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As nove partes da Série FLUZZ de Augusto de Franco (2011-2013) reunidas em um único volume

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  • Fluzz é simplesmente SENSACIONAL! Há tempos não tenho tantas reflexões poderosas. Parabéns e obrigado Augusto de Franco!
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  • 1. TODAS AS PARTESEM UM VOLUME
  • 2. 2
  • 3. 3
  • 4. 4
  • 5. 5
  • 6. 6
  • 7. 7
  • 8. A REDEAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de A REDE / Augusto de Franco. – São Paulo: 2012. 80 p. A4 – (Escola de Redes; 7) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 8
  • 9. SumárioIntrodução | 9No multiverso das interações | 12Mundos que se descobrem em rede | 15É o social, estúpido | 23O nome está dizendo: redes sociais | 26É comunicação, não informação | 29É interação, não participação | 35Padrões, não conjuntos | 43Conhecimento é relação social | 46A chefia é contra a liderança | 49Nenhuma hierarquia é natural | 52Poder é uma medida de não rede | 54Autorregulação é sem administração | 56 9
  • 10. Pessoas, não indivíduos | 59As redes sociais já são a mudança | 61Aranhas não geram estrelas-do-mar | 63Epílogo | 66Notas e referências | 69 10
  • 11. IntroduçãoO ERUDITO GERSHOM SCHOLEM (que ficou mais conhecido nos meiosacadêmicos – tão laicos quanto pouco ilustrados – em virtude de sua belaamizade com Walter Benjamin), no seu monumental estudo sobre omisticismo judaico, Major Trends in Jewish Mysticism (1941) (1),comentando a formidável abstração que os cabalistas do século 13denominaram Ein-Sof (o nada primordial do qual emana a “seiva” quepercorre a “árvore” numérica que constitui a estrutura do universo,criando, formando e produzindo a existência), lança mão de uma metáforaluminosa: ele “é – diz – o abismo que se torna visível nas fendas daexistência”. E relata em seguida que “alguns cabalistas que desenvolveramesta idéia, por exemplo, Rabi Iossef ben-Shalom de Barcelona (1300),sustentam que em toda transformação da realidade, em toda mudança daforma, ou toda vez que o status de uma coisa é alterado, o abismo donada é cruzado e por um fugaz momento místico torna-se visível. Nadapode mudar sem entrar em contato com esta região do Ser absoluto puroque os místicos chamam de Nada”.Realmente impressionante. Sem pretender elaborar alguma teosofia dasredes, podemos fazer agora um paralelo meramente literário e apenasevocativo de uma imagem para efeitos heurísticos. Esse mundo oculto dos 11
  • 12. cabalistas provençais, catalães e castelhanos e, depois, safeditas (o mundo– ou árvore – das Sefirot) é como se fosse o mundo das fluições (o espaço-tempo dos fluxos) onde as redes sociais existem, o multiverso dasconexões também ocultas que produzem o que chamamos de ‘social’.Há fendas. Há um abismo que não se deixa ver a menos no instante fugazem que uma fenda se abre. E nada pode mudar na estrutura e na dinâmicado mundo (manifesto, vamos dizer assim – ou produzido) sem que hajauma mudança correspondente nas configurações daquele mundo oculto,ou seja, nos fluxos que o caracterizam ou no ritmo da fluição. Seria algomais ou menos assim, para lançar mão de uma metáfora menos esotérica– mas não tanto – usada pelos físicos contemporâneos, como a vibraçãode uma corda ou de uma membrana.Mas, não! Ainda não é bem isso. Há fendas, sim, mas por trás das fendasnão há uma ordem implícita, pré-existente em alguma esfera oculta: aordem está sempre sendo criada no presente da interação!Que fendas seriam essas? Onde estaria esse abismo?Abismo. Fenda. Quando a fenda se abre, “vemos” fluzz (*). Mas o quevemos quando “vemos” fluzz?Espiar de fora para dentro do abismo nada-revela (e esse, por incrível quenão-pareça, é um dos sentidos daquele nada primordial: porque noprincípio era a rede). Nada se pode ver a não ser que se mergulhe nafluição, como fez o sufi Mojud, “O homem cuja história era inexplicável”(2); quando perguntado de que maneira havia alcançado tanta sabedoria, 12
  • 13. ele não-explicou dizendo assim: “Eu me atirei num rio... [e] simplesmentedeixei”.Goethe (1821) terminou com o seguinte verso o poema Eins und Alles,“tudo deve cair no nada, se quiser persistir em ser” (3). Tem que pulardentro – se abismar – para ver. 13
  • 14. No multiverso das interaçõesA fonte que só existe enquanto-fluzz só pode ser conhecida quandointeragimos, quer dizer, enquanto estamos nelaNO PRINCÍPIO ERA A REDE. Mas o mundo das redes não é um mundo: éum multiverso de interações. Multiverso das interações significa, comodisse Heráclito, que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”; ou,talvez corrigindo antecipatoriamente seu “discípulo” Crátilo, que“descemos e não descemos nos mesmos rios”.Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: sãomuitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interaçõesque se constelam e se desfazem, intermitentemente.Na verdade, quem se move é essa rede que nos envolve, como aquele “rioque deflui silencioso dentro da noite” no verso de Manuel Bandeira (1948)(4). Como aquele rio que corre no “lado de dentro” do abismo.O ritmo da fluição está implicado no modo de interagir. Diferentementedo que se pensava, não é o conteúdo do que flui a variável fundamentalpara explicar a fenomenologia de uma rede e sim o modo-de-interagir esuas características. 14
  • 15. Quanto mais distribuída for a topologia de uma rede, mais-fluzz ela será.Quer dizer, mais interatividade haverá. E mais evidentes serão essascaracterísticas (invisíveis do “lado de fora” do abismo) do seu modo-de-interagir.Conhecer as redes é interpretar modos-de-interagir (reconhecendopadrões). O que só se pode conseguir interagindo (estabelecendoconexões). Eis o principal fundamento de uma teoria do conhecimentofluzz – que é também uma teoria conectivista da aprendizagem e umateoria da ação comunicativa por acoplamento estrutural e coordenação decoordenações (Maturana e Varela). Com efeito, Francisco Varela (1984)escreveu que “não há informação transmitida na comunicação. Acomunicação ocorre toda vez em que há coordenação comportamental emum domínio de acoplamento estrutural... cada pessoa diz o que diz e ouveo que ouve segundo sua própria determinação estrutural... O fenômeno dacomunicação não depende do que se fornece, e sim do que acontece com oreceptor” (5). Na verdade, depende do que acontece com os interagentes.A comunicação vareliana é uma interação: se A se comunica com B,significa que B muda com A, que muda com B, que muda novamente comA, que muda outra vez com B... e assim por diante, recorrentemente,como em uma coreografia. Mas tudo isso “multiplicado” pelo número denodos em interação, pois que se trata sempre de um multi-acoplamento,não ocorre aos pares, mas entre todos os que compõem cada um dosmuitos mundos que se configuram.Goethe – em um insight heraclítico – escreveu que “a fonte só pode serpensada enquanto flui” (6). Alguém é nodo de uma rede nisi quatenus 15
  • 16. interage. A fonte que só existe enquanto flui (fluzz) só pode ser conhecidaenquanto interagimos, quer dizer, enquanto estamos nela.Bem, isso muda tudo. 16
  • 17. Mundos que se descobrem em redeO social não é o conjunto das pessoas, mas o que está entre elasA GRANDE NOVIDADE DO TEMPO em que vivemos não é o surgimento deuma sociedade em rede (que, de resto, sempre existiu desde que existemseres humanos em interação), mas a generalização do entendimento deque sociedade = rede social.Na verdade, não existe nada como ‘a’ sociedade: as sociedades sãosempre configurações concretas e particulares que, olhadas de certoponto de vista, revelam seres humanos em interação; quer dizer, acompreensão do social surge quando se constela a percepção de que nãoexistem unidades humanas separadas. De que o social não é o conjuntodas pessoas, mas o que está entre elas. E de que cada mundo social étambém (um modo de ser) humano. A medida que esses mundos sociaisvão se descobrindo em rede, como se diz, “as fichas vão caindo”. Váriosaspectos surpreendentes dessa descoberta já podem ser registrados. Oprimeiro deles é que redes mais distribuídas do que centralizas sãopossíveis, sim, no “mundo real”.As redes sociais viraram moda nos últimos anos. Sites de relacionamento eserviços de emissão e troca de mensagens na Internet como, dentre 17
  • 18. centenas de outros, MySpace, Facebook, Orkut e Twitter, que seautodenominaram (ou foram denominados) – impropriamente – ‘redessociais’, proliferaram na primeira década do século 21, registrandomilhões de pessoas.É fácil. Em geral não demora nem cinco minutos. Então muitos dessesmilhões de usuários de tais serviços acreditaram na conversa e acharamque, pelo fato de terem feito login e senha em um ou em vários dessessites, estavam “participando de redes sociais”.Fosse lá alguém dizer-lhes que redes sociais não são redes digitais ouvirtuais, mas, como o nome está dizendo, são sociais mesmo: um novopadrão de organização, mais distribuído do que centralizado.As pessoas não entendiam as redes, antes de qualquer coisa porque nãosabiam a diferença entre descentralizado e distribuído. Não percebiamque descentralizado não é sem centro e sim com muitos centros. Semcentro é distribuído.A figura abaixo mostra os famosos diagramas de Paul Baran (1964) (7).Note-se que os nodos estão no mesmo lugar, o que muda nos trêsdesenhos é a topologia, a configuração dos fluxos.A maioria das pessoas que se registraram nas tais “redes sociais”,entretanto, nunca tinha ouvido falar disso. De milhões de pessoasregistradas em sites de relacionamento e plataformas interativas, quantas,na hora de elaborar um texto, vídeo ou programa, organizar um evento,implementar ou executar um projeto, produzir algum bem, vender algum 18
  • 19. produto ou prestar um serviço, atuavam em rede? E quantas abriram mãode dirigir, participar ou trabalhar em alguma organização hierárquica(quer dizer, mais centralizada do que distribuída)? Diagramas de Paul BaranMesmo os que já tinham ouvido falar das redes sociais como novo padrãode organização distribuído – mesmo estes – tentavam escapar dessaevidência aproveitando a profusão dos sites de relacionamento eplataformas interativas na Internet. A maioria fazia um blog ou seregistrava em alguma "rede social" e pronto: de vez em quando ia lá, 19
  • 20. postava um texto, um vídeo ou um comentário e dizia que "pertencia" auma (ou várias) rede(s). No restante do tempo, porém, essas pessoascontinuavam estudando, trabalhando, produzindo ou prestando serviçosem organizações hierárquicas (fosse uma burocracia escolar ouacadêmica, uma empresa, uma organização não-governamental ou umainstituição estatal). Havia exceções, é claro. Mas, na maior parte doscasos, era assim.Inclusive acadêmicos, militantes sociais e consultores que falavam tantoem redes sociais, por algum motivo tinham imensa dificuldade de articulá-las. Provavelmente porque não conseguiam experimentá-las. Bastava vercomo essas pessoas se relacionavam com as outras pessoas que lhe erampróximas: será que elas participavam de redes nos seus locais de moradia,estudo, trabalho, lazer ou em torno de seus temas de interesse?Em suma, as pessoas tendiam (e, em grande parte ainda tendem) a seorganizar – reproduzindo o que é de praxe - segundo um padrão deorganização centralizado ou multicentralizado. Para manter centralizaçõese filtros que caracterizam uma organização hierárquica, os maisinteligentes em geral argumentavam que “tem que haver uma transição”,ou que “uma organização em rede distribuída (em um mundo como onosso) é uma utopia”. E argumentava assim inclusive boa parte dos queinvestigavam as redes sociais e publicavam sobre o assunto.Com o surgimento de novos mundos-fluzz, as coisas, entretanto,começam a se passar de outro jeito. A idéia de que redes sociais (maisdistribuídas do que centralizadas) não são possíveis no “mundo real” (seja 20
  • 21. lá o que se entende por isso) como forma de (auto) organização da açãocoletiva, foi sendo abandonada. Essa idéia, como se sabe, está baseada novelho preconceito de que nada que agregue uma pluralidade de sereshumanos poderia funcionar sem administração (baseada em comando-e-controle), sem organização (a partir de modelos de ordem aplicados topdown), sem liderança (ou melhor, monoliderança).Foi ficando cada vez mais claro que, em qualquer lugar, pode-se “fazerredes”. Sim, em qualquer lugar: na vizinhança, na empresa, na ONG,entidade ou organização da sociedade civil, em um órgão governamentalet coetera. Pouco importa se a estrutura dessas localidades ouorganizações é vertical, hierárquica, centralizada: as pessoas que estão lánão são e não há como impedir que elas se conectem horizontalmente, demodo distribuído, umas com as outras. E não importa se todas as pessoasnão estiverem dispostas a fazer isso. E não importa se a maioria daspessoas em cada uma dessas territorialidades ou organizações for contraisso. A partir de três pessoas já é possível começar uma rede distribuída.Fazendo isso, articulando uma rede distribuída, cria-se uma “zonaautônoma” (em relação ao poder centralizado). Se for uma rededistribuída (a rigor, mais distribuída do que centralizada), coisassurpreendentes começarão a acontecer (na medida do grau dedistribuição e de conectividade alcançados). Uma nova fenomenologiacertamente acompanhará a nova topologia. Pode-se apostar que isso farádiferença. E que a diferença será notável.Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio começa abrotar a consciência de que fazer rede é fazer amigos. Amigos políticos, no 21
  • 22. sentido original, grego, do termo ‘político’, que se refere à interação e àinserção na comunidade política; i. e., à polis – que não era a cidade-Estado e sim a koinonia política (como assinalou Hannah Arendt em “Acondição humana” (1958): “a polis não era Atenas, e sim os atenienses”)(8). Isso é uma subversão completa das identidades organizacionaisabstratas, construídas top down para alocar uma pessoa em um degrau daescada. Para que ela pise na cabeça de quem está no degrau de baixo etente ultrapassar quem está no degrau de cima, agarrando-se a ele epuxando-o para baixo, como fazem os caranguejos em uma lata...Essa é a grande descoberta da democracia como movimento dedesconstituição de autocracia, instaurada na experiência local dos gregospara evitar a volta da tirania dos Psistrátidas (que, como qualquer podervertical, se baseava na inimizade política). Tratava-se de preservar aliberdade. Mas como escreveu a mesma Arendt, em “A questão daguerra” (1959): [para os gregos] “a liberdade... é um atributo do modocomo os seres humanos se organizam e nada mais” (9). Dizendo de outramaneira (e pulando algumas passagens da argumentação): a falta deliberdade é uma função direta dos superávits de ordem top down.Antes era mais difícil reconhecer isso: todas as organizações verticais sebaseiam na inimizade política: quanto mais centralizadas, mais “sealimentam” de inimizade e de seus bad feelings acompanhantes, como adesconfiança. Ora, é isso que torna imperativa a necessidade de controlee, por decorrência, a exigência de obediência. 22
  • 23. Fazer amigos é uma subversão de todos os mecanismos de comando-e-controle. Fazer amigos que se conectam em rede distribuída dentro deuma organização hierárquica vai desabilitando ou corrompendo os scriptsdos programas verticalizadores que rodam nessa organização. Redesdistribuídas, mesmo com pequeno número de nodos, funcionam, assim,dentro de uma organização hierárquica, como espécies de vírus; oumelhor, de anti-virus (pois em relação à rede-mãe – aquela rede queexiste independentemente de nossos esforços conectivos voluntários, àrede que existe desde que existam seres humanos que se relacionamentre si – são os programas verticalizadores que devem ser encaradoscomo vírus).Trata-se de uma infecção antiga, resistente, resiliente, que permanece namedida em que nós nos transformamos em vetores de contaminação pormeio de nossas formas de relacionamento. Cada piramidezinha queconstruímos, nos espaços privados e públicos que habitamos, na nossafamília, escola, igreja, entidade, corporação, empresa, partido ou governo,vai viabilizando a prorrogação da infestação do poder vertical. Pelocontrário, cada rede que articulamos vai dificultando a propagação dessevírus ou a replicação desse meme, por meio da criação de zonasautônomas, mesmo que sejam temporárias (e são, como percebeu HakimBey) (10), criando condições para que a confiança possa transitar (ou paraque o capital social possa fluir, se preferirmos usar essa metáfora), paraque a competição possa ser convertida em cooperação; enfim – em umsentido ampliado do termo – para a manifestação da amizade (ou parafazer “downloads” daquela emoção que Maturana (11) chamou... vejam 23
  • 24. só!, de amor, mas a palavra parece ser forte demais – um verdadeiroescândalo – e acaba chocando as pessoas que se imaginam preocupadascom coisas “mais sérias”.Mas não se trata de converter as almas por meio do proselitismo, dodiscurso ético normativo, exalçando as vantagens da cooperação sobre acompetição, como imaginavam os adeptos das concepções 2.0. Trata-sede adotar padrões de organização que viabilizem a conversão decompetição em cooperação. Parodiando Arendt, “a cooperação... é umatributo do modo como os seres humanos se organizam e nada mais”. Senos organizamos segundo um padrão de rede distribuída, isso começa aocorrer “naturalmente”; quer dizer, é uma fenomenologia que semanifesta em função da topologia (e não das boas intenções dos sujeitos).Uma organização hierárquica de seres animados pelas melhoresintenções, cheios de amor-prá-dar, não se constitui como um ambientefavorável à cooperação. Em outras palavras, o capital social de umaorganização rigidamente centralizada será sempre próximo de zero,mesmo que tal organização seja composta por clones de Francisco deAssis ou por réplicas perfeitas de Mohandas Ghandi.Essas descobertas foram conseqüências da formidável irrupção-fluzz quecomeçou a alterar radicalmente nossos flowscapes conceituais eorganizacionais. Mas tem mais. 24
  • 25. É o social, estúpido!As redes sociais não surgiram com as novas tecnologias de informação ecomunicaçãoQUANDO MARSHALL MCLUHAN AFIRMOU, em uma palestra proferida em1974, que “é o ambiente que muda as pessoas, não a tecnologia” aindanão haviam surgido constructs – como o de capital social como rede social– capazes de justificar adequadamente tal afirmação (12). Como se sabe, aidéia de que capital social nada mais é do que rede social, ainda que tenhasido formulada em 1961, por Jane Jacobs, ficou praticamentedesconhecida por mais de duas décadas (13). Os esforços pioneiros deColeman (1988) (14) não resgataram essa descoberta surpreendente,segundo a qual a influência do ambiente depende de padrõesconformados pela interação (e a própria natureza do que chamamos deambiente nada mais é do que a de um “campo”, em um sentido deslizadodaquele em que a palavra é empregada em física: como campo de forças).Mas a hipótese de McLuhan revelou-se correta e pode ser justificadadesse ponto de vista (e talvez só assim possa ser justificada). O ambientemuda as pessoas porque o comportamento individual é sempre função,em alguma medida, das relações entre as pessoas. E, além disso, porqueas próprias pessoas se constituem, como tais, na interação (um indivíduo 25
  • 26. isolado da espécie humana, se pudesse subsistir, não poderia ser umapessoa).Conquanto ainda esteja bastante difundida a idéia de que redes são umnovo tipo de organização surgida com as novas tecnologias de informaçãoe comunicação (TICs), tal idéia vem se revelando inconsistente, sobretudoporque deixa de ver o fundamental: redes são um padrão de organizaçãoque pode ser ensaiado com diferentes mídias e tecnologias (até com sinaisde fumaça, tambores, conversações presenciais, cartas escritas à mão empapel e transportadas à cavalo et coetera).Ou seja, é o social que determina comportamentos, não o tecnológico.Pode-se usar tecnologias interativas de um modo que não altere em nadaou quase nada os padrões de interação. Por exemplo, computadoresconectados à internet na maioria das escolas não viabilizam, por si só,mudanças no padrão de interação entre os alunos, que continuamorganizados como rebanho, cada qual com sua supermáquina conectada,mas todos virados para um professor que centraliza a rede.Na formulação, a várias mãos, da Declaração de Independência dosEstados Unidos (1776), a tecnologia utilizada (midia) foi a carta escrita empapel, o cavaleiro (carteiro) e o cavalo, mas o padrão de interação foi, aoque tudo indica, o de rede distribuída. Hoje, mais de dois séculos depois, oprocesso de elaboração de uma diretiva estratégica no Pentágono, adespeito de usar sofisticados meios de comunicação interativos, revela umpadrão de interação centralizado. 26
  • 27. Ao contrário do que parece, as redes sociais não surgiram com as novastecnologias de informação e comunicação. Ainda que tecnologias maisinterativas em tempo real (ou sem-distância) possam facilitar a adoção depadrões mais distribuídos do que centralizados de organização – epossam, além disso, acelerar a interação – é o modo como as pessoasinteragem (social) e não o recurso (tecnológico) que determina ocomportamento coletivo. A fenomenologia é sempre função da topologia,seja qual for a tecnologia empregada.Acelerando a interação, entretanto, alguns fenômenos que só seriamperceptíveis em linhas temporais muito longas, podem ser captados maisrapidamente. É o caso do swarming de pessoas: enxameamentos cívicoslevando a grandes manifestações de massa podem ser observados, casohaja possibilidade de conexão em tempo real (por telefone móvel ou e-mail, por exemplo), em horas ou até minutos (15). Sem tais recursostecnológicos, esses fenômenos (ou seus similares ou correspondentes)poderiam levar dias ou até anos para se engendrar. Mas isso não significaque eles ocorrem por causa da tecnologia. Se as pessoas não pudereminteragir uma-a-uma (P2P), se não estiverem conectadas segundo umpadrão distribuído, de pouco adiantarão as mais avançadas tecnologiasinterativas. O mesmo vale para outros fenômenos típicos das redes: elesdependem do padrão de interação (dos graus de distribuição econectividade) e não das tecnologias (dos recursos, dos dispositivos, dasmídias). 27
  • 28. O nome está dizendo: redes sociaisRedes sociais são pessoas interagindo, não ferramentasEMBORA TENHA SE ALASTRADO COMO UMA PRAGA a idéia de que asredes sociais são a mesma coisa que as mídias sociais, redes digitais,ambientes virtuais, sites de relacionamento (como Facebook ou Orkut) ouplataformas interativas (como Ning ou Elgg), tal idéia se revelouequivocada, sobretudo porque elide o fato de que redes sociais sãopessoas interagindo, não ferramentas.Essa discussão ganhou força nos últimos tempos com a busca porferramentas digitais – plataformas interativas na Internet – maisadequadas ao netweaving, quer dizer, para servir de instrumentos dearticulação e animação de redes sociais (16).Três hipóteses surgiram para explicar por que as plataformas interativasdisponíveis, que foram desenvolvidas para a gestão de redes sociais (ouaté mesmo para serem, elas próprias, “redes sociais”) não eram boasferramentas de netweaving:Em primeiro lugar porque seus desenvolvedores confundiam midiassociais com redes sociais, tomavam a ferramenta (digital) pela rede 28
  • 29. (social), quando, como vimos, redes sociais são pessoas (conectadas,interagindo), não ferramentas!Em segundo lugar porque, sob o influxo da chamada Web 2.0, asplataformas disponíveis eram (e ainda são, em grande parte) baseadas naparticipação (p-based) e não na interação (i-based). Assim, não se regiampela lógica das redes mais distribuídas do que centralizadas, quer dizer,pela lógica da abundância (17), mas sim pelo regime da escassez (e aoaceitarem tal condicionamento, de ter que funcionar em condições deescassez quando já há abundância, reproduziam desnecessariamenteescassez, rendendo-se a um tipo de "economia política" onde a política éum modo de regulação não-pluriárquico). Não é outro o motivo pelo qualativavam mecanismos de contagem de cliques, instituíam votações eatribuições de preferências baseadas na soma aritmética, que significamregulações majoritárias da inimizade política. Ora, isso ensejava aformação de oligarquias participativas que tentavam organizar a auto-organização (como ocorreu, por exemplo, na Wikipedia).Em terceiro lugar - e como conseqüência do seu fundamento p-based - asplataformas de articulação e animação de redes sociais (que já seencaravam, algumas delas pelo menos, como se fossem as próprias redessociais), ainda estavam voltadas para organizar conteúdos (encarando,inevitavelmente, o conhecimento como um objeto e não como umarelação social). Esse é um problema porquanto a gestão do conteúdo, doconhecimento-objeto, ao tentar traçar um caminho para os outrosacessarem tal conteúdo, cava sulcos para fazer escorrer por eles as coisasque ainda virão (na e da interação), com isso repetindo passado e 29
  • 30. trancando o futuro (como fazem, secularmente, as burocracias sacerdotaisdo conhecimento, mais conhecidas pelo nome de escolas e não é poracaso que boa parte dessas plataformas tenha sido pensada porprofessores ou construída para atender a objetivos educacionais,entendidos como objetivos de ensinagem e não de aprendizagem). Maspara uma plataforma i-based - adequada ao propósito de servir deferramenta para o netweaving - não se trataria de pavimentar umaestrada para os outros percorrerem e sim de possibilitar que cada umpudesse abrir seu próprio caminho (posto que redes são múltiploscaminhos).Ademais, ao contrário do que acreditavam os supostos especialistas emredes sociais na Internet, não é o conteúdo do que flui a variávelfundamental para explicar a fenomenologia de uma rede e sim o modo-de-interagir.Mas para compreender essas observações é necessário entender quaissão, afinal, as diferenças entre comunicação e informação e entreinteração e participação. São questões fundamentais porque, de certomodo, entende-las é entender as redes. 30
  • 31. É comunicação, não informaçãoRedes sociais não são redes de informaçãoQUANDO NORBERT WIENER (1950) escreveu, em Cibernética e Sociedade,que “um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal”, abriuuma linha de reflexão segundo a qual todas as coisas – inclusive aspessoas, que, segundo ele, não passam “de redemoinhos em um rio deágua sempre a correr” – são como que singularidades em um continuum,campo, tecido ou espaço (18). A hipótese é fértil, inclusive pelo seu poderheurístico. Mais do que isso, entretanto: é uma hipótese-fluzz.Mas por essa porta aberta à imaginação criadora, também passou umpensamento rastejante: como transmissão de mensagem evoca sempreinformação, uma visão de que tudo poderia ser reduzido, em últimainstância, à informação, acabou se estabelecendo. Redes, pensadas maiscomo redes de máquinas que trocam conteúdos entre si, foram assimconcebidas como redes de informação.Uma das descobertas tão recentes quanto surpreendentes nesta ante-salada época-fluzz em que vivemos é que, ao contrário do que pensavam osteóricos da informação, redes sociais não podem ser reduzidas à redes deinformação. Ainda que toda influência seja um padrão, ela não pode ser 31
  • 32. reduzida a um código. É o padrão de interação que é relevante e não atransmissão-recepção da mensagem entendida como um conteúdo dearquivo.Redes sociais são redes de comunicação, é óbvio. Mas ainda que oconceito de informação seja bastante elástico, isso não é a mesma coisaque dizer que elas são redes de informação. Redes são sistemasinterativos e a interação não é apenas uma transmissão-recepção dedados: se fosse assim não haveria como distinguir uma rede social(pessoas interagindo) de uma rede de máquinas (computadoresconectados, por exemplo).Ao tomar as redes sociais como redes de informação, imaginando quetudo não passa de bytes transmitidos e recebidos, freqüentementedeixávamos de ver que a comunicação modifica os sujeitos interagentes (esó acontece quando tal modificação acontece). Humberto Maturana eFrancisco Varela explicaram isso muito bem em um box (ao que tudoindica atribuído ao segundo) do livro A Árvore do Conhecimento (1984)intitulado “A metáfora do tubo para a comunicação” (19): “Nossa discussão nos levou a concluir que, biologicamente, não há informação transmitida na comunicação. A comunicação ocorre toda vez em que há coordenação comportamental em um domínio de acoplamento estrutural. Tal conclusão só é chocante se continuarmos adotando a metáfora mais corrente para a comunicação, popularizada pelos meios de comunicação. É a metáfora do tubo, segundo a qual a comunicação é algo gerado em 32
  • 33. um ponto, levado por um condutor (ou tubo) e entregue ao outro extremo receptor. Portanto, há algo que é comunicado e transmitido integralmente pelo veículo. Daí estarmos acostumados a falar da informação contida em uma imagem, objeto ou na palavra impressa. Segundo nossa análise, essa metáfora é fundamentalmente falsa, porque supõe uma unidade não determinada estruturalmente, em que as interações são instrutivas, como se o que ocorre com um organismo em uma interação fosse determinado pelo agente perturbador e não por sua dinâmica estrutural. No entanto, é evidente no próprio dia-a-dia que a comunicação não ocorre assim: cada pessoa diz o que diz e ouve o que ouve segundo sua própria determinação estrutural. Da perspectiva de um observador, sempre há ambigüidade em uma interação comunicativa. O fenômeno da comunicação não depende do que se fornece, e sim do que acontece com o receptor. E isso é muito diferente de ‘transmitir informação’.”Além disso, há características da interação que não se resumem àquelatransmissão-recepção de conteúdos evocada pelo uso corrente doconceito de informação. Em uma rede social é como se as pessoasestivessem emaranhadas e a modificação do estado de uma pessoa em-interação com outra acaba alterando o estado dessa outra sem que,necessariamente, tenha havido a transmissão voluntária (e, talvez nemmesmo involuntária) de uma mensagem da primeira para a segunda. Porexemplo, uma pessoa tende a se adaptar ao comportamento das outras,tende a imitar padrões de comportamento reconhecidos nas outras e 33
  • 34. tende, inclusive, a cooperar com elas (voluntária e gratuitamente). Umapessoa pode ficar alegre ou triste, saudável ou doente, esperançosa oudescrente, em função da estrutura e da dinâmica desse emaranhado emque está imersa. Ao contrário do que se acredita, nada disso dependediretamente de um conteúdo transferido e recebido, intencionado natransmissão e interpretado na recepção, mas é função de outrascaracterísticas do modo-de-interagir como a freqüência e a recursividade,as reverberações e os loopings, os laços de retroalimentação etc.É mais ou menos como o que revelou a investigação de Deborah Gordon(1999), professora de ciências biológicas em Stanford, que pesquisoudurantes dezessete anos colônias de formigas no Arizona. Ela descobriuque “a decisão de uma formiga quanto a uma tarefa é baseada em suataxa de interação”. Mas “o que produz o efeito é o padrão de interação,não um sinal na própria interação. As formigas não dizem umas às outraso que fazer por meio da transferência de mensagens. O sinal não está nocontato, ou na informação química trocada no contato. O sinal está nopadrão de contato” (20). Ou seja, não se trata de uma comunicação deconteúdo, de um código, mas da freqüência e das circunstâncias em quese dão os contatos.Em uma rede estamos sofrendo a influência de um campo, mas talinfluência é sistêmica e o comportamento adotado por um agentedificilmente pode ser atribuído à ação e muito menos à intenção única eexclusiva de outro agente. Quer dizer, quando ficamos alegres em virtudedesse efeito sistêmico do campo em que estamos imersos (a rede) é comose tal fato fosse inexplicável, o que significa apenas que não conseguimos 34
  • 35. explicá-lo com base nos nossos esquemas explicativos habituais, focadosnos indivíduos e não na rede, apontando um sujeito particular que nossugestionou positivamente ou exerceu essa influência sobre nós de outraforma conhecida. Mas não é assim que a coisa funciona.Quando foi observado que os habitantes da famosa Roseto, naPensilvânia, se mostravam mais saudáveis, do ponto de vistacardiovascular, do que as pessoas das comunidades vizinhas, muitosemelhantes à Roseto, em vários aspectos, isso não pôde ser atribuído anenhum fator particular (genética, alimentação, exercícios físicos, atençãoà saúde preventiva ou cuidados médicos), mas foi associado corretamenteà comunidade. O mistério só foi resolvido quando dois pesquisadores(Stewart Wolf e John Bruhn) resolveram observar como as pessoasinteragiam (“parando para conversar na rua ou cozinhando umas para asoutras nos quintais”). “Elas eram saudáveis – conta Malcolm Gladwell(2008) – por causa do lugar onde viviam, do mundo que haviam criadopara si mesmas…” (21). Sim, interação e lugar. Em outras palavras,conversações e comunidade. Em outras palavras, ainda: rede social!É claro que, a despeito do que foi dito aqui, ainda se pode afirmar quetudo se reduz, em última instância, à informação: em qualquer interação,em termos físicos, partículas mensageiras de um dos quatro campos deforças se “deslocaram”, se espalharam ou se aglomeraram (o simples fatode ver alguém, por exemplo, implica “deslocamentos” de bósons – nocaso, de fótons, partículas mensageiras do campo eletromagnético) e issopode, corretamente, ser interpretado como informação. Mas o significadoda palavra informação – tal como é tomado no dia-a-dia ou mesmo como 35
  • 36. às vezes é usado pelos chamados “cientistas da informação” – não ajudamuito a entender os fenômenos que acontecem nas redes sociais e quelhes são próprios. 36
  • 37. É interação, não participaçãoRedes sociais são ambientes de interação, não de participaçãoA AFIRMAÇÃO SÓ É VÁLIDA, claro, para redes distribuídas, quer dizer, maisdistribuídas do que centralizadas. Quanto mais distribuída for a topologiade uma rede, mais ela poderá ser i-based (interaction-based) e menos p-based (participation-based). Tudo que fluzz é i-based, não p-based.A palavra participação designa uma noção construída por fora dainteração. Participar é se tornar parte ou partícipe de algo que não foireinventado no instante mesmo em que uma configuração coletiva deinterações se estabeleceu, mas algo que foi (já estava) dado ex ante.Como se a gente sempre participasse de algo “dos outros”. Não é poracaso que a expressão democracia participativa foi aplicada paradesignar diversas formas de arrebanhamento, inclusive uma variedade deexperiências assembleísticas adversariais, onde a tônica era a luta, adisputa por maioria ou hegemonia e se praticava a política como “arte daguerra” lançando-se mão de modos de regulação de conflitos que geramartificialmente escassez (como a votação, o rodízio, a construçãoadministrada de consenso e, inclusive, sob alguns aspectos, o sorteio). 37
  • 38. Mas isso não significa exatamente, como pode parecer à primeira vista,que interagir, então, diga respeito somente à atuação em algo "nosso"enquanto participar diga respeito à atuação em algo "dos outros".Não, não é bem assim, a menos que esse "nosso", aqui, não seja tomadoem um sentido proprietário (como eufemismo, para dizer "meu") emcontraposição ao "dos outros" (“deles”). O "nosso" conformado nainteração não se pré-estabelece, não conforma uma identidadeidentificável com um grupo determinado de agentes antes da interação,ao contrário do "nosso" (na lógica coletiva de um "eu" organizacional jáconstruído) quando esse "nosso" foi instituído por um grupo que, ao fazê-lo, estabeleceu uma fronteira (dentro ≠ fora) independentemente dainteração fortuita que já está acontecendo e que ainda virá. Neste caso, aorganização será um congelamento de fluxos, uma cristalização de umasituação pretérita, um pedaço do passado cortado que se enxertacontinuamente no presente para manter as configurações que, em algummomento, atribuíram a determinadas pessoas certos papéis que se querreproduzir (essa é a triste história da liderança, ou melhor, damonoliderança, dos líderes que, tendo liderado algum dia, querem seprorrogar, eternizando uma constelação passada para continuarliderando).Assim, quando fazíamos uma organização ou lançávamos um movimentoe chamávamos uma pessoa para nela entrar ou a ele aderir, estávamoschamando-a à participação. Estávamos abrindo a (nossa) fronteira paraque o outro pudesse entrar. Em uma rede (mais distribuída do quecentralizada), as fronteiras são sempre mais membranas do que paredes 38
  • 39. opacas, não precisam ser abertas, não se estabelecem antes da interaçãoe todos os que estão em-interação estão sempre "dentro" (aliás, estar"dentro", neste caso, é sinônimo de estar interagindo, mesmo que alguémsó tenha começado ontem e os demais há anos). Estarão “dentro”também os que ainda virão, quando passarem a interagir, sem anecessidade de serem recrutados, provados, aprovados, admitidos einiciados pelos que já estão.A diferença parece sutil, mas é brutal no que diz respeito aofuncionamento orgânico. O participacionismo (que contaminou achamada Web 2.0) instituiu modos de regulação que produzemartificialmente escassez (e, portanto, centralizam a rede, gerandooligarquias participativas compostas pelos que mais participam, pelos quesão mais votados ou preferidos de alguma forma – mais ouvidos, maislidos, mais comentados, mais adicionados, mais seguidos –, os quaisacabam adquirindo mais privilégios ou autorizações regulatórias do que osoutros). Formam-se neste caso inner circles, instâncias mais estratégicasdo que as demais (os outros clusters e as pessoas comuns, não-destacadasda “massa”), que passam, estas últimas, para efeitos práticos, a seremconsideradas táticas (para os propósitos dos estrategistas, dos quepossuem mais atribuições): e não é a toa que os membros do “círculoexterno” freqüentemente são chamados de “público”, “usuários”, (meros)“participantes”, com permissões mais restritas e poderes regulatóriosdiminutivos (22).Em um sistema-fluzz, baseado na interação, a regulação é pluriárquica,quer dizer, é sempre feita com base na lógica da abundância: ou seja, as 39
  • 40. definições dependem das iniciativas das pessoas que queiram tomá-las oua elas queiram aderir, jamais impondo-se, o que pensam alguns, aosdemais (por critérios de maioria ou preferência verificada). Assim, em umsistema baseado na interação, nunca se decide nada em nome do sistema(a organização em rede), ninguém fala por ele, ninguém pode representá-lo ou receber alguma delegação do coletivo (porque, na ausência derepresentação, esse “eu = ele” coletivo não pode expressar-se (porhipóstase) como um ser de vontade ou que seja capaz de acatar qualquervontade, ainda que fosse a vontade de todos). E não há deliberaçãoporque não há necessidade de deliberar nada por alguém ou contraalguém ou a favor de alguém (que tivesse que delegar ou alienar seupoder a outrem).Em uma organização i-based, nunca se fala em nome da organização,nunca se promove nada por ela e nem mesmo seus fundadores podemempenhar, emprestar, parceirizar a sua marca para coisa alguma, aindaque seja para propor uma atividade totalmente dentro do escopo daorganização. Em outras palavras, não há um ativo organizacional quepossa ser apropriado (nem mesmo como patrimônio simbólico) poralguém em particular, porque as dinâmicas pluriárquicas não permitem.Dessarte, não há um "nós" organizacional que estabeleça uma fronteiraentre os "de dentro" e os "de fora". Todos que estão fora podem entrar.Todos os que estão dentro podem sair (e podem voltar a qualquermomento; e sair de novo, quantas vezes quiserem). Entrar não significapertencimento a algum corpo separado do meio por fronteirasimpermeáveis, nem adesão (ou profissão de fé) a algum codex e sair não 40
  • 41. significa discordância, “racha”, deserção, traição, divórcio ou qualquertipo de ruptura. E quem compõe tal organização afinal? Ora, quem nelaquiser se conectar e interagir, aqui-e-agora. Quem saiu não é mais, masnão porque tenha se desligado e sim porque não está interagindo. Quemnão entrou não é ainda, mas não porque não tenha sido aprovado e aceitoe sim porque, igualmente, não está interagindo.Porque rede é fluição. Nodo de uma rede é tudo o que nela interage. Essafoi a grande descoberta-fluzz do tempo vindouro que está vindo.É certo que, mesmo nas redes mais distribuídas do que centralizadas, afreqüência e outras características da interação, vão ensejando aformação de laços internos de confiança, de sorte que nem todos sãoiguais no que tange ao que correntemente se chama de liderança.Algumas pessoas podem ter oportunidades de serem mais avaliadas pelasoutras e até de obterem uma adesão maior às suas iniciativas do que asoutras, em virtude da sua interação, quer dizer, do seu modo-de-interagire do seu, vá lá, histórico de interação (mas não de qualquer atribuiçãodiferencial que tenham recebido de fora ou de cima ou mesmo em virtudeda adoção de modos de regulação geradores de escassez querecompensem algum esforço de participação voltado a "ganhar" asdemais pessoas, conquistando hegemonia ou maioria). Nas redes (maisdistribuídas do que centralizadas) não se quer regular a inimizade políticae sim deixar que a amizade política auto-regule o funcionamento dosistema. Não há um corpo docente, uma burocracia coordenadora e, nemmesmo, um time ou equipe de facilitadores (cuja formação seja baseadaem critérios de mérito ou conhecimento, antiguidade, popularidade ou 41
  • 42. outra característica qualquer que não possa ser verificada e checadaintermitentemente na interação).Esse é o motivo pelo qual nas redes sociais (mais distribuídas do quecentralizadas) não se deve (e enquanto elas forem mais distribuídas quecentralizadas, não se pode) montar uma patota dirigente, coordenadora,facilitadora ou erigir uma igrejinha de mediadores. A construção de um“nós” organizacional infenso à interação ou protegido contra aimprevisibilidade da interação para manter sua identidade ou integridade(e, supostamente, para assegurar – como guardiães – que a organizaçãonão se desvie de seus propósitos, não viole seus princípios e não fuja doseu escopo), ao gerar uma identidade compartilhada por alguns “maisiguais” que outros, centraliza a rede, deixando-a à mercê doparticipacionismo; quando não de coisa pior.Sim, é difícil não tentar organizar a auto-organização. E é dificílimo nãotentar reunir alguns para, como se diz, “colocar um pouco de ordem nacasa”. Mas aqui vale aquela frase brilhante de Frank Herbert, uma pérolagarimpada em “O Messias de Duna” (1969): “Não reunir é a derradeiraordenação” (23). Para quê re-unir o que já está unido = conectado(interagindo)? E se é assim, por que reunir apenas alguns para organizarmais, quando se pode ensejar a ordenação emergente de muitos mais?A tentação de estabelecer uma fronteira opaca, o medo de se deixarabrigar (ou de se proteger do “mundo externo”, do outro, em geral dasoutras organizações) apenas por uma membrana (permeável aos fluxos e,portanto, vulnerável à interação) assolou constantemente as (pessoas das) 42
  • 43. organizações, mesmo aquelas que queriam transitar para um padrão derede distribuída.Talvez isso tenha ocorrido, em parte, em virtude de uma confusão entreinteração e troca de conteúdo. Boa parte das pessoas que tratavam doassunto, inclusive das que se dedicam a investigar ou experimentar redessociais, confundia interação com troca de informação e gestão deconteúdo (sobretudo tomando por conteúdo conhecimento). Comoimaginavam, essas pessoas, – com certa razão – que o conhecimento écumulativo, queriam bolar uma, como se diz?, “arquitetura dainformação”, urdir schemas classificatórios, desenhar árvores para mapearrelações (que ainda não se efetivaram) e organizar os escaninhos paradepositar o conhecimento que ia sendo construído coletivamente. Na faltade mecanismos de busca semântica, queriam “colocar as coisas noslugares certos” para facilitar a navegação dos demais. Mas ao fazeremisso, animados pela boa intenção de organizar o (acesso ao) conhecimentopara os demais, acabavam erigindo uma escola (como ocorre, de certomodo, com uma parte dos que adotam plataformas wikis e plataformasditas educacionais), quer dizer, uma burocracia do ensinamento,inevitavelmente centralizada.Tudo isso era assim até que começou a procura por mecanismos quedessem conta do formigueiro e não das formigas: como se sabe, é oformigueiro que se reproduz (como padrão), não as formigas. Por isso acomparação com o formigueiro, que causa repugnância a alguns (quealegam que as formigas não têm consciência e não podem fazer escolhasracionais) não é despropositada. A pesquisadora Deborah Gordon (1999) 43
  • 44. descobriu que o formigueiro é i-based, ou seja, que além de nele nãohaver nada que se possa chamar de administração, a auto-organização éfeita a partir da freqüência e de outras características da interação dasformigas entre si e com o seu ecossistema e não de algum conteúdo queelas tenham trocado entre si (nem mesmo se tal conteúdo fosse umasubstância química, como se supunha) (24). 44
  • 45. Padrões, não conjuntosOs fenômenos que ocorrem em uma rede não dependem dascaracterísticas intrínsecas de seus nodosQUEM QUER ENTENDER REDES deveria começar refletindo sobre a frasedo físico Marc Buchanan (2007), em O átomo social (25): “Diamantes não brilham por que os átomos que os constituem brilham, mas devido ao modo como estes átomos se agrupam em um determinado padrão. O mais importante é freqüentemente o padrão e não as partes, e isto também acontece com as pessoas”.A idéia de que a fenomenologia de uma rede é função das característicasde seus nodos (das suas idéias, conhecimentos, habilidades, valores oupreferências) ainda faz parte de uma herança cultural não-fluzz difícil deser questionada. Dizer que a fenomenologia de uma rede é função da suatopologia é um verdadeiro choque para essa cultura que encara associedades humanas como coleções de indivíduos e não como sistema derelações entre pessoas, como configurações de fluxos ou interações.Sim, rede = interação. O comportamento coletivo não depende dospropósitos dos indivíduos conectados (ou de suas outras características, 45
  • 46. individualizáveis). Ele é função dos graus de distribuição e conectividade(ou interatividade) da rede.Mas por que demoramos tanto para perceber isso? Talvez porque,enquanto olhávamos os nodos (as árvores), deixávamos de ver a rede (afloresta, ou melhor, não propriamente o conjunto das árvores, mas asrelações que constituem o ecossistema sem o qual as árvores – nemalgumas poucas, nem muitas milhares – podem existir). Talvez porquefomos induzidos a fazer a busca errada: enquanto procurávamos umconteúdo não podíamos mesmo encontrar um padrão de interação. Talvezporque, influenciados pela máquina econômica construída pelopensamento hobbesiano-darwiniano, enquanto tentávamos prever ocomportamento coletivo a partir das preferências individuais, escapava-nos aquilo que exatamente faz do sistema algo mais do que a soma desuas partes: o social. Fixávamo-nos em objetos capturáveis, não emrelações, não em fluxos. Fluzz, para nós, permanecia escondido.Conjuntos de nodos são apenas conjuntos de nodos. Não são redes. Arepresentação estática chamada grafo, disseminada pela SNA (Análise deRedes Sociais) não ajuda muito a compreensão da rede: pontos (vértices)ligados por traços (arestas) passam uma imagem abaixo de sofríveldaquele emaranhado dinâmico de interações que constitui a essência doque chamamos de rede, sempre fluindo e alterando sua configuração.Ademais, os nodos não são propriamente pontos de partida nem dechegada de mensagens, como se fossem estações ligadas por estradas poronde algum objeto ou conteúdo vai transitar. Eles também são caminhos.Aliás, nas redes sociais, os nodos não existem como tais (como pessoas) 46
  • 47. sem os outros nodos a ele ligados, constituindo-se, portanto, cada um emrelação aos demais, como caminhos de constituição disso que chamamosde ‘eu’ e de ‘outro’.Assim, não é o conteúdo do que flui pelas suas conexões que podedeterminar o comportamento de uma rede. É o fluxo geral que perpassaesse tecido ou campo, cujas singularidades chamamos de nodos, queconsubstancia o que chamamos de rede. Esse fluxo geral não tem nada aver com mensagens contidas em sinais emitidos ou recebidos: sãopadrões, modos-de-interagir. Se há uma mensagem (um conceito maisinformacional do que comunicacional), esses padrões é que são amensagem. 47
  • 48. Conhecimento é relação socialO conhecimento presente em uma rede não é um objeto, um conteúdoque possa ser arquivado e gerenciado top downA IDÉIA DE CAPTURAR OBJETOS para colocá-los na máquina, a idéia desalvar (arquivar) configurações do passado, constituiu o caminho para aconstrução de conhecimento nas sociedades pré-fluzz. As teorias doconhecimento pressupostas por essa idéia podiam ser, na melhor dashipóteses, construtivistas, mas não podiam ser conectivistas. Não é poracaso que construtivismo gerava escolas (burocracias do ensinamento)enquanto que conectivismo vai gerando inevitavelmente não-escolas(redes de aprendizagem).A idéia de construção do conhecimento – de depositar “tijolo por tijolonum desenho lógico”, como diz a canção (26) – decorre de umaepistemologia não-fluzz. Essa idéia, ao se aplicar, requer uma espécie decongelamento de fluxo (ou de materialização do passado) para ircombinando objetos, como em uma espécie de lego. Ela permitiu a ereçãode aberrações como os knowledge management systems, originalmentepensados para abastecer de informações estratégicas o topo depirâmides. Era compatível, portanto, com estruturas centralizadas e nãocom redes distribuídas. 48
  • 49. Mas o conhecimento presente em uma rede mais distribuída do quecentralizada não pode ser gerido top down, simplesmente porque não háum nodo ou cluster capaz de capturá-lo com antecedência, domesticá-loou codificá-lo (transformando-o em ensino) para facilitar o acesso a eledos demais.É um conhecimento-fluzz, quer dizer, é uma relação social, móvel esempre em mutação. Como no sistema imunológico dos mamíferos e deoutros animais, é um conhecimento que está distribuído por toda a rede.Um nodo interagente conhece porquanto (e enquanto) está interagindo enão porque foi alocado em uma posição para receber uma instrução deoutrem (escola). É um conhecimento novo a cada vez. Como naquele rioheraclítico, ninguém pode aprendê-lo mais de uma vez.É por isso que as plataformas hierárquicas de transmissão doconhecimento foram estruturadas para avaliar e validar o conhecimentoensinado e não o conhecimento aprendido. E é por isso que todas elasexigem tribunais epistemológicos, corpos (docentes) de guardiães dopassado (que são sempre coaguladores: sacerdotes, professores,doutores, mestres e outros titulados) encarregados de dizer quaisconhecimentos podem ou não transitar.A chamada “arquitetura de informação” das plataformas digitais p-basedsegue o mesmo caminho. Tudo se resume a abrir caixinhas para depositare salvar conteúdos, escaninhos para coagular, guardar e ordenar opassado com o intuito declarado de facilitar a busca futura, quando, naverdade, seu objetivo é outro: selecionar e pavimentar caminhos para o 49
  • 50. futuro que sejam produzidos pela dependência da trajetória (ou pelarepetição de passado). 50
  • 51. A chefia é contra a liderançaHierarquia não é o mesmo que liderançaTODA HIERARQUIA SE ERIGE pela materialização e repetição de passado.Na tradicionalidade, essa operação (de ereção de hierarquias) legitimava-se pela unção ou delegação proveniente de alguma instância extra-humana (divina), que se transferia pelo “sangue” (ou pela genética: aslinhas sucessórias parentais, familiares, da nobreza: os herdeiroscarregavam o múnus originário, que podia ser delegado, em graussubordinados, a quem a eles se submetesse). Era um objeto (como se ossuperiores possuíssem um estoque de “células-tronco” para construir o“corpo” hierárquico) (27). A própria palavra hierarquia (hieros + arché)designava esse poder sagrado.Na modernidade, tentou-se substituir tal legado legitimatório peloreconhecimento de determinadas características intrínsecas do sujeitoque lhe confeririam a capacidade de exercer poder sobre os outros: suavocação administrativa ou seu carisma, sua gravitatem ou sua liderança.Essas “explicações” impediam a percepção de que hierarquia é sinônimode centralização. Olhavam sempre para o indivíduo que, em virtude de tersido escolhido (the chosen one) ou por força de suas qualidades inatas ou 51
  • 52. adquiridas (pelo “sangue” ou no “berço”), tinha o dever ou o direito demandar nos outros (sim, em última instância era disso que se tratava), masnão olhavam para a rede, para a configuração do emaranhado deconexões em que o chefe ou líder se inseria.A liderança considerada por essas justificativas não é aquela que emergeespontaneamente na rede, quando alguém toma uma iniciativa que éseguida por outros, em circunstâncias sempre temporárias, mas a“liderança” que se quer permanente de alguém que, tendo liderado algumdia, tenta congelar a configuração que permitiu essa eventualidade paraenxertá-la continuamente no presente de sorte a poder liderar parasempre, em todas as circunstâncias. Isto é: monoliderança, na verdade ocontrário da liderança, a qual, como fenômeno emergente, é sempremultiliderança (possibilidade, aberta a qualquer um, de liderar emdeterminadas circunstâncias fortuitas).A liderança é fluzz, ela flui como um rio. Os líderes que se sucedem,aparecem, desaparecem e reaparecem como “remoinhos num rio de águasempre a correr” (para usar a bela imagem de Wiener) (28). Amonoliderança – na verdade uma justificativa para a centralização e paraa chefia – é sempre uma tentativa de represar o curso.Redes mais distribuídas do que centralizadas (caracterizadas pelaabundância de caminhos) são ambientes favoráveis à emergência damultiliderança. A monoliderança – do líder providencial e permanente, aprevalência do mesmo líder em todos os assuntos e atividades – constitui-se, porém, contra a liderança e só pode se constituir assim em estruturas 52
  • 53. mais centralizadas do que distribuídas, ou seja, em estruturas onde foiintroduzida a escassez de caminhos. 53
  • 54. Nenhuma hierarquia é naturalA escassez que gera hierarquia é aquela introduzida artificialmente pelomodo de regulaçãoA HIPÓTESE DE QUE FOI A ESCASSEZ (natural, de recursos) que gerou ahierarquia e que, assim, a hierarquia tenha brotado espontaneamente docaos, foi tão sedutora para alguns quanto enganosa para todos. Até hojeainda há os que se põem a promover um deslizamento (para o natural) doconceito (social) de hierarquia, com base na suposta evidência de que elaé encontrada em toda parte – do mundo físico (e. g., sistemastermodinâmicos) ao mundo biológico (e. g., sistemas vivos aninhados) – eque isso seria uma prova de que a hierarquia é natural e, dessarte,também naturalmente se manifestaria no mundo social.Mas a escassez que gera hierarquia é introduzida artificialmente, semprepela supressão de caminhos. Não há uma escassez em si. O conceito érelacional: escassez, quando há, é sempre em relação a algo ou alguémque carece de determinados recursos em determinado ambiente. Ao fluircom o curso, ao se deixar levar pela “vida nômade das coisas” (uma boadefinição de fluzz), tal escassez não se configura. A escassez só surge como represamento do rio. 54
  • 55. Nos sistemas naturais não pode haver o conceito de escassez porque nãohá um indivíduo que reclame uma necessidade contra o ecossistema namedida em que cada parte do ecossistema se insere na lógica daabundância que regula o sistema. Nos sistemas sociais (ou anti-sociais,seria melhor dizer), a escassez é introduzida pelo modo de regulação deconflitos. Toda vez que se regula conflitos de modo autocrático, gera-seescassez que permite a ereção de estruturas hierárquicas. E toda vez quese erige um sistema hierárquico pela eliminação de caminhos, geram-semodos de regulação não-pluriárquicos que se mantêm pela reprodução daescassez. 55
  • 56. Poder é uma medida de não-redeCentralização (hierarquização) não é o mesmo que clusterizaçãoTAMBÉM ERA MUITO COMUM a confusão entre hierarquização (que éuma centralização) e clusterização (ou aglomeramento provocado peladinâmica de uma rede). Isso dificultava a compreensão do fenômeno dopoder nas redes sociais. Desse ponto de vista, aliás, seria o exatocontrário: o poder não surge da clusterização e sim – juntamente com aexclusão de nodos e a obstrução de fluxos – do desatalhamento(supressão dos atalhos) entre clusters (aglomerados).O poder (como poder de mandar alguém fazer alguma coisa contra suavontade, como, ao fim e ao cabo, se manifesta qualquer poder) é umamedida de não-rede (em termos de rede distribuída); quer dizer, é umamedida direta do grau de centralização (ou uma medida inversa do graude distribuição) de uma rede. Ele ocorre (ou sobrevém) não quando osnodos se aglomeram em função da sua interação e sim, ao contrário,quando impedimos que tal aglomeramento se dê livremente (em virtudeda dinâmica da interação), mas colocamos obstáculos, construímoscancelas ou selecionamos caminhos por onde ela (a interação) devepassar: sejam muros, cercas, paredes, escadas, portas e fechaduras, ou 56
  • 57. firewalls. Todo poder nasce de um impedimento imposto à livre fluição.Todo poder é uma introdução artificial (uma fabricação) de escassez decaminhos. Todo poder é uma tentativa de evitar a abundância decaminhos. Todo poder – necessariamente hierárquico – é uma reação àdistribuição (29).A tendência nas redes sociais mais distribuídas do que centralizadas é queos clusters não fiquem isolados, mas interligados, interagindo entre si.Simplesmente porque eles acabarão, mais cedo ou mais tarde, fazendoisso – desde que não se o impeça. Fundamentalmente, porque eles podemfazer isso!A clusterização em redes sociais tende a aumentar à medida que essasredes vão aumentando seu grau de distribuição e conectividade (querdizer, de interatividade). Esse é um indicador da transição para asociedade em rede, na qual vão se alterando as configurações congeladaspelas fortíssimas centralizações impostas pelo sistema de equilíbriocompetitivo entre menos de duas centenas de Estados-nações em ummundo de quase 7 bilhões de habitantes. Em termos políticos (ougeopolíticos), a clusterização sócio-territorial que conforma e dáidentidade a miríades de novas comunidades (de aprendizagem, deprojeto e de prática – clusters de convivência enfim) é uma expressão dolocalismo cosmopolita que floresce à medida em que a globalização dolocal encontra a localização do global. Isso está na origem dos HighlyConnected Words que emergem em uma época-fluzz. 57
  • 58. Autorregulação é sem-administraçãoEm redes distribuídas não se pode diferenciar papéis ex ante à interaçãoA IDÉIA DE QUE QUALQUER ORGANIZAÇÃO exige diferenciação de papéispré-definíveis foi aceita como um axioma universal na administração. Emalguns casos citavam-se exemplos retirados da biosfera para mostrar quese trata de uma verdade evidente por si mesma (por exemplo,freqüentemente ainda se dá o exemplo das formigas, que já nasceriamcom funções especializadas: forrageiras, operárias, soldados – conquantoessa crença já tenha sido desmascarada pela ciência).Não é por acaso que as teorias da administração sejam teorias decomando-e-controle. A administração, qualquer administração, é sempreuma administração da escassez. É uma espécie de economia políticaaplicada. Só há necessidade de administrar um sistema se esse sistema foiconstruído a partir da seleção de caminhos para normatizar o fluxo: poraqui pode passar, por ali não pode; para chegar aqui tem que vir por ali,para sair lá tem que passar por aqui. Ora, é mesmo impossível fazer issosem comando e controle.O fluxo quer fluir. Fluirá por onde houver caminho. Para proibir a livrefluição é preciso obstruir caminhos, derrubar pontes, fechar atalhos entre 58
  • 59. clusters (nas organizações hierárquicas isso acontece inclusive pelasegregação espacial dos seus membros, alocados em andares diferentesde um prédio fechado pela introdução de muros, cercas, cancelas, roletas,elevadores programados, cartões magnéticos com permissões exclusivas,que abrem algumas portas e outras não, ou pelas permissõesdiferenciadas conferidas aos usuários para acessar sites, baixarprogramas, enviar ou receber mensagens, interagir em plataformas etc.).Tudo comando-e-controle.Redes distribuídas são estruturas sem-administração, que se regulam poremergência (quanto mais distribuídas o forem). Nas novas organizações-fluzz, mais distribuídas do que centralizadas, os papéis ou funções sedefinem e redefinem continuamente a partir da interação. Uma pessoaque se dedicava às relações institucionais de uma empresa passará a fazerparte da concepção de seus produtos; outra, encarregada dorelacionamento com os clientes, será chamada a compor um think tank deinovação. Mais do que isso, com a perfuração dos muros que separavam aorganização de grande parte dos seus stakeholders, consumidorestambém contribuirão para o processo produtivo, acionistas se oferecerãopara compartilhar a gestão e as comunidades afetadas de alguma formapela atuação de uma empresa assumirão solidariamente riscos eoportunidades associados ao empreendimento. E isso é apenas o começo.Nessas circunstâncias não pode haver um departamento capaz de impor,de antemão e de cima para baixo, os caminhos que devem ser seguidospelos fluxos que atravessam todos os demais departamentos de umaorganização. Aliás, antigos departamentos serão substituídos, 59
  • 60. crescentemente, por instâncias surgidas da clusterização. Múltiplaslideranças se revezarão no netweaving de todos os processos. O velhoindivíduo, substituível peça da máquina (por outro indivíduo substituível),vai sendo substituído pela pessoa, insubstituível porquanto única naquiloque faz, do jeito que faz, enquanto nodo da rede em que interage. 60
