Fluzz capítulo 7

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Fluzz capítulo 7

  1. 1. Capítulo 7 | Alterando a estrutura das sociosferas AUGUSTO DE FRANCO Vida humana e convivência social nos novosmundos altamente conectados do terceiro milênio 1
  2. 2. 2
  3. 3. 7Alterando a estrutura das sociosferas Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entre as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paranóicos. Hakim Bey em Caos (1984) O melhor da religião é que ela produz hereges. Ernst Bloch em O ateísmo no cristianismo (1968) 3
  4. 4. Os que continuam aprisionados no mundo único dos séculos passadosainda não lograram perceber o que está em gestação neste período.A revelia dos cegos “líderes mundiais” e além da compreensão dosanalistas de governos e corporações, grandes movimentossubterrâneos estão em curso neste momento. De modo molecular,distribuído e conectado de sorte a formar um feixe intenso de fluxos– fluzz –, estão se articulando e se expressando glocalmenteexperiências inovadoras que tendem a alterar na raiz a estrutura e adinâmica das sociosferas. Eis alguns exemplos fulcrais do que estáemergindo: Não-Escolas: comunidades de aprendizagem (homescooling e, sobretudo, communityschooling, cada vez mais na linha de unschooling) em rede, sem currículo e sem professor e aluno. Não-Igrejas: formas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações das burocracias sacerdotais. Não-Partidos: redes de interação política (pública) exercitando a democracia local na base da sociedade e no cotidiano dos cidadãos. Não-Estados-nações: cidades inovadoras – como redes de comunidades – que assumem a governança do seu próprio desenvolvimento em rota de autonomia crescente em relação aos governos centrais que tinham-nas por seus domínios. Não-Empresas-hierárquicas: redes de stakeholders – demarcadas do meio por membranas (permeáveis ao fluxo) e não pode paredes opacas – como novas comunidades de negócios do mundo que já se anuncia. 4
  5. 5. Fascinante! Escolas, igrejas, partidos, Estados, empresas hierárquicas:construímos tais instituições – que continuam reproduzindo o velho mundo;sim, são elas que fazem isso – como artifícios para escapar da interação,para ficar do “lado de fora” do abismo, para nos proteger do caos...As escolas (e o ensino) tentam nos proteger da experiência da livreaprendizagem. As igrejas (e as religiões) tentam nos proteger daexperiência de deus. Os partidos (e as corporações) tentam nos protegerdas experiências da política (pública) feitas pelas pessoas no seu cotidiano.Os Estados tentam nos proteger das experiências glocais (de localismocosmopolita). E as empresas (hierárquicas) tentam nos proteger daexperiência de empreender.Por isso que escolas são igrejas, igrejas são partidos, partidos sãocorporações que geram Estados, que também são corporações, que viramreligiões, que reproduzem igrejas, que se comportam como partidos...Porque, no fundo, é tudo a mesma coisa: artifícios para proteger as pessoasda experiência de fluzz!Uma vez desconstituídos tais arranjos feitos para conter, contorcer eaprisionar fluxos, disciplinando a interação, uma vez corrompidos os scriptsdos programas verticalizadores que rodam nessas máquinas (e que, naverdade, as constituem), o velho mundo único se esboroa.Isso está acontecendo. Não-escolas, não-igrejas, não-partidos, não-Estados-nações e não-empresas-hierárquicas começam a florescer. Com talflorescimento, a estrutura e a dinâmica das sociosferas estão sendoradicalmente alteradas neste momento, mas não por formidáveis revoluçõesépicas e grandes reformas conduzidas por extraordinários líderes heróicos,senão por pequenas experiências, singelas, líricas, vividas por pessoascomuns! Aquelas mesmas experiências de interação das quais fomospoupados. É como se tudo tivesse sido feito para que nãoexperimentássemos padrões de interação diferentes dos que deveriam serreplicados. Mas nós começamos a experimentar. E “aqui estamos – comoescreveu Hakim Bey (1984) – engatinhando pelas frestas entre as paredesda Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitosparanóicos”. 5
  6. 6. Aprendizagem, não ensinoAs escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem- Psiu! Cale a boca. Comporte-se! Pare de conversar. Para de perguntar. Emvez de conversação, silêncio. A quem é inferior (ignorante) cabe apenasouvir o superior (aquele que sabe). Isto foi, é e sempre será escola: umartifício para proteger os alunos da experiência de fluzz.Sim, escolas não são comunidades de aprendizagem. São burocracias doensinamento. Não são redes distribuídas de pessoas voltadas à busca e aocompartilhamento do conhecimento. São hierarquias sacerdotais cujoprincipal objetivo é ordenar indivíduos capazes de reproduzir atitudes dedisciplina e obediência. Não são ambientes favoráveis à emergência dedinâmicas interativas, mas à imposição de relações intransitivas. Estruturascentralizadas, baseadas na separação de corpos: docente (hierarquia-ensinante) x discente (massa-ensinada).A arquitetura traduz o conceito. Na chamada educação formal, escolas sãoconstruções que aprisionam crianças e jovens em salas fechadas, obrigadosa sentar enfileirados, como gado confinado ou frangos de granja; pior: nas“salas de aula” ficam alguns – a maioria – olhando para a nuca dos outros.São campos de concentração e adestramento, onde o aluno tem de saltarobstáculos, vencer as provas. São prisões temporárias em que se tem decumprir a pena, pagar a dívida. Não é por acaso que a maior recompensana escola é passar de ano. Ano após ano. Até sair. - Ufa! Livre afinal.Por que construímos tal aberração?Fomos levados a acreditar que o ensino era o antecedente daaprendizagem. Em termos lógicos formais: ensino => aprendizagem;donde, formalmente: não-aprendizagem => não-ensino.Mas ao que tudo indica o ensino surgiu – como instituição – de certo modo,contra a aprendizagem. E não-ensino, dependendo das circunstâncias, podeaté aumentar as possibilidades de aprendizagem. O que é sempre umperigo para alguma estrutura de poder.Onde começou o ensino? Qual é a origem do professor? Ora, ensino éensinamento. Mas ensinamento é, originalmente, (reprodução de) 6
  7. 7. estamento (ou da configuração recorrente de um cluster enquistado na redesocial). Alguém tem alguma coisa que precisa transmitir a outros. Precisamesmo? Por quê? Alguém conduz (um conteúdo determinado, funcionalpara a reprodução de uma estrutura e suas funcionalidades). E alguémrecebe tal conteúdo (tornando-se apto a reproduzir tal estrutura e taisfuncionalidades). Eis a tradição!Os primeiros professores – parece evidente – foram os sacerdotes. Aprimeira escola já era uma burocracia sacerdotal do conhecimento (umaestrutura hierárquica voltada ao ensinamento). Isso significa que só háensinamento se houver hierarquia (uma burocracia do conhecimento).Sim, todo corpus sacerdotal é docente. A tradição é tão forte que há atébem pouco a doutrina oficial católica romana (e ela não é a única) aindadividia a igreja em docente (ensinante: os hierarcas) e discente (ensinada:os leigos). E as escolas, que também se estruturaram, em certo sentido,como igrejas (mesmo as laicas), consolidaram sua estrutura com base naseparação de corpos entre docentes e discentes.O que se ensina é um ensinamento. Quando você ensina, há sempre umensinamento. Mas quando você aprende há apenas um aprendizado, não háum “aprendizamento”, quer dizer, um conteúdo pré-determinado doaprendizado. O que se aprende é o quê? Ah! Não se sabe. Pode serqualquer coisa. Não está predeterminado. Eis a diferença! Eis o ponto! Aaprendizagem é sempre uma invenção. A ensinagem é uma reprodução.Mas como escreveu o poeta Manoel de Barros (1986) no Livro sobre Nada:“Tudo que não invento é falso” (1).O professor como transmissor de ensinamento e a escola como aparatoseparado (sagrado na linguagem sumeriana) surgiram, inegavelmente,como instrumentos de reprodução de programas centralizadores(verticalizadores) que foram instalados para verticalizar (centralizar) arede-mãe.As escolas foram urdidas para nos proteger da experiência da livreaprendizagem. Aprender sem ser ensinado é subversivo. É um perigo para areprodução das formas institucionalizadas de gestão das hierarquias de todotipo. Por isso o reconhecimento do conhecimento é, até hoje, umreconhecimento não do conhecimento-aprendido, mas do conhecimento-ensinado, dos graus alcançados por alguém no processo de ordenação aque foi submetido. Mas como twittou Pierre Lévy (2010), as universidadesnão têm mais o monopólio da distribuição do conhecimento; restou-lhestentar reter em suas mãos o monopólio da distribuição do diploma. 7
  8. 8. Autodidatismo, não heterodidatismo Eu busco o conhecimento que me interessa do meu próprio jeitoNa transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamoscondenados a nos tornar buscadores cada vez mais autônomos. É assimque transitaremos do heterodidatismo para o autodidatismo: quandopudermos dizer: eu busco o conhecimento que me interessa do meu própriojeito.Aprender a aprender é a condição fundamental para a livre aprendizagemhumana em uma sociedade inteligente. É ensejar oportunidades aoseducandos de se tornarem educadores de si mesmos (aprendendo a andarcom as próprias pernas ao se libertarem das muletas do heterodidatismo).O educando-buscador será um educador não-ensinante. Porque será umaprendente (2).Nos Highly Connected Worlds, todos seremos, em alguma medida,autodidatas. Um autodidata é alguém que aprendeu a aprender. Umacriança, ou mesmo uma pessoa adulta ou idosa, navegando, lendo epublicando na web, é, fundamentalmente, um autodidata.Todo aprendizado depende da capacidade de estabelecer conexões ereconhecer padrões. Cada vez mais será cada vez menos necessário quealguém ensine isso. Quando as possibilidades de conexão aumentam,também aumentam as possibilidades de reconhecer padrões (porqueaumenta a freqüência com que, conhecendo uma diversidade cada vezmaior de padrões, nos deparamos com homologias entre eles); quer dizerque, a partir de certo grau de conectividade, o heterodidatismo não seránecessário.Nos dias de hoje, uma criança com acesso à Internet e noções rudimentaresde um ou dois idiomas falados por grandes contingentes populacionais(como o inglês ou o espanhol, por exemplo), já é capaz de aprender muitomais – e com mais velocidade – do que um jovem com o dobro da suaidade que, há dez anos, estivesse matriculado em uma instituição de ensinoaltamente conceituada. Se souber ler (e interpretar o que leu), escrever,aplicar conhecimentos básicos de lógica e matemática na solução deproblemas cotidianos e... banda larga, qualquer um vai sozinho. Ora, isso éterrível para os que querem adestrar as pessoas com o propósito de fazê-las executar certos papéis predeterminados. Isso é um horror para os que 8
