Manual de ergonomia

28,712 views

Published on

Manual pratico sobre ergonomia

Published in: Education
1 Comment
4 Likes
Statistics
Notes
No Downloads
Views
Total views
28,712
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
6
Actions
Shares
0
Downloads
822
Comments
1
Likes
4
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Manual de ergonomia

  1. 1. Módulo de Ergonomia Curso de Técnico Superior de Higiene e Segurança no Trabalho MÓDULO DE ERGONOMIA 2004 Teresa Margarida Patrone Cotrim 1 Teresa Patrone Cotrim
  2. 2. Módulo de Ergonomia Índice1. Introdução à Ergonomia 1.1. Evolução histórica da ergonomia e instituições de referência 1.2. Definição de Ergonomia2. Metodologia de Análise Ergonómica 2.1. Quadro global de análise ergonómica 2.2. Noção de tarefa e de actividade3. Intervenção Ergonómica4. Carga de Trabalho 4.1. Noção de Carga de Trabalho 4.2. Avaliação da Carga de Trabalho 4.3. Características Individuais5. Posturas de Trabalho e Força 5.1. Noção de Postura 5.2. Postura de Pé e de Sentado 5.3. Ângulos de Conforto 5.4. Força6. Lesões Músculo – Esqueléticas Ligadas ao Trabalho 6.1. Características Gerais 6.2. Principais Factores de Risco 6.3. Exemplos de Situações de Trabalho 6.4. Prevenção e Controlo do Risco de LME 6.5. Casos particulares7. Diversidade Antropométrica das Populações 7.1. Noções Básicas 7.2. Diferenças Individuais 7.3. Diversidade Humana 7.4. Adequação entre a Diversidade Humana e o Envolvimento 2 Teresa Patrone Cotrim
  3. 3. Módulo de Ergonomia 7.5. Medidas Antropométricas Estáticas 7.6. Medidas Antropométricas Dinâmicas8. Principais Constrições à Concepção de Espaços e Equipamentos de Trabalho9. Trabalho com Écrans de Visualização 9.1. Tipo de Tarefas 9.2. Elementos do Posto de Trabalho 9.3. Principais Factores de Risco 9.4. Medidas de Prevenção 3 Teresa Patrone Cotrim
  4. 4. Módulo de Ergonomia1. Introdução à ErgonomiaA Saúde, Segurança e Bem Estar deverá ser um objectivo social e estratégico dequalquer empresa e é condição de progresso social e económico, contribuindo para aqualidade das condições de vida e trabalho dos indivíduos e desenvolvimento dacompetitividade das empresas.Para alcançar os objectivos de proporcionar condições de trabalho que garantam asegurança e saúde dos trabalhadores e contribuir para o desenvolvimento dacompetitividade da empresa por via do aumento da produtividade e qualidade,resultantes da melhoria das condições em que o trabalho é prestado, é importanteuma abordagem transdisciplinar nesta temática, assente numa equipamultiprofissional.1.1. Evolução histórica da Ergonomia e Instituições de referênciaO termo Ergonomia deriva do grego: ergo = trabalho + nomos = leis.Etimologicamente, ergonomia significa a ciência do trabalho, o que está para além deuma perspectiva redutora da criação de leis que regem o trabalho.A primeira referência à utilização do termo Ergonomia data de 1857, altura em queJastrzebowski, estudioso polaco, se lhe refere numa das suas obras «Précisd’Ergonomie or de la Science du Travail basée sur de verités tirée dês sciences de lanature», ficando depois esquecido durante anos.Após a 2ª guerra mundial assistiu-se a um novo impulso no desenvolvimento daErgonomia, em particular através de um engenheiro inglês, Murrel, que em 1949contribui para a criação da primeira sociedade de ergonomia, a Ergonomic ResearchSociety.A partir de 1950 a Ergonomia expande-se e assiste-se à criação de associações esociedades de Ergonomia, tanto na Europa como nos EUA. Em 1957 foi criada aHuman Factors Society, nos EUA, e ainda hoje o termo Factores Humanos continua aser utilizado, sendo naquele país muitas vezes tido como sinónimo de Ergonomia. NaEuropa, a criação da SELF acontece apenas em 1963 e está relacionada com aErgonomia da Actividade Humana centrada na necessidade de adequar as condiçõesde trabalho às características dos operadores. 4 Teresa Patrone Cotrim
  5. 5. Módulo de ErgonomiaSegundo Wisner (1972), a Ergonomia é o conjunto dos conhecimentos científicosrelativos ao homem e necessários para conceber ferramentas, máquinas e dispositivosque possam ser utilizados com o máximo de conforto, de segurança e de eficiência.No entanto, o desenvolvimento da Ergonomia ao longo das últimas décadasdeterminou algumas mudanças conceptuais, como se verifica no ponto seguinte.1.2. Definição de ErgonomiaO conceito de Ergonomia tem evoluído ao longo das últimas décadas, no entanto,actualmente é consensual o seu entendimento como: • Domínio científico e tecnológico interdisciplinar que visa a compreensão das interacções entre o homem e os sistemas e a concepção de sistemas de trabalho, de forma a optimizar a saúde e o bem estar dos trabalhadores e obter o aumento da produtividade dos sistemas de trabalho (IEA, 2001).Assim, podemos afirmar que em Ergonomia se realiza o estudo do homem durante otrabalho, mas também nas suas ocupações dos tempos livres, de modo a melhorarglobalmente as suas condições de vida. O seu objectivo será a optimização dainteracção entre o homem, o sistema de trabalho e o ambiente, através do equilíbrioentre as exigências das tarefas e do sistema e as características anatómicas,fisiológicas, sensoriais, perceptivas e cognitivas do homem.2. Metodologia de Análise ErgonómicaA metodologia de intervenção ergonómica tem sofrido ao longo dos anos sucessivasadaptações de acordo com a inovação nas técnicas e tecnologias e o conhecimentoque decorre da investigação em Ergonomia.A actuação dos ergonomistas nas organizações depende dos objectivos do grupo detrabalho ou serviço em que está inserido e da própria empresa.No entanto, a metodologia de análise ergonómica é sempre a primeira etapa queconsubstancia o estudo ergonómico do sistema de trabalho, do qual decorre odiagnóstico ergonómico que, por sua vez, permite definir os princípios nos quaisassenta a intervenção ergonómica propriamente dita. 5 Teresa Patrone Cotrim
