Fluzz pilulas 8

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Fluzz pilulas 8

  1. 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 8 (Corresponde ao sexto tópico do Capítulo 1, intitulado No “lado de dentro” do abismo) É interação, não participaçãoRedes sociais são ambientes de interação, não de participaçãoA afirmação só é válida, claro, para redes distribuídas, quer dizer, maisdistribuídas do que centralizadas. Quanto mais distribuída for a topologia deuma rede, mais ela poderá ser i-based (interaction-based) e menos p-based(participation-based). Tudo que fluzz é i-based, não p-based.A palavra participação designa uma noção construída por fora da interação.Participar é se tornar parte ou partícipe de algo que não foi reinventado noinstante mesmo em que uma configuração coletiva de interações seestabeleceu, mas algo que foi (já estava) dado ex ante. Como se a gente
  2. 2. sempre participasse de algo “dos outros”. Não é por acaso que a expressãodemocracia participativa foi aplicada para designar diversas formas dearrebanhamento, inclusive uma variedade de experiências assembleísticasadversariais, onde a tônica era a luta, a disputa por maioria ou hegemonia ese praticava a política como “arte da guerra” lançando-se mão de modos deregulação de conflitos que geram artificialmente escassez (como a votação,o rodízio, a construção administrada de consenso e, inclusive, sob algunsaspectos, o sorteio).Mas isso não significa exatamente, como pode parecer à primeira vista, queinteragir, então, diga respeito somente à atuação em algo "nosso" enquantoparticipar diga respeito à atuação em algo "dos outros".Não, não é bem assim, a menos que esse "nosso", aqui, não seja tomadoem um sentido proprietário (como eufemismo, para dizer "meu") emcontraposição ao "dos outros" (“deles”). O "nosso" conformado na interaçãonão se pré-estabelece, não conforma uma identidade identificável com umgrupo determinado de agentes antes da interação, ao contrário do "nosso"(na lógica coletiva de um "eu" organizacional já construído) quando esse"nosso" foi instituído por um grupo que, ao fazê-lo, estabeleceu umafronteira (dentro ≠ fora) independentemente da interação fortuita que jáestá acontecendo e que ainda virá. Neste caso, a organização será umcongelamento de fluxos, uma cristalização de uma situação pretérita, umpedaço do passado cortado que se enxerta continuamente no presente paramanter as configurações que, em algum momento, atribuíram adeterminadas pessoas certos papéis que se quer reproduzir (essa é a tristehistória da liderança, ou melhor, da monoliderança, dos líderes que, tendoliderado algum dia, querem se prorrogar, eternizando uma constelaçãopassada para continuar liderando).Assim, quando fazíamos uma organização ou lançávamos um movimento echamávamos uma pessoa para nela entrar ou a ele aderir, estávamoschamando-a à participação. Estávamos abrindo a (nossa) fronteira para queo outro pudesse entrar. Em uma rede (mais distribuída do quecentralizada), as fronteiras são sempre mais membranas do que paredesopacas, não precisam ser abertas, não se estabelecem antes da interação etodos os que estão em-interação estão sempre "dentro" (aliás, estar"dentro", neste caso, é sinônimo de estar interagindo, mesmo que alguémsó tenha começado ontem e os demais há anos). Estarão “dentro” tambémos que ainda virão, quando passarem a interagir, sem a necessidade deserem recrutados, provados, aprovados, admitidos e iniciados pelos que jáestão. 2
