádios, os jornais e revistas, asagências de notícias, talvez o cinema e não sobrará mais um sómundo. Sem o broadcasting já teremos múltiplos mundos: cada qualconfigurado pelas nossas conexões. Com a internet esses mundos se 1
  • 2. multiplicam velozmente, mas não por difusão e sim por interconexão.Desse ponto de vista, interconnected networks (internet) é, naverdade, interconnected worlds. E fluzz é o vento que varre essesinumeráveis interworlds (*).No mundo hierárquico, não há interface para fluzz. Mas quando fluzzfor do regime dos múltiplos mundos interconectados, esses mundosserão os novos Highly Connected Worlds do terceiro milênio (**).Inumeráveis interworldsNão havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo decada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworldsPENSE EM UM MUNDO SEM TV E RÁDIO, sem jornais e revistas, semagências de notícias, sem editoras e distribuidoras de livros dedomínio privado e sem cinema. Não, não estamos propondo umavolta à Idade Média. Teremos telefone, Internet, redes P2P, redesMesh e qualquer mídia (sobretudo interativa) não baseada no padrãoum-para-muitos (incluído spaming). Neste caso não haverá mais um(mesmo) mundo para todos. Sem o broadcasting esvai-se a ilusão deum mesmo mundo para todos em termos sociais. Ficará claro quecada um tem o seu (próprio) mundo (em termos sociais). Masninguém estará aprisionado no seu mundo, pois poderá se conectarcom outros mundos (os mundos das outras pessoas). Teremos umarede de mundos: muitos mundos interconectados. Quanto maior ainteratividade de uma rede de mundos, mais-fluzz ele – o mundosocial configurado por essa rede – será.Mas... atenção! Quanto mais-fluzz for um mundo, menor (não emtermos geográficos ou populacionais e sim em termos sociais) eleserá. Mundos grandes, nesse sentido, quer dizer, com altos graus deseparação, são mundos menos-fluzz. A interatividade reduz otamanho do mundo e isso não é uma função do número de seuselementos (pessoas e aglomerados de pessoas) e sim dos seus grausde distribuição e conectividade.Onde fluzz está mais “ativo”, os mundos se contraem. Há umamassamento. Small-world networks são efeitos de crunching (umneologismo cunhado a partir da palavra crunch).Não havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo decada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworlds. 2
  • 3. Os interworlds serão inumeráveis; portanto, a rigor, o mundo de cadaum é, potencialmente, uma série de inumeráveis mundos eminteração. Sim, tudo depende da interatividade. O que significa dizerque não depende da capacidade ou do esforço de cada um de sefazer ver por muitos. Assim, nos novos Highly Connected Worlds,gente famosa (poderosa, rica, super certificada ou titulada, admiradapor qualquer outra qualidade intrínseca massivamente reconhecidaou atribuída externamente à interação), tende a não ser mais tãorelevante. Com isso vai também por água abaixo essa desastrosaidéia de sucesso, que predominou nos séculos passados, baseada nacapacidade de alguém de se destacar dos demais.Impelido por fluzz, ninguém se deixará desvalorizar facilmente nocirco global montado para selecionar (e apresentar apenas) algumasatrações e para polarizar sobre elas a atenção dos demais. Cada qualpode ser a atração no seu próprio mundo e nos mundos conectados aesse mundo. Uma aldeia global montada para subordinar os váriosmundos a apenas alguns, dando a impressão de que só estes últimosexistem, está com os dias contados. Teremos inumeráveis aldeiasglobais.Highly Connected WorldsSeu mundo-fluzz é sua timelineO ESTILHAÇAMENTO DO MUNDO ÚNICO é uma mudança de épocajamais presenciada pelas chamadas civilizações (patriarcais,guerreiras, quer dizer, hierárquicas). Os padrões de vida econvivência social estão mudando. Isso significa que você tambémestá mudando. Porque estão mudando seus relacionamentosrecorrentes: sim, seu mundo-fluzz é sua timeline. Não, por certo, atimeline do Twitter, mas aquela que rola no espaço-tempo dos fluxose que não pode ser captada por quaisquer das ferramentas digitais p-based disponíveis.Essa mudança é a rede. À medida que aumenta a interatividade darede na qual você está imerso, fenômenos surpreendentes começama acontecer. Com a queda brusca dos graus de separação, chegarárapidamente o dia em que você chamará um taxi em uma cidade dedez milhões de habitantes e o motorista dirá: “O senhor não é oSteven Strogatz, que investiga redes sociais e que descobriu que omundo está ficando pequeno mais rapidamente do queimaginávamos?”. 3
  • 4. Isso, é claro, se você for de fato o Steven Strogatz. Mas, de certomodo, se você é o motorista que se relaciona (ou que se relacionacom quem se relaciona, ou que se relaciona com quem se relacionacom quem se relaciona) com Steven Strogatz, sobretudo se ele (ouquem se relaciona com ele) está na sua timeline e você (ou quem serelaciona com você) na dele, você será um pouco Steven Strogatz(na medida inversa do seu grau de separação dele): eis o ponto! Talmudança vai muito além do que imaginávamos porque você estáfazendo parte de um organismo capaz de inteligência e, quem sabe,de outros atributos ou qualidades que sequer conseguimos imaginar.Os Highly Connected Worlds tendem a ser organismos humanoscoletivos. Atenção: superorganismos humanos, não organismossuper-humanos! Eles são os campos para o nascimento do ‘indivíduosocial’. Steven Strogatz fará parte de você e você fará parte deleporque ambos farão parte de um mesmo organismo, não em termosmetafóricos, como quando usávamos a palavra ‘organismo’ paradesignar o que imaginávamos que fosse ‘a sociedade’. Não. Trata-sede um organismo mesmo. E humano.O indivíduo social está nascendo agora. Mas ele já estava presente,como prefiguração, desde o início, quando se constituíram osprimeiros seres humanos. Para lembrar a bela Canción Tonta deGarcía Lorca (1924), nós, os humanos, só o éramos enquantoestávamos “bordados en la almohada” da rede-mãe (1).O indivíduo-social não pôde se consumar como humanidade enquantoalgo estava impedindo: a escassez de conexões, uma escassezartificialmente introduzida por modos de regulação não-pluriárquicos.Fluzz não podia passar. Mas fluzz é empowerfulness. Se fluzz nãopode soprar o corpo não se vivifica.Essa mudança, todavia, é diferente – e única – em cada mundo. Não,não é sempre a mesma coisa. Depende de “onde” (ou como) o fluxo(o)corre. Manoel de Barros (1993) inventou “que um rio que flui entredois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre doislagartos” (2). Pois é. No limite, você fará seu mundo. Quer dizer,você (ou você e sua timeline – o que tende a ser a mesma coisa) seráo mundo e os mundos serão tantos quanto as identidades coletivasque forem usinadas por fluzz.Isso significa que os Highly Connected Worlds tendem a serinumeráveis, assim como serão inumeráveis os interworlds, miríadesde interfaces conectando miríades de mundos e “explodindo comouma ramada de neurônios”, para lembrar um artigo seminal de PierreLèvy (1998) (3). 4
  • 5. Em termos tecnológico-sociais, o grande desafio hoje, ao contrário doque reza a metafísica que esse Mark Zuckerberg – o chefe doFacebook – quer nos empulhar – para torná-la, a sua plataformaproprietária única, a própria rede e não mais uma ferramenta –, éconstruir os inumeráveis interworlds que serão as novas internets.O Facebook tem mais de 800 milhões de usuários? É ruim. Seriamelhor ter 800 mil plataformas com mil usuários cada uma,conversando entre si... Tudo que não precisamos agora é reeditar ailusão hierárquica de um mundo único. Uma sociedade em rede éuma configuração de miríades de Highly Connected Worldsinteragentes. Essa é a única mudança verdadeiramente sustentável:tudo que é sustentável tem o padrão de rede porque rede éredundância de processos e abundância (diversidade) de caminhos.A mudança-que-é-a-rede é fractal, não unitária. A mudança não é aemergência de muitos mundos locais (que, de resto, sempreexistiram), mas os múltiplos caminhos (que não puderam existir nascivilizações hierárquicas) entre o local e o global. E ela não seconsumará sem essas “zonas de transição” que são interworlds.InterworldsA nova internet – interconnected networks – são os incontáveisinterconnected worldsCOMEÇA ASSIM: NÃO UMA INTERNET: miríades de internets. Bem,agora já está melhorando. Mas, como? Não estamos correndo o riscode perder todas as referências – e, com isso, o sentido – com esseestilhaçamento?A preocupação com a fragmentação é uma herança típica de ummundo pouco-fluzz. A totalidade não está dada, tem que serconsumada. E serão sempre totalidades, no plural. Eins und Alles.Que se dane se você não terá mais uma grande narrativa, umesquema explicativo geral. Não havendo um mundo (único), para queprecisamos disso? Por certo, você fica incomodado com afragmentação desses inumeráveis mundos que se fazem eliquefazem. Mas esse seu mal-estar baumaniano (de ZygmuntBauman) é pura falta de Pó de Flu (aquele “Floo Powder” inventadopor Ignatia Wildsmith, da série Harry Potter de J. K. Rowling, usadopara conexão à Rede do Flu); ou seja, é falta de interworlds. Trata-se 5
