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Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que religião, prá que igreja?Humberto Maturana (1993) reinterpretou a origem das...
A dimensão mística (ou espiritual) faz parte de qualquer cultura que sepossa chamar propriamente de humana. Como bem defin...
verticalmente orientado e muitas outras "orientações" que "norteiam" odesenvolvimento dos rituais e das práticas mágicas. ...
Notas(11) MATURANA, Humberto (1993). Amar e brincar: fundamentos esquecidos dohumano. São Paulo: Palas Athena, 2004.(12) I...
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Fluzz pilulas 42

  1. 1. Em pílulasEdição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto deFranco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundosaltamente conectados do terceiro milênio 42 (Corresponde ao sexto tópico do Capítulo 7, intitulado Alterando a estrutura das sociosferas) Espiritualidade, não religiãoFormas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações dasburocracias sacerdotaisNos novos mundos altamente conectados que estão emergindo, formas pós-religiosas de espiritualidade vão florescer. Elas serão mais-fluzz, quer dizer,mais expressões do curso que flui nas relações entre os humanos e doshumanos com o seu habitat do que tentativas de sintonia com um todocósmico extra-humano. Elas serão espiritualidades consumáveis nainteratividade ("terrestres" no sentido de serem realizáveis sem produziranisotropias no espaço-tempo dos fluxos).
  2. 2. Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que religião, prá que igreja?Humberto Maturana (1993) reinterpretou a origem das crenças místicas queestão na base das experiências que dão significado à vida humana a partirda hipótese de que havia (ou poderia e, então, poderá novamente haver)uma "espiritualidade" inerentemente terrestre (como a que apresentavamsupostamente as sociedades agricultoras-coletoras incidentes na Europapré-patriarcal) (11).O relevante nesse esforço de modificação do passado (quer dizer, demodificação do passado que só não-passou porque continua dentro danossa mente, ou melhor, continua se propagando através da cultura, dosprogramas que "rodam" na rede social e por isso se replicam) é que essa"espiritualidade" ou experiência mística não gerou propriamente religiões.A visão de Maturana sobre o que chamamos de religião é precisa: "umareligião é um sistema fechado de crenças místicas, definido pelos crentescomo o único correto e plenamente verdadeiro" (12).Com efeito, para ele, "No processo de defender o seu viver místico, os patriarcas indo- europeus criaram uma fronteira de negação de todas as conversações místicas diferentes das suas. E estabeleceram, de fato, uma distinção entre o que passou a ser legítimo e ilegítimo, crenças verdadeiras e falsas. No âmbito espiritual, realizaram a praxis de exclusão e negação que, operacionalmente, constitui as religiões como domínios culturais de apropriação das mentes e almas dos membros de uma comunidade pelos defensores da verdade ou das "crenças" verdadeiras... [Quando se forma uma comunidade de crentes] o corpo de crenças adotadas pelos novos crentes - qualquer que seja sua complexidade e riqueza - não constitui uma religião. Isso só ocorre se os membros dessa comunidade afirmarem que suas crenças revelam ou envolvem alguma verdade universal, da qual eles se apropriaram por meio da negação de outras crenças... A apropriação de uma verdade mística ou espiritual que se sustenta como verdade universal constitui o ponto de partida ou de nascimento de uma religião" (13).Se Maturana pode imaginar uma matriz assim, projetando-a no passado,também podemos fazer o mesmo, projetando-a no futuro. No mundo quecriou, Maturana está absolutamente certo do ponto de vista dos novosmundos que quisermos co-criar. 2
