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Fluzz capítulo 7
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Fluzz capítulo 7

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  • 1. Capítulo 7 | Alterando a estrutura das sociosferas AUGUSTO DE FRANCO Vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio 1
  • 2. 2
  • 3. 7Alterando a estrutura das sociosferas Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entre as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paranóicos. Hakim Bey em Caos (1984) O melhor da religião é que ela produz hereges. Ernst Bloch em O ateísmo no cristianismo (1968) 3
  • 4. Os que continuam aprisionados no mundo único dos séculos passadosainda não lograram perceber o que está em gestação neste período.A revelia dos cegos “líderes mundiais” e além da compreensão dosanalistas de governos e corporações, grandes movimentossubterrâneos estão em curso neste momento. De modo molecular,distribuído e conectado de sorte a formar um feixe intenso de fluxos– fluzz –, estão se articulando e se expressando glocalmenteexperiências inovadoras que tendem a alterar na raiz a estrutura e adinâmica das sociosferas. Eis alguns exemplos fulcrais do que estáemergindo: Não-Escolas: comunidades de aprendizagem (homescooling e, sobretudo, communityschooling, cada vez mais na linha de unschooling) em rede, sem currículo e sem professor e aluno. Não-Igrejas: formas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações das burocracias sacerdotais. Não-Partidos: redes de interação política (pública) exercitando a democracia local na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Não-Estados-nações: cidades inovadoras – como redes de comunidades – que assumem a governança do seu próprio desenvolvimento em rota de autonomia crescente em relação aos governos centrais que tinham-nas por seus domínios. Não-Empresas-hierárquicas: redes de stakeholders – demarcadas do meio por membranas (permeáveis ao fluxo) e não pode paredes opacas – como novas comunidades de negócios do mundo que já se anuncia. 4
  • 5. Fascinante! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresas hierárquicas:construímos tais instituições – que continuam reproduzindo o velho mundo;sim, são elas que fazem isso – como artifícios para escapar da interação,para ficar do “lado de fora” do abismo, para nos proteger do caos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nos protegerdas experiências da política (pública) feitas pelas pessoas no seu cotidiano.Os Estados tentam nos proteger das experiências glocais (de localismocosmopolita). E as empresas (hierárquicas) tentam nos proteger daexperiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, que viramreligiões, que reproduzem igrejas, que se comportam como partidos...Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios para proteger as pessoasda experiência de fluzz!Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos os scriptsdos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas (e que, naverdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer. Com talflorescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estão sendoradicalmente alteradas neste momento, mas não por formidáveis revoluçõesépicas e grandes reformas conduzidas por extraordinários líderes heróicos,senão por pequenas experiências, singelas, líricas, vividas por pessoascomuns! Aquelas mesmas experiências de interação das quais fomospoupados. É como se tudo tivesse sido feito para que nãoexperimentássemos padrões de interação diferentes dos que deveriam serreplicados. Mas nós começamos a experimentar. E “aqui estamos – comoescreveu Hakim Bey (1984) – engatinhando pelas frestas entre as paredesda Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitosparanóicos”. 5
  • 6. Aprendizagem, não ensinoAs escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem- Psiu! Cale a boca. Comporte-se! Pare de conversar. Para de perguntar. Emvez de conversação, silêncio. A quem é inferior (ignorante) cabe apenasouvir o superior (aquele que sabe). Isto foi, é e sempre será escola: umartifício para proteger os alunos da experiência de fluzz.Sim, escolas não são comunidades de aprendizagem. São burocracias doensinamento. Não são redes distribuídas de pessoas voltadas à busca e aocompartilhamento do conhecimento. São hierarquias sacerdotais cujoprincipal objetivo é ordenar indivíduos capazes de reproduzir atitudes dedisciplina e obediência. Não são ambientes favoráveis à emergência dedinâmicas interativas, mas à imposição de relações intransitivas. Estruturascentralizadas, baseadas na separação de corpos: docente (hierarquia-ensinante) x discente (massa-ensinada).A arquitetura traduz o conceito. Na chamada educação formal, escolas sãoconstruções que aprisionam crianças e jovens em salas fechadas, obrigadosa sentar enfileirados, como gado confinado ou frangos de granja; pior: nas“salas de aula” ficam alguns – a maioria – olhando para a nuca dos outros.São campos de concentração e adestramento, onde o aluno tem de saltarobstáculos, vencer as provas. São prisões temporárias em que se tem decumprir a pena, pagar a dívida. Não é por acaso que a maior recompensana escola é passar de ano. Ano após ano. Até sair. - Ufa! Livre afinal.Por que construímos tal aberração?Fomos levados a acreditar que o ensino era o antecedente daaprendizagem. Em termos lógicos formais: ensino => aprendizagem;donde, formalmente: não-aprendizagem => não-ensino.Mas ao que tudo indica o ensino surgiu – como instituição – de certo modo,contra a aprendizagem. E não-ensino, dependendo das circunstâncias, podeaté aumentar as possibilidades de aprendizagem. O que é sempre umperigo para alguma estrutura de poder.Onde começou o ensino? Qual é a origem do professor? Ora, ensino éensinamento. Mas ensinamento é, originalmente, (reprodução de) 6
  • 7. estamento (ou da configuração recorrente de um cluster enquistado na redesocial). Alguém tem alguma coisa que precisa transmitir a outros. Precisamesmo? Por quê? Alguém conduz (um conteúdo determinado, funcionalpara a reprodução de uma estrutura e suas funcionalidades). E alguémrecebe tal conteúdo (tornando-se apto a reproduzir tal estrutura e taisfuncionalidades). Eis a tradição!Os primeiros professores – parece evidente – foram os sacerdotes. Aprimeira escola já era uma burocracia sacerdotal do conhecimento (umaestrutura hierárquica voltada ao ensinamento). Isso significa que só háensinamento se houver hierarquia (uma burocracia do conhecimento).Sim, todo corpus sacerdotal é docente. A tradição é tão forte que há atébem pouco a doutrina oficial católica romana (e ela não é a única) aindadividia a igreja em docente (ensinante: os hierarcas) e discente (ensinada:os leigos). E as escolas, que também se estruturaram, em certo sentido,como igrejas (mesmo as laicas), consolidaram sua estrutura com base naseparação de corpos entre docentes e discentes.O que se ensina é um ensinamento. Quando você ensina, há sempre umensinamento. Mas quando você aprende há apenas um aprendizado, não háum “aprendizamento”, quer dizer, um conteúdo pré-determinado doaprendizado. O que se aprende é o quê? Ah! Não se sabe. Pode serqualquer coisa. Não está predeterminado. Eis a diferença! Eis o ponto! Aaprendizagem é sempre uma invenção. A ensinagem é uma reprodução.Mas como escreveu o poeta Manoel de Barros (1986) no Livro sobre Nada:“Tudo que não invento é falso” (1).O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparatoseparado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente,como instrumentos de reprodução de programas centralizadores(verticalizadores) que foram instalados para verticalizar (centralizar) arede-mãe.As escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem. Aprender sem ser ensinado é subversivo. É um perigo para areprodução das formas institucionalizadas de gestão das hierarquias de todotipo. Por isso o reconhecimento do conhecimento é, até hoje, umreconhecimento não do conhecimento-aprendido, mas do conhecimento-ensinado, dos graus alcançados por alguém no processo de ordenação aque foi submetido. Mas como twittou Pierre Lévy (2010), as universidadesnão têm mais o monopólio da distribuição do conhecimento; restou-lhestentar reter em suas mãos o monopólio da distribuição do diploma. 7
  • 8. Autodidatismo, não heterodidatismo Eu busco o conhecimento que me interessa do meu próprio jeitoNa transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamoscondenados a nos tornar buscadores cada vez mais autônomos. É assimque transitaremos do heterodidatismo para o autodidatismo: quandopudermos dizer: eu busco o conhecimento que me interessa do meu própriojeito.Aprender a aprender é a condição fundamental para a livre aprendizagemhumana em uma sociedade inteligente. É ensejar oportunidades aoseducandos de se tornarem educadores de si mesmos (aprendendo a andarcom as próprias pernas ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).O educando-buscador será um educador não-ensinante. Porque será umaprendente (2).Nos Highly Connected Worlds, todos seremos, em alguma medida,autodidatas. Um autodidata é alguém que aprendeu a aprender. Umacriança, ou mesmo uma pessoa adulta ou idosa, navegando, lendo epublicando na web, é, fundamentalmente, um autodidata.Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões ereconhecer padrões. Cada vez mais será cada vez menos necessário quealguém ensine isso. Quando as possibilidades de conexão aumentam,também aumentam as possibilidades de reconhecer padrões (porqueaumenta a freqüência com que, conhecendo uma diversidade cada vezmaior de padrões, nos deparamos com homologias entre eles); quer dizerque, a partir de certo grau de conectividade, o heterodidatismo não seránecessário.Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet e noções rudimentaresde um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais(como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muitomais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da suaidade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensinoaltamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever,aplicar conhecimentos básicos de lógica e matemática na solução deproblemas cotidianos e... banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso éterrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que 8
  • 9. querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhosalheios.Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitasvantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéiade que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocraciasacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dosdemais – quando o desejável seria que se aproximassem deles – os “sábios”precisam que a sociedade continue burra.Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio quem organizao conhecimento é a busca. Mas os caras ainda insistem em querer organizaro conhecimento para você (isto é o hetero-didatismo).Toda organização do conhecimento para os outros corresponde anecessidades de alguma instituição hierárquica e está sintonizada com seusmecanismos de comando-e-controle. Toda organização do conhecimento decima para baixo procura controlar e direcionar o acesso à informação poralgum meio. Os organizadores do conhecimento para os outros aindaentendem conhecimento como “informação interpretada”. Interpretada, éclaro, do ponto de vista de seus possíveis impactos sobre a estrutura e adinâmica das organizações hierárquicas de que fazem parte. Pretendem,assim, induzir a reprodução de comportamentos adequados à reproduçãoda estrutura e da dinâmica dessas organizações hierárquicas. Por meio daurdidura de sistemas de gestão do conhecimento – desde os velhoscurrículos escolares aos modernos knowledge management systems, porexemplo – querem codificar, disseminar e direcionar a apropriação deconhecimentos para formar agentes de manutenção e reprodução dedeterminado padrão organizacional.Mas já vivemos em um momento em que não se pode mais trancar oconhecimento – esse bem intangível que, se for aprisionado (estocado,protegido, separado), decresce e perde valor e, inversamente, se forcompartilhado (submetido à polinização ou à fertilização cruzada comoutros conhecimentos) cresce, gera novos conhecimentos e aumenta devalor (e é isto, precisamente, o que se chama de inovação). E estamos nosaproximando velozmente de uma época em que será cada vez menosnecessária uma infra-estrutura hard instalada para produzir conhecimento(e inclusive outros produtos tangíveis, como estão mostrando asexperiências nascentes de peer production ou crowdsourcing).Novos ambientes interativos surgidos com a Internet já estão mostrandotambém a improdutividade (ou a inutilidade mesmo) de classificar o 9
  • 10. conhecimento a partir de esquema classificatório construído de antemão.Por exemplo, nos primeiros tempos do Gmail havia a recomendação: nãoclassifique, busque! Hoje continua lá, literalmente: “O foco do Google é apesquisa, e o Gmail não é exceção: você não precisa perder tempoclassificando seu e-mail, apenas procure uma mensagem quando precisar ea encontraremos para você”.É claro que as buscas atuais (na Internet, por exemplo) ainda são feitas emmecanismos fechados que não permitem que o usuário redefina oumodifique os algoritmos de acordo com suas percepções e necessidades.Mas a tendência é que a busca seja cada vez mais programável e cada vezmais semântica (3).A busca semântica substituirá boa parte dos esforços feitos até agora para“organizar” o conhecimento. Mas é o perfil da busca – bottom up – que vaidizer qual o conhecimento que é relevante e não a decisão de um centro decomando-e-controle que queira dizer às pessoas – top down – o que elasdevem conhecer.Todos esses esforços por manter padrões verticais de um tipo de sociedadeque já está fenecendo vão ser implacavelmente punidos pelas estruturas epelas dinâmicas horizontais emergentes das novas sociosferas que estãoflorescendo. Nesses mundos altamente conectados toda a gestão deorganizações (inclusive a gestão do conhecimento) é regulada por meio deoutros processos em rede.O autodidata é um buscador, mas quem busca é a pessoa. A pessoa é oindivíduo conectado e que, portanto, não se constitui apenas como um íonsocial vagando em um meio gelatinoso e exibindo orgulhosamente suascaracterísticas distintivas e sim também como um entroncamento de fluxos,uma identidade que se forma a partir da interação com outros indivíduos. Apessoa como continuum de experiências intransferíveis e, ao mesmo tempo,como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) emum ambiente educativo entendido como ambiente de aprendizagem.Headhunters inteligentes não estão mais se impressionando tanto com acoleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vaga emuma instituição qualquer. Querem saber o que a pessoa está fazendo.Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projetode futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetição doseu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo postopretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que énecessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendo 10
  • 11. seguida pelo candidato.Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelosinteressados em se associar ou em contratar (lato sensu) uma pessoa.Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando osespecialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vezhorizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir doexame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo issoestará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado poruma corporação que tem autorização exclusiva para acessar e licença oficialpara interpretar tais dados.Cada pessoa poderá ter, por exemplo, a sua própria wikipedia. Ao invés deaceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificardiretamente a wikipedia de cada um – o arquivo-vivo que contém asdefinições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, ostrabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimentoe de atuação. Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao autordaquela wikipedia. Ponto final. 11
  • 12. Alterdidatismo, não heterodidatismo “Eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos”De certo ponto de vista, nos Highly Connected Worlds qualquer um vaisozinho, desde que tenha aprendido o fundamental. O fundamental, comovimos, é aprender a aprender. O fundamental não pode estar baseado natransferência de conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilizaçãode ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Os quese metem a organizar processos educativos para os outros deveriamcomeçar perguntando o que é necessário para que uma pessoa e umacomunidade possam fazer o seu próprio itinerário de aprendizagem.Do ponto de vista do aprendizado – do sujeito aprendente e não do objetoensinado –, três condições caracterizam a inteligência tipicamente humana(quer dizer, sintonizada com o emocionar humano): estabelecer conexões;reconhecer padrões; e linguagear e conversar (no sentido que HumbertoMaturana confere a essas noções) (4).A partir daí estamos falando de humanos (e é necessário fazer essaressalva porquanto máquinas também podem aprender) e podemos entãolistar as ferramentas de auto-aprendizagem ou “alfabetizações” (em umsentido ampliado): a alfabetização propriamente dita, na língua natal (ler eescrever e interpretar o que leu); e as outras “alfabetizações”, como, porexemplo, em uma segunda língua da globalização (pelo menos ler, eminglês ou espanhol); matemática (dominar as operações matemáticaselementares e aplicar esses conhecimentos básicos na vida cotidiana);lógica (aprender a argumentar e identificar erros lógicos em argumentossimples); digital (navegar e publicar na Internet e operar as ferramentasdigitais de inserção, articulação e animação de redes).Estes – ao que parece – são os requisitos e as ferramentas contemporâneasda inclusão educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ouseja, de posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opçõespessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os requisitos para oautodidatismo.No entanto, de outro ponto de vista – o do alterdidatismo – a rigor,ninguém pode continuar caminhando sozinho. Aprender a aprender estáintimamente relacionado a aprender a interagir em rede. Mesmo que a 12
  • 13. escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não sepoderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede social na qual oser humano se conecta), nem da educação comunitária (a expansão dessarede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).O aprender a conviver (com o meio natural e com o meio social) talvezrequeira outras “alfabetizações”: por exemplo, a alfabetização emsustentabilidade (incluindo alfabetização ecológica e alfabetização para oempreendedorismo e para o desenvolvimento humano e social sustentávellocal ou comunitário); e a alfabetização democrática (em um sentidodeweyano do termo: para a vida comunitária e para as formas derelacionamento que ensejam a regulação social emergente; i. e., as redessociais distribuídas). Mas essas “alfabetizações” não são temas curricularesou disciplinas. São drives capazes de gerar agendas compartilhadas deaprendizagem.Não é por acaso que a educação para a sustentabilidade, quer dizer, para avida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive oecossistema planetário) e para convivência social, não compareçam noscurrículos escolares. Elas não são propriamente objetos de ensino e sim deaprendizagem-na-ação compartilhada. Ninguém é capaz de aprender essascoisas apenas tomando aulas ou lendo textos. É necessário vivê-las,experimentá-las, ou melhor, convivê-las (e é por isso que são drivesgeradores de agendas compartilhadas de aprendizagem).É compartilhando essas agendas de aprendizagem que o educador se tornaum educando (um aprendente da interação educadora). Nesse aprender-fazendo esvai-se a distinção entre professor e aluno: todos passam a seragentes comunitários de educação.Portanto, quando se diz (do ponto de vista do autodidatismo) que qualquerum vai sozinho, e quando se diz (do ponto de vista do alterdidatismo) que,a rigor, ninguém pode caminhar sozinho, está-se dizendo a mesma coisa:que o heterodidatismo no qual se baseiam os sistemas de ensino é umamuleta que deve ser abandonada.Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamoscondenados a nos tornar polinizadores cada vez mais interdependentes. Éassim que transitaremos do heterodidatismo para o alterdidatismo: quandopudermos dizer: eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos alterdidatas. Um alterdidata é alguém 13
  • 14. que aprendeu a conviver com o meio natural e com o meio social em quevive.Aprender a conviver com o meio natural e com o meio social é ensejaroportunidades aos educadores de se tornaram educandos da interaçãocomunitária na nova sociedade em rede (desaprendendo ensinagem ao selibertarem das muletas do heterodidatismo). O educador-polinizador seráalguém que desaprendeu a ensinar. Porque será um aprendente.Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, tercondições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidadepara analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações ede trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos doprocesso educacional básico. No entanto, para além, muito além, de tudoisso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem avalorizar outras competências ou habilidades, como a de identificarhomologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizamclusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitaroportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir edisseminar informações e conseguir não somente trabalhar em grupo, masfazer amigos e viver e atuar em comunidade.De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivênciaou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para oempreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, nãocomparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvezcorrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que maisresistem ao surgimento da sociedade- rede.Por quê? Ora, porque embora se declarem instituições laicas, as escolassão, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) quedecidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus deaprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a suacapacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que aeducação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelosmesmos motivos, processos e programas educacionais extra-escolares sãoduramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam– sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seucaráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos deleigos...No entanto, neste momento estão sendo elaboraradas e testadasmetodologias compatíveis com processos de inteligência coletiva (“learn 14
  • 15. from your neighbours” - Steve Johnson; “I store my knowledge in myfriends” - Karen Stephenson) baseadas na idéia de cidade educadorareconceitualizada como cidade-rede de comunidades que aprendem. Novaspráticas estão surgindo a partir de experiências voltadas ao estímulo aoautodidatismo, adaptadas às novas formas de interação educativa extra-escolares, como o homeschooling e, sobretudo, communityschooling, porémna linha do unschooling. Novas teorias da aprendizagem, como oconectivismo, estão tentando mostrar como as redes sociais devemconstituir o padrão de organização das novas comunidades deaprendizagem capazes de disseminar e empregar ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem (5). 15
  • 16. Não-escolas: a escola é a rede Nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente (em rede)Nos Highly Connected Worlds a educação não pode ser mais nada disso queandaram falando nos últimos quatro séculos do mundo único. Simplesmenteporque não haverá ‘a’ educação.O conceito de educação – ao contrário do que parece – é um conceitototalizante e regressivo. Não é a toa que tenha surgido juntamente com oconceito de sociedade. Não pode existir ‘a’ educação, assim como não podeexistir ‘a’ sociedade. Não há uma educação e sim uma diversidade deprocessos de aprendizagem. Não há uma sociedade e sim uma diversidadede sociosferas.O consenso que se generalizou sobre ‘a’ educação é paralisante. A crençade que a educação vai resolver todos os problemas está tão generalizadaque as pessoas sequer percebem que, se isso fosse verdade, países como aBulgária ou Cuba seriam considerados desenvolvidos.Quando os processos de aprendizagem forem libertados – ou quando ageração de sociosferas (uma espécie de “lei do ventre livre” social) forlibertada: no fundo é a mesma coisa! – a educação na sociedade terminará.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos autodidatas e alterdidatas: quandopudermos dizer: nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente(em rede). Um autodidata-alterdidata é alguém que aprendeu a aprender-convivendo. Como buscadores e polinizadores, não seremos ensinados nemensinadores. Porque todos seremos aprendentes.Sociosferas em que as redes são as escolas serão aquelas “sociedadesdesescolarizadas”, como queria o visionário Ivan Illich (6). A sociedade semescola de Illich poderia ser renomeada como a sociedade-escola, desde queficasse claro que se trata da sociedade- rede; ou seja, estamos falando dascomunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadasdentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que asociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, são as própriassociosferas (glocais) que educam, por meio das comunidades (clusters) quenecessariamente se formam em seu seio. 16
