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Apostila de psicologia jurídica
 

Apostila de psicologia jurídica

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Valter Barros Moura - psicanalista - MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50. ...

Valter Barros Moura - psicanalista - MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50.
Este material tem por objetivo definir o papel da Psicologia Jurídica ou Forense no Brasil, bem como informar novos campos de trabalho ao jovem psicólogo nas áreas jurídicas, uma das mais emergentes na atualidade. Os profissionais que atuam nesta área têm um grande desafio pelo frente: o de utilizar seus conhecimentos técnicos e científicos com vistas a auxiliar a esclarecer dúvidas em relação à aplicação do Direito objetivo junto aos magistrados, promotores e até mesmo nas esferas policiais. Isso para que se tomem decisões judiciais mais justas e assertivas. Razão pela qual, o psicólogo jurídico tem como instrumentos básicos, além da observação criteriosa, a aplicação de testes específicos para tecer avaliações psicológicas e psicopatológicas.

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    Apostila de psicologia jurídica Apostila de psicologia jurídica Document Transcript

    • Curso apostilado PSICOLOGIA JURÍDICA Por Valter Barros Moura - psicanalista 1 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • CONCEITO GERAL Este material tem por objetivo definir o papel da Psicologia Jurídica ou Forense no Brasil, bem como informar novos campos de trabalho ao jovem psicólogo nas áreas jurídicas, uma das mais emergentes na atualidade. Os profissionais que atuam nesta área têm um grande desafio pelo frente: o de utilizar seus conhecimentos técnicos e científicos com vistas a auxiliar a esclarecer dúvidas em relação à aplicação do Direito objetivo junto aos magistrados, promotores e até mesmo nas esferas policiais. Isso para que se tomem decisões judiciais mais justas e assertivas. Razão pela qual, o psicólogo jurídico tem como instrumentos básicos, além da observação criteriosa, a aplicação de testes específicos para tecer avaliações psicológicas e psicopatológicas. A subdivisão dos setores da Psicologia Jurídica fundamentou-se na classificação pertinente à publicação do Colégio Oficial de Psicólogos da Espanha. Há adequações nos termos utilizados que se referem à Psicologia Jurídica aplicada. NoDireito da Criança e do Adolescente, a Psicologia trata das questões contidas no atual Estatuto da Criança e do Adolescente com vistas à análise, por parte do profissional de psicologia, a reinserção social do menor infrator, do abandono, da disputa de guarda e onde possa haver situações de risco e violência familiar. Já a Psicologia Jurídica e o Direito de Família tratam de separações litigiosas, disputa de guarda, regulamentação de visitas e da destituição do pátrio poder. Neste setor, o psicólogo deverá atuar, designado pelo juiz, como perito oficial ou ad hoc (oficioso) e poderá atuar também como assistente técnico, como perito contratado por uma das partes do processo, cuja principal função será a de acompanhar o trabalho do perito oficial do Estado para emissão de laudos específicos. Na Psicologia Jurídica e o Direito Cível, o profissional estará envolvido em casos de interdição, indenizações, entre outras ocorrências cíveis, enquanto a Psicologia Jurídica do Trabalho tem por objetivo analisar e apurar as reais causas e conseqüências de acidentes de trabalho, garantindo ou não as indenizações pertinentes julgadas pelo judiciário. No Direito Penal (na fase processual) objetiva convalidar ou não os exames de corpo de delito, de sanidade ou insanidade mental entre outros procedimentos que serão convalidados juntamente com outro profissional da área médica, especificamente o especialista em psiquiatria. A Psicologia Judicial ou do Testemunho opera no estudo e validação dos testemunhos nos processos criminais, de acidentes ou acontecimentos cotidianos. Agora na Psicologia Penitenciária (fase de execução), o profissional tem seu trabalho voltado na execução e remissão das penas restritivas de liberdade e restritivas de direito. Psicologia Policial e das Forças Armadas: o psicólogo jurídico atuará na seleção e na formação geral ou específica do contingente de pessoal das polícias civil, militar e do exército. Na Vitimologia, o psicólogo jurídico buscará auxiliar na recuperação e reintegração afetiva, laboral e social das vítimas de violência. Existem no Brasil programas de atendimentos às vítimas de violência doméstica. Busca-se o estudo, a intervenção no processo de vitimização, a criação de medidas preventivas e a “atenção integral centrada nos âmbitos psico-socio-jurídicos” (Colégio de Psicólogos da Espanha, 1998, p. 117). 2 Quanto a Mediação, trata-se de uma forma inovadora de se fazer imperar a justiça. As partes são as responsáveis pela solução do conflito com ajuda de um terceiro agente, o psicólogo jurídico, que de forma imparcial atuará como mediador. De acordo com Colégio Oficial de Psicólogos da Espanha “a base desta nova técnica está em encontrar uma forma de entender as relações entre o indivíduo e a sociedade distinta, sustentada pela autodeterminação e a responsabilidade que conduzem a um comportamento cooperativo e pacífico” (1998, p. 117). A mediação pode ser utilizada tanto no âmbito Cível como no Criminal. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • O profissional de Psicologia na área jurídica também poderá atuar na formação e atendimento de juízes e promotores, com vistas a esclarecê-los o que é, como se desenvolve e opera o nosso equipamento psíquico, bem como as nossas relações com o meio e a sociedade. Posto isso, a mente humana pode e deve ser compreendida como uma estrutura fundamental, na qual podemos considerar que a base fundamental do Direito nasce das questões psicológicas geradas pelo ser humano no seu convívio social e normativo. A mente humana se estrutura. E Sigmund Freud empregou a palavra “aparelho” para caracterizar uma organização psíquica dividida em sistemas ou instâncias psíquicas, com funções específicas para cada uma delas e que estão interligadas entre si, onde ocupam certo lugar na mente. Em grego, “topos” quer dizer “lugar”, daí que o modelo tópico designa um “modelo de lugares”, sendo que Freud descreveu dois deles como sendo “a primeira tópica” conhecida como Topográfica e a “segunda tópica”, como Estrutural. Nesse 1º modelo tópico, o aparelho psíquico é composto por três sistemas: o inconsciente (Ics), o pré-consciente (Pcs) e o consciente (Cs). Algumas vezes, Freud denominou este último sistema de percepção-consciência. Insatisfeito com o “modelo topográfico”, porque esse não conseguia explicar muitos fenômenos psíquicos, em especial àqueles que emergiam na prática clínica, ele gradativamente elaborou uma nova concepção. Até que, em 1920, mais precisamente a partir do importante trabalho metapsicológico “Além do princípio do prazer”. Nele Freud estabeleceu, de forma definitiva, a clássica concepção do aparelho psíquico, conhecido como modelo estrutural (ou dinâmico), tendo em vista que a palavra “estrutura” significa um conjunto de elementos que isoladamente têm funções específicas, porém não são dissociados entre si, porque interagem permanentemente e influenciam-se reciprocamente. Ou seja, diferentemente da “primeira tópica”, que sugeria uma passividade, a “segunda tópica” é eminentemente ativa e dinâmica. Essa concepção estruturalista ficou cristalizada em “O ego e o id”, de 1923 e que consiste em uma divisão tripartite da mente em três instâncias: o id, o ego e o superego. Grosso modo, de maneira simples e objetiva, quando estabeleço uma nova relação clínica interpessoal ou diálogo, independentemente do gênero, seja ele masculino ou feminino, associo à mente das “criaturas” em questão a uma “cebola”. Explico: de forma metafórica, imagine a personalidade do indivíduo em questão como as primeiras camadas ou “cascas” exteriores que protegem a cebola, ou seja, o ego. Ao nos aprofundarmos cada vez mais nas áreas internas, ali encontraremos, então, o superego, o mediador e censor moral. Será ele quem deixará à mostra somente a parte exterior ou decidirá revelar algo mais, que pode nos fazer chorar ou não. Por fim, se chegarmos ao núcleo, nas primeiras camadas essenciais, nelas reside o inconsciente, onde a não há lógica e os instintos primários, o prazer sem quaisquer questionamentos morais ou culpa é tudo que importa. 3 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 1 - COMPREENDA NOSSO APARELHO PSÍQUICO Vamos recapitular. O id foi um termo introduzido por Georg Groddeck, em 1923, e conceituado por Sigmund Freud no mesmo ano, a partir do pronome alemão neutro da terceira pessoa do singular (Es), para designar uma das três instâncias da segunda tópica freudiana, ao lado do ego (eu) e do superego (supereu). O id (isso) é concebido como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem inconsciente. 1.1 - O ID O id (ou isso) é uma das três instâncias diferenciadas por Freud na sua segunda teoria do aparelho psíquico. Nele se constitui o pólo pulsional da personalidade do indivíduo. Os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e adquiridos socialmente. Do ponto de vista “econômico”, o id é para Freud um grande reservatório inicial da energia psíquica, enquanto sob a ótica “dinâmica”, ele abriga e interage, juntamente com as funções do ego e com os objetos, tanto os da realidade exterior, como aqueles introjetados e que habitam o superego, com os quais, quase sempre, entra em conflito. Porém, não raramente, o id estabelece alguma forma de aliança e conluio com o superego. Agora, se observarmos, genericamente estas são as suas diferenciações. Do ponto de vista “funcional”, o id é regido pelo princípio do prazer logo, pelo processo primário, primeiro ou primitivo. Já do ponto “topográfico”, é no inconsciente, enquanto instância psíquica que coincide com o id, que consideramos o pólo psicobiológico da personalidade constituído pelas pulsões. 1.2 - O EGO OU O EU Eis aqui um termo empregado na Filosofia e na Psicologia para designar a pessoa humana como consciente de si mesma e do objeto de pensamento. Retomado por Sigmund Freud, esse termo designou, num primeiro momento, a sede da consciência. O ego (eu) foi então delimitado num sistema chamado de primeira tópica, que abrangia o consciente, o préconsciente e inconsciente e que administram, dioturnamente, conflitos e tomadas de decisões. A partir de 1920, o termo mudou de estatuto, sendo conceituado por Freud como uma instância psíquica, no contexto da segunda tópica que abrange outras duas instâncias: o superego e o id. O ego tornou-se então, em grande parte, inconsciente. Essa segunda tópica (id, ego, superego) deu origem a três leituras divergentes da doutrina freudiana: a primeira destaca um eu concebido como um pólo de defesa ou de adaptação à realidade (Ego Psychology, annafreudismo); a segunda mergulha o ego no id, dividindo-o num ego (eu – menor) e num Ego (Eu - maior), cujo sujeito pode ser determinado por um significante (lacanismo); e a terceira inclui o ego numa fenomenologia do si mesmo ou da relação de objeto (Self Psychology, kleinismo). Do ponto de vista tópico, o ego está numa relação de dependência tanto para com as reivindicações do id, como para com os imperativos e censuras do superego e exigências da realidade normativa. Embora se situe como o mediador, aquele que é encarregado dos interesses da totalidade da pessoa enquanto indivíduo, a sua autonomia é apenas relativa. 4 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Quanto ao ponto de vista dinâmico, o ego representa, eminentemente, no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade. Por essa razão ele põe em jogo uma série de mecanismos de defesas, as quais são motivadas pela percepção que um indivíduo possui sobre algum afeto desagradável (sinal de angústia). Do ponto de vista econômico, o ego surge como um elo, cujos fatores dessa ligação advém dos processos psíquicos. Mas, nas operações defensivas, as tentativas de ligação da energia pulsional são contaminadas pelas características que especificam o processo primário: assumem um aspecto compulsivo, repetitivo e não real. Daí as repetições de modelos, neuroses e afins. A teoria psicanalítica procura explicar a gênese do ego em dois registros, relativamente heterogêneos, quer vendo nele um aparelho adaptativo, diferenciado a partir do id em contato com a realidade exterior; quer definindo-o como o produto de identificações que levam à formação do indivíduo atrelado a um objeto de amor investido pelo id. Em relação à primeira teoria do aparelho psíquico, o ego é mais vasto do que o sistema pré-consciente e inconsciente, na medida em que as suas operações defensivas são, em grande parte, inconscientes. Freud descreveu, então, o ego como uma parte do id, que por influência do mundo exterior, teria se diferenciado. No id reina o princípio de prazer, como já disse. Ora, o ser humano é um animal social e, se quiser viver com seus pares, não pode se instalar nessa espécie de nirvana que sugere o princípio de prazer, onde o ponto de menor tensão. Da mesma forma que lhe é impossível deixar que as pulsões se exprimam em estado puro, primevo e primitivo. Por essa razão, o mundo exterior impõe às crianças inúmeras proibições que provocam o recalcamento e a transformação das pulsões, na busca de uma satisfação substitutiva que lhes irá provocar no eu, por sua vez, um sentimento de desprazer. O princípio da realidade substitui o princípio de prazer. O eu se apresenta como uma espécie de tampão entre os conflitos e clivagens do aparelho psíquico, ao mesmo tempo que tenta desempenhar o papel de uma espécie de pára-excitação, em face das agressões do mundo exterior. 1.3 - O SUPEREGO OU SUPER EU É uma das instâncias da personalidade tal como Freud a descreveu na sua segunda teoria do aparelho psíquico, cujo papel é assimilável ao de um juiz ou de um censor moral ao ego. Freud viu na consciência moral, na auto-observação e na formação de ideais as funções do superego. De forma clássica, o superego é definido como herdeiro do complexo de Édipo, que se constitui pela interiorização das exigências e das interdições parentais. Embora eu divirja, em parte, dessa teoria, alguns psicanalistas recuam, para mais cedo, a formação do superego, vendo esta instância em ação desde as fases pré-edipianas (Melanie Klein) ou pelo menos procurando comportamentos e mecanismos psicológicos muito precoces que seriam precursores do superego (Glover, Spitz, por exemplo). 5 De qualquer forma, todos concordamos que o superego é caracterizado como sendo a “voz da consciência”, nosso juiz interno e a incorporação de parte do superego dos nossos pais, da sociedade e das estruturas religiosas e normativas. Sigmund Freud estabeleceu, na primeira tópica, as fases Oral, Anal, Fálica, Latência e Genital. O id é caracterizado por ser uma estrutura regrada pelo princípio do prazer, o qual busca seu próprio “deleite”, e toda criança é regrada por este princípio. Para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, os sonhos eram a via régia, a estrada principal para que esse princípio pudesse ser atingido pelo inconsciente do indivíduo. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Da importância da formação e estabelecimento de vínculos no desenvolvimento do ego, descritos pela psicóloga Melanie Klein, isso significa que sem vínculos um ser humano não se desenvolve. A arrogância impede a formação de vínculos e o indivíduo necessita dessa formação para que eles se estabeleçam e se desenvolvam. Arrogância e violência estão ligadas, de forma muito estreita, a não formação adequada desses vínculos. Esta visão proposta por Melanie Klein sofreu influência em seu discípulo Wilfred Ruprecht Bion. Portanto, a adequada formação e desenvolvimento humanos, para esses estudiosos, devem caminhar no sentido de que o ser humano aprenda a formar vínculos e para não se tornar um ser arrogante. 