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  • 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO “JAÚ EM RITMO DE BAILE” RECONSTITUIÇÃO JORNALÍSTICA DA HISTÓRIA DAS ORQUESTRAS CONTINENTAL E CAPELOZZA DE JAÚ LUÍS HENRIQUE MARQUES ORIENTADOR: MURILO CÉSAR SOARESProjeto experimental apresentado ao Departamento de Comunicação Social da Faculdadede Arquitetura, Artes e Comunicação - Universidade Estadual Paulista “Júlio de MesquitaFilho” - para obtenção do grau em Bacharel em Comunicação Social, habilitação emJornalismo de acordo com a Resolução número 002/84 do Conselho Federal deEducação. Bauru, 1991.
  • 2. 2 Orientando: Luís Henrique Marques Orientador: Murilo César Soares, do Departamento de Ciências Humanas da Faculdadede Arquitetura, Artes e Comunicação - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - campus de Bauru
  • 3. 3 Agradecimento A todos que colaboraram com este trabalho, em especial ao professor Murilo, peloentusiasmo com que se dispôs a orientar-me e aos ex-integrantes das orquestras por tudo que aprendi com cada um deles.
  • 4. 4A minha família, em especial, aos meus pais, Bruno e Carmem.
  • 5. 5 Índice1. Introdução ..............................................................................................................2. Jaú em um retrato dos anos 50 ..............................................................................2.1 A “Terra das Tradições” ......................................................................................2.2 A Intensa vida cultural ........................................................................................3. Música: o que há de melhor entre as tradições do Jahu ........................................3.1 Jazz-band: um produto “made in USA” ..............................................................3.2 Tudo começou... ..................................................................................................3.3 A cada apresentação, aumenta a popularidade ....................................................3.4 Lps: uma nova experiência ..................................................................................3.5 Dificuldades comprometem o futuro ...................................................................4. “Tunin e Dante” ....................................................................................................5. “Sabu” ...................................................................................................................6. “Roberto Pavan” ....................................................................................................7. O Baile ...................................................................................................................8. “Waldomiro de Oliveira” ......................................................................................9. “Danilo Fornalé” ...................................................................................................10. “Constante Ometto” ............................................................................................11. Jaú: a música hoje ...............................................................................................12. Relatório sobre a reportagem “Jaú em ritmo de baile” .......................................13. Bibliografia ..........................................................................................................
  • 6. 6INTRODUÇÃO Cobrir uma lacuna na história de Jaú pode parecer muita pretensão. Mesmo assim,é precisamente esse o intuito dessa reportagem. As Orquestras Continental e Capelozza de Jaú (SP), cujo período de existênciadata, aproximadamente, de 1940 a 1970, alcançaram um surpreendente sucesso junto aopúblico do Estado de São Paulo e de, pelo menos, mais cinco Estados do Brasil. Porém,hoje em dia, pouca gente sabe disso, sobretudo entre os mais jovens. É fato que pouco se tem organizado e arquivado acerca das duas orquestras,autênticos patrimônios histórico-musicais de Jaú. Desse modo, este trabalho de reportagem visa cobrir essa lacuna, tornando-se oprimeiro material organizado, a contar, em linguagem jornalística, a história das jazz-bands Continental e Capelozza. A reportagem que se segue tem ainda como objetivo servir de subsídio paraestudos futuros, não só em relação a história das próprias orquestras, bem como emrelação ao significado social do baile nesse período, de 1940 a 1970. E é claro, apesar de se tratar de um trabalho jornalístico, portanto, crítico, nãodeixa de ser uma homenagem aos antigos músicos e ex-integrantes da Capelozza eContinental. É fundamental que, pelo menos, se cite e agradeça a colaboração de todos osmúsicos e outras pessoas (o público da época) que, por razões técnicas, não mereceramum espaço maior nesta reportagem. Gostaria de poder citá-los todos. Entretanto, éinevitável que se deixe alguém de lado. Afinal, muita gente passou pelas orquestras deJaú. Gente que é viva e mora na cidade, mas também muitos que já faleceram ou que,atualmente, não moram mais em Jaú. A todos, obrigado e também minhas desculpas secometi alguma injustiça. Mexer com o passado, como ficará demonstrado, é mexer com as tradições ecostumes antigos. Portanto, existe uma grande diferença entre mim e os meusentrevistados. Trata-se de nada menos que algumas décadas... Contudo, quando seentrevista alguém, como se acostuma afirmar na gíria, é preciso “entrar na dele”. Só é
  • 7. 7possível entender alguém para depois questioná-lo, se se entender o porquê de sua formade pensar. Por isso, procurei mergulhar no passado para poder compreender melhor essaspessoas. E o fruto desse trabalho, nesses moldes, não se resume a apenas uma boareportagem. Nem aprende-se a ver o quão atrasadas, sob certos aspectos, eram as pessoasnos anos 50. Aprende-se, portanto, a ver também o que tinham de positivo. Parece óbvio,entretanto, ver o positivo nas coisas não é uma atitude comum nos nossos dias. E nãoseria isso, por um acaso, o que está faltando, hoje, à imprensa em geral? o AUTOR
  • 8. 8JAÚ EM UM RETRATO DOS ANOS 50
  • 9. 9 15 de agosto de 1953. Já se passaram 100 anos desde que foi rezada a primeiramissa na pequena capela dedicada à Nossa Senhora do Patrocínio, a partir de então,padroeira da cidade que estava nascendo. Jaú ou o Jahu, como preferem os mais antigos, está diferente. Cresceu... mas nemtanto. Capital do Calçado Feminino, Capital da Terra Roxa, Terra de João Ribeiro deBarros. Títulos não faltam. O jauense parece gostar dessas coisas. Talvez a sua marcaregistrada seja, precisamente, o culto ao passado e seus heróis. E aqui reside um desafio: descobrir em meio a tantos adjetivos e superlativos oque existe de mais substantivo na história de duas “personagens ilustres do Jahu”: asOrquestras Continental e Capelozza. Como que por etapas, caro leitor, observe melhor essa cidade. Após 100 anos defundação, Jaú, apesar de inegáveis progressos que sua privilegiada situação econômicatem proporcionado a sua população até aqui, em certo sentido, não evoluiu muito. Por outro lado, com apenas quarenta mil habitantes (incluindo o Distrito dePotunduva), ela dispõe de benefícios de deixar muita cidade grande deste País de queixocaído: foi uma das primeiras cidades do Brasil a contar com iluminação elétrica,pavimentação de ruas e praças e sistema de ligação automática dos serviços telefônicos.A base econômica que lhe permitiu esse e outros privilégios em sua infra-estrutura foi oplantio de cana-de-açúcar e do café, além da indústria do calçado, especificamente, ocalçado feminino. Por isso, recebeu os títulos de Capital do Calçado Feminino e Capitalda Terra Roxa (solo propício, sobretudo, para a cultura do café). Agora, do que o povo jauense parece gostar mesmo é do título de Terra de JoãoRibeiro de Barros. Não há quem não estufe o peito e encha a boca ao narrar a façanha doaviador jauense, o primeiro a atravessar o Oceano Atlântico em um avião. Um atoheróico, sem dúvida, principalmente se o leitor der uma espiada no hidroavião “Jahu”,exposto no Museu da Aeronáutica, em São Paulo. Como alguém poderia voar em umnegócio daqueles?
  • 10. 10“Terra das Tradições” O sentimento ufanista é uma provável conseqüência da rígida e tradicionalmaneira de agir e pensar desse povo. Há outras, contudo. Observe agora, um pouco desse comportamento. Para começar, dê uma olhadacomo, nessas bandas, se encara o namoro. Só pra dar uma primeira idéia: pegar na mão,só depois de seis meses! Beijar então, de cara, nem pensar! Chegar tarde em casa, fora decogitação! Se a moça não quiser ficar pra fora de casa (com exceção aos dias de baile),ela deve entrar, impreterivelmente, às dez da noite! (Hoje, em dia, em pleno final doséculo 20, não dá pra imaginar uma coisa dessas!...) Mas, um momento! Pode parecer que só em Jaú as coisas sejam assim, o que nãoé verdade. Trata-se de um comportamento comum a toda a sociedade brasileira, cuja baseé a família patriarcal, envolvida por um forte sentimento religioso. Afinal, estamos nosanos 50! E quanto ao preconceito racial? Não, ele não existe. Pelo menos é o que queremdemonstrar as pessoas. Sabe como é: “cabeça aberta” dá uma boa imagem... E isso o povoadora. É, mas, na realidade, a coisa é bem diferente... Quem não ouviu falar que, em Jaú,na Praça da República (o Jardim de Cima), brancos e pretos não circulam pelo mesmolado? Na verdade, os pretos nem chegam a andar na praça propriamente dita. Restringem-se às suas calçadas laterais. Os negros, inclusive, possuem um clube só deles. O baile no“Luiz Gama” é contudo, apreciado por todos, brancos e negros. Mas o preconceitosobrevive. Talvez cada vez menos em atitudes externas, mas, com certeza, na cabeça daspessoas: “Preto quando não suja na entrada, suja na saída”. E isso não é tudo. Mais que a cor, o que realmente conta é se você é filho (ou pelomenos parente) do fulano ou do ciclano de tal. Sim, porque a partir daí é que você podeter uma noção mais precisa de quanto você é mais ou menos valorizado na cidade. Sevocê tem o nome da família tal, você tem mais valor, seja porque essa família temdinheiro, seja porque tem prestígio político. Ou como acontece, em geral, porque tem osdois.
  • 11. 11 As famílias ricas, defensoras da tradição, moral e bons costumes, permanecem demãos dadas com o poder público e religioso (quando não se confundem com os mesmos)e ditam a ordem social vigente, bem como os modelos sociais a serem seguidos. Um dadocomplementar: a maioria esmagadora dos habitantes é cristã, de confissão católicaromana. Os exemplos que tecem esse quadro seguiriam longe. Cito apenas mais um. Paracada classe social, existe um clube recreativo: o “Jaú Clube” para os ricos; o “AeroClube” e o “Grêmio Paulista” para a classe média, e o “Clube Dansante Operário” (1)para os mais pobres. É evidente que essa divisão não é precisa. Contudo, o que importa énotar o quanto ela pode determinar o comportamento social. Por exemplo: um jovem defamília rica até pode ir ao baile no “Operário”, mas isso não iria pegar muito bem... Talvez, nesse sentido - o de estar atrelada a tradicionalismos e preconceitos -, éque Jaú não tenha evoluído tanto nesses últimos 100 anos.Intensa vida cultural Dando uma folga às tradições, é possível notar evidentes qualidades no povo deJaú. Essa pequena cidade do interior paulista, 341 quilômetros distante da capital SãoPaulo, é um aquecido centro de manifestações culturais. Independente quanto taismanifestações são ideologicamente válidas ou não, o que é importante constatar é que sãomuitas e variadas. Um dado, no mínimo interessante, se o compararmos ao porte de Jaú. É José Fernandes (2) quem descreve esses dados de forma minuciosa: “Há doiscinemas, sendo o Cine-Jaú, o principal, pois funciona em grande edifício de propriedadeda Empresa Teatral Pedutti, com capacidade para cerca de duas mil pessoas. O outro é oAcadêmico, com amplo salão para espetáculos teatrais e conferências”. A cidade contaainda com: Casa da Cultura, Clube de Amadores Fotográficos, Clube de Xadrez, aCorporação Musical “Carlos Gomes” (3), o Conservatório Jauense de Música, um núcleoda Associação Paulista de Escritores, além de 10 bibliotecas, 4 das quais localizadas emescolas.
