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A ci e a teoria do conhecimento objetivo

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  • 1. A CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO E A TEORIA DO CONHECIMENTO OBJETIVO: um relacionamento necessárioPor Antonio MirandaTexto originalmente publicado em: O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexõese especificidade/ Mirian de Albuquerque Aquino. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2002 p.9-24. “ Sem a livre concorrência de pensamento não pode haver desenvolvimento científico (...) E sem a liberdade de pensamento não pode existir uma livre concorrência de pensamentos científicos”. Karl Popper Introdução A Ciência da Informação – aventuramos afirmar – tem origem no fenômeno da“explosão da informação” (ligado ao renascimento científico depois da 2ª Guerra Mundial)e no esforço subseqüente de “controle bibliográfico” e de tratamento da documentaçãoimplícita no processo. Teria surgido, conseqüentemente, de uma praxis específica noâmbito da indústria da informação na tentativa de organizar a literatura científica e técnicaatravés serviços e produtos para as comunidades especializadas, tarefa que migrara dasbibliotecas tradicionais para os novos sistemas informacionais, com o concurso deprofissionais de diferentes áreas do conhecimento.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 2. De fato, especialistas oriundos da Química, da Física, da Matemática, da Biologia e, emescala menor, também das Ciências Sociais e das Humanidades, tiveram a opçãoprofissional de dedicar-se integralmente às informações sobre suas áreas de origem, ematividades tais como: elaboração de revistas de sumários (curent contents), de resumos(abstracts), indexação e análises de literatura para serviços que iam dos novos sistemas dedisseminação seletiva da informação às igualmente novas fontes bibliográficas. Além, valea pena mencionar, das tarefas de revisão e síntese de literatura do tipo annual reviews eadvances in, relacionados com as velhas e as novas disciplinas científicas.(*1)O surgimento da Ciência da Informação estaria – segundo esta visão - relacionado com aatividade subseqüente ao controle da produção científica e à regularidade do fenômenorelativo à sua dispersão e uso, obsolescência, epidemiologia de sua propagação e outrosaspectos detectados no processo de manipulação e análise da literatura. A bibliometria foivista como uma nova ciência ou método de interpretação estatística da referidafenomenologia, com a derivação conseqüente de leis e padrões.Segundo Wersig e Neveling (1975), o problema da nova ciência estaria na definição de“informação” que, conforme as origens profissionais dos especialistas, teria sentidos econotações próprias e diferenciadas. Simplesmente, se não estamos em capacidade dedefinir a priori o que entendemos por informação, então, a ciência que trata do fenômenolevar-nos-ia a interpretações e orientações contraditórias e até conflitantes. A maioria dosautores que vêm tentando definir a Ciência da Informação desenvolve o mesmo raciocínio,exigindo um consenso em torno da definição prévia de informação como condição paradefinir a nova disciplina científica. Para o senso comum, o argumento parece ter lógicamas, na prática, não é bem assim. A rigor, a Ciência da Informação – a julgar por suaorigem pragmática – tem menos a ver com informação e mais com documentação, comopretendemos justificar no presente texto.Para Le Coadic (1994, p. 7), “a informação é um conhecimento inscrito (gravado) sobforma escrita (impressa), oral ou audiovisual (...)” como a sugerir que os documentosinscrevem informações mas eles são, ao mesmo tempo, objetos autônomos. Os conteúdoinformacional dos documentos seria objeto de análise de cada ciência a ele relacionada,mas – queremos afirmar e defender aqui - o documento em si, enquanto registro, requerabordagens próprias das novas ciências popperianas (do Mundo 3 de Karl Popper), dentreelas a Ciência da Informação, como veremos mais adiante.