6 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2 - MECANISMOS DE DEFESA: ALIADOS OU INIMIGOS? Este foi o nome que Freud adotou para apresentar os diferentes tipos de manifestações e as defesas que o ego pode apresentar, já que este não se defronta só com as pressões e solicitações do id e do superego, pois aos dois se atrelam o mundo exterior e as lembranças do passado. Portanto, o que vou apresentar são tipos de operações psíquicas que visam defender o ego de um indivíduo e que podem ser especificadas como mecanismos predominantes. Estes mecanismos diferem do segundo o tipo de pressão não resolvida pelo ego e o grau de elaboração do conflito defensivo entre outras coisas. Não há divergências quanto ao fato de que, os mecanismos de defesa são utilizados pelo ego, mas permanece aberta a questão teórica de sabermos se a sua utilização pressupõe a existência de um ego organizado e forte que seja o seu próprio suporte para as pressões do id e do superego. Isso porque, o ego ao ser coagido pelas forças imperiosas do id, as quais exigem a satisfação de seus impulsos instintivos e imediatos juntamente com a inflexível censura do superego que freqüentemente proíbe tais satisfações faz com que, por vezes, o ego se veja na contingência de sucumbir ora a uma ou a outra. Nestes casos, o ego precisa usar de certos mecanismos ou artifícios para apaziguar o id ou para dissimular ou desculpar seu modo de proceder diante das críticas do superego. Esse procedimento defensivo do ego foi observado primeiramente por Breuer e, atestado na seqüência, por Freud e foi designado por ambos com o nome de “mecanismo de defesa”. Por volta de 1900, Freud lhe deu o nome de “recalque”. Mais tarde Freud tornou a usar a primeira designação como denominação geral e utilizou a segunda para designar uma das espécies das “defesas do ego”. Quando o ego está consciente das condições reinantes ele consegue sair-se bem das situações sendo lógico, objetivo e racional. Contudo, quando ocorrem situações que possam vir a desencadear sentimentos de culpa ou ansiedade, o ego perde as três qualidades citadas acima e a ansiedade, que é um tipo de angústia, se instala de forma inconsciente e que ativa uma série de mecanismos de defesa com a finalidade de proteger esse ego contra uma dor psíquica iminente. Há vários mecanismos de defesa, sendo alguns mais eficientes que outros e os que exigem menos dispêndio de energia para funcionarem a contento e outros que são menos satisfatórios, porém todos requerem gastos maiores ou menores de energia psíquica. As defesas do ego podem ser divididas em: A) Defesas bem sucedidas e que geram a cessação daquilo que se rejeita; B) Defesas ineficazes, que exigem repetição ou perpetuação do processo de rejeição, a fim de impedir a erupção dos impulsos rejeitados. As defesas patogênicas, nas quais se radicam as neuroses pertencem à segunda categoria. Quando os impulsos opostos não encontram descarga, mas permanecem suspensos no inconsciente e, ainda aumentam, pelo funcionamento continuado das suas fontes físicas, se produz um estado de tensão, com possibilidade de erupção. As conseqüências é que o indivíduo “explode”, emocionalmente, de alguma forma. 7 Daí por que as defesas bem sucedidas, que de fato, menos se entendem, têm menor importância na psicologia das neuroses. Nem sempre, porém, se definem com nitidez as fronteiras entre as duas categorias. Há vezes em que não se consegue distinguir entre “um impulso que foi transformado pela influência do ego” e “um impulso que irrompe com distorção, contra a vontade do ego e sem que este o reconheça”. Este último tipo de impulso produz atitudes comportamentais constrangedoras e há de se repetir continuamente, pois jamais permitirá relaxamento pleno, ao ponto de gerar fadiga mental e emocional no indivíduo. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2.1 - SUBLIMAÇÃO Este é o mais eficaz dos mecanismos de defesa, na medida em que canaliza os impulsos libidinais para uma postura socialmente útil e aceitável. As defesas bem sucedidas podem colocar-se sob o título de sublimação, expressão que não designa um mecanismo específico, como, por exemplo, a transformação da passividade em atividade; o rodeio em volta do assunto ou inverter certo objetivo em um objetivo oposto. O fator comum está na finalidade ou no objeto (ou um e outro) sob a influência do ego que a transforma sem bloquear a descarga adequada, ou seja, um impulso é modificado de forma a ser expresso em conformidade com as demandas do meio, e isso ocorre de forma inconsciente e é considerada sempre como uma função de um ego normal. Nesse sentido específico, não é propriamente um mecanismo de defesa porque não impõe nenhum trabalho defensivo ao ego, não é necessário um controle sobre o impulso, pois este se apresenta modificado, de tal forma que, pode ser satisfeito sem quaisquer proibições. O ego, na sublimação, ajuda o id a obter expressão externa, o que não ocorre quando usa outros mecanismos de defesa. Embora o impulso original não seja consciente, na sublimação não existe a repressão porque ao deparar com a rejeição pela consciência, o impulso é desviado para canais socialmente aceitos. Exemplo: o desejo infantil que a criança tem de brincar com fezes, geralmente repudiado pelos pais, readequa-se e ganha expressão na atividade sublimada de um futuro escultor. Assim, fica simples compreender quando o impulso é canalizado a outros interesses. Outro exemplo surge na impossibilidade de se ter filhos, que pode ser sublimada pelo afeto aos bichos de estimação como cachorros, gatos, etc… Na sublimação, cessa o impulso original pelo fato de que a respectiva energia é retirada em benefício da catexia do seu substituto. Nas outras defesas, a libido do impulso original é contida por uma contracatexia elevada. As sublimações exigem uma torrente incontida de libido, tal qual a roda de um moinho precisa de um fluxo d’água desimpedido e canalizado. O fato empírico das sublimações, sobretudo as que se originam na infância, dependem da presença de modelos, de incentivos que o ambiente forneça direta ou indiretamente e corrobora a asserção de Freud, no sentido de que a sublimação talvez se relacione intimamente com a identificação. Mais ainda: os casos de transtorno da capacidade de sublimar mostraram que esta incapacidade do indivíduo corresponde às dificuldades na promoção de suas identificações. Tal qual ocorre com certas identificações, também as sublimações são capazes de opor-se e se desfazerem, com êxito maior ou menor, certos impulsos destrutivos infantis. Contudo, também podem satisfazer, de maneira distorcida, estes mesmos impulsos destrutivos. Certas reações de nojo, habituais entre as pessoas civilizadas, sem vestígio das tendências instintivas infantis contra as quais se desenvolveram originalmente, incluem-se nesta categoria. O que ocorre, então, é idêntico ao que Freud chamou transformação no contrário: uma vez completada, toda a força de um instinto opera na direção contrária. 2.2 - REPRESSÃO 8 Esta operação psíquica tem por objetivo fazer com que desapareça da consciência impulsos ameaçadores, sentimentos, desejos, ou conteúdos desagradáveis e inoportunos. Em sentido amplo, tende a fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno: uma idéia ou afeto e, nesse sentido, o recalque seria uma excelente opção, uma modalidade especial de repressão. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Em sentido mais restrito, designa certas operações diferentes do recalque: a) ou pelo caráter consciente da operação e pelo fato de o conteúdo reprimido se tornar simplesmente pré-consciente e não inconsciente; b) ou, no caso da repressão de um afeto, porque este não é transposto para o inconsciente e sim inibido, ou mesmo suprimido. A repressão afasta de nossa consciência uma idéia ou evento que poderia causar ansiedade, logo, angústia. Entretanto, esse conteúdo reprimido não é eliminado e continua no inconsciente. O resultado disso e suas conseqüências seriam algumas doenças psicossomáticas que podem estar vinculadas à essa repressão, tais como: asma, artrite, algumas fobias, frigidez etc. 2.3 - RACIONALIZAÇÃO Esta é uma boa maneira que o indivíduo encontra de substituir, sempre por boas razões, para explicar uma determinada conduta que exija explicações, de um modo geral, da parte de quem adotou algum comportamento específico. Eu e alguns outros psicanalistas costumamos dizer, em tom de chiste, que “a racionalização é uma mentira inconsciente que se põe no lugar daquilo se reprimiu ou se quer reprimir”. Este é um processo pelo qual o sujeito procura apresentar uma explicação coerente do seu ponto de vista lógico, ou aceitável do ponto de vista moral, para uma atitude, uma ação, uma idéia, um sentimento ou comportamento, cujos motivos verdadeiros ele não percebe. Fala-se mais especialmente da racionalização excessiva como um sintoma de uma compulsão defensiva, de uma formação reativa. A racionalização intervém também no delírio, resultando numa sistematização mais ou menos acentuada. Racionalizar é um processo muito comum, que abrange um extenso campo que vai desde o delírio ao pensamento normal, e como qualquer comportamento, pode admitir uma explicação racional, muitas vezes é difícil diagnosticar se esta é uma falha ou não. Em especial, no tratamento psicanalítico, encontraríamos todos os intermediários entre esses dois extremos. Em certos casos é fácil demonstrar ao paciente o caráter artificial das motivações que ele invoca, e com isso pode-se incitá-lo a não se contentar mais com elas; em outros, os motivos racionais são particularmente sólidos (psicanalistas devem conhecer as resistências que, sob a “alegação da realidade”, por exemplo, pode se esconder uma dissimulação da realidade), mesmo assim pode ser útil colocar tais motivos “entre parênteses” para se descobrir as satisfações ou as defesas inconscientes que a eles se juntam. Na racionalização tenta-se explicar algo conscientemente, com o objetivo de justificar manifestações de impulsos ou afetos inconscientes e não aceitos pelo ego do indivíduo. Por exemplo, uma atitude agressiva em relação a outros indivíduos pode ser justificada, pelo agressor, como defesa a uma provocação. O que o indivíduo não percebe são seus sentimentos de hostilidade para com as pessoas, independente de provocações. Quando esses sentimentos são expressos, o indivíduo procura explicá-los usando de argumentos aparentemente lógicos. Essas são racionalizações de sintomas, neuróticos, perversos ou compulsões defensivas (a exemplo dos excessivos rituais de limpeza, alimentares ou de higiene, por exemplo). 9 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2.4 - PROJEÇÃO O termo designa uma operação psíquica pela qual um fato neurológico ou psicológico localizado no exterior é deslocado e passa do centro para a periferia, ou seja, do sujeito para o objeto. No sentido psicanalítico, esta operação faz com que o indivíduo expulse de si e localize no outro (pessoa ou coisa) as qualidades, sentimentos e desejos objetais que ele desconhece ou que recusa a ver que possui em si próprio. Trata-se aqui de uma defesa de origem muito arcaica, que vamos encontrar em ação particularmente na paranóia e também em modos de pensar “normais”, como a superstição. Neste mecanismo de defesa do ego, um dos mais comuns e radicais, a projeção consiste em transferir, para as pessoas e objetos de nossas relações, os nossos próprios conflitos internos inaceitáveis. Ao contrário da conversão, pela qual transferimos tais conflitos para nós mesmos, convertendo-os em sintomas ou doenças, na projeção os transferimos para o exterior, para as outras pessoas ou coisas. Sua manifestação surge quando o ego não aceita e não reconhece um impulso do id, que para o próprio ego é inaceitável e o atribui a outra pessoa. É o caso do menino que gostaria de roubar frutas do vizinho, não tem a coragem para tanto, e diz que soube que um menino, na mesma rua, esteve tentando pular o muro do vizinho. Outro exemplo é o do homem que não pode, conscientemente, aceitar seus fortes sentimentos hostis em relação a um superior de quem depende, considera que este o persegue e o maltrata, embora isto não corresponda às atitudes reais do referido superior. Ou do indivíduo que muito se incomoda com a sexualidade ou o exercício dela de outrem, difamando-o ou exasperando-se ao ponto até de agredi-lo. Não só os impulsos hostis agressivos e sexuais, mas tudo o que é recalcado pode ser projetado para os demais. Eis alguns discursos comuns: “Não sou eu que o amo é ele que me procura...; não sou eu covarde, indiscreto, desonesto, ladrão, imbecil, etc., e sim ele (a)...; não sou eu que o odeio, mas ele sim que me odeia...; não desejo atacá-lo, é ele quem deseja atacar-me”. Em casos extremos, o indivíduo pode atribuir a outro as qualidades que são inventadas como nos delírios de persecução dos paranóicos; ou atribuir aos outros, características que ele mesmo possui; em casos mais leves basta exagerar as qualidades dos outros, para disfarçar as próprias. Neste processo mental, o que se vê são os atributos da própria pessoa, não aceitos conscientemente e que são imputados a outrem, sem levar em conta os dados da realidade, quando o próprio indivíduo coloca no outro, sentimentos, desejos ou idéias que são dele próprio. Esse mecanismo ajudaria então a lidar de uma maneira mais fácil com esses sentimentos, contudo a dificuldade consciente está em se admitir determinadas “características” de nossa própria personalidade que são amenizadas projetando-as no outro. 10 Para entender esse processo, podemos considerar um indivíduo que tem pensamentos de infidelidade durante um relacionamento. Ao invés de lidar com tais pensamentos indesejáveis de forma consciente, o indivíduo os projeta, subconscientemente, no parceiro (a) e começa então a acreditar que o outro é que tem pensamentos de infidelidade, alucina e até acredita que ele ou ela tem outros “casos”. Nesse sentido, a projeção psicológica está relacionada com a recusa ou negação, que é o único mecanismo de defesa mais primitivo que a própria projeção. Como todos os mecanismos de defesa, a projeção possibilita um instrumento para que a pessoa possa proteger sua mente consciente de um sentimento que, de outra forma, para ela, seria repugnante. