Conversações Matrísticas e Patriarcais

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Texto de Humberto Maturana(1993)

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Conversações Matrísticas e Patriarcais

  1. 1. ConversaçõesMatrísticas &PatriarcaisHumberto Maturana 1993 1
  2. 2. Este é o primeiro capítulo do livro de Humberto Maturana e GerdaVerden-Zoller (1993) intitulado Amar e Brincar: Fundamentosesquecidos do humano, traduzido e publicado no Brasil pela PalasAthena Editora (São Paulo: 2009). 2
  3. 3. SumárioAPRESENTAÇÃOINTRODUÇÃO1 - O QUE É UMA CULTURA?2 - MUDANÇA CULTURAL3 - CULTURA MATRÍSTICA E CULTURA PATRIARCAL3.1 - Cultura patriarcal3.2 - Cultura matrística4 - O EMOCIONAR4.1 - O emocionar patriarcal4.2 - O emocionar matrístico5 - ORIGEM DO PATRIARCADO6 - A DEMOCRACIA6.1 - Origem6.2 - Ciência e Filosofia6.3 - A Democracia hoje7 – REFLEXÕES ÉTICAS FINAIS 3
  4. 4. NOTA PRELIMINARO termo "matrístico" é usado no título e no texto deste capítulocom o propósito de conotar uma situação cultural na qual amulher tem uma presença mística, que implica a coerênciasistêmica acolhedora e liberadora do maternal fora doautoritário e do hierárquico. A palavra "matrístico", portanto, éo contrário de "matriarcal", que significa o mesmo que o termo"patriarcal", numa cultura na qual as mulheres têm o papeldominante. Em outras palavras - e como se verá ao longo destecapítulo -, a expressão "matrística" é aqui usadaintencionalmente, para designar uma cultura na qual homens emulheres podem participar de um modo de vida centrado emuma cooperação não-hierárquica. Tal ocorre precisamenteporque a figura feminina representa a consciência não-hierárquica do mundo natural a que nós, seres humanos,pertencemos, numa relação de participação e confiança, e nãode controle e autoridade, e na qual a vida cotidiana é vividanuma coerência não-hierárquica com todos os seres vivos,mesmo na relação predador-presa. 4
  5. 5. APRESENTAÇÃOEste ensaio é o resultado de várias, inspiradas e iluminadorasconversas que tive com Gerda Verden-Zoller, nas quais aprendimuito sobre a relação materno-infantil e comecei a perguntar-me sobre a participação da mudança emocional natransformação cultural. Mas isso não é tudo. Essas conversaslevaram-me também a considerar as relações homem-mulherde uma maneira independente das particularidades daperspectiva patriarcal, e a perceber como elas surgem naconstituição do espaço relacional da criança em crescimento.Por tudo isso, agradeço-lhe e reconheço sua participação naorigem de muitas das ideias contidas neste trabalho. 5
  6. 6. INTRODUÇÃOEste ensaio é um convite a uma reflexão sobre a espécie demundo em que vivemos, e a fazê-lo por meio do exame dosfundamentos emocionais do nosso viver. A vida humana, comotoda vida animal, é vivida no fluxo emocional que constitui, acada instante, o cenário básico a partir do qual surgem nossasações. Além disso, creio que são nossas emoções (desejos,preferências, medos, ambições...) - e não a razão - quedeterminam, a cada momento, o que fazemos ou deixamos defazer. Cada vez que afirmamos que nossa conduta é racional, osargumentos que esgrimimos nessa afirmação ocultam osfundamentos emocionais em que ela se apoia, assim comoaqueles a partir dos quais surge nosso suposto comportamentoracional.Ao mesmo tempo, penso que os membros de diferentes culturasvivem, movem-se e agem de maneira distinta, conduzidos porconfigurações diferentes em seu emocionar. Estas determinamneles vários modos de ver e não ver, distintos significados doque fazem ou não fazem, diversos conteúdos em suassimbolizações e diferentes cursos em seu pensar, como modosdistintos de viver. Por isso mesmo, também creio que são osvariados modos de emocionar das culturas o que de fato astorna diferentes como âmbitos de vida diversos.Por fim, considero que se levarmos em conta os fundamentosemocionais de nossa cultura - seja ela qual for -, poderemosentender melhor o que fazemos ou não fazemos como seusmembros. E, ao perceber os fundamentos emocionais do nossoser cultural, talvez possamos também deixar que oentendimento e a percepção influenciem nossas ações, aomudar nosso emocionar em relação ao nosso ser cultural. 6
  7. 7. 1 - O QUE É UMA CULTURA?Nós, humanos, surgimos na história da família dos primatasbípedes à qual pertencemos quando o linguajear - comomaneira de conviver em coordenações de coordenaçõescomportamentais consensuais - deixou de ser um fenômenoocasional. Ao conservar-se, geração após geração, num grupohumano, ele se tornou parte central da maneira de viver quedefiniu dali por diante a nossa linhagem. Ou seja - e dito demodo mais preciso -, penso que a linhagem a que pertencemoscomo seres humanos surgiu quando a prática da convivência emcoordenações de coordenações comportamentais consensuais -que constitui o linguajear - passou a ser conservada de maneiratransgeracional pelas formas juvenis desse grupo de primatas,ao ser aprendida, geração após geração, como parte da práticacotidiana de convívio.Além disso, penso que, ao surgir como um modo de operar naconvivência, o linguajear apareceu necessariamente entrelaçadocom o emocionar. Constituiu-se então de fato o viver nalinguagem, a convivência em coordenações de coordenações deações e emoções que chamo de conversar (Maturana, 1988).Por isso penso que, num sentido estrito, o humano surgiuquando nossos ancestrais começaram a viver no conversarcomo uma maneira cotidiana de vida que se conservou, geraçãoapós geração, pela aprendizagem dos filhos.Também penso que, ao aparecer o humano - na conservaçãotransgeracional do viver no conversar -, todas as atividadeshumanas surgiram como conversações (redes de coordenaçõesde coordenações comportamentais consensuais entrelaçadascom o emocionar). Portanto, todo o viver humano consiste naconvivência em conversações e redes de conversações. Emoutras palavras, digo que o que nos constitui como sereshumanos é nossa existência no conversar. 7
  8. 8. Todas as atividades e afazeres humanos ocorrem comoconversações e redes de conversações. Aquilo que umobservador diz que um Homo sapiens faz fora do conversar nãoé uma atividade ou um afazer tipicamente humano. Assim,caçar, pescar, guardar um rebanho, cuidar das crianças, aveneração, a construção de casas, a fabricação de tijolos, amedicina... como atividades humanas, são diferentes classes deconversações. Consistem em distintas redes de coordenações decoordenações consensuais de ações e emoções.Na história da humanidade, as emoções preexistem àlinguagem, porque como modos distintos de mover-se narelação são constitutivas do animal. Cada vez que distinguimosuma emoção em nós mesmos ou em um animal, fazemos umaapreciação das ações possíveis desse ser. As diversas palavrasque usamos para referir-nos a distintas emoções denominam,respectivamente, os domínios de ações em que nós ou os outrosanimais nos movemos ou podemos mover-nos.Assim, ao falar de amor, medo, vergonha, inveja, nojo...conotamos domínios de ações diferentes, e advogamos quecada um deles - animal ou pessoa - só pode fazer certas coisase não outras. Com efeito, sustento que a emoção define a ação.Falando num sentido biológico estrito, o que conotamos ao falarde emoções são distintas disposições corporais dinâmicas queespecificam, a cada instante, que espécie de ação é umdeterminado movimento ou uma certa conduta. Nessa ordem deideias, mantenho que é a emoção sob a qual ocorre ou serecebe um comportamento ou um gesto que faz deles uma açãoou outra; um convite ou uma ameaça, por exemplo.Daí se segue que, se quisermos compreender o que aconteceem qualquer conversação, é necessário identificar a emoção queespecifica o domínio de ações no qual ocorrem as coordenaçõesde coordenações de ações que tal conversação implica.Portanto, para entender o que acontece numa conversação, épreciso prestar atenção ao entrelaçamento do emocionar e dolinguajear nela implicado.Além disso, temos de fazê-lo percebendo que o linguajearocorre, a cada instante, como parte de uma conversação emprogresso, ou surge sobre um emocionar já presente. Como 8
  9. 9. resultado, o significado das palavras - isto é, as coordenaçõesde ações e emoções que elas implicam como elementos, nofluxo do conversar a que pertencem - muda com o fluir doemocionar. E vice-versa: o fluxo do emocionar muda com o fluirdas coordenações de ações. Portanto, ao mudar o significadodas palavras modifica-se o fluxo do emocionar.Por causa do contínuo entrelaçamento do linguajear e doemocionar que implica o conversar, as conversações recorrentesestabilizam o emocionar que elas implicam. Ao mesmo tempo,devido a esse mesmo entrelaçamento do linguajear com oemocionar, mudanças nas circunstâncias do viver quemodificam o conversar implicam alterações no fluir doemocionar, tanto quanto no fluxo das coordenações de açõesdaqueles que participam dessas conversações.Pois bem: o que é uma cultura, segundo essa perspectiva?Sustento que aquilo que conotamos na vida cotidiana, quandofalamos de cultura ou de assuntos culturais, é uma rede fechadade conversações que constitui e define uma maneira deconvivência humana como uma rede de coordenações deemoções e ações. Esta se realiza como uma configuraçãoespecial de entrelaçamento do atuar com o emocionar da genteque vive essa cultura. Desse modo, uma cultura é,constitutivamente, um sistema conservador fechado, que geraseus membros à medida que eles a realizam por meio de suaparticipação nas conversações que a constituem e definem. Daíse segue, também, que nenhuma ação e emoção particularesdefinem uma cultura, porque esta, como rede de conversações,é uma configuração de coordenações de ações e emoções.Por fim, de tudo isso resulta que diferentes culturas são redesdistintas e fechadas de conversações, que realizam outrastantas maneiras diversas de viver humano como variadasconfigurações de entrelaçamento do linguajear com oemocionar. Também se segue que uma mudança cultural é umaalteração na configuração do atuar e do emocionar dosmembros de uma cultura. Como tal, ela ocorre como umamodificação na rede fechada de conversações que originalmentedefinia a cultura que se modifica. 9
  10. 10. Deveria ser aparente, pelo que acabo de dizer, que as bordas deuma cultura, como modo de vida, são operacionais. Surgemcom seu estabelecimento. Ao mesmo tempo, deveria sertambém aparente que a pertença a uma cultura é uma condiçãooperacional, não uma condição constitutiva ou propriedadeintrínseca dos seres humanos que a realizam. Qualquer serhumano pode pertencer a diferentes culturas em diversosmomentos do seu viver, segundo as conversações das quais eleparticipa nesses momentos. 10
  11. 11. 2 - MUDANÇA CULTURALSe uma cultura, como modo humano de vida, é uma redefechada de conversações, ela surge logo que uma comunidadehumana começa a conservar uma rede especial de conversaçõescomo a maneira de viver dessa comunidade. Por outro lado,desaparece ou muda quando tal rede de conversações deixa deser preservada.Dito de outra forma: uma cultura - na qualidade de redeparticular de conversações - é uma configuração especial decoordenações de coordenações de ações e emoções (umentrelaçamento específico do linguajear com o emocionar). Elasurge quando uma linguagem humana começa a conservar,geração após geração, uma nova rede de coordenações decoordenações de ações e emoções como sua maneira própria deviver. E desaparece ou se modifica quando a rede deconversações que a constitui deixa de se conservar. Assim, paraentender a mudança cultural devemos ser capazes decaracterizar a rede fechada de conversações que - como práticacotidiana de coordenações de ações e emoções entre osmembros de uma comunidade específica - constituem a culturaque vive tal comunidade. Devemos também reconhecer ascondições de mudança emocional sob as quais as coordenaçõesde ações de uma comunidade podem se modificar, de modo aque surja nela uma nova cultura. 11