  • 61. Pessoas, não indivíduosNão podem existir pessoas (seres humanos) sem redes sociaisFOI (E AINDA ESTÁ) MUITO DIFUNDIDA a idéia de que redes sociais sãoformadas a partir de escolhas racionais feitas pelos indivíduos. Segundoessa idéia as redes seriam voluntariamente construídas com propósitosdefinidos e baseados nos interesses dos indivíduos. Quem pensava assim,evidentemente, avaliava que podem existir seres humanos sem redes,quer dizer, que primeiro existem os indivíduos (já plenamente humanos)para, depois, se esses indivíduos resolverem se conectar, só entãosurgirem as redes sociais.Nos novos mundos-fluzz, entretanto, o conceito de indivíduo – umacaracterização biológica ou uma abstração econômica e estatística – tendea perder sentido para dar lugar à pessoa, que é, afinal, quem existe defato como ser humano concreto.Mas pessoa já é rede. Ninguém nasce com tal condição, não basta ser umindivíduo da espécie, em termos biológicos, para ser humano. Dizer que,para os seres humanos, no princípio era a rede, significa dizer que énecessário “nascer” (com-viver) em uma rede (social) para se tornarhumano. Aquele que é geneticamente humanizável só consuma tal 61
  • 62. condição a partir do relacionamento com seres (que já foram)humanizados.Redes sociais não são redes de indivíduos de uma espécie biológica, nemredes de outras entidades abstratas que possam ser identificadasindistintamente, numeradas e somadas para qualquer efeito (como, porexemplo, os habitantes, os consumidores, os contribuintes, os eleitores),mas redes de pessoas. Não existem as redes dos pensionistas do sistemaprevidenciário, dos mutuários do sistema habitacional ou dos torcedoresde determinado clube esportivo (a não ser quando interagem em torcidasorganizadas), assim como não existe a sociedade composta pelos queestão na fila para comprar ingressos para um torneio. As redes (sociais)não somam suas partes (individuais) porque elas não são propriamenteconstituídas por essas partes, mas pelas relações que se efetivam, pelaconfiguração móvel das interações que se processam ou pelo emaranhadoque se trama a cada instante. 62
  • 63. As redes sociais já são a mudançaAs redes sociais distribuídas não são instrumentos para realizar amudança: elas já são a mudançaTAMBÉM ERA MUITO COMUM a idéia de que as redes são uma espécie deinstrumento para se fazer alguma coisa. Quando o assunto entrou namoda, as pessoas acharam que estavam diante de uma nova forma deorganização recentemente descoberta e queriam logo usar as redes comalgum objetivo instrumental, ainda quando desejassem colocá-las aserviço de uma causa que, a seu ver, não poderia ser mais nobre: a grandetransformação social.Mas a emergência da concepção-fluzz de que, na sociedade, não há o quetransformar, é realmente surpreendente. Trata-se, para cada sociedade,de ser o que é – ou seria, se não houvesse obstrução de fluxos, exclusãode nodos ou desatalhamento de clusters.Dizendo de outro modo: trata-se, para as redes sociais, de serem o quepodem ser. Uma rede social não pode ser nada mais do que uma rededistribuída. Os caminhos que seguirá dependerão da sua dinâmica, dosfenômenos particulares que nela ocorrerão a partir da livre interação.Toda tentativa de predeterminar esses caminhos é, na verdade, uma 63
  • 64. tentativa de impedir que a rede escolha seus caminhos. O que vaiacontecer depois vai acontecer depois e não pode ser determinado porquem está antes.Por isso se diz que as redes sociais distribuídas não são instrumentos pararealizar a mudança: elas já são a mudança.Isso vai contra o modelo transformacional da mudança próprio dasestruturas de comando-e-controle que queriam levar as sociedadeshumanas para algum futuro pré-concebido. Quando se pensava assim,tudo virava instrumento para pré-determinar caminhos e isso, por si só, jáintroduzia escassez de caminhos e centralização (hierarquia) bloqueando aúnica mudança que poderia fazer a diferença (ao instalar a dinâmica dainovação permanente): a mudança de hierarquia para rede. 64
  • 65. Aranhas não geram estrelas-do-marÉ inútil erigir uma hierarquia para realizar a transição de umaorganização hierárquica para uma organização em redeNO VELHO MUNDO FRACAMENTE CONECTADO dos milênios passadoserigia-se sempre uma hierarquia para realizar qualquer mudança social,assim no que era chamado de ‘a sociedade’ como em qualquerorganização particular. Diante dos sinais de que a estrutura e a dinâmicadas sociedades estavam adquirindo, cada vez mais, as características deuma rede, os chefes de organizações hierárquicas começaram a tentarfazer reengenharias para se adequar à mudança. O primeiro impulso foi ode controlar as redes sociais (em geral confundidas com as mídias sociais)para usá-las de acordo com seus velhos propósitos: para ter maisinfluência, para ter mais votos, para vender mais, para extrair maissobrevalor dos funcionários, para derrotar mais facilmente a concorrênciaou os inimigos. Isso, entretanto, não aumentou a capacidade deadaptação das organizações hierárquicas porque o problema não estavaem descobrir uma nova combinação dos seus recursos materiais eorganizacionais, humanos e sociais e sim na sua própria natureza deorganização hierárquica. 65
  • 66. Novos departamentos hierárquicos encarregados de adequar aorganização às novas possibilidades que iam se tornando disponíveis emuma sociedade em rede (nuvens de computação, plataformas interativas,trabalho remoto, marketing viral, sistemas de co-working e co-creationvoltados à inovação, peer production, crowdsourcing, crowdfunding,crowdbuying, etc) não foram capazes de atingir o coração do problema,que é o seguinte: em uma sociedade em rede as organizações tambémdevem ser redes. Fica faltando sempre um... crowdweaving. Porque oproblema é: como fazer a transição de pirâmide (mainframe) para rede(network)?Mas é inútil erigir uma hierarquia para realizar a transição de umaorganização piramidal para uma organização em rede. Aranhas nãopodem gerar estrelas-do-mar, para usar as boas metáforas de Brafman eBeckstrom (2006) (30). Deveria ser óbvio, tautológico ou quase. Sequeremos redes devemos articular redes, não erigir hierarquias. Sementede rede é rede. Desistam os que pretendem fazer isso: uma hierarquia nãopode gerar uma rede.A manutenção das hierarquias não ocorre em função de qualquerdiscordância consciente das redes por parte dos agentes de um sistemahierárquico. Uma vez erigidas, as hierarquias tendem a se manter ereproduzir por força de circularidades inerentes às suas interaçõesrecorrentes. É uma espécie de mecanismo de segurança do sistema contrasua dissolução. É uma maneira de se proteger do caos representado pelaausência de ordem top down. É uma forma de ficar do “lado de fora” do 66
  • 67. abismo, posto que cair no abismo é o maior temor de toda estrutura maiscentralizada do que distribuída. 67
  • 68. EpílogoFicamos do “lado de fora” do abismo quando nos protegemos dainteraçãoCAIR NO ABISMO é entrar naquela região desconhecida onde novospadrões são continuamente gerados. É ser colhido pela correntealucinante na qual fluzz vai quebrando as circularidades inerentes aospadrões conversacionais ou interativos que se prorrogam (e que só seprorrogam enquanto tais circularidades se mantêm).Quando nos abrimos à interação com o outro-imprevisível despencamosno abismo. Quando erigimos fronteiras opacas, que nos separam dosoutros, evitamos a queda e ficamos do “lado de fora” do abismo. Nos“salvamos” protegendo-nos da interação.Aí, é claro, reproduzimos o velho mundo. Sim, o velho mundo é umconjunto de arquivos salvados: os mesmos programas são postos a rodar,continuamente. Enquanto protegidos da livre interação, esses programasnão se modificam.Todas as tentativas políticas e espirituais de mudar o mundo e reformar oser humano basearam-se na instauração de uma nova ordem, seja aordem “descoberta” pela observação de supostas leis da história, seja a 68
  • 69. ordem revelada por alguma instância extra-humana. Todas, de certomodo, demonizavam o caos e tinham horror à queda no abismo. Todasqueriam nos salvar mantendo-nos seguros no “lado de fora” do abismo.Ofereciam-nos, como compensação pela aventura perdida, a segurança deregras que disciplinam a interação.Líderes, condutores, reformadores, sempre apelaram para nossaconsciência, acreditando que a mudança se daria quando alcançássemosdeterminada visão, vivêssemos uma experiência extraordinária ou nosconvencêssemos individual e coletivamente de certas realidades. Essessalvadores, via de regra ligados a estruturas hierárquicas (fossem partidos,corporações, igrejas, escolas de pensamento, ordens, congregações,seitas, sociedades ou fraternidades) queriam nos inserir nessas estruturascentralizadas, sob a justificativa de que era necessário reunir condiçõesfavoráveis, recursos de monta, grandes contingentes de filiados, eleitores,seguidores ou adeptos, para poder implementar a mudança queanunciavam.Entretanto, os agentes de um sistema hierárquico, pensem ou acreditemno que quiserem, são sempre agentes da manutenção e reprodução dosistema. Não é mudando (ou “fazendo”) suas cabeças, incutindo novosvalores, disseminando novas crenças, que vamos conseguir realizar atransição do padrão centralizado para o padrão de organização em rede(mais distribuído do que centralizado). Todo proselitismo é inútil nessamatéria. Não se trata de convencimento, nem mesmo de consciência. Elesnão podem mudar seu comportamento enquanto não mudarem o modocomo se relacionam com os demais agentes. E esse modo de se relacionar 69
  • 70. não pode mudar enquanto permanecerem como válidas apenas certasconfigurações de caminhos pelos quais a organização hierárquica seconstitui disciplinando a interação.Para libertar a interação desses constrangimentos é necessário quebrar asrotinas, violar as fronteiras e pular as cancelas internas e externas, tomariniciativas que não foram planejadas pelos chefes ou inspiradas peloslíderes, esquivar-se do seu comando, livrar-se de sua influência,colocando-se fora da possibilidade de controle; enfim... é necessáriodesobedecer! (31).Obediência é sempre manutenção de uma ordem. Desobediência ésempre introdução de des-ordem. Em uma organização hierárquicadesobediência é, simplesmente, fazer redes (mais distribuídas do quecentralizadas). Sim, o único caminho para a rede é a rede.É paradoxal porque, como redes são múltiplos caminhos, esse únicocaminho já são múltiplos caminhos; ou seja, qualquer rede distribuída écaminho.Enquanto esperamos uma grande mudança no mundo a partir damudança de consciência de seus agentes, o mundo único persiste.Persistia, enquanto se conseguia impedir o surgimento de outros mundosem rede. Agora, porém, isso já não é mais possível. 70
  • 71. Notas e referências(1) SCHOLEM, Gershom (1941). As grandes correntes da mística judaica. SãoPaulo: Perspectiva, 1972.(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no início de2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor observava queBuzz não captava adequadamente o fluxo da conversação, argumentando queera necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer,baseada em interação, não em participação). Marcelo Estraviz respondeu com ainterjeição ‘fluzz’, na ocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir aidéia de Buzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe destasérie: Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com oprograma mal-sucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceitocomplexo, sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem dolivro citado: “Tudo que flui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que nãopode ser aprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismoda rede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “lado defora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo não háespaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. É de láque aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos... Em outraspalavras, não existe uma mesma realidade para todos: são muitos os mundos. 71
  • 72. Tudo depende das fluições em que cada um se move, dos emaranhamentos quese tramam, das configurações de interação que se constelam e se desfazem,intermitentemente”. Cf. FRANCO, Augusto (2011). Fluzz: vida humana econvivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.São Paulo: Escola-de-Redes, 2011. Versão digital preliminar sem revisãodisponível em:<http://www.slideshare.net/augustodefranco/fluzz-book-ebook>(2) Cf. Histórias da Tradição Sufi. Rio de Janeiro: Edições Dervish, 1993. O HOMEM CUJA HISTÓRIA ERA INEXPLICÁVEL Era uma vez um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde havia conseguido um emprego como pequeno funcionário público, e tudo levava a crer que terminaria seus dias como Inspetor de Pesos e Medidas. Um dia, quando estava caminhando pelos jardins de uma antiga construção próxima à sua casa, Khidr, o misterioso guia dos sufis, apareceu para ele, vestido em um verde luminoso. Então Khidr disse: - Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de três dias. E assim dizendo, desapareceu. Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. Todos na cidade logo souberam desse fato e comentaram: - Pobre Mojud. Deve ter ficado louco. Mas como havia muitos candidatos a seu posto logo se esqueceram dele. 72
  • 73. No dia marcado Mojud encontrou-se com Khidr, que disse:- Rasgue suas roupas e se jogue no rio. Talvez alguém o salve.Mojud obedeceu, embora se perguntasse se não estaria louco.Como ele sabia nadar, não se afogou, mas ficou boiando à deriva por umlongo trecho antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:- Homem insensato! A corrente aqui é forte. Que está tentando fazer?- Na realidade eu não sei - respondeu Mojud.- Você está louco - disse o pescador. - Mas o levarei à minha cabana dejunco próximo ao rio e veremos o que se pode fazer por você.Quando o pescador descobriu que Mojud era bem instruído, passou aaprender com ele a ler e a escrever. Em troca Mojud recebeu comida eajudou o pescador em seu trabalho.Alguns meses depois Khidr reapareceu, desta vez junto à cama de Mojud,e disse:- Levante-se e deixe o pescador. Será provido do necessário.Vestido como pescador, Mojud imediatamente deixou a cabana eperambulou sem rumo até encontrar uma estrada. Ao romper da auroraviu um granjeiro montado num burro.- Procura trabalho? - perguntou o granjeiro. - Estou precisando de umhomem que me ajude a trazer algumas compras. 73
  • 74. Mojud o acompanhou. Trabalhou para o granjeiro durante quase doisanos, quando aprendeu muito sobre agricultura, mas pouco sobre outrascoisas.Uma tarde, quando estava ensacando lã, Khidr fez nova aparição e disse:- Deixe esse trabalho, dirija-se à cidade de Mosul e empregue as suaseconomias para tornar-se mercador de peles.Mojud obedeceu.Em Mosul tornou-se conhecido como mercador de peles, sem voltar a verKhidr durante os três anos em que exerceu seu novo ofício. Tinha reunidouma considerável quantia e estava pensando em comprar uma casaquando Khidr lhe apareceu e disse:- Dê-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo à distante Samarkandae lá passe a trabalhar para um merceeiro.Foi o que Mojud fez.Logo começou a demonstrar sinais incontestáveis de iluminação. Curavaos enfermos e servia a seu próximo tanto no armazém como nas horas delazer. Seu conhecimento dos mistérios da vida se tornou cada vez maisprofundo.Sacerdotes, filósofos e outros o visitavam e indagavam:- Com quem você estudou?- É difícil dizer - respondia Mojud.Seus discípulos perguntavam: 74
  • 75. - Como iniciou sua carreira?- Como um pequeno funcionário público - respondia.- E você deixou seu emprego para dedicar-se à automortificação?- Não. Simplesmente o deixei.Eles não podiam compreendê-lo.Pessoas o procuravam para escrever a história de sua vida.- O que você foi, em sua vida? - perguntavam.- Eu me atirei num rio, me tornei pescador e, no meio de uma noite,abandonei uma cabana de junco. Depois disso me converti em ajudantede um granjeiro. Enquanto estava ensacando lã, mudei de idéia e fui paraMosul, onde me tornei vendedor de peles. Lá economizei algum dinheiro,mas o dei. Caminhei para Samarkanda, onde trabalhei para ummerceeiro. E aqui estou agora.- Mas esse comportamento inexplicável não esclarece de modo algumseus estranhos dons e maravilhosos exemplos - diziam seus biógrafos.- Assim é - dizia Mojud.Então os biógrafos teceram uma história maravilhosa e excitante emtorno da figura de Mojud, porque todos os santos devem ter suashistórias, e a história deve estar de acordo com a curiosidade do ouvinte,não com as realidades da vida. 75
  • 76. E a ninguém é permitido falar de Khidr diretamente. É por isso que esta história não é verídica. É a representação de uma vida. A vida real de um dos maiores santos sufis.(3) GOETHE, Johann Wolfgang von (1811). Memórias: Poesia e Verdade. Brasília:Hucitec, 1986.(4) BANDEIRA, Manoel (1948). O rio (Belo Belo) in Bandeira: Antologia Poética.São Paulo: José Olympio, 1954.(5) MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1984). A Árvore doConhecimento. Campinas: Psy II, 1995.(6) GOETHE, Johann Wolfgang von (1811): Op. cit.(7) BARAN, Paul (1964). “On distributed communications: I. Introduction todistributed communications networks” (Memorandum RM-3420-PR August1964). Santa Monica: The Rand Corporation, 1964.(8) ARENDT, Hannah (1958). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense, 2001.(9) ARENDT, Hannah (1959). “A questão da guerra” in O que é política?(Fragmentos das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1998.(10) BEY, Hakim (Peter Lamborn Wilson) (1984-1990). TAZ. São Paulo: ColetivoSabotagem: Contra-Cultura, s/d.(11) MATURANA, Humberto (1993). La democracia es uma obra de arte. Bogotá:Cooperativa Editorial Magistério, 1993. 76
  • 77. (12) McLuhan em uma palestra pública – intitulada “Viver à velocidade da luz” –em 25 de fevereiro de 1974, na Universidade do Sul da Flórida, em Tampa,explicando o que entendia por seu famoso aforismo “o meio é a mensagem”:“Significa um ambiente de serviços criado por uma inovação, e o ambiente deserviços é o que muda as pessoas. É o ambiente que muda as pessoas, e não atecnologia. (Mc Luhan por McLuhan, de David Staines e Stephanie McLuhan(2003). São Paulo: Ediouro, 2005. Título original: Understanding me: lecturesand interviews. <http://trick.ly/4ra>(13) JACOBS, Jane (1961). Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: MartinsFontes, 2000.(14) COLEMAN, James (1988). “Social Capital in the creation of Human Capital”,American Journal of Sociology, Supplement 94, 1998.(15) Vf. Swarming civil espanhol in UGARTE, David (2004). 11M: Redes paraganar una guerra. Barcelona: Icaria, 2006.(16) Cf. FRANCO, Augusto (2009). Redes são ambientes de interação, não departicipação. Slideshare [4.425 views em 22/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/redes-so-ambientes-de-interao-no-de-participao>(17) Cf. FRANCO, Augusto (2009). A lógica da abundância. Slideshare [2.171views em 22/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/a-lgica-da-abundncia>(18) Cf. WIENER, Norbert (1951). Cibernética e sociedade: o uso humano deseres humanos. São Paulo: Cultrix, 1993. 77
  • 78. (19) MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1984): Op. cit.(20) GORDON, Deborah (1999). Formigas em ação: como se organiza umasociedade de insetos. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.(21) GLADWELL, Malcolm (2008). Fora de série (Outliers). Rio de Janeiro:Sextante, 2008.(22) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: EdiPUCRS,2008.(23) HERBERT, Frank (1969). O Messias de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985.(24) GORDON, Deborah (1999): Op. cit.(25) BUCHANAN, Marc (2007). O átomo social. São Paulo: Leopardo, 2010.(26) BUARQUE, Chico (1971). “Construção” in Construção (Álbum LP).Phonogram-Philips, 1971.(27) Cf. Os ‘me’ in Nota (6) ao Capítulo 8 (infra).(28) WIENER, Norbert (1950): Op. cit.(29) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare [1.890views em 22/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao> 78
  • 79. (30) BRAFMAN, Ori e BECKSTROM, Rod (2006): Quem está no comando? Aestratégia da estrela-do-mar e da aranha: o poder das organizações sem líderes.Rio de Janeiro: Elsevier-Campus, 2007.(31) FRANCO, Augusto (2010): Desobedeça. Slideshare [5.157 views em22/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/desobedea> 79
  • 80. 80
  • 81. Os novos mundos altamentec o n e c t a d o s do t er ce ir o mil ên io 81
  • 82. 82
  • 83. Os novos mundos altamentec o n e c t a d o s d o t e rc ei r o m i l ên i o 83
  • 84. 84
  • 85. Os novos mundos altamentec o n e c t a d o s d o t e rc ei r o m i l ên i o 85
  • 86. HIGHLY CONNECTED WORLDSAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de HIGHLY CONNECTED WORLDS / Augusto de Franco. – São Paulo: 2012. 72 p. A4 – (Escola de Redes; 8) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 86
  • 87. SumárioIntrodução | 9Inumeráveis interworlds | 11Highly Connected Worlds | 13Interworlds | 17Pessoa já é rede | 23Gholas sociais | 27Pessoas são portas | 31Anisotropias no campo social | 35Deformando a rede-mãe | 38Perturbações no campo social | 45Destruidores de mundos | 49Hifas por toda parte | 54A perfuração dos muros | 57 87
  • 88. A construção de “membranas sociais” | 60Notas e referências | 65 88
  • 89. Introdução E naquele instante ele viu o planeta inteiro: cada vila, cada cidade, cada metrópole, os lugares desertos e os lugares plantados. Todas as formas que se chocavam em sua visão traziam relacionamentos específicos de elementos interiores e exteriores. Ele via as estruturas da sociedade imperial refletidas nas estruturas físicas de seus planetas e de suas comunidades. Como um gigantesco desdobramento dentro dele, ele via nessa revelação o que ela devia ser: uma janela para as partes invisíveis da sociedade. Percebendo isso, notou que todo sistema devia possuir tal janela. Mesmo o sistema representado por ele mesmo e o universo. Começou a perscrutar as janelas, como um voyeur cósmico. Frank Herbert em Os filhos de Duna (1976)MUITOS MUNDOS, ISSO MESMO. Não existe um mundo que se possadizer o mundo, a não ser por efeito de hierarquização.Pensar e falar do mundo é tentar impingir um só mundo. Pois os mundossão muitos. Um só mundo é uma invenção do broadcasting. Broadcasting 89
  • 90. – um para muitos – é, obviamente, centralização, quer dizer, hierarquia.Tirem as TVs e as rádios, os jornais e revistas, as agências de notícias,talvez o cinema e não sobrará mais um só mundo. Sem o broadcasting játeremos múltiplos mundos: cada qual configurado pelas nossas conexões.Com a internet esses mundos se multiplicam velozmente, mas não pordifusão e sim por interconexão. Desse ponto de vista, interconnectednetworks (internet) é, na verdade, interconnected worlds. E fluzz é o ventoque varre esses inumeráveis interworlds (*).No mundo hierárquico, não há interface para fluzz. Mas quando fluzz fordo regime dos múltiplos mundos interconectados, esses mundos serão osnovos Highly Connected Worlds do terceiro milênio (**). 90
  • 91. Inumeráveis interworldsNão havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo decada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworldsPENSE EM UM MUNDO SEM TV E RÁDIO, sem jornais e revistas, semagências de notícias, sem editoras e distribuidoras de livros de domínioprivado e sem cinema. Não, não estamos propondo uma volta à IdadeMédia. Teremos telefone, Internet, redes P2P, redes Mesh e qualquermídia (sobretudo interativa) não baseada no padrão um-para-muitos(incluído spaming). Neste caso não haverá mais um (mesmo) mundo paratodos. Sem o broadcasting esvai-se a ilusão de um mesmo mundo paratodos em termos sociais. Ficará claro que cada um tem o seu (próprio)mundo (em termos sociais). Mas ninguém estará aprisionado no seumundo, pois poderá se conectar com outros mundos (os mundos dasoutras pessoas). Teremos uma rede de mundos: muitos mundosinterconectados. Quanto maior a interatividade de uma rede de mundos,mais-fluzz ele – o mundo social configurado por essa rede – será.Mas... atenção! Quanto mais-fluzz for um mundo, menor (não em termosgeográficos ou populacionais e sim em termos sociais) ele será. Mundosgrandes, nesse sentido, quer dizer, com altos graus de separação, sãomundos menos-fluzz. A interatividade reduz o tamanho do mundo e isso 91
  • 92. não é uma função do número de seus elementos (pessoas e aglomeradosde pessoas) e sim dos seus graus de distribuição e conectividade.Onde fluzz está mais “ativo”, os mundos se contraem. Há umamassamento. Small-world networks são efeitos de crunching (umneologismo cunhado a partir da palavra crunch).Não havendo um mundo isolado dos demais, o tamanho do mundo decada um será função do “vento” (fluzz) que varre seus interworlds. Osinterworlds serão inumeráveis; portanto, a rigor, o mundo de cada um é,potencialmente, uma série de inumeráveis mundos em interação. Sim,tudo depende da interatividade. O que significa dizer que não depende dacapacidade ou do esforço de cada um de se fazer ver por muitos. Assim,nos novos Highly Connected Worlds, gente famosa (poderosa, rica, supercertificada ou titulada, admirada por qualquer outra qualidade intrínsecamassivamente reconhecida ou atribuída externamente à interação), tendea não ser mais tão relevante. Com isso vai também por água abaixo essadesastrosa idéia de sucesso, que predominou nos séculos passados,baseada na capacidade de alguém de se destacar dos demais.Impelido por fluzz, ninguém se deixará desvalorizar facilmente no circoglobal montado para selecionar (e apresentar apenas) algumas atrações epara polarizar sobre elas a atenção dos demais. Cada qual pode ser aatração no seu próprio mundo e nos mundos conectados a esse mundo.Uma aldeia global montada para subordinar os vários mundos a apenasalguns, dando a impressão de que só estes últimos existem, está com osdias contados. Teremos inumeráveis aldeias globais. 92
  • 93. Highly Connected WorldsSeu mundo-fluzz é sua timelineO ESTILHAÇAMENTO DO MUNDO ÚNICO é uma mudança de época jamaispresenciada pelas chamadas civilizações (patriarcais, guerreiras, querdizer, hierárquicas). Os padrões de vida e convivência social estãomudando. Isso significa que você também está mudando. Porque estãomudando seus relacionamentos recorrentes: sim, seu mundo-fluzz é suatimeline. Não, por certo, a timeline do Twitter, mas aquela que rola noespaço-tempo dos fluxos e que não pode ser captada por quaisquer dasferramentas digitais p-based disponíveis.Essa mudança é a rede. À medida que aumenta a interatividade da redena qual você está imerso, fenômenos surpreendentes começam aacontecer. Com a queda brusca dos graus de separação, chegarárapidamente o dia em que você chamará um taxi em uma cidade de dezmilhões de habitantes e o motorista dirá: “O senhor não é o StevenStrogatz, que investiga redes sociais e que descobriu que o mundo estáficando pequeno mais rapidamente do que imaginávamos?”.Isso, é claro, se você for de fato o Steven Strogatz. Mas, de certo modo, sevocê é o motorista que se relaciona (ou que se relaciona com quem se 93
  • 94. relaciona, ou que se relaciona com quem se relaciona com quem serelaciona) com Steven Strogatz, sobretudo se ele (ou quem se relacionacom ele) está na sua timeline e você (ou quem se relaciona com você) nadele, você será um pouco Steven Strogatz (na medida inversa do seu graude separação dele): eis o ponto! Tal mudança vai muito além do queimaginávamos porque você está fazendo parte de um organismo capaz deinteligência e, quem sabe, de outros atributos ou qualidades que sequerconseguimos imaginar.Os Highly Connected Worlds tendem a ser organismos humanos coletivos.Atenção: superorganismos humanos, não organismos super-humanos!Eles são os campos para o nascimento do ‘indivíduo social’. StevenStrogatz fará parte de você e você fará parte dele porque ambos farãoparte de um mesmo organismo, não em termos metafóricos, comoquando usávamos a palavra ‘organismo’ para designar o queimaginávamos que fosse ‘a sociedade’. Não. Trata-se de um organismomesmo. E humano.O indivíduo social está nascendo agora. Mas ele já estava presente, comoprefiguração, desde o início, quando se constituíram os primeiros sereshumanos. Para lembrar a bela Canción Tonta de García Lorca (1924), nós,os humanos, só o éramos enquanto estávamos “bordados en laalmohada” da rede-mãe (1).O indivíduo-social não pôde se consumar como humanidade enquantoalgo estava impedindo: a escassez de conexões, uma escassezartificialmente introduzida por modos de regulação não-pluriárquicos. 94
  • 95. Fluzz não podia passar. Mas fluzz é empowerfulness. Se fluzz não podesoprar o corpo não se vivifica.Essa mudança, todavia, é diferente – e única – em cada mundo. Não, nãoé sempre a mesma coisa. Depende de “onde” (ou como) o fluxo (o)corre.Manoel de Barros (1993) inventou “que um rio que flui entre dois jacintoscarrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos” (2). Pois é.No limite, você fará seu mundo. Quer dizer, você (ou você e sua timeline –o que tende a ser a mesma coisa) será o mundo e os mundos serão tantosquanto as identidades coletivas que forem usinadas por fluzz.Isso significa que os Highly Connected Worlds tendem a ser inumeráveis,assim como serão inumeráveis os interworlds, miríades de interfacesconectando miríades de mundos e “explodindo como uma ramada deneurônios”, para lembrar um artigo seminal de Pierre Lèvy (1998) (3).Em termos tecnológico-sociais, o grande desafio hoje, ao contrário do quereza a metafísica que esse Mark Zuckerberg – o chefe do Facebook – quernos empulhar – para torná-la, a sua plataforma proprietária única, aprópria rede e não mais uma ferramenta –, é construir os inumeráveisinterworlds que serão as novas internets.O Facebook tem 800 milhões de usuários? É ruim. Seria melhor ter 800 milplataformas com mil usuários cada uma, conversando entre si... Tudo quenão precisamos agora é reeditar a ilusão hierárquica de um mundo único.Uma sociedade em rede é uma configuração de miríades de HighlyConnected Worlds interagentes. Essa é a única mudança verdadeiramente 95
  • 96. sustentável: tudo que é sustentável tem o padrão de rede porque rede éredundância de processos e abundância (diversidade) de caminhos.A mudança-que-é-a-rede é fractal, não unitária. A mudança não é aemergência de muitos mundos locais (que, de resto, sempre existiram),mas os múltiplos caminhos (que não puderam existir nas civilizaçõeshierárquicas) entre o local e o global. E ela não se consumará sem essas“zonas de transição” que são interworlds. 96
  • 97. InterworldsA nova internet – interconnected networks – são os incontáveisinterconnected worldsCOMEÇA ASSIM: NÃO UMA INTERNET: miríades de internets. Bem, agorajá está melhorando. Mas, como? Não estamos correndo o risco de perdertodas as referências – e, com isso, o sentido – com esse estilhaçamento?A preocupação com a fragmentação é uma herança típica de um mundopouco-fluzz. A totalidade não está dada, tem que ser consumada. E serãosempre totalidades, no plural. Eins und Alles.Que se dane se você não terá mais uma grande narrativa, um esquemaexplicativo geral. Não havendo um mundo (único), para que precisamosdisso? Por certo, você fica incomodado com a fragmentação dessesinumeráveis mundos que se fazem e liquefazem. Mas esse seu mal-estarbaumaniano (de Zygmunt Bauman) é pura falta de Pó de Flu (aquele “FlooPowder” inventado por Ignatia Wildsmith, da série Harry Potter de J. K.Rowling, usado para conexão à Rede do Flu); ou seja, é falta deinterworlds. Trata-se de referenciar o bem-estar na (fluição da) relação,não na (solidez da) coisa. 97
  • 98. Ainda existem vários obstáculos à uma comunicação, por assim dizer,“isotropicamente distribuída” (capaz de manter as mesmas propriedadesem todas as direções): a centralização da rede em servidores, provedores,roteadores, cabos, satélites, torres, mainframes transceptores de ondaseletromagnéticas, geradores de energia, resfriadores, protocolos dereconhecimento, trânsito e integração de mensagens; a variedade delínguas e a falta de tradutores-transdutores universais móveis que operemem tempo real; a falta de programas de busca inteligente e de criação deambientes favoráveis à emergência de conteúdo novo por combinaçãonão-humana (polinização mútua) de mensagens; a separação entre osdispositivos tecnológicos e o corpo humano; e a insuficiente interaçãoentre pessoas e não-pessoas (desde a comunicação com outros seressencientes ou coletivamente inteligentes, animados e inanimados, até aparceria simbiótica com uma variedade de seres vivos).Para começar: fluzz é obstruído pela centralização das comunicações (peladifusão centralizada um-para-muitos chamada broadcasting), mastambém pela Internet descentralizada. O grande desafio hoje é construiros interworlds que são as novas internets. Trata-se de um desafio aomesmo tempo social e tecnológico.Rolou por décadas uma discussão fora de lugar sobre as ameaças datecnologia. Muitas pessoas tinham medo de que a tecnologia fosse nosdominar, nos afastar das outras pessoas, prejudicar nossa saúde física oumental ou, até mesmo, inviabilizar a vida humana no planeta. 98
  • 99. Mas, em termos sociais, não há nenhum problema com a tecnologia. Oproblema é com a tecnologia que introduz artificialmente escassezcentralizando a rede social e ensejando o controle.Por certo, os sistemas de dominação não teriam podido se manter sem ocontrole dos insumos básicos: a terra, a água, os alimentos e as fontes deenergia. Mas a escassez foi introduzida por um tipo determinado detecnologia urbana, hidráulica e agrícola: sem essa escassez (programada,em certa medida) de recursos sobrevivenciais, esses sistemas dedominação não teriam podido se reproduzir.Assim, durante milênios fomos submetidos a tecnologias que viabilizavamo controle. Por exemplo, o modelo hidráulico redistribuidor de água emcanais de irrigação, construídos e controlados pela tecnologia faraônica,criava o perigo ao adensar povoamentos em locais de risco, em umaproporção que ia muito além daquela exercida pela natural atração dasterras mais férteis. O objetivo era o controle. Se o povo não vivesse sob aameaça (do perigo), como poderia ser recompensado pela suaaquiescência, sendo salvo do perigo? E como poderia ser castigado porsua desobediência à ordem, sendo abandonado ao perigo? (4)Agora precisamos de tecnologia para viabilizar e acelerar a distribuição darede social. Quanto menor a possibilidade de comando-e-controle, mais-fluzz será essa tecnologia. Isso vale para tudo: energia e matéria, átomos ebits. E vale também para a comunicação.Assim como fluzz é obstruído pela centralização das comunicações e pelaInternet descentralizada, ele também é obstruído por todas as 99
  • 100. separações: desde aquelas impostas pela barreira da língua (que separapessoas que falam idiomas diferentes), passando pela busca burra (quesepara quem procura de quem gera conhecimento), pelos dispositivostecnológicos interativos separados do corpo humano e, inclusive, nolimite, pela separação entre pessoas e não-pessoas.A barreira da língua é uma das principais remanescências do mundo únicohierárquico. É curioso que, mesmo tendo sido imposto um mundo único,persistam várias línguas (cerca de 7 mil idiomas). Isso porque o mundoúnico não é monocentralizado e sim multicentralizado (oudescentralizado) em algumas identidades imaginárias (que chamamos denações, povos ou culturas sócio-territoriais, dominados hoje por menos deduas centenas de Estados).A metáfora bíblica sobre isso é esclarecedora. Na mesma Babel – não emvárias – as pessoas não podiam se comunicar umas com as outras. Não eraum problema de saber interpretar um código, de falar a mesma língua. Oque houve em Babel foi a impossibilidade de um conversar, não porque aspessoas falassem vários idiomas e sim porque não conseguiam coordenarmutuamente suas atitudes (o linguajear, na expressão de Maturana, quepressupõe e exige cooperação) e, desse modo, não se entendiam (sem umacoplamento estrutural não pode haver comunicação). É a pirâmide (atopologia centralizada da rede social babeliana) que impede esse (assimcomo qualquer outro) conversar. Tal problema só tem solução social, nãotecnológica. 100
  • 101. A solução para Babel é a rede social distribuída. No entanto, o problemada remanescência de várias línguas, entendidas como idiomas, comocódigos que podem ser traduzidos, tem solução tecnológica. Dispositivosmóveis com programas de tradução simultânea, capazes de receber eemitir dados e voz, são partes (por aproximação, assimilação ou simbiose)dessas interfaces complexas que chamamos de interworlds.A falta de programas i-based de navegação inteligente, da busca(semântica) à polinização (criativa, ensejadora de múltiplos significados),também é um obstáculo à interação entre os mundos. Mas tal desafiopode ser superado caso não se insista em recriar monstruosos sistemas degerenciamento do conhecimento (top down) e em arquivar significadosúnicos de modo centralizado (como faz, por exemplo, a Wikipedia).Repetindo: toda tecnologia é bem-vinda, inclusive aquela que modifica oscorpos humanos, desde que possibilite mais distribuição. Há muito tempoestamos modificando nossos corpos: tomamos inibidores seletivos darecaptação da serotonina (e. g., fluoxetina) e da fosfodiesterase-5 (e. g.,sildenafila), injetamos insulina transgênica, fazemos implantes (dentários,auditivos e inclusive de chips capazes de devolver a visão), inserimosnanopartículas para corrigir rugas na pele, usamos próteses de todo tipo einstalamos órgãos ou partes de órgãos internos artificiais. Por que nãopoderíamos inserir em nossos corpos outros dispositivos capazes deampliar e acelerar a comunicação?Pode-se argumentar que não temos como saber se, no longo prazo, tudoisso prejudicará a saúde. Mas também não temos como atestar isso em 101
  • 102. relação à maioria dos medicamentos que tomamos ou das intervençõesmédicas que realizamos. Todas essas substâncias e procedimentos, emcerta medida, provocam doenças ou desencadeiam novos padrões desaúde ou ensejam novos reequilíbrios saúde-doença. Sim, saúde não éausência de doenças, mas a estabilidade relativa de um sistema que, seestiver vivo, estará necessariamente afastado do equilíbrio, convivendo,portanto, com alterações que convencionamos chamar de doenças (e quesó são chamadas assim do ponto de vista de um padrão de saúde,baseado em indicadores cujos parâmetros de normalidade são variáveiscom época, lugar, cultura, conhecimento). Só seres inanimados estãolivres de doenças (ainda que as infestações de vírus em seres cibernéticostambém possam vir, coerentemente, a ser encaradas como doenças).Por outro lado, do ponto de vista biológico, já existe a parceria simbióticado corpo humano com outros seres vivos. Somos, na verdade, colônias debactérias, comunidades de micro-organismos. Somos os planetas ondevive boa parte dos seres vivos. Tal parceria está presente no interior denossa unidade vital: a célula nucleada é o resultado da associação com umprocarionte que passou a compor o novo organismo por endossimbiose.Mas todas as tecnologias que podem apoiar, vamos dizer assim, osurgimento das múltiplas internets distribuídas, não são, elas próprias, osinterworlds que conectam os mundos em rede aqui chamados de HighlyConnected Worlds. Esses interworlds são sociais – fundamentalmente, sãoredes sociais – não dispositivos tecnológicos. Ou seja, no limite, osinterworlds são pessoas. 102
  • 103. Pessoa já é rede Em cada pessoa há algo de seu próximo. Moises Cordovero (1522-1570) em Tomer Dvora (1588) Toda pessoa é uma pequena sociedade. Novalis em Pólen (1798) Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas. (“Umuntu ngumuntu ngabantu”: Máxima Zulu) Você, o indivíduo, é a massa, o resultado da massa. Em nós, como vocêdescobrirá se entrar nisso profundamente, estão os muitos e o particular. Jiddu Krishnamurti em Ojai 1st Public Talk (1944). Todas as pessoas são feitas de todas as outras pessoas. http://twitter.com/augustodefranco (08/07/10) Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos. John Guare em "Six degrees of separation" Peça na Broadway (1990) 103
  • 104. NOS NOVOS MUNDOS ALTAMENTE CONECTADOS do terceiro milênio,vida humana e convivência social se aproximarão a ponto de revelar os“tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamente humanos.Todos compreenderemos a nossa natureza de “gholas sociais”.Os tanques onde somos formados como pessoas são clusters, “regiões” darede social a que estamos mais imediatamente conectados.Um tipo especial de ghola: não um clone de um indivíduo, mas um “clone”de uma configuração de pessoas. Toda pessoa, como dizia Novalis (1798),é uma pequena sociedade; quer dizer, pessoa já é rede! Pessoa é um entecultural que replica uma configuração. É um ghola social.Em um mundo fracamente conectado, os caminhos são individuais. Cadapessoa vive sua vida, faz suas escolhas, estabelece suas rotinas e tomasuas iniciativas sob a influência das demais, é claro, mas como se fosseuma unidade separada. Convive, por certo, com as demais, mas essaconvivência é vivida como distinta daquela outra vida, que seria a suaprópria vida. Pode viver a ilusão de que vive sua vida, fazendo suasescolhas, estabelecendo suas rotinas e tomando suas iniciativas de modoautônomo. Pode alimentar a crença de que já surgiu no mundo comopessoa, quer em virtude de uma instância super-humana que assim atenha criado, quer por força da genética (o “sangue”) e das experiênciasparticulares pelas quais passou logo após seu nascimento (o “berço”).Em mundos altamente conectados tende a se esvair essa separação entrevida humana e convivência social. Nossas escolhas racionais raramentesão nossas: reproduzimos padrões, imitamos comportamentos e 104
  • 105. cooperamos com outras pessoas sem ter feito individualmente econscientemente tais escolhas. Adotamos princípios, escolhemoscarreiras, compramos produtos e priorizamos atividades em função doque fazem as pessoas que se relacionam conosco ou que estão ligadas anós em algum grau próximo de separação, muitas vezes pessoas que nemconhecemos (como os amigos dos amigos de nossos amigos).Vivemos então, cada vez mais, a vida do nosso mundo constituído pelaconvivência e não apenas a nossa vida individual. Isso ocorre na razãodireta da interatividade do mundo em que estamos imersos. O fluxo danossa timeline pode chegar a atingir tal intensidade ou densidade que, nolimite, não podemos mais afirmar inequivocamente que há um eu quedeseja, julga, raciocina, escolhe e almeja de forma autônoma em relação ànuvem de conexões que nos envolve. Ao mesmo tempo, sentimos esabemos que continuamos sendo uma pessoa, única, totalmentediferenciada. Mas ao viver a nossa vida (a vida humana única dessa pessoaque somos), vivemos, na verdade, a convivência (social, também única,desse mundo construído pelo emaranhado de conexões onde estamosfluindo e que nos constitui como seres propriamente humanos).O social passa ser o modo de ser humano nas redes com alta tramaturados novos mundos-fluzz. Em outras palavras, passamos a constituir umorganismo humano “maior” do que nós. Passamos a compartilhar muitasvidas, com tudo o que isso compreende: memórias, sonhos, reflexões demultidões de pessoas, que ficam distribuídas por todo essesuperorganismo humano. Podemos, como nunca antes, ter acessoimediato a um conjunto enorme de informações e, muito mais do que 105
  • 106. isso, podemos gerar conhecimentos novos com uma velocidade espantosae com uma inteligência tipicamente humana (não de máquinas,computadores ou alienígenas), porém assustadoramente “superior” a queexperimentamos em todos os milênios pretéritos.E tudo isso pode ocorrer sem a necessidade de termos consciência(individual) do que está se passando. Ao viver a vida da rede, apenasvivemos a convivência: não precisamos mais tentar capturá-la e introjetá-la, circunscrevê-la ou mandalizá-la para conferir-lhe a condição detotalidade, erigindo um grande poder interior de confirmação para noscompletar da falta dos outros e nos orientar nos relacionamentos comeles. Tal necessidade havia enquanto podia haver a ilusão da existência doindivíduo separado de outros indivíduos; ou quando um (ainda) não eramuitos. Toda consciência é consciência da separação, inclusive aconsciência da unidade, da totalidade, ou da unidade na totalidade, é umaresposta à separação. No abismo em que estamos despencando ao entrarem fluzz, não há propriamente isso que chamávamos de consciência.Como epígrafe de um dos capítulos de "Os filhos de Duna", o escritor deficção Frank Herbert (1976) colocou na boca de Harq al-Ada, cronista doJihad Butleriano (a guerra ludista contra as máquinas inteligentes) (5): "O pressuposto de que todo um sistema pode ser levado a funcionar melhor através da abordagem de seus elementos conscientes revela uma perigosa ignorância. Essa tem sido frequentemente a abordagem ignorante daqueles que chamam a si mesmos de cientistas e tecnólogos". 106
  • 107. Gholas sociaisUm ghola não é um borgNO UNIVERSO FICCIONAL DE DUNA, obra monumental de Frank Herbert(1965-1985), os tanques axlotl são mulheres tleilaxu que sofreram umcoma cerebral químico induzido, a par de outras intervenções genéticas,para servir como usinas de gholas (espécies de clones de uma pessoamorta a partir de seu material genético). Os Tleilaxu (ou Bene Tleilax) sãouma sociedade fechada de religiosos muito avançados tecnologicamente.No entanto, os gholas são réplicas que não manifestam automaticamenteas qualidades dos originais. Para tanto eles devem passar por um processolongo de aprendizagem e devem viver certas experiências (sobretudo derelacionamento íntimo com seus treinadores) para despertar suashabilidades.A leitura das diversas camadas da escritura de Herbert (literal, alegóricaou metafórica, simbólica etc.) permite um paralelo (meramente evocativoe para efeitos heurísticos) entre o processo biológico-cultural de clonageme aprendizagem de um ghola e o processo social de geração de umapessoa (que seria, então, uma espécie de “ghola social”). 107
  • 108. Os “tanques axlotl” onde somos gerados como seres propriamentehumanos seriam os clusters onde convivemos com outras pessoas (seresque já foram humanizados pelo mesmo processo) a partir do nascimento.De sorte que não somos humanos apenas por força da genética, dareprodução ou da hereditariedade biológica (que replicamos comoindivíduos da espécie homo) e sim em virtude da rede social em que com-vivemos, cuja configuração particular replicamos como pessoas, ou seja,“gholas sociais”. Aquele que é geneticamente humanizável só consuma talcondição a partir do relacionamento com seres humanizados. Somos(enquanto entes culturais) filhos da rede social. E não podemos serhumanos sem esse tipo de relacionamento. Como reza a máxima Zulu,“uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.Tudo isso é para dizer que um ghola (social) não é um borg. Mas por que étão importante dizer isso?No universo ficcional de Star Trek os Borgs são uma “raça” alienígena deciborgues, humanoides de várias espécies assimilados e melhorados com ainjeção de nanossondas e a aplicação de implantes cibernéticos quealteram sua anatomia e seu funcionamento bioquímico, ampliando suashabilidades mentais e físicas.Quando encontram suas presas - quaisquer membros de outrascivilizações, aos quais andam a cata – os Borg recitam, com algumasvariações, a seguinte litania: 108
  • 109. “Nós somos os Borg. A existência como vocês conhecem acabou. Adicionaremos suas qualidades biológicas e tecnológicas à nossa. Resistir é inútil”.Não existe uma rede social Borg, com algum grau significativo dedistribuição, porque não existe pessoa-Borg. Transformados em indivíduossubstituíveis, os borgs são replicados em série por uma estruturafortemente centralizada em sua rainha (sim, o regime é monárquicoabsoluto), a única que pode pensar livremente (se é que isso é possívelsem o conversar). Seus cérebros são conectados a uma mente coletiva (aColetividade Borg) controlada por um hub central (Unimatrix Um). Oobjetivo declarado do povo Borg (que só é um povo naquele particularsentido original da palavra latina ‘populus’: “contingente de tropas”) é“aperfeiçoar todas as espécies trazendo ordem ao caos”.Uma interpretação possível para a metáfora é a seguinte: de certo modoqualquer pessoa, transformada em peça substituível por uma organizaçãocentralizada (hierárquica), é – em alguma medida – um borg.Sim, o paralelo é mais fértil do que parece. Dizer que um ghola (social) nãoé um borg (biotecnológico), seria como colocar na boca do primeiro – nodealbar de uma época-fluzz – uma paródia da “saudação” borg como aseguinte: Nós somos gholas sociais. Novas possibilidades de existência, até agora desconhecidas de todos nós, estão sendo abertas. Nossas qualidades biológico-culturais estão se combinando em novos padrões sociais. É só preciso deixar-ir. 109
  • 110. A rigor, como uma configuração de pessoas está sempre ligada a outrasconfigurações, todas as pessoas estão de algum modo emaranhadas noespaço-tempo dos fluxos (quem sabe não era isso que chamávamos dehumanidade, uma prefiguração). Assim, no limite, todas as pessoas sãofeitas de todas as outras pessoas. 110
  • 111. Pessoas são portas“Toda pessoa é uma nova porta que se abre para outros mundos”PESSOAS SÃO PORTAS. Abrem caminhos. Na verdade, são caminhos.Atalhos entre clusters. Pontes. É sempre por meio de uma pessoa quepodemos interagir com quem está em outros mundos.Isso significa que os interworlds são realmente as pessoas, não um novoambiente tecnológico, mas um novo ambiente social com novos recursostecnológicos. Esta é uma típica compreensão-fluzz: pessoa não é oindividual e sim o social. Surpreendentemente, em mundos altamenteconectados as novas internets são... as pessoas!Não, não é somente uma imagem poética. É uma nova compreensão daspotencialidades humanas. Pessoas interagindo são seres humanos. Apartir de certo grau de interatividade, são organismos sociais, quer dizer,superorganismos humanos.Quando a tecnologia fornecer os meios para manter as pessoascontinuamente conectadas e para acelerar a interação, ela o fará a partirdessa possibilidade social. Aliás, foi assim que nasceu a velha Internet:como percebeu Castells, sua estrutura interativa só foi projetada assim 111
  • 112. porque as pessoas que a projetaram a projetaram assim (6). E as pessoasque projetaram a Internet só a projetaram assim – com possibilidade deinteratividade – porque havia tal possibilidade social. Da mesma formaestão nascendo as novas internets: seja com o aperfeiçoamento dosdispositivos móveis interativos, seja com implantes bioeletrônicos oucibernéticos, enquanto a topologia da rede for mais distribuída do quecentralizada não produziremos borgs, mas gholas-sociais.Há sempre um risco. O risco de ser borg. A fronteira entre um borg e umghola-social é móvel, nebulosa e quase sempre invisível. A hierarquiaproduz borgs. As redes humanas distribuídas geram gholas-sociais. Mas amaioria dos padrões de interação se configura no intervalo entrecentralização máxima e distribuição máxima.Evitar o risco é refugiar-se na vida individual, escolhendo racionalmente asinterações, sendo seletivo nos relacionamentos, fechando-se ao outro.Esse é o fracasso de todas as chamadas “pessoas de sucesso”. Fecham-seà interação com o outro-imprevisível e, ao fazer isso, a despeito de seremmuito conhecidas, obstruem conexões com a nuvem que as envolvem,desatalham clusters (ao se recusarem a servir como pontes), excluemoutras pessoas do seu espaço de vida e simultaneamente se excluem deoutros mundos, isolando-se do superorganismo humano e deixando decontar com uma parte (justamente aquela parte inusitada, que osmarqueteiros, os políticos profissionais e os psicólogos sociais tantoprocuram e não conseguem encontrar) das imensas potencialidades dosocial. 112
  • 113. São raríssimas as pessoas de sucesso que se deixam abordar por qualquerum do povo. Seus endereços, e-mails e telefones são mantidos em sigilo.Seus ambientes de trabalho são protegidos por porteiros, agentes desegurança, secretários e assessores. Seus sites e blogs são fechados àcomentários ou mediados. Sua participação nas mídias sociais é semprepara usá-las como broadcast, para fazer relações públicas e propagandade si-mesmas (para ficarem mais famosas e auferirem os benefícioseconômicos, sociais e políticos conferidos diferencialmente a quemalcançou tal condição).Isso acaba se manifestando no que acreditam que seja sua vida pessoal,como indivíduos, supostamente autônomos, tão importantes que nãopodem ficar vulneráveis aos paparazzi do relacionamento. Comoconsequência começam a desenvolver aquela sociopatia mais conhecidapelo nome de fama. Na verdade ficam doentes por déficit deinteratividade.Quem não quer ser porta, não acha caminhos. O sucesso é o melhorcaminho para perder caminhos. A perda de caminhos é também umamedida de não-rede, ou seja, uma expressão do poder. A contraparte dequerer ser muito importante é a falta de importância para a rede (e nãoimporta para nada se essas pessoas de sucesso têm milhares ou milhõesde followers nas mídias sociais mais frequentadas ou se seu blog temmilhares ou milhões de pageviews).E o risco? Bem, nos Highly Connected Worlds a pessoa é compelida acorrer o risco, a fluir com o curso. Não pode se proteger, se sedentarizar 113
  • 114. em seu mundo, se agarrar às coisas para tentar permanecer como é ou aser mais-do-mesmo (do que já é) em vez de surfar nos interworlds,navegar, ser nômade, fluzz.“Se não posso achar o caminho farei um”, escreveu Sêneca (7). Nos novosmundos-fluzz, seria o caso de dizer: como não há caminho, serei um (umaporta para outros mundos) 114
  • 115. Anisotropias no campo social Os deuses eram ventos. Arturjotaef em Numância (2010) Ama-gi é uma palavra suméria para expressar alforria... Traduzida literalmente significa “retorno à mãe” – na medida em que os ex-escravos eram “devolvidos às suas mães (i. e., libertados)”. Acredita-se ser a primeira expressão escrita do conceito de liberdade. Wikipedia (2010)NÃO HÁ NADA A FAZER. DEIXEM FLUZZ SOPRAR para ver o que acontece.(Na verdade, dizer ‘deixem fluzz soprar’ é apenas uma maneira de dizer,pois fluzz já é o sopro).Quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola? Quando fluzz soprar,para que religião, para que igreja? Quando fluzz soprar, para quecorporação, para que partido? Quando fluzz soprar, para que nação, paraque Estado? 115
  • 116. Oh! É claro que todas essas instituições perdurarão: comoremanescências. Não serão mais prevalecentes. Aliás, como já seprenuncia, elas se contaminarão mutuamente: nações serão religiões,escolas serão igrejas, Estados serão corporações... e tudo será, afinal, oque é – sempre a mesma coisa: programas verticalizadores que “rodam”na rede social instalando anisotropias no espaço-tempo dos fluxos.O cordobés Lucius Annaeus Sêneca (c. 3 a. E. C. – 65) escreveu que “se umhomem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”(8). Mas é o contrário. Pouco importa onde está Ítaca. É o vento, soprandolivre sobre a superfície das águas, que constitui o não-caminho (oudesconstitui todos os caminhos).Como cantou Konstantinos Kaváfis, “se partires um dia rumo a Ítaca, fazvotos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras... Melhor muitosanos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quantoganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma belaviagem deu-te Ítaca... Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, eagora sabes o que significam Ítacas” (9).Manobrando o leme para seguir uma rota já traçada não há como viverem processo de Ítaca. É preciso deixar-se ao sabor do vento.Quando o sopro não percorre livremente os mundos é porque houvedirecionamento de fluxo. Pré-cursos foram estabelecidos. Velas foramorientadas para capturar e condicionar o vento. Em geral isso é feito poressas intervenções antrópicas resultantes do congelamento de fluxos quechamamos de instituições (hierárquicas): escolas, ensino, religiões, igrejas, 116
  • 117. corporações, partidos, nações, Estados. São artifícios para exercer a Força,ou seja, para impor caminhos.A pergunta é: quando fluzz soprar, para que forçar? Por isso se diz: não hánada a fazer (quando fluzz soprar). Não há nada a fazer significa que épreciso deixar-ir. Ter um comportamento fluzz é deixar-ir. Fluzz não é aforça. Fluzz é o curso.Impor caminhos é deformar um tecido, perturbar um campo. Se pessoasinteragindo com pessoas são redes, o tecido deformado é sempre umarede que se tornou mais centralizada ou menos distribuída. Se o camposocial é composto pelo emaranhado de conexões, a perturbação é sempreum desemaranhar, de sorte que alguns mundos perderão contato comoutros; ou melhor, deixarão de estar sujeitos às mesmas interações. Seisso acontece é porque interworlds foram aniquilados.Quando forçamos um caminho exterminamos mundos (para nós, é claro –mas o que dá no mesmo, se não podemos mais interagir com eles).Perdemos então as oportunidades – de que fala o belo poema de Kaváfis –de “entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios ebelas mercancias adquirir” ou de peregrinar naquelas “muitas cidades doEgito... para aprender”. 117
  • 118. Deformando a rede-mãeNa ausência do poder as redes tendem a permanecer distribuídasA INVESTIGAÇÃO DAS REDES SOCIAIS leva-nos a uma nova hipóteseantropológica: uma outra visão da natureza humana (seja lá o que issofor), que se afasta do que foi concebido como Homo economicus, para seaproximar – como sugeriram Christakis e Fowler – do que eles chamaramde Homo dictyous (do latim homo, “humano”, e do grego dicty, “rede”)(10).Indivíduos biológicos da espécie humana se tornam Homo dictyous (sereshumanos), quando interagem. Mas quando interagem constituem rede.Logo, sem essa rede não podemos ser humanos.Em outras palavras: se, como pessoas, já somos rede – do contrário nãopoderia haver a realidade biológico-cultural que chamamos de ‘serhumano’ – então, para nós, humanos, no princípio era a rede. Isso significaque somos “filhos” da rede. Logo, podemos dizer que a rede é a nossa“mãe”. Ou seja, que existe uma rede-mãe.A interpretação que revela tal sentido é alegórica ou metafórica. Mas ametáfora da rede-mãe pode revelar mais coisas do que imaginamos. Ela 118
  • 119. sugere que, deixados a si mesmos, os humanos farão (ou melhor, serão)redes em vez de se engalfinharem em uma guerra de todos contra todostransformando sua vida em uma realidade “solitária, miserável, sórdida,brutal e curta”, como queria o agourento Hobbes (1651) (11).Os pensadores e os economistas que cunharam e trabalharam com aconcepção do homo economicus simplesmente partiram dessefundamento hobbesiano para reificar a existência da abstração chamadaindivíduo. Trata-se de uma visão da natureza humana – na verdade quaseuma tara – baseada no egoísmo, para a qual, como escreveu Hobbes, naausência de “um poder que domestique os homens... não há sociedade; e oque é pior do que tudo, [há] um medo contínuo e perigo de morteviolenta” (12). Vivendo nesse “mundo cão brutal em que a preocupaçãocom o bem-estar dos outros não existe” (13) existiria, entretanto,paradoxalmente, o indivíduo enquanto unidade isolada dos outrosindivíduos. Evidentemente, diante de tantos atos gratuitos de colaboraçãoque praticamos e presenciamos no dia-a-dia, essa construção intelectualsó pode se revelar uma perversão. Daí a tara individualista, tão frequentee inadequadamente denominada de liberalismo (econômico).Não há nenhuma evidência científica de que os seres humanosabandonados à sua própria sorte (como se pudesse haver outra sorte...)poriam fim à sua convivência. As evidências apontam justamente ocontrário. Não havendo motivo para guerrear, as pessoas – seguindo ofluxo da vida – viveriam sua convivência – ou seja, viveriam em rede.Como disse Lynn Margulis (1986): “A vida não se apossa do globo pelocombate, mas sim pela formação de redes” (14). 119
  • 120. A alegação de Hobbes de que é o poder que evita a destruição coletivadeve ser invertida. Quando há poder, aí sim, é porque houve motivo paraguerrear e a convivência fica ameaçada.Na ausência de um poder que as domestique (para insistir na expressão deHobbes), pessoas interagindo com pessoas tendem a configurar redesdistribuídas em pequenos grupos, só não o fazendo, em grupos maiores,em virtude da falta de condições biológicas ou tecnológicas deinteratividade ampliada e à distância. Não haveria motivo para obstruíremfluxos, separarem clusters ou excluírem nodos dessas redes (que é,exatamente, o que faz o poder), a menos que queiramos lançar mão deuma hipótese religiosa para vaticinar que o homem é inerentementecompetitivo (ou em parte competitivo, por sua própria natureza – seja lá oque isso for). Tal hipótese é absurda neste contexto porque pressupõeque possam existir seres humanos (entes biológico-culturais) como entes(biológicos) isolados.Mas não existe no ser humano nenhum atributo cultural(comportamental) que se possa dizer inerente. A “natureza” do Homodictyous – se é que se pode afirmar que exista uma ‘natureza da cultura’ –é relacional.Todo poder acarreta anisotropias no espaço-tempo dos fluxos(verticalizando a rede). E é por isso que o poder se define como umamedida de não-rede (em termos de rede distribuída) (15). Na ausência dopoder (centralização) a rede tende a permanecer distribuída. Podemosdizer que o bios (Basic Input-Output System) pré-gravado lá no firmware 120