  • 12. 12 Sobre a imprensa e rádio, Fernandes escreve: “Há na cidade dois jornais diários: o‘Comércio do Jahu’ e o ‘Correio da Manhã de Jaú’. A difusora local, a PRG7 que irradiaem onda 1010 kcs, foi instalada em 1934”. (4) No esporte, o futebol é a modalidade privilegiada. Além do Esporte Clube XV deNovembro (profissional), que conta com estádio próprio, o “Arthur Simões” (5), cujacapacidade é para 12 mil pessoas, Jaú possui vários clubes amadores. Os principais sãoA. A. Palmeiras, A. C. Guarani e o A. C. Gráficos. Tudo isso mais as orquestras Continental e Líder. (6)Notas(1) Observe que a grafia da época para dançante era feita com “s” e não com “ç”, comoatualmente se utiliza.(2) FERNANDES, José. Vultos e fatos da História de Jaú. Edição conjuntaextraordinária do Correio da Noroeste, Correio da Capital, Correio de Garça,comemorativa do centenário de Jaú, São Paulo, 1955.(3) A Corporação Musical “Carlos Gomes”, uma banda de coreto, no ano de 1991,portanto, por ocasião da elaboração deste trabalho, completou 100 anos de existência.(4) A rádio emissora PRG7 a que refere-se o texto é a Rádio Jauense AM, emfuncionamento até hoje.(5) O estádio do E. C. XV de Novembro de Jaú, “Arthur Simões” foi substituído peloatual, “Zezinho Magalhães”.(6) Líder Orquestra foi o nome que recebeu a orquestra fundada pelos irmãos Capelozzalogo após o seu retorno a Jaú, a qual, depois, passou a se chamar Capelozza e suaOrquestra.
  • 13. 13A MÚSICA: O QUE HÁ DE MELHOR ENTRE AS TRADIÇÕES DO JAHU
  • 14. 14 Vaidades a parte, é quando a noite de sábado se aproxima que a cidade parece seinebriar de um clima novo, diferente. É quando as pessoas demonstram seu lado poético,romântico. Sábado é dia de baile e, precisamente por isso, tudo parece mudar... Na pomposidade do “Jaú Clube” ou na simplicidade do “Operário”, o baile emJaú parece conduzir magicamente as pessoas ao mundo dos sonhos. Alguém chamou essafase de “anos dourados”. Para os jovens, moças e rapazes, é o que parece: esses anos 50,devido ao romantismo, são chamados os “anos dourados”. E o baile é o momento romântico por excelência. Agora, enquanto os jovensdançam “sobre as nuvens”, tem gente que dá um duro danado para fazer do baile essemomento especial. Cabe aos músicos da orquestra (a jazz-band) garantir, através dasuavidade de suas notas, esse clima que envolve o público.Jazz-band: um produto “made in USA” Jazz-band, crooner, fox-trote, ok! A influência norte-americana era descarada. Oque não é de se espantar. Afinal, não era a primeira vez que os Estados Unidos daAmérica ditavam moda ao mundo. E o Brasil, como não poderia deixar de ser a um paíssubdesenvolvido, foi na onda. Depois do surgimento, em 1912, das primeiras orquestrasamericanas do tipo jazz-band, o Brasil aderiu a moda, em definitivo, a partir da décadaseguinte. É certo que o sentimento nacionalista que envolvia o brasileiro nas décadas de 50e 60 procurou compensar essa influência estrangeira, por exemplo, no repertório dasorquestras, com a introdução de um produto nacional. Assim, o samba e o samba-cançãopassaram a conviver pacificamente com o jazz, o fox, o tango, o bolero, o mambo, a valsae outros ritmos importados. Desse modo, a jazz-band, uma “orquestra de origem dos negros norte-americanos,caracterizada pelo ritmo sincopado de sua música e pelo papel desempenhado pelaimprovisação”, como define Sérgio Ricardo S. Correa (1), no Brasil, sofreu algumasmodificações.
  • 15. 15 A principal delas foi exatamente a incorporação do samba ao seu repertório, o quejustificou a presença do pandeiro junto aos demais instrumentos básicos da jazz-band:metais (sax, pistão e trombone), piano, guitarra, contra-baixo e bateria. O próprio samba,por sua vez, sofreu influências de modo a adaptar-se a maneira de tocar da jazz-band.“Criado para as orquestras de dança de salão, o samba-canção, entregue ao semi-eruditismo dos orquestradores, foi progressivamente amolengando o ritmo atétransformar-se, no decorrer da década de 1940, na pasta sonora que o confundiu por vezescom o bolero (samba “Risque”, de Ari Barroso, por exemplo)”. (2) A febre das jazz-bands, como define o crítico de música José Ramos Tinhorão,chegou ao Brasil e como uma epidemia infestou todo o interior paulista. De fato, de lá,surgiram várias orquestras e algumas de sucesso surpreendente, como a Laércio deFranca, Pedrinho e sua Orquestra Guararapes, Orquestra Nelson de Tupã, Orquestra deJasson e outras. E Jaú não ficou atrás. Terra de tradições arraigadas e claramente influenciada pormodismos estrangeiros, a cidade teve o seu nome projetado muito além de seus limitesatravés de duas jazz-bands de sucesso: Continental e Capelozza.Tudo começou... Fundada pelos irmãos Amélio e Plácido Antonio Capelozza, em 1940 (o seuprimeiro baile data de 7 de setembro de 1940, no “Jaú Clube”), a Continental ou comoficou inicialmente conhecida, a Orquestra Típica Continental, tornou-se um patrimôniomusical da cidade. No começo, sua formação se constituía de três sax, dois pistões,trombone, violão, bateria e crooner. Quatro anos após a fundação da Continental, os irmãos Capelozza resolveramdeixar a cidade para ir trabalhar em uma marcenaria com um tio, em Marília. A orquestra passou a ser dirigida por José Ayello e Antonio Waldomiro deOliveira. O primeiro, pistonista, havia deixado o trabalho no circo para tocar naContinental. Cuidava da direção musical. “As bandas de circo eram quem revelavam osmúsicos para as orquestras da época e assim, todo circo que aportava em Jaú era
  • 16. 16obrigatoriamente visitado pelos músicos. Se houvesse alguém bom, recebia o convitepara aqui ficar”. (3) O segundo, crooner, passou a cuidar da parte administrativa daorquestra: fechava os contratos para bailes, providenciava alojamento para o pessoal,alugava condução para as viagens, etc. A partir de 1948, após votação dos 11 músicos, Waldomiro de Oliveira foiescolhido diretor da Continental, função que exercera até o fim da orquestra. Praticamente nesse mesmo período (fins de 1948 e início de 1949), os irmãosPlácido Antonio (Tunin) e Amélio Capelozza, depois do insucesso com a marcenaria emMarília, resolveram voltar a Jaú e fundaram a Líder Orquestra. Com eles, veio o croonerSabu. Além de provenientes do circo, os músicos contratados pelas jazz-bands vinhamde orquestras de outras cidades. A troca de músicos entre orquestras era um fato comum.Em geral, tratavam-se de amadores e semi-profissionais. No caso da Continental, a partirde 1955, quando viveu seu auge, os músicos eram inteiramente profissionais; viviamexclusivamente dos rendimentos da orquestra. Alguns, inclusive, chegaram a ser trazidosdo Rio de Janeiro por Waldomiro de Oliveira. Entretanto, nesse mesmo período, a Capelozza (surgida no lugar da LíderOrquestra, que quebrara), pelo contrário, mantinha em sua formação, praticamentemúsicos amadores e semi-profissionais. Isso signficava que todos tinham outra profissão,mesmo que, em alguns casos, possuíssem o registro de músico profissional. Esse registroera expedido, até 1960, pela Polícia do Estado de São Paulo, o que depois passou a serfeito pela Ordem dos Músicos do Estado. Assim, entre os músicos da Capelozza,encontravam-se marceneiros, relojoeiro, comerciário, frentista de posto de gasolina,funcionário público e assim por diante. Nota-se que, em geral, tinham como trabalhoprincipal um ofício, além de serem pais de família e terem origem humilde. Dificilmente, encontrava-se entre eles alguém com curso superior. Apesar disso,em geral, haviam estudado música (via aulas particulares ou em conservatório) duranteanos e dentro de um esquema disciplinar rigoroso. Primeiro e invariavelmente, a teoria.Só depois de um bom tempo é que se pegava no instrumento.
  • 17. 17 Como foi constatado por Luiz Augusto Milanesi através de pesquisa realizada emIbitinga, interior de São Paulo (4), também em Jaú o gosto pela música foi marcado poruma forte influência de antigas famílias de imigrantes italianos: Senise, Fornalé,Capelozza e outras. Influência que se dava quase sempre em nível familiar: o pai ou o tiojá era músico e, do convívio, nascia o interesse em aprender música. O rigor e disciplina com que se aprendia a tocar era naturalmente transportadopara o trabalho na orquestra, o que, apesar do amadorismo, lhe garantia um desempenhoprofissional: não se tocava de ouvido e sim, somente através de partituras, as quais eramcompradas de arranjadores profissionais de São Paulo. Nesse aspecto, a Continental foimais longe. Sob a direção de Waldomiro de Oliveira, chegou não só a comprar arranjosde maestros norte-americanos famosos da época (Tommy Dorsy, Benny Goodman) comopassou a contar com arranjadores entre os seus próprios integrantes: os pistonistas Tite,Danilo e Luiz, o pianista Charles, o guitarrista Lima e o saxofonista Romeu.A cada apresentação, aumenta a popularidade Para o profissional de música, me dizem ex-integrantes das orquestras, dava paraviver, enquanto que para o amador o cachê representava um acréscimo razoável aopróprio orçamento. As orquestras, em geral, funcionavam sob a forma de cooperativas. A Continentalseguiu a regra geral: “Depois de pagas todas as despesas, o dinheiro arrecadado em umbaile era fraternalmente dividido - na verdade, o único que ficava com a parte menor era opandeirista - e uma pequena quantia ia para o caixinha”. (5) Na Líder Orquestra, o sistema de administração dos lucros e de direção era omesmo. Porém, os irmãos Capelozza, a um dado momento, propuseram aos demaismúsicos comprar a parte de cada um no patrimônio da orquestra, de modo centralizar a
  • 18. 18direção da mesma em suas mãos. A partir de então, a Líder Orquestra passou a se chamarCapelozza e sua Orquestra. Com a popularidade crescente, as orquestras de Jaú passaram a ganhar também emprestígio, não só junto ao público, como também junto ao meio musical. Havia finais desemana em que eram solicitados por 3 ou 4 clubes diferentes (isso para uma mesma noitede sábado). Num jornal regional de 1975, lê-se: “Não há cassino, estância hidro-mineralou hotel famoso em que não se tenha apresentado a Continental de Jaú nos seus principaisbailes”. (6) O critério de escolha de um baile variava entre o clube que pagava melhor ou acidade que ficava mais próxima. Em períodos de carnaval, considerava-se sobretudo esseúltimo critério, uma vez que as orquestras chegavam a se apresentar até 4 vezes nummesmo final de semana. A Continental chegou a fazer, em média, 110 bailes por ano. Nos meses dedezembro e janeiro, animava cerca de 25 bailes de formatura. Apresentou-se em um totalde 300 cidades dos Estados de São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro,Paraná e Minas Gerais. Entre as principais apresentações, destacaram-se aquelas realizadas nas capitais egrandes cidades, especialmente os shows na TV e rádio, quando acompanhou estrelas damúsica nacional (os “cartazes” como eram conhecidos na época): Hebe Camargo,Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Marlene, Inesita Barroso, Gregório Barrios e outros.Houve bailes que marcaram a memória da Continental, conforme narra o próprio TuninCapelozza, em entrevista concedida ao jornalista J. H. Teixeira do “Comércio do Jahu”(edição de 14/09/1986). Ele recorda um baile animado pela Continental, em Araçatuba(SP), o qual contou com a presença da então Miss Brasil, Martha Rocha: “Foi um bailegranfino mesmo. A toalete das senhoras ficava ao lado do palco. Então, quando passavamas moças que iam à toalete, nós, os músicos, ficávamos boquiabertos e comentávamos sea Martha Rocha seria mais bonita que aquelas que estavam passando ao nosso lado. Seumoço, quando a Martha Rocha apareceu, todas as outras ficaram feias!”