  3. 3. A diferença parece sutil, mas é brutal no que diz respeito ao funcionamentoorgânico. O participacionismo (que contaminou a chamada Web 2.0)instituiu modos de regulação que produzem artificialmente escassez (e,portanto, centralizam a rede, gerando oligarquias participativas compostaspelos que mais participam, pelos que são mais votados ou preferidos dealguma forma – mais ouvidos, mais lidos, mais comentados, maisadicionados, mais seguidos –, os quais acabam adquirindo mais privilégiosou autorizações regulatórias do que os outros). Formam-se neste caso innercircles, instâncias mais estratégicas do que as demais (os outros clusters eas pessoas comuns, não-destacadas da “massa”), que passam, estasúltimas, para efeitos práticos, a serem consideradas táticas (para ospropósitos dos estrategistas, dos que possuem mais atribuições): e não é atoa que os membros do “círculo externo” freqüentemente são chamados de“público”, “usuários”, (meros) “participantes”, com permissões maisrestritas e poderes regulatórios diminutivos (22).Em um sistema-fluzz, baseado na interação, a regulação é pluriárquica,quer dizer, é sempre feita com base na lógica da abundância: ou seja, asdefinições dependem das iniciativas das pessoas que queiram tomá-las ou aelas queiram aderir, jamais impondo-se, o que pensam alguns, aos demais(por critérios de maioria ou preferência verificada). Assim, em um sistemabaseado na interação, nunca se decide nada em nome do sistema (aorganização em rede), ninguém fala por ele, ninguém pode representá-lo oureceber alguma delegação do coletivo (porque, na ausência derepresentação, esse “eu = ele” coletivo não pode expressar-se (porhipóstase) como um ser de vontade ou que seja capaz de acatar qualquervontade, ainda que fosse a vontade de todos). E não há deliberação porquenão há necessidade de deliberar nada por alguém ou contra alguém ou afavor de alguém (que tivesse que delegar ou alienar seu poder a outrem).Em uma organização i-based, nunca se fala em nome da organização,nunca se promove nada por ela e nem mesmo seus fundadores podemempenhar, emprestar, parceirizar a sua marca para coisa alguma, aindaque seja para propor uma atividade totalmente dentro do escopo daorganização. Em outras palavras, não há um ativo organizacional que possaser apropriado (nem mesmo como patrimônio simbólico) por alguém emparticular, porque as dinâmicas pluriárquicas não permitem.Dessarte, não há um "nós" organizacional que estabeleça uma fronteiraentre os "de dentro" e os "de fora". Todos que estão fora podem entrar.Todos os que estão dentro podem sair (e podem voltar a qualquermomento; e sair de novo, quantas vezes quiserem). Entrar não significapertencimento a algum corpo separado do meio por fronteiras 3
  4. 4. impermeáveis, nem adesão (ou profissão de fé) a algum codex e sair nãosignifica discordância, “racha”, deserção, traição, divórcio ou qualquer tipode ruptura. E quem compõe tal organização afinal? Ora, quem nela quiserse conectar e interagir, aqui-e-agora. Quem saiu não é mais, mas nãoporque tenha se desligado e sim porque não está interagindo. Quem nãoentrou não é ainda, mas não porque não tenha sido aprovado e aceito e simporque, igualmente, não está interagindo.Porque rede é fluição. Nodo de uma rede é tudo o que nela interage. Essafoi a grande descoberta-fluzz do tempo vindouro que está vindo.É certo que, mesmo nas redes mais distribuídas do que centralizadas, afreqüência e outras características da interação, vão ensejando a formaçãode laços internos de confiança, de sorte que nem todos são iguais no quetange ao que correntemente se chama de liderança. Algumas pessoaspodem ter oportunidades de serem mais avaliadas pelas outras e até deobterem uma adesão maior às suas iniciativas do que as outras, em virtudeda sua interação, quer dizer, do seu modo-de-interagir e do seu, vá lá,histórico de interação (mas não de qualquer atribuição diferencial quetenham recebido de fora ou de cima ou mesmo em virtude da adoção demodos de regulação geradores de escassez que recompensem algumesforço de participação voltado a "ganhar" as demais pessoas, conquistandohegemonia ou maioria). Nas redes (mais distribuídas do que centralizadas)não se quer regular a inimizade política e sim deixar que a amizade políticaauto-regule o funcionamento do sistema. Não há um corpo docente, umaburocracia coordenadora e, nem mesmo, um time ou equipe de facilitadores(cuja formação seja baseada em