Alberto caeiro por hipólito

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Cortesia de Nuno Hipólito

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Alberto caeiro por hipólito

  1. 1. NUNO HIPÓLITO No Altar do Fogo Uma análise do Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro © 2007-2010 Nuno Hipólito
  2. 2. Era como a voz da terra, que é tudo e ninguém. Álvaro de Campos
  3. 3. Introdução Alberto Caeiro, “O Mestre”. Assim o apelidava Pessoa, com uma deferência de filho perante o pai, mesmo sabendo estar perante a sua própria criação. Mas, ao contrário do que se possa pensar, Caeiro não pretendia ser maior que todos os outros heterónimos. Ele pretendia ser menor. “O Mestre”, porque reduziu ao essencial as suas palavras e as suas convicções. Porque como um mestre achou na ausência, no ascetismo, os significados maiores da sua religião pessoal. Pagão sim, mas só pela simples razão de que quem venera muitos deuses, não venera deus algum. Era esse homem impossível uma ideia em si mesma, que recusava existir ou conhecer-se. O “Guardador de Rebanhos”, obra pequena de 49 poemas, escrita na sua grande maioria num só dia de inspiração1, de pé contra uma cómoda, não pretende ser um tratado de um mestre, a não ser pela inversão de princípios. Vamos observar que Caeiro não prescreve ensinamentos, como se esperaria de um mestre, mas antes descreve negativamente a realidade, despindo progressivamente as camadas do conhecimento. Até restar o suficiente para que se viva sem preocupações, em paz. É o “Guardador de Rebanhos” ent~o um tratado de mestre deveras único. Um tratado de antimetafísica, de alguém que escreve como se banhasse os pés no Ganges – como método de purificação, de aceder à pureza inicial, sem pecado. Reis, Campos, Soares, Search, Mora, mesmo Pessoa ele mesmo, todos se preocupam em atingir uma verdade, uma conclusão. Pairam num céu de etéreas incertezas. Caeiro não. Por isso ele se destaca, por isso ele é “O Mestre”. Um mestre do espírito, mas não do céu, que prende por algum tempo Pessoa a certezas límpidas, a uma sensação de conforto tranquilizadora2. Muitas vezes o elemento fogo (o preponderante em Caeiro) é ligado às garras do Leão e isso pode simbolizar a preferência pelas verdades simples da natureza e a fuga à metafísica e às hipóteses. (Mas o fogo aqui representa igualmente o cadinho final incandescente, a fase rubedo, em que a Obra atinge a sua essência final). Prepare-se quem o ler para se despir também dos preconceitos da civilização e da cultura, da modernidade. Dispa-se como os antigos sadhus indianos. Cubra-se como eles de pó. Coma frutas selvagens. Sacie a sede nos ribeiros da montanha, que nascem do degelo invisível. Porque este livro é a busca do nada, da paz do espírito vazio3. Pessoa, na famosa carta sobre a génese dos heterónimos, dirigida a Adolfo Casais Monteiro em 13 de Janeiro de 1935, diz de facto: “em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, (…) Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro”. Mas uma análise mais cuidada do espólio leva à conclusão de que nenhum poema está datado desse dia. As datas vão de 4 de Março a 7 de Maio de 1914 e nenhum poema tem a data de 8 de Março, o famoso “dia triunfal”. Três possíveis explicações: o gosto de Pessoa pelo drama e pela encenação, pela sua própria memória futura, levaram a que ele ficcionasse o nascimento da obra maior de Caeiro num só dia; a segunda hipótese é a de que ele, não se recordando exactamente desse período – pouco mais de duas semanas, vinte anos atrás – as sintetizasse num só dia, realmente um dia glorioso, que ele recordava por ser o dia em que tinha “inventado” os heterónimos. (Parece ser esta a posição de alguma critica actual). A terceira hipótese, que nós próprios defendemos, é que o dia 8 de Março de 1914 tem um significado astrológico especial para Fernando Pessoa, e por isso foi escolhido propositadamente pelo poeta. 2 Para caracterizar a importância de Caeiro para Pessoa há uma nota curiosa, vinda da atenção de Jorge de Sena, que não podemos deixar de indicar. Notou Sena que, curiosamente, a Caeiro é dada uma vida com os mesmos anos da de Sá-Carneiro, 26, e que morre tuberculoso como o pai de Pessoa, depois de uma vida em que teve frágil saúde, depois também de ter 5 curtos anos de actividade poética, 5 sendo o número m|gico, os anos de felicidade do “Menino de Sua Mãe”, de 1888 a 1903 (Cf. Jorge de Sena, “O «meu mestre Caeiro» de Fernando Pessoa e outros mais” in Actas do I Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, pág. 357, Brasília Editora, 1978). Acrescentamos duas interpretações numerológicas nossas: 8 de Março de 1914 (8+3+1+9+1+4=26=26, a idade de Caeiro=2+6=8 o número da ressureição). 3 Tires, 26 de Maio de 2006. 1
  4. 4. Análise geral e estilística O “Guardador de Rebanhos” era apenas uma parte da obra global de Alberto Caeiro, que Fernando Pessoa pretendia editar dentro do que ele chamava de Ficções do Interlúdio, titulo geral que incluiria, em múltiplos volumes, toda a obra dos seus heterónimos. Curioso é que Fernando Pessoa pretendia fazer esse livro sob o seu próprio nome. Ou seja, Fernando Pessoa tomaria o seu lugar como fonte geradora da obra dos seus heterónimos4. A obra de Caeiro seria a primeira a ser editada num volume intitulado Fernando Pessoa – Ficções do Interlúdio – I. Poemas completos de Alberto Caeiro (1889-1915). Naturalmente a primeira, por incluir as obras do “mestre”. O “Guardador de Rebanhos” é uma parte da obra de Caeiro. O restante constitui-se pelos dezassete “Poemas Inconjuntos” e pelos oito poemas que formam o conjunto “O Pastor Amoroso”. H| no entanto algumas discordâncias editoriais, visto que algumas edições incluem os poemas de “O Pastor Amoroso” em conjunto com os “Poemas Inconjuntos”, sob este último título. Certo é que os “Poemas Inconjuntos” ficam fora do conjunto principal intitulado “Guardador de Rebanhos”, por serem mais tardios (escritos circa 1919) e muitas das vezes contraditórios com a visão inicial de Caeiro. Mas não nos cabe analisá-los agora. Diremos que o “Guardador de Rebanhos”, obra que vamos analisar, é constituída por 49 poemas5, todos com métrica irregular e seguindo um esquema rímico de verso branco6 (sem rima). Todo o texto é marcado por uma evidente pobreza lexical, com a predominância de uma linguagem simples, familiar, o que enfatiza a pobre edução de Alberto Caeiro (que supostamente apenas frequentou o ensino primário). Há um uso frequente do presente do indicativo ou do gerúndio, reforçando a ausência do pensamento racional – que se projecta sempre no futuro ou lembra as acções do passado. Podem ainda indicar-se como características dominantes, o uso de frases simples, o uso raro de metáforas em detrimento do uso de comparações, a adjectivação concreta e objectiva e um sistema de pontuação lógico e pouco criativo. Ao nível fónico, o ritmo é lento e alternam-se sons nasais e vogais abertas e semi-abertas. Em resumo, o “Guardador de Rebanhos” é um livro escrito por um homem simples, que teve pouca ou nenhuma educação formal. Portanto – e em principio – um livro simples de ler e simples de ser entendido. Veremos que nem sempre será bem assim. Por detrás da simplicidade do texto e do autor escondem-se uma variedade imensa de interpretações. Isto porque Caeiro desconhece que, escrevendo, vai descobrindo ele mesmo aquilo que escreve e se vai a ele mesmo modificando. É o que se pode ler na intenção de Pessoa, descrita numa carta a João Gaspar Simões, datada de 28 de Julho de 1932. Cf. Fernando Pessoa, Escritos íntimos, Cartas e páginas autobiográficas, Publicações Europa-América, págs. 202-3. 5 49 → 4+9 = 13 → 1+3 = 4: O número da união dos elementos ar, terra, fogo e ar. 6 Curiosamente, se o verso branco domina, também é o nome do poeta relacionado – Caeiro, lembra a cal, o branco funerário, o esquecimento e a ablução. Alberto será um nome de origem germânica que quer dizer nobre, ou calmo. (Valemo-nos aqui das indicações de Santino Borges) 4
  5. 5. I Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. Como um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam alegres e contentes. Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais. Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho. E se desejo às vezes Por imaginar, ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora. Quando me sento a escrever versos Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, Sinto um cajado nas mãos E vejo um recorte de mim No cimo dum outeiro, Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende. Saúdo todos os que me lerem, Tirando-lhes o chapéu largo Quando me vêem à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa, E que as suas casas tenham
  6. 6. Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predilecta Onde se sentem, lendo os meus versos. E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer coisa natural — Por exemplo, a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado. 4-3-1914 O poema I é um poema de definição, negativa é certo, mas definição. Pessoa define em concreto o que é esta obra, e mais, o que é Alberto Caeiro no seu íntimo. Temos de imaginar o poeta debruçado sobre a “cómoda alta”, no dia 8 de Março de 1914 – “o dia triunfal”7. Estava há dias a inventar uma personagem, em tentativas sucessivas, mas não lhe surgira a inspiração. O processo de construção assemelha-se ao de qualquer ideia criativa – sabendo já o que pretendia (um poeta bucólico, de “espécie complicada”), bastou esperar que o seu cérebro inconsciente construísse a realidade antes de ela se aplicar no papel. Ela veio-lhe num jacto de “trinta e tal poemas”8. Nascera Alberto Caeiro. As razões psicológicas para o nascimento do “Mestre” foram j| analisadas longamente por especialistas Pessoanos9. Não nos vamos demorar nesta análise, passando desde já ao texto em si e aos significados residentes no texto. “Eu nunca guardei rebanhos”, diz Caeiro no primeiro verso da sua obra, intitulada precisamente “Guardador de Rebanhos”. O que representa este paradoxo de abertura? Quer dizer que Caeiro, o poeta bucólico, na verdade não é um pastor, mas acima disso – uma alma de pastor10. A sua contemplação da natureza, da beleza primordial, leva-o a sentir a realidade como se a vivesse intensamente, num modo de vida similar ao da pastorícia – que reúne os elementos solidão e contemplação. Ver nota 1. «Carta a Adolfo Casais Monteiro em 13 de Janeiro de 1935», in Fernando Pessoa, Escritos íntimos, Cartas e páginas autobiográficas, Europa-América, 1986, pág. 228. 