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2.5 - DESLOCAMENTO Este mecanismo é uma modalidade da projeção. Por meio dele, o objeto de uma atitude inaceitável é substituído ou trocado por outro, tornando-se mais fácil e aparentemente mais lógico. O marido que recebe uma repreensão no seu trabalho pode justificar esse incidente e investir a agressão direcionando-a a um colega, um subalterno, a esposa, os filhos ou mesmo ao cachorro, descarregando sua raiva por não poder descarregar no seu chefe, a quem teme ou a deve favores. O impulso sexual dirigido para a esposa, namorada ou parceira, se insatisfeito, pode ser deslocado para a empregada, a prostituta, etc. Quantas esposas se tornam as culpadas pelo marido, um quarentão, tê-las substituído por alguma aventureira desqualificada. Os impulsos agressivos podem ser aliviados se substituídos por algum exercício violento, como chutar bola, boxe, cortar madeira, respiração profunda, assistir a luta livre, etc. Exercícios podem ser muito benéficos, de forma a impedir que haja o recalque, como também necessário, porque é uma boa saída ou escape à energia emocional que o acompanha. O processo psíquico do deslocamento também se dá através do “Todo ser representado por uma parte ou vice-versa”. Pode ser uma idéia representada por outra que, emocionalmente, esteja associada a ela, pois esse mecanismo não tem qualquer compromisso com a lógica. É o caso de alguém que, tendo tido uma experiência desagradável com um policial reaja, desdenhosamente, em relação a todos os policiais. É muito comum nos sonhos, onde uma coisa representa outra e também se manifesta na transferência por associação, fazendo com que o indivíduo apresente sentimentos em relação a um indivíduo e que, na verdade, lhe representa outra coisa que advém do seu passado. Esse fenômeno é particularmente visível na análise do sonho, encontra-se na formação dos sintomas psiconeuróticos e, de um modo geral, em todas as formações do inconsciente. Na teoria psicanalítica do deslocamento existe a hipótese econômica de que uma energia de investimento é suscetível de se desligar das representações e deslizar por caminhos associativos. O “livre” deslocamento desta energia é uma das principais características do modo como o processo primário rege o funcionamento do sistema inconsciente. Isso porque, é através deste mecanismo que um impulso ou sentimento é inconscientemente deslocado de um objeto original para um objeto substituto. Assim, o deslocamento trata-se de um mecanismos fundamental da neurose e das fobias. O exemplo clássico é o do pequeno Hans, tratado por Freud. O menino não podia aceitar, conscientemente, a idéia de odiar seu querido pai, procurou resolver o conflito entre amor e ódio, deslocando os sentimentos negativos para os cavalos. Os impulsos agressivos e os temores de desejar a morte dirigida, originalmente ao pai, passaram para aqueles animais. Por isso Hans os temia, a ponto de não mais sair de casa para não ter de encontrá-los. É assim, por meio do deslocamento, que o indivíduo se protege do sofrimento que resultaria da consciência da real origem de um problema e seus efeitos vem à tona, mas o motivo original e real é disfarçado. 11 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2.6 - IDENTIFICAÇÃO Já este é um processo psíquico, por meio do qual, um indivíduo assimila um aspecto, uma característica de outro e se transforma, se modela total ou parcialmente, apresentandose conforme o modelo apresentado desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações. Ou seja, o indivíduo assimila alguma característica de outra pessoa, adotando-a como modelo. Na PNL chamamos isso de modelagem quando existe a identificação na excelência de padrões e comportamentos os quais se deseja “copiar” conscientemente (para aprender como fazer isso, inscreva-se na jornada Gestão das Emoções, nível I). Freud descreveu o trabalho de interpretação dos sonhos como um processo que traduz a relação de semelhança e, por substituição de uma imagem por outra “identificando-a”, ela por si só não traduz um valor cognitivo: trata-se simplesmente de um processo ativo que substitui uma identidade parcial ou uma semelhança latente, por uma identidade total. 2.7 - REGRESSÃO Neste processo psíquico, o ego recua com o objetivo de fugir de situações de conflito atual e passa para um estágio anterior. É o caso de alguém que, depois de repetidas frustrações na área sexual, regrida, para obter satisfações, à fase oral, passando a comer em excesso. Considerada, em sentido tópico, a regressão se dá por uma sucessão de sistemas psíquicos cuja excitação percorre para determinada direção. No seu sentido temporal, a regressão supõe uma sucessão genética e designa o retorno do sujeito a etapas ultrapassadas do seu desenvolvimento (fases libidinais, relações de objeto, identificações, entre outras). Já no sentido formal, a regressão designa a passagem a modos de expressão e de comportamento de nível inferior do ponto de vista da complexidade, da estruturação e da diferenciação. A regressão é uma noção de uso muito freqüente na Psicanálise e na Psicologia contemporânea e é concebida, na maioria das vezes, como um retorno a formas anteriores do desenvolvimento do pensamento, das relações de objeto e da estruturação do comportamento. Freud foi levado a diferenciar o conceito de regressão, como demonstra esta passagem acrescentada, em 1914, em três espécies de regressões: A) Tópica, no sentido do esquema do aparelho psíquico é particularmente manifestada no sonho, onde ela prossegue até o fim e encontra-se em outros processos patológicos em que é menos global (alucinação) ou mesmo em processos normais em que vai menos longe (memória); B) Temporal, em que são retomadas formações psíquicas mais antigas e; C) Formal, quando os modos de expressão e de figuração habituais são substituídos por modos primitivos. 12 Estas são três formas de regressão, porém, na sua base e estruturação, são apenas uma, e na maioria dos casos coincidem, porque o que é mais antigo no tempo é igualmente primitivo e ancestral na forma, pois a tópica psíquica situa-se mais peto da extremidade perceptiva. De qualquer forma, esse retorno do indivíduo aos níveis anteriores do desenvolvimento se dá quando ele se depara com uma frustração que não consegue ou não sabe como elaborar. Por exemplo, o choro das pessoas em certas situações pode ser uma regressão à infância, que pode advir de uma situação em que o choro “resolveu o problema”, então a pessoa, inconscientemente, usa esse mesmo padrão para “resolver” a nova situação. Fumar e usar outros tipos de objetos orais pode proporcionar prazer momentâneo, e isso pode ser uma regressão, na medida em que nos remete à satisfação de quando éramos um bebê que utilizava a boca no ato de sugar o leite materno. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Também podemos utilizar a regressão para fantasiar, com o objetivo de criar uma válvula de escape e nos defender de ameaças e angústias. É muito eficiente, pois dissipa a angústia e nos torna capazes de enfrentar novamente o problema. Entretanto, de forma constante, nos afasta da realidade, nos fornece falsos e efêmeros sentimentos de triunfo e o despertar para a realidade pode ser extremamente doloroso (porque ocorrerá através das constantes pressões do mundo objetivo). 2.8 - ISOLAMENTO Esse é um processo psíquico típico da neurose obsessiva e consiste em se isolar um comportamento ou pensamento, de tal maneira que, as suas ligações com os outros pensamentos ou com o autoconhecimento ficam absolutamente interrompidas, já que foram (os pensamentos, os comportamentos) completamente excluídos do consciente. Entre os processos de isolamento, cito as pausas no decurso do pensamento, fórmulas, rituais e, de um modo geral, todas as medidas que permitem o indivíduo estabelecer um hiato na sucessão temporal dos seus pensamentos ou dos atos. Isso envolve uma “separação de sistemas” para que os sentimentos perturbadores possam ser isolados, de tal forma que a pessoa se torna completamente insensível em relação ao acontecimento sublimado, comentando-o como se tivesse acontecido com terceiros. Em certas circunstâncias é possível manter, lado a lado, dois conceitos logicamente incompatíveis, sem tomarmos consciência de suas gritantes divergências o que também chamamos de “comportamentos lógicos de estanques”. Isolar uma, dentre as várias partes do conteúdo mental, de maneira que as interações normais que ocorreriam entre elas sejam reduzidas e, com isso, os conflitos sejam evitados. Um exemplo seria um ladrão que rouba e não experimenta os sentimentos de culpa que estão ligados a esse ato; outro seria o do filho que, após a morte de sua mãe fala com uma freqüente naturalidade sobre a morte dela. O isolamento manifesta-se em diversos sintomas obsessivos. Pode-se notar, particularmente, sua ação no tratamento dirigido à associação livre por lhe ser oposta, o que o coloca em evidência (sujeitos que separam radicalmente a análise da sua vida ou de determinada seqüência de idéias do conjunto da sessão, ou determinada representação do seu contexto ideoafetivo). Freud reduz, em última análise, a tendência para o isolamento a um modo arcaico de defesa contra a pulsão, a interdição de tocar, uma vez que “… o contato corporal é a finalidade imediata do investimento de objeto, quer o agressivo quer o terno”. Nesta perspectiva, o isolamento surge como “… uma supressão da possibilidade de contato, um meio de subtrair uma coisa ao contato; do mesmo modo, quando o neurótico isola uma impressão ou uma atividade por pausa, dá-nos simbolicamente a entender que não permitirá que os pensamentos que lhes dizem respeito entrem em contato associativo com outros”. Na realidade, penso ser interessante reservar o termo isolamento para designar um processo específico de defesa que vai da compulsão à uma atitude sistemática e concentrada, e que consiste numa ruptura das conexões associativas de um pensamento ou de uma ação, especialmente com o que os precede e os segue no tempo. 2.9 - FORMAÇÃO REATIVA 13 Este mecanismo inconsciente se dá pelas atitudes, desejos e sentimentos, desenvolvidos pelo ego o que, na verdade, trata-se da antítese do que realmente é almejado pelos impulsos. Uma atitude de extrema solicitude para com os outros pode esconder sentimentos inconscientes de hostilidade ou um indivíduo ativo e batalhador poderá, inconscientemente, ter desejos de passividade e submissão. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Na formação reativa, o impulso inconsciente, em geral, consegue uma indireta satisfação. O exemplo clássico é o da mãe superprotetora que acumula seu filho de cuidados e benevolências, mas que, inconscientemente, o rejeita. Sua superproteção poderá satisfazer os impulsos hostis inconscientes, porque, pelos excessivos cuidados, limitará a liberdade e o desenvolvimento da criança. É um processo psíquico que se caracteriza pela adoção de uma atitude de sentido oposto ao desejo que tenha sido recalcado, constituindo-se, então, numa reação contra ele. Ou seja, há uma inversão do desejo real que é ocultado. Outro exemplo é do indivíduo extremamente rígido em relação à moral ou à sua sexualidade que pode ocultar seu lado permissivo, inseguro, imoral ou promíscuo. O indivíduo justifica, explica e tenta, de certa maneira, usar a lógica pra disfarçar os verdadeiros sentimentos. Aquilo que não é facilmente aceito, é “explicado e justificado” na tentativa de tornar essa criatura mais conformada diante de determinados fatos. Neste processo psíquico, fica claro que um impulso indesejável é mantido inconsciente, por conta de uma forte e rígida adesão ao seu contrário. Muitas atitudes neuróticas são tentativas evidentes de querer se negar e reprimir alguns impulsos, ou de defender a pessoa contra um perigo instintivo. Nesta ordem, a Psicanálise desmascara e prova que a atitude oposta a original ainda está presente no inconsciente. O indivíduo que aja e comporte-se contituído de formações reativas não desenvolve alguns mecanismos de defesa que lhe sirvam ante a ameaça de perigo instintivo. Isso porque ele modificou a estrutura da sua personalidade, como se este perigo estivesse incessantemente presente, de maneira que esteja sempre em “prontidão” caso uma situação ameaçadora ocorra. 2.10 - SUBSTITUIÇÃO Quando um objeto é valorizado emocionalmente e não pode ser possuído, ele é inconscientemente substituído por outro, e geralmente se assemelha ao proibido. Essa é outra forma de deslocamento, contudo o inconsciente oferece à consciência um substituto aceitável para o indivíduo por meio do qual ele possa satisfazer o id ou o superego. Ou seja, é a satisfação imaginária do desejo oculto, cujo processo de um objeto valorizado emocionalmente, mas que não pode ser possuído e é inconscientemente substituído por outro, que geralmente se assemelha ao proibido. Um exemplo, o do bebê chupar o dedo ou a chupeta para sentir prazer como se estivesse no seio da mãe. 2.11 - FANTASIA Neste processo psíquico o indivíduo concebe uma situação em sua mente que satisfará uma necessidade ou desejo que não podem ser, na vida real, satisfeitos. Trata-se da criação de um roteiro no qual o indivíduo imagina estar presente e representa de modo mais ou menos deformado, os processos defensivos onde a realização desse desejo é, em última análise, inconsciente. A fantasia apresenta-se sob diversas modalidades: A) Fantasias conscientes ou sonhos diurnos; B) Fantasias inconscientes como as que a análise revela como estruturas subjacentes a um conteúdo manifesto e; C) Fantasias originárias, as quais um conjunto de ideias ou imagens mentais objetivam a resolução dos conflitos intrapsíquicos por meio da satisfação imaginária dos impulsos. 14 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • As fantasias conscientes, muito comuns na adolescência são também chamadas de sonhos diurnos. Em qualquer indivíduo as fantasias podem atuar como um saudável mecanismo de adaptação à realidade externa sempre que a obtenção de determinados desejos são impossíveis de satisfação imediata. Por exemplo, um estudante percebe seus professores demasiadamente austeros e exigentes, imagina-se como um futuro professor que tem, para com seus alunos, atitudes indulgentes e compreensivas. As fantasias inconscientes são formadas no próprio inconsciente ou se tornam conscientes para depois serem recalcadas. Por exemplo, fantasias a respeito do nascimento ou de relações incestuosas em geral são inconscientes. Sabemos delas por suas manifestações indiretas nos sonhos, nos jogos infantis, entre outras, como nas obras artísticas (minha tese se fundamenta em parte do trabalho da artista pictórica portuguesa Paula Rego). A fantasia se reveste de um caráter patológico quando tende a impedir continuamente a resolução dos conflitos, a satisfação real dos impulsos vitais e o contato verdadeiro com a realidade. 2.12 - COMPENSAÇÃO Trata-se do mecanismo de defesa pelo qual o indivíduo, inconscientemente, procura compensar uma deficiência real ou imaginária. Exemplo: Um homem com um defeito físico pelo qual se sinta inferiorizado perante aos demais, irá dispender energia e grandes esforços para desenvolver sua capacidade intelectual para chegar a tornar-se uma pessoa famosa ou poderosa socialmente. Não há consciência de que o prestígio ou poder alcançados foram motivados por seus sentimentos de inferioridade. Nesse processo psíquico, em que o indivíduo se compensa por alguma deficiência, seja física, intelectual ou emocional pela imagem que tem de si próprio. Por meio de outros aspectos que o caracterize, ele passará a considerá-lo como um triunfo. Há também a idealização e a supercompensação, Na primeira, idealizando o objeto amado (namorado, namorada), todas as qualidades boas lhe são atribuídas, existentes ou não, ao ponto do seu espírito crítico não ser mais capaz de discernir racionalmente a respeito. O neurótico formou seu “ideal” errado e a qualquer preço o quer conservar. Já pela supercompensação, outra espécie de deslocamento, uma atitude recalcada pode ser substituída pela sua oposta. Assim, a crueldade violenta que subjaz, inconscientemente no indivíduo e está recalcada pode ser compensada por uma compaixão e ternura extremas e exageradas pelos sofrimentos alheios (pessoas hiper-super-caritativas e freiras virgens que se esforçam em demasia para cuidar de crianças órfãs, que elas mesmas não puderam ter...). Essa hostilidade reprimida pode ser compensada, por uma submissão e humildade extremas; os sentimentos de timidez, de insegurança ou de inferioridade, compensam-se, muitas vezes, pela postura e exigências de um valentão-medroso. Um valente policial ou o mais perigoso meliante “armado” pode resultar no mais medroso ser humano, quando “desarmado”. O sentimento vaidoso da mulher pode ser supercompensado, quando possa aparecer como “a primeira ou a mais”, nem que seja a mais feia, a mais gorda, a mais intragável entre outros atributos. 