Lost In Austen - Jane Austen Portugal
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  • Amei!!!Obrigada pela linda viagem que tive a oportunidade de fazer com esta leitura.
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Lost In Austen - Jane Austen Portugal Lost In Austen - Jane Austen Portugal Document Transcript

  • Lost in Jane Austen Portugal - Shortstory - Cátia Pereira Clara Ferreira Eva Sousa Fátima Velez de Castro Luan Fernandes Marina Nunes Paula Freire Sandra Freitas Vera Santos Jane Austen Portugal
  • Lost in Jane Austen Portugal 2
  • Lost in Jane Austen PortugalLost in Jane Austen Portugal 3
  • Lost in Jane Austen Portugal Às Nossas Leitoras 4
  • Lost in Jane Austen Portugal ÍndiceNota Prévia……………………. 6Parte I……………………………. 7Parte II…………………………… 8Parte III …………………………. 12Parte IV…………………………. 14Parte V………………………….. 16Parte VI…………………………. 17Parte VII………………………… 19Parte VIII……………………….. 23Parte IX………………………….. 30 5
  • Lost in Jane Austen Portugal Nota PréviaNum dos muitos emails que trocamos, a Fátima sugeriu que criássemos anossa própria história inspirada na escrita de Jane Austen. Tal sugestãogerou total unanimidade no grupo.E é assim que surge o nosso Lost In Jane Austen. Uma pequena históriaescrita por nove fãs de Jane Austen que, no seu amadorismo, decidiramtentar permanecer fiéis ao estilo de Miss Austen.Cada uma ficou responsável pelo desenvolvimento da história duranteuma semana, por isso, o rumo que tomou foi totalmente imprevisível.Desejamos que gostem tanto do resultado final quanto nós, porque paraalém de partilharmos o prazer de ler, descobrimos também quepartilhamos o prazer de escrever. E modéstia à parte, penso que não nosaímos mal! 6
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte I [Cátia Pereira]Metade de mim é angústia, outra metade é esperança. Esta é a minha dualidade.Caminho neste corredor de infinitas portas e um sem fim de possibilidades. A incertezaé o combustível que retrai o meu interior e, em simultâneo, empurra-me paracontinuar a persistir. Eu queria que entendesses isto, que há decisões que têm de sertomadas. Há que ter coragem de lutar. Espero que compreendas o que me move e oque me faz dizer-te estas coisas. É este sentimento que carrego nas mãos.Enquanto ela escreve tudo isto pensa que os seus sentimentos e os seus pensamentossão intraduzíveis. Por muito que tente, convence-se que este conjunto de palavras nãosão serão inteligíveis. “Será que tu entenderás?”, questiona-se. A folha de papel nãolhe responde e os seus olhos ficam suspensos no ar, perdidos. Ela olha para as suasmãos calejadas, as mesmas que escreveram aquela carta, as mesmas que trabalhamarduamente todos os dias. Ela olha para as suas mãos e pensa que há certas angústiasque são profundas demais para serem vividas. Caminha em direcção a janela, emdirecção a si mesma reflectida no vidro e vê que a esperança impede a corrosão dadúvida mas impele-a ao desassossego.A convicção de estar a ser prudente e abnegada acima de tudo para bem dele, foi oseu principal consolo no tormento de uma separação. E, é preciso dizer, asseparações são abismos. Não é fácil abraçar a distância. Não é fácil persistir num céusem limites. Caminhar junto, mas separado. Fixar diferentes horizontes e fazer deconta de que se trata de um mesmo horizonte. Não, não é fácil.Encosta a mão de encontro ao vidro da janela, como quem se apoia. Fica assim imóveldurante alguns minutos. A pensar. A pensar no adeus. Nas chegadas e nas partidas. Nodilatar do coração impregnado de saudade. Inspira e expira demoradamente a frase:“tu és a minha imensidão”.Pára, olha e vê. As mãos não acreditam. Abrem a janela. Abrem a janela para ver. Asmãos abrem a janela para ver e o dilatar do coração inspira e expira “tu és a minhaimensidão”.Há a angústia, a esperança, a convicção, o tormento, a separação, a distância, asaudade. E há a imensidão. Janela aberta. Coração dilatado. E há, sobretudo, as mãosque não acreditam e os olhos que param, olham e vêm. 7
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte II [Clara Ferreira]A espera é terrível. Uma antecipação constante daquilo que se crê ser uma chegada.Augusta Ferreira estava sentada numa velha poltrona, tão velha quanto ela. Sentadaapenas, já sem capacidade sequer para recordar, para viver na mente a juventudeextinta por um corpo gasto. Junto a ela, numa antiga cadeira de baloiço, que rangiamelancolicamente quando ia e vinha, estava Júlia, uma sobrinha neta da qual dependiainteiramente. Júlia, "era bonita, inteligente" e herdeira de uma valiosa fortuna."Além disso, tinha vivido quase" vinte e nove anos "neste mundo, com muito poucoque a afligisse e enfadasse". Era diligente, cuidadosa e carinhosa. Conversava horas afio com a tia Augusta colocando na voz um tom alegre e optimista, desejando poderressuscitar daquele corpo qualquer sinal ou nuance de vida. Era com tristeza e commuito pesar que assistia àquela espera mórbida da tia, a espera de ver chegar a morte.Tinha na mão um livro que lia com prazer. Desde que para ali fora morar, há já trêsanos, para cuidar da tia enferma, percorrera a vastíssima biblioteca do segundo andarque pertencera ao tio-avô do qual ela pouco ou nada lembrava. Estudara até tarde,agora escrevia livros, dois deles romances e três ensaios sobre o "tio Eça". Naquelabiblioteca encontrara base, inspiração e vontade para se dedicar à tese deDoutoramento em Estudos Queirosianos. E esta era a vida de Júlia, que para ali semudara para dedicar o seu tempo à tia que a criara a si e à irmã Cecília. Enquanto subia as escadas da velha casa da tia Augusta, com uma pilha de livros aocolo, recordava as férias de Natal que ali passara e de como ela e Cecília corriamescadas acima escadas abaixo, importunando tudo e todos mas espalhando por toda acasa, já na altura antiga, uma estrondosa alegria. A tia Augusta decidira, há mais de dezanos, mudar-se definitivamente para ali, abandonado a casa onde ela e Cecília tinhamcrescido, que estava agora fechada a sete chaves à espera de ser vendida. Ela preferiainfinitamente a casa de Poiares, onde passara a infância, não só pelas imensasrecordações, mas também porque agora dava valor ao facto de ser uma casa deapenas dois andares e poucas escadas para subir. Ali, tinha cinco lances de escadaspela frente até chegar ao quarto que ocupava no sótão.Imersa nestes pensamentos dispersos, Júlia deparou-se com a porta do segundo andarentreaberta. Lá de dentro ouvia um rogaçar de caneta em papel. Subiu até ao quartopara se dedicar à tese, mas lembrou-se dos óculos que deixara lá em baixo e foi comum certo mau-humor que desceu para os ir buscar. A curiosidade, contudo, obrigou-aa parar no segundo andar, a caneta já não escrevia. Espreitou e viu Cecília encostada àjanela. Que estranha melancolia era aquela... Cecília andava assim há uns tempos - elavia-o, mas a intimidade entre ambas dissipara-se e já não igualava aquela dos temposde infância. Júlia não sabia o que dizer, não sabia o que fazer. 8
  • Lost in Jane Austen PortugalMas o sofrimento em que estava mergulhado o coração de Cecília transpareciaclaramente por aquela imagem reflectida no vidro da janela. E embora Júlia tivesse, hámuito, perdido a confiança da irmã, não podia deixar de ficar indiferente àqueleestado de espírito tão sufocante. O mesmo sentimento de ânimo de que se servia parafalar com a tia, foi o mesmo que sentiu e que, num impulso, a obrigou a colocar a mãona maçaneta e a empurrar a porta, para falar com Cecília, para lhe mostrar que estavaali e seria a sua eterna confidente. Mas depressa se perdeu, e num milésimo desegundo, a mão, que tão prontamente fora colocada na maçaneta, estava agorapousada no corrimão da escada e as pernas desse corpo, desciam lentamente, degraua degrau, com passos perdidos e nos olhos desse corpo, duas lágrimas percorriam asfaces rosadas. Júlia perdera muito com o seu egoísmo. Sim, ela sabia-o. E só elaconhecia o seu arrependimento.Cecília estava deitada na cama a olhar para o tecto. Estava ali de passagem. Vieravisitar a tia e a irmã e aproveitara para ficar uma semana. Júlia pedira-lhe que fosse.Há uns quinze dias atrás recebera um email da irmã, no mínimo com uns 90centímetros de comprimento. Era fantástica a forma como Júlia escrevia tanto semdizer nada de especial, perdida em descrições de situações triviais.Tinham-se afastado há uns cinco, seis anos. Uma separação natural e lenta. Nessetempo