Boaventura
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  • 1. Um discurso sobre as Ciênciasna transição para umaciência pós-modernaBoaventura de Sousa SantosEstamos a doze anos do final do século uma sociedade de comunicação eXX. Vivemos num tempo atônito que ao interativa libertada das carências edebruçar-se sobre si próprio descobre inseguranças que ainda hoje compõemque os seus pés são um cruzamento de os dias de muitos de nós: o século XXIsombras, sombras que vêm do passado a começar antes de começar. Por outroque ora pensamos já não sermos, ora lado, uma reflexão cada vez maispensamos não termos ainda deixado de aprofundada sobre os limites do rigorser, sombras que vêm do futuro que ora científico combinada com os perigospensamos já sermos, ora pensamos nunca cada vez mais verossímeis da catástrofevirmos a ser. Quando, ao procurarmos ecológica ou da guerra nuclear fazem-nosanalisar a situação presente das ciências temer que o século XXI termine antes deno seu conjunto, olhamos para o passado começar.a primeira imagem é talvez a de que osprogressos científicos dos últimos trinta Recorrendo à teoria sinergética do físicoanos são de tal ordem dramáticos que os teórico Hermann Haken, podemos dizerséculos que nos precederam — desde o que vivemos num sistema visual muitoséculo XVI, onde todos nós, cientistas instável em que a mínima flutuação damodernos, nascemos, até ao próprio nossa percepção visual provoca rupturasséculo XIX — não são mais que uma na simetria do que vemos. Assim, olhandopré-história longínqua. Mas se fecharmos a mesma figura, ora vemos um vasoos olhos e os voltarmos a abrir, grego branco recortado sobre um fundoverificamos com surpresa que os grandes preto, ora vemos dois rostos gregos decientistas que estabeleceram e perfil, frente a frente, recortados sobremapearam o campo teórico em que ainda um fundo branco. Qual das imagens éhoje nos movemos viveram ou verdadeira? Ambas e nenhuma. É estatrabalharam entre o século XVIII e os a ambigüidade e a complexidade daprimeiros vinte anos do século XX, de situação do tempo presente, um tempoAdam Smith e Ricardo a Lavoisier e de transição, síncrone com muita coisaDarwin, de Marx e Durkheim a Max que está além ou aquém dele, masWeber e Pareto, de Humboldt e Planck descompassado em relação a tudo oa Poincaré e Einstein. E de tal modo é que o habita.assim que é possível dizer que emtermos científicos vivemos ainda no Tal como noutros períodos de transição,século XIX e que o século XX ainda não difíceis de entender e de percorrer, écomeçou, nem talvez comece antes de necessário voltar às coisas simples, àterminar. E se, em vez de no passado, capacidade de formular perguntas simples,centrarmos o nosso olhar no futuro, do perguntas que, como Einstein costumavamesmo modo duas imagens contraditórias dizer, só uma criança pode fazer mas que,nos ocorrem alternadamente. Por um depois de feitas, são capazes de trazerlado, as potencialidades da tradução uma luz nova à nossa perplexidade.tecnológica dos conhecimentos Tenho comigo uma criança que háacumulados fazem-nos crer no limiar de precisamente duzentos e trinta e oito* A visita do prof. Boaventura contou com o apoio da FAPESP. As reflexões epistemológicas deste texto estão tratadas com maior amplitude no livro Introdução a uma Ciência Pós-Moderna, a ser publicado pela Editora Graal.
  • 2. anos fez algumas perguntas simples Contudo, não o somos, em 1988, dosobre as ciências e os cientistas. Fê-las mesmo modo que o éramos há quinze ouno início de um ciclo de produção vinte anos. Por razões que alinho adiante,científica que muitos de nós julgam estamos de novo perplexos, perdemos aestar agora a chegar ao fim. Essa criança confiança epistemológica; instalou-se emé Jean-Jacques Rousseau. No seu célebre nós uma sensação de perda irreparávelDiscours sur les Sciences et les Arts (1750) tanto mais estranha quanto não sabemosRousseau formula várias questões ao certo o que estamos em vias de perder;enquanto responde à que, também admitimos mesmo, noutros momentos,razoavelmente infantil, lhe fora posta que essa sensação de perda seja apenas apela Academia de Dijon1. Esta última cortina de medo atrás da qual sequestão rezava assim: o progresso das escondem as novas abundancias da nossaciências e das artes contribuirá para vida individual e coletiva. Mas mesmopurificar ou para corromper os nossos aí volta a perplexidade de não sabermoscostumes? Trata-se de uma pergunta o que abundará em nós nessa abundância.elementar, ao mesmo tempo profunda efácil de entender. Para lhe dar resposta - Daí a ambigüidade e complexidade dodo modo eloqüente que lhe mereceu o tempo científico presente a que comeceiprimeiro prêmio e algumas inimizades - por aludir. Daí também a idéia, hojeRousseau fez as seguintes perguntas não partilhada por muitos, de estarmosmenos elementares: há alguma relação numa fase de transição. Daí finalmenteentre a ciência e a virtude? Há alguma a urgência de dar resposta a perguntasrazão de peso para substituirmos o simples, elementares, inteligíveis. Umaconhecimento vulgar que temos da pergunta elementar é uma pergunta quenatureza e da vida e que partilhamos atinge o magma mais profundo da nossacom os homens e mulheres de nossa perplexidade individual e coletiva comsociedade pelo conhecimento científico a transparência técnica de uma fisga.produzido por poucos e inacessível à Foram assim as perguntas de Rousseau;maioria? Contribuirá a ciência para terão de ser assim as nossas. Mais do quediminuir o fosso crescente na nossa isso, duzentos e tal anos depois, as nossassociedade entre o que se é e o que se perguntas continuam a ser as de Rousseau.aparenta ser, o saber dizer e o saber Estamos de novo regressados àfazer, entre a teoria e a prática? Perguntas necessidade de perguntar pelas relaçõessimples a que Rousseau responde, de entre a ciência e a virtude, pelo valor domodo igualmente simples, com um conhecimento dito ordinário ou vulgarredondo não. que nós, sujeitos individuais ou coletivos, criamos e usamos para darEstávamos então em meados do século sentido às nossas práticas e que a ciênciaXVIII, numa altura em que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusóriomoderna, saída da revolução científica do e falso; e temos finalmente de perguntarséculo XVI pelas mãos de Copérnico, pelo papel de todo o conhecimentoGalileu e Newton, começava a deixar os científico acumulado no enriquecimentocálculos esotéricos dos seus cultores para ou no empobrecimento prático das nossasse transformar no fermento de uma vidas, ou seja, pelo contributo positivotransformação técnica e social sem ou negativo da ciência para a nossaprecedentes na história da humanidade. felicidade. A nossa diferença existencialUma fase de transição, pois, que deixava em relação a Rousseau é que, se as nossasperplexos os espíritos mais atentos e os perguntas são simples, as respostasfazia refletir sobre os fundamentos da sê-lo-ão muito menos. Estamos no fim desociedade em que viviam e sobre o um ciclo de hegemonia de uma certaimpacto das vibrações a que eles iam ser ordem científica. As condiçõessujeitos por via da ordem científica epistêmicas das nossas perguntas estãoemergente. Hoje, duzentos anos volvidos, inscritas no avesso dos conceitos quesomos todos protagonistas e produtos utilizamos para lhes dar resposta. Édessa nova ordem, testemunhos vivos das necessário um esforço de desvendamentotransformações que ela produziu. conduzido sobre um fio de navalha entrel Jean-Jacques Rousseau, Discours sur les Sciences et les Arts, in Oeuvres Completes, vol. 2, Paris, Seuil, 1971, p. 52 e segs.
  • 3. a lucidez e a ininteligibilidade da resposta. basicamente no domínio das ciênciasSão igualmente diferentes e muito mais naturais. Ainda que com algunscomplexas as condições sociológicas e prenúncios no século XVIII, é só nopsicológicas do nosso perguntar. É século XIX que este modelo demuito diferente perguntar pela utilidade racionalidade se estende às ciências sociaisou pela felicidade que o automóvel emergentes. A partir de então podeme pode proporcionar se a pergunta é falar-se de um modelo global defeita quando ninguém na minha racionalidade científica que admitevizinhança tem automóvel, quando toda variedade interna mas que se distingue ea gente tem exceto eu ou quando eu defende, por via de fronteiras ostensivas epróprio tenho carro há mais de vinte ostensivamente policiadas, de duas formasanos. de conhecimento não-científico (e, portanto, irracional) potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum eTeremos forçosamente de ser mais as chamadas humanidades ou estudosrousseaunianos no perguntar do que no humanísticos (em que se incluíram, entreresponder. Começarei por caracterizar outros, os estudos históricos, filológicos,sucintamente a ordem cientifica jurídicos, literários, filosóficos ehegemônica. Analisarei depois os sinais teológicos).da crise dessa hegemonia, distinguindoentre as condições teóricas e as condiçõessociológicas da crise. Finalmente Sendo um modelo global, a novaespecularei sobre o perfil de uma nova racionalidade científica é também umordem científica emergente, distinguindo modelo totalitário, na medida em quede novo entre as condições teóricas e as nega o caráter racional a todas as formascondições sociológicas da sua de conhecimento que se não pautarememergência. Este percurso analítico será pelos seus princípios epistemológicos ebalizado pelas seguintes hipóteses de pelas suas regras metodológicas. É estatrabalho: primeiro, começa a deixar de a sua característica fundamental e a quefazer sentido a distinção entre ciências melhor simboliza a ruptura do novonaturais e ciências sociais; segundo, a paradigma científico com os que osíntese que há que operar entre elas tem precedem. Está consubstanciada, comcomo pólo catalisador as ciências crescente definição, na teoria heliocéntricasociais; terceiro, para isso, as ciências do movimento dos planetas de Copérnico,sociais terão de recusar todas as formas nas leis de Kepler sobre as órbitas dosde positivismo lógico ou empírico ou planetas, nas leis de Galileu sobre a quedade mecanicismo materialista ou dos corpos, na grande síntese da ordemidealista com a conseqüente revalorização cósmica de Newton e finalmente nado que se convencionou chamar consciência filosófica que lhe conferemhumanidades ou estudos humanísticos; Bacon e sobretudo Descartes. Estaquarto, esta síntese não visa uma ciência preocupação em testemunhar umaunificada nem sequer uma teoria geral, ruptura fundante que possibilita uma e sómas tão-só um conjunto de galerias uma forma de conhecimento verdadeirotemáticas onde convergem linhas de água está bem patente na atitude mental dosque até agora concebemos como protagonistas, no seu espanto perante asobjetos teóricos estanques; quinto, à próprias descobertas e a extrema e aomedida que se der esta síntese, a distinção mesmo tempo serena arrogância comhierárquica entre conhecimento científico que se medem com os seuse conhecimento vulgar tenderá a O modelo de contemporâneos. Para citar apenas dois racionalidade quedesaparecer e a prática será o fazer e o exemplos, Kepler escreve no seu livrodizer da filosofia da prática. preside à ciência sobre a Harmonia do Mundo publicado moderna constituiu-se a em 1619, a propósito das harmonias partir da revoluçãoO Paradigma Dominante naturais que descobrira nos movimentos científica do século celestiais: "Perdoai-me mas estou feliz; XVI e foi desenvolvidoO modelo de racionalidade que preside à se vos zangardes eu perseverarei; (...) nos séculos seguintesciência moderna constituiu-se a partir da O meu livro pode esperar muitos séculos basicamente norevolução científica do século XVI e foi pelo seu leitor. Mas mesmo Deus teve de domínio das ciênciasdesenvolvido nos séculos seguintes esperar seis mil anos por aqueles que naturais.
