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Pcinicas Pcinicas Document Transcript

  • Palavras Cínicas Por Albino Forjaz Todo homem tem em si a sua tragédia. ...devo mostrar com sinceridade a minha tragédia. Sienkiewicz.A lbino Forjaz nasce a 19 de janeiro de 1884, encobertas por uma hipocrisia social ou, pior, por uma provavelmente em Lisboa. Desde os 14 anos de inconsciência do próprio existir. idade está envolvido em atividades literárias. Autor de vários livros em prosa e verso, é em Este livro talvez seja dito como um dos mais odiados1905, aos seus 21 anos, que lança Palavras Cínicas, livros escritos pela humanidade, justamente porum livro considerado “um dos mais perversos espelhar de forma crua e clara, com todas as palavras,monstros morais do (...) tempo.” as deformidades do espírito humano.Palavras Cínicas é composto por oito cartas - ou Antonio Caldascapítulos - supostamente enviadas a um amigo. Vários caldas@mail.comtemas são abordados a cada capítulo, desde algunsdos pecados capitais até uma crítica ferrenha à crença http://caldas.tripod.com/em Deus. Feira de Santana, Bahia. BrasilDescrença total sobre a vida e a humanidade permeiaPalavras Cínicas, um livro sóbrio. E não há sequer uma ÍNDICEsentença que enalteça o ser humano. A cadaparágrafo, ser canalha e vil é o conselho dado por Primeira Carta..................................................... 2Forjaz aos seus leitores. Segunda Carta .................................................... 4 Terceira Carta ..................................................... 6Com sentenças fortes e palavras morbidamente bem Quarta Carta ...................................................... 9escolhidas, Forjaz aventura-se a falar sobre verdades Quinta Carta ......................................................11profundas e obscuras da alma humana. Talvez Sexta Carta .......................................................14verdades sabidas por cada leitor, mas sorrateiramente SÉTIMA CARTA...................................................17 Última Carta ......................................................19 Carvão de Carlos Reis
  • P r i m e i r a C a r t a Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio dum festim as porás de parte com enfado, mas buscarás nelas consolação quando o mundo te fizer chorar. IMeu amigo: A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem oEscrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é maisdeste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da forte.grande cidade. De que te hei-de falar? Da vida? Poisseja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida Não poderás gozar e serás mais desprezado do que umaé a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao serapilheira que o uso condenou.entrar como uma coisa que nos compromete, que nosavilta. Se acaso és bom - tolice - não venhas. Aqui, para A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria comotriunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, a flor. Da mulher honesta à prostituta não há diferença,hipócrita e persistente que vencerás. Serás aclamado, a distância duma à outra é nula.respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Almae do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um Não beijam ambas?! Uma por prazer, outra por precisão.protesto com um sorriso, uma agonia com uma Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre.gargalhada, um estertor com uma praga. Acredite que todos se vendem, homens e mulheres,Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o palhaços e imperadores, cristos e mendigos: a questão ériso sob o pesar. de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa Acredita que falta quem compre toda a gente que seesfibrina-o às gargalhadas. quer vender.Não ames nem creias. Todo o homem que ama é A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tuhomem perdido, e todo aquele que crê nunca será chamas acaso, chamo eu persistência, e persistêncianinguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que gasta a vida como a água gasta a rocha.pretendem subir, odeia os que subiram e os que um diasubirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio Tu és filho duma prostituta, pois que tua mão só foi dedá mais prazeres do que o amor. teu pai e teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar juntoA satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja de si...um mártir, que ele seja um ladrão, é maior que a desentir os braços opulentos duma mulher que se entrega. O seu corpo tinha gozos inusitados, que ele demandouÉ menos um. Sê pois forte como o diamante e como o primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiroódio. que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, o primeiro que passasse à sua rua. Assim, tuNo amor - gentil comédia - sê pródigo, e sobretudo és filho dum operário como poderias ser dum assassino.nunca ames uma só mulher. Se és bom serás ridículo, se Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmoé mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que foi maior do que a sua carne.se chama Vida foi, é, e há-de ser sempre assim. “A vida é uma luta brutal”. (Tourgueneff).Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Cristo, se éum tolo morrerás como Judas, se és mau - meu amigo - Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem;serás lembrado como Satã. vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que ésVem, mas vem cínico. Triunfarás, terás oiro, amantes, amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que asmulheres, o diabo. coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seisAcredita que metade da humanidade nasceu para se filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vairojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos dizer-lhe o ódio lhe tenho por ele deixar morrer aqueleos cínicos, a esmagássemos, e lhe cingíssemos justo, que por ser bom teve de se matar; diz-lhefraternalmente as carnes com um chicote. Depois da finalmente que nada disto se deve fazer quando se émorte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o Deus.sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furorde agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aoShakespeare dizia que o “mugem vive para ser tragado pequenos que o não tinham; que me odeie porque apelo lúcio”. última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro diaOu serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te castiguei um velho que maltratava um cão. Anda, vaitodas as humilhações desde o desprezo até a dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se écompaixão. Se vencedor todos os triunfos desde o capaz...respeito ao Capitólio. Luta sempre, calado, fino, sabidoque se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, A geração é de cobardes e “cada ano que passa estácastrado para a Vida, para o Amor, e para o sonho. mais corrupto o mundo”. (Maximo Gork). Ah! Não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele, recebida aPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 2 de 20
  • esmola, me chame o mais vil que o sol cobre, o mais de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora,canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido! meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto eEle não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha tu sentaste-me à mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tununca. encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungarbaixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá E eu não podia vingar-me, mas agora chegou a minhabater à porta com uma coronha e me há-de fuzilar a vez.mim, o maior dos patifes que o socorri. Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem,Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de nutrem lá dentro a secreta esperança dum dia nosazorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que nãoque dá tudo o que tem. temam desconjuntar a bota, quando o fizerem, percebes?E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundotem visto; em ter um chicote com que possa duma vez Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais éssó azorragar a Terra, ele, cujo corpo devia ser balouçado pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais queno candeeiro ali defronte. tu tiveres coragem de inventar. “O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado” (Provérbios, XVI-20),De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer que “não merece carinhos quem não tem para caldo”noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serásMas explica-se. É que a minha esmola - esmola humana mau e cínico e traidor.- fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minhacanalhice. A Vida? “Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos emDeste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque semelhantes cavernas”. (M. Du Camp).não posso também dar esmolas e porque me curvei a ti.Toda a vida tu me fizeste bem, socorreste-me, A vida é uma canalhice, uma farçada, “uma luta brutal”,agasalhaste-me. Um dia eu - mau como sou - estou por como diz ali o Tourgueneff.cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingarPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 3 de 20
  • S e g u n d a C a r t a IIFoi em Dostoiwsky que eu encontrei um dia esta frase: a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o“No fundo de cada um dos nossos contemporâneos inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, oresidem latentes os instintos dum carrasco!” Amor e a humanidade.Não tens tu encontrado, ó caricato, nas tuas horas de Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime éangústia, somente semblantes frios, corações Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior.empedernidos e ouvidos cerrados? Quantas vezes É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro éperguntaste onde estavam a Bondade humana, a justiça que as mulheres se vendem. Quantas almas não conteráhumana? Quem te respondeu? Inútil pergunta. um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele fazer despir?Ninguém. Por dinheiro tudo se compra. As bênçãos das santas e oDeus? Onde estava Deus? crânio dos heróis, a camisa de dormir da tua noiva e o rosário do teu confessor. Ciganas e écuyères,Deus não é deste mundo! E cada dia que passa me saltimbancos e mendigos, fidalgos e aguardente,convenço mais que nele só canalhas existem. Quem sou trapaceiros e sacerdotes, coveiros e apóstolos, santos eeu? Um canalha. Quem és tu? Um canalha. famintos, sultanas e cadelas, bobos e cortesãs, escravos e libertos, tudo isto é da sua corte. O próprio Deus, oTodos nós disfarçamos os piores instintos. Inútil próprio céu rende-se, quando se lhe mostra um punhadomascarada, se todos nos conhecemos bem. de oiro.Tenho ouvido mais juras sem fé do que de minutos tem E como o dinheiro ri! Tu nunca ouviste o dinheiro rir?um século. Despeja um saco de oiro e ouvirás uma gargalhada. O som do oiro que