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Fluzz & Estado

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Excertos do capítulo 7 do livro de Augusto de Franco, Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.

Excertos do capítulo 7 do livro de Augusto de Franco, Fluzz: vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio. São Paulo: Escola de Redes, 2011.

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    • FLUZZ & ESTADO AUGUSTO DE FRANCOExcertos do capítulo 7 do livro Fluzz: vida humana e convivênciasocial nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio.São Paulo: Escola de Redes, 2011.FASCINANTE! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresashierárquicas: construímos tais instituições – que continuamreproduzindo o velho mundo; sim, são elas que fazem isso – comoartifícios para escapar da interação, para ficar do “lado de fora” doabismo, para nos proteger do caos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nosproteger das experiências da política (pública) feitas pelas pessoas noseu cotidiano. Os Estados tentam nos proteger das experiênciasglocais (de localismo cosmopolita). E as empresas (hierárquicas)tentam nos proteger da experiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, queviram religiões, que reproduzem igrejas, que se comportam comopartidos... Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios paraproteger as pessoas da experiência de fluzz! (Não é a toa que todasessas instituições hierárquicas exigem “monogamia” dos que querem 1
    • manter capturados, como se dissessem: “- Você é meu! Nada detransar com estranhos”).Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos osscripts dos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas(e que, na verdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer.Com tal florescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estãosendo radicalmente alteradas neste momento, mas não porformidáveis revoluções épicas e grandes reformas conduzidas porextraordinários líderes heroicos, senão por pequenas experiências,singelas, líricas, vividas por pessoas comuns! Aquelas mesmasexperiências de interação das quais fomos poupados. É como se tudotivesse sido feito para que não experimentássemos padrões deinteração diferentes dos que deveriam ser replicados. Mas nóscomeçamos a experimentar. E “aqui estamos – como escreveu HakimBey (1984) em Caos – engatinhando pelas frestas entre as paredesda Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitosparanóicos”.Neste texto vamos examinar o Estado-nação.EstadoUm delírio de raiz belicistaAS PREFERÊNCIAS QUE LEVAM ALGUÉM a querer morar ou trabalharem Barcelona, São Francisco, Curitiba, Milão ou Genebra, não são,em geral, relacionadas às características das nações que abrigamessas cidades e sim à dinâmica singular que cada uma delasapresenta. Quem optou por Barcelona, certamente não optariagenericamente pela Espanha. Quem gosta de viver em São Francisco,frequentemente tem motivos muito claros para não querer morar emoutros lugares dos Estados Unidos. 2
    • Não é assim? Tanto faz morar em Curitiba ou Pernambuco, só porqueambas estão no Brasil? Tanto faz morar em Milão ou Consenza, sóporque ambas estão na Itália? Tanto faz morar em Genebra ouBerna, só porque ambas estão na Suíça? É claro que não! Há umadiferença de capital social (ou seja, uma diferença de topologia e deconectividade, na estrutura e na dinâmica, de suas redes sociais)entre essas cidades, que faz toda a diferença em termos de condiçõese estilo de vida e convivência social.O fato é que vivemos em cidades, moramos, estudamos, trabalhamose nos divertimos em localidades. Ninguém convive no país. A naçãonão é uma comunidade concreta. É uma comunidade imaginária, decerto modo inventada e patrocinada pelo Estado e seus aparatos,inclusive pela publicidade massiva das empresas estatais (que seenrolam nas bandeiras nacionais para tentar estabelecer umavantagem competitiva bypassando o mercado ou para fazerpropaganda dos governantes que nomearam seus dirigentes). E apátria (e o patriotismo), ou é a remanescência de um delírio de raizbelicista (aquele mesmo que acompanhou a instalação desse fruto daguerra chamado Estado-nação moderno) ou – para lembrar a jábatida sentença de Samuel Johnson (1709-1784) – é um refúgio decanalhas (1) que se escondem por trás do nacionalismo para protegerseus interesses ou levar vantagem sobre os concorrentes, em geralno campo econômico, por certo, mas também no político.Mas as profundas mudanças sociais que estão ocorrendo nas últimasdécadas estão criando condições favoráveis à independência dascidades do ponto de vista do desenvolvimento local. Fala-se aqui –entenda-se bem – das cidades como redes de múltiplas comunidades,e não propriamente das instâncias locais do Estado (central ouregional), das prefeituras e das outras instituições privatizadoras dapolítica que querem “representá-las” ou comandá-las.O mundo humano-social, ao contrário do que pensam osgovernantes, não é um conjunto de Estados, nações ou países. É umaconfiguração móvel e complexa de infinidades de fluxos entrepessoas e grupos de pessoas, agregadas, por sua vez, em múltiplosarranjos locais e setoriais: famílias, vizinhanças, comunidades,cidades, regiões, organizações (dentre as quais, algumas poucas –que não chegam a duas centenas – são Estados). 3
    • Depois que se generalizou a forma Estado-nação, as cidadespassaram a ser localidades de um país (devendo-se entender por issoque elas passaram a ser instâncias subnacionais). Para todos osefeitos, são encaradas, pelos aparatos estatais que comandam ospaíses, como instâncias subordinadas (ordenadas a partir de cima). Econquanto tenham alguma autonomia formal, figurando comosujeitos de pactos federativos em muitas Constituições modernas, ascidades são realmente subordinadas do ponto de vista político,jurídico, fiscal, energético, econômico etc. Seu funcionamentodepende, em grande parte, de decisões tomadas sem a suaparticipação. Normas, repasses de recursos e investimentos, sãodeterminados por outras instâncias, de cima e de fora. E na medidaem que tudo isso gera dependência, não interdependência, sãoconstruções contra-fluzz.A nação como comunidade imagináriaA nação não é uma comunidade concreta. É uma comunidadeimaginária, de certo modo inventada pelo Estado e seus aparatosAS NAÇÕES SÃO APRESENTADAS como grandes comunidades, nosentido alemão seiscentista do termo, ou naquele sentido, que lheatribuía Althusius (1603), da grande comunidade territorial deherança (2) e não no sentido que lhe atribuímos hoje, da pequenacomunidade como cluster, de escolha de uma (“porção” da) redesocial para conformar um campo de convivência, em uma atividadecompartilhada, de prática, de aprendizagem ou de projeto. Dewey(1927) em “O público e seus problemas”, faz uma correta distinçãoentre a grande comunidade e a pequena comunidade do ponto devista da democracia (substantiva) como modo de vida comunitário.Não é na grande comunidade (nação) que essa democracia pode sematerializar plenamente e sim na pequena comunidade local; parausar suas próprias palavras: “a democracia há de começar em casa, esua casa é a comunidade vicinal” (3).Essas grandes comunidades-nacionais são, é claro, instituiçõesimaginárias. Como tal são abstratas. Ninguém convive ou interageconcretamente com a população de um país. Ser brasileiro, italiano 4
