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Tratamento Fisioterapico

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  • 1. Tratamento fisioterápico na terceira idade Revisão Biasoli, M.C. Tratamento fisioterápico na terceira idade The physiotherapy treatment of musculoskeletal disorders in the elderly population Unitermos: fisioterapia, disfunções do aparelho locomotor, terceira idade. Uniterms: physiotherapy, musculoskeletal disorders, elderly. Resumo Maria Cristina Biasoli Fisioterapeuta graduada pela FMUSP, pós-graduada pela Irmandade A aplicação da fisioterapia e suas modalidades atin- da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Especialização em Medi- cina Osteopática pela “Michigan State University” (MSU-USA), em Ree- gem uma gama acentuada de disfunções músculo-esque- ducação Postural Global, em Ginástica Holísticas, em Osteopatia (Fran- léticas freqüentemente presentes em pacientes da tercei- ça), em Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva (FMUSP) e Hidrote- ra idade, sejam elas disfunções de diferentes clínicas. rapia (EUA). Colaboradora do Serviço de Reumatologia do Hospital do Neste artigo serão abordadas as modalidades fisioterápi- Servidor Público Estadual de São Paulo “Francisco Morato de Oliveira” (HSPE-FMO/SP). cas e suas indicações específicas para disfunções mús- culo-esqueléticas causadas pela deteriorização que o en- © Copyright Moreira Jr. Editora. Todos os direitos reservados. velhecimento acarreta. Introdução Modalidades da fisioterapia A aplicabilidade da fisioterapia e suas modalidades atin- gem uma gama acentuada de disfunções músculo-esque- A fisioterapia é considerada uma intervenção não far- léticas freqüentemente presentes em pacientes da terceira macológica que envolve várias técnicas de terapias físicas idade, sejam elas disfunções ortopédicas, reumáticas, neu- locais ou globais, assim como todas as suas modalidades rológicas, cardiovasculares e/ou geriátricas. Determinadas específicas, detalhadas no Quadro 1. disfunções, como a osteoartrose(1), a osteoporose(2) e o A escolha da modalidade a ser utilizada depende basi- Parkinson, apresentam maior incidência na população aci- camente da fase e disfunção apresentadas pelo paciente ma de 70 anos (a primeira apresentando incidência de 85% avaliado. Os tratamentos podem ser divididos em nível de na população em geral; e a segunda apresentando incidên- intensidade em tratamentos passivos e ativos. cia de 50% na população branca feminina). Os tratamentos passivos englobam os métodos de con- Tais disfunções são cada vez mais freqüentes em nos- dução (calor e frio), a eletroterapia, massagem, relaxamen- so meio, devido ao aumento da expectativa de vida. Presu- to, alongamento e órteses imobilizadores (coletes, colares, me-se que em 2025 o Brasil venha tornar-se a sexta maior tipóias etc.), assim como as orientações gerais e específi- população de idosos no mundo e a faixa etária acima de 80 cas e a ergonomia. anos(3) é a que terá maior crescimento. Nestes casos, o tra- Os tratamentos ativos englobam a cinesioterapia, as tamento através de programas multidisciplinares vem sen- técnicas especiais e orientações das AVDs e AVPs, as ati- do precocemente preconizado. vidades esportivas, as órteses funcionais e auxiliares (ca- deiras de rodas, bengalas, muletas, andadores etc.). A Reabilitação física / equipe multidisciplinar I - Tratamentos passivos A reabilitação física tem como objetivo principal a me- lhoria da amplitude do movimento (ADM), da força muscu- a) Métodos de condução (calor e frio) lar, da mobilidade articular, das atividades da vida diária Os métodos de condução apresentam vários benefíci- (AVDs), da vida profissional (AVPs), além da melhora da os, como alívio da dor, redução do edema, aumento da auto-imagem e educação do paciente. extensibilidade do colágeno, diminuição do espasmo mus- A equipe de reabilitação deve ser formada idealmente cular, melhora da contratilidade muscular. por médico, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoau- O calor apresenta maior utilidade para o alívio da dor, diólogo, nutricionista, enfermeira e assistente social. relaxamento muscular, reparo dos tecidos, aumento de fluxo RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 62