  • 4. pudessem contemplar o seu trabalho"2. distinções fundamentais, entrePor outro lado, Descartes, nessa conhecimento científico emaravilhosa autobiografia espiritual que conhecimento do senso comum, poré o Discurso do Método e a que voltarei um lado, e entre natureza e pessoamais tarde, diz, referindo-se ao método humana, por outro. Ao contrário dapor si encontrado: "Porque já colhi dele ciência aristotélica, a ciência modernatais frutos que embora no juízo que faço desconfia sistematicamente dasde mim próprio procure sempre evidências da nossa experiência imediata.inclinar-me mais para o lado da Tais evidências, que estão na base dodesconfiança do que para o da presunção, conhecimento vulgar, são ilusórias. Comoe embora, olhando com olhar de bem salienta Einstein no prefácio aofilósofo as diversas ações e Diálogo sobre os Grandes Sistemas doempreendimentos de todos os homens, Mundo, Galileu esforça-se denodadamentenão haja quase nenhuma que não me por demonstrar que a hipótese dospareça vã e inútil, não deixo de receber movimentos de rotação e de translaçãouma extrema satisfação com o da terra não é refutada pelo fato deprogresso que julgo ter feito em busca não observarmos quaisquer efeitosda verdade e de conceber tais esperanças mecânicos desses movimentos, ou seja,para o futuro que, se entre as ocupações pelo fato de a terra nos parecer parada edos homens, puramente homens, alguma quieta 5 . Por outro lado, é total ahá que seja solidamente boa e importante, separação entre a natureza e o serouso crer que é aquela que escolhi".3 humano. A natureza é tão-só extensão e movimento; é passiva, eterna e reversível,Para compreender esta confiança mecanismos cujos elementos se podemepistemológica é necessário descrever, desmontar e depois relacionar sob aainda que sucintamente, os principais forma de leis; não tem qualquer outratraços do novo paradigma científico. qualidade ou dignidade que nos impeçaCientes de que o que os separa do saber de desvendar os seus mistérios,aristotélico e medieval ainda dominante desvendamento que não é contemplativo,não é apenas nem tanto uma melhor mas antes ativo, já que visa conhecer aobservação dos fatos como sobretudo natureza para a dominar e controlar.uma nova visão do mundo e da vida, Como diz Bacon, a ciência fará da pessoaos protagonistas do novo paradigma humana" o senhor e o possuidor daconduzem uma luta apaixonada contra natureza" 6 .todas as formas de dogmatismo e deautoridade. O caso de Galileu é Com base nestes pressupostos oparticularmente exemplar, e é ainda conhecimento científico avança pelaDescartes que afirma: "Eu não podia observação descomprometida e livre,escolher ninguém cujas opiniões me sistemática e tanto quanto possívelparecessem dever ser preferidas às dos rigorosa dos fenômenos naturais. Ooutros, e encontrava-me como que Novum Organum opõe a incerteza daobrigado a procurar conduzir-me a razão entregue a si mesma à certeza damim próprio" 4 . Esta nova visão do experiência ordenada 7 . Ao contrário domundo e da vida reconduz-se a duas que pensa Bacon, a experiência não2 Consultada a edição alemã (introdução e tradução de Max Caspar), Johannes Kepler, Welt-Harmonik. Munique, Verlag Oldenbourg, 1939, p. 280.3 Descartes, Discurso do Método e as Paixões da Alma. Lisboa, Sá da Costa, 1984, p. 6.4 Descartes, ob. cit.,p. 16.5 Einstein in Galileu, Dialogue Concerning the Two Chief World Systems. Berkeley, University of California Press, 1970, p. xviii.6 Consultada a edição espanhola (preparada e traduzida por Gallach Palés), F. Bacon, Novum Organum. Madrid, Nueva Biblioteca Filosófica, 1933. Para Bacon "a senda que conduz o homem ao poder e a que o conduz à ciência estão muito próximas, sendo quase a mesma" (p. 110). Se o objetivo da ciência é dominar a natureza não é menos verdade que "só podemos vencer a natureza obedecendo-lhe" (p. 6, grifo meu), o que nem sempre tem sido devidamente salientado nas interpretações da teoria de Bacon sobre a ciência.7 Cf. A. Koyré, Considerações sobre Descartes. Lisboa, Presença, 1981, p. 30.
  • 5. dispensa a teoria prévia, o pensamento pelo rigor das medições. As qualidadesdedutivo ou mesmo a especulação, mas intrínsecas do objeto são, por assimforça qualquer deles a não dispensarem, dizer, desqualificadas e em seu lugarenquanto instância de confirmação passam a imperar as quantidades em queúltima, a observação dos fatos. Galileu eventualmente se podem traduzir. Osó refuta as deduções de Aristóteles na que não é quantificável é cientificamentemedida em que as acha insustentáveis e é irrelevante. Em segundo lugar, o métodoainda Einstein quem nos chama a atenção científico assenta na redução dapara o fato de os métodos experimentais complexidade. O mundo é complicadode Galileu serem tão imperfeitos que só e a mente humana não o podepor via de especulações ousadas poderia compreender completamente. Conhecerpreencher as lacunas entre os dados significa dividir e classificar para depoisempíricos (basta recordar que não havia poder determinar relações sistemáticasmedições de tempo inferiores ao entre o que se separou. Já em Descartessegundo)8. Descartes, por seu turno, uma das regras do Método consistevai inequivocamente das idéias para as precisamente em "dividir cada uma dascoisas e não das coisas para as idéias e dificuldades . . . em tantas parcelasestabelece a prioridade da metafísica quanto for possível e requerido paraenquanto fundamento último da ciência. melhor as resolver" 11 . A divisão primordial é a que distingue entreAs idéias que presidem à observação e à "condições iniciais" e "leis da natureza".experimentação são as idéias claras e As condições iniciais são o reino dasimples a partir das quais se pode complicação, do acidente e onde éascender a um conhecimento mais necessário selecionar as que estabelecemprofundo e rigoroso da natureza. Essas as condições relevantes dos fatos aidéias são as idéias matemáticas. A observar; as leis da natureza são o reinomatemática fornece à ciência moderna, da simplicidade e da regularidade onde énão só o instrumento privilegiado de possível observar e medir com rigor.análise, como também a lógica da Esta distinção entre condições iniciais einvestigação, como ainda o modelo de leis da natureza nada tem de "natural".representação da própria estrutura da Como bem observa Eugene Wigner, ématéria. Para Galileu, o livro da mesmo completamente arbitrária 12 . Nonatureza está inscrito em caracteres entanto, é nela que assenta toda a ciênciageométricos9 e Einstein não pensa de moderna.modo diferente 10 . Deste lugar centralda matemática na ciência moderna A natureza teórica do conhecimentoderivam duas conseqüências principais. científico decorre dos pressupostosEm primeiro lugar, conhecer significa epistemológicos e das regrasquantificar. O rigor científico afere-se metodológicas já referidas. É um 8 Einstein, ob. cit., p. XIX. 9 Entre muitos outros passos do Diálogo sobre os Grandes Sistemas, cf. a seguinte fala de Salviati: "No que respeita à compreensão intensiva e na medida em que este termo denota a compreensão perfeita de alguma proposição, digo que a inteligência humana compreende algumas delas perfeitamente, e que, portanto, a respeito delas tem uma certeza tão absoluta quanto a própria natureza. Tais são as proposições das ciências matemáticas, isto é, da geometria e da aritmética nas quais a inteligência divina conhece infinitamente mais proposições porque as conhece todas. Mas no que respeita àquelas poucas que a inteligência humana compreende, penso que o seu conhecimento é igual ao Divino em certeza objetiva porque, nesses casos, consegue compreender a necessidade para além da qual não há maior certeza". Galileu, ob. cit., p. 103.10 A admiração de Einstein por Galileu está bem expressa no prefácio referido na nota 5. O modo radical (e instintivo) como Einstein "vê" a natureza matemática da estrutura da matéria explica em parte a sua longa batalha sobre a interpretação da mecânica quântica (especialmente contra a interpretação de Copenhague). Cf. B. Hoffmann, Albert Einstein, Creator and Rebel, Nova Iorque, New A merican Library, 19 73, p. 173 e segs.11 Descartes, ob. cit., p. 1 7.12 E. Wigner, Symmetries and Reflections. Scientific Essays. Cambridge, Cambridge University Press, 19 70, p. 3.
  • 6. conhecimento causal que aspira à no futuro. Segundo a mecânica formulação de leis, à luz de regularidades newtoniana, o mundo da matéria é uma observadas, com vista a prever o máquina cujas operações se podem comportamento futuro dos fenômenos. determinar exatamente por meio de leis A descoberta das leis da natureza assenta, físicas e matemáticas, um mundo por um lado, e como já se referiu, no estático e eterno a flutuar num espaço isolamento das condições iniciais vazio, um mundo que o racionalismo relevantes (por exemplo, no caso da cartesiano toma cognoscível por via da queda dos corpos, a posição inicial e a sua decomposição nos elementos que o velocidade do corpo em queda) e, por constituem. Esta idéia do mundo-máquina outro lado, no pressuposto de que o é de tal modo poderosa que se vai resultado se produzirá independentemente transformar na grande hipótese universal do lugar e do tempo em que se realizarem da época moderna, o mecanicismo. Pode as condições iniciais. Por outras palavras, parecer surpreendente e até paradoxal a descoberta das leis da natureza assenta que uma forma de conhecimento, assente no princípio de que a posição absoluta numa tal visão do mundo, tenha vindo e o tempo absoluto nunca são condições a constituir um dos pilares da idéia de iniciais relevantes. Este principio é, progresso que ganha corpo no segundo Wigner, o mais importante pensamento europeu a partir do século teorema da invariância na física XVIII e que é o grande sinal intelectual clássica 13 . da ascensão da burguesia 14. Mas a verdade é que a ordem e a estabilidade do As leis, enquanto categorias de mundo são a pré-condição da inteligibilidade, repousam num conceito transformação tecnológica do real. de causalidade escolhido, não arbitrariamente, entre os oferecidos pela O determinismo mecanicista é o física aristotélica. Aristóteles distingue horizonte certo de uma forma de quatro tipos de causa: a causa material, a conhecimento que se pretende utilitário causa formal, a causa eficiente e a causa e funcional, reconhecido menos pela final. As leis da ciência moderna são um capacidade de compreender O determinismo tipo de causa formal que privilegia o profundamente o real do que pela . mecanicista é o como funciona das coisas em detrimento capacidade de o dominar e transformar. horizonte certo dede qual o agente ou qual o fim das coisas. No plano social, é esse também o uma forma de É por esta via que o conhecimento horizonte cognitivo mais adequado aos conhecimento que se científico rompe com o conhecimento do interesses da burguesia ascendente que pretende utilitário senso comum. É que, enquanto no via na sociedade em que começava a e funcional, senso comum, e portanto no dominar o estádio final da evolução da reconhecido menos conhecimento prático em que ele se humanidade (o estado positivo de pela capacidade detraduz, a causa e a intenção convivem Comte; a sociedade industrial de Spencer; compreender sem problemas, na ciência a determinação a solidariedade orgânica de Durkheim). profundamente o da causa formal obtém-se com a expulsão Daí que o prestígio de Newton e das real do que pela da intenção. É este tipo de causa formal leis simples a que reduzia toda a capacidade de oque permite prever e, portanto, intervir complexidade da ordem cósmica tenham dominar e transformar. no real e que, em última instância, convertido a ciência moderna no modelo No plano social, é essepermite à ciência moderna responder à de racionalidade hegemônica que a pouco também e horizonte pergunta sobre os fundamentos do seu e pouco transbordou do estudo da cognitivo mais rigor e da sua verdade com o elenco dos natureza para o estudo da sociedade. Tal adequado aosseus êxitos na manipulação e na como foi possível descobrir as leis da interesses da burguesiatransformação do real. natureza, seria igualmente possível ascendente que via na descobrir as leis da sociedade. Bacon, sociedade em que Um conhecimento baseado na formulação Vico e Montesquieu são os grandes começava a dominar de leis tem como pressuposto metateórico precursores. Bacon afirma a plasticidade o estádio final da a idéia de ordem e de estabilidade do da natureza humana e, portanto, a suaevolução da humanidade mundo, a idéia de que o passado se repete perfectibilidade, dadas as condições 13 E. Wigner, ob. cit., p. 226. 14 Cf., entre muitos, S. Pollard, The Idea of Progress. Londres, Penguin, 1971, p. 39.