  • 17. Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades deaprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. Isso vale paratudo, não apenas para as escolas como aparatos da educação formal.Também virarão não-escolas os centros de pesquisa e investigação, associedades filosóficas e os grupos criativos que usinam novas idéias einauguram novas maneiras de pensar (a escola na sua acepção de thinktank). 17
  • 18. Matar a escola = matar o Buda Quando o mestre está preparado, o discípulo desapareceÉ difícil entender a natureza de uma não-escola. No mundo único aspessoas buscavam um sistema produtor de respostas capazes de fazersentido global para elas. Eram atraídas por religiões, igrejas e seitas(religiosas e laicas), sociedades filosóficas e escolas de pensamento(mesmo aquelas que, baseadas na conversação, se intitulavamcomunidades). Elas forneciam a proteção contra a pergunta-disruptiva pormeio de uma meta-explicação coerente, a segurança de uma grandenarrativa totalizante ou de esquemas explicativos gerais que permitiam quealguém se identificasse e comungasse com outros que palmilhavam omesmo caminho e tivesse, assim, uma justificativa ética para se fechar àinteração com o outro-imprevisível. Mas tudo isso é escola!É muito difícil não construir um esquema organizador para as conversasmantidas por qualquer grupo. Mas a tarefa em uma não-escola não é criaruma espécie de wikipedia, nem mesmo uma contextopedia, com ossignificados que foram sendo construídos via consenso-administrado a partirdo debate ou da conversação. Não há significados gerais universais. Não hásignificados sempre válidos para os mesmos contextos (inclusive porque, arigor, nunca se repetem "mesmos contextos"). Há significâncias atribuídaspor sujeitos em interação e válidas para os momentos de interação em quetais sujeitos estão envolvidos. São significados-fluzz, que mudamcontinuamente com o fluxo e o máximo que podemos fazer é mapear asrelações entre esses significados mutantes. Sim, reconheçamos que não éfácil para nós aceitar o presente, não é fácil resistir à tentação de arquivar opassado em caixinhas, sobretudo se as plataformas que utilizamos são p-based (baseadas em participação) e não i-based (baseadas em interação).Mas já não se trata mais de sistematizar conteúdos ou de interpretar esintetizar respostas cognatas ou convergentes. Trata-se agora apenas delinkar para facilitar a busca. Quem organiza o conhecimento é a busca.Quem produz (novo) conhecimento (como relação sempre inédita, nãocomo conteúdo arquivável) não é a gestão, mas a interação.Na configuração de novos ambientes interativos de produção deconhecimento não deve haver "progresso", no sentido de constituição deum corpo coerente, que vai se tornando cada vez mais redondo e polido(até que a epistemologia consiga espelhar a ontologia). Não se trata de 18
  • 19. construir um códex, uma doutrina, um ensinamento, uma teoria explicativade tudo, uma nova plataforma de visão de mundo. Isso é o que diferenciaas novas escolas-não-escolas dos mundos altamente conectados, de umaescola, quer dizer, de uma igreja (7).Sim, as escolas como centros de pensamento também são igrejas. Elassurgem quando criamos programas de separação entre os de dentro e os defora a partir de um conteúdo, de uma mensagem, de uma doutrina, de umconjunto de idéias que alguns compartilham e outros não. Se fizermos isso,erigiremos uma escola; quer dizer, uma igreja.Se você junta os que compartilham qualquer corpo de idéias (mesmo quesejam idéias tão heterodoxas e libertárias como estas que estão sendoexpostas aqui e agora) e, a partir daí, constrói um coletivo, você estáfazendo uma escola. Não importa o que você pense, valorize, fale oupregue: você ensina, quer dizer, escorre por um sulco já cavado peloensinamento!Há uma coerência interna e há completude em boa parte das escolas depensamento que floresceram nos milênios passados. É como um mundo quefoi construído (e ninguém se engane: há sabedoria nesse mundo; a questãoé que sabedoria não pode ser um critério aceitável para validar sistemashierárquicos). E ocorre que existem múltiplos mundos. Se você exige queuma pessoa viva na coerência do mundo que você construiu como condiçãopara se deixar alterar por essa pessoa (ou seja, interagir com ela), entãovocê não está realmente aberto à interação (com o outro-imprevisível):você quer participação dos outros no seu espaço, o que é uma forma deexigir (sem aparentemente fazer qualquer exigência formal) que os outrosvivam na mesma coerência em que você vive. Mas essa é a definição deseita, de escola.Não é um problema de comunicação, de adaptar a linguagem ou adotaruma postura tática para se fazer entender pelos "de fora". Nada disso. Oproblema aqui é a rede (ou melhor, a falta dela)Esse comportamento em geral não é intencionalmente constituído ereproduzido. Ele é uma decorrência do padrão de organização adotado. Façauma rede aberta de conversações e ele se esfuma; ou seja, a escoladesaparece para surgir em seu lugar uma rede de livre aprendizagem.Assim como desaparecerá o codex, o corpo doutrinário referêncial único: ouseja, o legado fundante da escola de pensamento desaparecerá para darlugar a miríades de construções conceituais por ele inspiradas. 19
  • 20. O problema é que toda ereção de um sistema implica uma armadilha. Vocêfica rodando dentro dele. E para dialogar com as pessoas que vivem nele,você também precisa também rodar dentro dele. A palavra "rodar", aqui, éempregada no sentido contemporâneo de "rodar um programa" (software).Sim, porque o sistema sobre o qual falamos, é um programa de atribuiçõesde significados e, mais do que isso, de construção dos processosparticulares pelos quais se atribui significados. Para interagir com quemestá dentro do sistema você precisa se plugar e "carregar" o programa (emvocê). Ao carregar o programa, você carrega também sua linguagem(script) e, além disso, seu linguageado e, às vezes, até mesmo seu gestual.Pode-se retrucar que isso ocorre, em maior ou menor medida, comqualquer construção conceitual que apresente os critérios epistemológicosde coerência interna e completude. É verdade. Mas quando o sistema validaseus argumentos internamente, estando os critérios de validação tãoimplicados no que se quer validar e vice-versa (ou seja, estando aepistemologia tão fundida à ontologia), a verificabilidade fica subordinada(sub-ordenada) pela explicação auto-referente. É por isso que, em ciência,não se pode abrir mão do critério da verificabilidade, que deve ter o mesmostatus epistemológico dos critérios da coerência interna e da completude (asquais, sozinhas, não bastam). Assim, os resultados de uma explicaçãodevem sempre poder ser verificados por sujeitos que adotam outrosesquemas explicativos.Um bom exemplo de escola de pensamento é a escola freudiana nos seusprimórdios. Uma pessoa deve poder verificar os efeitos do que a explicaçãofreudiana atribui a determinado complexo sem ter que adotar a explicaçãofreudiana. Se sou obrigado a me tornar freudiano para perceber osfenômenos psíquicos que poderiam ocorrer com quaisquer seres humanosindependentemente da explicação freudiana (e da existência de Freud),então estou preso a um sistema incapaz de interagir com outras explicações(externas às circularidades freudianas). E corro o risco de recair nodogmatismo dos primeiros freudianos: uma pessoa deve poder contestar aexistência de um complexo sem ser acusada de estar fazendo issojustamente por estar possuída por tal complexo. Em alguma medida, issoocorre com todos os sistemas auto-referentes, sobretudo na sua "primeira-infância".Eric Raymond (2001), no Hacker Howto (8) aconselhava o estudo do Zenaos hackers, sem dúvida um formidável software de desconstituição decertezas, compartilháveis por uma ou várias comunidades. Talvez seja ocaso, porém, de voltar ao Tao, para limar as aderências doutrinárias que o 20
  • 21. Zen adquiriu: ao se fundir ao budismo foram introduzidos conteúdos... Sim,continua sendo o Zen, mas só depois de você matar o Buda.Qualquer comunidade de pensamento precisa matar o seu fundador (que é,inclusive, a melhor forma de amá-lo). Quando esse fundador é uma pessoa,precisa se livrar das aderências de um modo-de-argumentar, de umaautêntica maneira particular de pensar, falar e escrever que fazia sentidopara aquele ser humano unique que a fundou. E o passo seguinte dessaação de amar tão profundamente o fundador ao ponto de matá-lo é nãoconstituir um grupo proprietário em torno de suas idéias, de abrir mão deerigir um corpo docente (uma escola) a partir de um corpo teórico parapropagar um ensinamento que possa ser diferencialmente ministrado por"representantes autorizados", ainda que tudo isso seja – o que será pior –chancelado pelo próprio fundador. Isso é uma condição de contorno opacaquando precisamos de membranas.Não afirmamos que se deva matar o fundador apenas no sentido de matar asua imagem idealizada e introjetada, tal como alguns interpretam o lemakilling the buddha (como disse a pessoa-zen Lin Chi: “Se o Buda cruzar seucaminho, mate-o”). Trata-se de desabilitar um programa verticalizador queroda na rede gerando instituições que congelam fluxos. Trata-se de matara escola (no caso, constituída sobre um legado de pensamentotransformado em ensinamento).Não tem nada a ver com querer ver morto algum fundador por achar queele já está caduco ou ultrapassado. É o contrário. Quando se diz "matar oBuda" isso significa uma admiração suprema pelo Buda, como prefiguraçãodo Buda que está-em-devir em cada um de nós e que só vai despertarquando o Buda que está fora desaparecer como referência (externa porémintrojetada em uma espécie de falsa conniunctio). Mas, particularmente, nocontexto desta discussão, significa matar a escola como ordenação doensinamento abrindo possibilidades de formação de múltiplas comunidadesde aprendizagem para além do círculo restrito dos que se matriculam emum curso ou seguem um programa privando da convivência de um grupodeterminado.Ocorre que com a acelerada emergência, agora, dos Highly ConnectedWorlds, vida humana e convivência social tendem a se aproximar a pontode revelar ou deixar entrever um superorganismo humano. Isso nos obrigaa mudar nossas interpretações. E é um choque para as chamadas tradiçõesespirituais (todas estas são artifícios para administrar espiritualidadesconformes ao mundo patriarcal e não por acaso são baseadas nas escolhasdo indivíduo, são ministradas por escolas - burocracias sacerdotais do 21
  • 22. ensinamento - e mantêm a relação mestre-discípulo). Agora será precisomostrar que quando o mestre está preparado, o discípulo desaparece e,portanto, chegar à condição de mestre é chegar à condição do aprendente:aquele que matou o mestre não apenas quando matou a imagem idealizadado mestre dentro de si (introjetada), mas quando matou a escola. E tudoisso para quê? Ora, para que o Buda morto não renasça nas mãos dos queo mataram.Em outras palavras, não há como construir a base ideológica (ou demundivisão) para uma grande narrativa em uma época em que não cabemmais os esquemas totalizantes de apreensão do mundo e de interação como mundo. Não é mais possível a existência de uma (única) matriz ética paraa humanidade. Em uma época em as redes cobrem o planeta como umapele e em que, por um processo fractal, uma pluralidade de mentes globaisestá surgindo, não se trata mais de forjar um grupo para usinar um modeloe espalhá-lo e sim de surfar nas ondas interativas que estão fertilizando osdiversos modelos que emergem de uma diversidade de comunidades deprática, de aprendizagem e de projeto que estão brotando e submetendoseus programas à esse tipo de polinização complexa. Essa visão é chavepara não irmos parar de volta em algum lugar do passado: o processo éfractal! Não é possível salvar o mundo de uma vez: só é possível salvá-loum instante de cada vez... (9) Mesmo porque não existe mais um mundo:os mundos já são – e serão, cada vez mais – múltiplos.Sim, não estamos mais na época do anúncio de uma nova proposta que, seabraçada por muitos no seu refletir-agir, vai supostamente salvar o planeta(harmonizar biosfera com antroposfera), redimir a humanidade ou nos levarpara um porvir radiante. Não sabemos qual é o futuro. Sobretudo porqueesse futuro (um futuro), felizmente, morreu. Não podemos pretender levarninguém para lugar algum. A época em que vivemos é a época dadesistência (10). A hora que vivemos é, portanto, a hora de abrir mãodessas pretensões de conduzir povos, orientar nações, mobilizar pessoasem torno de um objetivo comum para transformar a sociedade (e ‘a’sociedade, como vimos, é uma abstração regressiva).Fomos contaminados por um padrão transformacional de mudança equeremos então transformar a sociedade. Mas... transformar para chegaraonde? E transformar o quê? E transformar em quê? E transformar por quê?Atravessados por essa pulsão transformacionista, legiões de militantes quecontinuam habitando os séculos passados vivem querendo fazer mudanças(que eles não podem, honestamente, saber quais são) em nome de umacausa. Mas é inútil. As mudanças em sistemas complexos (e as sociedades 22
  • 23. humanas são sistemas complexos) ocorrem, em boa parte,espontaneamente (se entendermos por isso que ocorrem em virtude defluições que não alcançamos compreender e determinar). Estamos lidandocom uma ordem de fenômenos que não podemos manejar (e é bom para aliberdade – para a livre aprendizagem humana – que não possamos fazerisso). A livre aprendizagem humana só pode ocorrer em redes deaprendizagem, quando nos libertarmos das escolas.Se quisermos uma rede de aprendizagem – i. e., uma não-escola – nãopodemos constituir um grupo que saia pelo mundo propagando um legadobaseado nas idéias de algum fundador. Para ser uma rede, o legado temque ser open, para poder ser desenvolvido, alterado, modificado, semnecessidade de ordenação ou chancela. Para poder ser rede a membranadeve deixar entrar e sair outros conteúdos dentro do escopo estabelecido(posto que se será uma rede voluntariamente construída haverá um escopodelimitado e algumas regras ou acordos de convivência, mas isso nada tema ver com a adesão a um conteúdo substantivo). Sempre sem exigências, éclaro. Mas sabendo que sem interagir com o outro imprevisível, com aqueleque não planejamos interagir, não pode haver rede (social distribuída).Em suma, uma escola deve ser uma não-escola para ser rede. Não bastafluir na sintonia interna dos que acolhem o outro que reconhecem comodesejoso de conservar o que querem conservar, do lugar onde estão, desdeque esse conservar seja referente a um compartilhar um determinadoconteúdo. Dizendo a mesma coisa de outra forma, não é o desejo (dossujeitos) de conservar determinado corpo teórico, nem mesmo o desejo deconservar um modo de convivência explicitável e explicável (pelos sujeitos)que constitui a comunidade humana (ou a rede). A rede acontece quandovocê interage. Tudo que podemos fazer para ensejar a interação é evitar aprodução artificial de escassez (é mais um não-fazer). Não adiantasistematizar conteúdos e esperar que, sintonizando-se com tais conteúdos,as pessoas passarão a conviver em rede. Isso ainda está no terreno doproselitismo (uma dimensão de ensino, de propagação de ensinamento, nãode aprendizagem).As regras ou acordos de convivência estabelecidos por uma redevoluntariamente construída não são o mesmo que a adesão a um conteúdosubstantivo (e, portanto, ninguém pode ser expulso de uma não-escola porestar em desacordo ou dessintonia com um conteúdo e ninguém terá comocondição para ser admitido estar de acordo com tal conteúdo, como fazemas religiões, as seitas iniciáticas e as escolas de pensamento, inclusive asescolas budistas que aconselham matar o Buda). 23
  • 24. Espiritualidade, não religiãoFormas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações dasburocracias sacerdotaisNos novos mundos altamente conectados que estão emergindo, formas pós-religiosas de espiritualidade vão florescer. Elas serão mais-fluzz, quer dizer,mais expressões do curso que flui nas relações entre os humanos e doshumanos com o seu habitat do que tentativas de sintonia com um todocósmico extra-humano. Elas serão espiritualidades consumáveis nainteratividade ("terrestres" no sentido de serem realizáveis sem produziranisotropias no espaço-tempo dos fluxos).Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que religião, prá que igreja?Humberto Maturana (2003) reinterpretou a origem das crenças místicas queestão na base das experiências que dão significado à vida humana a partirda hipótese de que havia (ou poderia e, então, poderá novamente haver)uma "espiritualidade" inerentemente terrestre (como a que apresentavamsupostamente as sociedades agricultoras-coletoras incidentes na Europapré-patriarcal) (11).O relevante nesse esforço de modificação do passado (quer dizer, demodificação do passado que só não-passou porque continua dentro danossa mente, ou melhor, continua se propagando através da cultura, dosprogramas que "rodam" na rede social e por isso se replicam) é que essa"espiritualidade" ou experiência mística não gerou propriamente religiões.A visão de Maturana sobre o que chamamos de religião é precisa: "umareligião é um sistema fechado de crenças místicas, definido pelos crentescomo o único correto e plenamente verdadeiro" (12).Com efeito, para ele, "No processo de defender o seu viver místico, os patriarcas indo- europeus criaram uma fronteira de negação de todas as conversações místicas diferentes das suas. E estabeleceram, de fato, uma distinção entre o que passou a ser legítimo e ilegítimo, crenças verdadeiras e falsas. No âmbito espiritual, realizaram a praxis de exclusão e negação que, operacionalmente, constitui as religiões como domínios culturais de apropriação das mentes e almas dos membros de uma 24
  • 25. comunidade pelos defensores da verdade ou das "crenças" verdadeiras... [Quando se forma uma comunidade de crentes] o corpo de crenças adotadas pelos novos crentes - qualquer que seja sua complexidade e riqueza - não constitui uma religião. Isso só ocorre se os membros dessa comunidade afirmarem que suas crenças revelam ou envolvem alguma verdade universal, da qual eles se apropriaram por meio da negação de outras crenças... A apropriação de uma verdade mística ou espiritual que se sustenta como verdade universal constitui o ponto de partida ou de nascimento de uma religião" (13).Se Maturana pode imaginar uma matriz assim, projetando-a no passado,também podemos fazer o mesmo, projetando-a no futuro. No mundo quecriou, Maturana está absolutamente certo do ponto de vista dos novosmundos que quisermos co-criar.A dimensão mística (ou espiritual) faz parte de qualquer cultura que sepossa chamar propriamente de humana. Como bem define Maturana, "aexperiência mística - repito: a experiência na qual uma pessoa vive a simesma como componente integral de um domínio mais amplo de relaçõesde existência... depende da rede de conversações em que ela está imersa, ena qual vive a pessoa que tem essa experiência" (14).Não há, portanto, qualquer problema com a espiritualidade. O problema écom a religião. Não precisamos para nada de uma pós-espiritualidade e simde novas formas (pós-religiosas) de espiritualidade.Podemos erigir igrejas, em um sentido amplo do termo (tão amplo queabarque até mesmo as escolas), sem ter religião (e podemos, ainda,codificar religiões laicas). Mas igreja, stricto sensu, só surge realmentequando erigimos um corpo separado de intérpretes, ou seja, umaburocracia sacerdotal que, por algum motivo, seja ordenada para fazeralguma intermediação entre o leigo (o não ordenado) e a revelação ou afonte prístina da doutrina codificada (como nas religiões baseadas emescrituras).Todas as chamadas tradições espirituais que surgiram na civilizaçãopatriarcal são míticas-sacerdotais-hierárquicas-autocráticas. E não é a toaque se possa falar de uma tradição: há um fundo comum a todas elas.Todas - não apenas as templárias - replicam anisotropias no espaço-tempodos fluxos (privilegiando, de alguma forma, a direção vertical). 25
  • 26. As doutrinas da tradição verticalizaram o mundo "povoando” todo ouniverso simbólico - ou aquilo que foi chamado de "mundo da psique" - comformas que não concorrem para o estabelecimento de um cosmos social quemantenha as mesmas propriedades em todas as direções, mas, pelocontrário, que privilegiam a direção vertical. Não é por outro motivo queachamos que deus está em cima e que o céu está em cima; o caminhoevolutivo é sempre pensado como uma subida e o regressivo como umadescida. São camadas e camadas de interpretações simbólicas, depositadasuma sobre a outra, milênio após milênio.Basta entrar em um templo de qualquer ordem espiritual tradicional para seperceber com que profundidade o universo simbólico está marcado peladireção vertical. Nessas construções – sobretudo da tradição ocidental,herdeira do simbolismo templário babilônico, i. e., sumério – o caminho quenos conduz para deus, representado em geral por um triângulo, passa entreas duas colunas que se elevam do piso plano. E então encontramos otriângulo com o vértice para cima, sobre o quadrado, o pentagramaverticalmente orientado e muitas outras "orientações" que "norteiam" odesenvolvimento dos rituais e das práticas mágicas. O conteúdo ideológicoque esses símbolos encarnam está inegavelmente associado à idéia de umpoder vertical, do qual a pirâmide é o mais expressivo exemplo. E há aindaas escadas, muitas escadas, introduzidas por primeiro pelos templossumérios - os zigurates: pirâmides feitas de escadas, com degrausrepresentando graus de subida; ou de descida.Se houver uma mística (ou espiritualidade) não-patriarcal (nem matriarcal,é óbvio) ela será terrestre (horizontal, ou melhor, multidirecional). Toma-seaqui "terrestre" como isotrópico (nada de privilegiar a direção vertical: asfluições devem manter as mesmas propriedades em todas as direções).Ora, isso casa perfeitamente com a idéia de “formas pós-religiosas deespiritualidade” (uma feliz expressão de William Irwin Thompson) (15).Essas formas também não podem ser codificadas como doutrinas e nemservir de base para a ereção de igrejas (de qualquer tipo, stricto ou latosensu). É a espiritualidade da vida cotidiana, da pessoa comum, doconectado a uma rede de conversações, do livre-interagente (nãoexatamente do participante) com o outro-imprevisível (e, portanto, abertaao compartilhamento fortuito e não fechada no cluster dos que professam amesma fé). 26
  • 27. Quem disse que os deuses não existem?Os deuses das religiões foram problemáticos porque foram hierárquicos eautocráticos como as religiões que os construíramOs problemas com as igrejas (e religiões) erigidas no contra-fluzz não têmnada a ver com os deuses. Têm a ver, isto sim, com os deuses das igrejas(e das religiões). Deuses existem desde que existe sociedade humana,muito antes de erigirmos igrejas e constituirmos religiões. E igrejas ereligiões seriam – e foram, e são, e serão – sempre problemas (para arede-mãe), mesmo sem quaisquer deuses.“Quem mandou dizer ao povo que os deuses não existem?” A pergunta teriasido feita – em tom de reprimenda – por Robespierre aos seuscorreligionários. Mas se isso não for uma lenda, se ele fez realmente talpergunta, foi movido por maus motivos: não lançar desesperança sobre asmassas... Faz parte da mentalidade de comando-e-controle. Agora, porém,podemos refazer a pergunta de outra forma: quem disse que os deuses nãoexistem?Quanto mais investigamos as redes, mais evidências surgem de que osdeuses existem. Se não existissem, como explicar que tantas pessoas, aolongo da história (e inclusive na pré-história), tenham pautado seuscomportamentos em sintonia ou obediência ao que acreditavam ser anatureza, a essência ou os ditames divinos? Eles existem, sim, comomodelos mentais, quer dizer, sociais (16).Os deuses, se já não se pode acreditar que sejam criadores do cosmosnatural, sem dúvida são criadores de cosmos sociais. Eles são matrizes deprogramas que rodam na rede social. Congregam modelos do que seráconstelado no espaço-tempo dos fluxos e do que virará fenômeno social e,até, do que se codificará como norma, do que se congelará como instituiçãoe do que se materializará como cidade, rua, praça. Sim, Zeus Agoraiosestava de fato presente naquela praça do mercado da velha Atenaschamada Ágora. Mas o que significa dizer isso?Até a democracia nascente – laica por essência – tinha lá os seus deuses:por exemplo, o Zeus Agoraios e a deusa Peitho. Mas quando os gregos doséculo de Péricles invocam Zeus Agoraios eles conferem às conversaçõesentre os homens livres na praça do mercado (o espaço público nascente) ocaráter de algo digno de ser abençoado e protegido por um deus, abrindo 27