  • 2. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. Quadro 1 - Técnicas de terapias físicas locais ou globais I. Tratamentos passivos a) Calor e frio (métodos de condução): Calor • Cera (parafina) • Coxins e compressas térmicas (hidrocolater) • Toalhas quentes • Banhos de imersão quente (turbilhão) • Banhos de contraste Frio • Banhos de imersão frio • Massagem com gelo • Compressas geladas • Toalhas geladas • Sprays evaporadores b) Eletroterapia Agentes eletromagnéticos • Diatermia por microondas • Diatermia por ondas curtas • Laserterapia de baixa freqüência • Radiação infravermelha • Terapia por radiação ultravioleta Ultra-som Correntes de baixa freqüência • Estimulação elétrica neuromuscular e muscular • Estimulação nervosa elétrica transcutânea (TENS) • Terapia interferencial c) Massagem (Clássica / Shiatsu / Ayurvédica / Reflexa / MTC / Rolfing) d) Relaxamento e) Alongamento II. Tratamentos ativos a) Cinesioterapia: • Exercícios isométricos (estáticos) • Exercícios isotônicos (dinâmicos): concêntrico / excêntrico • Exercícios isocinétricos (dinâmicos) b) Técnicas especiais • RPG • Osteopatia • Ginástica holística • Facilitação neuromuscular proprioceptiva (Kabat / FNP) • Bobath / treino de marcha, reações de equilíbrio e proteção • Hidroterapia III. Órteses / imobilizações / orientações gerais e específicas nas AVDs e AVPs / ergonomia sangüíneo e da extensibilidade do colágeno. As técnicas de fins terapêuticos, como aquecimento profundo e superfici- aplicação são: cera (parafina), coxins e compressas térmi- al; efeitos mecânicos nos tecidos combatendo a fibrose; di- cas (hidrocolater), banhos de imersão quente e contraste. fusão de substâncias através da membrana celular; aumento Já o frio, por sua vez, apresenta maior efetividade na da vasodilatação, metabolismo e nutrição tecidual; diminui- redução do sangramento e edema, alívio da dor, redução ção da excitabilidade motora; e aumento do limiar de exci- do espasmo e espasticidade muscular e melhora da força tabilidade nervosa. muscular. As técnicas de aplicação são banhos de imersão Podemos classificar a eletroterapia em agentes eletro- frio, compressas geladas, toalhas geladas, sprays evapora- magnéticos (diatermia por microondas, por ondas curtas, dores e massagem com gelo(4). laserterapia, radiação infravermelho e ultravioleta), ultra-som e correntes de baixa freqüência (estimulação elétrica neu- b) Eletroterapia romuscular e muscular, estimulação nervosa elétrica trans- A eletroterapia é a utilização da corrente elétrica com cutânea - TENS, terapia interferencial)(5). RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 63
  • 3. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. c) Massagem muscular dinâmico, que é de grande importância para a fi- Massagem (do grego, significa “amassar ou ato de pres- sioterapia na recuperação imediata de lesões ou quadros sionar”) apresenta seus efeitos mecânicos (movimentação inflamatórios e também para manutenção da força muscu- da linfa e do sangue venoso; drenagem de edemas e he- lar durante um período de imobilização. matomas; mobilização de fibras musculares, tendões, bai- nhas, tecidos subcutâneos, tecidos cicatriciais e aderênci- Exercícios isotônicos as) e efeitos fisiológicos (aumento da circulação sangüínea Em contraposição ao exercício isométrico, o exercício iso- e linfática, em conseqüência melhora do fluxo de nutrien- tônico envolve trabalho no sentido físico. Também chamado tes; remoção dos produtos catabólicos e metabólicos; esti- de trabalho muscular dinâmico, o exercício isotônico envolve mulação do processo de cicatrização e extensibilidade do contrações longas, mas se distingue pela alternância rítmica tecido conjuntivo; resolução do edema e hematoma crôni- entre contração e relaxamento. Quando o músculo é tracio- co; alívio da dor; facilitação da atividade muscular; aumento nado, a sua origem se aproxima ou se afasta de sua inser- dos movimentos articulares; e relaxamento local e geral). ção, levando a um trabalho muscular dinâmico. Dividimos os Existem várias técnicas de massagem, como massagem exercícios isotônicos em concêntricos e excêntricos. do tecido conjuntivo, técnicas dos pontos deflagradores, O exercício isotônico concêntrico é realizado quando o técnicas de liberação miofascial, rolfing, reflexologia, per- músculo desenvolve tensão suficiente para superar uma re- cussão pontual etc.