se choca é o seu riso, e esse riso aTenho visto mais traições, mais egoísmos e mais crimes quantos não despedaça a alma?!que de mortos tem a eternidade ou de beijos tem levadoo corpo duma prostituta que envelheceu no ofício. Quero que mates teu irmão, que dispas tua irmã na praça pública, que esbofeteies tua mãe. Chego-me a ti eFilhas do homem, mães do homem, foi para ele que digo-te: oiro, terás muito oiro, um grande deboche detodas essas mulheres se prostituíram; que elas dançam oiro se o fizeres. E tu não resistirás, eu sei-o.cancãs infames e sofrem abandalhamentos sem nome. Uma prostituta não é ninguém. Aquela que se dá aosO seu corpo, onde todos bolçam o seu quinhão de marujos e aos ladrões, à noite, nos recantos, levando-infâmia é como os mármores divinos dos museus, toda a lhes a sua carne para que eles se saciem, vale tantogente lá vai pousar o olhar. Tem alguma coisa duma como a que se dá ao ministro, e a que é cortesã dosentina ou dum confessionário. Papa. A vida das primeiras é mais suada.Elas é que sabem por quanto se compra um riso. Quanto Como elas devem odiar as mães.império, quanta vontade não é preciso para no meioduma carícia não cuspirem a cara dum canalha. Pobres mulheres? É uma como qualquer outra. A da“Filhinho, filhinho...” e aquele pedaço de belo lixo esfregadeira, e da mulher a dias, a da amortalhadeirarebusca frases, prepara gozos requentados, pedidos sem não pesa mais, não custa mais?cerimónia, como se eu lhes arremessasse à cara umabaforada de fumo de cigarro ou lhes salpicasse o rosto Aquilo rende, aquilo inda dá muito dinheiro.com o meu hálito cheio de lama. Por que não trabalham? É boa! Então quem me havia deElas ali são minhas, muito minhas. Paguei-as à hora aturar a mim, a ti, a todo o mundo, a todos os canalhas?como a corrida dos cocheiros. E o gozo, o gozo brutal, o Quem, não me dirás? Tua irmã? Tua mãe?gozo Deus, fere-me a retina, fricciona-me a epiderme,abraça-me, deslumbra-me e puxa-me para si com seus O crime é um negócio, a Vida uma escravatura. A almapulsos de aço como uma amante no cio. é escrava do crime, a carne é escrava do gozo.O vício tem recantos como uma cidade à noite. Morrem? Que temos nós com isso? Todos nós temos que morrer. Quem se lembra duma prostituta que morre? OsA quantos já teria pertencido aquilo? Quem seriam? corpos perdem-se na terra e no esquecimento como asTateio. “A carne, essa coisa brutal cheia de veias, de blasfêmias se perdem no ar.nervos, tendões, glândulas e ossos, cheia de instintos emisérias; a carne que sua e cheira mal; que se A vida é uma grande cama onde existe sempre a plenadesforma, se infecta, se ulcera, se cobre de gelhas, de orgia da carne. Lá passam as noites uma rameirapústulas, verrugas e pêlos” (G. Dannunzio), é mole, abraçada a um poeta, um bêbado no peito dumaviscosa, flácida. marquesa que empobreceu. É o panteão ignorado dessa carne infame que o homem chicoteou com beijos. E nãoParece moída. Quantos a terão beijado? Quantos a terão sei, como de cada um, assim amassado em lágrimas,acariciado? Quantos lhe terão batido, quantos? não floriu uma chaga, tanta peçonha e amargura eles continham. É a sargeta onde se escoa a lama da Vida,O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa para onde a terra baba a nata da podridão.bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: osmesmos abraços que dei a minha mãe dou-os agora a A vida é feita de lodo e os homens do pó do crime. Tudoesta. Isto é lógico. é lama e toda a lama é igual. A que salpica uma toilette de seda e a que traça constelações nos trapos dasVender o corpo é melhor do que vender a alma, mas mendigas. As almas são de lama, as rosas são de lama,vender a alma e o corpo como seria bom! os lírios são de lama, como as estrelas, como as hóstias, como os mortos, como os vivos. Há a lama vestida deMulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e pérolas e a vestida de escrófulas, a lama toucada dehomens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda sedas e cetins e a vestida de crostas e farrapos.Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 4 de 20
  • Verdade e a Mentira. Que inventou o canalha queMas é tudo a mesma impureza, tudo a mesma podridão. governa e o que sofre e sua até morrer, que inventou aTão impuras são as vestes de Messalina como a escova guilhotina e a glória, o deboche e o dinheiro.de dentes da Gauthier, as ligas de Agripina como a camade Rigolbeche, e tudo isto como o manto da Imaculada Sobre cada ventre pesa uma maldição, sobre cada berçoConceição. pesa uma agonia.A diferença que vai daquele bandalho, que passa de Há mães que à hora da morte amaldiçoam a sua obra.chapéu alto, àquele malandro, que pisca os olhos e pede Benditos os que amaldiçoam. O ventre das mães é oesmola, não é nenhuma. Pura convenção. Se tu fosses embrião do crime. Barregãs que o desejo ensandeceubuscar uma rameira de hospital e a toucasses de sedas deviam ser rompidas pelo ventre como o Senhorela arranjaria corte. prometeu às prenhadas dos povos pecadores. Que seja maldito o ventre de todas as mães.Viriam a seus pés os famintos, as rascoas, osinteresseiros, os honrados, os banqueiros, o mundo Filhos fecundados em plena bebedeira, que bateis nastodo. mães, que cuspis em Deus, que quebrais os santos e rasgais as páginas balofas dos missais, vêde se naQue me importa que a imagem desta libra seja a duma morte não sois iguais aos justos, se todos não são iguaisrainha ou a duma prostituta se com ela eu posso na morte.comprá-las ambas? Benditos sejam pois os matricidas, benditos sejam osTudo é dor. A dor é igual. Senti-la maior ou menos é homicidas, os perversos, os malditos. Bendito sejadiferença dos nervos que a sentem, como a grandeza Orestes que violou a mãe, Amon que desflorou a irmã,dos que a vêem: A dor é egoísta como o mundo. A dor Myrra que teve incesto com o pai.da mãe que perdeu o filho é egoísta. São os lamentospela felicidade que perdeu. Como a da águia a quem Benditas sejam as mães que matam os filhos, o irmãoroubaram os ovos, como a do avaro a quem roubaram que mata o irmão, o canalha que mata o canalha.um dobrão, como a da Virgem a quem roubaram Jesus. Bendito os que matam porque eles semeiam aTu já leste os Homens do Mar, de Vítor Hugo? Recordas- felicidade.te da pieuvre? A dor é a pieuvre. Enlaça os corpos, asalmas, suga-as, bebe-as em vida. A alguns deixa Há caveiras que riem bêbadas de riso, outras quesomente o esqueleto. cerram os dentes duma grande raiva. Nunca reparaste?A águia que rói os fígados a Prometeu não é outra senão Enchi-te de desolação e abandono. Que eu exagero? Masa Dor. Bendita seja a Dor que tiraniza e leva ao crime. isto ainda é pouco. A torpeza da vida não caberia em mil volumes como este. Que eu exagero?! Que eu Exagero?!Tudo mentira, tudo ilusão. Quem sabe lá vida quanta Patife, tu bem sabes que eu digo a verdade.podridão levedou para dar um rosa, para abrir ummalmequer, e para florir uma chaga? Que as chagas o Já viste quanto cômico há na vida trágica e quantoque são senão rubras e esquisitas flores? trágico há na vida cômica? Há risos que são mais tristes que a tocha dum gato-pingado, lágrima que, por maisAbre um crânio e vê se distingues a alma de Dante da que se queira, fazem sempre soltar gargalhadas.alma de Caim, a de Inocêncio III da do galego daesquina. As lágrimas choradas e que a terra tem bebido há 6.000 anos que o mundo é mundo davam um novo dilúvioQuem distinguirá lá em baixo no ventre da terra a carne capaz de afogar o mundo todo. A luz do sol tem vistode Impéria da carne de Chénier, a ossada de Gilbert da mais podridões que o mármore duma casa de autópsias.ossada de Ravachol? O que é a vida? Não sei. Eu tenho visto nela muitaO rosto que ri não é o mesmo que chora? A boca que torpeza e muita lama. Sê mau, ouves? Sê mau. Tenscanta e ri não é a mesma que ameaça e insulta, que que ser muito mau que a “terra vive do mal”.suspira, que geme e que reza? Os olhos não vêem Deuse o Diabo? As almas não servem a ambos, atraiçoando Às vezes sinto-me fatigado de só o ter sidoambos? mediocremente.Vê quanto pus encerra esta palavra: Amor! Tu crês no Ah! Eu nunca poderia vir a ser um Nero! E Nero queAmor? Na Amizade? No teu semelhante? incendiou Roma não é bem maior do que S. Francisco de Assis? Incendiar uma cidade é bom, mas incendiar oÉ preferível ver um cano de esgoto em toda a sua mundo? Incendiar o mundo, ó gentes? Que grande obraporcaria a uma alma em toda a sua intimidade. Há para um caricaturista! A lama a não querer morrer, aalmas cuja treva é maior que a noite, consciências cuja fugir do braseiro...lama é maior que a de todos os pântanos da terra. Nesta hora, pensa, quanta sinceridade não haveria... noCada homem dissimula em si um trágico carnaval. egoísmo do salvamento. Que de crimes essa última horaMurger disse algures que a Vida era “uma máscara de não conteria!forçados”. E se pudesses fazer cair a máscara que cadaum afivela recuarias de terror. E o fogo, o fogo enorme, lambendo tudo, triturando tudo, por entre o rir das labaredas até que a terraÀ face da terra o homem não tem feito senão mal. Foi desfeita em cinza, como um bando enorme deele quem inventou os tronos e os altares, que fez a andorinhas, voasse pelo espaço através dos séculos.Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 5 de 20
  • T e r c e i r a C a r t a IIILembras-te de quando eu te dizia que a Vida era má, tu seco como as plantas que morrem à míngua de água.responderes “que ainda havia o Amor?” Amei rude e loucamente, com fé, com ardor. Fui desamado sempre, escarnecido, pisado.Convicto sonhavas a vida grande, auroreal, sadia, juntoduma mulher que fosse o corpo do teu corpo, a alma da Quando eu amava, rouco de dizer o meu amor, nãotua alma e para quem tu fosses sempre o insaciável dos encontrava um único coração que se me abrisse. Eseus encantos, das suas frases, dos seus beijos. então, conheci más todas as mulheres.A cada desilusão que te desse a vida tu te refugiarias Mas como hão-de elas amar-me se eu lhes não possonesse amor, turris eburnea tão alta e forte que poderia dar oiro? Que tenho eu para lhes dar? O coração? E paraolhar as estrelas frente a frente, e que nem a morte que serve um coração? Acaso isso já serviu a alguém?ousaria derrubar. Não encontrei nunca uma mulher que não roçasse aEla, a Eleita, te daria então um encanto novo para cada espinha pela minha bolsa, como os gatos quando fazemdesengano, para cada desânimo te daria coragem na ronrom aos pés do dono.Bíblia nervosa e quente dos seus braços, no anseio loucoe perfumando do seu corpo. E todo aquele meu passado amor, toda essa afeição foi como um charuto caro que alguém esqueceu acesso.Seria a Santa do teu altar, a luz que iluminaria a tua Hoje não amo nem creio, como Schopenhauer.vida inteira. Não é porém despeito tudo isso. Eu continuo a cair nosTu contar-lhe-ias os teus cansaços e ela te daria o seu braços das minhas amantes, mas julgando-as o piorcolo para descansares. E tu serias bom, altivo e amante. possível.Serias forte para a defender, criança para a