Publicado na Gazeta de Física, 2001Requiem pelo ensino da ciênciaArmando VieiraQuando nascem, todas as crianças são cienti...
Publicado na Gazeta de Física, 2001estão fotografias multicolores de células de cebola, porquê dar-me ao trabalho de as ve...
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Requiem pelo ensino

220 views
138 views

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
220
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
1
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Requiem pelo ensino

  1. 1. Publicado na Gazeta de Física, 2001Requiem pelo ensino da ciênciaArmando VieiraQuando nascem, todas as crianças são cientistas. Nada se aproxima mais do espírito de umcientista que a curiosidade natural de uma criança. Essa curiosidade leva-a a explorar,interrogar, testar ideias, verificar resultados, compreender o funcionamento de tudo o que arodeia. O que motiva um petiz a desmontar um rádio para saber de onde vem a voz, éexactamente o mesmo que leva um astrónomo perscutar os confins do universo para precebera sua origem. Sem professor nem livros, sem sequer saber o que é um número, a Naturezapreparou-o com o bem mais precioso para compreender o mundo: a curiosidade. E o quefazemos com esta tão inestimável dádiva?Embora se trate de uma genuina atitude científica, a maioria dos pais prefere antesclassificar a desmontagem de um rádio como um acto de sabotagem. É aqui que tem início olongo processo de inibição da curiosidade ao qual se dá o nome de "educação". Mas os paisnão são porém o principal agente desta desconstrução.Quando entra para a escola esta criança vai entusiasmada imaginando que finalmentelhe expliquem como funciona o rádio, como se forma o arco-iris, para que serve o sangue ouporque existem tantas estrelas? A decepção não podia ser maior. Frases como, “Para quequeres tu, tão novo, saber como funciona um rádio?” ou “A escola é uma coisa séria, não hátempo a perder com essas traquinices de abrir rádios”, rematadas com os previsíveiscomentários “Qualquer dia destrui-as todos os electrodomésticos lá em casa”, não deixammargem para dúvidas. Primeiro há que aprender coisas “importantes”.E que coisas importantes são essas? Ler e escrever, decorar a tabuada e as regrasgramaticais. O pequenito, que desde há uns anos tinha aprendido a comunicar as suas ideias,de repente viu-se deparado com palavrões de arrepiar os cabelos: “palavras esdrúxulas”,“pretérito prefeito”, “condicional”, “mais que perfeito”, “predicado”... Afinal aquilo que lhesaía da boca não eram palavras, mas coisas com aqueles nomes feios que deviam surgir deacordo com um sem número de regras complicadas, sem esquecer as intermináveis excepções.O que ele aprendera desde pequenito sem dificuldade tornou-se algo complicado e estranho.O menino ficou com medo de falar pois na certa iria dar um pontapé na gramática. Aexpressão oral tornara-se um território minado, com a professora sempre à espreita de numdeslize.Faz-me lembrar o seguinte poema:Uma centopeia vivia felizAté que um sapo lhe disse, a brincar:"Com tantos pés para andarnunca te enganas, meu petiz?".Cheia de dúvida de tanto pensarAcabou a infeliz caindo,Sem saber como marchar.Só depois de ter passado por um período de "aprendizagem" de mais de 7 anos é queele começa a ter verdadeiro contacto com a ciência e a técnica. Mas atenção, nada de sujar asmãos! A ciência é uma coisa limpa, abstracta, já bem preparada e acondicionada, prontinha adecorar, quer dizer, aprender. Os laboratórios são muito caros e dá muito trabalho prepararuma experiências que só dão confusão – desculpam-se os professores. É muito mais fácil abriro livro e apresentar a verdade tal como ela lá vem, limpinha. Depois é só não se enganar nasfórmulas e resolver os exercícios onde se pede para medir correntes eléctricas, quando ascrianças nunca viram sequer um multímetro. Mas isso são um pormenores. "Se no manual1
  2. 2. Publicado na Gazeta de Física, 2001estão fotografias multicolores de células de cebola, porquê dar-me ao trabalho de as ver nummicroscópico guardado num armazém poeirento da escola? Não me pagam mais para isso,pois não?"Educar vem do latim "educer" e significa extrair. Educar é um processo de ajudar aextrair e desenvolver o que há dentro de nós. Educar não é impor e nem sequer encher. Noentanto, educa-se uma criança como quem doma um cavalo. Primeiro inibindo-lhe a suaenergia e espontaneidade natural através de um ensino formal e livresco que está a milhas doseu mundo de maquinetas e imaginação. Depois ele fica pronto para engolir submisso epassivo os manuais escolares um atrás doutro. Desta forma ele acabará por carregar a pesadasela do saber.Não é de estranhar que o nosso país tenha tido ao longo da história um papel tãodiminuto na ciência e que hoje ainda haja tão poucos cientistas portugueses. Também nãodevemos ficar surpreendidos com o desinteresse e a recusa dos alunos em aprender ciências ematemática. É de estranhar sim, que no final do ensino secundário haja jovens entusiasmadospor seguirem uma carreira científica.O nosso amigo que queria saber como funciona o rádio vai ter de esperar. Esperarmuito. Com sorte, se seguir uma carreira de engenharia, ela irá aprender como funciona orádio daí a 10 ou 20 anos. Mas nessa altura para que serve isso? O entusiasmo morreu e, emvez de pulos de alegria, ele limita-se a deixar escapar um "hum!". A postura de adulto a outrasextravagâncias não permite. Em vez abrir um rádio para ver se aquilo é mesmo assim, ou elepróprio tentar fazer um, pousa calmanente o manual sobre a mesa, liga a televisão e folheia ojornal. Isso de fazer essas brincadeiras foi já há muito tempo quando ele tinha a maluquiceinconsequente de tentar compreender o funcionamento do mundo. Um tempo que ele recordacom nostalgia.Como afirmou certo dia um cientista famoso: "um cientista é uma eterna criança quenão cedeu ao convencionalismo da vida de adulto". Eu não podia estar mais de acordo. Pena éque queiramos fazer adultos crianças que nunca o foram. Estamos hoje perante a suprema dasironias de a escola ser a principal responsável pela perda de interesse dos alunos pela ciência.2

×