  • 7. sociais, jurídicas e políticas adequadas, liberta dele, e qualquer delascondições que é possível determinar com reivindicando o monopólio dorigor15. Viço sugere a existência de leis conhecimento científico-social.que governam deterministicamente a Apresentarei adiante uma interpretaçãoevolução das sociedades e tornam possível diferente, mas para já caracterizareiprever os resultados das ações coletivas. sucintamente cada uma destas variantes.Com extraordinária premonição Vicoidentifica e resolve a contradição entre a A primeira variante — cujo compromissoliberdade e a imprevisibilidade da ação epistemológico está bem simbolizado nohumana individual e a determinação e nome de "física social" com queprevisibilidade da ação coletiva16. inicialmente se designaram os estudosMontesquieu pode ser considerado um científicos da sociedade — parte doprecursor da sociologia do direito ao pressuposto que as ciências naturais sãoestabelecer a relação entre as leis do uma aplicação ou concretização de umsistema jurídico, feitas pelo homem, e as modelo de conhecimento universalmenteleis inescapáveis da natureza17. válido e, de resto, o único válido. Portanto, por maiores que sejam asNo século XVIII este espírito precursor diferenças entre os fenômenos naturais eé ampliado e aprofundado e o fermento os fenômenos sociais é sempre possívelintelectual que daí resulta, as luzes, vai estudar os últimos como se fossem oscriar as condições para a emergência das primeiros. Reconhece-se que essasciências sociais no século XIX. A diferenças atuam contra os fenômenosconsciência filosófica da ciência moderna, sociais, ou seja, tornam mais difícil oque tivera no racionalismo cartesiano e no cumprimento do cânoneempirismo baconiano as suas primeiras metodológico e menos rigoroso oformulações, veio a condensar-se no conhecimento a que se chega, mas nãopositivismo oitocentista. Dado que, há diferenças qualitativas entre osegundo este, só há duas formas de processo científico neste domínio e oconhecimento científico — as disciplinas que preside ao estudo dos fenômenosformais da lógica e da matemática e as naturais. Para estudar os fenômenosciências empíricas segundo o modelo sociais como se fossem fenômenosmecanicista das ciências naturais — as naturais, ou seja, para conceber osciências sociais nasceram para ser fatos sociais, como coisas, comoempíricas. O modo como o modelo pretendia Durkheim18, o fundador damecanicista foi assumido foi, no entanto, sociologia acadêmica, é necessáriodiverso. Distingo duas vertentes reduzir os fatos sociais às suasprincipais: a primeira, sem dúvida dimensões externas, observáveis edominante, consistiu em aplicar, na mensuráveis. As causas do aumento damedida do possível, ao estudo da taxa de suicídio na Europa do virar dosociedade todos os princípios século não são procuradas nos motivosepistemológicos e metodológicos que invocados pelos suicidas e deixados empresidiam ao estudo da natureza desde o cartas, como é costume, mas antes aséculo XVI; a segunda, durante muito partir da verificação de regularidades emtempo marginal mas hoje cada vez mais função de condições tais como o sexo,seguida, consistiu em reivindicar para as o estado civil, a existência ou não deciências sociais um estatuto filhos, a religião dos suicidas19.epistemológico e metodológico próprio,com base na especificidade do ser Porque essa redução nem sempre é fácilhumano e sua distinção polar em relação e nem sempre se consegue sem distorcerà natureza. Estas duas concepções têm grosseiramente os fatos ou sem ossido consideradas antagônicas, a primeira, reduzir à quase irrelevância, as ciênciassujeita ao jugo positivista, a segunda, sociais têm um longo caminho a percorrer15 Bacon, ob. cit.16 Vico, Scienza Nuova, in Opere. Milão Riccardi, 1953. 17 Montesquieu, LEsprit des Lois. Paris, Les Belles-Lettres, 1950.1819 E. Durkheim, As Regras do Método Sociológico. Lisboa, Presença, 1980. E. Durkheim, O Suicídio. Lisboa, Presença, 1973.
  • 8. no sentido de se compatibilizarem com os sim, paradigmáticas. Enquanto, nascritérios de cientificidade das ciências ciências naturais, o desenvolvimentonaturais. Os obstáculos são enormes mas do conhecimento tornou possível anão são insuperáveis. Ernest Nagel, em formulação de um conjunto deThe Structure of Science, simboliza bem princípios e de teorias sobre a estruturao esforço desenvolvido nesta variante da matéria que são aceites sempara identificar os obstáculos e apontar discussão por toda a comunidadeas vias da sua superação. Eis alguns dos científica, conjunto esse que designaprincipais obstáculos: as ciências sociais por paradigma, nas ciências sociais nãonão dispõem de teorias explicativas há consenso paradigmático, pelo que oque lhes permitam abstrair do real para debate tende a atravessar verticalmentedepois buscar nele, de modo toda a espessura do conhecimentometodológicamente controlado, a prova adquirido. O esforço e o desperdícioadequada; as ciências sociais não podem que isso acarreta é simultaneamenteestabelecer leis universais porque os causa e efeito do atraso das ciênciasfenômenos sociais são historicamente sociais.condicionados e culturalmentedeterminados; as ciências sociais não A segunda vertente reivindica para aspodem produzir previsões fiáveis porque ciências sociais um estatuto metodológicoos seres humanos modificam o seu próprio. Os obstáculos que há poucocomportamento em função do enunciei são, segundo esta vertente,conhecimento que sobre ele se adquire; intransponíveis. Para alguns, éos fenômenos sociais são de natureza a própria idéia de ciência da sociedadesubjetiva e como tal não se deixam que está em causa, para outros trata-secaptar pela objetividade do tão-só de empreender uma ciênciacomportamento; as ciências sociais não diferente. O argumento fundamental ésão objetivas porque o cientista social que a ação humana é radicalmentenão pode libertar-se, no ato de subjetiva. O comportamento humano,observação, dos valores que informam ao contrário dos fenômenos naturais,a sua prática em geral e, portanto, não pode ser descrito e muito menostambém a sua prática de cientista 20 . explicado com base nas suas características exteriores e objetiváveis,Em relação a cada um destes obstáculos, uma vez que o mesmo ato externoNagel tenta demonstrar que a oposição pode corresponder a sentidos de açãoentre as ciências sociais e as ciências muito diferentes. A ciência social seránaturais não é tão linear quanto se sempre uma ciência subjetiva e nãojulga e que, na medida em que há objetiva como as ciências naturais;diferenças, elas são superáveis ou tem de compreender os fenômenosnegligenciáveis. Reconhece, no entanto, sociais a partir das atitudes mentais e doque a superação dos obstáculos nem sentido que os agentes conferem às suassempre é fácil e que essa é a razão ações, para o que é necessário utilizarprincipal do atraso das ciências sociais métodos de investigação e mesmoem relação às ciências naturais. A idéia critérios epistemológicos diferentes dosdo atraso das ciências sociais é a idéia correntes nas ciências naturais, métodoscentral da argumentação metodológica qualitativos em vez de quantitativos, comnesta variante, e, com ela, a idéia de que vista à obtenção de um conhecimentoesse atraso, com tempo e dinheiro, intersubjetivo, descritivo e compreensivo,poderá vir a ser reduzido ou mesmo em vez de um conhecimento objetivo,eliminado. explicativo e nomotético.Na teoria das revoluções científicas de Esta concepção de ciência socialThomas Kuhn o atraso das ciências reconhece-se numa postura antipositivistasociais é dado pelo caráter e assenta na tradição filosófica dapré-paradigmático destas ciências, ao fenomenologia e nela convergemcontrário das ciências naturais, essas diferentes variantes, desde as mais20 Ernest Nagel, The Structure of Science. Problems in the Logic of Scientific Explanation. Nova Iorque, Harcourt, Brace & World, 1961, p. 447 e segs.
  • 9. moderadas (como a de Max Weber)21 até pode afirmar com segurança que às mais extremistas (como a de colapsarão as distinções básicas em quePeter Winch)22. Contudo, numa reflexão assenta o paradigma dominante e a que mais aprofundada, esta concepção, tal aludi na seção precedente. como tem vindo a ser elaborada, revela-se A crise do paradigma dominante é o mais subsidiária do modelo de resultado interativo de uma pluralidade racionalidade das ciências naturais do de condições. Distingo entre condições que parece. Partilha com este modelo a sociais e condições teóricas. Darei maisdistinção natureza/ser humano e tal atenção às condições teóricas e por elascomo ele tem da natureza uma visão começo. A primeira observação, que •mecanicista à qual contrapõe, com não é tão trivial quanto parece, é que aevidência esperada, a especificidade do identificação dos limites, dasser humano. A esta distinção, primordial insuficiências estruturais do paradigmana revolução científica do século XVI, científico moderno é o resultado dovão-se sobrepor nos séculos seguintes grande avanço no conhecimento queoutras, tal como a distinção natureza/ ele propiciou. O aprofundamento docultura e a distinção ser humano/ conhecimento permitiu ver a fragilidadeanimal, para no século XVIII se poder dos pilares em que se funda.celebrar o caráter único de serhumano. A fronteira que então se Einstein constitui o primeiro romboestabelece entre o estudo do ser humano no paradigma da ciência moderna, ume o estudo da natureza não deixa de ser rombo, aliás, mais importante do que oprisioneira do reconhecimento da que Einstein foi subjetivamente capazprioridade cognitiva das ciências naturais, de admitir. Um dos pensamentos maispois, se, por um lado, se recusam os profundos de Einstein é o da condicionantes biológicos do relatividade da simultaneidade. Einsteincomportamento humano, pelo outro distingue entre a simultaneidade deusam-se argumentos biológicos para acontecimentos presentes no mesmo lugarfixar a especificidade do ser humano. e a simultaneidade de acontecimentosPode, pois, concluir-se que ambas as distantes, em particular de acontecimentosconcepções de ciência social a que separados por distâncias astronômicas.aludi pertencem ao paradigma da Em relação a estes últimos, o problemaciência moderna, ainda que a concepção lógico a resolver é o seguinte: como émencionada em segundo lugar represente, que o observador estabelece a ordem A crise do paradigma dentro deste paradigma, um sinal de temporal de acontecimentos no espaço? Certamente por medições da dominante é o crise e contenha alguns dos componentes resultado interativo de da transição para um outro paradigma velocidade da luz, partindo do pressuposto, que é fundamental à uma pluralidade decientífico. condições. Distingo teoria de Einstein, que não há na natureza velocidade superior à da luz. No entre condições sociaisA Crise do Paradigma Dominante e condições entanto, ao medir a velocidade numaSão hoje muitos e fortes os sinais de que direção única (de A a B), Einstein teóricas. ( . . . )o modelo de racionalidade científica defronta-se com um círculo vicioso: a fim a identificação dosque acabo de descrever em alguns dos de determinar a simultaneidade dos limites, dasseus traços principais atravessa uma acontecimentos distantes é necessário insuficiênciasprofunda crise. Defenderei nesta seção: . conhecer a velocidade; mas para estruturais doprimeiro, que essa crise é não só medir a velocidade é necessário paradigma científicoprofunda como irreversível; segundo, que conhecer a simultaneidade dos moderno é o resultadoestamos a viver um período de revolução acontecimentos. Com um golpe de do grande avanço nocientífica que se iniciou com Einstein e a gênio, Einstein rompe com este conhecimento quemecânica quântica e não se sabe ainda círculo, demonstrando que a ele propiciou. Oquando acabará; terceiro, que os sinais simultaneidade de acontecimentos aprofundamento donos permitem tão-só .especular acerca.do distantes não pode ser verificada, conhecimento permitiuparadigma que emergirá deste período pode tão-só ser definida. É, portanto, ver a fragilidade dosrevolucionário mas que, desde já, se arbitrária e daí que, como salienta pilares em que se funda.21 Max Weber, Methodologischen Schriften. Frankfurt, Fischer, 1968.22 Peter Winch, The Idea of a Social Science and its Relation to Philosophy. Londres, Routledge e Kegan Paul, 1970.