adorares. Quem ama morre. Chi no stima vien stimato, diz oTerias a cada frase dos seus lábios o coração em festa. provérbio italiano. Por isso, tu, despreza os homens como desprezas as mulheres. Ai se acreditas! A mentiraOs teus beijos seriam abençoados, e ela, a Santa, seria no amor é tudo.bendita entre a mulheres. Quanta mentira não há num beijo? Quanto veneno?Quando tu tivesses sede ela te diria abrindo as veias: Quanta traição? Um beijo envenena sempre. Alguns há“Bebe”. Quando tu tivesses fome ela uniria à tua a sua que envenenam a vida inteira.boca e te alimentaria com seu hálito caricioso e quente.Viveria só para ti sem egoísmos nem vaidades. A mulher leva ao degredo, ao crime, à morte, à desonra.E seus filhos seriam belos como mulheres e fortes como Há homens que se matam por elas, que se arruínam,Deuses. que enlouquecem. Dalila atraiçoou Sansão, Margarida perdeu o velho Fausto.Isto é impossível. Onde encontraste tu uma mulher queamasse alguém? Inútil. Procurarias em vão. Uma mulher Foi ela que inventou o ciúme para nos roer, os braçosé um objecto que se usa e se põe de parte ao fim duma para no prender, o dinheiro para se vender.hora, dum dia, duma semana, duma quinzena, dum anoquando muito. Escuta! Se queres ser amado por tua mulher dá-lhe com um chicote. As mulheres precisam de ser espancadasA fidelidade aborrece. Mas há acaso alguma mulher fiel? para amarem alguém. Há nisto um fundo de verdade. A pancada é sempre mais sincera do que o beijo.Em que pensam elas? No interesse. Todas se vendem.Umas compram-se por amor, como outras se compram Mas para que amar? Para que bater? Todo o amorpor dinheiro. Varia muito o preço por que uma mulher se acabará na morte.entrega: uma moeda de prata ou um colar de pérolas,uma nota do banco ou um adereço, uma ceia, um reino, O amor é dos romances. Lá é que viveram Romeu eum capricho, um cigarro. Eu já tenho comprado Julieta, o apaixonado Rafael, Paulo e Virgínia.mulheres por um cigarro. Trasladar o romance para a vida é uma loucura inconcebível.E o que é o amor? Uma triaga deliciosa, não é verdade?A mais podre das ilusões. Enquanto o pobre D. Quixote quebrava lanças e corria mundo pela sua Dulcinea, esta aquecia a cama todas asA mulher é sempre uma criatura vaidosa e interesseira, noites a algum cavaleiro menos andante e mais positivo.balofa e irritante, como os homens são e serão semprecínicos, canalhas e traidores. Uma mulher ama por egoísmo, e só gostará de ti enquanto tu fores para ela o máximo ponto onde elaÉ a maior das egoístas do gênero humano. Seus lábios pode pousar os olhos.são uma ânfora maldita que tem no fundo a mentira.Eles derramam o crime, a cobardia, a perfídia. Se acaso a minha amante, essa criatura que tem para cada minha pancada uma carícia, encontrasse outro queSeus ventre são “sementeiras de dores” (Eugênio de fosse maior do que eu na sua retina psicológica, eu seriaCastro). preterido sem dó nem piedade.Mas porque gosto eu tanto delas? Todas as mulheres são sensuais e perversas. Toda a mulher se esquece.Toda a vida me acorrentaram à cadeia de beijos dosseus braços. Assassinaram-me a energia. Tornaram-me Se tu hoje desses a vida por uma mulher ela segredariaà força de desgostos e de irritações, eu que era uma às amigas que tu nunca passaste dum tolo que morreucriatura de pequeninas carícias, de mil afectos por ela. E o teu nome andaria em triunfo nos seuspequeninos, de pequenas coisas amorosas, embotado e lábios, como o couro cabeludo dum inimigo na mão dumPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 6 de 20
  • pele vermelha. Dias depois tu serias esquecido e já Um fidalgo nasceu tão desastradamente como um moçooutros braços teriam imprimido no seu corpo o vergão de restaurant. Ninguém diferenciará na morte umdos abraços. cardeal do seu fâmulo, um cabeleireiro dum palhaço. Não somos acaso todos irmãos, ó meu irmão canalha?Quer ela fosse actriz ou freira, ladra ou imperatriz. Da mulher do salão à mulher do esgoto há uma só“Uma mulher é capaz de tudo. Não se esqueças nunca. diferença: - a cama. A da primeira terá uma coroaAlgumas vezes, o grande manto do heroísmo não serve bordada no travesseiro. A da segunda será a cama dumasenão para esconder uma meia dúzia de amantes” hospedaria onde todos passaram, dormiram, que de(Annunzio). todos foi usada. A primeira terá meias de Escócia, mitenes de Suede, perfumes de Circássia. A segundaA mulher é um misto confuso, um amálgama singular de nem às vezes terá meias, terá as mãos calejadas elama e de desejos, de sujidades e incensos, polvilhado grosseiras e cheirará aos arrotos e suores. O amor dade oiro. primeira é uma coisa leve como um Watteau, delicado como uma porcelana cara, magnífico como uma rendaO que és tu em amor? Um Falstaff pandilha. Tua mulher antiga. O amor da segunda é uma mancha, brutal comoquem é? Uma honrada Messalina. um soco ou um borrão.Antes de tu a conheceres e a arredares de corpo e alma, Não é verdade que uma rameira se entrega a um ladrãotinha ela olhado aquele militar que além passa e uma açafata a um príncipe? Mas há marquesas quepresumido; este estudantinho loiro; aquele caixeirola prostituem os cocheiros, condessas que levam murrosimberbe; os dentes brancos deste, a cabeleira daquele, do criado, servilhetas que são as baronesas dos barões.os pardessus e as botas daqueloutro. Pensa bem. Não há crime nenhum que não tenha saídoA sua alma fora uma hospedaria. Todos lhe convinham. dum ventre duma mulher, nem que uma cova nãoFoste tu afinal o que ficaste. contenha.Nunca pensaste em que tua mulher cismasse em quem Uma mulher? Mas o que é uma mulher? A mulher é oseria que a desfloraria se não fosses tu? Quem seria? gozo. Tira-lhe a formosura e o que te fica? Nada.Que abraços o outro lhe não daria? Com que beijosloucos ele contaria as rugas do seu corpo? Mulheres honradas! Nem tua mãe!Todas as casada ou são Teresas Raquin ou se chamam Tu sabes quantos adultérios praticou tua mãe para comBovarys. Todas elas traem o marido com o seu Rodolfo e teu pai? Nenhum. O que nunca, nuca tu me poderáso seu Leon como na Bovary, de Flaubert. Estes ainda por dizer é quantos ela pensaria em praticar.seu turno as atraiçoam e são atraiçoados. Para seres feliz no Amor precisas de ser como na Vida:Pergunta a tua mulher se alguma vez que ela precisou egoísta, seco e mau. Se não fores infame, serás imbecil.de recorrer ao amante não teve, ainda como na Bovary, Se fores romântico, sonhador e amoroso, elassomente um riso ou uma recusa como resposta? inventarão para crucificar a tua paixão mil laços traiçoeiros, mil enganos, mil atrocidades.O Desejo é o Waterloo de homens e mulheres. A mulherque nunca se entregou cisma em entregar-se. A que se Se estimares tua mulher serás atraiçoado por ela, comoentregou cisma em entregar-se novamente. se estimares tua mão ela te difamará. Sê orgulhoso! Uma mulher? Há tantas mulheres por esse mundo! UmToda a carne tem cegueiras de desejos a que ninguém amor? Tantos amores virão substituir este!pode resistir. É o Desejo que fustiga com suas unhasdeliciosas a alma dos eremitas e faz pela calada dos As mulheres ou se castigam ou se desprezam. E seclaustros mortos, na paz silenciosa das celas sonolentas, desprezares a tua amante, ela inventará carícias milciliciarem-se mutuamente com seus corpos em brasa as para te apaixonar, te agradar, te satisfazer. A sua bocairmãs da caridade. ardente carregada de beijos como uma árvore carregadinha de flor, tatuará no teu corpo uma legendaO Desejo é tudo. Irmão do Oiro tem com ele a sua extraordinária de dedicações e de carícias. Sê, pois,genealogia do crime. canalha com as mulheres que elas gostam dos infinitamente canalhas.O que quero eu da minha amante? O seu corpo, essecorpo nervoso que se estorce e se agita ante os meus O dilema é este: beijava os pés a minha mulher e elabraços e onde há tempestades de delírios, catadupas de atraiçoava-me, bato-lhe e ela adora-me.beijos, explosões de luxúrias com arrancos decrucificada. No Amor, como na Vida, de quem é o triunfo? Dos fortes, dos que mentem, dos que batem, dos queSe ele, esse corpo que eu adoro e beijo, apodrecesse de falseiam.repente, florisse todo numa chaga aberta eu desprezá-la-ia. E seria para mim como o corpo dessas cortesãs da Se queres ser feliz sê, como eu, brutal na posse, canibalplebe, noivas de toda a gente, que todos possuíram ou na ambição, sem uma aresta de apego a uma alma,podem possuir e no qual eu teria asco de tocar. pisando sempre, avançando sempre, crânio de sílex na energia, coração de sílex nas dedicações e nas torpezas.Assim como na vida não há senão interesses, no amornão há senão desejos. O Amor faz tantos crimes como a guerra. Foi por amor que a minha vizinha fronteira despedaçou do quartoÉ o Desejo que irmana a concubina da mulher honesta, andar o corpo na calçada. Que este homem se deitouo pobre do rico, o bom do mau. Acaso a alcova duma nos rails à passagem do comboio. Que aquela costureirahonesta não tem visto bastantes prostituições? Há tomou fósforos e está no hospital. Que esta afivelou àrameiras que são mais sóbrias e mais recatadas a rival uma máscara de vitríolo que o tempo não apagará.entregar-se do que a mais honesta das mulheres. Foi por amor que este homem roubou a casa ondeCada criatura tem latente em si uma Sodoma. estava empregado e se matou quando lhe bateu à porta a polícia; que este outro, que tu não conheces, vem terTodos nós somos iguais. Filhos da Luxúria, escravos do comigo pedindo-me dinheiro para mandar um ramo àGozo, servos do Interesse. Iguais no nascimento e iguais sua actriz, que o despreza, oferecendo-se-me em trocana morte. para matar um homem se preciso for; que este mancebo que passava todos os dias na minha rua, pensativo ePalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 7 de 20
  • tristonho, apareceu um belo dia enforcado no seu sempre aberta que sangra e que cheira mal...”quarto; que aquele delirou de amor e acabou morto de (Annunzio).frio numa rua. Que este homem se arruinou ao jogopara dar à amante; que este matou e foi degredado; Há homens orgulhosos que pedem de joelhos perdão àsque este roubou, entisicou, está na cadeia ou no mulheres. Mulheres orgulhosas que sofrem em silênciohospital. as pancadas dos maridos, dos irmãos, dos amantes.Isto ainda não é tudo. Há tragédias misteriosas, mortes E como o Amor tudo transfigura, das rameiras fazignoradas, casos frustes, que, se se fossem a desvendar, santas, dos feios faz belos e arma os fortes em fracos;aterrorizariam um comissário de polícia. livra-te pois do Amor para que não sejas desgraçado.A mulher é o crime. É mentirosa, é cínica. Mente por Lembra-te sempre de que ele é a pior e a maisvaidade, crucifica por prazer. São os seus encantos, a enganosa das realidades, a mais disfarçada das ciladas.carne palpitante, os cabelos, os beijos, os gozos queamolecem a energia, a espinha, a cabeça, o orgulho e o Ai de ti se nele acreditares! Quem ama morre, quemdinheiro. É aquela “chaga original, a vergonhosa ferida ama avilta-se tão baixo que a própria lama tem ainda que descer muito para lá chegar.Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 8 de 20