(6) . sistência, de modo que se encurte visivelmente e mova uma parte do corpo vencendo uma determinada resistência. d) Relaxamento O exercício isotônico excêntrico acontece quando uma O relaxamento é um método de recondicionamento dada resistência é maior que a tensão do músculo, de manei- psicofisiológico que abrange inúmeras técnicas como: exer- ra que este se alongue. Embora desenvolva tensão, o mús- cícios ideoplásticos, método de L. Michaux, descontração culo é superado pela resistência. ativa de J. Faust, regulação ativa do tônus de B. Stokvis, relaxamento carátero – analítico de W. Reich, treinamento Exercícios isocinéticos autógeno de J.H. Schultz, exercícios piscotônicos, calatonia, No exercício isocinético a pressão permanece constan- Tai-chi-chuan e imagens e relaxamento(7). te durante todo o movimento. Uma máquina regula a quan- tidade de resistência e a sua velocidade. Essa máquina ra- e) Alongamento pidamente melhora a força muscular e também funciona O alongamento é a desembricação dos filamentos de como coadjuvante no desenvolvimento dos exercícios. No actina dos filamentos de miosina nos sarcômicos que ocor- tratamento fisioterapêutico o exercício isocinético é indica- rem de uma forma lenta e progressiva. A falta de alonga- do para a fase de transição desde a obtenção da força mus- mento leva ao encurtamento e retrações e, conseqüente- cular normal até que se atinja a força muscular total do pa- mente, à maioria dos desequilíbrios estáticos, sobretudo ciente (SYBEX/UNEX). por sua evolução e fixação(8). b) Técnicas especiais II. Tratamentos ativos Dentro das técnicas especiais podemos incluir o RPG (reeducação postural global), a osteopatia (medicina a) Cinesioterapia(9) manipulativa), a ginástica holística, a facilitação neuromus- Os exercícios de fortalecimento para o sistema muscu- cular proprioceptiva (FNP/KABAT) e a hidroterapia. lar representam um papel essencial na fisioterapia e na re- abilitação. Podemos classificá-los quanto à intensidade em: RPG (reeducação postural global) exercícios passivos, ativos e ativos-resistidos. Quanto ao Derivada do aprendizado biopsicomotor de Françoise tipo de contração, classificamos da seguinte forma: exercí- Mézières, pioneira da observação global do aparelho lo- cios isométricos, exercícios isotônicos (concêntricos e ex- comotor, o RPG abrange o trabalho das cadeias muscula- cêntricos) e exercícios isocinéticos. res e do “campo fechado”. A partir de tais estudos F. Sou- chard adequou os tratamentos cinesioterápicos dos distúr- Exercícios isométricos bios osteomioarticulares, não só posturais mas também Os exercícios que causam contração de músculos indi- estruturais(10) (Figura 1). viduais ou de grupos musculares, mas não causam movi- mentos nas articulações adjacentes a eles, são chamados Osteopatia (medicina manipulativa) exercícios isométricos. Nenhum trabalho é feito no sentido É uma terapia manipulativa utilizada para aumentar a físico neste tipo de exercício muscular (trabalho muscular mobilidade e reduzir o quadro doloroso do corpo e articula- estático). O treinamento isométrico é capaz de aumentar a ções, restaurando a capacidade funcional máxima dentro força muscular sem o movimento articular e sem trabalho de uma postura balanceada(11). RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 64