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 3. Quem detectou essa natureza independente da Ciência da Informação, sob a denominaçãode Informatika, foram os precursores russos Mikhailov, Chernyi e Gilyarevskyi (1975,traduzido ao português em 1980). Ao estudar “a estrutura e as principais propriedades dainformação científica” eles apontaram prioritariamente para a “inseparabilidade dainformação científica de seu suporte físico”(o grifo é nosso), reconhecendo em seguida queessa propriedade é comum a todo tipo de informação. O Mundo 3 de Karl Popper A Teoria do Conhecimento Objetivo de Karl Popper já é muito difundida no meioacadêmico e, por conseguinte, vamos apenas resumir os seus postulados. Segundo ofilósofo e metodólogo, o Mundo 1 é constituído pelos conhecimentos relacionados aomundo físico – a geologia, a biologia, etc. (“o mundo dos estados materiais”) – enquantoque o Mundo 2 compreende os conhecimentos relativos ao mundo metafísico ou dosestados mentais e da subjetividade – a psicologia, entre outras ciências. Ou seja, os Mundos1 e 2 problematizam os fenômenos físicos e metafísicos ou, numa versão mais popular, ovisível e o mental. O Mundo 3 – ou o mundo do conhecimento objetivo – é “o mundo dosinteligíveis ou das idéias no sentido objetivo” (Popper, 1975, p. 152) e tem a ver com oconhecimento registrado, com as suas teorias, proposições e demais entidades lingüísticasque entram na codificação e registro do conhecimento. Numa entrevista, o próprio Popperesclarece: Existe uma diferença importante quando exprimimos o nosso pensamento por palavras ou, melhor ainda, por escrito. Desta forma o pensamento se torna acessível à crítica. Anteriormente os nossos pensamentos constituíram uma parte de nós mesmos. Poderíamos ter dúvidas, mas não teríamos podido criticá-las da mesma forma que podemos criticar uma afirmação expressa verbalmente ou, melhor ainda, um relatório escrito. Portanto, há, pelo menos, um significado importante de “conhecimento” objetivo: “conhecimento” no sentido de “teoria formulada verbalmente, que se expõe à crítica”. A isso chamo eu “conhecimento em sento objetivo”. Nele se integram os conhecimentos científicos. (1994, p. 68)AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 4. E arremata: “Este conhecimento está armazenado nas nossas bibliotecas e não nasnossas cabeças” (opus cit. P. 68). No sentido restrito, Popper queria referir-se a toda aintelequia que participa do registro dos conhecimentos sobre os mundos 1 e 2 em seuprocesso de objetivação, isto é, de transposição. Conhecimento objetivo, em tal acepção,seria o processo de produção do documento científico segundo os seus códigos emetodologias de investigação e exposição sistemática, mas sempre no sentido de produzirregistros para o uso da comunidade científica, com elementos constitutivos que permitamsua decodificação e transformação crítica e permanente pelos pares. Em verdade, o Mundo3 ( ou “terceiro mundo”) é o responsável pela intelegibilidade dos 3 mundos e, porextensão, de toda atividade científica. Suas teses afirmam que Todo ato subjetivo de compreensão está amplamente ancorado no terceiro mundo (Mundo 3); que quase todas as observações importantes que podem ser feitas acerca de tal ato consistem em apontar suas relações com objetos do terceiro mundo; e que tal ato consiste principalmente de operações com objetos de terceiro mundo: operamos com esses objetos quase como se fossem objetos materiais. (Popper, 1975, p. 158)Em outras palavras, a objetivação do conhecimento transforma-o em objeto observável, emfenômeno independente. A literatura científica – e, por extensão, todo e qualquer registro(*2) – se “coisifica” e se converte em matéria prima de ciência que, como a Ciência daInformação, pretendem entender sua natureza, comportamento, regularidades,possibilidades e as leis que fundamentam sua existência e desenvolvimento.O conhecimento objetivo, assim concebido, seria uma “coisificação” ou a autonomia dainformação de seu criador. Uma vez produzido, o texto é público, sujeito a críticas,apropriações, reformulações até mesmo pelo seu criador. De fato, bibliotecários semprecosificaram seus acervos, criando medidas e parâmetros relativos às suas propriedadesfísicas que permitem a sua seleção, aquisição, tratamento técnico, armazenamento, o uso,uso, sua propagação por diferentes tipos de mídia, etc. Informação no sentido tangível,mensurável, deteriorável física e intrinsicamente, com volume, peso, preço e outraspropriedades administráveis.Embora Popper esteja referindo-se às teorias e outras propriedades que entram naformulação e registro dos conhecimentos científicos em geral – mais preocupado com a suaAQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 5. formulação -, ele também nos fala do processo em que o conhecimento avança por“conjecturas e refutações”, isto é, por registro e crítica objetiva que dá origem a novosregistros, numa cadeia produtiva infinita.Pode-se até mesmo fazer outras derivações de sua teoria como, por exemplo, que Popperestava empenhado em garantir o avanço da ciência pela sua faculdade de exposição à críticae reconstrução, mas que, certamente, também estaria alertando para a necessidade de quetais registros sucessivos tivessem formatos adequados e processos de difusão igualmentelegitimadores. Ou seja, que