Júlia vivia demasiado para si e, inconscientemente, esquecia-se daqueles que arodeavam, e aos poucos, o desconhecimento tornou-se numa estranheza e as duasirmãs que antes haviam sido unha com carne, eram agora duas parentes que seencontravam nas festividades e cuja conversa passava pouco além de temassuperficiais, não obstante de Júlia dar sempre as essas conversas, um ânimo e alegriaforçados como se tudo estivesse na mesma. Era uma máscara estranha a que a irmãusava, um optimismo ilusório ou uma ilusão forçada.Júlia nunca o conhecera. Contar-lhe agora qualquer coisa sobre a separação entre ela eele seria, para além de esquisito, totalmente deslocado. Como poderia ela condensarem palavras a imensidão daquilo que sentia? Além disso a sensibilidade de Júliaparecia sedimentar-se toda nas páginas dos livros que escrevia. E há muito que ela secansara da máscara do belo sorriso da irmã e, julgava Cecília, que pouco mais ela lhetinha para oferecer.E foi neste turbilhão de pensamentos, que saltavam de Júlia para ele, que Cecíliafinalmente adormeceu. No relógio piscavam três horas da manhã quando Cecília selevantou e dirigiu à secretária retirando da gaveta uma folha onde escrevinhou:«Tive pavor de esquecer a tua voz gasta pela maré e por isso, em sonhos, voei até aomar e distingui as tuas feições no vento, senti que te entranhavas suavemente no vazioda minha alma. No corpo, mantive o sabor a maresia dos teus lábios. Guardo-te 9
  • Lost in Jane Austen Portugalserenamente nos confins lentos da minha recordação, no constante vai e vem dasondas que recuam para poder seguir em frente.»Quando se voltou a deitar, nem a almofada poderia abafar o som peculiar de quemchora e naquele coração mergulhado em mágoa uma frase entoava como consolação"O curso do amor sincero nunca é sereno".Júlia, recebeu na tarde do dia seguinte, a Senhora Aurora, uma antiga vizinha e velhaconhecida da família - que na intimidade da casa e dentro das quatro paredes, erachamada por Dona Rata, o seu apelido de solteira do qual tanto a tia Augusta se ria.Júlia recebia-a com toda a simpatia que lhe era possível. Ultimamente frequentavamuito a casa pois viera viver para junto do filho e então as visitas à tia Augusta eramum enorme entretém para ela e um gigantesco alívio para o filho, mas um tormentopara Júlia. A dona Rata era uma mulher inconveniente que falava pelos cotovelos,criticando mais do que aprovando. Sabia ferir susceptibilidades como ninguém eachava que tinha sempre razão, e já ninguém a contradizia pois a idade é um posto.Sempre gostara de Cecília, aquela jovem menina de cabelos doirados que lhe levava asarrufadas pela altura da Páscoa, a mando da tia Augusta, num grande cesto de vergaquase maior que ela, alimentando a gulodice à dona Rata. Cecília nunca a confrontaracom nada e suportava como ninguém os seus inoportunos monólogos sem denotarqualquer espécie de cansaço ou irritação. Já Júlia sempre fora mais traquina, e quandoera pequena era terrivelmente impaciente, incapaz de ficar quieta enquanto ela falava.E a falta de consideração era algo que a dona Rata não podia permitir, nem a umacriança de sete anos. Por isso, na sua escala de consideração, Júlia não ocupavanenhum lugar cimeiro. E, embora sendo agora adulta e suportando com certo nível asinconveniências da dona Rata, era incapaz de esconder a sua impaciência e, a partir dedeterminada altura, as pernas cruzavam e descruzavam com demasiada rapidez. E adona Rata via-o e por isso, provocava-a ainda mais, ou com a mobília que se viaclaramente que não estava a ser convenientemente cuidada:- E olha que é mobília de extrema qualidade, se não for encerada pelo menos uma vezpor mês podes ter uma infestação de térmitas e isso seria profundamente desgostosopara a tua tia, que tanto gosta de ti, Julinha. Júlia, atrás dela, enquanto se dirigiampara a sala de estar, revirava os olhos e meneava a cabeça.Se não era com a mobília era com o estado civil de Júlia que ela considerava muitopouco apropriado para uma jovem da sua idade:- Como é possível que a Julinha ainda não tenha casado... bem sei que a competênciapara dona de casa é muito pouca e isso afasta muitos dos melhores jovenscasamenteiros... mas pelo menos não é feiazinha de todo, não é assim? Olhe para oexemplo da minha Elvira ou da minha Conceição, bem sei que ainda possuem o brilhoda juventude, mas têm só menos dois anos que a Julinha e já casadas com dois moçosde muito boas famílias, pena que a Julinha não tenha essa sorte... mas também a 10
  • Lost in Jane Austen Portugalescrever livros... em que é que a Julinha estava a pensar quando se meteu nisso! - edito isto, olhava expectante para Júlia, sugando todas as expressões que mostrassem oimpacto que as suas palavras tinham tido.Esta inspirava e tomava o seu ar mais calmo e solícito respondendo: - "Eu não possuonenhum dos estímulos que levam as mulheres a casar. Ainda se me apaixonasse,seria diferente... Mas eu nunca me apaixonarei: não está no meu feitio nem naminha natureza. Nem julgo que o esteja alguma vez".Dona Rata olhava para ela incrédula, virando-se para a tia Augusta, murmurando: -Esta juventude... mania das independências Augusta, fosse no nosso tempo...! MasAugusta, já ouviste falar da Romaria da Nossa Senhora da Piedade deste ano? Nemsabes quem eu vi por lá... lembras-te da Leonor, a que casou com o Alfredo daindústria das alcatifas? Pois bem, ... ...A conversa foi longa. Incluiu uma ou duas vezes Cecília, perguntando-lhe peloemprego, mas nada mais. Foi com alívio que Júlia a viu ir embora enquanto acenava àporta com a irmã.- A dona Rata não tem remédio! - foi a frase em tom sarcástico que Cecília deu à irmã.- Intratável, insuportável, odiosa... ! - e mais alguns insultos que Júlia foi discorrendoenquanto subia as escadas. Aquela mulher tirava-a do sério... 11
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte III [Eva Sousa]É tudo tão mais fácil quando se é criança...As crianças amam sem conceituar, não pensam no que devem sentir, limitam-se asentir. Julgam com os olhos e o coração e muito menos com a razão. No fundo não secresce...complica-se!Em Cecília esta é uma verdade particularmente presente! Ela não podia casar com ele,amava-o de todo o coração, mas a vida não tomou esse caminho! Não é também quefosse impossível, mas na sua cabeça era-o...Ela não era a pessoa que deveria ser. Ser-lhe-ia impossível não o amar, mas eram tãodiferentes. "Toda a gente sabe que um homem solteiro em posse de boa fortuna éconsiderado um bom partido para casar", e ele era-o. Ele, na cabeça dela era perfeito!Como atingir o que se esperava dela, ela era apenas uma rapariga confusa, uma boarapariga mas tão cheia de inseguranças. Não lhe parecia que o amor dele fosse sincero,não que o pudesse julgar por falta de sinceridade, mas como acreditar que alguémassim a pudesse desejar para si? E a distância... Ele não ia aguentar a distância!Se o amava, e ela amava, fez o que devia, libertou-o!Agora remoía nisso... porquê? Porquê ser infeliz quando a felicidade estava a umachamada de distância! Não ela não ia ceder, era fraqueza, ela não era fraca, eraconstante e sólida. Talvez em demasia. Sempre lhe fora difícil entender o mundo daspalavras, o mundo no qual Júlia vivia perdida. Não! Ela era uma mulher pragmática,vivia e trabalhava com factos concretos. Era economista, o mundo das palavras nãoera definitivamente o seu.Talvez por isso o amor a tenha tocado de forma tão inesperada. Sempre achou queencontrasse alguém por conveniência, que neste mundo moderno não havia espaçopara o amor, que o casamento e as relações eram contractos... Mas todo este cinismode pensamentos não se coadunava com o que o seu coração sentia... Um amor forte etransbordante, correspondido!O que a impedia? Não, eles eram demasiado diferentes. Ele era perfeito, ela não!Nunca ninguém entendia esta ideia de Cecília, como era possível que alguém tãointeligente se visse de forma tão deturparia. Ela era bonita, tinha um corpoequilibrado, era refinada e elegante, tinha sido educada com valores e conceitos quenão passam de moda, ou que pelo menos não deveriam, no entanto toda esta fé do 12