  12. 12. 3 - CULTURA MATRISTICA E CULTURAPATRIARCALConsiderarei agora dois casos específicos. Um é a cultura básicana qual nós, humanos ocidentais modernos, estamos imersos -a cultura patriarcal europeia. O outro é a cultura que, sabemosagora (Gimbutas, 1982 e 1991), a precedeu na Europa e quechamaremos de cultura matrística. Essas duas culturasconstituem dois modos diferentes de viver as relações humanas.Segundo foi dito antes, as redes de conversação que ascaracterizam realizam duas configurações de coordenações decoordenações de ações e emoções distintas, que abrangemtodas as dimensões desse viver.A seguir, descreverei essas duas culturas em termos bem maiscoloquiais. Falarei do modo diferente de operar na vida cotidianade seus membros no âmbito das relações humanas. Mas antesquero fazer algumas considerações sobre a vida cotidiana.Penso que a história da humanidade seguiu e segue um cursodeterminado pelas emoções e, em particular, pelos desejos epreferências. São estes que, em qualquer momento,determinam o que fazemos ou deixamos de fazer, e não adisponibilidade do que hoje conotamos ao falar de recursosnaturais ou oportunidades econômicas, os quais tratamos comocondições do mundo cuja existência seria independente donosso fazer. Nossos desejos e preferências surgem em nós acada instante, no entrelaçamento de nossa biologia com nossacultura e determinam, a cada momento, nossas ações. São eles,portanto, que definem, nesses instantes, o que constitui umrecurso, o que é uma possibilidade ou aquilo que vemos comouma oportunidade. 12
  13. 13. Além disso, sustento que sempre agimos segundo nossosdesejos, mesmo quando parece que atuamos contra algo ouforçados pelas circunstâncias; fazemos sempre o que queremos,seja de modo direto, porque gostamos de fazê-lo, ouindiretamente, porque queremos as consequências de nossasações, mesmo que estas não nos agradem. Afirmo, ademais,que se não compreendermos isso não poderemos entender onosso ser cultural. Se não compreendermos que nossasemoções constituem e guiam nossas ações na vida, nãoteremos elementos conceituais para entender a participação denossas emoções no que fazemos como membros de uma culturae, consequentemente, o curso de nossas ações nela. Tambémafirmo, por fim, que se não entendermos que o curso das açõeshumanas segue o das emoções, não poderemos compreender atrajetória da história da humanidade.Caracterizemos agora as culturas patriarcal e matrística, emtermos das conversações fundamentais que as constituem, combase em como estas aparecem no que fazemos em nossa vidacotidiana.||3.1 - Cultura patriarcalOs aspectos puramente patriarcais da maneira de viver dacultura patriarcal europeia - à qual pertence grande parte dahumanidade moderna, e que doravante chamarei de culturapatriarcal - constituem uma rede fechada de conversações. Estase caracteriza pelas coordenações de ações e emoções quefazem de nossa vida cotidiana um modo de coexistência quevaloriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, aautoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriaçãode recursos e a justificação racional do controle e da dominaçãodos outros por meio da apropriação da verdade.Assim, em nossa cultura patriarcal falamos de lutar contra apobreza e o abuso, quando queremos corrigir o que chamamosde injustiças sociais; ou de combater a contaminação, quandofalamos de limpar o meio ambiente; ou de enfrentar a agressãoda natureza, quando nos encontramos diante de um fenômenonatural que constitui para nós um desastre; enfim, vivemos 13
  14. 14. como se todos os nossos atos requeressem o uso da força, ecomo se cada ocasião para agir fosse um desafio.Em nossa cultura patriarcal, vivemos na desconfiança ebuscamos certezas em relação ao controle do mundo natural,dos outros seres humanos e de nós mesmos. Falamoscontinuamente em controlar nossa conduta e emoções. Efazemos muitas coisas para dominar a natureza ou ocomportamento dos outros, com a intenção de neutralizar o quechamamos de forças antissociais e naturais destrutivas, quesurgem de sua autonomia.Em nossa cultura patriarcal, não aceitamos os desacordos comosituações legítimas, que constituem pontos de partida para umaação combinada diante de um propósito comum. Devemosconvencer e corrigir uns aos outros. E somente toleramos odiferente confiando em que eventual- mente poderemos levar ooutro ao bom caminho - que é o nosso ou até que possamoseliminá-lo, sob a justificativa de que está equivocado.Em nossa cultura patriarcal, vivemos na apropriação e agimoscomo se fosse legítimo estabelecer, pela força, limites querestringem a mobilidade dos outros em certas áreas de ação àsquais eles tinham livre acesso antes de nossa apropriação. Alémdo mais, fazemos isso enquanto retemos para nós o privilégiode mover-nos livremente nessas áreas, justificando nossaapropriação delas por meio de argumentos fundados emprincípios e verdades das quais também nos havíamosapropriado. Assim, falamos de recursos naturais, numa açãoque nos torna insensíveis à negação do outro implícita em nossodesejo de apropriação.Em nossa cultura patriarcal, repito, vivemos na desconfiança daautonomia dos outros. Apropriamo-nos o tempo todo do direitode decidir o que é ou não legítimo para eles, no contínuopropósito de controlar suas vidas. Em nossa cultura patriarcal,vivemos na hierarquia, que exige obediência. Afirmamos queuma coexistência ordenada requer autoridade e subordinação,superioridade e inferioridade, poder e debilidade ou submissão.E estamos sempre prontos para tratar todas as relações,humanas ou não, nesses termos. Assim, justificamos acompetição, isto é, o encontro na negação mútua como a 14
  15. 15. maneira de estabelecer a hierarquia dos privilégios, sob aafirmação de que a competição promove o progresso social, aopermitir que o melhor apareça e prospere.Em nossa cultura patriarcal, estamos sempre prontos a tratar osdesacordos como disputas ou lutas. Vemos os argumentos comoarmas, e descrevemos uma relação harmônica como pacífica, ouseja, como uma ausência de guerra - como se a guerra fosse aatividade humana mais fundamental.||3.2 - Cultura matrísticaA julgar pelos restos arqueológicos encontrados na área doDanúbio, nos Bálcãs e no Egeu (Gimbutas, 1982), a culturamatrística pré-patriarcal europeia deve ter sido definida por umarede de conversações completamente diferente da patriarcal.Não temos acesso direto a tal cultura. Penso, porém, que a redede conversações que a constituiu pode ser reconstruída pelo quese revela na vida cotidiana daqueles povos que ainda a vivem, epelas conversações não-patriarcais presentes nas malhas dasredes de conversação patriarcais que constituem nossa culturapatriarcal de hoje.Assim, acredito que devemos deduzir, com base nos restosarqueológicos acima mencionados, que os povos que viviam naEuropa entre sete e cinco mil anos antes de Cristo eramagricultores e coletores. Tais povos não fortificavam seuspovoados, não estabeleciam diferenças hierárquicas entre ostúmulos dos homens e das mulheres, ou entre os túmulos doshomens, ou entre os túmulos das mulheres.Também é possível notar que esses povos não usavam armascomo adornos, e que naquilo que podemos supor que eramlugares cerimoniais místicos (de culto), depositavamprincipalmente figuras femininas. Mais ainda, desses restosarqueológicos podemos também deduzir que as atividades deculto (cerimoniais místicos) eram centradas no sagrado da vidacotidiana, num mundo penetrado pela harmonia da contínuatransformação da natureza por meio da morte e do nascimento,abstraída como uma deusa biológica em forma de mulher, oucombinação de mulher e homem, ou de mulher e animal. 15
  16. 16. Como vivia esse povo matrístico? Os campos de cultivo e coletanão eram divididos. Nada mostra que permita falar depropriedade. Cada casa tinha um pequeno lugar cerimonial,além do local de cerimônias da comunidade. As mulheres e oshomens se trajavam de modo muito similar, nas vestes quevemos nas pinturas murais minóicas de Creta.Tudo indica que viviam imbuídos do dinamismo harmônico danatureza, evocado e venerado sob a forma de uma deusa.Também usavam as fases da lua, a metamorfose dos insetos eas diferentes peculiaridades da vida das plantas e animais, nãopara representar as características da deusa como um serpessoal, mas sim para evocar essa harmonia. Para eles, toda anatureza deve ter sido uma contínua fonte de recordação de quetodos os aspectos de sua própria vida compartilhavam a suapresença e estavam plenos de sacralidade.Na ausência da dinâmica emocional da apropriação, esses povosnão podem ter vivido na competição, pois as posses não eramelementos centrais de sua existência. Ademais, uma vez quesob a evocação da deusa-mãe os seres humanos eram, comotodas as criaturas, expressões de sua presença - e portantoiguais, nenhum melhor do que o outro apesar de suasdiferenças -, não podem ter vivido em ações que excluíssemsistematicamente algumas pessoas do bem-estar vindo daharmonia do mundo natural.Por tudo isso, penso que o desejo de dominação recíproca nãofoi parte da vida cotidiana desses povos matrísticos. Esse viverdeve ter sido centrado na estética sensual das tarefas diáriascomo atividades sagradas, com muito tempo disponível paracontemplar a vida e viver o seu mundo sem urgência.O respeito mútuo, não a negação suspensa da tolerância ou dacompetição oculta, deve ter sido o seu modo cotidiano decoexistência, nas múltiplas tarefas envolvidas na vida dacomunidade. A vida numa rede harmônica de relações, como aque evoca a noção da deusa, não implica operações de controleou concessões de poder por meio da autonegação daobediência.Por fim, já que a deusa constituía, como foi dito, uma abstraçãoda harmonia sistêmica do viver, a vida não pode ter estado 16