9 Em síntese ficam aqui algumas opiniões: Gaspar Simões, o primeiro biógrafo, considerou Caeiro só “um crânio, uma cabeça, nada mais”, reforçando a sua opini~o de que o poeta bucólico “aparece” a Pessoa para o tirar da “insinceridade pura” do período paúlico, para uma “sinceridade intelectual”, de transiç~o, que preencheria o que em Pessoa ainda se revelava como falta de experiência de vida (Cf. João Gaspar Simões; Vida e Obra de Fernando Pessoa, Vol. I, pág. 260, Bertrand, 1950). José Augusto Seabra, de algum modo confirma esta visão de “tabula rasa”, chamando a Caeiro o “grau zero da poesia” em Pessoa. No entanto Eduardo Lourenço parece compreender melhor (e de maneira mais vasta o fenómeno Caeiro), quando diz o contrário de Seabra: “Caeiro é o «grau ómega» da poesia”, ou seja, é o fim e não o início, é “Pessoa o mais distante de si mesmo”, parte de um percurso ontológico negativo (e dialéctico) (Cf. Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa revisitado, pág. 40, 3.ª edição Gradiva). Percurso que tão brilhantemente António Quadros iria descrever no seu artigo Heteronomia e Alquimia (Cf. António Quadros, Fernando Pessoa, vida, personalidade e génio, D. Quixote, págs. 277-307), dando a entender Caeiro como um dos elementos da procura alquímica de Pessoa – a reunião dos opostos da sua alma, em que cada heterónimo seria um elemento (Caeiro claro, sendo a Terra). Múltiplos autores (Lourenço, Casais Monteiro, Jacinto do Prado Coelho) chamam também atenção para a questão da linguagem poética, como arma de compreensão da realidade. Mais simples é porém a visão, sempre magistralmente clara e evidente, de Agostinho da Silva. Para este pensador, Caeiro aproxima-se de Pessoa, como momento de alma, um estado de espírito e por isso “a doutrina de Caeiro é tão frágil como a sua saúde”, o destino dele era morrer, ser passageiro (Cf. Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa, 3.ª edição, Guimarães Editores, pág. 63). É visível que os grandes biógrafos de Pessoa cedo compreenderam que Caeiro, como os outros heterónimos, não era apenas parte de um intrincado jogo de ficção (ou mera reacção a influências externas, como insinua Harold Bloom no seu The Western Canon), uma encenação sem sabor. Eles são um drama interior, como reconhece o mais moderno dos biógrafos Robert Bréchon (Cf. Robert Bréchon, Estranho Estrangeiro, Quetzal, 1996, pág. 222), cada um deles uma faceta do ser de Pessoa, que na discussão em família dos seus personagens pretende encontrar o segredo da vida pela sua negação. Veremos no futuro as verdadeira implicações desta ousadia filosófica. 10 Ver a análise ao poema IX. 7 8
  7. 7. O pastor é o símbolo para a solidão do pensamento contemplativo. É um homem que está sozinho na natureza e cuja profissão é vaguear com o seu rebanho, sem a perturbar, alimentando-se do que ela dá, vislumbrando os seus segredos no silêncio. Ele não altera nada, só vê e vive o que vê. Por isso Caeiro não guarda rebanhos, “mas é como se os guardasse”. A sua “alma é como um pastor (…) anda pela mão das Estações / A seguir e a olhar”. Considera Pessoa impossível que Caeiro fosse ao mesmo tempo um pastor e um poeta, um pensador pagão da realidade? Trata-se afinal do antiquíssimo problema, abordado por filósofos desde a antiguidade – poderá alguém pensar a vida que simultaneamente vive?11 Pessoa pensa que não. Por isso isola Caeiro da profissão que ele imagina como sendo sua, mas que pratica apenas como convicção. Isto explica que Caeiro seja um pastor em essência. Incorpora em si mesmo as qualidades de um pastor, mas não é limitado pela vida que um pastor leva. Serve-se, por assim dizer, da arte do pastor para atingir o estado contemplativo, como um budista se serviria da meditação. Por isso ele diz: “a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se ao meu lado. / Mas eu fico triste como um pôr-do-sol / Para a nossa imaginação”. Se ele fosse um pastor, apenas um pastor, teria a Natureza este efeito nele? 12 Há aqui um pensar. Calmo e tranquilo, mas um pensar. O estado meditativo profundo desse pensar é a tristeza13. Por muito que Pessoa queira fingir Caeiro, ele atribui-se a si mesmo uma característica cara a Pessoa – o ser triste. Este ser triste é ser pragmático, não ter ilusões, aceitar o sofrimento e o Destino. Sobretudo quando somos oprimidos, quando passamos mais dificuldades. A rendição ao Destino, própria de quem acredita na Natureza, de quem se diz Pagão, sem metafísica, é confirmada pelos versos seguintes: “a minha tristeza é sossego / Porque é natural e justa”. A palavra “justa” é de crucial import}ncia. Como pode a tristeza – um estado de espírito – ser justa? A não ser que seja uma imposição aceite livremente, uma submissão a algo superior, à própria Natureza. Qual o objectivo da meditaç~o (que em Caeiro é a rendiç~o ao Destino, a tristeza)? É o “sossego”, ou seja, a paz. Esta é a chave de todo o livro e uma chave que nos é providenciada logo na singela abertura. A única razão porque um asceta – e Caeiro é um asceta – deixa para trás as posses, o conhecimento, todos os desejos humanos, é para que atinja um mais alto grau de existência. Esse Nirvana em Caeiro chama-se sossego, paz. Pela paz de espírito, Caeiro troca tudo o resto – uma vida comum, dinheiro, desejo sexual, desejo de posse, inveja, futuro, passado, presente. É um aniquilar da vontade própria e da personalidade em busca de uma mais elevada existência, só de sensações, em concordância com a Natureza, não conflituosa e por isso mesmo pacificada, sem querer mais, sem desejar. Sem nos querermos repetir, acentuaríamos a semelhança com o processo budista de conhecimento. Os quatro passos de Buda assemelham-se aos passos iniciáticos de Caeiro, à medida que ambos se afastam da realidade de todos os dias, para aceder a uma verdade inicial, interior, essencial14. Diz César: “Quero ter em roda de mim homens gordos, de face luzidia e que durmam de noite. Aquele Cássio tem um aspecto magro e esfaimado; pensa demasiadamente; homens assim são perigosos” (in William Shakespeare, Júlio César, Lello & Irmão Editores, 1988, p. 35). Nietzsche acrescenta o seguinte, na sua ironia tão própria: “Não quero dizer nada que contradiga a opinião corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? Já há demasiadas antigas”. (in Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Guimarães Editores, p. 64, n.º 25). 12 De facto, anuncia-se aqui a contiguidade entre Caeiro e a sua Natureza, que, na opinião de alguns pessoanos é nada mais do que uma virtualização do real (Cf. Victor Mendes, «Introduction: Denaturalizing Pessoa’s Alberto Caeiro» in Pessoa´s Alberto Caeiro, Portuguese Literary & Cultural Studies, 3, pág. 14, Outono, 1999). 13 Relembremos que a tristeza em Fernando Pessoa não é um sentimento nulo, vazio, mas antes uma condição deliberada perante a vida. “Eu não sou pessimista, sou triste” (in Livro do Desassossego, 1.ª parte, pág. 245) – quer isto dizer que o pessimismo é uma rendição sem honra e a tristeza uma subordinação nobre ao destino. 14 Não somos os primeiros a aproximar Caeiro do Budismo. O primeiro estudo definitivo foi de Leyla Perrone-Moisés (Cf. Leyla Perrone-Moisés, Fernando Pessoa, aquém do eu, além do outro, São Paulo, Martins Fontes, 1982) e subsequentes artigos confirmaram esta análise – teremos oportunidade de os citar mais tarde. No entanto cremos essencial desde já a análise comparativa entre os Quatro Passos ou Grandes Verdades de Buda e o processo que Caeiro descreve no Guardador. São as quatro verdades: 1) a existência implica a dor; 2) a origem da dor é o desejo; 3) a dor só cessa com o fim do desejo; 4) há u m caminho de 8 passos para cessar o desejo: a visão correcta, a intenção correcta, o discurso correcto, a acção correcta, a vida correcta, o esforço correcto, a atitude correcta e a concentração correcta. 11
  8. 8. Esta consciência da inconsciência é uma busca arriscada, porventura impossível, porque procura uma síntese de opostos – o conhecer e o ignorar. Caeiro sabe isso e di-lo: “Os meus pensamentos são contentes. / Só tenho pena de saber que eles são contentes”. É como se fosse sempre um equilíbrio instável, essa paz, essa rendição. Um equilíbrio que exige um esforço, de repetição, de ladainha. Esse esforço lê-se ao longo do “Guardador de Rebanhos”, que nada mais é que um longo mantra, uma litania sublime, elegante mas simples, em que Caeiro reafirma para si próprio a sua convicção inicial15. Este incómodo é reforçado nos versos seguintes: “Pensar incomoda como andar à chuva / Quando o vento cresce e parece que chove mais”. Numa bela metáfora, Caeiro incluí a análise que acabámos de fazer. Pensar é como andar numa chuva cada vez mais intensa – quanto mais chove, mais nos é difícil avançar normalmente. Quanto mais pensamos – mais difícil nos é viver normalmente. Lembra-nos uma famosa fábula chinesa em que um sapo pergunta a uma centopeia por que ordem ela punha as pernas quando andava. Desde então a centopeia tinha ficado imobilizada no seu buraco, sem saber como andar. “Não tenho ambições nem desejos”, diz de seguida Caeiro, reafirmando a nossa análise anterior, do despir da vontade própria, do deixar de desejar como Buda. “Ser poeta, não é uma ambição minha”, esclarece, “É a minha maneira de estar sozinho”. Estar sozinho é aqui estar sozinho com as suas ideias – num estado contemplativo, de auto-reflexão. Ser poeta é uma necessidade para atingir a paz. Se algum desejo ainda lhe resta é um desejo residual, que escorre da realidade e se confunde com a Natureza – é um desejo infantil (“desejo às vezes (…) ser cordeirinho”), e tudo o que é infantil não é deliberado, racional. Esta infantilidade é acentuada quando Caeiro confunde a Natureza com os homens16. Esta antropomorfização da Natureza é deliberada, para que a humanidade perca importância relativa face a tudo o resto. “Ser o rebanho todo” é negar que uma coisa só seja mais importante que as outras coisas todas juntas17. E quando a “nuvem passa a mão por cima da luz”, é Caeiro a assumir que a Natureza tem uma vontade própria, igual à dos homens, e por isso inegavelmente presente, indiscutível. Se a Natureza tem uma importância ao nível da presença humana, não há mal em estar sozinho. Estar sozinho na Natureza, é como estar sozinho na humanidade – são duas situações comparáveis18. Há uma confusão imanente de sentidos e de significados. Nesta grande mistura primordial acha Caeiro uma direcção, no caos da Natureza há um conhecimento verdadeiro. Mas não é o conhecimento que se esperaria alcançar. O pastor ilusório, pastor em essência, que escreve versos num papel que está no seu pensamento, sentindo “um cajado nas mãos”, um cajado que só sente, não possui, faz ele mesmo parte da confusão que descreve – é ele próprio a Natureza que desvenda. Por isso ele diz: “vejo um recorte de mim / No cimo de um outeiro”. Por isso o seu rebanho se confunde com as suas ideias. Tudo na sua mente caótica é uma amálgama de tudo o resto. Porquê? Porque para compreender o caos há que ser o caos. Como a Natureza não distingue as coisas de que é composta, Caeiro procura assimilar esse princípio em si mesmo, para que possa compreender a Natureza e atingir assim um estado puro de pacificação, de falta de significados – o Nirvana. Será que esta ilusão funciona realmente? Caeiro pretende não saber, mas ao mesmo tempo elabora uma extensa teoria sobre como deixar de saber. O fingimento é ele mesmo sorrateiramente enganado – Caeiro olha “sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz / E quer fingir que compreende”. A ilusão funciona porque ele acredita nela. Enquanto ele acreditar, ela vai ser a sua nova realidade. Mantra é uma palavra em sânscrito composta pelo prefixo man- "pensar" (de manas "mente") e o sufixo -tra que significa “instrumento”. Os mantras são vistos como uma conduta espiritual, que permite através de palavras pronunciadas com determinado sentido vibratório fixar a concentração do crente. 16 Sobre o conceito de Natureza em Alberto Caeiro ver o ensaio: Mário Queiroz, «Idéias de Natureza em Alberto Caeiro» in Terceira Margem, Rio de Janeiro, ano VIII, n.º 9, págs. 60-76, 2003. 17 É diferente aqui o “querer ser tudo de todas as maneiras”, lema insinuante de Álvaro de Campos… 18 Esta vis~o impede também que o “estar sozinho” seja sinónimo de “estar preocupado”, ou “estar inquietado”. A segurança com que o “estar sozinho” é assumido d| a Caeiro a certeza que esta solid~o n~o o preocupa, n~o o vai levar ao desespero e { análise racional. É quase um “estar sozinho” natural. 15