  9. 9. querem formar o caráter dos outros e inculcar seus valores nos filhosalheios.Colecionadores de diplomas e títulos acadêmicos não terão muitasvantagens em uma sociedade inteligente. Suas vantagens provêem da idéiade que a sociedade é burra (e eles, portanto – que compõem a burocraciasacerdotal do conhecimento – são os inteligentes). Para se destacar dosdemais – quando o desejável seria que se aproximassem deles – os “sábios”precisam que a sociedade continue burra.Nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio quem organizao conhecimento é a busca. Mas os caras ainda insistem em querer organizaro conhecimento para você (isto é o hetero-didatismo).Toda organização do conhecimento para os outros corresponde anecessidades de alguma instituição hierárquica e está sintonizada com seusmecanismos de comando-e-controle. Toda organização do conhecimento decima para baixo procura controlar e direcionar o acesso à informação poralgum meio. Os organizadores do conhecimento para os outros aindaentendem conhecimento como “informação interpretada”. Interpretada, éclaro, do ponto de vista de seus possíveis impactos sobre a estrutura e adinâmica das organizações hierárquicas de que fazem parte. Pretendem,assim, induzir a reprodução de comportamentos adequados à reproduçãoda estrutura e da dinâmica dessas organizações hierárquicas. Por meio daurdidura de sistemas de gestão do conhecimento – desde os velhoscurrículos escolares aos modernos knowledge management systems, porexemplo – querem codificar, disseminar e direcionar a apropriação deconhecimentos para formar agentes de manutenção e reprodução dedeterminado padrão organizacional.Mas já vivemos em um momento em que não se pode mais trancar oconhecimento – esse bem intangível que, se for aprisionado (estocado,protegido, separado), decresce e perde valor e, inversamente, se forcompartilhado (submetido à polinização ou à fertilização cruzada comoutros conhecimentos) cresce, gera novos conhecimentos e aumenta devalor (e é isto, precisamente, o que se chama de inovação). E estamos nosaproximando velozmente de uma época em que será cada vez menosnecessária uma infra-estrutura hard instalada para produzir conhecimento(e inclusive outros produtos tangíveis, como estão mostrando asexperiências nascentes de peer production ou crowdsourcing).Novos ambientes interativos surgidos com a Internet já estão mostrandotambém a improdutividade (ou a inutilidade mesmo) de classificar o 9
  10. 10. conhecimento a partir de esquema classificatório construído de antemão.Por exemplo, nos primeiros tempos do Gmail havia a recomendação: nãoclassifique, busque! Hoje continua lá, literalmente: “O foco do Google é apesquisa, e o Gmail não é exceção: você não precisa perder tempoclassificando seu e-mail, apenas procure uma mensagem quando precisar ea encontraremos para você”.É claro que as buscas atuais (na Internet, por exemplo) ainda são feitas emmecanismos fechados que não permitem que o usuário redefina oumodifique os algoritmos de acordo com suas percepções e necessidades.Mas a tendência é que a busca seja cada vez mais programável e cada vezmais semântica (3).A busca semântica substituirá boa parte dos esforços feitos até agora para“organizar” o conhecimento. Mas é o perfil da busca – bottom up – que vaidizer qual o conhecimento que é relevante e não a decisão de um centro decomando-e-controle que queira dizer às pessoas – top down – o que elasdevem conhecer.Todos esses esforços por manter padrões verticais de um tipo de sociedadeque já está fenecendo vão ser implacavelmente punidos pelas estruturas epelas dinâmicas horizontais emergentes das novas sociosferas que estãoflorescendo. Nesses mundos altamente conectados toda a gestão deorganizações (inclusive a gestão do conhecimento) é regulada por meio deoutros processos em rede.O autodidata é um buscador, mas quem busca é a pessoa. A pessoa é oindivíduo conectado e que, portanto, não se constitui apenas como um íonsocial vagando em um meio gelatinoso e exibindo orgulhosamente suascaracterísticas distintivas e sim também como um entroncamento de fluxos,uma identidade que se forma a partir da interação com outros indivíduos. Apessoa como continuum de experiências intransferíveis e, ao mesmo tempo,como série de relacionamentos, aprende por estar imersa (conectada) emum ambiente educativo entendido como ambiente de aprendizagem.Headhunters inteligentes não estão mais se impressionando tanto com acoleção de diplomas apresentados por um candidato a ocupar uma vaga emuma instituição qualquer. Querem saber o que a pessoa está fazendo.Querem saber o que ela pode ser a partir do que pretende (do seu projetode futuro) e não o que ela é como continuidade do que foi (da repetição doseu passado). Está certo: como se diz, o passado “já era”. O novo postopretendido não será ocupado no passado e sim no futuro. Então o que énecessário avaliar é a linha de atuação ou de pensamento que está sendo 10
  11. 11. seguida pelo candidato.Em breve, as avaliações de aprendizagem serão feitas diretamente pelosinteressados em se associar ou em contratar (lato sensu) uma pessoa.Redes de especialistas de uma área ou setor continuarão avaliando osespecialistas da sua área ou setor. Mas essa avaliação será cada vezhorizontal. E, além disso, pessoas avaliarão outras pessoas a partir doexame das suas expressões de vida e conhecimento, pois que tudo issoestará disponível, será de domínio público e não ficará mais guardado poruma corporação que tem autorização exclusiva para acessar e licença oficialpara interpretar tais dados.Cada pessoa poderá ter, por exemplo, a sua própria wikipedia. Ao invés deaceitar apenas as oblíquas interpretações doutas, passaremos a verificardiretamente a wikipedia de cada um – o arquivo-vivo que contém asdefinições dos termos habituais, os pontos de vista, as referências, ostrabalhos e as conclusões sobre os assuntos da sua esfera de conhecimentoe de atuação. Quem gostar do que viu, que contrate ou se associe ao autordaquela wikipedia. Ponto final. 11
  12. 12. Alterdidatismo, não heterodidatismo “Eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos”De certo ponto de vista, nos Highly Connected Worlds qualquer um vaisozinho, desde que tenha aprendido o fundamental. O fundamental, comovimos, é aprender a aprender. O fundamental não pode estar baseado natransferência de conteúdos temáticos secundários e sim na disponibilizaçãode ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem. Os quese metem a organizar processos educativos para os outros deveriamcomeçar perguntando o que é necessário para que uma pessoa e umacomunidade possam fazer o seu próprio itinerário de aprendizagem.Do ponto de vista do aprendizado – do sujeito aprendente e não do objetoensinado –, três condições caracterizam a inteligência tipicamente humana(quer dizer, sintonizada com o emocionar humano): estabelecer conexões;reconhecer padrões; e linguagear e conversar (no sentido que HumbertoMaturana confere a essas noções) (4).A partir daí estamos falando de humanos (e é necessário fazer essaressalva porquanto máquinas também podem aprender) e podemos entãolistar as ferramentas de auto-aprendizagem ou “alfabetizações” (em umsentido ampliado): a alfabetização propriamente dita, na língua natal (ler eescrever e interpretar o que leu); e as outras “alfabetizações”, como, porexemplo, em uma segunda língua da globalização (pelo menos ler, eminglês ou espanhol); matemática (dominar as operações matemáticaselementares e aplicar esses conhecimentos básicos na vida cotidiana);lógica (aprender a argumentar e identificar erros lógicos em argumentossimples); digital (navegar e publicar na Internet e operar as ferramentasdigitais de inserção, articulação e animação de redes).Estes – ao que parece – são os requisitos e as ferramentas contemporâneasda inclusão educacional. Quem dispõe deles pode caminhar sozinho; ouseja, de posse de tais instrumentos, cada um, em função de suas opçõespessoais, pode traçar seus próprios itinerários de formação e compartilhá-los com suas redes de aprendizagem. Esses são os requisitos para oautodidatismo.No entanto, de outro ponto de vista – o do alterdidatismo – a rigor,ninguém pode continuar caminhando sozinho. Aprender a aprender estáintimamente relacionado a aprender a interagir em rede. Mesmo que a 12
  13. 13. escola básica se dedicasse precipuamente a isso, mesmo assim não sepoderia abrir mão da educação em casa (a primeira rede social na qual oser humano se conecta), nem da educação comunitária (a expansão dessarede, envolvendo os vizinhos, os amigos e conhecidos mais próximos).O aprender a conviver (com o meio natural e com o meio social) talvezrequeira outras “alfabetizações”: por exemplo, a alfabetização emsustentabilidade (incluindo alfabetização ecológica e alfabetização para oempreendedorismo e para o desenvolvimento humano e social sustentávellocal ou comunitário); e a alfabetização democrática (em um sentidodeweyano do termo: para a vida comunitária e para as formas derelacionamento que ensejam a regulação social emergente; i. e., as redessociais distribuídas). Mas essas “alfabetizações” não são temas curricularesou disciplinas. São drives capazes de gerar agendas compartilhadas deaprendizagem.Não é por acaso que a educação para a sustentabilidade, quer dizer, para avida (em um sentido ampliado, envolvendo os ecossistemas, inclusive oecossistema planetário) e para convivência social, não compareçam noscurrículos escolares. Elas não são propriamente objetos de ensino e sim deaprendizagem-na-ação compartilhada. Ninguém é capaz de aprender essascoisas apenas tomando aulas ou lendo textos. É necessário vivê-las,experimentá-las, ou melhor, convivê-las (e é por isso que são drivesgeradores de agendas compartilhadas de aprendizagem).É compartilhando essas agendas de aprendizagem que o educador se tornaum educando (um aprendente da interação educadora). Nesse aprender-fazendo esvai-se a distinção entre professor e aluno: todos passam a seragentes comunitários de educação.Portanto, quando se diz (do ponto de vista do autodidatismo) que qualquerum vai sozinho, e quando se diz (do ponto de vista do alterdidatismo) que,a rigor, ninguém pode caminhar sozinho, está-se dizendo a mesma coisa:que o heterodidatismo no qual se baseiam os sistemas de ensino é umamuleta que deve ser abandonada.Na transição da sociedade hierárquica para a sociedade em rede estamoscondenados a nos tornar polinizadores cada vez mais interdependentes. Éassim que transitaremos do heterodidatismo para o alterdidatismo: quandopudermos dizer: eu guardo o meu conhecimento nos meus amigos.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos alterdidatas. Um alterdidata é alguém 13