    • ou argentino não é, stricto sensu, pertencer a uma comunidadeconcreta, porquanto, para os nossos ‘compatriotas’ (e essa palavra jáé horrível), não estamos incluídos, como pessoas, no seu modo-de-vida, quer dizer, não fomos voluntariamente aceitos e acolhidos poreles no seu campo de convivência. Who cares? Somente comunidadeshumanas podem incluir seres humanos, mas quem é incluído ésempre a pessoa com suas peculiaridades e não o indivíduo como umnúmero em uma estatística ou uma variável censitária.No entanto, para fazer parte da grande “comunidade” nacional bastanascer naquele território delimitado como seu (a partir da conquistaou da guerra) e, em geral, manter “laços de sangue” ou hereditárioscom os nacionais (ou seja, trata-se do reconhecimento de umaherança genética, condição a partir da qual – acredita-se, e não semrazão – a transmissão não-genética de comportamentos quechamamos de cultura pode ser viabilizada, inoculando-se tal cultura(como quem “carrega” um programa) nos novos membros(descendentes dos nacionais), a partir da família e, em seguida, davizinhança, da escola, da igreja, das organizações sociais, dasempresas e das instituições nacionais estatais e não-estatais). Note-se que essa identidade abstrata nacional é construída a partir de umavisão de passado: origem comum (em geral forjada), raça (umaidentificação inconsistente do ponto de vista científico), língua,costumes, credos, cultura enfim e história (escrita sempre da frentepara trás) (4).Percebe-se que não há aqui qualquer escolha humana. Não háacolhimento (quer dizer, inclusão). Funciona mais ou menos assimcomo na propriedade de um rebanho animal: as crias do gadopertencem automaticamente ao dono da boiada, aumentam o númerode cabeças do seu patrimônio. Pois bem. No caso do pertencimento àgrande “comunidade” nacional quem faz às vezes do dono é oEstado-nação.É o Estado que interpreta o que é a nação. É o Estado que delimitaquem pode ou não pode ser incluído na nação e estabelece condiçõesde pertencimento ou inclusão. Mas o Estado não é uma comunidade esim um sistema de organizações que gera programas verticalizadores(ou, talvez melhor, do ponto de vista da rede social, o inverso: umamatriz de programas verticalizadores que gera um sistema de 5
    • instituições), cuja função precípua é obstruir, separar e excluir. Apartir do monopólio legalizado da violência, é o Estado que diz: issovocê não pode fazer; por tal ou qual caminho você não pode trafegarsem autorização; aqui você não pode entrar ou daqui você deve sair.Ponha-se na rua, quer dizer, fora do meu território!Não importa se, por exemplo, uma comunidade concreta deespanhóis queira acolher um africano, incluindo-o no seu campo deconvivência para a realização de um projeto comum. Se o africanoem questão não atender a certas condições e não preencher certosrequisitos ditados pelo Estado, nada feito. E mesmo que cumpratodas as exigências, ele sempre será, aos olhos do Estado-naçãoespanhol, um estrangeiro, ou seja, um estranho, alguém que deveser impedido de circular livremente, separado dos “verdadeiros”espanhóis e excluído de certos direitos – o principal dos quais o depertencer plenamente à comunidade política que define os destinoscoletivos dos espanhóis. Sim, será um excluído político porque será –aos olhos da autocrática realpolitik estatal – sempre alguém cujomodo-de-ser ameaça, independentemente do que faz ou venha afazer, simplesmente por ser diferente, por ser um outro, o modo-de-ser estabelecido como desejável pelo imaginário nacionalhistoricamente construído pelo mega-programa Estado e que éreinterpretado de tempos em tempos pelos condomínios privados deagentes políticos – estes sim, bem concretos – que assumem asfunções de governo.De certo ponto de vista, o que chamamos de Estado como fonte ougeratriz de programas verticalizadores que “rodam” na rede social,faz parte da ideologia dos governos. No que tange a função delegitimação dessa ideologia, foi necessário promover uma fusão entreo Estado e a nação. Sem isso o aparato hierárquico estatal nãoconseguiria infundir na grande “comunidade” nacional as noçõesabstratas de identidade que alimentam o aparato, para as quais odrive principal foi, invariavelmente, a guerra (que permite a formaçãode identidade a partir do inimigo). Sim, os Estados – qualquerEstado, inclusive a forma atual Estado-nação – são frutos da guerra ese alimentam (internamente) do “estado de guerra” ou (na fórmuleinversa de Clausewitz-Lenin) da prática da política como umacontinuação da guerra por outros meios. São produtos, portanto, nãoda cooperação (ou da amizade política) que supostamente aglutinaria 6
    • a nação – e de todo aquele blá-blá-blá da “vontade de viver juntos” –e sim da competição (ou da inimizade política).Por isso que todo Estado é hobbesiano. Todo Estado é fruto dorealismo político. Todo Estado é autocrático (inclusive naqueles quedenominamos de “Estados democráticos e de direito” os enclavesautocráticos são tão onipresentes que a estrutura e a dinâmica daentidade como um todo não podem acompanhar o comportamentodemocrático das sociedades que dominam). Ao criarmos a identidadeimaginária “Atenas” para colocá-la no lugar da identidade concreta“os atenienses”, já não estamos mais no campo da democracia e simno da autocracia. E os próprios gregos do século de Péricles fizeramisso, quando se comportaram de modo a-político no enfrentamentoviolento com outras cidades-Estado da região.Não é a toa que os governantes vivem apelando para um sentimentonacional. Falam da França, da América ou do Brasil como se essas“entidades” existissem e tivessem vontade própria, a fim de extrair ocombustível do “fervor patriótico” para se manter no poder, parareproduzir o sistema de instituições estatais que quer impor sualegitimidade à sociedade com o fito de torná-la seu dominium (aomodo feudal mesmo) e para continuar produzindo inimizade nomundo.Ora, você pode dizer: eu não quero “viver junto” com quem eu nãoquero, apenas pelo fato de ser brasileiro, na medida em que issosignifique “não-querer viver junto” com um inglês pelo fato de ele seringlês (e não brasileiro). Por que deveria? Quem disse que somosinimigos? A quem interessa manter esse tipo de rivalidade subjetiva?Do ponto de vista genético – a ciência biológica já mostrou – somosmesmo, todos nós, uma única grande família. Do ponto de vistacultural parece claro, a não ser que nos deixemos intoxicar pelaestiolante ideologia multiculturalista, que culturas que não sepolinizam mutuamente – por meio de saudável miscigenação –tendem a apodrecer.Não existe um Brasil, mas milhares, talvez milhões. Stricto sensu a“nação brasileira” não é, nem nunca será, uma comunidade e simuma interação de miríades de comunidades que falam a mesmalíngua (com vários sotaques e regionalismos), têm alguns costumes 7