  • Lost in Jane Austen Portugalmundo nela não era suficiente para que se sentisse em si própria como completa esuficiente.Henrique era o exemplo do que um homem normal deve ser. Talvez não. Não existemHoje no mundo homens como Henrique, ou os que existem estão disfarçados, não époliticamente correcto ser-se um homem normal.Henrique era culto e inteligente, mas descontraído. Era uma pessoa confiante,extrovertido, tinha amigos e gostava de futebol!Para Henrique o mundo era um local simples e fácil.Pelo menos antes deste afastamento de Cecília, porquê? Será tão complicado assim?Não fazia sentido na sua cabeça que as pessoas criassem muros que não existem.Cecília fora sempre sua amiga, uma amiga muito querida, mais tarde começaram anamorar, anos a fio estiveram juntos. Ele não sabia viver sem ela, e agora era-lhepedido que o fizesse! Cecília via sempre o lado negro das coisas, e essa falta deesperança face à vida divertia-o, ajudava-o a encontrar o seu lugar na vida dela. Elesentia-se necessário para a fazer feliz. Para tudo o resto Cecília era auto-suficiente, amorte dos pais ensinou-a a ser capaz, adulta, responsável! Vivia num mundo em quenão havia espaço para incertezas.Ele queria tanto derrubar estes muros, construir um futuro, queria tomar Cecília parasi e ser feliz num conjunto! Dar-lhe um pouco daquilo que lhe faltava… Para Henriquea divisão entre os géneros fazia sentido, ele acreditava que"no casamento umhomem deve prover" o suporte "a uma mulher, e esta deve tornar a casa agradável". 13
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte IV [Fátima Velez de Castro]Cecília e Henrique eram, aos olhos dos outros, o par provável. Dos outros e delespróprios, embora Cecília tentasse a todo o custo, mentindo a si mesma, alimentarjustificações puramente especulativas, que no fundo não tinham base de verdade. Defacto faziam um casal perfeito, um belo conjunto quer em termos físicos, quer naquestão do carácter e da sensibilidade.A decisão de abandonar a relação tinha sido ela a impor. E sabia que ele nunca se iriaconformar. Porém um certo silêncio fazia-a vacilar nesta convicção, acreditando aospoucos que de facto tudo estava consumado e jamais se voltariam a encontrar. Teriaficado eternamente no silêncio, não fosse a visita à sua tia, à sua irmã e a convivênciasocial com D.Rata. Mas há coisas que não se podem evitar, especialmente quando seestabelecem relações familiares e de amizade com determinadas pessoas.Pudera ela evitar, e talvez nunca tivesse sido alvo da tremenda maldade que lhe estavaa destruir por completo todas as suas esperanças. Naquela tarde, quando Eduardo aprocurara, Cecília não pôde imaginar o motivo que o leva a estabelecer tal contacto.Na verdade só se tinham falado brevemente, uma só vez, quando lhe foi apresentadocomo irmão de Henrique. De facto eram idênticos, muito bem-parecidos no rosto e emtermos físicos, porém completamente diferentes em termos de carácter. O bom e omau, o preto e o branco, a claridade e a escuridão, afastando dois irmãos que, tendoem os mesmos pais, eram em tudo diferentes.Naquele fatídico fim de dia, em que Eduardo a procurou no parque, usou todas asarmas da sedução para lhe captar a atenção, utilizando para isso palavras enganadorascontra o seu próprio irmão. Vendo que não conseguira o intento, e apercebendo-se dopavor que causava a Cecília, abriu o jogo e, com toda a frieza que se consiga imaginar,assegurou-lhe que eliminaria o irmão se o casamento se consumasse. Havia alguémque pretendia Henrique, alguém poderoso e com influência, que persuadira Eduardo aafastar Cecília do caminho para poder conquistar Henrique. Com isso, o irmão traidorganharia uma fortuna, que era tudo aquilo que lhe interessava na vida. Ela sabia que aameaça era séria e que ele faria o que fosse preciso para conseguir o intento.Perante o perigo, como podia Cecília não sacrificar o seu amor?A tia de Cecília tinha uma autêntica adoração por Luluzinho, um aristocrata meio falidoque frequentava os meios mais reputados da região. Lucrécio José Marinho de SousaAlves e Telles de Mendonça ostentava o brasão de família no seu dedo anelar, 14
  • Lost in Jane Austen Portugalenquanto enrolava o bigode com a outra mão. Isto se não tivesse na sua frentecomida, pois aí esquecia todos os pergaminhos, embora fosse melhor que assimestivesse, pois qualquer tipo de conversa acabava sempre com a intelectual piada “…mas ele não tem personalidade jurídica”. Isto sem contar com a falta de cultura geral,com as discussões completamente ignorantes. Demasiado mau para ser verdade! A tiaqueria que Cecília o conhecesse melhor, pois dizia que “dois jovens como vocês nãodevem estar privados de uma certa intimidade”. Às vezes pensava se seria melhor irpelo caminho mais fácil...Fora há uns anos pretendente de Júlia, mas alguma coisa se tinha passado. Algo muitograve. A tia e D.Rata bem tinham indagado, mas nada conseguiram descobrir. Tantoque se cansaram e desviaram os seus alvos de coscuvilhice noutras direcções. Diga-segrave porque era algo que destabilizava completamente Luluzinho, ao ponto destefugir a meio de uma refeição, só porque soube que Júlia iria entrar na sala. Cecílianotara na irmã algo estranho, um secretismo que as afastava, que as deixavaconstrangidas na mesma casa.Haveria alguma relação com o telefonema misteriosos que ela recebia,impreterivelmente, às 17:00? 15
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte V [Marina Nunes]E enquanto pensava na sua irmã e nos estranhos telefonemas e no afastamento deambas Cecília olhou-a... Júlia estava sentada no jardim em mais uma das suas leituras eCecília notou o seu olhar vago e o quanto estava a demorar a virar a página... Será quea sua irmã tinha um segredo como o dela, que lhe tirava a concentração e o sossegoporque o coração latejava de dor o dia todo? Seria a sua racional irmã capaz de se terentregado a um amor sem limites? E daí pensou em algo que ainda não tinha pensado:Como estaria Henrique? O que estaria a pensar nesse momento? Como estaria ele aver toda aquela situação? Será que ele estava a sofrer ainda? Ou já lhe teriam abertonovas perspectivas? Nem queria imaginar tal coisa...Sentado na sua cadeira com o computador aberto à sua frente, olhava a avenida láfora. As pessoas andavam apressadas de um lado para o outro. Uma menina de longoscabelos corria sorrindo e olhava o relógio... Provavelmente corria feliz para umencontro... Duas mulheres seguiam lado a lado a conversar: gesticulavam e riam... Umhomem caminhava olhando o céu com olhar triste... Uma criança brincava na beira dopasseio com um carro... Tinha um chapéu verde que lhe caía constantemente para afrente e que deixava caído continuando a empurrar o carro que ia contra os postes quese colocavam no seu caminho e só aí levantava o boné, que minutos depois voltava acair... A mãe estava sentada no banco perto da criança e sorria ao olhá-lo... e ele viu oamor daquela mãe naquele olhar... Como via amor nos olhos de Cecília sempre queestavam juntos e próximos. Como é que ela podia ter mudado tanto, tãorepentinamente? O amor que tinha por ela era puro, sincero, forte... Não era só algocarnal que poderia ter com qualquer mulher bonita que lhe despertasse a atenção, erauma simbiose perfeita... mesmo os defeitos dela eram adoráveis... Enlouqueciam-nopor vezes mas, no final, eram adoráveis. Sempre tinha confiado nela e nos sentimentosdela. Era uma mulher forte, de convicções, de crenças mas sempre disponível paraaceitar novos "pontos de vista"... E agora tinha acabado com a relação como se estativesse sido um "capricho" que terminou... Precisava de tempo e espaço para pensar oque fazer e tirar elações de tudo o que se tinha passado e decidir a sua vida, mas osconstantes compromissos que o seu irmão andava a arranjar e o trabalho não lhedeixavam tempo para nada. Estava a pensar em tirar umas férias sem aviso prévio edesaparecer sem dizer a ninguém para onde ia. Sim... era isso que ía fazer: resolver 2ou 3 questões importantes e partir... Só tinha de encontrar o sitio perfeito para puderescapar... Avisaria a caminho... 16