  9. 9. Por isso novamente a importância do mantra, da reafirmação dos mesmos princípios em voz alta, hipnoticamente, para que a ilusão tome o lugar da verdade e a verdade o lugar da ilusão. Estabelecido quem é Caeiro e o que ele pretende, Pessoa deixa cair o mantra para saudar o leitor, ironicamente. “Saúdo todos os que me lerem”, diz ele. Afinal ele é um poeta, e quer também ter um público. Mas quererá algo mais do que apenas um ouvido atento, uma aceitação que o ajude também ele a aceitar o que diz? Ao contrário do Mestre que pretende, pelo ensinamento, enfeitiçar o aluno, Caeiro não quer ensinar, apenas ser aceite como é, ao mesmo tempo que lança um aviso. Ele saúda gentilmente, humildemente, como homem do campo (mais ainda, da Natureza!), esperando que não lhe peçam mais do que a gentileza firme de uma saudação passageira. Deseja não o conhecimento, mas a chuva quando é precisa, senão o sol. Deseja uma cadeira, para que se sentem a ler os seus versos e se lembrem também os seus leitores da simplicidade que ele advoga tão certo e deliberado 19. O seu maior desejo: que ao lerem os seus versos o pensem como coisa natural, como uma árvore antiga que conheceram crianças a brincar. Não é um desejo de somenos importância. Quer Caeiro assumir-se Natureza, deixar de ser homem. Quer libertar-se das cadeias pesadas da realidade social, dos desejos humanos e das humanas invejas. E é assim que quer ser visto por todos. Deixar de existir assim é passar a existir de mil outras maneiras. No fim do primeiro poema sente-se já essa tristeza de que fala Caeiro. É uma tristeza imensa, profunda como um poço, mas natural, como um relâmpago ou uma cheia. É o sentimento que preenche todo o vazio deixado pela falta de humanidade. O homem dilui-se na tristeza e perde a sua identidade para assumir uma existência pacífica com a Natureza que pretende tomar como sua. Caeiro quer perde-se para se encontrar. Este foi o seu primeiro passo, mas um longo missal ainda se vai desenrolar para que ele consiga fazê-lo plenamente20. “Thomas Crosse, a “figura” pessoana que tinha por missão, entre outras coisas, divulgar em inglês a cultura portuguesa, diz que “Caeiro não tem ética a não ser a simplicidade” (citado em Alberto Ferreira, «“Louvado seja Deus que n~o sou bom”: Alberto Caeiro, São Francisco de Assis e o menino Jesus», Universidade de Aveiro, pág. 1). 20 Parte desta miss~o ser| começar a “pensar com os sentidos”. Esta noç~o (do conhecimento pelos sentidos) é antiquíssima e pode ser encontrada já nos filósofos pré-socráticos, tendo sido analisada na modernidade pelo poeta Alemão Hölderlin, precursor do idealismo germânico. Abordaremos progressivamente esta teoria à medida que o Guardador avança. 19
  10. 10. II O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de, vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo... Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar... 10-5-1914 Caeiro no poema I definiu-se negativamente. Aliás, será quase sempre negativamente que Caeiro expressará as suas convicções – o que diz muito do ímpeto que o guia21. Enquanto no poema I foi expressa a base “filosófica” de Caeiro – um sensacionismo radical, revelado numa objectividade quase dolorosa na análise da realidade, no poema II Caeiro vai passar a falar mais em concreto do seu processo de pensamento22. Isto porque mesmo para deixar de pensar tem de se pensar. O que para muitos autores Caeiro revela no poema II é a sua visão anti-metafísica do mundo que o rodeia. Nós discordamos com essa análise, porque se trata de uma questão prévia mesmo à da metafísica. Veja-se o que o texto nos diz. “O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas (…) E o que vejo a cada momento / É aquilo que nunca antes eu tinha visto”. Quer Caeiro – fingindo para ele mesmo – querer dar-nos a entender que a sua visão das coisas é natural, como uma criança. “Sinto-me nascido a cada momento / Para a eterna novidade do Mundo”, diz ele – fingindo. Dizemos que Caeiro finge porque ele está ainda no início do seu caminho doloroso para se livrar da “pele do mundo”. Ser-lhe-ia neste momento impossível ser como uma criança, ter esses olhos É nossa intuição que a insistência no discurso negativo revela que Caeiro procura algo que ainda não tem e não que Caeiro explica algo que j| possui. Isto leva a que entendamos o “Guardador de Rebanhos” n~o como um livro confessional, mas como um livro que encerra em si mesmo a viagem de Caeiro em busca da inocência primordial que ele mesmo enuncia como j| sendo sua. Afinal, e ao contr|rio do testemunho do próprio Thomas Crosse, Alberto Caeiro n~o “surge do nada”, mas antes vai surgindo de dentro de Pessoa. 22 Este poema foi o primeiro poema de Pessoa traduzido para Inglês num país Anglo-saxónico, por Thomas Morton, um monge americano interessado no Budismo Zen. 21
  11. 11. inocentes, deixar-se só às sensações. Se ele fala disso é como uma teoria que vê perfeita e quer para si mesmo. Cabe aqui recordarmos o próprio perfil psicológico de Fernando Pessoa, para melhor analisarmos a visão de Caeiro. Devemos lembrar que Pessoa é alguém dolorosamente desligado da realidade, por via de episódios traumáticos – nomeadamente o abandono da mãe e a solidão de uma vida de artista frustrado, forçado a trabalhar. Quando lemos “E eu sei dar por isso muito bem”, lemos um verso sincero que não é de Caeiro, mas de Pessoa ele-mesmo. No entanto esta sinceridade momentânea destrói a passageira ilusão de ele ser já uma criança, que vê tudo na sua inocência primordial23. Acreditamos que ele consiga ver tudo como se visse pela primeira vez, mas apenas por efeito do estar “desligado da realidade”. Muito cedo Pessoa começa a desenhar uma filosofia paralela que sustenta uma vida paralela { sua “vida real”, falando em muitos momentos nela como um sonho24. A base da visão anti-metafísica de Caeiro é ent~o sustentada por uma vis~o de “alienado da realidade” que Pessoa j| possuía em si mesmo. Resta-lhe pegar nesse princípio e tentar dar-lhe um seguimento lógico, para que na sua conclusão ache a tal visão de criança, a inocência do olhar, que levará a que o sensacionismo venha à superfície e inunde toda a sua visão do mundo. Repare-se como Caeiro ainda pensa e não vê apenas. Ele diz que “Creio no Mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender…”. O seu mantra continua, mas ele tem uma teoria para que lhe falta ainda uma prática continuada. Sabemos isto porque h| uma insistência doentia nas explicações dos seus actos. Ao “Creio no Mundo” (constatação) segue-se o desnecessário complemento “porque o vejo. Mas n~o penso nele” (justificação). Se a sua convicção fosse cega, forte, ele abandonaria o raciocínio justificativo. Mais uma vez lembra-nos Buda, que deixou os ensinamentos para os seus seguidores, não na forma de letra, mas de práticas. Foram eles, depois da sua morte, que iniciaram o culto da letra – a teoria. “Pensar é estar doente dos olhos”, diz Caeiro de seguida. É uma expressão chave que Caeiro nos delega para reforçar a tal visão anti-metafísica. Não devemos procurar significados no mundo, devemos deixar-nos às sensações puras. Os olhos vêem, não pensam. “Eu não tenho filosofia: tenho sentido…”, diz concluindo. Mas mente, ele tem uma filosofia, pré-cognitiva, como demonstrámos. Grande parte da sua missão será transformar essa filosofia, pela prática, numa não-filosofia, numa pura praxis. Veja-se como Caeiro logicamente segue o nosso raciocínio, de equiparar o seu objectivo de inconsciência, de pura prática natural, ao amor. Isto porque “quem ama nunca sabe o que ama / Nem sabe porque ama, nem o que é amar…”. Ele procura esta inocência porque sabe ainda não a possuir. Tem, é certo, um vislumbre dela, o início, mas o “Guardador de Rebanhos” é a sua via crucis, é o seu percurso doloroso para a atingir por completo. O poema II completa-se com o que será de aqui em diante o seu grande objectivo: a inocência. “Amar é a eterna inocência, / E a única inocência é não pensar…”. Não pensar é então uma espécie de amor? Sim, um amor mas sem objecto. Um amor ideal. É um amor pela Natureza, um amor por ser natural e não questionar. Isto porque Pessoa transfere para Caeiro a sua necessidade humana de ser acarinhado, mesmo que só no seio da mãe natureza. Por isso este amor é sinónimo de aceitação incondicional25. Caeiro não é um poeta naif, pelas razões apontadas neste trecho. Nunca poderá ser verdadeiramente naif porque tem a pré-compreensão que um naif nunca possui, mesmo que depois em verdade a anule. 24 Basta lembrar as referências no Livro do Desassossego, que apontam para o que seria um método filosófico, uma verdadeira e própria teoria do conhecimento Pessoano assente em duas bases fundamentais: o sonho e a inacção. (Cf. O Livro do Desassossego I, Relógio d’Água editores, p|gs. 50-54). Falta ainda um estudo sequer superficial sobre esta vertente do pensamento de Fernando Pessoa… 25 Quem persegue um amor incondicional, provavelmente sente-se vulnerável perante um amor que não seja incondicional, e que por isso n~o é ideal. A raz~o para o medo do “amor humano” vem provavelmente do facto de Pessoa ter ficado com um trauma em relação à sua mãe, culpando-a subconscientemente pela sua condição actual – de desespero, abandono e indefinição. 23
  12. 12. Persegue Caeiro a inocência como Mestre, para que Pessoa conquiste o amor como discípulo.