    • parecidos (e muitos costumes locais bem diferentes), várias históriasreais (e não apenas uma única narrativa, como aquela que éensinada nas escolas). A nação só é una do ponto de vista dasinstituições estatais (por meio das quais se materializam os poderesda República, as forças armadas, a moeda) e daquilo queantigamente se chamava, de um jeito meio sem-jeito, de “aparelhosideológicos de Estado”. Além, é claro, do governo central, que precisaespichar essa unidade para além da herança cultural.Mas há uma idéia e, mais do que isso, uma prática de bando na raizdessa unidade. Como no surgimento da noção de cidadania (quenada tinha de universal, pelo contrário), trata-se de proteger “os dedentro” contra “os de fora”, impedir que eles – os outros – venhamvender na nossa feira, que concorram conosco em igualdade decondições, que adquiram nossas terras, que roubem nossas riquezasnaturais (que certamente o próprio Deus nos concedeu, lavrando aescritura no cartório do céu: em nome do Estado, é claro), quetomem nossos empregos, que exerçam plenamente a cidadaniapolítica (disputando conosco o poder associado à representação).Sim, é um sentimento de bando que se manifesta aqui, justificadopelo pressuposto antropológico de que o ser humano, porinerentemente competitivo, é hostil por natureza e que, portanto, osseres humanos, deixados a si mesmos, como escreveu Hobbes(1651), engalfinhar-se-iam em uma guerra de todos contra todos.Ah... A menos que haja um Estado para impedir, entenda-se bem,não o conflito em si e a guerra, mas o conflito no interior do própriobando e a guerra entre “os de dentro”. Tudo isso, é claro, para poderpromover o conflito e a guerra com “os de fora”. Foi assim quenasceu o Estado, e inclusive, como já foi assinalado, a forma atualEstado-nação e a ordem internacional do equilíbrio competitivo.Então, quando alguém fala do Brasil, ou em nome do Brasil, podemosprocurar que certamente vamos achar os interesses particularistas,bem concretos, que se escondem sob essa “nacionalização” abstratado discurso. É alguém tentando se proteger do mercado. É alguémtentando proteger a sua indústria ou o seu negócio. É alguémtentando se proteger da concorrência comercial ou política. É alguémtentando proteger o seu emprego. É alguém tentando proteger suascondições de vida. É alguém tentando desqualificar os oponentespara ficar no poder. É alguém tentando manter nas mãos do seu 8
    • bando as instituições estatais que aparelhou. É sempre alguém nocontra-fluzz, tentando se proteger do outro.“O Brasil” é um construct. Se somos brasileiros, na maior parte dotempo, nos nossos trabalhos, nos nossos estudos e pesquisas, nosnossos relacionamentos, “o Brasil” não gera preferênciassignificativas (5).Na aceitação da legitimidade do outro e na sua incorporação emnosso espaço de vida, não deveríamos dar a mínima se uma pessoa ébrasileira, italiana, argentina, francesa ou norte-americana. Qualquerpreferência, baseada nesses critérios, para acolher ou rejeitar umapessoa em uma comunidade, é uma canalhice. Sim, nunca é demaisrepetir o dito de Johnson: “o patriotismo é o último refúgio doscanalhas”. Uma pessoa decente não deveria se deixar drogar comesse tipo de ideologia que obstrui, separa a exclui para atender aexigências hierárquicas que, ao fim e ao cabo, são desumanizantes.Nos últimos séculos o fervor patriótico que alimentava as“comunidades” nacionais foi sendo obrigado a dividir espaço com oconsumismo, apátrida por natureza, internacionalizante, sim, masnão glocalizante. E não necessariamente mais humanizante. Ocorreque o processo de globalização (ou de planetarização) começou aquebrar as fronteiras nacionais (aquelas que são vigiadas pelo Estadonacional) em todos os campos, ensejando que culturas não-nacionaispudessem emergir das múltiplas interações cruzadas de pessoas dediferentes nacionalidades. Praticamente nenhum Estado-nação, nemmesmo o mais autocrático deles, consegue mais fechar suasfronteiras, em termos culturais, isolando seu “rebanho” do resto domundo. A telefonia móvel e a Internet (a despeito daquelevergonhoso acordo do Google com os ditadores chineses, que nãodeve ser esquecido, conquanto o próprio Google tenha sido levado arevê-lo, muitos anos depois) aceleraram esse processo. De sorte queexiste hoje um contingente crescente de pessoas que não estão nemaí para identidades nacionais e que estão se inserindo em múltiplascomunidades transnacionais, compostas por pessoas de váriasnacionalidades, a partir de suas próprias escolhas.No segundo capítulo do seu excelente Transforming History intitulado“Cultural History and Complex Dynamical Systems”, William Irwin 9
    • Thompson (2001), escreveu que “toda nossa matriz de identidadebaseada em uma cultura de desejo de compra econômica e fervorpatriótico está mudando para uma nova cultura planetária...”. Masem seguida adverte que “explosões reacionárias [atuando “como aInquisição e a Contra-Reforma, que procuraram travar e reverter asforças modernizadoras da Renascença e da Reforma”] podemprejudicar muito e atrasar a transformação cultural por séculos a fio”(6).Pois é precisamente neste ponto de bifurcação que nos encontramoshoje. Todavia, para além, talvez, do que avalia Thompson, não sãoapenas “o fundamentalismo religioso e as reações terroristasnacionalistas da direita à planetização” (7) que estão tentandoenfrear a emergência de uma nova identidade transcultural. Hoje opróprio conceito de nação, interpretado e materializado por umaforma já decadente de Estado – o Estado-nação e as ideologiasnacionalistas nele inspiradas ou por ele infundidas na sociedade –constitui um obstáculo à transição histórica atualmente em curso(cujo sentido é a glocalização).A falência da forma Estado-naçãoA maior parte dos Estados-nações não deu certoDO PONTO DE VISTA DO ‘DESENVOLVIMENTO como liberdade’ – parausar a feliz expressão de Amartya Sen (2000) –, é forçoso reconhecerque a imensa maioria dos Estados-nações do mundo não deu muitocerto (8).O chamado mundo desenvolvido restringe-se a uma lista que nãochega a três dezenas de países: quer se considere o desenvolvimentohumano medido pelo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano doPNUD, quer se considere o desenvolvimento econômico, medido peloCGI – Índice de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial,quer se considere o desenvolvimento tecnológico e a sintonia com asinovações contemporâneas, medido pelo IG – Índice de Globalização,da AT Kearney/Foreign Policy. Desenvolvidos (nesses três sentidos)são os países que apresentam IDH igual ou superior a 0,9, CGI maior 10