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte VI [Luan Fernandes]“Mas que lugar poderia ser este?”. Henrique questionava-se. Com certeza, seria longede seu irmão e de sua inconveniente amiga, Bárbara, que impunha a sua presença atodo custo. Que mulher desagradável e fútil! Ter dinheiro facilita a vida em váriosaspectos, pode até aproximar pessoas, porém é difícil produzir relacionamentosverdadeiros. E parece que seu irmão e Bárbara tentavam lhe mostrar que possuirfortuna era sinónimo de felicidade constante. Como estes dois o irritavamultimamente. E ainda havia a dor da saudade que sentia de Cecília...De repente, ocorreu-lhe uma ideia: e se fosse procurar Cecília novamente? Sim! Eraisso! Iria atrás dela, ao invés de fugir de seus problemas. Ele iria ao encontro dela natentativa de argumentar a favor do amor que os unia. Ela iria ouvi-lo, talvez suasurpreendente resolução de por fim a relação fosse dissipada quando a tocassenovamente. Um sentimento de esperança o invadia. Decidido, Henrique pegou a chavedo carro e saiu.Enquanto isso, na casa da Tia Augusta, o silêncio reinava. Tia Augusta cochilavaserenamente em sua cadeira de balanço. Júlia, em seu quarto, relia um livro deitadaem sua cama. Cecília ouvia uma música de Chico Buarque, cujos versos intensos desentido e no baixo volume declaravam:“... Ah, se ao te conhecerDei pra sonhar, fiz tantos desvariosRompi com o mundo, queimei meus naviosMe diz pra onde é que inda posso irSe nós nas travessuras das noites eternasJá confundimos tanto as nossas pernasDiz com que pernas eu devo seguir...”.A aparente calma do ambiente não era reflexo dos sentimentos contraditórios eturbulentos que dominavam duas de nossas personagens: Júlia e Cecília. Apenas, TiaAugusta tinha a mente em repouso. Júlia pensava na solidão que a consumiaultimamente. Mesmo tendo a presença constante da Tia, sentia falta da convivênciacom outras pessoas, de se distrair um pouco, de se desligar da sua rotina. Estavatambém preocupada com o status atual de sua relação com a irmã, ambas muitodistantes uma da outra e sem tentativas de reaproximação. Sentia-se triste, cansada,insatisfeita com as metas que tinha traçado para a sua vida. 17
  • Lost in Jane Austen PortugalJá Cecília curtia uma saudade intensa da vida que teve que abdicar. Será que algum diaesta tempestade irá passar? Experimentava uma sensação de desespero, queria tantoconversar com alguém. Pensou em Júlia, mas sempre a via absorta em seuspensamentos e estudos, focada em suas prioridades e com aparente indisponibilidadepara conversas. A letra da música aflorava mais angústia em seu espírito.De repente, a campainha tocou. Tia Augusta acordou assustada. “Seria novamente a D.Rata?”, pensou Júlia irritada e desceu as escadas para atender a porta. 18
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte VII [Paula Freire]Júlia abriu a porta e à sua frente encontrava-se um homem bonito e bem apresentado.Rapidamente percebeu, pelo rosto preocupado e pela leve agitação que deixavatransparecer, que se devia tratar de Henrique. Este, impaciente, informou-a quedesejava falar com Cecília. Júlia hesitou por um instante mas, desviando-se,escancarou a porta para o deixar entrar. Levou-o até à sala de estar, em cujadecoração sobressaía a cadeira de baloiço da Tia Augusta, e pediu que aguardasse uminstante enquanto ia chamar Cecília, dizendo-lhe que ficasse à vontade.Enquanto subia as escadas até ao segundo piso, reflectia sobre aquele homem queparecia tão diferente do irmão. Ficou a conhecer Eduardo no dia em que ele veioconversar com Cecília e logo ali o detestou. Algo naquele homem a tinha deixadoinquieta. Um arrepio atravessou-lhe o corpo quando passou junto da sala em direcçãoao terraço e o viu conversar com a irmã. Não percebeu o que conversavam, masaquela estranha inquietação não mais a largou até ao dia em que se voltaram aencontrar. Aquele fatídico encontro.Ao passar pelo quarto da Tia Augusta, esta chamou-a para se informar de quem asvisitava. Júlia informou-a de que se tratava de Henrique e pediu-lhe que voltasse adescansar. Preocupava-a a aparência cada vez mais débil da Tia. Parecia-lhe quenaquela semana a sua saúde se tinha debilitado subitamente. Só quando via Cecília éque a sua tez se iluminava. Via-se a felicidade bailar-lhe os olhos.Bateu à porta e logo ouviu os passos de Cecília. Informou-a de que Henrique seencontrava na sala e que lhe queria falar. Júlia reparou como Cecília estremecera.Olhou-a com um ar apreensivo mas a irmã tentou recompor-se e nada mais disse doque um agradecimento.- Cecília... se... se precisares de alguma coisa, estou aqui... desculpa...- Obrigada, Júlia! Não vou precisar de nada. - Informou prontamente Cecília. Aquelenão era o momento para conversarem. Todavia, ficou feliz pela abordagem da irmã.Seria um primeiro passo para uma longa conversa. Ambas estavam a precisar de sereencontrarem. Afinal, se a Tia Augusta morresse, elas só se teriam uma à outra.Quando desciam as escadas, a campainha voltou a tocar.- Deixe-se estar, minha tia. - Disse Júlia no tom mais doce que encontrou ao passarnovamente pelo seu quarto, verificando que esta fazia um gesto para se levantar.Pediu licença para encostar a porta e desceu. 19
  • Lost in Jane Austen PortugalÀ porta estava Eduardo. Cecília estava pálida e Júlia quase pressentiu que a irmã iadesmaiar. Ela própria gelou quando viu a figura do homem que nos últimos dias aperseguia.- Ora ainda bem que a encontro, Cecília! Venho saber como tem passado - foiavançando Eduardo num tom firme e seguro. No entanto, é com a sua irmã que queromesmo falar, se não se importa. Perdoe-me a indelicadeza de não lhe prestar atenção,mas, como sabe, sou um homem muito ocupado.- Claro!... foi a resposta de Cecília- Não me convida a entrar, Júlia?Júlia não respondeu, limitando-se a fazer um aceno com a cabeça o que Cecília, nomeio os turbilhão de sentimentos que a assaltavam naquele instante, pôde aindaperceber. Estava atordoada. Henrique estava na sala ao lado e ela não sabia o quefazer. Sem dar tempo às irmãs, Eduardo dirigiu-se para a sala confiante. Estaconfiança deu lugar à surpresa. Não estava à espera de encontrar Henrique naquelacasa. O nervosismo que o invadiu foi percepcionado pelo irmão.- O que fazes aqui? - Perguntou Henrique tentando esconder a fúria que tomava agoraconta do seu espírito. Havia algo que não estava a fazer sentido naquela história toda.Mas não teve sequer hipótese de perguntar mais nada. Cecília dirigiu-se-lhe com umavoz fria e calma e pediu-lhe que saísse e que nunca mais voltasse àquela casa onde jánão era bem-vindo. Informou-o que apenas tinha descido para que a irmã não fosse amensageira de algo que só ela lhe podia dizer.Henrique saiu magoado, ferido e, acima de tudo, furioso. Percebeu a palidez e onervosismo nas duas irmãs e em Eduardo. Era evidente que ele tinha alguma coisa aver com tudo isto. Haveria de saber o que era e resolveria tudo. Nesse mesmo instanteuma luz de esperança voltou a aquecer o seu coração. Ficava com a certeza de quenada tinha feito para afastar Cecília. Algo a tinha afastado dele. E tinha a ver com o seuirmão. Estava certo disso.A resolução de tirar uns dias de refúgio estava agora ainda mais firme. Iria para Paris enão diria nada a ninguém. Em vez de seguir para casa, seguiu para o escritório e nocaminho telefonou para Ana, a sua secretária, que há muitos anos trabalhava consigo,e pediu-lhe que fizesse alguns telefonemas. Quando chegou, já uma grande parte dosassuntos daquela semana e da seguinte se encontravam reagendados. O facto de nãoter encontrado quaisquer obstáculos por parte dos clientes tinham-no animado. Eraprofissional e exigente consigo e com os seus colaboradores e não gostava de faltarcom a sua palavra. Entretanto, Ana, já lhe havia reservado o hotel e conseguira umbilhete numa companhia de low cost. Partiria no dia seguinte.A perspectiva de estar longe do irmão e destes últimos acontecimentos ajudaram aque se acalmasse. Já em casa reflectia em tudo o que tinha presenciado e não 20