  • Q u a r t a C a r t a IVHá uma tela de Rochegrosse intitulada Angoisse fábricas atiram para os astros o seu fumo apodrecido ehumaine. É um quadro que representa a vida. No gasto, como um hálito maldito e dosolador.primeiro plano muitas criaturas erguem o braço parachegar mais alto. Homens de casaca tão correctos comose fossem para um baile. Há mulheres decotadas A minha casa deita sobre a cidade e sobre o mar. Lá emvestidas em rigor. Homens condecorados e homens baixo ficam os seus hospitais, as suas prisões, as suasbanais, e moços, misturam-se e empurram-se, velhos morgues, os seus cemitérios, igrejas, calaboiços,disputando-se numa agonia pavorosa, num combate penitenciárias, hospedarias e albergues, docas, oficinassem nome. e quarteis. Seus bairros magníficos e seus bairros pobres. Lá moram os que se embebeda e os queAquele monte é a Ambição de subir, de que fala Vieira. esmolam, os que têm dinheiro, os que não têm trabalhoAtrás, pela riba acima, numa escalada vertiginosa, e os que portam mal.aparece uma maré cheia de cabeças ululantes,estranguladas pela ambição, correndo, empurrando-se, Os telhados amontoam-se e o sol, que agoniza para lápisando os que ficam, agarrando-se de pés e mãos, da barra, põe grandes retalhos de oiro fulvo nocomo se após viessem também correndo numa agrupamento irregular e caprichoso dos edifícios e dasperseguição fantástica, as ondas dum novo dilúvio. moradias, afogueando o horizonte num clarão de autora.Todos daquela multidão ávida querem ser os primeiros. Bolaiça no ar pesadamente uma fumarada espessa comoO lugar é disputado a soco, a murro, a dente. O caminho um nevoiro, feita de mil suores, mil respirações, milque na vida leva ao triunfo é uma cena medonha que hálitos diferentes, desde o hálito do bispo ao do bêbado,mais parece a fuga duma derrota. do do órfão ao do mendigo, do do chocheiro ao do sacerdote. E como o fumo, paira no ar a Babel dosTodas aquelas cabeças têm o rictus dum Tântalo ruídos, um rumor confuso feito do ralo das agonias aosupremo. São gastas, cansadas, lívidas. Os rostos são estrupido das pragas, do das cantigas ao das disputas. Opálidos, suados, cor de terra, um não sei quê de loucura ruído das máquinas que rangem, chaminés quee de pesadelo; os olhos brilhantes, emoldurados no resfolgam, peitos que respiram, olhos que choram,bistre das insónias e dos tormentos, as mão crispadas, garantas que soluçam, corpos que tombam. Orapaces, em foice, os vultos rembrandtescos. São desabrochar das violetas no canteiros e das rosas nasferozes e são crúéis. jarras dos salões, subtil como um aroma mistura-se com o ruído tamborilado e convulso, como um rufo deA tela é violenta e verdadeira. A vida é aquilo, assim pandeiro, das carpideiras de enterro. Os gritos e asenérica, sinistra, brutal. Não há trégua, não há pragas dos vencidos baralham-se com as exclamaçõesdescanso. Cada um vigia sempre o seu vizinho, espreita de triunfo dos vencedores.se ele cai, e tripudia, espreita se ele sobe, e inveja-o. E quantas cidades tem o mundo? As cidades quantasHá um homem de peitilho engomado e cabelo colado almas? As almas quantas tragédias? Toda a gente temsobre as frontes que, sentado, morto, segura não mão em si a sua tragédia. As próprias coisas mudas, a lama,inerte e suicida, a coronha dum revólver. o pão e o vinho, a pedra da calçada, a labareda e a gota de água, o verme e a planta a têm.Um grande homem brutal, de camisola, pulou, destruiuo último tapume, frágil afinal como uma convenção, e Pensaste alguma vez na tragédia duma cama decontinua avançando sempre. hospedaria, na das enxergas dos hospitais, na duma ladra, duma mortalha ou duma camisa de rendas? NaToda aquela populaça, todas aquelas criaturas cuidam só tragédia das bandeiras esfuracadas de mil batalhas, naem subir. A certa altura a Morte fixa-as com suas dos afogados no alto mar, na dos violinos, na dumpupilas de aço, hipnotizantes, e elas caem, rolam, náufrago da Medusa ou na da princesa de Lambelle?afundam-se lá em baixo, onde as espera uma cova Tudo é tragédia desde a tragédia do parto à tragédia doaberta, algumas sem terem chegado, outras que estertor.pararam finalmente, levando nos olhos um pavorincerto, qualquer coisa de espantoso e indescritível que Quem poderá saber a que há na frauta dum pastor e nofaz parar o sangue nas artérias. leito duma rainha? A tragédia que houve na alma de Vaillante o anarquista, e na de Tintoreto o pintor? Na dePor cada um que tomba avançam mil. Trava-se um Alexandre o grande e na de Sócrates o estóico? Na lamacombate em que o mais cruel, o mais forte, o mais de Jesus e na alma de Marat? Quem sabe o que vai nacanalha, é o que triunfa. Nada de piedade nem de alma dos clowns e na dos pescadores? Na dos loucos ecompaixão. Se não esmagares serás esmagado. Não há na dos maus?tempo de olhar, nem de pensar sequer. Avançar sejacomo for, custe o que custar. A tumba dos pobres, o carro celular, a vala, a serapilheira, o caixão, as costumeiras, os vagabundos,A vida é dos de coração gelado e hirto. Amanhã é tarde, as cigarreiras, os emigrantes, os degredados, osdepois é impossível. Tudo na vida é mudável, tudo na cavadores, os homens de génio, as que não têm leitevida é transitório. Tudo passa, tudo esquece. A criança nos peitos, as que arrastam um coração sem amor, osserá homem, o lacaio será senhor, o arbusto será ninhos abandonados, tudo, de tudo isto quem sabe aárvore, o ontem será hoje, o bom será mal. Ai dos que sua tragédia?param, ai dos vencidos! E a tragédia das que têm livro às quais a polícia rouba eAquela cena é bem a Vida, esta luta brutal e torturadora o amigo espanca?que começa quando o sol se ergue loiro e triunfantepara só terminar às horas em que tudo parece desolado O Hamlet cismou na tragédia da caveira. Quem cismaráe morto. agora na da cidade?O crepúsculo cai suavemente. Ao longe a casaria branca O corpo duma cortesã tem a mesma tragédia do que umduma cidade adivinha-se. E as altas chaminés das prato de hotel ou um copo de botequim. Por todos servido, por todos usado, o prato e o copo quando sePalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 9 de 20
  • partem o seu destino é o lixo. A mulher quando sabe como, paridas não se sabe aonde, as filhas dasenvelhece e morre, o seu destino é a vala. Não serão ervas, filhas da rua.pois, copo, prato e mulher inteiramente iguais? Nos bancos sombrios do square há vultos enigmáticos,Algumas vezes a tragédia é caricata, é pândega, dá suspeitos, órfãos cujas almas são os ímans da desgraçavontade de rir. Mas nunca ninguém riu da que consigo de todo o mundo, e à esquina das ruas pedem esmolaarrasta. velhos patriarcas como castanheiros centenários, filhas que fugiram aos pais pelos amantes que asA cidade, como a vida, é ignóbil. Ali, tudo se vende. abandonaram, pais que os filhos expulsaram de casa,Quando custa uma virgindade? A glória? A fama? Um mulheres que outrora foram belas e faladas.beijo? Uma alma? Um jantar? Um enterro? Embuçada num portal uma criaturinha esguia e franzinaQuem é senhor do mundo, senhor da cidade, senhor da como uma santa, silenciosa, estende a quem passa aaldeia, senhor do campo? O dinheiro. É ele que faz mão afilada e transparente e todos se afastam com ocantar às almas as óperas da torpeza e do interesse. É rancor - enquanto ela lá continua, no olhar a nostalgiaessa lama bendita com que se compra o céu. Para o das que passam os dias a tossir.alcançar todos os dias o sol vê crimes inauditos e ahumanidade se afadiga e sua e chora. Não há crenças, Há carnes nuas que o frio corta e a nortada arroxeia anem escrúpulos, nem religiões. É aquela luta brutal da par de equipagens arrogantes mais brunidas que a águatela de Rochegrosse. cristalina; vestes roçagantes e sumptuosas, arminhos e púrpuras, crachás e andrajos. Passeiam na mesma rua aA honra? A honra é uma fórmula, É pagar uma letra no majestade e o andrógino, a bêbada e a duquesa, eseu prazo com dinheiro que se ganhou a traficar encontram-se muitas vezes no mesmo olhar os olhosescravos; é ser torpe sem que ninguém o diga; é roubar que são alvoradas e os que são crateras sempre emsem que o roubado acuse. perpétuas erupções de lágrimas.Há mulheres sem honra que todos cortejam, virgindades E na sombra, há criaturas emagrecidas pelas privações,imaculadas que todos desprezam. recantos sinistros de infâmia onde a luz debuxa, às vezes, a traços esguios e esqueléticos, uma caricaturaReligiões? A religião é uma comédia cuja representação que em lugar de fazer rir faz arrepiar; há gestos dejá dura há séculos. Fez sucesso! é uma coisa fútil e revolta, meio esboçados, repelentes, grotesco, divinos;extravagante que se parece com as histórias dos punhos erguidos, caras crispadas, criaturas capazes degnomos e das princesas encantadas. Quem a não tem, agatanhar os pais e lhes arrancar os olhos para castigocompra-a. Para que servem os padres senão para de as ter feito vir ao mundo.“venderem Deus por grosso e a retalho” - (Zola). E pensa a gente se foi só para todo este lodo, toda estaRelicários, cultos, milagres, o céu, bênçãos, mitras, amargura, que sofreram todas as mulheres as dores dobáculos, tudo isto está em leilão. Quem oferece? Quem parto.dá mais? Bizarramente, ao longe, silenciosa e erma como umÀs vezes as religiões pregoam entre os homens o Bem, túmulo, esgarça-se a brancura duma casita abandonada,a Paz e a Igualdade. Mentira, tudo mentira! Olhando e mais distante, na solidão duma encosta verde, umasbem a vida lá está sempre no fundo a sua face austera e árvores, com o seu reumatismo eterno, descarnadas,verdadeira - uma Saint-Barthélemy. com seus troncos como aranhas monstruosas são tristes como a noite e como a desolação.Que tragédia risível, grotesca, bizzara medonha, sofrida,desesperada e lancinante não é o mundo? A vida? A O sol agoniza e a sombra que desce lentamentecidade? amortalha a terra com os seu manto funerário. Depois surge no céu a lua, muito grande, branca como a faceLá em baixo nas vielas sujas ou no boulevard caro, a luz duma defunta ou ensanguentada como a cabeça dosdo gás, que baila a dança de S. Vito, pões lívida a carne, guilhotinados. Então por toda a terra se eleva o chorolívida a alma, lívido o sentimento. das ribeiras soluçantes, o ciclo longo das folhas que se abraçam, enquanto distante um ou outro galo perdidoHá lá ruas inteiras de toleradas, ruas de loiras solta o seu grito de alarme como o das sentinelas à voltaperfumadas de falas tão lânguidas como fúcsias, de das prisões.morenas de beijos tão doces como medronhos, de ruivasde cabelos tão fulvos como o poente. São as filhas dos E eu, debruçado sobre a cidade, escuto o seu respirar eoperários que espancam as mulheres quando chega à sinto elevar-se da treva densa que abraça o mundo,noite a casa, perdidos de bêbados; são as filhas dum num surdo formilhar, o arfar de mil opressos peitos queventre que não tinha nome e cujo pai é toda a gente; mal respiram e que semelham o ralo estertoroso de milsão aquelas que tendo vendido tudo se vendem afinal; agonizantes.são a legião enorme e interminável das nascidas não sePalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 10 de 20