  • 10. Reichenbach, quando fazemos princípio da incerteza de Heisenberg: nãomedições não pode haver contradições se podem reduzir simultaneamente osnos resultados uma vez que estes nos erros da medição da velocidade e dadevolverão a simultaneidade que posição das partículas; o que for feitonós introduzimos por definição no para reduzir o erro de uma das mediçõessistema de medição 23 . Esta teoria aumenta o erro da outra 26 . Esteveio revolucionar as nossas concepções princípio, e, portanto, a demonstraçãode espaço e de tempo. Não havendo da interferência estrutural do sujeitosimultaneidade universal, o tempo e o no objeto observado, tem implicaçõesespaço absolutos de Newton deixam de vulto. Por um lado, sendode existir. Dois acontecimentos estruturalmente limitado o rigor dosimultâneos num sistema de referência nosso conhecimento, só podemosnão são simultâneos noutro sistema de aspirar a resultados aproximados e porreferência. As leis da física e da geometria isso as leis da física são tão-sóassentam em medições locais. "Os probabilísticas. Por outro lado, ainstrumentos de medida, sejam relógios hipótese do determinismo mecanicista éou metros, não têm magnitudes inviabilizada uma vez que a totalidadeindependentes, ajustam-se ao campo do real não se reduz à soma das partesmétrico do espaço, a estrutura do qual em que a dividimos para observar ese manifesta mais claramente nos medir. Por último, a distinção sujeito/raios de luz" 24 . objeto é muito mais complexa do que àO caráter local das medições e, portanto, primeira vista pode parecer. A distinçãodo rigor do conhecimento que com base perde os seus contornos dicotômicos enelas se obtém, vai inspirar o surgimento assume a forma de um continuum.da segunda condição teórica da crise do O rigor da medição posto em causa pelaparadigma dominante, a mecânica mecânica quântica será ainda maisquântica. Se Einstein relativizou o rigor profundamente abalado se se questionar odas leis de Newton no domínio da rigor do veículo formal em que a mediçãoastrofísica, a mecânica quântica fê-lo é expressa, ou seja, o rigor da matemática.no domínio da microfísica. Heisenberg É isso o que sucede com as investigaçõese Bohr demonstram que não é possível de Godel e que por essa razão consideroobservar ou medir um objeto sem serem a terceira condição da crise dointerferir nele, sem o alterar, e a tal paradigma. O teorema da incompletudeponto que o objeto que sai de um (ou do não-completamento) e osprocesso de medição não é o mesmo que teoremas sobre a impossibilidade, emlá entrou. Como ilustra Wigner, "a certas circunstâncias, de encontrarmedição da curvatura do espaço causada dentro de um dado sistema formal apor uma partícula não pode ser levada prova da sua consistência vieram mostrara cabo sem criar novos campos que são que, mesmo seguindo à risca as regras dabilhões de vezes maiores que o campo lógica matemática, é possível formularsob investigação"25. A idéia de que não proposições indecidíveis, proposições queconhecemos do real senão o que nele se não podem demonstrar nem refutar,introduzimos, ou seja, que não sendo que uma dessas proposições éconhecemos do real senão a nossa precisamente a que postula o caráterintervenção nele, está bem expressa no não-contraditório do sistema 27 . Se as23 H. Reichenbach, From Copernicus to Einstein, Nova Iorque, Dover Publications, 1970, p. 60.24 H. Reichenbach, ob. cit., p. 68.25 E. Wigner, ob. cit., p. 7.26 W. Heisenberg, A Imagem da Natureza na Física Moderna. Lisboa, Livros do Brasil, s. d.; W. Heisenberg, Physics and Beyond. Londres, Allen and Unwin, 1971.27 O impacto dos teoremas de Godel na filosofia da ciência tem sido diversamente avaliado. Cf., por exemplo, J. Ladrière, "Les Limites de la Formalization ", in J. Piaget (org), Logique et Connaissance Scientifique. París, Gallimard, 1967, p. 312 e segs.; R. Jones, Physics as Metaphor. Nova Iorque, New American Library, 1982, p. 158; J. Parain-Vial, Philosophic des Sciences de la Nature. Tendances Nouvelles. Paris, Klincksieck, 1983, p. 52 e segs.; R. Thom, Parábolas e Catástrofes. Lisboa, D. Quixote, 1985, p. 36; J. Briggs e F. D. Peat, Looking Glass Universe. The Emerging Science of Wholeness. Londres, Fontana, 1985, p. 22.
  • 11. leis da natureza fundamentam o seu rigor segundo uma lógica de auto-organizaçãono rigor das formalizações matemáticas numa situação de não-equilíbrio. Aem que se expressam, as investigações situação de bifurcação, ou seja, o pontode Godel vêm demonstrar que o rigor da crítico em que a mínima flutuação dematemática carece ele próprio de energia pode conduzir a um novo estado,fundamento. A partir daqui é possível representa a potencialidade do sistemanão só questionar o rigor da matemática em ser atraído para um novo estado decomo também redefini-lo enquanto forma menor entropia. Deste modo ade rigor que se opõe a outras formas de irreversibilidade nos sistemas abertosrigor alternativo, uma forma de rigor cujas significa que estes são produto da suacondições de êxito na ciência moderna historiais.não podem continuar a ser concebidas A importância desta teoria está na novacomo naturais e óbvias. A própria filosofia concepção da matéria e da natureza queda matemática, sobretudo a que incide propõe, uma concepção dificilmentesobre a experiência matemática, tem compaginada com a que herdamos davindo a problematizar criativamente estes física clássica. Em vez da eternidade, atemas e reconhece hoje que o rigor história; em vez do determinismo, amatemático, como qualquer outra forma imprevisibilidade; em vez do mecanicismo,de rigor, assenta num critério de a interpenetração, a espontaneidade e aseletividade e que, como tal, tem um lado auto-organização; em vez daconstrutivo e um lado destrutivo. reversibilidade, a irreversibilidade e aA quarta condição teórica da crise do evolução; em vez da ordem, a desordem;paradigma newtoniano é constituída em vez da necessidade, a criatividade e opelos avanços do conhecimento nos acidente. A teoria de Prigogine recuperadomínios da microfísica, da química e inclusivamente conceitos aristotélicosda biologia nos últimos vinte anos. A tais como os conceitos de potencialidadetítulo de exemplo, menciono as e virtualidade que a revolução científicainvestigações do físico-químico Ilya do século XVI parecia ter atiradoPrigogine. A teoria das estruturas definitivamente para o lixo da história.dissipativas e o princípio da "ordematravés de flutuações" estabelecem que Mas a importância maior desta teoriaem sistemas abertos, ou seja, em está em que ela não é um fenômenosistemas que funcionam nas margens da isolado. Faz parte de um movimentoestabilidade, a evolução explica-se por convergente, pujante sobretudo a partirflutuações de energia que em da última década, que atravessa asdeterminados momentos, nunca várias ciências da natureza e até as .inteiramente previsíveis, desencadeiam ciências sociais, um movimento deespontaneamente reações que, por via vocação transdisciplinar que Jantschde mecanismos não-lineares, pressionam o designa por paradigma dasistema para além de um limite máximo auto-organização e que tem aflorações,de instabilidade e o conduzem a um entre outras, na teoria de Prigogine, nanovo estado macroscópico. Esta sinergética de Haken 29 , no conceito detransformação irreversível e hiperciclo e na teoria da origem da vidatermodinâmica é o resultado da de Eigen 30 , no conceito de autopoiesisinteração de processos microscópicos de Maturana e Varela 31 , na teoria das28 I. Prigogine el. Stengers, La Nouvelle Alliance. Metamorphose de la Science. Paris, Gallimard, 1979; I. Prigogine, From Being to Becoming. 5. Francisco, Freeman, 1980; I. Prigogine, "Time, Irreversibuity and Randomness", in E. Jantsch (orgj, The Evolutionary Vision. Boulder, Westview Press, p. 73 e segs.29 H. Han/en, Synergetics: an introduction. Heidelberg, Springer 19 77; H. Haken, "Synergetics - An Interdisciplinary Approach to Phenomena of Self-Organization", Geoforum 16 (1985), 205.30 M. Eigen e P. Schuster, The Hypercyde: a principle of natural self-organization. Heidelberg, Springer, 1979.31 H. R. Maturana e F. J. Varela, De Maquinas y Seres Vivos. Santiago do Chile, Editorial Universitária, 1973; H. R. Maturana e J. F. Varela, Autopoietic Systems. Urbana, Biological Computer Laboratory University of Illinois, 1975. Cf., também, F. Benseler, P. Hejl e W. Koch (orgs.), Autopoiesis. Communication and Society. The Theory of Autopoietic Systems in the Social Sciences. Frankfurt, Campus, 1980.
  • 12. catástrofes de Thorn 32 , na teoria da principais. Em primeiro lugar, são evolução de Jantsch33, na teoria da questionados o conceito de lei e o "ordem implicada" de David Bohm34 conceito de causalidade que lhe está ou na.teoria da matriz-S de Geoffrey associado. A formulação das leis da Chew e na filosofia do "bootstrap" natureza funda-se na idéia de que os que lhe subjaz35. Este movimento fenômenos observados independem de científico e as demais inovações teóricas tudo exceto de um conjunto que atrás defini como outras tantas razoavelmente pequeno de condições condições teóricas da crise do paradigma (as condições iniciais) cuja interferência dominante têm vindo a propiciar uma é observada e medida. Esta idéia, profunda reflexão epistemológica sobre reconhece-se hoje, obriga a separações o conhecimento científico, uma reflexão grosseiras entre os fenômenos, de tal modo rica e diversificada que, separações que, aliás, são sempre melhor do que qualquer outra provisórias e precárias uma vez que a circunstância, caracteriza exemplarmente verificação da não-interferência de a situação intelectual do tempo presente. certos fatores é sempre produto de Mas acima de tudo, a Esta reflexão apresenta duas facetas um conhecimento imperfeito, por simplicidade das leis sociológicas importantes. Em primeiro mais perfeito que seja. As leis têm constitui uma lugar, a reflexão é levada a cabo assim um caráter probabilístico, simplificação predominantemente pelo próprios aproximativo e provisório, bemarbitrária da realidade cientistas, por cientistas que adquiriram expresso no princípio da falsificabilidade que nos confina a um uma competência e um interesse de Popper. Mas acima de tudo, a horizonte mínimo filosóficos para problematizar a sua simplicidade das leis constitui uma para além do qual prática científica. Não é arriscado simplificação arbitrária da realidade queoutros conhecimentos dizer que nunca houve tantos nos confina a um horizonte mínimo da natureza, cientistas-filósofos como atualmente, e para além do qual outros conhecimentos provavelmente mais isso não se deve a uma evolução da natureza, provavelmente mais ricos ricos e com mais arbitrária do interesse intelectual. Depois e com mais interesse humano, ficam por interesse humano, da euforia cientista do século XIX e da conhecer. Na biologia, onde as ficam por conhecer. conseqüente aversão à reflexão filosófica, interações entre fenômenos e formas Na biologia, onde as bem simbolizada pelo positivismo, de auto-organização em totalidades interações entre chegamos a finais do século XX possuídos não-mecânicas são mais visíveis, mas fenômenos e pelo desejo quase desesperado de também nas demais ciências, a noção de formas de complementarmos o conhecimento das lei tem vindo a ser parcial e sucessivamente auto-organização em coisas com o conhecimento do substituída pelas noções de sistema, de totalidades conhecimento das coisas, isto é, com o estrutura, de modelo e, por último, pela não-mecânicas são conhecimento de nós próprios. A noção de processo. O declínio da mais visíveis, mas segunda faceta desta reflexão é que ela hegemonia da legalidade é concomitante também nas demais abrange questões que antes eram deixadas do declínio da hegemonia da ciências, a noção de aos sociólogos. A análise das condições causalidade. O questionamento da lei tem vindo a ser sociais, dos contextos culturais, dos causalidade nos tempos modernos vem parcial e modelos organizacionais da investigação de longe, pelo menos desde David Hume sucessivamente científica, antes acantonada no campo e do positivismo lógico. A reflexão substituída pelas separado e estanque da sociologia da crítica tem incidido tanto no problema noções de sistema, ciência, passou a ocupar papel de relevo ontológico da causalidade (quais as de estrutura, de na reflexão epistemológica. características do nexo causal?; essemodelo e, por último, nexo existe na realidade?) como sobre o pela noção de Do conteúdo desta reflexão respigarei, problema metodológico da causalidade processo. a título ilustrativo, alguns dos temas (quais os critérios de causalidade?; como 32 R. Thom, ob. cit., p. 85 e segs. 33 E. Jantsch, The Self-Organizing Universe: scientific and human implications of the emerging paradigm of evolution. Oxford, Pergamon, 1980; E. Jantsch. "Unifying Principles of Evolution" E. Jantsch (org), The Evolutionary Vision, cit., p. 83 e segs. 34 D. Bohm, Wholeness and the Implicate Order. Londres, Ark Paperbacks, 1984. 35 G. Chew, "Bootstraps scientific idea?", Science 167 (1968), p. 762 e segs;G. Chew, "Hardon bootstrap: triumph or frustration?", Physics Today, 23 (1970) p. 23 e segs; f. Capra, "Quark physics without quarks: a review of recent developments in S-matrix theory", American Journal of Physics, 47 (1979), p. 11 e segs.