  17. 17. centrada na justificação racional das ações que implicam aapropriação da verdade. Tudo era visível ante o olhar inocente eespontâneo daqueles que viviam, como algo constante enatural, na contínua dinâmica de transformação dos ciclos denascimento e morte. A vida é conservadora. As culturas sãosistemas conservadores, porque são os meios nos quais secriam aqueles que as constituem com seu viver ao tornar-semembros delas, porque crescem participando das conversaçõesque as produzem.Assim, as crianças dessa cultura matrística devem ter crescidonela com a mesma facilidade com que nossas crianças crescemem nossa cultura. Para elas, ser matrísticos na estética daharmonia da natureza deve ter sido natural e espontâneo. Nãohá dúvida de que possivelmente ocorreram ocasiões de dor,enfado e agressão. Mas elas, como cultura - diferentemente denós não viviam a agressão, a luta e a competição comoaspectos definidores de sua maneira de viver. A seu ver, cair naarmadilha da agressão provavelmente foi, para dizer o mínimo,algo de mau gosto. (Eisler, 1990).Com base nessa maneira de viver, podemos inferir que a redede conversações que definia a cultura matrística não pode terconsistido em conversações de guerra, luta, negação mútua nacompetição, exclusão e apropriação, autoridade e obediência,poder e controle, o bom e o mau, tolerância e intolerância - e ajustificação racional da agressão e do abuso. Ao contrário, écrível que as conversações de tal rede fossem de participação,inclusão, colaboração, compreensão, acordo, respeito e co-inspiração.Não há dúvida de que a presença dessas palavras, em nossofalar moderno, indica que as coordenações de ações e emoçõesque elas evocam ou conotam também nos pertencem nos diasde hoje, apesar de nossa vida agressiva. Contudo, em nossacultura reservamos o seu uso para ocasiões especiais, porqueelas não conotam, para a atualidade que vivemos, nosso modogeral de viver. Ou então as tratamos como se evocassemsituações ideais e utópicas, mais adequadas para as criançaspequenas, do jardim de infância, do que para a vida séria dosadultos - a menos que as usemos nessa situação tão especialque é a democracia. 17
  18. 18. 4 - O EMOCIONARÀ medida que nos desenvolvemos como membros de umacultura, crescemos numa rede de conversações, participandocom os outros membros dela em uma contínua transformaçãoconsensual, que nos submerge numa maneira de viver que nosfaz e nos parece espontaneamente natural. Ali, à proporção queadquirimos nossa identidade individual e consciência individual esocial (Verden-Zoller, 1978, 1979, 1982), seguimos como algonatural o emocionar de nossas mães e dos adultos com quemconvivemos, aprendendo a viver o fluxo emocional de nossacultura, que torna todas as nossas ações, ações próprias dela.Em outras palavras, nossas mães nos ensinam sem saber que ofazem, e aprendemos com elas, na inocência de um coexistirnão-refletido, o emocionar de sua cultura; e o faze- mossimplesmente convivendo. O resultado é que, uma vez quecrescemos como membros de uma dada cultura, tudo nela nosresulta adequado e evidente. Sem que percebamos, o fluir denosso emocionar (de nossos desejos, preferências, aversões,aspirações, intenções, escolhas...) guia nossas ações nascircunstâncias mutantes de nossa vida, de maneira que todas asações pertencem a essa cultura.Insisto que isso simplesmente nos acontece e, a cada instantede nossa existência como membros de uma cultura, fazemos oque fazemos confiando em sua legitimidade, a menos quereflitamos... que é precisamente o que estamos fazendo nestemomento. Agindo assim, embora só de um modo superficial,olhemos - tanto no emocionar da cultura patriarcal europeiacomo no da cultura matrística pré-patriarcal - para o fio básicodas coordenações de ações e emoções que constituem as redesde conversação que as definem e estruturam como culturasdiferentes. 18
  19. 19. 4.1 - O emocionar patriarcalNo entanto, ainda assim nossa cultura atual tem as suaspróprias fontes de conflito, porque está fundamentada no fluirde um emocionar contraditório que nos leva ao sofrimento ou àreflexão. Com efeito, o crescimento da criança, em nossacultura patriarcal europeia, passa por duas fases opostas.A primeira ocorre na infância de meninos e meninas, emboraeles entrem no processo de tornar-se humanos e crescer, comomembros da cultura de suas mães, num viver centrado nabiologia do amor como o domínio das ações que tornam o outroum legítimo outro em coexistência conosco. Trata-se de umviver que os adultos, com base na cultura patriarcal em queestão imersos, veem como um paraíso, um mundo irreal deconfiança, tempo infinito e despreocupação.A segunda fase começa quando a criança principia a viver umavida centrada na luta e na apropriação, num jogo contínuo derelações de autoridade e subordinação. A criança vive a primeirafase de sua vida como uma dança prazerosa, na estética dacoexistência harmônica própria da coerência sistêmica de ummundo que se configura com base na cooperação e noentendimento.A segunda fase de sua vida, em nossa cultura patriarcaleuropeia, é vivida pela criança que nela entra - ou pelo adultoque ali já se encontra - como um contínuo esforço pelaapropriação e controle da conduta dos outros, lutando semprecontra novos inimigos. Em especial, homens e mulheres entramna contínua negação recíproca de sua sensualidade e dasensualidade e ternura da convivência. Os emocionares queconduzem essas duas fases de nossa vida patriarcal europeiasão tão contraditórios que se obscurecem mutua- mente. Ohabitual é que o emocionar adulto predomine na vida adulta,até que a sempre presente legitimidade biológica do outro setorne patente.Quando isso acontece, começamos a viver uma contradiçãoemocional, que procuramos superar por meio do controle ou doautodomínio; ou transformando-a em literatura, escrevendoutopias; ou aceitando-a como uma oportunidade de refletir, quevivemos como um processo que nos leva a gerar um novo 19
  20. 20. sistema de exigências dentro da mesma cultura patriarcal; ou aabandonar o mundo, refugiando-nos na desesperança; ou a denos tornarmos neuróticos; ou viver uma vida matrística nabiologia do amor.||4.2 - O emocionar matrísticoNuma cultura matrística pré-patriarcal europeia, a primeirainfância não pode ter sido muito diferente da infância em nossacultura atual. Com efeito, penso que ela - como funda- mentobiológico do tornarmo-nos humanos ao crescer na linguagem -não pode ser muito diferente nas diversas culturas seminterferir no processo normal de socialização da criança.A emoção que estrutura a coexistência social é o amor, ou seja,o domínio das ações que constituem o outro como um legítimooutro em coexistência. E nós, humanos, nos tornamos seressociais desde nossa primeira infância, na intimidade dacoexistência social com nossas mães. Assim, a criança que nãovive sua primeira infância numa relação de total confiança eaceitação, num encontro corporal íntimo com sua mãe, não sedesenvolve adequadamente como um ser social bem integrado(Verden-Zõller, 1978, 1979, 1982).De fato, é a maneira em que se vive a infância - e a forma emque se passa da infância à vida adulta - na relação com a vidaadulta de cada cultura, que faz a diferença nas infâncias dasdistintas culturas. Por tudo o que sabemos das culturasmatrísticas em diferentes partes do mundo, podemos supor queas crianças da cultura pré-patriarcal matrística europeiachegavam à vida adulta mergulhados no mesmo emocionar desua infância. Isto é, na aceitação mútua e no compartilhamento,na cooperação, na participação, no autorrespeito e nadignidade, numa convivência social que surge e se constitui noviver em respeito por si mesmo e pelo outro.No entanto, talvez se possa dizer algo mais. A vida adulta dacultura matrística pré-patriarcal europeia não pode ter sidovivida como uma contínua luta pela dominação e pelo poder,porque a vida não era centrada no controle e na apropriação. Seolharmos para as figuras cerimoniais da deusa matrística em 20
  21. 21. suas várias formas, poderemos vê-la como uma presença, umacorporificação, um lembrete e uma evocação do reconhecimentoda harmonia dinâmica da existência.Descrições dela em termos de poder, autoridade ou dominaçãonão se aplicam, pois revelam uma visão patriarcal da deusa. Háfiguras que a mostram, antes da cultura patriarcal, como umamulher nua com traços de pássaros ou serpentes - ousimplesmente como um corpo feminino exuberante ouvolumoso, com pescoço e cabeça com características fálicas, ouentão sem rosto e com as mãos apenas sugeridas. Tais figurasrevelam, segundo penso, a ligação e a harmonia da existênciade um viver que não estava centrado na manipulação nem nareafirmação do ego.Na cultura matrística pré-patriarcal europeia, a vida humana sópode ter sido vivida como parte de uma rede de processos cujaharmonia não dependia exclusiva ou primariamente de nenhumprocesso particular. Assim, o pensamento humano talvez tenhasido naturalmente sistêmico, lidando com um mundo em quenada existia em si ou por si mesmo, no qual tudo era o que eraem suas conexões com tudo mais. As crianças provavelmentecresceram e alcançaram a vida adulta com ou sem ritos deiniciação, chegando a um mundo mais complexo que opertinente à sua infância, com novas atividades eresponsabilidades, à medida que seu mundo se expandia. Massempre na participação feliz de um mundo que estavatotalmente presente em qualquer aspecto de seu viver.Além disso, os povos matrísticos europeus pré-patriarcaisdevem ter vivido uma vida de responsabilidade total, naconsciência de pertença a um mundo natural. Aresponsabilidade ocorre quando se está consciente dasconsequências das próprias ações e quando se age aceitando-as. Isso inevitavelmente acontece quando uma pessoa sereconhece como parte intrínseca do mundo em que vive.O pensamento patriarcal é essencialmente linear, ocorre numcontexto de apropriação e controle, e flui orientadoprimariamente para a obtenção de algum resultado particularporque não observa as interações básicas da existência. Porisso, o pensamento patriarcal é sistematicamente irresponsável. 21
  22. 22. O pensamento matrístico, ao contrário, ocorre num contexto deconsciência da interligação de toda a existência. Por- tanto, nãopode senão viver continuamente no entendimento implícito deque todas as ações humanas têm sempre consequências natotalidade da existência.Por conseguinte, conforme a criança tornava-se adulta nacultura matrística pré-patriarcal europeia, ela deve ter vivido emcontínua expansão da mesma maneira de viver: harmonia naconvivência, participação e inclusão num mundo e numa vidaque estavam de modo permanente sob seus cuidados eresponsabilidade. Nada indica que a cultura matrística europeiapré-patriarcal tenha vivido com uma contradição interna, comoa que vivemos em nossa atual cultura patriarcal europeia.A deusa não constituía um poder, nem era um governante dosdistintos aspectos da natureza, que devia ser obedecida naautonegação, como podemos nos inclinar a pensar, baseados naperspectiva de nosso modo patriarcal de viver, centrado naautoridade e na dominação. No povo matrístico pré-patriarcaleuropeu, ela era a corporificação de uma evocação mística doreconhecimento da coerência sistêmica natural que existe entretodas as coisas, bem como de sua abundância harmônica. E osritos realizados em relação a ela provavelmente foram vividoscomo lembretes místicos da contínua participação eresponsabilidade humana na conservação dessa harmonia.O sexo e o corpo eram aspectos naturais da vida, e não fontesde vergonha ou obscenidade. E a sexualidade deve ter sidovivida na interligação da existência. Não primariamente comouma fonte de procriação, mas sim como uma vertente deprazer, sensualidade e ternura, na estética da harmonia de umviver no qual a presença de tudo era legitimada por meio de suaparticipação na totalidade. As relações humanas não eram decontrole ou dominação, e sim de congruência e cooperação, nãopara realizar um grande projeto cósmico, mas sim um viverinterligado, no qual a estética e a sensualidade eram a suaexpressão normal.Para esse modo de vida, uma dor ocasional, um sofrimentocircunstancial, uma morte inesperada, um desastre natural,eram rupturas da harmonia normal da existência. Eram também 22