  • 4. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. gressão de exercícios para manter e melhorar a capacida- de física e as atividades da vida diária dos pacientes. Como os exercícios aquáticos podem ser facilmente modificados para acomodar as condições do paciente, a hidroterapia pode ser usada em períodos de transição. Esses períodos ocor- rem quando os pacientes não toleram a fisioterapia terrestre, quando eles não sustentam total ou parcialmente o peso do corpo, quando estão em preparação para procedimentos ci- rúrgicos ou ainda não retornaram às atividades habituais. A hidroterapia é integrada por várias técnicas de trata- mento, entretanto, movimentos funcionais são enfatizados usando padrões sinérgicos, estabilização articular e corre- ção postural. As técnicas de exercícios utilizadas em com- binação e adaptadas ao paciente seriam: técnicas passi- vas; ativas e ativas-resistivas que utilizam exercícios isométricos; exercícios isotônicos (excêntricos e concêntri- cos) e estabilização postural. Figura 1 Os métodos usados para a realização dessas técnicas são: Ginástica holística (antiginástica) Trabalha os movimentos do corpo seguindo os princípi- Método dos anéis de Band Ragaz os de coordenação motora (princípios Mezeristas), alonga- É uma técnica de tratamento horizontal, desenvolvida mento, colocação articular, despertar da consciência cor- nas águas termais de Bad Ragaz, na Suíça, em 1930, na poral e auto-suficiência do indivíduo na realização de tal qual o paciente é suportado por meio de anéis de flutuação trabalho(12). colocados em torno do pescoço, na região pélvica e embai- xo dos joelhos e tornozelos. Assemelha-se à técnica de fa- Facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP) cilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP), adaptada para Também conhecido como método de movimentos com- o meio aquático, na qual são realizados movimentos coor- plexos, a FNP também se baseia num trabalho de fortaleci- denados de empurrar e puxar que atuam sobre as estrutu- mento neuromuscular auto-induzido. Nesse processo as ras articulares e terminações nervosas sensitivas para faci- reações do mecanismo neuromuscular são melhorados, litar o reflexo de estiramento e as contrações musculares. refinados e acelerados através de estimulação dos proprio- ceptores. A utilização de movimentos complexos é baseada Método Halliwick nos princípios da estimulação máxima do aparelho neuro- O método Halliwick foi desenvolvido em 1949, na Halli- muscular com o auxílio adicional de movimentos diagonais e wick School for Girls, em Southgate, Londres. MC Millian, espirais associados a flexão, adução, abdução, rotação ex- que foi o criador do método, desenvolveu inicialmente uma terna e interna. Os receptores musculares e articulares são atividade recreativa que visava dar independência individu- elementos importantes na estimulação do sistema motor(13). al na água, para pacientes com incapacidade e treiná-los a nadar. Com o passar dos anos foi aperfeiçoando seu méto- Bobath / treino de marcha /reações de equilíbrio e proteção do original e adotou técnicas adicionais que foram estabe- Técnica desenvolvida por dr. Karel e Bertha Bobath tra- lecidas a partir dos seguintes princípios: adaptação ambi- ta as desordens motoras causadas por doenças e lesões ental, restauração do equilíbrio, inibição e facilitação. do sistema nervoso, utilizando respostas posturais automá- ticas presentes nas idades iniciais, que induzem aos movi- Método Watsu mentos ativos e minimizam os padrões e posturas É um método também denominado de Water-Shiatsu desordenadas presentes nestes pacientes. Tal técnica tam- (Hidro-Shiatsu), criado em 1980, por Harold Dull. Associan- bém abrange o treino de marcha, reações de equilíbrio e do alongamento e movimentos de Shiatsu Zen, o autor adap- proteção(14). tou a técnica às piscinas mornas em uma cidade da Califórnia. Hidroterapia(15) A hidroterapia pode ser usada como um complemento Deep running ou na substituição da fisioterapia terrestre. A combinação Propõe a movimentação de pernas e braços com o pa- das duas modalidades é preferida, desde que possa ser ciente flutuando através de cinturão pélvico, sem encostar tolerada pelo paciente. O objetivo final sempre visa a pro- os pés no chão da piscina, promovendo a simulação de RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 65