  • 19. 19Foto do jornal “Correio da Manhã de Jaú”, edição de 03/09/1955. Ao lado da foto, lê-se: “Hoje nos salõesde festas do Aeroclube de Jaú, grandioso baile para Coroação da Rainha da Escola Técnica Industrial denossa cidade, onde estará presente para dar um maior brilhantismo a famoso Capelozza e sua Orquestra.Amanhã (domingo) - A Capelozza e sua Orquestra, abrilhantará uma grandiosa brincadeira dansante navisinha cidade de Bocaina nos salões de festas do ‘Nosso Clube’”. Anúncios como este eram muitocomuns na década de 50, sobretudo nos meses de janeiro e dezembro (devido aos bailes de formatura) eépocas de carnaval.
  • 20. 20Lps: uma nova experiência A fama da Continental ultrapassou os horizontes que a própria Jaú podiavislumbrar. Em 1956, surge a oportunidade para gravar o primeiro LP, um acontecimentoinédito na história de uma orquestra do interior paulista. Tal acontecimento, como a gravação do segundo LP, é contado, em detalhes pelojornalista Mário Schwarz do “Comércio do Jahu”, após entrevista com Waldomiro deOliveira (edição de 25/10/1987): “Waldomiro de Oliveira revelou a Dionísio, o irmão, que gostaria de gravar umdisco pela Continental. Os contatos foram feitos e um ano mais tarde a orquestra jauensefoi mostrar que já merecia uma chance no mercado de discos, apresentando-se noprograma ‘Papel Carbono’, da Rádio Nacional (7), não só uma música mas o programatodo. Isso para que o executivo da gravadora aprovasse o lançamento de um disco. Mas areação do auditório foi tão boa que antes mesmo do final do programa, o responsável pelagravadora já tinha se decidido a gravar um LP com a Continental. Um não, dois (...) Dos cinco saxofones, quatro pistões, três trombones, contra-baixo, bateria, piano eguitarra, só não foram gravar no Rio um pistão e um trombone, substituídos por músicosda Orquestra de Severino Araújo (Moura e Macacheira) e o primeiro LP, “Convite para oBaile”, teve arranjos até de Vadico, o parceiro de Noel Rosa. O segundo, com a orquestra completa, de nome “Chegou a Orquestra de Jaú”, foigravado em dois dias, embora o estúdio estivesse reservado por uma semana. AContinental estava afiadíssima. ‘Para gravar esses discos, passamos bons apuros. Ficamos em hotel de quintacategoria e nossa refeição era a mais barata: macarronada, com Malzibier para reforçar.Não foi fácil, mas valeu a pena’. No verão de 59, LP embaixo do braço, Waldomiro deOliveira voltou para Jaú e foi até a “A Musical”, conceituadíssima loja de discos dacidade. Ele conta: ‘O Félix e o Licurgo eram vivos. Então pedi a eles que colocassem odisco para tocar. Os dois adoraram e perguntaram: que orquestra é essa? Eu disse que eraa Continental e eles não acreditaram. Poucos dias depois, com a colaboração do Rotary
  • 21. 21Club, lançamos o nosso primeiro LP no Aero Clube para um público deaproximadamente três mil pessoas. Até o Renato Mursi esteve aqui para o lançamento,que foi um sucesso’”. Capelozza e sua Orquestra, dirigida pelos irmãos Amélio, Tunin e Irineu, seguiupassos semelhantes aos da conterrânea Continental. Entretanto, não gravou LP. Segundoseus antigos integrantes, a idéia de fazê-lo foi discutida. Contudo, concluíram que nãocompensava financeiramente. Por isso, desistiram da idéia de gravar. Apesar disso, sua popularidade, sobretudo no Estado de São Paulo, por onde maisse apresentou, é indiscutível. Também acompanhou gente famosa como Gregório Barrios,Carlos Lombardi, Carlos Vilela e outros.Dificuldades comprometem o futuro Quando se houve a história das orquestras de Jaú, a impressão que se tem (pelomenos, a primeira impressão), é que se trata de uma epopéia, repleta de sucessos e só.Engano. De fato, os ex-integrantes da Continental e Capelozza, se hoje riem daspassagens, mesmo as dolorosas, com certeza, nessas ocasiões, a vontade era de chorar,acabar com tudo, “chutar o pau da barraca”. Entre todas as passagens da vida das jazz-bands, os ex-músicos são unânimes emafirmar terem sido as viagens as mais difíceis. Fosse pelas estradas de terra, fosse pelos automóveis ou ônibus, cuja velocidademáxima não ultrapassava os 30 km/h, uma viagem à vizinha Bauru ou a Bariri, poderia setransformar em um transtorno. Em especial nos dias de chuva. O que pensar então,quando se era contratado para tocar em cidades mais distantes, como em outros estados,por exemplo? Mesmo que o cachê compensasse, teve gente que chegou a desistir de ser músicopor causa de tanto sacrifício. “A gente - conta Tunin Capelozza na mesma entrevistaconcedida ao “Comércio do Jahu” (edição de 14/09/1986) - ia de ônibus, de carro ou detrem, em estradas ruins, com chuva ou frio. Certa vez, fomos tocar na cidade de
  • 22. 22Rancharia no mês de junho. Fazia um frio danado, até geou naquela noite. O quantosofremos. Foi nesse dia que o nosso violonista Manoel Sabatino desistiu, não quis maissaber da orquestra”. E continua: “Uma vez fomos em um baile e os carros encalharam naestrada. Chegamos no clube a 1h30 e tocamos todos sujos de barro até o fim do baile”. A Continental teve dois ônibus próprios. O primeiro, chamou-se “Martha Rocha”,em homenagem à ex-Miss Brasil. Depois, adquiriram outro, em melhores condições, o“Adalgiza Colombo”, cujo nome também foi inspirado em uma Miss Brasil. A facilidadede possuir condução própria não afastou, entretanto, as dificuldades. Não foram poucas asvezes em que todos tiveram que descer do ônibus para empurrá-lo por quilômetros, comlama e tudo. A Capelozza, por sua vez, se utilizava de carros ou ônibus alugados e de trem(para as viagens mais longas). “Quando viajávamos de trem, você sabe, eles param poucotempo na estação. Então, não dava tempo para descarregar todos os instrumentos daorquestra. Isso aconteceu mais de uma vez: era preciso alugar um carro, correr até apróxima cidade onde parava o trem para retirar o restante dos instrumentos”, conta Tunin.(8) Com o passar do tempo, precisamente com o advento do rock na década de 60, asviagens tornaram-se uma preocupação menor para as orquestras. No seu lugar, surgiu aconcorrência dos pequenos conjuntos, os regionais (a base de violão, acordeom, pandeiroe crooner) e, principalmente, os grupos de rock que introduziram o uso dos instrumentoseletrônicos (guitarra, contra-baixo e depois órgão) e passaram a substituir as jazz-bandsna animação dos bailes. A concorrência se dava em dois níveis. O primeiro era justamente o financeiro:ficava mais barato para o dono do clube contratar um conjunto com, no máximo, 5elementos, do que uma orquestra que tinha, em média, 15 integrantes. O segundo era aquestão da preferência musical da época que passou a mudar sob influência de novosmodismos estrangeiros. O rock’n roll passou a perna no tango, samba-canção, bolero,rumba, fox (cuja expressão máxima era a orquestra norte-americana de Glenn Miller,modelo imprescindível para as nossas orquestras) e a juventude, principal públicoconsumidor do mercado fonográfico, aderiu em massa ao seu ritmo alucinante.
  • 23. 23 Essa situação sentenciou, por assim dizer, o fim das jazz-bands. Elas até queresistiram bastante. A Continental, por exemplo, só encerrou suas atividades em 1968:“um sonho que acabou exatamente em 12 de maio de 1968 (...) na pequena Angatuba,onde a Continental tocou pela última vez. Restou também uma dívida que o Waldomirode Oliveira precisou de três anos para pagar”. (9) A Capelozza acabou mais ou menos no mesmo período. “A morte prematura doirmão Amélio teve grande influência no fim da Orquestra Capelozza, mas Tunin nãodesistiu. Formou um conjunto que se apresentava em festas e restaurantes”. (10) De fato, existiram também razões de ordem pessoal, inerentes a influência dosmodismos estrangeiros, que provocaram o fim das orquestras de Jaú. Entretanto, osmembros preferem não discutir o assunto. A resposta geral é “Cada um tem o seu tempo.O nosso já passou”. Inclusive, sobre o relacionamento entre os músicos e entre as duasorquestras rivais de Jaú, preferem, em geral, resumir questão em frases do tipo: “Orelacionamento era excelente”; “Até hoje, somos muito amigos”; “Sempre, sempreamigos”. Se existiram pequenas ou grandes diferenças, depois de tanto tempo, preferemesquecer. Saudável ou não, ironia do destino, as pessoas dessa cidade parecem tomaratitude semelhante: as orquestras, patrimônio histórico-musical de Jaú, por falta de sepreservar a memória desse mesmo povo, parecem condenadas ao esquecimento.
  • 24. 24Notas(1) CORREA, Ricardo S. Ouvinte Consciente. São Paulo, Ed. do Brasil S.A._________, p. 60.(2) TINHORÃO, José R. Pequena história da música popular - Da modinha à cançãode protesto. Petrópolis, Ed. Vozes, 1978, p. 125.(3) SCHWARZ, Mário. “Personagem: Waldomiro de Oliveira” in jornal Comércio doJahu, Jaú, 25/10/1987, p. 5.(4) MILANESI, Luiz A. O Paraíso via Embratel. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.(5) SCHWARZ, Mário. “Personagem: Waldomiro de Oliveira” in jornal Comércio doJahu, Jaú, 25/10/1987, p. 5.(6) “O som das grandes bandas do interior paulista” in jornal Internews, suplemento decadeia de jornais da CBI, agosto/75, p. 15.(7) “Papel Carbono”, programa da Rádio Nacional criado em 1937 e dirigido por RenatoMursi, onde os candidatos deviam se apresentar imitando a voz de algum cantor jáfamoso.(8) TEIXEIRA, J.H. “Personagem: Tunin Capelozza” in jornal Comércio do Jahu, Jaú,14/09/1986, p. 5.(9) SCHWARZ, Mário. “Personagem: Waldomiro de Oliveira” in jornal Comércio doJahu, Jaú, 25/10/1987, p. 5.(10) TEIXEIRA, J. H. “Personagem: Tunin Capelozza” in jornal Comércio do Jahu, Jaú,14/09/1986, p. 5.