  • 121. da rede-mãe não é um programa verticalizador (centralizador) pelosimples motivo de que não há qualquer razão para sê-lo. Nesse caso, oque precisa ser explicado é o processo de centralização, não o estado dedistribuição. São os obstáculos colocados à livre convivência que precisamser justificados, não a convivência.Por certo a rede-mãe não permanece com topologia distribuída napresença de programas verticalizadores. Aqui é um daqueles casos – maiscomuns do que se pensa – em que o software modifica o hardware (comoquando aprendemos uma língua e alteramos para tanto nossas conexõesneuronais). Programas verticalizadores deformam a rede-mãe, sejamprogramas meméticos (como os que chamamos de deuses – quando lhesatribuímos atributos super-humanos), sejam programas organizacionais(que rodam comandos de ordem, hierarquia, disciplina e obediência –como escolas, igrejas, partidos, corporações, Estados e outras instituiçõesassemelhadas com todos os seus aparatos). No interior e no entornodessas organizações hierárquicas o campo social é profundamenteperturbado. O espaço-tempo dos fluxos é deformado obrigando asfluições a percorrerem caminhos estranhos. A interação é disciplinadasem qualquer outra razão que a de manter tais estruturas monstruosasfuncionando e se reproduzindo. A imagem da Fig. 2 é aterrorizante.Lembra à primeira vista aquelas naves de alienígenas predadores do filmede Roland Emmerich (1996) Independence Day. Talvez não por acaso:organizações hierárquicas de seres humanos geram seres não-humanos.Mas se trata apenas de uma outra maneira de representar o diagrama (B)de Paul Baran (1964) exposto na Fig. 1. 121
  • 122. Fig. 1 | Diagramas de Paul BaranFig. 2 | Organograma de uma organização hierárquica 122
  • 123. Se o fluxo deixar de ser aprisionado, orientado, conduzido, compelido aescorrer pelas valetas cavadas para pré-traçar caminhos (eliminandooutros caminhos), a rede-mãe volta à sua topologia distribuída. É curiosoque a primeira expressão escrita do conceito de liberdade – a palavrasuméria Ama-gi – signifique literalmente “retorno à mãe”.Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que ensino, prá que escola?Quando fluzz soprar, para que religião, para que igreja? Quando fluzzsoprar, para que corporação, para que partido? Quando fluzz soprar, paraque nação, para que Estado?Um sinal de que fluzz está soprando é que tais instituições estão semisturando e se confundindo, quer dizer, está ficando cada vez mais claroque elas são aspectos das mesmas deformações ou do mesmo tronco deprogramas verticalizadores que “rodam” na rede social provocandoanisotropias no espaço-tempo dos fluxos.É assim que as perturbações no campo social que geram religiões revelam-se as mesmas que geram nações. De sorte que, nos múltiplos mundosaltamente conectados que estão emergindo, os nômades optarão por essaou aquela nação por mera preferência individual, como há bastantetempo já fazemos com as religiões que professamos quando nosconvertemos depois de adultos. Alguém preferirá ser brasileiro porsimpatia ou por outras razões afetivas, empáticas ou culturais; outro, porrazões análogas, preferirá se identificar com uma região ou cidade: serácaliforniano ou cidadão-cultural de Lyon. 123
  • 124. Da mesma forma, ao renunciar a igrejas muitas pessoas retirarão tambémseus filhos das escolas (compreendendo que as duas coisas são – nacondição de centros de deformação da rede-mãe ou de fontes deperturbação no campo social – basicamente a mesma coisa). Omovimento do homeschooling já começou e avançará para ocommunityschooling (na linha do unschooling). Comunidades deaprendizagem em rede tendem a florescer e se multiplicar nos HighlyConnected Worlds substituindo as atuais burocracias do ensinamento(chamadas de escolas).Ainda: Estados (nacionais) dividirão com corporações (transnacionais) ocontrole dos fluxos econômicos e políticos mundiais globalizados e essapulverização (dos 193 exemplares atuais do modelo europeu de Estado-nação – um anacrônico fruto da guerra, da paz de Westfalia – paramilhares de centros com autonomia crescente), dará margem àconfiguração de novos modelos glocais de governança baseados nolocalismo cosmopolita de miríades de cidades como redes decomunidades interdependentes.É claro que todas as velhas instituições perdurarão vestigialmente, comoremanescências do mundo único. Não serão destruídas, simplesmente setornarão inadequadas por não suportarem a fluição de alta intensidadeque atravessará os interworlds dos mundos altamente conectados doterceiro milênio. 124
  • 125. Perturbações no campo socialA nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem acapacidade de “sentir” perturbações no campo socialWALTER ROBINSON (2008), também conhecido por Ritoku – um zen-budista que dá aulas de filosofia na Universidade de Indiana – escrevendo“Morte e Renascimento de uma Mente Vulcana”, observa que “Vulcanostêm “sete sentidos”, que incluem os cinco sentidos conhecidos peloshumanos e um sexto sentido animal, que é “a habilidade de sentir apresença de distúrbio em campos magnéticos” (16).A metáfora, se não cai como uma luva, serve aos propósitos da presentedigressão. Por certo, admitir a hipótese e trabalhar com o modelo deperturbações no campo social pode ser mais fácil do que sentir essasperturbações. Não é preciso ir muito longe para saber se um campo socialfoi deformado: basta entrar em uma organização hierárquica; porexemplo, basta visitar uma instituição estatal ou uma grande empresapara constatar com que intensidade o “campo gravitacional” em torno doschefes modifica a estrutura do espaço (no caso, do espaço-tempo dosfluxos). Os fluxos se abismam nesses buracos negros. Eles são sumidouros,engolidouros, alçapões de fluxos. 125
  • 126. Tão forte às vezes é a gravitatem dos hierarcas que a deformação docampo social sob sua influência alcança até mesmo os stakeholdersexternos da organização, transbordando para seu entorno. É por isso queuma grande empresa ou corporação, em uma pequena localidade na qualnão existam outras organizações de mesmo porte, em vez de – como seacreditava – impulsionar seu desenvolvimento, faz o contrário: exterminao capital social local (quer dizer, centraliza a rede social). Existemexemplos à farta.Nas organizações altamente centralizadas, as pessoas perdem acapacidade de ser elas mesmas (à medida que cresce sua porção-borgdiminui a sua dimensão de pessoa, quer dizer, sua porção ghola-social).Vestem sempre uma espécie de farda; mesmo nas organizações civis quenão usam uniformes elas se uniformizam interiormente. E atéexteriormente: não raro preferem roupas que escondem o corpo e os tonsde cinza para o vestuário. No exercício continuado da servidão voluntária,autolimitam suas potencialidades escondendo-se na penumbra dasrotinas e optando por não se aventurar na claridade do ato inédito. Fazemtudo – sobretudo o que delas não é explicitamente exigido, eis o ponto! –para se submeter ao sistema e aos seus chefes.E há uma reverência indevida, uma espécie de sujeição, quase umagenuflexão psicológica quando alguém se dirige a algumas dessasencarnações de Dario (aquele monstro Darayavahush, um rei-borg que,após perpetrar um golpe de Estado, dominou os persas entre 521 e 486 a.E. C. exigindo-lhes prosternação física à sua passagem). 126
  • 127. Ésquilo (427 a. E. C.), em Os Persas – talvez a primeira obra escrita em quese menciona a democracia dos atenienses como realidade oposta adaqueles povos que têm um senhor – descreve bem a deformação docampo social sob o domínio da sombra de Dario (17). O regimemonstruoso não tinha, ao contrário do que se propagou, grandesvantagens militares. Os persas foram rechaçados pelos irreverentes,insolentes e mais livres atenienses e seus aliados na planície de Maratona(em 490). Sim, mas o que é realmente monstruoso é que tal programa(que poderia ser chamado, em homenagem a Ésquilo, de A Sombra deDario) – instalado quase três milênios antes de Dario – continue a rodar...quase três milênios depois!Todavia, essas deformações já começam a ser sentidas. Um sexto sentidohumano-social está surgindo nos Highly Connected Worlds. Não épropriamente um sentido individual. A nuvem que envolve-e-se-move-com uma pessoa conectada tem a capacidade de “sentir” perturbações nocampo social. Uma rede altamente distribuída rechaçará de pronto,mesmo que seus membros não tenham consciência disso, quaisquertentativas de comando-e-controle. Eis porque burocratas sacerdotais doconhecimento ou ensinadores, codificadores de doutrinas, aprisionadoresde corpos, construtores de pirâmides, fabricantes de guerras e condutoresde rebanhos não se dão muito bem em redes sociais distribuídas e, nemmesmo, nas mídias sociais, quer dizer, nas plataformas interativas que sãoutilizadas como ferramentas de netweaving dessas redes. Porque são,todos, netavoids. 127
  • 128. Esta é uma das razões – até agora muito pouco compreendida – pelasquais o comando-e-controle, além de não poder se exercer, também nãose faz necessário em uma rede distribuída (na medida, é claro, do seu graude distribuição). Dizer que o emaranhado “sente” quer dizer que eledetecta distorções. Mais do que isso: primeiro ele encapsula e depoisacaba metabolizando as fontes de perturbações que causam anisotropiasno espaço-tempo dos fluxos. E são esses incríveis seres sociais quechamamos de pessoas que sentem isso: ainda quando não saibam explicaros motivos dessa sensação, elas (as pessoas) percebem que “alguma coisaestá errada” quando aparece um daqueles netavoids, ou um arrivista (oumesmo um troll, nas mídias sociais).É a rede-mãe se defendendo. Mas ela nem sempre consegue fazer isso. 128
  • 129. Destruidores de mundosPersistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadaspara conversar com a rede-mãeDARAYAVAHUSH É UM DESTRUIDOR DE MUNDOS. Joseph Campbell diriaque ele representa “uma força monstruosa, a força do Império, que sebaseia na intenção de conquistar e comandar” (18). Como aquele DarthVader do primeiro episódio da série que veio à luz – Uma Nova Esperança(1977) –, na decifração de Joseph Campbell (1988), ele não é uma pessoa.É um programa malicioso que se instalou na rede. Um programaverticalizador.Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario, ohomem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive o próprioDario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estãoemaranhados em configurações deformadas da rede-mãe, comdeformações semelhantes. Qualquer um, inserido em sistemas com taisconfigurações, manifestará – em alguma medida – características deDarayavahush. E será em alguma medida destruidor de mundos. Naverdade, aniquilará interfaces (interworlds) estreitando o fluxo dasinterações, impedindo que pessoas se conectem livremente com pessoas. 129
  • 130. É por isso que organizações hierárquicas têm tanta dificuldade de gerarpessoas.Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá no nascimento enem apenas logo após o nascimento, mas prossegue por toda a vida (acom-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que se realiza quando vivemos aconvivência). É algo assim como o que certas tradições espirituaischamaram de formação da alma humana: um veículo para “atravessar amorte” (em vez de tentar evitá-la, querendo ser imortal: o motivo dacriação dos deuses à imagem e semelhança dos hierarcas) aceitando ofluxo transformador da vida.Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com aenergia da compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida,compartilhar o alimento, aliviar os sofrimentos e promover a liberdade,Darth Vader não tem alma porque, ao invés de formá-la, criou um veículo-substituto para escapar de fluzz: sua nave-simulacro é feita com a energiada violência, obtida nos atos instrumentais de tirar a vida, se apoderar dosrecursos vitais, infligir sofrimentos e, sobretudo, eliminar caminhos (pelaimposição da ordem).Nas organizações hierárquicas, um processo intermitente dedespersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos,separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processopoderia ser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, como umaperda de contato com a rede-mãe. É por isso que nossas organizações detodos os setores têm tanta dificuldade de contar com (a adesão voluntária 130
  • 131. das) pessoas. A reclamação geral é sempre a de que “as pessoas nãoparticipam”. Imaginam alguns que o motivo dessa dificuldade seria avisão, a missão, a causa da organização ou do movimento, avaliadas entãocomo incapazes de empolgar mais gente, porém a verdadeira razão estána deformação da rede. As pessoas sentem – mesmo quando nãoconseguem explicitar racionalmente seus motivos – que não lhes cabeentrar em um espaço já configurado de uma determinada maneira. Nãoquerem ‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nostermos estabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus própriostermos. Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não sãointerfaces adequadas para conversar com a rede-mãe. Porquecontinuamos criando obstáculos à livre conversação entre pessoas.Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam com redes.Organizações hierárquicas não podem conversar com redes.Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têmimensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente ondeestão imersas. A rede social que existe independentemente de nossosesforços conectivos – ou que existiria se tais esforços não fossemverticalizadores; quer dizer, o que chamamos aqui de rede-mãe – nãorecebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando maisou menos como se nada tivesse acontecido.É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociaisprofundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentesreportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma 131
  • 132. determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seusesforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, asrelações não mudam, parece que tudo continua como d’antes...Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações debase, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um graude enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A redesocial que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo asmensagens emitidas pela organização. É muito provável que essaorganização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza,um castelinho, uma igrejinha... É muito provável que ela faça parte da‘nova burocracia das ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – àsvezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda doque o dos partidos e organizações corporativas). É muito provável queseus chefes queiram se eternizar no poder (no caso, um micro-poder, éverdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, secomporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir do poder deexcluir o outro...) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir ocrédito ou obter o reconhecimento social pela sua atuação.Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãefor uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada apartir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico,seja com base no interesse político de um grupo particular que quermanobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede socialnão-deformada é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas queconstruímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são 132
  • 133. sempre privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimara privatização, como aquela velha crença de que existem interessesprivados que, por obra de alguma lei sócio-histórica, teriam o condão dese universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo quandosatisfeitos.Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com a rede-mãe.Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindointerfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que forpossível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construirmos paracopiar a rede-mãe melhor será a comunicação com ela.Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficarácada vez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionar pessoasem organizações erigidas com base na seleção de caminhos válidos (ou nanormatização de caminhos inválidos). Desde que tenham essapossibilidade, as pessoas perfurarão os muros, abrirão continuamenteseus próprios caminhos mutantes e – na sua jornada para Ítaca –peregrinarão para aprender naquelas “muitas cidades do Egito...” 133
  • 134. Hifas por toda parte Toda rede miceliana é um clone fúngico, o filho distante de uma única linhagem genética. Acima do solo, os fungos produzem esporos que flutuam no ar... Quando pousam, os esporos crescem onde quer que seja possível. Fazendo brotar redes tubulares, as hifas... os fungos produzem quantidades copiosas de esporos, os quais se disseminam, espalhando sua estranha carne... Lynn Margulis e Dorion Sagan em O que é vida? (1998) Jericó estava fechada por causa dos israelitas. Ninguém saía ninguém entrava... O Senhor disse então a Josué: “No sétimo dia... os sacerdotes tocarão as trombetas... Quando ouvirdes o som da trombeta, o povo lançará um grande grito; o muro da cidade virá abaixo, o povo subirá, cada um à sua frente. Josué 6: 1-5 134
  • 135. ENQUANTO ISSO, PORÉM, CRESCEM SUBTERRANEAMENTE AS HIFAS, portoda parte. Os alicerces das organizações hierárquicas vão sendocorroídos e seu muros, antes paredes opacas para se proteger do outro,vão agora virando “membranas sociais”, permeáveis à interação evulneráveis ao outro-imprevisível. Pessoas conectadas com pessoas vãotecendo articulações que estilhaçam o mundo-único-imposto em miríadesde pedaços, não pelo combate, mas pela formação de redes. E outrasidentidades – mais-fluzz – vão surgindo nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio.Não se decepcione: provavelmente você não vai ver nada mesmo! As hifascrescem, em geral, abaixo do solo. Os esporos espalham-se pelo ar, massão tão pequenos que a gente nem percebe.Quando você notar as consequências, aí não adiantará mais sedesesperar. Pois se o processo, por enquanto, ainda é lento e invisível (emparte “aéreo”, em parte “subterrâneo”), seus desfechos poderão ser bemconcretos e fulminantes nos mundos em que ocorrerem.Nos Highly Connected Worlds não há como fechar nada. Trancar, chavear,cerrar as fronteiras, isolar por meio de paredes opacas não é a soluçãopara manter a identidade ou preservar a integridade de nenhumaglomerado. Quando os fluxos aumentam de intensidade, os muros nãoconseguem mais contê-los.Parece que a vida “sabia” disso: tanto é assim que não encerrou seu“átomo” (a célula) em nenhuma estrutura fechada, separando-o do meiocom paredes opacas: antes, construiu membranas – uma interface de 135
  • 136. sustentabilidade, um convite à conexão. Um convite ao sexo, já queestamos agora explorando um paralelo biológico: nos fungos – que são“organismos realmente fractais”, como percebeu a bióloga Lynn Margulis(1998) – o ato sexual (chamado de conjugação) é uma conexão (19).Muros caindo por toda parte anunciarão “membranas sociais” surgindopor toda parte. Ou não: o que não virar “membrana social” seráescombro.O que as hifas – esses filamentos ou tubos finos que formam a estruturaem rede dos fungos – têm a ver com isso? Ora, tudo. Pois são elas (ou oprocesso espelhado, em termos biológicos, pela clonagem fúngica) queestão operando tal mudança. 136
  • 137. A perfuração dos murosQuando a porosidade aumentar, os muros vão começar a ruirEIS COMO PAREDES OPACAS vão se tornando inadequadas para conter ofluxo: elas vão sendo perfuradas por hifas. Essa possibilidade existeconcretamente desde que os subordinados em uma organizaçãohierárquica não podem mais ser proibidos de se conectar com quem estádo lado de fora do muro pelas polícias corporativas (os departamentos desegurança, os departamentos de pessoal e, inclusive – e hojeprincipalmente –, os departamentos de tecnologia da informação).O aprisionamento de corpos e sua contenção física em prédios fechados,com salas e andares isolados um dos outros, controlados por portarias oupor barreiras eletrônicas que não deixam passar quem não tem o códigoválido no seu cartão magnético funcional, já não resistem adequadamentea aglomeração física não-prevista pelos protocolos de segurança; porexemplo, dos amigos que se encontram após o expediente em bares,restaurantes, shoppings e em suas próprias casas, ou até mesmo dosfumantes que são obrigado a se encontrar na rua, do lado de fora dassedes, por imposição legal. E muito menos é capaz de resistir àcomunicação à distância, por celular, e-mail, pelos programas de 137
  • 138. mensagens e comunicação instantânea ou pelos sites de relacionamentona Internet.É inútil proibir e não há como manter uma vigilância eficaz. Osdepartamentos de tecnologia da informação (TI) podem tentar barrar(como ainda insistem em fazer) o acesso às chamadas mídias sociais e aosvários serviços de comunicação web na sua própria rede decomputadores, mas qualquer um que tenha um celular (3G, equivalenteou sucedâneo), ou melhor, um dispositivo móvel de interação conectado àInternet ou conectável a outros dispositivos por rádio (incluindo bluetoothquando seu alcance for ampliado) já pode – ao mesmo tempo em quetrabalha (ou finge que trabalha) em uma empresa fechada – desenvolveroutros projetos conjuntos com pessoas de outras empresas fechadas,inclusive concorrentes (20).Tudo isso aumenta a porosidade dos muros. À medida que a porosidadeaumentar, os muros vão começar a ruir.Só então as organizações fechadas se darão conta de que estãoirremediavelmente vulneráveis à interação e correrão desesperadas atrásdas membranas. Aí já poderá ser tarde: uma membrana é um dispositivoultracomplexo, que só pode ser construído pela dinâmica de umorganismo vivo em interação com o meio, com outros organismos e partesde organismos.Uma empresa que não aprendeu a se desenvolver conversando com asoutras empresas por medo de perder mercado ou de ter roubadas as suas 138
  • 139. inovações ou seus funcionários, não conseguirá, da noite para o dia, fazeruma reengenharia de suas, por assim dizer, boundary conditions.Uma corporação que insistiu em manter intranets mesmo depois de tersido inventada a Internet, dificilmente estará preparada para operar, emtempo hábil, tal mudança. 139
  • 140. A construção de “membranas sociais”Deixar a interação pervadir um sistema não significa propriamente fazer,mas – ao contrário – não-fazer: não proibir, não-selecionar caminhos...A DERRUIÇÃO DOS MUROS não esperará que os sacerdotes toquem astrombetas em Jericó (se bem que na saga bíblica de Josué foi o grito emuníssono do povo que derrubou as muralhas que trancavam a cidade). Dequalquer modo, não há mais tempo para aprender a construir verdadeirasmembranas. Na verdade, membranas não podem ser construídas, strictosensu, como um ato voluntário de alguém que segue uma planta, umprojeto, um esquema. As membranas são “construídas” pela interaçãobiológica, elas surgem em função da autopoese: da produção contínua davida por ela mesma.No caso das membranas celulares (plasmalemas), sua estrutura efuncionamento complexos dependem da dinâmica de rede, de redesdentro de redes, com canais proteicos (proteínas de transporte – espéciesde atalhos entre clusters) que atravessam suas camadas, passando pornumerosos arranjos moleculares (21) até chegar, na interface com ocitoplasma, a um emaranhado de “hifas” composto por filamentos emicrotúbulos de citoesqueleto... tudo isso fluindo (imerso em fluidoextracelular). E tudo isso com a função de ser uma porta seletiva que a 140
  • 141. célula usa para captar os elementos do meio exterior que são necessáriosao seu metabolismo e para liberar as substâncias que a célula produz eque devem ser enviadas para o exterior (excreções que devem serlibertadas e secreções que ativam várias funções de seus, por assim dizer,“stakeholders externos”).Esse produto de bilhões de anos de evolução biológica funciona, é claro,como um sistema não-hierárquico, sem-administração, auto-organizadopara permitir o que chamamos de vida e não pode ser substituído porcancelas corporativas que sigam protocolos alfandegários burros,destinados a disciplinar a interação.Seria inútil simular, nas organizações que voluntariamente construímos,mecanismos semelhantes às membranas celulares. E nem seria o caso detentar fazê-lo, abusando do paralelo biológico. O que se deve captar aquié o padrão, não reproduzir o mecanismo ou simular o organismo. E opadrão é o padrão de interação em rede.“Membranas sociais”, seja o que forem (e como forem), serão sempreredes (mais distribuídas do que centralizadas), interfaces. A única solução-fluzz parece ser articular comunidades móveis (no ecossistema compostopelos stakeholders da organização) e deixar a interação configurar taisinterfaces, esperando que elas cumpram funções equivalentes, no mundosocial, às que são desempenhadas pelas membranas celulares no mundobiológico.Na verdade, ao estabelecer contornos, estabelece-se a estrutura e adinâmica do que está dentro dos contornos. Membranas são o que são (e 141
  • 142. como são) porque os meios que elas conectam são o que são (e comosão). Mas tais meios são, eles próprios, constituídos pela interação, querdizer, não se constituem como tais antes da interação. A membrana é umsistema complexo porque é, simultaneamente, uma interseção deconjuntos, uma zona de transição entre um ser e os outros seres nos quaisse insere (ou, mais genericamente, com os quais interage), uma forma deligação ou uma espécie de conjunção.Ainda não sabemos muito sobre membranas e, sobretudo, sobre“membranas sociais”. Algumas coisas, porém, já sabemos. Sabemos, porexemplo, que deixar a interação pervadir um sistema não significapropriamente fazer, mas – ao contrário – não-fazer: não-proibir, não-selecionar caminhos (estabelecendo apenas alguns caminhos,proclamando-os como válidos e exterminando todos os demais caminhos,decretando-os inválidos); fundamentalmente, não gerar artificialmenteescassez (22).Sabemos também que as interfaces devem ser sociais stricto sensu e nãoorganizacionais (em termos das teorias da administração baseadas emcomando-e-controle). Ou seja, devem ser baseadas na livre conversaçãoentre pessoas e na sua espontânea clusterização e não na designação, exante à interação, de caixinhas departamentais para alocar essas pessoas.Simples assim? É, mas a conversação é algo bem mais complexo do queparece. E os novos procedimentos e mecanismos, os novos processos denetweaving e as novas tecnologias interativas que inventamos paraviabilizar e potencializar a conversação, alteram completamente omultiverso das interações que chamamos de social. 142
  • 143. “Membranas sociais” são interworlds. Ao constituí-las multiplicamos osmundos, dando origem – se quisermos fazer uma comparaçãoquantitativa para efeitos ilustrativos – a bilhões de organizações (em vezde milhões que existem atualmente). Uma mesma pessoa participará demuitas organizações, comporá numerosas empresas, entidades,movimentos, enfim, redes – pois tudo isso é válido, claro, na medida emque tudo for rede. Para tanto, não será necessário fazer quase nadaadicionalmente ao que já se faz hoje. Bastará não proibir a conexão, nãoquerer disciplinar a interação.Um bom exemplo, hoje, são as plataformas interativas digitais, chamadasde “redes sociais”. A quantas “redes sociais’” alguém pertence (ou seja,em quantas mídias sociais está registrado)? O número é grande e só tendea crescer.Os emaranhados se adensarão a tal ponto, as timelines ficarão tãocaudalosas, que as identidades organizacionais não se manterão pormuito tempo. Despencaremos da escala de décadas e anos (que é a vidamédia da imensa maioria das organizações que ainda temos) para a escalade meses e dias (ou, quem sabe, de horas e minutos).Não é bem como disse Andi Warhol (1968) – “no futuro todo mundo seráfamoso por quinze minutos” – mas é parecido (23). Não é bem como eledisse porque ninguém será muito famoso, no sentido de visto por todomundo, porque não haverá mais o mundo único forjado pelobroadcasting. Mas é parecido porque no futuro (um conceito que tambémserá aposentado, de vez que não haverá mais um futuro único, um mesmo 143
  • 144. futuro para todos), as organizações serão sempre transitórias, estarãosempre fluindo para configurarem outras organizações e uma mesmaconfiguração não poderá perdurar por muito tempo.É assim porque redes são móveis. Novamente as mídias sociais oferecemuma boa imagem do que ocorre. Sites de relacionamento e plataformasinterativas nunca são as mesmas ao longo do tempo e a velocidade comque mudam (em anos, dias ou horas) é função da sua interatividade. Oexemplo mais flagrante é o twiver (as centenas de milhões – que logoserão bilhões, se considerarmos os sucedâneos do Twitter – de timelinesfluindo no twitter-river).Onde e quando tudo isso vai acontecer? Vai acontecer nos HighlyConnected Worlds do terceiro milênio. Para aqueles mundos que já estãono terceiro milênio. 144
  • 145. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não emparticipação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamal-sucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceitocomplexo, sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem:“Tudo que flui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 145
  • 146. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011 nolivro Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.(1) Cf. LORCA, Frederico Garcia (1924). “Canción Tonta” in Canciones(Obras Completas I). Madrid: Aguilar, 1978.(2) BARROS, Manoel (1993). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.(3) LÉVY, Pierre (1998). “Uma ramada de neurônios” in Folha de São Paulo:15/11/1998. Cf. ainda Caderno Mais da Folha de S. Paulo: 15/11/2002 (p.5-3). O texto está disponível em:<http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/uma-ramada-de-neuronios>(4) Cf. FRANCO, Augusto (1998). O Complexo Darth Vader. Slideshare [469views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-complexo-darth-vader>(5) HERBERT, Frank (1976). Os filhos de Duna. Rio de Janeiro: NovaFronteira, 1985.(6) CASTELLS, Manoel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre aInternet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. 146
  • 147. (7) Trata-se de uma tradução forçada do provérbio “Viam aut aut faciaminveniam” cuja localização não foi possível determinar. Cf. a bibliografia deSENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65) em:<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>(8) SENECA, Lucius Annaeus (c. 3 a. E. C. – 65). Cf. Wikiquote:<http://pt.wikiquote.org/wiki/S%C3%AAneca>Não foi possível determinar a localização desta citação. Cf. a bibliografiade SENECA:<http://www.egs.edu/library/lucius-annaeus-seneca/biography/>(9) KAVÁFIS, Konstantinos (1911). Ithaca. Kaváfis não publicou nenhumlivro em vida. Estão disponíveis online as traduções de José Paulo Paes eHaroldo de Campos em:<http://www.org2.com.br/kavafis.htm>(10) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James (2009): Connected: o poderdas conexões. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.(11) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.(12) HOBBES: Op. cit.(13) CHRISTAKIS, Nicholas e FOWLER, James: Op. cit. 147
  • 148. (14) MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (1986). Microcosmos: four billionyears of microbial evolution. Los Angeles: University of California Press,1997.(15) Cf. FRANCO, Augusto (2009). O poder nas redes sociais. Slideshare[1893 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/o-poder-nas-redes-sociais-2a-versao>(16) ROBINSON, Walter (2008). “Morte e renascimento de uma mentevulcana” in EBERL, Jason & DECKER, Kevin (2008). Star Treck e a filosofia: aira de Kant. São Paulo: Madras, 2010.O sétimo sentido seria “o senso de unicidade com Tudo, isto é, Universo, aforça criativa, ou o que alguns humanos poderiam chamar de Deus.Vulcanos não veem, contudo, isso como uma crença, seja religiosa oufilosófica. Eles tratam isso como um simples fato que insistem não sermais incomum ou difícil de entender do que a habilidade de ouvir ou ver”[como escreveu o criador da série Star Trek, Gene Roddenberry (1979)].Vulcanos chamam essa filosofia de “Nome”, querendo dizer “umacombinação de uma diversidade de coisas para fazer com que a existênciavalha a pena” (Episódio “Por trás da cortina”: The Original Series)”. Cf.RODDENBERRY, Gene (1979). The Motion Picture. New York: PocketBooks, 1979.(17) Em Os Persas, Ésquilo descreve os reveses de Xerxes, filho de Dario. Jámorto na ocasião, Dario vai então aparecer na peça como uma sombra 148
  • 149. para advertir aos persas que jamais movam novamente uma guerra aosgregos. Depois de dar adeus aos anciãos e de recomendar que, mesmo“em meio a desgraças, alegrem-se na fruição do mundo... a Sombra deDario esfuma-se no túmulo”.(18) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas aBill Moyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990.(19) MARGULIS, Lynn & SAGAN, Dorion (1998). O que é vida? Rio deJaneiro: Zahar, 2002.(20) A quase totalidade dos procedimentos e mecanismos de obstrução defluxos, estabelecidos nas organizações a pretexto de segurança, não sejustifica (em mais de 90% dos casos, não há nada de realmente decisivo,estratégico ou sigiloso que deva ser protegido ou não-compartilhado,fechado e trancado em vez de permanecer aberto e disponível). Isso valepara os protocolos de segurança impostos pelas áreas chamadas de“tecnologia da informação”. Não há qualquer ganho em proibir o acessodos funcionários de uma organização ao Youtube ou ao Messenger, aoSlideshare ou ao 4shared, ao Facebook ou ao Twitter. Não há nenhumarazão para impor programas de e-mail proprietários, lentos, pesados ecom limitações enervantes de poucos megabytes no lugar de adotarcorreios eletrônicos web mais eficazes, rápidos, com alta capacidade e,além de tudo, gratuitos (como o gmail ou o ymail). Não há nenhum motivopara editar hierarquias de permissões diferenciais e preferências deacesso a conteúdos que, se fossem realmente secretos (como listas deespiões ou processos de fabricação de artefatos de destruição em massa), 149
  • 150. não poderiam mesmo estar em rede. E não há explicação plausível para amanutenção de intranets, sobretudo em uma época em que já existe aInternet.(21) Por exemplo, cabeças hidrofílicas com caudas hidrofóbicas emconjugação com fosfolípidos, aglomerados de proteínas globulares,glicoproteínas, glicolipídios, colesterol, proteínas extrínsecas etc.(22) Cf. FRANCO, Augusto (2009). A lógica da abundância. Slideshare[2.172 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/a-lgica-da-abundncia>(23) WARHOL, Andi (1968). Cf. “15 minutes of fame” em<http://en.wikipedia.org/wiki/15_minutes_of_fame> 150
  • 151. O mundo não vai virar uma aldeia global, nãohá um pensar global e um agir local, esustentabilidade não tem nada a ver comguardar recursos para as gerações futuras 151
  • 152. 152
  • 153. O mundo não vai virar uma aldeia global, nãohá um pensar global e um agir local, esustentabilidade não tem nada a ver comguardar recursos para as gerações futuras 153
  • 154. 154
  • 155. O mundo não vai virar uma aldeia global, nãohá um pensar global e um agir local, esustentabilidade não tem nada a ver comguardar recursos para as gerações futuras 155
  • 156. PARA ENTRAR NO TERCEIRO MILÊNIOAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de PARA ENTRAR NO TERCEIRO MILÊNIO / Augusto de Franco. – São Paulo: 2012. 30 p. A4 – (Escola de Redes; 10) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 156
  • 157. SumárioIntrodução | 9Miríades de aldeias globais | 13Pensar e agir glocalmente | 18Aprender a fluir com o curso | 22Notas e referências | 27 157
  • 158. 158
  • 159. Introdução À velocidade da luz não existe futuro previsível... Não há, literalmente, futuro possível. Você já está ali, no momento que chama de situação. É por isso que em nossa época não existem objetivos... Para onde vamos? Estamos todos vestidos e sem ter aonde ir. Marshall McLuhan na Universidade York, em Toronto (1979)PARA O MUNDO ÚNICO BROADCAST que remanesce o terceiro milênioainda não começou. Grandes “verdades” do final século 20 não foramainda revistas, conquanto não faltem evidências de seu envelhecimento.Três exemplos eloquentes: O mundo virou uma aldeia global? Não. Está virando miríades de aldeias globais. Pensar globalmente e agir localmente? Não. Pensar e agir glocalmente! Sustentabilidade é resguardar recursos para as futuras gerações? Não. É aprender a fluir com o curso... 159
  • 160. Mundo. Tempo. A ilusão do mundo único é a ilusão do tempo único. Se osmundos são vários, o tempo de cada mundo é diferente. Por certo, obroadcasting sintoniza, ou melhor, uniformiza. Mas não iguala, em cadamundo, o ritmo da fluição que transforma futuro em passado.Se frequentemente temos a impressão de que o terceiro milênio aindanão começou – já que as promessas de uma Nova Era que foram a eleassociadas não se realizaram – surge a pergunta: quando então ele vaicomeçar? Ora, levando-se em conta a existência de vários mundos, apergunta não tem sentido. Quando? – em um multiverso – sempre querdizer: para quem?Um ano antes da sua morte, em palestra na Universidade York, emToronto, McLuhan (1979) disse que “à velocidade da luz não existe futuroprevisível”. E foi além: “Não há, literalmente, futuro possível. Você já estáali, no momento que chama de situação. É por isso que em nossa épocanão existem objetivos... Para onde vamos? Estamos todos vestidos e semter aonde ir” (1). Talvez McLuhan tenha antevisto ou pressentido ainteração em tempo real ou sem distância nos novos mundos-fluzz (*)quando apontou a “velocidade da luz” como fator que impossibilita ofuturo. Mas a questão não é que não exista futuro possível e sim que nãoé mais possível, nos novos mundos altamente conectados que estãoemergindo, um mesmo futuro.Não há um futuro universal porque não há um universo em termos sociais,como acreditaram as narrativas iluministas. Como observou David deUgarte (2010), com a desconstituição “dos sujeitos com os quais se 160
  • 161. compunha a narração histórica: as classes, as nações, os grupos deinteresse, o marco do mercado... morre esse futuro que se pretendia ‘o’futuro” (2). Mas a questão é que todas essas narrativas pressupunham ummesmo mundo e tentavam explicar a constituição dos sujeitos em funçãode expectativas imaginadas a partir dessa abstração totalizante em queacreditavam.Dependendo do mundo em que se convive, “o que aconteceu [em algunsmundos] ainda está por vir” [em outros] e para quem já vive no multiversodos Highly Connected Worlds “o futuro não é mais como eraantigamente”, como cantou Renato Russo (1986) (3). Com oestilhaçamento do mundo único, o futuro também se esporaliza.Não há mais uma saída (aliás, quando houve, não foi propriamente umasaída senão uma permanência, um confinamento em um mundo, paramanter esse mundo contra os outros mundos possíveis). As tentativas detransformar o mundo herdeiras do iluminismo universalista eramtentativas contra-multiversalistas de mudá-lo para mantê-lo (como mundoúnico) ou então para substituí-lo por outro mundo (também único).Um outro mundo é possível – bradam os militantes antiglobalização quecontinuam habitando o século passado. Mas um outro mundo não é maispossível. E, se fosse, não seria desejável. Outros mundos – isto sim, noplural – são possíveis. A saída é a entrada em outros mundos. É alibertação deste mundo único no qual você foi aprisionado. É a suadesistência de procurar um líder para lhe arrebanhar e guiar nessa 161
  • 162. caminhada: você (esse complexo ser social que é a sua pessoa) é a saída,ou melhor, a porta de entrada para outros mundos.Para quem já entrou no terceiro milênio soam anacrônicas, em boa parte,as verdades consideradas progressistas e politicamente corretas do séculopassado, voltadas à mudar o mundo (quer dizer, a preservar o mundoúnico), como – para citar apenas algumas como exemplos – a de que omundo ia virar uma aldeia global, a de que era preciso pensar globalmentepara agir localmente, a de que sustentabilidade era resguardar ou pouparrecursos para as futuras gerações. A despeito dos generalizados consensosque se formaram em torno dessas ideias, elas são, todas, regressivas – istoé: contra-fluzz – posto que nascidas do pavor da imprevisibilidade dainteração (**). 162
  • 163. Miríades de aldeias globaisNão é que haja uma rede cobrindo o mundo. É que mundos são redesTOM WOLFE (2003), na introdução da coletânea de palestras e entrevistasde Marshall McLuhan, publicadas postumamente no volume intituladoUndestanding me, escreveu sobre a euforia, que “beirava o espiritual”,dos visionários do ciberespaço no Vale do Silício dos anos 90: “eles diziama todo mundo no Vale que o que estavam fazendo era muito mais do quedesenvolver computadores e criar um novo meio de comunicaçãomaravilhoso, a Internet. Muito mais. A Força estava com eles. Estavamtecendo sobre a Terra uma rede inconsútil que tornaria insignificantestodas as fronteiras nacionais e divisões raciais, transformandoliteralmente a natureza da besta humana”. Esses visionários foraminspirados, segundo Wolfe, “por um literato canadense que morreu quinzeanos antes que a Internet viesse a existir. Seu nome, desconhecido fora doCanadá até a publicação do livro Para entender os meios de comunicação,em 1964, era Marshall McLuhan” (4).McLuhan ficou famoso pela previsão de que “o mundo estava se tornandorapidamente uma ‘aldeia global’ como resultado da difusão da redeinconsútil da televisão por toda a Terra” (5). No entanto, Wolfe teve 163
  • 164. argúcia suficiente para perceber que havia uma visão espiritual de futuropor trás das suas predições. A nova era anunciada – na qual todosestariam, segundo o próprio McLuhan, “irrevogavelmente envolvidos unscom os outros e seriam responsáveis uns pelos outros” – era algo maissublime do que uma simples utopia secular. Segundo McLuhan, “oconceito cristão de corpo místico, de todos os homens como membros docorpo de Cristo – isto se torna tecnologicamente um fato sob as condiçõeseletrônicas” (6).Wolfe identifica aí a influência decisiva de Teilhard de Chardin sobreMcLuhan. Embora tenha falecido em 1955, antes mesmo da difusão datelevisão por todo mundo e quando os computadores ainda erampaquidermes enjaulados em grandes centros de pesquisas e mega-empresas, Chardin (1955) percebeu que a tecnologia estava criando um“sistema nervoso para a humanidade, uma membrana única, organizada,inteiriça sobre a Terra”, uma “estupenda máquina pensante” (7). Teilhardde Chardin escreveu que “a era da civilização terminou e a da civilizaçãounificada está começando” (8) Essa membrana inteiriça (que Chardinchamava de noosfera) – conclui Tom Wolfe – era, naturalmente, a ‘redeinconsútil’ de McLuhan. E essa ‘civilização unificada’ era a sua ‘aldeiaglobal’.Interessantíssima a sacada da membrana envolvendo a Terra (mais peloparalelo com uma membrana). Recentemente Don Tapscott (2006)encarou a Internet como uma pele que cobre o planeta (9). Mas há umproblema com a idéia de que essa membrana seria “inteiriça”. Sim, todoproblema foi a idéia de alguma coisa “unificada” – termo que Chardin não 164
  • 165. só afirmou como quis enfatizar. A unificação – se é que a palavra seriaadequada – não é unitária, porém fractal. Pois o mundo não virou, nãoestá virando, nem vai virar uma aldeia global, mas miríades de aldeiasglobais.A emergência da sociedade-rede vem acompanhada de um processo deglobalização do local e, simultaneamente, de localização do global. Ofuturo mundo das redes distribuídas – se vier – não será, como previaMcLuhan, uma aldeia global, senão miríades de aldeias globais. A aldeiaglobal midiática (e “molar”), de Marshall McLuhan, sugere o mundovirando um local. A sociedade-rede (“molecular”) – percebida por Levy,Guéhenno, Castells e vários outros — sugere cada local virando o mundo,fractalmente. Não o local separado, por certo, mas o local conectado quetende a virar o mundo todo, desde que a conexão local-global passou a seruma possibilidade (10).Em outras palavras: o mundo das redes distribuídas não vem como ummundo único. Não é que haja uma rede (ou várias redes) cobrindo omundo. É que mundos são redes.A idéia de um mundo único – ao contrário do que vaticinaram à farta osprosélitos da Nova Era e continuam propagando militantes ambientalistase espiritualistas – é regressiva. Para que haja um mundo único em termossociais é necessário centralizar a rede (mantendo instâncias centralizadasde difusão um-para-muitos). Para que haja um mundo único em termospolíticos também é necessário centralizar a rede (construindomonstruosidades como um Estado planetário ou um governo mundial). 165
  • 166. Para que haja um mundo único em termos de consciência unificada(noosféricos como queria Chardin), seria preciso admitir a existência dealgum ente sobre-humano, seja um deus ou uma consciência coletiva (quefosse capaz de ser consciente de si mesma e, neste caso, não seriahumana).Um superorganismo coletivo está nascendo, sim, mas trata-se de umsuperorganismo humano – um simbionte social –, não de um organismosuper-humano. Sua inteligência se compõe por emergência, a partir dainteração e não pode ser instalada em qualquer mainframe. É umainteligência tipicamente humana e não extra-humana, de um deus, de umalienígena, de uma máquina ou da Matrix. Se esse superorganismo forcapaz de algo como uma consciência, também se tratará de umaconsciência humana composta por emergência e não de umasuperconsciência, de um olho que tudo vê e se vê ou sabe que está vendo.Nem o velho deus hebraico (segundo a interpretação mais arguta doesoterismo judaico) possuía tal consciência, de vez que foi levado a criar omundo para poder se ver no espelho da sua criação.O modelo é autorregulacional. Assim como não há uma instânciacentralizada de regulação da biosfera, assim também não pode haver umainstância centralizada de regulação de uma sociosfera, até porque nãopode existir apenas uma sociosfera. As conexões P2P (quando o “P”significa “pessoa”) que compõem as sociosferas não centralizam; pelocontrário, distribuem. 166
  • 167. Os visionários do ciberespaço, herdeiros do sonho mcluhiano da aldeiaglobal (segundo Tom Wolfe), acreditando que a Força estava com eles,usaram-na para construir seus mainframes: seus programas e produtosproprietários, suas caixas-pretas para trancar – esconder dos outros emvez de compartilhar – os algoritmos que inventavam, seus bunkersorganizativos e suas fortunas pessoais.Todavia, há uma diferença entre o que fizeram Vinton Cerf e Robert Kahn(1975) com o Protocolo TCP/IP, Tim Berners-Lee e Robert Cailliau (1990)com a World Wide Web, Linus Torvalds (1991) e a multidão com o Linux eRob McColl (1995) e a multidão com o Apache, e o que fizeram Bill Gates ePaul Allen com a Microsoft (1975) e o Windows (1985), Steve Jobs e SteveWozniak com a Apple (1976) e o Mac OS (1984), Larry Page e Sergey Brin(e Eric Shmidt) (1998) com o Google, Mark Zuckerberg e Dustin Moskovitz(2004) com o Facebook e Evan Willians e Biz Stone (e Jack Dorsey) (2006)com o Twitter. Estamos verificando agora em que medida eles estavam nocontra-fluzz ou com-fluzz, o curso que não pode ser aprisionado porqualquer mainframe. 167
  • 168. Pensar e agir glocalmenteNão pode haver um pensar global: seriam pensares, e eles seriam tantosquantos os locais onde foram pensadosTHINK GLOBAL, ACT GLOBAL. A frase “pensar globalmente, agirlocalmente” já foi atribuída ou reivindicada – de 1915 a 1989 – por maisde dez pessoas, desde a urbanista Patrick Geddes, passando pelomicrobiologista René Dubos, pelo teólogo Jacques Ellul e pelofuturologista Buckminster Fuller, até chegar a Harlan Cleveland.Tanta disputa pela fórmula ou tanta vontade de atribuir ou reivindicar asua paternidade, revela, é óbvio, uma concordância generalizada com asíntese que ela pretende representar. Mas revela também umacompreensão pouco-fluzz do mundo. Não há uma esfera global que, umavez percebida por inteiro ou entendida em sua totalidade, forneçaelementos para orientar a ação local.Ninguém percebe ou entende alguma coisa fora de um local e se este localpuder se conectar a outros locais, ele então já é global (um local que foiglobalizado). Na verdade, global é uma abstração para indicar apossibilidade de conexão com outros locais, não uma instância autônomaconcreta. Se estivermos usando a expressão global para falar da Terra, 168
  • 169. então estamos falando de um local (o planeta: um global que só existiráconcretamente se for localizado).Do ponto de vista da rede social, local é um cluster, não uma porção doplaneta físico. Desse ponto de vista, o local não está dado de antemão,mas é constituído pela interação dos que o reconhecem como um local.Um local em interação com outros locais é uma realidade glocal, que seconstitui quando a globalização do local encontra a localização do global.Essa é apenas outra maneira de falar da conexão local-global, ou seja, dainteração entre diversos locais.Os muitos mundos interagentes são realidades glocais. Se estão brotandoinumeráveis interworlds, então se trata de pensar e agir glocalmente, nãode pensar globalmente e agir localmente (ou vice-versa). Em suma, nãopode haver um pensar global: seriam pensares, e eles seriam tantosquantos os locais onde foram pensados. Se for, entretanto, resultado dainteração com os outros locais, todo pensar será glocal e toda açãotambém será glocal.Não, não é a mesma coisa. Não é um jogo de palavras. Não pode haver umpensar global – nem no sentido da percepção de uma esfera inteiriça ouunificada (como queria Teilhard de Chardin) ou da percepção da aldeiaglobal (como queria Marshall McLuhan), nem mesmo no sentido de umapercepção totalizante ou holística – porque isso pressupõe uma apreensãopor cima ou por fora da interação. A aldeia global de McLuhan será local,está claro, mas nunca um único e mesmo local (pois local já pressupõemuitos locais, cada qual – aí sim – único; do contrário desconstitui-se o 169
  • 170. próprio conceito de local). Quem a perceber estará expressando apercepção do emaranhado de conexões no qual está envolvido. Como osemaranhados são diversos, cada percepção será também diversa.Teremos tantas aldeias globais quanto os mundos a partir dos quais elassão vistas como resultado de configurações particulares de interação. Ouseja, teremos miríades de aldeias globais.Não é a toa que a visão de McLuhan beire o espiritual (como percebeuindiretamente Tom Wolfe) ou esteja na fronteira entre ciência e religião,como a visão de Chardin. A rigor ela pressupõe um ser capaz de exercer asupervisão de todas as interações, alguém, portanto, não-humano; oualgo como uma consciência coletiva que conseguisse apreender atotalidade, uma superconsciência ou uma consciência do que há decomum a todas as consciências. Mas se existisse um deus ex-machinaquem teria acesso a ele: os sacerdotes? E se existisse uma consciênciacoletiva com características de uma Unimatrix One, quem conseguiria vê-la e receber seus “comunicados”: os borgs?Há aqui uma confusão de conceitos, um deslizamento epistemológico parao qual contribuiu o ambientalismo – essa espécie de religião laica denossos dias – ao apelar para ações locais que teriam o condão de salvar oplaneta (supostamente ‘o’ global). Como se existissem diretivas globais aser materializadas por diversas implementações locais. Mas quem emitiriatais diretivas, já que ninguém vive no global? Os representantes doslocais? Ora, mas neste caso sua percepção ou seu entendimento sópoderiam ter surgido nos diversos locais em que eles vivem e convivem e,portanto, seriam locais (não globais). Além disso, como e por quem seriam 170
  • 171. escolhidos tais representantes? Nunca surgiram respostas aceitáveis paraessas perguntas.Por outro lado, o que seria o planeta? A geosfera e a biosfera? E associoesferas? A pergunta sobre as socioesferas (no plural) é relevante,pois a combinação de expressões locais de vida e convivência social – pormais numerosas que fossem – não poderia gerar nem ‘o’, nem ‘um’,global. No limite teríamos, no início da segunda década deste século, setebilhões de expressões locais, que poderiam se combinar de trilhões demaneiras diferentes; na verdade tais combinações seriam, por assim dizer,praticamente inumeráveis.Sim, mundos são redes. Senão o que seriam? A população do planeta?Mas população é um dado estatístico, um número. A soma dos indivíduosda espécie biológica homo não significa nada em termos humanos. E nãose pode somar pessoas. 171
  • 172. Aprender a fluir com o cursoA idéia de salvar alguma coisa, arquivá-la (com quem estoca recursos)para prorrogar a sua durabilidade, é uma idéia contra-fluzzO AMBIENTALISMO – ainda preso às subculturas do platonismo quepontificaram no século 20 – difundiu uma idéia de sustentabilidadesegundo a qual o uso dos recursos naturais deve suprir as necessidades dageração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de supriras suas.O crédito por tal definição – que apareceu no Relatório Brundtland (1987)– ainda é muito disputado, se bem que sua autoria seja geralmenteatribuída ao ecologista Lester Brown. O significativo é que ela foi aceitacomo um consenso universal e foi tomada, axiomaticamente, como umaverdade evidente por si mesma, passando a idéia – pouco-fluzz - de que asustentabilidade é uma espécie de poupança: tratar-se-ia, para efeitospráticos, de resguardar recursos para as futuras gerações.O ambientalismo reduziu assim a sustentabilidade à sua dimensãoambiental, o que – até certo ponto – é explicável: foi observando ossistemas vivos (organismos, partes de organismos e ecossistemas) quepercebemos um padrão de autorregulação e adaptação às mudanças, uma 172
  • 173. capacidade desses sistemas de mudar de acordo com a mudança dascircunstâncias conservando, porém, a sua organização interna.Mas em vez de se concentrar no padrão e tentar descobrir comoreinventá-lo em nossas atividades humanas e organizações sociais, oambientalismo imaginou que tudo se arranjaria a partir da compreensãodo funcionamento dos ecossistemas. Não seria então o aprendizadocoletivo, resultante da experimentação de novas formas de organização econvivência com as diferenças humanas, como resposta aos desafios deconservar a adaptação a um ambiente que muda continuamente – ouseja: o aprender a fluir com o curso –, que tornaria nossas sociedades maissustentáveis e sim uma consciência que surgiria pelo conhecimento danatureza e se imporia como novo padrão ético universal. Eis um novoplatonismo que, como qualquer platonismo, despreza a política, ou seja, ainteração entre os humanos ou as redes sociais.No entanto, a mais forte evidência que temos sobre a sustentabilidade –proveniente, aliás, da observação sistemática dos sistemas vivos – é a deque tudo que é sustentável tem o padrão de rede (11). Ou seja, a de que sósistemas dinâmicos complexos que adquiriram características adaptativas– apresentando a estrutura de rede distribuída – podem ser sustentáveis.Se foi observando os ecossistemas que logramos captar as característicasde um sistema sustentável, isso não deveria ter levado a uma visãoreducionista da questão, que disseminou uma crença segundo a qual oque está em risco é apenas a vida como realidade biológica e tentando 173
  • 174. dirigir todas as nossas iniciativas de sustentabilidade para, supostamente,“salvar o planeta”.Sobre isso, a pergunta fundamental foi feita recentemente por HumbertoMaturana (2010) e seus colaboradores: o que queremos mesmo sustentar(do latim sustentare: defender, favorecer, apoiar, conservar, cuidar) (12)?A vida (em termos biológicos) é de suprema importância, é a únicarealidade realmente sustentável que conhecemos, mas ela já vem searranjando há uns quatro bilhões de anos sem a nossa, digamos,inestimável ajuda. Seria preciso ver então o que mais queremos sustentar,de preferência aquilo que de fato depende de nós.Ocorre que, por meio do que chamamos de social, estamos construindomundos humanos, que têm como base o mundo natural, mas que não sãoconsequências do mundo natural. A tentativa humana de humanizar omundo ou, para usar uma expressão poética, de humanizar a “alma domundo” por meio do social, é uma espécie de “segunda criação”. Paraquem pensa assim, a vida (o simbionte natural) é um valor principal, masnão o único: certos padrões de convivência social, além da vida (biológica)― como a cooperação ampliada socialmente ou a vida em comunidade, asredes voluntárias de interação em prol da invenção de futuros comuns oucompartilhados e a democracia na base da sociedade e no cotidiano daspessoas ― também constituem valores inegociáveis, quer dizer, valoresque não podem ser trocados pelo primeiro. De nada adiantaria, desseponto de vista, trocar a livre convivência pela sobrevivência sob umimpério milenar de “seres superiores” (como um IV Reich, por exemplo). 174
  • 175. Surpreendentemente, aquilo que devemos preservar é, justamente, o quepode nos preservar como sociedade tipicamente humana. Cooperação,voluntariado, redes e democracia (em suma, tudo o que produz, relaciona-se ou constitui o que foi chamado de capital social) são os elementos danova criação humana ― e humanizante ― do mundo (o simbionte social),que lograram se configurar como padrões de convivência social e que valerealmente a pena preservar. E são esses os elementos que podem garantira sustentabilidade das sociedades humanas e das organizações que ascompõem (13).Eis a razão pela qual a sustentabilidade das sociedades humanas não podeser alcançada apenas com a adoção de princípios ecológicos (comoquerem os defensores ambientalistas ou ecologistas da sustentabilidade,ainda afeitos a uma visão pré-fluzz de que existe algo como umaconsciência capaz de mudar comportamentos), porque, no caso dassociedades, trata-se de outros mundos (humano-sociais) que têm comobase o mundo natural, mas que não são consequências dele.A idéia de salvar alguma coisa, arquivá-la (como quem estoca recursos)para prorrogar sua durabilidade (outra confusão ao definirsustentabilidade que foi muito comum no velho mundo fracamenteconectado) é uma idéia contra-fluzz. Sustentabilidade não é durar parasempre. Nada dura para sempre. E a espécie humana também não durará.Ao que tudo indica desaparecerá bem antes da biosfera (pelo menos abiosfera deste planeta, a única que conhecemos por enquanto). Mas aprópria biosfera (da Terra e, se houver, de outros lugares do universo)também desaparecerá. O sol deixará de ser uma estrela amarela em 5 175
  • 176. bilhões de anos (com 4 bilhões de anos a nossa biosfera já esgotou quasea metade do seu tempo de vida). A Via Láctea está em rota de colisão coma galáxia de Andrômeda, a 125 quilômetros por segundo e o desastreocorrerá nos próximos 10 bilhões de anos. Este universo, surgido no BigBang, será extinto no Big Crunch ou virará um cemitério gelado se suaexpansão não for revertida.Enquanto isso, nem mesmo a vida, nem a convivência social,permanecerão como são – ou desaparecerão prematuramente! Maspoderão ser sustentáveis na medida em que aprenderem a fluir com ocurso, quer dizer, a mudar em congruência dinâmica e recíproca com amudança das circunstâncias. Sim, sustentável não é o que permanececomo é (ou está), mas o que muda continuamente para continuar sendo(o que pode vir-a-ser).Se um ente ou processo durar (como é), certamente não será sustentável.Se não aceitar a morte, se buscar uma maneira de se esquivar do fluxotransformador da vida, nada poderá ser sustentável. Se não aceitar o fluxotransformador da convivência social nenhum dos mundos que cocriamospoderá ser sustentável.Tais mundos sociais que constituímos quando vivemos a nossaconvivência não serão sustentáveis na medida em que quisermospermanecer no “lado de fora” do abismo. Esse horror ao caos quecaracteriza todas as organizações hierárquicas nada mais é do que o medode perder uma ordem pregressa ao se abandonar à livre-interação. 176
  • 177. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não emparticipação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamalsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo,sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo queflui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 177
  • 178. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011 nolivro Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.(1) MCLUHAN, Marshall (1979). “O homem e os meios de comunicação” inMcLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003). McLuhan por McLuhan(Understandig me). Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.(2) Cf. UGARTE, David (2010). Los futuros que vienen. Madrid: GrupoCooperativo de las Índias, 2010. “Descomposición es descomposicióntambién, y sobre todo, de los sujetos con los que se componía la narraciónhistórica: las clases, las naciones, los grupos de interés, el marco demercado… con ellos muere ese futuro que se pretendía el futuro y que esprecisamente aquel por el que los universalistas se afanan. Ese futurouniversal es hoy un enfermo crónico en fase terminal. Nacido en el sigloXVIII, tuvo su crisis adolescente con el Romanticismo, su madurez con elprogresismo decimonónico y su primera crisis grave con los genocidioscometidos por el estado alemán durante la Segunda Guerra Mundial”.(3) RUSSO, Renato (1986). “Índios” in Dois: Emi, 1986.(4) WOLFE, Tom (2003). “Introdução” in McLUHAN, Stephanie & STAINES,David (2003): Op. cit.(5) MCLUHAN, Marshall apud WOLFE: Ed. cit. 178
  • 179. (6) Idem.(7) CHARDIN, Teilhard (1955). O fenômeno humano. São Paulo: Cultrix,1989.(8) CHARDIN: Op. cit.(9) TAPSCOTT, Don e WILLIAMS, Anthony (2006). Wikinomics: como acolaboração pode mudar o seu negócio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2007.(10) FRANCO, Augusto (2003). A revolução do local: globalização,glocalização, localização. Brasília/São Paulo: AED/Cultura, 2003.(11) Cf. FRANCO, Augusto (2008). Tudo que é sustentável tem o padrão derede: sustentabilidade empresarial e responsabilidade corporativa noséculo 21. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(12) Comunicação pessoal ao autor feita por alunos do curso Biologia-Cultural ministrado pela Escola Matriztica de Santiago em 2010.(13) FRANCO, Augusto (2008). Tudo que é sustentável tem o padrão derede: ed. cit. 179
  • 180. 180
  • 181. A livre aprendizagemna sociedade em rede 181
  • 182. 182