  • 5. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. marcha ou corrida com resistência da água eliminando o tude de movimento das articulações afetadas e melhora do impacto articular. Ajuda no fortalecimento e no condiciona- padrão da marcha. Os pacientes com alterações degenera- mento cardiovascular(16). tivas das articulações das mãos, pés, coluna, quadril e/ou joelhos freqüentemente são encaminhados à hidroterapia III. Órteses, imobilização, orientações gerais e específi- devido aos benefícios da flutuação como: auxílio ao movi- cas nas AVDs e AVPs e ergonomia mento, sustentação da articulação para possibilitar o movi- mento livre e, finalmente, a resistência ao movimento. As Este item abrange a utilização de equipamentos que modalidades terrestres indicadas são desde a eletroterapia, auxiliam na reabilitação do paciente durante o tratamento cinesioterapia, FNP, RPG e treino de marcha, assim como ou na minimização das seqüelas por perda da função tem- a utilização de órteses para alívio da dor e sobrecarga arti- porária ou definitiva (bengalas, muletas, cadeiras de rodas, cular. imobilizadores como coletes, tipóias, tutores longos e cur- tos etc.). Osteoporose As orientações gerais e específicas nas AVDs e AVPs, A osteoporose é uma enfermidade crônica, multifatori- assim como o estudo ergonômico do ambiente de atuação al, relacionada à perda progressiva de massa óssea, geral- são de extrema importância para recuperação ou readap- mente de progressão assintomática até a ocorrência de fra- tação da vida diária e profissional do paciente. turas. É um estado de insuficiência ou de falência óssea que surge com o envelhecimento, principalmente em mu- A fisioterapia e suas modalidades específicas lheres a partir da sexta década. para as disfunções do aparelho locomotor nas Os principais fatores de risco são: história familiar, hipo- diferentes clínicas estrogenismo, nuliparidade, sedentarismo, imobilização pro- longada, baixa massa muscular em mulheres brancas ou Disfunções clínicas reumatológicas(17) asiáticas, dieta pobre em cálcio, tabagismo, uso crônico de O tratamento de disfunções da coluna vertebral, secun- corticosteróides, anticonvulsivantes, heparina e outros. dárias às doenças reumáticas em geral são causadas por Na vigência de uma osteoporose mais grave, com múl- subluxações das facetas articulares, prolapsos discais e tiplas fraturas e dor óssea, a reabilitação aquática oferece alterações posturais. Todos os processos degenerativos le- métodos com técnicas mais suaves, destinadas a aliviar a vam a modificação da descarga de peso sobre a coluna e, dor, aumentar a amplitude de movimento e proporcionar conseqüentemente, deformação da superfície óssea e o eventual fortalecimento. Após a fase aguda do quadro, ou aparecimento de osteófitos. Nestes casos a hidroterapia é seja, quando os locais de fraturas ou trincas estiverem bem indicada para minimização dos efeitos da gravidade, do ris- consolidados, os movimentos mais vigorosos e exercícios co potencial de lesão do anel fibroso discal e de sobrecar- mais intensos gerados pela resistência das técnicas terres- gas vertebrais, proporcionando a diminuição da dor duran- tres podem ser iniciados, assim como uma combinação de te os exercícios ativos e o aumento da mobilidade e da for- exercícios de sustentação parcial e completa de peso que ça muscular do tronco. Já a fisioterapia terrestre proporcio- provêm esforços mecânicos necessários para estimular a na um trabalho visando a analgesia através da eletroterapia formação de massa óssea e minimizar a progressão da e massagem, assim como da biomecânica postural e dos doença (cinesioterapia e Kabat). O treino de marcha e equi- desequilíbrios musculares estáticos (RPG). líbrio também é de extrema importância para a redução do risco de quedas (18). Osteoartrite/osteoartrose A osteoartrite é um processo induzido nas articulações Artrite reumatóide por