  6. 6. Módulo de Ergonomia2.1. Quadro Global de Análise ErgonómicaA abordagem ergonómica do sistema de trabalho centra-se na identificação ecompreensão das relações existentes entre as condições organizacionais, técnicas,sociais e humanas que determinam a actividade de trabalho e os efeitos desta sobre ooperador e o sistema produtivo.A análise ergonómica do trabalho parte de três pressupostos (Daniellou, 1996): avariabilidade dos contextos e dos indivíduos; a distinção entre tarefa e actividade; aregulação da actividade pelos operadores.No que se refere ao sistema de trabalho podemos reconhecer a sua complexidade e ocarácter dinâmico.O grau de complexidade depende do número de elementos que compõem o sistema eda natureza e número de relações que se estabelecem entre esses elementos. Esteselementos referem-se às características das tarefas, características dos indivíduos ecaracterísticas das relações.O carácter dinâmico dos sistemas de trabalho relaciona-se com a modificação dassuas características ao longo do tempo e determina a necessidade de adequação dasacções dos indivíduos para alcançar os fins definidos.A gestão da complexidade da situação de trabalho pelo indivíduo pode traduzir-se emconsequências para a sua saúde. Uma resposta comum é a aceitação de uma cargade trabalho acrescida. Por exemplo, para responder às exigências da tarefa, oindivíduo fará esforços acrescidos no plano físico e mental que, a médio ou longoprazo, poderão traduzir-se em custos para a sua saúde. Outro exemplo, é a aceitaçãode um risco acrescido para satisfazer as exigências da tarefa, não cumprindo com asregras de segurança.A análise ergonómica conduz à identificação das variáveis e do funcionamento dossistemas de trabalho, da variabilidade intra e inter individual dos operadores, dosresultados alcançados e dos efeitos sobre os indivíduos ao nível da sua saúde e daprodutividade.A compreensão do trabalho, seus determinantes e consequências para os indivíduos epara o sistema produtivo, conduz aos objectivos de transformação do trabalho ao níveldas condições de trabalho, dos aspectos organizacionais e da formação. 6 Teresa Patrone Cotrim
  7. 7. Módulo de Ergonomia2.2. Noção de Tarefa e de ActividadeNesta análise é fundamental a distinção clara entre os conceitos de tarefa e deactividade: 1. Tarefa é entendida como o quadro formal que define o trabalho prescrito para cada indivíduo no sistema de trabalho e engloba os objectivos, procedimentos, meios técnicos, condições temporais, envolvente física, entre outros. 2. A Actividade de trabalho corresponde ao trabalho real desenvolvido pelos trabalhadores; é a acção que pretende alcançar os objectivos definidos desenrolando-se num contexto estruturado por dispositivos, regras, normas, etc., que a condicionam, ao mesmo tempo que o curso das acções desenvolvidas estrutura o contexto, numa relação mútua de retroacções e regulações.A análise ergonómica visa o diagnóstico dos problemas, a avaliação das alternativas ea recomendação das soluções que melhor se adaptem ao homem. 3. Intervenção ErgonómicaA intervenção ergonómica baseia-se em critérios de segurança, de eficácia e deconforto.Considerando uma concepção positiva do trabalho, em que este contribui para aconstrução da identidade dos indivíduos e dos grupos, a construção de experiência ecompetências e é instrumento de suporte social, é objectivo da intervençãoergonómica a concepção de sistemas de trabalho adaptados ao Homem.O seu objectivo será, por excelência, a aplicação dos princípios ergonómicos a fim deoptimizar a compatibilidade entre o ambiente de trabalho e o homem, através doequilíbrio entre as exigências das tarefas e as características anatómicas, fisiológicase mentais dos operadores.Por outro lado, desenvolveram-se os modelos de formação dos profissionais visando oaumento da sua eficiência. A formação visa a habilitação dos profissionais comtécnicas e conhecimentos acerca dos riscos a que se encontram expostos de modo arealizarem escolhas informadas e responsáveis na protecção da sua saúde eprevenção da doença. 7 Teresa Patrone Cotrim
  8. 8. Módulo de Ergonomia 4. Carga de TrabalhoAs condições e a natureza do trabalho a realizar implicam uma variedade de efeitossobre o operador no que respeita à sua saúde e estado funcional, com repercussõessobre a sua vida social e económica.4.1. Noção de Carga de TrabalhoApesar de o termo carga sugerir a ideia de um fardo imposto ao trabalhador, convémesclarecer qual o entendimento que, actualmente, no domínio da Ergonomia, se temrelativamente a este conceito.Assim, o conceito de carga de trabalho envolve a carga imposta (solicitações eexigências da situação de trabalho), bem como as suas repercussões sobre ocomportamento e as funções do operador em actividade (www.apergo.pt, 2003).Em termos da evolução histórica deste conceito, encontramos várias interpretaçõespara o conceito de carga de trabalho, em função da área científica de formação dosrespectivos autores. Deste modo, alguns autores encaram o termo carga de trabalhocomo as consequências da execução da tarefa para o trabalhador e sobre osresultados, determinadas pelas exigências do trabalho (Leplat, 1977; Scherrer; entreoutros), enquanto que outros a consideram como uma solicitação, sendo o seu níveldeterminado pelo conjunto de exigências impostas ao operador, que implicamnecessariamente acções apropriadas por parte deste (Chiles e Alluisi, 1979).Em síntese, podemos definir Carga de Trabalho como o custo da actividade detrabalho para um determinado indivíduo, num momento preciso e em condiçõesespecíficas, sendo que estas se encontram em permanente mudança.4.2. Avaliação da Carga de TrabalhoEm Ergonomia, ao avaliarmos a carga de trabalho, colocamos o profissional no centrodas preocupações, criando-se um quadro conceptual que permite analisar os factoresde carga e os seus efeitos sobre o homem, tendo como objectivo a adequação dosníveis de carga externa às capacidades dos profissionais. 8 Teresa Patrone Cotrim