  13. 13. III Ao entardecer, debruçado pela janela, E sabendo de soslaio que há campos em frente, Leio até me arderem os olhos O livro de Cesário Verde. Que pena que tenho dele! Ele era um camponês Que andava preso em liberdade pela cidade. Mas o modo como olhava para as casas, E o modo como reparava nas ruas, E a maneira como dava pelas coisas, É o de quem olha para árvores, E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando E anda a reparar nas flores que há pelos campos... Por isso ele tinha aquela grande tristeza Que ele nunca disse bem que tinha, Mas andava na cidade como quem anda no campo E triste como esmagar flores em livros E pôr plantas em jarros... 10-5-1914 O poeta bucólico que é Caeiro está já definido no seu essencial nos dois primeiros poemas do “Guardador de Rebanhos”. E ele definiu-se como alguém que gosta da vida no que a vida tem de essencial. É alguém que rejeita a análise de realidade e prefere no contraponto a vivência pura das sensações, para atingir uma paz que apenas vem com a ausência do pensamento racional. O poema III começa assim o livro propriamente dito. Caeiro começa a falar “honestamente”, no fingimento que lhe vem de Pessoa. Ou seja, começa a falar para começar a viagem de descoberta que lhe trará aquilo que ele ambiciona26. Vem-lhe primeiro à memória as influências que ele, como poeta, sente ter de libertar para começar a escrever o seu próprio livro. Quem lhe ocorre mencionar é Cesário Verde 27. Impressionista e realista, Cesário Verde é, à sua maneira, também um poeta bucólico como Caeiro pretende ser. Pelo menos ele “pinta os seus poemas como quadros”, baseando-se na descrição da natureza. Mas, ao contrário de Caeiro, ele usa oposições – nomeadamente entre a cidade e o campo, para atingir as suas conclusões poéticas. O Mestre Caeiro admira-o? Talvez não. Mas conhece-o e lê-o, o que é curioso. Isto porque o poeta pastor, com uma instrução primária, que nunca sai da sua aldeia, talvez não fosse capaz de entender Cesário Verde. Pessoa/Caeiro usa aqui de uma ironia, de um sentido de humor elegante que lhe é muito próprio. Ele diz: “Que pena tenho dele! Ele era um camponês / Que andava preso em liberdade pela cidade…”. Ver a análise ao poema II. É no período de 1905-6 – altura em que frequenta o Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa – que Pessoa entra em contacto com a poesia de Cesário Verde (1855-1886). O próprio poeta indica o período de Outubro de 1905 a 1908 como aquele em que é influenciado por Baudelaire, Cesário Verde e Poe. Mas até ao fim de 1908, continua a escrever em inglês (Cf. Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e Estética, Europa-América, págs. 203-4). Cesário era um poeta impressionista, natural, que descrevia com sensibilidade a vida do campo e da cidade e viria a influir decisivamente o nascimento de Caeiro e do próprio sensacionismo. É o próprio Pessoa que o diz: “o movimento sensacionista português (…) tem um precursor inconsciente. Esboçou-o levemente, sem querer, Cesário Verde” (in Ob. cit., pág. 139). Pessoa considerava-o “um mestre” e o “fundador da poesia objectiva” (in Ob. cit., pág. 126). Soares lança até o elogio declarado: “Se houvesse de inscrever (…) a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde” (in Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, 1.ª parte, Europa-América, pág. 226). Fernando Martins virá posteriormente a indicar que de Cesário partem os dois heterónimos de Pessoa, Campos e Caeiro, ramos divergentes da oposição que vivia já em Cesário entre a cidade e o campo (Cf. Fernando Cabral Martins, Cesário Verde ou a Transformação do Mundo, Lisboa, Comunicação, 1988, p. 26). Sobre a influência de Cesário Verde em Fernando Pessoa ver o excelente ensaio de José Pereira, Cesário em Pessoa. 26 27
  14. 14. É como se Pessoa/Caeiro, pretendendo libertar-se das influências primárias que formavam na sua mente o “poeta bucólico ideal”, pegasse na figura de Ces|rio Verde (o modelo) e pretendesse ir ainda mais além. Afinal Cesário não fora um poeta da Natureza, pelo menos não ao nível que um Caeiro pretende ser. Caeiro parte de onde Cesário ficou e deixa para trás o que Cesário tinha que ainda o podia prender à realidade social, das cidades, da figura feminina. A “crítica” a Cesário vai ao ponto de Caeiro lhe criticar a tristeza. Lembre-se que para Caeiro a tristeza é essencial, é um estado meditativo que dá acesso a um alto grau de consciência da vida. Isto revela-nos que Caeiro sabe distinguir a tristeza comum da tristeza que ele próprio advoga como método. E a tristeza de Cesário é uma tristeza comum, de arrependimento, desespero simples, que nasce do facto de alguém se sentir deslocado, deprimido, ausente, alguém do campo que anda na cidade… Cesário era triste não porque queria, mas porque “andava na cidade como quem anda no campo / E triste como esmagar flores em livros / E pôr plantas em jarros…”. Ou seja, ele não conseguia ser um poeta natural em essência – as suas flores eram esmagadas em livros e as suas plantas viviam em jarros: era uma natureza artificial, porque incompleta. A natureza não pode ser limitada a uma memória entre duas páginas, nem numa floresta que não ultrapassa um vaso de barro. Liberta-se assim, quase selvaticamente, Caeiro da influência de Cesário Verde, o seu modelo de poeta bucólico. Cesário tinha aberto as portas ao modernismo, mas os modernistas consumiam o passado em chamas para abrir o futuro.
  15. 15. IV Esta tarde a trovoada caiu Pelas encostas do céu abaixo Como um pedregulho enorme... Como alguém que duma janela alta Sacode uma toalha de mesa, E as migalhas, por caírem todas juntas, Fazem algum barulho ao cair, A chuva chovia do céu E enegreceu os caminhos... Quando os relâmpagos sacudiam o ar E abanavam o espaço Como uma grande cabeça que diz que não, Não sei porquê — eu não tinha medo — pus-me a rezar a Santa Bárbara Como se eu fosse a velha tia de alguém... Ah! é que rezando a Santa Bárbara Eu sentia-me ainda mais simples Do que julgo que sou... Sentia-me familiar e caseiro E tendo passado a vida Tranquilamente, como o muro do quintal; Tendo ideias e sentimentos por os ter Como uma flor tem perfume e cor... Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara... Ah, poder crer em Santa Bárbara! (Quem crê que há Santa Bárbara, Julgará que ela é gente e visível Ou que julgará dela?) (Que artifício! Que sabem As flores, as árvores, os rebanhos, De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore, Se pensasse, nunca podia Construir santos nem anjos... Poderia julgar que o sol É Deus, e que a trovoada É uma quantidade de gente Zangada por cima de nós... Ali, como os mais simples dos homens São doentes e confusos e estúpidos Ao pé da clara simplicidade E saúde em existir Das árvores e das plantas!) E eu, pensando em tudo isto, Fiquei outra vez menos feliz... Fiquei sombrio e adoecido e soturno Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça E nem sequer de noite chega. 10-5-1914 Eis o real começo do “Guardador de Rebanhos”. No poema I Caeiro definiu-se. No poema II definiu o modo como encarava a realidade, estabelecendo a sua posição anti-metafísica meditativa. No poema III ele libertou-se das suas influências literárias, que poderiam poluir a sua escrita, se entrasse pela imitação dos seus modelos.
  16. 16. É evidente a primeira quebra no texto que até agora tinha uma estranha continuidade. Caeiro vira subitamente a sua atenção para o exterior, finalmente para o exterior, que ele quer conquistar com a sua não-filosofia. Começa enfim a falar da realidade, do mundo que ele capta agora só pelas sensações. E o tema que inicia o seu relato do mundo não poderia ser mais Pessoano. É tão cândida esta escolha que nos emociona ao revelá-la no contexto da nossa análise. Como se a criança realmente subisse agora à janela, à tal janela onde antes Caeiro adulto lia Cesário Verde, e visse a natureza no seu esplendor inicial, no seu deslumbramento. Isto porque Caeiro escolhe a trovoada como seu tema de abertura. De toda a natureza, de todos os fenómenos naturais, ele escolhe aquele que mais fascinava e aterrorizava Fernando Pessoa28. A primeira parte da sua descrição traz laivos de paganismo latente. Pois ele diz: “Esta tarde a trovoada caiu / Pelas encostas do céu abaixo (…) Como alguém que duma janela alta / Sacode uma toalha de mesa, / E as migalhas, por caírem todas juntas, / Fazem algum barulho ao cair”. A metáfora simples e infantil sugere presenças divinas por detrás dos fenómenos naturais. Embora divinas têm hábitos humanos – Caeiro trá-las do infinito para o familiar da compreensão simples de um pastor. É afinal também isto o paganismo, o aproximar as divindades de quem as reverencia. Continua esta aproximação nos versos seguintes. “Os relâmpagos sacudiam o ar (…) Como uma grande cabeça que diz que não”. Caeiro diz não ter tido medo, mas mesmo assim achou-se a rezar a Santa Bárbara, a santa protectora contra as trovoadas, cujo dia curiosamente também é um 4, de Dezembro. Mas ele diz que não tinha medo. Eis novo fingimento. Afinal, se ele tivesse medo – se fosse como o Fernando Pessoa – que sentido faria ele apelar a ser como a Natureza? Não se pode temer o que é nosso semelhante. Por isso Caeiro não teme as trovoadas, deixando esse medo para o Fernando Pessoa. E se Caeiro reza – explica – é para se sentir “ainda mais simples”. “(…) ainda mais simples / Do que julgo que sou…”. Repare-se no “julgo que sou”. É como se Caeiro soubesse claramente que está a passar por um processo, em que vai abandonando a complexidade que ainda tem nele. O medo também é uma complexidade, que torna nebulosa a compreensão da realidade29. Afinal o pastor (a alma de pastor) não se sentia verdadeiramente simples, como suspeitávamos inicialmente30. Lentamente essa simplicidade terá de ser alcançada, com esforço, com dedicação, com o eliminar dos medos, do sofrimento, da vida. Rezar a Santa Bárbara é ser então mais simples, mais comum. É o que o pastor faria, se visse uma tempestade aproximar-se do seu rebanho. A um intelectual o apelo religioso pareceria ridículo, mera superstição. Não a Caeiro. Não se Caeiro escolhe deliberadamente ser simples. É ainda um fingimento? Talvez. Mas então seria sempre um fingimento escolher sair da vida de todos os dias em busca do conhecimento interior. É impossível a vida de um monge, de um asceta, de um budista? A beleza desta missão – porque é uma missão de que se trata – em que Caeiro embarca é a continua superação dos nossos limites, mas desta vez de uma perspectiva negativa. Será possível a uma alma supremamente intelectual, racional, civilizada, despir-se dos seus vícios, das suas fraquezas e Fernando Pessoa aparentemente tinha um medo horrível das trovoadas. Mais especificamente dos relâmpagos – como contou a sua irmã Henriqueta Dias em entrevista ao Jornal de Letras em 1985. Conta Almada Negreiros que certo dia, no Martinho da Arcada, café retiro do poeta, estava ele sentado à mesa com Pessoa quando “rebenta subitamente tremenda e memorável tempestade. O Terreiro do Paço ficou logo ligado ao Tejo. Chuva (…) relâmpagos, trovões, um não parar. Não me contive e vim à porta. (…) Quando voltei à mesa ele não estava. Mas estava um pé debaixo da mesa. Puxei-o. Pálido como defunto transparente. Levantei-o. Inerte senão morto. Pus-lhe os gestos de sentar-se e apoiar-se de corpo sobre a pedra da mesa” (citado em António Quadros, Fernando Pessoa, vida, personalidade e génio, D. Quixote, pág. 97). O próprio Fernando Pessoa, em carta ao amigo Mário Beirão, qualifica o seu medo das trovoadas como uma “terrivelmente torturadora fobia” (Cf. Fernando Pessoa, Escritos íntimos, cartas e páginas autobiográficas, Europa-América, pág. 75). 29 Aqui o medo é como o sofrimento no budismo. 30 A figura do pastor, que terá impressionado Pessoa pela simplicidade, terá sido, dizem alguns, uma influência de uma leitura de juventude – o poema “The Shepherdess” de Alice Meynell. A primeira ligaç~o destes dois poemas foi feita logo em 1939 por Charles David Ley (V. George Monteiro, «Alberto Caeiro and the “Poetic Fallacy”» in Pessoa´s Alberto Caeiro, pág. 67). 28