a atividade científica é complexa e requer seus rituaislegimitadores – próprios da academia – mas também os processos de difusão e reciclagempermanentes que garantem sua renovação constante. Para os cientistas da informação, ficaclaro que os documentos têm formatos e especificidades próprias às suas funções e usos –uma coisa é uma dissertação de mestrado, outra coisa é o artigo científico, ou um livro; queexistem níveis de compreensão, de produção, de acessibilidade, etc. no âmbito dos sistemasde informação criados em torno da documentação científica ou não.Seria possível afirmar que forma e conteúdo seriam interdependentes. Melhorar a forma deprodução do conhecimento também implica na melhoria no processo de seu registro edifusão, como partes de um mesmo sistema produtivo. Enquanto os Mundos 1 e 2 requeremespecialistas para coletar dados, produzir informações e gerar conhecimentos específicos noâmbito das diversas ciências, sejam elas “duras” ou não, podemos inferir que,isomorficamente, o mundo 3 requer especialistas de todo tipo para seu equacionamento emtermos teóricos e práticos. É o universo da metaciência, mas também das profissões quelidam com os métodos e técnicas de produção, armazenamento e uso – e todo o ciclo dacomunicação científica – das informações e conhecimentos produzidos pela atividadeinvestigativa. Uma dessas novas atividades profissionais é própria da Ciência daInformação que, segundo Le Coadic: Tem por objeto o estudo das propriedades gerais da informação (natureza, gênese e efeitos), ou seja, mais precisamente: a análise dos processos de construção, comunicação e uso da informação; e a concepção dos produtos e sistemas que permitem sua construção, comunicação, armazenamento e uso. (Le Coadic, p. 26).AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 6. Em verdade, mesmo reconhecendo que o ponto de partida de Popper seja restrito aodocumento de natureza científica – como já assinalamos -, houve uma apropriação doconceito para englobar todos os tipos de registros e formato. Como arrolaram Mostafa ePacheco: Se for alargada a compreensão do documento, constatar-se-á que não existem diferenças fundamentais entre o documento bibliográfico (...) e os documentos gerados nos fluxos informacionais das diferentes áreas de serviços. São todos suportes de informação (...) que precisam ser produzidos, ordenados, armazenados e recuperados (apud ODDONE, p. 84). Racionalismo X Empirismo Uma outra questão que os cientistas da informação levantam em relação à suaciência – e que a Teoria do Conhecimento de Popper poderia ajudar a resolver – é a suaorigem na atividade prática, requerendo ainda um arcabouço teórico que lhe dêsustentação.“Esta nova ciência não dirige sua pesquisa preliminarmente para umdesvendamento do mundo, mas se constrói por abordagens estratégicas voltadas para asolução ou trato de problemas” (PINHEIRO e LOUREIRO, 1995, p. 44). Os autoressupra-citados valem-se da visão de Wersig, para quem, Como um dos principais problemas no estuda da ciência da informação, seu fracionamento em inúmeras disciplinas, obrigando o cientista a lidar com dados fragmentados de natureza empírica e teórica. Prossegue, afirmando que, “se a ciência da informação existe, qualquer que seja a denominação dada a esse campo, ela não possuirá uma teoria, mas uma estrutura proveniente de um amplo conceito científico ou modelos e conceitos reformulados. Esses serão intertecidos a partir de seu desenvolvimento e de problema do uso de conhecimento nas condições pós-modernas de informatização. Havendo uma interconexão entre tudo, ciência da informação deve desenvolver um sistema de navegação conceitual (WERSIG, apud. PINHEIRO e LOUREIRO, p. 44).AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 7. O mesmo pode ser dito de toda e qualquer ciência no âmbito “pós-moderno” ou dainterdisciplinaridade que rege a prática investigativa. Seria um falso dilema contrapor aexperiência à teoria, não ensina Popper. Na prática, a atividade busca sempre oquestionamento de algo já conhecido e, dialeticamente, vale-se de empirismo eracionalismo indistintamente. Na prática, esse racionalismo – na acepção popperiana doconhecimento objetivo – requer mais do que síntese, requer algo essencialmente novo (verPopper, O racionalismo crítico na política, p. 29), uma idéia nova que, a posteriori, tambémvoltará a ser refutada. Seria uma forma modificada de empirismo, a la Kant (Crítica daRazão Pura), como diria o próprio Popper.A ingenuidade dos empiristas pretende reduzir tudo a “modelos” explicativos quando, naverdade, são os fatos observados pelos empiristas que permitem a formulação e oaperfeiçoamento dos modelos. Enquanto