  9. 9. Módulo de ErgonomiaDe facto, a relação entre a carga externa (imposta pela situação de trabalho) e ainterna (percepcionada pelo indivíduo) não é necessariamente linear, para além deque o custo para um trabalhador em face de determinadas exigências, não é sempre omesmo em diferentes momentos. O processo de adaptação do trabalhador é dinâmicoe acompanha o desenrolar da actividade, pois os mecanismos psicofisiológicos deadaptação respondem aos factores de carga presentes.A avaliação da carga de trabalho deve permitir perceber os efeitos da actividade sobreo operador, em termos quantitativos e qualitativos (esforço, fadiga, etc.) comoresultado da sua adaptação às exigências impostas pelo sistema de trabalho. Nestesentido, procede-se à caracterização e análise das características dos trabalhadores edo sistema de trabalho.4.3. Características IndividuaisPara avaliarmos as consequências da actividade de trabalho para a saúde dosoperadores, temos que conhecer as bases do funcionamento humano. Seguidamente,apresentamos de forma resumida algumas das principais características a ter emconsideração na avaliação da interacção do homem com os sistemas de trabalho.a) Idade - Permite verificar em que faixa etária se encontram os trabalhadores. Namovimentação manual de cargas é um dos critérios considerados na definição dascargas máximas permitidas, uma vez que há medida que a idade aumenta, há umamaior probabilidade do indivíduo sofrer lesões ao nível da coluna vertebral. Comocuriosidade, é de referir que na população em geral se encontra um aumento dafrequência de lombalgias com a idade, assim como da sua cronicidade (De Zwart ecols., 1997; Thomas e cols., 1999). De destacar ainda as actuais preocupaçõesdecorrentes do envelhecimento da população mundial, o que determina umaabordagem particular das características específicas dos grupos etários mais elevadosna sua integração no trabalho.b) Género - Em geral, as mulheres possuem uma musculatura mais fraca, uma forçamuscular inferior, em 20 a 25%, à do homem, a sua capacidade física máxima étambém inferior e têm uma menor estatura (Cazamian, 1988; Fundaccion MAPFRE,1998). Esta característica é, também, um dos critérios considerados relevantes nadefinição das cargas máximas permitidas na movimentação manual de cargas. 9 Teresa Patrone Cotrim
  10. 10. Módulo de Ergonomiac) Peso – A sobrecarga ponderal poderá agravar as lombalgias minor e aumentar orisco de cronicidade (Leboeuf-Yde e cols, 1997).d) Estado de Saúde - O estado de saúde de cada trabalhador, num dado momento,poderá constituir-se como um factor de susceptibilidade individual que importaconhecer. Por exemplo, indivíduos que já tenham sofrido de algum tipo de lesão anível da coluna vertebral, ou que tenham problemas de saúde que condicionem a suaactividade, estão mais susceptíveis a sofrer algum tipo de lesão.5. Posturas de Trabalho e ForçaAs exigências das tarefas, o dimensionamento dos postos de trabalho e dosequipamentos e a organização do trabalho são factores que interagem entre si e vãodeterminar as posturas específicas adoptadas pelos indivíduos, na realização da suaactividade de trabalho.5.1. Noção de PosturaA postura consiste na orientação dos diferentes segmentos corporais no espaço,animados da actividade muscular que lhes permite vencer as forças externas.De um modo geral, toma-se como referência uma postura neutral e a definição deângulos de conforto.A postura neutra é aquela em que a organização espacial dos diversos segmentoscorporais é confortável e não condiciona esforços acrescidos para o sistema músculo-esquelético. A postura neutra de referência considera o indivíduo na posição de pécom:- Os dois pés bem apoiados e afastados cerca de 20 cm;- Os membros superiores descontraídos ao longo do corpo;- O olhar fixo num ponto do horizonte;- O tronco erecto. 10 Teresa Patrone Cotrim
  11. 11. Módulo de ErgonomiaPor outro lado, uma postura não neutra é aquela em que os segmentos se encontramfora dos ângulos de conforto, sendo assumida para desempenhar uma determinadatarefa e implicando um esforço para o sistema músculo-esquelético.Assim, e considerando a carga como a expressão da actividade de trabalho numdeterminado operador, em certas condições, pode dizer-se que a Carga Postural é oesforço a que o indivíduo fica submetido em termos posturais durante a realização deuma determinada tarefa.A avaliação das posturas de trabalho tem duas grandes aplicações segundoKeyserling (1991):- Obter dados sobre a exposição de determinadas posturas, que fornecem a base para estudos epidemiológicos acerca destas e sua relação com as lesões musculo- esqueléticas.- Avaliar determinada tarefa, para quantificar a carga postural e identificar as causas específicas das posturas inadequadas e penosas.5.2. Postura de Pé e de SentadoDesvantagens da Postura de Pé – A postura de pé mantida durante longos períodoscondiciona um aumento da pressão hidrostática venosa nos membros inferiores,redução do arco plantar, fadiga muscular e desconforto.Desvantagens da Postura de Sentado – A postura de sentado mantida durantelongos períodos condiciona uma redução da lordose lombar com o aumento da tensãointervertebral, o que tem como consequência a fadiga muscular e desconforto postural.Conforme podemos observar no quadro seguinte a pressão ao nível dos discosintervertebrais da coluna lombar varia com a postura: Postura Tensão intervertebral relativaDe pé com o tronco erecto 100%Deitado de costas 24%Sentado com suporte lombar e ligeira inclinação 80%para trásSentado com o tronco a 90º relativamente aos 140%membros inferioresSentado com o tronco inclinado para a frente 190% 11 Teresa Patrone Cotrim
  12. 12. Módulo de Ergonomia5.3. Ângulos de ConfortoOs ângulos de conforto permitem definir as posturas que condicionam menordesconforto durante a realização das tarefas. Para cada articulação estão definidas asamplitudes máximas, de acordo com os limites biomecânicos osteo-articulares, e osângulos de conforto.Seguidamente, apresentamos, de forma sumária, os ângulos de conforto e asamplitudes máximas relativas ao membro superior e coluna cervical: Articulação Movimento Ângulos de Amplitudes Conforto Máximas Punho Flexão / Extensão 20º / 20º 90º / 70º Desvio Cubital / Radial Posição neutra Cotovelo Flexão 60º - 90º 150º Pronação / Supinação Posição neutra 90º / 90º Ombro Flexão / Extensão 30º / 20º 180º /60º Abdução 30º 180º Cervical Flexão / Extensão 20º / 5º 70º / 55º5.4. ForçaPodemos definir a força como o nível de contracção muscular necessário para manteruma postura ou realizar uma tarefa. Durante a actividade muscular, os músculospodem desempenhar trabalho estático ou dinâmico.Trabalho Muscular Estático – Caracteriza-se por um estado prolongado decontracção dos músculos. Este tipo de contracção muscular ocorre, por exemplo,quando mantemos um objecto na mesma posição durante um determinado período detempo, ou na manutenção de uma postura. Durante o trabalho muscular estático oaporte sanguíneo ao músculo é menor, o que conduz mais rapidamente a fadiga e, emsituações prolongadas, a dor. Sempre que possível, este tipo de contracção muscularnão deve ser mantida por longos períodos de tempo. 12 Teresa Patrone Cotrim