  • 28. uma brecha na tradição centralizadora (hierarquizante) segundo a qual osdeuses tratavam desigualmente os humanos, ungindo os hierarcas e seusrepresentantes (reis e sacerdotes) para conferir-lhes a autorização (divina)de exercer o poder sobre os demais e guiá-los por algum caminho. Quandoos gregos invocam Peitho, a persuação deificada, eles confrontam a idéiaautocrática de que a política era uma continuação da guerra por outrosmeios. Como escreveu Hannah Arendt (c. 1950) (17): “No que dizia respeito à guerra, a polis grega trilhou um outro caminho na determinação da coisa política. Ela formou a polis em torno da ágora homérica, o local de reunião e conversa dos homens livres, e com isso centrou a verdadeira coisa política’ — ou seja, aquilo que só é próprio da polis e que, por conseguinte, os gregos negavam a todos os bárbaros e a todos os homens não-livres — em torno do conversar-um-com-o-outro, o conversar-com-o-outro e o conversar-sobre-alguma-coisa, e viu toda essa esfera como símbolo de um peitho divino, uma força convincente e persuasiva que, sem violência e sem coação, reinava entre iguais e tudo decidia. Em contrapartida, a guerra e a força a ela ligada foram eliminadas por completo da verdadeira coisa política, que surgia e [era] válida entre os membros de uma polis; a polis se comportava, como um todo, com violência em relação a outros Estados ou cidades-Estados, mas, com isso, segundo sua própria opinião, comportava-se de maneira ‘a política’. Por conseguinte, nesse agir guerreiro, também era abolida necessariamente a igualdade de princípio dos cidadãos, entre os quais não devia haver nenhum reinante e nenhum vassalo. Justamente porque o agir guerreiro não pode dar-se sem ordem e obediência e ser impossível deixar-se as decisões por conta da persuasão, um âmbito não-político fazia parte do pensamento grego”.Os deuses da democracia grega eram deuses da conversação, quer dizer,deuses-fluzz, deuses da interação. É claro que havia um âmbito a-político enão democrático na Grécia e, assim, havia também outros deuseshierárquicos e autocráticos (por exemplo, todos os deuses associados àguerra e à jornada do herói, aos vaticínios e ao destino).Mas como? Se a democracia é laica, por que teria ela seus deuses? Pois é.Laico não quer dizer propriamente ateu (sem deus) e sim sem religião(institucionalizada); ou seja, ser laico significa não fazer parte da burocraciasacerdotal instituída para intermediar a relação do homem com a divindade,isto é: para separar o ser humano da divindade; ou, como disse Jung, paraproteger o homem da experiência de deus, abrindo sulcos para fazerescorrer por eles as coisas que ainda virão; ou ainda – o que é a mesma 28
  • 29. coisa – pavimentando com a crença um caminho para o futuro (econseqüentemente, eliminando outros caminhos, reduzindo nosso estoquede futuros possíveis, exterminando mundos).Não, não há nenhum problema com os deuses. Os deuses das religiõesforam problemáticos porque foram hierárquicos e autocráticos como asreligiões que os adotaram (na verdade, que os construíram para seuspropósitos). A questão relevante agora não é a de saber se existem ou nãoexistem deuses (uma controvérsia tola), mas a de saber em que medidaalgum deus (um programa capaz de rodar na rede-mãe e de ensejar algumtipo de experiência mística ou espiritual, permitindo que uma pessoa viva asi mesmo como componente integral de um domínio mais amplo derelações de existência) favorece a reprodução de uma sociedade hierárquicaou a emersão de uma sociedade-em-rede.Os deuses pré-patriarcais foram naturais e não geraram religiões. Osdeuses patriarcais foram sobrenaturais e geraram, estes sim, instituiçõeshierárquicas: escolas (e ensino), igrejas (e religiões) e, sobretudo, Estados.(Quem sabe os deuses pós-patriarcais serão sociais e não gerarão nenhumdesses tipos de deformações na rede-mãe – o que não significa, comoveremos adiante, que não possam inspirar novas formas mais interativas deespiritualidade).Não é por acaso que as primeiras formas de Estado erigidas nas cidadesantigas – as cidades-Estados da velha Mesopotâmia – tinham seus deuses.Cada uma tinha lá o seu deus ou a sua deusa. Um eco empalidecido dessatradição são os nossos santos e santas padroeiros de cidades. NaAntiguidade, porém, as cidades não eram apenas consagradas ou dedicadasao um deus ou deusa, senão que pertenciam aos deuses. Uruk e Ur eramde Innana, Nippur e Lagash de NinurtaA cidade-Estado-Templo sumeriana era uma habitação para um deus. Osseres humanos viviam nelas de favor. E para trabalhar para os deuses, paraser seus escravos (os feitores, é claro, eram os sacerdotes). Adorar (teruma devoção) era a mesma coisa – inclusive etimologicamente – quetrabalhar (a palavra hebraica ‘avod’, que pode ser traduzida por devoção,adoração e também por trabalho, ecoa esse perverso sentido ancestral).Os deuses em questão não eram os seres espiritualizados que foramidealizados depois. Eram apenas os superiores. Sobre-humanos sim, porémbelicosos, intrigantes, genocidas, carnívoros... Está claro que eram – ou semanifestavam como – programas verticalizadores do cosmos social. Nãoeram sobre-humanos no sentido de serem mais perfeitos do que os 29
  • 30. humanos e sim no sentido de que não eram humanos, sua “presença” nãoera humanizante.Depois, por algum motivo, eles se hospedaram no subsolo de nossaconsciência social (?), naquela região misteriosa que foi chamada deinconsciente coletivo (!). Eles eram mais ou menos assim como os vírus quehoje tentam invadir nossos websites. É curioso que alguns sistemas desegurança anti-spam, lançando mão de um Teste de Turing reverso –Completely Automated Public Turing test to tell Computers and HumansApart (CAPTCHA) – sugestivamente perguntam: “Você é humano?” e entãomandam a gente copiar algumas letras com formatação desfigurada (coisaque, por enquanto, os robôs virtuais ainda não conseguem fazer, só oshumanos). Nenhuma organização hierárquica passaria nesse teste!Deuses sobre-humanos (ou não humanizados) levam necessariamente asistemas de dominação. Todo relacionamento vertical recorrente (estruturacentralizada) materializa um sistema de dominação. Osho acertou em cheioo coração do problema quando disse: “não tenho nenhum Deus; dessemodo, não tenho nenhum programa para você no qual você possa sertransformado em um escravo”. Ele decifrou o enigma quando identificou osdeuses das religiões com um programa, um programa verticalizador.Portanto, o problema não são os deuses e sim esses deuses criados àimagem e semelhança dos hierarcas, que talvez os tenham criado assim aonão aceitarem o fluxo transformador da vida, para tentar evitar a morte; eao não aceitarem fluzz – o fluxo transformador da convivência social –, paratentar perenizar os mundos que construíram em detrimento de outrosmundos possíveis.Sim, o problema são os deuses autocráticos, feitos à imagem e semelhançados sistemas de dominação. Esses deuses serão hierárquicos, por certo,mas, do ponto de vista das redes distribuídas, não haveria nenhumproblema com deuses humanizados que não exigissem culto, obediência ousubordinação (como Jesus de Nazareh, por exemplo, aquele judeu marginalque humanizou IHVH, desde que não se tivesse tentado instrumentalizarsuas experiências de vida e convivência social para codificar doutrinas,constituir religiões e erigir igrejas). Mas, como? Atribuir a uma pessoa, comexclusividade, um caráter divino, como fizeram, por alguma razão, seusprimeiros discípulos, não seria um contra-senso nos mundos altamenteconectados em que cada pessoa é uma singularidade em um mesmo tecido(social), possuidora, portanto, do mesmo status (humano) de todas asoutras? Ora, William Blake, um poeta – porque os poetas são pessoas-fluzz 30
  • 31. – já resolveu essa questão para nós quando escreveu: “Jesus é o únicoDeus. Assim como eu, assim como você”.Desse mesmo ponto de vista, não haveria nenhum problema com deusespós-patriarcais que fossem sociais (como o que foi chamado de EspíritoSanto e que a comunidade dos amantes celebra dizendo: “Ele está no meiode nós”) – para seguirmos a numinosa compreensão, manifestada algurespor Leo Jozef (Cardeal) Suenens, quando escreveu: “É precisam que sejammuitos para ser Deus”.Deuses divididos? Osíris foi – em uma de suas “não-vidas” – um deusdividido, acorde às necessidades de descentralização da teocracia faraônica.Deuses pós-religiosos serão fractalizados, acorde às contingências dedistribuição dos Highly Connected Worlds. Sim, os deuses se modificamquando modificamos o hardware. E consequentemente muda também o quechamamos de espiritualidade.Em um mundo distribuído não pode haver culto organizadocentralizadamente (por igrejas). Libertada do culto (e das suas ordenaçõesreligiosas), a espiritualidade também se distribui por todas as pessoas, cadaqual podendo livremente vivê-la de acordo com suas conexões. Cadapessoa (que quiser) pode experimentá-la nas contingências do seu fluir, emsintonia com as redes sociais em que está imersa; ou seja, convivendo-a.No mundo único as pessoas viveram oprimidas por idéias totalizantes euniformizantes, fossem, por um lado, provenientes da crença religiosa emum deus único (e incognoscível), fossem – pelo lado oposto – provenientesda crença tola de que deus não existe, ditada por uma ciência promovida apansofia. Isso gerou um sem número de problemas, sobretudo psicológicos,quando as pessoas passaram a reprimir sua espiritualidade por medo dovexame e da reprovação dos bem-pensantes. Tal “verdade” supostamentelibertadora, revelada por uma ciência deslizada do seu escopo, baseada emuma espécie de religião laica iluminista, era, na verdade, opressiva.Libertadas desse bom-senso ateista as pessoas podem ter sua própriaexperiência de deus (ou de qualquer ente ou processo que queiram escolherpara representar ou simbolizar um domínio mais amplo de relações deexistência no qual se sintam inseridas e possam viver tal inserção),interagindo.Tal inserção, é claro, também pode ser vivida sem conotação mística. Comodisse Ilya Prigogine (1986) em entrevista a Renée Weber, em Diálogos comcientistas e sábios: “Pessoalmente, sinto que chegamos hoje à percepção deestarmos entranhados no mundo como um todo. Estamos descobrindo um 31
  • 32. vínculo sem recorrer a nenhum misticismo externo, estranho” (18). O quediminuirá, nos Highly Connected Worlds, são as chances de vivermos essevínculo permanecendo do “lado de fora” do abismo, precavidos contra ocaos ou protegidos da interação.Deuses interativos, porém, não estarão no futuro, como aquele da tradiçãohebraica que não podia ser nomeado a não ser pela expressão Ehie AsherEhie – traduzível por “Eu serei o que serei” (o hebraico aceita) posto queestava no futuro. Esse deus da utopia (e da profecia), do não-lugar (porqueo lugar do seu tempo nunca chega) – e refletindo sobre o qual o marxistaheterodoxo, materialista e ateu, Ernst Bloch (1968) em O ateísmo nocristianismo, usinou a pérola: “Deus não existe, porém existirá” (19) – nãopode interagir com as pessoas e, assim, não pode ser um deus-fluzz; ou, oque é a mesma coisa, não pode ensejar uma experiência mística ouespiritual fluzz.Formas pós-religiosas de espiritualidade serão predominantemente i-basede, portanto, tenderão a ser vividas no presente (o que significa que não nosjogarão naquela corrente alucinante da utopia e da profecia que tudoarrasta para o futuro, alienando-nos do presente).Tudo indica, porém, que as religiões (e as igrejas ou as ordens sacerdotais)remanescerão por muito tempo ainda. Mas a despeito de continuaremrodando na rede social, esses programas podem agora ser hackeados pelosnovos hereges que já estão no meio de nós. Sim, como disse Bloch, “omelhor da religião é que ela produz hereges” (20). 32
  • 33. Ecclésias, não ordens sacerdotaisSeus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Para achá-losvocê tem que remover o firewall e expor-se à interaçãoMas o que colocaremos no lugar das igrejas (e das religiões)? Ora, nada. Ovelho mundo único já colocou muitas instituições para fazer as vezes deigrejas: as escolas (e o ensino), os partidos (e as corporações), o Estado-nação (e seus aparatos). Mutatis mutandis, todas essas funcionam mais oumenos da mesma maneira, como ordens sacerdotais. E todas elas vãocontinuar existindo, com uma estrutura e uma dinâmica parecidas com asque têm hoje, para quem não entrar nos Highly Connected Worlds.Mas quem assumir a condição de nômade, viajante dos interworlds, pode –se quiser – fundar sua própria igreja-não-igreja. Nos mundos altamenteconectados ninguém pode impedir, nem conseguirá dissuadir, que aspessoas fundem suas próprias não-igrejas. Elas não serão ordenssacerdotais, por certo, mas poderão ser ecclesias, no sentido deaglomerados dos que querem conviver sua espiritualidade, ou seja, dos quequerem compartilhar as formas semelhantes como vivem um domínio maisamplo de relações de existência celebrando suas afinidades e amorosidadesmutuas. O número dessas novas igrejas-não-igrejas tende a aumentar.Simplesmente porque – nos mundos em que se constituírem – também nãohaverá tantas restrições de ordem moral e cultural para sua existência.Ecclesias como assembléias de amantes, como redes (abertas) debuscadores que se dispõem a polinizar mutuamente os modos pelos quaisvivem sua mística ou sua espiritualidade, vão proliferar no lugar de igrejascomo ordens sacerdotais (fechadas) que se proclamam o único caminho, aúnica porta, a única esperança de salvação e que disputam entre si o tempotodo oferecendo-nos um formidável (e deplorável) contra-exemplo defraternidade. As velhas igrejas – essas armadilhas construídas paraarrebanhar ovelhas e apascentá-las – continuarão existindo, é claro, masperderão relevância.Na medida em que um superorganismo humano começa a se manifestarnos mundos altamente conectados e que novos fenômenos – como oclustering, o swarming, o clonning o crunching e tantos outros que estãoimplicados no que chamamos de inteligência coletiva (e, quem sabe, no queainda vamos chamar de emoção coletiva) – começam a irromper, haveráum motivo adicional para compartilhar. Você pode preferir o olhar do 33
  • 34. investigador que analisa tais fenômenos tentando manter os protocoloscientíficos de isenção e objetividade. Mas você também pode simplesmenteviver e celebrar seu vínculo com essas novas ‘Entidades’ sociais – a palavra,assim com maiúscula, foi usada por Jane Jacobs em 1961 (21) – que seformam em uma dimensão mística. Se você buscava um domínio maisamplo de relações de existência para dar sentido à sua vida e vivê-la emsintonia com essa realidade (avaliada por você, não importa, comotranscendente ou imanente), ei-lo: o simbionte social!O fundamental aqui é que não haja fechamento. Nos múltiplos mundosinterconectados estão outras pessoas que se sentem (e sentem atranscendência ou a imanência) como você e podem se sintonizar comvocê. Seus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Paraachá-los você tem que remover o firewall e expor-se à interação. Bem, aofazer isso é possível que mais cedo ou mais tarde você perceba que tudo foiapenas um não-caminho. E descubra que seus irmãos e irmãs são todas aspessoas que estão em todos os mundos.Se você quiser fazer isso agora, possivelmente será encarado como herege.Aos olhos do mundo único será um herege, assim como são hereges os queabandonaram a escola, rejeitaram o ensino, rasgaram seus diplomas etítulos e se transformaram em catalisadores de processos de aprendizagemem comunidades livres de buscadores e polinizadores, estruturadas emrede. Assim como são hereges os que, desistindo dos partidos, nãodesistiram de fazer política (pública) nas suas localidades, na base dasociedade e no cotidiano dos cidadãos. Assim como são hereges os querenunciaram ao Estado-nação (e às suas pompas, e às suas glórias),refugando também as noções regressivas de patriotismo e nacionalismo, eviraram cidadãos transnacionais de suas glocalidades...Mas cuidado! Os anunciadores de uma nova ordem não são hereges nosentido em que a palavra está sendo usada aqui (quase aquele sentido emque Ernst Bloch empregou-a ao dizer que “o melhor da religião é que elaproduz hereges”). São replicadores ou trancadores. No último meio séculotivemos ondas e ondas de supostos hereges vaticinando um mundo novo.No fundo, o porvir radiante que anunciavam não era mais do que arevivescência de uma ordem ancestral hierárquica. 34
  • 35. Não há uma ordem pré-existente A ordem está sempre sendo criada no presente da interaçãoO reflorescimento das idéias espiritualistas que ocorreu na New Ageprovocou uma bateria de ondas que continuam até hoje quebrando naspraias dos buscadores de todos os matizes, mais de quarenta anos depois(se bem que, agora, já com intensidade bastante reduzida). As pessoasque, nas mais diversas situações, procuravam um sentido para suas vidas,tanto em experiências meditativas de recolhimento individual, quanto emensaios coletivos de novos padrões de convivência social, queriam, nofundo, viver sua espiritualidade em uma época ainda pré-fluzz, mas que jáanunciava tempos vertiginosos, de alta interatividade. E saíam então paratodo lado em busca de novos caminhos, guias e mestres.Grande parte desses exploradores, porém, não empreendia livremente ousem pré-conceitos suas buscas. Estavam impregnados das idéias –assopradas e reforçadas pelos gurus que se apresentavam em profusão –de “um novo reino de velhos magos”. Na base das mais diversas doutrinas,seitas, sociedades e ordens espiritualistas e ocultistas que ofereciamnaquele mercado seus produtos e serviços, havia, entretanto, uma mesmavisão básica, a qual aderiam tanto físicos e biólogos de vanguardainteressados no diálogo entre ciência e religião quanto roqueiros, quasetodos sem prestar muita atenção aos seus pressupostos: a idéia de quehavia uma ordem implícita (ou implicada) pré-existente em alguma esferada realidade, oculta ou não acessível imediatamente.Eles queriam então ter acesso a essa ordem pura, queriam estabelecer umasintonia com esse modelo não-manifestado, queriam atingir estadossuperiores de consciência para contemplar essa espécie de Unimatrix One e,para tanto, lançavam mão dos mais variados exercícios reflexivos, técnicasmeditativas, rituais teúrgicos, práticas mágicas e processos de iniciação.Ainda vivemos nas bordas dessas vagas, embora a New Age não tenhaacontecido segundo o que foi previsto. O mundo único não se reencantoucom o reflorescimento de espiritualidades ancestrais. Ainda bem. Porque oque está acontecendo nos múltiplos mundos altamente conectados é muito,muito mais profundo, mais abrangente e mais surpreendente do que tudoque anunciaram os gurus da nova era. 35
  • 36. Depois dos gurus, vieram alguns hereges dizendo: não há uma ordem; sehá, foi inventada por alguém e não quero me subordinar a ela. Os pioneirosda Internet e os visionários do ciberespaço dos anos 90 foram impelidos poresse vento libertário, em parte sob a influência de obras disruptivas comoTAZ – Zona Autônoma Temporária (22) e CAOS – Os panfletos doAnarquismo Ontológico (23), dois escritos seminais de Hakim Bey (1985) edos romances de ficção científica Neuromancer (24) de William Gibson(1984) e Ilhas na Rede (25) de Bruce Sterling (1988) que, entre outros,deram origem aos cyberpunks. Talvez pouca gente suspeite disso, mas essainfluência foi decisiva para a criação das ferramentas interativas queexistem hoje (inclusive para a Internet e a World Wide Web), conquantonão se possa dizer que ela tenha durado muito. Tais pioneiros e visionários,em boa parte, logo entraram no contra-fluzz ao fecharem suas descobertas(construindo programas proprietários e escondendo seus algoritmos) paraacumular suas fabulosas fortunas ou ao se deixarem contaminar pelasidéias contraliberais que impulsionaram os movimentos antiglobalização nodealbar dos anos 2000 sob a bandeira de que “um outro mundo é possível”.Se um herege inventa a sua própria ordem e quer que as pessoas passem aseguí-la – quer transformando-as em usuários cativos de seus produtos,quer arrebanhando-as em seus movimentos supostamente transformadores– aí já deixa de ser herege e passa a ser um sacerdote, um burocrata aserviço da reprodução do sistema que criou.No entanto, a despeito dessas ondas regressivas que apenas revelavam aresiliência do velho mundo único, de suas estruturas e de suas dinâmicas, ovento continuou a soprar.Começaram a aparecer os que, rejeitando os títulos de mestre ou guru,recomendavam simplesmente não-fazer nada. Já eram estes os precursoresdos novos mundos-fluzz. Porque quando se espia “do outro lado”, não se vêordem alguma – somente o nada, o abismo, fluzz. Fluzz significa que nãohá uma ordem pre-existente em algum mundo invisível (da emanação, dacriação ou da formação). A ordem está sempre sendo criada no presente dainteração. É mais ou menos assim como imaginou Ilya Prigogine (1984),destoando inclusive de outros cientistas envolvidos com tais especulações(de David Bohn a Paul Davies, passando por Fritjof Capra): o universo écriativo e “se cria à medida que avança” (26).Novamente é o caso de dizer: bem, isso muda tudo.Jack Kerouac e seus beatniks dos anos 50-60, Swami Satchidananda emWoodstock, os hippies dos anos 70 e os “hippies” tardios dos 80, talveztenham pressentido isso, mas não podiam ter um entendimento do que 36
  • 37. estava vindo. O próprio Peter Lamborn Wilson (Hakim Bey) e os cyberpunkstalvez tenham apenas sentido o sopro, sem chegarem a ver de onde (e paraonde) ele soprava. Pierre Levy (2000), em uma corajosa jornadaintrospectiva, cujas notas estão no diário de bordo O fogo liberador (27)(uma obra de inspiração heraclítica), empreendeu explorações em antigastradições espirituais (como o budismo e a cabala) para tentar captar-lhe osentido. Mas não havia sentido: “o vento sopra onde quer; você o escuta,mas não pode dizer de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3: 8).Pessoas como Paul Baran (On distributed communications), Vinton Cerf(TCP/IP), Tim Berners-Lee (WWW), Linus Torvalds (Linux) e Rob McColl(Apache), embora aparentemente nunca tenham feito tais explorações,contribuiram objetivamente para que hoje pudessemos reconfigurar a busca(e talvez tenham causado um impacto mais profundo do que aquelesprovocados pelos empreendimentos proprietários fechados dos Gates, dosJobs, dos Pages, dos Stones e dos Zuckerbergs e de muitos outrostrancadores de códigos que vieram ou ainda virão).Sim, reconfigurar a busca. Em mundos altamente conectados a busca nãoexiste sem a polinização. Não há um mainframe (como se fosse umdiretório de registros akashikos) onde você possar buscar respostas parasuas perguntas. Se houver, tais respostas não lhe servirão. Serão respostasdo passado que foi arquivado. Revelarão ordens pregressas. Conhecimentomorto. A busca, qualquer busca, inclusive a busca espiritual, é sempre umainteração. Nos Highly Connected Worlds toda busca é P2P: no seu mundo enos interworlds pelos quais você está navegando. A mesma busca, quandorepetida, fornece respostas necessariamente diferentes. E deixa o rastro dapergunta. De sorte que as respostas são, no limite, combinações dasperguntas que estão sendo feitas. Perguntas interagindo e se polinizandomutuamente para criar ordens inéditas.O buscador é um polinizador. É um criador de mundos. O buscador-polinizador é uma pessoa-fluzz. Uma pessoa-fluzz é mais ou menos o quedeveria ser uma pessoa-zen nas condições de um mundo de altainteratividade. Mas enquanto víamos a pessoa-zen como um indivíduo-no-caminho (conquanto ela não fosse isso realmente, posto que a descoberta-zen é a descoberta do ‘não-caminho’), a pessoa-fluzz não pode ser vistaassim: ela é enxame. O enxame muda continuamente sua configuração, oque significa que os caminhos também mudam continuamente com ainteração: o que era caminho em um momento já não é mais no momentoseguinte. A pessoa, como disse Protágoras (c. 430 a. E. C.) – ou a ele seatribui – “é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, 37