15 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 2.13 - EXPIAÇÃO Neste processo psíquico, o indivíduo deseja ser punido, quer pagar por um erro que tenha cometido imediatamente. O conceito secular de expiação passa por crenças sociais e normativas de que o “sofrimento nos redime das culpas”. Este é um dos sentimentos básicos instituídos pela vida individual, social e religiosa. Nosso código penal e as práticas religiosas do ascetismo, flagelação e penitências baseiam-se nele. O pecador libera-se da culpa pela penitência e o criminoso fica liberado e pode voltar à sociedade, depois de ter expiado sua culpa, cumprindo plenamente sua pena. Assim, um dos mecanismos da defesa do ego mais comuns está baseado neste silogismo emocional de raízes psicológicas extremamente profundas: o de que o sofrimento expia e redime a culpa. Através do sofrimento, as pretensões do superego são satisfeitas e sua vigilância contra as tendências recalcadas no inconsciente são relaxadas, uma vez que as debilidades culposas do ego ficam punidas. Existe uma seqüência de acontecimentos derivados desse raciocínio: mau comportamento gera ansiedade que gera a necessidade de punição por meio da expiação e posteriormente o perdão, o esquecimento e a redenção. Para minorar a ansiedade originada desse sentimento de culpa, surge o desejo de ser punido para não ser rejeitado e continuar sendo amado. O próprio indivíduo que se sente culpado pode chegar a punir a si mesmo ou exigir que outros o castiguem. Este desejo de purificação, juntamente com outro sentimento oculto, o de ser admirado e ser amado por seus grandes sofrimentos (ser a mais sofredora ou sofredor) é o que leva muitos indivíduos ao masoquismo emocional ou físico. Assim, as pessoas que dispõem deste mecanismo castigam a si próprias, internamente através de seus sintomas psicopatológicos (doenças psicossomáticas) ou por penitências e castigos externos (flagelação e uma modalidade que surge nesses tempos modernos é o cutting, ou seja, o hábito de se cortar como forma de punição). 2.14 - NEGAÇÃO A tendência a negar sensações dolorosas é tão antiga quanto o próprio sentimento de dor. É muito comum nas crianças pequenas negar realidades desagradáveis porque a negação realiza desejos ou simplesmente exprime a efetividade do princípio do prazer. A capacidade de negar fatos desagradáveis da realidade tem sua contrapartida na “realização alucinatória dos desejos”. Anna Freud chamou este tipo de recusa do reconhecimento do desprazer em geral “pré-estágios de mecanismos de defesa”. Nesse sentido, eu atribuo nas crianças a negação convertida em refúgio psíquico, uma forma elementar e básica para que o infante encontra para se desenvolver psíquica e mentalmente da maneira mais saudável possível, diante das pressões e angústias acarretadas em um ambiente familiar disfuncional. 16 Já nos adultos, com freqüência usamos o mecanismo da negação do mundo exterior e dos conflitos interiores quando nosso ego se sente incapaz de superá-los. Então, passamos a ignorá-los para não ter que aceitá-los. “Estão verdes, dizia a raposa das uvas, que não podia alcançar”... Na impossibilidade de enfrentar certos fracassos ou situações difíceis de superação, um ego enfraquecido pode optar em fugir para situações onde supõe que sejam mais aceitáveis. Isso pode acontecer pela impossibilidade de agüentar um pai extremamente rigoroso, na impossibilidade de casar ou no caso de um namoro fracassado onde o indivíduo pode usar desse expediente para procurar fortuna no exterior, ingressar no exército ou num convento entre outros tantos exemplos de fuga e negação da realidade. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • O isolamento é outra variante de fuga e nos casos de angústia invencível o indivíduo freqüentemente desiste e isola-se do drama. Quem não pode prevalecer sobre outra pessoa ou se sente fracassar em seu relacionamento com ela “isola-se dela”, corta as relações e, às vezes, quando isso se generaliza o indivíduo torna-se totalmente isolado, introvertido e neurótico. De certo modo, muitos introvertidos não o são por condicionamento filogenético, mas por condicionamento psíquico-educacional, por causa desta classe de “fuga, negação ou isolamento de uma realidade”. Ou são geralmente ambivalentes: muito faladores e às vezes, sentem grande prazer em estar sozinhos. 2.15 - INTROJEÇÃO Originalmente, a idéia de engolir um objeto exprime uma afirmação, como tal é o protótipo de satisfação instintiva e não de defesa contra os instintos. No estágio do ego prazeroso e purificado, tudo o que possa agradá-lo é introjetado. Em última análise, todos os objetos sexuais derivam de objetos de incorporação. Ao passo que a projeção é o protótipo da recuperação daquela onipotência que foi projetada para os adultos, já a incorporação, embora exprima “amor”, destrói os objetos como tais, como coisas independentes do mundo exterior. Ao perceber este fato, o ego aprende a usar a introjeção para fins hostis como executora de impulsos destrutivos e como modelo definido de defesa. A incorporação é o mecanismo mais arcaico dentre os que se dirigem para um objeto, porque a identificação realizada através da introjeção é o tipo mais primitivo de relação objetal. 2.16 - CONVERSÃO ORGÂNICA Entendo que esse é o mecanismo precursor e gatilho de doenças psicossomáticas, pois é pela conversão orgânica que se estabelecem os conflitos psíquicos inaceitáveis, os quais se convertem em conflitos orgânicos, patológicos e inconscientes. E são numerosas as perturbações psicossomáticas dos histéricos, desde as contrações musculares, falsas paralisias, perturbações sensoriais, tiques, gagueiras, morder as unhas entre outras. Existe o exemplo de Ana O. que converteu em paralisia no braço o medo de vê-lo convertido numa serpente, como tinha sonhado e o nojo, ao ver o cachorro beber a água do copo, impossibilitando-a dela própria levar o copo à boca para beber. Então, é “preferível morrer de sede e não beber a água que morrer de nojo bebendo-a e compartilhano-a com o cachorro”. 17 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 3 - DESENVOLVIMENTO PSICOSSEXUAL Fases Oral, Anal, Fálica, Latência e Genital Um bebê recém-nascido, segundo Freud, “borbulha de energia” (libido, energia psíquica). No entanto, esta energia é, sem foco ou direção, o que não permitiria a sobrevivência. Como, então, faz a criança desenvolver a habilidade de controlar e dirigir suas energias? A energia psíquica é um conceito importante na psicologia freudiana. A estrutura da mente e do desenvolvimento de todos giram em torno de como o indivíduo tenta lidar com a energia psíquica. Impulsos libinais fornecem o combustível básico que a mente possa executar o desejo. Mas o veículo (mente) precisa bem formado e bem afinado a fim de obter o máximo de energia na sua conquista. A fim de compreender o desenvolvimento (e neuroses) devemos então “seguir essa energia pulsional” e ver para onde ela vai. Tal como acontece com a energia física, a energia psíquica não pode ser criada ou destruída em um sentido figurado, entretanto pode ser tratadas de maneira não-óbvia. Então, de onde a percepção do desejo da criança, do adolescente, do adulto está é de onde a energia ficará focada e Freud acreditava que esse desenvolvimento ocorre quando o bebê começa a concentrar seu desejo em um primeiro objeto e depois noutro. Como foco, a criança muda o estilo e tipo de gratificação e procura alterá-lo conforme seu desenvolvimento. Os objetos de foco para a energia da criança em desenvolvimento servem para definir cinco principais etapas do desenvolvimento psicológico: - Oral (0-18 meses) - Anal (entre os 18 meses até cerca dos dois anos) - Fálica (entre os dois anos até cerca dos seis anos) - Latência (dos seis anos à puberdade) - Genital (da puberdade à fase adulta) Cada estágio psicossexual possui três partes principais: Na 1ª - Há um foco físico que surge quando criança concentra sua energia pulsional para uma gratificação que quer obter; Na 2ª - Surge um tema psicológico que se relaciona ao físico e ao foco das exigências feitas sobre a criança pelo resto do mundo e como ele ou ela se desenvolvem. Para cada fase, pode haver dois extremos na reação psicológica - a de querer fazer muito ou não obter o suficiente do que lhe parece ser o ideal e; Na 3ª - Aflora um tipo de personagem adulto já que nas três primeiras fases e etapas do desenvolvimento surge um tipo de traço de caráter no adulto que é aquele que está relacionado a alguma possível fixação em alguma das fases ou mesmo se o indivíduo estiver preso nas mesmas. Se um indivíduo não resolve as questões psicológicas que surgem em algumas dessas fases ele terá problemas relacionados às respectivas fases associadas. 18 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Sigmund Freud desenvolveu uma teoria de como a nossa sexualidade começa a partir de estágios na mais tenra idade e se desenvolve através de várias fixações. Se essas etapas não estão psicologicamente finalizadas e resolvidas o indivíduo pode ficar preso por elas e podem levar a termo vários mecanismos de defesa para evitar a ansiedade produzida pelos conflitos oriundos a elas em frente a realidade imediata. OS ESTÁGIOS IDADE FASE FONTE DE PRAZER CONFLITO 0-2 Oral Boca: sucção, mordida, deglutição Desmame e afastamento do peito da mãe 2-4 Anal Ânus: defecar ou reter as fezes esfincteriano 4-5 Fálica Órgãos genitais Édipo (meninos), Electra (meninas) Latência Impulsos sexuais sublimadas em esportes e hobbies. amigos do mesmo sexo também ajuda a evitar sentimentos sexuais. 6-puberdade Da puberdade Genital em diante As alterações físicas sexual despertar necessidades reprimidas. Direito aos sentimentos sexuais em relação aos outros que levem o sujeito à gratificação sexual. As regras sociais 3.1 - FASE ORAL: DO NASCIMENTO AOS 18 MESES (APROX.) Foco físico: a boca, a língua, os lábios (sucção). A sucção é a principal fonte de prazer para um recém-nascido. Tudo passa e vai pela boca, a exemplo da amamentação. Tema psicológico: a dependência. Um bebê é muito dependente e pouco pode fazer por si. Se os bebês têm as necessidades devidamente cumpridas podem avançar para a próxima fase. Mas se o bebê não tem preenchidas suas necessidades será desconfiado ou se superpreenchidas o bebê vai achar que é difícil lidar com um mundo que não atende a todas suas expectativas e exigências. 19 Adulto personagem: altamente dependente / altamente independente. Se o bebê torna-se fixado, nesta fase, Freud achava que ele ou ela crescerá com a predisposição para ter um caráter oral. Para maior parte dessas pessoas se tornam indivíduos extremamente dependentes e passivos, que querem que tudo seja feito por eles. No entanto, Freud sugere ainda que, há outro tipo de caráter oral que é a pessoa que é muito independente e que, quando sob estresse o indivíduo, por via oral fixada, pode se transformar de um tipo para outro. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Isto exemplifica a doutrina de Freud opostos. A fixação oral pode resultar em duas possibilidades: tornar o receptivo da personalidade oral que está preocupado com a alimentação e ingestão de bebidas e reduz a tensão através da atividade oral, como comer, beber, fumar, roer as unhas. São geralmente indivíduos passivos, carentes e sensíveis à rejeição. São indivíduos que vão facilmente “engolir” as idéias de outras pessoas. Já os de personalidade agressiva oral tornam-se hostis e verbalmente se defendem do outro, usando como base a agressão verbal e a boca. 3.2 - FASE ANAL: DOS 18 MESES AOS 3,5 ANOS (APROX.) Foco físico: o ânus (eliminação/retenção). Até agora, o bebê teve uma vida muito fácil e se pressupõe que ele controle suas entranhas e seus esfíncteres. Freud pressupôs que é nesse estágio no qual o bebê concentra seu prazer sexual, ou seja, em torno do ânus. Tema psicológico: controle/obediencia. Esses aspectos não estão apenas relacionados com o treinamento do toalete como, também, o de que o bebê deva aprender a controlar seus impulsos e comportamentos (pó sinal terríveis, a partir dos dois anos). O que vai mal aqui é se os pais forem demasiadamente controlares ou não controlarem seus impulsos o suficiente (Freud era um grande apoiador na moderação e no equilíbrio). Adulto personagem: o anal retentivo, pois se tornou uma pessoa rígida, excessivamente organizada, subserviente à autoridade e o seu inverso é a anal expulsiva, com pouco autocontrole, desorganizada, desafiadora e hostil. A fixação anal pode ter sido causada por punição durante o treinamento do toalete e tem dois resultados possíveis: formar a “personalidade retentiva anal” o que torna o indivíduo mesquinho, com uma procura compulsiva por ordem e arrumação. O indivíduo geralmente torna-se teimoso e perfeccionista. Já o “expulsivo da personalidade anal” é o oposto do retentivo, cuja personalidade tem características de falta de autocontrole e tornam geralmente esses indivíduos confusos e desatentos. 3.3 - FASE FÁLICA: DOS 3,5 ANOS AOS 6 ANOS (APROX.) Foco físico: o pênis. Freud acreditava que tanto os meninos quanto as meninas estariam predispostos a se focarem no pênis. Para os meninos, surgiria a questão: por que ela não tem um? Já para as meninas: - por que não tenho um pênis? Normalmente, as crianças tornam-se particularmente interessadas em brincar com seus órgãos genitais nessa fase. Tema psicológico: a moralidade, a identificação da sexualidade e o desejo de descobrir o que significa ser uma menina ou um menino. As crianças, de acordo com Freud, têm sentimentos sexuais para com o pai frente a esta fase sexuada (e dificuldade em lidar com os complexos de Édipo / Electra - que é basicamente o apego erótico ao genitor do sexo oposto. E uma vez que esses sentimentos não são socialmente aceitáveis, as crianças podem se tornar hostis ou sentirem alguma hostilidade ao genitor do mesmo sexo. Os meninos sofrem de ansiedade e passam por experiências fantasiosas cujo medo é o da castração, já as meninas sofrem pela inveja do pênis. Durante esse tempo, os conflitos emocionais são resolvidos em virtude da eventual identificação com o genitor do mesmo sexo. 20 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Adulto personagem: sexualizado ou promíscuo ou amoral / assexualizado e puritano (doutrina dos opostos). A fixação fálica se dá entre a idade de 5 a 6 anos, perto do final da fase fálica. Meninos experimentam o Complexo de Édipo enquanto as meninas experiência do Conflito de Electra (particularmente eu não o adoto. O Complexo de Édipo nos oferece pistas suficientes de resolução ou não desse estágio). Este é um processo através do qual, ambos, menino e menina aprendem a se identificar com o genitor do mesmo sexo e emulam o seu jeito de ser, às vezes muito semelhante com o que lhe é possível modelar. Os meninos sofrem de uma ansiedade de castração porque consideram que seu pai sabe sobre seu desejo em relação à sua mãe e, portanto, teme que ele irá castrá-lo. Assim, ele reprime seu desejo e, defensivamente, se identifica com o pai. Já as meninas sofrem de uma inveja do pênis, onde a filha está inicialmente ligada à mãe, mas uma mudança de ligação brusca ocorre quando ela percebe que não tem um pênis. Ela quer o pai e o vê como um meio para obter um substituto do pênis (uma criança). Então, reprime o desejo que sente pelo seu pai, incorpora os valores de sua mãe e aceita sua pseudo “inferioridade”, inerente à sociedade e a cultura. Óbvio que Freud, mais tarde, se retratou dizendo que talvez tivesse dado demasiada ênfase na conotação sexual (isso em virtude da sociedade da época). 