  13. 13. Módulo de ErgonomiaTrabalho Muscular Dinâmico – Caracteriza-se pela alternância rítmica de contracçãoe alongamento das fibras musculares, ou de tensão e relaxamento. Nalgumascircunstâncias, podemos ter a activação de grandes grupos musculares para arealização do trabalho muscular, o que requer um maior aporte de nutrientes eoxigénio e consequente uma maior exigência é colocada ao sistema cardiocirculatório.Quando o trabalho muscular dinâmico se realiza com uma elevada frequência entreestado de tensão e relaxamento, podemos ter, também, dificuldade no aporte denutrientes e oxigénio ao músculo com consequente fadiga, assim como umahipersolicitação das estruturas de inserção, como os tendões e bainhas tendinosas.Fadiga Muscular – Ocorre quando o trabalho muscular é tão intenso que o aporte denutrientes e oxigénio, ou a remoção dos metabolítos produzidos, se tornaminsuficientes. A fadiga aumenta progressivamente em função da intensidade dotrabalho muscular e da duração e frequência das pausas. O tempo de recuperaçãonecessário depende do tipo de trabalho realizado, da sua intensidade e duração.7. Lesões Músculo-Esqueléticas Ligadas ao TrabalhoAs sociedades actuais confrontam-se cada vez mais com a problemática das lesõesmúsculo – esqueléticas ligadas ao trabalho, o que representa não apenas sofrimentohumano, mas também um enorme custo económico. Para além dos custos directosrelativos ao tratamento e reabilitação, há que ter em consideração os custos indirectosdo absentismo e da diminuição da produtividade.7.1. Características GeraisEm termos genéricos, as lesões músculo-esqueléticas ligadas ao trabalho maisfrequentes surgem ao nível do tronco ou dos membros.Ao nível do tronco as lesões mais frequentes são as lombalgias, as cervicalgias e ashérnias discais. Em contexto ocupacional as lesões ao nível da coluna lombar oucervical têm, frequentemente, como factores desencadeantes ou agravantes amovimentação manual de cargas, a sua elevação ou transporte, ou a realização das 13 Teresa Patrone Cotrim
  14. 14. Módulo de Ergonomiatarefas em posturas de flexão extrema do tronco durante longos períodos. No querespeita, em particular, à coluna lombar há que ter em consideração como factordesencadeante a exposição a vibrações de corpo inteiro, verticais, na posição desentado ao longo dos anos, em profissões como os motoristas.No que se refere aos membros superiores podemos agrupar as lesões relativamenteàs estruturas: ao nível dos tendões e estruturas adjacentes, dos nervos ouneurovasculares. No contexto ocupacional são referidas frequentemente as seguinteslesões: tendinite do supra-espinhoso; tendinite da longa porção do bicípete;epicondilíte; epitrocleíte; tendinite de “de Quervain”; Síndrome do túnel cárpico; entreoutros.7.2. Principais Factores de RiscoA exposição ocupacional de trabalhadores, em actividades que envolvam pelo menosum dos factores que apresentamos seguidamente, pode condicionar algum grau derisco no desenvolvimento a médio ou a longo prazo de lesões músculo – esqueléticasligadas ao trabalho: força; postura; repetitividade; ausência de períodos derecuperação.ForçaNo que se refere aos valores de referência relativamente à carga manuseada existemalgumas recomendações, nem sempre consensuais.Segundo o manual da Verlag Technik & Information (2003) os valores máximosrecomendados para o transporte manual de cargas, frequente e regular, são: Idade Carga Mulheres Homens 18 aos 39 anos 15 kg 25 kg Mais de 40 anos 10 kg 20 kgA legislação portuguesa (DL 330/93 de 25/9) referente à movimentação manual decargas considera uma carga demasiado pesada se for superior a 30 kg em operaçõesocasionais, ou superior a 20 kg em operações frequentes. 14 Teresa Patrone Cotrim
  15. 15. Módulo de ErgonomiaPosturaQuando a natureza das tarefas e as suas condições de realização impõem aotrabalhador a adopção de posturas penosas, estas condicionam uma sobrecargabiomecânica para as articulações e tecidos circundantes. As posturas penosas ouinadequadas são aquelas que, pela impossibilidade de alternância de posições, darealização de movimentos ou de respeitar os ângulos de conforto, determinamexcessiva tensão em determinadas regiões corporais.As pesquisas recentes consideram que a postura é um factor importante nodesenvolvimento das lesões músculo – esqueléticas ligadas ao trabalho.Algumas posturas estão relacionadas com patologias específicas, em particularquando associadas a movimentos repetitivos, realização de força, e / ou ausência deperíodos de recuperação, das quais apresentamos alguns exemplos:- Tenossinovite dos flexores ou extensores do antebraço e punho – flexão ou extensão extremas do punho;- Tendinite de De Quervain – desvio radial ou cubital do punho;- Lesões ao nível do ombro – flexão ou abdução do ombro acima dos 90º, ou extensão do ombro com alcance a zonas atrás do tronco;- Sindroma do Túnel Cárpico – flexão extrema do punho.RepetitividadeA repetitividade é considerada como um factor de risco de lesão músculo –esquelética. As tarefas muito repetitivas, ou seja, aquelas que envolvem uma elevadafrequência na realização de determinados movimentos, condicionam maior tensãomuscular e um período de recuperação mais elevado. A necessidade de quantificaçãoda frequência (número de vezes em que ocorrem) de realização de cada gestodurante um ciclo de trabalho é um indicador importante na quantificação do riscopotencial de lesão.Períodos de RecuperaçãoO período de recuperação é aquele em que os músculos usados se encontraminactivos, quer seja na realização de pausas, ou na execução de outras tarefas quesolicitem grupos musculares distintos. 15 Teresa Patrone Cotrim