  • 25. 25“TUNIN E DANTE”
  • 26. 26 “E essa é a história da orquestra”, concluiu Tunin. E eu quase despenquei do sofá.“Não é possível que alguém consiga resumir trinta ou quarenta anos de história em dezminutos e concluir que é tudo”, pensei. Foi mais ou menos assim que começou a minhaprimeira entrevista e, com certeza, uma das mais importantes para esta reportagem.Confesso que vi meu trabalho ir “por água abaixo”. Como poderia fazê-lo a partir de dezminguados minutos de entrevista? Talvez por estar mais que acostumado a contar a história das orquestrasContinental e Capelozza, o Tunin deve ter aprendido a resumi-la e por isso nem se deuconta da rapidez com que quase liquidou a entrevista. E quase liquidou o meu trabalho. Por outro lado, o “seo” Tunin, como é conhecido Plácido Antonio Capelozza, umdos fundadores da Continental e da Líder Orquestra (que depois transformou-se emOrquestra Capelozza), aos 83 anos, não economiza palavras para elogiar os anos 50, fasede ouro das jazz-bands que, como se dizia naquela época, abrilhantavam os bailes dointerior paulista de todo o Brasil. Mas voltemos à entrevista. São mais ou menos três da tarde quando aparece porali um novo personagem, convidado pelo Tunin para o nosso bate-papo. Baixinho e falante, Reodante Pepe, ou simplesmente Dante, é o oposto do amigoTunin que é alto e de pouca conversa, ou pelo menos, sem muitos rodeios. Quanto aoDante, era de se esperar, afinal foi o primeiro crooner da Continental e como todo bomcantor, ele deve ser antes de tudo comunicativo. Estão todos de acordo em gravar e a entrevista recomeça. Apesar do contraste físico e de comportamento, os velhos amigos possuem umatambém velha paixão em comum: a música. E foi justamente essa paixão que levou oentão inexperiente Dante a encarar o seu primeiro baile no dia 7 de setembro de 1940, diada inauguração da Continental. Ele lembra com humor: “Eu tinha lá os meus vintes anos.Cantava, mas cantava em seresta. Nunca havia me apresentado com uma orquestra. Nodia da inauguração, eu tremia que nem vara-verde! (risos) Eu tomei um litro de conhaqueou uísque, eu não sei... Mas olha, a cada intervalo, eu ia lá e pá, pá, pá!! E voltava.Acabou o baile e eu estava meio assim...” (risos)
  • 27. 27 Já a carreira do músico Tunin Capelozza começou bem antes. Filho de músicoitaliano, na verdade, a sua história confunde-se com a própria história das orquestrasContinental e Capelozza e, antes mesmo do seu surgimento, quando, aos 16 anos, játocava no Jaú Jazz, o primeiro jazz-band da cidade. Isso mais ou menos no final dos anos20, começo dos anos 30. Mais ou menos, porque nomes e datas fogem à sua memória. Tunin estudara com músicos da cidade: “... um senhor que se chamava VitorinoFrigolo, o José Fornalé, o Danilo Fornalé... porque isso aqui antigamente não tinhaprofessor de música, não havia escola. A gente tomava lição na casa do músico”. Quandomudou-se para Marília, juntamente com o irmão Amélio, por motivo de serviço, disseque era para aposentar o sax, o clarinete e o bandoneom. “Mas quem nasceu pra música,não consegue largar a música...” Entretanto, é o próprio Tunin quem adverte: “Vou falar a verdade pra você:música nunca deu nada pra ninguém. Música é só perda de tempo!” Como acontecia comuma boa parte dos músicos de Jaú, Tunin, Dante e outros possuíam uma profissão. ODante, por exemplo, era garçom, o Tunin e o irmão Amélio, marceneiros, o Irineu, oterceiro dos irmãos Capelozza, relojoeiro e assim por diante. “Cada um tinha o seuemprego. Nós nos reuníamos para ganhar um dinheirinho extra no sábado e no domingo.E no carnaval a gente aproveitava para ganhar uns cobrinhos a mais”. Uma vida de sacrifícios, mas levada por um grande prazer pela música. Porém,para o Dante, tanto sacrifício passou a não compensar mais. “Eu fiquei apenas um ano naContinental. Depois desisti. Tinha um emprego e precisava faltar para acompanhar aorquestra. Era uma complicação”. Depois disso, Dante foi para São Paulo, tendo voltadopara Jaú anos mais tarde. O Tunin continuou. Como ele próprio afirmou, “mais por prazer”. E esse prazer,esse amor pela música, impressiona na sua pessoa. Logo que entrou pela sala de estar,confesso que não acreditei que aquele senhor de mãos grossas (mãos de marceneiro), falaalta e gestos bem italianizados, pudesse ter sido músico. Referindo-se à sua mulher,contudo, é que se percebe um certo lirismo (claro, dentro do seu estilo de pessoa) queparece envolvê-lo. Perguntei-lhe se não houve problemas com a mulher, tendo queconciliar a vida de casado, de marceneiro (trabalhou 45 anos até se aposentar na fábrica
  • 28. 28de móveis Jahu Progride) e de músico. E ele respondeu: “é uma mulher que é umespetáculo, se conformou com tudo e não houve problemas...” Diferente, mas não deixade ser uma sincera declaração de amor. A admiração do público, pelo menos das pessoas mais velhas, é incontestável.Algo que vem de longe. Uma prova concreta do reconhecimento público dos valores domúsico Tunin Capelozza está na homenagem que recebeu de seu amigo, o maestroRubens Leonelli, então regente da Banda Sinfônica da Polícia Militar de São Paulo, porocasião da festa do aniversário de Jaú, em 1970. Velho conhecido de Tunin, Leonelliresolveu fazer-lhe uma surpresa. A Banda Sinfônica da Polícia Militar iria se apresentarem Jaú, na Igreja Matriz Nossa Senhora do Patrocínio com seus 120 músicos. Norepertório, entre os clássicos da música erudita, estava lá a valsa “Vera Lúcia” compostapor Tunin e dedicada à filha mais nova. Quando a banda começou a executar a valsa emarranjo sinfônico e o público presente reconheceu a obra do jauense Tunin, todosexplodiram em palmas. Depois de execução da valsa, Tunin dirigiu-se ao maestro e aosmúsicos para cumprimentá-los. Consigo levou a pequena Vera Lúcia. “As palmascontinuaram sem parar, por uns 10 minutos! Foi a maior emoção da minha vida!”, conta,quase em lágrimas. Assim como para a filha mais nova, Tunin compôs as valsas “Nida” (dedicada àesposa Leonilda), “Virgínia” e “Vilma” (para as outras duas filhas) e o choro “Walter”,dedicado ao seu único filho homem. Apesar do seu comportamento simples, Tunin não se preocupa em esconder opouco de vaidade de seus mais de 40 anos de músico. “Com o público, barbaridade! Euera estimado, barbaridade!! Todo sábado tínhamos 3 ou 4 lugares para escolher. A nossaorquestra era disputada!” O amigo Dante, aos seus 72 anos (e com uma filha de 14!) também não esconde avaidade: “O senhor cantaria hoje, em público, se tivesse oportunidade?”, pergunto. “Euaté cantaria, mas sabe... a gente não tem mais aquela aparência de quando era jovem...Penso que a mocidade de hoje não daria valor...” Não é pra menos que os irmãos Capelozza têm motivos para essa vaidadeincontida. Além do talento em si e justamente por isso, foram eles os fundadores de
  • 29. 29praticamente todas as jazz-bands de Jaú. “Tínhamos facilidade para formar um novogrupo. Éramos nós quem imperava...” A esse propósito, Tunin se defende: “Se nós tivéssemos formado Capelozza e suaOrquestra no começo, não tinham acontecido nada desses rolos, né? Mas nós fomos fazerno fim... ninguém ia querer tirar o nome da gente...” “Mas o que eram esses rolos?”,pergunto. “Havia os invejosos que queriam ficar dono, você tá me entendendo? Então,nós pegávamos e deixávamos pra eles: fiquem donos vocês!! E formávamos outrogrupo”. Depois de tanto tempo, Tunin e Dante, como outros, não demonstrampreocupação ou interesse (nem querem comentar) a respeito das diferenças dentro de umaorquestra ou sobre a rivalidade entre Capelozza e Continental. “Tanto tocando juntos,como fora dos bailes, nós éramos sempre amigos”, garantiu Dante. “Até hoje, graças aDeus!”, completou Tunin. Dante lembrou, inclusive, que não havia punições pré-estabelecidas para quem errava, fugia ao compromisso. “Falava-se assim: oh, bichão!Você tá dando tripa! E só”. Tratava-se de uma gíria da época que é o mesmo que “pisarna bola” hoje. “Mas quanto à rivalidade entre a Continental e a Capelozza?”, insisto. É oTunin quem responde: “Existia uma rivalidade, barbaridade! Mas nunca nós deixamos deser amigos!!” Foi num clima espontâneo, diria, quase familiar, que se conduziu o nosso bate-papo, a propósito, bem humorado. Tão humorado e espontâneo que, várias vezes, preciseidesligar o gravador, a pedido, para que meus entrevistados não se sentissemconstrangidos com aquele fato, aquela situação ou comentário. “Mas você estágravando?! Corta isso, pelo amor de Deus!!” (risos) As duas horas e meia de entrevista passaram rápido. De tudo o que foi dito, bastoua simplicidade e alegria daqueles senhores para entender que é preciso enxergar mais quevelhos hábitos e velhas tradições para entender o passado...
  • 30. 30“SABU”
  • 31. 31 Se você perguntar em Jaú pelo Marcílio Galdino Pires, provavelmente poucagente vai dizer que conhece. Agora, se, ao contrário, você perguntar pelo “seo” Sabu,então sim, muita gente vai saber de quem se trata. Especialmente os mais velhos que nãose esquecem dos muitos dançados ao som da voz do crooner Sabu a frente de Capelozza esua Orquestra. O apelido Sabu (que depois virou nome artístico, registrado na Ordem dosMúsicos de São Paulo) foi inspirado em um antigo herói de cinema do início da décadade 60. Hoje, cantando apenas entre amigos e após um bom tempo afastado dos palcos,Sabu é mais conhecido na cidade como o proprietário do Hotel Paulista, localizadopróximo à estação rodoviária. Apesar das diferentes atividades que desenvolvera no decorrer da sua vida, a decantor é, sem dúvida, a que lhe traz as melhores lembranças. Foi graças à música que a 4de dezembro de 1987 recebera o título de Cidadão Jauense, cujo diploma exibe,orgulhosamente, na recepção do seu hotel. E é exatamente sobre música que se desenrola o nosso bate-papo. A propósito,quando o procurei e lhe disse sobre o que e porque deseja entrevistá-lo, de cara, mostrou-se entusiasmado em colaborar. E me garantiu: “Você não vai tirar dez nesse trabalho! Vaitirar mil!” A sua história como cantor começa quando moleque (por volta de 1945, 1946).Certa vez, ganhara um concurso para cantores em um parque de diversões na sua cidadenatal, Agudos (SP). Na ocasião, cantar, para Sabu, era apenas uma diversão, umpassatempo. É nesse momento que acontece uma reviravolta em sua vida. Chega deMarília um músico de jazz-band. Ele conhece Sabu e, sem hesitar, o convida para assumira vaga (que estava livre) de crooner na sua orquestra. Embora estivesse receoso, em virtude de sua inexperiência, encorajado pelomúsico, Sabu aceitou e partiu para Marília. Já fazia algum tempo que acompanhava a pequena orquestra de Marília, quandoSabu resolveu partir para algo maior. Foi para São Paulo e prestou um concurso na Rádio
  • 32. 32Bandeirantes. “Passei. Então resolvi que iria para São Paulo, faria um cachê naBandeirantes e cantaria nas noites, nas bocas, como se diz”. Estava decidido a fazê-lo. Nesse meio tempo em que permanecera em Marília, conhecera os irmãos Amélioe Tunin Capelozza (que haviam se mudado para lá para trabalhar com um tio namarcenaria). “Então, a gente travou uma boa amizade, porque eles também são gentefina”. E foi devido a essa amizade que novamente aconteceriam mudanças nos planos docrooner Sabu. Decididos a retomar o trabalho com a música, os irmãos Capelozza propuseram aSabu que não deixasse a orquestra em Marília até que eles pudessem voltar para Jaú (oque aconteceria em breve) e fundassem a sua própria orquestra, na qual ele assumiria afunção de crooner. “Eu não queria viver integralmente como profissional. Então, desistide ir para São Paulo e aceitei a proposta dos Capelozza”. E, de fato, foi o que aconteceu: em fins de 1948, Sabu e os Capelozza fundam aLíder Orquestra, que depois passou a se chamar Capelozza e sua Orquestra. “Eu comeceicom eles. Sou fundador. Os Capelozza como chefes e eu como integrante da orquestra”. Em Jaú, preferindo não viver só de música, Sabu passou a trabalhar como inspetorde alunos da Escola Profissional Joaquim Ferreira do Amaral, a Industrial. “Em 1954, 55,mais ou menos, eu sai da escola. Ai comecei um novo trabalho, como vendedor.Trabalhava de segunda a sexta. Depois ficava disponível para a orquestra”. Nos finais de semana havia muito trabalho. Mesmo depois de casado (casou-se emsetembro de 1958), continuou cantando. “Ah! Depois de casado, a mulher não gostava.Sabe como é, é natural. Mas fiquei tempo cantando. No fim, a mulher aceitou porque agente já tinha mais despesas, não era um, éramos dois. Então, o dinheiro da orquestraengrossava o orçamento. Juntava as coisas: uma porque gostava, outra porque rendia umpouco”. E tinha bons motivos para gostar. Como cantor, assumia uma posição privilegiadana orquestra. Era particularmente visado pelo público. “Eu era super bem tratado”. “Masas pessoas não tinha aquela tendência de vê-lo e aos outros músicos como estrelas?”,arrisco. “Não, não. O relacionamento era muito bom. Todo mundo se aproximava da
  • 33. 33gente. Queriam conversar. Parece... a impressão que se tem é que, antigamente, se tinhamais tempo para conversar. Parece que tinha mais calor humano”. No que sua baixa estatura não chama a atenção, a voz possante de Sabu convence.Ainda mais porque, como cantor, aprendeu a ser comunicativo. “Apresentava orepertório, fazia a abertura do baile, cumprimentando o público. Se tinha alguma coisapra anunciar, evidentemente era o cantor que fazia”. A dedicação à música o levou, mais que aprender a se relacionar com o público:“Aprendi sax. Mas não tocava. Entretanto, estudava. Quem chegou a me ensinar músicafoi o Sr. Amélio Capelozza, um senhor músico”. Sabu mantém a vitalidade de quando jovem, como quem prefere não falar emidade. Ainda sim, recordar o passado da Capelozza traz para Sabu uma satisfaçãoespecial. Tanto que já pensa em reservar um local especialmente para reunir os velhosamigos, bater aquele papo e é claro, curtir uma boa música.