os racionalistas pretenderam “construir as teoriasexplicativas das ciências sem recorrer à experiência, portanto, à luz da razão” (POPPER,opus cit. P. 38), o empirismo ensina que que “só à luz da experiência podemos decidirsobre a verdade e falsidade de uma teoria científica” (POPPER, ibidem, p. 38). E continua: O pensamento puro não pode nada, na opinião do empirismo, estabelecer a verdade real: para estabelecer fatos temos de fazer uso de observações e experiências. Podemos tranqüilamente dizer que o empirismo, ou noutra forma discreta e modificada – é a única interpretação do método científico que pode hoje ser encarado seriamente (p. 38).Mas não é possível trabalhar apenas com a experiência. Por exemplo, como observou Kant,quando queremos afirmar que o mundo que nos circunda é infinito, a situação extrapola oslimites da experiência possível. Popper percebeu que, se apelarmos para a demonstraçãodisso com argumentos análogos, podemos provar exatamente o contrário (Popper, op. cit, p.40), embora seja razoável argüir que o pensamento evolui enquanto que o modelo orepresenta é “evoluído” (idealismo absoluto). Se o princípio da identidade absoluta deHegel, para quem o racional é igual ao real, ou seja, idealismo e realismo sãodialeticamente correspondentes, perguntamos nós o que fazer com os sistemas derepresentação do real produzidos pela inteligência artificial (como muitos dos sistemasespecialistas ou os de simulação que inventgamos hoje em dia). Seriam igualmente reais?Reais na concepção cartesiana do “penso, logo existo” transfigurado em “se representa, éreal”.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 8. Tudo indica que é o jogo dialético entre racionalismo e empirismo que parece fazer avançara base do conhecimento científico. A simples experiência acumulada do empirismoorientado pela problematização permanente e conseqüente, assim como a pretensaracionalização e teorização das hipóteses que originaram da/orientam a pesquisa, de formaisolada, não garantem a renovação constante. O mesmo Popper expressa a angústia dessaimpossibilidade, interpretando Descartes, segundo o qual, o espírito humano deveria tentartudo para alcançar algo – e completamos: ainda que provisório e impreterivelmentecondenado à crítica e à refutação (para usar uma palavra do jargão popperiano).O problema estaria em que o empirismo – que os cientistas da informação olham comsuspeição – encontra-se historicamente limitado pela extensão das teorias e pelo avanço dosinstrumentos de aferição em que se hasteia, enquanto que o metafísico (mais do que odialético) pretende especulara além dessas fronteiras tangíveis. Talvez por isso a novaciência – por antítese e síntese dessas contradições – busque novas formulações einstrumentos virtualizados para garantir simulações experimentais (um oxímoro, por quenão?) mais confiáveis. O “virtual” aqui corre por contga de programas e sistemas(inteligência artificial) que criam uma dimensâo de “experiência” que tão “física” quanto“racional” pela natureza de sua virtualidade.O progresso da ciência repousa justamente neste esforço dialético “racionalista x empirista”ou, mais adequadamente, da (nova??!!) relação “racionalista + empirista” (em que a relaçãocontrária também ocorre) que não neutralize ou anule suas contradições já que a ciênciapós-moderna depende destas para evoluir. Sobre o risco da conformidade ou aceitaçãopassiva das contradições, Popper nos ensina: Os dialéticos pretendem que as contradições sejam úteis ou que arrastem o progresso e nós concedemos que isso é exato em certo sentido. Contudo só é exato enquanto estamos decididos a não tolerar qualquer contradição e a alterar toda a teoria que apresente contradições; por outras palavras: uma contradição só é proveitosa enquanto estivermos resolvidos a não aceitar nenhuma contradição. É baseando-se apenas nesta nossa resolução que a crítica, ou seja, a indicação das contradições, nos leva à alteração das nossas teorias e, por meio dela, ao progresso. (Popper, p. 30).AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 9. Não haveria nenhum problema em que a Ciência da Informação se fundamente noempirismo porquanto dele é capaz de extrair as teorias que necessita para explicar, aindaque tentativamente, os fenômenos de sua competência. Parafraseando os dialéticos, emprimeiro lugar estão as formulações e conjecturas que compreenderiam um espíritodogmático (essencial para a sustentabilidade das asserções), evoluindo para umaabordagem cética para, finalmente, culminar no espírito científico, através do métodocrítico, que exige sempre a refutação, a experimentação, a busca de síntese. Comentários finais e conclusões Ainda que