  • Lost in Jane Austen Portugalconseguia perceber exactamente o que se passava. Sabia que o irmão não era boa rêse conhecia bem Cecília. Percebera a sua inquietação quando a vira entrar na sala,embora esta não combinasse com o tom de voz com que lhe falara. Estes dias em Parisserviriam para se concentrar apenas e só na forma de agir. Não iria ficar muito tempo.Estava certo de que reconquistaria Cecília e de que casaria com ela. Esta era a suamaior determinação. Não por teimosia, mas por amor. Cecília encantara-o com a suasensibilidade e com a sua inteligência e ele sabia que ela era a mulher da sua vida.Entrou no avião e o seu pensamento viajou até ao passado. Estava em Paris comCecília, a jantar no Sena, junto à Torre Eiffel... Naquele verão apenas a melodia doamor e a confiança dos seus afectos os inundavam.Júlia sentia-se esmagada. A sua objectividade e racionalidade tinham sucumbidoperante a malvadez intrépida daquele homem odioso. Eduardo... o seu nome causava-lhe náuseas. Por mais que pensasse não conseguia descortinar um plano para protegera irmã e para se soltar da manipulação a que estava a ser sujeita. E se contasse tudo aCecília? Será que ela acreditaria? Talvez Henrique a pudesse ajudar pois perceberaimediatamente que este era bem diferente do irmão e conseguira ler nos seus olhos oamor verdadeiro que sentia pela irmã.Foi arrancada destes pensamentos pelo toque do telefone. O seu coração deu um puloe as suas mãos começavam a suar. Tinha quase a certeza de que era ele. Júlia atendeucom a voz quase apagada mas do outro lado soou uma voz feminina que pedia parafalar urgentemente com a senhora dra. Cecília. Júlia ficou aliviada. Correu a chamarCecília.Um cliente francês com quem deveriam fechar um negócio na semana seguinte estavarenitente em celebrar o contrato. Necessitavam agora da sua perícia enquantoeconomista e grande conhecedora daquela vertente da empresa para reavaliar aproposta. O melhor, diziam, era que a equipa responsável por aquele projecto sedeslocasse à sede da empresa do cliente, em Paris, por se tratar de um clienteimportante que não poderiam perder. Ficou então combinado que sairia no diaseguinte, no voo das 10h30. A reunião teria lugar às 16h00, no escritório principal daempresa, nos Campos Elísios. Isto dar-lhe-ia margem para se instalar no hotel e reveralguma nota que achasse mais importante debater. Este telefonema veio retirar-lheum pouco da angústia causada pelos acontecimentos anteriores. A cabeça estavaagora ocupada com estratégias e planos para debater no dia seguinte.Às vinte horas desceu para jantar e informou a tia e a irmã que se iria ausentar pordois ou três dias. No entanto, como a semana a que se dispusera ali passar ainda nãotinha terminado, voltaria para ficar mais uns dias. Esta notícia alegrou a tia e acalmouo coração de Júlia. É sempre um tormento ver uma irmã sofrer mesmo quando aligação de infância parecer ter-se desvanecido. Quando este existe na infância,raramente se quebra para sempre. 21
  • Lost in Jane Austen PortugalSozinha no seu quarto, Cecília era agora um rosto de angústia e tristeza. O seureflexo na janela devolvia-lhe a figura de uma mulher arrasada pelo sofrimento. Tinhadificuldade em reconhecer-se. A lembrança de que há exactamente um ano tinhaestado em Paris, para onde seguiria no dia seguinte, vincavam ainda mais a suatristeza. Não conseguia adormecer. Os seus pensamentos oscilavam entre a vivênciadaquela tarde e os dias passados em Paris, no Verão passado, com Henrique. 22
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte VIII [Sandra Freitas]Cecília fechou os olhos e sentiu-se adormecer.- Nunca deixarei de te amar. És a mulher que sempre procurei e quis - era Henriquequem a observava com carinho e lhe dizia estas palavras - Nunca te vou deixar. Nuncame deixes - pediu.Cecília quase gemeu, evitando um soluço. Estavam os dois em Paris, sentados numaesplanada junto aos Campos Elísios. Sorriu e pensou que estava tudo bem, que tudoestava resolvido. Já não existia Eduardo e as suas maquinações sórdidas, nem Bárbarae a sua arrogância e futilidade. Apenas eles e o seu amor que vencera aquelesobstáculos.Sorria agora, com a cabeça apoiada no ombro de Henrique, segura nos seus braços esentindo-o sólido e relaxado nos seus. Abriu os olhos devagar, aspirando o cheiro deleque adorava. Todavia, assustou-se com a visão à sua frente. O sorriso desvaneceu-sedos seus lábios e a tensão e melancolia voltaram ao seu rosto. Não estava nos braçosde Henrique. Sonhara. Sonhara com um tempo feliz, um ano atrás, no mesmo lugarpara onde se dirigia agora. Paris, a cidade do amor, que era agora para ela apenas maisuma cidade... cheia de recordações que era agora obrigada a esquecer.Com o desgosto espelhado no olhar e tentando controlar o coração que batiadescompassado, olhou à sua volta apenas para se descobrir na realidade, no ambientefechado da cabine do avião que a levava a Paris, sem o cheiro de Henrique. Olhouatravés da minúscula janela para o céu imenso pontilhado por pequenos pedaços dealgodão branco. O sol brilhava e ela ia para Paris. Mas não existia alegria nela; apenasamargura e tristeza. A jovem mulher que viajava ao seu lado, sentada na coxia, mexeu-se e tossicou, distraída na leitura de um livro. Cecília observou-a discretamente e a suaatenção prendeu-se no livro que ela lia."Frederick Wentworth usara tais palavras, ou outras semelhantes, mas sem nenhumaideia de que elas lhe seriam transmitidas. Achara-a tristemente mudada e, no primeiromomento em que tinha sido interrogado, dissera o que sentia. Não perdoara a AnneElliot. Ela maltratara-o, abandonara-o e decepcionara-o; e, pior ainda, ao fazê-lodemonstrara uma fraqueza de carácter que o seu temperamento decidido e confiantenão podia suportar. Renunciara a ele para condescender com outros. A sua atitude forao resultado de excessiva persuasão. Tinha sido fraqueza e timidez". 23
  • Lost in Jane Austen Portugal"Persuasão" de Jane Austen, reconheceu Cecília, desviando o olhar ao ver que a suacompanheira de viagem notava, com um sorriso, a sua curiosidade pelo livro. O livropreferido dela e de Júlia, durante a adolescência e grande parte da sua juventude.Tinham-no lido e relido e conheciam o texto todo quase de cor, partilhando sempre amesma cópia que acabara gasta e evidenciando anos de manuseio.Júlia. Tinha-lhe perguntado sobre a sua relação com o irmão de Henrique, Eduardo,mas ela mostrara-se esquiva, murmurando apenas que era um conhecido da faculdadeque necessitava de ajuda com uns trabalhos. Cecília não acreditara mas também nãoinsistira. Estava demasiado cansada, demasiado triste e, agora, demasiadoocupada com o trabalho que tinha de preparar para a reunião em Paris. Quandovoltasse, as coisas teriam de ser esclarecidas. Tudo mesmo. Até a sua relação com elapois queria reaver a sua cumplicidade e amizade.E Jane Austen?! E Anne Elliot?! Não conseguia deixar de pensar no pouco que lera,momentos atrás. Oh, Meu Deus, e se estivesse a cometer um erro tal como Anne? E seestivesse a dar ouvidos a outros em vez de ouvir o seu próprio coração e as palavras deHenrique? Eles tinham tudo para ser felizes. Tudo neles podia dar certo desde que nãose perdessem pelo caminho. E, toda aquela situação era uma perdição para eles.Perder-se-iam um do outro e perderiam sobretudo um amor cuja essência e forçadificilmente reencontrariam novamente. Tinha de agir. Tinha de lutar. Háevidentemente angústias profundas demais para serem vividas. E esta era uma delas.A angústia da separação, do amor perdido, da sensação de impotência. Escutou pormomentos o coração dele e soube, como deveria ter sabido há já mais tempo, queele preferiria o amor dela, a presença dela ao seu lado, do que uma vida de riqueza edesafogo financeiro.Sentiu uma força desconhecida até então dentro se si. Eduardo e Bárbara que secuidassem. Ela ia lutar por aquilo que era seu. E Henrique era seu. De corpo e alma.Assim como ela só a ele pertencia. De corpo e alma.Entretanto, em Poiares, Júlia acabava de se escapar para a biblioteca. Dona Rata tinhachegado para uma visita à Tia Augusta e ela, alegando uma súbita dor de cabeça,retirara-se para o seu refúgio no segundo andar, deixando as duas senhoras aconversar na sala de estar do primeiro andar.- Vai para os livros, com toda a certeza, Dona Augusta - ouvia Júlia à medida que subiaa escadaria para o segundo andar - Se ao menos procurasse um trabalho normal edigno como o de Cecília. Pobrezinha, não sei onde vai parar; assim, com aquela idade,sem marido ou namorado ou emprego..Mas Júlia fez por esquecer aquelas palavras. Tinha outros assuntos bem maisimportantes e bem mais graves em que pensar. Já na biblioteca, percorreu distraída asprateleiras dos livros, procurando uma resposta para aquilo que, incessantemente, lhe 24