  • Q u i n t a C a r t a VPratica sempre o crime, consciente, ferindo, dissimulado. amigo, quando tenho a certeza que, certo daSê sempre mau e faz sugerir aos outros que és bom, sê impunidade, me esfaquearias no escuro duma viela,sempre torpe dizendo-te honesto. Nada de violências. imperturbavelmente.Hipócrita, cauteloso e subtil, conseguirás tudo, serástudo, terás tudo. Uma hora de amor duma casada, uma O que és tu? Um egoísta. Egoísta nos sentimentos e nacondecoração, um emprego, a confidência dum segredo torpeza, na fuga e na vaidade. Tudo tu fazes porque compromete, dum vício que aviltece. egoísmo. Se tu tivesses tanta fome como a tua mãe e só houvesse uma côdea a disputar, tu espancarias a pobrePara isso é necessário saberes insinuar-te, que a velha para lha roubares. Vamos ao caso que lha davas?questão está em ter manha. Que preferias morrer de fome? Se o tinhas feito é por que isso te satisfazia, te enchia a vaidade de morreresDissimula rindo, ri refletindo. As tuas ambições, os teus por alguém - tu que és o maior egoísta que o sol cobre.egoísmos, os teus vícios e as tuas qualidades, tudo issose mascara. Chama-se fidalguia à ambição, ao egoísmo Que tu dás a vida por mim, que tiras da tua boca paradesinteresse e ao vício honradez. dares à minha?! Egoísmo, tudo egoísmo. Se o fizeste foi porque isso te deu prazer e nada mais.É só trocar os rótulos ao sentimento. Compaixão? Porque hei-de eu ter compaixão de ti?A mulher que se não dá, viola-se, mas nunca empregues Sofres? Muito bem. Mata-te. A morte é amante que teviolência. Sê pequenino, diabólico e traidor, inofensivo e espera. Ela tem suavidades como nenhuma irmã,paciente e ela te abrirá os braços sorrindo. carícias como nenhuma mulher.Sê inacessível à piedade, à compaixão, ao amor. Um conhecido disse-me um dia:Despreza sempre os outros. Quem sabe se a sua torpeza Tu vais por uma rua com teu pai, teu irmão, qualquerserá maior do que a nossa. Lembra-te que há muito pessoa que te seja mais que a luz dos teus olhos. Aocanalha por esse mundo que nunca conseguiu nada meio da rua há um prédio em construção. Tu separas-teporque não soube orientar a sua canalhice. por qualquer motivo de teu pai - seja - e ele vai andando. Quando passa pelo prédio, um andaime vem láO Mal e o Bem, a Verdade e a Mentira, o que são? de cima despenhado e esborracha o velhote. Junta-sePalavras, só palavras, nada mais. gente, tu chegas, e quando o vês num lençol de sangue, o teu primeiro pensamento, será - juro - se eu venhoO homem é um enigma. Quem sabe quantas raivas eu com ele?!...tenho quando estou rindo? E eu concordei.Quem sabe se eu falo mentira, se eu digo a verdade? Ela perdoa, redime e liberta. Ela, que é boa, tePode alguém ao certo saber alguma coisa? recolherá. Não terás fome, nem frio, nem fadiga. Não lembrarás ninguém, nem ninguém jamais se lembraráO riso e o choro são duas máscaras iguais. E a ciência de ti. A mulher que tu amaste continuará a passar àda vida é sabê-las afivelar na oportunidade. Se alguma minha porta vaidosa e descuidada. Terá um novocoisa quiseres ser tens que ser assim por força. amante a quem adore. O sol continuará a nascer e a morrer todos os dias, imperturbavelmente. As terrasA Vida? Ah! não é bem o que nós idealizamos. E vós continuarão a dar pão, os ventres a dar filhos, asoutros que ainda tendes crenças e ainda tendes ilusões, árvores a dar flores. Os beijos, a amante, o pão, asvinde ouvir a minha voz cansada mas experiente. árvores e as flores tudo o tempo há-de tocar com a sua mão gelada.Para cá chegar eu tenho vindo sendo um Stradivarius,pernoitando um pouco em todas as almas, Tanto desfaz um lírio como uma mulher, uma estátuaexperimentando um pouco todas as mulheres, como uma catedral. Júpiter o supremo, Brahma oconhecendo demais todos os homens. criador, Baal o todo poderoso. Allah e Abraão, Ahasverus e Adonai, a Bíblia e o Alcorão, assombros, religiões,Eu sei da vida histórias terríveis e melancólicas que cultos e profecias, revoltas e multidões, impérios efazem tremer de horror os que não tremem nunca. embaixadas, tudo ela sumiu e levou. E tudo, desde o frágil ao grandioso tem o mesmo destino.São, ó tu que nunca viveste, nunca analisaste, as ante-salas dos hospitais, os bairros onde é perpétua a Persistes em viver? Então dá-te isso gosto! E hei-de eumaresia da desgraça. São os outros, somos nós todos. A ter compaixão de quem vive satisfeito na sua dor?!...Vida? Ah! Isto é um tragédia bem torpe. Intimamente tu não amas, nem crês! Que adoras muitoAuscultei uma geração inteira e todos achei egoístas, tua mulher, e fugirias dela se lhe nascesse um cancro nacorruptos e selvagens. A cada momento tenho que me cara!abotoar e tomar resolução para não ser roubado e mortopelos meus irmãos em Cristo. Em que acreditas? Em que pensas? Em que outro caia para que o seu cadáver te sirva de trampolim, em queAi de ti se acreditas em alguém ou em alguma coisa. A outro suba para que tu o enganes.Esperança é como um teia de aranha. Se lhe tocaresdesfaz-se-te não mãos. Chamo-te corrupto, e tu não coras. Esbofeteio-te e já não há sangue que te chegue à cara. Asseguro-te que seTudo no mundo vai pelo pior possível. Disseca uma por assim continuares será um impossível que não cheguesuma todas as ideias, todas as palavras, todos os a ministro, a génio, a Rothschild, a cardeal, a marechal,sentimentos e vê que podre não é tudo aquilo. Disseco- a tudo enfim que já de pé humano foi pisado.me a mim mesmo, e de tudo isto só achei egoísmos,vaidades, securas e aridez. Tudo mentira, tudo Tu não nasceste para outra coisa. Matarás teu próximoconvenção. O bem é uma convenção, o Amor é uma quando ele te sirva de estorvo, matarás teu pai se ele teconvenção. é por convenção que eu te digo bom, negar o pão que o estômago faminto reclama. Pesaquando tu és um negreiro; honrado, sabendo-te infame; sobre ti a mais execranda maldição. Caim foi teu avô,Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 11 de 20
  • Impéria foi tua avó, e tens dentro de ti a seiva imunda No dia em que tiveres fome é inútil pedires, queque faz nascer o louco e o assassino, o cobarde e o nenhuma porta se te abrirá.regicida. No fundo somos todos secos, egoístas e sórdidos. QueO que és? O que serás? Lama que se transforma em me importa a mim que tu padeças e que chores, que oscinza. Cada gota do teu sangue se mudará num verme, outros vivam ou que eles morram?cada verme se mudará em pó! Para me servir, eu sacrificar-te-ia sem dó, nem piedade.Nunca acordaste com a boca seca, a alma seca, sem Não tenho pão? Roubá-lo-ia. Para o conseguir, ai de ti selágrimas nos olhos e uma grande vontade de arranhar te atravessares no meu caminho.as chagas dos mendigos, envenenar a alegria alheia esovar a mulher que dormiu contigo? Criatura irritada e E a Lei? A Lei é uma cobardia. Quem fez a Lei? Umirritante, tão seca como as folhas mortas que tombam evadido de galés.na poeira dos caminhos! Com dinheiro comprarás um código inteiro de leis, osPerguntarás porque sou eu assim! juízes, os belequins, os papéis.Todavia eu tive mãe que me cantou para eu adormecer, A Justiça humana é uma roda velha que ameaça ruína aamores por quem andaria a rojo toda a vida, amigos por cada momento. O azeite é o dinheiro. Quando deixa dequem daria o sangue dos braços. se azeitar a roda, esta enferruja e pára.A mãe morreu e eu comi o pão que os parentes dão por Dinheiro! Meu senhor e Deus! Por ti eu levaria meu pai àesmola, dormi ao relento, ao frio, à chuva. forca ou salvava-o de lá; esbofetearia minha mãe, bateria em meu irmão, prostituiria minha irmã ou seria oOs amores mentiram-me, os amigos atraiçoaram-me. pai do seu filho.Fiquei só e seco. Para que nasci? Não sei. Que tenho eua esperar? Nada. Hoje odeio. todos nós odiamos. O Mas o remorso, perguntas tu?vento - Ahasverus errante sem descanso - quando passaganindo pela amplidão, trazendo de longe o seu furor, O remorso é uma larva que ainda em vida se arrastatambém por certo deve odiar assim. O pobre odeia o sobre os corpos. Muito bem. Sacode a larva.rico, o velho odeia o moço, o fraco odeia o forte. O ódiovem de pais a filhos, de avós a netos, das gerações Sinto às vezes remorsos de não ter feito o mal. Hápassadas às gerações presentes. criaturas que ainda à porta da eternidade, erguem o punho como uma clava, para esmagar o mundo. Ah!Nunca te debruçaste na alma dum paralítico? Pois a como eu me rio.qualquer momento que o fizesses havias de o encontrarabsorto na raiva de toda a humanidade não ter, como Os mendigos não têm coroa? Que a roubem. E um diaele, a sua cadeira de rodas. eles roubá-la-ão.Este meu ódio decorei-o entre uma côdea que se come e Cada vez nos espoliamos mais uns aos outros. Nãoum pontapé que se apanha; uma esperança que mentiu confies nunca. Não te abras com pessoa alguma. Cadae um amigo que atraiçoou. Quando eu fui mendigo e semelhante é um inimigo, em cada irmão há sempre umquando fui ladrão, quando fui cocheiro e polícia secreta. Caim; como há um Judas em cada amigo. Acredita! Tu andas rodeado de traidores.A inveja é um crime. Todavia há quem inveje a doralheia só porque ela passa mascarada. Passam os No dia em que sentires piedade pelo teu semelhante fazalegres, os banqueiros, os nabados e os simples, toda estalar o crânio com uma bala.essa malta pícara dos felizes diante da qual eu sinto araiva fria e surda que acomete um eunuco diante duma Tudo se disputa. Somos um bando de corvos para umamulher nua. Será mentira que eles não tenham alguma caveira só.dor? Todavia a Bíblia diz “que ninguém vive no mundosem alguma tribulação, ainda que seja rei ou papa”. Sê corajoso. Olha quantos são para uma mulher, para um taça, para um lugar.Então aqueles malditos não hão-de ter mágoas, nemsofrimentos? Até na minha rua uma pequenita, grácil como um anjo, sabe toda a cabala infame do deboche e entra com osQuando vejo alguém sonhando, ter esperanças, todo eu homens nas escadas a propor-lhes coisas desonestas,me regozijo: chego mesmo a fazê-las maiores. roubando assim o seu comércio àquela mulher fanada,Intimamente rio e espero. O tempo virá e deitará toda que nos espera à volta da rua, para ensaiar o seuaquela caranguejola ao chão. melhor sorriso.Com que contentamento eu vejo à minha volta O que é a Vida? Arranjar-se.acanalharem-se as multidões; as injustiças que seamontoam, as chagas que se abrem na carne baptizada. O lugar na sociedade está na razão directa do carácter do indivíduo e da canalhice por ele desenvolvida. Vê-seIsto não acabará um dia? às vezes que os emolumentos do crime são ainda um grande coisa. A vida tem que ser isto. E tu, escuta bem,O que é a Fé? Um burla. A Amizade? Uma servidão. A nunca serás nada se assim não fores.Caridade? Um crime. Nada de sonhos, nem de quimeras. O sonho é a redeNão dês esmolas nunca. Dar de comer aos que têm que a Vida deita para nos demorar e nos prender. Ai dosfome é dar forças a quem nos há-de espancar. que sonham, ai dos vencidos.Dando esmolas, fazendo o bem, sendo generoso, A Vida é prática, metódica, decisiva. Os ponteiros docompassivo e bom, qual será o teu fim? Rebentar ao relógio do tempo não param nunca. Deixa falar os outroscanto duma rua sem ter quem te chegue um caldo, não que pregoam o Bem, a Igualdade, a Vida boa e grande.é verdade? Pois em vez de esmolas dá chicotadas, emvez de consolações dá pragas e más falas, que Não é o teu esforço que vai endireitar o mundo. Sêconseguirás o mesmo fim. Faz-te caridoso que irás dar sempre mau, orientado, sabido. Tudo o resto sãocom os ossos à tumba do hospital. cantigas. A vida é só uma e mesmo sem querer aflora- nos aos lábios aquela frase verdadeira que Dostoiewski põe na boca duma das suas personagens: “eu não tenhoPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 12 de 20