3.4 - FASE DA LATÊNCIA: DOS 6 ANOS ATÉ A PUBERDADE (APROX.) Esta fase, a da latência trata-se de um período de relativa tranqüilidade, onde os impulsos sexuais e agressivos são menos ativos e há pouca conformação de conflitos psicossexuais. 3.5 - FASE GENITAL: 18 ANOS (APROX.) Foco físico: os órgãos genitais. Tema psicológico: a maturidade, a criação e a valorização da vida. Portanto, esta fase não se trata apenas sobre a geração e criação de uma nova vida (reprodução), como também sobre a criatividade intelectual e artística. A tarefa nesse momento é a de aprender como adicionar algo construtivo para a própria vida e a sociedade. Adulto personagem: O caráter genital não é fixado em um estágio anterior. Este é o indivíduo que se obteve uma conformação para fora, para o mundo. O sujeito está psicologicamente bem ajustado e equilibrado e, de acordo com Freud, para atingir este estagio é preciso ter um equilíbrio entre ambas variáveis que são amor e trabalho. Se um indivíduo teve problemas durante qualquer uma dessas fases psicossexuais e que não são efetivamente resolvidos, então ele vai se fixar em uma das fases anteriores e, quando sob estresse, regredirá cada vez mais apresentando características da fase correspondente à sua fixação. 21 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 3.6 - A TEORIA DO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL DE ERIK ERIKSON Esta Teoria foi desenvolvida por Erik Erikson, nascido em 15 de junho de 1902, na Alemanha e falecido aos 92 anos de idade nos Estados Unidos. Estranho ou não, ele é considerado o primeiro psicanalista infantil norte-americano (vai entender os americanos). Tornou-se psicanalista após trabalhar com Anna Freud, porém, em seus estudos, não focou somente no id e nas motivações conscientes como os demais psicanalistas, e sim nas crises do ego e no problema da formação da identidade. A Teoria Eriksoniana é dividida em oito fases, mas com algumas características peculiares e correlacionadas às de Freud:  O ego é o seu foco, ao invés de Freud cujo olhar estava para o id; outras etapas do ciclo vital são estudadas. Freud valorizou a infância e Erikson reconhece o grande valor dessa etapa sem desvalorizar as demais como adolescência, idade adulta e velhice;  Em cada um dos oito estágios o ego passa por uma crise. O desfecho da crise pode ser positivo (ritualização) ou negativo (ritualismo); Entende-se por ritualização a substituição de certos comportamentos que perdem a sua função primitiva para se tornarem cerimônias simbólicas e aí surge um novo movimento instintivo cuja forma imita o comportamento e assume outra função. Já o rito advém do ato religioso simbólico e institucionalizado. Para realizar este ato utilizam-se, por vezes, objetos. Do ponto de vista da antropologia, o rito visa manter mitos religiosos ou sociais, ou, pelo menos, permitir-lhe representar crenças mágicas em uma sociedade. Em outras palavras, regras e cerimônias que devem ser observadas na prática de uma religião.  Já o ritual é conjunto de práticas consagradas pelo uso ou normas e devem ser observadas de forma invariável em ocasiões determinadas Portanto, o ritualismo trata-se do conjunto de ritos e evidencia o apego excessivo às cerimônias, sem suficiente atenção ao significado que veiculam.  De um desfecho positivo surge um ego mais forte e estável, enquanto o desfecho negativo gera um ego mais fragilizado; ocorre a reformulação e reestruturação da personalidade após cada crise do ego. Os estágios citados são chamados Estágios Psicossociais e correspondem às oito crises do ego que servem para fortificá-lo ou fragilizá-lo, dependendo do desfecho. Os termos - forte e frágil são usados no sentido freudiano. As crises que dão nome aos estágios psicossociais são:   Autonomia X Vergonha e Dúvida  Iniciativa X Culpa  Diligência X Inferioridade  22 Confiança básica X Desconfiança básica Identidade X Confusão de Identidade  Intimidade X Isolamento  Generatividade X Estagnação  Integridade X Desespero MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 3.6.1 - CONFIANÇA BÁSICA X DESCONFIANÇA BÁSICA Esta fase é análoga à fase oral na Teoria de Freud. Nela o bebê mantém seu primeiro contato social - com seus provedores – os quais, geralmente é a mãe quem assume esse papel. Para a criança, a mãe é um ser supremo, mágico, aquele que fornece tudo o que ela necessita para estar bem. Quando a mãe lhe falta, o bebê experimenta o sentimento de esperança. Por vezes, ele irá chorar e terá de esperar que sua mãe volte. Quando isso ocorre com freqüência, há o desfecho positivo e a Confiança Básica é desenvolvida e ao testá-la, ela é reforçada positivamente e introjetada. Do contrário, se a mãe não retorna ou demora muito a fazê-lo, o bebê perde a esperança. Esse é um desfecho negativo, e o que se desenvolverá é Desconfiança Básica. É necessário, portanto, que os provedores e cuidadores tratem a criança com muita atenção, carinho e paciência para que a confiança, a segurança e o otimismo se consolidem e sejam introjetados. Sem esses sentimentos, a criança crescerá insegura e desconfiada. Para Erikson, o excesso de carinho e cuidado podem, também, ser maléficos porque a criança visualiza sua mãe como algo muito superior, muito boa, perfeita, algo que jamais ela mesma poderá vir a ser. Por conta disso, ela desenvolverá a agressividade e a desconfiança que, no futuro, se transformarão em níveis baixos de competência, entusiasmo e persistência. A Confiança Básica é importante, porque é a partir dela que a criança aprenderá a confiar nos seus provedores externos e também na sua própria capacidade interna, em seus órgãos para buscar saciar seus desejos. 3.6.2 - AUTONOMIA X VERGONHA E DÚVIDA A partir do controle de seus músculos, a criança inicia a atividade exploratória do seu meio. É neste momento que os pais surgem para ajudar a limitar essa exploração. Há coisas que a criança não deve fazer e seus pais devem se utilizar de meios para ensinar a criança a respeitar certas regras sociais. Esta crise culminará na estruturação da autonomia e pode ser comparada à fase anal freudiana. Os pais fazem uso da vergonha e do encorajamento para dar o nível certo de autonomia à criança enquanto ela aprende as regras sociais. Se a criança for exposta a vergonha constante, ela poderá reagir com o descaramento e a dissimulação, tornando-se um adulto com o sentimento freqüente de vergonha e dúvida sobre suas potencialidades e capacidades. O sentimento que se desenvolve nesta etapa é o da vontade. À medida que suas capacidades físicas e intelectuais se desenvolvem, ajudando-a na atividade exploratória, a criança tende a ter vontade de conhecer e explorar ainda mais. Porém, como também começa a assimilar as regras sociais, é necessário cuidado para que a vontade não seja substituída pelo controle. O controle sobre as regras que devem ser cumpridas a qualquer preço é algo ruim para a criança, porque ela pode se sentir bem ao ver outras pessoas (colegas, por exemplo) serem punidas pelo descumprimento destas normas e, ela mesma pode se sentir bem se for punida. Neste momento dizemos que a criança está se tornando legalista, ou seja, aprende a respeitar as normas. Neste estágio, o principal cuidado que os pais precisam tomar é dar um grau certo de autonomia à criança. Contudo, se exigida demais, a criança verá que não consegue dar conta dessa liberdade e sua auto-estima vai baixar. Se ela é pouco exigida, ela tem a sensação de abandono e de dúvida sobre suas reais capacidades. 23 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Se a criança é amparada ou protegida demais, ela vai se tornar frágil, insegura e envergonhada. Se ela for pouco amparada, ela se sentirá exigida além de suas capacidades. Vemos, portanto, que os pais precisam dar à criança a sensação de autonomia e, ao mesmo tempo, estar sempre por perto, prontos a auxiliá-la nos momentos em que a tarefa estiver além de suas capacidades. Quando a criança começar a perceber de onde vem a sua vergonha (pais, objetos, adultos), ela vai evitar expressar-se diante deles. Cabe então às pessoas que convivem com ela explicar, carinhosamente, o que ela pode e o que não pode e não consegue fazer. 3.6.3 - INICIATIVA X CULPA Comparada à fase fálica freudiana, é neste período, somado à confiança e à autonomia adquiridas nas etapas anteriores que chega a vez da iniciativa. Esta se manifesta quando a criança deseja alcançar uma meta e planeja suas ações, utilizando-se de suas habilidades motoras e intelectuais para isso. A iniciativa surge para atingir metas que, muitas vezes, podem se tornar uma fixação. Na Teoria de Freud a principal fixação que ocorre neste período é o Complexo de Édipo, caracterizado pela fixação genital pelo progenitor do sexo oposto. Assim, meninos nutrem verdadeira paixão por suas mães enquanto as meninas identificam-se mais com seus pais. Para Erikson, assim como para Freud, as metas elaboradas são impossíveis. Então toda a energia despendida em busca de algo socialmente inalcançável é revertida para outras atividades. É nesse período que as crianças ampliam seus contatos, fazem mais amigos, aprendem a ler e escrever que são frutos da energia proveniente da iniciativa. O senso de responsabilidade também pode ser desenvolvido durante esta terceira crise do ego. Nela, a criança sente a necessidade de realizar tarefas e cumprir papéis. Os pais devem dar oportunidade aos filhos para que eles realizem tarefas condizentes com seu nível motor e intelectual. É necessário que a tarefa seja possível de ser cumprida. Outras, como o desafio podem ser mais complexas, porém devem ser realizadas como apoio de alguém. 3.6.4 - DILIGÊNCIA X INFERIORIDADE Quando a criança se torna confiante, autônoma e desenvolve a iniciativa para objetivos imediatos, passa à nova fase do desenvolvimento psicossocial - aquela que na Teoria Freudiana é chamada de fase de latência e que teve menos destaque - onde a criança aprende mais sobre as normas sociais e o que os adultos mais valorizam. Aqui as tarefas realizadas de maneira satisfatória remetem à idéia de perseverança, recompensa ao longo prazo e competência no trabalho. O ego está sensível, uma vez que se falhas ocorrerem ou se o grau de exigência for alto, ele voltar a níveis anteriores de desenvolvimento, implantando o sentimento de inferioridade na criança. Surge o interesse pelas profissões e a criança começa a imitar papéis numa perspectiva imatura, mas em evolução, de futuro. Por isso, pais e professores devem estimular a representação social da criança a fim de valorizar e enriquecer sua personalidade, além de facilitar suas relações sociais. 24 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 3.6.5 - IDENTIDADE X CONFUSÃO DE IDENTIDADE A adolescência é o período no qual surge a confusão de identidade. Questões como: O que sou? O que serei? Será que serei igual aos meus pais? serão levantadas e, somente quando forem respondidas, terá sido superada esta crise do ego. O adolescente se influencia facilmente pelas opiniões alheias e isso faz com que ele assuma posições variadas em intervalos de tempo muito curtos. Este estágio pode fazer o ego regredir como forma de fuga ao enfrentamento desta crise. Na Teoria Eriksoniana, quanto mais bem vividas as crises anteriores, ou seja, quando a Confiança Básica, a Autonomia, a Iniciativa e a Diligência têm desfechos positivos, mais fácil se tornará a superação da Crise de Identidade do ego. Lealdade e fidelidade para consigo mesmo são características do desfecho positivo desta etapa e estes sentimentos sinalizam para uma estabilização dos propósitos do indivíduo e para o senso de identidade contínua. 3.6.6 - INTIMIDADE X ISOLAMENTO A identidade já está estabilizada, o ego está fortalecido e o indivíduo aprenderá conviver com outros egos. A vontade de uniões e casamentos surgirão espontaneamente nesta fase. Se as crises anteriores não tiveram desfechos positivos, a pessoa tende ao isolamento como forma de preservar seu ego frágil. O isolamento pode ocorrer por períodos curtos ou longos. No caso de um período curto, não podemos considerar negativo já que o ego precisa desses momentos para evoluir. Porém, quando o isolamento é longo e duradouro o desfecho dessa crise está sendo negativo. Erikson definiu o elitismo também como desfecho negativo desta fase. O elitismo consiste em uma espécie de narcisismo comunal ou em comunidade ou seja trata-se da formação de grupos fechados de pessoas identificadas com egos semelhantes caracterizam a incapacidade de conviver com outros egos e, portanto, os indivíduos não superam esta crise. 3.6.7 - GENERATIVIDADE X ESTAGNAÇÃO Caracteriza-se pela necessidade que o indivíduo tem de gerar. Gerar qualquer coisa, algo que o faça se sentir produtor e mantenedor que pode ser filhos, negócios, pesquisas etc. Este é o resultado de quando um indivíduo tem um olhar para sua própria vida e percebe tudo o que produziu. Se houver satisfação, um sentimento de orgulho sem soberba pelo resultado até então ele sentirá a necessidade de compartilhar, de ensinar tudo o que sabe e o que aprendeu com outras pessoas. Se existe a oportunidade deste compartilhamento, o indivíduo sente que deixou algo de si nos e para os outros e o desfecho é extremamente positivo. Por outro lado, se houver o movimento oposto isto irá acarretar o sentimento da estagnação e possivelmente do fracasso. O não-compartilhamento de suas conquistas e criações com os outros acarreta o que Erikson chamou de estagnação que pode ser considerado um desfecho muito negativo. O fato de ser mais velho que um determinado grupo pode fazer com que o indivíduo sinta que tem alguma autoridade sobre os mais novos e, dessa autoridade em excesso, surgirá o autoritarismo e até a tirania. 25 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 3.6.8 - INTEGRIDADE X DESESPERO A Teoria Eriksoniana define esta fase como a final do ciclo psicossocial. É o que nós, psicanalistas, chamaríamos de culminância ou avaliação. E dessa fase há duas possibilidades: 1º) o desfecho positivo, onde o indivíduo procura estruturar seu tempo, olha para trás e percebe o quanto viveu, produziu e gora é hora de se utilizar das experiências vividas em prol de viver bem seus últimos anos de vida ou; 2º) o desfecho negativo, no qual irá se estagna diante do terrível fim, pois os filhos já se foram, as carícias desapareceram e o indivíduo entrará em desespero por coisas que gostaria de ter feito e não as realizou. 26 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 4 - A QUESTÃO DO AMOR TRANSFERENCIAL O conceito de transferência, em análise, não é fácil para muito profissionais elaborarem e compreenderem, dado que, a transparência e a clareza, não são virtudes constantemente presentes no campo das relações humanas. Inclusive, a relação que se estabelece entre analisando e analista, cuja base se encontra alicerçada em um amor fictício (automático e freqüentemente inconsciente) é regido por um registro simbólico e imaginário que procura dar conta do real da existência do indivíduo. Isso acontece, pois geralmente amase aquele que se supõe saber algo sobre si. Existe a crença imaginária de que ao amar esse suposto sujeito se alcançará a verdade que oferece resposta à questão: “Quem sou eu?”