  • 38. das coisas que não são, enquanto não são”. Assim seja (ou não-seja). Let itbe (ou not to be – o que é a mesma coisa).Os hereges nômades que já experimentam esses novos padrões deinteração viajando pelos interworlds e “audaciosamente indo onde ninguémjamais esteve” começam a gritar para os que teimam em juntar e colar oscacos de céu velho que estão despregando para prorrogar a vigência domundo único: “– Parem com isso! Não existem mestres. Não existem guias.Não existe caminho”. 38
  • 39. Não-igrejas: porque não existe mais caminho O objetivo é ser pessoa, nada além dissoFluzz também é: tudo está conectado. E se tudo está conectado por que osseres humanos não estariam?É como se todo o mundo percebido e sentido fosse internalizado por essainterface (individual) com a mente (social) que chamamos de cérebro.Assim também a rede social. A máxima de Novalis (1798) “cada serhumano é uma pequena sociedade” (28) pode significar, por um lado, queos humanos importam a estrutura da rede social a que estão conectados.Algo se passa como se a rede fosse espelhada dentro da pessoa eminteração. As personalidades das pessoas conectadas são como quesimuladas internamente por um sujeito que, não raro, conversa com elas.Essa imagem espelhada é atualizada toda vez que há interação. E háespelhamento, é claro, porque há separação.Eis, talvez, o motivo pelo qual nunca estamos realmente sozinhos. Há umburburinho de fundo, permanentemente presente. Como borgs ouvimos, otempo todo, as “vozes da Coletividade”. Mas, diferentemente dos Borgs,como “ghola social”, cada pessoa internaliza de um modo diferente, unique.Sem essa imagem peculiar dos outros dentro de nós não podemos serpessoas, quer dizer, não podemos ser humanos. As imagens da “mesma”rede são tantas quanto os seus nodos. Imagens de imagens, redes dentrode redes. E o que se chama de ‘eu’ ou ‘você’ também são vários. Chegar aum só (aquela individuação junguiana) é final de percurso, não condição departida.Todavia nos novos mundos altamente conectados, o caminho daindividuação (não só aquele sobre o qual escreveu Jung, mas o caminho dailuminação de todas as tradições espirituais hierárquicas) não pode mais serpercorrido como uma jornada interior (no sentido psicológico-espiritualindividual). ‘Pessoa já é rede’ significa que eu e você compartilhamos omesmo indivíduo-social. Eu e você são variações de um mesmo substrato:singularidades em um tecido. Mas significa também, paradoxalmente, que‘eu sou um outro’, qualquer-outro, não apenas como complexo psicológico(como representação interiorizada), mas na rede, como realidade social. 39
  • 40. Nos mundos pouco conectados dos milênios pretéritos, trabalhava-se comos materiais alquímicos das representações introjetadas, percorrendo-seinteriormente nebulosas estações arquetípicas em direção à totalidade. Avida humana (do buscador) era, de certo modo, apartada da sua vida social(do polinizador). O caminho era “pessoal” no sentido de individual e exigiaconsciência, confirmação intermitente de que eu vi o que vi, senti o quesenti, pensei o que pensei, sei o que sei, passei o que passei, vivi o quevivi... até me iluminar (ou não)! Mas isso só ocorre enquanto prevalece aseparação entre eu e o outro.Entretanto, quando vida humana e convivência social se aproximam, novoscaminhos se abrem, continuamente. Aquele pelo qual procurávamos nomeio de nós (no sentido de no nosso interior) passa a estar entre nós. Umanova topologia distribuída dos caminhos espirituais elimina os caminhosúnicos (mesmo quando únicos para cada pessoa). Os caminhos sãomúltiplos, inclusive para a mesma pessoa. O que significa dizer que nãoexiste mais caminho. Como captou o poeta: "Todos os caminhos, nenhumcaminho. Muitos caminhos, nenhum caminho. Nenhum caminho, a maldiçãodos poetas" (29).E não só os poetas percebem, mas também outras inquiring minds, deexploradores heterodoxos, como a do físico David Bohm (1970-1992),dedicado, nos últimos anos de sua vida, a compreender e promover ainteração que chamava de diálogo: ele chegou à conclusão de que “nãoexiste um ‘caminho’... no dialogo compartilhamos todas as trilhas e, porfim, percebemos que nenhuma delas é fundamental. Percebemos osignificado de todos os caminhos e, portanto, chegamos ao ‘não-caminho’.No fundo, todos os caminhos são os mesmos...” (30)Se o objetivo é ser pessoa, nada além disso, qualquer relação humana écaminho. A espiritualidade-fluzz não é percorrer uma trilha, completar umpercurso, mas deixar-se-ir de encontro dos demais, abrindo as própriasfronteiras ao outro-imprevisível. Ora, isso significa que você não precisamais de uma igreja – como cluster fechado dos que professam a mesma fé(a fé de que estão no mesmo caminho) – quer dizer, de um partido. 40
  • 41. Máquinas para privatizar a políticaOs partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapúblicaNo velho mundo fracamente conectado as pessoas erigiam corporações –grupos privados hierarquizados – para fazer valer seus interesses.Simplesmente parecia ser a coisa “lógica” a ser feita em um mundo regidopela “lógica” da escassez. Assim também surgiram os partidos como umtipo especial de corporação: eles foram constituídos para fazer prevaleceros interesses de um grupo sobre os interesses de outros grupos e pessoascom base em (ou tomando como pretexto) um programa, um conjunto deidéias a partir das quais fosse possível conquistar e reter o poder paratornar legítimo o exercício (ilegítimo do ponto de vista social, quer dizer, doponto de vista das redes sociais distribuídas) de comandar e controlar osoutros.Partidos são organizações pro-estatais. Não é a toa que decalcam o padrãode organização piramidal do Estado. Mas, ao contrário do que se pensa, ospartidos vieram antes do Estado e nesse sentido são também organizaçõesproto-estatais. Os primeiros partidos foram religiosos: as castas sacerdotaisque erigiram o Estado.Sim, o Estado é, geneticamente, um ente privado. Estado como esferapública só surgiu (isso deveria ser uma obviedade, conquanto não soe comotal) quando se constituiu uma esfera pública, com a invenção dademocracia. Antes disso – por três milênios ou mais – os Estados foram oresultado da privatização dos assuntos comuns das cidades pelosautocratas. E depois disso, por quase dois milênios, os Estados continuaramsendo organizações privadas (só nos últimos dois ou três séculos eles seconstituiram, aqui e ali e, mesmo assim, em parte, como instânciaspúblicas, mais ou menos democratizadas; embora continuassem infestadospor enclaves autocráticos privatizantes).Os partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapública. São um modo político de nos proteger da experiência de fluzz. Paratanto – em um regime de monopólio (nas ditaduras) ou de oligopólio (nasdemocracias formais) – eles privatizam a política pública. Sua existêncialegal indica que as pessoas, como tais, não precisam fazer política públicano seu cotidiano e na base da sociedade (nas suas comunidades): alguémfará tal política por elas! Mesmo nas democracias dos modernos entende-se 41
  • 42. que as pessoas não devem fazer política pública, a menos que entrem emum partido: uma espécie de agência de empregos estatais, umaorganização privada autorizada a disputar com outras organizações privadascongêneres o acesso às instituições estatais reconhecidas legalmente comopúblicas e, portanto, encarregada com exclusividade de fazer políticapública. Enxugando de toda literatura legitimatória as teorias liberais sobreo papel dos partidos na democracia, o que sobra é mais ou menos isso aí.Ora, por mais esforço que se faça para justificar esse acesso diferencial aoexercício da política pública, parece óbvio que o sistema de partidosprivatiza a política. Ao se conferir aos partidos o condão de transformarpolitics em policy, as pessoas viram automaticamente clientela do sistema.As teorias liberais da democracia, é claro, não concordam com isso. Mas asteorias liberais da democracia são próprias de um mundo de baixaconectividade social, em que somente eram concebíveis as formas políticasrepresentativas de regulação de conflitos. Para os defensores dessasteorias, só existem, basicamente, os indivíduos. E a democracia é, via deregra, baseada em uma teoria das elites (mais Platão, menos Protágoras).Sua análise é coerente com que eles pensam. E eles pensam mais oumenos assim: é melhor o Estado-nação com todos seus enclavesautocráticos – e, inclusive, é melhor o império – garantindo a ordem, doque a barbárie da anarquia. No fundo essa é mais uma variação, em linhadireta, da visão hobbesiana. Abandonados à nossa própria sorte, semsermos domesticados por um poder acima de nós, nos engalfinharíamos emuma guerra de todos contra todos. Então o Estado tem, para eles, um papelcivilizador (assim como, para alguns, também tem esse papel a religião:pois se não houver um deus – dizem – tudo é permitido, tudo seria possívelem termos morais). O que se requer, apenas, é que esse Estado sejalegitimado pelos cidadãos em eleições limpas e períodicas e que osgovernos eleitos respeitem as regras do direito (interpretadas também, éclaro, pelas tais “elites civilizadoras”).Essa é a visão da democracia dos modernos na sua versão liberal, baseadano indivíduo. Mas tal visão não está mais adequada aos mundos altamenteconectados que estão emergindo. Por muitas razões (dentre as quais aprincipal é que o indivíduo é uma abstração) a democracia não pode ser oresultado de um pacto feito e refeito continuamente pelos indivíduos que seilustraram e que se comprometeram a manter uma ordem capaz de garantiraos (e exigir dos) demais indivíduos que eles continuem a conformar sualiberdade aos limites impostos pelos sistemas de poder que formalmentepermanecerem legitimados por eleições e respeitarem as leis. Isso, é claro,deve ser garantido, mas não para ser reproduzido indefinidamente como é e 42
  • 43. sim para possibilitar que os cidadãos continuem - com liberdade -inventando novas formas de regular seus conflitos.Em mundos altamente conectados essa forma representativo-político-formalda democracia (a democracia no sentido "fraco" do conceito: como sistemade governo ou modo político de administração do Estado) deverá dar lugara novas formas mais substantivas e interativas (a democracia no sentido"forte" do conceito, das pessoas que se associam para conviver em suascomunidades de vizinhança, de prática, de aprendizagem ou de projeto).A democracia no sentido “forte” do conceito é uma democracia+democratizada, que recupera a linha da "tradição" democrática – umaimaginária linhagem-fluzz – que começa com o “think tank” de Péricles – doqual “participava”, entre vários outros, Protágoras –, passa por Althusius(1603), por Spinoza (1670-1677) e pelos reinventores da democracia dosmodernos, por Rosseau (1754-1762), por Jefferson (1776) e por aquele“network da Filadélfia” que conectava os redatores americanos daDeclaração de Independência dos Estados Unidos e pelos Federalistas(1787-1788), pelos autores europeus (desconhecidos) da Declaração dosDireitos do Homem e do Cidadão (1789), por Paine (1791), por Tocqueville(1835-1856), por Thoreau (1849) e por Stuart Mill (1859-1861), até chegaràs formas radicais antecipadas pela primeira vez por Dewey (1927-1939): ademocracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, a democraciacomo expressão da vida comunitária (31). Esta última será uma espécie demetabolismo das redes mais distribuídas do que centralizadas, algo assimcomo uma pluriarquia.É claro que os chamados cientistas políticos, em boa parte, não acreditamnisso. O que não significa nada, de vez que não existe uma ciência política.Se existisse uma ciência política, em qualquer medida para além de umaciência do estudo da política, não poderia haver democracia (pois nestecaso os governantes deveriam ser os cientistas e decairíamos na repúblicaplatônica dos sábios: uma autocracia). A despeito do que pensam os queforam ordenados nas academias da modernidade para legitimar a políticarealmente existente, há um argumento fatal contra suas (des)crenças: se ademocracia não pudesse ser reinventada novamente (pois ela já o foi umavez, pelos modernos) ela também não poderia ter sido inventada (pelaprimeira vez, pelos atenienses). 43
  • 44. Autocratizando a democraciaÉ um absurdo pactuar que o acesso ao público só se dê a partir da guerraentre organizações privadasA democracia foi a mais formidável antecipação de uma época-fluzz que jáocorreu nos seis milênios considerados de “civilização”. Foi uma invençãofortuita e gratuita de pessoas que logrou abrir uma fenda no firewall erigidopara nos proteger do caos, para que não caíssemos no abismo.Na verdade as pessoas que inventaram a democracia não tinham a menorconsciência das implicações e consequências do que estavam fazendo.Talvez tivessem motivos estéticos. Ou talvez quisessem, simplesmente,abrir uma janela para poder respirar melhor. Em consequência, abriramuma janela para o simbionte social poder respirar, sufocado que estava, hámilênios, em sociedades de predadores (e de senhores). Como já foimencionado aqui, não é por acaso que no primeiro escrito onde aparece ademocracia (dos atenienses) – em Os Persas, de Ésquilo (427 a. E. C.) – elatenha sido apresentada como uma realidade oposta à daqueles povos quetêm um senhor.Era tão improvável que isso acontecesse, na época que aconteceu, como foio surgimento e a continuidade da vida neste planeta, perigosamenteinstável em virtude da composição atmosférica tão improvável quealcançou. Com efeito, um gás instável (comburente), corrosivo eextremamente venenoso como o oxigênio, que chegou a alcançar aimpressionante concentração de 20%, é uma loucura em qualquer planeta:mas foi assim que o simbionte natural – essa surpreendente capa biosféricaque envolve a Terra – conseguiu respirar.Do ponto de vista social, a democracia é um erro no script da Matrix. Nãose explica de outra maneira. Não era necessária. Nem foi o resultado dequalquer “evolução” social. Não surgiu dos interesses privatizantes dequalquer corporação. Surgiu em uma cidade no mesmo momento em quenela se conformou um espaço público.Isso significa que, geneticamente, a democracia é um projeto local e nãonacional. O grupo de Péricles (às vezes chamado indevidamente de “partidodemocrático”) não foi constituído para tentar converter os espartanos ouqualquer outro povo da liga ateniense à democracia (e nem para empalmare reter indefinidamente o poder em suas mãos, como grupo privado) e sim 44
  • 45. para realizar a democracia na cidade, na base da sociedade e no cotidianodo cidadão enquanto integrante da comunidade (koinonia) política.Foram os modernos que tentaram transformar a democracia em um projetointer-nacional (ou seja, válido para um conjunto de nações-Estado). Mas elasó pode se materializar plenamente – como percebeu com toda a clarezaJohn Dewey (1927) – no local: é um projeto vicinal, comunitário, que tem aver com um modo-de-vida compartilhado (32). E é mais o “metabolismo”de uma comunidade de projeto do que o projeto de alguns interessados emconduzir uma comunidade para algum lugar segundo seus pontos de vistaparticulares ou para satisfazer seus interesses (outra definição de partido).A democracia surgiu como uma experiência de redes de conversações emum espaço público, quer dizer, não privatizado pelo Estado (no caso,representado pelos autocratas que governaram Atenas). Não teria surgidosem a formação de uma rede local distribuída em Atenas e em outrascidades que experimentaram a democracia. Quando surge, a democracia jásurge como movimento de desconstituição de autocracia e não comomodelo de sociedade ideal. As instituições democráticas foram criadas –casuísticamente mesmo – para afastar qualquer risco de retorno ao poderdo tirano Psístrato e seus filhos a partir da experimentação de redes deconversações em um espaço (que se tornou) público (33). Sim, público nãoé um dado, não é uma condição inicial que possa ser estabelecida oudecretada por alguma instância a partir ‘de cima’ (como uma normaexarada ex ante pelo Estado-nação). Público é o resultado de um processo.Só é público o que foi publicizado. Depois, é claro, pode-se pactuarpoliticamente o resultado que se estabeleceu a partir do processo social,gerando uma norma, sempre transitória, válida para o âmbito da instânciade governança vigente.Mas não se pode pactuar que o acesso ao público só se dê a partir daguerra (ou da política como continuação da guerra por outros meios – o queé mesma coisa) entre organizações privadas. Um pacto absurdo como esse– baseado na perversa fórmule inversa de Clausewitz-Lenin (34) – écontraditório nos seus termos e investe contra o próprio sentido de público.Por isso, diga-se o que se quiser dizer, do ponto de vista da democracia(uma realidade coeva à da esfera pública), partidos são instituições contra-fluzz, regressivas na medida em que concorrem para autocratizar ademocracia (35). 45
  • 46. A formação do público O público só se pode conformar por emergênciaDe um ponto de vista político, não há problema com a competição entregrupos privados quando seus objetivos são privados. O problema surgequando se quer gerar um sentido público por meio da competição entregrupos privados (como os partidos). Foi assim que, decalcando aracionalidade do mercado, os modernos cometeram uma confusão brutalentre tipos diferentes de agenciamento que levou à irresponsávelidentificação entre democracia e capitalismo (e tão perdidos ficaram em suaconfusão que agora não sabem nem explicar direito a onda de capitalismoautoritário que nos atinge nos últimos anos, sobretudo a partir da China).Predominou amplamente uma desinteligência sobre a questão do públiconos últimos séculos do mundo único. As pessoas achavam que público era oresultado de uma declaração legal, legitimada por um pacto dito social, maspromovido e garantido pelo Estado. Bastava que a lei decretasse que umacoisa era pública e pronto! Estava feita a mágica.Não viam que o público se forma, sim, a partir de inputs privados porémsomente quando esses inputs interagem coletivamente formandoconfigurações complexas que brotam por emergência. E não podiam mesmover isso porquanto as categorias sociológicas e políticas que utilizavameram impotentes para analisar a intimidade do que chamavam desociedade, ou seja, para captar a fenomenologia da rede social.Sem buscar novos constructs para entender uma realidade diferentedaquela em que as velhas concepções, que reificavam essa abstraçãochamada indivíduo, foram forjadas, não há saída. Dificilmente se poderáentender a emergência e outros processos acompanhantes da complexidadesocial.Agora percebemos a necessidade a lançar mão de outros conceitos paratentar descrever a formação do público. Hoje podemos dizer que adiversidade das iniciativas da sociedade civil é capaz de gerar uma ordembottom up. E que a partir de certo grau de complexidade, a pulverização deiniciativas privadas acaba gerando um tipo de regulação emergente.Quando milhares de micromotivos diferentes entram em interação, épossível se constituir um sentido coletivo comum que não está mais 46
  • 47. vinculado aos motivos originais dos agentes privados que contribuíram paraa sua constituição. Aqui começamos a roçar o problema!No entanto, isso não é possível quando o número de agentes privados émuito pequeno. O que indica que o público propriamente dito só pode,portanto, se constituir por emergência. Pode até haver, provisória eintencionalmente, um pacto que reconheça alguns processos de constituiçãodo público, assim como há, por exemplo, um pacto que reconhece comoreceita pública o resultado do montante de impostos pagos por agentesprivados (com dinheiro privado). Não há uma mágica que transformanossos recursos privados em recursos públicos quando pagamos impostos:há um assentimento social, que reconhece como válida a operação políticapela qual esses recursos privados, pagos pelos chamados contribuintes,quando arrecadados compulsoriamente pelo Estado, passam a serconsiderados como recursos públicos.No entanto, há limites impostos pela racionalidade do tipo de agenciamentoque estamos considerando. Querer transformar o interesse privado de umgrupo em interesse público é semelhante a querer fazer uma mágicamesmo. Seria, mal comparando, como querer chamar de receita pública osimpostos pagos apenas por uma dúzia de contribuintes.Entenda-se que não é um problema de quantidade. É uma questão decomplexidade, em que, evidentemente, a quantidade é uma variávelrelevante, mas não a única. Se somente uma dúzia de pessoas pagasseimpostos, dificilmente haveria base para um pacto na sociedadereconhecendo como válido o direito de taxar esses contribuintes. Sehouvesse tal pacto, ele seria um pacto privatizante e os tais contribuintesseriam considerados (e se comportariam como) donos do Estado (que,então, não poderia mais ser considerado um ente público).Por outro lado, há uma razão eloqüente para afirmar que a quantidade nãoé a única variável nesse processo. Pois também não fica assegurada aformação do público pela simples soma – ou a totalização ex post einorgânica – de imputs privados, mesmo que as parcelas dessa somaexpressem quantitativamente a opinião da maioria de uma população.Mas é forçoso reconhecer que tudo ou quase tudo que se diz sobre o públicoque não leva em conta esse processo emergente pelo qual o público seconstitui a partir da complexidade social não é capaz de explicar a naturezado público, nem de compreender a fenomenologia a ele associada. 47
  • 48. Não-partidosRedes de interação política (pública) exercitando a democracia local na baseda sociedade e no cotidiano dos cidadãosNada deve impedir que pessoas se associem livremente para fazer políticapública. Se houver algo impedindo isso, então estamos em uma autocraciaou em uma democracia formal de baixa intensidade, fortemente perturbadapela presença de instituições hierárquicas que deformam o campo social.Partidos são, obviamente, uma dessas instituições, conquanto não consigam– na vigência de regimes democráticos formais – impedir totalmente que aspessoas exerçam a política; não, pelo menos, nos âmbitos de suas redes derelacionamento, nos círculos com graus de separação mais baixos.Dentro de certos limites – impostos pelo grau de autocratização dasdemocracias realmente existentes na atualidade – é possível democratizar apolítica na base da sociedade, inventando e experimentando novas formasde interação política realmente inovadoras. Nas autocracias isso não épossível, razão pela qual as democracias formais – com suas conhecidasmazelas e limitações – são infinitamente preferíveis a todas as formas deregimes autoritários, por mais que se lhes tentem louvar as supostasvirtudes sociais. Essa nova política possível, entretanto, seránecessariamente uma política pública, não de grupos privados de interesses– ou não será de fato nova. Se tentarmos reeditar a disputa adversarial deinteresses de grupos privados, decairemos fatalmente na velha política(36).O simples fato de algumas pessoas já terem desistido dos partidos earregaçado as mangas para fazer o que acham que deve ser feito em suaslocalidades – articulando redes de interação política (pública) e exercitandoa democracia local na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos – já éum sinal de que a dinâmica da sociosfera (em que convivem) está sendoalterada.Nos Highly Connected Worlds as pessoas (que quiserem) poderão constituirnão-partidos, comunidades políticas para tratar dos seus assuntos comuns,regulando seus conflitos de modo cada vez mais democrático oupluriarquico. Isso significa que evitarão modos de regulação de conflitos queproduzam artificialmente escassez (como a votação, a construçãoadministrada de consenso, o rodízio e, até mesmo, o sorteio), guiando-se –cada vez mais – pela “lógica da abundância”. É claro que isso só se aplica 48