  • senão uma vida, não estou para esperar a felicidade Mas ninguém se lembra de que louca não é toda estauniversal!” ambição, todo este esforço, toda esta ânsia. A terra alimenta-se de corpos, bebe lágrimas e bebe sangue.Mas que queres tu, afinal? Que quero eu? Subir. Como, Um coveiro abrirá a cova a outro coveiro; um dianão importa. Acaso sabendo alguém que tem um meio sucederá a outro dia; uma dor virá precedida de outrade vencer se deixar derrotar? dor; um carrasco decepará outro carrasco. E imutavelmente tudo assim continuará.Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 13 de 20
  • S e x t a C a r t a VI “Como pode ser amada uma vida cheia de tantas amarguras, sujeita a tantas calamidades e misérias?” Bíblia “Os dias desta vida são poucos e maus, cheios de dores e angústias, neles se mancha o homem com muitos pecados, se enreda com muitas paixões, se molesta com muitos temores, se diverte com muitos cuidados, se distrai com muita curiosidade, se embaraça com muitas vaidades; onde é cercado de muitos erros, gastos de muitos trabalhos, perseguido de tentações, enfraquecido com delícias e atormentado com pobreza” Imitação de CristoSob a luz esquia e pobre do meu quarto de invejoso e atravessará com ele todas as idades. Quer ele vá aoodiado, tenho agora, a hora alta da noite a que te silêncio da Trapa ou à solidão das minas subterrâneas,escrevo, um farrapo de jornal que, laconicamente, tenha palácios e odaliscas ou ande sobre a água dosnoticia o suicídio dum marçano de 15 anos, que deu um mares.tiro num ouvido. E eu, sem mesmo querer, surpreendi-me a cismar na tragédia daquelas quatro linhas do E qual será a compensação de tanta angústia? Qualjornal. A criança deu-se a conjecturar se isto valeria a será? Nenhuma.pena. Encontrou-se farta de cismar e de chorar, só,escarnecida e pobre. Rezou. A mãe devia por certo ter- A vida só tem uma única alegria. A de morrer. Não disselhe ensinado orações. Ninguém a ouviu, ninguém a Sólon esta verdade cem vezes confirmada: “Nenhumatendeu. Os homens eram mesquinhos, o céu era calmo homem se pode dizer feliz: enquanto respirar estáe indiferente. Mas a Providência? Deus? Onde estava sujeito ao sofrimento”.essa camarilha ignóbil de profetas, de virgens e demilagreiros? Para que trabalhar, para que ser grande, ó tu que tens ambições e que te consomes a lutar? - “Os homensE o pequeno herói, a quem a vida fechou todas as superiores acabam tão vulgarmente como os imbecis”portas, teve então na sua lógica férrea a dedução de que (Zola).a única providência seria aquela bala bendita que,furando-lhe os miolos, lhe levou a alma ao Não traz cada rosto a máscara de mil dissimulações?esquecimento. Não tem cada alma a recordação de mil infâmias?A batalha da vida só tem duas fases: ou vencer ou fugir, Tudo na vida é engano, tudo embuste, tudoporque para os vencidos não há piedade. dissimulação.O suicídio é lógico, é justo, é necessário. Para que se Que importa que tu trajes de holanda e de brocados, devive? Para sofrer? Onde existe a verdadeira felicidade, a sarja ou de burel, se debaixo dessas roupagens o corpoverdadeira paz? Na morte. “Ali os ímpios cessarão de é sempre a mesma carne imunda e desgraçada?tumultos e acharão descanso os cansados de forças”(Bíblia). A veste é uma máscara, a palavra outra máscara. O riso e o choro o que são senão máscaras?E todos os dias e a todas as horas, a todos osmomentos, a peregrinação à morte é tão grande que faz Tudo no mundo mente. Para que foi feita a palavrapensar em que já não há, no mundo, vencedores. senão para mentir? (Talleyrand). A palavra disfarça a alma como a veste disfarça o corpo. Ai de nós, seA tragédia do suicida, a sua história, é sempre a mesma. alguma vez disséssemos a verdade!História trágica amassada de lágrimas e desesperações.Quer ela seja daquela costureira que cansada de lutar “A vida é uma peça, e quem a acha má tem doisem vão, meteu um fogueiro aceso no quarto e se deitou recursos: pateá-la é o meu caso; ou ir-se embora, o quetranquilamente; quer seja a do que se envenena como é o caso dos suicidas. Suportar a farsa toda, lá porque aChatterton; se deixe picar da áspide, num leito de maioria gosta dela, um disparate! Os que se matamrainha, como a amante de Marco António ou se deixe pagaram também o seu bilhete, e muito é que nãocrucificar como Jesus. Quer estoire o crânio como Camilo reclamem o preço à saída, nem incomodem os que ficamou como o marçano, ou, como a minha vizinha, se deite a rir na platéia”. (Fialho dAlmeida).da janela à rua. Quer abra as veias num banho deperfumes, com a sua Eunice, como Petrónio ou se Se infalivelmente a morte há-de um dia parar à tuatrespasse com a própria espada como Saul; abra o porta, porque não irás tu ao seu encontro? “Para queventre como um japonês ou beba aguardente como Poe, queres dilatar de dia para dia o teu propósito? “como Hoffman ou como aquele homem que eu encontro (Bíblia). Acaso a morte te faz pavor? Quem é morto nãotodos os dias avermelhado e balofo. sofre nem pensa. Ser terra, ser rosa ou ser pó que maior aspiração pode existir? Quem sabe o que sereiO homem será sempre perseguido da dor. depois de morto? Que serás tu? Estrume que fecunda a terra? Trigo da eira? Areia do deserto que o simumNão lhe poderá fugir, nem a poderá cansar. Ela irá com arrasta? Castanheiro ou flor do campo? Excremento deele a toda a parte, percorrerá com ele todos os países,Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 14 de 20
  • ave, crânio de herói, beijo de imperatriz, sonho decortesã? Há vinte anos que o como. E para qualquer que me volto encontro sempre o mesmo desdém, a mesma solidão,Mas que importa que o meu corpo sirva de repasto aos como se todo o mundo estivesse gafo dessa gangrenacorvos ou seja devorado pelos cães, contanto que eu de más vontades e rancores. Hoje estou seco como anão sinta esta ansiedade louca que me devora e me charneca batida da soalheira.envelhece! Para vencer todas estas dificuldades preciso de oiro. ESe há dias em que até me apetece ser verme!!! ouve bem: hei-de tê-lo. Ainda que para isso seja preciso matar um homem.Para que serve a vida? A vida é o sofrimento e o únicoremédio está no “aniquilamento do globo e dos seus Eu luto, eu sou forte, porque tenho a Morte pelo meuhabitantes, pela ciência humana, conscientemente lado. E querendo eu morrer nem os homens nem Deusdirigida a esse objecto” (Hartmann) me poderiam impedir.Eu não quero nem posso mais sofrer. “Vê-se então que a Morte é um remédio e que ela vem em socorro dos destinos que sentem dificuldade emMato-me. Quem se importará com isso? Deixará a terra cumprir-se” (Michelet).de girar, os ventres de parir e a humanidade desofrer?Quem condena o suicídio? A Igreja? Mas a Igreja Qual dentre vós, que gastastes a vida britando o Sonhopode lá condenar alguém? pela brutalidade dos outros, vos não surpreendestes cansadamente murmurando: “Não quero continuar aA vida é uma infâmia. Para que viver? E esta pergunta, viver uma vida sem carinhos e sem fé; vou ter com oscem vezes repetida, nunca encontrou resposta. Que que morreram” (Maxime du Camp).somos nós? Lama nascida da lama e que em lama setornará. A Morte é a redenção, e aquele que se mata é sempre com razão que o pratica. E quando, alma blindada deNada sabemos e nada podemos. Todo o esforço é inútil, desesperos, determina travar a sorte malfadada,toda a dedicação perdida. Olhando bem o fundo às pergunta-lhe lá se crê em deus ou no Diabo? Que elacoisas, a Vénus de Milo não e a mesma coisa que a seja donzel, baronete ou consulesa, cabouqueiro ousoleira da minha porta? A minha noiva não é a mesma gladiador.coisa que aquela rascoa que bebe aguardente, fuma eleva as noites a cantar? A mulheres esplêndidas não Toda a gente leva a sua cruz ao Calvário, diz a frasemorrem como os vermes? E as feias, as velhas, as popular. Mas o que é certo é que muitos ficamsórdidas não morrem como as mulheres esplêndidas? esmagados ao peso da sua cruz.Os velhos, os entrevados, as mulheres altivas quando “O bem-estar e a felicidade são pois inteiramenteenvelhecem e se encontram sem adoradores, não serão negativos, só a dor é positiva” (Schopenhauer).a mesma coisa, elas que foram belas, amadas,orgulhosas, que um vestido de seda que se meteu a “A terra é um vale de lágrimas” (Bíblia). Ah! quemesfregão? pudesse terminar o mundo, quantas lágrimas não estancaria, quanta dor minoraria, a quantos tormentosDirás que não. Que a tua noiva é imaculada e a rascoa é não poria termo!impúdica, que duma à outra a diferença é tanta que nãose poderá medir. Mas não foram todas as criatura Depois, não é uma cobardia saber-se que tendo remédionascida igualmente e não serão igualmente para tamanho mal se há-de sofrer eternamente, àamortalhadas? Misturando as suas lágrimas quem as atenças dum Deus que não se comove e dum bem quepoderá apartar? Baralhando as suas angústias quem as não há-de chegar nunca? Ver em cada rosto umadiferenciará? caveira e em cada riso uma careta? Palpar um corpo e sentir sob os dedos o latejar de mil ignorados vermes?Que o suicida é um cobarde? Não, cobarde é quem atura Nascer dum ventre e uma cova nos aguardar? Ir doisto até ao fim. Então uma criatura que entrou na vida e nada para o nada? Há lá coisa mais torpe?!se vai embora, lá por não poder ou não querer pactuarcom a torpeza dela é um cobarde? Então eu que piso, eu Mas - pergunta tu - e Deus? Deus foi um egoísta.que falseio, eu que minto, é que devo ser louvado pela Padeceu por vaidade, sofreu porque lhe deu prazer,minha coragem? Cobarde é quem cobarde lhe chama. morreu porque assim o quis. Submeteu Lázaro à prova,Pudesses tu ver bem a vida e verias se o suicídio não é a para lhe experimentar a fé. Desconfiou, logo não é fiel.única porta que o homem arrombou ao céu. Ele azorragou, logo é sujeito a ira. Vingou-se, logo é tão baixo como nós outros. Homem e basta.No dia em que eu subi ao mirante do mundo estremecide horror ao ver a luta que se desenrola todos os dias, Que ele morreu para nos salvar? Não, para nos perder.de canto a canto, de pólo a pólo, do passado ao provir. E Quem socorrerá agora a humanidade?desse dia horrível ficou-me na alma a impressão que,como o sarro às dentaduras cariadas, nunca mais me De que serviu o seu sacrifício? Para que ergueu ele a suaabandonará. cruz sobre uma pira de corpos ainda quentes? Para que fez ele dezenas de Mártires? Pois não é um crimeTudo no mundo são interesses e traições. Pois não é por sacrificar assim inutilmente tantos corações? Não é uminteresse que Plínio vai ao Vesúvio, Stanley ao sertão, crime enganar tantas almas que ainda crêem nele?Colombo à América? Não é por interesse que o soldadovai à guerra, que as mulheres dão beijos e abre campas Mas que veio ele cá fazer? A morte já existia antes deleo coveiro? vir. O sofrimento não cessou com a sua vinda.Não é por interesse, finalmente, que o suicida procura o E ele, o Deus forte, senhor dos exércitos e da guerra,Nada donde veio? aconselha-nos a cobardia e vende o céu pelo sofrimento.Aquele que tu acarinhes e a quem matares a fome será Queres ver Deus? Vem comigo aos conventos, àso primeiro a fechar a sua porta para que tu o não igrejas, à catedrais. Que viste? Uma escultura que nemimportunes com os teus rogos, nem impacientes com as sequer te comoveu.tuas lágrimas. Perguntas por ele? A resposta surpreendia eu, alta noite,Nunca ouviste dizer à tua volta esta frase típica: Comer a um bêbado filósofo:o pão que o diabo amassou?Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 15 de 20