  • 183. A livre aprendizagemna sociedade em rede 183
  • 184. 184
  • 185. A livre aprendizagemna sociedade em rede 185
  • 186. NÃO-ESCOLAS A livre aprendizagem na sociedade em redeAugusto de Franco (em interação com Nilton Lessa), 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de NÃO-ESCOLAS / Augusto de Franco (em interação com Nilton Lessa) – SãoPaulo: 2012. 48 p. A4 – (Escola de Redes; 11) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 186
  • 187. SumárioIntrodução | 9A emergência da livre-aprendizagem | 11Aprendizagem, não ensino | 15Autodidatismo, não heterodidatismo | 19Alterdidatismo, não heterodidatismo | 25Não-escolas: a escola é a rede | 31Matar a escola = matar o Buda | 34Notas e referências | 44 187
  • 188. 188
  • 189. IntroduçãoFASCINANTE! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresas hierárquicas:construímos tais instituições – que continuam reproduzindo o velhomundo; sim, são elas que fazem isso – como artifícios para escapar dainteração, para ficar do “lado de fora” do abismo, para nos proteger docaos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nos protegerdas experiências da política (pública) feitas pelas pessoas no seu cotidiano.Os Estados tentam nos proteger das experiências glocais (de localismocosmopolita). E as empresas (hierárquicas) tentam nos proteger daexperiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, que viramreligiões, que reproduzem igrejas, que se comportam como partidos...Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios para proteger aspessoas da experiência de fluzz (*). (Não é a toa que todas essasinstituições hierárquicas exigem “monogamia” dos que querem manter 189
  • 190. capturados, como se dissessem: “- Você é meu! Nada de transar comestranhos”).Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos osscripts dos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas (e que,na verdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer. Comtal florescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estão sendoradicalmente alteradas neste momento, mas não por formidáveisrevoluções épicas e grandes reformas conduzidas por extraordinárioslíderes heroicos, senão por pequenas experiências, singelas, líricas, vividaspor pessoas comuns! Aquelas mesmas experiências de interação das quaisfomos poupados. É como se tudo tivesse sido feito para que nãoexperimentássemos padrões de interação diferentes dos que deveriam serreplicados. Mas nós começamos a experimentar. E “aqui estamos – comoescreveu Hakim Bey (1984) em Caos – engatinhando pelas frestas entre asparedes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monólitosparanoicos”.Neste texto vamos examinar o ensino e a escola para contemplar aspossibilidades da livre-aprendizagem na sociedade-em-rede (**). 190
  • 191. A emergência da livre-aprendizagemAs instituições e os processos educativos foram pensados para um tipode sociedade que está deixando de existirNão é novidade para ninguém que, no mundo atual, qualquer pessoa quesaiba ler e escrever e tenha acesso à Internet pode aprender muito maisdo que podia há dez anos. Sim, isso é fato. Uma criança com noçõesrudimentares de um ou dois idiomas falados por grandes contingentespopulacionais (como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz deaprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com odobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em umainstituição de ensino altamente conceituada. Diz-se agora que, se souberler (e interpretar o que leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos dematemática na solução de problemas cotidianos e... banda larga, qualquerum vai sozinho.A novidade é que isso não depende, nem apenas, nem principalmente, datecnologia stricto sensu e sim de novos padrões de organização social queestão se configurando na contemporaneidade. Uma sociedade em redeestá emergindo e, progressivamente, tornando obsoletos as instituições eos processos hierárquicos da velha sociedade de massa, inclusive asinstituições e processos educacionais. Novas tecnologias de informação e 191
  • 192. comunicação – que permitem a interação horizontal ou entre pares(pessoa-com-pessoa) em tempo real – estão acelerando esse processo.Mas novas tecnologias sociais, tão ou mais importantes do que essas(chamadas TICs), também estão contribuindo para mudar radicalmente ascondições de vida e convivência social neste dealbar do século 21.Tudo isso vai mudar, em parte já está mudando, a maneira comoexecutamos as nossas atividades empresariais, governamentais e sociais.Vai mudar a maneira como nos organizamos para produzir e comercializar,governar e legislar e conviver com as outras pessoas na sociedade. E –como não poderia deixar de ser – isso também está mudando a formacomo aprendemos.O problema é que as instituições e os processos educativos que forampensados para um tipo de sociedade que está deixando de existir (àmedida que emerge uma nova sociedade cuja morfologia e dinâmica jásão, em grande parte, as de uma rede distribuída) ainda remanescem econtinuam aplicando seus velhos métodos. Em que pese o papelfundamental que cumpriram nos últimos séculos, essas instituições eprocessos já começam hoje a ser obstáculos à criatividade e à inovação.O que tivemos, pelo menos nos dois últimos séculos, foi, em grande parte,uma educação massiva e repetitiva, voltada para enquadrar as pessoas emum tipo insustentável de sociedade (instalando nas suas mentesprogramas maliciosos, elaborados para infundir noções de ordem,hierarquia, disciplina e obediência) e para adestrar a força de trabalho,para que os indivíduos pudessem reproduzir habilidades requeridas pelos 192
  • 193. velhos processos produtivos e administrativos e executar rotinasdeterminadas.Agora estamos, porém, vivendo a transição para outra época, para umanova era da informação e do conhecimento, na qual as capacidadesexigidas são outras também. Nesta nova sociedade do conhecimento, oque se requer é que as pessoas sejam capazes de criar e de inovar,mudando continuamente os processos de produção e de gestão paradescobrir maneiras melhores de fazer e organizar as coisas.E isso elas só conseguirão na medida em que tiverem autonomia paraaprender o que quiserem, da forma como quiserem e quando quiserem epara se relacionar produtivamente com outras pessoas de sua escolha,gerando cada vez mais conhecimento – o principal bem, conquantointangível, deste novo mundo que já está se configurando.Faz-se necessário, pois, libertar o processo educativo das amarras quetentam normatizá-lo de cima para baixo, em instituições organizadasigualmente de cima para baixo, hierarquizadas, burocratizadas e fechadas,desenhadas para guardar em caixinhas o suposto conhecimento a sertransferido, de uma maneira pré- determinada, para indivíduos quepreencherem determinadas condições (e, não raro, à revelia do que elespróprios desejariam de fato aprender). Ora, já se viu que o conhecimentoé uma relação social e não um objeto que possa ser estocado,transportado, transferido ou transfundido de um emissor para umreceptor. O processo de geração e compartilhamento do conhecimentoocorre na sociedade e torna-se cada vez mais difícil, custoso e 193
  • 194. improdutivo quando tentamos parti-lo em pedaços para arquivá-lo nosescaninhos de uma organização separada da sociedade por paredesopacas e impermeáveis.O que de tão importante se descobriu nos últimos anos é que, em últimainstância, quem é educadora é a sociedade, a cidade, a localidade onde aspessoas vivem e se relacionam. Na verdade, foi uma redescobertademocrática: Péricles, no século 5 a. E. C., já havia percebido este papeleducador da polis enquanto comunidade política, quando declarou –segundo Tucídides – na oração fúnebre proferida no final do primeiro anoda guerra do Peloponeso, “que a cidade inteira é a escola da Grécia e creioque qualquer ateniense pode formar uma personalidade completa nosmais distintos aspectos,dotada da maior flexibilidade e, ao mesmo tempo,de encanto pessoal”.Portanto, sistemas educativos devem ser, sempre, sistemas sócio-educativos configurados em localidades, em sócio-territorialidades, querdizer, em redes sociais que se conformam como comunidadescompartilhando agendas de aprendizagem. 194
  • 195. Aprendizagem, não ensinoAs escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem- PSIU! CALE A BOCA. Comporte-se! Pare de conversar. Pare de perguntar.Em vez de conversação, silêncio. A quem é inferior (ignorante) cabeapenas ouvir o superior (aquele que sabe). Isto foi, é e sempre será escola:um artifício para proteger os alunos da experiência de fluzz.Sim, escolas não são comunidades de aprendizagem. São burocracias doensinamento. Não são redes distribuídas de pessoas voltadas à busca e aocompartilhamento do conhecimento. São hierarquias sacerdotais cujoprincipal objetivo é ordenar indivíduos capazes de reproduzir atitudes dedisciplina e obediência. Não são ambientes favoráveis à emergência dedinâmicas interativas, mas à imposição de relações intransitivas.Estruturas centralizadas, baseadas na separação de corpos: docente(hierarquia-ensinante) x discente (massa-ensinada).A arquitetura traduz o conceito. Na chamada educação formal, escolas sãoconstruções que aprisionam crianças e jovens em salas fechadas,obrigados a sentar enfileirados, como gado confinado ou frangos degranja; pior: nas “salas de aula” ficam alguns – a maioria – olhando para a 195
  • 196. nuca dos outros. São campos de concentração e adestramento, onde oaluno tem de saltar obstáculos, vencer as provas. São prisões temporáriasem que se tem de cumprir a pena, pagar a dívida. Não é por acaso que amaior recompensa na escola é passar de ano. Ano após ano. Até sair. -Ufa! Livre afinal.Por que construímos tal aberração?Fomos levados a acreditar que o ensino era o antecedente daaprendizagem. Em termos lógicos formais: ensino => aprendizagem;donde, formalmente: não-aprendizagem => não-ensino. Mas ao que tudoindica o ensino surgiu – como instituição – de certo modo, contra aaprendizagem. E não-ensino, dependendo das circunstâncias, pode atéaumentar as possibilidades de aprendizagem. O que é sempre um perigopara alguma estrutura de poder.Onde começou o ensino? Qual é a origem do professor? Ora, ensino éensinamento. Mas ensinamento é, originalmente, (reprodução de)estamento (ou da configuração recorrente de um cluster enquistado narede social). Alguém tem alguma coisa que precisa transmitir a outros.Precisa mesmo? Por quê? Alguém conduz (um conteúdo determinado,funcional para a reprodução de uma estrutura e suas funcionalidades). Ealguém recebe tal conteúdo (tornando-se apto a reproduzir tal estrutura etais funcionalidades). Eis a tradição!Os primeiros professores – parece evidente – foram os sacerdotes. Aprimeira escola já era uma burocracia sacerdotal do conhecimento (umaestrutura hierárquica voltada ao ensinamento). Isso significa que só há 196
  • 197. ensinamento se houver hierarquia (uma burocracia do conhecimento).Sim, todo corpus sacerdotal é docente. A tradição é tão forte que há atébem pouco a doutrina oficial católica romana (e ela não é a única) aindadividia a igreja em docente (ensinante: os hierarcas) e discente (ensinada:os leigos). E as escolas, que também se estruturaram, em certo sentido,como igrejas (mesmo as laicas), consolidaram sua estrutura com base naseparação de corpos entre docentes e discentes.O que se ensina é um ensinamento. Quando você ensina, há sempre umensinamento. Mas quando você aprende há apenas um aprendizado, nãohá um “aprendizamento”, quer dizer, um conteúdo pré-determinado doaprendizado. O que se aprende é o quê? Ah! Não se sabe. Pode serqualquer coisa. Não está predeterminado.Eis a diferença! Eis o ponto! A aprendizagem é sempre uma invenção. Aensinagem é uma reprodução. Mas como escreveu o poeta Manoel deBarros (1986) no Livro sobre Nada: “Tudo que não invento é falso” (1).O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparatoseparado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente,como instrumentos de reprodução de programas centralizadores(verticalizadores) que foram instalados para verticalizar (centralizar) arede-mãe.As escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem. Toda verdadeira aprendizagem é livre. E toda livreaprendizagem é desensino. Aprender sem ser ensinado é subversivo. É um 197
  • 198. perigo para a reprodução das formas institucionalizadas de gestão dashierarquias de todo tipo.Por isso o reconhecimento do conhecimento é, até hoje, umreconhecimento não do conhecimento-aprendido, mas do conhecimento-ensinado, dos graus alcançados por alguém no processo de ordenação aque foi submetido.Mas como tuitou Pierre Lévy (2010), as universidades não têm mais omonopólio da distribuição do conhecimento; restou-lhes tentar reter emsuas mãos o monopólio da distribuição do diploma. 198
  • 199. Autodidatismo, não heterodidatismoEu busco o conhecimento que me interessa do meu próprio jeitoNA TRANSIÇÃO DA SOCIEDADE HIERÁRQUICA para a sociedade em redeestamos condenados a nos tornar buscadores cada vez mais autônomos. Éassim que transitaremos do heterodidatismo para o autodidatismo:quando pudermos dizer: eu busco o conhecimento que me interessa domeu próprio jeito.Aprender a aprender é a condição fundamental para a livre aprendizagemhumana em uma sociedade inteligente. É ensejar oportunidades aoseducandos de se tornarem educadores de si mesmos (aprendendo a andarcom as próprias pernas ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).O educando-buscador será um educador não-ensinante. Porque será umaprendente (2).Nos Highly Connected Worlds, todos seremos, em alguma medida,autodidatas. Um autodidata é alguém que aprendeu a aprender. Umacriança, ou mesmo uma pessoa adulta ou idosa, navegando, lendo epublicando na web, é, fundamentalmente, um autodidata.Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões e 199
  • 200. reconhecer padrões. Cada vez mais será cada vez menos necessário quealguém ensine isso. Quando as possibilidades de conexão aumentam,também aumentam as possibilidades de reconhecer padrões (porqueaumenta a frequência com que, conhecendo uma diversidade cada vezmaior de padrões, nos deparamos com homologias entre eles); quer dizerque, a partir de certo grau de conectividade, o heterodidatismo não seránecessário.Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet já é capaz deaprender muito mais – e com mais velocidade – do que um jovem com odobro da sua idade que, há dez anos, estivesse matriculado em umainstituição de ensino altamente conceituada. Se souber ler (e interpretar oque leu), escrever, aplicar conhecimentos básicos de lógica e matemáticana solução de problemas cotidianos e... banda larga, qualquer um vaisozinho. Ora, isso é terrível para os que querem adestrar as pessoas com opropósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é umhorror para os que querem formar o caráter dos outros e inculcar seusvalores nos filhos alheios.Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitasvantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens proveem daidéia de que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem aburocracia sacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para sedestacar dos demais – quando o desejável seria que se aproximassemdeles – os “sábios” precisam que a sociedade continue burra.Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio quem 200
  • 201. organiza o conhecimento é a busca. Mas os caras ainda insistem emquerer organizar o conhecimento para você (isto é o hetero-didatismo).Toda organização do conhecimento para os outros corresponde anecessidades de alguma instituição hierárquica e está sintonizada comseus mecanismos de comando-e-controle. Toda organização doconhecimento de cima para baixo procura controlar e direcionar o acessoà informação por algum meio. Os organizadores do conhecimento para osoutros ainda entendem conhecimento como “informação interpretada”.Interpretada, é claro, do ponto de vista de seus possíveis impactos sobre aestrutura e a dinâmica das organizações hierárquicas de que fazem parte.Pretendem, assim, induzir comportamentos adequados à reprodução daestrutura e da dinâmica dessas organizações hierárquicas. Por meio daurdidura de sistemas de gestão do conhecimento – desde os velhoscurrículos escolares aos modernos knowledge management systems, porexemplo – querem codificar, disseminar e direcionar a apropriação deconhecimentos para formar agentes de manutenção e reprodução dedeterminado padrão organizacional.Mas já vivemos em um momento em que não se pode mais trancar oconhecimento – esse bem intangível que, se for aprisionado (estocado,protegido, separado), decresce e perde valor e, inversamente, se forcompartilhado (submetido à polinização ou à fertilização cruzada comoutros conhecimentos) cresce, gera novos conhecimentos e aumenta devalor (e é isto, precisamente, o que se chama de inovação). E estamos nosaproximando velozmente de uma época em que será cada vez menosnecessária uma infraestrutura hard instalada para produzir conhecimento 201
  • 202. (e inclusive outros produtos tangíveis, como estão mostrando asexperiências nascentes de peer production ou crowdsourcing).Novos ambientes interativos surgidos com a Internet já estão mostrandotambém a improdutividade (ou a inutilidade mesmo) de classificar oconhecimento a partir de esquema classificatório construído de antemão.Por exemplo, nos primeiros tempos do Gmail havia a recomendação: nãoclassifique, busque! Hoje continua lá, literalmente: “O foco do Google é apesquisa, e o Gmail não é exceção: você não precisa perder tempoclassificando seu e-mail, apenas procure uma mensagem quando precisare a encontraremos para você”.É claro que as buscas atuais (na Internet, por exemplo) ainda são feitas emmecanismos fechados que não permitem que o usuário redefina oumodifique os algoritmos de acordo com suas percepções e necessidades.Mas a tendência é que a busca seja cada vez mais programável e cada vezmais semântica (3).A busca semântica substituirá boa parte dos esforços feitos até agora para“organizar” o conhecimento. Mas é o perfil da busca – bottom up – quevai dizer qual o conhecimento que é relevante e não a decisão de umcentro de comando-e-controle que queira dizer às pessoas – top down – oque elas devem conhecer.Todos esses esforços por manter padrões verticais de um tipo desociedade que já está fenecendo vão ser implacavelmente punidos pelasestruturas e pelas dinâmicas horizontais emergentes das novas sociosferasque estão florescendo. Nesses mundos altamente conectados toda a 202
  • 203. gestão de organizações (inclusive a gestão do conhecimento) é reguladapor meio de outros processos em rede.O autodidata é um buscador, mas quem busca é a pessoa. A pessoa é oindivíduo conectado e que, portanto, não se constitui apenas como umíon social vagando em um meio gelatinoso e exibindo orgulhosamentesuas características distintivas e sim também como um entroncamento defluxos, uma identidade que se forma a partir da interação com outrosindivíduos. A pessoa como continuum de experiências intransferíveis e, aomesmo tempo, como série de relacionamentos, aprende por estar imersa(conectada) em um ambiente educativo entendido como ambiente deaprendizagem.Headhunters inteligentes não estão mais se impressionando tanto com acoleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vagaem uma instituição qualquer. Querem saber o que a pessoa está fazendo.Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projetode futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetiçãodo seu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo postopretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que énecessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendoseguida pelo candidato.Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelosinteressados em se associar ou em contratar (lato sensu) uma pessoa.Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando osespecialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vez 203
  • 204. horizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir doexame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo issoestará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado poruma corporação que tem autorização exclusiva para acessar e licençaoficial para interpretar tais dados.Cada pessoa poderá ter, por exemplo, a sua própria wikipedia. Ao invés deaceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificardiretamente a wikipedia de cada um – o arquivo-vivo que contém asdefinições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, ostrabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera deconhecimento e de atuação. Quem gostar do que viu, que contrate ou seassocie ao autor daquela wikipedia. Ponto final. 204
  • 205. Alterdidatismo, não heterodidatismo“Eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos”DE CERTO PONTO DE VISTA, nos Highly Connected Worlds qualquer um vaisozinho, desde que tenha aprendido o fundamental. O fundamental, comovimos, é aprender a aprender. O fundamental não pode estar baseado natransferência de conteúdos temáticos secundários e sim nadisponibilização de ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Os que se metem a organizar processos educativos para osoutros deveriam começar perguntando o que é necessário para que umapessoa e uma comunidade possam fazer o seu próprio itinerário deaprendizagem.Do ponto de vista do aprendizado – do sujeito aprendente e não do objetoensinado –, três condições caracterizam a inteligência tipicamentehumana (quer dizer, sintonizada com o emocionar humano): estabelecerconexões; reconhecer padrões; e linguajear e conversar (no sentido queHumberto Maturana confere a essas noções) (4).A partir daí estamos falando de humanos (e é necessário fazer essaressalva porquanto máquinas também podem aprender) e podemos entãolistar as ferramentas de autoaprendizagem ou “alfabetizações” (em um 205
  • 206. sentido ampliado): a alfabetização propriamente dita, na língua natal (ler eescrever e interpretar o que leu); e as outras “alfabetizações”, como, porexemplo, em uma segunda língua da globalização (pelo menos ler, eminglês ou espanhol); matemática (dominar as operações matemáticaselementares e aplicar esses conhecimentos básicos na vida cotidiana);lógica (aprender a argumentar e identificar erros lógicos em argumentossimples); digital (navegar e publicar na Internet e operar as ferramentasdigitais de inserção, articulação e animação de redes).Estes – ao que parece – são os requisitos e as ferramentascontemporâneas da inclusão educacional. Quem dispõe deles podecaminhar sozinho; ou seja, de posse de tais instrumentos, cada um, emfunção de suas opções pessoais, pode traçar seus próprios itinerários deformação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são osrequisitos para o autodidatismo.No entanto, de outro ponto de vista – o do alterdidatismo – a rigor,ninguém pode continuar caminhando sozinho. Aprender a aprender estáintimamente relacionado a aprender a interagir em rede. Mesmo que aescola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não sepoderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede social na qual oser humano se conecta), nem da educação comunitária (a expansão dessarede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).O aprender a conviver (com o meio natural e com o meio social) talvezrequeira outras “alfabetizações”: por exemplo, a alfabetização emsustentabilidade (incluindo alfabetização ecológica e alfabetização para o 206
  • 207. empreendedorismo e para o desenvolvimento humano e socialsustentável local ou comunitário); e a alfabetização democrática (em umsentido deweyano do termo: para a vida comunitária e para as formas derelacionamento que ensejam a regulação social emergente; i. e., as redessociais distribuídas). Mas essas “alfabetizações” não são temascurriculares ou disciplinas. São drives capazes de gerar agendascompartilhadas de aprendizagem.Não é por acaso que a educação para a sustentabilidade, quer dizer, paraa vida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive oecossistema planetário) e para convivência social, não compareçam noscurrículos escolares. Elas não são propriamente objetos de ensino e sim deaprendizagem-na-ação compartilhada. Ninguém é capaz de aprenderessas coisas apenas tomando aulas ou lendo textos. É necessário vivê-las,experimentá-las, ou melhor, convivê-las (e é por isso que são drivesgeradores de agendas compartilhadas de aprendizagem).É compartilhando essas agendas de aprendizagem que o educador setorna um educando (um aprendente da interação educadora). Nesseaprender-fazendo esvai-se a distinção entre professor e aluno: todospassam a ser agentes comunitários de educação.Portanto, quando se diz (do ponto de vista do autodidatismo) quequalquer um vai sozinho, e quando se diz (do ponto de vista doalterdidatismo) que, a rigor, ninguém pode caminhar sozinho, está-sedizendo a mesma coisa: que o heterodidatismo no qual se baseiam ossistemas de ensino é uma muleta que deve ser abandonada. 207
  • 208. Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamoscondenados a nos tornar polinizadores cada vez mais interdependentes. Éassim que transitaremos do heterodidatismo para o alterdidatismo:quando pudermos dizer: eu guardo o meu conhecimento nos meusamigos.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos alterdidatas. Um alterdidata éalguém que aprendeu a conviver com o meio natural e com o meio socialem que vive.Aprender a conviver com o meio natural e com o meio social é ensejaroportunidades aos educadores de se tornaram educandos da interaçãocomunitária na nova sociedade em rede (desaprendendo ensinagem ao selibertarem das muletas do heterodidatismo). O educador-polinizador seráalguém que desaprendeu a ensinar. Porque será um aprendente.Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, tercondições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidadepara analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações ede trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos doprocesso educacional básico. No entanto, para além, muito além, de tudoisso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem avalorizar outras competências ou habilidades, como a de identificarhomologias entre configurações recorrentes de interação quecaracterizam clusters (e, consequentemente, reconhecer potenciaissinergias e aproveitar oportunidades de simbiose), saber não apenas 208
  • 209. acessar, mas produzir e disseminar informações e conseguir não somentetrabalhar em grupo, mas fazer amigos e viver e atuar em comunidade.De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para aconvivência ou a vida em rede, como a educação para a democracia, aeducação para o empreendedorismo e para o desenvolvimento ou asustentabilidade, não comparece nos currículos das escolas. Não pode serpor acaso. Isso talvez corrobore a constatação de que a escola é uma dasinstituições que mais resistem ao surgimento da sociedade- rede.Por quê? Ora, porque embora se declarem instituições laicas, as escolassão, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) quedecidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus deaprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a suacapacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que aeducação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelosmesmos motivos, processos e programas educacionais extraescolares sãoduramente combatidos pelas corporações de professores, queargumentam – sem se darem conta de que, com isso, estão apenasrevelando seu caráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nasmãos de leigos...No entanto, neste momento estão sendo elaboradas e testadasmetodologias compatíveis com processos de inteligência coletiva (“learnfrom your neighbours” - Steve Johnson; “I store my knowledge in myfriends” - Karen Stephenson) baseadas na idéia de cidade educadorareconceitualizada como cidade-rede de comunidades que aprendem. 209
  • 210. Novas práticas estão surgindo a partir de experiências voltadas aoestímulo ao autodidatismo, adaptadas às novas formas de interaçãoeducativa extraescolares, como o homeschooling e, sobretudo,communityschooling, porém na linha do unschooling. Novas teorias daaprendizagem, como o conectivismo, estão tentando mostrar como asredes sociais devem constituir o padrão de organização das novascomunidades de aprendizagem capazes de disseminar e empregarferramentas de autoaprendizagem e de comum-aprendizagem (5). 210
  • 211. Não-escolas: a escola é a redeNós produzimos nosso conhecimento comunitariamente (em rede)NOS HIGHLY CONNECTED WORLDS a educação não pode ser mais nadadisso que andaram falando nos últimos quatro séculos do mundo único.Simplesmente porque não haverá ‘a’ educação.O conceito de educação – ao contrário do que parece – é um conceitototalizante e regressivo. Não é a toa que tenha surgido juntamente com oconceito de sociedade. Não pode existir ‘a’ educação, assim como nãopode existir ‘a’ sociedade. Não há uma educação e sim uma diversidade deprocessos de aprendizagem. Não há uma sociedade e sim uma diversidadede sociosferas.O consenso que se generalizou sobre ‘a’ educação é paralisante. A crençade que a educação vai resolver todos os problemas está tão generalizadaque as pessoas sequer percebem que, se isso fosse verdade, países comoa Bulgária ou Cuba seriam considerados desenvolvidos.Quando os processos de aprendizagem forem libertados – ou quando ageração de sociosferas (uma espécie de “lei do ventre livre” social) forlibertada: no fundo é a mesma coisa! – a educação na sociedade 211
  • 212. terminará.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos autodidatas e alterdidatas: quandopudermos dizer: nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente(em rede).Um autodidata-alterdidata é alguém que aprendeu a aprender-convivendo. Como buscadores e polinizadores, não seremos ensinadosnem ensinadores. Porque todos seremos aprendentes.Sociosferas em que as redes são as escolas serão aquelas “sociedadesdesescolarizadas”, como queria o visionário Ivan Illich (6). A sociedadesem escola de Illich poderia ser renomeada como a sociedade-escola,desde que ficasse claro que se trata da sociedade- rede; ou seja, estamosfalando das comunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadosna sociedade, que educam basicamente: na medida em que a sociedadede massa vai dando lugar à sociedade em rede, são as próprias sociosferas(glocais) que educam, por meio das comunidades (clusters) quenecessariamente se formam em seu seio.Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades deaprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. Isso vale paratudo, não apenas para as escolas como aparatos da educação formal.Também virarão não-escolas os centros de pesquisa e investigação, associedades filosóficas e os grupos criativos que usinam novas ideias e 212
  • 213. inauguram novas maneiras de pensar (a escola na sua acepção de thinktank ou escola de pensamento). 213
  • 214. Matar a escola = matar o BudaQuando o mestre está preparado, o discípulo desapareceÉ DIFÍCIL ENTENDER A NATUREZA de uma não-escola. No mundo único aspessoas buscavam um sistema produtor de respostas capazes de fazersentido global para elas. Eram atraídas por religiões, igrejas e seitas(religiosas e laicas), sociedades filosóficas e escolas de pensamento(mesmo aquelas que, baseadas na conversação, se intitulavamcomunidades). Elas forneciam a proteção contra a pergunta-disruptiva pormeio de uma meta-explicação coerente, a segurança de uma grandenarrativa totalizante ou de esquemas explicativos gerais que permitiamque alguém se identificasse e comungasse com outros que palmilhavam omesmo caminho e tivesse, assim, uma justificativa ética para se fechar àinteração com o outro-imprevisível. Mas tudo isso é escola!É muito difícil não construir um esquema organizador para as conversasmantidas por qualquer grupo. Mas a tarefa em uma não-escola não é criaruma espécie de wikipedia, nem mesmo uma contextopedia, com ossignificados que foram sendo construídos via consenso-administrado apartir do debate ou da conversação. Não há significados gerais universais.Não há significados sempre válidos para os mesmos contextos (inclusive 214
  • 215. porque, a rigor, nunca se repetem "mesmos contextos"). Há significânciasatribuídas por sujeitos em interação e válidas para os momentos deinteração em que tais sujeitos estão envolvidos. São significados-fluzz, quemudam continuamente com o fluxo e o máximo que podemos fazer émapear as relações entre esses significados mutantes. Sim, reconheçamosque não é fácil para nós aceitar o presente, não é fácil resistir à tentaçãode arquivar o passado em caixinhas, sobretudo se as plataformas queutilizamos são p-based (baseadas em participação) e não i-based(baseadas em interação).Mas já não se trata mais de sistematizar conteúdos ou de interpretar esintetizar respostas cognatas ou convergentes. Trata-se agora apenas delinkar para facilitar a busca. Quem organiza o conhecimento é a busca.Quem produz (novo) conhecimento (como relação sempre inédita, nãocomo conteúdo arquivável) não é a gestão, mas a interação.Na configuração de novos ambientes interativos de produção deconhecimento não deve haver "progresso", no sentido de constituição deum corpo coerente, que vai se tornando cada vez mais redondo e polido(até que a epistemologia consiga espelhar a ontologia). Não se trata deconstruir um códex, uma doutrina, um ensinamento, uma teoriaexplicativa de tudo, uma nova plataforma de visão de mundo. Isso é o quediferencia as novas escolas-não-escolas dos mundos altamenteconectados, de uma escola, quer dizer, de uma igreja (7).Sim, as escolas como centros de pensamento também são igrejas. Elassurgem quando criamos programas de separação entre os de dentro e os 215
  • 216. de fora a partir de um conteúdo, de uma mensagem, de uma doutrina, deum conjunto de ideias que alguns compartilham e outros não. Se fizermosisso, erigiremos uma escola; quer dizer, uma igreja.Se você junta os que compartilham qualquer corpo de ideias (mesmo quesejam ideias tão heterodoxas e libertárias como estas que estão sendoexpostas aqui e agora) e, a partir daí, constrói um coletivo, você estáfazendo uma escola. Não importa o que você pense, valorize, fale oupregue: você ensina, quer dizer, escorre por um sulco já cavado peloensinamento!Há uma coerência interna e há completude em boa parte das escolas depensamento que floresceram nos milênios passados. É como um mundoque foi construído (e ninguém se engane: há sabedoria nesse mundo; aquestão é que sabedoria não pode ser um critério aceitável para validarsistemas hierárquicos). E ocorre que existem múltiplos mundos. Se vocêexige que uma pessoa viva na coerência do mundo que você construiucomo condição para se deixar alterar por essa pessoa (ou seja, interagircom ela), então você não está realmente aberto à interação (com o outro-imprevisível): você quer participação dos outros no seu espaço, o que éuma forma de exigir (sem aparentemente fazer qualquer exigência formal)que os outros vivam na mesma coerência em que você vive. Mas essa é adefinição de seita, de escola.Não é um problema de comunicação, de adaptar a linguagem ou adotaruma postura tática para se fazer entender pelos "de fora". Nada disso. Oproblema aqui é a rede (ou melhor, a falta dela) 216
  • 217. Esse comportamento em geral não é intencionalmente constituído ereproduzido. Ele é uma decorrência do padrão de organização adotado.Faça uma rede aberta de conversações e ele se esfuma; ou seja, a escoladesaparece para surgir em seu lugar uma rede de livre aprendizagem.Assim como desaparecerá o codex, o corpo doutrinário referencial único:ou seja, o legado fundante da escola de pensamento desaparecerá paradar lugar a miríades de construções conceituais por ele inspiradas.O problema é que toda ereção de um sistema implica uma armadilha.Você fica rodando dentro dele. E para dialogar com as pessoas que vivemnele, você também precisa também rodar dentro dele. A palavra "rodar",aqui, é empregada no sentido contemporâneo de "rodar um programa"(software). Sim, porque o sistema sobre o qual falamos, é um programa deatribuições de significados e, mais do que isso, de construção dosprocessos particulares pelos quais se atribui significados. Para interagircom quem está dentro do sistema você precisa se plugar e "carregar" oprograma (em você). Ao carregar o programa, você carrega também sualinguagem (script) e, além disso, seu linguajeado e, às vezes, até mesmoseu gestual.Pode-se retrucar que isso ocorre, em maior ou menor medida, comqualquer construção conceitual que apresente os critériosepistemológicos de coerência interna e completude. É verdade. Masquando o sistema valida seus argumentos internamente, estando oscritérios de validação tão implicados no que se quer validar e vice-versa(ou seja, estando a epistemologia tão fundida à ontologia), averificabilidade fica subordinada (sub-ordenada) pela explicação auto- 217
  • 218. referente. É por isso que, em ciência, não se pode abrir mão do critério daverificabilidade, que deve ter o mesmo status epistemológico dos critériosda coerência interna e da completude (as quais, sozinhas, não bastam).Assim, os resultados de uma explicação devem sempre poder serverificados por sujeitos que adotam outros esquemas explicativos.Um bom exemplo de escola de pensamento é a escola freudiana nos seusprimórdios. Uma pessoa deve poder verificar os efeitos do que aexplicação freudiana atribui a determinado complexo sem ter que adotara explicação freudiana. Se sou obrigado a me tornar freudiano paraperceber os fenômenos psíquicos que poderiam ocorrer com quaisquerseres humanos independentemente da explicação freudiana (e daexistência de Freud), então estou preso a um sistema incapaz de interagircom outras explicações (externas às circularidades freudianas). E corro orisco de recair no dogmatismo dos primeiros freudianos: uma pessoa devepoder contestar a existência de um complexo sem ser acusada de estarfazendo isso justamente por estar possuída por tal complexo. Em algumamedida, isso ocorre com todos os sistemas autorreferentes, sobretudo nasua "primeira-infância".Eric Raymond (2001), no Hacker Howto (8) aconselhava o estudo do Zenaos hackers, sem dúvida um formidável software de desconstituição decertezas, compartilháveis por uma ou várias comunidades. Talvez seja ocaso, porém, de voltar ao Tao, para limar as aderências doutrinárias que oZen adquiriu: ao se fundir ao budismo foram introduzidos conteúdos...Sim, continua sendo o Zen, mas só depois de você matar o Buda. 218
  • 219. Qualquer comunidade de pensamento precisa matar o seu fundador (queé, inclusive, a melhor forma de amá-lo). Quando esse fundador é umapessoa, precisa se livrar das aderências de um modo-de-argumentar, deuma autêntica maneira particular de pensar, falar e escrever que faziasentido para aquele ser humano unique que a fundou. E o passo seguintedessa ação de amar tão profundamente o fundador ao ponto de matá-lo énão constituir um grupo proprietário em torno de suas ideias, de abrirmão de erigir um corpo docente (uma escola) a partir de um corpo teóricopara propagar um ensinamento que possa ser diferencialmenteministrado por "representantes autorizados", ainda que tudo isso seja – oque será pior – chancelado pelo próprio fundador. Isso é uma condição decontorno opaca quando precisamos de membranas.Não afirmamos que se deva matar o fundador apenas no sentido de matara sua imagem idealizada e introjetada, tal como alguns interpretam o lemakilling the buddha (como disse a pessoa-zen Lin Chi: “Se o Buda cruzar seucaminho, mate-o”). Trata-se de desabilitar um programa verticalizadorque roda na rede gerando instituições que congelam fluxos. Trata-se dematar a escola (no caso, constituída sobre um legado de pensamentotransformado em ensinamento).Não tem nada a ver com querer ver morto algum fundador por achar queele já está caduco ou ultrapassado. É o contrário. Quando se diz "matar oBuda" isso significa uma admiração suprema pelo Buda, comoprefiguração do Buda que está-em-devir em cada um de nós e que só vaidespertar quando o Buda que está fora desaparecer como referência(externa porém introjetada em uma espécie de falsa conniunctio). Mas, 219
  • 220. particularmente, no contexto desta discussão, significa matar a escolacomo ordenação do ensinamento abrindo possibilidades de formação demúltiplas comunidades de aprendizagem para além do círculo restrito dosque se matriculam em um curso ou seguem um programa privando daconvivência de um grupo determinado.Ocorre que com a acelerada emergência, agora, dos Highly ConnectedWorlds, vida humana e convivência social tendem a se aproximar a pontode revelar ou deixar entrever um superorganismo humano. Isso nos obrigaa mudar nossas interpretações. E é um choque para as chamadastradições espirituais (todas estas são artifícios para administrarespiritualidades conformes ao mundo patriarcal e não por acaso sãobaseadas nas escolhas do indivíduo, são ministradas por escolas -burocracias sacerdotais do ensinamento - e mantêm a relação mestre-discípulo). Agora será preciso mostrar que quando o mestre estápreparado, o discípulo desaparece e, portanto, chegar à condição demestre é chegar à condição do aprendente: aquele que matou o mestrenão apenas quando matou a imagem idealizada do mestre dentro de si(introjetada), mas quando matou a escola. E tudo isso para quê? Ora, paraque o Buda morto não renasça nas mãos dos que o mataram.Em outras palavras, não há como construir a base ideológica (ou demundivisão) para uma grande narrativa em uma época em que não cabemmais os esquemas totalizantes de apreensão do mundo e de interaçãocom o mundo. Não é mais possível a existência de uma (única) matriz éticapara a humanidade. Em uma época em as redes cobrem o planeta comouma pele e em que, por um processo fractal, uma pluralidade de mentes 220
  • 221. globais está surgindo, não se trata mais de forjar um grupo para usinar ummodelo e espalhá-lo e sim de surfar nas ondas interativas que estãofertilizando os diversos modelos que emergem de uma diversidade decomunidades de prática, de aprendizagem e de projeto que estãobrotando e submetendo seus programas à esse tipo de polinizaçãocomplexa. Essa visão é chave para não irmos parar de volta em algumlugar do passado: o processo é fractal! Não é possível salvar o mundo deuma vez: só é possível salvá-lo um instante de cada vez... (9) Mesmoporque não existe mais um mundo: os mundos já são – e serão, cada vezmais – múltiplos.Sim, não estamos mais na época do anúncio de uma nova proposta que,se abraçada por muitos no seu refletir-agir, vai supostamente salvar oplaneta (harmonizar biosfera com antroposfera), redimir a humanidade ounos levar para um porvir radiante. Não sabemos qual é o futuro.Sobretudo porque esse futuro (um futuro), felizmente, morreu. Nãopodemos pretender levar ninguém para lugar algum. A época em quevivemos é a época da desistência (10). A hora que vivemos é, portanto, ahora de abrir mão dessas pretensões de conduzir povos, orientar nações,mobilizar pessoas em torno de um objetivo comum para transformar asociedade (e ‘a’ sociedade, como vimos, é uma abstração regressiva).Fomos contaminados por um padrão transformacional de mudança equeremos então transformar a sociedade. Mas... transformar para chegaraonde? E transformar o quê? E transformar em quê? E transformar porquê? 221
  • 222. Atravessados por essa pulsão transformacionista, legiões de militantesque continuam habitando os séculos passados vivem querendo fazermudanças (que eles não podem, honestamente, saber quais são) emnome de uma causa. Mas é inútil. As mudanças em sistemas complexos (eas sociedades humanas são sistemas complexos) ocorrem, em boa parte,espontaneamente (se entendermos por isso que ocorrem em virtude defluições que não alcançamos compreender e determinar). Estamoslidando com uma ordem de fenômenos que não podemos manejar (e ébom para a liberdade – para a livre aprendizagem humana – que nãopossamos fazer isso). A livre aprendizagem humana só pode ocorrer emredes de aprendizagem, quando nos libertarmos das escolas.Se quisermos uma rede de aprendizagem – i. e., uma não-escola – nãopodemos constituir um grupo que saia pelo mundo propagando umlegado baseado nas ideias de algum fundador. Para ser uma rede, olegado tem que ser open, para poder ser desenvolvido, alterado,modificado, sem necessidade de ordenação ou chancela. Para poder serrede a membrana deve deixar entrar e sair outros conteúdos dentro doescopo estabelecido (posto que se será uma rede voluntariamenteconstruída haverá um escopo delimitado e algumas regras ou acordos deconvivência, mas isso nada tem a ver com a adesão a um conteúdosubstantivo). Sempre sem exigências, é claro. Mas sabendo que seminteragir com o outro imprevisível, com aquele que não planejamosinteragir, não pode haver rede (social distribuída).Em suma, uma escola deve ser uma não-escola para ser rede. Não bastafluir na sintonia interna dos que acolhem o outro que reconhecem como 222
  • 223. desejoso de conservar o que querem conservar, do lugar onde estão,desde que esse conservar seja referente a um compartilhar umdeterminado conteúdo. Dizendo a mesma coisa de outra forma, não é odesejo (dos sujeitos) de conservar determinado corpo teórico, nemmesmo o desejo de conservar um modo de convivência explicitável eexplicável (pelos sujeitos) que constitui a comunidade humana (ou a rede).A rede acontece quando você interage. Tudo que podemos fazer paraensejar a interação é evitar a produção artificial de escassez (é mais umnão-fazer). Não adianta sistematizar conteúdos e esperar que,sintonizando-se com tais conteúdos, as pessoas passarão a conviver emrede. Isso ainda está no terreno do proselitismo (uma dimensão deensino, de propagação de ensinamento, não de aprendizagem). As regrasou acordos de convivência estabelecidos por uma rede voluntariamenteconstruída não são o mesmo que a adesão a um conteúdo substantivo (e,portanto, ninguém pode ser expulso de uma não-escola por estar emdesacordo ou dessintonia com um conteúdo e ninguém terá comocondição para ser admitido estar de acordo com tal conteúdo, comofazem as religiões, as seitas iniciáticas e as escolas de pensamento,inclusive as escolas budistas que aconselham matar o Buda). 223
  • 224. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-basede não p-based, quer dizer, baseada em interação, não em participação).Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, na ocasião maiscomo uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia de Buzz+fluxo.Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vida humana econvivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiromilênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamalsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo,sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo queflui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 224
  • 225. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011como capítulo 7 do livro Fluzz: vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola deRedes, 2011.(1) BARROS, Manoel (1986). Livro sobre Nada in Poesia Completa. SãoPaulo: Leya, 2010.(2) O termo ‘aprendente’, conquanto seja uma tentativa de escapar decategorias mais problemáticas como docente/discente,educando/educador, mestre/aprendiz, que introduzem relaçõesdicotômicas e não expressam adequadamente relações sociais envolvidasem aprendizagem, também não é muito adequado. São sempre pessoasaprendendo na interação. Essas observações forem feitas por Nilton Lessa,à quarta versão do texto “Buscadores e Polinizadores”. Cf. FRANCO,Augusto (2010). Buscadores & Polinizadores. Slideshare [2.865 views em23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/buscadores-polinizadores-4a-verso>(3) Cf. Observações de Nilton Lessa à FRANCO, Augusto (2010).Buscadores & Polinizadores: ed. cit.(4) Cf. FRANCO, Augusto (2001). Uma teoria da cooperação baseada em 225
  • 226. Maturana. Aminoácidos 4. Brasília: AED, 2002.(5) Cf. e. g., a Biblioteca do Conectivismo da Escola-de-Redes:<http://escoladeredes.ning.com/group/bibliotecadoconectivismo>(6) ILLICH, Ivan (1970). Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985.(Na verdade o título dessa tradução, para ser fiel ao original, deveria ser“Desescolarizando a sociedade”)(7) Este parágrafo e vários dos seguintes da mesma seção (“Mata a escola= matar o Buda”) foram elaborados originalmente durante uma polêmicaconversação, ocorrida entre 27 de abril e 24 de maio de 2010, na Escola-de-Redes, com Ignácio Munõz Cristi e outros interlocutores sobre “redessociais entendidas como redes fechadas de conversações no espaçosocial”. Para conhecer a íntegra da discussão acesse:<http://escoladeredes.ning.com/group/biologiacultural/forum/topics/redes-sociais-entendidas-como>(8) RAYMOND, Eric (2001). How To Become A Hacker. Disponível em:<http://www.catb.org/~esr/faqs/hacker-howto.html>(9) BRABO, Paulo (2007). “Microsalvamentos: como salvar o mundo uminstante de cada vez” in <http://www.baciadasalmas.com>(10) Cf. as conversações do grupo da Escola-de-Redes intitulado “Adesistência como ativismo”:<http://escoladeredes.ning.com/group/desista> 226
  • 227. O reflorescimento da espiritualidadenos novos mundos altamente conectadosdo terceiro milênio 227
  • 228. 228
  • 229. O refloresc imento da espiritualida de nosnovos mundos altamente conectados doterceiro milênio 229
  • 230. 230
  • 231. O refloresc imento da espiritualida de nosnovos mundos altamente conectados doterceiro milênio 231
  • 232. SEM RELIGIÃO E SEM IGREJAAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de SEM RELIGIÃO E SEM IGREJA / Augusto de Franco – São Paulo: 2012. 44 p. A4 – (Escola de Redes; 12) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 232
  • 233. SumárioIntrodução | 9Espiritualidade, não religião | 11Os deuses não existem | 16Ecclesias, não ordens sacerdotais | 26Não há uma ordem preexistente | 30Não existe mais caminho | 36Notas e referências | 39 233
  • 234. 234
  • 235. IntroduçãoFASCINANTE! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresas hierárquicas:construímos tais instituições – que continuam reproduzindo o velhomundo; sim, são elas que fazem isso – como artifícios para escapar dainteração, para ficar do “lado de fora” do abismo, para nos proteger docaos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nos protegerdas experiências da política (pública) feitas pelas pessoas no seu cotidiano.Os Estados tentam nos proteger das experiências glocais (de localismocosmopolita). E as empresas (hierárquicas) tentam nos proteger daexperiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, que viramreligiões, que reproduzem igrejas, que se comportam como partidos...Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios para proteger aspessoas da experiência de fluzz (*). (Não é a toa que todas essasinstituições hierárquicas exigem “monogamia” dos que querem manter 235
  • 236. capturados, como se dissessem: “- Você é meu! Nada de transar comestranhos”).Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos osscripts dos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas (e que,na verdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer. Comtal florescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estão sendoradicalmente alteradas neste momento, mas não por formidáveisrevoluções épicas e grandes reformas conduzidas por extraordinárioslíderes heroicos, senão por pequenas experiências, singelas, líricas, vividaspor pessoas comuns! Aquelas mesmas experiências de interação das quaisfomos poupados. É como se tudo tivesse sido feito para que nãoexperimentássemos padrões de interação diferentes dos que deveriam serreplicados. Mas nós começamos a experimentar. E “aqui estamos – comoescreveu Hakim Bey (1984) em Caos – engatinhando pelas frestas entre asparedes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monólitosparanoicos”.Neste texto vamos examinar as religiões e igrejas para contemplar aspossibilidades de reflorescimento da espiritualidade nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio (**). 236
  • 237. Espiritualidade, não religiãoFormas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações dasburocracias sacerdotaisNOS NOVOS MUNDOS ALTAMENTE CONECTADOS que estão emergindo,formas pós-religiosas de espiritualidade vão florescer. Elas serão mais-fluzz, quer dizer, mais expressões do curso que flui nas relações entre oshumanos e dos humanos com o seu habitat do que tentativas de sintoniacom um todo cósmico extra-humano. Elas serão espiritualidadesconsumáveis na interatividade ("terrestres" no sentido de seremrealizáveis sem produzir anisotropias no espaço-tempo dos fluxos).Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que religião, prá que igreja?Humberto Maturana (1993) reinterpretou a origem das crenças místicasque estão na base das experiências que dão significado à vida humana apartir da hipótese de que havia (ou poderia e, então, poderá novamentehaver) uma "espiritualidade" inerentemente terrestre (como a queapresentavam supostamente as sociedades agricultoras-coletorasincidentes na Europa pré-patriarcal) (1).O relevante nesse esforço de modificação do passado (quer dizer, demodificação do passado que só não-passou porque continua dentro da 237
  • 238. nossa mente, ou melhor, continua se propagando através da cultura, dosprogramas que "rodam" na rede social e por isso se replicam) é que essa"espiritualidade" ou experiência mística não gerou propriamente religiões.A visão de Maturana sobre o que chamamos de religião é precisa: "umareligião é um sistema fechado de crenças místicas, definido pelos crentescomo o único correto e plenamente verdadeiro" (2).Com efeito, para ele, "No processo de defender o seu viver místico, os patriarcas indo- europeus criaram uma fronteira de negação de todas as conversações místicas diferentes das suas. E estabeleceram, de fato, uma distinção entre o que passou a ser legítimo e ilegítimo, crenças verdadeiras e falsas. No âmbito espiritual, realizaram a praxis de exclusão e negação que, operacionalmente, constitui as religiões como domínios culturais de apropriação das mentes e almas dos membros de uma comunidade pelos defensores da verdade ou das "crenças" verdadeiras... [Quando se forma uma comunidade de crentes] o corpo de crenças adotadas pelos novos crentes - qualquer que seja sua complexidade e riqueza - não constitui uma religião. Isso só ocorre se os membros dessa comunidade afirmarem que suas crenças revelam ou envolvem alguma verdade universal, da qual eles se apropriaram por meio da negação de outras crenças... A apropriação de uma verdade mística ou espiritual que se sustenta como verdade universal constitui o ponto de partida ou de nascimento de uma religião" (3). 238
  • 239. Se Maturana pode imaginar uma matriz assim, projetando-a no passado,também podemos fazer o mesmo, projetando-a no futuro. No mundo quecriou, Maturana está absolutamente certo do ponto de vista dos novosmundos que quisermos cocriar.A dimensão mística (ou espiritual) faz parte de qualquer cultura que sepossa chamar propriamente de humana. Como bem define Maturana, "aexperiência mística - repito: a experiência na qual uma pessoa vive a simesma como componente integral de um domínio mais amplo de relaçõesde existência... depende da rede de conversações em que ela está imersa,e na qual vive a pessoa que tem essa experiência" (4).Não há, portanto, qualquer problema com a espiritualidade. O problema écom a religião. Não precisamos para nada de uma pós-espiritualidade esim de novas formas (pós-religiosas) de espiritualidade.Podemos erigir igrejas, em um sentido amplo do termo (tão amplo queabarque até mesmo as escolas), sem ter religião (e podemos, ainda,codificar religiões laicas). Mas igreja, stricto sensu, só surge realmentequando erigimos um corpo separado de intérpretes, ou seja, umaburocracia sacerdotal que, por algum motivo, seja ordenada para fazeralguma intermediação entre o leigo (o não ordenado) e a revelação ou afonte prístina da doutrina codificada (como nas religiões baseadas emescrituras).Todas as chamadas tradições espirituais que surgiram na civilizaçãopatriarcal são míticas-sacerdotais-hierárquicas-autocráticas. E não é a toaque se possa falar de uma tradição: há um fundo comum a todas elas. 239
  • 240. Todas - não apenas as templárias - replicam anisotropias no espaço-tempodos fluxos (privilegiando, de alguma forma, a direção vertical).As doutrinas da tradição verticalizaram o mundo "povoando” todo ouniverso simbólico - ou aquilo que foi chamado de "mundo da psique" -com formas que não concorrem para o estabelecimento de um cosmossocial que mantenha as mesmas propriedades em todas as direções, mas,pelo contrário, que privilegiam a direção vertical. Não é por outro motivoque achamos que deus está em cima e que o céu está em cima; o caminhoevolutivo é sempre pensado como uma subida e o regressivo como umadescida. São camadas e camadas de interpretações simbólicas,depositadas uma sobre a outra, milênio após milênio.Basta entrar em um templo de qualquer ordem espiritual tradicional parase perceber com que profundidade o universo simbólico está marcadopela direção vertical. Nessas construções – sobretudo da tradiçãoocidental, herdeira do simbolismo templário babilônico, i. e., sumério – ocaminho que nos conduz para deus, representado em geral por umtriângulo, passa entre as duas colunas que se elevam do piso plano. Eentão encontramos o triângulo com o vértice para cima, sobre oquadrado, o pentagrama verticalmente orientado e muitas outras"orientações" que "norteiam" o desenvolvimento dos rituais e das práticasmágicas. O conteúdo ideológico que esses símbolos encarnam estáinegavelmente associado à idéia de um poder vertical, do qual a pirâmideé o mais expressivo exemplo. E há ainda as escadas, muitas escadas,introduzidas por primeiro pelos templos sumérios - os zigurates: pirâmides 240
  • 241. feitas de escadas, com degraus representando graus de subida; ou dedescida.Se houver uma mística (ou espiritualidade) não-patriarcal (nem matriarcal,é óbvio) ela será terrestre (horizontal, ou melhor, multidirecional). Toma-se aqui "terrestre" como isotrópico (nada de privilegiar a direção vertical:as fluições devem manter as mesmas propriedades em todas as direções).Ora, isso casa perfeitamente com a idéia de “formas pós-religiosas deespiritualidade” (uma feliz expressão de William Irwin Thompson) (5).Essas formas também não podem ser codificadas como doutrinas e nemservir de base para a ereção de igrejas (de qualquer tipo, stricto ou latosensu). É a espiritualidade da vida cotidiana, da pessoa comum, doconectado a uma rede de conversações, do livre-interagente (nãoexatamente do participante) com o outro-imprevisível (e, portanto, abertaao compartilhamento fortuito e não fechada no cluster dos que professama mesma fé). 241
  • 242. Os deuses não existem?Os deuses das religiões foram problemáticos porque foram hierárquicose autocráticos como as religiões que os construíramOS PROBLEMAS COM AS IGREJAS (e religiões) erigidas no contra-fluzz nãotêm nada a ver com os deuses. Têm a ver, isto sim, com os deuses dasigrejas (e das religiões). Deuses existem desde que existe sociedadehumana, muito antes de erigirmos igrejas e constituirmos religiões. Eigrejas e religiões seriam – e foram, e são, e serão – sempre problemas(para a rede-mãe), mesmo sem quaisquer deuses.“Quem mandou dizer ao povo que os deuses não existem?” A perguntateria sido feita – em tom de reprimenda – por Robespierre aos seuscorreligionários. Mas se isso não for uma lenda, se ele fez realmente talpergunta, foi movido por maus motivos: não lançar desesperança sobre asmassas... Faz parte da mentalidade de comando-e-controle. Agora, porém,podemos refazer a pergunta de outra forma: quem disse que os deusesnão existem?Quanto mais investigamos as redes, mais evidências surgem de que osdeuses existem. Se não existissem, como explicar que tantas pessoas, aolongo da história (e inclusive na pré-história), tenham pautado seus 242
  • 243. comportamentos em sintonia ou obediência ao que acreditavam ser anatureza, a essência ou os ditames divinos? Eles existem, sim, comomodelos mentais, quer dizer, sociais (6).Os deuses, se já não se pode acreditar que sejam criadores do cosmosnatural, sem dúvida são criadores de cosmos sociais. Eles são matrizes deprogramas que rodam na rede social. Congregam modelos do que seráconstelado no espaço-tempo dos fluxos e do que virará fenômeno social e,até, do que se codificará como norma, do que se congelará comoinstituição e do que se materializará como cidade, rua, praça. Sim, ZeusAgoraios estava de fato presente naquela praça do mercado da velhaAtenas chamada Ágora. Mas o que significa dizer isso?Até a democracia nascente – laica por essência – tinha lá os seus deuses:por exemplo, o Zeus Agoraios e a deusa Peitho. Mas quando os gregos doséculo de Péricles invocam Zeus Agoraios eles conferem às conversaçõesentre os homens livres na praça do mercado (o espaço público nascente) ocaráter de algo digno de ser abençoado e protegido por um deus, abrindouma brecha na tradição centralizadora (hierarquizante) segundo a qual osdeuses tratavam desigualmente os humanos, ungindo os hierarcas e seusrepresentantes (reis e sacerdotes) para conferir-lhes a autorização (divina)de exercer o poder sobre os demais e guiá-los por algum caminho.Quando os gregos invocam Peitho, a persuasão deificada, eles confrontama idéia autocrática de que a política era uma continuação da guerra poroutros meios. Como escreveu Hannah Arendt (c. 1950) (7): 243