  3. 3. A dimensão mística (ou espiritual) faz parte de qualquer cultura que sepossa chamar propriamente de humana. Como bem define Maturana, "aexperiência mística - repito: a experiência na qual uma pessoa vive a simesma como componente integral de um domínio mais amplo de relaçõesde existência... depende da rede de conversações em que ela está imersa, ena qual vive a pessoa que tem essa experiência" (14).Não há, portanto, qualquer problema com a espiritualidade. O problema écom a religião. Não precisamos para nada de uma pós-espiritualidade e simde novas formas (pós-religiosas) de espiritualidade.Podemos erigir igrejas, em um sentido amplo do termo (tão amplo queabarque até mesmo as escolas), sem ter religião (e podemos, ainda,codificar religiões laicas). Mas igreja, stricto sensu, só surge realmentequando erigimos um corpo separado de intérpretes, ou seja, umaburocracia sacerdotal que, por algum motivo, seja ordenada para fazeralguma intermediação entre o leigo (o não ordenado) e a revelação ou afonte prístina da doutrina codificada (como nas religiões baseadas emescrituras).Todas as chamadas tradições espirituais que surgiram na civilizaçãopatriarcal são míticas-sacerdotais-hierárquicas-autocráticas. E não é a toaque se possa falar de uma tradição: há um fundo comum a todas elas.Todas - não apenas as templárias - replicam anisotropias no espaço-tempodos fluxos (privilegiando, de alguma forma, a direção vertical).As doutrinas da tradição verticalizaram o mundo "povoando” todo ouniverso simbólico - ou aquilo que foi chamado de "mundo da psique" - comformas que não concorrem para o estabelecimento de um cosmos social quemantenha as mesmas propriedades em todas as direções, mas, pelocontrário, que privilegiam a direção vertical. Não é por outro motivo queachamos que deus está em cima e que o céu está em cima; o caminhoevolutivo é sempre pensado como uma subida e o regressivo como umadescida. São camadas e camadas de interpretações simbólicas, depositadasuma sobre a outra, milênio após milênio.Basta entrar em um templo de qualquer ordem espiritual tradicional para seperceber com que profundidade o universo simbólico está marcado peladireção vertical. Nessas construções – sobretudo da tradição ocidental,herdeira do simbolismo templário babilônico, i. e., sumério – o caminho quenos conduz para deus, representado em geral por um triângulo, passa entreas duas colunas que se elevam do piso plano. E então encontramos otriângulo com o vértice para cima, sobre o quadrado, o pentagrama 3
  4. 4. verticalmente orientado e muitas outras "orientações" que "norteiam" odesenvolvimento dos rituais e das práticas mágicas. O conteúdo ideológicoque esses símbolos encarnam está inegavelmente associado à idéia de umpoder vertical, do qual a pirâmide é o mais expressivo exemplo. E há aindaas escadas, muitas escadas, introduzidas por primeiro pelos templossumérios - os zigurates: pirâmides feitas de escadas, com degrausrepresentando graus de subida; ou de descida.Se houver uma mística (ou espiritualidade) não-patriarcal (nem matriarcal,é óbvio) ela será terrestre (horizontal, ou melhor, multidirecional). Toma-seaqui "terrestre" como isotrópico (nada de privilegiar a direção vertical: asfluições devem manter as mesmas propriedades em todas as direções).Ora, isso casa perfeitamente com a idéia de “formas pós-religiosas deespiritualidade” (uma feliz expressão de William Irwin Thompson) (15).Essas formas também não podem ser codificadas como doutrinas e nemservir de base para a ereção de igrejas (de qualquer tipo, stricto ou latosensu). É a espiritualidade da vida cotidiana, da pessoa comum, doconectado a uma rede de conversações, do livre-interagente (nãoexatamente do participante) com o outro-imprevisível (e, portanto, abertaao compartilhamento fortuito e não fechada no cluster dos que professam amesma fé). 4
  5. 5. Notas(11) MATURANA, Humberto (1993). Amar e brincar: fundamentos esquecidos dohumano. São Paulo: Palas Athena, 2004.(12) Idem.(13) Idem-idem.(14) Idem-ibidem.(15) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum for culturalevolution. Ma: Lindisfarne books, 2001. 5

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