  • “Eu bebo. Mas para que bebo eu? Para não sofrer? Toda “Deus é pai de todos, mas só recebe os grande. Deusa gente sofre. Uns mais, outros menos. Morremos. O havia de dar audiência a um maltrapilho?!”nosso destino é morrer. O homem nasceu para aDesgraça. Qual é o seu destino? Cavar a terra com o E o bêbado resumia, que, enquanto a humanidade aflitasuor do seu rosto e com o suor do seu rosto abrir a cova ergue os braços para o céu, Deus, sorrindo cinicamente,em que outro o há-de enterrar. Desengana-te, meu erguia meio braço e baloiçando-o fazia de lá um colossalvelho. Se beber é bom, bebe. Em morrendo nem céu e obsceno gesto para todos nós.nem inferno. Então nunca mais beberás.Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 16 de 20
  • S É T I M A C A R T A VIIHá dias em que, se me perguntassem o que eu queria nem Hércules com toda s sua força, nem César comser, responderia: - Morto. todas as suas conquistas a fizeram parar no seu caminho. Com um gesto do seu manto faz ajoelhar os“Ide de país em país e perguntai de porta em porta: heróis e os cobardes, os velhos e as andorinhas.Reside aqui o contentamento? Sois felizes e estaistranquilos? Em toda parte vos responderão: Procura em Todas as cabeças brancas do nevar dos anos, todas asoutro lugar. Nós aqui não gozamos isso que dizes! opulências das mulheres soberbas, brâmanes eInclinai os ouvidos para as fronteiras! O vento traz-vos esquimós, tudo há-de, a fim dum século, desaparecerde todas as partes rumores sinistros de desordens, de silenciosamente. E todos os dias emigram caravanascombates, de revoltas contra opressões brutais!” (Max para a Morte, essa rainha de trono opulento que até fazNordau). morder o pó às águias e aos condores.Como os mortos devem ser felizes no seu esquecimento! Acredita! é somente a idéia da morte o regozijo supremoOs dias vão e voltam, os anos sucedem-se, os séculos da minha dor e da minha impotência. Quando eu passonunca param, e eles eternamente sorrindo-se por essas ruas, encolhido e tímido, sinto uma alegriaindiferentes, na sua podridão. infinita em olhar as mulheres que passam deslumbrantes e esqueço-me durante horas inteiras eSó a Morte é boa, só a Morte é grande. Lá se idear os estragos com que o tempo as há-de envelheceresmigalham em pó Cleópatra e Vítor Hugo, Paganini e e gastar, as doenças que as hão-de desfigurar, asBonaparte. aflições que as porão mais estragadas do que a amantes dos marujos e dos soldados. E vejo-as passar, vejo-asA Beleza e o Génio, a Virtude e o Crime, o Egoísmo e a na retina mental, com uma alegria infinita, velhas,Abnegação, que pode isso contra a Morte? Reconhece-se grotescas, feias, pandilhas, virem pedir-me esmola paraa verdade da frase do Hamlet e diz pelos séculos dos que eu lhes dizer, baixinho e sorrindo cinicamente: -séculos: - Palavras, palavras, palavras, nada mais! Não!A carne mais bela, a lama mais nobre, o talento mais E depois, a essa altiva que me despreza, a todas as quedeslumbrante, que vale isso? me desprezam, quando as visse mais rasas do que a lama, dizer-lhes a persegui-las com o meu riso,Tudo ali esbarra como ante uma muralha formidável, tornando tão cruel como o do oiro: - Ó filha, ao que tutudo ali se afunda como num naufrágio imenso. chegaste!Não é a morte que iguala pobres e ricos, bons e maus, Sinto então a alegria infinita dum velho souteneur quemajestades e sodomias, carrascos e coveiros, rameiras e vê a amante procurada.virgens? Há no Nabab, de Daudet, a figura grotesca e imorredoiraÉ ela que há-de fazer tombar, como uma flor que do Joyeuse, “O Imaginário”. Lembras-te, não é verdade?emurcheceu, aquela bela mulher que te escorraça e te Sonha, sonha sempre. A propósito dum nada, sonha quedespreza; é ela que há-de fazer tombar aquele que por é feliz, que se vê contente, que tem dinheiro, uma vidaser mais forte te pisou e afligiu. É ela que há-de fazer toda quimérica, cor-de-rosa. Pois eu sonho assim, mastombar aquele que tu odeias, todos os que tu odeias, sonho sempre o mal dos outros.todos os que te pisam, todos os que te desprezam.Aquele a quem tu pediste e te serviu, aquele a quem tu Ah! com que alegria eu soube que F. roubou, quepediste e te recusou, o que amou e o que te bateu. aqueloutro morreu, se suicidou, está no hospital, foi preso ou bateu na mulher! Como a morte é grande, aÉ ela que há-de levar um dia aquele homem brutal que morte vingadora, a morte que te vinga e que nos vingabate na mulher que o sustenta; que há-de levar aquela a todos!pequenina flor impura que em voz baixa vem à minhabeira segredar-me luxúrias infinitas para que eu lhe Mas para que sou eu assim?pague o pão do seu dia; que há-de levar aquele bispocheio de paramentos e aquele ladrão cheio de Esforço inútil, se tudo é mentira refalsada, tudo ilusão.comendas; aquela carne cheia de mazelas e esta alma Amar? Para que amar? Beijar? Para que beijar? De quecheia de crimes. nos vale tanta aflição?Foi ela que levou a mulher que te trouxe no ventre e a Uma criatura toda a vida se afadiga e sua e chora. Levamulher que tu amaste. Os que passam as semanas uma vida arrastada e miserável para quê? Um dia aenchendo de lágrimas o travesseiro, regando a gleba de Morte virá que a leve. De que lhe serviram os seussuores, e os que passam pela rua felizes e cansaços, os seus suores, as suas fadigas e as suasengrandecidos como o sol. As crianças ideais como ralações? Se “tudo pára em nada, tudo em vento!”pinturas de anjos, as miss loiras como os trigais (Camões).maduros, as demoiselles franzinas como lírios e assevilhanas salerosas, todas essas mulheres divinas, todo Gozar para quê? Se até o próprio gozo se há-deesse amor, toda essa formosura. converter em fel!Seu reino é todo o mundo; as areias do deserto e a água Não fecundes a tua mulher para que teu filho não tenhados mares, as almas e as flores, os granitos e os que morrer; para que não venha a ser nem assassino,vegetais, e nem Deus lhe pode resistir. nem mendigo, nem ladrão, se for homem, nem ladra, nem prostituta, se for fêmea, e para que te não venhaÉ maior do que o céu porque é infinita, é maior do que bater nem a amaldiçoar. “Para que gerar pecadores?”Deu porque é sempre boa. (Shakespeare - Hamlet).Bendita seja a Morte vingadora, a Morte redentora. Para que hás-de tu levantar-te se tens que deitar-te novamente, amar se o tempo te fará esquecer, beijar seNão há oiro que a compre, nem lágrimas que e outro apagará teus beijos? Para que serve tanta fadiga,enterneçam. Nem Salomão com todos os seus tesoiros, não me dirás? Há dor acaso que enterneça a Morte? DePalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 17 de 20
  • que valeram a quem morreu, tanta bondade, tanta desesperos taciturnos, as angústias, as glórias, aspaixão e tanta crença? paixões?Ah, meu velho, quanto inúteis foram a diplomacia de O soldado deixa ali todos os seus troféus, o músicoTalleyrand e os crimes de Tibério, a força de Hércules e todos os seus sonhos, o rico as suas riqueza. Porque “doa canalhice de minha alma! mesmo modo que ele saíu nu do ventre de sua mãe, assim mesmo há-de voltar e não levará consigo nada doSer belo para quê? Ser bom para quê, se a morte leva seu trabalho” (Eclesiastes).tudo?! Os roseirais cobrem-se de rosas, os canteiros de flores,Não é tudo pó? Pó de mortos. Imagina há seis mil anos as árvores de fruto. Vem depois o tempo, o batedor daque o mundo é mundo quanta dor e quanta lama o Morte, e as rosas murcham, as flores secam, os frutosvento não levanta já desfeita. caem e apodrecem.Os vivos têm quem os atormente, os mortos têm o Somos como as flores e como os frutos.esquecimento. Comparaste uma mulher a uma rosa? Ambas nascem, ePara que vives tu? Qualquer dia serás morto e quem se vivem e morrem. Ambas têm mocidade, e ambas têmlembrará de ti? Quem se lembra de quem viveu há cem velhice. E até o expirar duma rosa tem alguma coisa doanos? Para que serviram as aflições a quem morreu? Se expirar duma mulher bonita.todos temos que morrer!... Mas “porque não morri eu dentro do ventre de minhaDe que vale ter sido Alexandre ou Bonaparte? Ao mãe? Porque não pereci tanto que saí dele?”coração que não chegava o mundo um túmulo ainda lhesobrará. “Porque fui recebido entre os joelhos? Porque me alimentei com o leite dos peitos?Ser morto, ser morto! Eles lá ficam tranquilos na terrahúmida onde a chuva os faz tiritar e o orvalho os cobre “Não diria agora como Job: “Pereat dies in qua natusde suor. Escutarão os soluços do oceano? Escutarão o sum et nox in qua dictum est: conceptus est homo”.ruir das catedrais e a cólera dos ventos? Que lhesimporta a nossa torpeza? Que lhes importa que cá em Não diria agora maldito o que algum dia me deu pão docima estejam dias de sol ou dias cor de chumbo? Não seu pão e vinho do seu vinho; a mulher que me trouxechegam lá à terra da Verdade, à terra da promissão os no ventre nove meses, que me deu leite do seu seio,ruídos e combates desta vida. beijos da sua boca e o pão do seu suor.Quantos crimes não tem a Morte no seu seio? Quantas Penso então em quanta grandeza não há na obstinadatragédias? Quantos beijos? Quantos amantes? Quantas negação desses ventres que não fecundam nunca,aflições? dessas árvores que nunca dão flor.E quantas Marselhesas de raiva? Quantos Himalais de “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade! Que proveito tiraódio, quantos Vesúvios de indignação? o homem dos seus trabalhos na terra? Uma geração passa e outra lhe sucede; o sol levanta-se e oculta-se no“Oh! meu amor, quanto deve ser bela a morte se lá tem horizonte hoje como ontem; o vento sopra do norte,caído tanto sonho e tanta beleza” (Júlio Brandão). depois do sul; os rios correm para o mar e o mar nunca transborda”.Onde estão