  • 244. “No que dizia respeito à guerra, a polis grega trilhou um outro caminho na determinação da coisa política. Ela formou a polis em torno da ágora homérica, o local de reunião e conversa dos homens livres, e com isso centrou a verdadeira coisa política’ — ou seja, aquilo que só é próprio da polis e que, por conseguinte, os gregos negavam a todos os bárbaros e a todos os homens não-livres — em torno do conversar-um-com-o-outro, o conversar-com-o-outro e o conversar-sobre-alguma-coisa, e viu toda essa esfera como símbolo de um peitho divino, uma força convincente e persuasiva que, sem violência e sem coação, reinava entre iguais e tudo decidia. Em contrapartida, a guerra e a força a ela ligada foram eliminadas por completo da verdadeira coisa política, que surgia e [era] válida entre os membros de uma polis; a polis se comportava, como um todo, com violência em relação a outros Estados ou cidades-Estados, mas, com isso, segundo sua própria opinião, comportava-se de maneira ‘a política’. Por conseguinte, nesse agir guerreiro, também era abolida necessariamente a igualdade de princípio dos cidadãos, entre os quais não devia haver nenhum reinante e nenhum vassalo. Justamente porque o agir guerreiro não pode dar-se sem ordem e obediência e ser impossível deixar-se as decisões por conta da persuasão, um âmbito não-político fazia parte do pensamento grego”.Os deuses da democracia grega eram deuses da conversação, quer dizer,deuses-fluzz, deuses da interação. É claro que havia um âmbito a-políticoe não democrático na Grécia e, assim, havia também outros deuses 244
  • 245. hierárquicos e autocráticos (por exemplo, todos os deuses associados àguerra e à jornada do herói, aos vaticínios e ao destino).Mas como? Se a democracia é laica, por que teria ela seus deuses? Pois é.Laico não quer dizer propriamente ateu (sem deus) e sim sem religião(institucionalizada); ou seja, ser laico significa não fazer parte daburocracia sacerdotal instituída para intermediar a relação do homemcom a divindade, isto é: para separar o ser humano da divindade; ou,como disse Jung, para proteger o homem da experiência de deus, abrindosulcos para fazer escorrer por eles as coisas que ainda virão; ou ainda – oque é a mesma coisa – pavimentando com a crença um caminho para ofuturo (e consequentemente, eliminando outros caminhos, reduzindonosso estoque de futuros possíveis, exterminando mundos).Não, não há nenhum problema com os deuses. Os deuses das religiõesforam problemáticos porque foram hierárquicos e autocráticos como asreligiões que os adotaram (na verdade, que os construíram para seuspropósitos). A questão relevante agora não é a de saber se existem ou nãoexistem deuses (uma controvérsia tola), mas a de saber em que medidaalgum deus (um programa capaz de rodar na rede-mãe e de ensejar algumtipo de experiência mística ou espiritual, permitindo que uma pessoa vivaa si mesmo como componente integral de um domínio mais amplo derelações de existência) favorece a reprodução de uma sociedadehierárquica ou a emersão de uma sociedade-em-rede.Os deuses pré-patriarcais foram naturais e não geraram religiões. Osdeuses patriarcais foram sobrenaturais e geraram, estes sim, instituições 245
  • 246. hierárquicas: escolas (e ensino), igrejas (e religiões) e, sobretudo, Estados.(Quem sabe os deuses pós-patriarcais serão sociais e não gerarão nenhumdesses tipos de deformações na rede-mãe – o que não significa, comoveremos adiante, que não possam inspirar novas formas mais interativasde espiritualidade).Não é por acaso que as primeiras formas de Estado erigidas nas cidadesantigas – as cidades-Estados da velha Mesopotâmia – tinham seus deuses.Cada uma tinha lá o seu deus ou a sua deusa. Um eco empalidecido dessatradição são os nossos santos e santas padroeiros de cidades. NaAntiguidade, porém, as cidades não eram apenas consagradas oudedicadas ao um deus ou deusa, senão que pertenciam aos deuses. Uruk eUr eram de Innana, Nippur e Lagash de NinurtaA cidade-Estado-Templo sumeriana era uma habitação para um deus. Osseres humanos viviam nelas de favor. E para trabalhar para os deuses,para ser seus escravos (os feitores, é claro, eram os sacerdotes). Adorar(ter uma devoção) era a mesma coisa – inclusive etimologicamente – quetrabalhar (a palavra hebraica ‘avod’, que pode ser traduzida por devoção,adoração e também por trabalho, ecoa esse perverso sentido ancestral).Os deuses em questão não eram os seres espiritualizados que foramidealizados depois. Eram apenas os superiores. Sobre-humanos sim,porém belicosos, intrigantes, genocidas, carnívoros... Está claro que eram– ou se manifestavam como – programas verticalizadores do cosmossocial. Não eram sobre-humanos no sentido de serem mais perfeitos do 246
  • 247. que os humanos e sim no sentido de que não eram humanos, sua“presença” não era humanizante.Depois, por algum motivo, eles se hospedaram no subsolo de nossaconsciência social (?), naquela região misteriosa que foi chamada deinconsciente coletivo (!). Eles eram mais ou menos assim como os vírusque hoje tentam invadir nossos websites. É curioso que alguns sistemas desegurança anti-spam, lançando mão de um Teste de Turing reverso –Completely Automated Public Turing test to tell Computers and HumansApart (CAPTCHA) – sugestivamente perguntam: “Você é humano?” eentão mandam a gente copiar algumas letras com formatação desfigurada(coisa que, por enquanto, os robôs virtuais ainda não conseguem fazer, sóos humanos). Nenhuma organização hierárquica passaria nesse teste!Deuses sobre-humanos (ou não humanizados) levam necessariamente asistemas de dominação. Todo relacionamento vertical recorrente(estrutura centralizada) materializa um sistema de dominação. Oshoacertou em cheio o coração do problema quando disse: “não tenhonenhum Deus; desse modo, não tenho nenhum programa para você noqual você possa ser transformado em um escravo”. Ele decifrou o enigmaquando identificou os deuses das religiões com um programa, umprograma verticalizador.Portanto, o problema não são os deuses e sim esses deuses criados àimagem e semelhança dos hierarcas, que talvez os tenham criado assim aonão aceitarem o fluxo transformador da vida, para tentar evitar a morte; eao não aceitarem fluzz – o fluxo transformador da convivência social –, 247
  • 248. para tentar perenizar os mundos que construíram em detrimento deoutros mundos possíveis.Sim, o problema são os deuses autocráticos, feitos à imagem esemelhança dos sistemas de dominação. Esses deuses serão hierárquicos,por certo, mas, do ponto de vista das redes distribuídas, não haverianenhum problema com deuses humanizados que não exigissem culto,obediência ou subordinação (como Jesus de Nazareh, por exemplo, aquelejudeu marginal que humanizou IHVH, desde que não se tivesse tentadoinstrumentalizar suas experiências de vida e convivência social paracodificar doutrinas, constituir religiões e erigir igrejas). Mas, como?Atribuir a uma pessoa, com exclusividade, um caráter divino, comofizeram, por alguma razão, seus primeiros discípulos, não seria umcontrassenso nos mundos altamente conectados em que cada pessoa éuma singularidade em um mesmo tecido (social), possuidora, portanto, domesmo status (humano) de todas as outras? Ora, William Blake, um poeta– porque os poetas são pessoas-fluzz – já resolveu essa questão para nósquando escreveu: “Jesus é o único Deus. Assim como eu, assim comovocê”.Desse mesmo ponto de vista, não haveria nenhum problema com deusespós-patriarcais que fossem sociais (como o que foi chamado de EspíritoSanto e que a comunidade dos amantes celebra dizendo: “Ele está nomeio de nós”) – para seguirmos a numinosa compreensão, manifestadaalgures por Leo Jozef (Cardeal) Suenens, quando escreveu: “É precisamque sejam muitos para ser Deus”. 248
  • 249. Deuses divididos? Osíris foi – em uma de suas “não-vidas” – um deusdividido, acorde às necessidades de descentralização da teocraciafaraônica. Deuses pós-religiosos serão fractalizados, acorde àscontingências de distribuição dos Highly Connected Worlds. Sim, os deusesse modificam quando modificamos o hardware. E consequentementemuda também o que chamamos de espiritualidade.Em um mundo distribuído não pode haver culto organizadocentralizadamente (por igrejas). Libertada do culto (e das suas ordenaçõesreligiosas), a espiritualidade também se distribui por todas as pessoas,cada qual podendo livremente vivê-la de acordo com suas conexões. Cadapessoa (que quiser) pode experimentá-la nas contingências do seu fluir,em sintonia com as redes sociais em que está imersa; i. e., convivendo-a.No mundo único as pessoas viveram oprimidas por ideias totalizantes euniformizantes, fossem, por um lado, provenientes da crença religiosa emum deus único (e incognoscível), fossem – pelo lado oposto –provenientes da crença tola de que deus não existe, ditada por umaciência promovida a pansofia. Isso gerou um sem número de problemas,sobretudo psicológicos, quando as pessoas passaram a reprimir suaespiritualidade por medo do vexame e da reprovação dos bem-pensantes.Tal “verdade” supostamente libertadora, revelada por uma ciênciadeslizada do seu escopo, baseada em uma espécie de religião laicailuminista, era, na verdade, opressiva. Libertadas desse bom-senso ateístaas pessoas podem ter sua própria experiência de deus (ou de qualquerente ou processo que queiram escolher para representar ou simbolizar um 249
  • 250. domínio mais amplo de relações de existência no qual se sintam inseridase possam viver tal inserção), interagindo.Tal inserção, é claro, também pode ser vivida sem conotação mística.Como disse Ilya Prigogine (1986) em entrevista a Renée Weber, emDiálogos com cientistas e sábios: “Pessoalmente, sinto que chegamos hojeà percepção de estarmos entranhados no mundo como um todo. Estamosdescobrindo um vínculo sem recorrer a nenhum misticismo externo,estranho” (8). O que diminuirá, nos Highly Connected Worlds, são aschances de vivermos esse vínculo permanecendo do “lado de fora” doabismo, precavidos contra o caos ou protegidos da interação.Deuses interativos, porém, não estarão no futuro, como aquele datradição hebraica que não podia ser nomeado a não ser pela expressãoEhie Asher Ehie – traduzível por “Eu serei o que serei” (o hebraico aceita)posto que estava no futuro. Esse deus da utopia (e da profecia), do não-lugar (porque o lugar do seu tempo nunca chega) – e refletindo sobre oqual o marxista heterodoxo, materialista e ateu, Ernst Bloch (1968) em Oateísmo no cristianismo, usinou a pérola: “Deus não existe, porém existirá”(9) – não pode interagir com as pessoas e, assim, não pode ser um deus-fluzz; ou, o que é a mesma coisa, não pode ensejar uma experiênciamística ou espiritual fluzz.Formas pós-religiosas de espiritualidade serão predominantemente i-based e, portanto, tenderão a ser vividas no presente (o que significa quenão nos jogarão naquela corrente alucinante da utopia e da profecia quetudo arrasta para o futuro, alienando-nos do presente). 250
  • 251. Tudo indica, porém, que as religiões (e as igrejas ou as ordens sacerdotais)remanescerão por muito tempo ainda. Mas a despeito de continuaremrodando na rede social, esses programas podem agora ser hackeadospelos novos hereges que já estão no meio de nós. Sim, como disse Bloch,“o melhor da religião é que ela produz hereges” (10). 251
  • 252. Ecclesias, não ordens sacerdotaisSeus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Para achá-los você tem que remover o firewall e expor-se à interaçãoMAS O QUE COLOCAREMOS NO LUGAR das igrejas (e das religiões)? Ora,nada. O velho mundo único já colocou muitas instituições para fazer asvezes de igrejas: as escolas (e o ensino), os partidos (e as corporações), oEstado-nação (e seus aparatos). Mutatis mutandis, todas essas funcionammais ou menos da mesma maneira, como ordens sacerdotais. E todas elasvão continuar existindo, com uma estrutura e uma dinâmica parecidascom as que têm hoje, para quem não entrar nos Highly Connected Worlds.Mas quem assumir a condição de nômade, viajante dos interworlds, pode– se quiser – fundar sua própria igreja-não-igreja. Nos mundos altamenteconectados ninguém pode impedir, nem conseguirá dissuadir, que aspessoas fundem suas próprias não-igrejas. Elas não serão ordenssacerdotais, por certo, mas poderão ser ecclesias, no sentido deaglomerados dos que querem conviver sua espiritualidade, ou seja, dosque querem compartilhar as formas semelhantes como vivem um domíniomais amplo de relações de existência celebrando suas afinidades eamorosidades mutuas. O número dessas novas igrejas-não-igrejas tende aaumentar. Simplesmente porque – nos mundos em que se constituírem – 252
  • 253. também não haverá tantas restrições de ordem moral e cultural para suaexistência.Ecclesias como assembleias de amantes, como redes (abertas) debuscadores que se dispõem a polinizar mutuamente os modos pelos quaisvivem sua mística ou sua espiritualidade, vão proliferar no lugar de igrejascomo ordens sacerdotais (fechadas) que se proclamam o único caminho, aúnica porta, a única esperança de salvação e que disputam entre si otempo todo oferecendo-nos um formidável (e deplorável) contraexemplode fraternidade. As velhas igrejas – essas armadilhas construídas paraarrebanhar ovelhas e apascentá-las – continuarão existindo, é claro, masperderão relevância.Na medida em que um superorganismo humano começa a se manifestarnos mundos altamente conectados e que novos fenômenos – como oclustering, o swarming, o cloning, o crunching e tantos outros que estãoimplicados no que chamamos de inteligência coletiva (e, quem sabe, noque ainda vamos chamar de emoção coletiva) – começam a irromper,haverá um motivo adicional para compartilhar. Você pode preferir o olhardo investigador que analisa tais fenômenos tentando manter osprotocolos científicos de isenção e objetividade. Mas você também podesimplesmente viver e celebrar seu vínculo com essas novas ‘Entidades’sociais – a palavra, assim com maiúscula, foi usada por Jane Jacobs em1961 (11) – que se formam em uma dimensão mística. Se você buscavaum domínio mais amplo de relações de existência para dar sentido à suavida e vivê-la em sintonia com essa realidade (avaliada por você, nãoimporta, como transcendente ou imanente), ei-lo: o simbionte social! 253
  • 254. O fundamental aqui é que não haja fechamento. Nos múltiplos mundosinterconectados estão outras pessoas que se sentem (e sentem atranscendência ou a imanência) como você e podem se sintonizar comvocê. Seus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Paraachá-los você tem que remover o firewall e expor-se à interação. Bem, aofazer isso é possível que mais cedo ou mais tarde você perceba que tudofoi apenas um não-caminho. E descubra que seus irmãos e irmãs são todasas pessoas que estão em todos os mundos.Se você quiser fazer isso agora, possivelmente será encarado comoherege. Aos olhos do mundo único será um herege, assim como sãohereges os que abandonaram a escola, rejeitaram o ensino, rasgaram seusdiplomas e títulos e se transformaram em catalisadores de processos deaprendizagem em comunidades livres de buscadores e polinizadores,estruturadas em rede. Assim como são hereges os que, desistindo dospartidos, não desistiram de fazer política (pública) nas suas localidades, nabase da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Assim como são heregesos que renunciaram ao Estado-nação (e às suas pompas, e às suas glórias),refugando também as noções regressivas de patriotismo e nacionalismo, eviraram cidadãos transnacionais de suas glocalidades...Os anunciadores de uma nova ordem não são hereges no sentido em quea palavra está sendo usada aqui (quase aquele sentido em que Ernst Blochempregou-a ao dizer que “o melhor da religião é que ela produz hereges”).São replicadores ou trancadores. No último meio século tivemos ondas eondas de supostos hereges vaticinando um mundo novo. No fundo, o 254
  • 255. porvir radiante que anunciavam não era mais do que a revivescência deuma ordem ancestral hierárquica. 255
  • 256. Não há uma ordem preexistenteA ordem está sempre sendo criada no presente da interaçãoO REFLORESCIMENTO DAS IDÉIAS ESPIRITUALISTAS que ocorreu na NewAge provocou uma bateria de ondas que continuam até hoje quebrandonas praias dos buscadores de todos os matizes, mais de quarenta anosdepois (se bem que, agora, já com intensidade bastante reduzida). Aspessoas que, nas mais diversas situações, procuravam um sentido parasuas vidas, tanto em experiências meditativas de recolhimento individual,quanto em ensaios coletivos de novos padrões de convivência social,queriam, no fundo, viver sua espiritualidade em uma época ainda pré-fluzz, mas que já anunciava tempos vertiginosos, de alta interatividade. Esaíam então para todo lado em busca de novos caminhos, guias e mestres.Grande parte desses exploradores, porém, não empreendia livremente ousem pré-conceitos suas buscas. Estavam impregnados das ideias –assopradas e reforçadas pelos gurus que se apresentavam em profusão –de “um novo reino de velhos magos”. Na base das mais diversasdoutrinas, seitas, sociedades e ordens espiritualistas e ocultistas queofereciam naquele mercado seus produtos e serviços, havia, entretanto,uma mesma visão básica, a qual aderiam tanto físicos e biólogos de 256
  • 257. vanguarda interessados no diálogo entre ciência e religião quantoroqueiros, quase todos sem prestar muita atenção aos seus pressupostos:a idéia de que havia uma ordem implícita (ou implicada) pré-existente emalguma esfera da realidade, oculta ou não acessível imediatamente.Eles queriam então ter acesso a essa ordem pura, queriam estabeleceruma sintonia com esse modelo não-manifestado, queriam atingir estadossuperiores de consciência para contemplar essa espécie de Unimatrix Onee, para tanto, lançavam mão dos mais variados exercícios reflexivos,técnicas meditativas, rituais teúrgicos, práticas mágicas e processos deiniciação.Ainda vivemos nas bordas dessas vagas, embora a New Age não tenhaacontecido segundo o que foi previsto. O mundo único não se reencantoucom o reflorescimento de espiritualidades ancestrais. Ainda bem. Porqueo que está acontecendo nos múltiplos mundos altamente conectados émuito, muito mais profundo, mais abrangente e mais surpreendente doque tudo que anunciaram os gurus da nova era.Depois dos gurus, vieram alguns hereges dizendo: não há uma ordem; sehá, foi inventada por alguém e não quero me subordinar a ela. Ospioneiros da Internet e os visionários do ciberespaço dos anos 90 foramimpelidos por esse vento libertário, em parte sob a influência de obrasdisruptivas como TAZ – Zona Autônoma Temporária (12) e CAOS – Ospanfletos do Anarquismo Ontológico (13), dois escritos seminais de HakimBey (1984-85) e dos romances de ficção científica Neuromancer (14) deWilliam Gibson (1984) e Ilhas na Rede (15) de Bruce Sterling (1988) que, 257
  • 258. entre outros, deram origem aos cyberpunks. Talvez pouca gente suspeitedisso, mas essa influência foi decisiva para a criação das ferramentasinterativas que existem hoje (inclusive para a Internet e a World WideWeb), conquanto não se possa dizer que ela tenha durado muito. Taispioneiros e visionários, em boa parte, logo entraram no contra-fluzz aofecharem suas descobertas (construindo programas proprietários eescondendo seus algoritmos) para acumular suas fabulosas fortunas ou aose deixarem contaminar pelas ideias contraliberais que impulsionaram osmovimentos antiglobalização no dealbar dos anos 2000 sob a bandeira deque “um outro mundo é possível”. Se um herege inventa a sua própriaordem e quer que as pessoas passem a segui-la – quer transformando-asem usuários cativos de seus produtos, quer arrebanhando-as em seusmovimentos supostamente transformadores – aí já deixa de ser herege epassa a ser um sacerdote, um burocrata a serviço da reprodução dosistema que criou.No entanto, a despeito dessas ondas regressivas que apenas revelavam aresiliência do velho mundo único, de suas estruturas e de suas dinâmicas,o vento continuou a soprar.É claro que a maioria dos replicadores dos padrões ancestrais deespiritualidade hierárquica não ouviu Jiddu Krishnamurti que, a pedido desua biógrafa Mary Lutyens, comentou, em 1980, a sua famosa declaraçãode 1929: “A verdade é uma terra sem caminhos”: "A Verdade é uma terra sem caminho. O homem não chegará a ela através de organização alguma, de qualquer crença, de nenhum 258
  • 259. dogma, de nenhum sacerdote ou mesmo um ritual, e nem através do conhecimento filosófico ou da técnica psicológica. Ele tem que descobri-la através do espelho das relações, por meio de compreensão do conteúdo da sua própria mente, mediante a observação, e não pela análise ou dissecação introspectiva” (16).Talvez àquela altura Krishnamurti ainda não pudesse conceber a mentecomo uma nuvem social, nem perceber que o fundamental não é oconteúdo e sim o processo interativo, distinguindo os programas querodam na rede da topologia dos emaranhados onde estamos (e somos).Ainda assim, começaram a aparecer os que, rejeitando os títulos demestre ou guru, recomendavam simplesmente não-fazer nada. Já eramestes os precursores dos novos mundos-fluzz. Porque quando se espia “dooutro lado”, não se vê ordem alguma – somente o nada, o abismo, fluzz.Fluzz significa que não há uma ordem preexistente em algum mundoinvisível (da emanação, da criação ou da formação). A ordem está sempresendo criada no presente da interação. É mais ou menos assim comoimaginou Ilya Prigogine (1984), destoando inclusive de outros cientistasenvolvidos com tais especulações (de David Bohn a Paul Davies, passandopor Fritjof Capra): o universo é criativo e “se cria à medida que avança”(17).Novamente é o caso de dizer: bem, isso muda tudo.Jack Kerouac e seus beatniks dos anos 50-60, Swami Satchidananda emWoodstock, os hippies dos anos 70 e os “hippies” tardios dos 80, talveztenham pressentido isso, mas não podiam ter um entendimento do que 259
  • 260. estava vindo. O próprio Peter Lamborn Wilson (Hakim Bey) e oscyberpunks talvez tenham apenas sentido o sopro, sem chegarem a ver deonde (e para onde) ele soprava. Pierre Levy (2000), em uma corajosajornada introspectiva, cujas notas estão no diário de bordo O fogoliberador (18) (uma obra de inspiração heraclítica), empreendeuexplorações em antigas tradições espirituais (como o budismo e a cabala)para tentar captar-lhe o sentido. Mas não havia sentido: “o vento sopraonde quer; você o escuta, mas não pode dizer de onde vem, nem paraonde vai” (Jo 3: 8).Pessoas como Paul Baran (On distributed communications), Vinton Cerf(TCP/IP), Tim Berners-Lee (WWW), Linus Torvalds (Linux) e Rob McColl(Apache), embora aparentemente nunca tenham feito tais explorações,contribuíram objetivamente para que hoje pudéssemos reconfigurar abusca (e talvez tenham causado um impacto mais profundo do queaqueles provocados pelos empreendimentos proprietários fechados dosGates, dos Jobs, dos Pages, dos Stones e dos Zuckerbergs e de muitosoutros trancadores de códigos que vieram ou ainda virão).Sim, reconfigurar a busca. Em mundos altamente conectados a busca nãoexiste sem a polinização. Não há um mainframe (como se fosse umdiretório de registros akashikos) onde você possa buscar respostas parasuas perguntas. Se houver, tais respostas não lhe servirão. Serão respostasdo passado que foi arquivado. Revelarão ordens pregressas.Conhecimento morto. A busca, qualquer busca, inclusive a buscaespiritual, é sempre uma interação. Nos Highly Connected Worlds todabusca é P2P: no seu mundo e nos interworlds pelos quais você está 260
  • 261. navegando. A mesma busca, quando repetida, fornece respostasnecessariamente diferentes. E deixa o rastro da pergunta. De sorte que asrespostas são, no limite, combinações das perguntas que estão sendofeitas. Perguntas interagindo e se polinizando mutuamente para criarordens inéditas.O buscador é um polinizador. É um criador de mundos. O buscador-polinizador é uma pessoa-fluzz. Uma pessoa-fluzz é mais ou menos o quedeveria ser uma pessoa-zen nas condições de um mundo de altainteratividade. Mas enquanto víamos a pessoa-zen como um indivíduo-no-caminho (conquanto ela não fosse isso realmente, posto que adescoberta-zen é a descoberta do ‘não-caminho’), a pessoa-fluzz não podeser vista assim: ela é enxame. O enxame muda continuamente suaconfiguração, o que significa que os caminhos também mudamcontinuamente com a interação: o que era caminho em um momento jánão é mais no momento seguinte. A pessoa, como disse Protágoras (c. 430a. E. C.) – ou a ele se atribui – “é a medida de todas as coisas, das coisasque são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”. Assimseja (ou não-seja). Let it be (ou not to be – o que é a mesma coisa).Os hereges nômades que já experimentam esses novos padrões deinteração viajando pelos interworlds e “audaciosamente indo ondeninguém jamais esteve” começam a gritar para os que teimam em juntar ecolar os cacos de céu velho que estão despregando para prorrogar avigência do mundo único: “– Parem com isso! Não existem mestres. Nãoexistem guias. Não existe caminho”. 261
  • 262. Não existe mais caminhoO objetivo é ser pessoa, nada além dissoFLUZZ TAMBÉM É: TUDO ESTÁ CONECTADO. E se tudo está conectado porque os seres humanos não estariam?É como se todo o mundo percebido e sentido fosse internalizado por essainterface (individual) com a mente (social) que chamamos de cérebro.Assim também a rede social. A máxima de Novalis (1798) “cada serhumano é uma pequena sociedade” (19) pode significar, por um lado, queos humanos importam a estrutura da rede social a que estão conectados.Algo se passa como se a rede fosse espelhada dentro da pessoa eminteração. As personalidades das pessoas conectadas são como quesimuladas internamente por um sujeito que, não raro, conversa com elas.Essa imagem espelhada é atualizada toda vez que há interação. E háespelhamento, é claro, porque há separação.Eis, talvez, o motivo pelo qual nunca estamos realmente sozinhos. Há umburburinho de fundo, permanentemente presente. Como borgs ouvimos,o tempo todo, as “vozes da Coletividade”. Mas, diferentemente de umBorg, como “ghola social”, cada pessoa internaliza de um modo diferente,unique. Sem essa imagem peculiar dos outros dentro de nós não podemos 262
  • 263. ser pessoas, quer dizer, não podemos ser humanos. As imagens da“mesma” rede são tantas quanto os seus nodos. Imagens de imagens,redes dentro de redes. E o que se chama de ‘eu’ ou ‘você’ também sãovários. Chegar a um só (aquela individuação junguiana) é final de percurso,não condição de partida.Todavia nos novos mundos altamente conectados, o caminho daindividuação (não só aquele sobre o qual escreveu Jung, mas o caminhoda iluminação de todas as tradições espirituais hierárquicas) não podemais ser percorrido como uma jornada interior (no sentido psicológico-espiritual individual). ‘Pessoa já é rede’ significa que eu e vocêcompartilhamos o mesmo indivíduo-social. Eu e você são variações de ummesmo substrato: singularidades em um tecido. Mas significa também,paradoxalmente, que ‘eu sou um outro’, qualquer-outro, não apenascomo complexo psicológico (como representação interiorizada), mas narede, como realidade social.Nos mundos pouco conectados dos milênios pretéritos, trabalhava-se comos materiais alquímicos das representações introjetadas, percorrendo-seinteriormente nebulosas estações arquetípicas em direção à totalidade. Avida humana (do buscador) era, de certo modo, apartada da sua vidasocial (do polinizador). O caminho era “pessoal” no sentido de individual eexigia consciência, confirmação intermitente de que eu vi o que vi, senti oque senti, pensei o que pensei, sei o que sei, passei o que passei, vivi oque vivi... até me iluminar (ou não)! Mas isso só ocorre enquantoprevalece a separação entre eu e o outro. 263
  • 264. Entretanto, quando vida humana e convivência social se aproximam,novos caminhos se abrem, continuamente. Aquele pelo qualprocurávamos no meio de nós (no sentido de no nosso interior) passa aestar entre nós. Uma nova topologia distribuída dos caminhos espirituaiselimina os caminhos únicos (mesmo quando únicos para cada pessoa). Oscaminhos são múltiplos, inclusive para a mesma pessoa. O que significadizer que não existe mais caminho. Como captou o poeta: "Todos oscaminhos, nenhum caminho. Muitos caminhos, nenhum caminho. Nenhumcaminho, a maldição dos poetas" (20).E não só os poetas percebem, mas também outras inquiring minds, deexploradores heterodoxos, como a do físico David Bohm (1970-1992),dedicado, nos últimos anos de sua vida, a compreender e promover ainteração que chamava de diálogo: ele chegou à conclusão de que “nãoexiste um ‘caminho’... no dialogo compartilhamos todas as trilhas e, porfim, percebemos que nenhuma delas é fundamental. Percebemos osignificado de todos os caminhos e, portanto, chegamos ao ‘não-caminho’.No fundo, todos os caminhos são os mesmos...” (21).Se o objetivo é ser pessoa, nada além disso, qualquer relação humana écaminho. A espiritualidade-fluzz não é percorrer uma trilha, completar umpercurso, mas deixar-se-ir ao encontro dos demais, abrindo as própriasfronteiras ao outro-imprevisível. Ora, isso significa que você não precisamais de uma igreja – como cluster fechado dos que professam a mesma fé(a fé de que estão no mesmo caminho) – quer dizer, de um partido. 264
  • 265. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não emparticipação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamalsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo,sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo queflui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 265
  • 266. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011como capítulo 7 do livro Fluzz: vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola deRedes, 2011.(1) MATURANA, Humberto (1993). Amar e brincar: fundamentosesquecido do humano. São Paulo: Palas Athena, 2004.(2) Idem.(3) Idem-idem.(4) Idem-ibidem.(5) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum forcultural evolution. Ma: Lindisfarne Books, 2001.(6) Cf. FRANCO, Augusto (2009). Modelos mentais são sociais. Slideshare[1.022 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/modelos-mentais-so-sociais>(7) ARENDT, Hannah (1959). “A questão da guerra” in O que é política?(Fragmentos das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz).Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. 266
  • 267. (8) Cf. WEBER, Renée (1986). Diálogos com cientistas e sábios. São Paulo:Cultrix, 1991 [cf. a entrevista com Ilya Prigogine no capítulo intitulado “Oreencantamento da natureza”].(9) BLOCH, Ernst (1968). El ateísmo en el cristianismo: la religión del éxodoy del Reino. Madrid: Taurus, 1983.(10) Idem.(11) JACOBS, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo:Martins Fontes, 2009.(12) BEY, Hakim (1985-1991). BEY, Hakim (Peter Lamborn Wilson) (1984-1990). TAZ – Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Coletivo Sabotagem:Contra-Cultura, s/d.(13) BEY, Hakim (1985). CAOS: Terrorismo poético e outros crimesexemplares. São Paulo: Conrad, 2003.(14) GIBSON, William (1984). Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2008.(15) STERLING, Bruce (1988). Piratas de dados [Péssima tradução do títuloIslands in the Net]. São Paulo: Aleph, 1990.(16) Cf.: <http://www.jkrishnamurti.org/pt/about-krishnamurti/the-core-of-the-teachings.php>(17) Cf. a entrevista concedida em 1984 por Ilya Prigogine à Renée Weberem WEBER: Op.cit.(18) LÉVY, Pierre (2000). O Fogo Liberador. São Paulo: Iluminuras, 2001. 267
  • 268. (19) NOVALIS (George Friedrich Philipp, Freyherr (Barão) von Hardenberg)(1798). Pólen. Fragmentos, diálogos, monólogos. São Paulo: Iluminuras,2011.(20) BARROS, Manoel (2010). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.(21) BOHM, David (1996). Diálogo: comunicação e redes de convivência.São Paulo: Palas Athena, 2005. 268
  • 269. A publicização da políticanos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio 269
  • 270. 270
  • 271. A publicização da políticanos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio 271
  • 272. 272
  • 273. A publicização da políticanos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio 273
  • 274. A NOVA POLÍTICAAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de A NOVA POLÍTICA / Augusto de Franco – São Paulo: 2012. 66 p. A4 – (Escola de Redes; 13) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 274
  • 275. SumárioIntrodução | 9Máquinas para privatizar a política | 11Autocratizando a democracia | 16Não-partidos | 20Estado | 24A nação como comunidade imaginária | 27A falência da forma Estado-nação | 36O reflorescimento das cidades | 40As cidades na glocalização | 43Comunitarização | 50Cidades Inovadoras | 55Notas e referências | 59 275
  • 276. 276
  • 277. IntroduçãoFASCINANTE! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresas hierárquicas:construímos tais instituições – que continuam reproduzindo o velhomundo; sim, são elas que fazem isso – como artifícios para escapar dainteração, para ficar do “lado de fora” do abismo, para nos proteger docaos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nos protegerdas experiências da política (pública) feitas pelas pessoas no seu cotidiano.Os Estados tentam nos proteger das experiências glocais (de localismocosmopolita). E as empresas (hierárquicas) tentam nos proteger daexperiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, que viramreligiões, que reproduzem igrejas, que se comportam como partidos...Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios para proteger aspessoas da experiência de fluzz (*). (Não é a toa que todas essasinstituições hierárquicas exigem “monogamia” dos que querem manter 277
  • 278. capturados, como se dissessem: “- Você é meu! Nada de transar comestranhos”).Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos osscripts dos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas (e que,na verdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer. Comtal florescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estão sendoradicalmente alteradas neste momento, mas não por formidáveisrevoluções épicas e grandes reformas conduzidas por extraordinárioslíderes heroicos, senão por pequenas experiências, singelas, líricas, vividaspor pessoas comuns! Aquelas mesmas experiências de interação das quaisfomos poupados. É como se tudo tivesse sido feito para que nãoexperimentássemos padrões de interação diferentes dos que deveriam serreplicados. Mas nós começamos a experimentar. E “aqui estamos – comoescreveu Hakim Bey (1984) em Caos – engatinhando pelas frestas entre asparedes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monólitosparanoicos”.Neste texto vamos examinar os partidos e o Estado-nação paracontemplar as possibilidades do surgimento de uma nova política nosnovos mundos altamente conectados do terceiro milênio (**). 278
  • 279. Máquinas para privatizar a políticaOs partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapúblicaNO VELHO MUNDO FRACAMENTE CONECTADO as pessoas erigiamcorporações – grupos privados hierarquizados – para fazer valer seusinteresses. Simplesmente parecia ser a coisa “lógica” a ser feita em ummundo regido pela “lógica” da escassez. Assim também surgiram ospartidos como um tipo especial de corporação: eles foram constituídospara fazer prevalecer os interesses de um grupo sobre os interesses deoutros grupos e pessoas com base em (ou tomando como pretexto) umprograma, um conjunto de ideias a partir das quais fosse possívelconquistar e reter o poder para tornar legítimo o exercício (ilegítimo doponto de vista social, quer dizer, do ponto de vista das redes sociaisdistribuídas) de comandar e controlar os outros.Partidos são organizações pro-estatais. Não é a toa que decalcam opadrão de organização piramidal do Estado. Mas, ao contrário do que sepensa, os partidos vieram antes do Estado e nesse sentido são tambémorganizações proto-estatais. Os primeiros partidos foram religiosos: ascastas sacerdotais que erigiram o Estado. 279
  • 280. Sim, o Estado é, geneticamente, um ente privado. Estado como esferapública só surgiu (isso deveria ser uma obviedade, conquanto não soecomo tal) quando se constituiu uma esfera pública, com a invenção dademocracia. Antes disso – por três milênios ou mais – os Estados foram oresultado da privatização dos assuntos comuns das cidades pelosautocratas. E depois disso, por quase dois milênios, os Estadoscontinuaram sendo organizações privadas (só nos últimos dois ou trêsséculos eles se constituíram, aqui e ali e, mesmo assim, em parte, comoinstâncias públicas, mais ou menos democratizadas; emboracontinuassem infestados por enclaves autocráticos privatizantes).Os partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapública. São um modo político de nos proteger da experiência de fluzz.Para tanto – em um regime de monopólio (nas ditaduras) ou de oligopólio(nas democracias formais) – eles privatizam a política pública. Suaexistência legal indica que as pessoas, como tais, não precisam fazerpolítica pública no seu cotidiano e na base da sociedade (nas suascomunidades): alguém fará tal política por elas! Mesmo nas democraciasdos modernos entende-se que as pessoas não devem fazer políticapública, a menos que entrem em um partido: uma espécie de agência deempregos estatais, uma organização privada autorizada a disputar comoutras organizações privadas congêneres o acesso às instituições estataisreconhecidas legalmente como públicas e, portanto, encarregada comexclusividade de fazer política pública. Enxugando de toda literaturalegitimatória as teorias liberais sobre o papel dos partidos na democracia,o que sobra é mais ou menos isso aí. 280
  • 281. Ora, por mais esforço que se faça para justificar esse acesso diferencial aoexercício da política pública, parece óbvio que o sistema de partidosprivatiza a política. Ao se conferir aos partidos – com exclusividade – ocondão de transformar politics em policy, as pessoas viramautomaticamente clientela do sistema.As teorias liberais da democracia, é claro, não concordam com isso. Masas teorias liberais da democracia são próprias de um mundo de baixaconectividade social, em que somente eram concebíveis as formaspolíticas representativas de regulação de conflitos. Para os defensoresdessas teorias, só existem, basicamente, os indivíduos. E a democracia é,via de regra, baseada em uma teoria das elites (mais Platão, menosProtágoras). Sua análise é coerente com que eles pensam. E eles pensammais ou menos assim: é melhor o Estado-nação com todos seus enclavesautocráticos – e, inclusive, é melhor o império – garantindo a ordem, doque a barbárie da anarquia. No fundo essa é mais uma variação, em linhadireta, da visão hobbesiana. Abandonados à nossa própria sorte, semsermos domesticados por um poder acima de nós, nos engalfinharíamosem uma guerra de todos contra todos. Então o Estado tem, para eles, umpapel civilizador (assim como, para alguns, também tem esse papel areligião: pois se não houver um deus – dizem – tudo é permitido, tudoseria possível em termos morais). O que se requer, apenas, é que esseEstado seja legitimado pelos cidadãos em eleições limpas e periódicas eque os governos eleitos respeitem as regras do direito (interpretadastambém, é claro, pelas tais “elites civilizadoras”). 281
  • 282. Essa é a visão da democracia dos modernos na sua versão liberal, baseadano indivíduo. Mas tal visão não está mais adequada aos mundosaltamente conectados que estão emergindo. Por muitas razões (dentre asquais a principal é que o indivíduo é uma abstração) a democracia nãopode ser o resultado de um pacto feito e refeito continuamente pelosindivíduos que se ilustraram e que se comprometeram a manter umaordem capaz de garantir aos (e exigir dos) demais indivíduos que elescontinuem a conformar sua liberdade aos limites impostos pelos sistemasde poder que formalmente permanecerem legitimados por eleições erespeitarem as leis. Isso, é claro, deve ser garantido, mas não para serreproduzido indefinidamente como é e sim para possibilitar que oscidadãos continuem - com liberdade - inventando novas formas de regularseus conflitos.Em mundos altamente conectados essa forma representativo-político-formal da democracia (a democracia no sentido "fraco" do conceito: comosistema de governo ou modo político de administração do Estado) deverádar lugar a novas formas mais substantivas e interativas (a democracia nosentido "forte" do conceito, das pessoas que se associam para conviverem suas comunidades de vizinhança, de prática, de aprendizagem ou deprojeto).A democracia no sentido “forte” do conceito é uma democracia+democratizada, que recupera a linha da "tradição" democrática – umaimaginária linhagem-fluzz – que começa com o “think tank” de Péricles –do qual “participava”, entre vários outros, Protágoras –, passa porAlthusius (1603), por Spinoza (1670-1677) e pelos reinventores da 282
  • 283. democracia dos modernos, por Rousseau (1754-1762), por Jefferson(1776) e por aquela “network da Filadélfia” que conectava os redatoresamericanos da Declaração de Independência dos Estados Unidos e pelosFederalistas (1787-1788), pelos autores europeus (desconhecidos) daDeclaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), por Paine (1791),por Tocqueville (1835-1856), por Thoreau (1849) e por Stuart Mill (1859-1861), até chegar às formas radicais antecipadas pela primeira vez porDewey (1927-1939): a democracia na base da sociedade e no cotidiano docidadão, a democracia como expressão da vida comunitária (1). Estaúltima será uma espécie de metabolismo das redes mais distribuídas doque centralizadas, algo assim como uma pluriarquia.É claro que os chamados cientistas políticos, em boa parte, não acreditamnisso. O que não significa nada, de vez que não existe uma ciência política.Se existisse uma ciência política, em qualquer medida para além de umaciência do estudo da política, não poderia haver democracia (pois nestecaso os governantes deveriam ser os cientistas e decairíamos na repúblicaplatônica dos sábios: uma autocracia). A despeito do que pensam os queforam ordenados nas academias da modernidade para legitimar a políticarealmente existente, há um argumento fatal contra suas (des)crenças: se ademocracia não pudesse ser reinventada novamente (pois ela já o foi umavez, pelos modernos) ela também não poderia ter sido inventada (pelaprimeira vez, pelos atenienses). 283
  • 284. Autocratizando a democraciaÉ um absurdo pactuar que o acesso ao público só se dê a partir da guerraentre organizações privadasA DEMOCRACIA FOI A MAIS FORMIDÁVEL antecipação de uma época-fluzzque já ocorreu nos seis milênios considerados de “civilização”. Foi umainvenção fortuita e gratuita de pessoas que logrou abrir uma fenda nofirewall erigido para nos proteger do caos, para que não caíssemos noabismo.Na verdade as pessoas que inventaram a democracia não tinham a menorconsciência das implicações e consequências do que estavam fazendo.Talvez tivessem motivos estéticos. Ou talvez quisessem, simplesmente,abrir uma janela para poder respirar melhor. Em consequência, abriramuma janela para o simbionte social poder respirar, sufocado que estava,há milênios, em sociedades de predadores (e de senhores). Não é poracaso que no primeiro escrito onde aparece a democracia (dosatenienses) – em Os Persas, de Ésquilo (427 a. E. C.) – ela tenha sidoapresentada como uma realidade oposta à daqueles povos que têm umsenhor. 284
  • 285. Era tão improvável que isso acontecesse, na época que aconteceu, comofoi o surgimento e a continuidade da vida neste planeta, perigosamenteinstável em virtude da composição atmosférica tão improvável quealcançou. Com efeito, um gás instável (comburente), corrosivo eextremamente venenoso como o oxigênio, que chegou a alcançar aimpressionante concentração de 20%, é uma loucura em qualquerplaneta: mas foi assim que o simbionte natural – essa surpreendente capabiosférica que envolve a Terra – conseguiu respirar.Do ponto de vista social, a democracia é um erro no script da Matrix. Nãose explica de outra maneira. Não era necessária. Nem foi o resultado dequalquer “evolução” social. Não surgiu dos interesses privatizantes dequalquer corporação. Surgiu em uma cidade no mesmo momento em quenela se conformou um espaço público.Isso significa que, geneticamente, a democracia é um projeto local e nãonacional. O grupo de Péricles (às vezes chamado indevidamente de“partido democrático”) não foi constituído para tentar converter osespartanos ou qualquer outro povo da liga ateniense à democracia (e nempara empalmar e reter indefinidamente o poder em suas mãos, comogrupo privado) e sim para realizar a democracia na cidade, na base dasociedade e no cotidiano do cidadão enquanto integrante da comunidade(koinonia) política.Foram os modernos que tentaram transformar a democracia em umprojeto inter-nacional (ou seja, válido para um conjunto de nações-Estado). Mas ela só pode se materializar plenamente – como percebeu 285
  • 286. com toda a clareza John Dewey (1927) – no local: é um projeto vicinal,comunitário, que tem a ver com um modo-de-vida compartilhado (2). E émais o “metabolismo” de uma comunidade de projeto do que o projetode alguns interessados em conduzir uma comunidade para algum lugarsegundo seus pontos de vista particulares ou para satisfazer seusinteresses (outra definição de partido).A democracia surgiu como uma experiência de redes de conversações emum espaço público, quer dizer, não privatizado pelo Estado (no caso,representado pelos autocratas que governaram Atenas). Não teria surgidosem a formação de uma rede local distribuída em Atenas e em outrascidades que experimentaram a democracia. Quando surge, a democraciajá surge como movimento de desconstituição de autocracia e não comomodelo de sociedade ideal. As instituições democráticas foram criadas –casuisticamente mesmo – para afastar qualquer risco de retorno ao poderdo tirano Psístrato e seus filhos a partir da experimentação de redes deconversações em um espaço (que se tornou) público (3). Sim, público nãoé um dado, não é uma condição inicial que possa ser estabelecida oudecretada por alguma instância a partir ‘de cima’ (como uma normaexarada ex ante pelo Estado-nação). Público é o resultado de umprocesso. Só é público o que foi publicizado. Depois, é claro, pode-sepactuar politicamente o resultado que se estabeleceu a partir do processosocial, gerando uma norma, sempre transitória, válida para o âmbito dainstância de governança vigente.Mas não se pode pactuar que o acesso ao público só se dê a partir daguerra (ou da política como continuação da guerra por outros meios – o 286
  • 287. que é mesma coisa) entre organizações privadas. Um pacto absurdo comoesse – baseado na perversa fórmule inversa de Clausewitz-Lenin (4) – écontraditório nos seus termos e investe contra o próprio sentido depúblico. Por isso, diga-se o que se quiser dizer, do ponto de vista dademocracia (uma realidade coeva à da esfera pública), partidos sãoinstituições contra-fluzz, regressivas na medida em que concorrem paraautocratizar a democracia.Não é necessário argumentar muito para mostrar como tudo isso está nocontra-fluzz. Esse tipo de organização partidária e de regimepartidocrático a ela associado não tem muito a ver com a construção deuma governança democrática e sim com a manutenção de umagovernabilidade autocrática, quer dizer, com a capacidade de manter asregras de uma luta, de um combate permanente entre grupos privados,assegurando que o vencedor tenha o direito de privatizar a esfera públicade modo a prorrogar o seu poder sobre a sociedade (no fundo há sempreuma disputa pelo butim, na base do spoil system). Tal como o Estado-nação, partidos são instituições guerreiras: ainda quando não sedediquem ao conflito violento, operam a política como arte da guerra,como uma continuação da guerra por outros meios. Nesta exata medida,são organizações antidemocráticas. Só pessoas tontas – e pelo visto destashá muitas – podem acreditar que o resultado desse embate constante,dessa interação adversarial permanente, conseguirá constituir um sentidopúblico (5). 287
  • 288. Não-partidosRedes de interação política (pública) exercitando a democracia local nabase da sociedade e no cotidiano dos cidadãosNADA DEVE IMPEDIR QUE PESSOAS se associem livremente para fazerpolítica pública. Se houver algo impedindo isso, então estamos em umaautocracia ou em uma democracia formal de baixa intensidade,fortemente perturbada pela presença de instituições hierárquicas quedeformam o campo social. Partidos são, obviamente, uma dessasinstituições, conquanto não consigam – na vigência de regimesdemocráticos formais – impedir totalmente que as pessoas exerçam apolítica; não, pelo menos, nos âmbitos de suas redes de relacionamento,nos círculos com graus de separação mais baixos.Dentro de certos limites – impostos pelo grau de autocratização dasdemocracias realmente existentes na atualidade – é possível democratizara política na base da sociedade, inventando e experimentando novasformas de interação política realmente inovadoras. Nas autocracias issonão é possível, razão pela qual as democracias formais – com suasconhecidas mazelas e limitações – são infinitamente preferíveis a todas asformas de regimes autoritários, por mais que se lhes tentem louvar assupostas virtudes sociais. Essa nova política possível, entretanto, será 288
  • 289. necessariamente uma política pública, não de grupos privados deinteresses – ou não será de fato nova. Se tentarmos reeditar a disputaadversarial de interesses de grupos privados, decairemos fatalmente navelha política (6).O simples fato de algumas pessoas já terem desistido dos partidos earregaçado as mangas para fazer o que acham que deve ser feito em suaslocalidades – articulando redes de interação política (pública) eexercitando a democracia local na base da sociedade e no cotidiano doscidadãos – já é um sinal de que a dinâmica da sociosfera (em queconvivem) está sendo alterada.Nos Highly Connected Worlds as pessoas (que quiserem) poderãoconstituir não-partidos, comunidades políticas para tratar dos seusassuntos comuns, regulando seus conflitos de modo cada vez maisdemocrático ou pluriarquico. Isso significa que evitarão modos deregulação de conflitos que produzam artificialmente escassez (como avotação, a construção administrada de consenso, o rodízio e, até mesmo,o sorteio), guiando-se – cada vez mais – pela “lógica da abundância”. Éclaro que isso só se aplica em redes mais distribuídas do que centralizadase na medida do grau de distribuição e conectividade (quer dizer, deinteratividade) dessas redes.Dizendo a mesma coisa de outra maneira: se você não produzartificialmente escassez quando se põe a regular qualquer conflito, produzrede (distribuída); do contrário, produz hierarquia (centralização). 289
  • 290. Os problemas que se estabelecem a partir de divergências de opinião são– em grande parte – introduzidos artificialmente pelo modo-de-regulação.E somente em estruturas hierárquicas tais problemas costumam seagigantar a ponto de gerar conflitos realmente graves, capazes deameaçar a convivência. Porque nessas estruturas o que está em jogo nãoé a funcionalidade do organismo coletivo e sim o poder de mandar nosoutros, quer dizer, a capacidade de exigir obediência ou de comandar econtrolar os semelhantes.Quanto mais distribuída for uma rede, mais a regulação que nela seestabelece pode ser pluriarquica. Uma pessoa propõe uma coisa. Ótimo.Aderirão a essa proposta os que concordarem com ela. E os que nãoconcordarem? Ora, os que não concordarem não devem aderir. E semprepodem propor outra coisa. Os que concordarem com essa outra coisaaderirão a ela. E assim por diante.Em redes distribuídas nunca se admite a votação como método de regularmajoritariamente qualquer dilema da ação coletiva. E quando houverdiscordâncias de opiniões, como faremos? Ora, não faremos nada! Porque deveríamos fazer alguma coisa? Viva a diversidade! Se vocêestabelece a prevalência de qualquer coisa a partir da votação (ou deoutros mecanismos semelhantes de regulação de conflitos), cai em umaarmadilha centralizadora ou hierarquizante. Produz “de graça” escassezonde não havia.Vamos imaginar que exista alguém que não esteja muito contente com amaneira como as coisas estão acontecendo em uma comunidade. O que 290
  • 291. essa pessoa pode fazer, além de externar sua opinião e colocá-la emdebate? Ora, no limite, essa pessoa descontente pode configurar umanova rede, se inserir em outra comunidade, ir conviver em outro mundo.Como os mundos são múltiplos, ela não está mais aprisionada e nãoprecisa ficar constrangida a permanecer no mesmo emaranhado onde nãose sente confortável.Evidentemente a pluriarquia não pode ser adotada em organizaçõescentralizadas, erigidas no contra-fluzz, como as escolas, as igrejas, ospartidos e as corporações. Com mais razão ainda não pode vigir nosEstados e seus aparatos, que – mais do que organizações hierárquicas –são troncos geradores de programas centralizadores.A despeito disso, porém, não-partidos tendem a florescer nos mundosaltamente conectados que estão emergindo. Ignorando solenemente asrestritivas disposições estatais e as crenças religiosas (sim, religiosas,mesmo quando travestidas de científicas) em uma supostacompetitividade inerente ao ser humano, difundidas pelas escolas eacademias, pessoas vão se conectando voluntariamente com pessoas paratratar cooperativamente de seus assuntos comuns em todos os lugares,sobretudo nas vizinhanças – conjuntos habitacionais, ruas, bairros – e nascomunidades de prática, de aprendizagem e de projeto que se formamnas cidades inovadoras que não querem mais permanecer eternamentena condição de instâncias subordinadas ao Estado-nação. 291
  • 292. EstadoUm delírio de raiz belicistaAS PREFERÊNCIAS QUE LEVAM ALGUÉM a querer morar ou trabalhar emBarcelona, São Francisco, Curitiba, Milão ou Genebra, não são, em geral,relacionadas às características das nações que abrigam essas cidades e simà dinâmica singular que cada uma delas apresenta. Quem optou porBarcelona, certamente não optaria genericamente pela Espanha. Quemgosta de viver em São Francisco, frequentemente tem motivos muitoclaros para não querer morar em outros lugares dos Estados Unidos.Não é assim? Tanto faz morar em Curitiba ou Pernambuco, só porqueambas estão no Brasil? Tanto faz morar em Milão ou Consenza, só porqueambas estão na Itália? Tanto faz morar em Genebra ou Berna, só porqueambas estão na Suíça? É claro que não! Há uma diferença de capital social(ou seja, uma diferença de topologia e de conectividade, na estrutura e nadinâmica, de suas redes sociais) entre essas cidades, que faz toda adiferença em termos de condições e estilo de vida e convivência social.O fato é que vivemos em cidades, moramos, estudamos, trabalhamos enos divertimos em localidades. Ninguém convive no país. A nação não éuma comunidade concreta. É uma comunidade imaginária, de certo modo 292
  • 293. inventada e patrocinada pelo Estado e seus aparatos, inclusive pelapublicidade massiva das empresas estatais (que se enrolam nas bandeirasnacionais para tentar estabelecer uma vantagem competitiva bypassandoo mercado ou para fazer propaganda dos governantes que nomearamseus dirigentes). E a pátria (e o patriotismo), ou é a remanescência de umdelírio de raiz belicista (aquele mesmo que acompanhou a instalaçãodesse fruto da guerra chamado Estado-nação moderno) ou – para lembrara já batida sentença de Samuel Johnson (1709-1784) – é um refúgio decanalhas (7) que se escondem por trás do nacionalismo para protegerseus interesses ou levar vantagem sobre os concorrentes, em geral nocampo econômico, por certo, mas também no político.Mas as profundas mudanças sociais que estão ocorrendo nas últimasdécadas estão criando condições favoráveis à independência das cidadesdo ponto de vista do desenvolvimento local. Fala-se aqui – entenda-sebem – das cidades como redes de múltiplas comunidades, e nãopropriamente das instâncias locais do Estado (central ou regional), dasprefeituras e das outras instituições privatizadoras da política que querem“representá-las” ou comandá-las.O mundo humano-social, ao contrário do que pensam os governantes, nãoé um conjunto de Estados, nações ou países. É uma configuração móvel ecomplexa de infinidades de fluxos entre pessoas e grupos de pessoas,agregadas, por sua vez, em múltiplos arranjos locais e setoriais: famílias,vizinhanças, comunidades, cidades, regiões, organizações (dentre as quais,algumas poucas – que não chegam a duas centenas – são Estados). 293
  • 294. Depois que se generalizou a forma Estado-nação, as cidades passaram aser localidades de um país (devendo-se entender por isso que elaspassaram a ser instâncias subnacionais). Para todos os efeitos, sãoencaradas, pelos aparatos estatais que comandam os países, comoinstâncias subordinadas (ordenadas a partir de cima). E conquantotenham alguma autonomia formal, figurando como sujeitos de pactosfederativos em muitas Constituições modernas, as cidades são realmentesubordinadas do ponto de vista político, jurídico, fiscal, energético,econômico etc. Seu funcionamento depende, em grande parte, dedecisões tomadas sem a sua participação. Normas, repasses de recursos einvestimentos, são determinados por outras instâncias, de cima e de fora.E na medida em que tudo isso gera dependência, não interdependência,são construções contra-fluzz. 294
  • 295. A nação como comunidade imagináriaA nação não é uma comunidade concreta. É uma comunidadeimaginária, de certo modo inventada pelo Estado e seus aparatosAS NAÇÕES SÃO APRESENTADAS como grandes comunidades, no sentidoalemão seiscentista do termo, ou naquele sentido, que lhe atribuíaAlthusius (1603), da grande comunidade territorial de herança (8) e nãono sentido que lhe atribuímos hoje, da pequena comunidade comocluster, de escolha de uma (“porção” da) rede social para conformar umcampo de convivência, em uma atividade compartilhada, de prática, deaprendizagem ou de projeto. Dewey (1927) em “O público e seusproblemas”, faz uma correta distinção entre a grande comunidade e apequena comunidade do ponto de vista da democracia (substantiva) comomodo de vida comunitário. Não é na grande comunidade (nação) que essademocracia pode se materializar plenamente e sim na pequenacomunidade local; para usar suas próprias palavras: “a democracia há decomeçar em casa, e sua casa é a comunidade vicinal” (9).Essas grandes comunidades-nacionais são, é claro, instituiçõesimaginárias. Como tal são abstratas. Ninguém convive ou interageconcretamente com a população de um país. Ser brasileiro, italiano ouargentino não é, stricto sensu, pertencer a uma comunidade concreta, 295
  • 296. porquanto, para os nossos ‘compatriotas’ (e essa palavra já é horrível),não estamos incluídos, como pessoas, no seu modo-de-vida, quer dizer,não fomos voluntariamente aceitos e acolhidos por eles no seu campo deconvivência. Who cares? Somente comunidades humanas podem incluirseres humanos, mas quem é incluído é sempre a pessoa com suaspeculiaridades e não o indivíduo como um número em uma estatística ouuma variável censitária.No entanto, para fazer parte da grande “comunidade” nacional bastanascer naquele território delimitado como seu (a partir da conquista ou daguerra) e, em geral, manter “laços de sangue” ou hereditários com osnacionais (ou seja, trata-se do reconhecimento de uma herança genética,condição a partir da qual – acredita-se, e não sem razão – a transmissãonão-genética de comportamentos que chamamos de cultura pode serviabilizada, inoculando-se tal cultura (como quem “carrega” um programa)nos novos membros (descendentes dos nacionais), a partir da família e,em seguida, da vizinhança, da escola, da igreja, das organizações sociais,das empresas e das instituições nacionais estatais e não-estatais). Note-seque essa identidade abstrata nacional é construída a partir de uma visãode passado: origem comum (em geral forjada), raça (uma identificaçãoinconsistente do ponto de vista científico), língua, costumes, credos,cultura enfim e história (escrita sempre da frente para trás) (10).Percebe-se que não há aqui qualquer escolha humana. Não háacolhimento (quer dizer, inclusão). Funciona mais ou menos assim comona propriedade de um rebanho animal: as crias do gado pertencemautomaticamente ao dono da boiada, aumentam o número de cabeças do 296
  • 297. seu patrimônio. Pois bem. No caso do pertencimento à grande“comunidade” nacional quem faz às vezes do dono é o Estado-nação.É o Estado que interpreta o que é a nação. É o Estado que delimita quempode ou não pode ser incluído na nação e estabelece condições depertencimento ou inclusão. Mas o Estado não é uma comunidade e simum sistema de organizações que gera programas verticalizadores (ou,talvez melhor, do ponto de vista da rede social, o inverso: uma matriz deprogramas verticalizadores que gera um sistema de instituições), cujafunção precípua é obstruir, separar e excluir. A partir do monopóliolegalizado da violência, é o Estado que diz: isso você não pode fazer; portal ou qual caminho você não pode trafegar sem autorização; aqui vocênão pode entrar ou daqui você deve sair. Ponha-se na rua, quer dizer, forado meu território!Não importa se, por exemplo, uma comunidade concreta de espanhóisqueira acolher um africano, incluindo-o no seu campo de convivência paraa realização de um projeto comum. Se o africano em questão não atendera certas condições e não preencher certos requisitos ditados pelo Estado,nada feito. E mesmo que cumpra todas as exigências, ele sempre será, aosolhos do Estado-nação espanhol, um estrangeiro, ou seja, um estranho,alguém que deve ser impedido de circular livremente, separado dos“verdadeiros” espanhóis e excluído de certos direitos – o principal dosquais o de pertencer plenamente à comunidade política que define osdestinos coletivos dos espanhóis. Sim, será um excluído político porqueserá – aos olhos da autocrática realpolitik estatal – sempre alguém cujomodo-de-ser ameaça, independentemente do que faz ou venha a fazer, 297