  14. 14. que aprendeu a conviver com o meio natural e com o meio social em quevive.Aprender a conviver com o meio natural e com o meio social é ensejaroportunidades aos educadores de se tornaram educandos da interaçãocomunitária na nova sociedade em rede (desaprendendo ensinagem ao selibertarem das muletas do heterodidatismo). O educador-polinizador seráalguém que desaprendeu a ensinar. Porque será um aprendente.Dominar a leitura e a escrita, saber calcular e resolver problemas, tercondições de compreender e atuar em seu entorno social, ter habilidadepara analisar fatos e situações e ter capacidade de acessar informações ede trabalhar em grupo, são geralmente apresentados como objetivos doprocesso educacional básico. No entanto, para além, muito além, de tudoisso, os novos ambientes educativos em uma sociedade-rede tendem avalorizar outras competências ou habilidades, como a de identificarhomologias entre configurações recorrentes de interação que caracterizamclusters (e, conseqüentemente, reconhecer potenciais sinergias e aproveitaroportunidades de simbiose), saber não apenas acessar, mas produzir edisseminar informações e conseguir não somente trabalhar em grupo, masfazer amigos e viver e atuar em comunidade.De certo modo, tudo o que parece realmente necessário para a convivênciaou a vida em rede, como a educação para a democracia, a educação para oempreendedorismo e para o desenvolvimento ou a sustentabilidade, nãocomparece nos currículos das escolas. Não pode ser por acaso. Isso talvezcorrobore a constatação de que a escola é uma das instituições que maisresistem ao surgimento da sociedade- rede.Por quê? Ora, porque embora se declarem instituições laicas, as escolassão, no fundo, igrejas; ou seja, ordens hierárquicas (sacerdotais) quedecidem o que as pessoas devem (saber) reproduzir. Graus deaprendizagem (na verdade, de ensino) são ordenações: medem a suacapacidade de replicar uma determinada ordem. Não é por acaso que aeducação a distância encontrou fortíssima resistência na academia. Pelosmesmos motivos, processos e programas educacionais extra-escolares sãoduramente combatidos pelas corporações de professores, que argumentam– sem se darem conta de que, com isso, estão apenas revelando seucaráter sacerdotal – que não se pode deixar a educação nas mãos deleigos...No entanto, neste momento estão sendo elaboraradas e testadasmetodologias compatíveis com processos de inteligência coletiva (“learn 14
  15. 15. from your neighbours” - Steve Johnson; “I store my knowledge in myfriends” - Karen Stephenson) baseadas na idéia de cidade educadorareconceitualizada como cidade-rede de comunidades que aprendem. Novaspráticas estão surgindo a partir de experiências voltadas ao estímulo aoautodidatismo, adaptadas às novas formas de interação educativa extra-escolares, como o homeschooling e, sobretudo, communityschooling, porémna linha do unschooling. Novas teorias da aprendizagem, como oconectivismo, estão tentando mostrar como as redes sociais devemconstituir o padrão de organização das novas comunidades deaprendizagem capazes de disseminar e empregar ferramentas de auto-aprendizagem e de comum-aprendizagem (5). 15
  16. 16. Não-escolas: a escola é a rede Nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente (em rede)Nos Highly Connected Worlds a educação não pode ser mais nada disso queandaram falando nos últimos quatro séculos do mundo único. Simplesmenteporque não haverá ‘a’ educação.O conceito de educação – ao contrário do que parece – é um conceitototalizante e regressivo. Não é a toa que tenha surgido juntamente com oconceito de sociedade. Não pode existir ‘a’ educação, assim como não podeexistir ‘a’ sociedade. Não há uma educação e sim uma diversidade deprocessos de aprendizagem. Não há uma sociedade e sim uma diversidadede sociosferas.O consenso que se generalizou sobre ‘a’ educação é paralisante. A crençade que a educação vai resolver todos os problemas está tão generalizadaque as pessoas sequer percebem que, se isso fosse verdade, países como aBulgária ou Cuba seriam considerados desenvolvidos.Quando os processos de aprendizagem forem libertados – ou quando ageração de sociosferas (uma espécie de “lei do ventre livre” social) forlibertada: no fundo é a mesma coisa! – a educação na sociedade terminará.A escola que já se prefigura no final desse trajeto é uma não-escola. Aescola é a rede. Nela, todos seremos autodidatas e alterdidatas: quandopudermos dizer: nós produzimos nosso conhecimento comunitariamente(em rede). Um autodidata-alterdidata é alguém que aprendeu a aprender-convivendo. Como buscadores e polinizadores, não seremos ensinados nemensinadores. Porque todos seremos aprendentes.Sociosferas em que as redes são as escolas serão aquelas “sociedadesdesescolarizadas”, como queria o visionário Ivan Illich (6). A sociedade semescola de Illich poderia ser renomeada como a sociedade-escola, desde queficasse claro que se trata da sociedade- rede; ou seja, estamos falando dascomunidades educadoras que se formam na sociedade-rede.Nesse sentido, não são os aparatos educativos hierárquicos, enquistadasdentro da sociedade, que educam basicamente: na medida em que asociedade de massa vai dando lugar à sociedade em rede, são as própriassociosferas (glocais) que educam, por meio das comunidades (clusters) quenecessariamente se formam em seu seio. 16
  17. 17. Comunidades educadoras são, antes de qualquer coisa, comunidades deaprendizagem, quer dizer, comunidades-que-aprendem. Isso vale paratudo, não apenas para as escolas como aparatos da educação formal.Também virarão não-escolas os centros de pesquisa e investigação, associedades filosóficas e os grupos criativos que usinam novas idéias einauguram novas maneiras de pensar (a escola na sua acepção de thinktank). 17
  18. 18. Matar a escola = matar o Buda Quando o mestre está preparado, o discípulo desapareceÉ difícil entender a natureza de uma não-escola. No mundo único aspessoas buscavam um sistema produtor de respostas capazes de fazersentido global para elas. Eram atraídas por religiões, igrejas e seitas(religiosas e laicas), sociedades filosóficas e escolas de pensamento(mesmo aquelas que, baseadas na conversação, se intitulavamcomunidades). Elas forneciam a proteção contra a pergunta-disruptiva pormeio de uma meta-explicação coerente, a segurança de uma grandenarrativa totalizante ou de esquemas explicativos gerais que permitiam quealguém se identificasse e comungasse com outros que palmilhavam omesmo caminho e tivesse, assim, uma justificativa ética para se fechar àinteração com o outro-imprevisível. Mas tudo isso é escola!É muito difícil não construir um esquema organizador para as conversasmantidas por qualquer grupo. Mas a tarefa em uma não-escola não é criaruma espécie de wikipedia, nem mesmo uma contextopedia, com ossignificados que foram sendo construídos via consenso-administrado a partirdo debate ou da conversação. Não há significados gerais universais. Não hásignificados sempre válidos para os mesmos contextos (inclusive porque, arigor, nunca se repetem "mesmos contextos"). Há significâncias atribuídaspor sujeitos em interação e válidas para os momentos de interação em quetais sujeitos estão envolvidos. São significados-fluzz, que mudamcontinuamente com o fluxo e o máximo que podemos fazer é mapear asrelações entre esses significados mutantes. Sim, reconheçamos que não éfácil para nós aceitar o presente, não é fácil resistir à tentação de arquivar opassado em caixinhas, sobretudo se as plataformas que utilizamos são p-based (baseadas em participação) e não i-based (baseadas em interação).Mas já não se trata mais de sistematizar conteúdos ou de interpretar esintetizar respostas cognatas ou convergentes. Trata-se agora apenas delinkar para facilitar a busca. Quem organiza o conhecimento é a busca.Quem produz (novo) conhecimento (como relação sempre inédita, nãocomo conteúdo arquivável) não é a gestão, mas a interação.Na configuração de novos ambientes interativos de produção deconhecimento não deve haver "progresso", no sentido de constituição deum corpo coerente, que vai se tornando cada vez mais redondo e polido(até que a epistemologia consiga espelhar a ontologia). Não se trata de 18
  19. 19. construir um códex, uma doutrina, um ensinamento, uma teoria explicativade tudo, uma nova plataforma de visão de mundo. Isso é o que diferenciaas novas escolas-não-escolas dos mundos altamente conectados, de umaescola, quer dizer, de uma igreja (7).Sim, as escolas como centros de pensamento também são igrejas. Elassurgem quando criamos programas de separação entre os de dentro e os defora a partir de um conteúdo, de uma mensagem, de uma doutrina, de umconjunto de idéias que alguns compartilham e outros não. Se fizermos isso,erigiremos uma escola; quer dizer, uma igreja.Se você junta os que compartilham qualquer corpo de idéias (mesmo quesejam idéias tão heterodoxas e libertárias como estas que estão sendoexpostas aqui e agora) e, a partir daí, constrói um coletivo, você estáfazendo uma escola. Não importa o que você pense, valorize, fale oupregue: você ensina, quer dizer, escorre por um sulco já cavado peloensinamento!Há uma coerência interna e há completude em boa parte das escolas depensamento que floresceram nos milênios passados. É como um mundo quefoi construído (e ninguém se engane: há sabedoria nesse mundo; a questãoé que sabedoria não pode ser um critério aceitável para validar sistemashierárquicos). E ocorre que existem múltiplos mundos. Se você exige queuma pessoa viva na coerência do mundo que você construiu como condiçãopara se deixar alterar por essa pessoa (ou seja, interagir com ela), entãovocê não está realmente aberto à interação (com o outro-imprevisível):você quer participação dos outros no seu espaço, o que é uma forma deexigir (sem aparentemente fazer qualquer exigência formal) que os outrosvivam na mesma coerência em que você vive. Mas essa é a definição deseita, de escola.Não é um problema de comunicação, de adaptar a linguagem ou adotaruma postura tática para se fazer entender pelos "de fora". Nada disso. Oproblema aqui é a rede (ou melhor, a falta dela)Esse comportamento em geral não é intencionalmente constituído ereproduzido. Ele é uma decorrência do padrão de organização adotado. Façauma rede aberta de conversações e ele se esfuma; ou seja, a escoladesaparece para surgir em seu lugar uma rede de livre aprendizagem.Assim como desaparecerá o codex, o corpo doutrinário referêncial único: ouseja, o legado fundante da escola de pensamento desaparecerá para darlugar a miríades de construções conceituais por ele inspiradas. 19
  20. 20. O problema é que toda ereção de um sistema implica uma armadilha. Vocêfica rodando dentro dele. E para dialogar com as pessoas que vivem nele,você também precisa também rodar dentro dele. A palavra "rodar", aqui, éempregada no sentido contemporâneo de "rodar um programa" (software).Sim, porque o sistema sobre o qual falamos, é um programa de atribuiçõesde significados e, mais do que isso, de construção dos processosparticulares pelos quais se atribui significados. Para interagir com quemestá dentro do sistema você precisa se plugar e "carregar" o programa (emvocê). Ao carregar o programa, você carrega também sua linguagem(script) e, além disso, seu linguageado e, às vezes, até mesmo seu gestual.Pode-se retrucar que isso ocorre, em maior ou menor medida, comqualquer construção conceitual que apresente os critérios epistemológicosde coerência interna e completude. É verdade. Mas quando o sistema validaseus argumentos internamente, estando os critérios de validação tãoimplicados no que se quer validar e vice-versa (ou seja, estando aepistemologia tão fundida à ontologia), a verificabilidade fica subordinada(sub-ordenada) pela explicação auto-referente. É por isso que, em ciência,não se pode abrir mão do critério da verificabilidade, que deve ter o mesmostatus epistemológico dos critérios da coerência interna e da completude (asquais, sozinhas, não bastam). Assim, os resultados de uma explicaçãodevem sempre poder ser verificados por sujeitos que adotam outrosesquemas explicativos.Um bom exemplo de escola de pensamento é a escola freudiana nos seusprimórdios. Uma pessoa deve poder verificar os efeitos do que a explicaçãofreudiana atribui a determinado complexo sem ter que adotar a explicaçãofreudiana. Se sou obrigado a me tornar freudiano para perceber osfenômenos psíquicos que poderiam ocorrer com quaisquer seres humanosindependentemente da explicação freudiana (e da existência de Freud),então estou preso a um sistema incapaz de interagir com outras explicações(externas às circularidades freudianas). E corro o risco de recair nodogmatismo dos primeiros freudianos: uma pessoa deve poder contestar aexistência de um complexo sem ser acusada de estar fazendo issojustamente por estar possuída por tal complexo. Em alguma medida, issoocorre com todos os sistemas auto-referentes, sobretudo na sua "primeira-infância".Eric Raymond (2001), no Hacker Howto (8) aconselhava o estudo do Zenaos hackers, sem dúvida um formidável software de desconstituição decertezas, compartilháveis por uma ou várias comunidades. Talvez seja ocaso, porém, de voltar ao Tao, para limar as aderências doutrinárias que o 20