  • Lost in Jane Austen Portugalremexia o espírito e a mente. Por mais que pensasse, por mais que tentasse arranjaruma solução, não conseguia desfazer-se daquele tormento.Sentiu subitamente que fixava o olhar num determinado volume arrumado numa dasprateleiras mais baixas. Apurou mais a visão e leu o título do livro na lombada:"Persuasão" de Jane Austen. Retirou-o de entre os demais livros e descobriu comprazer o mesmo volume que ela e Cecília tanto tinham adorado, anos atrás. Anoslongínquos, em que eram as melhores amigas e inseparáveis. Que saudade tinha dessetempo! Talvez se ainda tivessem essa confiança, nada daquilo se estaria a passar.Folheou rapidamente o livro deixando que o seu odor lhe preenchesse as narinas; umodor que sempre gostara, a antigo, a livro. Era quase tão agradável quanto o seuestojo de escola; cheiro a lápis, a conhecimento, a descoberta, a amigos. Abriu-ototalmente quando se deparou com a sua parte favorita: a carta do Capitão FrederickWentworth a Anne Elliot, confessando-lhe novamente o seu amor. "...Ofereço-me denovo a si com um coração que ainda é mais seu do que antes, quando o despedaçou háoito anos e meio..."Leu-a e releu-a como fazia antigamente e lágrimas ameaçaram brotar dos seus olhos,não pela intensidade emocional da carta mas pela saudade que sentia da irmã e dotempo em que se sentavam na relva do jardim e declamavam aquelas palavras de cor,sem precisarem sequer do livro. Nessa altura, ambas ansiavam pelo amor, por umamor igual ao de Anne, por alguém que as amasse como Wentworth amava Anne.Até que ela conhecera Luluzinho. Ou melhor, até que ele a conhecera a ela. Parte dasua inocência, parte da sua crença nos homens e no amor acabara quando ele entrarana sua vida. Ninguém sabia pois nem à irmã se atrevera a contar e, infelizmente, forapor volta dessa altura que ambas se começaram a afastar.Como que lendo-lhe os pensamentos, o seu telemóvel tocou. Júlia olhou de imediatopara o grande relógio de parede da biblioteca. Cinco horas da tarde! Era de umaprecisão extrema. Meu Deus, quando acabaria aquele suplício? Estava a ficar tãocansada daquela situação. Colocou o livro novamente na prateleira e, sem grandevontade, dirigiu-se para o telemóvel que deixara na mesa de centro.- Olá - cumprimentou sem expressão na voz.Ouviu aquela voz nauseante no outro lado da linha e teve vontade de desligar.Contudo, não podia. Simplesmente, não podia. Estava muita coisa em jogo.Eram quase dez horas da noite e Júlia ajudava a Tia Augusta a deitar-se quando umbarulho fora da casa lhes chamou a atenção. Era o motor de um carro que cessou oseu rufar logo que elas apuraram o ouvido.- Quem será a esta hora da noite? - questionou a Tia Augusta na sua voz débil earrastada, já coberta com o seu cobertor favorito que cheirava a lavanda e a lavado. 25
  • Lost in Jane Austen Portugal- Vou ver, Tia Augusta - disse Júlia, apagando a luz do candeeiro - Durma que deveestar cansada. ("Da Dona Rata", pensou divertida).- Tem cuidado - balbuciou a velha senhora antes de se aconchegar para dormir - A estahora pode ser qualquer um.Júlia sorriu enquanto encostava a porta do quarto da tia, sabendo que estaprovavelmente já dormia. A medicação punha-a logo no conforto do sono.Desceu a escadaria, algo apreensiva, não porque tivesse medo mas porque pensoureconhecer o barulho do motor do carro; caro, topo de gama. Só podia ser ele.Não se enganou. Quando abriu ligeiramente a porta da frente para descobrir de quemera a sombra que aguardava lá fora, ele espreitou e sorriu forçadamente, assobrancelhas levantadas como que para surpreendê-la.- Boa noite, minha querida Júlia - disse com voz falsamente melosa - Vim terminar anossa conversa. Ontem não tivemos oportunidade de falar dado que estava comvisitas.Ela abriu mais a porta sem, no entanto, lhe dar espaço para entrar.- Não vejo que mais tenhamos para falar - argumentou defensiva - Além disso, isto nãosão horas para visitas desse género.- Desse género!?... - Surpreendeu-se Eduardo - Ora, cara Júlia, quem a ouvir, vai pensaroutras coisas bem mais maliciosas acerca de nós os dois. Vá lá, seja simpática e deixe-me entrar.Ela afastou-se hesitante e deixou-o finalmente entrar. Não tinha outra solução. Sabiaque não tinha. Aquele homem era maquiavélico e perigoso e ela não queria maisproblemas com ele; tão pouco ver o seu lado zangado ou violento. E, tendo em contaque se encontrava praticamente sozinha naquele imenso casarão, não teve outraalternativa.- Obrigado - agradeceu ele, dirigindo-se imediatamente para a sala de estar. Alichegado, recostou-se de imediato na melhor poltrona que encontrou, cruzou aspernas e preparou-se para acender um cigarro.- Agradecia-lhe que não fumasse dentro desta casa - disse Júlia tentando soar altiva.Eduardo parou os seus movimentos, sorriu sarcasticamente e guardou a cigarreiranovamente no bolso do casaco de corte elegante e caro.- Muito bem - disse calmamente - Pensou na minha proposta?Júlia olhou-o. Já o conhecia como sendo um homem que ia directo ao assunto, que nãose refugiava em subterfúgios nem em divagações para chegar ao que pretendia. 26
  • Lost in Jane Austen Portugal- Deixou-me pouco para pensar...Ele riu.- Lamento, mas já não disponho de muito tempo. E não gosto de florear as questões.As coisas são como são.- Ou como o senhor as quer...Ele riu novamente.- Exacto. Como eu as quero. E como eu as vou ter... - acrescentou, desta vez sério ecom os olhos levemente ameaçadores.Quando Eduardo foi embora, Júlia subiu ao seu quarto e, mesmo sem se despir, atirou-se para a sua cama e, pela primeira vez em dias, expressou livremente a sua frustraçãoe a sua impotência perante a situação. Chorou até que o sono finalmente lhe roubou odesespero e sabendo que não tinha como fugir daquela situação.Cecília não se tinha arrependido por ter alargado o seu tempo de permanência emParis por mais um dia. A verdade era que precisava pensar, colocar as suas ideias emordem e definir exactamente aquilo que faria para conseguir solucionar aquelaestranha situação sem causar grandes males a alguém. Muito especialmente aHenrique.Henrique. O seu Henrique. Ansiava pela hora de o reencontrar, de lhe pedir perdãopelas suas últimas atitudes e por lhe explicar as razões do seu comportamento nosúltimos tempos. Estava muito optimista. A reunião do dia anterior tinha corrido muitobem e o tempo em Paris convidava ao passeio e à descontracção. Saíra do hotel logopela manhã para poder caminhar pelos Campos Elísios, recordando com saudade ecarinho todos os momentos que ali passara com ele. Na mão segurava um exemplarfrancês de "Persuasion" pour Jane Austen que adquirira, momentos atrás, numquiosque ali perto. Tencionava oferecê-lo à sua irmã logo que as duas conversassem ecolocassem a sua relação no mesmo patamar em que a tinham deixado anos atrás.Júlia adorava o idioma francês, que fazia parte da sua área de estudos, e sabia que elaambicionava um exemplar daqueles na língua do amor, como tantos lhe chamavam.Cansada de caminhar, sentou-se num banco de jardim, um daqueles onde, no diaanterior, tinha estado, nos seus sonhos, a relembrar Henrique. Aconchegou a bolsa noseu colo e abriu o livro exactamente na página que desejava. Inconscientemente,sentiu que alguém se sentava ao seu lado mas não prestou sequeratençao. Deixou que a sua mente e o seu espírito divagassem livremente por entre abeleza daquelas palavras há tantos anos escritas."Je ne puis me taire plus longtemps. Il faut que je vous écrive. Vous me percez le cœur!Ne me dites pas qu’il est trop tard! Que ces précieux sentiments sont perdus pour 27
  • Lost in Jane Austen Portugaltoujours. Je m’offre à vous avec un cœur qui vous appartient encore plus que lorsquevous l’avez brisé il y a huit ans. Ne dites pas que l’homme oublie plus tôt que la femme,que son amour meurt plus vite. Je n’ai jamais aimé que vous. Je puis avoir été injuste,j’ai été faible et vindicatif, mais jamais inconstant. C’est pour vous seule que je suisvenu à Bath, c’est à vous seule que je pense; ne l’avez-vous pas vu? N’auriez-vous pascompris mes désirs? Je n’aurais pas attendu depuis dix jours, si j’avais connu vossentiments comme je crois que vous avez deviné les miens. Je puis à peine écrire.J’entends des mots qui m’accablent. Vous baissez la voix, mais j’entends les sons decette voix qui sont perdus pour les autres. Trop bonne et trop parfaite créature! vousnous rendez justice, en vérité, en croyant les hommes capables de constance. Croyez àce sentiment inaltérable chezF. W.Il faut que je parte, incertain de mon sort: mais je reviendrai ici, ou j’irai vous rejoindre.Un mot, un regard suffira pour me dire si je dois entrer ce soir ou jamais chez votrepère".Era espantoso como, fosse em que língua fosse, aquelas palavras eram sempre capazesde a tocar e de a fazer sentir-se leve e tranquila. E faziam-na lembrar-se dele; de comoquase deixara fugir um grande amor como o de Anne e Frederick, o tipo de amor quetanto desejara. Isso fê-la pensar em Henrique com saudade, tanta saudade que lhepareceu sentir o seu cheiro perto dela. Discreta e silenciosamente aspirou aquelearoma que julgava fruto da sua imaginação. No entanto, parecia-lhe tão real, tãopresente no ar, à sua volta, que se sentiu tonta.