  • 298. simplesmente por ser diferente, por ser um outro, o modo-de-serestabelecido como desejável pelo imaginário nacional historicamenteconstruído pelo mega-programa Estado e que é reinterpretado de temposem tempos pelos condomínios privados de agentes políticos – estes sim,bem concretos – que assumem as funções de governo.De certo ponto de vista, o que chamamos de Estado como fonte ougeratriz de programas verticalizadores que “rodam” na rede social, fazparte da ideologia dos governos. No que tange a função de legitimaçãodessa ideologia, foi necessário promover uma fusão entre o Estado e anação. Sem isso o aparato hierárquico estatal não conseguiria infundir nagrande “comunidade” nacional as noções abstratas de identidade quealimentam o aparato, para as quais o drive principal foi, invariavelmente, aguerra (que permite a formação de identidade a partir do inimigo). Sim, osEstados – qualquer Estado, inclusive a forma atual Estado-nação – sãofrutos da guerra e se alimentam (internamente) do “estado de guerra” ou(na fórmule inversa de Clausewitz-Lenin) da prática da política como umacontinuação da guerra por outros meios. São produtos, portanto, não dacooperação (ou da amizade política) que supostamente aglutinaria anação – e de todo aquele blá-blá-blá da “vontade de viver juntos” – e simda competição (ou da inimizade política).Por isso que todo Estado é hobbesiano. Todo Estado é fruto do realismopolítico. Todo Estado é autocrático (inclusive naqueles que denominamosde “Estados democráticos e de direito” os enclaves autocráticos são tãoonipresentes que a estrutura e a dinâmica da entidade como um todo nãopodem acompanhar o comportamento democrático das sociedades que 298
  • 299. dominam). Ao criarmos a identidade imaginária “Atenas” para colocá-lano lugar da identidade concreta “os atenienses”, já não estamos mais nocampo da democracia e sim no da autocracia. E os próprios gregos doséculo de Péricles fizeram isso, quando se comportaram de modo a-político no enfrentamento violento com outras cidades-Estado da região.Não é a toa que os governantes vivem apelando para um sentimentonacional. Falam da França, da América ou do Brasil como se essas“entidades” existissem e tivessem vontade própria, a fim de extrair ocombustível do “fervor patriótico” para se manter no poder, parareproduzir o sistema de instituições estatais que quer impor sualegitimidade à sociedade com o fito de torná-la seu dominium (ao modofeudal mesmo) e para continuar produzindo inimizade no mundo.Ora, você pode dizer: eu não quero “viver junto” com quem eu não quero,apenas pelo fato de ser brasileiro, na medida em que isso signifique “não-querer viver junto” com um inglês pelo fato de ele ser inglês (e nãobrasileiro). Por que deveria? Quem disse que somos inimigos? A queminteressa manter esse tipo de rivalidade subjetiva? Do ponto de vistagenético – a ciência biológica já mostrou – somos mesmo, todos nós, umaúnica grande família. Do ponto de vista cultural parece claro, a não serque nos deixemos intoxicar pela estiolante ideologia multiculturalista, queculturas que não se polinizam mutuamente – por meio de saudávelmiscigenação – tendem a apodrecer.Não existe um Brasil, mas milhares, talvez milhões. Stricto sensu a “naçãobrasileira” não é, nem nunca será, uma comunidade e sim uma interação 299
  • 300. de miríades de comunidades que falam a mesma língua (com váriossotaques e regionalismos), têm alguns costumes parecidos (e muitoscostumes locais bem diferentes), várias histórias reais (e não apenas umaúnica narrativa, como aquela que é ensinada nas escolas). A nação só éuna do ponto de vista das instituições estatais (por meio das quais sematerializam os poderes da República, as forças armadas, a moeda) edaquilo que antigamente se chamava, de um jeito meio sem-jeito, de“aparelhos ideológicos de Estado”. Além, é claro, do governo central, queprecisa espichar essa unidade para além da herança cultural.Mas há uma idéia e, mais do que isso, uma prática de bando na raiz dessaunidade. Como no surgimento da noção de cidadania (que nada tinha deuniversal, pelo contrário), trata-se de proteger “os de dentro” contra “osde fora”, impedir que eles – os outros – venham vender na nossa feira,que concorram conosco em igualdade de condições, que adquiram nossasterras, que roubem nossas riquezas naturais (que certamente o próprioDeus nos concedeu, lavrando a escritura no cartório do céu: em nome doEstado, é claro), que tomem nossos empregos, que exerçam plenamente acidadania política (disputando conosco o poder associado àrepresentação). Sim, é um sentimento de bando que se manifesta aqui,justificado pelo pressuposto antropológico de que o ser humano, porinerentemente competitivo, é hostil por natureza e que, portanto, osseres humanos, deixados a si mesmos, como escreveu Hobbes (1651),engalfinhar-se-iam em uma guerra de todos contra todos. Ah... A menosque haja um Estado para impedir, entenda-se bem, não o conflito em si ea guerra, mas o conflito no interior do próprio bando e a guerra entre “os 300
  • 301. de dentro”. Tudo isso, é claro, para poder promover o conflito e a guerracom “os de fora”. Foi assim que nasceu o Estado, e inclusive, como já foiassinalado, a forma atual Estado-nação e a ordem internacional doequilíbrio competitivo.Então, quando alguém fala do Brasil, ou em nome do Brasil, podemosprocurar que certamente vamos achar os interesses particularistas, bemconcretos, que se escondem sob essa “nacionalização” abstrata dodiscurso. É alguém tentando se proteger do mercado. É alguém tentandoproteger a sua indústria ou o seu negócio. É alguém tentando se protegerda concorrência comercial ou política. É alguém tentando proteger o seuemprego. É alguém tentando proteger suas condições de vida. É alguémtentando desqualificar os oponentes para ficar no poder. É alguémtentando manter nas mãos do seu bando as instituições estatais queaparelhou. É sempre alguém no contra-fluzz, tentando se proteger dooutro.“O Brasil” é um construct. Se somos brasileiros, na maior parte do tempo,nos nossos trabalhos, nos nossos estudos e pesquisas, nos nossosrelacionamentos, “o Brasil” não gera preferências significativas (11).Na aceitação da legitimidade do outro e na sua incorporação em nossoespaço de vida, não deveríamos dar a mínima se uma pessoa é brasileira,italiana, argentina, francesa ou norte-americana. Qualquer preferência,baseada nesses critérios, para acolher ou rejeitar uma pessoa em umacomunidade, é uma canalhice. Sim, nunca é demais repetir o dito deJohnson: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Uma pessoa 301
  • 302. decente não deveria se deixar drogar com esse tipo de ideologia queobstrui, separa a exclui para atender a exigências hierárquicas que, ao fime ao cabo, são desumanizantes.Nos últimos séculos o fervor patriótico que alimentava as “comunidades”nacionais foi sendo obrigado a dividir espaço com o consumismo, apátridapor natureza, internacionalizante, sim, mas não glocalizante. E nãonecessariamente mais humanizante. Ocorre que o processo deglobalização (ou de planetarização) começou a quebrar as fronteirasnacionais (aquelas que são vigiadas pelo Estado nacional) em todos oscampos, ensejando que culturas não-nacionais pudessem emergir dasmúltiplas interações cruzadas de pessoas de diferentes nacionalidades.Praticamente nenhum Estado-nação, nem mesmo o mais autocráticodeles, consegue mais fechar suas fronteiras, em termos culturais, isolandoseu “rebanho” do resto do mundo. A telefonia móvel e a Internet (adespeito daquele vergonhoso acordo do Google com os ditadoreschineses, que não deve ser esquecido, conquanto o próprio Google tenhasido levado a revê-lo, muitos anos depois) aceleraram esse processo. Desorte que existe hoje um contingente crescente de pessoas que não estãonem aí para identidades nacionais e que estão se inserindo em múltiplascomunidades transnacionais, compostas por pessoas de váriasnacionalidades, a partir de suas próprias escolhas.No segundo capítulo do seu excelente Transforming History intitulado“Cultural History and Complex Dynamical Systems”, William IrwinThompson (2001), escreveu que “toda nossa matriz de identidadebaseada em uma cultura de desejo de compra econômica e fervor 302
  • 303. patriótico está mudando para uma nova cultura planetária...”. Mas emseguida adverte que “explosões reacionárias [atuando “como a Inquisiçãoe a Contra-Reforma, que procuraram travar e reverter as forçasmodernizadoras da Renascença e da Reforma”] podem prejudicar muito eatrasar a transformação cultural por séculos a fio” (12).Pois é precisamente neste ponto de bifurcação que nos encontramos hoje.Todavia, para além, talvez, do que avalia Thompson, não são apenas “ofundamentalismo religioso e as reações terroristas nacionalistas da direitaà planetização” (13) que estão tentando enfrear a emergência de umanova identidade transcultural. Hoje o próprio conceito de nação,interpretado e materializado por uma forma já decadente de Estado – oEstado-nação e as ideologias nacionalistas nele inspiradas ou por eleinfundidas na sociedade – constitui um obstáculo à transição históricaatualmente em curso (cujo sentido é a glocalização). 303
  • 304. A falência da forma Estado-naçãoA maior parte dos Estados-nações não deu certoDO PONTO DE VISTA DO ‘DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE’ – parausar a feliz expressão de Amartya Sen (2000) –, é forçoso reconhecer quea imensa maioria dos Estados-nações do mundo não deu muito certo (14).O chamado mundo desenvolvido restringe-se a uma lista que não chega atrês dezenas de países: quer se considere o desenvolvimento humanomedido pelo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD, quer seconsidere o desenvolvimento econômico, medido pelo CGI – Índice deCompetitividade Global do Fórum Econômico Mundial, quer se considereo desenvolvimento tecnológico e a sintonia com as inovaçõescontemporâneas, medido pelo IG – Índice de Globalização, da ATKearney/Foreign Policy. Desenvolvidos (nesses três sentidos) são os paísesque apresentam IDH igual ou superior a 0,9, CGI maior ou igual a 4,6 e quefiguram nos primeiros vinte ou trinta lugares da lista do IG, daqueles quetêm ambientes mais favoráveis à inovação.Um cruzamento desses três índices revela a lista – aborrecidamenteprevisível – dos países que deram certo. Pasmem, mas são menos de 30!Em ordem alfabética (em dados do final da década passada): Alemanha, 304
  • 305. Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Espanha,Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Hong Kong, Irlanda, Islândia,Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, ReinoUnido, Cingapura, Suécia e Suíça. (A essa lista poder-se-ia, com boavontade, acrescentar mais alguns, como, por exemplo – e entre outros –, aRepública Checa, a Estônia, a Eslovênia e, na América Latina, o únicocandidato de sempre: o Chile).Significativamente, a imensa maioria dos países dessa lista dos maisdesenvolvidos tem regimes democráticos. Significativamente, também,não figuram nessa lista dos mais desenvolvidos: i) países com regimesditatoriais, ainda que apresentem altos índices de crescimento econômico(como China ou Angola); ii) protoditaduras (como Rússia ou Venezuela); e,nem mesmo, iii) democracias formais parasitadas por regimesneopopulistas manipuladores (como Argentina e outros países da AméricaLatina).Em outras palavras, do ponto de vista do ‘desenvolvimento comoliberdade’, os Estados-nações existentes no mundo atual, em sua maioria,não são instâncias benéficas.Os números são assustadores. Em dados de 2011: entre 51% (DemocracyIndex 2011 Economist Intelligence Unit) e 57% (Freedom in the World2012) da população mundial (quase 4 bilhões de pessoas) não vivem emregimes free. O que é mais assustador? Esta porcentagem já foi menor!(15). 305
  • 306. Quase quatro milhões de seres humanos (a maioria da humanidade) nãotêm plena liberdade para criar, para inventar, para inovar, para sedesenvolver e para promover, com alguma autonomia, o desenvolvimentodas localidades onde vivem e trabalham. E não há qualquer processo“natural”, de “evolução”, sempre ‘para frente e para o alto’, comoimaginam alguns crédulos. Em 1975, 30 nações tinham governos eleitospela população. Em 2005, esse número tinha subido para 119 (16). Masnos últimos anos o crescimento da democracia e da liberdade política estásofrendo forte desaceleração e isso não tem a ver somente com orequisito democrático da eletividade, mas, sobretudo, com o darotatividade (ou alternância), para não falar dos outros princípios (como aliberdade, a publicidade, a legalidade e a institucionalidade e, comoconsequência de todos esses, a legitimidade).Bem mais da metade dessas pessoas vivem em cidades que poderiam “darcerto”, não fosse pelo fato de estarem subordinadas a Estados-nações quesufocam seu desenvolvimento. Sim, 87% dos Estados-nações do globo nãopodem ser considerados desenvolvidos dos pontos de vista humano,social e científico-tecnológico. No entanto, nesses 168 países “atrasados”(por assim dizer) e com poucas chances de se inserir adequadamente nacontemporaneidade, existem milhares de cidades promissoras, quecaminhariam celeremente para alcançar ótimas posições nos rankings dainovação e da sustentabilidade, bastando para tanto, apenas, quelograssem se libertar do jugo dos países – das estruturas centralizadorasdos governos centrais e dos outros aparatos de controle e dominação dosEstados-nações – que as estrangulam. 306
  • 307. O fato é que o Estado-nação não é boa instância – e não é uma boafórmula política – do ponto de vista do desenvolvimento.As cidades, pelo contrário, sempre o foram, pelo menos até agora. E nãohá nenhuma razão pela qual as cidades devam continuar mantendo umaatitude genuflexória em relação ao Estado-nação, a não ser aconcentração de poder nas instâncias nacionais, inclusive o poder deretaliação dos governos e legislativos centrais. Os prefeitos, como se diz,andam de “pires na mão” e ajoelham-se perante os executivos nacionais,em parte porque dependem de recursos que foram centralizados pelasinstâncias nacionais e, em parte, porque têm medo de seremdiscriminados e perseguidos – o que, convenha-se, é um motivo odioso eantidemocrático. Mas isso acontece porquanto suas cidades não estãopreparadas para enfrentar os desafios de caminhar com as própriaspernas. 307
  • 308. O reflorescimento das cidadesCidades transnacionais, cidades-pólo tecnológicas, redes de cidades ecidades-redesNÃO É POR ACASO QUE AS CIDADES sempre estiveram na ponta dainovação, seja no aspecto social e político, como a Atenas no século dePéricles (ou, mais amplamente, no período considerado democrático: 509-322 antes da Era Comum), seja no aspecto econômico e científico-tecnológico, como Bruges (no final do século 12), pólo da nascente ordemcomercial moderna, logo seguida por Veneza, que foi, talvez, o primeirocentro globalizado da Europa (do final do século 14 até o ano de 1500), ouAntuérpia (na primeira metade do século 16) e depois Gênova (nasegunda metade), que se tornaram centros financeiros, seguidas porAmsterdã (na passagem do século 17 para o 18), ou por Londres, que setransformou na primeira democracia de mercado e onde o valor agregadoindustrial, impulsionado pelo vapor, ultrapassou, pela primeira vez nahistória, o da agricultura, ou por Boston (no início do século 20), com afabricação de máquinas, passando a Nova Iorque que predominoudurante quase todo o século passado, com o uso generalizado daeletricidade e chegando, afinal, à Califórnia atual, com Los Angeles e àscidades do Vale do Silício. 308
  • 309. Hoje o dinamismo das cidades inovadoras já se vê por toda parte.Frequentemente não são mais os países (Estados-nações) que constituemreferências para o desenvolvimento e sim as cidades, sejam cidadestransnacionais (Barcelona, Milão, Lion, Roterdã), sejam cidades-pólotecnológicas (Omaha, Tulsa, Dublin e, talvez, Bangalore e Hyderabad, nochamado terceiro mundo), sejam, por último, as coligações de numerosascidades em extensas regiões do planeta, que começam a adotar umalógica própria e diferente daquela do Estado-nação.Na verdade, cidades que se afirmaram como unidades econômicas – nãonecessariamente políticas – relativamente autônomas, já vêm surgindo aolongo dos últimos séculos (como Veneza e outros centros mais ao norte daEuropa: e. g., Riga, Tallin e Danzig). São prefigurações do que KenichiOhmae (2005) chamou de ‘Estado-região’, que constitui hoje o palcoprivilegiado da economia global e que está levando a “um inevitávelenfraquecimento do Estado-nação em favor das regiões” (17).Algumas dessas regiões, que tendem a substituir o Estado-nação, sãocoligações de cidades (como a área metropolitana de Shutoken, formadapor Tóquio, Kanagawa, Chiba e Saitama, com um PNB de 1,5 trilhão dedólares; ou a área de Osaka, com 770 bilhões, em dados de 2005). Pareceóbvio que essas regiões, que representam unidades econômicas maispujantes do que a imensa maioria das nações do mundo, figurando então(2005) em terceiro e o sétimo lugares, respectivamente, no rankingmundial, mais cedo ou mais tarde, entrarão em choque com ocentralizado sistema político do velho Estado-nação japonês, que não lhespermite uma dose de autonomia correspondente ao seu peso econômico. 309
  • 310. Ainda que algumas dessas regiões emergentes coincidam com pequenospaíses (como Irlanda, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Noruega e Cingapura),em geral elas se formarão a partir do protagonismo de cidades edesenharão uma nova configuração geopolítica do mundo. Ou seja, aoque tudo indica, a estrutura e a dinâmica do Estado-nação não serãopreservadas, a não ser em alguns casos.Mas quer falemos de Bangalore e Hyderabad, quer falemos de Dalian ouda ilha de Hainan na China, ou, quem sabe, de Vancouver e da BritishColumbia, da Grande São Paulo ou de Kyushu no Japão – mesmo em umsentido predominantemente econômico quantitativo, como o empregadopor Ohmae – ainda estamos falando de cidades (ou de arranjos decidades).Sim, continuamos falando de cidades. E é por isso que, nos exemploscolhidos na história e nas nossas tentativas de projeção para as próximasdécadas, não aparecem, em maioria, as capitais dos países, as localidades-sedes dos seus governos centrais. Falamos de Milão e não da Itália (ouRoma). Falamos de Bangalore e não da Índia (ou Nova Delhi). Os quefalam da Índia (e do Brasil e da Rússia e da China – repetindo a ilusóriahipótese dos BRICs, inventada por Jim O’Neill) são aqueles autores,professores, consultores e policymarkers intoxicados de ideologiaeconômica e siderados pelo crescimento (ou expansão, mudançaquantitativa) e não pelo desenvolvimento (mudança qualitativa). Comfrequência são também pessoas que não se dão muito bem com a idéia dedemocracia. 310
  • 311. As cidades na glocalizaçãoEstados são artifícios para proteger as pessoas da experiência dolocalismo cosmopolitaO REFLORESCIMENTO DAS CIDADES – na verdade, das localidades emgeral – é uma das consequências do processo de glocalização atualmenteem curso. O mundo não está apenas se globalizando, mas também selocalizando cada vez mais. Isso quer dizer, em outras palavras, que omundo único está desparecendo para dar surgimento a muitos mundos.E está havendo uma mudança social que favorece o florescimento daslocalidades em geral – e das cidades em particular – como protagonistasdo desenvolvimento. Essa mudança, que está ocorrendo simultaneamentena dimensão global e na dimensão local, está tornando inadequada,insuficiente e impotente, a forma Estado-nação. O tão citado juízo dosociólogo americano Daniel Bell parece ser definitivo: o velho Estado-nação tornou-se não só pequeno demais para resolver os grandesproblemas, como também grande demais para resolver os pequenos.Em outras palavras, as inovações (sociais, políticas, culturais etecnológicas) introduzidas com o atual processo de glocalização, têmsurgido simultaneamente na dimensão global (como resultado de 311
  • 312. mudanças sociais macroculturais) e na dimensão local (como resultado demudanças sociais na estrutura e na dinâmica de comunidades).Entretanto, o Estado-nação tornou-se uma instância intermediáriaresistente a tais mudanças. Ou seja, a mudança que tem ocorrido nas duaspontas – no global e no local – ainda não atingiu plenamente o meio, aforma Estado-nação, que, sentindo-se ameaçada, está resistindoferozmente para não ser desabilitada como fulcro do sistema degovernança. A primeira década do terceiro milênio pode ser caracterizadacomo uma década de crise do Estado-nação e de consequenterecrudescimento do estatismo.Os Estados-nações criarão, por certo, muitos obstáculos à emergência dascidades como sujeitos autônomos do seu próprio desenvolvimento. Masnão conseguirão resistir por muito tempo à convergência de múltiplosfatores que estão preparando o seu declínio. Como previu Castells (1999),“as estratégias do Estado-nação para aumentar a sua operacionalidade(através da cooperação internacional) e para recuperar sua legitimidade(através da descentralização local e regional) aprofundam sua crise, aofazê-lo perder poder, atribuições e autonomia em benefício dos níveissupranacional e subnacional” (18).Nenhum Estado hoje consegue mais se livrar dos conflitos com seus níveissubnacionais, diante das exigências crescentes de mais autonomia local.Mas a despeito de todos os conflitos políticos e fiscais entre diferentesníveis de governo dentro de um mesmo Estado, que só tendem a seaprofundar e generalizar nos próximos anos, nunca é demais repetir quese fala aqui das cidades como redes de múltiplas comunidades 312
  • 313. interdependentes e não da réplica Estatal montada nas cidades, dainstância municipal do Estado ou do governo local.Os que preconizam o declínio do Estado-nação diante dos novos arranjoslocais ou regionais que emergem no mundo globalizado, fazem-no quasesempre de um ponto de vista estrita ou predominantemente econômico.É o caso, por exemplo, de Ohmae (entre outros). Mas é preciso ver que ofenômeno da glocalização é mais abrangente e não pode ser plenamentecaptado pelo olhar econômico. Estamos diante de mudança sociais maisprofundas, que dizem respeito aos padrões de vida e de convivência sociale não apenas diante de alterações na estrutura e na dinâmica do capital edo capitalismo. O que está mudando não é somente o modo de produzir econsumir e sim o modo de ser coletivamente. ‘Uma sociedade-rede estáemergindo’ – muitos repetem o dito, mas parecem não extrair dele todasas consequências e essa surpreendente afirmação vai se tornando banal.O problema com a visão econômica é que ela é reducionista. Imagina quea configuração do mundo depende do modo de produção e, assim, seesforça para antecipar a nova forma do capitalismo que virá (ousobrevirá), mas se esquece de perguntar sobre a nova forma de sociedadeque emergirá. Isso talvez seja uma evidência da resiliência da crençaeconomicista de que existe alguma coisa como uma “estrutura”econômica que determina, em alguma medida ou instância, uma suposta“superestrutura” da sociedade.Mas mercados não vêm de Marte. Constituem um tipo de agenciamentooperado por seres humanos, terráqueos mesmo, cujo comportamento 313
  • 314. depende das interações que efetivam com outros seres humanos; ou seja,tudo isso depende do “corpo” e do “metabolismo” da sociedade (i. e., desociosferas), vale dizer, da rede social.Não é nas novas formas econômicas que vamos encontrar o “mapa” dasnovas cidades. Esse “mapa” não poderá ser outra coisa senão as novasconfigurações das redes que configuram a cidade-rede. Tivemos até agoravários tipos de “mapas”, dos quais podemos citar alguns exemplos: ascidades-assentamento “horizontais” que se formaram após o final doperíodo neolítico na Europa Antiga e no Oriente Médio (como Jericó, apartir, talvez, do 6º milênio a. E. C.); as cidades-Estado da antiguidade (ascidades monárquicas, muradas e fortificadas, que surgiram naMesopotâmia a partir do 4º milênio, como Uruk, Ur, Lagash etc., e que sereplicaram no período considerado civilizado); as cidades – burgos –organizadas em torno do comércio nos períodos feudais; uma grandevariedade de cidades correspondentes aos Estados principescos e reais;até chegar às cidades como instâncias subnacionais (ou domínios doEstado-nação). E tivemos também algumas exceções, como Atenas – apolis do período democrático – e outras poleis na Ática. São exceçõesporque a polis grega democrática não era propriamente uma cidade-Estado semelhante às suas contemporâneas e sim uma comunidade(koinonia) política. Por último, ao que parece, teremos agora, no ocaso doEstado-nação, novos tipos de cidades: as cidades-redes (e as redes decidades configurando novas regiões).Ao que parece, não é muito útil tentar pegar no passado um modelo comoprefiguração para explicar o fenômeno atual da emergência da cidade- 314
  • 315. rede. Assim como a globalização da época das navegações não diz muitacoisa sobre a globalização atual, também não teremos um novovenezianismo (por exemplo, não tivemos um novo brugesismo – deBruges – a não ser o próprio venezianismo, o original, dos séculos 14 e 15).Não teremos novas “ligas hanseáticas”, nem um neo-antuerpismo ou umneogenovismo; assim como nenhum país ou região poderá cumprir nomundo atual o papel que foi desempenhado, em suas épocas, porAmsterdã, Londres, Boston, Nova Iorque ou Los Angeles e adjacências.Por quê? As explicações são várias: porque a ordem comercialcontemporânea não tem mais mono-pólos (como foram Bruges e Veneza),de vez que a globalização hoje é policêntrica; porque o capital financeirotransnacional não exige mais centros fixos (como a Antuérpia ou a Gênovado século 16); porque as chamadas democracias de mercado nãoprecisam estar mais ancoradas em impérios militares (como a Inglaterrados séculos 18 e 19); porque as “máquinas que fabricam máquinas” danova indústria do conhecimento não requerem mais uma infra-estruturatão pesada que só possa ser reunida em uma localidade com altacapacidade hard instalada (como Boston, nos Estados Unidos no início doséculo 20); porque o acesso à eletricidade é praticamente universal (e aconexão banda larga segue o mesmo caminho) e a energia e a inteligêncianão precisam estar mais espacialmente tão concentradas (como estiveramem Nova Iorque ou em Los Angeles e nas cidades do Vale do Silíciodurante o século 20).Não é o mercado que determina. Não é o Estado que decide. São osfenômenos que ocorrem na intimidade da sociedade e que têm a ver com 315
  • 316. o grau de conectividade e de distribuição da rede social que acarretam aestrutura e a dinâmica dos novos agrupamentos humanos que seestabelecem sobre o território e, inclusive, daqueles que não estãoestabelecidos sobre um território (como os agrupamentos virtuais). É claroque o mercado pode induzir e o Estado pode restringir (em geralcolocando obstruções) as fluições que configuram a forma e ofuncionamento das sociedades. Mas nenhum desses tipos deagenciamento pode determinar o que acontece.O problema do Estado – dos pontos de vista da democracia e dodesenvolvimento (ou da sustentabilidade) – não é que ele se assentaterritorialmente e sim que ele se constitui como um mainframe deprogramas verticalizadores. A Matrix como mainframe, do filme dosirmãos Wachowski, não precisava se assentar em um territóriodeterminado para executar o seu papel verticalizador. Aliás, no filme, ocentro de vida alternativa e de resistência ao poder vertical – Zion – eraterritorialmente (e mais do que isso, subterraneamente) situada,enquanto que a Matrix era virtual, ou melhor, virtualizante...O territorial não leva necessariamente à verticalização (ou centralização),nem o virtual nos salva da dominação do poder vertical. Porque asdisposições que configuram o que se manifestará no mundo físico ou nomundo virtual estão no espaço-tempo dos fluxos e não no espaço-tempofísico ou no chamado mundo digital (19). Mas o agarramento ao território,esse agrilhoamento tamásico contra-fluzz – posto que estabelecido paratentar impedir a vida nômade das coisas – tem sido fonte, em grande 316
  • 317. parte, do poder de separar os seres humanos: uma tentativa de matar noembrião o simbionte social.Os Estados foram erigidos para nos proteger da experiência do localismocosmopolita, uma experiência glocal. Sob seu domínio, uma pessoa nãopode ser cidadã do seu próprio mundo e não pode interagir livrementecom outros mundos. Não, ela deve ser aprisionada no mundo único quefoi territorialmente repartido por organizações erigidas em função daguerra e separadas por fronteiras, fechadas e burras. Em geral não podeatravessar essas fronteiras sem a permissão do poder estatal. Em umaparte dos casos, o poder estatal não concede tal licença a seus súditos,trancafiando-os no próprio território-penitenciária, como se tivessem sidocondenados por algum crime gravíssimo. Em outra parte dos casos, nãodeixa entrar (ou cria toda sorte de empecilhos para a entrada) em seusterritórios de certas categorias de estrangeiros. 317
  • 318. ComunitarizaçãoAs novas Atenas serão zilhões de comunidadesECOANDO O OPERATING MANUAL FOR SPACESHIP EARTH de BuckminsterFuller (1968), McLuhan (1974) afirmou que “a espaçonave Terra não tempassageiros, só tripulação” (20). Como poderíamos considerar alguém“estrangeiro” se pertencemos todos à mesma família (em termosgenéticos, praticamente toda a população da Terra é prima em um grauinferior ao 50º), habitando um planeta tão minúsculo, no qual somostodos tripulantes (quer dizer, todos nós somos o pessoal necessário para obom funcionamento da nave)?Na modernidade, em um padrão descentralizado, 193 Estados-naçõesimpõem modelos autocráticos de governança baseados no equilíbriocompetitivo. A ilusão (e a impostura) de que sete bilhões de pessoaspossam ser administradas por menos de duzentas unidades centralizadas– e, em grande parte (a maior parte) autocratizadas – é aceita como sefosse normal. Como se fosse possível disciplinar toda a diversidade dainteração ensejada por bilhões de interworlds em duas centenas deorganizações, em sua ampla maioria, capengas, autoritárias e corruptas, 318
  • 319. controladas por grupos privados que satisfazem seus interesses à custa dopúblico, quando não por sociopatas, ladrões e facínoras de todo tipo.Tudo indica que não poderemos mais ser arrebanhados e aprisionados oudominados por 193 organizações hierárquicas, eivadas de enclavesautocráticos resilientes – constituídos como barreiras, para tentar obstruirfluzz –, como são os Estados nações da atualidade. Nem por algumasdezenas ou centenas de milhares de Estados-locais (ou instâncias locais deum Estado central) chamados de cidades (indevidamente, posto que acidade são sempre redes de comunidades). As novas Atenas serão zilhõesde comunidades.Comunitarização é a nova palavra de des(ordem), quer dizer, de uma novaordem emergente, bottom up. O reflorescimento das cidades é umsintoma do fortalecimento das comunidades que as constituem. São essascomunidades que comporão outras unidades celulares da novaarquitetura de governança do mundo glocalizado. É por isso que ascidades (e as coligações de cidades em novas regiões econômicas egeopolíticas) – e não mais, em geral, os Estados-nações – são hojeinstâncias intermediárias nessa transição para outra etapa do sistemaglobal, no rumo da efetivação de uma verdadeira ecumene planetária.Mas – repetindo o mantra – o modelo é fractal e não unitário. Issosignifica duas coisas. No plano global, uma ecumene planetária não poderáser uma réplica global do Estado-nação; nada assim tão monstruoso comoum governo mundial ou um parlamento mundial, que apenas transferiria,para o seu interior, o modelo perverso de equilíbrio competitivo ainda 319
  • 320. reinante no cenário internacional. Tal ecumene, não será umaadministração, um sistema executivo de comando-e-controle, nemmesmo uma grande instância de representação baseada na alienação daautonomia das localidades ou comunidades que a constituem. Ela seformará por emergência, tal como ocorre na regulação da capa biosféricaque envolve o planeta (o simbionte natural). E, no plano local, aidentidade da cidade-rede também se forma por emergência, na sinergiade múltiplas identidades que, ao se identificarem entre si, também seidentificam com ela (ou parte dela) por herança ou projeto compartilhadoa posteriori, e não por uma decisão consciente (e a priori) de algum centrodiretor ou coordenador.Cada cidade tem muitas comunidades (ou seja, em princípio, cada cidadepode ter múltiplas identidades). Cada comunidade se desdobra, por suavez, em muitas outras comunidades (aumentando ainda mais adiversidade das identidades). Isso poderia ser um problema, porque, arigor, uma comunidade nuclear de convivência cotidiana com graumáximo de distribuição e conectividade, capaz de ensejar plenorelacionamento entre todos os seus membros (e, consequentemente,usinar uma identidade inequívoca) é uma rede muito pequena, nãochegando, talvez, a duas centenas de pessoas. Só não estamos diante deum problema insolúvel porquanto há também muita superposição. Umapessoa participa ao mesmo tempo de várias comunidades desse tipo(familiar, funcional, de prática, de aprendizagem, de projeto etc.) e nãoestá condenada a conviver em um único círculo restrito derelacionamentos. Assim, o padrão de interação é complexo, dando 320
  • 321. margem à formação de circularidades inerentes que – se compartilhadaspor múltiplas redes urbanas – podem configurar a cidade-rede.Ademais, as cidades já existem, para além de eventos sócio-territoriais,geograficamente localizados, como “regiões” do espaço-tempo dos fluxos.Não se trata de fabricar novas cidades, seguindo um projeto, uma planta,uma maquete. Toda vez que se tenta fazer isso, aliás, os resultados sãopéssimos: criam-se arquiteturas verticalizadoras e dinâmicasautocratizantes (como é o caso das chamadas “cidades-planejadas”, seja anova capital do Egito criada por Amenófis IV para o deus Aton ou Brasília),para não falar do dispêndio desnecessário de recursos. Verdadeirascidades só passarão a existir (em termos sociológicos, por assim dizer),várias décadas depois da instalação dessas experiências arquitetônicas ede planejamento urbano de eternos “aprendizes de feiticeiros”, queretornam de tempos em tempos. Padrões de comportamento socialpeculiares já se reproduzem nas cidades por efeito de herança cultural, àsvezes milenar e isso não pode ser substituído por iniciativas conscientesde um número limitado de planejadores urbanos, mesmo quando estãoimbuídos das melhores intenções.Assim como não se trata de planejar novas cidades (como complexosurbanos instalados ex ante à dinâmica social), também não se trata – narecusa à verticalização do mundo imposta pelo Estado e à chamada“sociedade de controle” – de urdir novas comunidades a partir de umplano de um grupo privado. Grupos marginais, muitas vezes com fortepotencial transformador – pois que a inovação, na razão direta do grau deconectividade e distribuição das redes sociais, costuma partir da periferia 321
  • 322. do sistema e não do centro – surgem mesmo nos momentos de crise dosvelhos padrões de ordem.Mas o que não se pode pretender é constituir comunidades desse tipocomo proposta política para estabelecer um caminho de mudança,forjando estudadamente uma identidade e buscando ganhar almas pormeio do proselitismo ou da aplicação de outros programas proprietários.Comunidades se formam a partir de identidades, é certo. Mas identidadestambém são programas que “rodam” em redes sociais. Ora, programasque podem favorecer a emergência das cidades como protagonistas dodesenvolvimento são programas de capital social. E capital social é umbem público.Em uma sociedade em rede não é privatizando capital social que vamosconseguir contribuir para a emersão de uma nova esfera pública (social)nas cidades ou localidades, capaz de substituir a limitada esfera públicaatual, contraída pela invasão dos programas proprietários do Estado-nação (que, ao contrário do que se afirma, são privatizantes e quasesempre desestimulam ao invés de induzir o desenvolvimento). 322
  • 323. Cidades inovadorasCidades inovadoras – como redes de comunidades – em rota deautonomia crescente em relação aos governos centrais que as tinhampor seus domíniosNAS GRANDES TRANSFORMAÇÕES MOLECULARES – aquelas que têmconsequências duradouras – o velho é substituído pelo novo não porquefoi destruído, mas porque se tornou obsoleto. Os velhos padrões nuncasão eliminados de uma vez ou para sempre, mas continuam existindo,como remanescências, vestigialmente. Ao que tudo indica, os Estados-nações continuarão existindo por muito tempo, assim como ainda existemhoje algumas comunidades de herança (do tempo medieval) e velhastribos indígenas primitivas (da era paleolítica). Ao contrário do quepreviram os críticos da globalização, apavorados ante a perspectiva deuma uniformização ou homogeneização que seria imposta ao mundointeiro, o cenário da glocalização é o de um conjunto de mundos variados,que estarão não apenas em locais diversos, mas também em temposdiferentes. Mas nessa nova configuração os Estados-nações não terãomais o protagonismo, hoje quase único e exclusivo, da governança dodesenvolvimento, baseado nos monopólios da regulação e da violênciaque ainda se esforçam por deter em suas mãos. Sim, os Estados-naçõescontinuarão existindo, mas já terão perdido o monopólio da governança 323
  • 324. do desenvolvimento, pelo simples fato de que não conseguirão maisimpedir a emergência da inovação.Na verdade, em uma sociedade em rede é muito difícil construirmonopólios de um novo fator cada vez mais decisivo nos processos deprodução e de regulação: o conhecimento. O conhecimento é um bemintangível que, se for aprisionado (estocado, protegido, separado),decresce e perde valor e, inversamente, se for compartilhado (submetidoà polinização ou à fertilização cruzada com outros conhecimentos) cresce,gera novos conhecimentos e aumenta de valor (aliás, é isso, precisamente,o que se chama de inovação). Os Estados e as empresas tradicionais(sempre associados nessa coligação que formou o capitalismo queconhecemos) continuarão tentando aprisionar o conhecimento ou regulá-lo top dow a partir das leis de patentes, do domínio privado sobreprodutos do conhecimento (como o direito autoral), do segredo e da faltade transparência (ou accountability) e dos sistemas de ensino (asburocracias escolares e as hierarquias sacerdotais que constituem asacademias). Mas não poderão mais evitar que novos conhecimentos seformem à margem das instituições que regulam e à sua revelia. E, o que émais importante, não poderão mais competir com a produção em largaescala de conhecimentos e, inclusive (uma consequência), de produtoscomerciais – como os chamados peer production e crowdsourcing – e comas outras formas não-mercantis de inovação, como as que serão acionadasna emergência das novas cidades.Ainda que se constitua como instância autorizada de fabricação,interpretação e aplicação das leis e ainda que continue detendo os 324
  • 325. monopólios da regulação macro-econômica, da emissão de moeda e douso da violência, o velho Estado-nação ficará falando sozinho enquanto ascidades inventam novas instituições e novos procedimentos adequados àgovernança do seu próprio desenvolvimento. E isso ocorrerá não porque oEstado-nação não queira mais barrar tais avanços e sim porque não teráos meios para fazê-lo.O próprio sistema político baseado na verticalização do Estado-nação jáestá sentindo a mudança. Já é mais importante, hoje, ser prefeito de SãoPaulo do que governador da grande maioria dos estados brasileiros. Seriamais importante ser administrador de Shutoken do que chefe de governodo Japão. E amanhã, em tudo o que disser respeito ao desenvolvimento,os governantes mais importantes não serão mais os chefes do governo oudo Estado (nacional) e sim os administradores de cidades inovadoras e deregiões formadas por coligações de cidades. Quem sabe na futura China(ou no que ela vier a se transformar), os participantes do sistema degovernança de Dalian terão mais importância do que têm hoje os seusditadores (em um cenário, é claro, em que não houver mais ditadores).De qualquer modo, as cidades serão independentes na razão direta da suacapacidade de inovação. O processo de independência das cidades é umprocesso de inovação. As cidades que quiserem ser independentes estãocondenadas a inovar permanentemente.Não há uma definição de cidade inovadora a não ser aquela, quasetautológica, de que é uma cidade que inova ao criar ambientes favoráveisà inovação (e não uma cidade em que o governo local quer pegar a 325
  • 326. bandeira da inovação com objetivos de marketing político). São essesambientes que caracterizam a cidade inovadora como uma cidade aberta,conectada para dentro e para fora, ágil na regulamentação (sobretudo,mas não apenas, no que tange aos empreendimentos empresariais esociais) e educadora. Para tanto, é necessário que as cidades que queiramser inovadoras construam sistemas locais de governança que favoreçamao invés de dificultar a regulação emergente, a partir da comunitarização.O mercado nos forneceu um modelo relativamente eficaz de regulaçãoemergente, tão sedutor que muitas pessoas deixaram-se intoxicar poruma visão mercadocêntrica do mundo, que poderia ser resumida napergunta: ora, se deu certo para as unidades econômicas, por que nãodaria também para as unidades políticas e sociais? Foi assim que osmodernos avacalharam o conceito de público. E a rigor tambémdesaproveitaram o que havia de tão revelador na autorregulaçãomercantil: o próprio mecanismo da autorregulação ou o processo daemergência. Por medo do risco, da incerteza no tocante aos seusinvestimentos, em vez de constituírem empresas-fluzz e de articularemseus negócios em rede, erigiram empresas monárquicas, às quais logoassociaram ao Estado hobbesiano gerando o capitalismo que conhecemos. 326
  • 327. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não emparticipação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamalsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo,sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo queflui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 327
  • 328. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.(**) Este texto foi originalmente escrito em 2010 e publicado em 2011como capítulo 7 do livro Fluzz: vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola deRedes, 2011.(1) Para uma explicação abrangente dessa imaginária linhagem-fluzz da“tradição” democrática confira FRANCO, Augusto (2007-2010).Democracia: um programa autodidático de aprendizagem. Slideshare[1022 views em 29/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/democracia-um-programa-autodidatico-de-aprendizagem>(2) Cf. DEWEY, John (1927). O público e seus problemas in (excertos)FRANCO, Augusto & POGREBINSCHI, Thamy (orgs.) (2008). Democraciacooperativa: escritos políticos escolhidos de John Dewey. Porto Alegre:CMDC / EdiPUCRS, 2008.(3) Cf. FRANCO, Augusto (2007-2010). Democracia: um programaautodidático de aprendizagem. Op. cit. Cf. também MATURANA,Humberto (1993). La democracia es una obra de arte: Ed. cit.(4) Chama-se de formule inversa de Clausewitz-Lenin (com base nasanotações marginais de leitura do segundo ao tratado Da Guerra, doprimeiro) à inversão do postulado clausewitziano “a guerra é uma 328
  • 329. continuação da política por outros meios”. Como, para Lenin, a luta declasses era uma espécie de guerra permanentemente presente, então eleavaliou que se poderia afirmar que, inclusive em tempos de paz, “apolítica é uma continuação da guerra por outros meios”.(5) De um ponto de vista político, não há problema com a competiçãoentre grupos privados quando seus objetivos são privados. O problemasurge quando se quer gerar um sentido público por meio da competiçãoentre grupos privados (como os partidos). Foi assim que, decalcando aracionalidade do mercado, os modernos cometeram uma confusão brutalentre tipos diferentes de agenciamento que levou à irresponsávelidentificação entre democracia e capitalismo (e tão perdidos ficaram emsua confusão que agora não sabem nem explicar direito a onda decapitalismo autoritário que nos atinge nos últimos anos, sobretudo apartir da China). Para acompanhar uma discussão inovadora sobre aquestão do público cf. o tópico “Sobre a questão do publico”:<http://escoladeredes.ning.com/group/redesnapoltica/forum/topics/sobre-a-questao-do-publico>(6) É por isso que têm se revelado vãs todas as tentativas de fundar umnovo partido para reformar a política, a partir de novas ideias e,supostamente, da inauguração de novas práticas. Em pouquíssimo tempoesse novo partido será capturado pelo oligopólio dos velhos partidos e secomportará como eles. Quando não há má intenção (e tudo então nãopassa de pretexto para construir uma nova caciquia ou para legalizar uma 329
  • 330. nova quadrilha para assaltar o público), parece evidente que há falta deinteligência mesmo nos que vivem insistindo em percorrer essa via.(7) "Patriotism is the last refuge of a scoundrel" ("O patriotismo é o últimorefúgio dos canalhas”). Cf. BOSWELL, James & CROKER, John (1791). Thelife of Samuel Johnson, LL. D. New York: George Dearborn Publisher, 1833.Disponível em Google Books:<http://books.google.com/books?id=TmShu9cK3IUC&pg=PP1#v=onepage&q&f=false>(8) Cf. ALTHUSIUS, Johannes (1603). Política. Liberty Fund (2003). Rio deJaneiro: Topbooks, s/d.(9) DEWEY, John (1927). O público e seus problemas: Ed. cit.(10) Dentre todos, talvez a língua continue sendo a obstrução mais efetivaà interação entre diferentes povos, mas tudo indica que esse “muro”também está com seus dias contados. Os avanços, verificados nos últimosanos, no desenvolvimento de programas de tradução e a construção desistemas simultâneos de tradução de idiomas, compostos por softwaresaplicativos, suportados por hardwares e conectados a dispositivos dereconhecimento de voz em computadores e aparelhos telefônicos, logoanulará essa desculpa da Babel para o viver separado do diferente. Comoobservou Humberto Maturana, lembrado por Carlos Boyle em um recentepost no site da Escola-de-Redes, Babel não fracassou em virtude dasdiferentes línguas que falavam seus construtores e sim porque eles não seentendiam entre si (ou seja, o que faltou foi cooperação, de vez que o 330
  • 331. linguagear pode se exercer mesmo entre duas pessoas que falam línguasdiferentes, que acabarão, de um modo ou de outro, se entendendo).(11) A não ser quando a seleção brasileira de futebol joga com a daArgentina. Aí, em uma caricatura degenerada de primitivos seres tribais,nos pintamos de verde-amarelo, nos enrolamos na bandeira e gritamosirracionalmente a plenos pulmões que o legítimo gol feito pelo genro deMaradona não valeu, pois que ele estava impedido e acusamos de ladrãoo juiz. E os argentinos fazem a mesma coisa. Sim, é do jogo, pode-se dizer.Mas em geral esquece-se de perguntar: de que jogo (o esportecompetitivo como “uma guerra sem mortes” como bem o definiu GeorgeOrwell)? De que vale esse tipo de polarização que passa por cima dequalquer senso de urbanidade e justiça? E o quê de bom poderá advirdessa patriotice?(12) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum forcultural evolution. Ma: Lindisfarne books, 2001.(13) Idem.(14) SEN, Amartya (1999). Desenvolvimento como liberdade. São Paulo:Companhia das Letras, 1999.(15) Segundo o Democracy index 2011: a report from the EconomistIntelligence Unit, temos: 25 full democracies - 15% dos países - 11,3% dapopulação mundial; 53 flawed democracies - 31,7% dos países - 37,1% dapopulação mundial; 37 hybrid regimes - 22,2% dos países - 14,0% dapopulação mundial; 52 authoritarian regimes - 31,1% dos países - 37,6% 331
  • 332. da população mundial. Segundo o Freedom in the World 2012 daFreedom House, temos: 87 Free Countries - 45% dos países; 60 Partly FreeCountries - 31% dos países; 48 Not Free Countries - 24% dos países. Oscritérios são diferentes, mas os resultados são semelhantes. O maisassustador é que se observa um declínio da democracia. Segundo dadosda Freedom House, comparando 2006 com 2011 temos: Países Livres:2006 = 90 - 47% / 2011 = 87 - 45%. Países Parcialmente Livres: 2006 = 58 -30% / 2011 = 60 - 31%; Países Não Livres: 2006 = 45 - 23% / 2011 = 48 -24%; Democracias Eleitorais: 2006 = 123 - 64% / 2011 = 117 - 60%.Segundo dados da Economist Intelligence Unit , comparando 2008 com2011 temos (para o mesmo total de 167 países e, assim, as porcentagenssão as mesmas): Full Democracies: 2008 = 30 / 2011 = 25 - 15% dos países- 11,3% da população mundial; Flawed Democracies: 2008 = 50 / 2011 =53 - 31,7% dos países - 37,1% (Idem); Hybrid Regimes: 2008 = 36 / 2011 =37 - 22,2% - 14,0%; Authoritarian Regimes: 2008 = 51 / 2011 = 52 - 31,1%- 37,6%. O fato é que - em 2011 - segundo dados da EconomistIntelligence Unit, 51% da população mundial não vive em democracias(nem full, nem flawed); e segundo dados da Freedom House 57% dapopulação mundial não vive em regimes free (o que perfaz um total de3,95 bilhões de pessoas). Os dados da Freedom House para 2008 (universode 193 países) mostram também a queda (comparada com 2011): FreeCountries = 89 - 46% / Partly Free Countries = 62 - 32%; Not Free Countries= 42 - 22%. 332
  • 333. (16) Cf. Democracy índex 2011. Democracy under stress. A report fromThe Economist Intelligence Unit < http://goo.gl/11FjX>. Cf. tambémFreedom in the World 2012. Freedom House < http://goo.gl/Pd4MY>(17) OHMAE, Kenichi (2005). O novo palco da economia global: desafios eoportunidades em um mundo sem fronteiras. Porto Alegre: Bookman,2006.(18) CASTELLS, Manuel (1999). Para o Estado-rede: globalizaçãoeconômica e instituições políticas na era da informação” in BRESSERPEREIRA, L. C., WILHEIM, J. e SOLA, L. Sociedade e Estado emtransformação. Brasília: ENAP, 1999.(19) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre asociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundoglocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(20) Cf. FULLER, Buckminster (1968). Manual de Operação da EspaçonaveTerra. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1983 e MCLUHAN,Marshall (1974) in McLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003): Op. cit. 333
  • 334. 334
  • 335. 335
  • 336. 336
  • 337. 337
  • 338. 338
  • 339. 339
  • 340. OS MANTENEDORES DO VELHO MUNDOAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de OS MANTENEDORES DO VELHO MUNDO / Augusto de Franco – São Paulo:2012. 46 p. A4 – (Escola de Redes; 14) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 340
  • 341. SumárioIntrodução | 9Ensinadores | 12Mestres e gurus | 19Codificadores de doutrinas | 23Aprisionadores de corpos | 25Construtores de pirâmides | 28Fabricantes de guerras | 32Condutores de rebanhos | 34Notas e referências | 38 341
  • 342. 342
  • 343. Introdução A Força era um conceito complexo e difícil. A Força estava enraizada no equilíbrio de todas as coisas, E todo movimento dentro de seu fluxo arriscava um desequilíbrio nessa harmonia. Terry Brooks em Star Wars Episódio I: A Ameaça Fantasma (1999) A força (Te) não é (um querer) induzir alguém (ou alguma coisa) a seguir um caminho prefigurado e sim (um deixar) fluir com o curso (Tao). O autor em Desobedeça (2010)CONHECIMENTO ATESTADO POR TÍTULOS, fama, riqueza e poder sãoindicadores de sucesso adequados às sociedades hierárquicas. São coisasque só alguns podem ter, não todos. São coisas que alguns podem ter emdetrimento dos outros. Assim o sábio se destaca dos ignorantes (ou otitulado do não titulado, até na cadeia), o famoso não se mistura com ozé-ninguém, o rico vive entre os ricos para ficar mais rico e não serelaciona com o pobre (que – como sabemos – só continua pobre porque 343
  • 344. seus amigos são pobres) e o poderoso só consegue exercer seu poderporque os que (acham que) não têm poder lhe prestam obediência. Oscritérios de sucesso competitivo são, na verdade, mais do que indicadores:são ordenações da sociedade hierárquica.O fato é que, os que tiveram sucesso ou venceram no mundo docomando-e-controle, em grande parte, venceram aplicando esquemas decomando-e-controle. Venceram – e foram reconhecidos como vencedores– porque aplicaram esquemas de comando-e-controle; ou seja, porquereplicaram um determinado padrão de ordem (e, para tanto, é como setivessem recebido uma ordenação).Dentre os que fazem sucesso na sociedade hierárquica e de massaencontram-se, é claro, pessoas esforçadas, criativas ou inovadoras,talentos extraordinários e gênios incontestes. Mas estão lá também – emnúmero tão grande para derrubar o mito de que o sucesso é um prêmiopelo talento – os agentes reprodutores desse tipo de sociedade, como,por exemplo, os colecionadores de diplomas, os vendedores de ilusões, osmarqueteiros de si mesmos, os aprisionadores de corpos, os ensinadoresou burocratas sacerdotais do conhecimento, os codificadores dedoutrinas, os aprisionadores de corpos, os construtores de pirâmides, osfabricantes de guerras e os condutores de rebanhos.Não se trata de inculpar esses tipos por todo mal que assola ahumanidade. Eles são apenas agentes inconscientes da reprodução dosistema. Eles não existem propriamente como indivíduos. Não adiantapara nada tentar nomeá-los: eles são legião (Mc 5: 9), entidades 344
  • 345. inumeráveis configuradas nas redes sociais, quando campos perturbadospela presença da hierarquia aglomeram e enxameiam no contra-fluzz (*). 345
  • 346. EnsinadoresOs primeiros ensinadores – os sacerdotes – ensinavam para reproduzir(ou multiplicar os agentes capazes de manter) seu próprio estamentoENSINADORES SÃO OS QUE COMPÕEM a burocracia privatizadora doconhecimento: aquela casta sacerdotal que constitui as escolas eacademias.Os ensinadores surgiram naquela noite dos tempos que o matemáticoRalph Abraham (1992) chamou de “precedente sumeriano” (1).É surpreendente constatar, como fizeram Joseph Campbell, Samuel NoahKramer e outros renomados sumeriologistas, que os elementos centraisda nossa cultura, dita civilizada, compareciam em uma espécie de modeloou protótipo ensaiado em complexos do tipo cidade-templo-Estado comoEridu, Nippur, Uruk, Kish, Acad, Lagash, Ur, Larsa e Babilônia. Esse modelojá estava em pleno funcionamento, segundo interpretações de relatos quenão puderam ser contestadas, a partir do quarto milênio. Em particular aobra de Kramer (1956): “A história começa na Suméria”, revela as raízessumerianas do atual padrão civilizatório (2).Joseph Campbell (1959), em “As Máscaras de Deus”, redigiu uma espéciede termo de referência para esta investigação (3): 346
  • 347. “Um importante desenvolvimento, repleto de significado e promessas para a história da humanidade nas civilizações por vir, ocorreu... [por volta] (de 4.000 a. C.), quando algumas aldeias camponesas começaram a assumir o tamanho e a função de cidades mercantis e houve uma expansão da área cultural... pelas planícies lodosas da Mesopotâmia ribeirinha. Esse é o período em que a misteriosa raça dos sumérios apareceu pela primeira vez em cena, para estabelecer-se nos terrenos das planícies tórridas do delta do Tigre e do Eufrates, que se tornariam em breve as cidades reais de Ur, Kish, Lagash, Eridu, Sipar, Shuruppak, Nipur e Erech... E então, de súbito... surge naquela pequena região lodosa suméria – como se as flores de suas minúsculas cidades subitamente vicejassem – toda a síndrome cultural que a partir de então constituiu a unidade germinal de todas as civilizações avançadas do mundo. E não podemos atribuir esse evento a qualquer conquista da mentalidade de simples camponeses. Tampouco foi a consequência mecânica de um mero acúmulo de artefatos materiais, economicamente determinados. Foi a criação factual e claramente consciente (isto pode ser afirmado com total certeza) da mente e ciência de uma nova ordem de humanidade que jamais havia surgido na história da espécie humana: o profissional de tempo integral, iniciado e estritamente arregimentado, sacerdote de templo”.Respeitados estudiosos confessam até hoje sua perplexidade diante daconstelação desse ‘precedente sumeriano’ (para insistir na feliz expressãodo matemático Ralph Abraham). É o caso, por exemplo, da antropóloga e 347
  • 348. assirióloga Gwendolyn Leick, que leciona em Richmond (Londres). No seu“Mesopotâmia: a invenção da cidade” (2001), ela declara que “muito setem escrito sobre o “súbito” aparecimento dos sumérios na Mesopotâmiae suas possíveis origens... [mas] a questão da origem dos sumérioscontinua aguardando solução, e tudo o que podemos dizer é que, no iníciodo Primeiro Dinástico, sua língua foi escolhida para ser vertida em escrita.Talvez os sumérios se tivessem tornado politicamente dominantes eexercido o controle dos centros de formação de escribas nas primeirascidades” (5).Essa casta ou estamento – composta pela burocracia sacerdotal queadministrava as nascentes cidades-templo-Estado sumerianas –configurou o primeiro padrão de transmissão de ensinamento. Ensinavamcomo um imperativo para reproduzir seu próprio ensinamento; quer dizer,ensinavam para reproduzir (ou multiplicar os agentes capazes de manter)seu próprio estamento.Por quê? Ora, porque o livre aprendizado na rede social de então nãoseria capaz de cumprir tal função, que nada tinha a ver com suasobrevivência ou com sua convivência. Não se tem notícia de escola,ensino ou professores em sociedades de parceria. Quando a rede social foisubitamente centralizada pela configuração particular que se consteloucom o surgimento do complexo cidade-templo-Estado, os programasverticalizadores que começaram a rodar nessa rede eram replicados emoutras regiões do espaço e do tempo pela transmissão-recepção de seuscódigos – e já havia programas elaborados, como os que os sumériosdenominavam ‘me’ (6) – aos membros do mesmo grupo social. 348
  • 349. Ou seja: já havia um ensinamento (secreto, por certo, acessível somenteaos membros do estamento). Já havia ensinantes (os primeirosprofessores, membros da casta sacerdotal) e ensinados (os futurosadministradores em formação).Essa hipótese é fortalecida pela investigação das origens da Kabbalah. Osímbolo central desse sistema de sabedoria – a chamada “Árvore da Vida”– foi, sem dúvida, herdado do simbolismo templário do complexo Templo-Estado sumeriano, o qual deve ter passado ao judaísmo posterior porintermédio da Golah – a organização dos cativos (sequestrados nas elitesde Jerusalém) na Babilônia sob o reinado de Nabucodonozor e seusucessor.Não se sabe a origem da árvore da vida, mas ela aparece nas imagens datamareira gravadas nas mais antigas tabuinhas sumerianas encontradaspelos escavadores. E aparece também – com o mesmo esquema, quedepois foi transmitido pela tradição (cabalística) – na forma de uma nave,ladeada por dois seres alados (com cabeças de águia). Uma nave – talvezcomo as naves dos templos, até hoje – que não sai do lugar, mas por meioda qual se pode “viajar” para os céus caso se tenha acesso ao“combustível” adequado: ao “fruto da vida” e à “água da vida”...O mesmo schema básico da árvore da vida, representada em váriosmundos que se interceptam (os da emanação, da criação, da formação edo produzir) compõe o que foi chamado de “Escada de Jacó”, uma escadapela qual os mensageiros – ou as mensagens – podem subir e descerestabelecendo os fluxos entre o céu e a terra. Isto é anisotropia: o céu, é 349
  • 350. claro, fica em cima; a transmissão, é claro, é top down. E o esquema émais centralizado que distribuído (7).Essa ideologia de raiz babilônica (suméria) que, quase dois milêniosdepois, foi se chamar de Kabbalah (cabala), na Idade Média europeia, fezuma operação tremenda de “engenharia memética” no símbolo original,ressignificando a árvore da vida como uma “árvore do conhecimento”,quer dizer, tomando a vida pelo conhecimento da vida e do que com elafoi feito... Isso significa obstruir o acesso à vida, facultando-o somente aosque possuem o conhecimento (aquilo que a cabala chamou de“ensinamento” e que é transmitido então em uma cadeia, tida porininterrupta, que começa com o arquimensageiro Raziel, passa para Enoc– o escriba, não por acaso – e daí para os patriarcas e para os sacerdotes).Kabbalah vai designar, então, essa tradição sacerdotal: condução(transmissão-recepção) do ensinamento original por parte daqueles quesão capazes de reproduzir esse mesmo padrão de ordem sagrada, isto é,separada do vulgo, do profano, daquele que não foi ordenado.Isso tudo não somente fez, mas faz ainda, parte de uma experiênciafundante de verticalização do mundo, que prossegue enquanto a tradiçãopermanece ou se refunda toda vez que o meme é replicado. Do ponto devista da memegonia, aqui pode estar a origem da relação mestre-discípuloou professor-aluno.Não foi a toa que uma mente arguta como a de Harold Bloom (1975) –ecoando, aliás, o que dizia o erudito Gershom Scholem – percebeu queKabbalah era uma ideologia de professores. Na origem de tudo está... uma 350
  • 351. Instrução: “o Ein-Sof instrui a Si mesmo através da concentração... Deusensina a Si mesmo o Seu próprio Nome, e, dessa forma, começa a criação”(8).Nessa memegonia, Deus é o primeiro professor e o ato de ensinar está naraiz do ato de criar o mundo. O conhecimento (via ensinamento) – e não aexistência e a vida – é o objetivo: a origem e o alvo. Deus cria o mundopara se conhecer. Mas para se conhecer ele ensina, não aprende. Logo,seus “delegados”, ou intermediários (os sacerdotes), também ensinam.Todo corpus sacerdotal é docente.É por isso que há uma enorme dificuldade de conciliar visões próprias desistemas tradicionais de sabedoria com a visão-fluzz das redes deaprendizagem. A tradição - dita espiritual - com raras exceções (como oTao, mas não o taoismo; como o Zen - esse formidável sistema dedesconstituição de certezas -, mas não o budismo) em geral replicouatitudes míticas, sacerdotais, hierárquicas e autocráticas. Maturanalevantou a hipótese da "brecha" (na civilização patriarcal e guerreira) paramostrar como pôde ter surgido a democracia (9).Mas, na verdade, não foi só a democracia que penetrou pela "brecha":vertentes utópicas, proféticas, autônomas e democráticas floresceram aolongo da história e continuam florescendo - intermitentemente - toda vezque comunidades conseguem estabelecer uma interface para conversarcom a rede-mãe (10). Essas duas vertentes permaneceram e aindapermanecem em permanente tensão. 351