  • 6. de referenciar o bem-estar na (fluição da) relação, não na (solidezda) coisa.Ainda existem vários obstáculos à uma comunicação, por assim dizer,“isotropicamente distribuída” (capaz de manter as mesmaspropriedades em todas as direções): a centralização da rede emservidores, provedores, roteadores, cabos, satélites, torres,mainframes transceptores de ondas eletromagnéticas, geradores deenergia, resfriadores, protocolos de reconhecimento, trânsito eintegração de mensagens; a variedade de línguas e a falta detradutores-transdutores universais móveis que operem em temporeal; a falta de programas de busca inteligente e de criação deambientes favoráveis à emergência de conteúdo novo porcombinação não-humana (polinização mútua) de mensagens; aseparação entre os dispositivos tecnológicos e o corpo humano; e ainsuficiente interação entre pessoas e não-pessoas (desde acomunicação com outros seres sencientes ou coletivamenteinteligentes, animados e inanimados, até a parceria simbiótica comuma variedade de seres vivos).Para começar: fluzz é obstruído pela centralização das comunicações(pela difusão centralizada um-para-muitos chamada broadcasting),mas também pela Internet descentralizada. O grande desafio hoje éconstruir os interworlds que são as novas internets. Trata-se de umdesafio ao mesmo tempo social e tecnológico.Rolou por décadas uma discussão fora de lugar sobre as ameaças datecnologia. Muitas pessoas tinham medo de que a tecnologia fossenos dominar, nos afastar das outras pessoas, prejudicar nossa saúdefísica ou mental ou, até mesmo, inviabilizar a vida humana noplaneta.Mas, em termos sociais, não há nenhum problema com a tecnologia.O problema é com a tecnologia que introduz artificialmente escassezcentralizando a rede social e ensejando o controle.Por certo, os sistemas de dominação não teriam podido se mantersem o controle dos insumos básicos: a terra, a água, os alimentos eas fontes de energia. Mas a escassez foi introduzida por um tipodeterminado de tecnologia urbana, hidráulica e agrícola: sem essaescassez (programada, em certa medida) de recursossobrevivenciais, esses sistemas de dominação não teriam podido sereproduzir.Assim, durante milênios fomos submetidos a tecnologias queviabilizavam o controle. Por exemplo, o modelo hidráulico 6
  • 7. redistribuidor de água em canais de irrigação, construídos econtrolados pela tecnologia faraônica, criava o perigo ao adensarpovoamentos em locais de risco, em uma proporção que ia muitoalém daquela exercida pela natural atração das terras mais férteis. Oobjetivo era o controle. Se o povo não vivesse sob a ameaça (doperigo), como poderia ser recompensado pela sua aquiescência,sendo salvo do perigo? E como poderia ser castigado por suadesobediência à ordem, sendo abandonado ao perigo? (4)Agora precisamos de tecnologia para viabilizar e acelerar adistribuição da rede social. Quanto menor a possibilidade decomando-e-controle, mais-fluzz será essa tecnologia. Isso vale paratudo: energia e matéria, átomos e bits. E vale também para acomunicação.Assim como fluzz é obstruído pela centralização das comunicações epela Internet descentralizada, ele também é obstruído por todas asseparações: desde aquelas impostas pela barreira da língua (quesepara pessoas que falam idiomas diferentes), passando pela buscaburra (que separa quem procura de quem gera conhecimento), pelosdispositivos tecnológicos interativos separados do corpo humano e,inclusive, no limite, pela separação entre pessoas e não-pessoas.A barreira da língua é uma das principais remanescências do mundoúnico hierárquico. É curioso que, mesmo tendo sido imposto ummundo único, persistam várias línguas (cerca de 7 mil idiomas). Issoporque o mundo único não é monocentralizado e simmulticentralizado (ou descentralizado) em algumas identidadesimaginárias (que chamamos de nações, povos ou culturas sócio-territoriais, dominados hoje por menos de duas centenas de Estados).A metáfora bíblica sobre isso é esclarecedora. Na mesma Babel – nãoem várias – as pessoas não podiam se comunicar umas com asoutras. Não era um problema de saber interpretar um código, de falara mesma língua. O que houve em Babel foi a impossibilidade de umconversar, não porque as pessoas falassem vários idiomas e simporque não conseguiam coordenar mutuamente suas atitudes (olinguagear, na expressão de Maturana, que pressupõe e exigecooperação) e, desse modo, não se entendiam (sem um acoplamentoestrutural não pode haver comunicação). É a pirâmide (a topologiacentralizada da rede social babeliana) que impede esse (assim comoqualquer outro) conversar. Tal problema só tem solução social, nãotecnológica.A solução para Babel é a rede social distribuída. No entanto, oproblema da remanescência de várias línguas, entendidas como 7
  • 8. idiomas, como códigos que podem ser traduzidos, tem soluçãotecnológica. Dispositivos móveis com programas de traduçãosimultânea, capazes de receber e emitir dados e voz, são partes (poraproximação, assimilação ou simbiose) dessas interfaces complexasque chamamos de interworlds.A falta de programas i-based de navegação inteligente, da busca(semântica) à polinização (criativa, ensejadora de múltiplossignificados), também é um obstáculo à interação entre os mundos.Mas tal desafio pode ser superado caso não se insista em recriarmonstruosos sistemas de gerenciamento do conhecimento (top down)e em arquivar significados únicos de modo centralizado (como faz,por exemplo, a Wikipedia).Repetindo: toda tecnologia é bem-vinda, inclusive aquela quemodifica os corpos humanos, desde que possibilite mais distribuição.Há muito tempo estamos modificando nossos corpos: tomamosinibidores seletivos da recaptação da serotonina (e. g., fluoxetina) eda fosfodiesterase-5 (e. g., sildenafila), injetamos insulinatransgênica, fazemos implantes (dentários, auditivos e inclusive dechips capazes de devolver a visão), inserimos nanopartículas paracorrigir rugas na pele, usamos próteses de todo tipo e instalamosórgãos ou partes de órgãos internos artificiais. Por que nãopoderíamos inserir em nossos corpos outros dispositivos capazes deampliar e acelerar a comunicação?Pode-se argumentar que não temos como saber se, no longo prazo,tudo isso prejudicará a saúde. Mas também não temos como atestarisso em relação à maioria dos medicamentos que tomamos ou dasintervenções médicas que realizamos. Todas essas substâncias eprocedimentos, em certa medida, provocam doenças oudesencadeiam novos padrões de saúde ou ensejam novosreequilíbrios saúde-doença. Sim, saúde não é ausência de doenças,mas a estabilidade relativa de um sistema que, se estiver vivo, estaránecessariamente afastado do equilíbrio, convivendo, portanto, comalterações que convencionamos chamar de doenças (e que só sãochamadas assim do ponto de vista de um padrão de saúde, baseadoem indicadores cujos parâmetros de normalidade são variáveis comépoca, lugar, cultura, conhecimento). Só seres inanimados estãolivres de doenças (ainda que as infestações de vírus em serescibernéticos também possam vir, coerentemente, a ser encaradascomo doenças).Por outro lado, do ponto de vista biológico, já existe a parceriasimbiótica do corpo humano com outros seres vivos. Somos, naverdade, colônias de bactérias, comunidades de micro-organismos. 8
  • 9. Somos os planetas onde vive boa parte dos seres vivos. Tal parceriaestá presente no interior de nossa unidade vital: a célula nucleada éo resultado da associação com um procarionte que passou a comporo novo organismo por endossimbiose.Mas todas as tecnologias que podem apoiar, vamos dizer assim, osurgimento das múltiplas internets distribuídas, não são, elaspróprias, os interworlds que conectam os mundos em rede aquichamados de Highly Connected Worlds. Esses interworlds são sociais– fundamentalmente, são redes sociais – não dispositivostecnológicos. Ou seja, no limite, os interworlds são pessoas.Pessoa já é redeEm cada pessoa há algo de seu próximo. Moises Cordovero (1522-1570) em Tomer Dvora (1588)Toda pessoa é uma pequena sociedade. Novalis em Pólen (1798)Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas. (“Umuntungumuntu ngabantu”: Máxima Zulu)Todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas.http://twitter.com/augustodefranco (08/07/10)Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos. JohnGuare em "Six degrees of separation" Peça de teatro na Broadway(1990)NOS NOVOS MUNDOS ALTAMENTE CONECTADOS do terceiro milênio,vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelaros “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamentehumanos. Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholassociais”.Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters,“regiões” da rede social a que estamos mais imediatamenteconectados.Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um“clone” de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, como diziaNovalis (1798), é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é 9