. Esse é um amor-sintoma que atualiza sua mecânica na figura do analista e faz com que os pacientes acreditem que ser este profissional um ser na verdade amável e agradável enquanto eles é quem, de fato, são difíceis de suportar. Assim é que a presença do amor transferencial no campo analítico é nebulosamente marcada e não pode ser negligenciada por nós analistas. Tal amor pode ser percebido nas relações humanas e foi compreendido por Sigmund Freud, demonstrado nos filmes “Freud Além da Alma”, escrito por Jean Paul Sartre e na “Jornada da Alma” (Jung e Sabina Spielrein). E quando se trata da transferência, isso é o que fica com o paciente quando termina a consulta ou o atendimento. Por outro, o significado da Contra Transferência é tudo aquilo que fica no profissional que atende o seu semelhante. Não é só o Psicanalista que faz parte disso, a exemplo, também, do Psicólogo, do Médico, do Advogado e outros profissionais que lidam com as angústias humanas. E a contra transferência não deve ocorrer em quaisquer dessas profissões, em hipótese alguma. Muito embora, boa parte dos profissionais, não saiba lidar com essa questão. Nesse sentido, é preciso ir além do alicerce freudiano para introduzir novas respostas perante a reedição subjetiva de um amor, uma vez que seu manejo constitui condição imperativa para se alcançar os objetivos de uma análise. Primeiramente, o ato psicanalítico faz com que o analista suporte às transferências de seus pacientes e com isto trabalhe as demandas relacionadas às frustrações, paixões, angústias, o ódio e outros sentimentos com possibilidades de virem a se manifestar com a própria transferência. Observo que há dois pontos de vista diferentes da transferência: a do analista e a do paciente. O analista deve reconhecer que o enamoramento é induzido pela situação analítica e de seu setting e não deve atribuí-lo aos encantos de sua própria pessoa. Tal distinção, contudo, não constitui o foco desse trabalho, cuja finalidade é trazer à tona o deslocamento do sentido dessa definição no discurso analítico, com base no esclarecimento dos conceitos que se situam no perímetro desse fenômeno. Advirto que tal acepção encontra novos significados no campo psicanalítico e isso se deve ao fato de que cada analista funda sua posição doutrinária com um traço de originalidade (nos limites do bom e melhor senso) a fim de edificar os pilares éticos que lhe permite sustentar sua prática. No que tange ao conceito, nenhuma psicanálise escapa à transferência, porque o amor e os afetos são as vertentes para estabelecer o laço analítico que todo analista tem o dever de aprender a manobrar se quiser sustentar sua prática com ética, profissionalismo e disciplina. 27 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Para o paciente só há duas saídas: abandonar a análise ou aceitar e elaborar essa situação. Por vezes a família tende a tirar o paciente da análise ao perceber seus sentimentos para com o analista e Freud advertiu de que a interrupção da análise levaria a continuidade da neurose. Outra advertência é a de que o analista não deve preparar o paciente para o aparecimento dessa transferência, pois é justamente a espontaneidade dos sentimentos que os tornam convincentes, e prepará-lo é privá-lo da sua espontaneidade. A transferência é também um trabalho da resistência, porque o paciente pode perder o interesse por outras coisas que não seja seu “amor” pelo analista. Se o paciente antes se mostrava disponível para o trabalho analítico e, compreendendo as interpretações do analista, agora a única coisa que lhe interessa são seus sentimentos. Fato é que a transferência surge com toda sua força na ocasião precisa em que se procura levar o paciente a admitir ou recordar algum fragmento particularmente aflitivo e pesadamente reprimido da sua história de vida, o que reforça a tese do trabalho da resistência que não cria o amor transferencial e sim o encontra pronto e o intensifica. Dentro da maneira analítica de se lidar com a transferência, seria insensato instigar o paciente a suprimir ou abandonar seus sentimentos amorosos para com o analista. Se o analista assim procede, perde uma excelente oportunidade de trabalhar com conteúdos reprimidos, que são oferecidos pela transferência. Outra forma de não ser leal à maneira analítica de se trabalhar seria o do analista declarar ao paciente que retribui seus sentimentos amorosos e essa retribuição significaria uma derrota para o tratamento. O analista deve dominar o amor transferencial e tratá-lo como algo irreal, como uma situação que se deve atravessar no tratamento e remontar às suas origens inconscientes, o que pode auxiliar a trazer tudo que se acha muito profundamente oculto na vida erótica (que advém de Eros, dos desejos ocultos do paciente) para a consciência. É preciso deixar que a transferência apareça, persista e assim analisá-la para desvendar as escolhas objetais na infância e as fantasias tecidas ao redor delas, pois o amor transferencial reproduz protótipos infantis de relacionamento. Por essa razão, a transferência, para Freud, é algo que deve ocorrer durante o processo analítico e que o analista não deve suprimir, pois ela é o meio pelo qual se trabalham os aspectos inconscientes do paciente. Contudo, o analista deve entender muito bem como se dá o processo da transferência para que não ponha a perder o progresso alcançado na análise. Portanto, a transferência, como ela aparece, tem sua importância para o progresso do paciente e o analista deve trabalhá-la da melhor forma possível para êxito terapêutico que deve fluir da forma mais natural e positiva possível para o paciente. Freud distinguiu a transferência positiva e negativa. A primeira é composta de sentimentos afetuosos e amistosos admissíveis à consciência, enquanto que a segunda é um prolongamento de sentimentos inconscientes. A transferência positiva se divide em transferência de sentimentos afetuosos (conscientes) e fontes eróticas (inconscientes). Os sentimentos afetuosos endereçados ao analista podem auxiliar um indivíduo a superar todas as dificuldades de fazer uma confissão, servindo-lhe admiravelmente. Isso acontece, pois altera toda a situação analítica ao desviar o propósito racional do paciente de se tornar bom e livre de seus problemas e angústias. 28 Se assim não for, ao invés disso, emerge o propósito do paciente querer agradar o analista, de merecer o seu aplauso e o seu amor. Isto se torna a verdadeira força motriz para a colaboração do paciente; o ego fraco se torna forte; sob a influência deste propósito, e o paciente atinge coisas que, de outro modo, estariam além do seu alcance. Seus sintomas neuróticos desaparecem e ele recupera-se, e essa etapa traduz um dos primeiros êxitos em análise. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 5 - A VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES Violência refere-se a todo e qualquer comportamento que cause dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Ela aprisiona a autonomia, fere a integridade física ou psicológica e mesmo ou mesmo subtrai a vida de outro indivíduo. O uso excessivo de força, além do necessário ou esperado é uma violência. O termo deriva do latim violentia (que é qualquer comportamento ou conjunto de deriva de vis, força, vigor); aplicação de força, vigor, contra qualquer coisa ou ente. Assim, a violência diferencia-se de força, palavra que costuma estar próxima na língua e pensamento cotidiano. Enquanto que força designa, em sua acepção filosófica, a energia ou assertividade de algo, a violência caracteriza-se pela ação corrupta, impaciente e calcada na ira, que não convence ou busca convencer o outro, simplesmente o agride e submete. Existe violência explícita quando há ruptura de normas ou moral sociais estabelecidas a esse respeito: não é um conceito absoluto e varia entre as sociedades. Por exemplo, rituais de iniciação podem ser encarados como violentos pela sociedade ocidental, mas não o são pelas sociedades que o praticam. 5.1 - QUAIS MOTIVAÇÕES DOS PAIS PARA MALTRATAREM SEUS FILHOS Ao longo dos séculos e poucas décadas atrás, crianças eram consideradas seres de menos importância. Era de aceitação comum na sociedade o abandono, a negligência, o sacrifício e a violência contra crianças, chegando ao filicídio (infanticídio) declarado ou velado, que levava as taxas de mortalidade infantil, na França do século XVIII, em níveis absurdos e inacreditáveis de mais de 25% das crianças nascidas vivas. Hoje, em muitos países, para cada mil crianças nascidas vivas, morrem cerca de dez antes de um ano de vida. Segundo Elisabeth Badinter, em Um amor conquistado - O mito do amor materno, na França daquela época raramente uma criança era amamentada ao seio da mãe. Morriam como moscas. Cerca de 2/3 delas morriam junto às amas de leite - miseráveis e mercenárias - contratadas pela família e nas casas das quais ficavam, em média, quatro anos, quando sobreviviam. Nos asilos de Paris, mais de 84% das crianças abandonadas morriam antes de completarem um ano de vida. Ainda no século XIX, a roda dos exclusos em mosteiros, asilos e o abandono dos filhos era uma rotina aceita. Porém foi a partir do final do mesmo século XIX que a criança, até então um estorvo inútil - porque nada produzia -, passou a ser valorizada, sob a ótica de que deveria sobreviver para ser tornar adulto produtivo. A criança passou a ser protegida por interesses, antes de tudo econômicos e políticos, por conta da Revolução Industrial especialmente em fins do século XVIII. 29 Sociedades protetoras da infância surgiram na Europa entre 1865 e 1870, embora fossem instituições recentes e menos representativas, em face à Sociedade Protetora dos Animais. A palavra pediatria só surgiu em 1872, e de acordo com Elisabeth Badinter, os médicos, então, não tratavam as crianças. Achavam que isso era tarefa das mulheres - ou seja, das mães e amas, porque não existiam médicas. Em resumo, apesar de ainda não respeitada na sua individualidade, uma criança começou a ser de alguma forma protegida há pouco mais de cem anos. Mas foi só no início do século XX, com Freud, que a criança passou a ser entendida no seu desenvolvimento psicológico. O castigo físico como método pedagógico, porém, secularmente pregado até por filósofos da grandeza de um Santo Agostinho, continuou até nossos dias. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Ainda de acordo com Elisabeth Badinter, Santo Agostinho justifica todas as ameaças, as varas, as palmatórias. “Como retificamos a árvore nova com uma estaca que opõe sua força à força contrária da planta, a correção e a bondade humanas são apenas o resultado de uma oposição de forças, isto é, de uma violência”. O pensamento agostiniano reinou por muito tempo na prática pedagógica e, constantemente retomado até o fim do século XVII, manteve (não importa o que se diga) uma atmosfera de rigidez nas famílias e nas novas escolas. Portanto, por que pais maltratam filhos? Se analisarmos bem, a resposta será por hábito culturalmente aceito há séculos. É comum pais afirmarem que apanharam de seus pais e são felizes. A eles dizemos que as coisas mudaram e que, hoje, devemos buscar outras formas de educar os filhos. Para educálos é necessário que se estabeleça limites sim, com segurança, com autoridade, mas sem autoritarismo, com firmeza, mas com carinho e afeto. Jamais com violência física que é, no mínimo, uma covardia. O maltrato, em qualquer forma, é sempre um abuso do poder do mais forte contra o mais fraco. Afinal, a criança é frágil, em desenvolvimento e totalmente dependente física e afetivamente dos seus pais. Nesse sentido, a palmada pode surgir como uma forma de reconhecimento da insegurança, da fraqueza, da incompetência, dos pais para educar seus filhos, necessitando usar a força física. Lembro, também, do modelo de violência que transmitimos e perpetuamos nas relações em família, quando não estabelecemos limites de quaisquer violências. Os filhos aprendem a solução de conflitos pela força, e tenderão a reproduzir esse modelo não só junto às suas famílias, mas em todas as relações interpessoais, na rua ou no trabalho. Inúmeros fatores ajudam a precipitar a violência de pais contra filhos: o alcoolismo e o uso de outras drogas, a miséria, o desemprego, a baixa auto-estima, problemas psicológicos e psiquiátricos. Ao compreendermos isso, penso que os pais que maltratam seus filhos devem ser orientados, tratados e punidos, se necessário. Segundo dados da UNESCO, a cada 13 minutos um brasileiro é assassinado; a cada 7 horas uma pessoa é vítima de acidente com arma de fogo no Brasil; um cidadão armado tem 57% mais chance de ser assassinado do que os que andam desarmados; as armas de fogo provocam um custo ao SUS de mais de 200 milhões de reais; no Brasil, por ano, morrem em média 25 mil pessoas vítimas do trânsito e 45 mil morrem de armas de fogo; em São Paulo, quase 60% dos homicídios são cometidos por pessoas sem histórico criminal e por motivos fúteis. Fica a pergunta: Tais índices não dizem respeito à forma como estamos educando nossas crianças? 5.2 - COMO E POR QUE OCORRE O ABUSO SEXUAL? O abuso sexual é freqüente em todas as classes sociais e estratos econômicos, em todos os países do mundo, bem como as outras formas de maus-tratos, o físico, o psicológico e a negligência. O abusador sexual, ou seja, aquele que se utiliza de uma criança ou adolescente para sua satisfação sexual é, antes de tudo, um doente. Para a sociedade, porém, aparenta freqüentemente ser um indivíduo normal. 30 O abuso sexual intrafamiliar contra a criança inicia-se, geralmente, muito cedo, por volta dos cinco anos de idade e é um ato progressivo, um misto de carinho e afagos, com ameaças – “não conte nada à mamãe, você é a filha de que mais gosto”; “você é minha preferida”, ou, “não conte para ninguém, é um segredo nosso”, ou, ainda, “se falar para sua mãe, ela vai te castigar e botar você na rua”. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Com medo e remorso, mas também com prazer, a criança vai aceitando a relação com o pai agressor. Sim, porque na maioria das vezes, o abuso sexual é praticado pelo pai biológico, contra a filha - e às vezes contra o filho. É uma situação patológica em que toda a família está envolvida. Progressivamente essa situação pode chegar, na adolescência, à penetração vaginal e à gravidez. Raramente é acompanhada de violência física, ou deixa marcas evidentes. Contudo, as conseqüências para a vida social e sexual da criança serão sérias. O abuso sexual intrafamiliar é diferente da exploração sexual de crianças e adolescentes, situação em que o comércio está envolvido. E é sempre um ato de criminosos contra crianças ou adolescentes, que não têm outra opção. Freqüentemente o abusador sexual de crianças e adolescentes é um pedófilo. A pedofilia é um distúrbio do desenvolvimento psicológico e sexual, que leva indivíduos, aparentemente normais, a buscarem de forma compulsiva e obsessiva o prazer sexual com crianças e adolescentes. As conseqüências do abuso sexual para crianças e adolescentes são graves, às vezes com repercussões para toda a vida. O pedófilo deve portanto ser excluído do convívio social, enquanto é submetido a tratamento. As vítimas devem ser apoiadas pela família e por profissionais especializados. Primeiramente para se combater o abuso sexual é a sociedade que deve ser informada sobre a sua freqüência, e crianças devem ser precocemente informadas sobre seu próprio corpo e se o abuso sexual ocorrer, nosso conselho para os pais é: "acredite no que lhe diz seu filho, por mais absurdo que lhe pareça". A auto-estima preservada e confiança nos pais podem impedir a maioria das situações de abuso sexual. 5.2.1 - COMO COMPREENDER OS MAUS-TRATOS PSICOLÓGICOS? É freqüente entre todos nós. Creio que todos, de alguma forma, em algum dia, maltratamos psicologicamente nossos filhos. A frase que usamos para divulgação no rádio resume bem: "não deixa marca aparente, mas marca por toda a vida." O que melhor define os maus-tratos psicológicos são as humilhações, discriminações, ofensas feitas pelos próprios pais. Um exemplo que vi, algumas vezes, inclusive no meu consultório, é de casais que têm três filhos. A mãe se identifica com um, o pai com outro, e um sobra. É a síndrome do patinho feio. Coitada dessa criança, a discriminada, a menos protegida e cuidada dentro de uma família. 