  • 13. reconhecer um nexo causal ou testar rigor que, ao afirmar a personalidadeuma hipótese causal?). Hoje, a do cientista, destrói a personalidade darelativização do conceito de causa parte natureza. Nestes termos, o conhecimentosobretudo do reconhecimento de que o ganha em rigor o que perde em riquezalugar central que ele tem ocupado na e a retumbância dos êxitos da intervençãociência moderna se explica menos por tecnológica esconde os limites da nossarazões ontológicas ou metodológicas compreensão do mundo e reprime ado que por razões pragmáticas. O pergunta pelo valor humano do afãconceito de causalidade adequa-se bem a científico assim concebido. Esta perguntauma ciência que visa intervir no real está, no entanto, inscrita na própriae que mede o seu êxito pelo âmbito relação sujeito/objeto que presidedessa intervenção. Afinal, causa é tudo à ciência moderna, uma relação queaquilo sobre que se pode agir. Mesmo os interioriza o sujeito à custa dadefensores da causalidade, como Mario exteriorização do objeto, tornando-osBunge, reconhecem que ela é apenas estanques e incomunicáveis.uma das formas do determinismo e quepor isso tem um lugar limitado, ainda queinsubstituível, no conhecimento Os limites deste tipo de conhecimentocientífico36. A verdade é que, sob a são, assim, qualitativos, não sãoégide da biologia e também da microfísica, superáveis com maiores quantidades deo causalismo, enquanto categoria de investigação ou maior precisão dosinteligibilidade do real, tem vindo a instrumentos. Aliás, a própria precisãoperder terreno em favor do finalismo. quantitativa do conhecimento é estruturalmente limitada. Por exemplo,O segundo grande tema de reflexão no domínio das teorias da informação oepistemológica versa mais sobre o teorema de Brillouin demonstra que aconteúdo do conhecimento científico do informação não é gratuita 38 . Qualquerque sobre a sua forma. Sendo um observação efetuada sobre um sistemaconhecimento mínimo que fecha as físico aumenta a entropia do sistema noportas a muitos outros saberes sobre o laboratório, O rendimento de uma dadamundo, o conhecimento científico experiência deve assim ser definidomoderno é um conhecimento pela relação entre a informação obtidadesencantado e triste que transforma a e o aumento concomitante da entropia.natureza num autômato, ou, como Ora, segundo Brillouin, esse rendimentodiz Prigogine, num interlocutor é sempre inferior à unidade e só emterrivelmente estúpido 37 . Este casos raros é próximo dela. Nestesaviltamento da natureza acaba por termos, a experiência rigorosa éaviltar o próprio cientista na medida irrealizável pois que exigiria um dispendioem que reduz o suposto diálogo infinito de atividades humanas. Porexperimental ao exercício de uma último, a precisão é limitada porque, se éprepotência sobre a natureza. O rigor verdade que o conhecimento só sabecientífico, porque fundado no rigor avançar pela via da progressivamatemático, é um rigor que quantifica parcelização do objeto, beme que, ao quantificar, desqualifica, um representada nas crescentesrigor que, ao objetivar os fenômenos, especializações da ciência, éos objetualiza e os degrada, que, ao exatamente por essa via que melhor secaracterizar os fenômenos, os caricaturiza. confirma a irredutibilidade dasÉ, em suma e finalmente, uma forma de totalidades orgânicas ou inorgânicas às36 M. Bunge, Causality and Modem Science. Nova Iorque, Dover Publications, 3a edição, 1979, p. 353: "The causal principle is, in short, neither a panacea nor a myth; it is a general hypothesis subsumed under the universal principle of determinacy, and having an approximate validity in its proper domain". Em Portugal é justo salientar neste domínio a notável obra teórica de Armando Castro. Cf. Teoria do Conhecimento Científico, vols. I-IV, Porto Limiar, 1975, 1978, 1980, 1982; vol V, Porto, Afrontamento, 1987.37 I. Prigogine e I. Stengers, ob. cit., p. 13.38 L. Brillouin, La Science et la Theorie de lInformation. Paris, Masson, 1959. Cf., também, Parain-Vial, ob. cit., p. 122 e segs.
  • 14. partes que as constituem e, portanto, o "A ciência e a tecnologia têm vindo caráter distorsivo do conhecimento a revelar-se as duas faces de um processo centrado na observação destas últimas. histórico em que os interesses militares Os fatos observados têm vindo a e os interesses econômicos vão escapar ao regime de isolamento prisional convergindo até quase à indistinção"40. a que a ciência os sujeita. Os objetos têm No domínio da organização do trabalho fronteiras cada vez menos definidas; são científico, a industrialização da ciência constituídos por anéis que se entrecruzam produziu dois efeitos principais. Por um em teias complexas com os dos restantes lado, a comunidade científica objetos, a tal ponto que os objetos em estratificou-se, as relações de poder entre si são menos reais que as relações entre cientistas tornaram-se mais autoritárias eles. e desiguais e a esmagadora maioria dos cientistas foi submetida a um processo Ficou dito no início desta parte que a de proletarização no interior dos crise do paradigma da ciência moderna laboratórios e dos centros de se explica por condições teóricas, que investigação. Por outro lado, a acabei ilustrativamente de apontar, e investigação capital-intensiva (assente em por condições sociais. Estas últimas não instrumentos caros e raros) tornou podem ter aqui tratamento detalhado59. impossível o livre acesso ao equipamento, Referirei tão-só que, quaisquer que sejam o que contribuiu para o aprofundamento os limites estruturais de rigor científico, do fosso, em termos de desenvolvimento não restam dúvidas que o que a ciência científico e tecnológico, entre os países ganhou em rigor nos últimos quarenta centrais e os países periféricos. ou cinqüenta anos perdeu em capacidade de auto-regulação. As idéias da autonomia Pautada pelas condições teóricas e sociais da ciência e do desinteresse do que acabei de referir, a crise do conhecimento científico, que durante paradigma da ciência moderna não muito tempo constituíram a ideologia constitui um pântano cinzento de espontânea dos cientistas, colapsaram ceticismo ou de irracionalismo. É antes perante o fenômeno global da o retrato de uma família intelectual industrialização da ciência a partir numerosa e instável, mas também sobretudo das décadas de trinta e criativa e fascinante, no momento de se quarenta. Tanto nas sociedades despedir, com alguma dor, dos lugares capitalistas como nas sociedades conceituais, teóricos c epistemológicos, socialistas de Estado do leste europeu, a ancestrais e íntimos, mas não mais industrialização da ciência acarretou o convincentes e securizantes, uma compromisso desta com os centros de despedida em busca de uma vida melhor a poder econômico, social e político, os caminho doutras paragens onde oAs idéias da autonomia otimismo seja mais fundado e a quais passaram a ter um papel decisivo da ciência e do racionalidade mais plural e onde na definição das prioridades científicas. desinteresse do finalmente o conhecimento volte a ser conhecimento A industrialização da ciência uma aventura encantada. A científico, que manifestou-se tanto ao nível das caracterização da crise do paradigma durante muito aplicações da ciência como ao nível da dominante traz consigo o perfil do tempo constituíram a organização da investigação científica. paradigma emergente. É esse o perfil ideologia espontânea Quanto às aplicações, as bombas de que procurarei desenhar a seguir. dos cientistas, Hiroshima e Nagasaki foram um sinal colapsaram perante o trágico, a princípio visto como acidental O Paradigma Emergente fenômeno global da e fortuito, mas hoje, perante a catástrofe industrialização da ecológica e o perigo do holocausto A configuração do paradigma que se ciência a partir nuclear, cada vez mais visto como anuncia no horizonte só pode obter-se sobretudo das manifestação de um modo de produção por via especulativa. Uma especulação décadas de trinta e da ciência inclinado a transformar fundada nos sinais que a crise do quarenta. acidentes em ocorrências sistemáticas. paradigma atual emite mas nunca por 39 Sobre este tema cf. Boaventura de Sousa Santos, "Da Sociologia da Ciência à Política Científica", Revista Crítica de Ciências Sociais, l (1978), p. 11 e segs. 40 Boaventura de Sousa Santos, ob. cit., p. 26.
  • 15. eles determinada. Aliás, como diz René da matéria e da natureza a que contrapõe,Poirier e antes dele disseram Hegel e com pressuposta evidência, os conceitosHeidegger, "a coerência global das de ser humano, cultura e sociedade. Osnossas verdades físicas e metafísicas só avanços recentes da física e da biologiase conhece retrospectivamente"41. Por põem em causa a distinção entre oisso, ao falarmos do futuro, mesmo que orgânico e o inorgânico, entre seres vivosseja de um futuro que já nos sentimos e matéria inerte e mesmo entre o humanoa percorrer, o que dele dissermos é e o não-humano. As características dasempre o produto de uma síntese pessoal auto-organização, do metabolismo e daembebida na imaginação, no meu caso auto-reprodução, antes consideradasna imaginação sociológica. Não espanta, específicas dos seres vivos, são hojepois, que ainda que com alguns pontos atribuídas aos sistemas pré-celulares dede convergência, sejam diferentes as moléculas. E quer num quer noutrossínteses até agora apresentadas. Ilya reconhecem-se propriedades ePrigogine, por exemplo, fala da nova comportamentos antes consideradosaliança e da metamorfose da ciência42. específicos dos seres humanos e dasFritjof Capra fala da "nova física" e do relações sociais. A teoria das estruturasTaoísmo da física43, Eugene Wigner dissipativas de Prigogine, ou a teoriade "mudanças do segundo tipo"44, sinergética de Haken já citadas, masErich Jantsch do paradigma da auto- também a teoria da ordem implicadaorganização45, Daniel Bell da sociedade de David Bohm, a teoria da matriz-S depos-industrial46, Habermas da sociedade Geoffrey Chew e a filosofia docomunicativa47. Eu falarei, por agora, do "bootstrap" que lhe subjaz e ainda aparadigma de um conhecimento prudente teoria do encontro entre a físicapara uma vida decente. Com esta contemporânea e o misticismo orientaldesignação quero significar que a natureza de Fritjof Capra, todas elas de vocaçãoda revolução científica que atravessamos holística e algumas especificamenteé estruturalmente diferente da que orientadas para superar as inconsistênciasocorreu no século XVI. Sendo uma entre a mecânica quântica e a teoria darevolução científica que ocorre numa relatividade de Einstein, todas estassociedade ela própria revolucionada pela teorias introduzem na matéria osciência, o paradigma a emergir dela não conceitos de historicidade e de processo,pode ser apenas um paradigma científico de liberdade, de auto-determinação e até(o paradigma de um conhecimento de consciência que antes o homem e aprudente), tem de ser também um mulher tinham reservado para si. É como A distinção dicotômicaparadigma social (o paradigma de uma se o homem e a mulher se tivessem entre ciências naturaisvida decente). Apresentarei o lançado na aventura de conhecer os e ciências sociaisparadigma emergente através de um objetos mais distantes e diferentes de começa a deixarconjunto de teses seguidas de justificação. si próprios, para, uma vez aí chegados, de ter sentido e se descobrirem refletidos como num utilidade. Esta distinção espelho. Já no princípio da década de assenta numa concepçãoTodo o conhecimento sessenta e extrapolando a partir da mecanicista da matériacientífico-natural é científico-social mecânica quântica, Eugene Wigner e da natureza a que considerava que o inanimado não era uma contrapõe, comA distinção dicotômica entre ciências qualidade diferente mas apenas um caso- pressuposta evidência,naturais e ciências sociais começa a deixar limite, que a distinção corpo/alma deixara os conceitos de serde ter sentido e utilidade. Esta distinção de ter sentido e que a física e a psicologia humano, cultura e assenta numa concepção mecanicista acabariam por se fundir numa única sociedade.41 R. Poirier, prefácio a Parain-Vial, ob. cit.,p. 10.42 L Prigogine, obs. cits.43 F. Capra, The Tao of Physics, Nova Iorque, Bantam Books, (1976), 1984; F. Capra, The Turning Point. Nova Iorque, Bantam Books, 1983.44 E. Wigner, ob. cit., p.215 e segs.45 E. Jantsch, obs. cits.46 D. Bell, The Coming Crisis of Post-Industrial Society. Nova Iorque, Basic Books, 1976.47 J. Habermas, Theorie des Kommunikativen Handelns, 2 vols. Frankfut, Suhrkamp, 1982.