critérios de mérito ou conhecimento,antiguidade, popularidade ou outra característica qualquer que não possaser verificada e checada intermitentemente na interação).Esse é o motivo pelo qual nas redes sociais (mais distribuídas do quecentralizadas) não se deve (e enquanto elas forem mais distribuídas quecentralizadas, não se pode) montar uma patota dirigente, coordenadora,facilitadora ou erigir uma igrejinha de mediadores. A construção de um“nós” organizacional infenso à interação ou protegido contra aimprevisibilidade da interação para manter sua identidade ou integridade(e, supostamente, para assegurar – como guardiães – que a organizaçãonão se desvie de seus propósitos, não viole seus princípios e não fuja doseu escopo), ao gerar uma identidade compartilhada por alguns “maisiguais” que outros, centraliza a rede, deixando-a à mercê doparticipacionismo; quando não de coisa pior. 4
  5. 5. Sim, é difícil não tentar organizar a auto-organização. E é dificílimo nãotentar reunir alguns para, como se diz, “colocar um pouco de ordem nacasa”. Mas aqui vale aquela frase brilhante de Frank Herbert, uma pérolagarimpada em “O Messias de Duna” (1969): “Não reunir é a derradeiraordenação” (23). Para quê re-unir o que já está unido = conectado(interagindo)? E se é assim, por que reunir apenas alguns para organizarmais, quando se pode ensejar a ordenação emergente de muitos mais?A tentação de estabelecer uma fronteira opaca, o medo de se deixar abrigar(ou de se proteger do “mundo externo”, do outro, em geral das outrasorganizações) apenas por uma membrana (permeável aos fluxos e,portanto, vulnerável à interação) assolou constantemente as (pessoas das)organizações, mesmo aquelas que queriam transitar para um padrão derede distribuída.Talvez isso tenha ocorrido, em parte, em virtude de uma confusão entreinteração e troca de conteúdo. Boa parte das pessoas que tratavam doassunto, inclusive das que se dedicam a investigar ou experimentar redessociais, confundia interação com troca de informação e gestão de conteúdo(sobretudo tomando por conteúdo conhecimento). Como imaginavam, essaspessoas, – com certa razão – que o conhecimento é cumulativo, queriambolar uma, como se diz?, “arquitetura da informação”, urdir schemasclassificatórios, desenhar árvores para mapear relações (que ainda não seefetivaram) e organizar os escaninhos para depositar o conhecimento que iasendo construído coletivamente. Na falta de mecanismos de buscasemântica, queriam “colocar as coisas nos lugares certos” para facilitar anavegação dos demais. Mas ao fazerem isso, animados pela boa intençãode organizar o (acesso ao) conhecimento para os demais, acabavamerigindo uma escola (como ocorre, de certo modo, com uma parte dos queadotam plataformas wikis e plataformas ditas educacionais), quer dizer,uma burocracia do ensinamento, inevitavelmente centralizada.Tudo isso era assim até que começou a procura por mecanismos quedessem conta do formigueiro e não das formigas: como se sabe, é oformigueiro que se reproduz (como padrão), não as formigas. Por isso acomparação com o formigueiro, que causa repugnância a alguns (quealegam que as formigas não têm consciência e não podem fazer escolhasracionais) não é despropositada. A pesquisadora Deborah Gordon (1999)descobriu que o formigueiro é i-based, ou seja, que além de nele não havernada que se possa chamar de administração, a auto-organização é feita apartir da freqüência e de outras características da interação das formigasentre si e com o seu ecossistema e não de algum conteúdo que elas tenham 5
  6. 6. trocado entre si (nem mesmo se tal conteúdo fosse uma substânciaquímica, como se supunha) (24). 6
  7. 7. Notas(22) Cf. UGARTE, David (2007). O poder das redes. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2008.(23) HERBERT, Frank (1969). O Messias de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985.(24) GORDON, Deborah (1999): Op. cit. 7

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