5.2.2 - O QUE É CONSIDERADO NEGLIGÊNCIA? Negligência é o ato de omissão do responsável pela criança ou pelo adolescente em prover as necessidades básicas para seu desenvolvimento. Por isso, a Abrapia procura informar a população, de todas as maneiras, para que ela se conscientize, por exemplo, que uma criança deixada só, em casa, fica em situação de risco, podendo ingerir medicamentos, água sanitária, tomar choques elétricos, queimar-se no fogão, cortar-se ou até cair de uma janela. Também são omissos os pais que não alimentam adequadamente seus filhos, que não cuidam da higiene ou do calendário das vacinações, ou não os matriculam na escola. 31 Lembramos que o Governo também é negligente quando não proporciona aos pais condições mínimas de sobrevivência. Acidentes, por definição, são situações casuais, eventuais, imprevisíveis. Traumas com graves conseqüências ocorrem freqüentemente e são considerados acidentais. Na realidade, na maioria das vezes, se a situação fosse investigada, caracterizaria negligência dos próprios pais. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 5.2.3 - QUESTÕES SOBRE MALTRATOS - Quem mais maltrata uma criança, a mãe ou o pai? É a mãe biológica quem mais maltrata fisicamente seus filhos. O abusador sexual na família quase sempre é o pai biológico, que age contra a filha e, algumas vezes, o filho. - Em qual idade a criança é mais maltratada? Antes dos cinco anos, o que caracteriza esse ato uma demonstração de covardia. - Sobre os maus-tratos contra crianças, quais os casos mais freqüentes? Nos hospitais, as situações mais encontradas são marcas na pele, de lesões provocadas por murros, tapas, surras de chicotes, fios, vara, queimaduras - muito freqüentes - por cigarro, ferro elétrico, água fervendo, objetos aquecidos. Quais e como se dão as formas mais comuns de maus-tratos? - Quais são as formas mais comuns de maus-tratos à uma criança? Físicos - uso de força física de forma intencional, não acidental, ou os atos de omissão intencionais, não-acidentais, praticados por parte dos pais ou responsáveis pela criança ou pelo adolescente, com o objetivo de ferir, danificar ou destruir esta criança ou o adolescente, deixando ou não marcas evidentes. Psicológicos - rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, utilização da criança como objeto para atender a necessidades psicológicas de adultos. Pela sutileza do ato e pela falta de evidências imediatas, este tipo de violência é um dos mais difíceis de caracterizar e conceituar, apesar de extremamente freqüente. Cobranças e punições exageradas são formas de maus-tratos psicológicos que podem trazer graves danos ao desenvolvimento psicológico, físico, sexual e social da criança. Abuso sexual - situação em que criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de adulto ou adolescente mais velho, baseado em uma relação de poder. Inclui manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia e exibicionismo - incluindo telefonemas eróticos - e o ato sexual com ou sem penetração, com ou sem violência. - O agressor sexual é um psicopata, um tarado ou doente mental que todos reconhecem? Na maioria das vezes, é uma pessoa aparentemente normal, até mesmo querida pelas crianças e pelos adolescentes. - Pessoas estranhas representam perigo maior às crianças e adolescentes? Os estranhos são responsáveis por um pequeno percentual dos casos registrados. Na maioria das vezes os abusos sexuais são perpetrados por pessoas que já conhecem a vítima, como, por exemplo, o pai, a mãe, madrasta, padrasto, namorado da mãe, parentes, vizinhos, amigos da família, colegas de escola, babá, professor (a) ou médico (a). - O abuso sexual está associado a lesões corporais? A violência física ou sexual contra crianças e adolescentes, não é o mais comum, mas sim o uso de ameaças ou a conquista da confiança e do afeto da criança. As crianças e os adolescentes são, em geral, prejudicados pelas conseqüências psicológicas do abuso sexual. 32 - O abuso sexual, na maioria dos casos, ocorre longe da casa da criança ou do adolescente? O abuso ocorre, com freqüência, dentro ou perto da casa da criança ou do agressor. Vítimas e agressores costumam ser, muitas vezes, do mesmo grupo étnico e sócioeconômico. A situação em que criança ou adolescente é usado para gratificação sexual de adulto ou adolescente mais velho se fundamenta numa relação de poder. Inclui manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia e exibicionismo incluindo telefonemas eróticos - e o ato sexual com ou sem penetração, com ou sem violência. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • - O abuso sexual se limita ao estupro? Além do ato sexual com penetração (estupro) vaginal ou anal, outros atos são também considerados abuso sexual, como o voyeurismo, a manipulação de órgãos sexuais, a pornografia e o exibicionismo. - A maioria dos casos é denunciada? Estima-se que poucos casos, na verdade, são denunciados. Quando há o envolvimento de familiares, existem poucas probabilidades de que a vítima faça a denúncia, seja por motivos afetivos ou por medo do agressor; medo de perder os pais; de ser expulso (a); de que outros membros da família não acreditem em sua história; ou de ser o(a) causador(a) da discórdia familiar. - As vítimas do abuso sexual são oriundas de famílias de nível sócio-econômico baixo? Níveis de renda familiar e de educação não são indicadores do abuso e as famílias das classes média e alta podem ter condições melhores para encobrir o abuso. Nesses casos, geralmente as crianças são levadas para clínicas particulares, onde são atendidas por médicos da família, encontrando maior facilidade para abafar a situação. - A criança mente e inventa que é abusada sexualmente? Raramente a criança mente sobre essa questão. Apenas 6% dos casos são fictícios. INFANTICÍDIO No Código Penal, artigo 123, diz que o termo se traduz em “matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após. Pena - detenção de 2 a 6 anos. Artigo 134: Expor ou abandonar recém-nascido, para ocultar desonra própria. Pena - detenção de 1 a 3 anos”. De qualquer forma é a morte do recém-nascido provocada pela própria mãe, sob estado de transtorno mental, decorrente do trabalho de parto ou puerpério (estado puerperal). Conceito: assim, o ato da mãe matar o próprio filho, durante ou logo após o parto, sob a influência do estado puerperal é um crime que chegou a ser punido como homicídio agravado sujeito a pena capital. Hoje, adota-se como atenuante o conceito do estado puerperal e na antiga legislação foi um crime que consistia em se matar o recém-nascido até 7 dias depois do nascimento pela mãe ou qualquer outra pessoa. Pelo código em vigor, se o ato é praticado fora da influência do estado puerperal ou qualquer outra pessoa não haverá infanticídio, mas homicídio. Por essa razão o novo Código Penal passou a definir infanticídio como “matar a mãe o próprio filho, para ocultar sua desonra, durante ou logo após o parto”. Para se admitir que houve o infanticídio, é indispensável que o recém-nascido seja morto pela própria mãe. Para tipificação desse delito de difícil apuração é indispensável, em tese, que se comprove o nascimento do feto com vida. Nesse caso, a docimasia hidrostática de Galeno é utilizada para comprovar o nascimento com vida. O termo docimasia tem origem no grego dokimasia e no francês docimasie, que significa “experiência, prova”. Esta é uma medida pericial, de caráter médico-legal, aplicada com a finalidade de verificar se uma criança nasce viva ou morta e, portanto, se chegou a respirar. 33 Após a primeira respiração, o feto tem os seus pulmões “abertos” e cheios de ar. Quando colocados numa vasilha com água, eles flutuam e isto prova que o bebê nasceu vivo; se isto não vier a ocorrer, se os pulmões afundarem é prova que não houve respiração e, conseqüentemente, não houve vida. Daí, a denominação docimasia pulmonar hidrostática de Galeno. No âmbito jurídico a docimasia é relevante porque contribui para a determinação do momento da morte, pois se o indivíduo vem à luz viva ou morta, as conseqüências jurídicas serão diferentes em cada caso. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 6 - SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL O nome é relativamente novo, divulgado pela primeira vez pelo psiquiatra norteamericano Richard Gardner, mas é muito freqüente nas questões referentes às visitas aos filhos e às pensões alimentícias. Como o objetivo é destruir o vínculo entre o pai e os filhos, a situação familiar estrutura-se de modo a que o pai torne-se secundário ou periférico, ou quando muito mero provedor da pensão alimentícia, até sua completa extinção no significado simbólico dos filhos. Inicia-se um trabalho de destruição da imagem do pai perante os filhos, com vistas a reduzir a importância deste em suas vidas. A mãe utiliza uma série de argumentos dela (e não das crianças) para mostrar que o pai não é digno de afeto, pois essa mãe recorre ao referencial simbólico do ex-marido ou ex-companheiro como único responsável único pelo da vida conjugal, porque se recusa a observar ou admitir que numa relação a responsabilidade mútua é de ambos, do casal. E essa é transferida aos filhos, que são vistos como extensão de si mesma, incapazes que é de ter autonomia afetiva. O resultado disso é um pacto de lealdade inconsciente entre a mãe e os filhos, para atender exclusivamente aos interesses dela, e não os das crianças Devido à dependência material (estar sob o mesmo teto) e, principalmente, a afetiva, as crianças mantêm com essa mãe um pacto de lealdade inconsciente, que se consolida na destruição do vínculo com o pai. Há um temor (consciente ou inconsciente) de serem rejeitadas ou abandonadas pela guardiã, para ficarem com o pai que é visto como negativo para elas (por influência da mãe, é claro!). Assim, as crianças aprendem também a mentir e distorcer os fatos, como mecanismo de defesa para manipular as pessoas à sua volta para agradá-las e com isso satisfazerem aos interesses que são falsamente reconhecidos como legítimos. Este fenômeno é conhecido como Síndrome de Alienação Parental. 6.1 - SÍNDROME DE MÜNCHAUSEN Situações em que pais, com objetivos de auferir lucro ou ter alguma outra vantagem, simulam em seus filhos, de forma habilidosa, ardilosa e verossímil, sinais e sintomas de doenças. Nesses casos, levam essas crianças a hospitais e, freqüentemente, elas são submetidas a complexos exames para buscar o diagnóstico. Exemplifico o caso de uma mãe afirmava que a filha chorava lágrimas com sangue - e nada se encontrava nos exames. Foi levada para outros hospitais especializados, com a mãe sempre repetindo que a criança estava com sangue nos olhos. E denunciava que não conseguíamos resolver o problema. Certa vez, porém, durante a noite, a mãe furava o próprio dedo e colocava o sangue no olho da criança e imediatamente chamava a enfermagem. 34 Freqüentes são os casos de pais que chegam aos hospitais com filhos em coma, muitas vezes consecutivas. Acaba-se descobrindo que dão barbitúricos ou outros sedativos em grandes doses para as crianças. Esses adultos são pessoas neuróticas ou com graves problemas psicológicos ou mentais, que precisam ser identificadas e tratadas. O nome da síndrome vem da literatura, em que o personagem, o barão de Münchausen criava histórias fantasiosas, extremamente detalhadas e todos acreditavam nelas. Esse quadro foi, inicialmente, descrito em adultos que inventavam doenças, em si próprios. Posteriormente, em 1977, Meadow descreveu a situação em que pais com desordens psiquiátricas produziam nos filhos o mesmo quadro. Daí a denominação Síndrome de Münchausen by proxi, ou por procuração. Outro exemplo é de uma adolescente de quatorze ou quinze anos com uma cicatriz de cirurgia de apendicectomia que não cicatrizava. Conversamos e ela contou-me que estava retirando os pontos com seus dedos porque não queria ir para casa. Prolongava sua estada no hospital. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 6.2 - SÍNDROME DO BEBÊ SACUDIDO (SHAKEN BABY SYNDROME) É outra situação de maltrato em que uma criança, geralmente um bebê, é sacudida, na maioria das vezes pelos próprios pais, causando hemorragias intracranianas e intra-oculares que podem levar à morte ou deixar graves seqüelas, que muitas vezes só serão detectadas ao longo da vida, em razão de distúrbios no aprendizado ou no comportamento. De diagnóstico difícil, obriga o profissional de saúde a estar informado sobre sua grande freqüência e sobre a necessidade de anamnese bem completa, com exame obrigatório de fundo de olho e ressonância magnética para o diagnóstico de micro-hemorragias cerebrais. Há o caso do bebê que morreu com hemorragia cerebral em conseqüência da “sacudida” que teria sido infringida por sua baby sitter, uma jovem inglesa que estava estudando nos Estados Unidos. Os pais da criança, ambos médicos, trabalhavam o dia inteiro e deixavam seu filho com a babá. Ela foi presa, acusada de homicídio, condenada num primeiro julgamento e, paradoxalmente, libertada em outro seguinte, após 279 dias de detenção. 6.3 - SÍNDROME DE SILVERMAN Descrita pela primeira vez pelo pediatra que tem o mesmo nome, trata-se de sevícias em menores de caráter exclusivamente doloso, também chamada de Síndrome da criança maltratada, cuja experiência tem demonstrado que 80% desses menores maltratados têm menos de três anos e 40% deles são menores de seis meses. 6.4 - ADOÇÃO Quais são alguns aspectos psicológicos da adoção? Quais são os preconceitos sobre a adoção e como as famílias adotivas podem lidar com eles? Como a adoção é apresentada em algumas histórias infantis? Quais são as dificuldades que permeiam o processo de seleção de pais adotivos? O que de verdade existe sobre o ajustamento de filhos adotivos? Para que serve a pesquisa sobre adoção? Quais são os desejos de casais habilitados legalmente para uma adoção? Existem diferenças entre as adoções realizadas por brasileiros e estrangeiros no Brasil? Quem são as crianças que estão sendo adotadas no Brasil? Estas e outras questões são discutidas no livro da psicóloga Lidia Natalia Dobrianskyj Weber. O estudo realizado por Weber, em 2001, a relação quanto ao sentimento de vergonha sobre a adoção de membros da família adotiva, a cor da pele e o gênero da criança adotada no Brasil, podemos afirmar que a maioria absoluta dos pais adotivos (63%) afirmou que nunca sentiram vergonha da sua situação ou, ao contrário, sentem orgulho (19%); A maioria absoluta dos filhos adotivos respondeu que não sentem vergonha (71%), mas nenhum falou que tem orgulho desse fato e 26% sentem-se envergonhados ou procuram não falar do fato; a cor da criança escolhida adotada (71%) era de cor branca; (24%) das criança eram de cor negra e 0,5 % adoções inter-raciais se for considerada a cor de pele da mãe, e 26% se for considerada a cor de pele do pai; deste total de adoções interraciais, somente 4% foram de adotantes brancos e crianças negras. A preferência por meninas (57%) e dos meninos (43%) não é estatisticamente significativa. O que podemos tirar de conclusões desses dados? 35 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 6.5 - OUTRAS QUESTÕES AFETIVAS SOBRE A FAMÍLIA A família é à base da sociedade, no entanto o Direito está na Sociedade como um todo tentando sempre abordar questões polêmicas e trazendo possibilidades hermenêuticas de entender o fenômeno humano como um todo. Os vínculos afetivos e sua tradução jurídica quanto ao patrimônio estão implicados no casamento, união estável, namoro, concubinato e união homossexual sempre pedindo que o Direito opine. Os vínculos afetivos que se fundamentam no afeto, na necessidade de completude e na solidariedade geram efeitos jurídicos. Quando acontece aquisição patrimonial, o sistema jurídico define regras para as relações formalizadas, restando àquelas marginalizadas invocar os princípios gerais de direito e a analogia. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu de forma inédita que a competência para julgar direitos decorrentes de uniões homossexuais é das varas especializadas em Direito de Família. Em outra decisão memorável, o mesmo tribunal, em 2001, reconheceu direito à partilha de patrimônio em união homossexual, como direito de meação, declarando que "o patrimônio havido na constância do relacionamento deve ser compartilhado como união estável", orientação mantida em nova decisão de 2003 da lavra do mesmo julgador, que reconheceu o direito de partilha de bens à semelhança da partilha par a união estável e a comunhão parcial de bens, invocando os princípios da dignidade, da igualdade e da analogia. Portanto, é correta à semelhança da partilha par a união estável e a comunhão parcial de bens, invocando os princípios da dignidade, da igualdade e da analogia. 6.5.1 - NORMATIZAÇÃO DE COMPORTAMENTOS AFETIVOS É POSSÍVEL? Jamais. Nas varas de família, ouve-se o eco das apelações de parceiros e paraceiras insatisfeitas, os desencontros amorosos causando enormes e desagradáveis demandas oriundas de uma separação. Casais esperam que a lei possa colocar-se na posição de regular o irregulável. Quanto à semelhança do que dizem do Direito, porque ninguém cumpre a Lei? Poderia responder com outra pergunta: porque não há cura total para o câncer? A complexidade do ser humano e do Direito vai além das normas e da lei, assim como a da medicina vai além do corpo biológico, ambos necessitam também da psicanálise e da psicologia. Da mesma forma, para ambas áreas do comportamento humano, haveria algumas técnicas em que pudéssemos nos arvorar e possamos utilizar melhor nossos sentidos? Sim, há. Se prestarmos melhor a atenção no mundo exterior e coletarmos informações utilizando nossos cinco sentidos: visual, auditivo, sinestésico, olfativo e gustativo. A PNL- Programação Neurolingüística é considerada um conjunto de ferramentas, desenvolvidas especificamente para auxiliar o alcance da excelência pessoal e da observação comportamental. Pelas técnicas da Programação Neurolingüística, no que também consiste em observar a capacidade dos seres humanos de utilizarem seus órgãos sensoriais para melhorarem seus afetos, cujos indivíduos podemos caracterizá-los como cinestésicos, visuais e auditivos. 36 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 7 - COLUSÃO O médico psiquiatra Jürg Willi (1985), citado por Vainer (1999), criou o conceito de colusão, baseado da teoria psicanalítica do inconsciente e nas fases de desenvolvimento da libido, bem como no conceito de recalque e nas dinâmicas dos mecanismos de defesa da teoria de Sigmund Freud. Colusão é um jogo inconsciente estabelecido entre os cônjuges, que se desenvolve desde a eleição do (a) parceiro (a) e que se aprofunda na relação conjugal, e no qual os conflitos são constantemente repetidos, imobilizando o outro na situação neurótica. O processo que se arrasta, muitas vezes por anos, nas Varas dos Foros e Tribunais pode ter se iniciado, já na eleição inconsciente do parceiro, na realização do casamento, no desenrolar da vida conjugal, no significado dos filhos, na profissão e demais questões familiares para o casal. Finalmente, pela maneira como esse casal se separa e resolve suas questões em litígio. Como é inconsciente, não é perceptível e, muitas vezes, os cônjuges passam a se agredir com muito mais intensidade. Willi (1985) parte da idéia de que problemas e conflitos de mesma ordem ou de classes complementares exercem uma grande atração entre as pessoas desde a primeira fase da relação conjugal, ou seja, na eleição inconsciente do parceiro. O casal em formação pode encontrar no outro as próprias dificuldades. As fantasias e idealizações baseadas na repressão e, portanto, inconscientes, emergentes do encontro do casal, constituem a predisposição para a formação de um inconsciente comum. Ambos depositam no outro a esperança de serem curados das próprias lesões e frustrações da primeira infância e, assim, libertados dos temores e culpas que provêm das relações anteriores. Projeta e introjeta, imagina e incorpora o perceptível e o imperceptível. Projeta, introjeta e reintrojeta. “Essa postura dos cônjuges se concentra cada vez mais nas identificações fundamentais das patologias comuns inconscientes, num jogo projetivointrojetivo do inconsciente comum da relação. Como os conflitos de base geralmente são da mesma ordem, pode-se visualizar a relação como neurótica, já que possuem um inconsciente comum”. 7.1 - CONCEITUAÇÃO MODULAR DE CONFLITO NEURÓTICO Nos quatro conceitos modulares que serão apresentados, a seguir, todos dão uma visão ampliada dos relacionamentos neuróticos que os indivíduos são capazes de estabelecer entre si, e seu entendimento nos auxilia na resolução dos conflitos. Nada melhor a prática que aliada a uma boa teoria, e estas, sem dúvida, nos ajudam quando podemos auxiliar o jurista a perceber, também, que ele é também um agente biopsicossocial. A partir dessas colocações, Willi (1985) define quatro conceitos modulares de conflito neurótico de uma relação conjugal e afetiva, que serão analisados do seguinte modo: 7.1.1- O primeiro conceito modular é a Colusão narcisista - O amor fusão, ser um só: 37 A eleição do parceiro ocorre segundo suas características de personalidade narcísica já tão sobejamente descritas na literatura psicanalítica, e a busca se concentra em encontrar um indivíduo que não tenha aspirações próprias, que o adore e o idealize. O consorte que atende a essas expectativas do (a) parceiro (a) encaixa-se facilmente no modelo, uma vez que, em função de um ego muito diferente, renuncia à aspiração de ter uma identidade própria, idealizando ser absorvido “misticamente” pelo outro. Por outro lado, não há vítimas, pois o outro cônjuge é o narcisista complementar funciona como “espelho” e que encontra, portanto, no narcisista idealizado sua própria identificação. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • Colocado em um modelo circular de interação, poder-se-ia esquematizar a relação da seguinte maneira: ao mesmo tempo sente-se aprisionado às expectativas do outro e tenta defender-se agredindo o companheiro e lutando para conservar sua identidade, pois está cada vez mais impregnado com as projeções do cônjuge e, de certa forma, afirma-se nelas. Tanto o pólo narcísico como o pólo complementar da relação se acham presos um ao outro, pois um é a possibilidade de existir idealizadamente do outro, num jogo de projeção e introjeção. Acham-se presos a uma armadilha em que ao sujeito narcisista só seria possível uma relação superficial e o sujeito complementar só admire uma relação simbiótica absoluta. 7.1.2 - O segundo é a Colusão oral - o amor como preocupação de um pelo outro: Na eleição do parceiro, o cônjuge na posição de "filho-lactente" adotivo tem expectativas de satisfação de suas necessidades orais. Em função de seus problemas da primeira infância, oriundos de uma mãe com dificuldade de lidar com a fase oral do bebê (talvez em função das próprias dificuldades que possa ter tido nesta fase) se coloca numa posição regressiva-passiva e resgata a satisfação de sua oralidade. Recusa-se a tomar qualquer posição progressiva, na posição mãe, temendo repetir aí a mãe má, internalizada, como objeto mau. Essas funções maternas são então transferidas ao parceiro, de forma idealizada, que seria visto então como uma mãe ideal. Ao longo da convivência, porém, como conseqüência do fundo neurótico de base desta relação, os conflitos terminam por aflorar em razão do retorno do recalque, tendendo então à repetição dos conflitos não resolvidos. O "lactente" começa a perseguir a "mãe ideal", agora tão frustradora que passa a relacionar-se com ela pelo papel da "mãe má" introjetada. Retrocede cada vez mais em sua conduta, colocando o parceiro "mãe" numa posição de fracasso, nesse jogo, uma vez que não mais reconhece ou valoriza os cuidados do parceiro; ao mesmo tempo teme que, por seus atos agressivos, que se esgote a fonte de cuidados, terminando por perdê-la, como na situação original da infância. Quanto mais o cônjuge "mãe" se esforça, mais é rechaçado pelo cônjuge "lactente", que agora o teme como a projeção do objeto mau. 7.1.3 - O terceiro é a Colusão anal-sádica - o amor como pertencer-se um ao outro: Esta forma de colusão advém “do jogo conjunto de um caráter anal ativo com outro passivo” (Will, 1985, p.121). Neste tipo de colusão, cada um dos cônjuges introjeta um padrão de relação que fará parte importante numa relação matrimonial. Quem não deseja ser dominado terá de dominar o outro, seja pela sedução carinhosa e obediente, seja pela confrontação direta, levando o outro à exasperação e à impotência. O dominante ativo – embora atue com uma avidez de poder e sadismo – parece possuir uma formação reativa em relação ao medo de ceder ao seu próprio desejo de se submeter ao outro. No casamento e na família, ele exige adesão incondicional como expressão de seu conflito. Essa adesão visa atenuar o medo da separação e do abandono. Em contrapartida, o sujeito passivo da relação aceita aparentemente todas as imposições da outra parte, feliz por não precisar se posicionar ou assumir qualquer responsabilidade direta em relação ao casamento e até à própria vida. Porém, essa posição é apenas aparente, uma vez que, por trás dessa docilidade e submissão, há a intenção de manter o poder e o controle da relação pela obediência e tolerância. 38 A luta anal pelo poder se caracteriza muitas vezes pela mistura poderosa de medo e prazer. Graças, porém, ao emaranhado da luta, a separação fica muito distante, embora muitas vezes pareça iminente aos olhos dos que estão de fora. Essa luta se dá muitas vezes de uma forma cruel, tocando os limites do suportável, porém só até o ponto em que o parceiro agüente, pois a intenção não é a separação e sim a continuidade da luta. MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • 7.1.4 - O quarto conceito Colusão fálico-edipal - o amor como afirmação masculina: Nesse tipo de colusão, o amor é visto como afirmação masculina. Diante do contexto biopsicossocial das relações, ocorre aqui a construção de estereótipos dos papéis masculinos e femininos na sociedade, em que se esperam determinadas tarefas e comportamentos, que são tanto mais cristalizados quanto mais neurótica for a relação. Baseia-se na dificuldade em se identificar com as figuras parentais (muito fracas ou muito poderosas) e com as quais os cônjuges não conseguem rivalizar e dissociar-se. Atualmente existe uma grande insegurança sobre a peculiaridade da mulher é conseqüência de uma situação social desvantajosa ou quanto pode ser fundamentada biologicamente. Quando Willi (1985) se refere à inveja do pênis mencionada por Sigmund Freud, não o faz no sentido literal do termo, mas como a inveja dos privilégios masculinos. Da mesma forma, o medo da castração é visto como ligado à perda do papel masculino e todas as suas implicações. O filho pode não ser capaz de romper com a mãe quando se casa, acabando por incluí-la na relação. O pai, ciumento do genro ou inferiorizado pelas vitórias do filho, o agride e o diminui. Esse processo acaba se traduzindo numa relação de tensão também em nível geracional, influindo muitas vezes fora do campo familiar e entrando no campo profissional, por exemplo, em que por trás das dificuldades de trabalho encontram-se colusões edipais paisfilhos não resolvidas. A mulher, por sua vez, na eleição do parceiro se encontra vitimizada ou fragilizada, seja pela perda de um grande amor ou pela difícil convivência com pais, que lhe trataram mal. Portanto, ela precisa de um homem que a salve de sua infelicidade. Porém, ao se dar conta do poder que possui, em controlar a masculinidade do marido, sexual e emocionalmente, tem a sensação de lhe roubar o pênis, apoderando-se do controle de seu funcionamento. Este marido, então, encontra-se resignado à situação de repressão fálico-agressiva, mantendo assim suas fantasias edipais sob controle. Coloca sua potência na esposa, livrando-se assim dos seus próprios temores. Do mesmo modo, filhos de ambos os sexos culpados por superar os pais ou tão reprimidos pela força da figura parental podem submeter-se homossexualmente às fantasias de poder dos pais. Assim, "o complexo de Édipo pode converter-se em um verdadeiro conflito de consortes, em um jogo neurótico, no sentido de uma colusão" (Willi, 1985, p. 152). O autor enfatiza, ainda, que os tipos de colusão não são categorias matrimoniais e sim uma tentativa de diagnóstico dos conflitos básicos envolvidos na relação. Esses conflitos não são puros e podem ocorrer mesclas ou superposições numa mesma relação. Não se pode pretender que o conceito de colusão abarque, definitivamente, todas as explicações a respeito das relações conjugais. O que se estabelece aqui é a construção de um modelo teórico que busca entender o que acontece por trás das relações conflituosas e dos litígios trazidos ao Judiciário. Deve-se observar que, em muitos casos, as pessoas utilizam o próprio Judiciário como elemento de manutenção do vínculo neurótico colusivo. 39 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50
    • BIBLIOGRAFIAS UTILIZADAS E RECOMENDADAS ARBENZ, Go. Compêndio medicina legal. Rio de Janeiro, Ed. Atheneu, 1983. BALLONE, G. J. - Delitos Sexuais e Parafilias - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005. BONNET, E.F.P. Medicina legal. 2ª ed. Lopez Libreros Editores, Buenos Aires, 1980. CAÍRES, Adelaide de Freitas. Psicologia Jurídica. Implicações conceituais e aplicações práticas. Maria. Vetor Editora. São Paulo, 2003 CALABUIG, J.A. Gisbert. Medicina Legal e Toxicologia. 5ª ed. Ed. Masson S.A. Barcelona, 1998. CARVALHO, VH. Compendio de medicina legal . São Paulo, Ed. Saraiva; 1997. CARVALHO, VH. Manual de técnica tanatológica. São Paulo, Ed. Tipografia Rossolillo; 1950. FÁVERO F. Medicina Legal: introdução ao estudo da medicina legal, identidade, traumatologia. 12ª ed. Belo Horizonte, Ed. Villa Rica Martins, 1991. FÁVERO, Flamínio. Medicina legal: introdução ao estudo da medicina legal, 11a ed. Belo Horizonte, Editora Itataia Ltda, 1980. FENICHEL, Otto. Teoria Psicanalítica das Neuroses. Ed. Atheneu, São Paulo, 2000 FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina legal. 6ª ed., Editora Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2001. FREUD, Sigmund. Obras Psicológicas Completas . Versão 2000 GOMES, Hélio. Medicina legal, 10a ed. Rio de Janeiro, Livraria Freitas Bastos, 1968. GONÇALVES, Hebe; Brandão, Eduardo. Psicologia Jurídica no Brasil. Nau editora, Rio de Janeiro, 2004. GROENINGA, Gisele Câmara; Pereira, Rodrigo da Cunha. Direito de Família e Psicanálise. Imago, Rio de Janeiro, 2003. HANNS, Luiz. Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Ed. Imago, RJ-1996. KAUFMANN, Pierre. Primeiro Grande Dicionário Lacaniano. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1996. LAPLANCHE E PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise, Ed. Martins Fontes, São Paulo,2000. RIGONATTI, Sérgio Paulo. Temas de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica.Vetor Editora, São Paulo, 2003. WALKER, Daniel. O Corpo Humano é engraçado .www.ebooksbrasil.com, 2010. WALKER, Daniel. O livro das diferenças.www.papelvirtual.com.br, 2010. Agradeço a todos os autores, colaboradores e pesquisadores que contribuíram, direta e indiretamente, disponibilizando seus conhecimentos para construção deste pequeno compêndio. 40 MYTHOS | Prof. Ms. Valter Barros Moura – CRP 5701049-50