  • 10. rede! Pessoa é um ente cultural que replica uma configuração. É umghola social.Em um mundo fracamente conectado, os caminhos são individuais.Cada pessoa vive sua vida, faz suas escolhas, estabelece suas rotinase toma suas iniciativas sob a influência das demais, é claro, mascomo se fosse uma unidade separada. Convive, por certo, com asdemais, mas essa convivência é vivida como distinta daquela outravida, que seria a sua própria vida. Pode viver a ilusão de que vive suavida, fazendo suas escolhas, estabelecendo suas rotinas e tomandosuas iniciativas de modo autônomo. Pode alimentar a crença de quejá surgiu no mundo como pessoa, quer em virtude de uma instânciasuper-humana que assim a tenha criado, quer por força da genética(o “sangue”) e das experiências particulares pelas quais passou logoapós seu nascimento (o “berço”).Em mundos altamente conectados tende a se esvair essa separaçãoentre vida humana e convivência social. Nossas escolhas racionaisraramente são nossas: reproduzimos padrões, imitamoscomportamentos e cooperamos com outras pessoas sem ter feitoindividualmente e conscientemente tais escolhas. Adotamosprincípios, escolhemos carreiras, compramos produtos e priorizamosatividades em função do que fazem as pessoas que se relacionamconosco ou que estão ligadas a nós em algum grau próximo deseparação, muitas vezes pessoas que nem conhecemos (como osamigos dos amigos de nossos amigos).Vivemos então, cada vez mais, a vida do nosso mundo constituídopela convivência e não apenas a nossa vida individual. Isso ocorre narazão direta da interatividade do mundo em que estamos imersos. Ofluxo da nossa timeline pode chegar a atingir tal intensidade oudensidade que, no limite, não podemos mais afirmarinequivocamente que há um eu que deseja, julga, raciocina, escolhee almeja de forma autônoma em relação à nuvem de conexões quenos envolve. Ao mesmo tempo, sentimos e sabemos quecontinuamos sendo uma pessoa, única, totalmente diferenciada. Masao viver a nossa vida (a vida humana única dessa pessoa quesomos), vivemos, na verdade, a convivência (social, também única,desse mundo construído pelo emaranhado de conexões onde estamosfluindo e que nos constitui como seres propriamente humanos).O social passa ser o modo de ser humano nas redes com altatramatura dos novos mundos-fluzz. Em outras palavras, passamos aconstituir um organismo humano “maior” do que nós. Passamos acompartilhar muitas vidas, com tudo o que isso compreende:memórias, sonhos, reflexões de multidões de pessoas, que ficam 10
  • 11. distribuídas por todo esse superorganismo humano. Podemos, comonunca antes, ter acesso imediato a um conjunto enorme deinformações e, muito mais do que isso, podemos gerarconhecimentos novos com uma velocidade espantosa e com umainteligência tipicamente humana (não de máquinas, computadores oualienígenas), porém assustadoramente “superior” a queexperimentamos em todos os milênios pretéritos.E tudo isso pode ocorrer sem a necessidade de termos consciência(individual) do que está se passando. Ao viver a vida da rede, apenasvivemos a convivência: não precisamos mais tentar capturá-la eintrojetá-la, circunscrevê-la ou mandalizá-la para conferir-lhe acondição de totalidade, erigindo um grande poder interior deconfirmação para nos completar da falta dos outros e nos orientarnos relacionamentos com eles. Tal necessidade havia enquanto podiahaver a ilusão da existência do indivíduo separado de outrosindivíduos; ou quando um (ainda) não era muitos. Toda consciência éconsciência da separação, inclusive a consciência da unidade, datotalidade, ou da unidade na totalidade, é uma resposta à separação.No abismo em que estamos despencando ao entrar em fluzz, não hápropriamente isso que chamávamos de consciência.Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", o escritorde ficção Frank Herbert (1976) colocou na boca de Harq al-Ada,cronista do Jihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinasinteligentes) (5): "O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido frequentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos".Gholas sociaisUm ghola não é um borgNO UNIVERSO FICCIONAL DE DUNA, obra monumental de FrankHerbert (1965-1985), os tanques axlotl são mulheres tleilaxu quesofreram um coma cerebral químico induzido, a par de outrasintervenções genéticas, para servir como usinas de gholas (espéciesde clones de uma pessoa morta a partir de seu material genético). Os 11
  • 12. Tleilaxu (ou Bene Tleilax) são uma sociedade fechada de religiososmuito avançados tecnologicamente.No entanto, os gholas são réplicas que não manifestamautomaticamente as qualidades dos originais. Para tanto eles devempassar por um processo longo de aprendizagem e devem viver certasexperiências (sobretudo de relacionamento íntimo com seustreinadores) para despertar suas habilidades.A leitura das diversas camadas da escritura de Herbert (literal,alegórica ou metafórica, simbólica etc.) permite um paralelo(meramente evocativo e para efeitos heurísticos) entre o processobiológico-cultural de clonagem e aprendizagem de um ghola e oprocesso social de geração de uma pessoa (que seria, então, umaespécie de “ghola social”).Os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamentehumanos seriam os clusters onde convivemos com outras pessoas(seres que já foram humanizados pelo mesmo processo) a partir donascimento. De sorte que não somos humanos apenas por força dagenética, da reprodução ou da hereditariedade biológica (quereplicamos como indivíduos da espécie homo) e sim em virtude darede social em que com-vivemos, cuja configuração particularreplicamos como pessoas, ou seja, “gholas sociais”. Aquele que égeneticamente humanizável só consuma tal condição a partir dorelacionamento com seres humanizados. Somos (enquanto entesculturais) filhos da rede social. E não podemos ser humanos sem essetipo de relacionamento. Como reza a máxima Zulu, “uma pessoa éuma pessoa através de outras pessoas”.Tudo isso é para dizer que um ghola (social) não é um borg. Mas porque é tão importante dizer isso?No universo ficcional de Star Trek os Borgs são uma “raça” alienígenade ciborgues, humanoides de várias espécies assimilados emelhorados com a injeção de nanossondas e a aplicação de implantescibernéticos que alteram sua anatomia e seu funcionamentobioquímico, ampliando suas habilidades mentais e físicas.Quando encontram suas presas - quaisquer membros de outrascivilizações, aos quais andam a cata – os Borg recitam, com algumasvariações, a seguinte litania: “Nós somos os Borg. A existência como vocês conhecem acabou. Adicionaremos suas qualidades biológicas e tecnológicas à nossa. Resistir é inútil”. 12
  • 13. Não existe uma rede social Borg, com algum grau significativo dedistribuição, porque não existe pessoa-Borg. Transformados emindivíduos substituíveis, os borgs são replicados em série por umaestrutura fortemente centralizada em sua rainha (sim, o regime émonárquico absoluto), a única que pode pensar livremente (se é queisso é possível sem o conversar). Seus cérebros são conectados auma mente coletiva (a Coletividade Borg) controlada por um hubcentral (Unimatrix Um). O objetivo declarado do povo Borg (que só éum povo naquele particular sentido original da palavra latina‘populus’: “contingente de tropas”) é “aperfeiçoar todas as espéciestrazendo ordem ao caos”.Uma interpretação possível para a metáfora é a seguinte: de certomodo qualquer pessoa, transformada em peça substituível por umaorganização centralizada (hierárquica), é – em alguma medida – umborg.Sim, o paralelo é mais fértil do que parece. Dizer que um ghola(social) não é um borg (biotecnológico), seria como colocar na bocado primeiro – no dealbar de uma época-fluzz – uma paródia da“saudação” borg como a seguinte: Nós somos gholas sociais. Novas possibilidades de existência, até agora desconhecidas de todos nós, estão sendo abertas. Nossas qualidades biológico-culturais estão se combinando em novos padrões sociais. É só preciso deixar-ir.A rigor, como uma configuração de pessoas está sempre ligada aoutras configurações, todas as pessoas estão de algum modoemaranhadas no espaço-tempo dos fluxos (quem sabe não era issoque chamávamos de humanidade, uma prefiguração). Assim, nolimite, todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas.Pessoas são portas“Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos”PESSOAS SÃO PORTAS. Abrem caminhos. Na verdade, são caminhos.Atalhos entre clusters. Pontes. É sempre por meio de uma pessoa quepodemos interagir com quem está em outros mundos.Isso significa que os interworlds são realmente as pessoas, não umnovo ambiente tecnológico, mas um novo ambiente social com novos 13