  21. 21. Zen adquiriu: ao se fundir ao budismo foram introduzidos conteúdos... Sim,continua sendo o Zen, mas só depois de você matar o Buda.Qualquer comunidade de pensamento precisa matar o seu fundador (que é,inclusive, a melhor forma de amá-lo). Quando esse fundador é uma pessoa,precisa se livrar das aderências de um modo-de-argumentar, de umaautêntica maneira particular de pensar, falar e escrever que fazia sentidopara aquele ser humano unique que a fundou. E o passo seguinte dessaação de amar tão profundamente o fundador ao ponto de matá-lo é nãoconstituir um grupo proprietário em torno de suas idéias, de abrir mão deerigir um corpo docente (uma escola) a partir de um corpo teórico parapropagar um ensinamento que possa ser diferencialmente ministrado por"representantes autorizados", ainda que tudo isso seja – o que será pior –chancelado pelo próprio fundador. Isso é uma condição de contorno opacaquando precisamos de membranas.Não afirmamos que se deva matar o fundador apenas no sentido de matar asua imagem idealizada e introjetada, tal como alguns interpretam o lemakilling the buddha (como disse a pessoa-zen Lin Chi: “Se o Buda cruzar seucaminho, mate-o”). Trata-se de desabilitar um programa verticalizador queroda na rede gerando instituições que congelam fluxos. Trata-se de matara escola (no caso, constituída sobre um legado de pensamentotransformado em ensinamento).Não tem nada a ver com querer ver morto algum fundador por achar queele já está caduco ou ultrapassado. É o contrário. Quando se diz "matar oBuda" isso significa uma admiração suprema pelo Buda, como prefiguraçãodo Buda que está-em-devir em cada um de nós e que só vai despertarquando o Buda que está fora desaparecer como referência (externa porémintrojetada em uma espécie de falsa conniunctio). Mas, particularmente, nocontexto desta discussão, significa matar a escola como ordenação doensinamento abrindo possibilidades de formação de múltiplas comunidadesde aprendizagem para além do círculo restrito dos que se matriculam emum curso ou seguem um programa privando da convivência de um grupodeterminado.Ocorre que com a acelerada emergência, agora, dos Highly ConnectedWorlds, vida humana e convivência social tendem a se aproximar a pontode revelar ou deixar entrever um superorganismo humano. Isso nos obrigaa mudar nossas interpretações. E é um choque para as chamadas tradiçõesespirituais (todas estas são artifícios para administrar espiritualidadesconformes ao mundo patriarcal e não por acaso são baseadas nas escolhasdo indivíduo, são ministradas por escolas - burocracias sacerdotais do 21
  22. 22. ensinamento - e mantêm a relação mestre-discípulo). Agora será precisomostrar que quando o mestre está preparado, o discípulo desaparece e,portanto, chegar à condição de mestre é chegar à condição do aprendente:aquele que matou o mestre não apenas quando matou a imagem idealizadado mestre dentro de si (introjetada), mas quando matou a escola. E tudoisso para quê? Ora, para que o Buda morto não renasça nas mãos dos queo mataram.Em outras palavras, não há como construir a base ideológica (ou demundivisão) para uma grande narrativa em uma época em que não cabemmais os esquemas totalizantes de apreensão do mundo e de interação como mundo. Não é mais possível a existência de uma (única) matriz ética paraa humanidade. Em uma época em as redes cobrem o planeta como umapele e em que, por um processo fractal, uma pluralidade de mentes globaisestá surgindo, não se trata mais de forjar um grupo para usinar um modeloe espalhá-lo e sim de surfar nas ondas interativas que estão fertilizando osdiversos modelos que emergem de uma diversidade de comunidades deprática, de aprendizagem e de projeto que estão brotando e submetendoseus programas à esse tipo de polinização complexa. Essa visão é chavepara não irmos parar de volta em algum lugar do passado: o processo éfractal! Não é possível salvar o mundo de uma vez: só é possível salvá-loum instante de cada vez... (9) Mesmo porque não existe mais um mundo:os mundos já são – e serão, cada vez mais – múltiplos.Sim, não estamos mais na época do anúncio de uma nova proposta que, seabraçada por muitos no seu refletir-agir, vai supostamente salvar o planeta(harmonizar biosfera com antroposfera), redimir a humanidade ou nos levarpara um porvir radiante. Não sabemos qual é o futuro. Sobretudo porqueesse futuro (um futuro), felizmente, morreu. Não podemos pretender levarninguém para lugar algum. A época em que vivemos é a época dadesistência (10). A hora que vivemos é, portanto, a hora de abrir mãodessas pretensões de conduzir povos, orientar nações, mobilizar pessoasem torno de um objetivo comum para transformar a sociedade (e ‘a’sociedade, como vimos, é uma abstração regressiva).Fomos contaminados por um padrão transformacional de mudança equeremos então transformar a sociedade. Mas... transformar para chegaraonde? E transformar o quê? E transformar em quê? E transformar por quê?Atravessados por essa pulsão transformacionista, legiões de militantes quecontinuam habitando os séculos passados vivem querendo fazer mudanças(que eles não podem, honestamente, saber quais são) em nome de umacausa. Mas é inútil. As mudanças em sistemas complexos (e as sociedades 22
  23. 23. humanas são sistemas complexos) ocorrem, em boa parte,espontaneamente (se entendermos por isso que ocorrem em virtude defluições que não alcançamos compreender e determinar). Estamos lidandocom uma ordem de fenômenos que não podemos manejar (e é bom para aliberdade – para a livre aprendizagem humana – que não possamos fazerisso). A livre aprendizagem humana só pode ocorrer em redes deaprendizagem, quando nos libertarmos das escolas.Se quisermos uma rede de aprendizagem – i. e., uma não-escola – nãopodemos constituir um grupo que saia pelo mundo propagando um legadobaseado nas idéias de algum fundador. Para ser uma rede, o legado temque ser open, para poder ser desenvolvido, alterado, modificado, semnecessidade de ordenação ou chancela. Para poder ser rede a membranadeve deixar entrar e sair outros conteúdos dentro do escopo estabelecido(posto que se será uma rede voluntariamente construída haverá um escopodelimitado e algumas regras ou acordos de convivência, mas isso nada tema ver com a adesão a um conteúdo substantivo). Sempre sem exigências, éclaro. Mas sabendo que sem interagir com o outro imprevisível, com aqueleque não planejamos interagir, não pode haver rede (social distribuída).Em suma, uma escola deve ser uma não-escola para ser rede. Não bastafluir na sintonia interna dos que acolhem o outro que reconhecem comodesejoso de conservar o que querem conservar, do lugar onde estão, desdeque esse conservar seja referente a um compartilhar um determinadoconteúdo. Dizendo a mesma coisa de outra forma, não é o desejo (dossujeitos) de conservar determinado corpo teórico, nem mesmo o desejo deconservar um modo de convivência explicitável e explicável (pelos sujeitos)que constitui a comunidade humana (ou a rede). A rede acontece quandovocê interage. Tudo que podemos fazer para ensejar a interação é evitar aprodução artificial de escassez (é mais um não-fazer). Não adiantasistematizar conteúdos e esperar que, sintonizando-se com tais conteúdos,as pessoas passarão a conviver em rede. Isso ainda está no terreno doproselitismo (uma dimensão de ensino, de propagação de ensinamento, nãode aprendizagem).As regras ou acordos de convivência estabelecidos por uma redevoluntariamente construída não são o mesmo que a adesão a um conteúdosubstantivo (e, portanto, ninguém pode ser expulso de uma não-escola porestar em desacordo ou dessintonia com um conteúdo e ninguém terá comocondição para ser admitido estar de acordo com tal conteúdo, como fazemas religiões, as seitas iniciáticas e as escolas de pensamento, inclusive asescolas budistas que aconselham matar o Buda). 23
  24. 24. Espiritualidade, não religiãoFormas pós-religiosas de espiritualidade, livres das ordenações dasburocracias sacerdotaisNos novos mundos altamente conectados que estão emergindo, formas pós-religiosas de espiritualidade vão florescer. Elas serão mais-fluzz, quer dizer,mais expressões do curso que flui nas relações entre os humanos e doshumanos com o seu habitat do que tentativas de sintonia com um todocósmico extra-humano. Elas serão espiritualidades consumáveis nainteratividade ("terrestres" no sentido de serem realizáveis sem produziranisotropias no espaço-tempo dos fluxos).Por isso se diz: quando fluzz soprar, prá que religião, prá que igreja?Humberto Maturana (2003) reinterpretou a origem das crenças místicas queestão na base das experiências que dão significado à vida humana a partirda hipótese de que havia (ou poderia e, então, poderá novamente haver)uma "espiritualidade" inerentemente terrestre (como a que apresentavamsupostamente as sociedades agricultoras-coletoras incidentes na Europapré-patriarcal) (11).O relevante nesse esforço de modificação do passado (quer dizer, demodificação do passado que só não-passou porque continua dentro danossa mente, ou melhor, continua se propagando através da cultura, dosprogramas que "rodam" na rede social e por isso se replicam) é que essa"espiritualidade" ou experiência mística não gerou propriamente religiões.A visão de Maturana sobre o que chamamos de religião é precisa: "umareligião é um sistema fechado de crenças místicas, definido pelos crentescomo o único correto e plenamente verdadeiro" (12).Com efeito, para ele, "No processo de defender o seu viver místico, os patriarcas indo- europeus criaram uma fronteira de negação de todas as conversações místicas diferentes das suas. E estabeleceram, de fato, uma distinção entre o que passou a ser legítimo e ilegítimo, crenças verdadeiras e falsas. No âmbito espiritual, realizaram a praxis de exclusão e negação que, operacionalmente, constitui as religiões como domínios culturais de apropriação das mentes e almas dos membros de uma 24