  • 352. O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparatoseparado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente,como instrumentos de reprodução de programas centralizadores queforam instalados para verticalizar a rede-mãe.De certo modo, os deuses do panteão patriarcal e guerreiro foram osprimeiros programas meméticos centralizadores (11). O tardio IHVHbíblico – ensinador – encarna uma rotina desses programas (e érepresentado por uma das sefirot – um evento – na árvore da vidaressignificada, no mundo da emanação).Como os deuses do panteão patriarcal e guerreiro da Mesopotâmia doperíodo Uruk (c. 4000-3200) – período sucedido, logo em seguida, não poracaso, pela escrita (no Primeiro Dinástico I: c. 3000-2750) – foram criadosà imagem e semelhança dos homens que começaram a se organizarsegundo padrões hierárquicos, tudo isso é muito relevante paraentendermos que a transmissão do ensinamento já foi fundada, de certomodo, em contraposição ao livre aprendizado humano na rede socialmuito menos centralizada (ou até, quem sabe, distribuída) dos períodospré-históricos anteriores (desde, pelo menos, o Neolítico).Para essas sociedades de dominação, nada de aprender (inventar). Erapreciso ensinar (para replicar). E por isso ensinadores são mantenedoresdo velho mundo. 352
  • 353. Mestres e gurusTodos são mestres uns dos outros enquanto se polinizam mutuamenteHÁ TAMBÉM OS QUE – por fora dos sistemas formais de ensino – ainda seintitulam (ou são por alguém intitulados de) mestres ou gurus. Alguns sãoordenados para tanto, quer dizer, têm reconhecida, sempre por umaorganização hierárquica, sua capacidade de reproduzir uma determinadaordem top down. E querem então imprimi-lo, emprenhá-lo, ou seja,enxertar suas ideias-implante em você, para que você se torne tambémum transmissor desse “vírus”.É claro que existem outras interpretações do papel do mestre. Osho, porexemplo, tentando explicar a correta intolerância de Krishnamurti com osque se anunciam ou eram anunciados como mestres ou gurus colocaoutra perspectiva ao dizer que “um mestre não o ensina, ele simplesmentetorna o seu ser disponível para você e espera que você também faça omesmo”.E aí vem a justificativa: “A menos que algum raio do além entre em seuser, a menos que você prove algo do transcendental, até mesmo o desejode ser liberado não aparecerá em você. Um mestre não lhe dá a liberação, 353
  • 354. ele cria um desejo apaixonado pela liberação”. A justificativa é que “serámuito difícil, quase impossível, fazer isso por conta própria” (12).Mas quem disse que isso teria que ser feito “por contra própria”? Aotentar justificar sua crítica a Krishnamurti, Osho enveredou por um viéspsicológico individual. Ele não teria se curado do trauma de ter sido“educado por pessoas muito autoritárias... professores, talvez, mas nãomestres”. Então Osho afirma que tudo isso “foi demais [para Krishnamurti]e ele não pode esquecê-los e não pôde perdoá-los” (13).No fundo, tudo isso soa mais como uma tentativa de salvar uma funçãopretérita, resgatar um papel arcaico que, em alguma época, funcionou defato assim como ele, Osho, diz, porém em mundos de baixa conectividadesocial.Já foi dito aqui que na medida em que vida humana e convivência social seaproximam (nos mundos altamente conectados) somos obrigados amudar nossas interpretações. E que isso entra em choque com astradições espirituais que diziam que quando o discípulo está preparado omestre aparece. De certo modo é justo o contrário: o discípulo desaparecequando desaparece a escola (quer dizer o ensinamento) e com ele vai-setambém o mestre.Isso – para alguns – é um escândalo. Nos Highly Connected Worlds quemlhe reconhece é o simbionte social, se você se sintonizar suficientementecom a rede-mãe. Não é um representante da tradição, não é um membrode uma casta sacerdotal ou de alguma hierarquia docente, nem mesmoum indivíduo que despertou antes de você – a não ser que essa pessoa 354
  • 355. (uma pessoa) seja a porta para que você possa entrar em outros mundos.Mas neste caso essa pessoa – eis o ponto! – pode ser qualquer pessoa queesteja conectada a esses mundos onde você quer entrar.Se alguém pudesse recuar antes (e o que seria antes?) daquela noite dostempos em que a rede-mãe começou a rodar programas verticalizadores epudesse dizer como uma comunidade conseguia entrar em sintonia com osimbionte natural (que talvez se confundisse – em sociedades de parceria,pré-patriarcais, quem sabe em algum momento do Neolítico – com a rede-mãe: síntese simbolizada na figura da grande mãe ou da deusa), talvezpudesse nos sugerir algum processo para reinventarmos tal sintonia com osimbionte social (o superorganismo humano). Mas, fosse qual fosse, suaresposta seria enxame (múltiplos caminhos em efervescência) e nãoindivíduo no caminho em busca da unidade perdida ou da sua origemceleste.Não vale fazer recuar a noite dos tempos em que surgiram os sistemasmíticos-sacerdotais-hierárquicos-autocráticos para colocá-los na origemde tudo com o fito de transformar a origem terrestre do humano em umaorigem celeste. Essa operação ideológica, urdida por esses mesmossistemas, legitima o mestre como um veículo, um emissário, umrepresentante da suposta origem celeste (ainda quando existam mestresque reneguem tudo isso).No enxame você já é um mestre, todos são mestres uns dos outrosenquanto não apenas buscam, mas se polinizam mutuamente e isso querdizer que não existe um, não existe aquele mestre. 355
  • 356. Mestres – como ensinadores – são mantenedores do velho mundo.Mesmo quando recusam tal papel, eles abrem caminho para oscodificadores de doutrinas, aqueles cavadores de sulcos para fazerescorrer por eles as coisas que ainda virão. 356
  • 357. Codificadores de doutrinasEles produzem narrativas para que você veja o mundo a partir da suaótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundos existentesCODIFICADORES DE DOUTRINAS são todos aqueles que querempavimentar, com as suas crenças religiosas (e sempre o são, mesmoquando se declaram laicas), uma estrada para o futuro. Eles produzemnarrativas ideológicas totalizantes para que você veja o mundo a partir dasua ótica, quer dizer, para que você não veja os múltiplos mundosexistentes, mas apenas um mundo (o mundo arquitetado e administradopor eles: uma prisão para a sua imaginação).Quando são (explicitamente) religiosos, os codificadores de doutrinasfornecem a justificativa para a ereção de igrejas e seitas. Quando sãopolíticos, urdem a base conceitual para a formação de correntes e gruposde opinião onde a (livre) opinião propriamente dita não conta para quasenada: o que conta é a ortodoxia de uma opinião oficial ou canônica, a qualtentam autenticar apelando para a revelação ou para a ciência. Em todosos casos são engenheiros meméticos, manipuladores de ideias queinventam passado para legitimar certos caminhos (e deslegitimar outros)para o futuro. Fazem isso para controlar o seu futuro, para levá-lo (a suaalma ou o seu corpo) para algum lugar supostamente melhor, para um 357
  • 358. paraíso no céu ou na terra, quando, eles mesmos, não podem conhecer talcaminho (simplesmente porque não existe um caminho).Codificadores de doutrinas abrem espaço para a ereção de igrejas, muitasvezes em contraposição à experiência fundante ou à suposta revelaçãoque tomam como referência. É assim que os franciscanos, hoje “puxandodinheiro com rodo” (como dizia Frei Mateus Rocha, nos idos de 1970) (14),executam exatamente o contrário do que pregava il poverello d’Assisi(1182-1226). Tanto faz se tais igrejas são religiosas ou laicas: Paulo deTarso (com o cristianismo) e Inácio de Antioquia (com a igreja católica)cumprem funções análogas às de Lenin (com o materialismo dialético e omaterialismo histórico) e Stalin (com o PCUS) ou Trotski (com a QuartaInternacional).Os codificadores de doutrinas também são ensinadores e, de certo modo,gurus (no sentido em que a palavra é empregada atualmente). São osabastecedores dos ensinadores que, em geral, transmitem ensinamentosque já foram codificados por eles. São, portanto, os verdadeirosfundadores de escolas, conquanto frequentemente dizendo-se a serviçode um fundador já desaparecido (ou nunca aparecido). 358
  • 359. Aprisionadores de corposO fundamental para os aprisionadores de corpos é manter seustrabalhadores fora do caos criativoAPRISIONADORES DE CORPOS são aqueles que, não contentes em usar,comprar ou alugar, sua inteligência humana (que não tem preço), queremtambém mantê-lo cativo, fisicamente, nos seus prédios ou cercados. Sãofeitores: antes usavam o chicote; hoje usam o relógio ou o livro de ponto,o crachá magnético ou o banco de horas. Nas empresas ou organizaçõeshierárquicas, sejam privadas ou públicas, sequestram seu corpo paramanter você por perto, para poder vigiá-lo, para terem certeza de quevocê está de fato trabalhando para eles (que coisa, heim?). Nãoprecisavam fazer isso se o seu objetivo fosse o de articular um trabalhocoletivo compartilhado. Mas o objetivo deles não é, na verdade,compartilhar nada com outros seres humanos e sim controlá-los-e-comandá-los, em certo sentido desumanizá-los, embotando suainteligência, castrando sua criatividade, alquebrando sua vontade, parapoder usá-los como objetos, para terem-nos disponíveis, sempre à mão,tantas horas por dia: querem um rebanho de servos de prontidão paralhes fazer as vontades. Se quisessem que as pessoas trabalhassem com-eles e não para-eles não seria necessário – na imensa maioria dos casos – 359
  • 360. aprisionar os seus corpos: bastaria estabelecer uma agenda conjunta, comtarefas e prazos.Mais de 90% dos empregadores são aprisionadores de corpos. Chefes derepartições governamentais, administradores de empresas e “donos” deONGs costumam ser aprisionadores de corpos. Se as pessoas não tivessemque dormir e as leis permitissem, gostariam que elas ficassem à suadisposição o tempo todo: – 24 horas: tum, tum, tum...Ainda quando dizem o contrário, eles não querem que você empreenda,seja criativo, construa produtos ou processos inovadores e realize coisasmaravilhosas e sim que você trabalhe. Querem trabalho = repetição eexecução de ordens. Se quisessem criação, inovação, não lhe imporiamagendas estranhas (que você não teve oportunidade de coconstruir), nãolhe retalhariam o tempo em unidades controláveis, com horários rígidosde entrada e saída em algum espaço murado. Dariam a seuscolaboradores (a todos) as melhores condições para inovar (alugariam,quem sabe, uma casa em uma ilha paradisíaca, em uma chácara aprazívelou mesmo em um bosque urbano, um horto, cultivariam jardins... emsuma, não organizariam e decorariam seus locais – de trabalho – de modotão horrendo, sem cores, sem arte, tudo cinza, quadrado, como umaprisão mesmo, ou um convento) e, sobretudo, não reduziriam suamobilidade: uma dimensão essencial da sua liberdade para criar.O fundamental para os aprisionadores de corpos é manter seustrabalhadores fora do caos criativo, protegê-los do seu próprio espírito 360
  • 361. empreendedor. Então, para esterilizá-lo, colocam você na pirâmide. Sim,aprisionadores de corpos são também construtores de pirâmides. 361
  • 362. Construtores de pirâmidesO indivíduo não é o átomo social; para ser social é preciso ser moléculaOS CONSTRUTORES DE PIRÂMIDES também surgiram naquela noite dostempos em que a rede-mãe passou a rodar programas verticalizadores.Talvez os primeiros construtores de pirâmides tenham sido mesmo os...construtores de pirâmides, não apenas as do Egito, mas também oszigurates mesopotâmicos. Mas todas as pirâmides que vêm sendoconstruídas ao longo do chamado período civilizado evocam o mesmopadrão vertical surgido pela perturbação do campo social introduzida pelahierarquia. Não são, entretanto, apenas arquitetos, engenheiros e mestresde obra que projetam, comandam e controlam o trabalho de erigirconstruções físicas. Construtores de pirâmides são os que erigemorganizações hierárquicas de todo tipo para mandar nos outros e obrigá-los a fazer (ou deixar de fazer) coisas contra a sua vontade ou sem o seuassentimento ou consentimento ativo.São os chefes de instituições hierárquicas. São organizadores de pessoascomo se pessoas fossem coisas. Toda organização hierárquica é umaarquitetura com pessoas, uma construção forçada, coisificante, onde aspessoas são tratadas como tijolos ou outro material qualquer: – Então 362
  • 363. colocamos uma aqui, outra em cima dessa, outra abaixo, bem ali; ôpa!Cuidado, não está encaixando bem; então quebra um pedaço aqui,desbasta ali, martela com força que entra...Replicadores e trancadores são construtores de pirâmides. Replicadoressão todos os que se dedicam a repetir uma ordem pretérita. São,portanto, ensinadores (“estações repetidoras” do que foi forjado, emgeral, pelos codificadores de doutrinas). Para exercer tal papel,entretanto, eles constroem, invariavelmente, estruturas centralizadas ouverticalizadas – sejam escolas, sociedades, maçonarias e assemelhadas,partidos ou corporações ou qualquer outra burocracia que viva darepetição e da inculcação de um conjunto de ideias ou visões de mundourdidas para prorrogar passado – e, nesse sentido, são construtores depirâmides.Trancadores são os que privatizam bens que poderiam ser comuns (ouque não poderiam ser trancados, como o conhecimento). Trancadores deconhecimento são, por exemplo, os que defendem o domínio privadosobre o conhecimento, como as leis de patentes e o famigerado copyright.Um dos tipos contemporâneos de trancadores – relevante pelo efeitodevastador que sua atividade provoca na antessala de uma época-fluzz –são os trancadores de códigos, que estão entre os mais bem-sucedidosinventores de softwares proprietários da atualidade Ao construíremcaixas-pretas para esconder seus algoritmos (como fazem os donos doGoogle ou do Twitter) ou para montar seus alçapões de dados (como faz odono do Facebook), eles acabam tendo que construir pirâmides para 363
  • 364. proteger suas operações centralizadoras da rede social. Não é por acasoque as plataformas que desenham a partir de uma instância proprietáriatentem disciplinar a interação. Essa é a razão pela qual as plataformasditas interativas de que dispomos não são suficientemente interativas (i-based), posto que baseadas na adesão e, no máximo, na participação(envolvendo sempre algum tipo de escolha de preferências geradora deescassez) e no arquivamento de passado (para aumentar o repositório aoqual, a rigor, só os proprietários dessas plataformas têm pleno acesso namedida em que só eles podem programá-las sem restrições).E essa é também a razão pela qual tais plataformas deseducam (se sepode falar assim) seus usuários (a palavra – ‘usuário’ – já é horrível doponto de vista da interação) para as redes distribuídas. Então uma pessoaentra em alguma dessas plataformas e tende a achar que a sua página é oseu espaço proprietário a partir do qual ela vai interagir. Em vez de entrarem um fluxo, ela se aboleta no seu bunker (às vezes chamado de ‘MinhaPágina’) e é induzida a achar que ali pode colocar todos os seus vídeos,suas fotos, seus eventos e seus posts, independentemente do que estárolando na rede que usa tal plataforma como ferramenta de netweavinge, não raro, sente-se até ofendida quando alguém lhe lembra de que oconcurso de Miss Universo não tem muito a ver com astrofísica.A solução para tal problema não é “fugir para trás”, voltando aos blogs,como sonham alguns. Ainda que a blogosfera seja de fato, no seuconjunto, uma rede distribuída, os blogs, em si, não se estruturam demodo distribuído. Em geral são organizações fechadas, que não admiteminteração a não ser com aprovação prévia dos seus donos (por meio da 364
  • 365. chamada “mediação de comentários”). Mesmo quando são abertos aqualquer comentário, os blogs são piramidezinhas, espécies de reinadosdo eu-sozinho. Não são bons instrumentos de netweaving de redes sociaisdistribuídas na medida em que não são, eles próprios, redes distribuídas.Não existem tecnologias de netweaving capazes de colocar um conjuntode blogs em um meio eficaz de interação. Ademais, a mentalidade dosbloggers não acompanhou a inovação que, objetivamente, sua atividaderepresenta. E muitos daqueles que fazem o proselitismo das redesdistribuídas nos seus blogs, organizam, lá no seu quadrado, suas igrejinhashiper-centralizadas, algumas vezes quase-monárquicas (15). Ou seja, sãotambém construtores de pirâmides.O que está por trás disso tudo é a idéia de que o indivíduo é o átomosocial, quando, na verdade, para ser social, é preciso ser molécula. Pessoassão produtos de interação e não unidades anteriores à interação. 365
  • 366. Fabricantes de guerrasO único inimigo que existe é o fazedor de inimigosFABRICANTES DE GUERRAS são, stricto sensu, os chefes militares e, latosensu, os que pervertem a política como arte da guerra e os que seentregam à competição adversarial tendo como objetivo destruir seusconcorrentes. São, todos, predadores. O predador (humano) é umamáquina de converter o semelhante em inimigo. Mas é preciso considerarque não existem inimigos naturais ou permanentes: toda inimizade écircunstancial e pode ser desconstituída pela aceitação do outro nopróprio espaço de vida, pelo acolhimento, pelo diálogo, pela cooperação.Assim, o (único) inimigo que existe mesmo é o fazedor de inimigos.Na civilização patriarcal e guerreira viramos seres cindidos interiormente.O predador é um produto dessa quebra da unidade sinérgica do simbionte(que poderemos ser no futuro, se anteciparmos esse futuro). Predaporque quer recuperar, devorando, suas contrapartes, em um ritualantropofágico em busca da unidade perdida (aquela origem que é o alvo,para usar a expressão de Karl Kraus). É por isso que nos apegamos tanto àguerra do bem contra o mal. Mas o problema, como disse Schmookler, éque “o recurso da guerra é em si o mal” (16). 366
  • 367. Toda vez que você quer triunfar sobre o mal, combater o bom combate,derrotar o “lado negro da Força”, você fabrica guerra. Estatistas,hegemonistas, conquistadores, vencedores são – todos – fabricantes deguerras. Toda vez que você olha o mundo como um terreno inóspito,como uma ameaça, como algo a enfrentar, você fabrica guerra.Estrategistas de qualquer tipo, sejam ou não justificáveis seus esforços –chamem-se Winston Churchill ou Michel Porter –, são fabricantes deguerras. Boa parte dos incensados consultores de empresas da atualidadesão fabricantes de guerras: apenas deslizam conceitos da arte da guerrapara as estratégias empresariais que transformam o concorrente eminimigo.É claro que tudo isso revela uma não-aceitação da democracia. A guerra ésempre um modo autocrático de regulação de conflitos, seja a guerradeclarada ou aberta, seja a guerra fria, seja a política praticada como arteda guerra, seja a concorrência empresarial adversarial que trata o outrocomo inimigo. 367
  • 368. Condutores de rebanhosO modo intransitivo de fluição que gera o fenômeno da popularidade dolíder de massas é uma sociopatiaCONDUTORES DE REBANHOS são, em geral, os líderes que alcançarampopularidade pelo broadcasting para guiar as massas. Algumas vezes esseslíderes são carismáticos e se dedicam a mesmerizar multidões emcomícios, reuniões e manifestações. Ou pela TV e pelo rádio. Quasesempre são pessoas “pesadas”, que usam sua gravitatem em benefíciopróprio ou de um grupo, para reter em suas mãos o poder pelo maiortempo que for possível, transformando os outros em seus satélites. Eodeiam os princípios de rotatividade ou alternância democrática.Considere-se que, do ponto de vista social (ou coletivo, da rede), o modointransitivo de fluição que gera o fenômeno da popularidade do líder demassas é uma sociopatia.O liderancismo é uma praga que vem contaminando as organizações detodos os setores: segundo tal ideologia, a liderança só é boa se não puderser exercida por todos, só por alguns. Assim, não se deve estimular amulti-liderança, senão afirmar a precedência da mono-liderança, do líderprovidencial e permanente, a prevalência do mesmo líder em todos os 368
  • 369. assuntos e atividades, como se essa – a liderança – fosse uma qualidaderara, de origem genética ou fruto de uma unção extra-humana.Condutores de rebanhos se dirigem sempre às massas – não às pessoas –com o objetivo de comandá-las e controlá-las, sejam ditadores oumanipuladores. São marqueteiros de si-mesmos e, como tais, vendedoresde ilusões (diga-se o que se quiser dizer, o marketing é uma atividademuito problemática, que não visa formar novas identidades a partir daconstrução de pactos com os stakeholders de uma determinada iniciativae sim disseminar, via de regra por broadcasting, alguma ilusão).Sacerdotes (stricto sensu), pastores e políticos profissionais são tambémvendedores de ilusões assim como todos os que prometem e nãocumprem, no sentido de que vendem e não-entregam (o que vendem).Mas reserva-se a categoria de condutores de rebanhos para os quepretendem liderar massas, comovê-las e mobilizá-las para que lhes sigam.Na coletânea Histórias do Sr. Keuner, que reúne textos de Bertold Brechtescritos entre 1926 e 1956, encontra-se a deliciosa parábola “Se osTubarões Fossem Homens” (17): “Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar para os peixes pequenos... A aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro 369
  • 370. dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência... Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua... seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói... Também haveria uma religião ali. Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. De que só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores... E os peixinhos maiores que deteriam os cargos velariam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros de construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens”.Não poderia haver um fecho melhor para a reflexão deste texto. Brecht,provavelmente, criou a metáfora entre tubarões e peixinhos no contextoda luta de classes entre patrões e trabalhadores. No entanto, ela é tomadaaqui para fazer referência aos mantenedores do velho mundo único quesurgem em configurações deformadas do campo social. Que tipos de 370
  • 371. configurações ensejam a reprodução de tubarões em vez de, por exemplo,golfinhos?Como já foi dito, frequentemente as características das funçõesagenciadoras do velho mundo se misturam, incidindo, em maior ou menorgrau, em uma mesma configuração de pessoas. É assim que ensinadoresreplicam ensinamentos forjados por codificadores de doutrinas que, porsua vez, constroem pirâmides para aprisionar corpos e tudo isso é feitoem nome da necessidade de derrotar um inimigo que ameaça algumaidentidade imaginária que foi artificialmente construída, não raro exigindoque grandes contingentes de pessoas fossem arrebanhadas (edespersonalizadas) por condutores de rebanhos para enfrentar talinimigo, ele próprio construído sempre para justificar alguma hierarquiaque foi erigida. Tudo isso é usar a Força para enfrear e represar fluzz.Conquanto resilientes, essas velhas funções do mundo único exercidas,invariavelmente, para exterminar outros mundos, não têm conseguidobarrar os novos papéis-sociais-fluzz que começam a emergir. 371
  • 372. Notas e referências(*) A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no iníciode 2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autorobservava que Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based e não p-based, quer dizer, baseada em interação, não emparticipação). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida no livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011) e passou a não ter muito a ver com o programamalsucedido do Google. Fluzz (o fluxo interativo) é um conceito complexo,sintético, que talvez possa ser captado pela seguinte passagem: “Tudo queflui é fluzz. Tudo que fluzz flui. Fluzz é o fluxo, que não pode seraprisionado por qualquer mainframe. Porque fluzz é do metabolismo darede. Ah!, sim, redes são fluições. Fluzz evoca o curso constante que não seexpressa e que não pode ser sondado, nem sequer pronunciado do “ladode fora” do abismo: onde habitamos. No “lado de dentro” do abismo nãohá espaço nem tempo, ou melhor, há apenas o espaço-tempo dos fluxos. Éde lá que aquilo (aquele) que flui sem cessar faz brotar todos os mundos...Em outras palavras, não existe uma mesma realidade para todos: são 372
  • 373. muitos os mundos. Tudo depende das fluições em que cada um se move,dos emaranhamentos que se tramam, das configurações de interação quese constelam e se desfazem, intermitentemente”.Este texto foi originalmente escrito e publicado em 2011 no livro Fluzz:vida humana e convivência social nos novos mundos altamenteconectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.(1) ABRAHAM, Ralph (1992) in ABRAHAM, Ralph, McKENNA, Terence &SHELDRAKE, Rupert (1992). Caos, criatividade e retorno do sagrado:triálogos nas fronteiras do Ocidente, São Paulo: Cultrix, 1994.(2) KRAMER, Samuel (1956). A história começa na Suméria. Lisboa:Europa-América, 1977.(4) CAMPBELL, Joseph (1959): As máscaras de Deus (Volume I). São Paulo:Palas Athena, 1998.(3) ABRAHAM. Ralph, McKENNA, Terence & SHELDRAKE, Rupert (1992).Caos, criatividade e o retorno do sagrado: triálogos nas fronteiras doOcidente. São Paulo: Cultrix, 1994.(5) LEICK, Gwendolyn (2001): Mesopotâmia: a invenção da cidade. Rio deJaneiro: Imago, 2003.(6) Os ‘me’ continuam sendo um enigma para os historiadores. Aantropóloga e assirióloga Gwendolyn Leick (2001), no seu livro“Mesopotâmia: a invenção da cidade” (ed. cit.), escreve: “Eridu, como amanifestação primária do Apsu, também era considerada o lugar do 373
  • 374. conhecimento, a fonte da sabedoria, sob o controle de Enki. Numerosasnarrativas foram elaboradas em torno desse conceito. Eridu, comorespositório de decretos divinos é descrita em uma narrativa sumériachamada “Enki e Inanna”. Enki, escondido no Apsu, está na posse de todosos ‘me’, termo sumeriano que abrange todas aquelas instituições, leis,formas de comportamento social, emoções e símbolos de carga que, emsua totalidade, eram vistos como indispensáveis ao funcionamento regulardo mundo. Esses ‘me’ pertenciam a Eridu e a Enki. Entretanto, Inanna,deusa da cidade de Uruque, deseja obter os ‘me’ para si própria e levá-lospara Uruque. Com esse fim, ela desfralda velas para chegar a Eridu debarco, sempre o caminho mais fácil para ir de uma cidade daMesopotâmia a outra. Enki toma conhecimento da chegada de Inanna epreocupa-se com as intenções dela. Instrui o seu vizir para a receber comtodas as honras e preparar um banquete, no qual ambas as deidadesbebem muita cerveja. Enki não tarda em adormecer, deixando o caminholivre para Inanna carregar os preciosos ‘me’ em seu barco, um por um, ezarpar. Quando Enki desperta da ébria sonolência e dá-se conta do queaconteceu, procura usar sua magia em uma tentativa de recuperar os‘me’. Inanna consegue rechaçar os demônios perseguidores e chegar sã esalva a Uruque. O desfecho da história não é claro, pois nenhuma dasversões existentes do texto está suficientemente preservada, mas pareceque uma terceira deidade logra a reconciliação entre Inanna e Enki. Esta é,obviamente, uma típica história de Uruque, concentrando-se nas deusaslocais e em seu poder superior. Ao libertar os ‘me’ das profundezas doApsu, Inanna podia não só ampliar seus próprios poderes, mas tambémfazer valer os seus decretos entre os humanos. A lista dos ‘me’ inclui a 374
  • 375. realiza, as funções sacerdotais, os ofícios e a música, assim como asrelações sexuais, a prostituição, a velhice, a justiça, a paz, o silêncio, acalúnia, o perjúrio, as artes dos escribas e a inteligência, entre muitosoutros”.Muitos anos antes, o famoso sumeriologista Samuel Noah Kramer (1956),em From the Tablets of Sumer (ed. cit.) já havia observado:“Finalmente chegamos aos ‘me’, as leis divinas, normas e regras que,segundo os filósofos sumérios, governam o universo desde os dias da suacriação e o mantêm em funcionamento. Neste domínio possuímosconsiderável documentação direta, particularmente em relação ao ‘me’que governam o homem e a sua cultura. Um dos antigos poetas sumérios,ao compor ou redigir um dos seus mitos, julgou que vinha a propósito daruma lista dos ‘me’ relacionados com a cultura. Divide a civilização,segundo o conhecimento que dela tinha, em uma centena de elementos.No estado atual do texto são apenas inteligíveis cerca de sessenta e algunssão palavras mutiladas que, sem contexto explicativo, apenas nos dãouma vaga idéia do seu real sentido. Mas ainda subsistem os suficientespara nos mostrar o caráter e a importância da primeira tentativaregistrada de análise da cultura, que resultou em uma lista considerável deo que é hoje geralmente designado por “elementos e complexos culturais”.Estes compõem-se de várias instituições, certas funções de hierarquiasacerdotal, instrumentos de culto, comportamentos intelectuais e afetivose diferentes crenças e dogmas. Eis a lista das partes mais inteligíveis eseguindo a própria ordem escolhida pelo antigo escritor sumério: 1 –Soberania; 2 – Divindade; 3 - A sublime e permanente coroa; 4 - O trono 375
  • 376. real; 5 - O sublime cetro; 6 - As insígnias reais; 7 - O sublime santuário; 8 -O pastoreio; 9 - A realeza; 10 - A durável senhoria; 11 - A “divina senhora”(dignidade sacerdotal); 12 – O ishib (dignidade sacerdotal); 13 – O lumah(dignidade sacerdotal); 14 – O gutug (dignidade sacerdotal)…” [A listasegue até o número 67].Essas “fórmulas divinas” (os ‘me’) reforçam a idéia da existência de umaespécie de protótipo. Os ‘me’ parecem ser códigos replicativos para criar ereproduzir um determinado tipo de civilização (ou padrão societário). Aexistência material ou ideal dos ‘me’ como conhecimentos armazenáveisem objetos que podiam ser transportados, evidencia que os sumérios nãoapenas desenvolveram historicamente o que chamamos de civilização.Eles também sistematizaram teoricamente um modelo dessa civilizaçãopara ser replicado em outros locais.Mas o mais relevante é a ordem em que aparecem tais “elementosculturais”. Os seres humanos e suas características próprias e qualidadesdistintivas só vão surgir lá pelo quadragésimo lugar. O schema é mítico,sacerdotal, hierárquico e autocrático. Aliás, pode-se dizer que essas“fórmulas divinas” são fórmulas da autocracia em “estado puro”.E havia um ensinamento organizado sobre tudo isso. Pois bem. Talensinamento a ser replicado foi o motivo de haver um ensino. Para maisinformações pode-se ler os textos indicados por LEICK (2001) e porKRAMER (1956). Ou pode-se tentar decifrar o material disponível: 376
  • 377. Inana and Enki: cuneiform source translation at ETCSL (The Electronic TextCorpus of Sumerian Literature, University of Oxford, England) in ETCSLtranslation:http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.3.1#Cf. ainda: “What are ‘me’ anyway?” in Sumerian Mythology FAQ:http://home.comcast.net/~chris.s/sumer-faq.html#A1.5(7) Existem outras maneiras não verticais de representar essa árvore dasSefirot. Cf. o blogpost “Sobre Kabbalah e redes: um abstruso paraleloheurístico”:http://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/sobre-kabbalah-e-redes-um(8) BLOOM, Harold (1975). Cabala e crítica. Rio de Janeiro: Imago, 1991.(9) MATURANA, Humberto & VERDEN-ZÖLLER, Gerda (1993). Amor yJuego: fundamentos olvidados de lo humano – desde el Patriarcado a laDemocracia. Santiago: Editorial Instituto de Terapia Cognitiva, 1997.(Existe tradução brasileira: Amar e brincar: fundamentos esquecidos dohumano. São Paulo: Palas Athena, 2004).(10) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre asociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundoglocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(11) FRANCO, Augusto (2008): O Olho de Hórus. Disponível emhttp://escoladeredes.ning.com/profiles/blogs/o-olho-de-horus 377
  • 378. (12) OSHO (Bhagwan Shree Rajneesh) (1978). A revolução: conversassobre Kabir. São Paulo: Academia de Inteligência, 2008.(13) Idem.(14) Comunicação pessoal ao autor de José Rocha: Frei Mateus Rocha(1923-1985). Para saber quem foi José Rocha cf. POLETTO, Ivo (org.)(2003). Frei Mateus Rocha: um homem apaixonado pelo absoluto. SãoPaulo: Loyola, 2003.(15) Agregadores de blogs que foram inventados com base em RSS nãoresolvem o problema. O fato de se ter vários blogs em uma mesmapágina, atualizando automaticamente as primeiras palavras das postagensmais recentes de cada blog, não garante, nem favorece muito, qualquertipo de interação mais efetiva. Esses softwares produzem apenas índicesilustrados dos blogs que foram agregados por iniciativa única e exclusivado administrador da página. Caso haja reciprocidade, ou seja, se todos osagregados por um blog também agregarem os demais nos seus blogs,essas ferramentas são boas para formar um grupo seleto (enecessariamente pequeno, por motivos óbvios) de pessoas que se leem.Também podem ser bastante úteis no caso de uma corporação (onde,porém, o acesso à página agregada é, via de regra, fechado, pois, afinal,uma corporação precisa se proteger da concorrência...) ou de umacomunidade já existente. Mas, em geral, não são ferramentas eficazes denetweaving, pois ninguém fica sabendo – a não ser que abraseguidamente, várias vezes por dia, todos os blogs – o que cada um estádizendo, no seu próprio blog, sobre o que outros postaram, nos deles. 378
  • 379. Ademais, não são viáveis para organizar o compartilhamento de agendas(a única coisa que pode realmente “produzir” comunidade). As velhaslistas de e-mails com seus fóruns derivados são mais eficazes para essepropósito.(16) SCHMOOKLER, Andrew (1991): “O reconhecimento de nossa cisãointerior” in ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao Encontro daSombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. SãoPaulo: Cultrix, 1994.(17) BRECHT, Bertold (1926-1956). Histórias do Sr. Keuner. São Paulo:Editora 34, 2006. 379
  • 380. 380
  • 381. Como se tornar um netweaver 381
  • 382. 382
  • 383. Como se tornar um netweaver 383
  • 384. 384
  • 385. Como se tornar um netweaver 385
  • 386. NETWEAVER HOWTOAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de NETWEAVER HOWTO / Augusto de Franco – São Paulo: 2012. 64 p. A4 – (Escola de Redes; 15) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 386
  • 387. SumárioIntrodução | 9Mentiras pregadas em nome da ciência | 11Os indicadores de sucesso | 20Hubs | 25Inovadores | 28Netweavers | 32Netweaver howto | 34Eles já estão entre nós | 46Notas e referências | 54 387
  • 388. 388
  • 389. Introdução Sem dúvida, bebidas alcoólicas, tabaco etc. são coisas que um santo deve evitar, mas santidade também é algo que os seres humanos devem evitar. George Orwell em Reflexões sobre Gandhi (1948)A resiliência das velhas funções, agenciadoras de um tipo de mundo(erigido para exterminar outros mundos) que teima em não desaparecer,não está conseguindo impedir o surgimento de novos papéis sociais queantecipam uma nova época.Caminhando fora dos trilhos estabelecidos, emergem a cada dia novosatores do mundo glocalizado. Sim, eles já estão entre nós. Não sãoconhecidos porquanto não são pessoas que ficaram famosas segundo oque até então era considerado indicador de sucesso: pelo seu poder, pelasua riqueza ou pelo seu conhecimento atestado por títulos. Quem são?Ora são os múltiplos anônimos conectados, habitantes de umadiversidade incrível de Highly Connected Worlds, que não foramproduzidos por broadcasting. São como aquele personagem do romance 389
  • 390. “Distraction” de Bruce Sterling (1988) que, para se identificar, afirmou:“Não temos raízes. Somos pessoas da rede. Temos antenas”.Tais papéis inéditos que estão sendo produzidos pela (ou em) rede sãotambém múltiplos. Por enquanto só conseguimos divisar alguns. Trêsexemplos marcantes são os hubs, os inovadores e os netweavers. Essesnovos papéis sociais são funções-fluzz (*) 390
  • 391. Mentiras pregadas em nome da ciênciaOs sobreviventes não são selecionados por seu sucesso evolutivoOS PRINCIPAIS INDICADORES DE SUCESSO do mundo hierárquico, nodealbar do século 21, ainda são a fama, o conhecimento atestado portítulos, a riqueza e o poder.A fama parece ser o principal indicador. Quem colecionou muitosdiplomas, acumulou riqueza ou conseguiu deter em suas mãos algumpoder de mandar nos outros, não se sentirá plenamente bem-sucedido senão for conhecido por muita gente ou, pelo menos, por uma parcelaponderável de seus pares.Como critério de sucesso, a fama é inquestionável, indiscutível mesmo. Sevocê virou uma celebridade, é sinal de que progrediu na vida. Deixou deser qualquer um. Destacou-se e continuará sendo destacado. Merecerátratamento especial aonde for. Não entrará na fila. Não receberá senhas.O maitre logo lhe arranjará uma mesa, mesmo que o restaurante estejalotado. Não ficará aguardando atendimento nos bancos das repartiçõespúblicas ou nos sofás das antessalas das organizações. E todos oobservarão com admiração, alguns deixarão escapar suspiros à suapassagem, muitos o cumprimentarão como se o conhecessem de longa 391
  • 392. data; outros, mais afoitos, lhe pedirão autógrafos ou implorarão sualicença para tirar uma foto ao seu lado.Mas a fama não é necessariamente um prêmio pelo talento e sim oresultado direto da exposição em algum meio de comunicaçãocentralizado, do tipo broadcasting (de mão única, um-para-muitos).Qualquer pessoa que aparece regularmente na televisão (não importa seapresentando um noticiário ou um programa de auditório ou atuando emuma novela) fica famosa. Qualquer pessoa que atua com certoprotagonismo em um filme fica famosa. Qualquer pessoa que escrevedurante algum tempo em um grande jornal ou revista fica famosa.Artistas, desportistas e até cientistas só ficam famosos porque sãotransmitidos por broadcasting (do contrário ninguém os reconheceria narua). Mesmo os grandes teatros, estádios e auditórios de conferências,nos quais um é visto por muitos, já são uma forma de “broadcasting”(conquanto não permitam uma visualização tão massiva).O mesmo ocorre com quem acumulou riqueza ou detém algum cargo depoder. Mesmo estes fazem certo esforço financeiro para sair na revistaCaras ou nas chamadas colunas sociais. Por quê? Ora, porque estãofazendo sucesso, estão seguindo os conselhos da mamãe para se destacardos demais. Encaram isso como um investimento, pois aprenderam desdepequenos que só é possível fazer negócios – comerciais ou políticos – apartir de relacionamentos (é isso que a ridícula literatura empresarial maisrecente chama de networking). Aprenderam que é preciso ser conhecidocomo alguém que se destacou dos demais para ser incluído nos círculos de 392
  • 393. relacionamentos daqueles que se destacaram dos demais (porque têmfama, riqueza ou poder). Estão apenas pagando a joia, o preço para entrarno clube. E a partir daí podem até ostentar alguns distintivos dos bem-sucedidos, como fumar charutos e jogar golfe.Quando questionadas, as pessoas que acreditam nesse tipo de coisa – esão muitas – costumam dizer que a vida é assim mesmo. É uma luta. E queé preciso vencer na vida: bah! A expressão, convenhamos, é muitoescrota: vencer quem? Por acaso estamos em uma guerra?O problema é que estamos. E aí, como se diz, tudo é sacrificado em nomeda vitória, a começar pela verdade.Para difundir a ideia de que a vida é uma guerra permanente recorre-se àmentira. Para legitimar essa mentira alguns dizem que não somente a vidahumana é assim, mas a vida em geral. E aí dão os exemplos mais furados,supostamente embasados na biologia da evolução, de que sempre venceo mais forte ou o mais esperto e que a natureza seleciona ossobreviventes por seu sucesso. Essa crença, entretanto, nada tem decientífica. Como escreveu a notável bióloga Lynn Margulis (1998), não éque “os sobreviventes sejam selecionados por seu sucesso, mas sim que osseres que não conseguem reproduzir-se antes de morrer são excluídos porseleção” (1). Simples assim. Quase (tauto)lógico. Ou seja, a natureza nãopremia apenas alguns, os mais destacados. E não há nada como uma “lutapela vida” nos cinco reinos de organismos vivos – nem no reino dasbactérias, nem no dos protoctistas (como as amebas e conchas), nem no 393
  • 394. dos fungos (como os cogumelos), nem no das plantas, nem no dos animais– com uma única exceção: os humanos.O problema com essas leituras ideológicas do darwinismo (e com opróprio darwinismo) é que, em algum momento do passado, projetamossobre a natureza a competição que observamos nos mercados (e napolítica autocrática a eles associada) na antessala do nascente capitalismoconcorrencial europeu (sobretudo o inglês). Já se disse sobre isso queselvagem não era bem a selva, mas a concorrência nesse capitalismoinaugural (que, aliás, foi chamado, não por acaso, de “capitalismoselvagem”) e que a “lei da selva” não saiu propriamente da selva para asociedade sob o influxo desse mercado nada-livre, mas, ao contrário, dasegunda para a primeira.Capitalismo, ao contrário do que se pensa, não é livre mercado. Na suaorigem e em grande parte do seu desenvolvimento, ele foi – como jádissemos e repetimos aqui – uma espécie de conúbio entre empresasmonárquicas e Estado autocrático hobbesiano (de lá para cá, o Estado sedemocratizou um pouco, porém as empresas – em sua maioria –continuaram monárquicas, mas isso não vem ao caso agora). O fato é que,independentemente das atuais leituras do darwinismo urdidas paralegitimar a idéia de sucesso competitivo-excludente, o darwinismo foicapturado por uma corrente de pensamento hobbesiana e transformado,desde o princípio, em “darwinismo social”.Como percebeu com argúcia Matt Ridley (1996), “Thomas Hobbes foi oantepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta” (2). Segundo 394
  • 395. Hobbes (que tantos citam e poucos leem) na falta de um poder quedomestique ou apazigue os homens, “não há sociedade; e o que é pior doque tudo, [há] um medo contínuo e perigo de morte violenta. E a vida dohomem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta” (3). E isso ocorre,segundo ele, não por razões culturais, que emanassem da forma como asociedade se organiza, mas intrínsecas: uma espécie de inclinação“genética” – e Hobbes (1651) só não disse isso porquanto Mendel (1864)ainda não havia nascido. Sim, foi exatamente o que ele escreveu, semmeias-palavras, no famoso capítulo XIII do “Leviatã”: “Na natureza dohomem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, acompetição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória” (4). Para ele oegoísmo e seus bad feelings acompanhantes (como a desconfiança) nãoeram culturais, mas tinham sua origem na própria natureza humana (sejalá o que isso for).Muito tempo depois surgiu toda uma linhagem de tarados individualistasmais intelectualizados (como Ayn Rand e Ludwig von Mises) construindosuas ortodoxias com base nesse pressuposto metafísico, segundo o qual ohomem é inerentemente competitivo, que o egoísmo é a força motriz dacriatividade e que a cooperação e o altruísmo são um atraso de vida.Trata-se, é claro, de uma impostura antropológica que não pode serjustificada pela ciência. Mas muitos – com estruturas mentais um poucomais simples do que Rand e von Mises – ainda tentam embasá-la comhipóteses científicas para aumentar-lhe a verossimilhança. Dizem entãoque basta olhar o comportamento dos outros seres vivos para perceberque essa é “a ordem natural das coisas”. 395
  • 396. E citam exemplos. As abelhas têm sua rainha. Os formigueiros têm seuschefes. Os pássaros que voam em bando seguem sempre o seu líder. Ouseja, por toda parte que se olhe, sempre há os que dirigem e os que sãodirigidos. E os que dirigem foram os que conseguiram se destacar dosdemais, por serem mais bem-dotados (!), mais capazes de desenvolversuas próprias potencialidades como indivíduos e, sobretudo, mais aptos aenfrentar a luta pela vida saindo-se vitoriosos. Um leão protege o seuterritório (e suas fêmeas) afugentando os outros leões na base de rugidos,patadas e mordidas. Em várias espécies animais o macho-alfa impõe seudomínio pela força, pela destreza ou pela esperteza, batendo aconcorrência. E o mais forte vence, fere, mata ou devora o mais fraco.Sim, é “a natureza, vermelha em dentes e em garras” (5) como cantou opoeta Tennyson (1849) no poema In Memorian A. H. H.De sorte que se disseminou a crença segundo a qual no mundo humano,semelhantemente ao que ocorre no mundo animal (e nos outros reinos deorganismos vivos), ter sucesso é sempre se destacar dos demais, vencê-los, sobretudo em contextos em que há escassez – tudo isso baseado noegoísmo.Ora, se ter sucesso em condições de escassez (e dependendo do modo deolhar sempre encontraremos escassez de algum recurso em toda parte) ése destacar dos demais, isso significa que há uma economia política dosucesso, ou seja, a escassez precisa ser administrada. Se todos tivessemsucesso, cada qual naquilo que realiza de uma maneira peculiar (e que sóele pode realizar daquela maneira), o sucesso não seria um prêmio pelavitória. Vitória é o triunfo em uma luta, aquele triunfo que recebiam os 396
  • 397. generais romanos, atributo da sua glória, conquanto a glória (escoimadada ideologia que a acompanhava) não passasse de uma metáfora para afama possível naquela época: não havia TV e os caras precisavam desfilarem carro aberto com a coroa de louros nas praças e estádios para seremvistos (e isso não deixava de ser uma difusão por broadcasting, pois queum era visto por muitos).Mas essa escassez – segundo a qual no pódio só cabem alguns – é geradaartificialmente pela construção de um pódio em que só cabem alguns. Eiso ponto! Não precisava ser assim. Da mesma forma, não há nenhuma leinatural segundo a qual os jogos precisem ser, quase todos, baseados nopadrão perde-ganha; ou, como observou George Orwell (1945), como umaespécie de “guerra sem mortes” (6). A invenção da escassez replica umpadrão piramidal de organização: poucos em cima e muitos na base. Comaqueles degrauzinhos dispostos em diferentes níveis, os pódios sãopirâmides.Se as mentes simples que gostam de sacar exemplos do mundo natural seesforçassem um pouco mais para acompanhar as descobertas científicas,veriam que não há pódios nos reinos de organismos vivos (com exceçãodo humano). E não há porque não é necessário. Há quatro bilhões de anosa vida vem trabalhando com redundância (e, portanto, com abundância):mesmo quando os recursos sobrevivenciais se esgotam para umapopulação, a evolução compensa essa (aparente) escassez desenvolvendonovas habilidades na espécie atingida, novas sinergias entre váriasespécies e simbioses entre espécies diferentes gerando novas espéciesadaptadas às condições mutantes. 397
  • 398. O padrão jamais é o da luta, tal como nós, os humanos, a concebemos. Opadrão jamais é de competição, como a praticamos. Não há nenhumtriunfo e os indivíduos de qualquer espécie não-humana, por mais quetenham conseguido superar grandes dificuldades para sobreviver ou sereproduzir, não desfilam em carro aberto como os generais romanos.Maturana já nos mostrou que animais não-humanos não competem poralimentos, simplesmente seguem seu impulso de se alimentar, nãoimportando para nada se outro exemplar da espécie ficou sem alimento;ou seja, não é constitutiva da sua ação (nem da sua emoção, no caso dosmamíferos), a diretiva de vencer o outro (não sendo essencial para quemcome o fato de que o outro deixe de comer) (7).Da mesma forma, não há liderança nos reinos de organismos (comexceção dos humanos, no reino animal). A abelha rainha não lidera asoutras abelhas. As colônias de formigas não têm chefe (nem coordenador,nem facilitador). Como escreveu a cientista Deborah Gordon (1999) –professora de ciências biológicas em Stanford, que pesquisou durante 17anos colônias de formigas no Arizona –, “o mistério básico que cerca ascolônias é que nelas não há administração... Não há nenhum controlecentral. Nenhum inseto dá ordens a outro ou o instrui a fazer coisas dedeterminada maneira... De fato, não há entre elas líderes de qualquerespécie”. E não há, ademais, qualquer programação genética capaz dedeterminar um tipo de comportamento especializado em relação aosdemais indivíduos da espécie: “as formigas não nascem para executarcerta tarefa; a função de cada uma delas muda juntamente com ascondições que encontra, incluindo as atividades de outras formigas” (8). 398
  • 399. Outra hipótese perversa, supostamente científica – que também tem sidoinstrumentalizada para legitimar a idéia de sucesso competitivo-excludente – é a de que existe uma escala evolutiva segundo a qual algunsseres vivos seriam mais “evoluídos” do que outros. E assim como ohomem seria mais evoluído do que o macaco ou do que uma fischerella(uma cyanobactéria), assim também, entre os próprios seres humanos,alguns seriam mais “evoluídos” do que outros: ou seja, a evolução naturalse espelharia ou teria uma espécie de continuidade em uma evoluçãocultural (frequentemente chamada de “espiritual”) baseada em fatoresnaturais diferenciados (daí as perversões que levaram alguns a justificar asuperioridade do “macho branco no comando”: os caucasianos seriamsuperiores aos negros, amarelos e pardos, os machos seriam superiores àsfêmeas, os arianos seriam superiores às demais “raças” humanas e outrasbarbaridades).Nada disso! Novamente aqui é Lynn Margulis (1998) que vem puxar aorelha dos impostores: “Todas as espécies existentes são igualmente evoluídas. Todos os seres vivos, desde a minúscula bactéria até o membro de um comitê do Congresso, evoluíram do antigo ancestral comum que desenvolveu a autopoese e que, com isso, tornou-se a primeira célula viva. A própria realidade da sobrevivência prova a “superioridade”, já que todos descendemos de uma mesma forma originária metabolizadora. A delicada explosão da vida, em uma sinuosa trajetória de quatro bilhões de anos até o presente, produziu-nos a todos” (9). 399
  • 400. Os indicadores de sucessoDestacar-se dos demais, triunfar, vencer na vida, subir ao pódio ondecabem apenas alguns poucosMALCOLM GLADWELL (2008) escreveu um livro de quase trezentaspáginas, intitulado Outliers, para chegar à conclusão que “o outlier, no fimdas contas, não está tão a margem assim”. Ou seja, os bem-sucedidos sãofrutos de uma constelação particularíssima e imprevisível de fatores,alguns conhecidos, outros desconhecidos. Como ele próprio escreve,“advogados celebridades, prodígios da matemática e empresários desoftware parecem, à primeira vista, estar fora da experiência comum. Masnão estão. Eles são produtos da história, da comunidade, dasoportunidades e dos legados. Seu sucesso não é excepcional nemmisterioso. Baseia-se em uma rede de vantagens e heranças, algumasmerecidas; outras, não; algumas conquistadas, outras obtidas por purasorte – todas, porém, cruciais para torná-los o que são” (10).Sim, ele tem razão: nem excepcional, nem misterioso. No entanto, acombinação ideal, a “fórmula” do sucesso é desconhecida e varia deacordo com as condições de trajetória, tempo e lugar para cada indivíduo. 400
  • 401. “Os mitos dos melhores e mais brilhantes e do self-made man afirmam que, para obtermos o máximo em potencial humano, basta identificarmos as pessoas mais promissoras. Olhamos para Bill Gates e dizemos, em um espírito de autocongratulação: “Nosso mundo permitiu que aquele adolescente de 13 anos se tornasse um empresário tremendamente bem-sucedido”. Mas essa é a lição errada. O mundo só deixou que uma pessoa de 13 anos tivesse acesso a um terminal de tempo compartilhado em 1968. Se um milhão de adolescentes tivesse recebido uma oportunidade idêntica, quantas outras Microsofts existiriam hoje? Quando compreendemos mal ou ignoramos as verdadeiras lições do sucesso, desperdiçamos talentos... Agora multiplique esse potencial perdido por cada campo e profissão. O mundo poderia ser bem mais rico do que este em que nos acomodamos” (11).No segundo capítulo do livro, Gladwell conta a história de Bill Gates,sublinhando o fato de que ele foi matriculado em uma escola particularque criou um clube de informática. Essa escola especial investiu, em 1968,três mil dólares na compra de um terminal de tempo compartilhado ligadoa um mainframe no centro de Seattle. Assim, Gates, quando ainda estavana oitava série, passou a viver em uma sala de computador (20 a 30 horaspor semana). De sorte que, “quando deixou Harvard após o segundo paracriar sua própria empresa de software, Gates vinha programando semparar por sete anos consecutivos... Quantos adolescentes tiveram essemesmo tipo de experiência?” É o próprio Bill Gates que responde: “Seexistiram 50 em todo mundo, eu me espantaria. Houve a C-Cubed e o 401
  • 402. trabalho para a ISI com a folha de pagamento. Depois a TRW. Tudo issoveio junto. Acredito que meu envolvimento com a criação de softwaresdurante a juventude foi maior do que o de qualquer outra pessoa naqueleperíodo, e tudo graças a uma série incrivelmente favorável de eventos”(12).Todos os outliers que Gladwell analisou no livro “foram favorecidos poralguma oportunidade incomum [como, no caso de Gates, estar na escolaLakeside em 1968]. Golpes de sorte não costumam ser exceção entrebilionários de software, celebridades de rock e astros dos esportes. Pelocontrário, parecem constituir a regra” (13).Responsabilizar a sorte não acrescenta muito conhecimento sobre ofenômeno. Se continuarmos focalizando o indivíduo, a equação não terásolução. Ou melhor, não conseguiremos nem equacionar o problema (jáque solução mesmo dificilmente haverá), o que poderia acrescentar, aísim, algum conhecimento novo. Mas Gladwell erra um pouco o alvo. Nãoé que tudo se baseia – como ele diz, falando metaforicamente – “em umarede de vantagens e heranças” e sim que tudo depende (muito mais doque pensamos) de uma rede mesmo, de uma rede social propriamentedita. Quando ele afirma que o sucesso dos bem-sucedidos não foi criadosó por eles, mas “foi o produto do mundo onde cresceram”, deixa de verque esse mundo não é o mundo físico, nem ‘o mundo’ como noçãoabstrata usada para designar a totalidade da existência e sim o mundosocial, quer dizer, a rede social a que estão conectados seus outliers. Eis oerro: ver o indivíduo e não ver a rede; ver a árvore, mas não ver a floresta(e sobretudo não ver a incrível rede miceliana, o clone fúngico que está 402
  • 403. por baixo da floresta e sem a qual ela não poderia existir); ver o organismovivo, mas não ver o ecossistema em que ele está inserido. É a estrutura e ometabolismo da rede social que podem revelar as condições para o papelmais ou menos relevante assumido, em cada tempo e lugar (ou seja, emcada cluster), pelos seus nodos.Em uma sociedade cuja topologia e dinâmica se aproximam, cada vezmais, das de uma rede distribuída – a chamada sociedade em rede,emergente nas últimas décadas – isso ficará cada vez mais evidente. Oscritérios de sucesso nesse tipo de sociedade tendem a deixar de serbaseados em características puramente individuais e em noçõescompetitivo-excludentes (se destacar dos demais, triunfar, vencer na vida,subir ao pódio onde cabem apenas alguns poucos) para passar a serfunção de um corpo e de um metabolismo coletivos: a própria rede.Não se trata de coletivos indiferenciados, segundo uma velha perspectivacoletivista, própria dos condutores de rebanhos (sejam ditadores oumanipuladores de massas, de direita ou de esquerda, contra os quais osindividualistas têm razão nas críticas que fazem) e sim de arranjos depessoas. A pessoa é o indivíduo conectado e que, portanto, não seconstitui apenas como um íon social vagando em um meio gelatinoso eexibindo orgulhosamente suas características distintivas e sim tambémcomo um entroncamento de fluxos, uma identidade que se forma a partirda interação com outros indivíduos.É por isso que o tipo de educação que recebemos para nos destacar dossemelhantes é terrivelmente prejudicial em uma sociedade em rede, na 403
  • 404. qual estão abertas infinitas possibilidades de polinização mútua e defertilização cruzada que impulsionam a inovação e o desenvolvimentopessoal e coletivo.Essa idéia é desastrosa, porquanto, sob sua influência, desperdiçamos aspotencialidades criativas e inovadoras das múltiplas parcerias e sinergiasque o relacionamento horizontal entre as pessoas proporciona. Guiadospor ela, perdemos talentos, bloqueamos a dinamização de inusitadascapacidades coletivas, matamos no embrião futuros gênios eexterminamos o mais precioso recurso para o desenvolvimento depessoas e comunidades: o capital social (que é uma metáfora, construídado ponto de vista dos recursos necessários ao desenvolvimento, paradesignar nada mais do que a própria rede social).Assim, antes de qualquer coisa, tanto a idéia quanto a própria palavra‘sucesso’ deverão ser abolidas. Trata-se agora, outrossim, de reconhecerpapeis relevantes. 404
  • 405. HubsQualquer iniciativa na rede social que não conte com seus principaishubs encontrará mais dificuldades para “conversar” com a rede-mãeDENTRE OS NOVOS PAPÉIS relevantes em uma sociedade em rede o maisevidente é o hub. Todas as pessoas são hubs ou têm uma porção-hub. Semtal característica não poderíamos ser humanos, quer dizer, não seríamospessoas porque não poderíamos interagir com outras pessoas. Noentanto, se olharmos o aglomerado da rede social em que estãoconectadas, algumas pessoas – nem sempre as mesmas em todas assituações – desempenham o papel social de hubs stricto sensu.Os hubs – como a palavra está dizendo – são os conectores, os nodos darede social muito conectados, são os entroncamentos de fluxos. Um hubnão é necessariamente alguém com grande popularidade ou notoriedadee sim alguém com muitas relações, que pode acessar — e ser acessadopor — outros nodos com baixo grau de separação. Quando uma pessoaperde sua porção-hub, provavelmente alguma patologia psíquica nela vaise manifestar, como – veremos mais adiante – soe acontecer com osmuito famosos. 405
  • 406. Não é a fama que faz um hub. Pessoas famosas, celebridades, costumamser, em geral, inacessíveis. Não são, portanto, conectores. Qualqueriniciativa na rede social que não conte com seus principais hubsencontrará mais dificuldades para “conversar” com a rede-mãe (que éuma metáfora para designar o acesso ao mundo social, sempre oculto, jáque não aparece como objeto porquanto fractalizado e em fluição, querdizer, sendo criado a cada instante).Também não é o conhecimento que faz um hub, a não ser que se queirarelacioná-lo ao conhecimento das pessoas, quer dizer, aos contatos deconfiança. Às vezes um hub é o chaveiro do bairro, em quem as pessoasconfiam que sua segurança residencial não será colocada em risco — eaqui é evocada uma imagem do filme The Matrix: aquele “O Chaveiro”,interpretado pelo ator Randall Duk Kim, era um programa confiável; umhub, de certo modo, também é um programa que “roda” na rede. Tocou-se agora em um ponto importante da dinâmica das redes: confiança. Paraque um hub possa cumprir sua função é necessário que as pessoasconfiem nele.Em vez de conhecimento individual, um hub precisa do reconhecimentosocial. Trata-se de um reconhecimento diferente daquele que semanifesta em relação a uma celebridade: não é um reconhecimento dasmassas, do grande público, das multidões e sim o reconhecimentorealizado um a um, molecular. Assim, pode-se dizer que o hub é“produzido” socialmente pela rede. 406
  • 407. Em mundos altamente conectados um hub tende a cumprir um papelsocialmente mais relevante do que os que colecionaram muitos títulosacadêmicos, acumularam muita riqueza ou conquistaram muito poder. 407
  • 408. InovadoresEm mundos altamente conectados um inovador tende a cumprir umpapel social mais relevante do que o dos colecionadores de diplomasA RIGOR – E EM UM SENTIDO GERAL – todas as pessoas são inovadoras.Se não fossem, se não tivessem a capacidade de modificar passado, deintroduzir uma nova rotina ou uma nova dinâmica que rompe com arepetição de passado, não poderiam ter (novas) ideias: estariampsicologicamente mortas.Chama-se, porém, de inovadores, stricto sensu, àqueles que cumprem opapel social de introduzir inovações que modificam a maneira como umarede se configura, provocando desequilíbrios que alteram os ritmos e oscaminhos das fluições.Inovadores são muito diferentes dos hubs. Em geral não são conhecidos —e não conhecem — muita gente, nem são, na maior parte dos casos,muito conectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a seramplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, via de regra,fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens narede que acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes(considerando a rede social como um sistema de agentes). 408
  • 409. Quando esse processo ocorre, o inovador não sabe bem nem por quê nemo quê aconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço(feedback positivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendoreforçada e amplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede.Tais mensagens podem ser ideias, modos de fazer ou estilos (como amoda, por exemplo), atitudes que contenham novos padrões. Sim, nãocusta repetir: um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido comotal, como já dizia, há tanto tempo, Norbert Wiener (1950) (14).O inovador — tal como o hub — também é “produzido” socialmente pelarede. Ninguém vira inovador apresentando sua inovação na TV, nosjornais ou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é umaperturbação no tecido social que vai se espalhando molecularmente,ponto a ponto. Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferiado sistema (quer dizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social), sãocapazes de se disseminar se conseguirem atingir uma espécie de tippingpoint (a coisa parece funcionar da mesma forma que a propagaçãoepidemiológica), mas para cada configuração de rede e, a rigor, para cadatipo de mensagem, pode-se ter um “ponto de desequilíbrio” diferente, apartir do qual a mensagem passa a se disseminar exponencialmente.Nem sempre, porém, os inovadores veem os resultados de sua inovação.Muitas vezes, eles desencadeiam mudanças de comportamento que sóvão aparecer muito tempo depois, quando não se pode mais atribuir a uminovador particular a paternidade da inovação, pois é próprio da dinâmicada rede social que muitas mensagens se misturem, combinem-se e setransformem em outras mensagens. 409