  • 49. em redes mais distribuídas do que centralizadas e na medida do grau dedistribuição e conectividade (quer dizer, de interatividade) dessas redes.Dizendo a mesma coisa de outra maneira: se você não produzartificialmente escassez quando se põe a regular qualquer conflito, produzrede (distribuída); do contrário, produz hierarquia (centralização).Os problemas que se estabelecem a partir de divergências de opinião são –em grande parte – introduzidos artificialmente pelo modo-de-regulação. Esomente em estruturas hierárquicas tais problemas costumam se agigantara ponto de gerar conflitos realmente graves, capazes de ameaçar aconvivência. Porque nessas estruturas o que está em jogo não é afuncionalidade do organismo coletivo e sim o poder de mandar nos outros,quer dizer, a capacidade de exigir obediência ou de comandar e controlar ossemelhantes.Quanto mais distribuída for uma rede, mais a regulação que nela seestabelece pode ser pluriarquica. Uma pessoa propõe uma coisa. Ótimo.Aderirão a essa proposta os que concordarem com ela. E os que nãoconcordarem? Ora, os que não concordarem não devem aderir. E semprepodem propor outra coisa. Os que concordarem com essa outra coisaaderirão a ela. E assim por diante.Em redes distribuídas nunca se admite a votação como método de regularmajoritariamente qualquer dilema da ação coletiva. E quando houverdiscordâncias de opiniões, como faremos? Ora, não faremos nada! Por quedeveríamos fazer alguma coisa? Viva a diversidade! Se você estabelece aprevalência de qualquer coisa a partir da votação (ou de outros mecanismossemelhantes de regulação de conflitos), cai em uma armadilhacentralizadora ou hierarquizante. Produz “de graça” escassez onde nãohavia.Vamos imaginar que exista alguém que não esteja muito contente com amaneira como as coisas estão acontecendo em uma comunidade. O queessa pessoa pode fazer, além de externar sua opinião e colocá-la emdebate? Ora, no limite, essa pessoa descontente pode configurar uma novarede, se inserir em outra comunidade, ir conviver em outro mundo. Comoos mundos são múltiplos, ela não está mais aprisionada e não precisa ficarconstrangida a permanecer no mesmo emaranhado onde não se senteconfortável.Evidentemente a pluriarquia não pode ser adotada em organizaçõescentralizadas, erigidas no contra-fluzz, como as escolas, as igrejas, os 49
  • 50. partidos e as corporações. Com mais razão ainda não pode vigir nosEstados e seus aparatos, que – mais do que organizações hierárquicas –são troncos geradores de programas centralizadores.A despeito disso, porém, não-partidos tendem a florescer nos mundosaltamente conectados que estão emergindo. Ignorando solenemente asrestritivas disposições estatais e as crenças religiosas (sim, religiosas,mesmo quando travestidas de científicas) em uma suposta competitividadeinerente ao ser humano difundidas pelas escolas e academias, pessoas vãose conectando voluntariamente com pessoas para tratar cooperativamentede seus assuntos comuns em todos os lugares, sobretudo nas vizinhanças –conjuntos habitacionais, ruas, bairros – e nas comunidades de prática, deaprendizagem e de projeto que se formam nas cidades inovadoras que nãoquerem mais permanecer eternamente na condição de instânciassubordinadas ao Estado-nação. 50
  • 51. Estado Um delírio de raiz belicistaAs preferências que levam alguém a querer morar ou trabalhar emBarcelona, São Francisco, Curitiba, Milão ou Genebra, não são, em geral,relacionadas às características das nações que abrigam essas cidades e simà dinâmica singular que cada uma delas apresenta. Quem optou porBarcelona, certamente não optaria genericamente pela Espanha. Quemgosta de viver em São Francisco, freqüentemente tem motivos muito clarospara não querer morar em outros lugares dos Estados Unidos.Não é assim? Tanto faz morar em Curitiba ou Pernambuco, só porqueambas estão no Brasil? Tanto faz morar em Milão ou Consenza, só porqueambas estão na Itália? Tanto faz morar em Genebra ou Berna, só porqueambas estão na Suíça? É claro que não! Há uma diferença de capital social(ou seja, uma diferença de topologia e de conectividade, na estrutura e nadinâmica, de suas redes sociais) entre essas cidades, que faz toda adiferença em termos de condições e estilo de vida e convivência social.O fato é que vivemos em cidades, moramos, estudamos, trabalhamos e nosdivertimos em localidades. Ninguém convive no país. A nação não é umacomunidade concreta. É uma comunidade imaginária, de certo modoinventada e patrocinada pelo Estado e seus aparatos, inclusive pelapublicidade massiva das empresas estatais (que se enrolam nas bandeirasnacionais para tentar estabelecer uma vantagem competitiva bypassando omercado ou para fazer propaganda dos governantes que nomearam seusdirigentes). E a pátria (e o patriotismo), ou é a remanescência de um delíriode raiz belicista (aquele mesmo que acompanhou a instalação desse frutoda guerra chamado Estado-nação moderno) ou – para lembrar a já batidasentença de Samuel Johnson (1709-1784) – é um refúgio de canalhas (37)que se escondem por trás do nacionalismo para proteger seus interesses oulevar vantagem sobre os concorrentes, em geral no campo econômico, porcerto, mas também no político.Mas as profundas mudanças sociais que estão ocorrendo nas últimasdécadas estão criando condições favoráveis à independência das cidades doponto de vista do desenvolvimento local. Fala-se aqui – entenda-se bem –das cidades como redes de múltiplas comunidades, e não propriamente dasinstâncias locais do Estado (central ou regional), das prefeituras e das 51
  • 52. outras instituições privatizadoras da política que querem “representá-las” oucomandá-las.O mundo humano-social, ao contrário do que pensam os governantes, nãoé um conjunto de Estados, nações ou países. É uma configuração móvel ecomplexa de infinidades de fluxos entre pessoas e grupos de pessoas,agregadas, por sua vez, em múltiplos arranjos locais e setoriais: famílias,vizinhanças, comunidades, cidades, regiões, organizações (dentre as quais,algumas poucas – que não chegam a duas centenas – são Estados).Depois que se generalizou a forma Estado-nação, as cidades passaram a serlocalidades de um país (devendo-se entender por isso que elas passaram aser instâncias subnacionais). Para todos os efeitos, são encaradas, pelosaparatos estatais que comandam os países, como instâncias subordinadas(ordenadas a partir de cima). E conquanto tenham alguma autonomiaformal, figurando como sujeitos de pactos federativos em muitasConstituições modernas, as cidades são realmente subordinadas do pontode vista político, jurídico, fiscal, energético, econômico etc. Seufuncionamento depende, em grande parte, de decisões tomadas sem a suaparticipação. Normas, repasses de recursos e investimentos, sãodeterminados por outras instâncias, de cima e de fora. E na medida em quetudo isso gera dependência, não interdependência, são construções contra-fluzz. 52
  • 53. A nação como comunidade imagináriaA nação não é uma comunidade concreta. É uma comunidade imaginária,de certo modo inventada e patrocinada pelo Estado e seus aparatosAs nações são apresentadas como grandes comunidades, no sentido alemãoseiscentista do termo, ou naquele sentido, que lhe atribuía Althusius(1603), da grande comunidade territorial de herança (38) e não no sentidoque lhe atribuímos hoje, da pequena comunidade como cluster, de escolhade uma (“porção” da) rede social para conformar um campo de convivência,em uma atividade compartilhada, de prática, de aprendizagem ou deprojeto. Dewey (1927) em “O público e seus problemas”, faz uma corretadistinção entre a grande comunidade e a pequena comunidade do ponto devista da democracia (substantiva) como modo de vida comunitário. Não éna grande comunidade (nação) que essa democracia pode se materializarplenamente e sim na pequena comunidade local; para usar suas própriaspalavras: “a democracia há de começar em casa, e sua casa é acomunidade vicinal” (39).Essas grandes comunidades-nacionais são, é claro, instituições imaginárias.Como tal são abstratas. Ninguém convive ou interage concretamente com apopulação de um país. Ser brasileiro, italiano ou argentino não é, strictosensu, pertencer a uma comunidade concreta, porquanto, para os nossos‘compatriotas’ (e essa palavra já é horrível), não estamos incluídos, comopessoas, no seu modo-de-vida, quer dizer, não fomos voluntariamenteaceitos e acolhidos por eles no seu campo de convivência. Who cares?Somente comunidades humanas podem incluir seres humanos, mas quem éincluído é sempre a pessoa com suas peculiaridades e não o indivíduo comoum número em uma estatística ou uma variável censitária.No entanto, para fazer parte da grande “comunidade” nacional basta nascernaquele território delimitado como seu (a partir da conquista ou da guerra)e, em geral, manter “laços de sangue” ou hereditários com os nacionais (ouseja, trata-se do reconhecimento de uma herança genética, condição apartir da qual – acredita-se, e não sem razão – a transmissão não-genéticade comportamentos que chamamos de cultura pode ser viabilizada,inoculando-se tal cultura (como quem “carrega” um programa) nos novosmembros (descendentes dos nacionais), a partir da família e, em seguida,da vizinhança, da escola, da igreja, das organizações sociais, das empresase das instituições nacionais estatais e não-estatais). Note-se que essaidentidade abstrata nacional é construída a partir de uma visão de passado: 53
  • 54. origem comum (em geral forjada), raça (uma identificação inconsistente doponto de vista científico), língua, costumes, credos, cultura enfim e história(escrita sempre da frente para trás) (40).Percebe-se que não há aqui qualquer escolha humana. Não há acolhimento(quer dizer, inclusão). Funciona mais ou menos assim como na propriedadede um rebanho animal: as crias do gado pertencem automaticamente aodono da boiada, aumentam o número de cabeças do seu patrimônio. Poisbem. No caso do pertencimento à grande “comunidade” nacional quem fazàs vezes do dono é o Estado-nação.É o Estado que interpreta o que é a nação. É o Estado que delimita quempode ou não pode ser incluído na nação e estabelece condições depertencimento ou inclusão. Mas o Estado não é uma comunidade e sim umsistema de organizações que gera programas verticalizadores (ou, talvezmelhor, do ponto de vista da rede social, o inverso: uma matriz deprogramas verticalizadores que gera um sistema de instituições), cujafunção precípua é obstruir, separar e excluir. A partir do monopóliolegalizado da violência, é o Estado que diz: isso você não pode fazer; por talou qual caminho você não pode trafegar sem autorização; aqui você nãopode entrar ou daqui você deve sair. Ponha-se na rua, quer dizer, fora domeu território!Não importa se, por exemplo, uma comunidade concreta de espanhóisqueira acolher um africano, incluindo-o no seu campo de convivência para arealização de um projeto comum. Se o africano em questão não atender acertas condições e não preencher certos requisitos ditados pelo Estado,nada feito. E mesmo que cumpra todas as exigências, ele sempre será, aosolhos do Estado-nação espanhol, um estrangeiro, ou seja, um estranho,alguém que deve ser impedido de circular livremente, separado dos“verdadeiros” espanhóis e excluído de certos direitos – o principal dos quaiso de pertencer plenamente à comunidade política que define os destinoscoletivos dos espanhóis. Sim, será um excluído político porque será – aosolhos da autocrática realpolitik estatal – sempre alguém cujo modo-de-serameaça, independentemente do que faz ou venha a fazer, simplesmentepor ser diferente, por ser um outro, o modo-de-ser estabelecido comodesejável pelo imaginário nacional historicamente construído pelo mega-programa Estado e que é reinterpretado de tempos em tempos peloscondomínios privados de agentes políticos – estes sim, bem concretos – queassumem as funções de governo.De certo ponto de vista, o que chamamos de Estado como fonte ou geratrizde programas verticalizadores que “rodam” na rede social, faz parte da 54
  • 55. ideologia dos governos. No que tange a função de legitimação dessaideologia, foi necessário promover uma fusão entre o Estado e a nação.Sem isso o aparato hierárquico estatal não conseguiria infundir na grande“comunidade” nacional as noções abstratas de identidade que alimentam oaparato, para as quais o drive principal foi, invariavelmente, a guerra (quepermite a formação de identidade a partir do inimigo). Sim, os Estados –qualquer Estado, inclusive a forma atual Estado-nação – são frutos daguerra e se alimentam (internamente) do “estado de guerra” ou (nafórmule inversa de Clausewitz-Lenin) da prática da política como umacontinuação da guerra por outros meios. São produtos, portanto, não dacooperação (ou da amizade política) que supostamente aglutinaria a nação– e de todo aquele blá-blá-blá da “vontade de viver juntos” – e sim dacompetição (ou da inimizade política).Por isso que todo Estado é hobbesiano. Todo Estado é fruto do realismopolítico. Todo Estado é autocrático (inclusive naqueles que denominamos de“Estados democráticos e de direito” os enclaves autocráticos são tãoonipresentes que a estrutura e a dinâmica da entidade como um todo nãopodem acompanhar o comportamento democrático das sociedades quedominam). Ao criarmos a identidade imaginária “Atenas” para colocá-la nolugar da identidade concreta “os atenienses”, já não estamos mais nocampo da democracia e sim no da autocracia. E os próprios gregos doséculo de Péricles fizeram isso, quando se comportaram de modo a-políticono enfrentamento violento com outras cidades-Estado da região.Não é a toa que os governantes vivem apelando para um sentimentonacional. Falam da França, da América ou do Brasil como se essas“entidades” existissem e tivessem vontade própria, a fim de extrair ocombustível do “fervor patriótico” para se manter no poder, para reproduziro sistema de instituições estatais que quer impor sua legitimidade àsociedade com o fito de torná-la seu dominium (ao modo feudal mesmo) epara continuar produzindo inimizade no mundo.Ora, você pode dizer: eu não quero “viver junto” com quem eu não quero,apenas pelo fato de ser brasileiro, na medida em que isso signifique “não-querer viver junto” com um inglês pelo fato de ele ser inglês (e nãobrasileiro). Por que deveria? Quem disse que somos inimigos? A queminteressa manter esse tipo de rivalidade subjetiva? Do ponto de vistagenético – a ciência biológica já mostrou – somos mesmo, todos nós, umaúnica grande família. Do ponto de vista cultural parece claro, a não ser quenos deixemos intoxicar pela estiolante ideologia multiculturalista, queculturas que não se polinizam mutuamente – por meio de saudávelmiscigenação – tendem a apodrecer. 55
  • 56. Não existe um Brasil, mas milhares, talvez milhões. Stricto sensu a “naçãobrasileira” não é, nem nunca será, uma comunidade e sim uma interação demiríades de comunidades que falam a mesma língua (com vários sotaques eregionalismos), têm alguns costumes parecidos (e muitos costumes locaisbem diferentes), várias histórias reais (e não apenas uma única narrativa,como aquela que é ensinada nas escolas). A nação só é una do ponto devista das instituições estatais (por meio das quais se materializam ospoderes da República, as forças armadas, a moeda) e daquilo queantigamente se chamava, de um jeito meio sem-jeito, de “aparelhosideológicos de Estado”. Além, é claro, do governo central, que precisaespichar essa unidade para além da herança cultural.Mas há uma idéia e, mais do que isso, uma prática de bando na raiz dessaunidade. Como no surgimento da noção de cidadania (que nada tinha deuniversal, pelo contrário), trata-se de proteger “os de dentro” contra “os defora”, impedir que eles – os outros – venham vender na nossa feira, queconcorram conosco em igualdade de condições, que adquiram nossasterras, que roubem nossas riquezas naturais (que certamente o próprioDeus nos concedeu, lavrando a escritura no cartório do céu: em nome doEstado, é claro), que tomem nossos empregos, que exerçam plenamente acidadania política (disputando conosco o poder associado à representação).Sim, é um sentimento de bando que se manifesta aqui, justificado pelopressuposto antropológico de que o ser humano, por inerentementecompetitivo, é hostil por natureza e que, portanto, os seres humanos,deixados a si mesmos, como escreveu Hobbes (1651), engalfinhariam-seem uma guerra de todos contra todos. Ah... A menos que haja um Estadopara impedir, entenda-se bem, não o conflito em si e a guerra, mas oconflito no interior do próprio bando e a guerra entre “os de dentro”. Tudoisso, é claro, para poder promover o conflito e a guerra com “os de fora”.Foi assim que nasceu o Estado, e inclusive, como já foi assinalado, a formaatual Estado-nação e a ordem internacional do equilíbrio competitivo.Então, quando alguém fala do Brasil, ou em nome do Brasil, podemosprocurar que certamente vamos achar os interesses particularistas, bemconcretos, que se escondem sob essa “nacionalização” abstrata do discurso.É alguém tentando se proteger do mercado. É alguém tentando proteger asua indústria ou o seu negócio. É alguém tentando se proteger daconcorrência comercial ou política. É alguém tentando proteger o seuemprego. É alguém tentando proteger suas condições de vida. É alguémtentando desqualificar os oponentes para ficar no poder. É alguém tentandomanter nas mãos do seu bando as instituições estatais que aparelhou. Ésempre alguém no contra-fluzz, tentando se proteger do outro. 56
  • 57. “O Brasil” é um construct. Se somos brasileiros, na maior parte do tempo,nos nossos trabalhos, nos nossos estudos e pesquisas, nos nossosrelacionamentos, “o Brasil” não gera preferências significativas (41).Na aceitação da legitimidade do outro e na sua incorporação em nossoespaço de vida, não deveríamos dar a mínima se uma pessoa é brasileira,italiana, argentina, francesa ou norte-americana. Qualquer preferência,baseada nesses critérios, para acolher ou rejeitar uma pessoa em umacomunidade, é uma canalhice. Sim, nunca é demais repetir o dito deJohnson: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Uma pessoadecente não deveria se deixar drogar com esse tipo de ideologia queobstrui, separa a exclui para atender a exigências hierárquicas que, ao fim eao cabo, são desumanizantes.Nos últimos séculos o fervor patriótico que alimentava as “comunidades”nacionais foi sendo obrigado a dividir espaço com o consumismo, apátridapor natureza, internacionalizante sim, mas não glocalizante. E nãonecessariamente mais humanizante. Ocorre que o processo de globalização(ou de planetarização) começou a quebrar as fronteiras nacionais (aquelasque são vigiadas pelo Estado nacional) em todos os campos, ensejando queculturas não-nacionais pudessem emergir das múltiplas interações cruzadasde pessoas de diferentes nacionalidades. Praticamente nenhum Estado-nação, nem mesmo o mais autocrático deles, consegue mais fechar suasfronteiras, em termos culturais, isolando seu “rebanho” do resto do mundo.A telefonia móvel e a Internet (a despeito daquele vergonhoso acordo doGoogle com os ditadores chineses, que não deve ser esquecido, conquantoo próprio Google tenha sido levado a revê-lo, muitos anos depois)aceleraram esse processo. De sorte que existe hoje um contingentecrescente de pessoas que não estão nem aí para identidades nacionais eque estão se inserindo em múltiplas comunidades transnacionais,compostas por pessoas de várias nacionalidades, a partir de suas própriasescolhas.No segundo capítulo do seu excelente Transforming History intitulado“Cultural History and Complex Dynamical Systems”, William IrwinThompson (2001), escreveu que “toda nossa matriz de identidade baseadaem uma cultura de desejo de compra econômica e fervor patriótico estámudando para uma nova cultura planetária...”. Mas em seguida adverte que“explosões reacionárias [atuando “como a Inquisição e a Contra-Reforma,que procuraram travar e reverter as forças modernizadoras da Renascençae da Reforma”] podem prejudicar muito e atrasar a transformação culturalpor séculos a fio” (42). 57
  • 58. Pois é precisamente neste ponto de bifurcação que nos encontramos hoje.Todavia, para além, talvez, do que avalia Thompson, não são apenas “ofundamentalismo religioso e as reações terroristas nacionalistas da direita àplanetização” (43) que estão tentando enfrear a emergência de uma novaidentidade transcultural. Hoje o próprio conceito de nação, interpretado ematerializado por uma forma já decadente de Estado – o Estado-nação e asideologias nacionalistas nele inspiradas ou por ele infundidas na sociedade –constitui um obstáculo à transição histórica atualmente em curso (cujosentido é a glocalização). 58
  • 59. A falência da forma Estado-nação A maior parte dos Estados-nações não deu certoDo ponto de vista do ‘desenvolvimento como liberdade’ – para usar a felizexpressão de Amartya Sen (2000) –, é forçoso reconhecer que a imensamaioria dos Estados-nações do mundo não deu muito certo (44).O chamado mundo desenvolvido restringe-se a uma lista que não chega atrês dezenas de países: quer se considere o desenvolvimento humanomedido pelo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD, quer seconsidere o desenvolvimento econômico, medido pelo CGI – Índice deCompetitividade Global do Fórum Econômico Mundial, quer se considere odesenvolvimento tecnológico e a sintonia com as inovaçõescontemporâneas, medido pelo IG – Índice de Globalização, da ATKearney/Foreign Policy. Desenvolvidos (nesses três sentidos) são os paísesque apresentam IDH igual ou superior a 0,9, CGI maior ou igual a 4,6 e quefiguram nos primeiros vinte ou trinta lugares da lista do IG, daqueles quetêm ambientes mais favoráveis à inovação.Um cruzamento desses três índices revela a lista – aborrecidamenteprevisível – dos países que deram certo. Pasmem, mas são menos de 30!Em ordem alfabética (em dados do final da década passada): Alemanha,Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Espanha,Estados Unidos, Finlândia, França, Holanda, Hong Kong, Irlanda, Islândia,Israel, Itália, Japão, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, ReinoUnido, Cingapura, Suécia e Suíça. (A essa lista poder-se-ia, com boavontade, acrescentar mais alguns, como, por exemplo – e entre outros –, aRepública Checa, a Estônia, a Eslovênia e, na América Latina, o únicocandidato de sempre: o Chile).Significativamente, a imensa maioria dos países dessa lista dos maisdesenvolvidos tem regimes democráticos. Significativamente, também, nãofiguram nessa lista dos mais desenvolvidos: i) países com regimesditatoriais, ainda que apresentem altos índices de crescimento econômico(como China ou Angola); ii) protoditaduras (como Rússia ou Venezuela); e,nem mesmo, iii) democracias formais parasitadas por regimesneopopulistas manipuladores (como Argentina e outros países da AméricaLatina). 59
  • 60. Em outras palavras, do ponto de vista do ‘desenvolvimento como liberdade’,os Estados-nações existentes no mundo atual, em sua maioria, não sãoinstâncias benéficas.Os números são assustadores. Mais da metade (50,5%) dos 193 países domundo ainda vive sob regimes ditatoriais ou protoditatoriais. Apenas 80países (reunindo 49,5% da população mundial) apresentem democraciasformais (um cálculo com boa vontade, incluindo aquelas que sãoparasitadas por regimes populistas ou neopopulistas manipuladores). Issosignifica que cerca de 3 bilhões e meio de pessoas não têm experiência dedemocracia representativa – sim, a referência aqui é à democracia formalmesmo – ou têm dessa democracia uma experiência muito limitada. Quasequatro milhões de seres humanos (a maioria da humanidade) não têmplena liberdade para criar, para inventar, para inovar, para se desenvolver epara promover, com alguma autonomia, o desenvolvimento das localidadesonde vivem e trabalham. E não há qualquer processo “natural”, de“evolução”, sempre ‘para frente e para o alto’, como imaginam algunscrédulos. Em 1975, 30 nações tinham governos eleitos pela população. Em2005, esse número tinha subido para 119 (45). Mas nos últimos anos ocrescimento da democracia e da liberdade política está sofrendo fortedesaceleração e isso não tem a ver somente com o requisito democrático daeletividade, mas, sobretudo, com o da rotatividade (ou alternância), paranão falar dos outros princípios (como a liberdade, a publicidade, alegalidade e a institucionalidade e, como conseqüência de todos esses, alegitimidade).O mais recente levantamento sobre o estado da democracia no mundo –The Economist Intelligence Unit’s Index of Democracy 2010 – abarcando167 países (Estados-nações), revelou que existem atualmente apenas 26países com democracia plena (em termos formais), agregando 12,3% dapopulação mundial. E revelou também que esse número não estáaumentando; pelo contrário, a situação foi descrita como “democracy inretreat” e “democracy in decline” (46).Bem mais da metade dessas pessoas vivem em cidades que poderiam “darcerto”, não fosse pelo fato de estarem subordinadas a Estados-nações quesufocam seu desenvolvimento. Sim, 87% dos Estados-nações do globo nãopodem ser considerados desenvolvidos dos pontos de vista humano, sociale científico-tecnológico. No entanto, nesses 168 países “atrasados” (porassim dizer) e com poucas chances de se inserir adequadamente nacontemporaneidade, existem milhares de cidades promissoras, quecaminhariam celeremente para alcançar ótimas posições nos rankings dainovação e da sustentabilidade, bastando para tanto, apenas, que 60