  25. 25. comunidade pelos defensores da verdade ou das "crenças" verdadeiras... [Quando se forma uma comunidade de crentes] o corpo de crenças adotadas pelos novos crentes - qualquer que seja sua complexidade e riqueza - não constitui uma religião. Isso só ocorre se os membros dessa comunidade afirmarem que suas crenças revelam ou envolvem alguma verdade universal, da qual eles se apropriaram por meio da negação de outras crenças... A apropriação de uma verdade mística ou espiritual que se sustenta como verdade universal constitui o ponto de partida ou de nascimento de uma religião" (13).Se Maturana pode imaginar uma matriz assim, projetando-a no passado,também podemos fazer o mesmo, projetando-a no futuro. No mundo quecriou, Maturana está absolutamente certo do ponto de vista dos novosmundos que quisermos co-criar.A dimensão mística (ou espiritual) faz parte de qualquer cultura que sepossa chamar propriamente de humana. Como bem define Maturana, "aexperiência mística - repito: a experiência na qual uma pessoa vive a simesma como componente integral de um domínio mais amplo de relaçõesde existência... depende da rede de conversações em que ela está imersa, ena qual vive a pessoa que tem essa experiência" (14).Não há, portanto, qualquer problema com a espiritualidade. O problema écom a religião. Não precisamos para nada de uma pós-espiritualidade e simde novas formas (pós-religiosas) de espiritualidade.Podemos erigir igrejas, em um sentido amplo do termo (tão amplo queabarque até mesmo as escolas), sem ter religião (e podemos, ainda,codificar religiões laicas). Mas igreja, stricto sensu, só surge realmentequando erigimos um corpo separado de intérpretes, ou seja, umaburocracia sacerdotal que, por algum motivo, seja ordenada para fazeralguma intermediação entre o leigo (o não ordenado) e a revelação ou afonte prístina da doutrina codificada (como nas religiões baseadas emescrituras).Todas as chamadas tradições espirituais que surgiram na civilizaçãopatriarcal são míticas-sacerdotais-hierárquicas-autocráticas. E não é a toaque se possa falar de uma tradição: há um fundo comum a todas elas.Todas - não apenas as templárias - replicam anisotropias no espaço-tempodos fluxos (privilegiando, de alguma forma, a direção vertical). 25
  26. 26. As doutrinas da tradição verticalizaram o mundo "povoando” todo ouniverso simbólico - ou aquilo que foi chamado de "mundo da psique" - comformas que não concorrem para o estabelecimento de um cosmos social quemantenha as mesmas propriedades em todas as direções, mas, pelocontrário, que privilegiam a direção vertical. Não é por outro motivo queachamos que deus está em cima e que o céu está em cima; o caminhoevolutivo é sempre pensado como uma subida e o regressivo como umadescida. São camadas e camadas de interpretações simbólicas, depositadasuma sobre a outra, milênio após milênio.Basta entrar em um templo de qualquer ordem espiritual tradicional para seperceber com que profundidade o universo simbólico está marcado peladireção vertical. Nessas construções – sobretudo da tradição ocidental,herdeira do simbolismo templário babilônico, i. e., sumério – o caminho quenos conduz para deus, representado em geral por um triângulo, passa entreas duas colunas que se elevam do piso plano. E então encontramos otriângulo com o vértice para cima, sobre o quadrado, o pentagramaverticalmente orientado e muitas outras "orientações" que "norteiam" odesenvolvimento dos rituais e das práticas mágicas. O conteúdo ideológicoque esses símbolos encarnam está inegavelmente associado à idéia de umpoder vertical, do qual a pirâmide é o mais expressivo exemplo. E há aindaas escadas, muitas escadas, introduzidas por primeiro pelos templossumérios - os zigurates: pirâmides feitas de escadas, com degrausrepresentando graus de subida; ou de descida.Se houver uma mística (ou espiritualidade) não-patriarcal (nem matriarcal,é óbvio) ela será terrestre (horizontal, ou melhor, multidirecional). Toma-seaqui "terrestre" como isotrópico (nada de privilegiar a direção vertical: asfluições devem manter as mesmas propriedades em todas as direções).Ora, isso casa perfeitamente com a idéia de “formas pós-religiosas deespiritualidade” (uma feliz expressão de William Irwin Thompson) (15).Essas formas também não podem ser codificadas como doutrinas e nemservir de base para a ereção de igrejas (de qualquer tipo, stricto ou latosensu). É a espiritualidade da vida cotidiana, da pessoa comum, doconectado a uma rede de conversações, do livre-interagente (nãoexatamente do participante) com o outro-imprevisível (e, portanto, abertaao compartilhamento fortuito e não fechada no cluster dos que professam amesma fé). 26
  27. 27. Quem disse que os deuses não existem?Os deuses das religiões foram problemáticos porque foram hierárquicos eautocráticos como as religiões que os construíramOs problemas com as igrejas (e religiões) erigidas no contra-fluzz não têmnada a ver com os deuses. Têm a ver, isto sim, com os deuses das igrejas(e das religiões). Deuses existem desde que existe sociedade humana,muito antes de erigirmos igrejas e constituirmos religiões. E igrejas ereligiões seriam – e foram, e são, e serão – sempre problemas (para arede-mãe), mesmo sem quaisquer deuses.“Quem mandou dizer ao povo que os deuses não existem?” A pergunta teriasido feita – em tom de reprimenda – por Robespierre aos seuscorreligionários. Mas se isso não for uma lenda, se ele fez realmente talpergunta, foi movido por maus motivos: não lançar desesperança sobre asmassas... Faz parte da mentalidade de comando-e-controle. Agora, porém,podemos refazer a pergunta de outra forma: quem disse que os deuses nãoexistem?Quanto mais investigamos as redes, mais evidências surgem de que osdeuses existem. Se não existissem, como explicar que tantas pessoas, aolongo da história (e inclusive na pré-história), tenham pautado seuscomportamentos em sintonia ou obediência ao que acreditavam ser anatureza, a essência ou os ditames divinos? Eles existem, sim, comomodelos mentais, quer dizer, sociais (16).Os deuses, se já não se pode acreditar que sejam criadores do cosmosnatural, sem dúvida são criadores de cosmos sociais. Eles são matrizes deprogramas que rodam na rede social. Congregam modelos do que seráconstelado no espaço-tempo dos fluxos e do que virará fenômeno social e,até, do que se codificará como norma, do que se congelará como instituiçãoe do que se materializará como cidade, rua, praça. Sim, Zeus Agoraiosestava de fato presente naquela praça do mercado da velha Atenaschamada Ágora. Mas o que significa dizer isso?Até a democracia nascente – laica por essência – tinha lá os seus deuses:por exemplo, o Zeus Agoraios e a deusa Peitho. Mas quando os gregos doséculo de Péricles invocam Zeus Agoraios eles conferem às conversaçõesentre os homens livres na praça do mercado (o espaço público nascente) ocaráter de algo digno de ser abençoado e protegido por um deus, abrindo 27
  28. 28. uma brecha na tradição centralizadora (hierarquizante) segundo a qual osdeuses tratavam desigualmente os humanos, ungindo os hierarcas e seusrepresentantes (reis e sacerdotes) para conferir-lhes a autorização (divina)de exercer o poder sobre os demais e guiá-los por algum caminho. Quandoos gregos invocam Peitho, a persuação deificada, eles confrontam a idéiaautocrática de que a política era uma continuação da guerra por outrosmeios. Como escreveu Hannah Arendt (c. 1950) (17): “No que dizia respeito à guerra, a polis grega trilhou um outro caminho na determinação da coisa política. Ela formou a polis em torno da ágora homérica, o local de reunião e conversa dos homens livres, e com isso centrou a verdadeira coisa política’ — ou seja, aquilo que só é próprio da polis e que, por conseguinte, os gregos negavam a todos os bárbaros e a todos os homens não-livres — em torno do conversar-um-com-o-outro, o conversar-com-o-outro e o conversar-sobre-alguma-coisa, e viu toda essa esfera como símbolo de um peitho divino, uma força convincente e persuasiva que, sem violência e sem coação, reinava entre iguais e tudo decidia. Em contrapartida, a guerra e a força a ela ligada foram eliminadas por completo da verdadeira coisa política, que surgia e [era] válida entre os membros de uma polis; a polis se comportava, como um todo, com violência em relação a outros Estados ou cidades-Estados, mas, com isso, segundo sua própria opinião, comportava-se de maneira ‘a política’. Por conseguinte, nesse agir guerreiro, também era abolida necessariamente a igualdade de princípio dos cidadãos, entre os quais não devia haver nenhum reinante e nenhum vassalo. Justamente porque o agir guerreiro não pode dar-se sem ordem e obediência e ser impossível deixar-se as decisões por conta da persuasão, um âmbito não-político fazia parte do pensamento grego”.Os deuses da democracia grega eram deuses da conversação, quer dizer,deuses-fluzz, deuses da interação. É claro que havia um âmbito a-político enão democrático na Grécia e, assim, havia também outros deuseshierárquicos e autocráticos (por exemplo, todos os deuses associados àguerra e à jornada do herói, aos vaticínios e ao destino).Mas como? Se a democracia é laica, por que teria ela seus deuses? Pois é.Laico não quer dizer propriamente ateu (sem deus) e sim sem religião(institucionalizada); ou seja, ser laico significa não fazer parte da burocraciasacerdotal instituída para intermediar a relação do homem com a divindade,isto é: para separar o ser humano da divindade; ou, como disse Jung, paraproteger o homem da experiência de deus, abrindo sulcos para fazerescorrer por eles as coisas que ainda virão; ou ainda – o que é a mesma 28
  29. 29. coisa – pavimentando com a crença um caminho para o futuro (econseqüentemente, eliminando outros caminhos, reduzindo nosso estoquede futuros possíveis, exterminando mundos).Não, não há nenhum problema com os deuses. Os deuses das religiõesforam problemáticos porque foram hierárquicos e autocráticos como asreligiões que os adotaram (na verdade, que os construíram para seuspropósitos). A questão relevante agora não é a de saber se existem ou nãoexistem deuses (uma controvérsia tola), mas a de saber em que medidaalgum deus (um programa capaz de rodar na rede-mãe e de ensejar algumtipo de experiência mística ou espiritual, permitindo que uma pessoa viva asi mesmo como componente integral de um domínio mais amplo derelações de existência) favorece a reprodução de uma sociedade hierárquicaou a emersão de uma sociedade-em-rede.Os deuses pré-patriarcais foram naturais e não geraram religiões. Osdeuses patriarcais foram sobrenaturais e geraram, estes sim, instituiçõeshierárquicas: escolas (e ensino), igrejas (e religiões) e, sobretudo, Estados.(Quem sabe os deuses pós-patriarcais serão sociais e não gerarão nenhumdesses tipos de deformações na rede-mãe – o que não significa, comoveremos adiante, que não possam inspirar novas formas mais interativas deespiritualidade).Não é por acaso que as primeiras formas de Estado erigidas nas cidadesantigas – as cidades-Estados da velha Mesopotâmia – tinham seus deuses.Cada uma tinha lá o seu deus ou a sua deusa. Um eco empalidecido dessatradição são os nossos santos e santas padroeiros de cidades. NaAntiguidade, porém, as cidades não eram apenas consagradas ou dedicadasao um deus ou deusa, senão que pertenciam aos deuses. Uruk e Ur eramde Innana, Nippur e Lagash de NinurtaA cidade-Estado-Templo sumeriana era uma habitação para um deus. Osseres humanos viviam nelas de favor. E para trabalhar para os deuses, paraser seus escravos (os feitores, é claro, eram os sacerdotes). Adorar (teruma devoção) era a mesma coisa – inclusive etimologicamente – quetrabalhar (a palavra hebraica ‘avod’, que pode ser traduzida por devoção,adoração e também por trabalho, ecoa esse perverso sentido ancestral).Os deuses em questão não eram os seres espiritualizados que foramidealizados depois. Eram apenas os superiores. Sobre-humanos sim, porémbelicosos, intrigantes, genocidas, carnívoros... Está claro que eram – ou semanifestavam como – programas verticalizadores do cosmos social. Nãoeram sobre-humanos no sentido de serem mais perfeitos do que os 29