  23. 23. chamadas de atenção diante de uma distorção sistêmica, quesurgia por causa de uma falta de visão humana que punha emperigo toda a existência.Viver dessa maneira requer uma abertura emocional para alegitimidade da multidimensionalidade da existência que sópode ser proporcionada pela biologia do amor. A vida matrísticaeuropeia pré-patriarcal estava centrada no amor, como aprópria origem da humanidade, e nela a agressão e acompetição eram fenômenos ocasionais, não modos cotidianosde vida. 23
  24. 24. 5 – ORIGEM DO PATRIARCADO (Parte 1)A cultura matrística europeia pré-patriarcal estava centrada noamor e na estética, na consciência da harmonia espontânea detodo o vivo e do não-vivo, em seu fluxo contínuo de ciclosentrelaçados de transformação de vida e morte. Mas se assimera, como pôde surgir a cultura patriarcal, centrada naapropriação, hierarquia, inimizade, guerra, luta, obediência,dominação e controle?A arqueologia nos mostra que a cultura pré-patriarcal europeiafoi brutalmente destruída por povos pastores patriarcais, quehoje chamamos de indo-europeus e que vieram do Leste, hácerca de sete ou seis mil anos. De acordo com essas evidências,o patriarcado não se originou na Europa. Quando o patriarcadoindo-europeu invadiu a Europa, trans- formou-se empatriarcado europeu por meio de seus encontros com asculturas matrísticas lá preexistentes. Em outras palavras, opatriarcado foi trazido à Europa por povos invasores, cujosancestrais haviam-se tornado patriarcais no curso de suaprópria história de mudanças culturais em alguma outra parte,de maneira independente das culturas matrísticas europeias.Nesta seção, meu propósito é refletir sobre como ocorreram asmudanças culturais que deram origem ao Patriarcado em nossosancestrais indo-europeus.Como disse antes, penso que uma cultura é uma rede fechadade conversações, conservada como modo de viver num sistemade comunidades humanas. Para compreender como acontecemmodificações culturais, é necessário olhar para as circunstânciasque podem ter originado uma mudança na rede deconversações que constitui a cultura em alteração. Foi tambémdito que, para que se produza uma transformação de cultura,deve mudar o emocionar fundamental que constitui os domíniosde ações da rede de conversações que forma a cultura em 24
  25. 25. transição. Foi dito, ainda, que sem modificação no emocionarnão há mudança cultural.Em outras palavras, acredito que para compreender como umacultura específica pode ter se modificado, na história humana,devemos reconstruir o conjunto de circunstâncias sob as quais anova configuração de emocionar que constitui os fundamentosda nova cultura pode ter começado a conservar-se de maneiratransgeracional, como o fundamento de uma nova rede deconversações, numa comunidade humana específica queoriginalmente não a vivia. Tal comunidade pode ter sido tãopequena como uma família, e o novo emocionar não deve tersido nada de especial como emocionar ocasional.Com efeito, acho que na origem de uma nova cultura o novoemocionar surge como uma variação ocasional e trivial doemocionar cotidiano próprio da cultura antiga. Além do mais,creio que nesse processo a nova cultura surge quando apresença do novo emocionar contribui para a realização dascondições que tornam possível a sua ocorrência no vivercotidiano. Como resultado disso, o novo emocionar começa a seconservar de maneira transgeracional como uma nova formacorrente de viver em comunidade, numa mudança que éaprendida de modo simples, pelos jovens e recém-chegadosmembros dessa comunidade.Por fim - e em termos gerais -, uma linhagem, seja biológica oucultural, se estabelece por meio da conservação transgeracionalnuma maneira de viver, à medida que esta é praticada de fatopelos jovens da comunidade.Assim, qualquer variação ocasional da forma de vida corrente deuma comunidade específica, que começa a ser conservadageração após geração, constitui uma mudança que dá origem auma nova linhagem. Se esta persistirá ou não, dependeevidentemente de outras circunstâncias, ligadas àsconsequências da manutenção da nova maneira de viver. Toda-via, convém destacar - agora e em relação a isso - que osurgimento de uma nova linhagem só pode acontecer como umavariação da maneira de viver já estabelecida que, ao conservar-se de modo transgeracional, constitui e define a nova linhagem. 25
  26. 26. No caso particular das culturas como linhagens humanas demodos de convivência, só se produz uma modificação numadada comunidade humana quando uma nova forma de vivercomo rede de conversações começa a se manter geração apósgeração. Isso acontece cada vez que uma configuração noemocionar - e portanto uma nova configuração no agir -principia a fazer parte da forma corrente de incorporaçãocultural das crianças de tal comunidade e estas aprendem avivê-la.Vejamos o que deve ter acontecido na transformação damaneira de viver que deu origem à cultura patriarcal indo-europeia, quando o emocionar fundamentou o que constituiu aforma típica de viver na apropriação, inimizade, hierarquias econtrole, autoridade e obediência, vitória e derrota. Depois desurgir como um traço ocasional, no modo de vida de uma dascomunidades ancestrais, esse emocionar começou a se manter,geração após geração, como um simples resultado daaprendizagem espontânea das crianças dessa comunidade.Imaginemos agora como isso pode de fato ter acontecido.Entre os povos paleolíticos - fundamentalmente matrísticos -que viviam na Europa há mais de 20 mil anos, houve alguns quese tornaram sedentários, coletores e agricultores. Outros semovimentaram para o Leste até à Ásia, seguindo as migraçõesanuais de manadas de animais silvestres, como os lapõesfaziam com as renas até épocas recentes ou mesmo, talvez,ainda hoje. Essas comunidades humanas que seguiam osanimais em suas migrações não eram pastoras, pois não eramproprietárias desses rebanhos. Não possuíam os animais dosquais viviam, porque não limitavam a mobilidade de taisrebanhos de modo a restringir significativamente o acesso aeles por outros animais - como os lobos -, que também sealimentavam de sua carne como parte da vida silvestre natural.Na ausência de tal restrição, os lobos permaneciam comocomensais, com direitos inquestionados de alimentação, emborafossem ocasionalmente ameaçados para que fossem comer umpouco mais longe.Em outras palavras, proponho que naqueles tempos remotosnossos ancestrais matrísticos, na origem do patriarcado, nãoeram pastores porque não restringiam o acesso de outros 26
  27. 27. animais às manadas das quais eles próprios se alimentavam.Sugiro que não faziam isso porque o emocionar da apropriaçãonão fazia parte de seu viver cotidiano. A criação de animaisdomésticos no lar implica uma maneira de viver completamentedistinta do pastoreio, pois, entre outras coisas, é o cuidado e aatenção nas cercanias do lar - e não a apropriação - oemocionar que o define.Portanto, sustento que a cultura do pastoreio, isto é, a rede deconversações que o constitui, surge quando os membros deuma comunidade humana, que vive seguindo alguma manadaespecífica de animais migratórios, começa a restringir o acessoa eles de outros comensais naturais, como os lobos. E, alémdisso, que o fazem não apenas de modo ocasional, mas simcomo prática cotidiana que se mantém de maneiratransgeracional, por meio da aprendizagem corrente eespontânea das crianças que crescem nessa comunidade.Também afirmo que o pastoreio, como modo de vida, não podeter surgido sem a mudança do emocionar que o tornou possívelcomo maneira de viver, e que tal mudança no emocionar surgiuno próprio processo no qual se começou a vi- ver dessa forma.Em geral, não vemos essa interdependência entre a mudançano emocionar e a modificação cultural, porque não estamoshabitualmente conscientes de que toda cultura, como uma redede conversações, é um modo específico de entrelaçamento dolinguajear e do emocionar. Também não é fácil para nós,humanos patriarcais modernos, compreender a mudança noemocionar implicada na adoção de novas maneiras de viver:estamos acostumados a explicar o que fazemos ou o que nosacontece com argumentos racionais, que excluem a perspectivado emocionar. Mas não é raro observar que uma pessoa podeviver uma grande transformação em seu emocionar, em relaçãoa alterações de seu modo de vida.Com efeito, essas transformações no emocionar acontecem comfrequência quando há mudanças no trabalho, na situaçãoeconômica ou no âmbito místico. Quando elas ocorrem,frequentemente se pensa que são consequência de mudançasno trabalho ou nas condições de vida. Penso que não é assim.Acredito que é a transformação no emocionar que possibilita ascircunstâncias de vida nas quais acontece a alteração de 27
  28. 28. trabalho, situação econômica ou vida mística. E quando talocorre, os dois processos - as novas maneiras de viver e deemocionar - acontecem daí em diante de tal forma que seimplicam e se apoiam mutuamente.Desse modo, acho que se quisermos compreender como ocorreuuma mudança de cultura histórica, teremos de imaginar ascondições de vida que tornaram possível a modificação noemocionar sob o qual se deu tal mudança, dando origem a umarede de conversações que começou a se manter como resultadode sua própria realização.Voltemos agora ao que creio ter acontecido na adoção do modode vida pastoril por nossos ancestrais indo-europeus pré-patriarcais. O primeiro passo foi a operação inconsciente queconstitui a apropriação, isto é, o estabelecimento de um limiteoperacional que negou aos lobos o acesso a seu alimentonatural, que eram os animais da mesma manada da qual vivia afamília que começou tal exclusão. A implementação do limiteoperacional cedo ou tarde levou à morte dos lobos. Matar umanimal não era, seguramente, uma novidade para nossosancestrais. O caçador tira a vida do animal que irá comer.Contudo, fazer isso e matar um animal restringindo-lhe o acessoa seu alimento natural - e agir assim de modo sistemático - sãoações que surgem sob emoções diferentes. No primeiro caso, ocaçador realiza um ato sagrado, próprio das coerências do viverno qual uma vida é tirada para que outra possa continuar. Nosegundo caso, aquele que mata o faz dirigindo-se diretamente àeliminação da vida do animal que mata. Essa matança não é umcaso no qual uma vida é tirada para que outra possa prosseguir;aqui, uma vida é suprimida para conservar uma propriedade,que fica definida como tal nesse mesmo ato.As emoções que tornam essas duas atitudes completamentediferentes são de todo opostas. Na primeira circunstância oanimal caçado é um ser sagrado, que é morto como parte doequilíbrio da existência; aqui, o caçador que tira a vida doanimal caçado fica agradecido. Na segunda alternativa, o animalcuja vida se tira é uma ameaça à ordem artificial, criada em seuato pela pessoa que se transforma em pastor. Nessa situação,ela fica orgulhosa. Doravante, falarei em caçada apenas parareferir-me ao primeiro caso. Na segunda hipótese, falarei em 28