  17. 17. comodidades, para achar um estado de espírito pacífico, a alma de pastor? É possível a um ocidental cínico, céptico, citadino, moderno, adequar-se a uma realidade “menor”? Caeiro acredita firmemente que sim. Basta ver o que ele faz de seguida. Depois de rezar a Santa Bárbara ele diz: “Sentia-me alguém capaz de acreditar em Santa Bárbara… / Ah, poder crer em Santa Bárbara!”. “(Quem crê em Santa Bárbara, / Julgará que ela é gente visível / Ou que julgará dela?)”. É incrível que Caeiro em cinco versos decisivos se transfigure novamente. Se antes ele rezava para ser mais simples, ele agora, depois de rezar, duvida até da crença simples na Santa. Como se num só passo o fingimento de Caeiro o levasse mais uma vez para além da simplicidade do modelo que ele procura. Já o fizera antes com Cesário Verde, fá-lo novamente com o simples pastor que reza perante a tempestade que se aproxima. A realidade é que nem a Santa Bárbara existe. Existe apenas a Natureza. Depois do raciocínio, depois da crença, há o estrato duro da realidade natural. Caeiro confirma isso mesmo, dolorosamente: “(Que artificio! Que sabem / As flores, as árvores, os rebanhos, / De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore / Se pensasse nunca podia / Construir santos nem anjos…”. Antes era-lhe difícil sair do seu fingimento e rezar. Agora é-lhe difícil sair da realidade natural que assume ser a sua e rezar. Pessoa cai lentamente do seu céu de certezas racionais e assume-se como Caeiro, um cultor na Natureza, heterodoxo, convicto, inamovível. “Ah, como os mais simples dos homens / São doentes e confusos e estúpidos / Ao pé da clara simplicidade / E saúde em existir / Das árvores e das plantas!”, diz Caeiro de seguida. Devemos fazer uma pausa repentina. Julga-se Caeiro como as árvores e as plantas? Talvez levado pela sua epifania moment}nea… O seu exagero é evidente, porque nasce de uma an|lise. É por ver o erro dos outros que ele deixa de ser seu semelhante. Caeiro est| a pensar… Pessoa vê isso mesmo e corrige rapidamente: “(…) pensando em tudo isto, / Fiquei outra vez menos feliz…”. Como se Caeiro se castigasse a si mesmo pela sua febril arrancada. Começa a ter noção de como é difícil manter o que os budistas chamam “via do meio”. Também Buda lutou por atingir o conhecimento reduzindo demasiado o mundo em seu redor – em erro achou que o ascetismo total, a privação mesmo do que era essencial seria a resposta às suas dificuldades. Mas o erro quase lhe custava a morte. Ele viu mais tarde que a resposta não teria de ser tão extrema, mas antes um caminho de compromisso, em que a realidade ainda era aceite, e ele nela, como veículo de uma nova descoberta. Caeiro quer ser natural, quer ser como a Natureza. Mas ele sabe agora que não pode ser só a Natureza. Ele é ainda – e será sempre – homem. É também como homem, como ser vivo, que ele deverá achar o seu lugar na Natureza. Se procurar a sua própria completa anulação, nunca poderá fazer parte de algo maior do que ele mesmo. Ficará no limbo, “sombrio e adoecido e soturno / Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça / E nem sequer de noite chega…”.
  18. 18. V Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que ideia tenho eu das coisas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas). O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas coisas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que não sabemos dar por elas. Mas que melhor metafísica que a delas, Que é a de não saber para que vivem Nem saber que o não sabem? «Constituição íntima das coisas»... «Sentido íntimo do Universo»... Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. Pensar no sentido íntimo das coisas É acrescentado, como pensar na saúde Ou levar um copo à água das fontes. O único sentido íntimo das coisas É elas não terem sentido íntimo nenhum. Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora,
  19. 19. E a minha vida é toda uma oração e uma missa, E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; Porque, se ele se fez, para eu o ver, Sol e luar e flores e árvores e montes, Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores, É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol. E por isso eu obedeço-lhe, (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, Como quem abre os olhos e vê, E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, E amo-o sem pensar nele, E penso-o vendo e ouvindo, E ando com ele a toda a hora. 10-5-1914 Depois de cair no erro de se pensar superior a todos os homens, considerando-se semelhante às árvores e às plantas, Caeiro recua31. A análise que ele levou a cabo no fim do poema IV deixou-o numa encruzilhada. Para saber que é semelhante à Natureza ele tem de pensar nos erros dos homens, como por exemplo o erro de rezar a Santa Bárbara quando há trovoada. Mas isso para Caeiro é metafísico. Em rigor, para Caeiro metafísica é tudo o que vai além das sensações imediatas. O simples acto de pensar é então metafísico. Trata-se, como é óbvio, de uma interpretação muito estreita desta actividade humana básica. No entanto Caeiro tem de tomar uma decisão. Tem de decidir se pode viver as suas convicções sem pensar nelas. Ele decide que sim. Isto porque “há metafísica bastante em não pensar em nada”32. Trata-se de uma declaração paradoxal. Por um lado Caeiro quer livrar-se da metafísica, do acto racional, da análise pelo pensamento. Por outro lado ele precisa da metafísica, mesmo que a um nível superficial, para avançar na sua missão de abandonar a realidade33. Como o Buda analisa o seu sofrimento, ele tem de o viver para se curar. A partir de agora a metafísica, “o pensamento”, vai servir-lhe apenas para ele se livrar da sua necessidade. Tal como Buda usa a consciência do seu próprio sofrimento para se curar dele. Só que Buda usa a meditação, Caeiro usa a tristeza. A negatividade segue-se, numa catadupa de declarações que ficam quase sem resposta concreta. “O que penso eu do Mundo?”; “que ideia tenho eu das coisas? / Que opinião tenho sobre as coisas e os efeitos? / Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma / E sobre a criação do Mundo?”… Recua e simultaneamente avança, saindo do animismo e humanização da Natureza que, como vamos ver mais à frente, ele considera ser uma atitude clássica dos místicos, como Teixeira de Pascoaes. (V. a este respeito Cecilia Pinheiro, Op. Cit., pág. 87). É o princípio também do percurso interior de Caeiro. 32 Sobre o significado da metafísica em Caeiro ver: Ken Krabbenhoft, «Fernando Pessoa’s Metaphysics and Alberto Caeiro e companhia» in Pessoa´s Alberto Caeiro, pág. 73 e segs.). 33 Também Bárbara Ferraz acha este paradoxo no seu interessante ensaio «Há metafísica bastante em estar à espera de Godot», no qual analisa o poema V à luz do teatro do absurdo de Samuel Beckett. Curiosa ligação de seguida se pode fazer, através do paradoxo, com a filosofia de Kierkegaard, que defendia que sem paradoxo não podia haver fé. A verdadeira fé não se entende, muito menos se define. Por isso pode até defender-se que Caeiro, deixando de lado qualquer compreensão do divino, chega à compreensão do divino que é impossível a todos os outros que buscam essa compreensão (Cf. Cláudio Carvalhaes, «Kierkegaard, poeta do desconhecido», pág. 11 e segs.). 31
  20. 20. Caeiro diz não saber34. Pensar nisso é estar doente. Se para Sócrates a vida é uma doença que termina com a morte, para Caeiro a doença é o pensamento, que termina com a rendição ao destino e à Natureza. Caeiro prefere não ver os significados e faz dessa escolha consciente a sua vontade. Trata-se de uma decisão a um nível ontológico que o liberta de certo modo dos compromissos que enredam todos os outros homens no mundo. Se Caeiro não se livra da condenação a viver de Sartre, a sua pena será cumprida no vazio de significados, por sua livre escolha. Resta saber se a sua força é a bastante para esta missão. O mantra continua e Caeiro pretende reforçar a sua convicção, de que as sensações são suficientes, que não é necessário o raciocínio35. Aliás, não será só Caeiro a indicar que a busca do conhecimento é um percurso doloroso para o homem, que muitas das vezes está descontente com a falta de respostas. “O mistério das coisas?”, Caeiro rejeita-o. Para quê pensar no mistério das coisas se nunca vamos ter uma resposta que nos satisfaça? Sendo assim, o mistério “é haver quem pense no mistério”. Devemos perder-nos na inconsciência das coisas, como os animais, as plantas e as árvores. Está aí uma felicidade, mesmo que pobre, que é a felicidade que existe em não pensar. “Quem está ao sol e fecha os olhos / Começa a não saber o que é o Sol”. De onde vem esta energia para a redução? – Apetece perguntar. Pensamos que da desilusão. 1914, o ano que nasce Caeiro é provavelmente o ano da dissolução do eu de Pessoa36. No seu diário ele escreve: “Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me todos os laços. Em breve estarei sozinho” 37. Mais à frente ele fala de como lhe é difícil esquecer a sua “presença metafísica na vida”. A criação do personagem Caeiro pode ser um passo decisivo na direcção do apagamento da própria personalidade de Fernando Pessoa, que progressivamente se vinha protegendo das ameaças exteriores à sua delicada personalidade. Este fenómeno psicológico, que evitaria que ele procurasse outras soluções mais imediatas e radicais, como o suicídio, ou entrasse numa mais profunda depressão, viria a gerar grande actividade literária, precisamente a partir de 1914-1915, até ao ano da sua morte em 1935. Se por um lado Pessoa sobrevive, é à custa de se anular a si mesmo. Nunca mais ele vai ser o mesmo, transfigurando-se progressivamente para as personagens que cria para partilharem o seu sofrimento. Apenas num momento há esperança de um regresso, em 1920, quando ele conhece Ophélia, mas porventura é tarde de mais, e Ophélia é instrumento demasiado débil para tão monstruosa tarefa. Por detrás de um elaborado plano há sempre um simples objectivo. No caso de Pessoa/Caeiro, o objectivo é evitar mais desilusões. Caeiro é o primeiro passo na certeza que Pessoa busca para si mesmo. Certeza que o protege da morte, substituto frio mas útil do amor que perdeu da sua mãe. Catarina Pedroso de Lima vê na ausência de respostas e na impaciência de Caeiro um sinal de uma posição antiessencialista e pragmática (V. Catarina Pedroso de Lima, «Rorty em Caeiro: “Uma aprendizagem de desaprender”» in Pessoa´s Alberto Caeiro, pág. 87 e segs.). 35 Rosana Santos indica que, em paralelo, as sensações competem em realismo com as “|rvores imaginadas” pelo poeta. Tal intuição confirma o que pensamos – que Pessoa procura a consistência da vida real na sua vida interior. Eis como então Pessoa caminhava firmemente em direcção ao homo poeticus em que se pretendia tornar, invocando pela imaginação um completo e original novo sentido do real. (Cf. Rosana Santos, «A fenomenologia da imaginação na palavra de Alberto Caeiro e Manoel de Barros» in IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada). 36 Para sermos mais exactos, pensamos que a desconstrução de Pessoa vem já desde a sua mais tenra juventude – provavelmente desde que ele chega à África do Sul (Leia-se só este pedaço de Álvaro de Campos para perceber isso:”Outra vez te revejo / Cidade da minha infância pavorosamente perdida… / Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui… / Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, / E aqui tornei a voltar, e a voltar. / E aqui de novo tornei a voltar? / Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, / Uma série de contas-entes ligadas por um fio memória, / Uma série de sonhos de mim de alguém fora de mim” (in «Lisbon Revisited», 1926). Pessoa divide-se em vários para que a sua essência seja preservada, é ai que vai sempre residir a sua liberdade, que é sempre de pensamento e não de acção. 1914 é talvez o culminar de um processo tortuoso – em que as opções do jovem Pessoa, de se refugiar no intelecto e na escrita, lhe permitem abrir novas portas à sua própria consciência. Ele será sempre alguém que nunca aprendeu a viver, que – usando as suas próprias palavras – nunca aprendeu a “esquecer-se da sua própria presença metafísica”. 37 Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas…, Publicações Europa-América, pág. 45. 34