  16. 16. Módulo de ErgonomiaDeve ser verificada a sua duração e distribuição ao longo dos turnos de trabalho,sendo o rácio recomendado entre o tempo total de recuperação e de trabalho, quandoas tarefas são repetitivas, de 5 a 10 minutos por hora.7.3. Exemplos de Situações de Trabalho PenosasSeguidamente apresentam-se alguns exemplos de situações de trabalho quedeterminam exigências posturais elevadas:- Postos de trabalho com grandes restrições de espaço que não permitem a adopção de posturas confortáveis (salas com tectos baixos, contentores, condutas, tanques, etc);- Trabalho de pé e inexistência de possibilidade para sentar;- Trabalho sentado e inexistência de possibilidade de andar ou de adoptar a postura de pé;- Altura ou inclinação inadequada da superfície de trabalho;- Inexistência de suporte para os antebraços;- Insuficiente espaço livre para os membros inferiores;- Controlo podal demasiado alto ou accionado apenas por um pé;- Disposição inadequada dos objectos de trabalho utilizados frequentemente;- Disposição inadequada dos objectos a visualizar frequentemente;- Deficiente configuração dos instrumentos de trabalho;- Movimentação manual de cargas;- Etc.7.4. Prevenção e Controlo do Risco de Lesão Músculo - EsqueléticaQualquer modelo de prevenção do risco de lesão músculo – esquelética ligada aotrabalho engloba diversas etapas, tais como a identificação da existência de factoresde risco, a avaliação dos níveis de risco potencial presentes em cada situação detrabalho, o planeamento e implementação de medidas de prevenção e controlo e aavaliação dos resultados obtidos. 16 Teresa Patrone Cotrim
  17. 17. Módulo de ErgonomiaDos vários modelos existentes para lidar com esta problemática, no que respeita àfase de identificação dos factores de risco e sua avaliação, destacamos aquele queMalchaire e Cook (2002) apresentam, pela sua aplicabilidade e integração dostrabalhadores nas fases iniciais de triagem. Este modelo engloba 4 fases: 1- Despiste;2 – Observação; 3 – Análise; 4 - Especializada.A primeira fase de despiste aplica-se genericamente a todas as situações de trabalhoe permite uma primeira caracterização que engloba a identificação de áreas ondeocorreram algum tipo de problemas (acidentes de trabalho, incidentes, doençaprofissional, queixas de saúde, desconforto, etc.). Os instrumentos utilizados devemser simples, tais como as listas de verificação. Um exemplo referido pelo MMBG(2002) engloba uma lista de verificação simples com uma escala de classificação de 0a 4. Nesta escala cada valor representa o seguinte:- 0 (nunca) – o factor em causa não aconteceu neste posto ou é irrelevante para este tipo de tarefas;- 1 (raramente) – significa que este factor ocorre esporadicamente e não constitui um risco;- 2 (regularmente) – este factor ocorre em intervalos que se repetem semanalmente, até uma vez por semana, com uma duração que não excede os 30 minutos diários;- 3 (frequentemente) – o factor ocorre repetidamente diariamente ou com uma duração superior a 30 minutos, mas não decorre ao longo de todo o turno.- 4 (muito frequentemente) – significa que este factor ocorre muito frequentemente durante todo o turno de trabalho.Nesta fase, os itens que integram este tipo de listas são genéricos e pretendemapenas a identificação de zonas potencialmente problemáticas. Existem váriosmodelos devendo adaptar-se aquele que se adequa às características do trabalha naempresa. No exemplo que se segue, na coluna da direita o trabalhador encarregue daverificação coloca o código respectivo, enquanto que na coluna da esquerda estãodescritos alguns dos itens que podem ser considerados: Tarefas repetitivas Pressão temporal Trabalho nocturno Transporte manual de cargas Trabalho de pé 17 Teresa Patrone Cotrim
  18. 18. Módulo de ErgonomiaA segunda fase aplica-se quando é identificada uma área problemática e continua aser de fácil aplicação, englobando, no entanto, a observação dos postos de trabalho ea utilização de listas de verificação mais detalhadas.A terceira e a quarta fases englobam a intervenção de especialistas, nomeadamentede ergonomistas e a utilização de metodologias específicas tais como OWAS, RULA,OCRA, NIOSH ou outras de acordo com as problemáticas identificadas.O diagnóstico ergonómico da situação de trabalho permite estabelecer relações entreas características da situação de trabalho, a natureza da tarefa, as características dostrabalhadores e os efeitos sobre a saúde e bem estar e os resultados obtidos. Acaracterização dos aspectos críticos na situação de trabalho e a identificação dosfactores de risco permite estabelecer as medidas mais adequadas para a prevenção econtrolo das lesões músculo – esqueléticas ligadas ao trabalho.As medidas para optimização da situação de trabalho contemplam a concepção oureconcepção dos postos de trabalho e/ou equipamentos, a organização do trabalho ea formação dos trabalhadores. Estas serão referidas em detalhe no ponto seguinte.7.5. Prevenção e Controlo do Risco de Lesão Músculo – Esquelética emGrávidas, Puérperas e LactantesNo âmbito da Prevenção das Raquialgias nas Mulheres durante a Gravidez, devemevitar-se as tarefas que:- Envolvam a movimentação manual, frequente, de cargas acima de 5 kg ou, ocasionalmente, acima de 10 kg;- Condicionem a adopção da postura de pé, por mais de 4 horas diárias, após o quinto mês de gravidez;- Condicionem a flexão elevada e frequente do tronco ou de forma mantida. 18 Teresa Patrone Cotrim
  19. 19. Módulo de Ergonomia8. Diversidade Antropométrica das PopulaçõesOs factores antropométricos são de grande importância em Ergonomia, em particularna concepção de postos e equipamentos de trabalho adequados à variabilidadehumana.Uma simples observação mostra como a espécie humana apresenta uma enormevariação de tamanhos físicos. Neste sentido, é necessário dispor de dados objectivosque permitam adequar o envolvimento às formas e tamanhos das pessoas. Umexemplo prático ressalta do quotidiano, as peças de vestuário apresentam váriostamanhos, que diferem não apenas nas alturas, mas também nos comprimentos ecircunferências dos braços e pernas, assim como nas larguras dos ombros e nascircunferências da cintura e do peito.8.1. Noções básicasA antropometria é um ramo das ciências biológicas que tem como objectivo deestudo as características mensuráveis da morfologia humana, baseada namensuração sistemática e na análise quantitativa das variações dimensionais do corpohumano.As dimensões físicas de uma população podem ser determinadas através da mediçãode comprimentos, profundidades e circunferências corporais.A avaliação antropométrica das populações requer uma selecção criteriosa dastécnicas, dos instrumentos de medida, do tipo de medidas pretendidas e dos pontosde referência antropométricos. Deste modo é possível minimizar os erros deobservação que frequentes neste tipo de estudos.8.2. Diferenças IndividuaisAs populações, em termos mundiais, são compostas por indivíduos de diferentes tiposfiscos ou biótipos. As proporções de cada segmento corporal apresentam diferençasentre populações, que determinam três tipos de características dominantes individuais: a) Endomorfo: indivíduos de formas arredondadas e macias, com grandes depósitos de gordura. A sua forma externa é estreita em cima e larga 19 Teresa Patrone Cotrim