  29. 29. matar ou assassinar. Entretanto, note-se que tão logo asemoções que constituem essas duas ações se tornamaparentes, também fica claro que na ação de caça o animalcaçado é um amigo, enquanto que na ação de matar o animalmorto é um inimigo.Com efeito, acho que com a origem do pastoreio surgiu oinimigo - aquele cuja vida a pessoa que se torna um pastor querdestruir para assegurar a nova ordem que se instaura por meiodesse ato, que configura a defesa de algo que se transforma empropriedade nessa mesma atitude de defesa. Ou seja:mantenho que a vida pastoril de nossos ancestrais surgiuquando uma família que vivia seguindo os movimentos livres dealguma manada silvestre adotou o hábito de impedir a outrosanimais - que eram comensais naturais - seu livre acesso à ditamanada. Em tal processo, esse hábito se transformou numacaracterística conservada de modo trans- geracional, comoforma de vida cotidiana dessa família.Além disso, sustento que a adoção desse hábito numa famíliadeve ter comportado, como um traço desse mesmo processo,mudanças adicionais no emocionar. Estas a levaram a incluir,juntamente com o emocionar da apropriação, outras emoções,como a inimizade; a valorização da procriação, bem como aassociação da sexualidade das mulheres a esta; o controle dasexualidade das mulheres como procriadoras pelo patriarca e ocontrole da sexualidade do homem pela mulher comopropriedade; a valorização das hierarquias e a obediência comocaracterísticas intrínsecas da rede de conversações queconstituiu o modo pastoral de vida.Por fim, também sustento que, devido ao modo humano degeneralizar o entendimento, a rede de conversações queconstituiu a vida pastoril patriarcal se tornou a mesma rede queestruturou o patriarcado como uma maneira de viverindependentemente do pastoreio, sob a forma de uma rede deconversações que suscitam:a) relações de apropriação e exclusão, inimizade e guerra,hierarquia e subordinação, poder e obediência;b) relações com o mundo natural, que se deslocaram daconfiança ativa na harmonia espontânea de toda a existência 29
  30. 30. para a desconfiança ativa nessa harmonia e para um desejo dedominação e controle;c) relações com a vida que se deslocaram da confiança nafertilidade espontânea de um mundo sagrado, que existe nalegitimidade da abundância harmônica e do equilíbrio natural detodos os modo de vida, para a busca ansiosa da segurança. Estatraz consigo a abundância unidirecional, obtida pela valorizaçãoda procriação, a apropriação e o crescimento ilimitado;d) relações de existência mística, que se deslocaram daaceitação original da participação na unidade dos seres vivos,por meio de uma experiência de pertença a uma comunidadehumana que se estende à totalidade vivente. Tal deslocamentoleva ao desejo de abandonar a comunidade viva, medianteexperiências de pertença a uma unidade cósmica, a qualconfigura um domínio de espiritualidade invisível que transcendeos vivos.Voltemos à minha proposição de como a cultura patriarcal indo-europeia pode ter se originado, e de como nossa culturapatriarcal europeia moderna pode ter dela derivado. Para tantobuscarei reconstruir a história, considerando as váriastransformações que acredito que devem ter ocorrido ao longodesse processo.Os membros de uma pequena comunidade humana (que podeter sido uma família; entendo por família um grupo de adultos ecrianças que funciona como uma unidade de convivência) queviviam seguindo alguma manada de animais migratórios,rechaçavam ocasionalmente os lobos que se alimentavam desta.Enquanto esse afugentamento dos lobos foi ocasionalmentebem sucedido - sem a morte deles -, não ocorreu nenhumamudança fundamental no emocionar dos membros dessacomunidade.Contudo, quando o rechaçar, o perseguir os lobos e o corrercom eles - de modo a que não se alimentassem da manada -transformou-se numa prática cotidiana, aprendida pelascrianças geração após geração, produziu, entrelaçada com essaprática, uma mudança básica no emocionar dos membros de talcomunidade e surgiu um modo de viver na proteção da manada.Isto é: surgiu um modo de vida que incluía o emocionar da 30
  31. 31. apropriação e defesa daquilo que havia sido apropriado. Àmedida que essa forma de emocionar começou a serconservada, geração após geração, as crianças da comunidadeaprenderam a viver em ações que negavam aos lobos o acessonormal à manada. E apareceram outras emoções, que tambémcomeçaram a se transmitir de pais para filhos.Assim, enquanto se começou a perseguir os lobos para impedir-lhes o acesso à alimentação normal, surgiu a insegurança. Estaveio da perda de confiança, trazida pela contínua atenção aoscomportamentos de proteção das manadas diante dos lobos, jáexcluídos como comensais naturais. Além do mais, quandosurgiu o emocionar da insegurança, a segurança começou a servivida como a total exclusão dos lobos por meio da morte.Entretanto, ao ocorrerem essas modificações no emocionar e noagir, deve ter aparecido outra mudança no emocionar. Elaconstituiu uma alteração básica e nova na maneira de viver dacomunidade, a saber, a inimizade como desejo recorrente denegar a um outro em particular.Ao surgir a inimizade surgiu o inimigo; e assim os instrumentosde caça - até então usados para matar o lobo como um inimigo- se transformaram em armas.(Notemos - quase como uma reflexão à parte - que nos mitospatriarcais o lobo é o grande inimigo. Fala-se do lobo como cruele sanguinário, mas ele não o é. Em sua vida silvestre, esseanimal não ataca o ser humano. O que ele procura são osanimais que sempre lhe serviram de alimento, os quais sãoprotegidos pelos humanos em seu pastoreio. É no aparecimentodo patriarcado que o lobo surge como inimigo, num processoassociado à perda de confiança no mundo natural que elereforça.)Mas o que implicam as mudanças do modo de vida recém-mencionado? Reflitamos um instante. Na condição de maneirade viver, uma cultura é uma rede de conversações mantida demaneira transgeracional, como um núcleo de coordenaçõesconsensuais de coordenações consensuais de ações e emoções.Em torno dela, podem aparecer novas ações e emoções.Quando estas também começam a ser conservadastransgeracionalmente, na rede de conversações que define essa 31
  32. 32. comunidade, ocorre uma mudança cultural. As ações e emoçõeshumanas podem ser as mesmas em muitos domínios diferentesde existência (ou do fazer), e o que um aprende num domíniode existência (ou do fazer) pode ser facilmente transferido aoutro.Assim, uma vez que as conversações de inimizade e apropriaçãoforam aprendidas na vida pastoril, elas puderam ser vividas emoutros domínios de existência. E puderam ocorrer em relação aoutras entidades como a terra, as ideias ou as crenças, quandosurgiram as circunstâncias de vida apropriadas. Do mesmomodo, embora a apropriação e a inimizade possam tercomeçado como aspectos do emocionar do homem, se foi elequem iniciou o pastoreio nos termos que assinalamos, nadarestringe esse emocionar apenas aos humanos.O patriarcado como modo de vida não é uma característica doser do homem. É uma cultura, e portanto um modo de vivertotalmente vivível por ambos os sexos. Homens e mulherespodem ser patriarcais, assim como ambos podem ser, e foram,matrísticos.Continuemos agora com nossa reconstrução da origem dopatriarcado indo-europeu e do patriarcado europeu moderno.Uma vez que a vida pastoril se manteve no cuidado dos animaisapropriados e na defesa contra os lobos - que foramtransformados em inimigos perdeu-se a confiança na coerênciae no equilíbrio natural da existência. E então a segurança emrelação à disponibilidade dos meios de vida começou a ser umapreocupação, amainada pelo crescimento da manada ou dorebanho sob o cuidado do pastor.Nesse processo, devem ter-se produzido três modificaçõesadicionais na dinâmica do emocionar de nossos ancestrais, quese transmitiram de pai para filho: o desejo constante por mais,numa interminável acumulação de coisas que proporcionavamsegurança; a valorização da procriação como forma de obtersegurança mediante o crescimento do rebanho ou manada; e otemor da morte como fonte de dor e perda total. Comoresultado desse novo emocionar, a fertilidade deixou de servivida como coerência e harmonia da abundância natural detodas as formas de vida, na dinâmica cíclica e espontânea de 32
  33. 33. nascimento e morte; e começou a ser vivida como procriação ecrescimento que proporcionam segurança.A vida no interior da família pastoril provavelmente mudou deum modo coerente com o vivido anteriormente. A participaçãodo homem na procriação, que até aqui era vista como parte daharmonia da existência, deve ter começado a ser associada àapropriação dos filhos, da mulher e da família. Além disso, asexualidade da mulher deve ter-se convertido em propriedadedo homem que gerava os seus filhos. Como resultado, ascrianças e as mulheres perderam sua liberdade ancestral paratransformar-se em propriedade. E as mulheres das famíliaspastoris, por meio da associação de sua sexualidade com aprocriação, converteram-se, junto com as fêmeas da manada,numa fonte de riqueza.Finalmente, nessa transformação cultural a apropriação pelopastor da vida sexual da mulher se deu junto com a apropriaçãode seus filhos. Com a valorização da procriação, a famíliapastoril se transformou numa família patriarcal e o homempastor converteu-se em patriarca. Mas essa transformação damaneira de viver - na qual uma família nômade, comensal dealguma manada migratória de animais silvestres passou a serpastora - teve uma consequência fundamental: a explosãodemográfica, animal e humana.De fato, a valorização da procriação implica ações que abrem asportas ao crescimento exponencial da população. Isso se deve aque essa valorização se opõe a qualquer ação de regulação dosnascimentos e do crescimento da população, que permite anoção matrística de fertilidade como coerência sistêmica detodos os seres vivos em seus ciclos contínuos de vida ou morte.Não devemos esquecer, porém, que essas mudanças culturais -como modificações na rede de conversações que constituíam amaneira de viver da família em mudança - surgem de alteraçõesno emocionar e nas coordenações de ações. Estas devem teracontecido inicialmente na harmonia da vida cotidiana. Ou seja,essas mudanças devem ter ocorrido pela transformaçãoharmônica de uma forma conservadora de vi- ver - que envolviade modo natural a todos os membros da família - em outra, quetambém os envolveu de maneira natural. 33
  34. 34. Assim, enquanto as mulheres e crianças, juntamente com oshomens, tornavam-se patriarcais no processo de se tornarempastores, a biologia do amor deve ter permanecido a base deseu estar juntos como família. Isso aconteceu ao longo de umatransformação na qual homens e mulheres não estavam emoposição constitutiva, e na qual as crianças cresciam naintimidade de relações materno-infantis de aceitação econfiança. Os homens não tinham dúvidas nem contradiçõesbásicas em suas relações com as mulheres e crianças queconstituíam suas famílias, nem estas em suas relações comeles. As mudanças fundamentais que foram acontecendo, natrans- formação que originou a família patriarcal pastoril, devemter ocorrido como um processo imperceptível para a própriafamília em transformação.Em outras palavras, a mudança no emocionar dentro da família- no que diz respeito à mobilidade e à autonomia das mulherese crianças que foi ocorrendo na estrutura patriarcal pastorilemergente, não foi visível no seio da família em transformação;nela, os homens, mulheres e crianças se tornaram patriarcaissem conflitos. Nesse processo a vida das crianças mudou, dainfância à vida adulta, num movimento em que o emocionar davida adulta surgiu como uma transformação do emocionar dainfância, não como uma negação do infantil e do feminino pelohomem. Desse modo, tal modificação possivelmente foi vividacom inocência na família patriarcal.Devemos notar também que essas mudanças no emocionar e noagir - mesmo quando deram origem, na família patriarcal, auma forma de viver completamente diversa do modo de vida dafamília matrística original - ocorreram como processos semreflexão, fora de qualquer intencionalidade, no simples fluir davida cotidiana. Assim, o homem começou a intervir na proteçãodiária da manada, e aprendeu a fazê-lo matando eventualmenteos lobos. As mulheres e crianças também aprenderam omesmo, tomando parte no estabelecimento da nova forma deviver na inimizade com os lobos e na apropriação da manada.Em tal processo, a apropriação e a inimizade, a defesa e aagressão se tornaram parte da forma de vida que se conservoutransgeracionalmente no devir histórico de uma determinadacomunidade. Enquanto isso ocorria, esse emocionar deve ter 34