    • ou igual a 4,6 e que figuram nos primeiros vinte ou trinta lugares dalista do IG, daqueles que têm ambientes mais favoráveis à inovação.Um cruzamento desses três índices revela a lista – aborrecidamenteprevisível – dos países que deram certo. Pasmem, mas são menos de30! Em ordem alfabética (em dados do final da década passada):Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul,Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda,Hong Kong, Irlanda, Islândia, Israel, Itália, Japão, Luxemburgo,Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, Cingapura, Suécia eSuíça. (A essa lista poder-se-ia, com boa vontade, acrescentar maisalguns, como, por exemplo – e entre outros –, a República Checa, aEstônia, a Eslovênia e, na América Latina, o único candidato desempre: o Chile).Significativamente, a imensa maioria dos países dessa lista dos maisdesenvolvidos tem regimes democráticos. Significativamente,também, não figuram nessa lista dos mais desenvolvidos: i) paísescom regimes ditatoriais, ainda que apresentem altos índices decrescimento econômico (como China ou Angola); ii) protoditaduras(como Rússia ou Venezuela); e, nem mesmo, iii) democracias formaisparasitadas por regimes neopopulistas manipuladores (comoArgentina e outros países da América Latina).Em outras palavras, do ponto de vista do ‘desenvolvimento comoliberdade’, os Estados-nações existentes no mundo atual, em suamaioria, não são instâncias benéficas.Os números são assustadores. Mais da metade (50,5%) dos 193países do mundo ainda vive sob regimes ditatoriais ouprotoditatoriais. Apenas 80 países (reunindo 49,5% da populaçãomundial) apresentem democracias formais (um cálculo com boavontade, incluindo aquelas que são parasitadas por regimespopulistas ou neopopulistas manipuladores). Isso significa que cercade 3 bilhões e meio de pessoas não têm experiência de democraciarepresentativa – sim, a referência aqui é à democracia formal mesmo– ou têm dessa democracia uma experiência muito limitada. Quasequatro milhões de seres humanos (a maioria da humanidade) nãotêm plena liberdade para criar, para inventar, para inovar, para sedesenvolver e para promover, com alguma autonomia, o 11
    • desenvolvimento das localidades onde vivem e trabalham. E não háqualquer processo “natural”, de “evolução”, sempre ‘para frente epara o alto’, como imaginam alguns crédulos. Em 1975, 30 naçõestinham governos eleitos pela população. Em 2005, esse número tinhasubido para 119 (9). Mas nos últimos anos o crescimento dademocracia e da liberdade política está sofrendo forte desaceleraçãoe isso não tem a ver somente com o requisito democrático daeletividade, mas, sobretudo, com o da rotatividade (ou alternância),para não falar dos outros princípios (como a liberdade, a publicidade,a legalidade e a institucionalidade e, como consequência de todosesses, a legitimidade).O mais recente levantamento sobre o estado da democracia nomundo – The Economist Intelligence Unit’s Index of Democracy 2010– abarcando 167 países (Estados-nações), revelou que existematualmente apenas 26 países com democracia plena (em termosformais), agregando 12,3% da população mundial. E revelou tambémque esse número não está aumentando; pelo contrário, a situação foidescrita como “democracy in retreat” e “democracy in decline” (10).Bem mais da metade dessas pessoas vivem em cidades quepoderiam “dar certo”, não fosse pelo fato de estarem subordinadas aEstados-nações que sufocam seu desenvolvimento. Sim, 87% dosEstados-nações do globo não podem ser considerados desenvolvidosdos pontos de vista humano, social e científico-tecnológico. Noentanto, nesses 168 países “atrasados” (por assim dizer) e compoucas chances de se inserir adequadamente na contemporaneidade,existem milhares de cidades promissoras, que caminhariamceleremente para alcançar ótimas posições nos rankings da inovaçãoe da sustentabilidade, bastando para tanto, apenas, que lograssem selibertar do jugo dos países – das estruturas centralizadoras dosgovernos centrais e dos outros aparatos de controle e dominação dosEstados-nações – que as estrangulam.O fato é que o Estado-nação não é boa instância – e não é uma boafórmula política – do ponto de vista do desenvolvimento.As cidades, pelo contrário, sempre o foram, pelo menos até agora. Enão há nenhuma razão pela qual as cidades devam continuarmantendo uma atitude genuflexória em relação ao Estado-nação, a 12
    • não ser a concentração de poder nas instâncias nacionais, inclusive opoder de retaliação dos governos e legislativos centrais. Os prefeitos,como se diz, andam de “pires na mão” e ajoelham-se perante osexecutivos nacionais, em parte porque dependem de recursos queforam centralizados pelas instâncias nacionais e, em parte, porquetêm medo de serem discriminados e perseguidos – o que, convenha-se, é um motivo odioso e antidemocrático. Mas isso aconteceporquanto suas cidades não estão preparadas para enfrentar osdesafios de caminhar com as próprias pernas.O reflorescimento das cidadesCidades transnacionais, cidades-pólo tecnológicas, redes de cidades ecidades-redesNÃO É POR ACASO QUE AS CIDADES sempre estiveram na ponta dainovação, seja no aspecto social e político, como a Atenas no séculode Péricles (ou, mais amplamente, no período consideradodemocrático: 509-322 antes da Era Comum), seja no aspectoeconômico e científico-tecnológico, como Bruges (no final do século12), pólo da nascente ordem comercial moderna, logo seguida porVeneza, que foi, talvez, o primeiro centro globalizado da Europa (dofinal do século 14 até o ano de 1500), ou Antuérpia (na primeirametade do século 16) e depois Gênova (na segunda metade), que setornaram centros financeiros, seguidas por Amsterdã (na passagemdo século 17 para o 18), ou por Londres, que se transformou naprimeira democracia de mercado e onde o valor agregado industrial,impulsionado pelo vapor, ultrapassou, pela primeira vez na história, oda agricultura, ou por Boston (no início do século 20), com afabricação de máquinas, passando a Nova Iorque que predominoudurante quase todo o século passado, com o uso generalizado daeletricidade e chegando, afinal, à Califórnia atual, com Los Angeles eàs cidades do Vale do Silício.Hoje o dinamismo das cidades inovadoras já se vê por toda parte.Frequentemente não são mais os países (Estados-nações) queconstituem referências para o desenvolvimento e sim as cidades,sejam cidades transnacionais (Barcelona, Milão, Lion, Roterdã), 13
    • sejam cidades-pólo tecnológicas (Omaha, Tulsa, Dublin e, talvez,Bangalore e Hyderabad, no chamado terceiro mundo), sejam, porúltimo, as coligações de numerosas cidades em extensas regiões doplaneta, que começam a adotar uma lógica própria e diferentedaquela do Estado-nação.Na verdade, cidades que se afirmaram como unidades econômicas –não necessariamente políticas – relativamente autônomas, já vêmsurgindo ao longo dos últimos séculos (como Veneza e outros centrosmais ao norte da Europa: e. g., Riga, Tallin e Danzig). Sãoprefigurações do que Kenichi Ohmae (2005) chamou de ‘Estado-região’, que constitui hoje o palco privilegiado da economia global eque está levando a “um inevitável enfraquecimento do Estado-naçãoem favor das regiões” (11).Algumas dessas regiões, que tendem a substituir o Estado-nação, sãocoligações de cidades (como a área metropolitana de Shutoken,formada por Tóquio, Kanagawa, Chiba e Saitama, com um PNB de1,5 trilhão de dólares; ou a área de Osaka, com 770 bilhões, emdados de 2005). Parece óbvio que essas regiões, que representamunidades econômicas mais pujantes do que a imensa maioria dasnações do mundo, figurando então (2005) em terceiro e o sétimolugares, respectivamente, no ranking mundial, mais cedo ou maistarde, entrarão em choque com o centralizado sistema político dovelho Estado-nação japonês, que não lhes permite uma dose deautonomia correspondente ao seu peso econômico.Ainda que algumas dessas regiões emergentes coincidam compequenos países (como Irlanda, Finlândia, Dinamarca, Suécia,Noruega e Cingapura), em geral elas se formarão a partir doprotagonismo de cidades e desenharão uma nova configuraçãogeopolítica do mundo. Ou seja, ao que tudo indica, a estrutura e adinâmica do Estado-nação não serão preservadas, a não ser emalguns casos.Mas quer falemos de Bangalore e Hyderabad, quer falemos de Dalianou da ilha de Hainan na China, ou, quem sabe, de Vancouver e daBritish Columbia, da Grande São Paulo ou de Kyushu no Japão –mesmo em um sentido predominantemente econômico quantitativo, 14
