Fluzz pilulas 55

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  • 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 55 (Corresponde ao décimo-nono tópico do Capítulo 7, intitulado Alterando a estrutura das sociosferas) ComunitarizaçãoAs novas Atenas serão milhões de comunidadesEcoando o Operating Manual for Spaceship Earth de Buckminster Fuller(1968), McLuhan (1974) afirmou que “a espaçonave Terra não tempassageiros, só tripulação” (50). Como poderíamos considerar alguém“estrangeiro” se pertencemos todos à mesma família (em termos genéticos,praticamente toda a população da Terra é prima em um grau inferior ao50º), habitando um planeta tão minúsculo, no qual somos todos tripulantes(quer dizer, todos nós somos o pessoal necessário para o bomfuncionamento da nave)?
  • 2. Na modernidade, em um padrão descentralizado, 193 (ou 194) Estados-nações impõem modelos autocráticos de governança baseados no equilíbriocompetitivo. A ilusão (e a impostura) de que sete bilhões de pessoaspossam ser administradas por menos de duzentas unidades centralizadas –e, em grande parte (a maior parte) autocratizadas – é aceita como se fossenormal. Como se fosse possível disciplinar toda a diversidade da interaçãoensejada por bilhões de interworlds em duas centenas de organizações, emsua ampla maioria, capengas, autoritárias e corruptas, controladas porgrupos privados que satisfazem seus interesses à custa do público, quandonão por sociopatas, ladrões e facínoras de todo tipo.Tudo indica que não poderemos mais ser arrebanhados e aprisionados oudominados por 193 (ou 194) organizações hierárquicas, eivadas de enclavesautocráticos resilientes – constituídos como barreiras, para tentar obstruirfluzz –, como são os Estados nações da atualidade. Nem por algumasdezenas ou centenas de milhares de Estados-locais (ou instâncias locais deum Estado central) chamados de cidades (indevidamente, posto que acidade são sempre redes de comunidades). As novas Atenas serão milhõesde comunidades.Comunitarização é a nova palavra de des(ordem), quer dizer, de uma novaordem emergente, bottom up. O reflorescimento das cidades é um sintomado fortalecimento das comunidades que as constituem. São essascomunidades que comporão outras unidades celulares da nova arquiteturade governança do mundo glocalizado. É por isso que as cidades (e ascoligações de cidades em novas regiões econômicas e geopolíticas) – e nãomais, em geral, os Estados-nações – são hoje instâncias intermediáriasnessa transição para outra etapa do sistema global, no rumo da efetivaçãode uma verdadeira ecumene planetária.Mas – repetindo o mantra – o modelo é fractal e não unitário. Isso significaduas coisas. No plano global, uma ecumene planetária não poderá ser umaréplica global do Estado-nação; nada assim tão monstruoso como umgoverno mundial ou um parlamento mundial, que apenas transferiria, parao seu interior, o modelo perverso de equilíbrio competitivo ainda reinanteno cenário internacional. Tal ecumene, não será uma administração, umsistema executivo de comando-e-controle, nem mesmo uma grandeinstância de representação baseada na alienação da autonomia daslocalidades ou comunidades que a constituem. Ela se formará poremergência, tal como ocorre na regulação da capa biosférica que envolve oplaneta (o simbionte natural). E, no plano local, a identidade da cidade-redetambém se forma por emergência, na sinergia de múltiplas identidades que,ao se identificarem entre si, também se identificam com ela (ou parte dela) 2
  • 3. por herança ou projeto compartilhado a posteriori, e não por uma decisãoconsciente (e a priori) de algum centro diretor ou coordenador.Cada cidade tem muitas comunidades (ou seja, em princípio, cada cidadepode ter múltiplas identidades). Cada comunidade se desdobra, por suavez, em muitas outras comunidades (aumentando ainda mais a diversidadedas identidades). Isso poderia ser um problema, porque, a rigor, umacomunidade nuclear de convivência cotidiana com grau máximo dedistribuição e conectividade, capaz de ensejar pleno relacionamento entretodos os seus membros (e, conseqüentemente, usinar uma identidadeinequívoca) é uma rede muito pequena, não chegando, talvez, a duascentenas de pessoas. Só não estamos diante de um problema insolúvelporquanto há também muita superposição. Uma pessoa participa ao mesmotempo de várias comunidades desse tipo (familiar, funcional, de prática, deaprendizagem, de projeto etc.) e não está condenada a conviver em umúnico círculo restrito de relacionamentos. Assim, o padrão de interação écomplexo, dando margem à formação de circularidades inerentes que – secompartilhadas por múltiplas redes urbanas – podem configurar a cidade-rede.Ademais, as cidades já existem, para além de eventos sócio-territoriais,geograficamente localizados, como “regiões” do espaço-tempo dos fluxos.Não se trata de fabricar novas cidades, seguindo um projeto, uma planta,uma maquete. Toda vez que se tenta fazer isso, aliás, os resultados sãopéssimos: criam-se arquiteturas verticalizadoras e dinâmicasautocratizantes (como é o caso das chamadas “cidades-planejadas”, seja anova capital do Egito criada por Amenófis IV para o deus Aton ou Brasília),para não falar do dispêndio desnecessário de recursos. Verdadeiras cidadessó passarão a existir (em termos sociológicos, por assim dizer), váriasdécadas depois da instalação dessas experiências arquitetônicas e deplanejamento urbano de eternos “aprendizes de feiticeiros”, que retornamde tempos em tempos. Padrões de comportamento social peculiares já sereproduzem nas cidades por efeito de herança cultural, às vezes milenar eisso não pode ser substituído por iniciativas conscientes de um númerolimitado de planejadores urbanos, mesmo quando estão imbuídos dasmelhores intenções.Assim como não se trata de planejar novas cidades (como complexosurbanos instalados ex ante à dinâmica social), também não se trata – narecusa à verticalização do mundo imposta pelo Estado e à chamada“sociedade de controle” – de urdir novas comunidades a partir de um planode um grupo privado. Grupos marginais, muitas vezes com forte potencialtransformador – pois que a inovação, na razão direta do grau de 3
  • 4. conectividade e distribuição das redes sociais, costuma partir da periferia dosistema e não do centro – surgem mesmo nos momentos de crise dosvelhos padrões de ordem.Mas o que não se pode pretender é constituir comunidades desse tipo comoproposta política para estabelecer um caminho de mudança, forjandoestudadamente uma identidade e buscando ganhar almas por meio doproselitismo ou da aplicação de outros programas proprietários.Comunidades se formam a partir de identidades, é certo. Mas identidadestambém são programas que “rodam” em redes sociais. Ora, programas quepodem favorecer a emergência das cidades como protagonistas dodesenvolvimento são programas de capital social. E capital social é um bempúblico.Em uma sociedade em rede não é privatizando capital social que vamosconseguir contribuir para a emersão de uma nova esfera pública (social) nascidades ou localidades, capaz de substituir a limitada esfera pública atual,contraída pela invasão dos programas proprietários do Estado-nação (que,ao contrário do que se afirma, são privatizantes e quase sempredesestimulam ao invés de induzir o desenvolvimento). 4
  • 5. Nota(50) Cf. FULLER, Buckminster (1968). Manual de Operação da Espaçonave Terra.Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1983 e MCLUHAN, Marshall (1974) inMcLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003): Op. cit. 5