  30. 30. humanos e sim no sentido de que não eram humanos, sua “presença” nãoera humanizante.Depois, por algum motivo, eles se hospedaram no subsolo de nossaconsciência social (?), naquela região misteriosa que foi chamada deinconsciente coletivo (!). Eles eram mais ou menos assim como os vírus quehoje tentam invadir nossos websites. É curioso que alguns sistemas desegurança anti-spam, lançando mão de um Teste de Turing reverso –Completely Automated Public Turing test to tell Computers and HumansApart (CAPTCHA) – sugestivamente perguntam: “Você é humano?” e entãomandam a gente copiar algumas letras com formatação desfigurada (coisaque, por enquanto, os robôs virtuais ainda não conseguem fazer, só oshumanos). Nenhuma organização hierárquica passaria nesse teste!Deuses sobre-humanos (ou não humanizados) levam necessariamente asistemas de dominação. Todo relacionamento vertical recorrente (estruturacentralizada) materializa um sistema de dominação. Osho acertou em cheioo coração do problema quando disse: “não tenho nenhum Deus; dessemodo, não tenho nenhum programa para você no qual você possa sertransformado em um escravo”. Ele decifrou o enigma quando identificou osdeuses das religiões com um programa, um programa verticalizador.Portanto, o problema não são os deuses e sim esses deuses criados àimagem e semelhança dos hierarcas, que talvez os tenham criado assim aonão aceitarem o fluxo transformador da vida, para tentar evitar a morte; eao não aceitarem fluzz – o fluxo transformador da convivência social –, paratentar perenizar os mundos que construíram em detrimento de outrosmundos possíveis.Sim, o problema são os deuses autocráticos, feitos à imagem e semelhançados sistemas de dominação. Esses deuses serão hierárquicos, por certo,mas, do ponto de vista das redes distribuídas, não haveria nenhumproblema com deuses humanizados que não exigissem culto, obediência ousubordinação (como Jesus de Nazareh, por exemplo, aquele judeu marginalque humanizou IHVH, desde que não se tivesse tentado instrumentalizarsuas experiências de vida e convivência social para codificar doutrinas,constituir religiões e erigir igrejas). Mas, como? Atribuir a uma pessoa, comexclusividade, um caráter divino, como fizeram, por alguma razão, seusprimeiros discípulos, não seria um contra-senso nos mundos altamenteconectados em que cada pessoa é uma singularidade em um mesmo tecido(social), possuidora, portanto, do mesmo status (humano) de todas asoutras? Ora, William Blake, um poeta – porque os poetas são pessoas-fluzz 30
  31. 31. – já resolveu essa questão para nós quando escreveu: “Jesus é o únicoDeus. Assim como eu, assim como você”.Desse mesmo ponto de vista, não haveria nenhum problema com deusespós-patriarcais que fossem sociais (como o que foi chamado de EspíritoSanto e que a comunidade dos amantes celebra dizendo: “Ele está no meiode nós”) – para seguirmos a numinosa compreensão, manifestada algurespor Leo Jozef (Cardeal) Suenens, quando escreveu: “É precisam que sejammuitos para ser Deus”.Deuses divididos? Osíris foi – em uma de suas “não-vidas” – um deusdividido, acorde às necessidades de descentralização da teocracia faraônica.Deuses pós-religiosos serão fractalizados, acorde às contingências dedistribuição dos Highly Connected Worlds. Sim, os deuses se modificamquando modificamos o hardware. E consequentemente muda também o quechamamos de espiritualidade.Em um mundo distribuído não pode haver culto organizadocentralizadamente (por igrejas). Libertada do culto (e das suas ordenaçõesreligiosas), a espiritualidade também se distribui por todas as pessoas, cadaqual podendo livremente vivê-la de acordo com suas conexões. Cadapessoa (que quiser) pode experimentá-la nas contingências do seu fluir, emsintonia com as redes sociais em que está imersa; ou seja, convivendo-a.No mundo único as pessoas viveram oprimidas por idéias totalizantes euniformizantes, fossem, por um lado, provenientes da crença religiosa emum deus único (e incognoscível), fossem – pelo lado oposto – provenientesda crença tola de que deus não existe, ditada por uma ciência promovida apansofia. Isso gerou um sem número de problemas, sobretudo psicológicos,quando as pessoas passaram a reprimir sua espiritualidade por medo dovexame e da reprovação dos bem-pensantes. Tal “verdade” supostamentelibertadora, revelada por uma ciência deslizada do seu escopo, baseada emuma espécie de religião laica iluminista, era, na verdade, opressiva.Libertadas desse bom-senso ateista as pessoas podem ter sua própriaexperiência de deus (ou de qualquer ente ou processo que queiram escolherpara representar ou simbolizar um domínio mais amplo de relações deexistência no qual se sintam inseridas e possam viver tal inserção),interagindo.Tal inserção, é claro, também pode ser vivida sem conotação mística. Comodisse Ilya Prigogine (1986) em entrevista a Renée Weber, em Diálogos comcientistas e sábios: “Pessoalmente, sinto que chegamos hoje à percepção deestarmos entranhados no mundo como um todo. Estamos descobrindo um 31
  32. 32. vínculo sem recorrer a nenhum misticismo externo, estranho” (18). O quediminuirá, nos Highly Connected Worlds, são as chances de vivermos essevínculo permanecendo do “lado de fora” do abismo, precavidos contra ocaos ou protegidos da interação.Deuses interativos, porém, não estarão no futuro, como aquele da tradiçãohebraica que não podia ser nomeado a não ser pela expressão Ehie AsherEhie – traduzível por “Eu serei o que serei” (o hebraico aceita) posto queestava no futuro. Esse deus da utopia (e da profecia), do não-lugar (porqueo lugar do seu tempo nunca chega) – e refletindo sobre o qual o marxistaheterodoxo, materialista e ateu, Ernst Bloch (1968) em O ateísmo nocristianismo, usinou a pérola: “Deus não existe, porém existirá” (19) – nãopode interagir com as pessoas e, assim, não pode ser um deus-fluzz; ou, oque é a mesma coisa, não pode ensejar uma experiência mística ouespiritual fluzz.Formas pós-religiosas de espiritualidade serão predominantemente i-basede, portanto, tenderão a ser vividas no presente (o que significa que não nosjogarão naquela corrente alucinante da utopia e da profecia que tudoarrasta para o futuro, alienando-nos do presente).Tudo indica, porém, que as religiões (e as igrejas ou as ordens sacerdotais)remanescerão por muito tempo ainda. Mas a despeito de continuaremrodando na rede social, esses programas podem agora ser hackeados pelosnovos hereges que já estão no meio de nós. Sim, como disse Bloch, “omelhor da religião é que ela produz hereges” (20). 32
  33. 33. Ecclésias, não ordens sacerdotaisSeus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Para achá-losvocê tem que remover o firewall e expor-se à interaçãoMas o que colocaremos no lugar das igrejas (e das religiões)? Ora, nada. Ovelho mundo único já colocou muitas instituições para fazer as vezes deigrejas: as escolas (e o ensino), os partidos (e as corporações), o Estado-nação (e seus aparatos). Mutatis mutandis, todas essas funcionam mais oumenos da mesma maneira, como ordens sacerdotais. E todas elas vãocontinuar existindo, com uma estrutura e uma dinâmica parecidas com asque têm hoje, para quem não entrar nos Highly Connected Worlds.Mas quem assumir a condição de nômade, viajante dos interworlds, pode –se quiser – fundar sua própria igreja-não-igreja. Nos mundos altamenteconectados ninguém pode impedir, nem conseguirá dissuadir, que aspessoas fundem suas próprias não-igrejas. Elas não serão ordenssacerdotais, por certo, mas poderão ser ecclesias, no sentido deaglomerados dos que querem conviver sua espiritualidade, ou seja, dos quequerem compartilhar as formas semelhantes como vivem um domínio maisamplo de relações de existência celebrando suas afinidades e amorosidadesmutuas. O número dessas novas igrejas-não-igrejas tende a aumentar.Simplesmente porque – nos mundos em que se constituírem – também nãohaverá tantas restrições de ordem moral e cultural para sua existência.Ecclesias como assembléias de amantes, como redes (abertas) debuscadores que se dispõem a polinizar mutuamente os modos pelos quaisvivem sua mística ou sua espiritualidade, vão proliferar no lugar de igrejascomo ordens sacerdotais (fechadas) que se proclamam o único caminho, aúnica porta, a única esperança de salvação e que disputam entre si o tempotodo oferecendo-nos um formidável (e deplorável) contra-exemplo defraternidade. As velhas igrejas – essas armadilhas construídas paraarrebanhar ovelhas e apascentá-las – continuarão existindo, é claro, masperderão relevância.Na medida em que um superorganismo humano começa a se manifestarnos mundos altamente conectados e que novos fenômenos – como oclustering, o swarming, o clonning o crunching e tantos outros que estãoimplicados no que chamamos de inteligência coletiva (e, quem sabe, no queainda vamos chamar de emoção coletiva) – começam a irromper, haveráum motivo adicional para compartilhar. Você pode preferir o olhar do 33
  34. 34. investigador que analisa tais fenômenos tentando manter os protocoloscientíficos de isenção e objetividade. Mas você também pode simplesmenteviver e celebrar seu vínculo com essas novas ‘Entidades’ sociais – a palavra,assim com maiúscula, foi usada por Jane Jacobs em 1961 (21) – que seformam em uma dimensão mística. Se você buscava um domínio maisamplo de relações de existência para dar sentido à sua vida e vivê-la emsintonia com essa realidade (avaliada por você, não importa, comotranscendente ou imanente), ei-lo: o simbionte social!O fundamental aqui é que não haja fechamento. Nos múltiplos mundosinterconectados estão outras pessoas que se sentem (e sentem atranscendência ou a imanência) como você e podem se sintonizar comvocê. Seus irmãos e irmãs estão espalhados em múltiplos mundos. Paraachá-los você tem que remover o firewall e expor-se à interação. Bem, aofazer isso é possível que mais cedo ou mais tarde você perceba que tudo foiapenas um não-caminho. E descubra que seus irmãos e irmãs são todas aspessoas que estão em todos os mundos.Se você quiser fazer isso agora, possivelmente será encarado como herege.Aos olhos do mundo único será um herege, assim como são hereges os queabandonaram a escola, rejeitaram o ensino, rasgaram seus diplomas etítulos e se transformaram em catalisadores de processos de aprendizagemem comunidades livres de buscadores e polinizadores, estruturadas emrede. Assim como são hereges os que, desistindo dos partidos, nãodesistiram de fazer política (pública) nas suas localidades, na base dasociedade e no cotidiano dos cidadãos. Assim como são hereges os querenunciaram ao Estado-nação (e às suas pompas, e às suas glórias),refugando também as noções regressivas de patriotismo e nacionalismo, eviraram cidadãos transnacionais de suas glocalidades...Mas cuidado! Os anunciadores de uma nova ordem não são hereges nosentido em que a palavra está sendo usada aqui (quase aquele sentido emque Ernst Bloch empregou-a ao dizer que “o melhor da religião é que elaproduz hereges”). São replicadores ou trancadores. No último meio séculotivemos ondas e ondas de supostos hereges vaticinando um mundo novo.No fundo, o porvir radiante que anunciavam não era mais do que arevivescência de uma ordem ancestral hierárquica. 34
