Fluzz pilulas 74

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  • 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 74 (Corresponde ao quarto tópico do Capítulo 9, intitulado Eles já estão entre nós) InovadoresEm mundos altamente conectados um inovador também tende a cumprirum papel social mais relevante do que o dos colecionadores de diplomasA rigor – e em um sentido geral – todas as pessoas são inovadoras. Se nãofossem, se não tivessem a capacidade de modificar passado, de introduziruma nova rotina ou uma nova dinâmica que rompe com a repetição depassado, não poderiam ter (novas) idéias: estariam psicologicamentemortas.Chama-se, porém, de inovadores, stricto sensu, àqueles que cumprem opapel social de introduzir inovações que modificam a maneira como uma
  • 2. rede se configura, provocando desequilíbrios que alteram os ritmos e oscaminhos das fluições.Inovadores são muito diferentes dos hubs. Em geral não são conhecidos —e não conhecem — muita gente, nem são, na maior parte dos casos, muitoconectados. Às vezes, são até bastante isolados. Podem vir a seramplamente reconhecidos, mas isso depende de fatores, via de regra,fortuitos. A característica principal do inovador é emitir mensagens na redeque acabam produzindo mudanças de comportamento dos agentes(considerando a rede social como um sistema de agentes). Quando esseprocesso ocorre, o inovador não sabe bem nem por quê nem o quêaconteceu. Formaram-se laços de realimentação de reforço (feedbackpositivo) e a mensagem emitida pelo inovador acabou sendo reforçada eamplificada, adquirindo condições de se disseminar pela rede. Taismensagens podem ser idéias, modos de fazer ou estilos (como a moda, porexemplo), atitudes que contenham novos padrões. Sim, não custa repetir:um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal, como jádizia, há tanto tempo, Norbert Wiener (1950) (14).O inovador — tal como o hub — também é “produzido” socialmente pelarede. Ninguém vira inovador apresentando sua inovação na TV, nos jornaisou anunciando-a em um evento massivo. A inovação é uma perturbação notecido social que vai se espalhando molecularmente, ponto a ponto.Pequenas perturbações, mesmo que partam da periferia do sistema (querdizer, de regiões pouco clusterizadas da rede social), são capazes de sedisseminar se conseguirem atingir uma espécie de tipping point (a coisaparece funcionar da mesma forma que a propagação epidemiológica), maspara cada configuração de rede e, a rigor, para cada tipo de mensagem,pode-se ter um “ponto de desequilíbrio” diferente, a partir do qual amensagem passa a se disseminar exponencialmente.Nem sempre, porém, os inovadores vêem os resultados de sua inovação.Muitas vezes, eles desencadeiam mudanças de comportamento que só vãoaparecer muito tempo depois, quando não se pode mais atribuir a uminovador particular a paternidade da inovação, pois é próprio da dinâmicada rede social que muitas mensagens se misturem, combinem-se e setransformem em outras mensagens.Uma longa jornada ainda será percorrida antes de se assumir maisamplamente esses novos paradigmas, o que não significa que eles já nãoestejam vigendo. Quem já está nos novos Highly Connected Worlds secomporta mais ou menos assim. Basta ver o que começa a ocorrer nosmeios científicos: no passado, um pesquisador, para ser reconhecido, 2
  • 3. precisava se submeter ao conselho editorial de uma publicação autorizadapelas instituições acadêmicas e esperar alguns meses (às vezes muitos)para ter seu trabalho publicado (ou rejeitado). Hoje, boa parte dessepessoal publica, em seus próprios blogs, as descobertas que vai fazendo,imediatamente e sem pedir licença a ninguém. Há que se convir que essa éuma mudança é tanto!Acontecerá com os inovadores o que já acontece com algumas atividadesintelectuais ou exercidas livremente na área do conhecimento; por exemplo,com os escritores. Escritor é quem escreve. O escritor é reconhecido pelosque lêem o que ele publica e não em virtude de ter obtido um títuloacadêmico ou uma licença de uma corporação de escribas para escrever ou,ainda, um atestado concedido por uma burocracia qualquer. Assim, emmundos altamente conectados um inovador também tende a cumprir umpapel social mais relevante do que o dos que colecionaram muitos títulosacadêmicos.A rede é uma ótima oportunidade para se quebrar o poder das burocraciasdo conhecimento. Na verdade, para quebrar o poder de qualquerburocracia. “Quebrar” (to crack) é a primeira medida para desobstruir o quefoi entupido. Quanto mais ocorrem eventos de desobstrução, mais asociedade vai se comportando como uma entidade que aprende, pois o queé chamado de aprendizagem é sempre a abertura de novos caminhos. Emais, a sociedade vai se desenvolvendo, pois o que chamamos dedesenvolvimento é a mesmíssima coisa: a abertura de novas oportunidadesde conexão (15). Este, porém, é o papel dos netweavers. 3
  • 4. Notas(14) WIENER, Norbert (1951). Cibernética e sociedade: o uso humano de sereshumanos. São Paulo: Cultrix, 1993.(15) Cf. FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Nova visões sobre a sociedade,o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008. 4