  • 14. recursos tecnológicos. Esta é uma típica compreensão-fluzz: pessoanão é o individual e sim o social. Surpreendentemente, em mundosaltamente conectados as novas internets são... as pessoas!Não, não é somente uma imagem poética. É uma nova compreensãodas potencialidades humanas. Pessoas interagindo são sereshumanos. A partir de certo grau de interatividade, são organismossociais, quer dizer, superorganismos humanos.Quando a tecnologia fornecer os meios para manter as pessoascontinuamente conectadas e para acelerar a interação, ela o fará apartir dessa possibilidade social. Aliás, foi assim que nasceu a velhaInternet: como percebeu Castells, sua estrutura interativa só foiprojetada assim porque as pessoas que a projetaram a projetaramassim (6). E as pessoas que projetaram a Internet só a projetaramassim – com possibilidade de interatividade – porque havia talpossibilidade social. Da mesma forma estão nascendo as novasinternets: seja com o aperfeiçoamento dos dispositivos móveisinterativos, seja com implantes bioeletrônicos ou cibernéticos,enquanto a topologia da rede for mais distribuída do que centralizadanão produziremos borgs, mas gholas-sociais.Há sempre um risco. O risco de ser borg. A fronteira entre um borg eum ghola-social é móvel, nebulosa e quase sempre invisível. Ahierarquia produz borgs. As redes humanas distribuídas geramgholas-sociais. Mas a maioria dos padrões de interação se configurano intervalo entre centralização máxima e distribuição máxima.Evitar o risco é refugiar-se na vida individual, escolhendoracionalmente as interações, sendo seletivo nos relacionamentos,fechando-se ao outro. Esse é o fracasso de todas as chamadas“pessoas de sucesso”. Fecham-se à interação com o outro-imprevisível e, ao fazer isso, a despeito de serem muito conhecidas,obstruem conexões com a nuvem que as envolvem, desatalhamclusters (ao se recusarem a servir como pontes), excluem outraspessoas do seu espaço de vida e simultaneamente se excluem deoutros mundos, isolando-se do superorganismo humano e deixandode contar com uma parte (justamente aquela parte inusitada, que osmarqueteiros, os políticos profissionais e os psicólogos sociais tantoprocuram e não conseguem encontrar) das imensas potencialidadesdo social.São raríssimas as pessoas de sucesso que se deixam abordar porqualquer um do povo. Seus endereços, e-mails e telefones sãomantidos em sigilo. Seus ambientes de trabalho são protegidos porporteiros, agentes de segurança, secretários e assessores. Seus sites 14
  • 15. e blogs são fechados à comentários ou mediados. Sua participaçãonas mídias sociais é sempre para usá-las como broadcast, para fazerrelações públicas e propaganda de si-mesmas (para ficarem maisfamosas e auferirem os benefícios econômicos, sociais e políticosconferidos diferencialmente a quem alcançou tal condição).Isso acaba se manifestando no que acreditam que seja sua vidapessoal, como indivíduos, supostamente autônomos, tão importantesque não podem ficar vulneráveis aos paparazzi do relacionamento.Como conseqüência começam a desenvolver aquela sociopatia maisconhecida pelo nome de fama. Na verdade ficam doentes por déficitde interatividade.Quem não quer ser porta, não acha caminhos. O sucesso é o melhorcaminho para perder caminhos. A perda de caminhos é também umamedida de não-rede, ou seja, uma expressão do poder. A contrapartede querer ser muito importante é a falta de importância para a rede(e não importa para nada se essas pessoas de sucesso têm milharesou milhões de followers nas mídias sociais mais frequentadas ou seseu blog tem milhares ou milhões de pageviews).E o risco? Bem, nos Highly Connected Worlds a pessoa é compelida acorrer o risco, a fluir com o curso. Não pode se proteger, sesedentarizar em seu mundo, se agarrar às coisas para tentarpermanecer como é ou a ser mais-do-mesmo (do que já é) em vezde surfar nos interworlds, navegar, ser nômade, fluzz.“Se não posso achar o caminho farei um”, escreveu Sêneca (7). Nosnovos mundos-fluzz, seria o caso de dizer: como não há caminho,serei um (uma porta para outros mundos)Anisotropias no espaço-tempo dos fluxosOs deuses eram ventos. Arturjotaef em Numância (2010)Ama-gi é uma palavra suméria para expressar alforria... Traduzidaliteralmente significa “retorno à mãe” - na medida em que os ex-escravos eram “devolvidos às suas mães (i. e., libertados)”. Acredita-se ser a primeira expressão escrita do conceito de liberdade.Wikipedia (2010) 15
  • 16. NÃO HÁ NADA A FAZER. DEIXEM FLUZZ SOPRAR para ver o queacontece. (Na verdade, dizer ‘deixem fluzz soprar’ é apenas umamaneira de dizer, pois fluzz já é o sopro).Quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola? Quando fluzzsoprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzz soprar, paraque corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, para quenação, para que Estado?Oh! É claro que todas essas instituições perdurarão: comoremanescências. Não serão mais prevalecentes. Aliás, como já seprenuncia, elas se contaminarão mutuamente: nações serão religiões,escolas serão igrejas, Estados serão corporações... e tudo será,afinal, o que é – sempre a mesma coisa: programas verticalizadoresque “rodam” na rede social instalando anisotropias no espaço-tempodos fluxos.O cordobés Lucius Annaeus Sêneca (c. 3 a. E. C. – 65) escreveu que“se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lheserá favorável” (8). Mas é o contrário. Pouco importa onde está Ítaca.É o vento, soprando livre sobre a superfície das águas, que constituio não-caminho (ou desconstitui todos os caminhos).Como cantou Konstantinos Kaváfis, “se partires um dia rumo a Ítaca,faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras... Melhormuitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, ricode quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca tedesse. Uma bela viagem deu-te Ítaca... Tu te tornaste sábio, umhomem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas” (9).Manobrando o leme para seguir uma rota já traçada não há comoviver em processo de Ítaca. É preciso deixar-se ao sabor do vento.Quando o sopro não percorre livremente os mundos é porque houvedirecionamento de fluxo. Pré-cursos foram estabelecidos. Velas foramorientadas para capturar e condicionar o vento. Em geral isso é feitopor essas intervenções antrópicas resultantes do congelamento defluxos que chamamos de instituições (hierárquicas): escolas, ensino,religiões, igrejas, corporações, partidos, nações, Estados. Sãoartifícios para exercer a Força, ou seja, para impor caminhos.A pergunta é: quando fluzz soprar, para que forçar? Por isso se diz:não há nada a fazer (quando fluzz soprar). Não há nada a fazersignifica que é preciso deixar-ir. Ter um comportamento fluzz édeixar-ir. Fluzz não é a força. Fluzz é o curso. 16
  • 17. Impor caminhos é deformar um tecido, perturbar um campo. Sepessoas interagindo com pessoas são redes, o tecido deformado ésempre uma rede que se tornou mais centralizada ou menosdistribuída. Se o campo social é composto pelo emaranhado deconexões, a perturbação é sempre um desemaranhar, de sorte quealguns mundos perderão contato com outros; ou melhor, deixarão deestar sujeitos às mesmas interações. Se isso acontece é porqueinterworlds foram aniquilados.Quando forçamos um caminho exterminamos mundos (para nós, éclaro – mas o que dá no mesmo, se não podemos mais interagir comeles). Perdemos então as oportunidades – de que fala o belo poemade Kaváfis – de “entrar pela primeira vez um porto para correr aslojas dos fenícios e belas mercancias adquirir” ou de peregrinarnaquelas “muitas cidades do Egito... para aprender”.Deformando a rede-mãeNa ausência do poder as redes tendem a permanecer distribuídasA INVESTIGAÇÃO DAS REDES SOCIAIS leva-nos a uma nova hipóteseantropológica: uma outra visão da natureza humana (seja lá o queisso for), que se afasta do que foi concebido como Homo economicus,para se aproximar – como sugeriram Christakis e Fowler – do queeles chamaram de Homo dictyous (do latim homo, “humano”, e dogrego dicty, “rede”) (10).Indivíduos biológicos da espécie humana se tornam Homo dictyous(seres humanos), quando interagem. Mas quando interagemconstituem rede. Logo, sem essa rede não podemos ser humanos.Em outras palavras: se, como pessoas, já somos rede – do contrárionão poderia haver a realidade biológico-cultural que chamamos de‘ser humano’ – então, para nós, humanos, no princípio era a rede.Isso significa que somos “filhos” da rede. Logo, podemos dizer que arede é a nossa “mãe”. Ou seja, que existe uma rede-mãe.A interpretação que revela tal sentido é alegórica ou metafórica. Masa metáfora da rede-mãe pode revelar mais coisas do queimaginamos. Ela sugere que, deixados a si mesmos, os humanosfarão (ou melhor, serão) redes em vez de se engalfinharem em umaguerra de todos contra todos transformando sua vida em uma 17
  • 18. realidade “solitária, miserável, sórdida, brutal e curta”, como queria oagourento Hobbes (1651) (11).Os pensadores e os economistas que cunharam e trabalharam com aconcepção do homo economicus simplesmente partiram dessefundamento hobbesiano para reificar a existência da abstraçãochamada indivíduo. Trata-se de uma visão da natureza humana – naverdade quase uma tara – baseada no egoísmo, para a qual, comoescreveu Hobbes, na ausência de “um poder que domestique oshomens... não há sociedade; e o que é pior do que tudo, [há] ummedo contínuo e perigo de morte violenta” (12). Vivendo nesse“mundo cão brutal em que a preocupação com o bem-estar dosoutros não existe” (13) existiria, entretanto, paradoxalmente, oindivíduo enquanto unidade isolada dos outros indivíduos.Evidentemente, diante de tantos atos gratuitos de colaboração quepraticamos e presenciamos no dia-a-dia, essa construção intelectualsó pode se revelar uma perversão. Daí a tara individualista, tãofrequente e inadequadamente denominada de liberalismo(econômico).Não há nenhuma evidência científica de que os seres humanosabandonados à sua própria sorte (como se pudesse haver outrasorte...) poriam fim à sua convivência. As evidências apontamjustamente o contrário. Não havendo motivo para guerrear, aspessoas – seguindo o fluxo da vida – viveriam sua convivência – ouseja, viveriam em rede. Como disse Lynn Margulis (1986): “A vidanão se apossa do globo pelo combate, mas sim pela formação deredes” (14).A alegação de Hobbes de que é o poder que evita a destruiçãocoletiva deve ser invertida. Quando há poder, aí sim, é porque houvemotivo para guerrear e a convivência fica ameaçada.Na ausência de um poder que as domestique (para insistir naexpressão de Hobbes), pessoas interagindo com pessoas tendem aconfigurar redes distribuídas em pequenos grupos, só não o fazendo,em grupos maiores, em virtude da falta de condições biológicas outecnológicas de interatividade ampliada e à distância. Não haveriamotivo para obstruírem fluxos, separarem clusters ou excluíremnodos dessas redes (que é, exatamente, o que faz o poder), a menosque queiramos lançar mão de uma hipótese religiosa para vaticinarque o homem é inerentemente competitivo (ou em parte competitivo,por sua própria natureza – seja lá o que isso for). Tal hipótese éabsurda neste contexto porque pressupõe que possam existir sereshumanos (entes biológico-culturais) como entes (biológicos) isolados. 18
