Fluzz pilulas 7
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  • O exemplo de Roseto me fez pensar: se a rede social 'real' é tão saudável, qual seria a 'vantagem', ou ganho para a qualidade da vida humana, na formação de rede social 'virtual'? Certo, abolem-se as limitações de tempo-espaço ('comunico-me' com alguém que vai ler esse comentário sabe-se lá quando e onde)... Mas é só isso?
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    Fluzz pilulas 7 Fluzz pilulas 7 Document Transcript

    • Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 7 (Corresponde ao quinto tópico do Capítulo 1, intitulado No “lado de dentro” do abismo) É comunicação, não informaçãoRedes sociais não são redes de informaçãoQuando Norbert Wiener (1950) escreveu, em Cibernética e Sociedade, que“um padrão é uma mensagem e pode ser transmitido como tal”, abriu umalinha de reflexão segundo a qual todas as coisas – inclusive as pessoas,que, segundo ele, não passam “de redemoinhos em um rio de água semprea correr” – são como que singularidades em um continuum, campo, tecidoou espaço (18). A hipótese é fértil, inclusive pelo seu poder heurístico. Maisdo que isso, entretanto: é uma hipótese-fluzz.
    • Mas por essa porta aberta à imaginação criadora, também passou umpensamento rastejante: como transmissão de mensagem evoca sempreinformação, uma visão de que tudo poderia ser reduzido, em últimainstância, à informação, acabou se estabelecendo. Redes, pensadas maiscomo redes de máquinas que trocam conteúdos entre si, foram assimconcebidas como redes de informação.Uma das descobertas tão recentes quanto surpreendentes nesta ante-salada época-fluzz em que vivemos é que, ao contrário do que pensavam osteóricos da informação, redes sociais não podem ser reduzidas à redes deinformação. Ainda que toda influência seja um padrão, ela não pode serreduzida a um código. É o padrão de interação que é relevante e não atransmissão-recepção da mensagem entendida como um conteúdo dearquivo.Redes sociais são redes de comunicação, é óbvio. Mas ainda que o conceitode informação seja bastante elástico, isso não é a mesma coisa que dizerque elas são redes de informação. Redes são sistemas interativos e ainteração não é apenas uma transmissão-recepção de dados: se fosse assimnão haveria como distinguir uma rede social (pessoas interagindo) de umarede de máquinas (computadores conectados, por exemplo).Ao tomar as redes sociais como redes de informação, imaginando que tudonão passa de bytes transmitidos e recebidos, freqüentemente deixávamosde ver que a comunicação modifica os sujeitos interagentes (e só acontecequando tal modificação acontece). Humberto Maturana e Francisco Varelaexplicaram isso muito bem em um box (ao que tudo indica atribuído aosegundo) do livro A Árvore do Conhecimento (1984) intitulado “A metáforado tubo para a comunicação” (19): “Nossa discussão nos levou a concluir que, biologicamente, não há informação transmitida na comunicação. A comunicação ocorre toda vez em que há coordenação comportamental em um domínio de acoplamento estrutural. Tal conclusão só é chocante se continuarmos adotando a metáfora mais corrente para a comunicação, popularizada pelos meios de comunicação. É a metáfora do tubo, segundo a qual a comunicação é algo gerado em um ponto, levado por um condutor (ou tubo) e entregue ao outro extremo receptor. Portanto, há algo que é comunicado e transmitido integralmente pelo veículo. Daí estarmos acostumados a falar da informação contida em uma imagem, objeto ou na palavra impressa. Segundo nossa análise, essa metáfora é fundamentalmente falsa, porque supõe uma unidade não determinada estruturalmente, em que as interações são instrutivas, 2
    • como se o que ocorre com um organismo em uma interação fosse determinado pelo agente perturbador e não por sua dinâmica estrutural. No entanto, é evidente no próprio dia-a-dia que a comunicação não ocorre assim: cada pessoa diz o que diz e ouve o que ouve segundo sua própria determinação estrutural. Da perspectiva de um observador, sempre há ambigüidade em uma interação comunicativa. O fenômeno da comunicação não depende do que se fornece, e sim do que acontece com o receptor. E isso é muito diferente de ‘transmitir informação’.”Além disso, há características da interação que não se resumem àquelatransmissão-recepção de conteúdos evocada pelo uso corrente do conceitode