  • 61. lograssem se libertar do jugo dos países – das estruturas centralizadorasdos governos centrais e dos outros aparatos de controle e dominação dosEstados-nações – que as estrangulam.O fato é que o Estado-nação não é boa instância – e não é uma boa fórmulapolítica – do ponto de vista do desenvolvimento.As cidades, pelo contrário, sempre o foram, pelo menos até agora. E não hánenhuma razão pela qual as cidades devam continuar mantendo umaatitude genuflexória em relação ao Estado-nação, a não ser a concentraçãode poder nas instâncias nacionais, inclusive o poder de retaliação dosgovernos e legislativos centrais. Os prefeitos, como se diz, andam de “piresna mão” e ajoelham-se perante os executivos nacionais, em parte porquedependem de recursos que foram centralizados pelas instâncias nacionais e,em parte, porque têm medo de serem discriminados e perseguidos – o que,convenha-se, é um motivo odioso e antidemocrático. Mas isso aconteceporquanto suas cidades não estão preparadas para enfrentar os desafios decaminhar com as próprias pernas. 61
  • 62. O reflorescimento das cidadesCidades transnacionais, cidades-pólo tecnológicas, redes de cidades ecidades-redesNão é por acaso que as cidades sempre estiveram na ponta da inovação,seja no aspecto social e político, como a Atenas no século de Péricles (ou,mais amplamente, no período considerado democrático: 509-322 antes daEra Comum), seja no aspecto econômico e científico-tecnológico, comoBruges (no final do século 12), pólo da nascente ordem comercial moderna,logo seguida por Veneza, que foi, talvez, o primeiro centro globalizado daEuropa (do final do século 14 até o ano de 1500), ou Antuérpia (na primeirametade do século 16) e depois Gênova (na segunda metade), que setornaram centros financeiros, seguidas por Amsterdã (na passagem doséculo 17 para o 18), ou por Londres, que se transformou na primeirademocracia de mercado e onde o valor agregado industrial, impulsionadopelo vapor, ultrapassou, pela primeira vez na história, o da agricultura, oupor Boston (no início do século 20), com a fabricação de máquinas,passando a Nova Iorque que predominou durante quase todo o séculopassado, com o uso generalizado da eletricidade e chegando, afinal, àCalifórnia atual, com Los Angeles e às cidades do Vale do Silício.Hoje o dinamismo das cidades inovadoras já se vê por toda parte.Freqüentemente não são mais os países (Estados-nações) que constituemreferências para o desenvolvimento e sim as cidades, sejam cidadestransnacionais (Barcelona, Milão, Lion, Roterdã), sejam cidades-pólotecnológicas (Omaha, Tulsa, Dublin e, talvez, Bangalore e Hyderabad, nochamado terceiro mundo), sejam, por último, as coligações de numerosascidades em extensas regiões do planeta, que começam a adotar uma lógicaprópria e diferente daquela do Estado-nação.Na verdade, cidades que se afirmaram como unidades econômicas – nãonecessariamente políticas – relativamente autônomas, já vêm surgindo aolongo dos últimos séculos (como Veneza e outros centros mais ao norte daEuropa: e. g., Riga, Tallin e Danzig). São prefigurações do que KenichiOhmae (2005) chamou de ‘Estado-região’, que constitui hoje o palcoprivilegiado da economia global e que está levando a “um inevitávelenfraquecimento do Estado-nação em favor das regiões” (47).Algumas dessas regiões, que tendem a substituir o Estado-nação, sãocoligações de cidades (como a área metropolitana de Shutoken, formada 62
  • 63. por Tóquio, Kanagawa, Chiba e Saitama, com um PNB de 1,5 trilhão dedólares; ou a área de Osaka, com 770 bilhões, em dados de 2005). Pareceóbvio que essas regiões, que representam unidades econômicas maispujantes do que a imensa maioria das nações do mundo, figurando então(2005) em terceiro e o sétimo lugares, respectivamente, no rankingmundial, mais cedo ou mais tarde, entrarão em choque com o centralizadosistema político do velho Estado-nação japonês, que não lhes permite umadose de autonomia correspondente ao seu peso econômico.Ainda que algumas dessas regiões emergentes coincidam com pequenospaíses (como Irlanda, Finlândia, Dinamarca, Suécia, Noruega e Cingapura),em geral elas se formarão a partir do protagonismo de cidades edesenharão uma nova configuração geopolítica do mundo. Ou seja, ao quetudo indica, a estrutura e a dinâmica do Estado-nação não serãopreservadas, a não ser em alguns casos.Mas quer falemos de Bangalore e Hyderabad, quer falemos de Dalian ou dailha de Hainan na China, ou, quem sabe, de Vancouver e da BritishColumbia, da Grande São Paulo ou de Kyushu no Japão – mesmo em umsentido predominantemente econômico quantitativo, como o empregado porOhmae – ainda estamos falando de cidades (ou de arranjos de cidades).Sim, continuamos falando de cidades. E é por isso que, nos exemploscolhidos na história e nas nossas tentativas de projeção para as próximasdécadas, não aparecem, em maioria, as capitais dos países, as localidades-sedes dos seus governos centrais. Falamos de Milão e não da Itália (ouRoma). Falamos de Bangalore e não da Índia (ou Nova Delhi). Os que falamda Índia (e do Brasil e da Rússia e da China – repetindo a ilusória hipótesedos BRICs, inventada por Jim O’Neill) são aqueles autores, professores,consultores e policymarkers intoxicados de ideologia econômica e sideradospelo crescimento (ou expansão, mudança quantitativa) e não pelodesenvolvimento (mudança qualitativa). Com freqüência são tambémpessoas que não se dão muito bem com a idéia de democracia. 63
  • 64. As cidades na glocalizaçãoEstados são artifícios para proteger as pessoas da experiência do localismocosmopolitaO reflorescimento das cidades – na verdade, das localidades em geral – éuma das conseqüências do processo de glocalização atualmente em curso.O mundo não está apenas se globalizando, mas também se localizando cadavez mais. Isso quer dizer, em outras palavras, que o mundo único estádesparecendo para dar surgimento a muitos mundos.E está havendo uma mudança social que favorece o florescimento daslocalidades em geral – e das cidades em particular – como protagonistas dodesenvolvimento. Essa mudança, que está ocorrendo simultaneamente nadimensão global e na dimensão local, está tornando inadequada,insuficiente e impotente, a forma Estado-nação. O tão citado juízo dosociólogo americano Daniel Bell parece ser definitivo: o velho Estado-naçãotornou-se não só pequeno demais para resolver os grandes problemas,como também grande demais para resolver os pequenos.Em outras palavras, as inovações (sociais, políticas, culturais etecnológicas) introduzidas com o atual processo de glocalização, têmsurgido simultaneamente na dimensão global (como resultado de mudançassociais macroculturais) e na dimensão local (como resultado de mudançassociais na estrutura e na dinâmica de comunidades). Entretanto, o Estado-nação tornou-se uma instância intermediária resistente a tais mudanças. Ouseja, a mudança que tem ocorrido nas duas pontas – no global e no local –ainda não atingiu plenamente o meio, a forma Estado-nação, que, sentindo-se ameaçada, está resistindo ferozmente para não ser desabilitada comofulcro do sistema de governança. A primeira década do terceiro milêniopode ser caracterizada como uma década de crise do Estado-nação e deconseqüente recrudescimento do estatismo.Os Estados-nações criarão, por certo, muitos obstáculos à emergência dascidades como sujeitos autônomos do seu próprio desenvolvimento. Mas nãoconseguirão resistir por muito tempo à convergência de múltiplos fatoresque estão preparando o seu declínio. Como previu Castells (1999), “asestratégias do Estado-nação para aumentar a sua operacionalidade (atravésda cooperação internacional) e para recuperar sua legitimidade (através dadescentralização local e regional) aprofundam sua crise, ao fazê-lo perder 64
  • 65. poder, atribuições e autonomia em benefício dos níveis supranacional esubnacional” (48).Nenhum Estado hoje consegue mais se livrar dos conflitos com seus níveissubnacionais, diante das exigências crescentes de mais autonomia local.Mas a despeito de todos os conflitos políticos e fiscais entre diferentes níveisde governo dentro de um mesmo Estado, que só tendem a se aprofundar egeneralizar nos próximos anos, nunca é demais repetir que se fala aqui dascidades como redes de múltiplas comunidades interdependentes e não daréplica Estatal montada nas cidades, da instância municipal do Estado ou dogoverno local.Os que preconizam o declínio do Estado-nação diante dos novos arranjoslocais ou regionais que emergem no mundo globalizado, fazem-no quasesempre de um ponto de vista estrita ou predominantemente econômico. É ocaso, por exemplo, de Ohmae (entre outros). Mas é preciso ver que ofenômeno da glocalização é mais abrangente e não pode ser plenamentecaptado pelo olhar econômico. Estamos diante de mudança sociais maisprofundas, que dizem respeito aos padrões de vida e de convivência social enão apenas diante de alterações na estrutura e na dinâmica do capital e docapitalismo. O que está mudando não é somente o modo de produzir econsumir e sim o modo de ser coletivamente. ‘Uma sociedade-rede estáemergindo’ – muitos repetem o dito, mas parecem não extrair dele todas asconseqüências e essa surpreendente afirmação vai se tornando banal.O problema com a visão econômica é que ela é reducionista. Imagina que aconfiguração do mundo depende do modo de produção e, assim, se esforçapara antecipar a nova forma do capitalismo que virá (ou sobrevirá), mas seesquece de perguntar sobre a nova forma de sociedade que emergirá. Issotalvez seja uma evidência da resiliência da crença economicista de queexiste alguma coisa como uma “estrutura” econômica que determina, emalguma medida ou instância, uma suposta “superestrutura” da sociedade.Mas mercados não vêm de Marte. Constituem um tipo de agenciamentooperado por seres humanos, terráqueos mesmo, cujo comportamentodepende das interações que efetivam com outros seres humanos; ou seja,tudo isso depende do “corpo” e do “metabolismo” da sociedade (i. e., desociosferas), vale dizer, da rede social.Não é nas novas formas econômicas que vamos encontrar o “mapa” dasnovas cidades. Esse “mapa” não poderá ser outra coisa senão as novasconfigurações das redes que configuram a cidade-rede. Tivemos até agoravários tipos de “mapas”, dos quais podemos citar alguns exemplos: as 65
  • 66. cidades-assentamento “horizontais” que se formaram após o final doperíodo neolítico na Europa Antiga e no Oriente Médio (como Jericó, apartir, talvez, do 6º milênio a. E. C.); as cidades-Estado da antiguidade (ascidades monárquicas, muradas e fortificadas, que surgiram na Mesopotâmiaa partir do 4º milênio, como Uruk, Ur, Lagash etc., e que se replicaram noperíodo considerado civilizado); as cidades – burgos – organizadas em tornodo comércio nos períodos feudais; uma grande variedade de cidadescorrespondentes aos Estados principescos e reais; até chegar às cidadescomo instâncias subnacionais (ou domínios do Estado-nação). E tivemostambém algumas exceções, como Atenas – a polis do período democrático –e outras poleis na Ática. São exceções porque a polis grega democráticanão era propriamente uma cidade-Estado semelhante às suascontemporâneas e sim uma comunidade (koinonia) política. Por último, aoque parece, teremos agora, no ocaso do Estado-nação, novos tipos decidades: as cidades-redes (e as redes de cidades configurando novasregiões).Ao que parece, não é muito útil tentar pegar no passado um modelo comoprefiguração para explicar o fenômeno atual da emergência da cidade-rede.Assim como a globalização da época das navegações não diz muita coisasobre a globalização atual, também não teremos um novo venezianismo(por exemplo, não tivemos um novo brugesismo – de Bruges – a não ser opróprio venezianismo, o original, dos séculos 14 e 15). Não teremos novas“ligas hanseáticas”, nem um neo-antuerpismo ou um neogenovismo; assimcomo nenhum país ou região poderá cumprir no mundo atual o papel quefoi desempenhado, em suas épocas, por Amsterdã, Londres, Boston, NovaIorque ou Los Angeles e adjacências.Por quê? As explicações são várias: porque a ordem comercialcontemporânea não tem mais mono-pólos (como foram Bruges e Veneza),de vez que a globalização hoje é policêntrica; porque o capital financeirotransnacional não exige mais centros fixos (como a Antuérpia ou a Gênovado século 16); porque as chamadas democracias de mercado não precisamestar mais ancoradas em impérios militares (como a Inglaterra dos séculos18 e 19); porque as “máquinas que fabricam máquinas” da nova indústriado conhecimento não requerem mais uma infra-estrutura tão pesada que sópossa ser reunida em uma localidade com alta capacidade hard instalada(como Boston, nos Estados Unidos no início do século 20); porque o acessoà eletricidade é praticamente universal (e a conexão banda larga segue omesmo caminho) e a energia e a inteligência não precisam estar maisespacialmente tão concentradas (como estiveram em Nova Iorque ou emLos Angeles e nas cidades do Vale do Silício durante o século 20). 66
  • 67. Não é o mercado que determina. Não é o Estado que decide. São osfenômenos que ocorrem na intimidade da sociedade e que têm a ver com ograu de conectividade e de distribuição da rede social que acarretam aestrutura e a dinâmica dos novos agrupamentos humanos que seestabelecem sobre o território e, inclusive, daqueles que não estãoestabelecidos sobre um território (como os agrupamentos virtuais). É claroque o mercado pode induzir e o Estado pode restringir (em geral colocandoobstruções) as fluições que configuram a forma e o funcionamento dassociedades. Mas nenhum desses tipos de agenciamento pode determinar oque acontece.O problema do Estado – dos pontos de vista da democracia e dodesenvolvimento (ou da sustentabilidade) – não é que ele se assentaterritorialmente e sim que ele se constitui como um mainframe deprogramas verticalizadores. A Matrix como mainframe, do filme dos irmãosWachowski, não precisava se assentar em um território determinado paraexecutar o seu papel verticalizador. Aliás, no filme, o centro de vidaalternativa e de resistência ao poder vertical – Zion – era territorialmente (emais do que isso, subterraneamente) situada, enquanto que a Matrix eravirtual, ou melhor, virtualizante...O territorial não leva necessariamente à verticalização (ou centralização),nem o virtual nos salva da dominação do poder vertical. Porque asdisposições que configuram o que se manifestará no mundo físico ou nomundo virtual estão no espaço-tempo dos fluxos e não no espaço-tempofísico ou no chamado mundo digital (49). Mas o agarramento ao território,esse agrilhoamento tamásico contra-fluzz – posto que estabelecido paratentar impedir a vida nômade das coisas – tem sido fonte, em grande parte,do poder de separar os seres humanos: uma tentativa de matar no embriãoo simbionte social.Os Estados foram erigidos para nos proteger da experiência do localismocosmopolita, uma experiência glocal. Sob seu domínio, uma pessoa nãopode ser cidadã do seu próprio mundo e não pode interagir livremente comoutros mundos. Não, ela deve ser aprisionada no mundo único que foiterritorialmente repartido por organizações erigidas em função da guerra eseparadas por fronteiras, fechadas e burras. Em geral não pode atravessaressas fronteiras sem a permissão do poder estatal. Em uma parte doscasos, o poder estatal não concede tal licença a seus súditos, trancafiando-os no próprio território-penitenciária, como se tivessem sido condenadospor algum crime gravíssimo. Em outra parte dos casos, não deixa entrar (oucria toda sorte de empecilhos para a entrada) em seus territórios de certascategorias de estrangeiros. 67
  • 68. Comunitarização As novas Atenas serão milhões de comunidadesEcoando o Operating Manual for Spaceship Earth de Buckminster Fuller(1968), McLuhan (1974) afirmou que “a espaçonave Terra não tempassageiros, só tripulação” (50). Como poderíamos considerar alguém“estrangeiro” se pertencemos todos à mesma família (em termos genéticos,praticamente toda a população da Terra é prima em um grau inferior ao50º), habitando um planeta tão minúsculo, no qual somos todos tripulantes(quer dizer, todos nós somos o pessoal necessário para o bomfuncionamento da nave)?Na modernidade, em um padrão descentralizado, 193 Estados-naçõesimpõem modelos autocráticos de governança baseados no equilíbriocompetitivo. A ilusão (e a impostura) de que sete bilhões de pessoaspossam ser administradas por menos de duzentas unidades centralizadas –e, em grande parte (a maior parte) autocratizadas – é aceita como se fossenormal. Como se fosse possível disciplinar toda a diversidade da interaçãoensejada por bilhões de interworlds em duas centenas de organizações, emsua ampla maioria, capengas, autoritárias e corruptas, controladas porgrupos privados que satisfazem seus interesses à custa do público, quandonão por sociopatas, ladrões e fascínoras de todo tipo.Tudo indica que não poderemos mais ser arrebanhados e aprisionados oudominados por 193 organizações hierárquicas, eivadas de enclavesautocráticos resilientes – constituídos como barreiras, para tentar obstruirfluzz –, como são os Estados nações da atualidade. Nem por algumasdezenas ou centenas de milhares de Estados-locais (ou instâncias locais deum Estado central) chamados de cidades (indevidamente, posto que acidade são sempre redes de comunidades). As novas Atenas serão milhõesde comunidades.Comunitarização é a nova palavra de des(ordem), quer dizer, de uma novaordem emergente, bottom up. O reflorescimento das cidades é um sintomado fortalecimento das comunidades que as constituem. São essascomunidades que comporão outras unidades celulares da nova arquiteturade governança do mundo glocalizado. É por isso que as cidades (e ascoligações de cidades em novas regiões econômicas e geopolíticas) – e nãomais, em geral, os Estados-nações – são hoje instâncias intermediárias 68
  • 69. nessa transição para outra etapa do sistema global, no rumo da efetivaçãode uma verdadeira ecumene planetária.Mas – repetindo o mantra – o modelo é fractal e não unitário. Isso significaduas coisas. No plano global, uma ecumene planetária não poderá ser umaréplica global do Estado-nação; nada assim tão monstruoso como umgoverno mundial ou um parlamento mundial, que apenas transferiria, parao seu interior, o modelo perverso de equilíbrio competitivo ainda reinanteno cenário internacional. Tal ecumene, não será uma administração, umsistema executivo de comando-e-controle, nem mesmo uma grandeinstância de representação baseada na alienação da autonomia daslocalidades ou comunidades que a constituem. Ela se formará poremergência, tal como ocorre na regulação da capa biosférica que envolve oplaneta (o simbionte natural). E, no plano local, a identidade da cidade-redetambém se forma por emergência, na sinergia de múltiplas identidades que,ao se identificarem entre si, também se identificam com ela (ou parte dela)por herança ou projeto compartilhado a posteriori, e não por uma decisãoconsciente (e a priori) de algum centro diretor ou coordenador.Cada cidade tem muitas comunidades (ou seja, em princípio, cada cidadepode ter múltiplas identidades). Cada comunidade se desdobra, por suavez, em muitas outras comunidades (aumentando ainda mais a diversidadedas identidades). Isso poderia ser um problema, porque, a rigor, umacomunidade nuclear de convivência cotidiana com grau máximo dedistribuição e conectividade, capaz de ensejar pleno relacionamento entretodos os seus membros (e, conseqüentemente, usinar uma identidadeinequívoca) é uma rede muito pequena, não chegando, talvez, a duascentenas de pessoas. Só não estamos diante de um problema insolúvelporquanto há também muita superposição. Uma pessoa participa ao mesmotempo de várias comunidades desse tipo (familiar, funcional, de prática, deaprendizagem, de projeto etc.) e não está condenada a conviver em umúnico círculo restrito de relacionamentos. Assim, o padrão de interação écomplexo, dando margem à formação de circularidades inerentes que – secompartilhadas por múltiplas redes urbanas – podem configurar a cidade-rede.Ademais, as cidades já existem, para além de eventos sócio-territoriais,geograficamente localizados, como “regiões” do espaço-tempo dos fluxos.Não se trata de fabricar novas cidades, seguindo um projeto, uma planta,uma maquete. Toda vez que se tenta fazer isso, aliás, os resultados sãopéssimos: criam-se arquiteturas verticalizadoras e dinâmicasautocratizantes (como é o caso das chamadas “cidades-planejadas”, seja anova capital do Egito criada por Amenófis IV para o deus Aton ou Brasília), 69
  • 70. para não falar do dispêndio desnecessário de recursos. Verdadeiras cidadessó passarão a existir (em termos sociológicos, por assim dizer), váriasdécadas depois da instalação dessas experiências arquitetônicas e deplanejamento urbano de eternos “aprendizes de feiticeiros”, que retornamde tempos em tempos. Padrões de comportamento social peculiares já sereproduzem nas cidades por efeito de herança cultural, às vezes milenar eisso não pode ser substituído por iniciativas conscientes de um númerolimitado de planejadores urbanos, mesmo quando estão imbuídos dasmelhores intenções.Assim como não se trata de planejar novas cidades (como complexosurbanos instalados ex ante à dinâmica social), também não se trata – narecusa à verticalização do mundo imposta pelo Estado e à chamada“sociedade de controle” – de urdir novas comunidades a partir de um planode um grupo privado. Grupos marginais, muitas vezes com forte potencialtransformador – pois que a inovação, na razão direta do grau deconectividade e distribuição das redes sociais, costuma partir da periferia dosistema e não do centro – surgem mesmo nos momentos de crise dosvelhos padrões de ordem.Mas o que não se pode pretender é constituir comunidades desse tipo comoproposta política para estabelecer um caminho de mudança, forjandoestudadamente uma identidade e buscando ganhar almas por meio doproselitismo ou da aplicação de outros programas proprietários.Comunidades se formam a partir de identidades, é certo. Mas identidadestambém são programas que “rodam” em redes sociais. Ora, programas quepodem favorecer a emergência das cidades como protagonistas dodesenvolvimento são programas de capital social. E capital social é um bempúblico.Em uma sociedade em rede não é privatizando capital social que vamosconseguir contribuir para a emersão de uma nova esfera pública (social) nascidades ou localidades, capaz de substituir a limitada esfera pública atual,contraída pela invasão dos programas proprietários do Estado-nação (que,ao contrário do que se afirma, são privatizantes e quase sempredesestimulam ao invés de induzir o desenvolvimento). 70
  • 71. Cidades inovadoras, não-Estados-naçõesCidades inovadoras – como redes de comunidades – em rota de autonomiacrescente em relação aos governos centrais que tinham-nas por seusdomíniosNas grandes transformações moleculares – aquelas que têm conseqüênciasduradouras – o velho é substituído pelo novo não porque foi destruído, masporque se tornou obsoleto. Os velhos padrões nunca são eliminados de umavez ou para sempre, mas continuam existindo, como remanescências,vestigialmente. Ao que tudo indica, os Estados-nações continuarão existindopor muito tempo, assim como ainda existem hoje algumas comunidades deherança (do tempo medieval) e velhas tribos indígenas primitivas (da erapaleolítica). Ao contrário do que previram os críticos da globalização,apavorados ante a perspectiva de uma uniformização ou homogeneizaçãoque seria imposta ao mundo inteiro, o cenário da glocalização é o de umconjunto de mundos variados, que estarão não apenas em locais diversos,mas também em tempos diferentes. Mas nessa nova configuração osEstados-nações não terão mais o protagonismo, hoje quase único eexclusivo, da governança do desenvolvimento, baseado nos monopólios daregulação e da violência que ainda se esforçam por deter em suas mãos.Sim, os Estados-nações continuarão existindo, mas já terão perdido omonopólio da governança do desenvolvimento, pelo simples fato de que nãoconseguirão mais impedir a emergência da inovação.Na verdade, em uma sociedade em rede é muito difícil construir monopóliosde um novo fator cada vez mais decisivo nos processos de produção e deregulação: o conhecimento. O conhecimento é um bem intangível que, sefor aprisionado (estocado, protegido, separado), decresce e perde valor e,inversamente, se for compartilhado (submetido à polinização ou àfertilização cruzada com outros conhecimentos) cresce, gera novosconhecimentos e aumenta de valor (aliás, é isso, precisamente, o que sechama de inovação). Os Estados e as empresas tradicionais (sempreassociados nessa coligação que formou o capitalismo que conhecemos)continuarão tentando aprisionar o conhecimento ou regulá-lo top dow apartir das leis de patentes, do domínio privado sobre produtos doconhecimento (como o direito autoral), do segredo e da falta detransparência (ou accountability) e dos sistemas de ensino (as burocraciasescolares e as hierarquias sacerdotais que constituem as academias). Masnão poderão mais evitar que novos conhecimentos se formem à margemdas instituições que regulam e à sua revelia. E, o que é mais importante, 71