  21. 21. “A luz do sol não sabe o que faz / E por isso não erra e é comum e boa”. Eis uma afirmação de criança, confirmando o que dissemos atrás. Quando não há pensar, não há incertezas, não há armadilhas. A Natureza não tem traições, não esconde a sua intenção. Os homens, por outro lado, escondem sempre as suas intenções, são perigosos e voláteis. A atracção da Natureza é a atracção da nulidade. Mas é também um engano. A Natureza é simples porque não sabe que é simples. Caeiro terá de enfrentar este problema. Referindo-se às árvores, novamente às árvores, Caeiro diz: “que melhor metafísica que a delas, / Que é a de não saber para que vivem / Nem saber que o não sabem?”. Caeiro está a ser ingénuo, ao pretender possuir de imediato opostos que ele sabe anularem-se de imediato quando reunidos. Viver e não saber que se vive – será um objectivo realmente possível? O “falso pastor” debate-se com os significados que ainda o assombram. Expressões que não cabem na boca de quem tem apenas a instrução primária: “Constituição íntima das coisas” e “sentido íntimo do Universo”. É Pessoa que fala38. É Pessoa que ainda não se consegue libertar da sua parte racional, justificando-se pela análise. “Pensar no sentido íntimo das coisas…”. “Não acredito em Deus porque nunca o vi…”. Há inequivocamente um sentimento de alguém que está perdido, que está à procura de soluções, de saídas da sua confusão mental. Alguém que continua a errar na análise, alguém que ainda insiste em pensar. A única solução – mais à frente Caeiro sabe isto melhor – é não trazer para esta longa meditação os conceitos que envenenam o pensamento simples, natural. Veja-se que Caeiro começa a insinuar isto mesmo quando diz: “se Deus é as árvores e as flores (…) chamo-lhe flores e árvores”. O paganismo aqui serve de consolo à ausência do pensamento. Se Deus está em tudo, se Deus se identifica com a Natureza, porque há a necessidade de lhe chamar Deus? Chamemos-lhe apenas Natureza, ou nem isso, nem lhe chamemos nada, porque tudo é a mesma coisa, e essa mesma coisa não tem significado, porque existe, porque é. “Ele quer que eu o conheça / Como árvores e montes e flores e luar e sol”, conclui Caeiro. Ser natural é então também obedecer a Deus. Obedecer a Deus é apenas viver, não é crer, nem rezar, muito menos questionar. Deus afinal é paz e amor39. Para Caeiro paz é não pensar, amor é ser semelhante a tudo o resto. De facto, ao longo de todo o Livro, Caeiro debate-se por existir. Isto porque ele é uma ideia impossível – a união de opostos. Tem alguma verdade a noção de alguns críticos que apontam Caeiro como sendo apenas uma “ideia” de Pessoa, um fingimento. Mas veremos a que ponto ele não passa a existir e a deixar Pessoa ele mesmo para trás, oco de significado, esvaziado de sentido, em favor da ideia-real-Caeiro… 39 Por isso é, quanto a nós, errado dizer que Caeiro reduz tudo ao demoníaco, à Terra, como insinua Nataneal Silva no seu artigo «O divino e o demónico em “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro». 38
  22. 22. VI Pensar em Deus é desobedecer a Deus, Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou... Sejamos simples e calmos, Como os regatos e as árvores, E Deus amar-nos-á fazendo de nós Belos como as árvores e os regatos, E dar-nos-á verdor na sua primavera, E um rio aonde ir ter quando acabemos!... 10-5-1914 O paganismo em Caeiro reduz-se também ao essencial. Ser natural é obedecer indirectamente a Deus. Deus não pode ser pensado, porque não existe fora da Natureza. Todo este pensamento faz parte de um objectivismo globalizante que Caeiro quer trazer para a compreensão da realidade. Não questionar é o princípio de entender, partindo da base que tudo é porque é, senão era de outra maneira qualquer. “Deus quis que o não conhecêssemos / Por isso se nos não mostrou…”. Há aqui ainda um questionar – uma dúvida – quando Caeiro não se fica pela primeira parte e acrescenta uma explicação. Mas é já um ponto de partida, o estabelecer da desnecessária compreensão de tudo. Lembremos que o objectivo final de Caeiro é ver tudo só com os olhos, não com a mente. Deus é, logicamente, o primeiro objecto do conhecimento a ser desligado da razão humana, por ser aquele que está mais distante dela40. Parece agora que Caeiro verdadeiramente empreende um percurso intelectual, mesmo que negue a metafísica e o pensamento clássico científico, de análise dos objectos do conhecimento sensível. Mas não é rigorosamente assim. Antes de mais, Caeiro usa a linguagem poética para compreender a realidade essencial do mundo, não para chegar a conclusões sobre o seu significado imanente ou total. Depois, Caeiro desliga os objectos dos seus significados tradicionais, pretendendo analisá-los “tal como s~o”. Isto leva a um rumo potencialmente original, se bem que falível e perigoso, que se afasta de um percurso intelectual, ou racional, somente intuitivo. “Sejamos simples e calmos” – é o lema da nova teoria do conhecimento de Caeiro. É tudo o que o homem moderno já não consegue ser. É tudo o que Bernardo Soares não é, nem Álvaro de Campos. Nem muito menos Pessoa ele-mesmo. É ser menos que todos eles. Desejar menos. Há que questionar se na intuição de Caeiro não há ainda inteligência41. Por enquanto há, ainda há, num alto grau, mesmo que dissimulado. Veremos mais à frente se Caeiro consegue progressivamente desligar a inteligência da intuição e dar-se completamente à falta de significados, à paz de uma mente vazia e contemplativa. Caeiro, na sua teoria do conhecimento, pretende a longo prazo desligar todos os objectos uns dos outros, pretendendo assim compreender a Natureza “tal como ela é”, sem as “mistificações” humanas. Outros poetas, como Whitman (ou Campos), procuravam um método oposto, o de ligar caoticamente uns objectos aos outros, em busca desesperada do mesmo conhecimento. Caeiro renega por isso uma visão de totalidade, o que o impede de chegar a conclusões. 41 V. António Pina Coelho, Os Fundamentos Filosóficos da obra de Fernando Pessoa, vol I, p. 329. 40
  23. 23. VII Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não, do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. 1914 Vejamos como Caeiro agora embarca numa descrição que é – note-se a importância disto – muito menos racional, analítica e muito mais “simples e calma”. O seu princípio, depois de estabelecido, é aplicado à sua compreensão natural da realidade: “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... 42 / Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer”. A sua mente parece estar mais tranquila do que anteriormente. Esta é afinal a mesma voz que no poema II considerava o não pensar a única inocência, mas que depois caía no erro de se achar semelhante às árvores (poema IV) ou de ainda pensar que há metafísica no silêncio (poema V). A confusão que invadia a mente de Caeiro, confusão natural de quem empreende uma tal difícil missão – a de despir as vestes racionais e emocionais que perfazem o ser humano social – começa a desfazer-se lentamente. As suas conclusões têm de ser como ele pretende ser, mais naturais, com menor uso da retórica e por isso mesmo mais objectivas, como uma descrição de uma paisagem que inclua em si mesma as suas razões de existir. “Eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura” é já uma proeza de filosofia simples. Trata-se de uma análise que no entanto não tem em essência planos distintos de realidade, entre o dever-ser e o ser ou entre o que se vê e o que se pode pensar. Trata-se – fantasticamente – de uma constatação. É o mesmo homem de antes que a faz, mas é um homem diferente, menor, mais depurado. A sua nova perspectiva dá-lhe um poder de síntese sem paralelo. Ele não tem de querer ver mais longe do que a sua aldeia e a sua aldeia passa a ter tudo o que tem o resto do Universo. Para quê ir mais além, ter ambições…? É um renovado despir dos desejos primordiais. Caeiro chega mesmo a uma singular descoberta: “Nas cidades a vida é mais pequena (…) as grandes casas fecham a vista à chave (…) tornam-nos pequenos porque (…) porque a nossa única riqueza é ver”. É este o mesmo poeta bucólico que antes questionava o “sentido íntimo do Universo”? Sim e não. Eis uma subtil metáfora: Caeiro o “poeta da realidade absoluta da terra” (A. Quadros) vê da sua aldeia (o seu domínio, a sua realidade), o que se pode do Universo vislumbrar da terra. Ou seja, sabe-se desde já limitado – é a visão da terra e Caeiro é apenas o início (embora um fim em si mesmo) de uma outra viagem maior, que o levará a passar por outros heterónimosapeadeiros. (Cf. António Quadros, Fernando Pessoa, vida, personalidade e génio, D. Quixote, pág. 284 e segs.). Recordemos a este propósito uma passagem do Diário, datada de 1914: “Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu (…) reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros. (…) A superioridade (…) é de renúncia e de silêncio que se veste. (…) Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci”. (V. Fernando Pessoa, Escritos Íntimos…, Europa-América, pág. 47; também é curiosa a leitura de Oct|vio Paz, que considera o ano de 1914 o do “nascimento” de Pessoa – cf. Octávio Paz, Fernando Pessoa, o desconhecido de si mesmo, Vega, pág. 13). 42
  24. 24. Caeiro sabe agora que não precisa de se incomodar com o mundo, com o Universo. Apetece dizer que se há universo na rua dos Douradores43, há certamente universo na pequena aldeia onde ele vive, alto no seu outeiro… Limitando o objecto do seu conhecimento ele limita o campo dos seus erros – sobretudo o erro de desejar demasiado. Pessoa parece de novo interferir com a nossa análise. Isto porque é Pessoa o pensador, o filósofo frustrado, feito enorme poeta, que pretendia embarcar na sua compreensão todos os fenómenos humanos e divinos, sem nunca sair de Lisboa. Se o fazia, transfigurava o seu entusiasmo para Campos, era Campos a conduzir o Chevrolet a Sintra, a lembrar a viagem distante de barco ou a tomar o comboio que tardava sempre e não partia nunca44. Como que dizendo que não é preciso sair de um quarto para desvendar todo o Universo, Pessoa reafirma em Caeiro que faz das suas horrendas fraquezas, forças descomunais. Além do mais, a simplicidade encerra todos os significados fora de si. Fora de si – para que eles sejam apenas vistos ao longe e não analisados de perto. O poder da visão das coisas advém de nos alhearmos delas, pondo entre elas e nós a suficiente distância, razoável perspectiva. Ficamos mais pobres é certo, desejando menos, possuindo quase nada, mas ganhamos o resto, a isenção, a calma e a paz de quem só vê e não é o que vê. As semelhanças com a via budista s~o evidentes. A “aldeia” de Caeiro é a mente vazia de Buda. Caeiro renega a cidade como Buda renega as riquezas da sua família pelo frio da floresta, do alheamento. A cidade tem demasiadas riquezas, o mesmo é dizer demasiadas distracções para a mente de quem quer apenas ver. “Mas enfim, também há Universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver” (in Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, 1.ª parte, Europa-América, pág. 318). 44 V. Fernando Pessoa, Poesias de Álvaro de Campos, Europa-América, págs. 117-118. 43
  25. 25. VIII Num meio-dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas... Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque não era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do céu. E queriam que ele, que só nascera da mãe, E nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiça! Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o sol E desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros, Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas Que vão em ranchos pelas estradas Com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias.