    • como o empregado por Ohmae – ainda estamos falando de cidades(ou de arranjos de cidades).Sim, continuamos falando de cidades. E é por isso que, nos exemploscolhidos na história e nas nossas tentativas de projeção para aspróximas décadas, não aparecem, em maioria, as capitais dos países,as localidades-sedes dos seus governos centrais. Falamos de Milão enão da Itália (ou Roma). Falamos de Bangalore e não da Índia (ouNova Delhi). Os que falam da Índia (e do Brasil e da Rússia e daChina – repetindo a ilusória hipótese dos BRICs, inventada por JimO’Neill) são aqueles autores, professores, consultores e policymarkersintoxicados de ideologia econômica e siderados pelo crescimento (ouexpansão, mudança quantitativa) e não pelo desenvolvimento(mudança qualitativa). Com frequência são também pessoas que nãose dão muito bem com a idéia de democracia.As cidades na glocalizaçãoEstados são artifícios para proteger as pessoas da experiência dolocalismo cosmopolitaO REFLORESCIMENTO DAS CIDADES – na verdade, das localidadesem geral – é uma das consequências do processo de glocalizaçãoatualmente em curso. O mundo não está apenas se globalizando,mas também se localizando cada vez mais. Isso quer dizer, emoutras palavras, que o mundo único está desparecendo para darsurgimento a muitos mundos.E está havendo uma mudança social que favorece o florescimento daslocalidades em geral – e das cidades em particular – comoprotagonistas do desenvolvimento. Essa mudança, que estáocorrendo simultaneamente na dimensão global e na dimensão local,está tornando inadequada, insuficiente e impotente, a forma Estado-nação. O tão citado juízo do sociólogo americano Daniel Bell pareceser definitivo: o velho Estado-nação tornou-se não só pequenodemais para resolver os grandes problemas, como também grandedemais para resolver os pequenos. 15
    • Em outras palavras, as inovações (sociais, políticas, culturais etecnológicas) introduzidas com o atual processo de glocalização, têmsurgido simultaneamente na dimensão global (como resultado demudanças sociais macroculturais) e na dimensão local (comoresultado de mudanças sociais na estrutura e na dinâmica decomunidades). Entretanto, o Estado-nação tornou-se uma instânciaintermediária resistente a tais mudanças. Ou seja, a mudança quetem ocorrido nas duas pontas – no global e no local – ainda nãoatingiu plenamente o meio, a forma Estado-nação, que, sentindo-seameaçada, está resistindo ferozmente para não ser desabilitada comofulcro do sistema de governança. A primeira década do terceiromilênio pode ser caracterizada como uma década de crise do Estado-nação e de consequente recrudescimento do estatismo.Os Estados-nações criarão, por certo, muitos obstáculos àemergência das cidades como sujeitos autônomos do seu própriodesenvolvimento. Mas não conseguirão resistir por muito tempo àconvergência de múltiplos fatores que estão preparando o seudeclínio. Como previu Castells (1999), “as estratégias do Estado-nação para aumentar a sua operacionalidade (através da cooperaçãointernacional) e para recuperar sua legitimidade (através dadescentralização local e regional) aprofundam sua crise, ao fazê-loperder poder, atribuições e autonomia em benefício dos níveissupranacional e subnacional” (12).Nenhum Estado hoje consegue mais se livrar dos conflitos com seusníveis subnacionais, diante das exigências crescentes de maisautonomia local. Mas a despeito de todos os conflitos políticos efiscais entre diferentes níveis de governo dentro de um mesmoEstado, que só tendem a se aprofundar e generalizar nos próximosanos, nunca é demais repetir que se fala aqui das cidades como redesde múltiplas comunidades interdependentes e não da réplica Estatalmontada nas cidades, da instância municipal do Estado ou dogoverno local.Os que preconizam o declínio do Estado-nação diante dos novosarranjos locais ou regionais que emergem no mundo globalizado,fazem-no quase sempre de um ponto de vista estrita oupredominantemente econômico. É o caso, por exemplo, de Ohmae(entre outros). Mas é preciso ver que o fenômeno da glocalização é 16
    • mais abrangente e não pode ser plenamente captado pelo olhareconômico. Estamos diante de mudança sociais mais profundas, quedizem respeito aos padrões de vida e de convivência social e nãoapenas diante de alterações na estrutura e na dinâmica do capital edo capitalismo. O que está mudando não é somente o modo deproduzir e consumir e sim o modo de ser coletivamente. ‘Umasociedade-rede está emergindo’ – muitos repetem o dito, masparecem não extrair dele todas as consequências e essasurpreendente afirmação vai se tornando banal.O problema com a visão econômica é que ela é reducionista. Imaginaque a configuração do mundo depende do modo de produção e,assim, se esforça para antecipar a nova forma do capitalismo que virá(ou sobrevirá), mas se esquece de perguntar sobre a nova forma desociedade que emergirá. Isso talvez seja uma evidência da resiliênciada crença economicista de que existe alguma coisa como uma“estrutura” econômica que determina, em alguma medida ouinstância, uma suposta “superestrutura” da sociedade.Mas mercados não vêm de Marte. Constituem um tipo deagenciamento operado por seres humanos, terráqueos mesmo, cujocomportamento depende das interações que efetivam com outrosseres humanos; ou seja, tudo isso depende do “corpo” e do“metabolismo” da sociedade (i. e., de sociosferas), vale dizer, da redesocial.Não é nas novas formas econômicas que vamos encontrar o “mapa”das novas cidades. Esse “mapa” não poderá ser outra coisa senão asnovas configurações das redes que configuram a cidade-rede.Tivemos até agora vários tipos de “mapas”, dos quais podemos citaralguns exemplos: as cidades-assentamento “horizontais” que seformaram após o final do período neolítico na Europa Antiga e noOriente Médio (como Jericó, a partir, talvez, do 6º milênio a. E. C.);as cidades-Estado da antiguidade (as cidades monárquicas, muradase fortificadas, que surgiram na Mesopotâmia a partir do 4º milênio,como Uruk, Ur, Lagash etc., e que se replicaram no períodoconsiderado civilizado); as cidades – burgos – organizadas em tornodo comércio nos períodos feudais; uma grande variedade de cidadescorrespondentes aos Estados principescos e reais; até chegar àscidades como instâncias subnacionais (ou domínios do Estado-nação). 17