  35. 35. constituído uma operacionalidade delimitadora, que separouessa comunidade das outras. E o fez de maneira transitória oupermanente, a depender de se essas outras comunidadesestavam ou não dispostas a adotar o novo emocionar e agir, ecom eles o novo conversar.Porém - como foi dito anteriormente a aprendizagem doemocionar é transferível. Uma vez que a inimizade e aapropriação foram aprendidas como modos de emocionar numdado domínio de experiências, elas puderam ser vividas emoutros. Por isso, uma vez que a inimizade e a apropriação setornaram características da forma de viver na proteção de umrebanho, também passaram a fazer parte da defesa de outrascaracterísticas e formas de vida, como ideias, verdades oucrenças.Abriram-se então as portas para o fanatismo, a avidez e aguerra. Além do mais, as oportunidades para a inimizade e adefesa da propriedade devem ter surgido enquanto o cresci-mento da população e as migrações consequentes forçaram oencontro de comunidades diferentes. Muitas delas poderiam játer desenvolvido alguns sistemas de crença próprios que, por jáserem pastoras patriarcais, também estariam prontas paradefender. Crenças místicas, por exemplo.Nós, humanos, podemos ter de maneira espontânea, nummomento ou em outro de nossas vidas, uma experiênciapeculiar. E a vivemos como uma percepção súbita de nossaconexão e participação num domínio mais amplo de existência,para além do entorno imediato. Sustento que essa experiênciapeculiar de perceber que se pertence ou se é parte de umâmbito de identidade maior que o da estreita vida individual é oque em geral se conota, em diferentes culturas, quando se falade uma experiência mística ou espiritual.Também afirmo que a experiência mística - repito: a experiênciana qual uma pessoa vive a si mesma como componente integralde um domínio mais amplo de relações de existência - podeacontecer-nos de modo espontâneo. Nesse caso, certascondições internas e externas surgem naturalmente ao longo denossas vidas. Podem também surgir como consequência darealização intencional de determinadas práticas, que resultam 35
  36. 36. na criação artificial de tais condições. Em qualquer dos casos,todavia, a forma pela qual a experiência mística é vividadepende da cultura em que ela ocorre, ou seja, depende darede de conversações em que ela está imersa, e na qual vive apessoa que tem essa experiência.Assim, acho que na cultura matrística agricultora e coletora daEuropa pré-patriarcal, as experiências místicas foram vividascomo uma integração sistêmica na rede do viver, dentro dacomunidade de todos os seres vivos. "A comunidade e eu, omundo do viver e eu, somos um só. Todos os seres vivos e não-vivos pertencemos ao mesmo reino de existênciasinterconectadas... todos viemos da mesma mãe, e somos elaporque somos unos com ela e com os outros seres, na dinâmicacíclica do nascimento e da morte". Esta poderia ser a descriçãode uma experiência mística da gente matrística, expressa comnossas palavras.Compartilhar e participar na harmonia da coexistência, por meioda igualdade e da unidade de todos os seres vivos e não-vivos -sem importar quais possam ser suas diferenças individuaisespecíficas na contínua renovação cíclica e re- corrente da vida:eis o que acho que devem ter sido os elementos relacionaispredominantes da experiência mística matrística. Creio que aexperiência mística dos povos europeus matrísticos pré-patriarcais teve essas características. E assim ocorreu porque aspessoas agricultoras e coletoras raramente devem terexperimentado a vida sem o total apoio e proteção dascomunidades às quais pertenciam, ou mediante a ruptura desua conexão com uma natureza harmoniosa e acolhedora.Em outras palavras, acredito que a experiência mística da gentematrística europeia pré-patriarcal foi de conexão com aconcretude da vida diária. Também creio que esse modoproporcionou uma abertura para ver tudo o que era visível. Emsuma, julgo que a "espiritualidade" matrística é inerentementeterrestre.Na cultura patriarcal pastoril, as coisas devem ter sidodiferentes. Sabemos que o emocionar fundamental que define arede de conversações patriarcais pastoris está centrado naapropriação, defesa, inimizade, procriação, controle, autoridade 36
  37. 37. e obediência. Por isso, é possível que a experiência mística denossos ancestrais patriarcais indo-europeus mais antigos tenhasido muito diferente da que descrevemos para a culturamatrística europeia pré-patriarcal. O pastor talvez tenhapassado muitos dias e noites, durante o verão, afasta- do dacompanhia protetora de sua comunidade, enquanto cuidava,seguia ou guiava seus rebanhos em busca de boas pastagensnos vales montanhosos. Ao mesmo tempo ele os protegia doslobos, que se haviam transformado em seus inimigos. Lá,solitário, exposto à amplitude imensa do céu estrelado eenfrentando a grandeza imponente das montanhas, ele deve terpresenciado, simultaneamente fascinado e aterrorizado, osmuitos fenômenos elétricos luminosos e inesperados queocorrem nessas paragens - e não só em dias de tempestade.Creio que nessas circunstâncias a experiência mística eespontânea dos pastores foi vivida como pertença e conexão,num âmbito cósmico ameaçador e impressionante por seu podere força. Tal ambiente, ao mesmo tempo cheio de inimizade eamizade, simultaneamente belo e perigoso, é um domíniocósmico no qual só se pode existir na submissão e obediência."Pertenço ao cosmos apesar de minha infinita pequenez;submeto-me ao poder dessa totalidade obedecendo às suasexigências, tal como me submeto à autoridade do patriarca".Esta poderia ser a descrição de uma experiência mística, vividapor nosso pastor imaginário na solidão de uma noite aberta nasmontanhas.Penso que na cultura pré-patriarcal matrística da Europa oindivíduo que teve uma experiência mística manteve-seconectado, por meio dela, com o confortável reino diário etangível do viver. Na cultura pastoril patriarcal, porém, o pastorque teve uma experiência mística, na solidão da montanha,vivenciou uma transformação que o ligou a um reino intocávelde relações de imensidão, poder, temor e obediência.Acredito ainda que, na cultura matrística da Europa pré-patriarcal, a pessoa que passou por uma experiência místicadeve ter vivido a congruência na harmonia de uma dinâmicasempre renovada de nascimento e morte. Contudo, na culturapatriarcal pastoril, o pastor com o mesmo tipo de experiênciacertamente teve uma vivência de submissão e fascinação, 37
  38. 38. diante do fluxo ameaçador de um poder que deu lugar à vida eà morte, na conservação e ruptura de uma ordem precária,baseada na obediência ao seu arbítrio.A experiência mística da cultura patriarcal pastorilprovavelmente foi de conexão com um reino abstrato denatureza completamente diverso daquele da vida diária. Isto é,essa experiência mística deve ter sido de pertença a um âmbitode existência transcendental, e assim se constituiu numaabertura para ver o invisível. Além disso, é provável que osrelatos dos pastores, que voltaram transformados comoresultado de suas experiências místicas espontâneas, foramouvidos pelas comunidades tanto com admiração quanto commedo. Elas ouviram e entenderam esse discurso de autoridade esubordinação, poder e obediência, amizade e inimizade,exigência e controle em termos inteiramente pessoais, e podemter sido seduzidas por sua grandeza. Com paixão suficiente apósuma experiência mística, um pastor talvez tenha se tornado umlíder espiritual.Para resumir: na cultura matrística não-patriarcal da Europaantiga, a experiência mística foi vivida como uma pertençaplena de prazer, numa rede mais ampla de existência cíclica queenglobava tudo o que estava vivo e não-vivo no fluxo denascimento e morte. Deve ter implicado o autorrespeito e adignidade da confiança e aceitação mútuas. De modo contrário,na cultura patriarcal pastoril a experiência místicaprovavelmente foi vivida como pertença a um âmbito cósmicoimenso, temível e sedutor, de uma autoridade arbitrária einvisível. O que deve ter implicado a exigência de uma absolutanegação de si mesmo, pela total submissão a esse poder,própria do fluxo unidirecional de inimizade e amizade de todaautoridade absoluta.Em outros termos, o misticismo matrístico convida àparticipação e à colaboração no autorrespeito e no respeito pelooutro e, inevitavelmente, não é exigente, profético oumissionário. Já o misticismo patriarcal convida à autonegaçãoda submissão e desse modo fatalmente se torna exigente,profético e missionário. 38
  39. 39. Quero agora fazer uma pequena digressão fisiológica. O sistemanervoso é constituído de uma rede neuronal fechada, com umaestrutura plástica que muda seguindo um curso contingente àsequencia das interações do organismo que ele integra(Maturana, 1983). Nessas circunstâncias, a forma como opera osistema nervoso de um animal é, sempre e necessariamente,função de sua história específica de vida. Por causa disso umsistema nervoso implica, em seu funcionamento, a históriaindividual do animal de que é parte. Em nós, humanos, essarelação entre a história de vida de um animal e a estrutura deseu sistema nervoso implica que, independentemente de se eleestá acordado ou dormindo - e em todas as experiências quepodemos viver -, nosso sistema nervoso funciona, sempre enecessariamente, de uma forma congruente com a cultura a quepertencemos: gera uma dinâmica comportamental que fazsentido nessa cultura.Dito de outro modo: os valores, imagens, temores, aspirações,esperanças e desejos que uma pessoa vive em qual- querexperiência - esteja ela desperta ou sonhando, seja umaexperiência comum ou mística - são necessariamente osvalores, imagens, temores, aspirações, esperanças e desejos desua cultura, somados às variações que essa pessoa possa teracrescentado à sua vida pessoal, individual. É por causa dessarelação entre o funcionamento do sistema nervoso de umapessoa e a cultura à qual ela pertence, que afirmo que os povosdas culturas europeias matrística e patriarcal pastoril devem tertido experiências místicas diferentes. Além disso, taisexperiências devem ter sido diversas porque cada uma delasincorpora necessariamente o emocionar da cultura na qualsurge.Proponho esta reconstituição da origem de nossa culturapatriarcal porque me dei conta de que todas as experiênciashumanas - inclusive as místicas - ocorrem como parte da redede conversações que constituem a cultura em que surgem e,portanto, incorporam o seu emocionar. Ademais, dado que achoque é o emocionar de uma cultura que define o seu caráter,creio que minha reconstituição do que podem ter sido asexperiências místicas de nossos ancestrais europeus matrísticos- e de nossos ancestrais patriarcais pastores indo- europeus - étão boa quanto minha reconstrução do emocionar dessas 39