  20. 20. Módulo de Ergonomia em baixo. O abdómen é grande e cheio e o tórax parece ser relativamente pequeno. Os braços e as pernas são curtos e flácidos. Os ombros e a cabeça arredondados. O corpo tem baixa densidade. b) Mesomorfo: indivíduos musculados, de formas angulosas. A cabeça é cúbica e maciça, os ombros e o peito são largos e o abdómen pequeno. Os membros são musculados e fortes. Possuem pouca gordura subcutânea. c) Ectomorfo: indivíduos de corpo e membros estreitos, com um mínimo de gordura e de músculos. Os ombros são largos, mas descaídos. O pescoço é fino e comprido, o rosto é magro e o tórax e abdómen são estreitos e finos.A maioria dos indivíduos não se encontram rigorosamente em nenhum destes tiposbásicos, misturando características dos três tipos. Assim, podem ser meso-endomorfos, endo-ectomórficos, etc.8.3. Diversidade HumanaO tamanho, forma e força dos seres humanos é influenciado pela idade e pelo sexo,mas também devemos ter em consideração aspectos como a etnia, classe social eocupação. A estas diferenças sobrepõem-se as mudanças que ocorrem naspopulações durante um determinado período de tempo, algumas das quais sãoatribuídas à migração e mistura genética de grupos étnicos distintos, enquanto outrasse associam a processos históricos complexos, o que no último século levou a umaumento geral da altura da população mundial.a) Diferenças de GéneroOs homens e as mulheres apresentam diferenças antropométricas significativas, tantonas dimensões absolutas, como nas proporções dos diversos segmentos corporais. Amaioria dos homens tem uma estatura superior à da maioria das mulheres da mesmaetnia. Os homens apresentam membros superiores mais compridos devido aocomprimento do antebraço ser maior. Na generalidade, as variáveis antropométricasnos homens são superiores às das mulheres, com excepção para a largura ecircunferência da anca, superiores nas mulheres. No que se refere à composiçãocorporal, a gordura representa uma maior proporção do peso do corpo na mulher 20 Teresa Patrone Cotrim
  21. 21. Módulo de Ergonomiaadulta (24,2%) do que no homem (13,5%). Também a gordura subcutânea se distribuide forma diferente entre os sexos. As mulheres acumulam gordura no peito, coxas,ancas e antebraços.b) Diferenças ÉtnicasUm grupo étnico consiste numa amostra ou população de indivíduos que fazem partede uma distribuição geográfica específica e têm em comum certas característicasfísicas que os distinguem, em termos estatísticos, de outros grupos.Os grupos étnicos principais são os seguintes: Negróides, Caucasóides eMongolóides. Os Negróides incluem a maioria das pessoas de pele escura de África,conjuntamente com algumas minorias étnicas da Ásia e ilhas do Pacífico. NosCaucasóides estão incluídas todas as pessoas de pele clara e escura da Europa,Norte de África, Ásia Menor, Médio Oriente, Índia e Polinésia. Dos Mongolóides fazemparte um largo número de grupos étnicos distribuídos através da Ásia Central, do lestee do sudeste das populações indígenas das Américas.Os processos de migração e de casamentos cruzados conduziu a que a maioria dasamostras populacionais inclui outros grupos étnicos para além do originário.Algumas das diferenças mais características é o comprimento dos membros inferiores,proporcionalmente maiores nos africanos negros do que nos europeus e inferiores nosJaponeses, chineses e coreanos.c) Tendência Secular para o CrescimentoDurante o último século ocorreram alterações biossociais na população de quase todoo planeta que conduziram ao: aumento da estatura nos adultos; aumento da taxa decrescimento das crianças; aparecimento da puberdade mais cedo.De 1880 até, pelo menos 1960, em quase todos os países europeus, os EUA, aAustrália e o Canadá, a magnitude da tendência tem sido similar: 10 mm por décadana estatura adulta.d) Influência da IdadeDurante as diversas fases da vida o corpo sofre alterações na sua forma e dimensões.De destacar que o processo de envelhecimento se inicia após os 30 anos de idade, apartir dos quais o organismo vai perdendo gradualmente a sua capacidade funcional e 21 Teresa Patrone Cotrim
  22. 22. Módulo de Ergonomiaa estatura começa a diminuir. É notório um declínio na estatura por volta dos 50 anosnos homens e dos 60 nas mulheres, sendo que a diminuição na altura é maior nasmulheres.e) Classe Social e OcupaçãoAlguns estudos apontam que existem diferenças na estatura entre diferentes classessociais, ou associadas à ocupação. No entanto, estes dados não são consensuais.8.4. Adequação entre a Diversidade Humana e o EnvolvimentoA variabilidade humana das populações coloca alguns problemas na concepção dosvários componentes do envolvimento. A adequação só seria perfeita se cada produtofosse concebido para um determinado sujeito, mas tal não é viável. Deste modo, aadequação obtém-se através de técnicas de optimização, em função do material e dotempo de utilização, obtendo-se artigos estandardizados.A maioria das dimensões lineares do corpo humano têm uma distribuição normal e afrequência de distribuição de uma dimensão particular revela uma curva de Gauss.Assim, a maior parte das medidas individuais cai dentro desta curva. Nos processosde concepção, não sendo possível acomodar todos os utilizadores, concebe-se para90% dos utilizadores, sendo o valor mais baixo definido pelo percentil 5 de umadimensão e o valor mais alto pelo percentil 95.8.5. Medidas Antropométricas EstáticasOs dados antropométricos estáticos, também conhecidos como estruturais, dizemrespeito às dimensões estruturais fixas do corpo humano. Estas medidas são feitasem posições corporais fixas e entre pontos anatómicos de referência. O número demedidas possíveis é elevado e muitas estão relacionadas com a concepção deespaços ou equipamentos específicos. Na concepção de espaços e equipamentos detrabalho é necessário ter em consideração as correcções para o vestuário a utilizar. 22 Teresa Patrone Cotrim