  • 16. ciência48. Hoje é possível ir muito além interdependentes sem, no entanto, da mecânica quântica. Enquanto esta estarem ligadas por nexo de causalidade. introduziu a consciência no ato do São antes duas projeções, mutuamente conhecimento, nós temos hoje de a envolventes, de uma realidade mais alta introduzir no próprio objeto do que não é nem matéria nem consciência. conhecimento, sabendo que, com isso, a O conhecimento do paradigma emergente distinção sujeito/objeto sofrerá uma tende assim a ser um conhecimento não- transformação radical. Num certo dualista, um conhecimento que se funda regresso ao pan-psiquismo leibniziano, na superação das distinções tão familiares começa hoje a reconhecer-se uma e óbvias que até há pouco considerávamos dimensão psíquica na natureza, "a mente insubstituíveis, tais como natureza/mais ampla" de que fala Bateson, da qual cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, a mente humana é apenas uma parte, uma mente/matéria, observador/observado,mente imanente ao sistema social global subjetivo/objetivo, coletivo/individual,e à ecologia planetária que alguns animal/pessoa. Este relativo colapso daschamam Deus49. Geoffrey Chew postula distinções dicotômicas repercute-se nasa existência de consciência na natureza disciplinas científicas que sobre elas secomo um elemento necessário à fundaram. Aliás, sempre houve ciênciasautoconsistência desta última e, se que se reconheceram mal nestasassim for, as futuras teorias da matéria distinções e tanto que se tiveram deterão de incluir o estudo da consciência fraturar internamente para se lheshumana. Convergentemente, assiste-se a adequarem minimamente. Refiro-me à um renovado interesse pelo "inconsciente antropologia, à geografia e também àcoletivo", imanente à humanidade no psicologia. Condensaram-se nelasseu todo, de Jung. Aliás, Capra pretende privilegiadamente as contradições daver as idéias de Jung — sobretudo a idéia separação ciências naturais/ciênciasda sincronicidade para explicar a relação sociais. Daí que, num período deentre a realidade exterior e a realidade transição entre paradigmas, sejainterior — confirmadas pelos recentes particularmente importante, do ponto deconceitos de interações locais e não- vista epistemológico, observar o que selocais na física das partículas 50 . Tal passa nessas ciências.como na sincronia jungiana, asinterações não-locais são instantâneas Não basta, porém, apontar a tendênciae não podem ser previstas em termos para a superação da distinção entrematemáticos precisos. Não são, pois, ciências naturais e ciências sociais, éproduzidas por causas locais e, quando preciso conhecer o sentido e conteúdomuito, poder-se-á falar da causalidade dessa superação. Recorrendo de novo àestatística. Capra vê em Jung uma das física, trata-se de saber qual será oalternativas teóricas às concepções "parâmetro de ordem", segundo Haken,mecanicistas de Freud e Bateson afirma ou o "atractor", segundo Prigogine,que enquanto Freud ampliou o dessa superação, se as ciências naturais,conceito de mente para dentro se as ciências sociais. Precisamente(permitindo-nos abranger o porque vivemos um estado desubsconsciente e o inconsciente) é turbulência, as vibrações do novonecessário agora ampliá-lo para fora paradigma repercutem-se desigualmente(reconhecendo a existência de fenômenos nas várias regiões do paradigma vigentementais para além dos individuais e e por isso os sinais do futuro sãohumanos). Semelhantemente, a teoria da ambíguos. Alguns lêem neles aordem implicada, que, segundo o seu emergência de um novo naturalismoautor, David Bohm, pode constituir uma centrado no privilegiamento dosbase comum tanto à teoria quântica como pressupostos biológicos doà teoria da relatividade, concebe a comportamento humano. Assimconsciência e a matéria como Konrad Lorenz ou a sociobiologia. Para48 E. Wigner, ob. cit., p. 271.49 G. Bateson, Mind and Nature, Londres, Fontana, 1985.50 Cf. também M. Bowen, "The Ecology of Knowledge: linking the natural and social sciences", Geoforum 16 (1985), p. 213 e segs.
  • 17. estes, a superação da dicotomia ciências nas últimas décadas prova-se, além donaturais/ciências sociais ocorre sob a mais, pela facilidade com que as teoriaségide das ciências naturais. Contra esta físico-naturais, uma vez formuladas noposição pode objetar-se que ela tem seu domínio específico, se aplicam oudo futuro a mesma concepção com que aspiram aplicar-se no domínio social.as ciências naturais autojustificam, no Assim, por exemplo, Peter Allen, um dosseio do paradigma dominante, o seu mais estreitos colaboradores de Prigogine,prestígio científico, social e político e, tem vindo a aplicar a teoria das estruturaspor isso, só vê do futuro aquilo em que dissipativas aos processos econômicos eele repete o presente. Se, pelo contrário, à evolução das cidades e das regiões52.numa reflexão mais aprofundada, E Haken salienta as potencialidades daatentarmos no conteúdo teórico das sinergética para explicar situaçõesciências que mais têm progredido no revolucionárias na sociedade53. É comoconhecimento da matéria, verificamos se o dito de Durkheim se tivesse invertidoque a emergente inteligibilidade da e em vez de serem os fenômenos sociaisnatureza é presidida por conceitos, a ser estudados como se fossemteorias, metáforas e analogias das fenômenos naturais, são os fenômenosciências sociais. Para não irmos mais naturais estudados como se fossemlonge, quer a teoria das estruturas fenômenos sociais.dissipativas de Prigogine quer a teoriasinergética de Haken explicam o O fato de a superação da dicotomiacomportamento das partículas através ciências naturais/ciências sociais ocorrerdos conceitos de revolução social, sob a égide das ciências sociais não é,violência, escravatura, dominação, contudo, suficiente para caracterizar odemocracia nuclear, todos eles modelo de conhecimento nooriginários das ciências sociais (da paradigma emergente. É que, comosociologia, da ciência política, da história, disse atrás, as próprias ciências sociaisetc.). O mesmo sucede, ainda no campo constituíram-se no século XIX segundoda física teórica, com as teorias de os modelos de racionalidade das ciênciasCapra sobre a relação entre física e naturais clássicas e, assim, a égide daspsicanálise, os padrões da matéria e os ciências sociais, afirmada sem mais, podepadrões da mente concebidos como revelar-se ilusória. Referi contudo que areflexos uns dos outros. Apesar de constituição das ciências sociais teveestas teorias diluírem as fronteiras lugar segundo duas vertentes: uma maisentre os objetos da física e os diretamente vinculada à epistemologiaobjetos da biologia, foi sem dúvida no e à metodologia positivistas das ciênciasdomínio desta última que os modelos naturais, e outra, de vocaçãoexplicativos das ciências sociais mais antipositivista, caldeada numa tradiçãose enraizaram nas décadas recentes. Os filosófica complexa, fenomenológica,conceitos de teleomorfismo, autopoiesis, interacionista, mito-simbólica,auto-organização, potencialidade hermenêutica, existencialista, pragmática,organizada, originalidade, individualidade, reivindicando a especificidade do estudohistoricidade, atribuem à natureza um da sociedade mas tendo de, para isso,comportamento humano. Lovelock, em pressupor uma concepção mecanicistalivro recente sobre as ciências da vida, da natureza. A pujança desta segundaafirma que os nossos corpos são vertente nas duas últimas décadas éconstituídos por cooperativas de indicativa de ser ela o modelo decélulas 51 . ciências sociais que, numa época de revolução científica, transporta a marcaQue os modelos explicativos das ciências pós-moderna do paradigma emergente.sociais vêm subjazendo ao Trata-se, como referi também, de umdesenvolvimento das ciências naturais modelo de transição, uma vez que define51 J. E. Lovelock, Gaia: a New Look at Life on Earth. Oxford, Oxford University Press.52 P. Allen, "The Evolutionary Paradigm of Dissipative Structures", in E. Jantsch (org), The Evolutionary Vision, cit., p. 25 e segs.53 H. Haken, "Synergetics — An Interdisciplinary Approach to Phenomena of Self-Organization", Geoforum 16 (1985), p. 205 e segs.
  • 18. a especificidade do humano por preferido a compreensão do mundo à contraposição a uma concepção da manipulação do mundo. Este núcleo natureza que as ciências naturais hoje genuíno foi, no entanto, envolvido num consideram ultrapassada, mas é um anel de preocupações mistificatórias (o modelo em que aquilo que o prende ao esoterismo nefelibata e a erudição passado é menos forte do que aquilo balofa). O ghetto a que as humanidades que o prende ao futuro. Em resumo, à se remeteram foi em parte uma estratégia medida que as ciências naturais se defensiva contra o assédio das ciências aproximam das ciências sociais estas sociais, armadas do viés cientista aproximam-se das humanidades. O triunfalmente brandido. Mas foi também sujeito, que a ciência moderna lançara o produto do esvaziamento que sofreram na diáspora do conhecimento irracional, em face da ocupação do seu espaço pelo regressa investido da tarefa de fazer modelo cientista. Foi assim nos estudos erguer sobre si uma nova ordem históricos com a história quantitativa, científica. nos estudos jurídicos com a ciência pura Que este é o sentido global da revolução do direito e a dogmática jurídica, nos científica que vivemos, é também estudos filológicos, literários e sugerido pela reconceptualização em curso lingüísticos com o estruturalismo. Há das condições epistemológicas e que recuperar esse núcleo genuíno e metodológicas do conhecimento científico pô-lo ao serviço de uma reflexão global social. Referi acima alguns dos obstáculos à sobre o mundo. O texto sobre que sempre cientificidade das ciências sociais, os se debruçou a filologia é uma das quais, segundo o paradigma ainda analogias matriciais com que se construirá dominante, seriam responsáveis pelo no paradigma emergente o conhecimento atraso das ciências sociais em relação sobre a sociedade e a natureza. às ciências naturais. Sucede contudo que, também como referi, o avanço do A concepção humanística das ciências conhecimento das ciências naturais e a sociais enquanto agente catalisador da reflexão epistemológica que ele tem progressiva fusão das ciências naturais e suscitado têm vindo a mostrar que os ciências sociais coloca a pessoa, enquanto obstáculos ao conhecimento científico autor e sujeito do mundo, no centro do da sociedade e da cultura são de fato conhecimento, mas, ao contrário das A concepção condições do conhecimento em geral, humanidades tradicionais, coloca o que humanística das tanto científico-social como científico- hoje designamos por natureza no centro ciências sociais natural. Ou seja, o que antes era a causa da pessoa. Não há natureza humana enquanto agente do maior atraso das ciências sociais é porque toda a natureza é humana. É pois catalisador da hoje o resultado do maior avanço das necessário descobrir categorias de progressiva fusão das ciências naturais. Daí também que a inteligibilidade globais, conceitos quentes ciências naturais e concepção de Thomas Kuhn sobre o que derretam as fronteiras em que aciências sociais coloca caráter pré-paradigmático (isto é, ciência moderna dividiu e encerrou a a pessoa, enquanto menos desenvolvido) das ciências realidade. A ciência pós-moderna é uma autor e sujeito do sociais54, que eu, aliás, subscrevi e ciência assumidamente analógica que mundo, no centro do reformulei noutros escritos55, tenha de conhece o que conhece pior através do conhecimento, mas, ser abandonada ou profundamente que conhece melhor. Já mencionei a ao contrário das revista. analogia textual e julgo que tanto a humanidades analogia lúdica como a analogia tradicionais, coloca A superação da dicotomia ciências dramática, como ainda a analogiao que hoje designamos naturais/ciências sociais tende assim a biográfica, figurarão entre as categorias por natureza no revalorizar os estudos humanísticos. Mas matriciais do paradigma emergente: o centro da pessoa. esta revalorização não ocorrerá sem que mundo, que hoje é natural ou social e Não há natureza as humanidades sejam, elas também, amanhã será ambos, visto como um humana porque toda profundamente transformadas. O que texto, como um jogo, como um palco a natureza é há nelas de futuro é o terem resistido à ou ainda como autobiografia. Clifford humana. separação sujeito/objeto e o terem Geertz refere algumas destas analogias 54 T. Kuhn, The Structureof Scientific Revolutions. Chicago, University of Chicago Press, 1962, passim. 55 Boaventura de Sousa Santos, ob. cit., p. 29 e segs.