  40. 40. culturas. Acredito que essa reconstrução é boa porque elarecolhe as emoções dos elementos matrísticos e patriarcais denossa cultura europeia patriarcal moderna.Continuemos, então. Uma vez surgida a forma de viverpatriarcal pastoril, a família ou comunidade na qual ela começaa ser mantida de modo transgeracional se expande, tanto pormeio da sedução de outras famílias ou comunidades quantomediante o crescimento populacional humano descontrolado.Além disso, tal crescimento, numa comunidade pastora, deveter ocorrido acompanhado de uma ampliação comparável dosrebanhos. Essa circunstância inevitavelmente levou a um abusodas pastagens e a uma expansão territorial, o que não pode terdeixado de resultar em alguma forma de conflito com outrascomunidades. Tais conflitos possivelmente ocorreramindependente de que essas comunidades tenham ou não estadocentradas na apropriação e na inimizade. A guerra, a pirataria, adominação política e a escravidão devem ter começado nessaépoca e, eventualmente, produziram migrações maciças, embusca de novos recursos a serem apropriados.Imagino que foi sob essas circunstâncias que nossos ancestraisindo-europeus chegaram à Europa, num movimento deconquista, pirataria e domínio. Se a apropriação é legítima, se ainimizade faz parte do emocionar da cultura, se a autoridade, adominação e o controle são características da forma de viver deuma comunidade humana, então a pirataria é possível oumesmo natural. Além do mais, se a apropriação é parte domodo natural de viver tudo está aberto a ela: os homens, asmulheres, os animais, as coisas, o países, as crenças... Se oemocionar adequado estiver presente, tudo pode ser capturadopela força, do mesmo modo que os lobos foram originalmenteexcluídos de seu legítimo acesso aos rebanhos silvestres nosquais se alimentavam.Assim, à medida que os povos patriarcais indo-europeuscomeçaram a se deslocar para a Europa, levaram consigo aguerra. Mas não só ela: levaram também um mundocompletamente diverso daquele que encontraram. Esses povosforam donos de propriedades e delas defensores; foramhierárquicos; exigiram obediência e subordinação; valorizaram aprocriação e controlaram a sexualidade das mulheres. Os povos 40
  41. 41. matrísticos europeus não se assemelhavam a nada disso. Emseu encontro com a gente matrística europeia, os indo-europeuspatriarcais pastores depararam com seu completo opostocultural em cada aspecto material ou espiritual.Mais ainda: como povos patriarcais pastores, eles devem tervivido essas diferenças opostas como uma ameaça ou perigo àsua própria existência e identidade. Do mesmo modo quevivenciaram sua relação com os lobos, na qual, por meio daapropriação do rebanho, provocaram o seu extermínio, suareação deve ter sido a defesa de sua própria cultura pelanegação da outra, tanto por seu completo controle e domínioquanto por sua total destruição.Quando constituem ideias ou crenças, os títulos de propriedadee a defesa das "legítimas" possessões de um indivíduo criamlimites. Estes separam o que é correto do que não o é, o que élegítimo do que é ilegítimo, o aceitável do inaceitável.Se vivermos centrados na apropriação, viveremos tanto nossaspropriedades quanto nossas ideias e crenças como se elasfossem nossa identidade.Que isso acontece dessa maneira é evidente pelo fato de quenós, ocidentais patriarcais modernos, vivemos qualquer ameaçaa nossas propriedades - e qualquer contradição ou falta deacordo com nossas ideias e crenças - como um perigo ouameaça que põe em risco os próprios fundamentos de nossaexistência. Como resultado, em seu encontro com a culturaeuropeia matrística os indo-europeus patriarcais pastores viramno sistema de crenças completamente diverso dessa cultura umperigo e ameaça à sua identidade. Essa circunstância deve terocorrido especificamente em relação às crenças místicas queestão na base das experiências que dão significado à vidahumana. Quando ocorreu o encontro dos povos patriarcais comos europeus matrísticos, os primeiros começaram a defender eimpor suas crenças místicas patriarcais. Estabeleceu-se entãouma fronteira de legitimidade entre ambos os sistemas decrenças místicas, e os dois se tornaram religiões.Uma religião é um sistema fechado de crenças místicas, definidopelos crentes como o único correto e plenamente verdadeiro.Antes de seu violento encontro com o patriarcado pela invasão 41
  42. 42. dos indo-europeus patriarcais pastores, a gente matrística nãovivia numa religião, pois não viviam na apropriação e defesa dapropriedade.Reflitamos um momento sobre esse assunto. Os povosmatrísticos tiveram crenças místicas baseadas em experiênciastambém místicas que, segundo acreditamos, manifestavam ourevelavam sua compreensão básica da relação que tinham coma totalidade da existência. Expressavam essa compreensão pormeio de uma deidade - a deusa-mãe - que incorporava eevocava a coerência dinâmica e harmônica de toda a existêncianuma rede sem fim de ciclos de nascimento e morte.De modo contrário - segundo pensamos - o povo patriarcalpastoril teve crenças místicas baseadas em experiênciastambém místicas. Estas foram vividas como reveladoras de suaconexão com um âmbito cósmico dominado por entidadespoderosas, arbitrárias, que exerciam sua vontade em atoscriativos capazes de violar qualquer ordem previamenteexistente. Os povos patriarcais pastores expressavam suacompreensão das relações cósmicas por meio de deuses -entidades transcendentes que impunham temor e exigiamobediência. Em seu domínio místico, esses povos não tinhamnada a defender e, consequentemente, nada a impor: cadacrença era natural e auto-evidente. Como entidade cósmicatodo-poderosa, Deus era óbvio em sua invisibilidade, e assiminerentemente espiritual.Com efeito, tinha de ser desse modo, pela forma com que Eledevia ter surgido na montanha, enquanto expressava seucaráter onipotente de patriarca cósmico. As visões místicasmatrísticas europeias eram totalmente diversas, dado o seucaráter terrestre. Para os povos matrísticos, os fundamentos daexistência estavam no equilíbrio dinâmico do nascimento e damorte, tanto quanto na coerência harmônica de todas coisas,vivas ou não. Não havia nada a temer quando alguém se moviana coerência da existência; para eles não havia forçasarbitrárias que exigissem obediência, só rupturas humanas daharmonia natural, devidas a alguma falta circunstancial deconsciência e à limitação por ela implicada. 42
  43. 43. A divindade não era uma força ou autoridade; e não poderia tersido assim, pois esses povos não estavam centrados naautoridade, dominação ou controle. A deusa-mãe concretizava eevocava a consciência dessa harmonia natural. E, segundopenso, suas imagens e os rituais nos quais elas eram usadassignificavam presença, evocação e participação na harmonia detodas as coisas existentes, de uma maneira que permitia quetanto os homens quanto as mulheres permanecessemconectados com ela em seu viver cotidiano. Os povosmatrísticos europeus não tinham nada a defender, tanto porqueviviam na consciência da harmonia da diversidade, quantoporque não viviam em apropriação.Logo a seguir, quando os povos indo-europeus patriarcaispastoris invadiram a Europa, seus patriarcas perceberam quenão podiam aceitar as crenças, o modo de vida espiritual ou asconversações místicas dos povos matrísticos, pois estescontradiziam completamente os fundamentos de sua própriaexistência. Assim, preferiram defender seu modo de vida e suascrenças da única maneira que conheciam, isto é, por meio danegação do outro modo de vida ou do sistema de crençasdaqueles povos, transformando-os em seus inimigos.Além do mais, no processo de defender o seu viver místico, ospatriarcas indo-europeus criaram uma fronteira de negação detodas as conversações místicas diferentes das suas. Eestabeleceram, de fato, uma distinção entre o que passou a serlegítimo e ilegítimo, crenças verdadeiras e falsas. No âmbitoespiritual, realizaram a práxis de exclusão e negação que,operacionalmente, constitui as religiões como domínios culturaisde apropriação das mentes e almas dos membros de umacomunidade pelos defensores da verdade ou das "crenças"verdadeiras. Contudo, antes de prosseguir reflitamos mais sobreo místico e o religioso.Uma experiência mística - ou espiritual, como é geralmentechamada na atualidade como experiência de pertença ouconexão a um âmbito mais amplo do que o do entorno imediatode alguém, é pessoal, privada, inacessível a outros, ou seja,intransferível. Portanto, o ato de relatar uma experiência assimdiante de uma audiência adequada pode ser algo cativante esedutor, pois evoca um emocionar congruente em quem escuta, 43
  44. 44. casos em que ocorre a sedução. Mesmo quando não hátransferência da experiência, muitos dos ouvintes podem chegara converter-se em adeptos da explicação do expositor.Como resultado, pode se formar uma comunidade de crentes.Quando isso acontece, todavia, o corpo de crenças adotadaspelos novos crentes - qualquer que seja a sua complexidade eriqueza - não constitui uma religião. Isso só ocorre se osmembros dessa comunidade afirmarem que suas crençasrevelam ou envolvem alguma verdade universal, da qual eles seapropriaram por meio da negação de outras crenças, baseadasem outros relatos de experiências místicas ou espirituais.A apropriação de uma verdade mística ou espiritual que sesustenta como verdade universal constitui o ponto de partida oude nascimento de uma religião. Requer um emocionar e ummodo de vida que não estavam presentes na cultura europeiamatrística. Nossa cultura patriarcal europeia confunde religiãocom espiritualidade. Nela se fala, com frequência, deexperiências religiosas como se fossem místicas.Acredito que essa confusão obscurece o fato de que umareligião não pode existir sem a apropriação de ideias e crenças,e não nos permite ver o emocionar que a constitui. Some-se aisso que o advento do pensamento religioso, por meio da defesado que é "verdadeiro" e da negação do que é "falso", é umprocesso que nos tornou insensíveis para as bases emocionaisde nossos atos. Em consequência, nos tornou inconscientes denossa responsabilidade em relação a eles, e obstruiu nossaspossibilidades de entender que a história humana segue ocaminho do emocionar, e não um curso guiado porpossibilidades materiais ou recursos naturais. Nossa visãotorna-se obscurecida para o fato de que são nossos desejos epreferências que determinam aquilo que vivemos comoverdades, necessidades, vantagens e fatos. 44