influências mecânicas, metabólicas e genéticas, cau- A artrite reumatóide (AR) é uma doença auto-imune de sando perda de cartilagem e hipertrofia óssea. A perda etiologia desconhecida, caracterizada por poliartrite simé- progressiva da cartilagem articular e a recuperação inade- trica, que leva à deformidade e à destruição das articulações quada levam a formação de osteófitos durante a remodela- em virtude da erosão óssea e da cartilagem. Em geral a AR ção óssea subcondral. Com a instalação lenta e progressi- acomete duas vezes mais as mulheres que os homens, atin- va da doença, os sintomas de dor articular, rigidez, limita- gindo grandes e pequenas articulações em associação com ção de movimentos, crepitação, edema e graus variáveis manifestações sistêmicas como: rigidez matinal, fadiga, per- de inflamação surgem de maneira insidiosa, assim como da de peso e incapacidade para a realização de suas ativi- desequilíbrios posturais compensatórios atingindo outras dades tanto na vida diária como profissional. articulações e músculos. Portanto, o objetivo no tratamento Os objetivos da fisioterapia nesta doença seriam: alívio da osteoartrite visa o alívio da dor e espasmo musculares, da dor e de espasmo muscular, manutenção ou restaura- o fortalecimento dos músculos periarticulares, a mobiliza- ção da força muscular em torno das articulações doloro- ção de outras articulações envolvidas, o aumento da ampli- sas, redução de deformidades e aumento da amplitude de RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 66
  • 6. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. movimentação em todas as articulações afetadas, restau- de acordo com a distribuição radicular anatômico no pri- ração da confiança e reeducação da função perdida(19). As meiro caso (s. radiculares) e da velocidade de compressão, modalidades indicadas são: eletroterapia, FNP, hidrotera- de extensão transversal e longitudinal da lesão, do papel pia, cinesioterapia e treino de marcha e a utilização de órte- funcional do nível comprimido da medula espinhal e da causa ses para prevenir deformidades articulares. da compressão no segundo caso (mielopatias). O trabalho da fisioterapia tem como objetivo, nos qua- Disfunções clínicas neurológicas dros mais leves (não cirúrgicos), o alívio da dor, através da eletroterapia e massagem e o trabalho dos desequilíbrios a) Síndrome parkinsoniana(20) posturais e biomecânicos que é realizado a partir do RPG, James Parkinson foi o primeiro a descrever as princi- ginástica holística e eletroterapia. Já nos quadros mais se- pais manifestações desta síndrome caracterizada por tre- veros, que, apesar da cirurgia descompressiva, restaram mor, rigidez e perda de reflexos posturais. A patologia quí- seqüelas em membros superiores e inferiores, as técnicas mica é determinada pela deficiência da dopamina do corpo fisioterápicas mais abrangentes são o Bobath e a hidrote- estriato associada a diversas doenças e condições do sis- rapia que estimulam a movimentação ativa normal e inibem tema nervoso. os padrões de movimentos e posturas desordenados que O trabalho fisioterápico se inicia com alongamento, re- se possam instalar. O Kabat é indicado em casos de forta- laxamento e diminuição do tônus da musculatura postural, lecimento muscular. A independência para as AVDs e AVPs, podendo ser utilizadas técnicas especiais como: RPG, mas- assim como a utilização de órteses também é orientada. sagem e hidroterapia. O treinamento de marcha e equilíbrio pode ser realizado através do Bobath. Orientações das AVDs Disfunções clínicas ortopédicas(23,24) e AVPs também são indicadas para manter e/ou recuperar Na ortopedia podemos dividir o tratamento das disfun- a independência do paciente. A fisioterapia nesses casos ções em dois grupos que são: os tratamentos cirúrgicos e deve ser feita freqüentemente, por período indeterminado. os não cirúrgicos. Em ambos teremos a atuação efetiva da fisioterapia. b) Doenças vasculares cerebrais, isquêmicas e hemor- Nos tratamentos cirúrgicos que são a osteotomia, a rágicas (21) artrodese, a artroplastia, o enxerto ósseo, a artroscopia, o A isquemia cerebral, causada por trombose e/ou em- enxerto tendinoso e as transferências musculares, o início bolismo cerebral, produz sintomas clínicos devido ao infarto da fisioterapia é imediato (já no primeiro dia de pós-operató- cerebral. Os acidentes vasculares recidivantes apresentam rio), através da crioterapia, dos exercícios isométricos e da alto risco de mortalidade e para os sobreviventes a incapa- utilização de órteses imobilizadoras. Dependendo do tipo de cidade e a dependência são os resultados mais comuns. Já cirurgia outras modalidades são adicionadas. A eletroterapia, nas doenças hemorrágicas o sangramento a partir da arté- os exercícios isotônicos e isocinéticos, a hidroterapia e o Kabat ria rota é a fonte usual do problema. O tratamento dessas podem ser acrescentados gradativamente, assim como a disfunções apresenta três objetivos: preservar a vida, redu- carga dos exercícios e o treino de marcha e equilíbrio. zir a incapacidade e evitar a recidiva. Os indivíduos que se Iremos abordar didaticamente as disfunções ortopédicas recuperam de seqüelas causadas por tais problemas de- em que o tratamento é conservador, através de regiões. vem iniciar o programa de reabilitação imediatamente após Na região do ombro (ruptura parcial do manguito rotador a instalação temporária ou provisória do quadro motor. O ou do tendão longo do bíceps; síndrome do ombro doloro- tratamento fisioterápico pode iniciar-se com técnicas neu- so; tenosinovite do tendão longo do bíceps; bursites etc.) rológicos como Bobath e Kabat, assim como treino de poderemos utilizar a eletroterapia, cinesioterapia, alonga- marcha, equilíbrio, AVDs, AVPs e utilização de órteses, con- mento, ginástica holísticas, Kabat, RPG e a hidroterapia com forme a progressão do tratamento. Precocidade do início fins analgésicos, desinflamatórios, melhora da ADM (am- da fisioterapia previne a formação de contraturas deformi- plitude de movimento), recuperação da força muscular, dades e a instalação de padrões motores e posturais de- recoordenação do movimento e reposicionamento articular sordenados, estimulando assim a recuperação da movimen- (postura do ombro). tação normal. Na região do braço e cotovelo as lesões mais freqüentes são: corpos livres articulares, bursite do olécrano, cotovelo c) Lesões mecânicas das raízes nervosas e da medula de “tenista” etc. Na região do antebraço punho e mão temos espinhal(22) as tenosinovites por atrito, cisto sinovial, contratura de As lesões mecânicas das raízes nervosas podem ser Dupuytren e compressão do nervo mediano no túnel carpiano. divididas em dois grupos que denominamos de síndromes Os objetivos da fisioterapia nesta região são semelhantes ao radiculares e mielopatias. Estas compressões causam dor, da região do ombro, apenas acrescentando a parafina na parestesias, perdas sensoriais, paresias flácidas ou espás- região das mãos e atividades finas para os dedos. ticas, fraquezas, atrofias e alterações reflexas que variam Na região do quadril temos as bursites trocanterianas. RBM - REV. BRAS. MED. - VOL. 64 - EDIÇÃO ESPECIAL - NOVEMBRO/2007 67
  • 7. Tratamento fisioterápico na terceira idade Biasoli, M.C. Na região do joelho temos, lesões do menisco, corpos le- A aplicabilidade, assim como a modalidade fisioterápi- ves intra-articulares e cisto poplíteo (Baker). Na região das ca para esta área que engloba as demais já foram descritas pernas, tornozelos e pés temos as tendinites ligamentares anteriormente. do tornozelo (tendão de Aquiles), pés cavos, pés planos, tarsalgias, metatalsargias, calcanhar doloroso, dor no Summary antepé, calosidade, cistos, “Hallux Valgus”, artelhos em martelo e/ou cavalgado, fascite plantar etc. The physiotherapy application and its systems modali- As órteses imobilizadores ou de reposicionamento são ties are involved in a wide range of musculoskeletal disor- muito utilizados como: imobilizadores de joelho, tala para ders are frequently presents in elderly people, in the most punho, tala dinâmica