  26. 26. A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus. Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que criou – «Se é que ele as criou, do que duvido» – «Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória Mas os seres não cantam nada. Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres.» E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços E eu levo-o ao colo para casa. Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa,
  27. 27. Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo um universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão. Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios Que ficam fumo no ar dos altos-mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales E a fazer doer aos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é. Esta é a história do meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há-de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam? 1914 Publicado na revista «Presença» em Janeiro de 1931 45, o poema VIII do “Guardador de Rebanhos” é porventura o mais polémico de todo o livro, por tocar em matérias fundadoras da religião cristã46. Mais precisamente foi publicado com o título "O oitavo poema de O Guardador de Rebanhos", na revista Presença, Coimbra, vol. II (30), Jan.-Fev., 1931, págs. 6-7. 46 Qual a raiz deste poema violento? Todos conhecem o desdém de Pessoa pelas igrejas organizadas, que provavelmente começou quando frequentou o colégio de freiras em Durban. Alberto Ferreira indica ainda, como acréscimo, a visão de Campos sobre a origem deste poema quando recorda as palavras do Mestre: “Lembro-me perfeitamente de como escrevi esse poema. O Padre B... tinha estado lá em casa a falar com a minha tia e esteve a dizer tantas coisas que me irritaram que eu escrevi o poema para respirar”. Para este poema podia Pessoa também ter encontrado inspiração no poema satírico A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro. (Cf. Op. cit., pág. 9). 45
  28. 28. Trata-se, o que é óbvio numa primeira leitura, de uma nova quebra na continuidade do texto, quando comparado com os poemas anteriores. É, ao que nos parece, agora uma quebra propositada, intencional, para que o leitor sinta a gravidade do que Caeiro vai agora dizer. Lembremos que Caeiro está numa missão longa e dolorosa, missão durante a qual ele vai lutar para se livrar progressivamente dos males que nublam a sua “vis~o natural das coisas”. A sua visão simples, sensacionista, de poeta da Natureza, vai requerer que ele declare a sua posição sobre uma variedade de temas. Vemos que ele abarcou já – e apenas é este o oitavo poema de quarenta e nove – temas complicadíssimos: as bases da ontologia (quem ele é), da gnosiologia (o que ele pretende conhecer), elaborou o princípio de uma nova teoria do conhecimento, aceitou o paganismo e recusou a metafísica. Como um homem rico que despe as suas roupas, num processo ascético de conhecimento, Caeiro despe-se de tudo o que envenena a sua visão47. No poema VIII chega a vez da Trindade cristã, Pai (Deus), Filho (Jesus) e Espírito Santo. Não há nada mais simbólico da fé cristã do que esta cruz sagrada, principio, meio e fim da fé. Deus é o bastião da crença, o repositório da identidade humana. Jesus é o intermediário humano dessa fé, que traz a compreensão de Deus e dos seus desígnios. O Espírito Santo é o instrumento dessa fé no mundo material. Como o Deus único ao vir destruiu o panteão dos deuses pagãos, substituindo-os pela unidade, o inverso também pode ocorrer. Para esse fim, Caeiro vai desmantelar a unidade do Deus único, quebrando os seus elementos constituintes para criar o paganismo, a multiplicidade. Por isso Caeiro escolhe a Trindade. Porque se a Trindade se quebrar, a multiplicidade novamente substitui a unidade. Simbolicamente é este também um “regresso {s origens”48. A substituição de uma crença racional, apoiada numa vasta teologia, por uma crença natural, quase infantil e lógica, sem apoios, intuitiva. É como se o ser pensante, crente no Deus único da modernidade, deixasse de pensar e regressasse ao ponto de partida original, vazio, despido, sozinho. Como começa Caeiro a desagregar a Trindade nos seus elementos constituintes? Num sonho. Porquê num sonho? Na antiguidade, antes sequer de existirem religiões organizadas, já os xamãs em sonhos encontravam caminhos para o divino, interpretando simbólicas representações da Natureza. Caeiro funda o novo paganismo. E funda-o num sonho, como um profeta ou xamã. Ele vê Jesus descer dos céus, “cair da Trindade”. Vê-o menino, porque infantil, ainda sem a vida negra de pregador, antes de ele virar as mesas dos cambistas no Templo, antes de clamar pelo pai na cruz, no estertor final. É o menino Jesus que desce dos céus e o menino Jesus é ainda Jesus, mas o Jesus infantil, criança, não o Jesus homem, envenenado pela sociedade. É esse Jesus que foge do céu. Veja-se como é caricata e divertida a imagem, se bem que necessariamente polémica, mesmo herética. A candura conquista-nos hoje, mas decerto iria chocar um leitor dos anos 30. A chave do poema segue-se: “Tinha fugido do céu. / Era nosso demais para fingir / De segunda pessoa na Trindade”. Afastar a religião também é afastar-se da geração de poetas simbolistas (impregnados de misticismo e religiosidade) em direcção a uma modernidade na poesia. Há pois uma utilidade funcional neste poema, que, como bem indica Carlo Vittorio Cattaneo não é blasfemo e de mau gosto, antes motivado pelos princípios básicos do Neopaganismo, tal como foram anunciados pelo heterónimo António Mora (Cf. Carlo Cattaneo, “Um poema blasfemo de Fernando Pessoa” in Colóquio– Letras, n.º 50, Julho de 1979, págs. 9-21). 48 E, tal como se quebra a unidade da religião cristã, voltando ao paganismo, também se inverte a noção de natureza que advinha de Platão e que acompanhava essa mesma visão religiosa – o dualismo ideal/real. Veja-se que a visão do mundo é invertida, e agora residem na Terra e não no Céu, as ideias, os modelos iniciais do conhecimento. Por isso Caeiro pode ser entendido como antiplatónico (Cf. Mário Queiroz, Op. cit., pág. 63). 47
  29. 29. Porque foge ele? Porque “no céu era tudo falso, tudo em desacordo / Com flores e árvores e pedras”. Não podia ser menino, sincero. “No céu tinha de estar sempre sério / E de vez em quando de se tornar outra vez homem / E subir para a cruz, e estar sempre a morrer / Com uma coroa toda à roda de espinhos”. Caeiro lembra um Jesus humano, natural. Um Jesus pagão, ou menos que isso, nem sequer divino, só criança que por azar do destino serviu de condutor a algo que o ultrapassava e ele nem sequer compreendia. Claro que Caeiro usa do choque para libertar Jesus da Trindade. Mas afinal a Igreja não usou também o fogo para se livrar do paganismo que encontrava? Este fogo de Caeiro desprende Jesus da cruz, desliga-o do Pai e do Espírito Santo e deixa-o cair à Terra, dando-lhe um carácter de “diabinho”. Afinal ao menino Jesus “nem sequer o deixavam ter pai ou mãe (…) o seu pai eram duas pessoas”. Duas pessoas, José e o Espírito Santo (a pomba). A sua mãe, outra farsa, “Não era uma mulher: era uma mala / Em que ele tinha vindo do céu”. O retrato de Caeiro é cru e agressivo, mesmo desafiante. Mas ele quer com a sua linguagem simples e rude revelar a criança detrás do homem e o homem detrás do Salvador. De maneira dissimulada Caeiro quer que o leitor considere o ridículo que é a proposta cristã, em face da religião que ele propõe, o paganismo. Para defesa do paganismo Caeiro elege Jesus ele-mesmo. É Jesus que foge, porque se sente preso a uma missão sem sentido. Ele não é o Salvador, é apenas uma criança sem pai, com uma mãe estranha, e uma “pomba estúpida” que o persegue. Jesus é ele mesmo pagão, porque recusa a sua própria santidade. Jesus “criou um Cristo eternamente na cruz (…) depois fugiu”. Pessoa cria aqui um inteligente artifício, dividindo o nome de Jesus Cristo em dois. É Jesus quem foge e Cristo quem fica no céu49. Livrado da sua santidade, Jesus “é uma criança bonita de riso e natural”. Faz tudo o que uma criança normal de aldeia deve fazer. Limpa o nariz, chapinha na água, colhe flores e atira pedras, rouba fruta e persegue raparigas… Caeiro imagina tudo o que a Bíblia se “esqueceu” de contar. Imagina a infância de Jesus, como uma criança normal, precisamente porque isso denota a sua falta de santidade50. Mas o paganismo de Caeiro não é destinado à destruição da religião cristã, nem tem o intuito de chocar e ser puramente herético. O seu paganismo quer reduzir, quer ainda Jesus, mas diferente, quer o Jesus menino, inocente, que vive a vida sem pensar na morte ou nos significados. Por isso Caeiro diz: “a mim ensinou-me tudo / Ensinou-me a olhar para as coisas”. Foi o menino Jesus que lhe ensinou – simbolicamente é claro. Ele considerou a figura de Jesus em criança e viu nela o modelo perfeito para aquilo em que ele próprio acreditava. A genialidade da intuição de Caeiro diz-lhe que se Jesus adulto pregava a semelhança e a irmandade de todos os homens, em criança pregaria a semelhança de todas as coisas. Deus é vilipendiado. “É um velho estúpido e doente / Sempre a escarrar no chão”. A virgem Maria passa o tempo na costura e o Espírito Santo a coçar-se com o bico… O quadro é realmente ridículo. “Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica”, desabafa Caeiro pela voz do jovem Jesus. A palavra Cristo tem a sua origem na palavra grega Christos, que é o equivalente da palavra Hebraica Messias. Ambas têm o mesmo significado: “o consagrado” ou “o ungido”. Trata-se por isso, não de um nome, mas de um título cerimonial. Compreende-se ent~o que Caeiro “deixe o título no céu” e desça { terra “o nome”. 50 Curiosamente é a infância a parte da vida de Jesus que é omitida na Bíblia. São relatados com grande pormenor a concepção e o nascimento de Jesus, mas há um hiato inexplicável entre o nascimento em Belém (Lc, 2:1-7) e o aparecimento de Jesus adulto, com 30 anos, quando é baptizado por José Baptista no rio Jordão (Mt, 3:15). 49