seja possível traçar suas origens em manifestações literárias e teóricasmais antigas, parece haver consenso entre os autores quanto ao surgimento da Ciência daInformação, como atividade disciplinar e profissional, em conseqüência do boom científicoposterior à Segunda Guerra Mundial (SARACEVIC, 1999) e intimamente ligada à indústriada informação derivada do controle bibliográfico e dos serviços informacionais montadospara atender à pesquisa e desenvolvimento (P&D). Ou seja, como resultante de umanecessidade social, num contexto social específico: “Addressing the problem ofinformation explosion, information science found a niche within the broader context in theevolution of the information society” (SARACEVIC, 1999, p. 1053).As definições que aparecem na literatura epistemológica da área são mais de naturezaconsuetudinária do que puramente teórica. Ou seja, estão mais relacionadas ao estágio dedesenvolvimento da atividade – e, conseqüentemente de seuas teorias e métodos – do quede uma especulação meramente teoricista. Nas palavras de Poper, estamos diante de umateorização empírica, resultante de um processo de problematização crítica da atividadeprofissional. De fato, as “leis” que animaram a Ciência da Informação em seu estágioembrionário foram formuladas a partir de observações empíricas, logo agrupadas sob adenominação mais genérica de Bibliometria. Problemas como “satisfação de usuários”,“produtividade científica”, “obsoletismo”, “epidemiologia da informação” estão nestacategoria embora, nos últimos tempos, num esforço interdisciplinar, estejamos buscandométodos qualiquantitativos para problemas de informação mais abrangentes e menosestruturais. A definição de Ciência da Informação a seguir é do tipo consuetudinário:AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 10. A ciência da informação, enquanto campo do saber humano, ocupa-se tanto do fluxo da comunicação como de seus atores e dos registros que transportam a informação e o conhecimento. Não estuda a natureza propriamente física ou social da comunicação, nem investiga os estatutos político e antropológico que a fundam, mas identifica sua mecânica processual e as instituições que dela participam, seus produtos, seus especialistas e usuários, as ferramentas e as técnicas de que se utiliza, procurando compreendê-los enquanto componentes do vasto organismo sistêmico que garante ao homem (*3) a satisfação de seu anseio e de sua necessidade de produzir, transformar, utilizar, comunicar, transmitir, enfim, perpetuar o conhecimento (ODDONE, op. cit. p. 84).A Autora tanto é afirmativa em sua definição do que é quanto inclui o que “não é”, no seuentendimento, a Ciência da Informação. A atividade vai impor outras definições, no futuro,consentâneas com os avanços teóricos e técnicos pertinentes. A definição proposta porSaracevic está na mesma perspectiva, com a diferença de que “mapeia” as atividades e suasinterrelações com as novas tecnologias: Information science is a field devoted to scientific enquiry and professional practice addressing the problems of effective communication of knowledge and knowledge records among humans in the context of social, institutional and/or individual uses of and needs for information. In addressing these problems of particular interest is taking as much advantage as possible of the modern information technology. (SARACEVIC, 1995, p. 37).Na acepção popperiana proposta na presente análise, a Ciência da Informação é uma áreade pesquisa típica do Mundo 3, ou seja, de metaciência como atividade que estuda ofenômeno dos registros de conhecimentos e trabalha pelo aperfeiçoamento das formas deprodução, armazenamento e uso (ou seja, de todo o ciclo informacional) do conhecimentoregistrado. Tarefa que divide com outras disciplinas – incluindo a Filosofia da Ciência, aLingüística, Teoria do Conhecimento, etc.mas vem definindo sua área específica de atuaçãode forma objetiva e constante.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 11. Também seria possível afirmar – ainda que sujeito a discussões e aprofundamentos futuros– que a Ciência da Informação tem duas vertentes derivadas do Conhecimento Objetivo naacepção popperiana: a de ser uma atividade teórica e também uma atividade prática,interligadas indissociavelmente. Na acepção prática, de atividade profissional, a Ciência daInformação privilegia o registro do conhecimento conforme os métodos e técnicas ao seualcance, ou seja, fenomenaliza e problematiza a informação sobre a informação e destaatividade prática (empírica) extrai teorias e conceitos que darão base teórica ao avanço dadisciplina nos níveis de pesquisa. Tais teorias funcionam como “asserções sobre