    • E tivemos também algumas exceções, como Atenas – a polis doperíodo democrático – e outras poleis na Ática. São exceções porquea polis grega democrática não era propriamente uma cidade-Estadosemelhante às suas contemporâneas e sim uma comunidade(koinonia) política. Por último, ao que parece, teremos agora, noocaso do Estado-nação, novos tipos de cidades: as cidades-redes (eas redes de cidades configurando novas regiões).Ao que parece, não é muito útil tentar pegar no passado um modelocomo prefiguração para explicar o fenômeno atual da emergência dacidade-rede. Assim como a globalização da época das navegaçõesnão diz muita coisa sobre a globalização atual, também não teremosum novo venezianismo (por exemplo, não tivemos um novobrugesismo – de Bruges – a não ser o próprio venezianismo, ooriginal, dos séculos 14 e 15). Não teremos novas “ligashanseáticas”, nem um neo-antuerpismo ou um neogenovismo; assimcomo nenhum país ou região poderá cumprir no mundo atual o papelque foi desempenhado, em suas épocas, por Amsterdã, Londres,Boston, Nova Iorque ou Los Angeles e adjacências.Por quê? As explicações são várias: porque a ordem comercialcontemporânea não tem mais mono-pólos (como foram Bruges eVeneza), de vez que a globalização hoje é policêntrica; porque ocapital financeiro transnacional não exige mais centros fixos (como aAntuérpia ou a Gênova do século 16); porque as chamadasdemocracias de mercado não precisam estar mais ancoradas emimpérios militares (como a Inglaterra dos séculos 18 e 19); porque as“máquinas que fabricam máquinas” da nova indústria doconhecimento não requerem mais uma infra-estrutura tão pesadaque só possa ser reunida em uma localidade com alta capacidadehard instalada (como Boston, nos Estados Unidos no início do século20); porque o acesso à eletricidade é praticamente universal (e aconexão banda larga segue o mesmo caminho) e a energia e ainteligência não precisam estar mais espacialmente tão concentradas(como estiveram em Nova Iorque ou em Los Angeles e nas cidadesdo Vale do Silício durante o século 20).Não é o mercado que determina. Não é o Estado que decide. São osfenômenos que ocorrem na intimidade da sociedade e que têm a vercom o grau de conectividade e de distribuição da rede social que 18
    • acarretam a estrutura e a dinâmica dos novos agrupamentoshumanos que se estabelecem sobre o território e, inclusive, daquelesque não estão estabelecidos sobre um território (como osagrupamentos virtuais). É claro que o mercado pode induzir e oEstado pode restringir (em geral colocando obstruções) as fluiçõesque configuram a forma e o funcionamento das sociedades. Masnenhum desses tipos de agenciamento pode determinar o queacontece.O problema do Estado – dos pontos de vista da democracia e dodesenvolvimento (ou da sustentabilidade) – não é que ele se assentaterritorialmente e sim que ele se constitui como um mainframe deprogramas verticalizadores. A Matrix como mainframe, do filme dosirmãos Wachowski, não precisava se assentar em um territóriodeterminado para executar o seu papel verticalizador. Aliás, no filme,o centro de vida alternativa e de resistência ao poder vertical – Zion– era territorialmente (e mais do que isso, subterraneamente)situada, enquanto que a Matrix era virtual, ou melhor, virtualizante...O territorial não leva necessariamente à verticalização (oucentralização), nem o virtual nos salva da dominação do podervertical. Porque as disposições que configuram o que se manifestaráno mundo físico ou no mundo virtual estão no espaço-tempo dosfluxos e não no espaço-tempo físico ou no chamado mundo digital(13). Mas o agarramento ao território, esse agrilhoamento tamásicocontra-fluzz – posto que estabelecido para tentar impedir a vidanômade das coisas – tem sido fonte, em grande parte, do poder deseparar os seres humanos: uma tentativa de matar no embrião osimbionte social.Os Estados foram erigidos para nos proteger da experiência dolocalismo cosmopolita, uma experiência glocal. Sob seu domínio, umapessoa não pode ser cidadã do seu próprio mundo e não podeinteragir livremente com outros mundos. Não, ela deve seraprisionada no mundo único que foi territorialmente repartido pororganizações erigidas em função da guerra e separadas porfronteiras, fechadas e burras. Em geral não pode atravessar essasfronteiras sem a permissão do poder estatal. Em uma parte doscasos, o poder estatal não concede tal licença a seus súditos,trancafiando-os no próprio território-penitenciária, como se tivessem 19
    • sido condenados por algum crime gravíssimo. Em outra parte doscasos, não deixa entrar (ou cria toda sorte de empecilhos para aentrada) em seus territórios de certas categorias de estrangeiros.ComunitarizaçãoAs novas Atenas serão zilhões de comunidadesECOANDO O OPERATING MANUAL FOR SPACESHIP EARTH deBuckminster Fuller (1968), McLuhan (1974) afirmou que “aespaçonave Terra não tem passageiros, só tripulação” (14). Comopoderíamos considerar alguém “estrangeiro” se pertencemos todos àmesma família (em termos genéticos, praticamente toda a populaçãoda Terra é prima em um grau inferior ao 50º), habitando um planetatão minúsculo, no qual somos todos tripulantes (quer dizer, todos nóssomos o pessoal necessário para o bom funcionamento da nave)?Na modernidade, em um padrão descentralizado, 193 Estados-naçõesimpõem modelos autocráticos de governança baseados no equilíbriocompetitivo. A ilusão (e a impostura) de que sete bilhões de pessoaspossam ser administradas por menos de duzentas unidadescentralizadas – e, em grande parte (a maior parte) autocratizadas – éaceita como se fosse normal. Como se fosse possível disciplinar todaa diversidade da interação ensejada por bilhões de interworlds emduas centenas de organizações, em sua ampla maioria, capengas,autoritárias e corruptas, controladas por grupos privados quesatisfazem seus interesses à custa do público, quando não porsociopatas, ladrões e facínoras de todo tipo.Tudo indica que não poderemos mais ser arrebanhados eaprisionados ou dominados por 193 organizações hierárquicas,eivadas de enclaves autocráticos resilientes – constituídos comobarreiras, para tentar obstruir fluzz –, como são os Estados nações daatualidade. Nem por algumas dezenas ou centenas de milhares deEstados-locais (ou instâncias locais de um Estado central) chamadosde cidades (indevidamente, posto que a cidade são sempre redes decomunidades). As novas Atenas serão zilhões de comunidades. 20