- Não me digas que é demasiado tarde, que sentimentos tão preciosos morreram parasempre! - disse a voz ao seu lado, em português, citando algumas das palavras queestivera a ler. Uma voz que lhe era demasiado familiar e demasiado querida. Uma vozque lhe fazia falta.Rodou devagar a sua atenção para a voz e, mesmo antes de prender os seus olhos nosdele, soube que era Henrique. Não se moveu. Ele sorria-lhe, um pouco hesitante.Fechou o livro no seu colo e sorriu-lhe de volta, sem deixar de o olhar, como setemesse que ele fugisse ou que fosse novamente uma partida da sua mente.- Henrique - murmurou - És mesmo tu? Que fazes aqui, em Paris?Ele continuou a sorrir-lhe, mais tranquilo, pois sentiu-lhe a voz afável e calma. Ainda serecordava da sua frieza e distância quando a vira a última vez, em Poiares. Todavia,algo mudara nela. Reconhecia naquela mulher, ali sentada ao seu lado, num banco dejardim, nos Campos Elísios, em Paris, a mesma mulher que amava desde há muitotempo. Deixara de a reconhecer naqueles últimos tempos, contudo ela voltara. Era asua Cecília novamente. O seu sorriso dizia-lhe que sim.- Medito - disse meio a brincar - E tu? 28
  • Lost in Jane Austen Portugal- Vim em trabalho - disse apressadamente - Quer dizer, ontem estive em trabalho.Hoje, penso que... medito - disse com um sorriso suave e cúmplice.Ele tomou-lhe as mãos por sobre o livro depositado no seu colo.- Diz-me que é aqui, longe de tudo e de todos, que me vais explicar o que está aacontecer - pediu ele, com os olhos quase suplicantes - A minha vida tem sido uminferno sem ti, estes últimos tempos. Não sabes o que me tem doído estar sem amulher que amo sem ao menos saber porque fui rejeitado.Cecília pareceu pensar nas palavras dele. Depois levantou uma mão e acariciou-lhe orosto, ainda para se certificar de que ele era real.- Tens razão - disse - como posso eu ter rejeitado a minha alma, o meu coração,... aminha vida? - baixou o rosto, tomou-lhe uma das mãos e levou-a aos seus lábios comoque para pedir o seu perdão.Ele sorriu enternecido e com a outra mão afagou-lhe o cabelo, forçando suavemente oseu rosto para cima, para olhar para ele.- Há uns tempos atrás, num destes mesmos bancos, nesta mesma cidade, pedi-te paranunca me deixares - relembrou-lhe - E não vou permitir que o faças porque sei que meamas tanto quanto eu te amo a ti. Não sei o que se passou, - continuou - mas deve tersido algo grave, e penso que tem a ver com o meu irmão Eduardo. E, talvez não agora,talvez não hoje, mas eu quero que me contes tudo. E acredita que vamos resolver issode forma a que nenhum de nós saía magoado... ou separado - tomou o rosto delaentre as suas mãos - Nunca mais me quero separar de ti. Enfeitiçaste-me a alma e ocorpo.Cecília deixou finalmente a cabeça repousar no ombro dele e deixou-se abraçar.Henrique era agora real e por mais que ela julgasse estar a sonhar, ele estava ali, erareal e não ia desaparecer num qualquer sonho. Apertou-o contra si e soube que nuncamais se iriam separar.No entanto, no seu subconsciente, algo insistia em angustiá-la. Eduardo e as suasexigências macabras; Bárbara e a sua petulância; Júlia e a sua relação com Eduardo. Eainda aquele estranho e insistente telefonema que a irmã continuava a receberdiariamente às 17horas. Ainda havia muito a resolver. E seria difícil. Mas agora estavacom Henrique e juntos saberiam combater e lidar com o que viesse a acontecer. 29
  • Lost in Jane Austen Portugal Parte IX [Vera Santos]Augusta Ferreira deixou o mundo dos vivos ao fim de sessenta e cinco anos de vida.Nunca tinha casado ou tido filhos, as suas sobrinhas Júlia e Cecília eram na falta destes,as parentes mais próximas.Augusta estava numa idade em que os amigos e família começavam a rarear. Por isso oseu funeral foi pouco concorrido, alguns familiares, todos já em segundo e terceirograu de parentesco, a amiga que mantinha desde a sua juventude, D. Rata, Luluzinho ealguns vizinhos.A Tia Augusta nunca gozara de boa saúde e com o passar dos anos foi definhando.Assim, as duas irmãs não esperavam que ela chegasse à idade do avô (pai da tiaAugusta), que vivera até à bonita idade de 90 anos e sempre a respirar saúde… Masmesmo assim sentiram e muito a morte da tia.Júlia ficara abalada quando ao entrar no quarto da tia com o pequeno-almoço, comoera hábito, se apercebeu que ela já não tinha vida. Tinha-se sentado pacificamente nabeira da cama e chorado. Foi lentamente inundada por recordações felizes dos temposem que tudo parecia mais fácil do que naquele momento. Chamou a D. Lúcia, amulher-a-dias que naquele dia viera fazer as limpezas. A mulher, fiel servidora da casahá muitos anos, chorou num pranto contido a boa senhora que se fora tão jovem, poisquando temos a mesma idade de quem morre, eles para nós são também jovens.Júlia, mais calma, chamou a 112 já não vinha socorrer ninguém, mas era necessáriotransportar o corpo para o hospital, chamar a polícia, vir o delegado de saúde quepronunciaria a Tia Augusta como morta. Júlia não tinha ideia do que aconteceria aseguir e não se lembrando de nada nem ninguém apenas se lembrou do número dasemergências que marcou.Uma hora mais tarde, Júlia telefonou à irmã. Cecília estava nesse momento comHenrique a passear junto ao Sena e a trocar com este juras da amor eterno, como seestivessem num filme romântico. Cecília veio então no primeiro voo para Portugal eHenrique nunca deixou de estar a seu lado. Henrique sentia a dualidade desentimentos próprios de quem se sente o homem mais feliz da terra e o abalo pelamorte de alguém. Ele mal conhecia a Tia Augusta, mas sofria pois sabia o quantoCecília amava a tia. 30
  • Lost in Jane Austen PortugalApós o funeral, Júlia retirou-se para o seu quarto e Henrique e Cecília sentaram-se nasala de estar. Eram cinco horas e Cecília lembrando-se do que acontecia sempreaquela hora sentiu-se inquieta, quando o velho relógio parou as badaladas queanunciavam ouviu ou imaginou ouvir o telemóvel da irmã a tocar. Perguntou aHenrique se ele ouvira o telemóvel a tocar, porém ele não entendeu e pensado que elaestava a falar do telemóvel dele, assegurou-lhe que o tinha desligado.- Não o teu o da minha irmã.- Não conheço o toque dela – disse ele esboçando um leve sorriso.Por um segundo, Cecília hesitou deveria ela contar-lhe sobre o telefonema? Ou tentaraveriguar mais? Decidida a começar de novo, sem enganos ou mentiras, Cecíliacontou-lhe.Foi com muito esforço que Henrique não desatou à gargalhada, não havia motivospara preocupações na sua opinião, todos os dias o telemóvel do seu colega de trabalhoPaulo tocava por volta das seis, era a sua namorada. Possivelmente Júlia tinha umapaixonado.Cecília não acreditava que fosse esse o caso da irmã, reparava como ela ficava tensa,nervosa. Por isso achava que não podia ser um telefonema de amor, mas não dissenada.Júlia pensou em não atender, mas sabia que se não o fizesse o telemóvel iria voltar atocar.- Minha querida, pensava que não ia atender!- Estava ocupada - foi a resposta seca de Júlia.- Sabe, hoje vi algo que não gostei. Sabe do que falo?- Calculo que não tenha gostado de ver o seu irmão agarrado à minha irmã?-Exacto, a minha querida está a faltar ao combinado.- E como espera que eu cumpra o combinado?- Ora, Júlia, tanta imaginação nos livros que escreve e tão pouca na vida real?Júlia suspirou e voltou a suspirar, antes de dizer:- Afinal o que tem contra a minha irmã, tirando o facto de ela ser pobre? 31