  • 410. Uma longa jornada ainda será percorrida antes de se assumir maisamplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já nãoestejam vigendo. Quem já está nos novos Highly Connected Worlds secomporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nosmeios científicos: no passado, um pesquisador, para ser reconhecido,precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizadapelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos)para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Hoje, boa parte dessepessoal publica, em seus próprios blogs, as descobertas que vai fazendo,imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Há que se convir que essaé uma mudança é tanto!Acontecerá com os inovadores o que já acontece com algumas atividadesintelectuais ou exercidas livremente na área do conhecimento; porexemplo, com os escritores.Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelos que leem o queele publica e não em virtude de ter obtido um título acadêmico ou umalicença de uma corporação de escribas para escrever ou, ainda, umatestado concedido por uma burocracia qualquer. Assim, em mundosaltamente conectados um inovador também tende a cumprir um papelsocial mais relevante do que o dos que colecionaram muitos títulosacadêmicos.A rede é uma ótima oportunidade para se quebrar o poder dasburocracias do conhecimento. Na verdade, para quebrar o poder dequalquer burocracia. 410
  • 411. “Quebrar” (to crack) é a primeira medida para desobstruir o que foientupido. Quanto mais ocorrem eventos de desobstrução, mais asociedade vai se comportando como uma entidade que aprende, pois oque é chamado de aprendizagem é sempre a abertura de novos caminhos.E mais, a sociedade vai se desenvolvendo, pois o que chamamos dedesenvolvimento é a mesmíssima coisa: a abertura de novasoportunidades de conexão (15).Este, porém, é o papel dos netweavers. 411
  • 412. NetweaversTodas as pessoas têm uma porção-netweaver. Se não fosse assim, nãopoderiam ser seres políticosNETWEAVERS SÃO OS “TECELÕES” (para aproveitar o que poderia ter sidouma feliz expressão de Platão, no diálogo O político, se ele não estivessese referindo a um sujeito autocrático), e os animadores de redesvoluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces paraconversar com a rede-mãe. Os netweavers não são necessariamente osestudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou osque pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre amorfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, sãopolíticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, querdizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistasou analistas políticos.Os políticos tradicionais, entretanto, não são netweavers e sim,exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social,verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem oscaminhos, destroem conexões, derrubam pontes ou fecham os atalhosque ligam um cluster a outros clusters, separando uma “região” da rede deoutras “regiões”, excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de 412
  • 413. anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipode poder com o qual lidam — o poder, em suma, de mandar alguém fazeralguma coisa contra sua vontade — é sempre o poder de obstruir, separare excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando ocomprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminhoda rede social ou aumentando seus graus de separação, ou seja,diminuindo a conectividade (e a interatividade). Não é por outro motivoque os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantesde recursos públicos, privatizando continuamente o capital social. Pode-sedizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers,visto que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e maiscentralizada ou descentralizada, isto é, multicentralizada. Também não é àtoa que todas as organizações políticas — mesmo no interior de regimesformalmente democráticos — têm topologia mais centralizada do quedistribuída. Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, opapel dos netweavers.Todas as pessoas têm uma porção-netweaver. Se não fosse assim, nãopoderiam ser seres políticos (e a democracia jamais poderia ter sidoinventada e reinventada).Mas em sentido estrito, chamamos de netweavers aqueles que sededicam a tecer redes. Esse talvez seja o papel social mais relevante emmundos altamente conectados. O que significa que, em um mundohierárquico, o netweaver é necessariamente um hacker (embora não sejaapenas isso). 413
  • 414. Netweaver howtoHá dez anos Eric Raymond concluiu a última versão do seu H4ck3rHowto. Entrando em uma época-fluzz, vamos precisar de um N3tw34v3rHowtoEM “COMO SE TORNAR UM HACKER” (texto que ficou conhecido emalguns meios como Hacker Howto), Eric Raymond (1996-2001) escreveuuma espécie de manual autodidático de aprendizagem sobre hacking.Para ele, o “hacking é uma atitude e uma habilidade na qual você tem quebasicamente ser autodidata. Você verá que, embora hackers de verdadequeiram lhe ajudar, eles não o respeitarão se você pedir "mastigado" tudoque eles sabem. Aprenda algumas coisas primeiro. Mostre que você estátentando, que você é capaz de aprender sozinho. Depois faça perguntasaos hackers que encontrar” (16).Raymond afirma que o termo “hacker” tem a ver “com aptidão técnica eum prazer em resolver problemas e superar limites”. Para ele, se você quersaber como se tornar um hacker, o relevante é o seguinte: “Existe uma comunidade, uma cultura compartilhada, de programadores experts e gurus de rede cuja história remonta a decadas atrás, desde os primeiros minicomputadores de tempo compartilhado e os primeiros experimentos na ARPAnet. Os 414
  • 415. membros dessa cultura deram origem ao termo "hacker". Hackers construíram a Internet. Hackers fizeram do sistema operacional Unix o que ele é hoje. Hackers mantém a Usenet. Hackers fazem a World Wide Web funcionar. Se você é parte desta cultura, se você contribuiu a ela e outras pessoas o chamam de hacker, você é um hacker. A mentalidade hacker não é confinada a esta cultura do hacker-de- software. Há pessoas que aplicam a atitude hacker em outras coisas, como eletrônica ou música – na verdade, você pode encontrá-la nos níveis mais altos de qualquer ciência ou arte. Hackers de software reconhecem esses espíritos aparentados de outros lugares e podem chamá-los de "hackers" também – e alguns alegam que a natureza hacker é realmente independente da mídia particular em que o hacker trabalha. Mas no restante deste documento, nos concentraremos nas habilidades e dos hackers de software, e nas tradições da cultura compartilhada que deu origem ao termo ‘hacker” (17).É claro que a maioria dessas habilidades e atividades que caracterizam o“hacker-de-software” hoje não se colocariam mais assim. A comunidaderestrita dos programadores que cultivavam a cultura hacker explodiu paraalém dos limites de uma igrejinha. Essas habilidades e atividades estãoagora distribuídas praticamente por todas as redes que usam a Internet.No entanto, o mais relevante é que Raymond considerava que hacker étodo aquele que pratica uma “arte criativa” e, assim, não se reduz ao que 415
  • 416. faz o hacker-de-software, mas está baseada em quatro coisas: umaatitude geral, um conjunto de habilidades, uma cultura e umamentalidade hacker.Segundo Raymond, a atitude hacker poderia ser assim resumida: “Hackers resolvem problemas e constroem coisas, e acreditam na liberdade e na ajuda mútua voluntária. Para ser aceito como um hacker, você tem que se comportar de acordo com essa atitude. E para se comportar de acordo com essa atitude, você tem que realmente acreditar nessa atitude... Assim como em todas as artes criativas, o modo mais efetivo para se tornar um mestre é imitar a mentalidade dos mestres – não só intelectualmente como emocionalmente também” (18).É significativo que Raymond tenha insistido nesse ponto, aduzindo àexplicação acima o moderno poema zen: “To follow the path: look to themaster, follow the master, walk with the master, see through the master,become the master” (Para seguir o caminho: olhe para o mestre, siga omestre, ande com o mestre, veja através do mestre, torne-se o mestre)(19).“Então - recomenda Raymond – se você quer ser um hacker, repita asseguintes coisas até que você acredite nelas”. E aí elenca cinco crençasbásicas que, segundo seu ponto de vista, são acordes à atitude hacker: omundo está repleto de problemas fascinantes esperando para seremresolvidos (20); não se deve resolver o mesmo problema duas vezes (21); 416
  • 417. tédio e trabalho repetitivo são nocivos (22); liberdade é uma coisa boa(23); e atitude não substitui competência (24).No seu conjunto essas crenças configuram um bom libelo contra otrabalho (que ele chama de trabalho repetitivo: “tédio e trabalhorepetitivo não são apenas desagradáveis, mas nocivos também”) e a favorda diversão (sem negar a necessidade do esforço e da concentração: “otrabalho duro e a dedicação se tornará uma espécie de um intenso jogo,ao invés de trabalho repetitivo”); um estímulo à criatividade; uma apostano auto-aprendizado; um certo desprezo em relação ao desejo de obteraprovação social ou buscar a fama; um elogio à capacidade de viver com onecessário e de compartilhar gratuitamente (segundo Raymond, “é quaseum dever moral compartilhar informação, resolver problemas e depois daras soluções”); e – o mais importante – uma valorização da liberdade.Sobre isso ele escreveu: “Liberdade é uma coisa boa. Hackers são naturalmente anti- autoritários. Qualquer pessoa que lhe dê ordens pode impedi-lo de resolver qualquer que seja o problema pelo qual você está fascinado – e, dado o modo em que a mente autoritária funciona, geralmente arranjará alguma desculpa espantosamente idiota para fazer isso. Então, a atitude autoritária deve ser combatida onde quer que você a encontre, para que não sufoque a você e a outros hackers... Pessoas autoritárias prosperam na censura e no segredo. E desconfiam de cooperação voluntária e compartilhamento de informação – só gostam de "cooperação" que eles possam controlar. Então, para se comportar como um hacker, você tem que 417
  • 418. desenvolver uma hostilidade instintiva à censura, ao segredo, e ao uso da força ou mentira para compelir adultos responsáveis. E você tem que estar disposto a agir de acordo com esta crença” (25).Raymond lista em seguida as três habilidades básicas do hacker-de-software: aprender a programar, aprender a mexer com Unix e aprender ausar a World Wide Web e escrever em HTML.Sobre a cultura hacker, Eric Raymond observa: “Como a maioria das culturas sem economia monetária, a do hacker se baseia em reputação. Você está tentando resolver problemas interessantes, mas quão interessantes eles são, e se suas soluções são realmente boas, é algo que somente seus iguais ou superiores tecnicamente são normalmente capazes de julgar. Consequentemente, quando você joga o jogo do hacker, você aprende a marcar pontos principalmente pelo que outros hackers pensam da sua habilidade (por isso você não é hacker até que outros hackers lhe chamem assim). Esse fato é obscurecido pela imagem solitária que se faz do trabalho do hacker; e também por um tabu hacker-cultural que é contra admitir que o ego ou a aprovação externa estão envolvidas na motivação de alguém. Especificamente, a cultura hacker é o que os antropólogos chamam de cultura de doação. Você ganha status e reputação não por dominar outras pessoas, nem por ser bonito, nem por ter coisas que as pessoas querem, mas sim por doar coisas. Especificamente, por doar seu tempo, sua criatividade, e os resultados de sua habilidade” (26). 418
  • 419. Para Raymond existem basicamente “cinco coisas que você pode fazerpara ser respeitado por hackers”: escrever open-source software, ajudar atestar e depurar open-source software, publicar informação útil, ajudar amanter a infraestrutura funcionando e servir à cultura hacker em si.Sobre esse último ponto, vale a pena ler o que ele escreveu: “Você pode servir e propagar a cultura em si (por exemplo, escrevendo um apurado manual sobre como se tornar um hacker). Você só terá condição de fazer isso depois de ter estado por aí por um certo tempo, e ter se tornado conhecido por uma das primeiras quatro coisas. A cultura hacker não têm líderes, mas têm seus heróis culturais, "chefes tribais", historiadores e porta-vozes. Depois de ter passado tempo suficiente nas trincheiras, você pode ser tornar um desses. Cuidado: hackers desconfiam de egos espalhafatosos em seus "chefes tribais", então procurar visivelmente por esse tipo de fama é perigoso. Ao invés de se esforçar pela fama, você tem que de certo modo se posicionar de modo que ela "caia" em você, e então ser modesto e cortês sobre seu status” (27).Por último, sobre a mentalidade hacker, Raymond diz que, para entrarnessa mentalidade “há algumas coisas que você pode fazer quando nãoestiver na frente de um computador e que podem ajudar... [coisas que]estão ligadas de uma maneira básica com a essência do hacking”: lerficção científica, estudar o Zen ou fazer artes marciais, desenvolver umouvido analítico para música, desenvolver sua apreciação por trocadilhose jogo de palavras e aprender a escrever bem em sua língua nativa (28). 419
  • 420. Raymond nos deu algumas preciosas dicas – embora tenha, aqui e ali,corretamente, extrapolado isso – para que pudéssemos programar emambientes digitais ou virtuais. A ele certamente ocorreu, mas dissoaparentemente não tirou muitas consequências, que hackers não sãoprogramadores; são, mais, desprogramadores. Você pode hackear umaescola, uma igreja, um partido, uma organização estatal, uma empresa,sem nunca ter encostado em um computador ou em um dispositivo móvelde navegação. A rigor, você pode (e deveria, se quisesse mesmo viver emoutro mundo) hackear sua família.Não se trata, portanto, apenas de elaborar e modificar softwares ehardwares de computadores, desenvolvendo funcionalidades novas ouadaptando as antigas à revelia (ou não) dos seus proprietários. Nem setrata de invadir para bagunçar, violar, roubar senhas, tirar do ar, como sediz que fazem os hackers sem ética, ou sem a ética-hacker, os dark-sidehackers como os crackers.Há dez anos Eric Raymond concluiu a última versão do seu H4ck3r Howto.Mas agora, entrando em uma época-fluzz, vamos precisar de umN3tw34v3r Howto.Se você quiser se dedicar ao netweaving, comece esquecendo toda essabullshit sobre ética como conjunto de normas sobre o que fazer ou não-fazer válidas para qualquer interação e estabelecidas antes da interação.O que caracteriza o netweaver é o que ele faz e não um conjunto decrenças ou valores, por mais excelsos, solidários ou do-bem que possamser estimados. 420
  • 421. Todo netweaver é um hacker no sentido ampliado do termo (para além do“hacker-de-software”). Mas nem todo hacker é netweaver. O netweaver éum hacker-fluzz. Para se tornar um netweaver, não é necessário seguir ocaminho (mesmo porque não existe o caminho), mas jogar-se no não-caminho: naquele sentido poético do “perder-se também é caminho” deClarice Lispector (1969) (29); nem, muito menos, é o caso de olhar omestre, seguir o mestre, andar com o mestre, ver através do mestre etornar-se o mestre, como sugere o poema Zen reproduzido por Raymond;senão de fazer exatamente o contrário: matar o mestre!O netweaver não é um indivíduo excepcional, destacando-se dos demaisno velho mundo único por seu espírito criativo e por sua dedicaçãoconcentrada em inovar: ele é uma função social dos mundos altamenteconectados. Nos Highly Connected Worlds não se trata mais de constituiruma tribo dos diferentes (diferentes dos outros, dos que não-são) ou umacomunidade dos iguais (que se reconheçam mutuamente: como disseRaymond, “você não é hacker até que outros hackers lhe chamem assim”).Não há uma atitude geral fundante, um conjunto de habilidades certas,uma cultura adequada comum e uma mentalidade distinta baseada emum sistema de crenças. São muitas comunidades, muitas tribos, com asmais variadas atitudes e habilidades, miscigenando suas culturasenquanto seus agentes nômades viajam pelos interworlds. E poucoimporta as crenças de cada uma das pessoas ou aglomerados de pessoasque se dedicam ao netweaving. Para orientar e multiplicar os hackers, decerto modo, Eric Raymond quis fazer uma escola (ainda que baseada naautoaprendizagem e no reconhecimento mútuo). Para ensejar o 421
  • 422. florescimento do novo papel social do netweaver, trata-se, pelo contrário,de apostar que sua livre interação enxameie não-escolas.Não pode haver, portanto, um receituário procedimental elencandohabilidades técnicas para alguém se tornar netweaver. Você não precisasaber programar. Você não precisa só usar o Linux (nem entrar na igrejado software livre, que – convenhamos – em alguns países da AméricaLatina está mais para partido). Você não precisa saber escrever emHTML5. Para fazer hacking (no sentido ampliado do termo) – como umadas dimensões do netweaving – você precisa estar disposto adesprogramar hierarquias (hackeando aquelas instituições erigidas nocontra-fluzz, como, por exemplo, escolas, igrejas, partidos, Estados eempresas-hierárquicas). E para fazer netweaving não há nenhumconteúdo substantivo (filosófico, científico ou técnico) que você tenha queadquirir: basta desobedecer, inovar e tecer redes. Isto sim, você vai terque aprender: a tecer redes – da única maneira possível de se aprenderisso: interagindo com outras pessoas sem erigir hierarquias (sem mandarnos outros e sem obedecer a alguém). Isto é netweaving!Não é algum conteúdo que determina seu comportamento. Para se tornarnetweaver não se trata de saber, mas de ser. Se você é um hacker – tãoconvicto e habilidoso como o próprio Raymond, ou Torvalds, ou Stallman,ou Cox, ou Tanenbaum – mas constrói suas patotas e igrejinhas, ou montaempresas-hierárquicas, ou, ainda, erige quaisquer outras organizaçõescentralizadas e nelas convive com as outras pessoas o tempo todo, entãovocê não poderá ser um netweaver, mas não por motivos éticos oumorais, por estar sendo incoerente com suas crenças e sim porque, nestas 422
  • 423. condições, você dificilmente conseguirá aprender a articular e animarredes (distribuídas).Enfatizando, não é porque você violou princípios ou não observou valores.Não é porque você não compartilhou o que sabe, nem porque transgrediua “cultura da doação” para ganhar mais dinheiro. Aliás, como disse opróprio Raymond “não é inconsistente usar suas habilidades de hackerpara... ficar rico, contanto que você não esqueça que é um hacker”. Umnetweaver também pode ser – ou ficar – rico. Esse não é o ponto. O queum netweaver não pode é não ser um netweaver; ou seja, o que faz onetweaver não é um conjunto de conhecimentos adquiridos (ou deopiniões proferidas, habilidades técnicas exercitadas, capacidadescognitivas desenvolvidas) ou valores abraçados e sim o que o netweaverfaz. Se não faz rede, não é netweaver (ainda que, pelo visto, possa serhacker).A parte hacking do netweaving é aquela que desprograma, que corta (tohack) ou quebra (to crack) as cadeias de scripts dos programasverticalizadores que perturbam o campo social centralizando a rede-mãe egerando aglomeramentos no contra-fluz (que aparecem então comoinstituições hierárquicas). Hackeando tais instituições pode-se introduzirfuncionalidades diferentes das originais como, por exemplo: aexperimentação da livre aprendizagem em vez da transmissão doensinamento (essa é uma espécie de “virus” não-escola, poderíamoschamar assim tais experiências, em termos metafóricos); ocompartilhamento da espiritualidade espontânea em vez do seuenquadramento e cerceamento por meio das práticas religiosas e dos 423
  • 424. rituais das igrejas (“virus” não-igreja); o exercício voluntário e cooperativoda política pública e da democracia comunitária em vez da disciplina e dafidelidade partidárias (“virus” não-partido); a vivência do localismocosmopolíta em vez do refúgio no nacionalismo e no patriotismoinsuflados pelo Estado (“virus” não-Estado-nação); a associação deempreendedores para polinizarem mutuamente seus sonhos em vez damontagem de estruturas para arrebanhar trabalhadores e subjugá-los emprol da realização do sonho único de alguém (“virus” não-empresa-hierárquica).Todo resto pode ser abandonado. Nada de religião: para o netweavingvocê pode fazer todas essas coisas usando o Linux, mas também oMicrosoft Windows ou o Mac OS ou o Chrome OS; ou, mesmo, não usarnada disso. Você pode empregar uma das dezenas de plataformas p-baseddisponíveis, como o Elgg e também o Ning, o Grouply, o Grou.ps (ou,melhor ainda, pode ajudar a desenvolver uma plataforma i-based) oupode tentar se virar com sites de relacionamento como Orkut ouFacebook. Você pode usar o identi.ca ou ir se arranjando com o Twitter.Ou então você pode sair do mundo virtual ou digital e promoveratividades presenciais de netweaving, como rodas de conversação,desconferências ou Open Spaces, World Cafés etc. Para os “netweavers-de-software” (por assim dizer) o principal desafio é desenvolvertecnologias interativas (i-based) de netweaving: ferramentas digitaisadequadas à articulação e animação de redes sociais. E há muitos outrosdesafios tecnológico-sociais que estão colocados para todos osnetweavers (e não apenas os que mexem com softwares) para intensificar 424
  • 425. a interatividade. Mas nenhuma ferramenta, nenhuma técnica oumetodologia e nenhuma dinâmica é realmente essencial. O essencial éarticular e animar redes distribuídas de pessoas. Ou seja, o grande desafioé social mesmo.Enfatizando, mais uma vez: de nada adianta você só usar free software eas mais avançadas técnicas dialógicas de conversação se você continua seorganizando hierarquicamente, se sua organização é centralizada oufechada (e, portanto não-free) e se você privatiza o conhecimento quepoderia ser comum, vedando o acesso público (e, dessarte, seu conteúdotambém será não-free).Desprogramar sociosferas – a parte hacker do netweaver – não basta: énecessário reprogramá-las, construindo seus próprios mundos. Eis porque,por meio do netweaving, mundos-bebês estão agora em gestação. 425
  • 426. Eles já estão entre nósNos Highly Connected Worlds o que vale são suas antenasNETWEAVING É CRIAÇÃO DE NOVOS MUNDOS. Não é uma tribo especial –a décima-terceira tribo (dos hackers) de Israel ou dos sionistas digitais –que pode fazer netweaving, não é um cluster de gênios, uma fraternidadede seres notáveis, dotados de faculdades e qualidades excepcionais,super-humanas. É você! Se você não fizer, nada se modificará em seumundo (ou melhor, você não poderá sair do mundo que lhe impuseram eno qual você está aprisionado). Para tanto, você não precisa ser mais doque você é. Você só precisa ser o que você pode ser como revelação oudescoberta do que você é.Quando foi a Oslo, receber o Prêmio Nobel da Paz, Albert Schweitzer(1952) disse em seu discurso que “nos tornamos tanto mais desumanosquanto mais nos convertemos em super-homens”. É isso. Trata-se de sermais humano, não mais-do-que-humano.Durante milênios fomos contaminados com a idéia perversa de que nãodevemos ser o que somos. Tudo que nos diziam é que devíamos nossuperar, nos destacar dos semelhantes, separarmo-nos da plebe quehabita a planície ou chafurda no pântano e subir aos píncaros da glória 426
  • 427. para ter sucesso na vida. Quem ficasse para trás era um looser. Ou alguémque não desenvolveu suas potencialidades, que bloqueou sua “evolução”mental ou espiritual ou que não foi capaz de se transformar ou de seaperfeiçoar.Mas você não tem que se transformar no que você não é. Não há nadaerrado com você. Você não veio com defeito de fábrica, que precise serconsertado por alguma instituição hierárquica. Você não precisa serreformado pelo Estado e seus aparatos, como querem os autocratas detodos os matizes. Você não precisa ser educado – quer dizer, ensinado,adestrado, domado – para aplacar uma suposta besta-fera que existe noseu interior. Não há nada no seu interior humano além da composiçãofractal de todos os outros humanos que fazem com que você seja umapessoa. O humano é um maravilhoso encontro fortuito do simbiontenatural (em evolução) com o simbionte social (em prefiguração).Ser humano é algo muito, mas muito mais importante do que qualquercoisa, mais importante do que um deus (e conta-se que teve até um deusque, percebendo isso, quis se tornar humano), um santo ou um herói;mais importante do que qualquer título, propriedade, cargo ou índice depopularidade: nada disso importa se você não conseguir formar sua almahumana, quer dizer, se não conseguir tornar-se pessoa.Tornar-se pessoa. Pessoa comum. Não santo. Pois há também o caminhoexcepcional dos santos (que são pessoas incomuns). George Orwell (1948)nas suas inquietantes Reflexões sobre Gandhi elaborou, talvez, a maisprofunda (e corajosa) crítica à disciplina religiosa tomando como exemplo 427
  • 428. a “disciplina que Gandhi impôs a si mesmo e que – embora ele possa nãoinsistir com seus seguidores que observem cada detalhe – acreditava serindispensável se quiséssemos servir a Deus ou à humanidade. Em primeirolugar, não comer carne e, se possível, nenhum alimento animal sobqualquer forma... Nada de bebida alcoólica ou tabaco, nenhum temperoou condimento, mesmo do tipo vegetal... Em segundo lugar, se possível,nada de relação sexual... E, por fim – este o ponto principal –, para quembusca a bondade não deve haver quaisquer amizades íntimas e amoresexclusivos” (30). Então vem a crítica cortante de Orwell: “O essencial no fato de sermos humanos é que não buscamos a perfeição, é que às vezes estamos propensos a cometer pecados em nome da lealdade, é que não assumimos o ascetismo a ponto de tornar impossível uma amizade, é que no fim estamos preparados para ser derrotados e fragmentados pela vida, que é o preço inevitável de fixarmos nosso amor em outros indivíduos humanos. Sem dúvida, bebidas alcoólicas, tabaco etc. são coisas que um santo deve evitar, mas santidade também é algo que os seres humanos devem evitar. Para isso há uma réplica óbvia, porém temos de ser cautelosos em fazê-la. Nesta época dominada por iogues, supõe-se com demasiada pressa não só que o “desapego” é melhor do que a aceitação total da vida terrena como também que o homem comum só a rejeita porque ela é muito difícil: em outras palavras, que o ser humano mediano é um santo fracassado. É duvidoso que isso seja verdade. Muitas pessoas não desejam sinceramente ser santas, e é 428
  • 429. provável que as que alcancem a santidade, ou que a ela aspirem, jamais tenham sentido muita tentação de ser seres humanos” (31).Ter percebido que esse “homem comum”, esse “ser humano mediano”não é “um santo fracassado” foi a grande sacada de Orwell,desmascarando o que nos impuseram as igrejas ao colocarem como ideala superação do humano, o seu aperfeiçoamento, a sua “espiritualização”,como se houvesse alguma coisa errada com os que vivem sua vida e suaconvivência sem se submeterem a alguma disciplina religiosa, ascética,mesmo quando voltada ao bem da humanidade (como os santos, osbodisatvas e os mahatmas – que, talvez, não tenham conseguido chegar aser pessoas comuns).Sim, tornar-se pessoa. Pessoa comum. Não herói. Herói também é umapessoa incomum. É outra escapada da humanidade. É alguém quesupostamente “superou” sua condição humana. Toda cultura hierárquicaé construída a partir do mito do herói, um Hércules que vence desafiosinsuperáveis (pelas pessoas comuns) e realiza missões impossíveis (para aspessoas comuns). Não é por acaso que, frequentemente, o herói é umguerreiro que demonstrou bravura em batalha e foi agraciado pelos seussuperiores (fabricantes de guerras) com medalhas (um reconhecimento daorganização montada pelos construtores de pirâmides). Depois tal culturaapenas se deslocou para as outras pirâmides e apareceram os heróisempresariais (como muitos capitães de indústria, badalados nas revistasde negócios), os heróis políticos (como os condutores de rebanhos,glorificados pelos seus índices de popularidade), até chegar aos heróis dafilantropia (que também são premiados pelo volume da caridade que 429
  • 430. praticam). E há ainda os heróis revolucionários, aqueles “guias geniais dospovos” (muitos deles genocidas como Stalin ou Mao – este último, aliás, ocampeão em número de mortes infligidas a outros seres humanos emtoda história e pré-história humana). Até Julian Assange do Wikileaks éheroificado: positivamente (pela sua luta contra a opacidade dos Estados-nações) ou negativamente (pelo seu irresponsável anarquismo, capaz decolocar em risco a moral de quadrilha e o pacto de silêncio entre osEstados-nações chamado de “ordem internacional”).Sob esse influxo verticalizante as pessoas tendem a achar que não podemfazer nada de muito significativo, pois são apenas... pessoas comuns, nãoheróis. Elas são induzidas a achar que são heróis fracassados, que não sãoboas o suficiente para realizar grandes feitos, promover magníficastransformações. Nesse modelo épico são levadas a acreditar que somenteformidáveis revoluções e mega-reformas conduzidas por extraordinárioslíderes heroicos são capazes de fazer a diferença, desprezando aquelasseminais experiências líricas vividas por pessoas comuns.Como já sabiam as pessoas-zen, não é fácil ser uma pessoa comum, aocontrário do que parece. No mundo único fomos induzidos a conquistaralgum diferencial para nos destacarmos das pessoas comuns. Quandointeragimos com alguém em qualquer ambiente hierárquico somosavaliados por esses diferenciais e começamos então a cultivá-los. Comoreflexo dos fluxos verticais que passamos a valorizar, nossa vida tambémse verticaliza. É como se importássemos a anisotropia gerada na rede-mãepela hierarquia. Nessa ânsia de subir, começamos a imitar os de cima e adesprezar os de baixo. 430
  • 431. O caso limite é a chamada celebridade (e os psicólogos, psicanalistas epsiquiatras que tratam das patologias incidentes em quem se mantémnessa condição têm muito a contar sobre a perturbação da personalidadeque pode levar, em determinadas circunstâncias, quando combinada comoutros fatores, ao surgimento de pulsões autodestrutivas, às drogas e àviolência). Mesmo que tais consequências extremas não aconteçam, hásempre um isolamento (aquele cruel isolamento de que reclamam todosos grandes líderes hierárquicos e os condutores de rebanhos), causadopelo represamento de fluzz.Em certa medida, em sociedades e organizações hierárquicas viramos(todos nós, não apenas as celebridades) seres da aparência, deformadospelo broadcasting, usando nossas antenas quase que somente paradifundir as características de nossa persona (como queremos que osoutros nos vejam) e não para captar outros padrões de convivência. Éassim que não desenvolvemos nossas características-hub e, emconsequência, perdemos interatividade, sobretudo porque não queremosnos manter abertos à interação com o outro imprevisível por medo de nosconfundirmos com qualquer um, com seres de menor importância do quenós (porque têm menos títulos, menos riqueza, menos poder ou menospopularidade do que nós). Para nos protegermos da livre interaçãopassamos a conviver apenas com aqueles que se parecem conosco eficamos cada vez mais parecidos com eles, por um mecanismo que já foiexplicado pelo físico Mark Buchanan (2007) em O átomo social (32). Comoresultado, ficamos cada vez mais aprisionados em nosso submundo domundo único: ainda que morando em uma megalópole de dez milhões de 431
  • 432. habitantes, frequentamos os mesmos clubes, moramos nos mesmosbairros, gozamos nossas férias nas mesmas localidades e fazemos osmesmos roteiros de viagem, jogamos os mesmos jogos, usamos asmesmas roupas e conversamos as mesmas conversas.É claro que, nessas circunstâncias, temos muitas dificuldades de serpessoas-fluzz. Ficamos cada vez mais opacos, duros e quebradiços, porquenão queremos ser membrana, não queremos que o fluxo nos atravesse.Como consequência, perdemos caminhos para outros mundos. E issosignifica que não fazemos novas conexões (reduzindo nosso número deamigos), mas significa também que não conseguimos nem “ver” asconexões (perdemos nossas antenas porque ficamos concentrados emcavucar nossas raízes, até sermos enterrados junto com elas).Quando se coloca em processo de fluzz uma pessoa deixa de lutar parasubir, para ter sucesso, para se igualar ou imitar os ricos, os poderosos, osmuito titulados e os famosos. Libertando-se da exigência de ser uma VIP(very important person), ela começa a revalorizar seus relacionamentoshorizontais. Nessa jornada terapêutica, vai se curando das sociopatiasassociadas às perturbações no campo social introduzidas pela hierarquia evai caminhando, no seu próprio passo e do seu próprio jeito, em direçãoao supremo objetivo de virar uma pessoa comum.O vento continua soprando... e a cada dia surgem miríades de pessoasdesconhecidas que, simplesmente, já não ligam para nada disso, paranenhum desses indicadores de sucesso da sociedade hierárquica, sejam 432
  • 433. materiais ou espirituais. Elas não têm medo de entrar na orgia fúngica,lançando suas hifas para todo lado (e não apenas para cima).Essas pessoas desobedecem. Não dão a mínima para os que queremavaliá-las pelas suas raízes, pela sua descendência (seu patrimôniogenético ou seu “sangue”) e pelo ambiente em que nasceram e foramcriadas na primeira infância (o seu “berço”), pelos seus certificados,diplomas e títulos (conferidos por alguma burocracia sacerdotaltrancadora de conhecimento) ou pelos seus graus (conferidos por algummestre ou confraria), pela sua riqueza acumulada, pelo seu poderconquistado ou pela sua popularidade. Elas sabem que nos HighlyConnected Worlds o que vale são suas antenas.Essas pessoas comuns antenadas, esses múltiplos anônimos conectados,criadores de uma diversidade incrível de mundos, estão aí do seu lado.Sim, eles já estão entre nós. 433
  • 434. Notas e referências(*) NETWEAVER HOWTO é originalmente parte do livro-mãe Fluzz: vidahumana e convivência social nos novos mundos altamente conectados doterceiro milênio (2011). O livro Fluzz nasceu a partir de reflexõesintermitentes do autor durante a última década. Talvez tenha surgido doespanto com a palavra ‘Entidade’, tal como foi usada – com maiúscula –por Jane Jacobs (1961), em Morte e Vida das Grandes CidadesAmericanas: “As inter-relações que permitem o funcionamento de umdistrito como uma Entidade não são nem vagas nem misteriosas.Consistem em relacionamentos vivos entre pessoas...” Difícil saber agora,quase cinco anos após sua morte, tudo que ela queria realmente dizercom ‘Entidade’ (com maiúscula) e ‘relacionamentos vivos’ (que parece serdiferente de relacionamento ‘entre vivos’). De qualquer modo, isso foiinterpretado aqui como ‘viver a convivência’. Quando vivemos nossaconvivência (social) produzimos um novo tipo de vida (humana). Esta é aidéia básica.A palavra ‘fluzz’ nasceu de uma conversa informal do autor, no início de2010, com Marcelo Estraviz, sobre o Buzz do Google. O autor observavaque Buzz não captava adequadamente o fluxo da conversação,argumentando que era necessário criar outro tipo de plataforma (i-based 434
  • 435. e não p-based). Marcelo Estraviz respondeu com a interjeição ‘fluzz’, naocasião mais como uma brincadeira, para tentar traduzir a idéia deBuzz+fluxo. Ulteriormente a idéia foi desenvolvida e recebeu outrossignificados, que não têm muito a ver com o programa malsucedido doGoogle, como se pode ver neste livro.O livro original, publicado em formato digital no início de 2011, foifragmentado em várias partes autônomas, no estilo shortbook ou booklet(contendo em média, 20 mil palavras). Este é o oitavo volume da série,intitulado Netweaver Howto: como se tornar um netweaver.(1) MARGULIS, Lynn & SAGAN, Dorian (1998). O que é vida? Rio de Janeiro:Zahar, 2022.(2) O caso de Hobbes é notável, pois além de esse pensador ter lançado osfundamentos para uma justificação filosoficamente elaborada daautocracia, também derruiu os pressupostos cooperativos de qualqueridéia democrática, tendo influência marcante sobre grande parte dospensadores de outras disciplinas científicas que surgiram ulteriormente –como a biologia da evolução e a economia – até, praticamente, o final doséculo 19. A esse respeito vale a pena ler a brilhante passagem de MattRidley (1996) no livro As origens da virtude: “Thomas Hobbes foi oantepassado intelectual de Charles Darwin em linha direta. Hobbes (1651)gerou David Hume (1739), que gerou Adam Smith (1776), que gerouThomas Robert Malthus (1798), que gerou Charles Darwin (1859). Foidepois de ler Malthus que Darwin deixou de pensar sobre competiçãoentre grupos e passou a pensar sobre competição entre indivíduos, 435
  • 436. mudança que Smith fizera um século antes. O diagnóstico hobbesiano –embora não a receita – ainda está no centro tanto da economia quanto dabiologia evolutiva moderna (Smith gerou Friedman; Darwin gerouDawkins). Na raiz das duas disciplinas está a noção de que, se o equilíbrioda natureza não foi projetado de cima, mas surgiu de baixo, não há motivopara pensar que se trata de um todo harmonioso. Mais tarde, JohnMaynard Keynes diria que “A Origem das Espécies” é “simples economiaricardiana expressa em linguagem científica”. E Stephen Jay Gould disseque a seleção natural “era essencialmente a economia de Adam Smithvista na natureza”. Karl Marx fez mais ou menos a mesma observação: “Énotável”, escreveu ele a Friedrich Engels, em junho de 1862, “como Darwinreconhece, entre os animais e as plantas, a própria sociedade inglesa àqual pertence, com sua divisão de trabalho, competição, abertura denovos mercados, ‘invenções’ e a luta malthusiana pela existência. É a‘bellum omnium contra omnes de Hobbes’”. Cf. RIDLEY, Matt (1996). Asorigens da virtude: um estudo biológico da solidariedade. Rio de Janeiro:Record, 2000.(3) HOBBES, Thomas (1651). Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.(4) Idem.(5) TENNYSON, Alfred (Lord) (1849). In Memorian A. H. H. Canto 56: “Whotrusted God was love indeed / And love Creations final law / Tho Nature,red in tooth and claw / With ravine, shriekd against his creed”. Cf. o linkabaixo:<http://en.wikipedia.org/wiki/In_Memoriam_A.H.H.> 436
  • 437. (6) Literalmente: “It is war minus the shooting”. Cf. ORWELL, George(1945). The Sporting Spirit. London: Tribune, December 1945. Disponívelem:<http://orwell.ru/library/articles/spirit/english/e_spirit>(7) MATURANA, Humberto (1993). La democracia es una obra de arte(alocução em uma mesa redonda organizada pelo Instituto para oDesenvolvimento da Democracia Luis Carlos Galan, Colômbia). Bogotá:Editorial Magistério, 1993.(8) GORDON, Deborah (1999). Formigas em ação: como se organiza umasociedade de insetos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.(9) MARGULIS, L. & SAGAN, D.: Op. cit.(10) GLADWELL, Malcolm (2008). Fora de série (Outliers). Rio de Janeiro:Sextante, 2008.(11) Idem.(12) Idem-idem.(13) Idem-ibidem.(14) WIENER, Norbert (1951). Cibernética e sociedade: o uso humano deseres humanos. São Paulo: Cultrix, 1993.(15) Cf. FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Nova visões sobre asociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundoglocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008. 437
  • 438. (16) RAYMOND, Eric (1996-2001). Como se tornar um hacker. Disponívelem:<http://www.linux.ime.usp.br/~rcaetano/docs/hacker-howto-pt.html>(17) Idem.(18) Idem-idem.(19) RAYMOND, Eric (2001). How to become a hacker. Disponível em:<http://www.catb.org/~esr/faqs/hacker-howto.html>(20) “O mundo está repleto de problemas fascinantes esperando paraserem resolvidos. Ser hacker é muito divertido, mas é um tipo de diversãoque necessita de muito esforço. Para haver esforço é necessáriomotivação. Atletas de sucesso retiram sua motivação de uma espécie deprazer físico em trabalhar seus corpos, em tentar ultrapassar seus próprioslimites físicos. Analogamente, para ser um hacker você precisa ter umaemoção básica em resolver problemas, afiar suas habilidades e exercitarsua inteligência. Se você não é o tipo de pessoa que se sente assimnaturalmente, você precisará se tornar uma para ser um hacker. Senão,você verá sua energia para "hackear" sendo esvaída por distrações comosexo, dinheiro e aprovação social. (Você também tem que desenvolveruma espécie de fé na sua própria capacidade de aprendizado – crer que,mesmo que você não saiba tudo o que precisa para resolver um problema,se souber uma parte e aprender a partir disso, conseguirá aprender osuficiente para resolver a próxima parte – e assim por diante, até que vocêtermine)”. Cf. RAYMOND, Eric: Op. cit. 438
  • 439. (21) “Não se deve resolver o mesmo problema duas vezes. Mentescriativas são um recurso valioso e limitado. Não devem ser desperdiçadasreinventando a roda quando há tantos problemas novos e fascinantes poraí. Para se comportar como um hacker, você tem que acreditar que otempo de pensamento dos outros hackers é precioso – tanto que é quaseum dever moral compartilhar informação, resolver problemas e depois daras soluções, para que outros hackers possam resolver novos problemas aoinvés de ter que se preocupar com os antigos indefinidamente. (Você nãotem que acreditar que é obrigado a dar toda a sua produção criativa,ainda que hackers que o fazem sejam os mais respeitados pelos outroshackers. Não é inconsistente com os valores do hacker vender o suficienteda sua produção para mantê-lo alimentado e pagar o aluguel ecomputadores. Não é inconsistente usar suas habilidades de hacker parasustentar a família ou mesmo ficar rico, contanto que você não esqueçaque é um hacker)”. Cf. RAYMOND, Eric: Op. cit.(22) “Tédio e trabalho repetitivo são nocivos. Hackers (e pessoas criativasem geral) não podem ficar entediadas ou ter que fazer trabalho repetitivo,porque quando isso acontece significa que eles não estão fazendo o queapenas eles podem fazer – resolver novos problemas. Esse desperdícioprejudica a todos. Portanto, tédio e trabalho repetitivo não são apenasdesagradáveis, mas nocivos também. Para se comportar como um hacker,você tem que acreditar nisso de modo a automatizar as partes chatastanto quanto possível, não apenas para você como para as outras pessoas(principalmente outros hackers). (Há uma exceção aparente a isso. Àsvezes, hackers fazem coisas que podem parecer repetitivas ou tediosas 439
  • 440. para um observador, como um exercício de "limpeza mental", ou paraadquirir uma habilidade ou ter uma espécie particular de experiência quenão seria possível de outro modo. Mas isso é por opção -- ninguém queconsiga pensar deve ser forçado ao tédio”. Cf. RAYMOND, Eric: Op. cit.(23) “Liberdade é uma coisa boa. Hackers são naturalmente anti-autoritários. Qualquer pessoa que lhe dê ordens pode impedi-lo de resolverqualquer que seja o problema pelo qual você está fascinado – e, dado omodo em que a mente autoritária funciona, geralmente arranjará algumadesculpa espantosamente idiota isso. Então, a atitude autoritária deve sercombatida onde quer que você a encontre, para que não sufoque a você ea outros hackers. (Isso não é a mesma coisa que combater toda e qualquerautoridade. Crianças precisam ser orientadas, e criminosos, detidos. Umhacker pode aceitar alguns tipos de autoridade a fim de obter algo que elequer mais que o tempo que ele gasta seguindo ordens. Mas isso é umabarganha restrita e consciente; não é o tipo de sujeição pessoal que osautoritários querem). Pessoas autoritárias prosperam na censura e nosegredo. E desconfiam de cooperação voluntária e compartilhamento deinformação – só gostam de "cooperação" que eles possam controlar.Então, para se comportar como um hacker, você tem que desenvolver umahostilidade instintiva à censura, ao segredo, e ao uso da força ou mentirapara compelir adultos responsáveis. E você tem que estar disposto a agirde acordo com esta crença”. Cf. RAYMOND, Eric: Op. cit.(24) “Atitude não substitui competência. Para ser um hacker, você tem quedesenvolver algumas dessas atitudes. Mas apenas ter uma atitude nãofará de você um hacker, assim como não o fará um atleta campeão ou 440
  • 441. uma estrela de rock. Para se tornar um hacker é necessário inteligência,prática, dedicação, e trabalho duro. Portanto, você tem que aprender adesconfiar de atitude e respeitar todo tipo de competência. Hackers nãodeixam posers gastar seu tempo, mas eles idolatram competência –especialmente competência em "hackear", mas competência em qualquercoisa é boa. A competência em habilidades que poucos conseguemdominar é especialmente boa, e competência em habilidades queenvolvem agudeza mental, perícia e concentração é a melhor. Se vocêreverenciar competência, gostará de desenvolvê-la em si mesmo – otrabalho duro e dedicação se tornará uma espécie de um intenso jogo, aoinvés de trabalho repetitivo. E isso é vital para se tornar um hacker”. Cf.RAYMOND, Eric: Op. cit.(25) Cf. RAYMOND, Eric: Op. cit.(26) Idem.(27) Idem-idem.(28) Idem-ibidem.(29) LISPECTOR, Clarice (1969). Uma aprendizagem ou O livro dosprazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.(30) ORWELL, George (1948). Reflexões sobre Gandhi in ORWELL, George(1984). Dentro da baleia e outros ensaios. São Paulo: Companhia dasLetras, 2005.(31) Idem. 441
  • 442. (32) BUCHANAN, Mark (2007). O átomo social. São Paulo: Leopardo, 2010. 442
  • 443. 443
  • 444. 444
  • 445. 445
  • 446. 446
  • 447. 447
  • 448. BEM-VINDOS AOS NOVOS MUNDOS-FLUZZAugusto de Franco, 2012.Versão Beta, sem revisão. A versão digital desta obra foi entregue ao Domínio Público, editadacom o selo Escola-de-Redes por decisão unilateral do autor.Domínio Público, neste caso, significa que não há, em relação a versão digital destaobra, nenhum direito reservado e protegido, a não ser o direito moral de o autor serreconhecido pela sua criação. É permitida a sua reprodução total ou parcial, porquaisquer meios, sem autorização prévia. Assim, a versão digital desta obra pode ser –na sua forma original ou modificada – copiada, impressa, editada, publicada edistribuída com fins lucrativos (vendida) ou sem fins lucrativos. Só não pode seromitida a autoria da versão original.FRANCO, Augusto de BEM-VINDOS AOS NOVOS MUNDOS-FLUZZ / Augusto de Franco – São Paulo:2012. 44 p. A4 – (Escola de Redes; 16) 1. Redes sociais. 2. Organizações. 3. Escola de Redes. I. Título.Escola-de-Redes é uma rede de pessoas dedicadas à investigação sobre redes sociais eà criação e transferência de tecnologias de netweaving.http://escoladeredes.net 448
  • 449. SumárioIntrodução | 9Os novos mundos-fluzz | 11Quebrando as cadeias | 15Clustering | 18Swarming | 21Cloning | 24Crunching | 28Conversando com a rede-mãe | 31Pulando no abismo | 34Ah!... Os poetas, essas pessoas-fluzz | 37Notas e referências | 39 449
  • 450. 450
  • 451. Introdução O Pó de Flu (Floo Powder) é um modo de viajar e se comunicar no mundo mágico, que pode ser usado por crianças... Inventado por Ignatia Wildsmith, é utilizado por muitos bruxos e bruxas para se transportar para (e através de) todos os lugares que estiverem ligados à Rede do Flu (Floo Network). Da série Harry Potter de J. K. Rowling (1997-2007) Perder-se também é caminho. Clarice Lispector em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969) Livre, livre é quem não tem rumo. Manoel de Barros em Menino do Mato (2010)Bem-vindos aos novos mundos-fluzz (*). Esqueçam suas velhas ideias epráticas de comando e controle. Abram mão de suas noções-século-20 de 451
  • 452. participação. E se livrem da compulsão de gerir o conhecimento ouorganizar conteúdos para os outros (ou juntamente com eles). Preparem-se para entrar no multiverso das interações.Nos mundos-fluzz não é o conteúdo do que flui pelas conexões da rede avariável fundamental para explicar o que acontece(rá) e sim o modo-de-interagir e suas características, como a frequência, as reverberações, osloopings, as configurações de fluxos que se constelam a cada instante, osespalhamentos e aglomeramentos (clustering), os enxameamentos(swarming) que irrompem, as curvas de distribuição das variaçõesaleatórias introduzidas pela imitação (cloning) que produzem ordememergente (a partir da interação), as contrações na extensãocaracterística de caminho (crunch) dentro de cada cluster...Em vez de tentarem organizar a auto-organização, construam interfacespara conversar com a rede-mãe, aquela que existe independentemente denossos esforços conectivos voluntários e que, para usar uma imagem doTao, é como o espírito do vale, suave e multífluo, [como] a mulhermisteriosa que age sem esforço ao se deixar varrer pelo sopro, ao serpermeável ao fluxo que não pode ser aprisionado por qualquermainframe: fluzz.Oh!, sim, redes são fluições. Este texto é sobre redes (**). 452
  • 453. Os novos mundos-fluzzOS NOVOS MUNDOS ALTAMENTE CONECTADOS do terceiro milênio sãoaqueles mundos glocais em que fluzz vai sendo desobstruído. Fluzz éobstruído pela centralização das comunicações (e inclusive pela Internetdescentralizada), mas também por todas as separações que reduzem ainteração, desde aquelas impostas pela barreira da língua, passando poraquelas que separam quem busca de quem gera conhecimento e pelasque separam os dispositivos tecnológicos interativos do corpo humano atéchegar às que separam pessoas de não-pessoas.Bem-vindos então aos novos mundos-fluzz. Seu dispositivo móvel deinteração já se comunica diretamente com outros dispositivos móveis. Seucomputador – agora um transceptor, alimentado por bateriasrecarregáveis por luz ou força mecânica – gera sua própria ondaeletromagnética e “fala” diretamente com os outros computadores do seumundo. Nada de provedores, roteadores, protocolos únicos. No lugar dainternet multicentralizada, redes distribuídas. Redes P2P (peer-to-peer).Redes Mesh, ampliadas por replicação em cascata, interconectadas.Seu foursquare não está mais montado sobre a planta urbana, mas sobremapas de caminhos no espaço-tempo dos fluxos. Ele passou a ser i-based. 453
  • 454. Com a ajuda de telas (e tudo pode ser tela), óculos especiais, projeçõesholográficas ou implantes bioeletrônicos e cibernéticos, você “vê” o fluxo.Como um precog você antevê o desfecho de configurações em formação,que ainda não se materializaram... E como um novo John Anderton (oprotagonista de Minority Report, interpretado por Tom Cruise, mas agoralivre e não-perseguido) interage com as coisas: os artefatos, osequipamentos, os prédios, as ruas.Mas com você não ocorre nada parecido com o que se passa na sociedadede controle de Minority Report, o filme de Spielberg (2002) baseado noconto homônimo de Philip K. Dick (1956). Você será mais como aqueleLeto, o filho de Paul Atreides, em Os Filhos de Duna, de Frank Herbert(1976) (1). Não há um mainframe. Não há um Arquiteto (o personagem deMatrix Reloaded magistralmente interpretado por Helmut Bakaitis).Acorda! Você não está mais na Matrix.Agora você dispõe de programas i-based de navegação inteligente, dabusca (semântica) à polinização (criativa, ensejadora de múltiplossignificados). Cada um tem sua própria wikipedia, cada busca P2P é feitaem miríades de wikipedias e não em apenas uma (única) instalada em ummainframe. Cada busca revela um resultado diferente porque, na verdade,não existe a busca unilateral: toda busca é uma interação, quer dizer, umageração de conhecimento-vivo (ou não revela nada além deconhecimento-morto). Cada busca, portanto, deixa um rastro, o rastrodaquela particular fluição que se agrega ao resultado da busca análogaseguinte para os que estão trafegando pelo mesmo interworld. 454
  • 455. Nos Highly Connected Worlds todo buscador é um polinizador. Esseinteragente é um viajante, um peregrino de mundos e um semeador demundos, um nômade que não depende mais de workstations instaladasem equipamentos que obstruem fluxos. Dispositivos móveis de navegaçãoe comunicação, objetos interativos nômades ficaram vez mais portáteis emais decisivos na geração de small-worlds e de interworlds.Os dispositivos tecnológicos deixaram de estar separados do corpo. Elesestão cada vez mais próximos, como certos games que, no passado,começaram a substituir o joystick pelo próprio corpo humano (2); e assimtambém ocorre com processadores, navegadores e comunicadores quesão instalados em relógios de pulso, óculos, pulseiras, anéis, colares,bonés e outros acessórios. Alguns desses artefatos são tradutores-transdutores que funcionam em tempo real permitindo a conversaçãoentre pessoas que falam línguas diferentes. E muito além disso: agoratemos dispositivos inseridos – integrados, assimilados ou combinados porsimbiose – ao corpo humano. Tornou-se irrelevante a velha discussãosobre aquelas faculdades polêmicas, parapsicológicas, como a telepatia,porque já é irrelevante tê-las na medida em que podemos realizar ainteração sem distância ou em tempo real com outros seres humanos enão-humanos, animados ou inanimados, sempre que quisermos.Podemos inserir em nossos corpos outros dispositivos capazes de ampliare acelerar a comunicação. Estamos descobrindo em seres não-humanosparceiros simbióticos – semelhantes à psilocibina, na visão de TerenceMcKenna (1992) (3) ou como as imaginárias “midi-chlorians” da série Star 455
  • 456. Wars (4) – capazes de nos dotar de mais “percepção” de fluzz ou deensejar melhores condições de interação.Mas esses avanços tecnológicos, em si, não são nada diante das inovaçõessociais que surgiram com o auxílio de tecnologias i-based (aliás, taistecnologias só foram desenvolvidas porque já havia a possibilidade socialpara o seu surgimento). Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações, não-empresas-hierárquicas germinaram e floresceram,dando nascimento a novas variedades de instituições-fluzz baseadas navida comum e na convivência das pessoas comuns ressignificadas comoexpressões diretas do multiverso criativo (aquele que cria a si mesmo àmedida que se desenvolve). Não é um novo céu e uma nova terra (comoexpectou Isaias 65: 17): é que o novo céu passou a ser a nova terra; enfima terre des hommes!Todas as novas possibilidades sociais que permitem a emergência deHighly Connected Worlds estão ligadas à fenomenologia das redes sociaisdistribuídas. Não foi propriamente a descoberta desses novos fenômenosque quebrou as cadeias que nos aprisionavam ao velho mundo e sim anossa disposição social de deixarmos eles acontecerem. 456
  • 457. Quebrando as cadeiasMundos sociais criam-se a si mesmos à medida que se desenvolvem =fluzzÉ INCRÍVEL COMO FICÁVAMOS – no mundo único – presos aos conteúdos.Achávamos que eram os conteúdos que podiam fazer a diferença. Foi umaconsequência trágica de seis milênios de ensino (quer dizer, daprogramação das mentes efetuada por alguma organização hierárquica –e todas elas, como vimos, são escolas): o conteúdo é um ensinamento.Do conteúdo para a consciência foi um pulo, ou melhor, um deslizamento(epistemológico). A consciência que queríamos que os outros tivessemdeveria surgir quando eles entrassem em contato com determinadosconteúdos (que às vezes chamávamos de “conhecimento”). E aí nosesforçávamos para construir, organizar e transferir conhecimentos para osoutros. Assim nos tornamos programadores (replicadores) do velhomundo. Fomos programados para ser replicadores: enfiadores deconteúdos na cabeça dos outros.Da consciência para a ética ocorreu outro deslizamento. A ética quequeríamos que os outros tivessem era, no fundo, conquanto muitos seesforçassem por negar tal evidência, um conjunto de valores (conteúdos) 457
  • 458. que viravam normas para direcionar comportamentos. Mas valor – dojeito que foi tomado, de modo genérico – virou uma palavra tola. Valor é oque é valorizado por alguém e compartilhado pelos que estão eminteração com esse alguém. Não pode existir um valor acima, ou antes, dainteração de alguns, que deva valer para todos. E essas ideias quechamávamos de valores não podiam mudar comportamentos: como se,inoculados por elas, passássemos a agir de modo correto ou mais“consciente”. Consciência (entendida nesse sentido deslizado, comoconhecimento de um conteúdo ou mesmo, em termos mais sofisticados,como localização da reflexividade no sujeito que sabe que sabe) não podemudar comportamentos. Somente comportamentos mudamcomportamentos.Quase tudo no velho mundo hierárquico girava em torno de conteúdos.Mas a grande descoberta que acompanhou a geração dos HighlyConnected Worlds foi que o comportamento das redes sociais nãodepende de conteúdos. Sua fenomenologia é interativa. E todas as formasde interação que foram descobertas pela nova ciência das redesrevelaram a mesma coisa: nada a ver com conteúdos. Clustering,swarming, cloning, crunching – nenhuma dessas coisas tem a ver comconteúdo. Não têm a ver com ensinamento (replicação) e sim comaprendizagem (criação). Aprendizagem coletiva que reflete o metabolismopelo qual os mundos sociais criam-se a si mesmos à medida que sedesenvolvem = fluzz.Quando, a partir dessas descobertas, começamos a quebrar as cadeias,deixando as forças do aglomeramento livres para atuar, deixando o 458
  • 459. enxameamento agir, a imitação exercer o seu papel e os mundos secontraírem, os novos mundos altamente conectados começaram a vir àluz. 459
  • 460. ClusteringDeixando livres para atuar as forças do aglomeramentoA PRIMEIRA GRANDE DESCOBERTA: tudo que interage clusteriza,independentemente do conteúdo, em função dos graus de distribuição econectividade (ou interatividade) da rede social. Há muito já se podemostrar teoricamente que quanto maior o grau de distribuição de umarede social, mais provável será que duas pessoas que você conheçatambém se conheçam (essa é a raiz do fenômeno chamado clustering).Em geral não se conhece todas as variáveis que estão presentes em cadaprocesso particular, mas é observável que se formam clusters(aglomerados) em quaisquer redes, não apenas nas redes sociais. Insetosse aglomeram, doenças se aglomeram (e não apenas as contagiosas),empreendedores de um mesmo ramo de negócios tendem a se aglomerar(não é por acaso que encontramos lojas de tecidos, roupas, luminárias ouoficinas mecânicas concentradas em uma mesma rua ou quadra). E issonão depende, como ocorre em certas cidades planejadas (como Brasília)da localização forçada ou top down de setores (setor hospitalar, setorhoteleiro, setor automotivo etc.). É assim que, como mostrou StevenJohnson (2001), os vendedores de seda se clusterizam, há séculos, em 460
  • 461. determinada localidade de Florença. E voltam sempre para o mesmo lugarapós as tão seguidas quanto inúteis tentativas de deslocá-los para outrasregiões da cidade (5).Os planejadores normativos – como construtores de pirâmides que são –não têm paciência para esperar a clusterização. Na verdade, como seuobjetivo é construir organizações hierárquicas, eles não podem esperar aclusterização. A hierarquia exige desatalhamento, quer dizer, a supressãode atalhos entre clusters: só alguns caminhos podem ser válidos (e, porisso, só alguns são validados). Isso dificilmente ocorreria se a clusterizaçãobrotasse da dinâmica da rede. Essa é a razão pela qual os planejadoresurbanos nunca construiriam uma Florença, tendo que se contentar emerigir suas capitais para algum deus hierárquico (como fez Amenófis IVpara o deus Aton) ou arquitetar suas cidades-sede para o Estado, não paraa sociedade (como aquela Brasília que foi inaugurada antes da convivênciasocial dos brasilenses; depois estes últimos começaram a conformar averdadeira Brasília modificando os estranhos caminhos traçados pelosplanejadores). A diferença entre o zigurate de Uruk e o assentamentotemporário do festival Burning Man revela quase tudo: poucos caminhos xmúltiplos caminhos.Ao articular uma organização em rede distribuída não é necessário pré-determinar quais serão os departamentos, aquelas caixinhas desenhadasnos organogramas. Estando claro, para os interagentes, qual é o propósitoda iniciativa, basta deixar as forças do aglomeramento atuarem. Em poucotempo (a depender da interatividade da rede), surgirão clusters agregandopessoas que se dedicarão às funções necessárias à realização daquele 461
  • 462. propósito: alguns se juntarão para cuidar da criação, outros para cuidardos relacionamentos com os stakeholders, outros, ainda, da produção oudo delivery etc.Até certos eventos planejados autonomamente por pessoas diferentes(que não se conhecem entre si) se aglomeram e isso é revelador de ummetabolismo da rede, de uma dinâmica invisível que ocorre no espaço-tempo dos fluxos.Nada a ver com conteúdo. A partir do clustering outros fenômenossurpreendentes ocorrem em uma rede, como o swarming. 462
  • 463. SwarmingDeixando o enxameamento agirA SEGUNDA GRANDE DESCOBERTA: tudo que interage pode enxamear.Swarming (ou swarm behavior) e suas variantes como herding e shoaling,não acontecem somente com insetos, formigas, abelhas, pássaros,quadrúpedes e peixes. Em termos genéricos esses movimentos coletivos(também chamados de flocking) ocorrem quando um grande número deentidades self-propelled interagem. Algum tipo de inteligência coletiva(swarm intelligence) está sempre envolvida nestes movimentos. Já se sabeque isso também ocorre com humanos, quando multidões se aglomeram(clustering) e “evoluem” sincronizadamente sem qualquer conduçãoexercida por algum líder; ou quando muitas pessoas enxameiam eprovocam grandes mobilizações sem convocação ou coordenaçãocentralizada, a partir de estímulos que se propagam P2P, por contágioviral.E não ocorre apenas como uma forma de conflito, como ficamosacostumados a pensar depois que Arquilla e Ronsfeld (2000) produzirampara a Rand Corporation seu famoso paper “Swarming and the future ofconflict” (6). Um exemplo conhecido dos efeitos surpreendentes do 463
  • 464. swarming – no caso, civil – foi a reação da sociedade espanhola aosatentados terroristas cometidos pela Al-Qaida em 11 de Março de 2004(7). Escrevendo sobre isso, ainda preso as visões do swarming comonetwar,