  30. 30. Jesus que, cansado de brincar e falar, adormece com uma sentença final: “Os seres existem e mais nada / Por isso se chamam seres”. Também ele est| cansado de pensar e quer apenas ser uma criança. Destruída a Trindade, Caeiro apropria-se de Jesus. “Ele é (…) o deus que faltava”, diz Caeiro entusiasmado. “Ele é o humano que é natural / Ele é o divino que sorri e que brinca”. Na verdade Caeiro pensa ter encontrado a inesperada (mas desejada) união de opostos. Alguém divino que não pensa (ainda) na sua divindade, alguém adulto que é (ainda) criança. É um ser divino que não é sério, que é múltiplo como a Natureza que o acolhe, que como ela tem estações no seu coração, que corre e cai, que se cansa e adormece. Mas de súbito… “E a criança tão humana que é divina / É esta minha quotidiana vida de poeta”. Caeiro assume finalmente que é tudo uma alegoria, que afinal o menino Jesus está dentro de si, como inspiração e modelo. “É porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre. / E que o meu mínimo olhar / Me enche de sensação”. É como se a sua poesia se pudesse tornar ela mesma numa figura humana. E essa figura seria o menino Jesus. Uma criança divina, mas humana, conhecedora de tudo mas ignorante de possuir esse mesmo conhecimento, um impossível encontro de opostos, uma síntese perfeita do ver e do conhecer. Sempre foi assim? Não. Mais uma vez podemos confirmar que Caeiro procurava (e ainda procura) esta paz que vê como perfeita. A poesia é apenas a linguagem que ele utiliza na sua busca impossível, porque a poesia é a linguagem do inefável. Este Jesus menino, esta “Criança Nova”, é sinónimo para aquilo que cresce dentro de Caeiro e que é similar a uma revelação, mesmo que ele a procure. “Criança” porque vis~o sempre nova da realidade, vis~o natural e inocente, sem os preconceitos de uma vida; “Nova” porque nasce agora, progressivamente, à medida que Caeiro se transforma, que Caeiro se despe da racionalidade, como Buda se despira das riquezas e dos desejos. Este Jesus caído da cruz e do céu, tornado menino eterno é, no entanto, ainda mediador. Mas não é mediador como antes, entre Deus (seu pai) e os homens (o seu rebanho), mas sim entre a realidade e Caeiro. Por isso ele diz: “A Criança Nova (…) dá-me uma mão a mim / E a outra a tudo o que existe / E assim vamos os três (…) gozando o nosso segredo comum / Que é o saber (…) que não há mistério no mundo”. Deve reforçar-se a import}ncia para Caeiro desta nova vis~o, desta “Criança Nova” que ele traz pela mão e que o auxilia a ver as coisas de uma nova perspectiva. A criança reside dentro dele, mas ele ainda vai ter de aprender a incorporá-la, sem ter de a referir como uma terceira pessoa – entre ele e a realidade. Quando o conseguir fazer, será o fim da sua missão e Caeiro verá por ele mesmo a simplicidade em todas as coisas. Ter| ent~o Caeiro “olhos de criança” e n~o uma “Criança Nova” em si. Caeiro quer iludir-se e negar esta divisão que persiste ainda nele. “Nunca pensamos um no outro”, diz Caeiro. Mas também diz: “vivemos juntos e dois / Com um acordo intimo / Como a mão direita e a esquerda”. E sabemos bem como por vezes a mão direita discorda da esquerda, mesmo parecendo ambas em comum acordo… Nesta altura é de certa maneira irrelevante a discussão desta divisão. O importante a realçar é que Caeiro sabe que a “Criança Nova” é de sacramental import}ncia para o seu percurso de conhecimento.
  31. 31. Mas um sinal que existe ainda essa divisão é evidente na referência ao jogo das pedrinhas51. Caeiro sofre ainda o estigma dele ser um poeta e a sua criança um deus. Essa oposição mantém-se nos versos seguintes. “Conto-lhe histórias das coisas só dos homens (…)”, como se Caeiro não fosse ele mesmo um homem, mas um ermita, um asceta que, como Zaratustra, observa a humanidade desde a sua alta caverna, lançando sobre ela o seu juízo superior. O menino Jesus ri-se do que lhe conta Caeiro, porque Caeiro quer que a toda a realidade não tenha significado e isso lhe seja confirmado pela sua “Criança Nova”. Essa confirmaç~o leva-o a pensar – mais uma vez a pensar – que o mundo pode ser ignorado se virmos nela a sua intrínseca falta de significados. Na realidade esta análise é ao extremo racional, obsessiva, revelando ainda uma grande intranquilidade. Caeiro tem de pensar o mundo para o recusar e enquanto fizer isso não vai conseguir atingir a paz que tanto deseja. “Depois ele adormece”. Mais uma vez o menino Jesus sucumbe ao cansaço de ouvir os problemas do mundo, contados por Caeiro. Levado para casa, é despido e permanece silencioso no seu sono pacífico, de criança, no interior da mente do poeta bucólico, apenas intervindo por vezes nos seus sonhos lúcidos. Caeiro aceita-o como coisa estranha dentro de si 52. Que pena temos agora de Caeiro… Há dentro dele uma grande mágoa, que é também uma luta interior. “Quando eu morrer filhinho, / Seja eu a criança, o mais pequeno”, diz ele amargurado. É simultaneamente um desejo do regresso à infância (ao “paraíso perdido”, usando uma expressão de João Gaspar Simões53) e uma esperança lançada para o futuro, para um futuro diferente em que Caeiro vê a sua paz. É curioso que o futuro encontra semelhanças com o passado, como se a paz de Caeiro se encontrasse realmente no exacto momento em que Pessoa perdeu a sua paz de “menino da sua m~e”. Caeiro tem de regressar ao passado de Pessoa para encontrar o seu futuro. “Pega-me tu ao colo / E leva-me para dentro da tua casa. / Despe o meu ser cansado e humano / E deita-me na tua cama (…) para eu tornar a adormecer”. Toda a tristeza se assume agora veículo de acesso à verdade inicial. Caeiro está no seu estado meditativo, no seu transe mediúnico sem infinito, porque olha apenas para dentro de si mesmo. O que ele deseja? Deseja a inversão de papéis. Que ele seja novamente o menino. O menino que é alvo dos cuidados carinhosos, que esquece o sofrimento da vida e o cansaço, para “adormecer”. “Adormecer” aqui quer dizer literalmente “esquecer”, limpar todo o sofrimento, atingir a paz. “Dá-me sonhos teus para eu brincar / Até que nasça qualquer dia / Que tu sabes qual é”, diz Caeiro para finalizar o seu desejo secreto. O renascimento ganha aqui um novo significado. Caeiro não quer renascer ou ressuscitar, como deseja Pessoa a D. Sebastião na Mensagem por exemplo, mas sim deseja o esquecimento, o despir de significados, o sair da vida para entrar na paz superior, de quem já não deseja mais do que ver e deixou já de ter de compreender. Como uma criança. Como uma criança que é um adulto. “É esta a história do meu Menino Jesus”, diz Caeiro ironicamente. Pergunta porque não é ela tão válida como a visão clássica, dos filósofos e das religiões. Talvez porque Jesus queria salvar a humanidade e o menino Jesus de Caeiro só o poder| salvar a ele… 54 Podem-se consultar as regras deste jogo popular aqui: http://jfvalbom.no.sapo.pt/4/jogos1.html A estranheza também pode vir do simples facto de Pessoa inconscientemente ligar o “menino” ou o “bebé” {s memórias da sua própria infância. A inocência do menino que “brinca com (…) os sonhos / E bate as palmas sozinho / sorrindo” parece acordar em Pessoa/Caeiro medos antigos. Há por um lado um deslumbramento com a inocência que se confronta com um medo profundo de novamente a assumir. Isto porque Pessoa/Caeiro não é uma criança, é um adulto, e um adulto profundamente marcado pela vida. Assim se explica que Caeiro olhe para a criança, com um misto de horror e deslumbramento. 53 Cf. João Gaspar Simões, Vida e obra de Fernando Pessoa, Bertrand, Vol. I, 1950, pág. 15 e segs. 54 Como veremos mais à frente, a procura de Caeiro será também uma procura da inocência original, igual à de uma criança. Caeiro quer ser infantil, nas palavras de Orietta del Bene Orietta. (Cf. Oriettla del Bene, “Algumas notas sobre Alberto Caeiro”, Ocidente, LXXIV, 359, Março de 1968, págs 129-235). A autora considera que Caeiro falhou. Veremos que não é bem assim. 51 52
  32. 32. IX Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca. Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido. Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes, Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz. Maio 1914 Caeiro acha agora que chegou o momento propício para deixar cair a máscara do pastor bucólico, revelando o seu verdadeiro significado. Como intuíramos logo no poema I, Caeiro não é um pastor real, é uma “alma de pastor”. “Sou um guardador de rebanhos. / O rebanho é o meus pensamentos”, diz Caeiro. Revela-se nestes dois versos simples o significado do título do livro de Caeiro. Porque não o disse ele logo na abertura? Porque antes de se saber ”pastor dos seus pensamentos”, ele tinha de se saber “simples pastor”. Trata-se, como dizemos repetidamente, de um percurso, de uma via crucis, em que Caeiro se despe da vida para assumir a tão desejada simplicidade. Agora ele sabe que pode, sem medo, assumir-se “guardador de pensamentos”, talvez porque pense que os controla de maneira natural, como um pastor com os movimentos do corpo controla as ovelhas, sem palavras ou intenções. Mas isso não basta. Caeiro sabe que não é suficiente ser mestre dos seus próprios pensamentos. Há todo um mundo exterior que assola a mente e a afasta da sua auto-reflexão. Para todos os místicos este é a primordial ameaça, o que ao fim das contas derrota os seus projectos de santidade. O mundo das sensações foi também a maior ameaça de Buda e o seu principal combate, primeiro pela meditação, depois pelo alheamento completo. Caeiro tem ainda um longo percurso à sua frente. Falta-lhe lidar com as sensações, dar-lhes um significado próprio ou simplesmente alhear-se delas por completo. A sua escolha é decisiva, porque é a escolha de um caminho, um caminho que é diferente de todos os outros caminhos e que se tornar| a “sua estrada”, para o “seu conhecimento”. Caeiro escolhe um objectivismo extremo, a via natural dos sentidos. Pensar com os olhos, com as mãos, com o nariz… “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la”, diz. Claro que ninguém pensa com o nariz ou com as mãos, nem uma flor é pensada pelo cheiro. Caeiro quer dizer o contrário do que afirma. Ele não quer pensar, ou melhor, quer anular a necessidade do pensamento na sua vida exterior. Quando ele diz que pensar uma flor é vê-la, está a dizer que não temos de pensar para ver, que ver é em si um acto completo, um fim em si mesmo. Trata-se, como é óbvio, de uma alta ambição. Há inteligência mesmo na mais simples intuição e é difícil de perceber como Caeiro não pensa mesmo que só veja. O pensamento é também a mais simples análise do que os sentidos captam.

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