  • 19. humanísticas e restringe o seu uso às especializado e que isso acarreta efeitos ciências sociais, enquanto eu as concebo negativos. Esses efeitos são sobretudo como categorias de inteligibilidade visíveis no domínio das ciências aplicadas. universais56. Não virá longe o dia em que As tecnologias preocupam-se hoje com o a física das partículas nos fale do jogo seu impacto destrutivo nos ecossistemas; entre as partículas, ou a biologia nos a medicina verifica que a fale do teatro molecular ou a astrofísica hiperespecialização do saber médico do texto celestial, ou ainda a química transformou o doente numa quadrícula da biografía das reações químicas. Cada sem sentido quando, de fato, nunca uma destas analogias desvela uma ponta estamos doentes senão em geral; a do mundo. A nudez total, que será farmácia descobre o lado destrutivo dos sempre a de quem se vê no que vê, medicamentos, tanto mais destrutivos resultará das configurações de analogias quanto mais específicos, e procura uma que soubermos imaginar: afinal, o jogo nova lógica de combinação química pressupõe um palco, o palco exercita-se atenta aos equilibrios orgânicos; o direito,com um texto e o texto é a autobiografia que reduziu a complexidade da vidado seu autor. Jogo, palco, texto ou jurídica à secura da dogmática,biografia, o mundo é comunicação e redescobre o mundo filosófico epor isso a lógica existencial da ciência sociológico em busca da prudênciapós-moderna é promover a "situação perdida; a economia, que legitimara ocomunicativa" tal como Habermas a reducionismo quantitativo e tecnocráticoconcebe. Nessa situação confluem com o pretendido êxito das previsõessentidos e constelações de sentido econômicas, é forçada a reconhecer,vindos, tal qual rios, das nascentes das perante a pobreza dos resultados, que anossas práticas locais e arrastando qualidade humana e sociológica dosconsigo as areias dos nossos percursos agentes e processos econômicos entramoleculares, individuais, comunitários, pela janela depois de ter sido expulsa pelasociais e planetários. Não se trata de porta; para grangear o reconhecimentouma amálgama de sentido (que não dos utentes (que, públicos ou privados,seria sentido mas ruído), mas antes de institucionais ou individuais, sempreinterações e de intertextualidades estiveram numa posição de poder emorganizadas em torno de projetos relação aos analisados) a psicologialocais de conhecimento indiviso. Daqui aplicada privilegiou instrumentosdecorre a segunda característica do expeditos e facilmente manuseáveis,conhecimento científico pós-moderno. como sejam os testes, que reduziram a riqueza da personalidade às exigênciasTodo o conhecimento é local e total funcionais de instituições unidimensionais.Na ciência moderna o conhecimento Os males desta parcelização doavança pela especialização. O conhecimento e do reducionismoconhecimento é tanto mais rigoroso arbitrário que transporta consigo sãoquanto mais restrito é o objeto sobre hoje reconhecidos, mas as medidasque incide. Nisso reside, aliás, o que hoje propostas para os corrigir acabam emse reconhece ser o dilema básico da geral por os reproduzir sob outra forma.ciência moderna: o seu rigor aumenta Criam-se novas disciplinas para resolverna proporção direta da arbitrariedade os problemas produzidos pelas antigas ecom que espartilha o real. Sendo um por essa via reproduz-se o mesmo modeloconhecimento disciplinar, tende a ser um de cientificidade. Apenas para dar umconhecimento disciplinado, isto é, segrega exemplo, o médico generalista, cujauma organização do saber orientada para ressurreição visou compensar apoliciar as fronteiras entre as disciplinas hiperespecialização médica, corre o riscoe reprimir os que as quiserem transpor. de ser convertido num especialista aoÉ hoje reconhecido que a excessiva lado dos demais. Este efeito perversoparcelização e disciplinarização do saber revela que não há solução para estecientífico faz do cientista um ignorante problema no seio do paradigma56 C. Geertz, Local Knowledge. Further Essays in Interpretative Anthropology. Nova Iorque, Basic Books, 1983, p. 19 e segs.
  • 20. dominante e precisamente porque este lugar, manter um espaço verde, construirúltimo é que constitui o verdadeiro um computador adequado às necessidadesproblema de que decorrem todos os locais, fazer baixar a taxa de mortalidadeoutros. infantil, inventar um novo instrumento musical, erradicar uma doença, etc., etc. A fragmentação pós-moderna não éNo paradigma emergente o disciplinar e sim temática. Os temas sãoconhecimento é total, tem como galerias por onde os conhecimentoshorizonte a totalidade universal de que progridem ao encontro uns dos outros.fala Wigner ou a totalidade indivisa de Ao contrário do que sucede no paradigmaque fala Bohm. Mas sendo total, é atual, o conhecimento avança à medidatambém local. Constitui-se em redor que o seu objeto se amplia, ampliaçãode temas que em dado momento são que, como a da árvore, procede pelaadotados por comunidades interpretativas diferenciação e pelo alastramento dasconcretas como projetos de vida.locais, raízes em busca de novas e mais variadassejam eles reconstituir a história de um
  • 21. Mas sendo local, o conhecimento por exemplo, fazer a análise filológicapós-moderno é também total porque de um traçado urbano, entrevistar umreconstitui os projetos cognitivos pássaro ou fazer observação participantelocais, salientando-lhes a sua entre computadores.exemplaridade, e por essa viatransforma-os em pensamento total A transgressão metodológica repercute-seilustrado. A ciência do paradigma nos estilos e gêneros literários queemergente, sendo, como deixei dito presidem à escrita científica. A ciênciaacima, assumidamente analógica, é pós-moderna não segue um estilotambém assumidamente tradutora, ou unidimensional, facilmente identificável;seja, incentiva os conceitos e as teorias o seu estilo é uma configuração de estilosdesenvolvidos localmente a emigrarem construída segundo o critério e apara outros lugares cognitivos, de modo imaginação pessoal do cientista. Aa poderem ser utilizados fora do seu tolerância discursiva é o outro lado dacontexto de origem. Este procedimento, pluralidade metodológica. Na fase deque é reprimido por uma forma de transição em que nos encontramos sãoconhecimento que concebe através da já visíveis fortes sinais deste processooperacionalização e generaliza através de fusão de estilos, de interpenetraçõesda quantidade e da uniformização, será entre cânones de escrita. Cliffordnormal numa forma de conhecimento Geertz estuda o fenômeno nas ciênciasque concebe através da imaginação e sociais e apresenta alguns exemplos:generaliza através da qualidade e da investigação filosófica parecendo críticaexemplaridade. literária no estudo de Sartre sobre Flaubert; fantasias barrocas sob a formaO conhecimento pós-moderno, sendo de observações empíricas (a obra detotal, não é determinístico, sendo local, Jorge Luis Borges); parábolasnão é descritivista. É um conhecimento apresentadas como investigaçõessobre as condições de possibilidade. As etnográficas (Carlos Castañeda); estudoscondições de possibilidade da ação epistemológicos sob a forma de textoshumana projetada no mundo a partir políticos (a obra Against Method dede um espaço-tempo local. Um Paul Feyerabend)58. E como Geertz,conhecimento deste tipo é relativamente podemos perguntar se Foucault éimetódico, constitui-se a partir de uma historiador, filósofo, sociólogo oupluralidade metodológica. Cada método cientista político. A composiçãoé uma linguagem e a realidade responde transdisciplinar e individualizada parana língua em que é perguntada. Só uma que estes exemplos apontam sugeremconstelação de métodos pode captar o um movimento no sentido da maiorsilêncio que persiste entre cada língua personalização do trabalho científico.que pergunta. Numa fase de revolução Isto conduz à terceira característica docientífica como a que atravessamos, conhecimento científico no paradigmaessa pluralidade de métodos só é emergente.possível mediante transgressãometodológica57. Sendo certo que cada Todo o conhecimento émétodo só esclarece o que lhe convém autoconhecimentoe quando esclarece fá-lo sem surpresasde maior, a inovação científica consiste A ciência moderna consagrou o homemem inventar contextos persuasivos que enquanto sujeito epistêmico masconduzam à aplicação dos métodos expulsou-o, tal como a Deus, enquantofora do seu habitat natural. Dado que a sujeito empírico. Um conhecimentoaproximação entre ciências naturais e objetivo, fatual e rigoroso não toleravaciências sociais se fará no sentido destas a interferência dos valores humanos ouúltimas, caberá especular se é possível, religiosos. Foi nesta base que se construiu57 Sobre o conceito de transgressão metodológica cf. Boaventura de Sousa Santos, "Science and Politics: doing research in Rios squatter settlements ", in R. Luckham (org.). Law and Social Enquiry :case studies of research. Uppsala, Scandinavian Institute of African Studies, 1981, p.275 e segs.58 C. Geertz, ob. cit., p. 20.