  • 19. Mas não existe no ser humano nenhum atributo cultural(comportamental) que se possa dizer inerente. A “natureza” do Homodictyous – se é que se pode afirmar que exista uma ‘natureza dacultura’ – é relacional.Todo poder acarreta anisotropias no espaço-tempo dos fluxos(verticalizando a rede). E é por isso que o poder se define como umamedida de não-rede (em termos de rede distribuída) (15). Naausência do poder (centralização) a rede tende a permanecerdistribuída. Podemos dizer que o bios (Basic Input-Output System)pré-gravado lá no firmware da rede-mãe não é um programaverticalizador (centralizador) pelo simples motivo de que não háqualquer razão para sê-lo. Nesse caso, o que precisa ser explicado éo processo de centralização, não o estado de distribuição. São osobstáculos colocados à livre convivência que precisam serjustificados, não a convivência.Por certo a rede-mãe não permanece com topologia distribuída napresença de programas verticalizadores. Aqui é um daqueles casos –mais comuns do que se pensa – em que o software modifica ohardware (como quando aprendemos uma língua e alteramos paratanto nossas conexões neuronais).Programas verticalizadores deformam a rede-mãe, sejam programasmeméticos (como os que chamamos de deuses – quando lhesatribuímos atributos super-humanos), sejam programasorganizacionais (que rodam comandos de ordem, hierarquia,disciplina e obediência – como escolas, igrejas, partidos, corporações,Estados e outras instituições assemelhadas com todos os seusaparatos).No interior e no entorno dessas organizações hierárquicas o camposocial é profundamente perturbado. O espaço-tempo dos fluxos édeformado obrigando as fluições a percorrerem caminhos estranhos.A interação é disciplinada sem qualquer outra razão que a de mantertais estruturas monstruosas funcionando e se reproduzindo. Aimagem da Fig. 2 é aterrorizante. Lembra à primeira vista aquelasnaves de alienígenas predadores do filme de Roland Emmerich (1996)Independence Day. Talvez não por acaso: organizações hierárquicasde seres humanos geram seres não-humanos. Mas se trata apenas deuma outra maneira de representar o diagrama (B) de Paul Baran(1964) exposto na Fig. 1. 19
  • 20. Fig. 1 | Diagramas de Paul BaranFig. 2 | Organograma de uma organização hierárquica 20
  • 21. Se o fluxo deixar de ser aprisionado, orientado, conduzido, compelidoa escorrer pelas valetas cavadas para pré-traçar caminhos(eliminando outros caminhos), a rede-mãe volta à sua topologiadistribuída. É curioso que a primeira expressão escrita do conceito deliberdade – a palavra suméria Ama-gi – signifique literalmente“retorno à mãe”.Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola?Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzzsoprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar,para que nação, para que Estado?Um sinal de que fluzz está soprando é que tais instituições estão semisturando e se confundindo, quer dizer, está ficando cada vez maisclaro que elas são aspectos das mesmas deformações ou do mesmotronco de programas verticalizadores que “rodam” na rede socialprovocando anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.É assim que as perturbações no campo social que geram religiõesrevelam-se as mesmas que geram nações. De sorte que, nosmúltiplos mundos altamente conectados que estão emergindo, osnômades optarão por essa ou aquela nação por mera preferênciaindividual, como há bastante tempo já fazemos com as religiões queprofessamos quando nos convertemos depois de adultos. Alguémpreferirá ser brasileiro por simpatia ou por outras razões afetivas,empáticas ou culturais; outro, por razões análogas, preferirá seidentificar com uma região ou cidade: será californiano ou cidadão-cultural de Lyon.Da mesma forma, ao renunciar a igrejas muitas pessoas retirarãotambém seus filhos das escolas (compreendendo que as duas coisassão – na condição de centros de deformação da rede-mãe ou defontes de perturbação no campo social – basicamente a mesmacoisa). O movimento do homeschooling já começou e avançará parao communityschooling (na linha do unschooling). Comunidades deaprendizagem em rede tendem a florescer e se multiplicar nos HighlyConnected Worlds substituindo as atuais burocracias do ensinamento(chamadas de escolas).Ainda: Estados (nacionais) dividirão com corporações(transnacionais) o controle dos fluxos econômicos e políticosmundiais globalizados e essa pulverização (dos 193 exemplaresatuais do modelo europeu de Estado-nação – um anacrônico fruto daguerra, da paz de Westfalia – para milhares de centros comautonomia crescente), dará margem à configuração de novos 21
  • 22. modelos glocais de governança baseados no localismo cosmopolita demiríades de cidades como redes de comunidades interdependentes.É claro que todas as velhas instituições perdurarão vestigialmente,como remanescências do mundo único. Não serão destruídas,simplesmente se tornarão inadequadas por não suportarem a fluiçãode alta intensidade que atravessará os interworlds dos mundosaltamente conectados do terceiro milênio.Perturbações no campo socialA nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem acapacidade de “sentir” perturbações no campo socialWALTER ROBINSON (2008), também conhecido por Ritoku – um zen-budista que dá aulas de filosofia na Universidade de Indiana –escrevendo “Morte e Renascimento de uma Mente Vulcana”, observaque “Vulcanos têm “sete sentidos”, que incluem os cinco sentidosconhecidos pelos humanos e um sexto sentido animal, que é “ahabilidade de sentir a presença de distúrbio em campos magnéticos”(16).A metáfora, se não cai como uma luva, serve aos propósitos dapresente digressão. Por certo, admitir a hipótese e trabalhar com omodelo de perturbações no campo social pode ser mais fácil do quesentir essas perturbações. Não é preciso ir muito longe para saber seum campo social foi deformado: basta entrar em uma organizaçãohierárquica; por exemplo, basta visitar uma instituição estatal ouuma grande empresa para constatar com que intensidade o “campogravitacional” em torno dos chefes modifica a estrutura do espaço(no caso, do espaço-tempo dos fluxos). Os fluxos se abismam nessesburacos negros. Eles são sumidouros, engolidouros, alçapões defluxos.Tão forte às vezes é a gravitatem dos hierarcas que a deformação docampo social sob sua influência alcança até mesmo os stakeholdersexternos da organização, transbordando para seu entorno. É por issoque uma grande empresa ou corporação, em uma pequena localidadena qual não existam outras organizações de mesmo porte, em vez de– como se acreditava – impulsionar seu desenvolvimento, faz ocontrário: extermina o capital social local (quer dizer, centraliza arede social). Existem exemplos à farta. 22
  • 23. Nas organizações altamente centralizadas, as pessoas perdem acapacidade de ser elas mesmas (à medida que cresce sua porção-borg diminui a sua dimensão de pessoa, quer dizer, sua porçãoghola-social). Vestem sempre uma espécie de farda; mesmo nasorganizações civis que não usam uniformes elas se uniformizaminteriormente. E até exteriormente: não raro preferem roupas queescondem o corpo e os tons de cinza para o vestuário. No exercíciocontinuado da servidão voluntária, autolimitam suas potencialidadesescondendo-se na penumbra das rotinas e optando por não seaventurar na claridade do ato inédito. Fazem tudo – sobretudo o quedelas não é explicitamente exigido, eis o ponto! – para se submeterao sistema e aos seus chefes.E há uma reverência indevida, uma espécie de sujeição, quase umagenuflexão psicológica quando alguém se dirige a algumas dessasencarnações de Dario (aquele monstro Darayavahush, um rei-borgque, após perpetrar um golpe de Estado, dominou os persas entre521 e 486 a. E. C. exigindo-lhes prosternação física à sua passagem).Ésquilo (427 a. E. C.), em Os Persas – talvez a primeira obra escritaem que se menciona a democracia dos atenienses como realidadeoposta a daqueles povos que têm um senhor – descreve bem adeformação do campo social sob o domínio da sombra de Dario (17).O regime monstruoso não tinha, ao contrário do que se propagou,grandes vantagens militares. Os persas foram rechaçados pelosirreverentes, insolentes e mais livres atenienses e seus aliados naplanície de Maratona (em 490). Sim, mas o que é realmentemonstruoso é que tal programa (que poderia ser chamado, emhomenagem a Ésquilo, de A Sombra de Dario) – instalado quase trêsmilênios antes de Dario – continue a rodar... quase três milêniosdepois!Todavia, essas deformações já começam a ser sentidas. Um sextosentido humano-social está surgindo nos Highly Connected Worlds.Não é propriamente um sentido individual. A nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem a capacidade de “sentir”perturbações no campo social. Uma rede altamente distribuídarechaçará de pronto, mesmo que seus membros não tenhamconsciência disso, quaisquer tentativas de comando-e-controle. Eisporque burocratas sacerdotais do conhecimento ou ensinadores,codificadores de doutrinas, aprisionadores de corpos, construtores depirâmides, fabricantes de guerras e condutores de rebanhos não sedão muito bem em redes sociais distribuídas e, nem mesmo, nasmídias sociais, quer dizer, nas plataformas interativas que sãoutilizadas como ferramentas de netweaving dessas redes. Porque são,todos, netavoids. 23