  • 72. não poderão mais competir com a produção em larga escala deconhecimentos e, inclusive (uma conseqüência), de produtos comerciais –como os chamados peer production e crowdsourcing – e com as outrasformas não-mercantis de inovação, como as que serão acionadas naemergência das novas cidades.Ainda que se constitua como instância autorizada de fabricação,interpretação e aplicação das leis e ainda que continue detendo osmonopólios da regulação macro-econômica, da emissão de moeda e do usoda violência, o velho Estado-nação ficará falando sozinho enquanto ascidades inventam novas instituições e novos procedimentos adequados àgovernança do seu próprio desenvolvimento. E isso ocorrerá não porque oEstado-nação não queira mais barrar tais avanços e sim porque não terá osmeios para fazê-lo.O próprio sistema político baseado na verticalização do Estado-nação já estásentindo a mudança. Já é mais importante, hoje, ser prefeito de São Paulodo que governador da grande maioria dos estados brasileiros. Seria maisimportante ser administrador de Shutoken do que chefe de governo doJapão. E amanhã, em tudo o que disser respeito ao desenvolvimento, osgovernantes mais importantes não serão mais os chefes do governo ou doEstado (nacional) e sim os administradores de cidades inovadoras e deregiões formadas por coligações de cidades. Quem sabe na futura China (ouno que ela vier a se transformar), os participantes do sistema degovernança de Dalian terão mais importância do que têm hoje os seusditadores (em um cenário, é claro, em que não houver mais ditadores).De qualquer modo, as cidades serão independentes na razão direta da suacapacidade de inovação. O processo de independência das cidades é umprocesso de inovação. As cidades que quiserem ser independentes estãocondenadas a inovar permanentemente.Não há uma definição de cidade inovadora a não ser aquela, quasetautológica, de que é uma cidade que inova ao criar ambientes favoráveis àinovação (e não uma cidade em que o governo local quer pegar a bandeirada inovação com objetivos de marketing político). São esses ambientes quecaracterizam a cidade inovadora como uma cidade aberta, conectada paradentro e para fora, ágil na regulamentação (sobretudo, mas não apenas, noque tange aos empreendimentos empresariais e sociais) e educadora. Paratanto, é necessário que as cidades que queiram ser inovadoras construamsistemas locais de governança que favoreçam ao invés de dificultar aregulação emergente, a partir da comunitarização. 72
  • 73. O mercado nos forneceu um modelo relativamente eficaz de regulaçãoemergente, tão sedutor que muitas pessoas deixaram-se intoxicar por umavisão mercadocêntrica do mundo, que poderia ser resumida na pergunta:ora, se deu certo para as unidades econômicas, por que não daria tambémpara as unidades políticas e sociais? Foi assim que os modernosavacalharam o conceito de público. E a rigor também desaproveitaram oque havia de tão revelador na autoregulação mercantil: o própriomecanismo da autoregulação ou o processo da emergência. Por medo dorisco, da incerteza no tocante aos seus investimentos, em vez deconstituirem empresas-fluzz e de articularem seus negócios em rede,erigiram empresas monárquicas, às quais logo associaram ao Estadohobbesiano gerando o capitalismo que conhecemos. 73
  • 74. Negócios em redeAdministrar pessoas como forma de conduzí-las a gerar valor para seapropriar de um sobrevalor, é uma função social própria de uma época debaixa conectividade socialO que chamamos de ‘negócios’ são uma interpretação possível de um tipode interação social. O tipo de interação que denominamos assim permaneceainda relativamente desconhecido do ponto de vista do que se passa noespaço-tempo dos fluxos.Uma coisa que a nós parece ser um negócio, em uma sociedade não-mercantil talvez pareça ser uma simples troca e em uma sociedadefortemente verticalizada de predadores ecossociais (como, por exemplo,entre cavaleiros medievais), pareceria ser uma justa, uma disputa de vidaou morte. As interações entre pessoas que estão na raiz do fenômeno têmuma precedência ontológica (se for possível falar assim) às interpretaçõesde suas manifestações em sociedades determinadas: para o persa vendedorde seda no mercado, comércio era uma coisa diferente do que era para omercador veneziano e do que é para o vendedor da Avon. O status doconceito (a epistemologia) varia com a ontologia; ou seja, negócios em umarede não são anteriores ao tipo particular de interação que, em uma dadacircunstância, interpretamos como negócio.Isso coloca algumas perguntas fundamentais: os negócios, como acreditamalguns, fazem parte (“naturalmente”) da vida em sociedade? Quais tipos deintercâmbios de energia (incluindo matéria) e informação característicos do“metabolismo” de um corpo comunitário podem se chamar de negócios? Ou,imaginando uma comunidade como um ecossistema, o que seria umnegócio?Vamos tomar como exemplo de um tipo de interação que, segundo aopinião geral, ocorre em uma rede: a aprendizagem. Mas aprendizagemtambém é um tipo de interação, que, dependendo das circunstâncias, podeser interpretado como negócio (e vice-versa). E aprendizagem tambémpode ser interpretada como desenvolvimento (a organização que aprende éaquela que se desenvolve). E desenvolvimento pode ser interpretado, emum sentido ampliado, como vida (do ponto de vista da sustentabilidade). Evida pode ser interpretada como conhecimento (como nos mostraramMaturana e Varela na chamada de teoria do conhecimento de Santiago). 74
  • 75. Estamos aqui como aqueles caras que olham a mesma montanha dediferentes perspectivas e juram, um, que a montanha é assim, com umaponta para o lado esquerdo, outro, que a montanha é assado, com umainclinação para a direta, outro, ainda, que ela tem a forma de cone... Mascomo ela é realmente?Enquanto não desvendarmos o que se passa no espaço-tempo dos fluxos,enquanto não decifrarmos os padrões que transitam como mensagens, oumelhor, que se configuram como emaranhamentos na rede social, nãopoderemos saber o que é (e de que forma é) – ou o que não é – próprio da“fisiologia” da rede.Sabemos mais ou menos como devem funcionar os negócios em umaestrutura hierárquica (ou mais centralizada do que distribuída). Nãosabemos, entretanto, como devem funcionar em uma rede (mais distribuídado que centralizada). E não sabemos porque as estruturas de negócios atéhoje (ou, pelo menos, desde que se chamaram ‘negócios’) foram estruturasmais centralizadas do que distribuídas.Se tomarmos ‘redes’ por estruturas mais distribuídas do que centralizadas,negócios em uma rede podem ser julgados como positivos ou negativos doponto de vista do que contribui para manter a rede como tal (quer dizer,com graus de distribuição maiores do que de centralização). Ou, dizendo deoutro modo, isso depende do que incrementa ou dilapida capital social. Ou,ainda, depende do que aumenta ou diminui a cooperação.Por exemplo, qualquer repartição de excedente, em uma rede distribuída,que reserve uma parcela maior ao administrador, não pelo fato de ele ter seesforçado mais ou inovado mais e sim pelo fato de ele ter um acessodiferencial a fatores que poderiam ser compartilhados, mas não foram(conhecimento mantido em sigilo, às vezes sob pretextos de "segurança dainformação", apoio político privilegiado e outros) gera centralização, diminuio capital social, diminui a cooperação.Os negócios que são feitos no mundo ainda são, em grande parte, negóciosde intermediação. Mas nos mundos hiperconectados que estão emergindo, afigura do intermediário tente a desaparecer. Há uma espécie deesgotamento histórico de um papel social que foi adequado a uma épocaque está se desfazendo.Unidades econômicas hierárquicas precisam, por certo, de intermediários; equanto mais centralizadas forem, mais precisam. Ou, dizendo de outromodo, pelo inverso, a intermediação é uma centralização: o fluxo não 75
  • 76. escorre livremente sem passar por aquela "estação"... Porém unidades maisdistribuídas do que centralizadas podem dispensar tais intermediários namedida do seu grau de distribuição (que, como se sabe, acompanha o seugrau de conectividade).Em rede, ao que tudo indica, os negócios não poderão ser baseados namanipulação alheia (arregimentação, constrangimento e condução depessoas) para embolsar trabalho não-pago. Administradores do excedenteque submetem pessoas à esquemas de comando-e-controle (e acabamadministrando pessoas ao invés de coisas), tendem a fenecer. Se alguém sepropõe a administrar pessoas como forma de conduzí-las a gerar valor parase apropriar de um sobrevalor, então está cumprindo uma função socialprópria de uma época de baixa conectividade social. 76
  • 77. Apaches, não aztecasA empresa hierárquica foi criada para proteger as pessoas da experiência deempreenderMas então, como serão as relações de negócios entre as pessoas em umasociedade em rede? Será que, como prevêem alguns, tudo vai ser resolvidopela livre negociação? Parece que sim. Mas o problema é a partir de quelugar se negocia (ou do poder de negociação, que é diretamenteproporcional às relações que alguém construiu ao longo da vida e, muitasvezes, como conseqüência, ao conhecimento e a outros capitais econômicose extra-econômicos que reuniu ou acumulou e aprisionou). Assim como nãoexiste o tal mercado perfeito da máquina econômica inventada peloseconomistas (um delírio aceito por todos, conquanto isso seja espantoso),também não existe a negociação simétrica.Isso ainda é assim nos empreendimentos empresariais, não há dúvida. Senão fosse, alguém não precisaria abandonar seu sonho para trabalhar emprol do sonho alheio (para usar uma linguagem cara aos arautos doempreendedorismo). A empresa hierárquica foi criada para proteger aspessoas da experiência de empreender. Você não precisa empreender. É sódeixar que eu empreendo por você. Desde, é claro, que você abandone seusonho e adote o meu (como na conhecida anedota, desde que você estejadisposto a trocar uma idéia comigo: você chega com a sua e sai com aminha, hehe). Desde, é claro, que você trabalhe para mim.Mas isso talvez só seja assim em um mundo de baixa conectividade edistribuição. Nos Highly Connecteds Worlds que estão emergindo em umasociedade do conhecimento, isso tende a deixar de ser assim. Ou seja, anegociação tende a ser cada vez mais equilibrada (e a eqüidade tende aaumentar). Porque o conhecimento – desaprisionado, inclusive, das escolase academias – tende a estar igualmente disponível para todos os players.Porque o capital (stricto sensu, econômico mesmo: a renda e a riqueza)tende a não ter tanta importância diferencial para alguém iniciar umempreendimento. E porque as relações que garantiam a um empreendedorcondições especiais para fazer um negócio, alugando força de trabalhoalheia e capturando cérebros de terceiros – em geral, relações de naturezapolítica, é inegável – também não conferirão apenas a alguns (poucos) taldiferencial. 77
  • 78. Em outras palavras e para exemplificar: o empreendedor capitalistanascente não teria conseguido prosperar sem o Estado. Ele tinha relaçõespolíticas privilegiadas. Isso valeu para os donos das primeiras grandesmanufaturas inglesas, para Ig Farben, na Alemanha hitlerista, passando porGerdau, no Brasil do regime militar e chegando aos atuais capitalistaschineses. Ocorre que nos mundos que se avizinham (os mundos altamenteconectados da sociedade do conhecimento), o novo empresário nãoprecisará mais de uma infra-estrutura hard instalada para produzir e nem,muito menos, de apoio político privilegiado para manter em suas mãos umaestrutura de negócios funcionando. Serão mundos - ao que tudo indica -muito mais abertos aos empreendedores (inovadores).No velho mundo único proliferam grandes empresas, tão agigantadas queforam obrigadas a embutir em sua estrutura várias funções que caberiam aEstados, escolas e, inclusive, a igrejas: algumas delas mantêm polícias eagências próprias de segurança e até de espionagem, universidadescorporativas e, a pretexto de levantar uma causa para captar a adesãovoluntária de seus stakeholders, elaboram e difundem, interna eexternamente, visões de mundo que extravasam o campo dos seusnegócios.Essas megacorporações dividem com os Estados-nações o controle sobre osgrandes fluxos financeiros internacionais. Algumas empresas transnacionaisjá começam a dividir com os países várias outras funções antes privativasdos Estados: agências de inteligência, forças armadas para intervir emconflitos (e talvez provocá-los) em qualquer parte do mundo e pararecuperar países devastados pelas guerras (que, em alguns casos, elasmesmas ajudaram a promover) etc. Amanhã, quem sabe, elas ainda vãocuidar de fronteiras, administrar prisões internacionais e campos derefugiados, emitir identidades inequívocas e não-falsificáveis (códigosdigitais baseados no genoma), fornecer históricos aceitos por planos desaúde multinacionais, patrulhar e vigiar caminhos e rotas comerciais eturísticas e até cunhar moedas virtuais amplamente aceitas.A rigor, as grandes empresas não têm mais um (único) negócio. Tanto faz onegócio, pois vivem praticamente de propaganda. São, no fundo, empresasde propaganda. Quem pode comprar dez ou vinte minutos por dia em todosos canais de TV aberta e a cabo, pode também vender qualquer produto: dedentifrícios a telefones celulares. Quem pode se localizar adequadamentevende em qualquer lugar do mundo. E quem pode fazer essas coisasacumulou tamanho poder (inclusive comprando altos funcionáriosgovernamentais, parlamentares, juízes, promotores, policiais, fiscais emeios de comunicação em tantos países) que pode fazer quase qualquer 78
  • 79. coisa. A mega-estrutura montada e a difusão massiva da marca garantem,depois de algum tempo, que os produtos de uma grande empresa sejamquase sempre aceitos pelos consumidores, de um modo que nãocorresponde diretamente à qualidade desses produtos (ou à sua reputação,como se acredita). Apesar dessa conversa contemporânea de brandingcomo pacto feito entre a empresa e os sujeitos que estão no seu“ecossistema”, em empresas hierárquicas competindo com outras empresashierárquicas em um mundo hierárquico, todo branding acaba, mais cedo oumais tarde, sucumbindo à realpolitik do marketing.Mas a medida que o mundo se torna menor em termos sociais (ou seja,mais conectado) a tendência, ao contrário do que supõem os adeptos dosmovimentos antiglobalização, é a pulverização e a diversificação dasempresas, não a sua concentração em algumas poucas unidades dominandoo mundo inteiro. Saltaremos, talvez, das dezenas para centenas de milhõesde unidades empreendedoras quando a população mundial chegar perto de10 bilhões de pessoas (por volta de 2050). E isso não tem a ver apenascom crescimento absoluto, pois a razão empresa-habitante tende aaumentar bastante.Ao que tudo indica nos Highly Connected Worlds não vingarão maisempresas tão grandes, pouco ágeis para os tempos-fluzz. O capitalismo-que-vem (com esse ou outro nome) tende a ser um capitalismo de muitoscapitalistas e não apenas de poucos. Se considerarmos que o capitalismo foio resultado de uma associação entre empresa monárquica e Estadohobbesiano, talvez não seja nem muito correto chamá-lo de capitalismo.Será alguma coisa assim como um "capitalismo" do capital social.Pois bem. Aconteça o que acontecer, em uma rede negócios entre seusnodos não podem ser feitos segundo padrões do mundo hierárquico.Individualmente cada um pode continuar fazendo o que quiser em suasempresas. Pode continuar alugando gente, aprisionando corpos, capturandoe colonizando cérebros, subremunerando “colaboradores” e administrandopessoas com base em suas vantagens competitivas-comparativas. Em rede,porém, as pessoas serão compelidas, cada vez mais, a simular, elaspróprias, com seu comportamento, a mudança-para-rede que estáacontecendo “lá fora”. Não propriamente para dar um exemplo ético e simpor coerência adaptativa: os Highly Connecteds Worlds constituem umflorescimento da sociedade em rede que sempre fomos no princípio (esomos, nisi quatenus não “rodamos” programas verticalizadores). Eles são– para usar a bela expressão de William Irwin Thompson (2001), emTransforming History – aquela “unnamed origin that is now upon us...” (51) 79
  • 80. A questão aqui, portanto, não parece ser ética, nem estritamenteeconômica, mas social mesmo (a economia, como dissemos, não vem deMarte, mas é um dos pontos de vista explicativos para fenômenos queocorrem na sociedade, quer dizer, na rede social). O homo economicus éuma abstração reducionista. O que existe mesmo é a pessoa, que só podese constituir como tal na relação e, inclusive, na troca e na dádiva.Sim, as interações econômicas não são apenas de troca. Há uma economia,ou melhor, uma ecologia da dádiva. Quanto você troca uma coisa por outranão ganha nada: substitui uma coisa por outra. A máxima cínica “tudo quenão é dado está perdido” significa “é dando que se recebe”, sim, mas nãoporque você dá instrumentalmente esperando receber algo em troca (comono chamado altruísmo recíproco interpretado por economistas) e simporque, na ecologia do seu ecossistema comunitário, dar é a maneira de,para usar uma linguagem poética, deixar passar o fluxo da vida. O fluxovoltará para você na forma de maior capacidade de se transformar emcongruência com as mudanças do meio. Ou seja, a dádiva é fluzz, faz parteda capacidade biológico-cultural – extremamente relevante em nossahistória evolutiva – de conservar a adaptação.Não há nenhum problema, ético ou econômico, em ganhar dinheiro emtroca de atividade desenvolvida ou esforço realizado. Não há problema, nemmesmo, ao contrário do que supõem os igualitaristas, em ganhar muitodinheiro assim. Também não há problema em gerar excedente, sobrevalorou o que valha. Ter resultado positivo em qualquer atividade econômica éuma condição de sobrevivência e uma obrigação social (haja vista que oprejuízo terá que ser arcado por alguém e afeta a todos os stakeholders). Oproblema só aparece quando queremos administrar o excedente de umamaneira que impeça a possibilidade de outros também administrá-lo. Oproblema só aparece quando você quer ser azteca em vez de apache.Aquilo que derrotou os Apaches não foram as vacas que eles ganharam esim a atribuição aos Nantans – os netweavers da rede social apache – deadministrar centralizadamente o excedente, redistribuindo as vacas pelosmembros das comunidades a partir de sua posição diferenciada (52). Sevocê administra o excedente dessa maneira, então introduz perturbaçõesnos fluxos gerando anisotropias na rede toda (e mudando a topologia dasociedade). Ora, em uma rede que quer continuar sendo rede (maisdistribuída do que centralizada), isso, por certo, é um problema! 80
  • 81. Não-empresas-hierárquicasRedes de stakeholders – demarcadas do meio por membranas (permeáveisao fluxo) e não por paredes opacas – são as novas comunidades denegócios dos mundos que já se anunciamA empresa tradicional se baseava na capacidade de aprisionar oconhecimento, deter o segredo, guardar a fórmula a sete chaves. Só quenós – os hackers e os netweavers - estamos encontrando "O Chaveiro"(aquele programa do filme dos irmãos Wachowski (2003), The MatrixReloaded, interpretado por Randall Duk Kim). E nenhuma empresaconseguirá, sozinha, se manter na ponta da inovação (sem o que verá suaschances de futuro se reduzirem ou não será sustentável) sem lançar suas"hifas" para importar capital humano (conhecimento) e social (relações) doambiente onde existe. Duzentos cérebros aprisionados trabalhando para umdono não podem competir com vinte mil cooperando livremente paraencontrar uma solução (de gestão, processo ou produto).Observe-se que estamos falando disso que chamam de Economics, massem manter uma posição genuflexória em relação aos princípios ideológicosproclamados por esses novos sacerdotes da modernidade conhecidos como‘economistas’. Um desses princípios, muito conveniente para osprivatizadores de conhecimento (como Bill Gates) é aquele que reza que oprincipal incentivo para a inovação é o interesse material egotista (todaeconomia ortodoxa, como se sabe, se baseia na idéia de que ocomportamento da sociedade pode ser explicado a partir do comportamentodos indivíduos, que os indivíduos se comportam fazendo escolhas racionaisa fim de maximizar a obtenção dos seus interesses e que esses interessessão sempre, ao fim e ao cabo, egotistas. Isso é alguma coisa parecida comreligião, et pour cause).Bem, mas então o Sr. Gates diz isso. E a realidade mostra que o mundo nãofunciona (mais) assim (se é que alguma vez funcionou). Os grandesinovadores da humanidade – em sua maioria – nunca agiram assim.Descobriram coisas porque deram curso àquela surpreendente capacidadehumana de se maravilhar com o desconhecido e de caminhar na escuridãoem direção à luz (ainda que isso possa soar, para alguns, anacronicamenteiluminista, a figura de linguagem parece perfeita). E polinizaram com suasdescobertas outras descobertas. Toda inovação surge, dessarte, porpolinização mútua, por fertilização cruzada. Ora, isso não acontece nosmarcos do jogo comercial de interesses e nem poderá acontecer, no volume 81
  • 82. exigido pelo ritmo alucinante das inovações contemporâneas, apenas dentrode uma unidade fechada de aprisionamento de corpos e de cérebros (comoa empresa como unidade administrativo-produtiva isolada). Isso ocorrerá,cada vez mais, dentro de redes de stakeholders que serão as novascomunidades de negócios do mundo que já se anuncia, demarcadas domeio por membranas (permeáveis ao fluxo) e não por paredes opacas.A aplicação e o esforço devem ser remunerados, mas não o conhecimento.Ninguém, a rigor, é dono do conhecimento, que é sempre resultante de umprocesso coletivo. Alguma coisa “rodou” naquela nuvem que chamamos demente (e que não está restrita ao nosso cérebro, é uma cloud computingsocial).Sua avó lhe cobrou pela receita daquela magnífica geléia? Não? Então porque você não pode fazer o mesmo? Ah! Ela então deu a receita para opróprio neto, mas não a daria para o neto de outra avó? Por quê? Porque aestrutura familiar, no caso, privatizou o capital social. Não é preciso grandeesforço para perceber que, do ponto de vista social, isso gerouimprodutividade, diminuiu a intensidade do fluxo econômico. E que, comoconseqüência, muitos perderam enquanto todos poderiam ganhar.Sim, isso é pura sócio-economia. Economia do capital social. Nossaprodutividade aumentaria muito se o capital social – que é uma espécie derecurso sistêmico que enseja a geração dos outros capitais (para continuarcom a metáfora, além dos capitais propriamente ditos, como o físico e ofinanceiro, aquel’outros que são considerados externalidades peloseconomistas: como o capital natural, o capital humano e o social) – nãofosse privatizado. Isso quer dizer que aumentaria a geração de valor... paratodos!Não parece ser verdade, como pensam alguns, que a peer production sejacoisa para um futuro longínquo. Temos hoje milhares de produtos (bensintangíveis e inclusive tangíveis) sendo produzidos assim. Nem é necessárioinsistir nos exemplos sempre citados do Linux ou do Apache (et pour cause,novamente). Basta ver como surgiu quase toda a produção científica:retrocederíamos à idade da pedra sem a peer production.Por certo, muitos mundos ainda não são assim. Mas as tendências apontamnessa direção. Na medida em que a privatização do conhecimento vai setornando, cada vez mais, impraticável, vão perdendo sentido os esquemasque visam o seu aprisionamento. E assim como está ficando cada vez maisdifícil aprisionar o conhecimento, ainda há outra evidência que corroboraessa hipótese: o conhecimento aprisionado estraga. É um bem que cresce 82
  • 83. quando compartilhado e decresce e perde valor quando não se modificacontinuamente pela polinização. 83