  • Lost in Jane Austen Portugal-Somente isso, o meu irmão podia unir-se a uma mulher rica e não empobrecer aolado de alguém não tem fortuna de família.- Acho que desta vez não vai conseguir separá-los!- Minha querida, sabe que se isso não acontecer quem sofre é a sua irmã. Já sabe, sejauma boa colaboradora e todos ficamos a ganhar. Se fosse uma mulher bonita sugeriaque seduzisse o meu irmão, mas tendo tão poucos atractivos duvido que consiga. Júlia,devia ter cultivada beleza e não a mente, os homens não gostam de mulheresinteligentes!Júlia estava tão habituada a ser insultada por Eduardo que estas palavras já não amagoavam. Todos os dias ele telefonava e certificava-se que ela cumpriria ocombinado.- Sabe, Júlia, tenho pena que você não seja como o Luluzinho. Ele soube jogar este jogoe você está sempre a hesitar.- Claro, ela precisa do seu dinheiro para continuar a jogar e a pagar a mulheres que lheaqueçam a cama à noite.- Já que a Júlia não sabe o que fazer, eu arranjarei um plano, aguarde as minhasinstruções.Júlia lamentava ter um dia confiado em Luluzinho. Estava apaixonada e o amor deixou-a cega para tudo. Ele acabara por se revelar um canalha, e além disso vendera osegredo que ela lhe confiara a Eduardo. Ela era capaz de perdoar todos os defeitos emás acções dele, mas trair assim a sua confiança, isso nunca! E assim Júlia perdera umhomem que nunca a amara e mergulhou numa profunda tristeza que ninguém à suavolta percebia.Na manhã seguinte ao enterro da Tia Augusta, a D. Rata apresentou-se em casa daamiga com o pretexto de vir buscar o livro de receitas da falecida. O livro era lendárioentre a família e amigos pois apesar da pouca saúde a Tia Augusta cozinhavadivinamente. Júlia e Cecília nunca mostraram talento especial para a culinária, sabiamcozinhar alguns pratos básicos e nenhum mais elaborado. O correcto seria dizer queelas desenrascam-se na cozinha.Júlia estava ausente de casa e Cecília desconhecia esta herança de que falava a D. Rata.Assim, Cecília ligou à irmã que confirmou a vontade da tia e disse-lhe onde estava olivro. Ao tirá-lo da gaveta da mesa de cozinha, as folhas espalharam-se todas pelochão. Cecília apanhou uma e verificou se estava numerada. Não estava. Teriam asreceitas uma ordem? Verificou novamente a ver se via uma data e perante mais estafalha, enfureceu-se por a tia guardar dentro de uma capa um monte de folhas soltasem vez de ter um caderno. 32
  • Lost in Jane Austen PortugalNesse momento, a D. Lúcia entrou na cozinha, nunca tinha tocado no livro mas sabiaque a tia Augusta organizava as receitas por categorias, entradas, pratos de peixe,pratos de carne, sobremesas…Cecília agarrou nas folhas todas e levou-as para o seu quarto e lá começou a organizar.Ela podia ter dado o livro conforme estava, mas sabia que a D. Rata não tardaria afazer comentários sobre o assunto. Informou a D. Rata do sucedido e pediu-lhe quevoltasse mais tarde, ela não ficou convencida, pois achou que aquilo era truque paranão lhe darem o livro e ao sair planeou voltar ao início da tarde e falar com Júlia quesabia ser mais fácil de manipular.Ao fim de alguns minutos, Cecília percebeu que apenas algumas folhas, aquelas que setinham espalhado, estavam desalinhadas. Calculou que o resto estivesse no sítio. Masmesmo assim verificou até à última folha e viu que esta era uma carta.Cecília começou a ler:Querido Zé,A Cecília começou ontem a escola. Ainda me lembro do dia em que nasceu, era muitopequena e os médicos temiam que não sobrevivesse. Só a Deus devemos agradecer agraça por ela ter sobrevivido. A sua saúde é de ferro e isso alegra-me. Recordo muitasvezes os dias em que a peguei nos meus braços e a chamei de filha. Agora já não possofazer isso. Entristece-me saber que ela pensa que eu sou apenas a tia, uma tia doente.Sei que me ama, mas o amor de mãe dá-o a outra.Passados estes anos todos, sinto remorsos de não ter lutado pela minha menina e teraceitado que ela seja criada como filha do meu irmão e não minha.Nada parece mitigar este meu sofrimento, apenas estas cartas onde escrevo, cartasque nunca irás ler. Ainda ontem deixei uma no teu túmulo, pareço uma criança queescreve ao pai natal… Mas são estas cartas que me dão algum alento, o tema Cecília éproibido…Cecília reconhecera a letra da tia, não estava datada e notava-se que ao escrever a tiatinha derramado algumas lágrimas. Era claramente uma carta não terminada.Cecília releu a carta várias vezes até se certificar que lera correctamente. Filha da tia!Filha e não sobrinha. Era uma descoberta extraordinária. Aquilo explicava acondescendência que a tia tinha com ela, muito mais do que com Júlia. A diferençaentre ambas!Júlia bateu à porta do quarto da irmã para a informar que o almoço estava na mesa.Cecília deixou-a entrar e partilhou com ela a descoberta. 33
  • Lost in Jane Austen PortugalJúlia desatou num pranto que nada parecia acalmar, por fim Cecília também chorou.Júlia acabou por lhe contar tudo o que até ali ocultara. Ela sabia, ouvira uma conversaentre os pais e a tia Augusta. A pior parte ainda estava para vir, Júlia dissera aLuluzinho e este vendera o segredo a Eduardo, contou dos telefonemas, contou comoela tinha sido ameaçada e o pior era que tinha dito coisas a Cecília para a dissuadir devoltar para Henrique e também fazer ao mesmo com ele.- Cecília, quando tu te separaste do Henrique ele procurou-me e ameaçou contar-te.Por isso eu disse-te tanta vez que seria melhor não lutar por ele. Não eram tanto asameaças de morte que me preocupavam, mas sim que descobrisses a verdade.- Como é que nunca me disseste nada.- Eu descobri porque ouvi uma conversa, como já te disse.- Quem era o meu pai?- Depois de os nossos pais morrerem, eu falei com a tia, ela pediu que nunca tecontasse, sabia que te irias sentir enganada. Eu sei que ela amava o teu pai,engravidou antes do casamento. Infelizmente, ele morreu num acidente. Sabes que hámuitos anos era vergonhoso engravidar fora do casamento. O avô não concebia que afilha fosse mãe solteira. Por isso o pai acedeu criar-te como filha. Nunca planearamcontar.- Mas como contaste ao Luluzinho e não a mim?- Eu comecei a perceber que ele era mau carácter, mas apaixonada como estava, nãoterminei o relacionamento e continuei com ele. Isso só me fez infeliz. E um dia bebimuito, queria mesmo esquecer e acabei por confessar a verdade. Era um pesodemasiado grande para continuar a carregar sozinha e a bebida soltou-me. Ele e oEduardo conhecem-se das mesas de jogo. Um dia o Luluzinho, depois da nossaseparação soube que o Eduardo não queria que tu visses o Henrique e então contou-lhe a verdade a troco de dinheiro. Também me pediu a mim, mas tu sabes que eu nadatenho. Então Eduardo começou a dar-lhe dinheiro em troca do silêncio dele. Para teproteger da verdade acabei por aceitar todo este horror. Fiz coisas horríveis.Após estas palavras Júlia caiu num pranto e Cecília apenas abraçou e tentou consola-la.Ela sentia-se traída e enganada por ter vivido uma mentira aqueles anos todos, mas osseus sentimentos não eram nada perante aquilo que Júlia sofrera e também Cecíliachorou por tudo aquilo.Três anos após a morte da tia, Júlia escreveu um longo e-mail à irmã, já não eram e-mails relatando situações triviais com antigamente, mas sim tudo aquilo queacontecera desde o último e-mail e um ou outro comentário mais trivial, porquetambém de trivialidades vivem as pessoas. 34
  • Lost in Jane Austen PortugalCecília e Henrique acharam melhor afastar-se do país e tinham encontrado naInglaterra rural o refúgio perfeito. Compraram uma casa e tinham-na transformadonum muito aprazível Bed&Breakfast, à boa maneira inglesa.A D. Rata continuava a visitar Júlia, mas na falta da tia as suas visitas eram mais curtase espaçadas, mas nunca deixava de as fazer porque não podia perder a oportunidadepara saber o que se passava na casa.Há cerca de dois meses, completamente falido, Luluzinho suicidara-se deixando paraatrás uma vida indolente e muitas dívidas para os familiares pagarem.Eduardo ainda tinha tentado separar o irmão de Cecília, mas todos os planos tinhamsido frustrados. Era agora presidente da junta de freguesia de Poiares e muito popularentre os seus eleitores. Sonhava com uma Câmara, depois, ser Primeiro-ministro e umdia, Presidente da República, eram voos altos, mas ele era paciente e sabia jogar o jogosujo da política.Júlia tinha vencido no ano anterior um importante prémio literário e isso trouxera-lhemais visibilidade, ainda não vivia da escrita, mas sabia que um dia isso iria acontecer.Num encontro literário conhecera João que era tudo aquilo que Luluzinho não era.Apesar das hesitações, dos medos, Júlia acabara por sucumbir e era agora uma mulherfeliz. Podia ser mais se vivesse perto da irmã, doía-lhe que ela não estivesse maisperto. Felizmente a distância era mitigada por longos e-mails, mensagens no facebook,conversas através do Skype.Júlia clicou no enviar do programa de e-mail e sentiu-se feliz por haver tantatecnologia que aproximava quem estava longe. Até ao fim do dia Cecília iria responder.Se fosse noutros tempos, escreveria uma carta e esta demoraria muitos dias a chegar aCecília e outros tantos a chegar a resposta. 35
  • Lost in Jane Austen Portugal [Fim] 36