informação. Em uma rede social é como se as pessoas estivessememaranhadas e a modificação do estado de uma pessoa em-interação comoutra acaba alterando o estado dessa outra sem que, necessariamente,tenha havido a transmissão voluntária (e, talvez nem mesmo involuntária)de uma mensagem da primeira para a segunda. Por exemplo, uma pessoatende a se adaptar ao comportamento das outras, tende a imitar padrõesde comportamento reconhecidos nas outras e tende, inclusive, a cooperarcom elas (voluntária e gratuitamente). Uma pessoa pode ficar alegre outriste, saudável ou doente, esperançosa ou descrente, em função daestrutura e da dinâmica desse emaranhado em que está imersa. Aocontrário do que se acredita, nada disso depende diretamente de umconteúdo transferido e recebido, intencionado na transmissão e interpretadona recepção, mas é função de outras características do modo-de-interagircomo a freqüência e a recursividade, as reverberações e os loopings, oslaços de retroalimentação etc.É mais ou menos como o que revelou a investigação de Deborah Gordon(1999), professora de ciências biológicas em Stanford, que pesquisoudurantes dezessete anos colônias de formigas no Arizona. Ela descobriu que“a decisão de uma formiga quanto a uma tarefa é baseada em sua taxa deinteração”. Mas “o que produz o efeito é o padrão de interação, não umsinal na própria interação. As formigas não dizem umas às outras o quefazer por meio da transferência de mensagens. O sinal não está no contato,ou na informação química trocada no contato. O sinal está no padrão decontato” (20). Ou seja, não se trata de uma comunicação de conteúdo, deum código, mas da freqüência e das circunstâncias em que se dão oscontatos.Em uma rede estamos sofrendo a influência de um campo, mas talinfluência é sistêmica e o comportamento adotado por um agentedificilmente pode ser atribuído à ação e muito menos à intenção única e 3
    • exclusiva de outro agente. Quer dizer, quando ficamos alegres em virtudedesse efeito sistêmico do campo em que estamos imersos (a rede) é comose tal fato fosse inexplicável, o que significa apenas que não conseguimosexplicá-lo com base nos nossos esquemas explicativos habituais, focadosnos indivíduos e não na rede, apontando um sujeito particular que nossugestionou positivamente ou exerceu essa influência sobre nós de outraforma conhecida. Mas não é assim que a coisa funciona.Quando foi observado que os habitantes da famosa Roseto, na Pensilvânia,se mostravam mais saudáveis, do ponto de vista cardiovascular, do que aspessoas das comunidades vizinhas, muito semelhantes à Roseto, em váriosaspectos, isso não pôde ser atribuído a nenhum fator particular (genética,alimentação, exercícios físicos, atenção à saúde preventiva ou cuidadosmédicos), mas foi associado corretamente à comunidade. O mistério só foiresolvido quando dois pesquisadores (Stewart Wolf e John Bruhn)resolveram observar como as pessoas interagiam (“parando para conversarna rua ou cozinhando umas para as outras nos quintais”). “Elas eramsaudáveis – conta Malcolm Gladwell (2008) – por causa do lugar ondeviviam, do mundo que haviam criado para si mesmas…” (21). Sim,interação e lugar. Em outras palavras, conversações e comunidade. Emoutras palavras, ainda: rede social!É claro que, a despeito do que foi dito aqui, ainda se pode afirmar que tudose reduz, em última instância, à informação: em qualquer interação, emtermos físicos, partículas mensageiras de um dos quatro campos de forçasse “deslocaram”, se espalharam ou se aglomeraram (o simples fato de veralguém, por exemplo, implica “deslocamentos” de bósons – no caso, defótons, partículas mensageiras do campo eletromagnético) e isso pode,corretamente, ser interpretado como informação. Mas o significado dapalavra informação – tal como é tomado no dia-a-dia ou mesmo como àsvezes é usado pelos chamados “cientistas da informação” – não ajuda muitoa entender os fenômenos que acontecem nas redes sociais e que lhes sãopróprios. 4
    • Notas(18) Cf. WIENER, Norbert (1951). Cibernética e sociedade: o uso humano de sereshumanos. São Paulo: Cultrix, 1993.(19) MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco (1984): Op. cit.(19) GORDON, Deborah (1999). Formigas em ação: como se organiza umasociedade de insetos. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.(21) GLADWELL, Malcolm (2008). Fora de série (Outliers). Rio de Janeiro:Sextante, 2008. 5