aspropriedades estruturais ou relacionais do mundo” (Popper, 1994, p. 17), numa relaçãosimbiótica entre praxis e teoria.As considerações de Nanci Elizabeth Oddone dão o escopo do que pretendemos estudar napresente mesa redonda, ou seja, “Informação, documento, conhecimento: fudamentos docampo disciplina”: A Ciência da Informação não deve restringir seu escopo epistemológico a essa ou aquela atividade profissional – biblioteconomia, arquivologia, museologia – a essa o aquela competência técnia – bibliotecários, arquivistas, museólogos, gestores da informação – a essa ou aquela instituição social – bibliotecas, arquivos, centros de documentação, museus – a essa ou aquela tipologia documental – livros, revistas, discos, manuscritos, filmes, objetos de arte, teses, páginas web – nem a essa ou aquela característica da informação – científica, tecnológica, econômica, jurídica, pedagógica, histórica, médica, política, administrativa, empresarial. Sua preocupação deve, sim, abranger todo o conjunto de atividades, especialistas, organizações, tecnologias, produtos e linguagens que se encontra imerso nesse espaço paradigmático cujo epicentro é a informação. Por extensão – nem tolhida nem limitada ao inventário da realidade material que lhe confere um regimento constituinte – deve buscar sua legitimidade pela incorporação, em seu programa de estudos, de preocupações e análises contextuais, que permitam compreender sua posição estratégica em relação aos produtos da cultura e do saber humanos. (ODDONE, 1998, p. 84).Ou seja, no âmbito do que Popper convencionou chamar de conhecimento objetivo.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 12. Notas(*1) No Brasil, o surgimento do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação –IBBD, em 1954, seguiu a mesma tendência e, de imediato, vierm as nossas bibliografiasespecializadas e os cursos de Documentação Científica para profissionais de diversas áreasdo conhecimento, iniciativas que ajudaram a constituir uma experiência nacional com aCiência da Informação que surgia e se consolidava no Novo e no Velho Mundo, processoque merece um estudo mais aprofundado.(*2) Nos últimos tempos, os cientistas da informação não apenas centram seu interesse nosproblemas da documentação científica, mas também em documentos de qualquer origem,não apenas relacionados com a comunidade científica e instituições acadêmicas ecientíficas como também com toda e qualquer fonte produtora de registros deconhecimentos, científicos ou não, questão que vem preocupando os especialistas. Nãoapenas estuda, por exemplo - como era de praxe-, colégios invisíveis de grupos de cientistascomo também o processo de difusão do conhecimento em comunidades carentes, emgrupos de risco, em toda e qualquer processo de comunicação e a legitimação de taisestudos no âmbito da Ciência da Informação não se dá mais pelo foco na produçãocientífica que lhe deu origem, mas na metodologia científica que lhe da sustentabilidade.(*3) Acrescentamos “ao homem e à mulher” como se exige, agora, para ser politicamentecorreto. Referências Bibliográficas 1. LE COADIC, Yves-François. A ciência da informação. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 1996. 122 p. 2. MIKHAILOV, A .I.; CHERNYI, A .I.; GILJAREVSKYI, R. S. “Estrutura e principais propriedades da informação científica (a propósito do escopo da informática)”. In: CIÊNCIA da Informação ou Informática?, org. e trad. de Hagar Espanha Gomes. Rio de Janeiro: Calunga, 1980. P. 71-89. 3. ODDONE, Nanci Elizabeth. Atividade editorial & Ciência da Informação; convergência epistemológica. Dissertação (mestrado em ciência da informação e documentação) Departamento de Ciência da Informação da Universidade de Brasília, 226 p. Brasília,1998. 4. PINHEIRO, Lena Vânia Ribeiro; LOUREIRO, José Mauro Matheus. Traçados e limites da ciência da informação. Ciência da Informação, v. 24, n. 1, p. 42-53, jan./abril 1995.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.
  • 13. 5. POPPER, Karl Raymond. Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. 394 p. (Espírito de Nosso Tempo. V. 13) 6. POPPER, Karl Raymond. O racionalismo crítico na política. 2ª ed. Brasília: Editora da Universidade Brasília, 1994. 74 p. 7. SARACEVIC, Tefko. Interdisciplinary nature of information science. Ciência da Informação, v. 24, n. 1, p. 36-41, jan./abril 1995. 8. WERSIG, G.; NEVELING, U. The phenomena of interest to information science. Information scientist, n. 9, p. 127-140, 1975.AQUINO, Mirian de Albuquerque. O Campo da Ciência da Informação: gênese, conexões eespecificidade. João Pessoa: Editora Universitária/ UFPB, 2002 p.9-24.

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