  • 84. O fim do trabalhoBoa parte do que chamamos de trabalho se exercerá como divertimento,jogos, creative gamesA pessoa é o empreendedor, não a empresa. A empresa é um meio paraque você possa empreender, não uma feitoria (você é um escravo?), umfeudo (você é um servo?), uma penitenciária onde você tenha que pagaruma pena oito horas por dia (você foi condenado por algum crime?), quasetodos os dias da semana (sempre aborrecido e ansioso, como os escolares,não vendo a hora em que vai tocar a sineta); muito menos um ídolo a quevocê deva adorar.A empresa-hierárquica substituiu a liberdade da invenção pela prisão dotrabalho (rotineiro). Conquanto tenha sido tão cantado e glorificado,trabalho é um conceito regressivo, que evoca um ethos desumanoancestral.Sim, da perspectiva de uma sociedade em rede, trabalho será um conceitocada vez mais problemático. Não é a toa que tenha surgido, na antigaMesopotâmia, com a conotação de sofrimento. Aliás, na mitogonia suméria,segundo a “Epopéia da Criação” (53) – que contém alguns dos relatos maisantigos que conhecemos de uma cultura sacerdotal, hierárquica eautocrática – o homem teria sido criado pelos deuses para “trabalhar parasempre e liberar os deuses...” ou suportar o jugo, sofrer a fadiga. Já foicriado como trabalhador – um ser inferior, escravo dos deuses – parapropiciar a liberdade dos deuses, que passaram então a exigir dos homensadoração. Adoração significava, originalmente, segundo os relatos bíblicos,trabalhar para os seres superiores: trabalhar para uma deidade e essadeidade era simultaneamente “senhor”, “soberano”, “rei”, “governante” e“dono” – enfim, superior. O homem antigo dos sistemas hierárquico-autocráticos não propriamente adorava seus deuses, mas temia-os etrabalhava para eles. E, é claro, para seus intermediários humanos: ossacerdotes.Assim como temor não é amor, trabalho não é algo que possa humanizar osseres humanos enquanto sujeitos interagentes em relações horizontais comoutros seres humanos. Quando se trabalha para um superior que aprisionouseu corpo e escravizou ou alugou sua força e sua inteligência, é-sesubordinado, sub-ordenado segundo um padrão de ordem vertical, alocadoem um degrau inferior da escada do poder. 84
  • 85. Também não é por acaso que no organograma das empresas figuram notopo aqueles que têm muitas conexões e abaixo os que têm poucas. O CEOtem acesso a todas as informações, a todos os conhecimentos, a todos osfuncionários e a todos os demais stakeholders, enquanto que o auxiliar doalmoxarifado e a moça do café vivem na pobreza de caminhos (ver Fig. 2).É assim que a estrutura hierárquica organiza internamente a pobreza (etoda pobreza é pobreza de conexões) para administrá-la e mantê-la. Diz-seentão que tais pessoas não são empreendedoras. Ora, é claro que não são:a empresa cassou seu empreendedorismo ao aprisioná-las nesse tipo deestrutura centralizada. A empresa-hierárquica só se constitui porque aquelemesmo programa ancestral, resumido no mito sumério da criação do serhumano como um trabalhador amestrado (o “lulu-amelu”), continuarodando na rede social. Não importa para nada se os nomes das coisas, dosprocessos e das “peças da máquina”, mudaram: você continua adorandoídolos, quer dizer, trabalhando para um deus.A reação desses súditos – os trabalhadores – na modernidade, nos doisséculos passados, não poderia ter sido mais conforme ao modelo. Em vezde se transformarem em empreendedores e montarem suas própriasempresas em outro padrão, eles se organizaram em movimentos,corporações e partidos de trabalhadores repetindo e legitimando o velhopadrão, apenas querendo arrancar dos patrões mais “benefícios” econdições melhores para continuarem sendo... trabalhadores! E adotaram,em seus movimentos – de início insurgentes e, depois, acomodatórios:simples bandos para negociar interesses (pois o sindicalismo é uma formade banditismo social e, às vezes, também criminal) – a mesma estruturahierárquica que os aprisionava. Na vertente insurgente desses movimentos,ditos socialistas, alguns imaginaram que deveriam se organizar, sempre demodo hierárquico, para o combate aos patrões e ao seu Estado a fim de darnascimento a uma nova sociedade sem exploração. Para legitimar tudo issoforjaram estranhas teorias sobre classes sociais e sobre supostos interessesde classe, reservando para si – a “classe operária” – o condão de serportadora do único conjunto de interesses particulares que, quando serealizassem, tornando-se dominantes, se universalizariam (atendendo aosinteresses históricos de todas as outras classes, a despeito destas últimasnão poderem ter, por si mesmas, consciência disso). Para alcançar essasuposta sociedade sem classes, a classe trabalhadora deveria erigir seupróprio Estado, fortalecendo-o a ponto de... extinguí-lo (por incrível quepareça eles pensavam assim mesmo: seria cômico se não tivesse sidotrágico). É claro que tudo isso virou lixo, inclusive porque, com a bancarrotados modelos econômicos e políticos estadocêntricos – nas quais ostrabalhadores continuaram sendo súditos (do seu novo Estado-patrão) –,também faliram as utopias igualitaristas que os inspiraram. 85
  • 86. O problema não foi e nem será resolvido enquanto se mantiver a empresa-mainframe que repete o padrão hierárquico das demais instituiçõesadequadas a um mundo de baixa conectividade social (e que, aliás,mantinham o mundo único como um mundo de baixa conectividade social).Empresas serão redes de empreendedores. Não hierarquias, onde umempreendedor arrebanha e subjuga “colaboradores” para transferir paraeles o serviço pesado, repetitivo, pouco gratificante, mas consideradonecessário ao sucesso do seu empreendimento. Ou para se livrar do“serviço sujo”. Ora, o nome desse “serviço sujo” é... trabalho!Bob Black (1985), no seu provocante manifesto intitulado A abolição dotrabalho, escreveu que “existe tanta liberdade em uma moderada ditaduradesestalinizada como em um ordinário local de trabalho americano. Ahierarquia e a disciplina no escritório ou na fábrica é idêntica àquela queencontramos na prisão ou em um convento”. E o mesmo ocorre, segundoBlack, com as escolas, esses “campos de concentração” onde as criançassão levadas “para adquirirem o hábito da obediência e da pontualidade quetanto jeito fazem a um trabalhador”. Para ele, porém “precisamos dascrianças como professores e não como estudantes. As crianças têm muito acontribuir para a revolução lúdica [que abolirá o trabalho] porque sabembrincar melhor que os adultos” (54).Nos Highly Connected Worlds assistiremos ao fim do trabalho (do trabalhoindiferenciado ou não-qualificado em grande escala que surgiu com aindustrialização). Talvez boa parte do que chamamos de trabalho seexercerá como divertimento, jogos, creative games, por que não? O fim dotrabalho, entretanto, não significará o fim das empresas e nem dosempreendedores; pelo contrário.Isso implica a reprogramação das empresas, que se tornarão meios ondeempreendedores vão se coligar para realizar o que desejam ou sonham,sem se subordinarem uns aos sonhos de outros para executar as tarefasque chamamos de trabalho – posto que isso não é realmente necessário emmundos em que há, cada vez mais, abundância de meios para realizar umempreendimento. No entanto, reprogramar a empresa é, de certo modo,reprogramar a sociedade. 86
  • 87. Reprogramando sociosferasBasta que você se dedique a “fazer” redes para inocular um virus nosprogramas verticalizadoresEscolas (e ensino), igrejas (e religiões), partidos (e corporações), Estados-nações (e seus aparatos), empresas-hierárquicas: basta mexer no códigode uma dessas instituições para alterar a programação da sociedade. Hávárias entradas. Você pode escolher por onde quer começar a hackear omundo único, reprogramando sociosferas.Entretanto, para reprogramar sociosferas glocais – ao sabor de fluzz – nãobasta hackear, é necessário também fazer netweaving.Netweaving – articulação e animação de redes sociais – será cada vez maisnecessário para a experimentação inovadora em todas aquelas áreas quequestionam o velho mundo único, ensejando a emergência de novosmundos altamente conectados: comunidades de aprendizagem em rede,ecclesias para compartilhar formas pós-religiosas de espiritualidade, redesde interação política pública em vizinhanças e setores de atividade,comunidades glocais em cidades inovadoras, empresas-redes – tudo isso ésemente! Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações enão-empresas-hierárquicas são sementes: o que daí nascerá (depois) nãose pode saber (antes). Mas basta que você se dedique a uma dessasatividades para inocular um virus nos programas verticalizadores. Não, nãoé necessário uma grande revolução transformadora da sociedade como umtodo (mesmo porque não existe tal ‘sociedade como um todo’ e, portanto,também não existe essa grande revolução redentora ou salvadora: comodizia Paulo Brabo (2007), “o mundo não pode ser salvo de uma só vez... [sópode ser salvo] redimindo-se um momento de cada vez”) (55).É claro que tudo isso se resume em uma palavra: rede. Redes devem serencaradas, nesse sentido, como movimentos de desconstituição dehierarquias. “Fazer” redes é desconstituir hierarquias.Ao fazer isso, você se tornará um netweaver. Não importa onde atue, desdeque você desista das instituições hierárquicas: seja desistindo das escolas,para atuar como catalisador de processos de aprendizagem emcomunidades livres de buscadores e polinizadores, estruturadas em rede;seja desistindo das igrejas, mas (só se você quiser) não de compartilhar suamística ou sua espiritualidade com outras pessoas; seja desistindo dos 87
  • 88. partidos, mas não desistindo de fazer política (pública), exercitando ademocracia cooperativa na base da sociedade e no cotidiano das pessoasque convivem com você, na sua localidade ou setor de atividade; sejadesistindo das noções regressivas de patriotismo e nacionalismo e virandocidadão transnacional de sua glocalidade; seja desistindo das empresas-hierárquicas, mas não de empreender e de se associar a outrosempreendedores para estruturar novas empresas em rede.No mundo único, entretanto, a desistência passa pela desobediência. Vocênão conseguirá realizar nada disso se não tiver a firme disposição dedesobedecer aos mantenedores do velho mundo, que continuam maisativos do que nunca, talvez pressentindo fluzz – esse vento nuclear quevem varrendo tudo por aí. 88
  • 89. Alterando a estrutura das sociosferas | 7(1) BARROS, Manoel (1986). Livro sobre Nada in Poesia Completa. São Paulo:Leya, 2010.(2) O termo ‘aprendente’, conquanto seja uma tentativa de escapar de categoriasmais problemáticas como docente/discente, educando/educador, mestre/aprendiz,que introduzem relações dicotômicas e não expressam adequadamente relaçõessociais envolvidas em aprendizagem, também não é muito adequado. São semprepessoas aprendendo na interação. Essas observações forem feitas por Nilton Lessa,à quarta versão do texto “Buscadores e Polinizadores”. Cf. FRANCO, Augusto(2010). Buscadores & Polinizadores. Slideshare [2.865 views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/buscadores-polinizadores-4a-verso>(3) Cf. Observações de Nilton Lessa à FRANCO, Augusto (2010). Buscadores &Polinizadores: ed. cit.(4) Cf. FRANCO, Augusto (2001). Uma teoria da cooperação baseada em Maturana.Aminoácidos 4. Brasília: AED, 2002.(5) Cf. e. g., a Biblioteca do Conectivismo da Escola-de-Redes:<http://escoladeredes.ning.com/group/bibliotecadoconectivismo>(6) ILLICH, Ivan (1970). Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1985. (Naverdade o título dessa tradução, para ser fiel ao original, deveria ser“Desescolarizando a sociedade”)(7) Este parágrafo e varios dos seguintes da mesma seção (“Mata a escola = mataro Buda”) foram elaborados originalmente durante uma polêmica conversação,ocorrida entre 27 de abril e 24 de maio de 2010, na Escola-de-Redes, com IgnácioMunõz Cristi e outros interlocutores sobre “redes sociais entendidas como redesfechadas de conversações no espaço social”. Para conhecer a íntegra da discussãoacesse:<http://escoladeredes.ning.com/group/biologiacultural/forum/topics/redes-sociais-entendidas-como>(8) RAYMOND, Eric (2001). How To Become A Hacker. Disponível em:<http://www.catb.org/~esr/faqs/hacker-howto.html>(9) BRABO, Paulo (2007). “Microsalvamentos: como salvar o mundo um instante decada vez” in <http://www.baciadasalmas.com> 89
  • 90. (10) Cf. as conversações do grupo da Escola-de-Redes intitulado “A desistênciacomo ativismo”:<http://escoladeredes.ning.com/group/desista>(11) MATURANA, Humberto (1993). Amar e brincar: fundamentos esquecido dohumano. São Paulo: Palas Athena, 2004.(12) Idem.(13) Idem-idem.(14) Idem-ibidem.(15) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum for culturalevolution. Ma: Lindisfarne books, 2001.(16) Cf. FRANCO, Augusto (2009). Modelos mentais são sociais. Slideshare [1.022views em 23/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/modelos-mentais-so-sociais>(17) ARENDT, Hannah (1959). “A questão da guerra” in O que é política?(Fragmentos das “Obras Póstumas” (1992), compilados por Ursula Ludz). Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 1998.(18) Cf. WEBER, Renée (1986). Diálogos com cientistas e sábios. São Paulo:Cultrix, 1991 [cf. a entrevista com Ilya Prigogine no capítulo intitulado “Oreencantamento da natureza”].(19) BLOCH, Ernst (1968). El ateísmo en el cristianismo: la religión del éxodo y delReino. Madrid: Taurus, 1983.(20) Idem.(21) JACOBS, Jane (1961). Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: MartinsFontes, 2009.(22) BEY, Hakim (1985-1991). BEY, Hakim (Peter Lamborn Wilson) (1984-1990).TAZ – Zona Autônoma Temporária. São Paulo: Coletivo Sabotagem: Contra-Cultura, s/d.(23) BEY, Hakim (1985). CAOS: Terrorismo poético e outros crimes exemplares.São Paulo: Conrad, 2003.(24) GIBSON, William (1984). Neuromancer. São Paulo: Aleph, 2008. 90
  • 91. (25) STERLING, Bruce (1988). Piratas de dados [Péssima tradução do título Islandsin the Net]. São Paulo: Aleph, 1990.(26) Cf. a entrevista concedida em 1984 por Ilya Prigogine à Renée Weber emWEBER: Op.cit.(27) LÉVY, Pierre (2000). O Fogo Liberador. São Paulo: Iluminuras, 2001.(28) NOVALIS (George Friedrich Philipp, Freyherr (Barão) von Hardenberg) (1798).Pólen. Fragmentos, diálogos, monólogos. São Paulo: Iluminuras, 2011.(29) BARROS, Manoel (2010). Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.(30) BOHM, David (1996). Diálogo: comunicação e redes de convivência. SãoPaulo: Palas Athena, 2005.(31) Para uma explicação abrangente dessa imaginária linhagem-fluzz da “tradição”democrática confira FRANCO, Augusto (2007-2010). Democracia: um programaautodidático de aprendizagem. Slideshare [1022 views em 29/01/2011]<http://www.slideshare.net/augustodefranco/democracia-um-programa-autodidatico-de-aprendizagem>(32) Cf. DEWEY, John (1927). O público e seus problemas in (excertos) FRANCO,Augusto & POGREBINSCHI, Thamy (orgs.) (2008). Democracia cooperativa:escritos políticos escolhidos de John Dewey. Porto Alegre: CMDC / EdiPUCRS, 2008.(33) Cf. FRANCO, Augusto (2007-2010). Democracia: um programa autodidático deaprendizagem. Op. cit. Cf. também MATURANA, Humberto (1993). La democraciaes una obra de arte: Ed. cit.(34) Chama-se de formule inversa de Clausewitz-Lenin (com base nas anotaçõesmarginais de leitura do segundo ao tratado Da Guerra, do primeiro) à inversão dopostulado clausewitziano “a guerra é uma continuação da política por outrosmeios”. Como, para Lenin, a luta de classes era uma espécie de guerrapermanentemente presente, então ele avaliou que se poderia afirmar que, inclusiveem tempos de paz, “a política é uma continuação da guerra por outros meios”.(35) Não é necessário argumentar muito para mostrar como tudo isso está nocontra-fluzz. Esse tipo de organização partidária e de regime partidocrático a elaassociado não tem muito a ver com a construção de uma governança democrática esim com a manutenção de uma governabilidade autocrática, quer dizer, com acapacidade de manter as regras de uma luta, de um combate permanente entregrupos privados, assegurando que o vencedor tenha o direito de privatizar a esferapública de modo a prorrogar o seu poder sobre a sociedade (no fundo há sempreuma disputa pelo butim, na base do spoil system). Tal como o Estado-nação,partidos são instituições guerreiras: ainda quando não se dediquem ao conflitoviolento, operam a política como arte da guerra, como uma continuação da guerra 91
  • 92. por outros meios. Nesta exata medida, são organizações antidemocráticas. Sópessoas tontas – e pelo visto destas há muitas – pode acreditar que o resultadodesse embate constante, dessa interação adversarial permanente, conseguiráconstituir um sentido público.(36) É por isso que têm se revelado vãs todas as tentativas de fundar um novopartido para reformar a política, a partir de novas idéias e, supostamente, dainauguração de novas práticas. Em pouquíssimo tempo esse novo partido serácapturado pelo oligopólio dos velhos partidos e se comportará como eles. Quandonão há má intenção (e tudo então não passa de pretexto para construir uma novacaciquia ou para legalizar uma nova quadrilha para assaltar o público), pareceevidente que há falta de inteligência mesmo nos que vivem insistindo em percorreressa via.(37) "Patriotism is the last refuge of a scoundrel" ("o patriotismo é o último refúgiodos canalhas”). Cf. BOSWELL, James & CROKER, John (1791). The life of SamuelJohnson, LL. D. New York: George Dearborn Publisher, 1833. Disponível em GoogleBooks:<http://books.google.com/books?id=TmShu9cK3IUC&pg=PP1#v=onepage&q&f=false>(38) Cf. ALTHUSIUS, Johannes (1603). Política. Liberty Fund (2003). Rio deJaneiro: Topbooks, s/d.(39) DEWEY, John (1927). O público e seus problemas: Ed. cit.(40) Dentre todos, talvez a língua continue sendo a obstrução mais efetiva àinteração entre diferentes povos, mas tudo indica que esse “muro” também estácom seus dias contados. Os avanços, verificados nos últimos anos, nodesenvolvimento de programas de tradução e a construção de sistemassimultâneos de tradução de idiomas, compostos por softwares aplicativos,suportados por hardwares e conectados a dispositivos de reconhecimento de vozem computadores e aparelhos telefônicos, logo anulará essa desculpa da Babelpara o viver separado do diferente. Como observou Humberto Maturana, lembradopor Carlos Boyle em um recente post no site da Escola-de-Redes, Babel nãofracassou em virtude das diferentes línguas que falavam seus construtores e simporque eles não se entendiam entre si (ou seja, o que faltou foi cooperação, de vezque o linguagear pode se exercer mesmo entre duas pessoas que falam línguasdiferentes, que acabarão, de um modo ou de outro, se entendendo).(41) A não ser quando a seleção brasileira de futebol joga com a da Argentina. Aí,em uma caricatura degenerada de primitivos seres tribais, nos pintamos de verde-amarelo, nos enrolamos na bandeira e gritamos irracionalmente a plenos pulmõesque o legítimo gol feito pelo genro de Maradona não valeu, pois que ele estavaimpedido e acusamos de ladrão o juiz. E os argentinos fazem a mesma coisa. Sim,é do jogo, pode-se dizer. Mas em geral esquece-se de perguntar: de que jogo (oesporte competitivo como “uma guerra sem mortes” como bem o definiu George 92
  • 93. Orwell)? De que vale esse tipo de polarização que passa por cima de qualquersenso de urbanidade e justiça? E o que de bom poderá advir dessa patriotice?(42) THOMPSON, William (2001). Transforming History: a curriculum for culturalevolution. Ma: Lindisfarne books, 2001.(43) Idem.(44) SEN, Amartya (1999). Desenvolvimento como liberdade. São Paulo:Companhia das Letras, 1999.(45) Cf. FREEDOM HOUSE (2011). Freedom in the World 2011: The authoritarianchallenge to democracy. Disponível em<http://www.freedomhouse.org/images/File/fiw/FIW_2011_Booklet.pdf>(46) Democracias plenas (full democracies) são apenas 26 países, correspondendoa 12,3% da população mundial: Norway, Iceland, Denmark, Sweden, New Zealand,Australia, Finland, Switzerland, Canada, Netherlands, Luxembourg, Ireland, Austria,Germany, Malta, Czech Republic, US, Spain, UK, South Korea, Uruguay, Japan,Belgium, Mauritius, Costa Rica, Portugal. Cf. The Economist Intelligence Unit(2010). Democracy in retreat. New York: The Economist Group, 2010. Disponívelem <http://www.eiu.com>(47) OHMAE, Kenichi (2005). O novo palco da economia global: desafios eoportunidades em um mundo sem fronteiras. Porto Alegre: Bookman, 2006.(48) CASTELLS, Manuel (1999). Para o Estado-rede: globalização econômica einstituições políticas na era da informação” in BRESSER PEREIRA, L. C., WILHEIM,J. e SOLA, L. Sociedade e Estado em transformação. Brasília: ENAP, 1999.(49) FRANCO, Augusto (2008). Escola de Redes: Novas visões sobre a sociedade, odesenvolvimento, a internet, a política e o mundo glocalizado. Curitiba: Escola-de-Redes, 2008.(50) Cf. FULLER, Buckminster (1968). Manual de Operação da Espaçonave Terra.Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1983 e MCLUHAN, Marshall (1974) inMcLUHAN, Stephanie & STAINES, David (2003): Op. cit.(51) THOMPSON: Op. cit.(52) Um bom relato das causas da derrota dos Apaches pode ser encontrado nolivro de Ori Brafman e Rod Beckstrom (2006): The starfish and the spider (Quemestá no comando? A estratégia da estrela-do-mar e da aranha: o poder dasorganizações sem líderes. Rio de Janeiro: Elsevier Campus, 2007), na passagemintitulada A estratégia da centralização: 93
  • 94. “A última vez que vimos os Apaches, eles estavam dominando o Sudoeste.Os espanhóis tentaram em vão controlá-los, e os mexicanos, que vieram emseguida, também não tiveram sorte. Quando os americanos conseguiram ocontrole da região, também fracassaram. Na verdade, os Apachespermaneceram como uma grande ameaça até o século XX. Mas depois amaré mudou. Aí os americanos venceram. Quando Tom Nevins explicou isso,ficamos de queixo caído ao descobrir como algo tão simples poderia ter umefeito tão poderoso.Nevins nos contou a história. "A verdade é que os Apaches representaramuma ameaça até 1914. O exército ainda marcou presença na reserva WhiteMountain até o início do século XX". Por que era tão difícil derrotar osApaches? Os Nantans [espécie de catalisadores da rede social apache]apareceram, disse Nevins, e "as pessoas desejavam apoiar quem elasacreditavam ser o líder mais eficaz, com base em suas próprias ações ou emseu comportamento. E não tardaria a acontecer". Como surgiam cada vezmais Nantans, os americanos finalmente "perceberam que precisavamatacar os Apaches no nível mais básico para poder controlá-los. Essa foi apolítica adotada pela primeira vez com o grupo Navajo - que também eraApache, e aperfeiçoada com o grupo Western Apache".Eis o que acabou com a sociedade Apache: os americanos deram gado aosNantans. Foi simples assim. Como os Nantans tinham recursos escassos -as vacas -, seu poder passou de simbólico a material. Antes, os Nantanslideraram pelo exemplo, mas agora eles poderiam recompensar e punirmembros da tribo oferecendo ou retirando esse recurso.As vacas foram as responsáveis pela grande mudança. Como os Nantansganharam poder autoritário, eles começaram a brigar entre si por assentosnos recém-criados conselhos tribais e começaram a ter um comportamentocada vez mais parecido... [com os de presidentes de empresas] Membros datribo começaram a fazer lobby junto aos Nantans para obter mais recursose ficavam aborrecidos quando as alocações não funcionavam a seu favor. Aestrutura de poder, que antes era horizontal, se tornou hierárquica, com opoder concentrado no topo. Isso arruinou a sociedade Apache. Nevinsreflete: "O grupo Apache agora tinha um governo central, mas, a meu ver,isso foi desastroso para eles, pois gerou uma baralha sem lucros em trocade recursos entre linhagens". Com uma estrutura de poder mais rídiga, osApaches ficaram semelhantes aos Astecas e, assim, ficou mais fácil para osamericanos os controlarem...Na essência, o que movia os Apaches [quando passaram a disputar entre sipor recursos centralizados pelos Nant’ans] era a concentração de poder.Após adquirirem o direito à propriedade, seja ela em forma de vacas ouroyaltes..., as pessoas rapidamente buscam um sistema centralizado paraproteger seus interesses. É por isso que queremos bancos centralizados.Desejamos ter controle, estrutura e prestação de contas, pois o que está emjogo é nosso dinheiro. 94
  • 95. No momento em que direitos de propriedade entram na equação, tudo muda: a organização estrela-do-mar se transforma em aranha. Se você realmente quiser centralizar uma organização, passe o direito de propriedade ao catalisador [os catalisadores funcionam como netweavers em uma rede social] e peça-o para distribuir recursos conforme adequado. Ao deter o poder sobre os direitos de propriedade, o catalisador se transforma em CEO e os círculos passam a ser competitivos”.(53) Epopéia da Criação – Enuma Elish (ou Enûma Eliš) é o mito de criaçãobabilônico. Ele foi descoberto por Austen Henry Layard em 1849 (em formafragmentada) nas ruínas da Biblioteca de Assurbanipal em Nínive (Mossul, Iraque),e publicado por George Smith em 1876. Cf. SMITH, George (1876). The ChaldeanAccount of Genesis. London: s/ed., 1876. Eis a passagem citada do Enuma Elish:“Ele criou o homem (e a mulher), seres vivos, para trabalhar para sempre, e liberaros deuses de outras cargas...”. Uma versão duvidosa em português está disponívelno link:<http://www.angelfire.com/me/babiloniabrasil/enelish.html>Tablets 1 e 2 estão disponíveis: <http://wikisource.org/wiki/Enuma_Elish>(54) BLACK, Bob (1985). The Abolition of Work and Other Essays. Port Townsend:Loompanics Unlimited, 1986. Uma tradução em português do manifesto “A aboliçãodo trabalho” está disponível para download em<http://www.4shared.com/file/219719893/b8942012/A_ABOLIO_DO_TRABALHO_Black.html>(55) BRABO, Paulo (2007). “Microsalvamentos: como salvar o mundo um instantede cada vez” in <http://www.baciadasalmas.com> 95