  • 24. Esta é uma das razões – até agora muito pouco compreendida –pelas quais o comando-e-controle, além de não poder se exercer,também não se faz necessário em uma rede distribuída (na medida, éclaro, do seu grau de distribuição). Dizer que o emaranhado “sente”quer dizer que ele detecta distorções. Mais do que isso: primeiro eleencapsula e depois acaba metabolizando as fontes de perturbaçõesque causam anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. E são essesincríveis seres sociais que chamamos de pessoas que sentem isso:ainda quando não saibam explicar os motivos dessa sensação, elas(as pessoas) percebem que “alguma coisa está errada” quandoaparece um daqueles netavoids, ou um arrivista (ou mesmo um troll,nas mídias sociais).É a rede-mãe se defendendo. Mas ela nem sempre consegue fazerisso.Destruidores de mundosPersistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadaspara conversar com a rede-mãeDARAYAVAHUSH É UM DESTRUIDOR DE MUNDOS. Joseph Campbelldiria que ele representa “uma força monstruosa, a força do Império,que se baseia na intenção de conquistar e comandar” (18). Comoaquele Darth Vader do primeiro episódio da série que veio à luz –Uma Nova Esperança (1977) –, na decifração de Joseph Campbell(1988), ele não é uma pessoa. É um programa malicioso que seinstalou na rede. Um programa verticalizador.Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario,o homem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive opróprio Dario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estãoemaranhados em configurações deformadas da rede-mãe, comdeformações semelhantes. Qualquer um, inserido em sistemas comtais configurações, manifestará – em alguma medida – característicasde Darayavahush. E será em alguma medida destruidor de mundos.Na verdade, aniquilará interfaces (interworlds) estreitando o fluxo dasinterações, impedindo que pessoas se conectem livremente compessoas. É por isso que organizações hierárquicas têm tantadificuldade de gerar pessoas.Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá nonascimento e nem apenas logo após o nascimento, mas prossegue 24
  • 25. por toda a vida (a com-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que serealiza quando vivemos a convivência). É algo assim como o quecertas tradições espirituais chamaram de formação da alma humana:um veículo para “atravessar a morte” (em vez de tentar evitá-la,querendo ser imortal: o motivo da criação dos deuses à imagem esemelhança dos hierarcas) aceitando o fluxo transformador da vida.Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com aenergia da compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida,compartilhar o alimento, aliviar os sofrimentos e promover aliberdade, Darth Vader não tem alma porque, ao invés de formá-la,criou um veículo-substituto para escapar de fluzz: sua nave-simulacroé feita com a energia da violência, obtida nos atos instrumentais detirar a vida, se apoderar dos recursos vitais, infligir sofrimentos e,sobretudo, eliminar caminhos (pela imposição da ordem).Nas organizações hierárquicas, um processo intermitente dedespersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos,separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processopoderia ser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, comouma perda de contato com a rede-mãe. É por isso que nossasorganizações de todos os setores têm tanta dificuldade de contar com(a adesão voluntária das) pessoas. A reclamação geral é sempre a deque “as pessoas não participam”. Imaginam alguns que o motivodessa dificuldade seria a visão, a missão, a causa da organização oudo movimento, avaliadas então como incapazes de empolgar maisgente, porém a verdadeira razão está na deformação da rede. Aspessoas sentem – mesmo quando não conseguem explicitarracionalmente seus motivos – que não lhes cabe entrar em umespaço já configurado de uma determinada maneira. Não querem‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nostermos estabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus própriostermos. Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não sãointerfaces adequadas para conversar com a rede-mãe. Porquecontinuamos criando obstáculos à livre conversação entre pessoas.Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam com redes.Organizações hierárquicas não podem conversar com redes.Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têmimensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente ondeestão imersas. A rede social que existe independentemente de nossosesforços conectivos – ou que existiria se tais esforços não fossemverticalizadores; quer dizer, o que chamamos aqui de rede-mãe –não recebe bem a influência dessas organizações e continuafuncionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido. 25
  • 26. É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociaisprofundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentesreportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em umadeterminada localidade, mas a impressão que têm é a de que seusesforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, asrelações não mudam, parece que tudo continua como d’antes...Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizaçõesde base, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ouum grau de enredamento insuficiente). É um problema decomunicação. A rede social que existe de fato naquela localidade nãoestá reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muitoprovável que essa organização esteja estruturada e funcione comouma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha... É muitoprovável que ela faça parte da ‘nova burocracia das ONGs’, ou seja,que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – combaixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos eorganizações corporativas). É muito provável que seus chefesqueiram se eternizar no poder (no caso, um micro-poder, é verdade,mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, secomporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir dopoder de excluir o outro...) porque precisem (ou imaginem queprecisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social pela suaatuação.Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãe for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estaráestruturada a partir de um impulso privatizante, seja com base nointeresse econômico, seja com base no interesse político de um grupoparticular que quer manobrar o coletivo maior em prol de sua própriasatisfação. A rede social não-deformada é sempre pública. Mas asinterfaces hierárquicas que construímos para conversar com ela oupara tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quandourdimos teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquelavelha crença de que existem interesses privados que, por obra dealguma lei sócio-histórica, teriam o condão de se universalizar, querdizer, de universalizar o seu particularismo quando satisfeitos.Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “amatriz”. Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja,construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau dedistribuição que for possível. Quanto mais distribuídas forem as redesque construirmos para copiar a rede-mãe melhor será a comunicaçãocom ela. 26
  • 27. Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficarácada vez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionarpessoas em organizações erigidas com base na seleção de caminhosválidos (ou na normatização de caminhos inválidos). Desde quetenham essa possibilidade, as pessoas perfurarão os muros, abrirãocontinuamente seus próprios caminhos mutantes e – na sua jornadapara Ítaca – peregrinarão para aprender naquelas “muitas cidades doEgito...”Hifas por toda parteToda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma únicalinhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos queflutuam no ar... Quando pousam, os esporos crescem onde quer queseja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas... os fungosproduzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam,espalhando sua estranha carne... Lynn Margulis e Dorion Sagan em Oque é vida? (1998)Jericó estava fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía ninguémentrava... O Senhor disse então a Josué: “No sétimo dia... ossacerdotes tocarão as trombetas... Quando ouvirdes o som datrombeta, o povo lançará um grande grito; o muro da cidade viráabaixo, o povo subirá, cada um à sua frente. Josué 6: 1-5ENQUANTO ISSO, PORÉM, CRESCEM SUBTERRANEAMENTE AS HIFAS,por toda parte. Os alicerces das organizações hierárquicas vão sendocorroídos e seu muros, antes paredes opacas para se proteger dooutro, vão agora virando “membranas sociais”, permeáveis àinteração e vulneráveis ao outro-imprevisível. Pessoas conectadascom pessoas vão tecendo articulações que estilhaçam o mundo-único-imposto em miríades de pedaços, não pelo combate, mas pelaformação de redes. E outras identidades – mais-fluzz – vão surgindonos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.Não se decepcione: provavelmente você não vai ver nada mesmo! Ashifas crescem, em geral, abaixo do solo. Os esporos espalham-sepelo ar, mas são tão pequenos que a gente nem percebe.Quando você notar as consequências, aí não adiantará mais sedesesperar. Pois se o processo, por enquanto, ainda é lento einvisível (em parte “aéreo”, em parte “subterrâneo”), seus desfechos 27