  23. 23. Módulo de ErgonomiaFigura 1: Exemplo de medidas antropométricas estáticas (Pheasant, 1988).8.6. Medidas Antropométricas DinâmicasEstas dimensões são avaliadas relativamente ao movimento de um ou váriossegmentos corporais, como por exemplo ao alcançar um comando. Este tipo demedidas vai permitir definir envelopes de trabalho. O conjunto dos arcos obtidos pelomovimento dos segmentos permite, também, definir volumes de trabalho que resultamda intersecção dos vários planos.Figura 2: Zonas de alcance manual (Pheasant, 1988).Estes dados são importantes para a definição de áreas de trabalho. As áreas detrabalho preferidas para as mãos e pés situam-se em frente ao corpo, dentro deenvelopes que reflectem a mobilidade do antebraço e braço, ou da perna e coxa.Estes envelopes são muitas vezes definidos como esferas em redor das articulaçõesrelativas aos movimentos e segmentos em questão. 23 Teresa Patrone Cotrim
  24. 24. Módulo de Ergonomia Figura 3: Representação das áreas de trabalho manual no plano horizontal.9. Principais constrições à Concepção de Espaços e Equipamentos deTrabalhoA diversidade antropométrica traduzida no facto de os seres humanos variaremconsideravelmente em todas as dimensões corporais e da probabilidade de encontrarum indivíduo com o mesmo percentil em todos os segmentos ser mínima provocaconstrições no processo de concepção.a) Espaço Livre – espaço mínimo para dar acesso pessoal a passagens sujeitas alimitações espaciais. Os envolvimentos devem fornecer um acesso e espaço decirculação adequados. Se for escolhido o percentil 95 da população utilizadora, entãoa restante população mais pequena será acomodada.b) Alcance – Resulta do deslocamento dos segmentos corporais no espaço tendo emvista a execução de uma tarefa. Os constrangimentos do alcance determinam adimensão máxima aceitável do objecto, sendo estes definidos pelo percentil 5 dapopulação utilizadora.c) Força – Este aspecto diz respeito à aplicação de força no manuseamento decontrolos ou outras tarefas com exigência física. As limitações de força impõemconstrangimentos, pelo que a determinação do nível de força aceitável deve serdeterminado a partir dos utilizadores com menores capacidades.d) Postura – A postura é determinada pela relação entre as dimensões do corpo e asdimensões do envolvimento na realização de determinadas tarefas. Esteconstrangimento é complexo pois decorre dos que referimos nos pontos anteriores. 24 Teresa Patrone Cotrim
  25. 25. Módulo de Ergonomia10. Trabalho com Ecrãs de VisualizaçãoA progressiva introdução das novas tecnologias, informática, burótica, robótica,telecomunicações, nos vários sectores de actividade determina que os trabalhadoresse adaptem as formas de trabalho com exigências visuais, posturais, mentais tambémdiferentes.O DL 349/93 de 1 de Outubro estabelece as prescrições mínimas de segurança e desaúde respeitantes ao trabalho com equipamentos dotados de visor, sendoregulamentado pela portaria 989/93 de 6 de Outubro. Deste constam como obrigaçõesdos empregadores a realização de uma análise dos postos de trabalho destinada aavaliar as condições de segurança e de saúde oferecidas aos trabalhadores,nomeadamente no que respeita aos eventuais riscos para o sistema visual, músculo-esquelético e, também, em termos mentais.10.1. Tipo de TarefasAs tarefas realizadas com ecrãs de visualização repartem-se essencialmente por doistipos: 1. tarefas de entrada de dados – incidindo fundamentalmente na interacção com o teclado; 2. tarefas de diálogo entre o operador e o equipamento – condicionando uma interacção mais frequente com o monitor.10.2. Elementos do Posto de TrabalhoO posto de trabalho e o tipo de assento devem ser concebidos de forma a permitir avariabilidade da postura de trabalho. Para que o operador tire o maior partido doselementos do posto de trabalho deverá conhecer as diferentes formas de regulação ea eficácia da sua utilização. 25 Teresa Patrone Cotrim
  26. 26. Módulo de Ergonomia10.2.1. Características do Plano de TrabalhoNo caso das actividades tradicionais na utilização dos ecrãs de visualização emescritórios encontramos um plano único de trabalho ou, frequentemente, dois planosadjacentes. A segunda situação permite uma melhor rentabilização do espaço e aproximidade dos vários equipamentos e instrumentos.Altura, largura e profundidade do plano de trabalhoA altura da superfície de trabalho deve permitir acomodar de forma confortável osmembros inferiores dos operadores do percentil 95 do sexo masculino e ser suficientepara a sua movimentação.Se o plano de trabalho é fixo a altura recomendada é de 72 cm.Se o plano de trabalho é ajustável a sua altura pode variar entre uma altura mínima de68 cm e os 78 cm.Por debaixo do plano de trabalho deve ser assegurado espaço livre paramovimentação das pernas tanto lateralmente (mínimo de 60 cm) como emprofundidade (entre 55 e 70 cm).A largura do plano de trabalho vai depender do tipo de tarefas e de suportes usadospelo operador, assim como do número de planos que este integra (um ou dois). Alargura recomendada varia entre os 120 cm e os 160 cm.A profundidade do plano de trabalho relaciona-se com a possibilidade de colocação doecrã respeitando a distância de visualização, e organização dos restantes elementoscomo o teclado, o rato, ou outros. O valor recomendado é de 80 cm.De considerar ainda que os planos de trabalho devem possuir os rebordosarredondados (boleados) de forma a evitar as arestas, e serem de tom mate com umfactor de reflexão que varia entre 0,3 e 0,4, admitindo-se um máximo de 0,5.Bloco de GavetasOs blocos de gavetas podem ser fixos ou móveis em função da actividade de trabalho.Particular atenção deve ser dada à colocação dos blocos fixos em função dalocalização do monitor no plano de trabalho, de forma a que não impeçam umacorrecta aproximação do operador a essa zona. 26 Teresa Patrone Cotrim