  35. 35. Não há uma ordem pré-existente A ordem está sempre sendo criada no presente da interaçãoO reflorescimento das idéias espiritualistas que ocorreu na New Ageprovocou uma bateria de ondas que continuam até hoje quebrando naspraias dos buscadores de todos os matizes, mais de quarenta anos depois(se bem que, agora, já com intensidade bastante reduzida). As pessoasque, nas mais diversas situações, procuravam um sentido para suas vidas,tanto em experiências meditativas de recolhimento individual, quanto emensaios coletivos de novos padrões de convivência social, queriam, nofundo, viver sua espiritualidade em uma época ainda pré-fluzz, mas que jáanunciava tempos vertiginosos, de alta interatividade. E saíam então paratodo lado em busca de novos caminhos, guias e mestres.Grande parte desses exploradores, porém, não empreendia livremente ousem pré-conceitos suas buscas. Estavam impregnados das idéias –assopradas e reforçadas pelos gurus que se apresentavam em profusão –de “um novo reino de velhos magos”. Na base das mais diversas doutrinas,seitas, sociedades e ordens espiritualistas e ocultistas que ofereciamnaquele mercado seus produtos e serviços, havia, entretanto, uma mesmavisão básica, a qual aderiam tanto físicos e biólogos de vanguardainteressados no diálogo entre ciência e religião quanto roqueiros, quasetodos sem prestar muita atenção aos seus pressupostos: a idéia de quehavia uma ordem implícita (ou implicada) pré-existente em alguma esferada realidade, oculta ou não acessível imediatamente.Eles queriam então ter acesso a essa ordem pura, queriam estabelecer umasintonia com esse modelo não-manifestado, queriam atingir estadossuperiores de consciência para contemplar essa espécie de Unimatrix One e,para tanto, lançavam mão dos mais variados exercícios reflexivos, técnicasmeditativas, rituais teúrgicos, práticas mágicas e processos de iniciação.Ainda vivemos nas bordas dessas vagas, embora a New Age não tenhaacontecido segundo o que foi previsto. O mundo único não se reencantoucom o reflorescimento de espiritualidades ancestrais. Ainda bem. Porque oque está acontecendo nos múltiplos mundos altamente conectados é muito,muito mais profundo, mais abrangente e mais surpreendente do que tudoque anunciaram os gurus da nova era. 35
  36. 36. Depois dos gurus, vieram alguns hereges dizendo: não há uma ordem; sehá, foi inventada por alguém e não quero me subordinar a ela. Os pioneirosda Internet e os visionários do ciberespaço dos anos 90 foram impelidos poresse vento libertário, em parte sob a influência de obras disruptivas comoTAZ – Zona Autônoma Temporária (22) e CAOS – Os panfletos doAnarquismo Ontológico (23), dois escritos seminais de Hakim Bey (1985) edos romances de ficção científica Neuromancer (24) de William Gibson(1984) e Ilhas na Rede (25) de Bruce Sterling (1988) que, entre outros,deram origem aos cyberpunks. Talvez pouca gente suspeite disso, mas essainfluência foi decisiva para a criação das ferramentas interativas queexistem hoje (inclusive para a Internet e a World Wide Web), conquantonão se possa dizer que ela tenha durado muito. Tais pioneiros e visionários,em boa parte, logo entraram no contra-fluzz ao fecharem suas descobertas(construindo programas proprietários e escondendo seus algoritmos) paraacumular suas fabulosas fortunas ou ao se deixarem contaminar pelasidéias contraliberais que impulsionaram os movimentos antiglobalização nodealbar dos anos 2000 sob a bandeira de que “um outro mundo é possível”.Se um herege inventa a sua própria ordem e quer que as pessoas passem aseguí-la – quer transformando-as em usuários cativos de seus produtos,quer arrebanhando-as em seus movimentos supostamente transformadores– aí já deixa de ser herege e passa a ser um sacerdote, um burocrata aserviço da reprodução do sistema que criou.No entanto, a despeito dessas ondas regressivas que apenas revelavam aresiliência do velho mundo único, de suas estruturas e de suas dinâmicas, ovento continuou a soprar.Começaram a aparecer os que, rejeitando os títulos de mestre ou guru,recomendavam simplesmente não-fazer nada. Já eram estes os precursoresdos novos mundos-fluzz. Porque quando se espia “do outro lado”, não se vêordem alguma – somente o nada, o abismo, fluzz. Fluzz significa que nãohá uma ordem pre-existente em algum mundo invisível (da emanação, dacriação ou da formação). A ordem está sempre sendo criada no presente dainteração. É mais ou menos assim como imaginou Ilya Prigogine (1984),destoando inclusive de outros cientistas envolvidos com tais especulações(de David Bohn a Paul Davies, passando por Fritjof Capra): o universo écriativo e “se cria à medida que avança” (26).Novamente é o caso de dizer: bem, isso muda tudo.Jack Kerouac e seus beatniks dos anos 50-60, Swami Satchidananda emWoodstock, os hippies dos anos 70 e os “hippies” tardios dos 80, talveztenham pressentido isso, mas não podiam ter um entendimento do que 36
  37. 37. estava vindo. O próprio Peter Lamborn Wilson (Hakim Bey) e os cyberpunkstalvez tenham apenas sentido o sopro, sem chegarem a ver de onde (e paraonde) ele soprava. Pierre Levy (2000), em uma corajosa jornadaintrospectiva, cujas notas estão no diário de bordo O fogo liberador (27)(uma obra de inspiração heraclítica), empreendeu explorações em antigastradições espirituais (como o budismo e a cabala) para tentar captar-lhe osentido. Mas não havia sentido: “o vento sopra onde quer; você o escuta,mas não pode dizer de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3: 8).Pessoas como Paul Baran (On distributed communications), Vinton Cerf(TCP/IP), Tim Berners-Lee (WWW), Linus Torvalds (Linux) e Rob McColl(Apache), embora aparentemente nunca tenham feito tais explorações,contribuiram objetivamente para que hoje pudessemos reconfigurar a busca(e talvez tenham causado um impacto mais profundo do que aquelesprovocados pelos empreendimentos proprietários fechados dos Gates, dosJobs, dos Pages, dos Stones e dos Zuckerbergs e de muitos outrostrancadores de códigos que vieram ou ainda virão).Sim, reconfigurar a busca. Em mundos altamente conectados a busca nãoexiste sem a polinização. Não há um mainframe (como se fosse umdiretório de registros akashikos) onde você possar buscar respostas parasuas perguntas. Se houver, tais respostas não lhe servirão. Serão respostasdo passado que foi arquivado. Revelarão ordens pregressas. Conhecimentomorto. A busca, qualquer busca, inclusive a busca espiritual, é sempre umainteração. Nos Highly Connected Worlds toda busca é P2P: no seu mundo enos interworlds pelos quais você está navegando. A mesma busca, quandorepetida, fornece respostas necessariamente diferentes. E deixa o rastro dapergunta. De sorte que as respostas são, no limite, combinações dasperguntas que estão sendo feitas. Perguntas interagindo e se polinizandomutuamente para criar ordens inéditas.O buscador é um polinizador. É um criador de mundos. O buscador-polinizador é uma pessoa-fluzz. Uma pessoa-fluzz é mais ou menos o quedeveria ser uma pessoa-zen nas condições de um mundo de altainteratividade. Mas enquanto víamos a pessoa-zen como um indivíduo-no-caminho (conquanto ela não fosse isso realmente, posto que a descoberta-zen é a descoberta do ‘não-caminho’), a pessoa-fluzz não pode ser vistaassim: ela é enxame. O enxame muda continuamente sua configuração, oque significa que os caminhos também mudam continuamente com ainteração: o que era caminho em um momento já não é mais no momentoseguinte. A pessoa, como disse Protágoras (c. 430 a. E. C.) – ou a ele seatribui – “é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, 37
  38. 38. das coisas que não são, enquanto não são”. Assim seja (ou não-seja). Let itbe (ou not to be – o que é a mesma coisa).Os hereges nômades que já experimentam esses novos padrões deinteração viajando pelos interworlds e “audaciosamente indo onde ninguémjamais esteve” começam a gritar para os que teimam em juntar e colar oscacos de céu velho que estão despregando para prorrogar a vigência domundo único: “– Parem com isso! Não existem mestres. Não existem guias.Não existe caminho”. 38
  39. 39. Não-igrejas: porque não existe mais caminho O objetivo é ser pessoa, nada além dissoFluzz também é: tudo está conectado. E se tudo está conectado por que osseres humanos não estariam?É como se todo o mundo percebido e sentido fosse internalizado por essainterface (individual) com a mente (social) que chamamos de cérebro.Assim também a rede social. A máxima de Novalis (1798) “cada serhumano é uma pequena sociedade” (28) pode significar, por um lado, queos humanos importam a estrutura da rede social a que estão conectados.Algo se passa como se a rede fosse espelhada dentro da pessoa eminteração. As personalidades das pessoas conectadas são como quesimuladas internamente por um sujeito que, não raro, conversa com elas.Essa imagem espelhada é atualizada toda vez que há interação. E háespelhamento, é claro, porque há separação.Eis, talvez, o motivo pelo qual nunca estamos realmente sozinhos. Há umburburinho de fundo, permanentemente presente. Como borgs ouvimos, otempo todo, as “vozes da Coletividade”. Mas, diferentemente dos Borgs,como “ghola social”, cada pessoa internaliza de um modo diferente, unique.Sem essa imagem peculiar dos outros dentro de nós não podemos serpessoas, quer dizer, não podemos ser humanos. As imagens da “mesma”rede são tantas quanto os seus nodos. Imagens de imagens, redes dentrode redes. E o que se chama de ‘eu’ ou ‘você’ também são vários. Chegar aum só (aquela individuação junguiana) é final de percurso, não condição departida.Todavia nos novos mundos altamente conectados, o caminho daindividuação (não só aquele sobre o qual escreveu Jung, mas o caminho dailuminação de todas as tradições espirituais hierárquicas) não pode mais serpercorrido como uma jornada interior (no sentido psicológico-espiritualindividual). ‘Pessoa já é rede’ significa que eu e você compartilhamos omesmo indivíduo-social. Eu e você são variações de um mesmo substrato:singularidades em um tecido. Mas significa também, paradoxalmente, que‘eu sou um outro’, qualquer-outro, não apenas como complexo psicológico(como representação interiorizada), mas na rede, como realidade social. 39