  • 28. poderão ser bem concretos e fulminantes nos mundos em queocorrerem.Nos Highly Connected Worlds não há como fechar nada. Trancar,chavear, cerrar as fronteiras, isolar por meio de paredes opacas nãoé a solução para manter a identidade ou preservar a integridade denenhum aglomerado. Quando os fluxos aumentam de intensidade, osmuros não conseguem mais contê-los.Parece que a vida “sabia” disso: tanto é assim que não encerrou seu“átomo” (a célula) em nenhuma estrutura fechada, separando-o domeio com paredes opacas: antes, construiu membranas – umainterface de sustentabilidade, um convite à conexão. Um convite aosexo, já que estamos agora explorando um paralelo biológico: nosfungos – que são “organismos realmente fractais”, como percebeu abióloga Lynn Margulis (1998) – o ato sexual (chamado deconjugação) é uma conexão (19).Muros caindo por toda parte anunciarão “membranas sociais”surgindo por toda parte. Ou não: o que não virar “membrana social”será escombro.O que as hifas – esses filamentos ou tubos finos que formam aestrutura em rede dos fungos – têm a ver com isso? Ora, tudo. Poissão elas (ou o processo espelhado, em termos biológicos, pelaclonagem fúngica) que estão operando tal mudança.A perfuração dos murosQuando a porosidade aumentar, os muros vão começar a ruirEIS COMO PAREDES OPACAS vão se tornando inadequadas paraconter o fluxo: elas vão sendo perfuradas por hifas. Essapossibilidade existe concretamente desde que os subordinados emuma organização hierárquica não podem mais ser proibidos de seconectar com quem está do lado de fora do muro pelas políciascorporativas (os departamentos de segurança, os departamentos depessoal e, inclusive – e hoje principalmente –, os departamentos detecnologia da informação).O aprisionamento de corpos e sua contenção física em prédiosfechados, com salas e andares isolados um dos outros, controladospor portarias ou por barreiras eletrônicas que não deixam passar 28
  • 29. quem não tem o código válido no seu cartão magnético funcional, jánão resistem adequadamente a aglomeração física não-prevista pelosprotocolos de segurança; por exemplo, dos amigos que se encontramapós o expediente em bares, restaurantes, shoppings e em suaspróprias casas, ou até mesmo dos fumantes que são obrigado a seencontrar na rua, do lado de fora das sedes, por imposição legal. Emuito menos é capaz de resistir à comunicação à distância, porcelular, e-mail, pelos programas de mensagens e comunicaçãoinstantânea ou pelos sites de relacionamento na Internet.É inútil proibir e não há como manter uma vigilância eficaz. Osdepartamentos de tecnologia da informação (TI) podem tentar barrar(como ainda insistem em fazer) o acesso às chamadas mídias sociaise aos vários serviços de comunicação web na sua própria rede decomputadores, mas qualquer um que tenha um celular (3G,equivalente ou sucedâneo), ou melhor, um dispositivo móvel deinteração conectado à Internet ou conectável a outros dispositivospor rádio (incluindo bluetooth quando seu alcance for ampliado) jápode – ao mesmo tempo em que trabalha (ou finge que trabalha) emuma empresa fechada – desenvolver outros projetos conjuntos compessoas de outras empresas fechadas, inclusive concorrentes (20).Tudo isso aumenta a porosidade dos muros. À medida que aporosidade aumentar, os muros vão começar a ruir.Só então as organizações fechadas se darão conta de que estãoirremediavelmente vulneráveis à interação e correrão desesperadasatrás das membranas. Aí já poderá ser tarde: uma membrana é umdispositivo ultracomplexo, que só pode ser construído pela dinâmicade um organismo vivo em interação com o meio, com outrosorganismos e partes de organismos.Uma empresa que não aprendeu a se desenvolver conversando comas outras empresas por medo de perder mercado ou de ter roubadasas suas inovações ou seus funcionários, não conseguirá, da noitepara o dia, fazer uma reengenharia de suas, por assim dizer,boundary conditions.Uma corporação que insistiu em manter intranets mesmo depois deter sido inventada a Internet, dificilmente estará preparada paraoperar, em tempo hábil, tal mudança. 29
  • 30. A construção de “membranas sociais”Deixar a interação pervadir um sistema não significa propriamentefazer, mas – ao contrário – não-fazer: não proibir, não-selecionarcaminhos...A DERRUIÇÃO DOS MUROS não esperará que os sacerdotes toquemas trombetas em Jericó (se bem que na saga bíblica de Josué foi ogrito em uníssono do povo que derrubou as muralhas que trancavama cidade). De qualquer modo, não há mais tempo para aprender aconstruir verdadeiras membranas. Na verdade, membranas nãopodem ser construídas, stricto sensu, como um ato voluntário dealguém que segue uma planta, um projeto, um esquema. Asmembranas são “construídas” pela interação biológica, elas surgemem função da autopoese: da produção contínua da vida por elamesma.No caso das membranas celulares (plasmalemas), sua estrutura efuncionamento complexos dependem da dinâmica de rede, de redesdentro de redes, com canais protéicos (proteínas de transporte –espécies de atalhos entre clusters) que atravessam suas camadas,passando por numerosos arranjos moleculares (21) até chegar, nainterface com o citoplasma, a um emaranhado de “hifas” compostopor filamentos e microtúbulos de citoesqueleto... tudo isso fluindo(imerso em fluido extracelular). E tudo isso com a função de ser umaporta seletiva que a célula usa para captar os elementos do meioexterior que são necessários ao seu metabolismo e para liberar assubstâncias que a célula produz e que devem ser enviadas para oexterior (excreções que devem ser libertadas e secreções que ativamvárias funções de seus, por assim dizer, “stakeholders externos”).Esse produto de bilhões de anos de evolução biológica funciona, éclaro, como um sistema não-hierárquico, sem-administração, auto-organizado para permitir o que chamamos de vida e não pode sersubstituído por cancelas corporativas que sigam protocolosalfandegários burros, destinados a disciplinar a interação.Seria inútil simular, nas organizações que voluntariamenteconstruímos, mecanismos semelhantes às membranas celulares. Enem seria o caso de tentar fazê-lo, abusando do paralelo biológico. Oque se deve captar aqui é o padrão, não reproduzir o mecanismo ousimular o organismo. E o padrão é o padrão de interação em rede.“Membranas sociais”, seja o que forem (e como forem), serão sempreredes (mais distribuídas do que centralizadas), interfaces. A única 30
  • 31. solução-fluzz parece ser articular comunidades móveis (noecossistema composto pelos stakeholders da organização) e deixar ainteração configurar tais interfaces, esperando que elas cumpramfunções equivalentes, no mundo social, às que são desempenhadaspelas membranas celulares no mundo biológico.Na verdade, ao estabelecer contornos, estabelece-se a estrutura e adinâmica do que está dentro dos contornos. Membranas são o quesão (e como são) porque os meios que elas conectam são o que são(e como são). Mas tais meios são, eles próprios, constituídos pelainteração, quer dizer, não se constituem como tais antes dainteração. A membrana é um sistema complexo porque é,simultaneamente, uma interseção de conjuntos, uma zona detransição entre um ser e os outros seres nos quais se insere (ou,mais genericamente, com os quais interage), uma forma de ligaçãoou uma espécie de conjunção.Ainda não sabemos muito sobre membranas e, sobretudo, sobre“membranas sociais”. Algumas coisas, porém, já sabemos. Sabemos,por exemplo, que deixar a interação pervadir um sistema nãosignifica propriamente fazer, mas – ao contrário – não-fazer: não-proibir, não-selecionar caminhos (estabelecendo apenas algunscaminhos, proclamando-os como válidos e exterminando todos osdemais caminhos, decretando-os inválidos); fundamentalmente, nãogerar artificialmente escassez (22).Sabemos também que as interfaces devem ser sociais stricto sensu enão organizacionais (em termos das teorias da administraçãobaseadas em comando-e-controle). Ou seja, devem ser baseadas nalivre conversação entre pessoas e na sua espontânea clusterização enão na designação, ex ante à interação, de caixinhas departamentaispara alocar essas pessoas. Simples assim? É, mas a conversação éalgo bem mais complexo do que parece. E os novos procedimentos emecanismos, os novos processos de netweaving e as novastecnologias interativas que inventamos para viabilizar e potencializara conversação, alteram completamente o multiverso das interaçõesque chamamos de social.“Membranas sociais” são interworlds. Ao constituí-las multiplicamosos mundos, dando origem – se quisermos fazer uma comparaçãoquantitativa para efeitos ilustrativos – a bilhões de organizações (emvez de milhões que existem atualmente). Uma mesma pessoaparticipará de muitas organizações, comporá numerosas empresas,entidades, movimentos, enfim, redes – pois tudo isso é válido, claro,na medida em que tudo for rede. Para tanto, não será necessário 31