para extensor do dedo, tipóia, espaldeira, different clinics disorders. This article shows the physio- estabilizador de tornozelo, amortecedor para calcanhar, pal- therapy systems and its particular indications in the muscu- milhas. Para a região dos pés a indicação de tênis (“Cushioned loskeletal disorders that happen in elderly degeneration sys- Shoes” / “Stability Shoes”) e sapatos apropriados é muito tems. importante para a melhora das disfunções podais. Referências bibliográficas Disfunções clínicas cardiovasculares(25) Principal causa de morte do século XX, a cardiopatia 1. Felson DT. Epidemiology of Rheumatic Diseases. In: Osteoarthritis. Rheum Dis Clin North Am. 1990; 16:499-512. tem sido alvo de muitos estudos científicos para aprimorar 2. Damowski, J. Estudo epidemiológico brasileiro: resultados preliminares. o seu diagnósticos, tratamento e prevenção, principalmen- Revista Brasileira de Reumatologia 2006; 46(2):12. te no que se refere a substâncias farmacológicas, 3. Biasoli, MC; Machado, CMC. Hidroterapia: aplicabilidades clínicas. Revista Brasileira de Medicina, 2006; 63(5):234. bioengenharia e procedimento cirúrgico. Na parte preventi- 4. Kitchen, S; Bazim, S. Eletroterapia de Clayton. 10ª edição. São Paulo, Ed. va, tanto a diminuição da morbidade quanto da mortalidade Manole 1998, p.123-138. 5. Kitchen, S; Bazim, S. Eletroterapia de Clayton. 10ª edição. São Paulo, Ed. estão sendo alcançadas através das mudanças de hábito, Manole 1998, p.139-304. principalmente quando se trata das atividades físicas e de 6. Domenico, G; Wood EC. Técnica de Massagem de Beard. São Paulo: Editora lazer. Desde a década de 1960, quando ocorreu a implan- Manole 1998. 7. Sandor, P. Técnica de Relaxamento. São Paulo. Editor Vetor, 1974. tação e desenvolvimento de programa de reabilitação car- 8. Anderson, B. Alongue-se. São Paulo: Summus, 1983. díaca, houve diminuição dos fatores de risco da doença e 9. Eitner, D; Kipriam, W; Meissner, L; Ork, H. Fisioterapia nos Esportes. São diminuição de uso de farmacoterápicos. Paulo: Manole. 1984. 10. Souchard, PHE. O Strectching Global Ativo. 1ª Edição. São Paulo: Editora Esses programas incluem desde atividades cautelosas Manole . 1996. de caminhadas até o treinamento resistido com pesos, exer- 11. Groenman, PE. Principles of Manual Medicine. Baltimore: Willians& Wilkins, cícios globais para o todo o corpo, assim como o treina- 1996. 12. Piret, S; Mézieres, MM. A Coordenação Motora. São Paulo: Summus, 1992. mento aquático, redirecionando a atitude, as crenças e o 13. Knott, M; Voss, DE. Facilitación Neuromuscular Proprioceptiva. Buenos Aires: comportamento do paciente cardíaco. Editora Panamericana, 1974. 14. Bobath, K. Uma base Neurofisiológica para o tratamento da Paralisia Cere- bral. 2ª edição. São Paulo: Ed Manole, 1984. Disfunções clínicas geriátricas 15. McNeal R. Reabilitação aquática de pacientes com doenças reumáticas. In: As chances de envelhecer com sucesso vêm aumen- Ruoti RG, Morris DM, Coles AJ. Reabilitação Aquática.Brasil. Manole.200. p215-232. tando nos diferentes estágios de desenvolvimento (intra- 16. Damowski, J. Estudo epidemiológico brasileiro: resultados preliminares. uterino, infância, adolescência, idade adulta), ocorrendo Revista Brasileira de Reumatologia 2006; 46(2):1. conseqüências positivas que podem ser mantidas na idade 17. Biasoli, MC; Machado, CMC. Hidroterapia: técnicas e aplicabilidades às disfunções reumatológicas. Temas de Reumatologia Clínica 2006; 7(3):85- avançada. As doenças nesta fase têm associação com a 86. deteriorização das funções fisiológicas e alterações mais 18. Scharla, S. Reabilitação depois de fraturas induzidas por osteoporose. Colocando seu paciente rapidamente em pé. MMW Forstchrmes 2002; complexas(26). 144(21):34-6, 38. As condições crônicas que se tornam mais comuns com 19. Hall, J; Skewington, SM; Maddison, PJ.; Chapmam, K. Triagem randomizada o aumento da idade (envelhecimento) para o aparelho e controlada de hidroterapia na artrite reumatóide. 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