    • Comunitarização é a nova palavra de des(ordem), quer dizer, de umanova ordem emergente, bottom up. O reflorescimento das cidades éum sintoma do fortalecimento das comunidades que as constituem.São essas comunidades que comporão outras unidades celulares danova arquitetura de governança do mundo glocalizado. É por isso queas cidades (e as coligações de cidades em novas regiões econômicase geopolíticas) – e não mais, em geral, os Estados-nações – são hojeinstâncias intermediárias nessa transição para outra etapa do sistemaglobal, no rumo da efetivação de uma verdadeira ecumeneplanetária.Mas – repetindo o mantra – o modelo é fractal e não unitário. Issosignifica duas coisas. No plano global, uma ecumene planetária nãopoderá ser uma réplica global do Estado-nação; nada assim tãomonstruoso como um governo mundial ou um parlamento mundial,que apenas transferiria, para o seu interior, o modelo perverso deequilíbrio competitivo ainda reinante no cenário internacional. Talecumene, não será uma administração, um sistema executivo decomando-e-controle, nem mesmo uma grande instância derepresentação baseada na alienação da autonomia das localidades oucomunidades que a constituem. Ela se formará por emergência, talcomo ocorre na regulação da capa biosférica que envolve o planeta (osimbionte natural). E, no plano local, a identidade da cidade-redetambém se forma por emergência, na sinergia de múltiplasidentidades que, ao se identificarem entre si, também se identificamcom ela (ou parte dela) por herança ou projeto compartilhado aposteriori, e não por uma decisão consciente (e a priori) de algumcentro diretor ou coordenador.Cada cidade tem muitas comunidades (ou seja, em princípio, cadacidade pode ter múltiplas identidades). Cada comunidade sedesdobra, por sua vez, em muitas outras comunidades (aumentandoainda mais a diversidade das identidades). Isso poderia ser umproblema, porque, a rigor, uma comunidade nuclear de convivênciacotidiana com grau máximo de distribuição e conectividade, capaz deensejar pleno relacionamento entre todos os seus membros (e,consequentemente, usinar uma identidade inequívoca) é uma redemuito pequena, não chegando, talvez, a duas centenas de pessoas.Só não estamos diante de um problema insolúvel porquanto hátambém muita superposição. Uma pessoa participa ao mesmo tempo 21
    • de várias comunidades desse tipo (familiar, funcional, de prática, deaprendizagem, de projeto etc.) e não está condenada a conviver emum único círculo restrito de relacionamentos. Assim, o padrão deinteração é complexo, dando margem à formação de circularidadesinerentes que – se compartilhadas por múltiplas redes urbanas –podem configurar a cidade-rede.Ademais, as cidades já existem, para além de eventos sócio-territoriais, geograficamente localizados, como “regiões” do espaço-tempo dos fluxos. Não se trata de fabricar novas cidades, seguindoum projeto, uma planta, uma maquete. Toda vez que se tenta fazerisso, aliás, os resultados são péssimos: criam-se arquiteturasverticalizadoras e dinâmicas autocratizantes (como é o caso daschamadas “cidades-planejadas”, seja a nova capital do Egito criadapor Amenófis IV para o deus Aton ou Brasília), para não falar dodispêndio desnecessário de recursos. Verdadeiras cidades sópassarão a existir (em termos sociológicos, por assim dizer), váriasdécadas depois da instalação dessas experiências arquitetônicas e deplanejamento urbano de eternos “aprendizes de feiticeiros”, queretornam de tempos em tempos. Padrões de comportamento socialpeculiares já se reproduzem nas cidades por efeito de herançacultural, às vezes milenar e isso não pode ser substituído poriniciativas conscientes de um número limitado de planejadoresurbanos, mesmo quando estão imbuídos das melhores intenções.Assim como não se trata de planejar novas cidades (como complexosurbanos instalados ex ante à dinâmica social), também não se trata –na recusa à verticalização do mundo imposta pelo Estado e àchamada “sociedade de controle” – de urdir novas comunidades apartir de um plano de um grupo privado. Grupos marginais, muitasvezes com forte potencial transformador – pois que a inovação, narazão direta do grau de conectividade e distribuição das redes sociais,costuma partir da periferia do sistema e não do centro – surgemmesmo nos momentos de crise dos velhos padrões de ordem.Mas o que não se pode pretender é constituir comunidades desse tipocomo proposta política para estabelecer um caminho de mudança,forjando estudadamente uma identidade e buscando ganhar almaspor meio do proselitismo ou da aplicação de outros programasproprietários. 22
    • Comunidades se formam a partir de identidades, é certo. Masidentidades também são programas que “rodam” em redes sociais.Ora, programas que podem favorecer a emergência das cidades comoprotagonistas do desenvolvimento são programas de capital social. Ecapital social é um bem público.Em uma sociedade em rede não é privatizando capital social quevamos conseguir contribuir para a emersão de uma nova esferapública (social) nas cidades ou localidades, capaz de substituir alimitada esfera pública atual, contraída pela invasão dos programasproprietários do Estado-nação (que, ao contrário do que se afirma,são privatizantes e quase sempre desestimulam ao invés de induzir odesenvolvimento).Cidades inovadoras, não-Estados-naçõesCidades inovadoras – como redes de comunidades – em rota deautonomia crescente em relação aos governos centrais que as tinhampor seus domíniosNAS GRANDES TRANSFORMAÇÕES MOLECULARES – aquelas que têmconsequências duradouras – o velho é substituído pelo novo nãoporque foi destruído, mas porque se tornou obsoleto. Os velhospadrões nunca são eliminados de uma vez ou para sempre, mascontinuam existindo, como remanescências, vestigialmente. Ao quetudo indica, os Estados-nações continuarão existindo por muitotempo, assim como ainda existem hoje algumas comunidades deherança (do tempo medieval) e velhas tribos indígenas primitivas (daera paleolítica). Ao contrário do que previram os críticos daglobalização, apavorados ante a perspectiva de uma uniformização ouhomogeneização que seria imposta ao mundo inteiro, o cenário daglocalização é o de um conjunto de mundos variados, que estarãonão apenas em locais diversos, mas também em tempos diferentes.Mas nessa nova configuração os Estados-nações não terão mais oprotagonismo, hoje quase único e exclusivo, da governança dodesenvolvimento, baseado nos monopólios da regulação e daviolência que ainda se esforçam por deter em suas mãos. Sim, osEstados-nações continuarão existindo, mas já terão perdido o 23
    • monopólio da governança do desenvolvimento, pelo simples fato deque não conseguirão mais impedir a emergência da inovação.Na verdade, em uma sociedade em rede é muito difícil construirmonopólios de um novo fator cada vez mais decisivo nos processosde produção e de regulação: o conhecimento. O conhecimento é umbem intangível que, se for aprisionado (estocado, protegido,separado), decresce e perde valor e, inversamente, se forcompartilhado (submetido à polinização ou à fertilização cruzada comoutros conhecimentos) cresce, gera novos conhecimentos e aumentade valor (aliás, é isso, precisamente, o que se chama de inovação).Os Estados e as empresas tradicionais (sempre associados nessacoligação que formou o capitalismo que conhecemos) continuarãotentando aprisionar o conhecimento ou regulá-lo top dow a partir dasleis de patentes, do domínio privado sobre produtos do conhecimento(como o direito autoral), do segredo e da falta de transparência (ouaccountability) e dos sistemas de ensino (as burocracias escolares eas hierarquias sacerdotais que constituem as academias). Mas nãopoderão mais evitar que novos conhecimentos se formem à margemdas instituições que regulam e à sua revelia. E, o que é maisimportante, não poderão mais competir com a produção em largaescala de conhecimentos e, inclusive (uma conseqüência), deprodutos comerciais – como os chamados peer production ecrowdsourcing – e com as outras formas não-mercantis de inovação,como as que serão acionadas na emergência das novas cidades.Ainda que se constitua como instância autorizada de fabricação,interpretação e aplicação das leis e ainda que continue detendo osmonopólios da regulação macro-econômica, da emissão de moeda edo uso da violência, o velho Estado-nação ficará falando sozinhoenquanto as cidades inventam novas instituições e novosprocedimentos adequados à governança do seu própriodesenvolvimento. E isso ocorrerá não porque o Estado-nação nãoqueira mais barrar tais avanços e sim porque não terá os meios parafazê-lo.O próprio sistema político baseado na verticalização do Estado-naçãojá está sentindo a mudança. Já é mais importante, hoje, ser prefeitode São Paulo do que governador da grande maioria dos estadosbrasileiros. Seria mais importante ser administrador de Shutoken do 24