  45. 45. 5 - ORIGEM DO PATRIARCADO (PARTE 2)Façamos agora um paralelo entre as conversações definidorasda cultura patriarcal pastoril e da cultura matrística europeia:Conversações definidoras da Conversações definidoras dacultura patriarcal pastoril cultura matrística europeiaDe apropriação De participaçãoNas quais a fertilidade surge Nas quais a fertilidade surgecomo uma noção que valoriza a como a visão da abundânciaprocriação, num processo harmoniosa de todas as coisascontínuo de crescimento. vivas, numa rede coerente de processos cíclicos de nascimento e morte.Nas quais a sexualidade das Nas quais a sexualidade dasmulheres se associa à procriação mulheres e dos homens surgee fica sob o controle do patriarca. como um ato associado à sensualidade e à ternura.Nas quais se valoriza a Nas quais se respeita aprocriação e se abomina qual- procriação e se aceitam ações dequer noção ou ação de controle controle da natalidade e deda natalidade e regulação do regulação do crescimentocrescimento populacional. populacional.Nas quais a guerra e a Nas quais surgem a valorizaçãocompetição surgem como modos da cooperação e donaturais de convivência, e companheirismo como modostambém como valores e virtudes. naturais de convivência.Nas quais o místico é vivido em Nas quais o místico surge comorelação à subordinação a uma participação consciente naautoridade cósmica e realização e conservação datranscendental, que requer harmonia de toda a existência,obediência e submissão. no ciclo contínuo e coerente da vida e da morte. 45
  46. 46. Nas quais os deuses surgem Nas quais as deusas surgemcomo autoridades normativas como relações de evocação daarbitrárias, que exigem total geração e conservação dasubmissão e obediência harmonia de toda a existência, na legitimidade do todo que há nela, e não como autoridades ou poderes.Nas quais o pensamento é linear Nas quais o pensamento ée vivido na exigência de sistêmico e é vivido no convite àsubmissão à autoridade na reflexão diante do diferente.negação do diferente.Nas quais as relações Nas quais as relaçõesinterpessoais surgem baseadas interpessoais surgem baseadasprincipalmente na autoridade, principalmente no acordo,obediência e controle. cooperação e co-inspiraçãoNas quais o viver patriarcal de Nas quais o viver matrístico dehomens, mulheres e crianças homens, mulheres e criançassurge, ao longo de toda a vida, surge, ao longo de toda a vida,como um processo natural. como um processo natural.Nas quais não aparece uma Nas quais não aparece umaoposição intrínseca entre homens oposição entre homens ee mulheres, mas se subordina a mulheres nem subordinação demulher ao homem, pela uns aos outros.apropriação da procriação comoum valor.Sustento que nossa forma de vida patriarcal europeia surgiu doencontro das culturas patriarcal pastoril e matrística pré-patriarcal europeia como resultado de um processo dedominação patriarcal diretamente orientado para a completadestruição de todo o matrístico, mediante ações que sópoderiam ter sido moderadas pela biologia do amor. Com efeito,se quisermos imaginar como isso pode ter ocorrido, tudo o quetemos a fazer é ler a história da invasão da Palestina -fundamentalmente matrística - pelos hebreus patriarcais, talcomo está relatada na Bíblia.A cultura matrística não foi completamente extinta: sobreviveuaqui e ali em bolsões culturais. Em especial, permaneceu ocultanas relações entre as mulheres e submersa na intimidade dasinterações mãe-filho, até o momento em que a criança tem deentrar na vida adulta, na qual o patriarcado aparece em sua 46
  47. 47. plenitude. Num empreendimento de pirataria e domínio, oshomens invasores patriarcais pastores destruíram tudo e, depoisde exterminar os homens matrísticos, apropriaram-se de suasmulheres. Acredito que estas não se submeteram voluntária eplenamente, o que deu origem a uma oposição na relaçãohomem-mulher que não estivera presente em nenhuma dasculturas originais.Nesse processo, à medida que os homens patriarcais lutarampara submeter as mulheres matrísticas das quais se tinhamapropriado, estas resistiram e se esforçaram para manter aidentidade matrística. Só cederam para proteger suas vidas e asde seus filhos, mas sem nunca esquecer sua liberdadeancestral. As crianças nascidas sob esse conflito foram e sãotestemunhas participantes dele. E o viveram e vivem como umaluta permanente entre o homem e a mulher, que acabou por servivida como se fosse uma oposição intrínseca entre o masculinoe o feminino, também no seio de sua identidade psíquicaindividual.Em meio a essa luta, o homem patriarcal, como possui- dor damãe, tornou-se para a criança o pai - uma autoridade quenegava o amor ao mesmo tempo em que o exigia. Um serpróximo e distante, que era simultaneamente amigo e inimigo,numa dinâmica que igualava a masculinidade à força e àdominação, e a feminilidade à debilidade e ã emoção. Nessascircunstâncias, as mulheres descobriram que seu único refúgio,diante da impossibilidade de escapar ao controle e à dominaçãopossessiva dos homens patriarcais, era conservar sua culturamatrística em relação à sua prole - particularmente, em relaçãoàs filhas, as quais não tinham um futuro de autonomia na vidaadulta como os meninos.Além do mais, os meninos da nova cultura patriarcal europeiaemergente viveram uma vida que implicava uma contradiçãofundamental, à medida que cresciam numa comunidadematrística por alguns anos, para depois entrar numacomunidade patriarcal na vida adulta.Como foi dito anteriormente, essa contradição permanecetambém conosco, como uma fonte de sofrimento que nãopercebemos mas que pode ser reconhecida em mitos e contos 47
  48. 48. de fada, e que às vezes é mal interpretada de um ponto de vistapatriarcal, seja como uma luta constitutiva entre o filho e o paipelo amor da mãe - como a noção freudiana do complexo deÉdipo -, seja como expressão de uma desarmonia biológica,também constitutiva, entre o masculino e o feminino.No primeiro caso, a legitimidade da raiva do menino diante deum pai (homem patriarcal) que abusa da mãe (mulhermatrística) é obscurecida ao tratá-la como expressão de umasuposta relação de competição biológica entre pai e filho peloamor da mãe. Na relação mãe-filho matrística não perturbada, acriança jamais tem dúvidas sobre o amor de sua mãe. Tambémnão há competição entre pai e filho pelo amor da mãe deste,pois para ela essas relações ocorrem em domínioscompletamente diversos. E o homem sabe que essa relação vemcom os filhos e que só durará enquanto durar seu amor poreles.No caso puramente patriarcal pastoril, tampouco há conflitoentre o menino e o patriarca, porque este sabe que é o pai dosmeninos de sua mulher, e que esta não duvida da legitimidadede sua relação amorosa com ela e com seus filhos precisamenteporque ele é o patriarca.A situação do menino em nossa cultura patriarcal europeia atualé completamente diversa, porque a luta constitutiva matrísticapatriarcal, na qual ele cresce, não é apenas um aspectoancestral do mito da criação, mas sim um processo semprepresente. De fato, em nossa cultura patriarcal europeia atual,um menino está sempre em risco de negação: tanto por partedo pai, em sua oposição à mãe, quanto por meio do descuidopor parte desta, que vive sob uma permanente exigência. Talexigência a leva a desviar sua atenção do menino, enquantopretende recuperar sua plena identidade, chegando ela própriaa se transformar em patriarca.Repitamos isso em outras palavras. Na história de nossa culturapatriarcal europeia, o processo de negação da cultura matrísticapré-patriarcal europeia original não se deteve na separação eoposição de uma infância matrística e uma vida adultapatriarcal. Ao contrário - e com diferentes velocidades edistintas formas em diversas partes do mundo -, o impulso para 48
  49. 49. a total negação de tudo o que seja matrístico chegou até ainfância. E o fez por meio de uma pressão que corróicontinuamente os fundamentos matrísticos do desenvolvimentoda criança como um ser humano que cresce no autorrespeito ena consciência social, por meio de uma relação mãe-filhofundamentada no livre brincar, em total confiança e aceitaçãomútuas.É claro que esse curso não é conscientemente escolhido: ele é oresultado da expansão da vida adulta patriarcal ao âmbito dainfância, enquanto se pede - ou se exige - à mãe e ao filho queatuem segundo os valores e desejos da vida adulta patriarcal. Àmedida que as exigências da vida adulta patriarcal sãointroduzidas na relação mãe-filho, a atenção tanto daquelaquanto deste se desvia do presente de sua relação. E assim omenino acaba crescendo na desconfiança do amor de sua mãe,pois ela sem se dar conta cede a essas pressões, criando aoredor do filho um espaço de negação no qual seudesenvolvimento humano normal no autorrespeito e naconsciência social é distorcido.No segundo caso, a oposição e a desarmonia cultural que há, nopatriarcado europeu, entre os homens patriarcais e as mulheresmatrísticas, é vivida como a expressão de uma luta entre o beme o mal. Na cultura matrística não há bem nem mal, pois nada éalgo em si mesmo e cada coisa é o que é nas relações que aconstituem. Numa cultura assim, as ações inadequadas revelamsituações humanas de insensibilidade e falta de consciência dascoerências normais da existência, que só podem ser corrigidaspor meio de rituais que reconstituam tal consciência oucapacidade de perceber.Na cultura patriarcal pastoril, por meio da emoção da inimizade,uma ação inadequada é vista como má ou perversa em simesma, e seu autor deve ser castigado. No encontro da culturapatriarcal pastoril com a matrística, todo o matrístico se tornaperverso, ou fonte de perversidade, e todo o patriarcal se tornabom e fonte de virtude. Assim, o feminino se torna equivalenteao cruel, decepcionante, não-confiável, caprichoso, poucorazoável, pouco inteligente, débil e superficial - enquanto omasculino passa a equivaler ao puro, honesto, confiável, direto,razoável, inteligente, forte e profundo. 49
  50. 50. Resumamos então esta apresentação em quatro afirmativas,que aludem ao que ocorre atualmente em nossa culturaeuropeia patriarcal:♦ Nossa vida presente como povo patriarcal europeu, com todasas suas exigências de trabalho, êxito, produção e eficácia,interfere no estabelecimento de uma relação normal mãe-filho.Interfere, portanto, no desenvolvimento fisiológico e psíquiconormal das crianças como seres humanos autoconscientes, comautorrespeito e respeito social.♦ O desenvolvimento fisiológico e psíquico inadequado dacriança que cresce em nossa cultura patriarcal se revela emsuas dificuldades de estabelecer relações sociais permanentes(amor), ou na perda da confiança em si mesma, ou na perda doautorrespeito e do respeito pelo outro, bem como nodesenvolvimento de diversas classes de dificuldadespsicossomáticas em geral.♦ A interferência no livre brincar mãe-filho em total confiança eaceitação - que traz consigo a destruição da relação materno-infantil matrística - produz uma dificuldade fundamental nacriança em crescimento e por fim no adulto, para viver aconfiança e o conforto do respeito e aceitação mútuos, queconstituem a vida social como um processo sustentado.Crianças e adultos permanecem na busca infinda de umarelação de aceitação mútua que não aprenderam a reconhecer,nem a viver nem a conservar quando ela lhes acontece. Comoresultado disso, crianças e adultos continuam a fracassarsempre em suas relações, na dinâmica patriarcal das exigênciase da busca do controle mútuo, que nega precisamente o mútuorespeito e a aceitação que eles desejam.♦ As relações de convivência masculino-feminina são vivi- dascomo se existisse uma oposição intrínseca entre homem emulher que se torna evidente em seus diferentes valores,interesses e desejos. As mulheres são vistas como fontes deperversidade e os homens como fontes de virtude.O conflito básico de nossa cultura europeia patriarcal não é acompetição do menino com o pai pelo amor da mãe como nosleva a crer a noção do complexo de Édipo. Também não é a 50

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