  • 34. 34“ROBERTO PAVAN”
  • 35. 35 O jovem saxofonista e clarinetista (talvez um dos músicos mais jovens que tenhapassado pela Orquestra Capelozza) está bem diferente. Além dos óculos, engordou eganhou cabelos brancos. Com pouco mais de 60 anos, Roberto Pavan é porém, umapessoa muito ativa. Talvez a sua profissão (hoje é comerciante, mas desde garototrabalhou no comércio como balconista) lhe exija isso. Tanto que não quis perder tempo.Após procurá-lo, no dia seguinte, o entrevistei ali mesmo, no fundo da sua loja,debruçado sobre o balcão. Logo em seguida, após nos despedirmos, ele retomou semdemora os seus afazeres profissionais. Roberto parece ser uma pessoa prática e cuidadosa. Antes de iniciarmos aentrevista, quis saber tudo o que pretendia perguntar-lhe. E a cada pergunta, procuravaresponder com objetividade, o que contudo, não disfarçava o saudosismo com quelembrava passagens da história de Capelozza e sua Orquestra. “Nós saímos, por exemplo,pra tocar em Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, Barra Bonita, Dois Córregos,Bauru, Lins. Então, quando chegava a Orquestra Capelozza, não precisava falar maisnada! A receptividade era maravilhosa! E nós percebíamos isso, mas nós éramoshumildes”. Para Roberto Pavan, maravilhoso era também o relacionamento entre os músicos.Mesmo se no início, quando entrou para a Capelozza, sentia-se despreparado para tocarcom outros músicos mais experientes, Roberto disse sempre ter recebido apoio doscolegas. Entretanto, ele, desde jovem, demonstrava uma certa objetividade na maneira depensar. Antes de tocar na Capelozza e após os seus primeiros estudos, Pavan foraconvidado para integrar a Líder Orquestra. “... na Líder Orquestra já existiam músicostradicionais e eu, como amador, senti muita dificuldade e tive que parar. Então, meaprofundei bastante no estudo do clarinete e saxofone e tive a satisfação imensa em serconvidado para tocar na Orquestra Capelozza, na qual trabalhei, mais ou menos, uns 12ou 13 anos”. O amor à música e a sua dedicação ao estudo chegou a levar o então inexperienteRoberto à posição de primeiro saxofone da orquestra, o que era uma posição privilegiadaentre os músicos. Para tanto, teve que “suar a camisa”. “Eu trabalhava no balcão. Àsvezes, voltava do baile com o instrumento na mão e ia trabalhar. Eu trabalhava das oito às
  • 36. 36seis da tarde - tinha uma hora de almoço - e estudava à noite. Estudava também nossábados e domingos durante o dia. Toda noite eu pegava o instrumento e estudava, nomínimo, duas horas”. Além disso, como toda a orquestra, Roberto teve que enfrentar o lado difícil dotrabalho como músico, como por exemplo, as viagens em dias de chuva. “Houve umaocasião... eu era responsável pela montagem da orquestra, pelas estantes, as partituras, eraeu quem punha as pastas. Cada um tinha uma função. Essa era a minha. E houve umaocasião em que nós fomos para Bariri e deu uma chuva tremenda. Nós saímos daqui,mais ou menos, cinco horas da tarde para começar o baile às dez da noite, 22 horas. Ecomo é que faz com o barro da estrada? Então, tinha que acorrentar o carro... E quandofurava o pneu, era um ‘deus-me-acuda’! Enfim, nós chegamos em Bariri. Montado tudo -eu estava procurando o repertório - quando perguntei: ‘Cadê a pasta do repertório?’Esqueceram em Jaú. E aí? Naquele tempo, não tinha outro jeito: eu tive que voltar paraJaú com o chofer. E o baile ia começar às dez horas. Eram nove e meia quando eu deifalta do repertório. E pra voltar para com aquela chuva? O que a orquestra fez? Ela tocou,porque nós tínhamos músicos como o Amélio Capelozza, Tunin Capelozza, Hélio Cioti,Luis Mingueti, nós tínhamos o Caraciti... Então, eles começaram a tocar, tocar... e euvoltei para Jaú. Cheguei em Bariri meia noite. Eu estava inteirinho embarreado”. Sobre a rivalidade entre Continental e Capelozza, Roberto, ao contrário dos outrosmúsicos, foi bem mais claro em sua opinião: “... naquele tempo, a Continental se achavasuperior a nós, só que não era! E sabe por quê? Porque a Continental tinha um estilodiferente de tocar. Eles tocavam muito forte, alto. Mas o dançarino gostava realmente erade dançar com a Capelozza, porque era uma orquestra mais suave”. Apesar da rivalidade,ele garantiu que sempre foram amigos. A propósito, antes de aperfeiçoar os seus estudos em música no ConservatórioJauense, tomou as primeiras lições com o maestro Danilo Fornalé (“expoente máximocomo professor que conheci!”) e participou de um pequeno conjunto (do qual não selembra o nome) dirigido por Romeu Fornalé, os irmãos, ambos ex-integrantes daOrquestra Continental.
  • 37. 37 Para Pavan, como a maioria dos músicos da Capelozza, o trabalho da orquestraera um “bico” que ajudava no orçamento, sobretudo depois que se casou pela primeiravez, em 1952. “O casamento não complicou minha vida, porque eu amo e sempre amei amúsica e minha primeira esposa, falecida, era uma moça compreensiva”. Hoje, bem estabelecido comercialmente, Roberto não sente mais falta da orquestracomo “bico”. Entretanto, lamenta o fato dela como de todas as orquestras do interior deSão Paulo terem terminado. Para ele, além da concorrência dos conjuntos de rock, um dosmotivos do seu fim, é o fato de que “hoje, o moço não pensa em estudar música. E osmúsicos mais velhos foram se desgastando, foram morrendo e não houve renovação dasorquestras”. E justamente por isso, ou seja, o fato das jazz-bands da década de 50 (emparticular a Continental e a Capelozza) estarem condenadas ao esquecimento, é queRoberto Pavan disse estar contente com iniciativas do tipo desta reportagem. “Acho issofantástico! Porque tudo passa, não? E se você não fizer isso, quem vai saber quem foi oRoberto Pavan? Não que eu faça questão, aliás, eu não acho que se deva marcar o fulanode tal, mas principalmente as duas orquestras. Inclusive, eu já pensei no dia de SantaCecília, 28 de novembro (1), fazer uma exposição na minha vitrine, mostrar para opúblico jauense ou quiçá, da região, através de uma exposição de fotos, o que foramrealmente a Orquestra Continental, a Orquestra Capelozza, os seus músicos... Esse é osentido da coisa...”Nota(1) O entrevistado se enganou sobre a data da festa de Santa Cecília. A data correta é 22de novembro.