  27. 27. Módulo de Ergonomia10.2.2. Características da CadeiraA escolha do tipo de cadeira corresponde a imperativos de conforto e respeito peladiversidade antropométrica, pelas curvaturas anatómicas da coluna, pela circulaçãoarterio – venosa em função do tipo de tarefas a realizar.As principais características da cadeira devem respeitar os seguintes critérios:- Base com cinco apoios rodados. O tipo de rodízio deve ser adaptado ao solo de forma a garantir uma boa aderência.- Assento regulável em altura (42-52 cm). A largura do assento pode variar entre 40 e 48 cm e a profundidade entre 38 e 44 cm. O rebordo anterior deve ser arredondado. O revestimento do assento deve ser constituído de material permeável ao ar.- Encosto com apoio lombar, regulável em altura e em inclinação. A largura do encosto pode variar entre 36 e 48 cm. A altura do encosto pode variar, no entanto um encosto médio ou alto garantem um melhor suporte das costas dos operadores.- Apoio de braços: em função do tipo de tarefas podem existir ou não. A sua altura e largura não devem impedir a aproximação da cadeira ao plano de trabalho.A regulação dos componentes da cadeira deverá ser realizada de forma fácil e semesforço, pelo próprio operador na posição de sentado.10.2.3. Características do Apoio para PésO apoio para os pés deve ser previsto para os operadores de menor altura quando severifica que, após a regulação da altura do assento da cadeira em relação à secretária,este não realiza um bom apoio dos pés no solo.O apoio para os pés deve ser independente dos restantes elementos do posto detrabalho.10.2.4. Organização dos Elementos do Posto de TrabalhoPara além do mobiliário inerente ao posto de trabalho que referimos nos pontosanteriores, há que ter em consideração que a posição do monitor, a distância do olhoao monitor, a posição do teclado e do rato, são susceptíveis de influenciar a sensaçãode conforto e bem estar do profissional. 27 Teresa Patrone Cotrim
  28. 28. Módulo de ErgonomiaPosição do MonitorO bordo superior do monitor deve posicionar-se ao nível do eixo horizontal do olharcom o operador com o tronco erecto e correctamente apoiado.A distância recomendada do olho ao monitor varia entre um valor mínimo de 50 cm emáximo de 70cm. A distância média recomendada é de 60 cm.O monitor deverá ser colocado perpendicularmente às fontes de iluminação natural(janelas), não devendo existir nenhuma janela à frente ou atrás do monitor.Posição do Teclado e RatoO teclado deve ser colocado, preferencialmente, em frente ao monitor. Sempre queesta configuração não é possível tentar colocá-lo o mais próximo possível de modo aevitar posturas de rotação da cervical ou do tronco.Deverá manter-se um espaço livre em frente ao teclado de cerca de 10 cm, quepermita o apoio confortável das mãos e dos punhos na superfície de apoio.O rato deverá ser colocado no mesmo plano do teclado e na sua proximidade.10.3. Principais Factores de RiscoO trabalho com ecrãs de visualização condiciona elevadas exigências atencionais,visuais e posturais aos operadores.Os principais riscos relacionados com o trabalho informatizado são relativos aosistema visual e músculo – esquelético, mas não deverão ser esquecidos os aspectosde carga mental deste tipo de tarefas.De uma forma geral o trabalho informatizado implica: elevada concentração; visão acurta distância; movimentos frequentes dos olhos; postura de sentado por longosperíodos de tempo; movimentos frequentes das mãos e dos punhos; posturasestáticas.O sistema visual pode apresentar sinais de fadiga relativamente aos seguintesaspectos: focagem de imagens por períodos de tempo prolongados; adaptaçãoconstante a mudanças de iluminância e de brilho; reflexos; encandeamento entre as 28 Teresa Patrone Cotrim
  29. 29. Módulo de Ergonomiafontes de referência e o ecrã; falta de nitidez e de contraste; ilegibilidade de certoscaracteres.Os sinais de fadiga mais frequentes são: lacrimejo; sensação de ardor;hipersensibilidade à luz; vermelhidão; dores de cabeça.O trabalho informatizado coloca, também, elevadas exigências de concentração,podendo algumas das tarefas desempenhadas serem monótonas e repetitivas. Apressão temporal do trabalho e muitas vezes o isolamento podem conduzir aoaparecimento de stress.10.4. Medidas de PrevençãoA prevenção dos riscos relativos ao trabalho com ecrãs de visualização englobamedidas dirigidas ao ambiente, equipamentos, espaço e organização do trabalho, peloque sistematizamos os aspectos mais relevantes.EquipamentosOs equipamentos e mobiliário de trabalho não devem constituir fonte de risco para asaúde e segurança dos operadores, devendo cumprir os requisitos mínimos referidosnos pontos anteriores.Alternância e pausas de trabalhoA organização da actividade de trabalho deve permitir a interrupção periódica dotrabalho, seja através de pausas ou pela alternância de tarefas com diferentesexigências. As pausas devem ser introduzidas após 2 horas de trabalho e ter umaduração de 15 minutos.Informação e FormaçãoTodos os trabalhadores devem receber formação e informação adequadas sobre autilização dos equipamentos antes do inicio da sua actividade e sempre que ocorrammudanças no posto de trabalho. 29 Teresa Patrone Cotrim
  30. 30. Módulo de ErgonomiaBibliografia:• Bridger, R.S. (1995), Introduction to Ergonomics, McGraw-Hill, Inc., USA.• Cazamian, P (1987), Traité d’Ergonomie, Ed Octares,• Grace, Victoria (1991), The marketing of empowerment and the construction ofthe health consumer: A critique of Health Promotion, International Journal of HealthServices, 21 (2).• Guérin,F., Laville, A., Daniellou, F., Duraffourg, J. & Kerguelen, A. (1991),Comprendre le Travail pour le Transformer, ANACT.• Ian Noy, Y. (2000), The need of integrating human-centred considerations inQuality Policy, II Congresso de Ergonomia “Ergonomia na Gestão pela Qualidade”,APERGO, 6 e 7 de Abril, Costa da Caparica.• Karwowski, W. & Dzissah, J. (2000), Design and Evaluation of systemintegration efforts for occupational and environmental safety and health, ergonomicsand quality management, II Congresso de Ergonomia APERGO, 6 e 7 de Abril, Costada Caparica.• Kumar, S. (1999), Biomechanics in Ergonomics, Taylor and Francis.• Pheasant, Stephen (1988), Anthropometry, Ergonomics and Design, Taylor andFrancis, London.• Putz-Anderson, Vern (1988), Cumulative trauma disorders – A manual formusculoskeletal diseases of the upper limbs, Taylor and Francis, London.• www.apergo.pt• www.iea.orgFormador: Teresa Patrone CotrimEmail: tcotrim@fmh.utl.pt 30 Teresa Patrone Cotrim

×