  • 32. fazer quase nada adicionalmente ao que já se faz hoje. Bastará nãoproibir a conexão, não querer disciplinar a interação.Um bom exemplo, hoje, são as plataformas interativas digitais,chamadas de “redes sociais”. A quantas “redes sociais’” alguémpertence (ou seja, em quantas mídias sociais está registrado)? Onúmero é grande e só tende a crescer.Os emaranhados se adensarão a tal ponto, as timelines ficarão tãocaudalosas, que as identidades organizacionais não se manterão pormuito tempo. Despencaremos da escala de décadas e anos (que é avida média da imensa maioria das organizações que ainda temos)para a escala de meses e dias (ou, quem sabe, de horas e minutos).Não é bem como disse Andi Warhol (1968) – “no futuro todo mundoserá famoso por quinze minutos” – mas é parecido (23). Não é bemcomo ele disse porque ninguém será muito famoso, no sentido devisto por todo mundo, porque não haverá mais o mundo únicoforjado pelo broadcasting. Mas é parecido porque no futuro (umconceito que também será aposentado, de vez que não haverá maisum futuro único, um mesmo futuro para todos), as organizaçõesserão sempre transitórias, estarão sempre fluindo para configuraremoutras organizações e uma mesma configuração não poderá perdurarpor muito tempo.É assim porque redes são móveis. Novamente as mídias sociaisoferecem uma boa imagem do que ocorre. Sites de relacionamento eplataformas interativas nunca são as mesmas ao longo do tempo e avelocidade com que mudam (em anos, dias ou horas) é função dasua interatividade. O exemplo mais flagrante é o twiver (as centenasde milhões – que logo serão bilhões, se considerarmos os sucedâneosdo Twitter – de timelines fluindo no twitter-river).Onde e quando tudo isso vai acontecer? Vai acontecer nos HighlyConnected Worlds do terceiro milênio. Para aqueles mundos que jáestão no terceiro milênio.Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no início de2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor observavaque Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação, 32
  • 33. argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based enão p-based, quer dizer, baseada em interação, não em participação).Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, na ocasião mais comouma brincadeira, para tentar traduzir a idéia de Buzz+fluxo. Ulteriormente aidéia foi desenvolvida no livro Fluzz: vida humana e convivência social nosnovos mundos altamente conectados do terceiro milênio (2011) e passou anão ter muito a ver com o programa mal-sucedido do Google. Fluzz (o fluxointerativo) é um conceito complexo, sintético, que talvez possa ser captadopela seguinte passagem: “Tudo que flui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz éo fluxo, que não pode ser aprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzzé do metabolismo da rede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o cursoconstante que não se expressa e que não pode ser sondado, nem sequerpronunciado do “lado de fora” do abismo: onde habitamos. No “lado dedentro” do abismo não há espaço nem tempo, ou melhor, há apenas oespaço-tempo dos fluxos. É de lá que aquilo (aquele) que flui sem cessarfaz brotar todos os mundos... Em outras palavras, não existe uma mesmarealidade para todos: são muitos os mundos. Tudo depende das fluições emque cada um se move, dos emaranhamentos que se tramam, dasconfigurações de interação que se constelam e se desfazem,intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011 nolivro Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.(1) Cf. LORCA, Frederico Garcia (1924). “Canción Tonta” in Canciones(Obras Completas I). Madrid: Aguilar, 1978.(2) BARROS, Manoel (1993). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.(3) LÉVY, Pierre (1998). “Uma ramada de neurônios” in Folha de São Paulo:15/11/1998. Cf. ainda Caderno Mais da Folha de S. Paulo: 15/11/2002 (p.5-3). O texto está disponível em:<http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/uma-ramada-de-neuronios>(4) Cf. FRANCO, Augusto (1998). O Complexo Darth Vader. Slideshare [469views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-complexo-darth-vader>(5) HERBERT, Frank (1976). Os filhos de Duna. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1985.(6) CASTELLS, Manoel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre aInternet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. 33
  • 34. (7) Trata-se de uma tradução forçada do provérbio “Viam aut aut faciaminveniam” cuja localização não foi possível determinar. Cf. a bibliografia deSENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65) em:<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>(8) SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65). Cf. Wikiquote:<http://pt.wikiquote.org/wiki/S%C3%AAneca>Não foi possível determinar a localização desta citação. Cf. a bibliografia deSENECA: <http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>(9) KAVÁFIS, Konstantinos (1911). Ithaca. Kaváfis não publicou nenhumlivro em vida. Estão disponíveis online as traduções de José Paulo Paes eHaroldo de Campos em:<http://www.org2.com.br/kavafis.htm>(10) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James (2009): Connected: o poderdas conexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.(11) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.(12) HOBBES: Op. cit.(13) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James: Op. cit.(14) MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (1986). Microcosmos: four billionyears of microbial evolution. Los Angeles: University of California Press,1997.(15) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare[1893 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao>(16) ROBINSON, Walter (2008). “Morte e renascimento de uma mentevulcana” in EBERL, Jason & DECKER, Kevin (2008). Star Treck e a filosofia:a ira de Kant. São Paulo: Madras, 2010.O sétimo sentido seria “o senso de unicidade com Tudo, isto é, Universo, aforça criativa, ou o que alguns humanos poderiam chamar de Deus.Vulcanos não vêem, contudo, isso como uma crença, seja religiosa oufilosófica. Eles tratam isso como um simples fato que insistem não ser maisincomum ou difícil de entender do que a habilidade de ouvir ou ver” [comoescreveu o criador da série Star Trek, Gene Roddenberry (1979)]. Vulcanoschamam essa filosofia de “Nome”, querendo dizer “uma combinação de uma 34
  • 35. diversidade de coisas para fazer com que a existência valha a pena”(Episódio “Por trás da cortina”: The Original Series)”. Cf. RODDENBERRY,Gene (1979). The Motion Picture. New York: Pocket Books, 1979.(17) Em Os Persas, Ésquilo descreve os reveses de Xerxes, filho de Dario.Já morto na ocasião, Dario vai então aparecer na peça como uma sombrapara advertir aos persas que jamais movam novamente uma guerra aosgregos. Depois de dar adeus aos anciãos e de recomendar que, mesmo “emmeio a desgraças, alegrem-se na fruição do mundo... a Sombra de Darioesfuma-se no túmulo”.(18) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas aBill Moyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990.(19) MARGULIS, Lynn & SAGAN, Dorion (1998). O que é vida? Rio deJaneiro: Zahar, 2002.(20) A quase totalidade dos procedimentos e mecanismos de obstrução defluxos, estabelecidos nas organizações a pretexto de segurança, não sejustifica (em mais de 90% dos casos, não há nada de realmente decisivo,estratégico ou sigiloso que deva ser protegido ou não-compartilhado,fechado e trancado em vez de permanecer aberto e disponível). Isso valepara os protocolos de segurança impostos pelas áreas chamadas de“tecnologia da informação”. Não há qualquer ganho em proibir o acesso dosfuncionários de uma organização ao Youtube ou ao Messenger, aoSlideshare ou ao 4shared, ao Facebook ou ao Twitter. Não há nenhumarazão para impor programas de e-mail proprietários, lentos, pesados e comlimitações enervantes de poucos megabytes no lugar de adotar correioseletrônicos web mais eficazes, rápidos, com alta capacidade e, além detudo, gratuitos (como o gmail ou o ymail). Não há nenhum motivo paraeditar hierarquias de permissões diferenciais e preferências de acesso aconteúdos que, se fossem realmente secretos (como listas de espiões ouprocessos de fabricação de artefatos de destruição em massa), nãopoderiam mesmo estar em rede. E não há explicação plausível para amanutenção de intranets, sobretudo em uma época em que já existe aInternet.(21) Por exemplo, cabeças hidrofílicas com caudas hidrofóbicas emconjugação com fosfolípidos, aglomerados de proteínas globulares,glicoproteínas, glicolipídios, colesterol, proteínas extrínsecas etc.(22) Cf. FRANCO, Augusto (2009). A lógica da abundância. Slideshare[2.172 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/a-lgica-da-abundncia>(23) WARHOL, Andi (1968). Cf. “15 minutes of fame” em<http://en.wikipedia.org/wiki/15_minutes_of_fame> 35