silenciosas, as pastorinhas bíblicas e ascrianças ideais, as horas de gozo e as carnes de Assim falou Eclesiastes. Mas de que valeram as suasalabastro, os faustos de harém e as misérias de palavras?enfermaria? Tu sofres, todos te negam esmola, ninguém te dáE as patrícias de mão liriais e finas, as esguias mãos tão carinhos, não tens amigos nem lábios de mulher que tesensuais e belas; as bocas coleantes como mordaças; os dêm beijos, uma amante que te ampare, ainda quebeijos estrangulados como soluços; as palavras de falsamente, nas tuas horas de febre, nas tuas horas deamor, as preces de amor, as orações de amor? Os angústia, mas - ó caricato - tens a Morte, a Mortefestins tão grandes que comiam rendimentos de libertadora, a Morte amante, a Morte caridosa, a Mortecidades; as legiões orgulhosas e altaneiras; os bárbaros que te dará da sua paz eterna, serena e forte. É essaferozes das invasões; os legionários da Roma legendária que te aguarda com o leito fofo à espera. Deita-te nose os heróis dos Termópilas? A carne soberba da rainha seus braços, sê, pois, o eleito dessa:do Sabá e a sabedoria do Eclesiastes; a lepra de Job e osudário do Cristo; a carne da Pompadour e a da tua avó? “Funérea Beatriz de mão gelada,A dessa mulher que aí passou e a de todas a mulheres Mas a única Beatriz consoladora”que aí passaram? A paixão de Marco António, as horas (Antero de Quental).dos amantes, os mármores e os pórfiros, as colunas deoiro e os escravos cor de âmbar? Os serralhos e os Ser morto! Ser morto! Ventura estranha. Os mortos nãogregos estetas e correctos, os triunfos e as devassidões sofrem, não têm amores, nem carinhos, nem aflições...onde estão? Onde estão? E, é tão feliz quem morre que, “chegado à sepultura, tãoOnde estão as circassianas que dançavam as lascivas satisfeito está com sete pás de terra, como com asdanças, os vinhos preciosos que se bebiam com pérolas pirâmides do Egipto. E se até essa pouca terra lhepor ânforas de oiro, os bálsamos preciosos, os faltasse diria, se pudesse falar, que a quem não cobre a terra, cobre o céu” (Pe. António Vieira).Palavras Cínicas - Albino Forjaz Página 18 de 20
  • Ú l t i m a C a r t aCorri o mundo todo e por toda a parte vi a mesma Vi mulheres de todos os países, homens de todos osdesolação, a mesma luta, a mesma tragédia. caracteres, dinheiro de todas as moedas, deusas de todas as religiões, trajes de todos os costumes, flora deVi as regiões misteriosas do pólo, embuçadas na sua todos os trópicos. Mas em toda a parte vi a mesmaneve, branca como as caveiras e fria como a morte; as farsa, a mesma mentira, a mesma vaidade, e a mesmaAméricas dos pampas, dos Andes e dos dollars; a Rússia tirania.com as suas Sibérias e os seus frios, a sua Moscow osczares, os seus popes e o seu Brezina da passagem dos Em toda a parte vi medrar o mal e escarnecer o bem:franceses; a China com a sua muralha, os seus subir o forte e o fraco ser pisado.mandarins e os seus letrados. Vi sucumbir criatura infinitas. Vi a Roma dos papas, aVi a Suíça alpestre e trabalhadora de lindos montes Alhambra e a Granada das recordações e o Ganges, o riogelados; a Itália com os seus mármores, a suas sagrado, retratou o meu rosto na sua corrente. Parei aomúsicas, os seus lazzaroni. Avistei o Vesúvio com o seu pé das muralhas de Bagdade, a cidade dos califas e daspenacho gigantesco; debruçei-me sobre a Pompeia mil e uma noites encantadas. Dormi à sombra dosdesolada. Vi a índia com os seus rajás, brâmanes e cedros do Líbano, perfumei os cabelos com óleospárias, as suas magnificências, os seus elefantes e os aromáticos e escravas sem conto embalaram-me o sonoseus séquitos mágicos. Fui até a Austrália ver os seus com o ritmar das suas gargantas.desertos ermos. Vi a brumosa Londres, a devassa Paris,a melancólica Lisboa. Passei no Cairo, amei na Trebizonda, rompi as mãos à cata de oiro na Califórnia.Vi as filhas da Germânia loira e as inglesas de WalterScott; as mulheres bretãs e as filhas da Normandia, as Milhares de vezes vi raiar o Sol e o vi morrer.ciganas e as hotentotes, as esquimós e as egípcias. Vi asjaponesas de Pierre Loti e as mundanas de Feuillet. Dormi as noites perfumadas do Oriente, cheias de luar eEncontrei a Sapho, de Daudet e a Cervasia do de saudades. Vi todos os mares, fiz o cruzeiro de todosL’Assomoir, de Zola, as românticas de Camilo e as os oceanos. Exerci todos os misteres, vendi-me milpastorinhas idílicas dos Alpes, a Bovary, de Flaubert e as vezes sem conto. Estou curtido de todos os gostos e demulheres veladas de Constantinopla. todas as abjecções.Topei no meu caminho com lords e senhores de Andei todos os pontos cardeais da Vida. Conheço todaspalanquim, burgraves e salteadores, fidalgos e as falas, sei a forma por que se é canalha em todas aspostilhões, gendarmes e missionários. Bebi os vinhos línguas. Subi onde podia subir, desci aonde não podiaaromáticos de Chipre, pisei tapetes de Smirna. descer mais. Sei o preço por que um homem se vende e uma mulher se despe em todas as moedas.Li todos os poetas desde Byron aventuroso, até o VítorHugo catedralesco. Desde Dante o tenebroso, até Do meu nome não sei. Sou pária eterno, e eternoMusset o delicadíssimo. sofredor, o que padece, o que odeia. Sou só no mundo e abandonado. Não conheço dedicações, nem carinhos,Li a Bíblia e o Alcorão, decorei os versos de Leopardi e nem amores. E como eu, há milhares de criaturas parapensei em Ruth, a moabita. Cantei os cantos de Homero quem o céu é ermo, a terra é erma, é ermo o mar.e as canções do Béranger. Fui escutar à porta dos Envelhecem entre a multidão com o seu rancor deharéns para ouvir as cantigas orientais e o frémito da famintos e oprimidos.carne sequiosa, perfumada e nua. A minha jornada foi maior que a de Ahasverus, o meuEm Londres, contei as suas cem mil prostitutas. Olhei suplício maior que o de Job, a minha torpeza maior queJerusalém, a triste, e o Santo Sepulcro. Detive-me nas a de Judas, o traidor.margens do Jordão. Vi as nascentes do Nilo. Aspirei abrisa salina do mar Morto, e medi as pirâmides do Os homens olham-me com desconfiança, as criançasEgipto. Vi a Pérsia do deus Sol e a Arábia do Deus fogem de mim como da peste.Maomet. Foi assaltada e roubada a caravana em que euia de peregrinação a Meca, a cidade Santa. E a minha face lívida por todos os olhares encontra desdéns agressivos, piedades irritantes.Quando fui ao pólo cismei na morte, ante o túmulo deFranklin; em Santa Helena sonhei na glória, ante o Sei que a Dor é cosmopolita e eterna; que atúmulo de Napoleão. Dobrei a passagem do Nordeste. humanidade é má e traiçoeira; que a Vida é uma coisaAnte o túmulo de Beaudelaire rezei, chorei ante o de para que nem todos têm jeito.Vítor Hugo. Espreitei a todas as almas e em todas elas vi um altarConheci todas as carnes. Vi os mármores de Fídias e os aceso a Torquemada. E dei-me a cismar se Santofrescos de Miguel Ângelo. Agostinho escreveria moral com uma concubina sentada nos joelhos, e se Sardanapalo seria devasso comOuvi Beethoven e ouvi os músicos vagabundos que não orações entre o peito e a camisa.trazem um cêntimo de escudela. Encontrei todos os olhares desde aqueles em que boiamVi a morte cem vezes e cem vezes a achei preferível à pedaços de glória, como os restos tristes dum naufrágio,vida. Recordei todas as épocas. Conheci todas as aos olhos tristes das tuberculosas; olhares lascivos comofortunas. Fui mendigo em Espanha, banqueiro na Grécia, vestes soerguidas, os raivosos e frios como a lâmina dostouriste nos Alpes, pirata na Calábria, Romeu em punhais, e os macios como o veludo; os olhos estaladosVeneza, lazzaroni em Nápoles. Em Paris fui pintor, em da febre e dos suores, e os mornos como alcovas deLondres vadio, na índia nababo. Em Monte Carlo fui princesas, ou os estagnados como a água dos paúis; ossouteneur, em Istambul trapaceiro e mercador de olhos radiantes, os olhos auroreais.escravos em Tânger. Encontrei risos de todas as cores, beijos de todas asTive amantes entre as aristocráticas frágeis como vimes, qualidades.entre as burguesinhas airosas e carnudas, entrecamareras e entre cortesãs. Conheço todas as raivas. A das aves que não têm ninho, a das almas que não têm amor, a das árvores que nãoPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 19 de 20
  • têm fruto, a dos ventres que não têm filhos. E de tudo do juízo, e a iniquidade no lugar da justiça” e como eleisto disse: maldita a terra que dá trigo, maldito o me convenci que debaixo do sol tudo era vaidade ecavador que semeia o pão. O mundo é feito de aflição do espírito.maldições. As aves têm as suas guerreias e os seusódios, os peixes e os combates, os homens os seus Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leresrancores. no meio dum festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizerEu vi no azul pleno do céu um grande águia que tentava chorar.esburgar os olhos a um milhafre. O milhafre debatia-semas a águia deitou-lhe as garras e, arrebatando-o, Elas são de todos os pisados, de todos os escarnecidos.desapareceu no espaço. Dos que amaram e foram desamados, dos que sofrem e dos que padecem. Dos que não tiveram ontem nemOs velhos contaram-me as suas histórias, as moças terão amanhã. Daquelas horas de spleen que afogamdisseram-me os seus amores, mostraram-me os homens como um baraço: daquelas noites sem fim em que a doras suas ambições. espanca o sono e de que se acorda sem se ter dormido.Corri a terra das princesas levantinas, vi a guilhotina da São para aqueles que batem inutilmente a todas asrevolução que caíu sobre a cabeça heróica de Danton e portas e em nenhuma lhes ouviram a voz. Para todosque decepou a de Rosbespierre; pisei Austerlitz onde a têm o seu luar e o seu conforto.águia do homem de casacão alvadio, alma de diamantecujo rebanho era um milhão de baionetas, se librou até Elas foram escritas naqueles dias de agonia pavorosa emaos céus, e Waterloo onde empalideceu a sua estrela. que nos vem um desejo indescritível de ser lama, ser pedra, ser oliveira, qualquer coisa em fim que não tenhaVi como sucumbem os valentes e como morrem os dores, nem tenha lágrimas. Nesses dias em que o arcobardes e achei em ambos a mesma morte. Vi que tudo sufoca e se sente para cada coisa um aflição. Em que seera pó e nada mais. Vi as múmias dos Faraós, e das sete entende no uivar da metralha, no rir da labareda, nomaravilhas do mundo, ouvi falar as gentes com praguejar do vento, e na raiva fria do mármore umsaudade. sudário de lamentos sem fim.Confundi-me com todas as multidões. E apesar dos A vida é uma jornada. E todos os dias se anda um passohomens serem mais do que estrelas dos céus e as areias para a Morte.dos mares, não encontrei entre eles, um que nãoandasse absorto na sua dor e em trair o seu próximo. “O Que a Morte seja pois para ti - se não soubeste triunfarhomem não perdoará a seu irmão” (Isaías) e esta dos vivos - a tua única Ventura e a tua única Aspiração.verdade em cem vezes a vi praticada. Como oEclesiastes eu vi ainda e sempre “a impiedade no lugar FIMPalavras Cínicas - Albino Forjaz Página 20 de 20