  • 22. a distinção dicotômica sujeito/objeto. sociais vieram a explodir no período No entanto, a distinção sujeito/objeto pós-estruturalista. nunca foi tão pacífica nas ciências sociais quanto nas ciências naturais e a isso No domínio das ciências físico-naturais, mesmo se atribuiu, como disseco maior o regresso do sujeito fora já anunciado atraso das primeiras em relação às pela mecânica quântica ao demonstrar segundas. Afinal, os objetos de estudo que o ato de conhecimento e o produto eram homens e mulheres como os que do conhecimento eram inseparáveis. Os os estudavam. A distinção epistemológica avanços da microfísica, da astrofísica e da entre sujeito e objeto teve de se articular biologia das últimas décadas restituíram metodológicamente com a distância à natureza as propriedades de que a empírica entre sujeito e objeto. Isto ciência moderna a expropriara. O mesmo se .torna evidente sé compararmos aprofundamento do conhecimento as estratégias metodológicas da conduzido segundo a matriz materialista antropologia cultural e social, por um veio a desembocar num conhecimento lado, e da sociologia, por outro. Na idealista. A nova dignidade da natureza antropologia, a distância empírica entre mais se consolidou quando se verificou o sujeito e o objeto era enorme. O que o desenvolvimento tecnológico sujeito era o antropólogo, o europeu desordenado nos tinha separado da civilizado, o objeto era o povo natureza em vez de nos unir a ela e que primitivo ou selvagem. Neste caso, a a exploração da natureza tinha sido o distinção sujeito/objeto aceitou ou veículo da exploração do homem. mesmo exigiu que a distância fosse O desconforto que a distinção sujeito/ relativamente encurtada através do uso de objeto sempre tinha provocado nas metodologias que obrigavam a uma ciências sociais propagava-se assim às maior intimidade com o objeto, ou ciências naturais. O sujeito regressava na seja, o trabalho de campo etnográfico, veste dó objeto. Aliás, os conceitos de a observação participante. Na sociologia, "mente imanente", "mente mais ampla" ao contrário, era pequena ou mesmo nula e "mente coletiva" de Bateson e outros a distância empírica entre o sujeito e constituem notícias dispersas de que o objeto: eram cientistas europeus a outro foragido da ciência moderna, Deus, estudar os seus concidadãos. Neste caso, pode estar em vias de regressar. a distinção epistemológica obrigou a que Regressará transfigurado, sem nada de esta distância fosse aumentada através do divino senão o nosso desejo de harmonia uso de metodologias de distanciamento: e comunhão com a natureza que nos por exemplo, o inquérito sociológico, rodeia e que, vemos agora, é o mais a análise documental e a entrevista íntimo de nós. Uma nova gnose está estruturada. em gestação. Parafraseando Clausewitz, podemos A antropologia, entre a descolonização afirmar hoje que o objeto é a do pós-guerra e a guerra do Vietnam, e a continuação do sujeito por outros meios. sociologia, a partir do final dos anos Por isso, todo o conhecimento científico sessenta, foram levadas a questionar este é autoconhecimento. A ciência não status quo metodológico e as noções de descobre, cria, e o ato criativo distância social em que ele assentava. protagonizado por cada cientista e pela De repente, os selvagens foram vistos comunidade científica no seu conjunto dentro de nós nas nossas sociedades e a tem de se conhecer intimamente antes sociologia passou a utilizar com mais que conheça o que com ele se conhece do No domínio das intensidade métodos anteriormente real. Os pressupostos metafísicos, osciências físico-naturais, quase monopolizados pela antropologia sistemas de crenças, os juízos de valor não o regresso do sujeito (a observação participante), ao mesmo estão antes nem depois da explicação fora já anunciado tempo que nesta última os objetos científica da natureza ou da sociedade.pela mecânica quântica passavam à ser concidadãos, membros São parte integrante dessa mesma ao demonstrar que o de pleno direito da Organização das explicação. A ciência moderna não é a ato de conhecimento Nações Unidas, e tinham de ser única explicação possível da realidade e o produto do estudados segundo métodos sociológicos. e não há sequer qualquer razão científica conhecimento eram As vibrações destes movimentos na para a considerar melhor que as inseparáveis. distinção sujeito/objeto nas ciências explicações alternativas da metafísica,
  • 23. da astrologia, da religião, da arte ou da autobiográfico e auto-referenciável dapoesia. A razão por que privilegiamos ciência é plenamente assumido. A ciênciahoje uma forma de conhecimento assente moderna legou-nos um conhecimentona previsão e no controle dos fenômenos funcional do mundo que alargounada tem de científico. É o juízo de extraordinariamente as nossasvalor. A explicação científica dos perspectivas de sobrevivência. No futurofenômenos é autojustificação da ciência não se tratará tanto de sobreviver como deenquanto fenômeno central da nossa saber viver. Para isso é necessária umacontemporaneidade. A ciência é, assim, outra forma de conhecimento, umautobiográfica. conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos unaA consagração da ciência moderna nestes pessoalmente ao que estudamos. Aúltimos quatrocentos anos naturalizou a incerteza do conhecimento, que aexplicação do real, a ponto de não o ciência moderna sempre viu comopodermos conceber senão nos termos limitação técnica destinada a sucessivaspor ela propostos. Sem as categorias superações, transforma-se na chave dode espaço, tempo, matéria e número — as entendimento de um mundo que maismetáforas cardeais da física moderna, do que controlado tem de sersegundo Roger Jones — sentimo-nos contemplado. Não se trata do espantoincapazes de pensar, mesmo sendo já medieval perante uma realidadehoje capazes de as pensarmos como hostil possuída do sopro da divindade,categorias convencionais, arbitrárias, mas antes da prudência perante ummetafóricas. Este processo de mundo que, apesar de domesticado, nosnaturalização foi lento e, no início, os mostra cada dia a precaridade do sentidoprotagonistas da revolução científica da nossa vida por mais segura que estejativeram a noção clara que a prova íntima ao nível da sobrevivência. A ciência dodas suas convicções pessoais precedia e paradigma emergente é maisdava coerência às provas externas que contemplativa do que ativa. A qualidadedesenvolviam. Descartes mostra melhor do conhecimento afere-se menos peloque ninguém o caráter autobiográfico que ele controla ou faz funcionar noda ciência. Diz, no Discurso do Método: mundo exterior do que pela satisfaçãoGostaria de mostrar, neste Discurso, pessoal que dá a quem a ele acede e oque caminhos segui; e de nele representar partilha.a minha vida como num quadro, paraque cada qual a possa julgar, e para que,sabedor das opiniões que sobre ele A dimensão estética da ciência temforam expendidas, um novo meio de me sido reconhecida por cientistas einstruir se venha juntar àqueles de que filósofos da ciência, de Poincaré acostumo servir-me"59. Hoje sabemos ou Kuhn, de Polanyi a Popper. Roger Jonessuspeitamos que as nossas trajetórias de considera que o sistema de Newton évida pessoais e coletivas (enquanto tanto uma obra de arte como urna obracomunidades científicas) e os valores, as de ciência60. A criação científica nocrenças e os prejuízos que transportam paradigma emergente assume-se comosão aprova íntima do nosso conhecimento, próxima da criação literária ou artística,sem o qual as nossas investigações porque à semelhança destas pretende quelaboratoriais ou de arquivo, os nossos a dimensão ativa da transformação docálculos ou os nossos trabalhos de campo real (o escultor a trabalhar a pedra) sejaconstituiriam um emaranhado de subordinada à contemplação do resultadodiligências absurdas sem fio nem pavio. (a obra de arte). Por sua vez, o discursoNo entanto, este saber, suspeitado ou científico aproximar-se-á cada vez maisinsuspeitado, corre hoje do discurso da crítica literária. De algumsubterraneamente, clandestinamente, nos modo, a crítica literária anuncia anão-ditos dos nosso trabalhos científicos. subversão da relação sujeito/objeto que o paradigma emergente pretendeNo paradigma emergente, o caráter operar. Na crítica literária, o objeto do59 Descartes, ob. cit., p. 6.60 R. Jones, ob. cit., p. 41.
  • 24. estudo, como se diria em termos Assim ressubjetivado, o conhecimentocientíficos, sempre foi, de fato, um científico ensina a viver e traduz-se numsupersujeito (um poeta, um saber prático. Daí a quarta e últimaromancista , um dramaturgo) face ao qual característica da ciência pós-moderna..o crítico não passa de um sujeito ouautor secundário. É certo que, em tempos Todo o conhecimento científico visarecentes, o crítico tem tentado sobressair constituir-se num novo senso comumno confronto com o escritor estudado aponto de se poder falar de uma batalha Já tive ocasião de referir que opela supremacia travada entre ambos. fundamento do estatuto privilegiado daMas porque se trata de uma batalha, a racionalidade científica não é em sirelação é entre dois sujeitos e não entre mesmo científico. Sabemos hoje que aum sujeito e um objeto. Cada um é a ciência moderna nos ensina pouco sobretradução do outro, ambos criadores de a nossa maneira de estar no mundo e quetextos, escritos em línguas distintas esse pouco, por mais que se amplie, seráambas conhecidas e necessárias para sempre exíguo porque a exigüidade estáaprender a gostar das palavras e do inscrita na forma de conhecimento quemundo. ele constitui. A ciência moderna produz
  • 25. conhecimentos e desconhecimentos. Se e coisas. O senso comum é indisciplinar efaz do dentista um ignorante imetódico; não resulta de uma práticaespecializado faz do cidadão comum um especificamente orientada para oignorante generalizado. produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso Ao contrário, a ciência pós-moderna comum aceita o que existe tal como sabe que nenhuma forma de conhecimento existe; privilegia a ação que não produza é, em si mesma, racional; só a rupturas significativas no real. Por configuração de todas elas é racional. último, o senso comum é retórico e Tenta, pois, dialogar com outras formas metafórico; não ensina, persuade. de conhecimento deixando-se penetrar por elas. A mais importante de todas é o À luz do que ficou dito atrás sobre o conhecimento do senso comum, o paradigma emergente, estas conhecimento vulgar e prático com que características do senso comum têm uma no quotidiano orientamos as nossas virtude antecipatória. Deixado a si ações e damos sentido à nossa vida. A mesmo, o senso comum é conservador ciência moderna construiu-se contra o e pode legitimar prepotências, mas senso comum que considerou superficial, interpenetrado do conhecimento ilusório e falso. A ciência pós-moderna científico pode estar na origem de uma procura reabilitar o senso comum por nova racionalidade. Uma racionalidade reconhecer nesta forma de conhecimento feita de racionalidades. Para que esta algumas virtualidades para enriquecer configuração de conhecimentos ocorra a nossa relação com o mundo. É certo é necessário inverter a ruptura que o conhecimento do senso comum epistemológica. Na ciência moderna a tende a ser um conhecimento mistificado ruptura epistemológica simboliza o e mistificador mas, apesar disso e apesar salto qualitativo do conhecimento do de ser conservador, tem uma dimensão senso comum para o conhecimentoutópica e libertadora que pode ser científico; na ciência pós-moderna o ampliada através do diálogo com o salto mais importante é o que é dadoconhecimento científico. Essa dimensão do conhecimento científico para oaflora em algumas das características do conhecimento do senso comum. Oconhecimento do senso comum. conhecimento científico pós-moderno só se realiza enquanto tal na medidaO senso comum faz coincidir causa e em que se converte em senso comum.intenção; subjaz-lhe uma visão do Só assim será uma ciência clara quemundo assente na ação e no princípio cumpre a sentença de Wittgenstein, da criatividade e da responsabilidade "tudo o que se deixa dizer deixa-seindividuais. O senso comum é prático e dizer claramente"61. Só assim serápragmático; reproduz-se colado às uma ciência transparente que faztrajetórias e às experiências de vida de justiça ao desejo de Nietzsche aoum dado grupo social e nessa dizer que "todo o comércio entre oscorrespondência se afirma fiável e homens visa que cada um possa ler na almasecurizante. O senso comum é do outro, e a língua comum é atransparente e evidente; desconfia da expressão sonora dessa almaopacidade dos objetivos tecnológicos e comum"62.do esoterismo do conhecimento que osprojeta em nome do princípio da A biência pós-moderna, aoigualdade do acesso ao discurso, à sensocomunizar-se, não despreza ocompetência cognitiva e à competência conhecimento que produz tecnologia,lingüística. O senso comum é superficial mas entende que, tal como oporque desdenha das estruturas que conhecimento se deve traduzir emestão para além da consciência, mas, por autoconhecimento, o desenvolvimentoisso mesmo, é exímio em captar a tecnológico deve traduzir-se emprofundidade horizontal das relações sabedoria de vida. É esta que assinalaconscientes entre pessoas e entre pessoas os marcos da prudência à nossa aventura61 L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus. Frankfurt, Suhrkamp, 1973, 4.116.62 Nietzsche, "Rhetorique et Langage"; Poetique, 5 (191), p. 139.
  • 26. científica. A prudência é a insegurança investigação que correspondamassumida e controlada. Tal como inteiramente ao paradigma emergenteDescartes, no limiar da ciência moderna, que aqui delineei. E isso é assimexerceu a dúvida em vez de a sofrer, nós, precisamente por estarmos numa faseno limiar da ciência pós-moderna, de transição. Duvidamos suficientementedevemos exercer a insegurança em vez do passado para imaginarmos o futuro,de a sofrer. mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Estamos divididos, fragmentados.Na fase de transição e de revolução Sabemo-nos a caminho mas nãocientífica, esta insegurança resulta ainda exatamente onde estamos na jornada.do fato de a nossa reflexão A condição epistemológica da ciênciaepistemológica ser muito mais avançada repercute-se na condição existencial dose sofisticada que a nossa prática científica. cientistas. Afinal, se todo o conhecimentoNenhum de nós pode neste momento é autoconhecimento, também todo ovisualizar projetos concretos de desconhecimento é autodesconhecimento.