  40. 40. Nos mundos pouco conectados dos milênios pretéritos, trabalhava-se comos materiais alquímicos das representações introjetadas, percorrendo-seinteriormente nebulosas estações arquetípicas em direção à totalidade. Avida humana (do buscador) era, de certo modo, apartada da sua vida social(do polinizador). O caminho era “pessoal” no sentido de individual e exigiaconsciência, confirmação intermitente de que eu vi o que vi, senti o quesenti, pensei o que pensei, sei o que sei, passei o que passei, vivi o quevivi... até me iluminar (ou não)! Mas isso só ocorre enquanto prevalece aseparação entre eu e o outro.Entretanto, quando vida humana e convivência social se aproximam, novoscaminhos se abrem, continuamente. Aquele pelo qual procurávamos nomeio de nós (no sentido de no nosso interior) passa a estar entre nós. Umanova topologia distribuída dos caminhos espirituais elimina os caminhosúnicos (mesmo quando únicos para cada pessoa). Os caminhos sãomúltiplos, inclusive para a mesma pessoa. O que significa dizer que nãoexiste mais caminho. Como captou o poeta: "Todos os caminhos, nenhumcaminho. Muitos caminhos, nenhum caminho. Nenhum caminho, a maldiçãodos poetas" (29).E não só os poetas percebem, mas também outras inquiring minds, deexploradores heterodoxos, como a do físico David Bohm (1970-1992),dedicado, nos últimos anos de sua vida, a compreender e promover ainteração que chamava de diálogo: ele chegou à conclusão de que “nãoexiste um ‘caminho’... no dialogo compartilhamos todas as trilhas e, porfim, percebemos que nenhuma delas é fundamental. Percebemos osignificado de todos os caminhos e, portanto, chegamos ao ‘não-caminho’.No fundo, todos os caminhos são os mesmos...” (30)Se o objetivo é ser pessoa, nada além disso, qualquer relação humana écaminho. A espiritualidade-fluzz não é percorrer uma trilha, completar umpercurso, mas deixar-se-ir de encontro dos demais, abrindo as própriasfronteiras ao outro-imprevisível. Ora, isso significa que você não precisamais de uma igreja – como cluster fechado dos que professam a mesma fé(a fé de que estão no mesmo caminho) – quer dizer, de um partido. 40
  41. 41. Máquinas para privatizar a políticaOs partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapúblicaNo velho mundo fracamente conectado as pessoas erigiam corporações –grupos privados hierarquizados – para fazer valer seus interesses.Simplesmente parecia ser a coisa “lógica” a ser feita em um mundo regidopela “lógica” da escassez. Assim também surgiram os partidos como umtipo especial de corporação: eles foram constituídos para fazer prevaleceros interesses de um grupo sobre os interesses de outros grupos e pessoascom base em (ou tomando como pretexto) um programa, um conjunto deidéias a partir das quais fosse possível conquistar e reter o poder paratornar legítimo o exercício (ilegítimo do ponto de vista social, quer dizer, doponto de vista das redes sociais distribuídas) de comandar e controlar osoutros.Partidos são organizações pro-estatais. Não é a toa que decalcam o padrãode organização piramidal do Estado. Mas, ao contrário do que se pensa, ospartidos vieram antes do Estado e nesse sentido são também organizaçõesproto-estatais. Os primeiros partidos foram religiosos: as castas sacerdotaisque erigiram o Estado.Sim, o Estado é, geneticamente, um ente privado. Estado como esferapública só surgiu (isso deveria ser uma obviedade, conquanto não soe comotal) quando se constituiu uma esfera pública, com a invenção dademocracia. Antes disso – por três milênios ou mais – os Estados foram oresultado da privatização dos assuntos comuns das cidades pelosautocratas. E depois disso, por quase dois milênios, os Estados continuaramsendo organizações privadas (só nos últimos dois ou três séculos eles seconstituiram, aqui e ali e, mesmo assim, em parte, como instânciaspúblicas, mais ou menos democratizadas; embora continuassem infestadospor enclaves autocráticos privatizantes).Os partidos são artifícios para nos proteger da experiência de políticapública. São um modo político de nos proteger da experiência de fluzz. Paratanto – em um regime de monopólio (nas ditaduras) ou de oligopólio (nasdemocracias formais) – eles privatizam a política pública. Sua existêncialegal indica que as pessoas, como tais, não precisam fazer política públicano seu cotidiano e na base da sociedade (nas suas comunidades): alguémfará tal política por elas! Mesmo nas democracias dos modernos entende-se 41
  42. 42. que as pessoas não devem fazer política pública, a menos que entrem emum partido: uma espécie de agência de empregos estatais, umaorganização privada autorizada a disputar com outras organizações privadascongêneres o acesso às instituições estatais reconhecidas legalmente comopúblicas e, portanto, encarregada com exclusividade de fazer políticapública. Enxugando de toda literatura legitimatória as teorias liberais sobreo papel dos partidos na democracia, o que sobra é mais ou menos isso aí.Ora, por mais esforço que se faça para justificar esse acesso diferencial aoexercício da política pública, parece óbvio que o sistema de partidosprivatiza a política. Ao se conferir aos partidos o condão de transformarpolitics em policy, as pessoas viram automaticamente clientela do sistema.As teorias liberais da democracia, é claro, não concordam com isso. Mas asteorias liberais da democracia são próprias de um mundo de baixaconectividade social, em que somente eram concebíveis as formas políticasrepresentativas de regulação de conflitos. Para os defensores dessasteorias, só existem, basicamente, os indivíduos. E a democracia é, via deregra, baseada em uma teoria das elites (mais Platão, menos Protágoras).Sua análise é coerente com que eles pensam. E eles pensam mais oumenos assim: é melhor o Estado-nação com todos seus enclavesautocráticos – e, inclusive, é melhor o império – garantindo a ordem, doque a barbárie da anarquia. No fundo essa é mais uma variação, em linhadireta, da visão hobbesiana. Abandonados à nossa própria sorte, semsermos domesticados por um poder acima de nós, nos engalfinharíamos emuma guerra de todos contra todos. Então o Estado tem, para eles, um papelcivilizador (assim como, para alguns, também tem esse papel a religião:pois se não houver um deus – dizem – tudo é permitido, tudo seria possívelem termos morais). O que se requer, apenas, é que esse Estado sejalegitimado pelos cidadãos em eleições limpas e períodicas e que osgovernos eleitos respeitem as regras do direito (interpretadas também, éclaro, pelas tais “elites civilizadoras”).Essa é a visão da democracia dos modernos na sua versão liberal, baseadano indivíduo. Mas tal visão não está mais adequada aos mundos altamenteconectados que estão emergindo. Por muitas razões (dentre as quais aprincipal é que o indivíduo é uma abstração) a democracia não pode ser oresultado de um pacto feito e refeito continuamente pelos indivíduos que seilustraram e que se comprometeram a manter uma ordem capaz de garantiraos (e exigir dos) demais indivíduos que eles continuem a conformar sualiberdade aos limites impostos pelos sistemas de poder que formalmentepermanecerem legitimados por eleições e respeitarem as leis. Isso, é claro,deve ser garantido, mas não para ser reproduzido indefinidamente como é e 42
  43. 43. sim para possibilitar que os cidadãos continuem - com liberdade -inventando novas formas de regular seus conflitos.Em mundos altamente conectados essa forma representativo-político-formalda democracia (a democracia no sentido "fraco" do conceito: como sistemade governo ou modo político de administração do Estado) deverá dar lugara novas formas mais substantivas e interativas (a democracia no sentido"forte" do conceito, das pessoas que se associam para conviver em suascomunidades de vizinhança, de prática, de aprendizagem ou de projeto).A democracia no sentido “forte” do conceito é uma democracia+democratizada, que recupera a linha da "tradição" democrática – umaimaginária linhagem-fluzz – que começa com o “think tank” de Péricles – doqual “participava”, entre vários outros, Protágoras –, passa por Althusius(1603), por Spinoza (1670-1677) e pelos reinventores da democracia dosmodernos, por Rosseau (1754-1762), por Jefferson (1776) e por aquele“network da Filadélfia” que conectava os redatores americanos daDeclaração de Independência dos Estados Unidos e pelos Federalistas(1787-1788), pelos autores europeus (desconhecidos) da Declaração dosDireitos do Homem e do Cidadão (1789), por Paine (1791), por Tocqueville(1835-1856), por Thoreau (1849) e por Stuart Mill (1859-1861), até chegaràs formas radicais antecipadas pela primeira vez por Dewey (1927-1939): ademocracia na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, a democraciacomo expressão da vida comunitária (31). Esta última será uma espécie demetabolismo das redes mais distribuídas do que centralizadas, algo assimcomo uma pluriarquia.É claro que os chamados cientistas políticos, em boa parte, não acreditamnisso. O que não significa nada, de vez que não existe uma ciência política.Se existisse uma ciência política, em qualquer medida para além de umaciência do estudo da política, não poderia haver democracia (pois nestecaso os governantes deveriam ser os cientistas e decairíamos na repúblicaplatônica dos sábios: uma autocracia). A despeito do que pensam os queforam ordenados nas academias da modernidade para legitimar a políticarealmente existente, há um argumento fatal contra suas (des)crenças: se ademocracia não pudesse ser reinventada novamente (pois ela já o foi umavez, pelos modernos) ela também não poderia ter sido inventada (pelaprimeira vez, pelos atenienses). 43
  44. 44. Autocratizando a democraciaÉ um absurdo pactuar que o acesso ao público só se dê a partir da guerraentre organizações privadasA democracia foi a mais formidável antecipação de uma época-fluzz que jáocorreu nos seis milênios considerados de “civilização”. Foi uma invençãofortuita e gratuita de pessoas que logrou abrir uma fenda no firewall erigidopara nos proteger do caos, para que não caíssemos no abismo.Na verdade as pessoas que inventaram a democracia não tinham a menorconsciência das implicações e consequências do que estavam fazendo.Talvez tivessem motivos estéticos. Ou talvez quisessem, simplesmente,abrir uma janela para poder respirar melhor. Em consequência, abriramuma janela para o simbionte social poder respirar, sufocado que estava, hámilênios, em sociedades de predadores (e de senhores). Como já foimencionado aqui, não é por acaso que no primeiro escrito onde aparece ademocracia (dos atenienses) – em Os Persas, de Ésquilo (427 a. E. C.) – elatenha sido apresentada como uma realidade oposta à daqueles povos quetêm um senhor.Era tão improvável que isso acontecesse, na época que aconteceu, como foio surgimento e a continuidade da vida neste planeta, perigosamenteinstável em virtude da composição atmosférica tão improvável quealcançou. Com efeito, um gás instável (comburente), corrosivo eextremamente venenoso como o oxigênio, que chegou a alcançar aimpressionante concentração de 20%, é uma loucura em qualquer planeta:mas foi assim que o simbionte natural – essa surpreendente capa biosféricaque envolve a Terra – conseguiu respirar.Do ponto de vista social, a democracia é um erro no script da Matrix. Nãose explica de outra maneira. Não era necessária. Nem foi o resultado dequalquer “evolução” social. Não surgiu dos interesses privatizantes dequalquer corporação. Surgiu em uma cidade no mesmo momento em quenela se conformou um espaço público.Isso significa que, geneticamente, a democracia é um projeto local e nãonacional. O grupo de Péricles (às vezes chamado indevidamente de “partidodemocrático”) não foi constituído para tentar converter os espartanos ouqualquer outro povo da liga ateniense à democracia (e nem para empalmare reter indefinidamente o poder em suas mãos, como grupo privado) e sim 44

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