  • 38. 38O BAILE
  • 39. 39 “Época muito romântica, o som da orquestra inspirou o nascimento de muitoscasamentos. Ainda hoje casais se lembram da música que a Continental estavaexecutando quando trocaram o primeiro olhar”. (1) Porém, o baile em pequenas cidades do interior, como Jaú, era mais que umaoportunidade para encontro de moços apaixonados. Dançar ao som da jazz-band nosfinais de semana era uma das poucas opções de lazer para a maioria da população jauensenos anos 50. Além disso, restavam o futebol, o bilhar, o bocha, o cinema, a paquera (ochamado “footeen”) na praça ao som da “furiosa”. (2) Nesse período, enquanto o rádio conhecia o seu auge como veículo decomunicação de massa, a TV no Brasil estava apenas engatinhando. Não era um veículopopular. Ao contrário, possuir um aparelho de TV era um privilégio. Sendo assim, olazer, nas pequenas sociedades como a de Jaú estava quase que invariavelmente ligado àsrelações humanas mais diretas. E o baile era, possivelmente, entre essas formas de lazer, apredileta do público. Além do mais, do ponto de vista das gravadoras, o baile erafundamental na manutenção do comércio de discos, uma vez que os sucessos do rádioeram também tocados pelas jazz-bands. Como no rádio do Brasil da década de 50, o que “estava por cima” era a músicaromântica (Nelson Gonçalves, Francisco Alves, entre outros, eram os cantores favoritosdo público), o que se ouvia nos bailes era justamente a valsa, o tango, o bolero, o samba-canção, ritmos românticos por excelência. Para contrabalançar, tocava-se o jazz, o fox-trote, a rumba, o mambo, o swing, ritmos mais agitados. De qualquer forma, quemdançava era o casal, o que independente do ritmo mais ou menos acelerado, era umachance para uma aproximação mais efetiva entre o rapaz e a moça. Efetiva sim, mas nemtanto... Afinal, havia como que uma “consciência coletiva” que determinava limites bemclaros até onde o rapaz podia chegar. Coladinhos mesmo só os namorados maisavançados ou que tinham coragem para tanto, porque, normalmente, havia a direção doclube que não permitia atitudes desse tipo. Sobre situações como essa, Tunin Capelozza recorda uma passagem daContinental que, hoje, soaria no mínimo engraçada: “Vou contar um baile que nósfizemos no Jaú Clube. Foram convidados estudantes de Campinas para tomar parte desse
  • 40. 40baile. Você sabe, Campinas era uma cidade diferente da nossa, uma cidade grande. Umambiente diferente. Os moços se beijavam... e não tinha nada disso por aqui. No clube, oTotó Pacheco era o presidente. Ele ficava na porta assim... (levantou-se e fez a pose).Aconteceu que um dos estudantes beijou uma moça que estava dançando. Ele esperou acontra-dança, mandou chamar o rapaz na diretoria e falou: ‘O Sr. pode se retirar dosalão`. Bom, eram todos estudantes: tirou um, saíram todos. E acabou o baile. Tocamostrês músicas e ganhamos o baile inteirinho”. Atitudes rigorosas à parte, o baile era muito esperado por todos. Sobretudo nasdatas especiais, como o aniversário da cidade, os bailes caipiras em junho, os deformatura em dezembro e janeiro, e os bailes das debutantes. Existia uma expectativamuito grande em torno desses eventos. Observava-se com cuidado cada detalhe napreparação para o baile. O crooner Sabu contou: “O baile aqui em Jaú, por exemplo - issoeu me lembro perfeitamente - anunciava-se: ‘O Aero Clube vai promover o baile caipirano dia 2 de julho`. Esse baile era anunciado em maio. Então, as moças se preparavampara esse baile. Alguma comprava um sapato novo, fazia vestido novo, compravachapeuzinho, quer dizer, ia-se devidamente caracterizado. Todo mundo! O baile dasdebutantes era muito interessante. Dois meses antes, os pais já ficavam se preparando,comprando, fazendo vestido para as filhas. Mas era ‘o baile’! Era um ritual, alguma coisafora do comum, feita com muito capricho!” De fato, existia esse capricho. É o que me confirmou o casal Leon e Eunice: “Asmoças iam de vestido longo, cores claras, suaves e cinturinha fina. O rapaz sempre deterno e gravata. Usava-se muito terno branco”. O interesse pelo baile era geral, envolvia toda a cidade. Tanto que “quase todos osnossos bailes eram irradiados pela Rádio Jauense (a PRG7). Isso era natural na época”,completou Sabu. Quanto ao clima, ao ambiente no salão, todos, músicos e o público da época sãounânimes: havia muito respeito. É verdade que todos concordam que existia um“controle” sobre o comportamento. Mas preferem dizer que a atitude de respeito era umaopção para a maioria das pessoas. “O clima era simplesmente maravilhoso! Porque,geralmente, o casal ia para dançar. O clima era tão gostoso que a gente que estava
  • 41. 41tocando lá no alto, no palco, percebia que o povo tinha satisfação enorme em dançar. Eraum ambiente sadio, gostoso, dançavam realmente. Havia pessoas que dançavam ecomeçavam às dez e só paravam às quatro da manhã. (...) Às vezes, tinha pessoas,mocinhos de Jaú que iam conosco nos bailes só pra dançar, em São Manoel, DoisCórregos, Barra Bonita...”, contou o saxofonista Roberto Pavan. Apesar do “controle de qualidade”, uma vez ou outra acontecia alguma confusão.O meu próprio pai, Bruno Marques, contou-me que, certa vez, em um baile no “ClubeDansante Operário”, um primo nosso “recebeu tábua” de uma moça ao convidá-la paradançar. Quando uma moça, por qualquer motivo que fosse, “desse tábua”, isto é,recusasse um convite para dançar, ela jamais poderia, durante o resto do baile, aceitar oconvite de outro rapaz. Se o fizesse, estaria desrespeitando o primeiro que lhe fizera oconvite. Foi o que aconteceu com o nosso primo. Ele foi desrespeitado. Inconformado e jáum tanto alterado por ter exagerado na dose do conhaque, não teve dúvida: partiu pracima da senhorita e meteu-lhe um belo tapa no rosto. Formou-se logo uma confusão.Porém, para ele nada aconteceu. Funcionário da Receita Federal, o primo era quemconcedia os alvarás para a realização dos bailes. Logo, expulsá-lo do salão não seria umamedida conveniente a ser tomada pela direção do clube... Entretanto, as situações mais pitorescas nos bailes da cidade eram aquelas queenvolviam os casais apaixonados. Em virtude do clima de respeito e severidade com quese conduzia o relacionamento entre um rapaz e uma moça durante os anos 50, o namoroera antes de tudo uma aventura. A dificuldade de se chegar a uma maior intimidade com anamorada, obrigava o rapaz a passar por situações, em geral, constrangedoras. Entretanto,para os casais que eram jovens naquele período, as barreiras de então davam um saborespecial àquela aventura. O que para nós, início dos anos 90 (3), talvez já não teria amenor graça. O casal Hipólito Leon e Eunice Pavanelli de Menezes recordou uma situação daqual foram protagonistas e que dá uma boa idéia a esse respeito. Ambos eram jovens. Ele,extrovertido, filho de família humilde. Ela, introvertida, filha de família abastada etradicional da cidade. “Quando a gente almoçava na casa dela, na mesa, ninguém abria aboca. Só falava o pai”. Provavelmente por isso, para Leon, Eunice era uma pessoa difícil.
  • 42. 42Acontece que ele adorava dançar (diga-se de passagem, ainda hoje tem fama de bomdançarino). Assim, algumas vezes, após deixar a namorada em casa, Leon ia com umaturma de amigos para o clube. Preferia que a namorada não soubesse. “Mas se ficassesabendo, eu não iria esconder”. E foi o que aconteceu. Certa vez, uma amiga de Eunice viu Leon em um baile,evidentemente, dançando com outra garota. “O baile foi em outra cidade, em Pederneirasou Dois Córregos”... Ao saber do fato, Eunice foi taxativa: “Então, não podemoscontinuar namorando”. Assim, ambos de coração partido, resolveram terminarsolenemente o namoro. Escolheram dia, horário e local para fazê-lo. “Foi em frente adelegacia. A gente ficou um tempão no ‘chove-não-molha’. Já fazia um ano queestávamos namorando e eu ainda não tinha sequer dado um beijo nela...A gente ficava sónos dois beijinhos no rosto e pronto. Quando, finalmente, resolvemos nos despedir, eunão aguentei: agarrei-lhe e lhe dei aquele beijo! Foi uma cena cinematográfica!”(enquanto ríamos, eu e o “seo” Leon, a dona Eunice ficou vermelha como um pimentão).Depois daquilo, choramingando, Eunice disse a Leon: “É, agora a gente vai ter quecontinuar namorando...” (risos)Notas(1) “O som das grandes bandas do interior paulista” in jornal Internews, suplemento decadeia de jornais da CBI, agosto/1975.(2) “Furiosa”é o termo popular usado para nomear as bandas de coreto.(3) Vale lembrar que este trabalho de reportagem foi concluído no final de 1991,portanto, início da década de 90.
  • 43. 43“WALDOMIRO DE OLIVEIRA”
  • 44. 44 Antonio Waldomiro de Oliveira, 66 anos, casado, 4 filhos. São tantas e variadas asatividades que exercera na sua vida até aqui (entre elas a de componente da OrquestraContinental) que parece difícil saber por onde começar. Em virtude de sua falta de tempo,foi difícil conseguir um momento para um bate-papo. É que o “seo” Waldomiro é e sempre foi uma pessoa muito ocupada. Desde o meuprimeiro contato - quando lhe apresentei a idéia dessa reportagem - ele estava com todo oseu tempo tomado com a gravação de um disco. Uma iniciativa pessoal, algo, comodefiniu o crooner Sabu (que teve participação neste LP) “para ficar para a posteridade”. Entretanto, desde o início, Waldomiro demonstrou-se prestativo, interessado emcolaborar. Ele, inclusive, emprestou-me um material precioso que contribuiu e muito paraa conclusão dessa reportagem. A sua contribuição foi fundamental, porque Waldomiroesteve a frente da Continental durante a maior parte de sua existência. Desde cedo, encontrou a sua vocação para a música. Quando criança, aprendeupiano e clarinete. Mas foi como cantor que se realizou. Começou no coral da Igreja, em Lins, sua cidade natal. Levando jeito para oensino, um ex-professor o convidou a vir morar em Jaú, onde passou a lecionar Mecânicana Escola Industrial. Isso foi em 1943. Efetivou-se e, em 1969, se aposentou comoprofessor. Em Jaú, como cantor, começou dando “canjas” no Nosso Jazz (1) e depois naOrquestra Típica Continental. Mais tarde, a convite dos Capelozza, passou a dividir afunção de cantor com João Rafa. Este último, tendo concluído o curso universitário,deixou a orquestra. E Waldomiro assumiu integralmente a função de cantor daContinental. Em 1947, os irmãos Amélio e Tunin Capelozza partiram para Marília por motivode serviço, deixando a orquestra nas mãos de Waldomiro e do pistonista José Ayello. Em1948, Waldomiro assumiu inteiramente a direção da mesma. A partir daí, conformereconhece o próprio Tunin Capelozza, a Continental conheceu seu auge. Como cantor da orquestra, além de acompanhar os sucessos da época, Waldomirotinha que se virar com os tangos e as canções em inglês e francês. Na retaguarda,
  • 45. 45apoiando o então namorado, estava a Odete, hoje, sua esposa. Era ela quem datilografavaas letras das músicas. Mas a carreira do cantor Waldomiro de Oliveira poderia ter ido muito além dosucesso com a Continental, como conta o jornalista Mário Schwarz (2): “Aproveitando oconhecimento que tinha do Rio de Janeiro, onde em 1943, pelas mãos do irmão maisvelho, havia vencido o programa de calouros da lendária Rádio Nacional (‘ Hora doPato’), Waldomiro voltou à Guanabara, não como José Antonio (pseudônimo que haviautilizado no programa de calouro), mas com o seu próprio nome para se apresentar noprograma ‘Papel Carbono’, do famosíssimo Renato Mursi: ‘Cantei Jezebel, gravada peloJorge Goulart, e também ganhei o primeiro lugar. O Mursi quis me contratarimediatamente para fazer parte do ‘cast’ da Nacional, prometendo que se eu ficasse, eleme conseguiria uma gravação dentro de três meses, assim como tinha conseguido paraoutro vencedor de ‘Papel Carbono’ há pouco tempo, o Agnaldo Rayol. Mas argumenteique não podia deixar minha família, a escola e a orquestra de Jaú’. Ao menos por poucodias, Waldomiro de Oliveira fez parte do elenco da Rádio Nacional. Esteve até em Juiz deFora, Minas, com os cantores daquela emissora e recebeu, inclusive, propostas paragravar compositores anônimos. Cantou também no Glória, onde conta foi ‘trisado’, ouseja, em vez de apresentar uma música como estava previsto, foi obrigado a cantar maisduas outras, fora do roteiro, atendendo a platéia. ‘O Renato Mursi não se conformava.Vivia dizendo: ‘Puxa vida, Waldomiro, você foi trisado. Fica aqui’. E não fiquei, volteipara Jaú. Mas aquele contato foi importante’.” A pessoa do Waldomiro chama atenção. É do tipo que se impõe, atirado. O ar deprofessor é inconfundível. Mesmo os mais jovens que não o conheceram ou o conhecemcomo músico (atualmente, é regente de um coral litúrgico formado apenas por vozesmasculinas, o “Nossa Gente”), com certeza, já ouviram falar dele como instrutor de cantodo Tiro de Guerra de Jaú. Ganhou uma comenda do Exército por isso. Waldomiro foi também: presidente da Comissão Pró-Instalação da Paróquia deNossa Senhora Aparecida (da qual depois foi seu diretor administrativo), fundador egovernador do Serra Clube de Jaú (3), fundador e regente do Coral Santa Cecília quedurou vinte anos e chegou a gravar um LP. E a lista continua. Durante 25 anos deu
  • 46. 46assistência aos presos da cadeia pública de Jaú, é membro do Lions e pertence àIrmandade dos Vicentinos. Há 9 anos dirige um programa na Rádio Piratininga de Jaú,todas as quintas-feiras, a partir das 22 horas. “É assim que Jaú canta” chegou a serirradiado em todo País pelo extinto Projeto Minerva. Waldomiro foi ainda vendedor emuma revendedora de carros de Jaú. Seu curriculum vitae é ainda mais extenso. Mas até aqui dá pra se ter uma boaidéia da vitalidade e disposição do maestro Waldomiro. Em se tratando de música, as realizações de Waldomiro não param em si mesmo.Seu filho homem, Antonio Waldemir, ou simplesmente Mir, formado em Composiçãopela Universidade de Campinas (UNICAMP) tornou-se um conhecido músico de Jaú eregião. Como se diz, “filho de peixe, peixinho é”. Entre os antigos músicos das orquestras de Jaú, Waldomiro ficou conhecido comoarrojado pela gravação dois Lps da Continental, uma iniciativa sua que, mesmo devidoaos prejuízos financeiros com os quais ele próprio teve que arcar, projetou ainda mais onome da orquestra e da cidade. Ele não esconde o orgulho com que realizou tudo isso, em especial como atuoucomo cantor, diretor e regente da Orquestra Continental. Recentemente, em um encontrode corais amadores realizado em Jaú, ao apresentar Waldomiro e seu grupo “NossaGente”, a coordenadora do evento assim o definiu, referindo-se ao seu trabalho com amúsica ao longo dos anos: “um lutador!”. Elogios à parte, algo que não dá para contestar.Notas(1) O Nosso Jazz foi um dos primeiros jazz-bands de Jaú, fundado pelos irmãos Amélio eTunin Capelozza. Com o fim do Nosso Jazz, os irmãos Capelozza fundaram a OrquestraContinental.(2) SCHWARZ, Mário. “Personagem: Waldomiro de Oliveira” in Jornal Comércio doJahu, Jaú, 25/10/1987, p. 5.(3) Entidade católica que trabalha pelas vocações sacerdotais e religiosas.