    • que chefe de governo do Japão. E amanhã, em tudo o que disserrespeito ao desenvolvimento, os governantes mais importantes nãoserão mais os chefes do governo ou do Estado (nacional) e sim osadministradores de cidades inovadoras e de regiões formadas porcoligações de cidades. Quem sabe na futura China (ou no que ela viera se transformar), os participantes do sistema de governança deDalian terão mais importância do que têm hoje os seus ditadores (emum cenário, é claro, em que não houver mais ditadores).De qualquer modo, as cidades serão independentes na razão diretada sua capacidade de inovação. O processo de independência dascidades é um processo de inovação. As cidades que quiserem serindependentes estão condenadas a inovar permanentemente.Não há uma definição de cidade inovadora a não ser aquela, quasetautológica, de que é uma cidade que inova ao criar ambientesfavoráveis à inovação (e não uma cidade em que o governo local querpegar a bandeira da inovação com objetivos de marketing político).São esses ambientes que caracterizam a cidade inovadora como umacidade aberta, conectada para dentro e para fora, ágil naregulamentação (sobretudo, mas não apenas, no que tange aosempreendimentos empresariais e sociais) e educadora. Para tanto, énecessário que as cidades que queiram ser inovadoras construamsistemas locais de governança que favoreçam ao invés de dificultar aregulação emergente, a partir da comunitarização.O mercado nos forneceu um modelo relativamente eficaz deregulação emergente, tão sedutor que muitas pessoas deixaram-seintoxicar por uma visão mercadocêntrica do mundo, que poderia serresumida na pergunta: ora, se deu certo para as unidadeseconômicas, por que não daria também para as unidades políticas esociais? Foi assim que os modernos avacalharam o conceito depúblico. E a rigor também desaproveitaram o que havia de tãorevelador na autorregulação mercantil: o próprio mecanismo daautorregulação ou o processo da emergência. Por medo do risco, daincerteza no tocante aos seus investimentos, em vez de constituíremempresas-fluzz e de articularem seus negócios em rede, erigiramempresas monárquicas, às quais logo associaram ao Estadohobbesiano gerando o capitalismo que conhecemos. 25
    • Notas e referências(1) "Patriotism is the last refuge of a scoundrel" ("O patriotismo é o últimorefúgio dos canalhas”). Cf. BOSWELL, James & CROKER, John (1791). Thelife of Samuel Johnson, LL. D. New York: George Dearborn Publisher, 1833.Disponível em Google Books:<http://books.google.com/books?id=TmShu9cK3IUC&pg=PP1#v=onepage&q&f=false>(2) Cf. ALTHUSIUS, Johannes (1603). Política. Liberty Fund (2003). Rio deJaneiro: Topbooks, s/d.(3) DEWEY, John (1927). O público e seus problemas: Ed. cit.(4) Dentre todos, talvez a língua continue sendo a obstrução mais efetiva àinteração entre diferentes povos, mas tudo indica que esse “muro” tambémestá com seus dias contados. Os avanços, verificados nos últimos anos, nodesenvolvimento de programas de tradução e a construção de sistemassimultâneos de tradução de idiomas, compostos por softwares aplicativos,suportados por hardwares e conectados a dispositivos de reconhecimentode voz em computadores e aparelhos telefônicos, logo anulará essadesculpa da Babel para o viver separado do diferente. Como observouHumberto Maturana, lembrado por Carlos Boyle em um recente post no siteda Escola-de-Redes, Babel não fracassou em virtude das diferentes línguasque falavam seus construtores e sim porque eles não se entendiam entre si(ou seja, o que faltou foi cooperação, de vez que o linguagear pode seexercer mesmo entre duas pessoas que falam línguas diferentes, queacabarão, de um modo ou de outro, se entendendo).(5) A não ser quando a seleção brasileira de futebol joga com a daArgentina. Aí, em uma caricatura degenerada de primitivos seres tribais,nos pintamos de verde-amarelo, nos enrolamos na bandeira e gritamosirracionalmente a plenos pulmões que o legítimo gol feito pelo genro deMaradona não valeu, pois que ele estava impedido e acusamos de ladrão ojuiz. E os argentinos fazem a mesma coisa. Sim, é do jogo, pode-se dizer.Mas em geral esquece-se de perguntar: de que jogo (o esporte competitivocomo “uma guerra sem mortes” como bem o definiu George Orwell)? Deque vale esse tipo de polarização que passa por cima de qualquer senso deurbanidade e justiça? E o quê de bom poderá advir dessa patriotice?(6) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum forcultural evolution. Ma: Lindisfarne books, 2001. 26
    • (7) Idem.(8) SEN, Amartya (1999). Desenvolvimento como liberdade. São Paulo:Companhia das Letras, 1999.(9) Cf. FREEDOM HOUSE (2011). Freedom in the World 2011: Theauthoritarian challenge to democracy. Disponível em<http://www.freedomhouse.org/images/File/fiw/FIW_2011_Booklet.pdf>(10) Democracias plenas (full democracies) são apenas 26 países,correspondendo a 12,3% da população mundial: Norway, Iceland,Denmark, Sweden, New Zealand, Australia, Finland, Switzerland, Canada,Netherlands, Luxembourg, Ireland, Austria, Germany, Malta, CzechRepublic, US, Spain, UK, South Korea, Uruguay, Japan, Belgium, Mauritius,Costa Rica, Portugal. Cf. The Economist Intelligence Unit (2010).Democracy in retreat. New York: The Economist Group, 2010. Disponívelem <http://www.eiu.com>(11) OHMAE, Kenichi (2005). O novo palco da economia global: desafios eoportunidades em um mundo sem fronteiras. Porto Alegre: Bookman, 2006.(12) CASTELLS, Manuel (1999). Para o Estado-rede: globalizaçãoeconômica e instituições políticas na era da informação” in BRESSERPEREIRA, L. C., WILHEIM, J. e SOLA, L. Sociedade e Estado emtransformação. Brasília: ENAP, 1999.(13) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre asociedade, o desenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado.Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(14) Cf. FULLER, Buckminster (1968). Manual de Operação da EspaçonaveTerra. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1983 e MCLUHAN,Marshall (1974) in McLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003): Op. cit. 27