  • 47. 47“DANILO FORNALÉ”
  • 48. 48 Falar da história da música de Jaú, sem falar em Danilo Fornalé é como cometersacrilégio. Exagero? Não, a julgar pelo que dizem as pessoas, músicos e públicos de Jaú,em geral. E não é pra menos. Sem ter qualquer formação acadêmica no assunto, o ex-pistonista da Orquestra Continental, Danilo Fornalé, já ensinou (e ensina) música paramuita gente de Jaú. Os próprios irmãos Capelozza aprenderam com Danilo. E elecontinua na ativa. Mesmo tendo deixado de lado o pistão há um bom tempo, Danilocontinua a viver de música. Atualmente, é professor na Escola Municipal de MúsicaHeitor Azzi, é o regente da “Carlos Gomes” (a banda de coreto que já tem 100 anos deexistência) e escreve composições e partituras para outros músicos. Baixo e franzino, Danilo, a considerar os estereótipos do artista em voga, àprimeira vista, não convence se tratar de um músico. Também não está preocupado comisso. Fala da história da Continental com uma naturalidade que parece até ser coisa semmuita importância. Não é o tipo saudosista, não fala com eloqüência nem parece estarpreocupado em convencer seu interlocutor de verdades. Para ele, ser músico, ao contráriodo que pensa muita gente, é ter uma profissão como outra qualquer. É curiosa essa atitude despretensiosa, sobretudo a julgar pelo seu currículo. Filhoe sobrinho de músicos (seu pai e um dos tios tocaram na Banda Carlos Gomes,. no seuinício, juntamente com o seu fundador, o maestro Heitor Azzi), Danilo Fornalé, segundoele próprio, aprendeu música sozinho. Teve um irmão, Romeu Fornalé (já falecido),saxofonista, que também fizera parte da Orquestra Continental. Assim, através de umdom natural e da convivência familiar, aprendeu a tocar e não largou mais o que, com otempo, passou a ser a sua profissão. Desde pequeno, acompanhava o pai e o tio quetocavam na banda do maestro Azzi. E ainda moleque passou a fazer parte da “furiosa”. Apropósito, a entrevista se deu na sede da “Carlos Gomes”, que é também a sua residência. “Mas o Sr. não teve outra profissão?”, perguntei. “O meu pai queria que euexercesse a profissão de alfaiate. Comecei como aprendiz. Mas larguei. Isso não meinteressava”. Tanta dedicação a essa atividade é que faz com que se entenda o que me disseTunin Capelozza, referindo-se ao amigo: “É impressionante! Ele é capaz de ouvir uma
  • 49. 49música, qualquer que seja, pela primeira vez e depois, escrever a sua partitura... assim, noato!” De fato, além de músico da orquestra, foi também um dos seus arranjadores. Mas Danilo realmente não parece preocupado com elogios nem tampouco parecerser muito emotivo. Entretanto, quando lhe mostrei algumas fotos das orquestras de Jaúque conseguira, ele não escondeu a emoção. Olhando bem para uma das fotos, me disse:“Puxa! Que saudades!” Danilo é casado. Não teve filhos. Já teve muitos alunos. Como os Capelozza, boaparte dos músicos das jazz-bands, nascidos em Jaú, tomaram lições com ele. Dasamizades, em especial como músico da Orquestra Continental, Danilo recorda umapassagem curiosa. Tudo começou com uma brincadeira. E terminou em uma tragédia. Como é comum entre companheiros de trabalho, entre os músicos da Continentalsempre tinha um que “pegavam pra Cristo”. Ele se lembra do “seo” Giacomo, contra-baixista. “Ele era mais velho. Uma pessoa muito simples, até simplória. Certa vez, porbrincadeira, o pessoal inventou que ele tinha morrido. Reconheço que foi humor negro...Enfim... Então, o nosso fotógrafo tirou fotos do ‘enterro do Giacomo’. E mandaram paraJaú. Ele próprio achou graça. Foi mais uma brincadeira... Acontece que pouco tempodepois, num baile... estávamos tocando quando, de repente, ouvimos um barulho surdoatrás. Olhamos e era o ‘seo’ Giacomo. Ele estava estirado no chão. Parou-se o baile,procuramos atendê-lo. Mas foi tarde.... Ele morreu de parada cardíaca”. Muita coisa lhe foge à memória: nomes, datas, fatos. Foram mais de 20 anos comocomponente da Continental. E isso há mais de trinta anos atrás. A impressão que se tem éque ele não parece perturbado com o fato de que as pessoas possam esquecê-lo. “Cadaum tem a sua fase”, conclui.
  • 50. 50“CONSTANTE OMETTO”
  • 51. 51 Custou, mas encontrei. Ele estava em casa, no fundo do quintal, cuidando dosfrangos. Aos 77 anos, aposentado há um bom tempo, aquele trabalho todo com asgalinhas era para “se sentir útil”. Mas a verdade é que o “seo” Constante gosta daqueleserviço. Afinal, nasceu na roça e lá se aprende a gostar dessas coisas. E justamente o fato de ter vivido e trabalhado no campo durante a sua infância ejuventude é que faz da história do músico (saxofonista e clarinetista) Constante Ometto,uma história única. A simplicidade ao narrar episódios de sua vida pessoal, bem como enquantomúsico das orquestras Continental e Capelozza, lembra um romance clássico. Talvez ofato de possuir uma forte fé religiosa (é membro da Igreja Adventista de Jaú) faz com queConstante veja a vida, mesmo as dificuldades do passado, como “um dom de Deus”. Porisso, seu discurso é sempre entremeado de trechos bíblicos e alusões à fé. Desde cedo, Constante demonstrara uma forte inclinação para a música: “Viviacantando, na roça, vivia cantando”. Apesar de sua mãe ser contra (inconformada com ogosto musical do filho, certa vez, quebrara sua viola), Constante adorava fazer seresta. Entretanto, a vida no sítio era dura. “Essa coisa de ter que dormir cedo paraacordar de madrugada e ir para a roça dificultava a gente fazer seresta”. E como se nãobastasse, “trabalhava-se muito e ganhava-se pouco”. Diante dessa situação, adorar música e estar descontente com que ganhava nocampo, Constante, ainda contrariando a opinião de sua mãe, partiu para um investimentoarrojado. Foi aprender música para ganhar mais dinheiro. Seus “professores”: os irmãosCapelozza. Depois de estudar a teoria, optou pelo sax. Aprendeu também a tocar oclarinete, mas era do sax que gostava. Para ele, a música, pelo menos no início, foi um empreendimento que deu certo.De fato, os seus rendimentos aumentaram muito desde que começou a tocar no cabaré dacidade (1). “A minha vida melhorou bastante naquele tempo”. E precisava realmente que melhorasse, uma vez que, nessa época, já estavacasado. Constante casou cedo, porque antes de tudo desejava sentir-se livre das antigaspressões familiares, em especial da mãe que via o trabalho de músico com descrédito.Dona Aparecida, sua primeira e única namorada e esposa há quase 50 anos, ao contrário,
  • 52. 52apoiava e muito o trabalho no cabaré. “Mas não havia problema em casa por tocar numlugar daqueles?”, insisto. “Não, não. Porque a gente ia lá para trabalhar, não para perdertempo com outras coisas”. A esse propósito, não teve dúvidas. Participou de nossa conversa a donaAparecida, esposa de Constante, que com sua simplicidade e espontaneidade, endossavacada palavra do marido. E mais que isso: o já não tão jovem casal demonstrou a todomomento de nossa entrevista uma harmonia comovente. Com vários problemas de saúde, entre eles o da audição, algumas vezes e deforma inocente, dona Aparecida desviava a conversa do assunto com seus comentários.Nesses momentos, Constante, com uma paciência incomum, dizia-me: “Ela não escutadireito, não entende sobre o que estamos conversando. Por isso, interrompe...” Eprocurava, com a mesma paciência, ouvi-la e ajudá-la a participar do assunto. Num dado momento, talvez entusiasmada com a minha visita, ela perguntou-mese não gostaria de ouvir uma canção que eles costumam cantar na sua igreja. “Quando euera moça, eu também cantava bastante”, me diz. Constante resolveu acompanhá-la: “Senão, ela não consegue. Ela anda um pouco sem voz”. Quando os Capelozza fundaram a Continental, convidaram o amigo Constantepara fazer parte da orquestra. Depois que se mudaram para Marília, Ometto permaneceuna Continental. Ao voltarem para Jaú, os Capelozza fundaram a Líder Orquestra.Novamente, em nome da antiga amizade, o saxofonista Constante saiu da Continentalpara acompanhar os Capelozza. Ali permaneceu até o fim de Capelozza e sua Orquestra. Com o passar do tempo e com a chegada dos filhos (tiveram um casal, 6 netos eaté aqui 7 bisnetos), viver apenas de música deixou de ser um bom negócio. Ou pelomenos, deixou de garantir por si só o sustento da família. Assim, Constante passou atrabalhar na prefeitura, por onde acabou se aposentando. Sobre as orquestras de Jaú, Constante não esconde a saudade que sente daqueletempo. Ele ressaltou sobretudo o respeito e prazer com que as pessoas se divertiam nosbailes e como as orquestras da cidade eram muito aplaudidas por onde se apresentavam. Sentados na cozinha de sua casa, eu, Constante e Aparecida, parecíamos velhosconhecidos, embora tivéssemos nos conhecido há pouco mais de uma hora atrás. Ambos
  • 53. 53os meus entrevistados demonstravam-se entusiasmados com a conversa e a suajovialidade me deixava de tal forma à vontade que não me dei conta da notável diferençade gerações. A um certo momento, Ometto perguntou-me como o havia encontrado.Então, contei-lhe como fizera. E ele me disse: “Estou contente que tenha se lembrado demim”. Posso entender o porquê disso. Se o vissem andar pelas ruas de Jaú a pé ou no seumodesto fusca verde petróleo, pouquíssimas pessoas hoje, lhe dariam o devido valor quemerece.Nota(1) Na verdade, não se tratava de um cabaré propriamente dito, pelo menos não do tipoque sabemos ter existido nas grandes cidades. Algo recatado que não feria muito aimagem da cidade tradicional do interior de São Paulo.
  • 54. 54JAÚ: A MÚSICA HOJE
  • 55. 55 Comparar a atividade musical de Jaú nos anos 50, focalizando, em especial, aatuação das jazz-bands, com os dias atuais, é uma tarefa difícil. Na verdade, nem dá paracomparar. Tudo mudou e muito. Não existem tantos bailes como antigamente. Afinal, nas décadas de 40 a 60, obaile era uma das poucas opções populares de lazer. Hoje, ao contrário, o baile é umacontecimento se não raro, ao menos, bem menos freqüente. O que contudo, não deixa deter um valor atrativo considerável. Para os músicos profissionais que atuam em Jaú e na região, é impossível pensarseu trabalho em termos de orquestra. Aquela formação (cujo número médio ficava entre15 e 20 elementos) seria insustentável para um grupo musical, hoje. Pelo menos, numcampo de trabalho como o interior. Contudo, para esses mesmos músicos, em geral, hoje em dia, a situação é melhor.Mesmo sem tantos bailes, outras opções de trabalho, surgidas nos últimos anos, vieram ase tornar novos espaços para o exercício da profissão de músico em cidades como Jaú. Além dos bailes, há os casamentos (cerimônia e festa), jantares dançantes,restaurantes e bares. Nesse ambientes, a presença da música ao vivo passou a serexigência natural do público. Assim, o bar que tem música ao vivo, em geral, tem umafreguesia maior. Logo, o cachê do músico também é maior, uma vez que ele recebe umaquantia (o couver artístico), previamente estabelecida com o proprietário da casa, porcada mesa ocupada. Para saber melhor a respeito da situação do músico de Jaú e região, procureiArquimedes Cantarine Ferreira, músico profissional e delegado regional da Ordem dosMúsicos do Brasil. “Não tenho o que reclamar. O grupo que está bem estruturado, temserviço para a semana toda”, garante Arquimedes. Para ele, inclusive, o trabalho em baresnos finais de semana passou a ser uma segunda opção em relação aos casamentos ejantares. Ele afirma com segurança de quem nos últimos 27 anos só viveu de música. Casado, com 3 filhos, aos 42 anos, Arquimedes tem um trio. Autodidata em sax,flauta transversal, guitarra e contra-baixo e formado em violão clássico peloConservatório Jauense de Música, também leciona no mesmo conservatório e em Bauru.
  • 56. 56Ele afirma que o nível dos músicos de Jaú, na atualidade, é bom, o que contribui paratradição da cidade na área. O próprio Arquimedes teve um dos seus primeiros contatosprofissionais com a música tocando surdo e caixa no seu primeiro carnaval, quandoacompanhou a Orquestra Capelozza, esta na sua fase final. Uma característica fundamental para a sobrevivência da atividade profissional emmúsica, hoje, é precisamente o trabalho em pequenos grupos, duplas e/ou trios ou aindasozinho. Aliado a isso, o uso de órgãos, sintetizadores, baterias eletrônicas, veio a facilitaro trabalho que, no caso do trio do Arquimedes depende em 70% de tecnologia. Isso tudo,além de um repertório eclético, que atenda a todos os gostos e preferências, o quesignifica, normalmente, acompanhar a música comercial das gravadoras e rádios. Há ainda outro espaço, que ajuda a manter a tradição musical da cidade que são asaulas particulares, em escolas e conservatórios.. Por fim, surgiu um novo espaço musical,tanto para os profissionais como para o público: o Projeto “Som na Praça”, uma iniciativada Prefeitura Municipal de Jaú que, aos sábados e domingos à noite, reúne músicos daregião que se apresentam na Praça Tancredo Neves (próxima à estação rodoviária). Sobre o mercado fonográfico, todos os músicos da cidade são enfáticos: não dánem pra pensar. Como aconteceu com a Continental, gravar um LP hoje (o que já se podefazer no interior) é um empreendimento nada lucrativo. Serve quanto muito para quempode investir dinheiro próprio, inclusive na divulgação e comercialização ou por gostopessoal. O mercado de discos é um campo restrito a poucos. Além do mais, apenas amúsica comercial (com predominância para o que se toca fora do País) tem chance nessemercado. “Eu não poderia gravar apenas o que eu gosto, um disco instrumental, porexemplo”, explica Arquimedes. Quando aos clubes, existem ainda o Aero Clube e o Grêmio Paulista. Alémdesses, há o Caiçara Clube, o mais novo e luxuoso da cidade. Os principais bailes, contudo, são animados por grupos de fora, quase sempre, dacapital. O que se ouve nesses bailes é o de sempre, ou seja, a música comercial. Tangos,valsas, boleros e outros antigos ritmos populares deixaram de ser populares. Agora,pertencem ao passado. A propósito, o comentário dos jovens, em geral, é que é “umachatice” ouvir Glen Miller, Ray Coniff e por ai afora.
  • 57. 57 Assim, mesmo com a presença do conjunto, o baile hoje parece mais com a boatedos finais de semana (onde se liga o CD e pronto) do que com o baile mesmo. Bem, pelomenos, é o que garantem os saudosistas.
  • 58. 58RELATÓRIO SOBRE A REPORTAGEM “JAÚ EM RITMO DE BAILE” A idéia do tema, uma reportagem impressa sobre a história das orquestrasContinental e Capelozza de Jaú, surgiu ainda no segundo semestre de 1990. Jaú é uma cidade rica em tradições. Entretanto, conforme informações obtidasempiricamente, pouco se tem organizado a respeito da história das orquestras Continentale Capelozza, patrimônios da tradição musical de Jaú. A relevância do tema se dá pelo sucesso que tais orquestras de salão alcançaramdurante quase três décadas (1940 a 1970), cuja atuação permanece viva na memória daspessoas que viveram aquele período. A partir desse fato, surgiu a idéia de se fazer essa reportagem que não sóprocurasse cobrir essa lacuna na história da cidade, bem como servisse de subsídio apesquisas e estudos futuros. Assim, ainda em 1990, consultei alguns professores acerca da viabilidade daproposta para o Projeto Experimental, a ser executado e apresentado no segundo semestrede 1991. A confirmação veio no início do semestre seguinte, logo nas primeiras aulas dadisciplina Planejamento em Comunicação, quando o aluno discute em sala de aula suaproposta para o Projeto Experimental e elabora um pré-projeto. Durante praticamente todo o primeiro semestre de 1990, dediquei-me, sob aorientação do professor Dr. Antonio Carlos de Jesus, responsável pela disciplinaPlanejamento em Comunicação, à elaboração desse pré-projeto, que nada mais é que umroteiro inicial que direciona todo o trabalho do aluno na execução do próprio ProjetoExperimental. Antes contudo, de elaborar o pré-projeto, realizei um trabalho de pesquisa, o“Conhecimento da Realidade”. Trata-se de um levantamento acerca do meio no qual sedesenvolve o assunto de pesquisa do projeto. No meu caso, ou seja, a “realidade” na qualestavam inseridas as duas orquestras é a cidade de Jaú (SP), mais precisamente durante asdécadas de 40 a 70, período de existência das referidas jazz-bands.
  • 59. 59 Desse modo, durante a última quinzena de março/91, pesquisei junto a fontesinformais (Biblioteca Municipal e do Museu Municipal) e fontes informais (os arquivospessoais de ex-integrantes das orquestras e público em geral) material (texto, fotos eilustrações) sobre esse período da história de Jaú e informações preliminares sobre oobjeto em estudo, ou seja, as duas orquestras. Ainda no final de março, redigi o“Conhecimento da Realidade”. Em seguida, durante a primeira quinzena de abril/91, realizei uma pesquisabibliográfica sobre o assunto “música”, buscando focalizar sobretudo o período emestudo. Além disso, li e fichei livros que se relacionavam direta e indiretamente aoassunto. (Procurei consultar diversos professores a respeito de sugestões de leitura). Concluído esse trabalho, durante a primeira quinzena de maio/91, empenhei-mena redação do pré-projeto e de uma proposta para a estrutura do próprio ProjetoExperimental. Munido do “Conhecimento da Realidade”, Pré-Projeto e Proposta de Estrutura doProjeto, através de um ofício, solicitei a orientação do professor Murilo César Soares doDepartamento de Ciências Humanas da FAAC (Unesp-Bauru). Definida a orientação, iniciamos a partir do segundo semestre de 1991, algumasreuniões para discutir o andamento do projeto. No entanto, ainda no primeiro semestre de 1991, sobretudo durante o mês de julho(férias escolares) e início de agosto, realizei novo trabalho de pesquisa. Junto à RádioPiratininga de Jaú, consegui uma cópia da gravação do primeiro LP da OrquestraContinental, “Convite para o Baile”. Junto ao Museu Municipal e alguns ex-integrantesdas orquestras, obtive fotos (que pude reproduzir) e matérias de jornais sobre o assunto. Entre os dias 01 e 10 de agosto, realizei entrevistas com os antigos músicos epessoas (a maioria casais) que viveram a época em estudo e acompanharam o sucesso daCapelozza e Continental. Foram, ao todo, 10 entrevistas, das quais 6 mereceram, cadauma, um capítulo especial no trabalho final. Além das entrevistas, realizei vários contatosinformais com ex-músicos e público em geral que, embora rápidos e não tendo sidogravados, contribuíram significativamente com as informações que deles obtive.
  • 60. 60 De posse das entrevistas transcritas, além do material anteriormente pesquisado(“Conhecimento da Realidade”, bibliografia), iniciei ainda em agosto, o trabalho deredação do projeto. Esse trabalho, realizado em microcomputador, estendeu-se até o início denovembro. Durante esse período, o professor orientador acompanhou o trabalho deredação com sugestões e correções. Redigido o projeto, bastou estruturá-lo a partir de um índice. Na última semana denovembro, o trabalho foi entregue aos professores da banca examinadora, anteriormenteconvidados.
  • 61. 61BIBLIOGRAFIACORREA, Ricardo S. Ouvinte Consciente. São Paulo. Ed. do Brasil SA ______.FERNANDES, José. Vultos e fatos da História de Jaú. Edição conjunta extraordináriado Correio da Noroeste, Correio da Capital, Correio de Garça, comemorativa docentenário de Jaú, São Paulo, 1955.MILANESI, Luiz A . O Paraíso via Embratel. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.“O som das grandes bandas do interior paulista” in Jornal Internews, suplemento decadeia de jornais da CBI, agosto/1975.SCHWARZ, Mário. “Personagem: Waldomiro de Oliveira” in Jornal Comércio do Jahu,Jaú, 25/10/1987, p. 5.SEVERINO, Antonio J. Metodologia do Trabalho Científico. 16a. ed., São Paulo,Cortez Editora & Editora Autores Associados, 1990.SODRÉ, Muniz. Técnica de Reportagem: Notas sobre a Narrativa Jornalística. SãoPaulo, Summus Editorial, 1986.SUCUPIRA, Zélia. “Personalidade em destaque: Plácido Antonio Capelozza, ‘Tunin’” inJornal Comércio do Jahu, Jaú, 29/10/1978, p. 10.TEIXEIRA, J. H. “Personagem: Tunin Capelozza” in Jornal Comércio do Jahu,14/09/1987, p. 6.TINHORÃO, José R. Música Popular - do Gramofone ao Rádio e TV. São Paulo,Editora Ática, 1981.TINHORÃO, José R. Pequena história da música popular - Da modinha à canção deprotesto. Petrópolis, Ed. Vozes, 1978.TOSCANO, José Raphael. João Ribeiro de Barros - Apontamentos Históricos. 1a. ed.,Jaú, Cartonagem Jauense Editora, 1986.
  • 62. 62Legendas/fotos:Em foto de 1945, a Orquestra Continental., então dirigida pelos irmãos Capelozza, seapresenta no Tênis Clube de Marília. Na primeira fila, Amélio e Tunin Capelozza,respectivamente, segundo e quarto saxofones. Ao lado de Tunin, em pé e de branco, ocrooner Waldomiro de Oliveira.Capelozza e sua Orquestra. Ao microfone, o crooner Sabu. No sax: Amélio e TuninCapelozza, Roberto Pavan e Constante Ometto (da esquerda para a direita). No contra-baixo, Irineu Capelozza.A Líder Orquestra, antes de se transformar em Capelozza e sua Orquestra. Na foto, DivaLoka aparece dividindo a função de cantor com Sabu.A Orquestra Continental durante apresentação no Aero Clube de Jaú.Capa e contra-capa de “Convite para o Baile”, o primeiro long play da Continental,gravado em 1958.A Orquestra Continental, em 1958, por ocasião da gravação do seu segundo LP, “Chegoua Orquestra de Jaú”. A foto foi tirada no museu da Aeronáutica, no Parque Ibirapuera (S.Paulo), onde encontra-se o hidroavião “Jahú”, usado por João Ribeiro de Barros paraatravessar o Oceano Atlântico.O ônibus “Marta Rocha” (1959): mais um baile na cidade de Conchas (SP).